Um Exemplo do Uso da História Oral como Técnica Complementar de Pesquisa em Administração Autoria: Mônica Carvalho Alves Cappelle, Ceyça Lia Palerosi Borges, Adílio Rene Almeida Miranda Resumo O objetivo do presente artigo foi mostrar como a história oral contribuiu para uma pesquisa realizada no campo da Administração. Para tanto, partiu da tese de doutorado de Cappelle (2006) em que foi utilizada como técnica complementar de pesquisa para estudar as relações de gênero e a subjetividade na Polícia Militar de Minas Gerais. Foi realizada uma pesquisa documental com análise qualitativa na referida tese que, por se tratar de um relatório previamente elaborado para outras finalidades se constituiu, para os fins deste artigo, em uma fonte de dados secundária. Segundo Alberti (2004a, p.23), a história oral é a proposta de pensar que o vivido é lembrado de forma diferente por cada indivíduo, que, ao contar algum acontecimento atribui diferentes configurações de importância ou de percepção. A produção deliberada do documento da história oral permite recuperar aquilo que não é encontrado em documentos de outra natureza. A história oral deve ser empregada em investigações sobre temas contemporâneos, eventos ocorridos em um passado não muito remoto que a memória dos seres humanos alcance, para que se possam entrevistar pessoas que dele participaram, seja como atores, ou como testemunhas (Alberti, 1990). É concebida como método ou como técnica de pesquisa, possui tipificações, especificidades e limitações. Existem três tipos de história oral, segundo Meihy (2002): a história de vida, a história temática e a tradição oral. A utilização da história oral temática na tese de Cappelle (2006) contribuiu principalmente para compreender como as policiais que atuavam no policiamento operacional se viam como membros de uma organização eminentemente masculina e também a forma como elas eram vistas pelos colegas policiais que trabalhavam com elas. Os objetivos acima relacionados não constituíram o objetivo central da pesquisa, portanto, a história oral foi usada como técnica complementar e não como método. O interesse da história oral utilizada residiu na emoção dos policiais que narraram e o objetivo central da coleta desses depoimentos não se esgotava na busca da verdade e sim na da experiência de cada um. A escolha das fontes das histórias foi feita em um grupo definido de policiais, mais seus superiores, pares e subordinados. A escolha se justificou pelas experiências comuns no trabalho operacional da Polícia Militar que vinculam esses sujeitos entre si. No contexto da pesquisa, optou-se pela história oral temática entre as modalidades de história oral. Isso por que a história oral temática é quase sempre utilizada como técnica de coleta de dados por ser a que mais permite articular diálogo com outros documentos e outras fontes de coleta. As histórias, em sua maioria, relataram acontecimentos reais com a presença de policiais mulheres: alguns fatos do início da participação das mulheres na corporação, sobre problemas de adaptação e preconceitos sofridos, mas muitos sobre a inserção, curiosidades e comportamentos heróicos das policiais. As presentes reflexões não são conclusivas e abrem caminho para novas discussões. Esse tipo de pesquisa insere-se entre aquelas que abordam os processos de produção do conhecimento sobre estudos organizacionais. 1 Introdução A relação e a interpretação entre os fatos vividos no passado e no presente permitem a compreensão de fenômenos que permeiam a contemporaneidade. Grandes transformações marcaram a história e os debates desses acontecimentos possibilitam novos caminhos de estudos em campos multidisciplinares. Segundo Ferreira (2002), a quebra da crença de que a história poderá ser resgatada apenas pelas produções deixadas pela própria história, permitiu a utilização da memória como fonte de resgate de informações acerca de eventos e episódios que compreendem elementos do passado. Caracterizada como método ou como técnica de pesquisa, a história oral tem sido utilizada por antropólogos, sociólogos, historiadores e demais cientistas sociais que optam pelo enfoque qualitativo, para atingir os objetivos de suas pesquisas. Por essa perspectiva, acredita-se que a oralidade precede a escrita, na história da humanidade. Surge, daí, a sua inegável importância e, consequentemente, as possibilidades que pode oferecer a pesquisas no campo das ciências sociais. No entanto, a investigação que se apóia na história oral ainda é pouco utilizada, principalmente na administração, pela alegação de ser pouco representativa para fins de generalização, pois prioriza a memória e a interpretação das pessoas sobre os fatos e não os fatos em si. A história oral embasa-se na realização de entrevistas com pessoas que presenciaram ou testemunharam acontecimentos ou conjunturas, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Em outras palavras, é um instrumento privilegiado por recuperar memórias e resgatar experiências de histórias vividas, trabalhando com o testemunho oral de indivíduos ligados por traços comuns. Como conseqüência, a história oral produz fontes de consulta para estudos, podendo ser reunidas em um acervo aberto a pesquisadores. Trata-se de estudar acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais, momentos, à luz de depoimentos de pessoas que deles participaram. A utilização da história oral fornece novas perspectivas para a pesquisa social aplicada porque possibilita conhecer diferentes versões e interpretações sobre determinado tema. Nesse caso, o trabalho investigativo leva em conta as trajetórias individuais, eventos ou processos. Os testemunhos são as fontes orais que permitem o resgate do indivíduo como sujeito no processo histórico e constituem-se como documentos gerados no momento da entrevista, legítimos tanto pelo seu valor informativo quanto pelo seu valor simbólico. É, portanto, uma técnica ou método que permite acessar instâncias mais subjetivas dos informantes. Buscando evidenciar a aplicação da história oral no campo da Administração, este artigo partiu da tese de doutorado de Cappelle (2006) em que foi utilizada como técnica complementar de pesquisa para estudar as relações de gênero e a subjetividade na Polícia Militar de Minas Gerais. O objetivo do presente artigo, portanto, foi o de mostrar como a história oral contribuiu para a pesquisa de Cappelle (2006). Para tanto, foi realizada uma pesquisa documental com análise qualitativa na referida tese (Cappelle, 2006). Por se tratar de um relatório previamente elaborado para outros fins, a tese analisada se constituiu, para os fins deste artigo, em uma fonte de dados secundária. Este artigo foi estruturado da seguinte forma: inicialmente, apresenta-se um histórico do surgimento e utilização da história oral no mundo e no Brasil. Em seguida, discutem-se alguns conceitos, características e críticas da técnica, destacando possibilidades e contribuições da história oral para o campo da Administração. Finalmente, utiliza-se a tese sobre a PMMG para evidenciar a importância da técnica de coleta de dados para pesquisas em Administração. 2 2 A história oral no mundo e no Brasil Segundo Queiroz (1988), Thompson (1992) e Becker (1993), a história oral foi utilizada desde o início do século 20 até a década de 50, por sociólogos como W.I. Thomas e F. Znaniecki1 e também por antropólogos, como forma de preservação da memória oral de tribos. Ferreira (1998) explica que a história oral desenvolveu-se, de forma significativa, em países da Europa ocidental e Estados Unidos, onde foram realizados vários encontros que agregavam, também, mesmo que com participação menor, pesquisadores da Ásia e América Latina. Como no resto do mundo, no Brasil, a técnica aparece em 1940, mas é deixada de lado pela preferência por dados coletados de forma objetiva e quantitativa, e tratados pela estatística. O desenvolvimento da estatística nos anos 40 relega o relato oral e a história de vida à penumbra, pela alegação de que se mostravam demasiadamente influenciados pela psique. Esse e outros efeitos da história oral, como a influência do pesquisador na pesquisa, passaram a ser vistos como vieses à pretensa objetividade científica. Meihy (2002) observa que, devido ao golpe de 64, o uso da história oral no Brasil se arrefeceu, já que gravações de experiências, opiniões ou depoimentos foram coibidas. Havia, na época, dificuldades de ordem política e econômica, ligadas ao regime ditatorial, que impediam a abertura às entrevistas, pois os indivíduos tinham medo de dar depoimentos. Com a flexibilização da ditadura, em 1975, inicia-se, no CPDOC/FGV-RJ, um programa pioneiro de história oral, que passou a captar depoimentos da elite política nacional e a disponibilizálos em um acervo (Meihy, 2002). Posteriormente, as rápidas transformações da sociedade brasileira favoreceram o uso da técnica como forma de deixar documentada a memória de eventos que poderiam se perder no tempo (Queiroz, 1988). Ferreira (1998) explica que foi somente a partir dos anos 90 que a história oral começou a ser utilizada com maior freqüência no Brasil por pesquisadores e professores, principalmente das áreas de história e ciências sociais. Segundo Ferreira e Amado (1998), um importante marco foi, também, a criação da Associação Brasileira de História Oral, em 1994. Para Alberti (2000, p.1) “a consolidação da história oral como metodologia de pesquisa se deve ao fato de a subjetividade e a experiência individual passarem a ser valorizadas como componentes importantes para a compreensão do passado”. Isso quer dizer que, a partir de relatos de indivíduos, memórias e elementos constituintes da subjetividade, podia-se tentar reconstruir acontecimentos, épocas e histórias, que, compreendidos em uma esfera coletiva, ajudavam a apreender fenômenos do tempo presente. Meihy (2002) afirma que, em geral, há três tipos principais de história oral: a história oral de vida (também conhecida por relato), a história oral temática (também chamada de depoimento) e a tradição oral. Na próxima seção serão apresentados conceitos e características da história oral, bem como um exemplo de tipologia que auxilia na compreensão das abordagens da história oral. 3 Conceitos, características e usos da história oral A história oral permite o diálogo entre diversas áreas no campo das ciências humanas, constituindo um esforço interdisciplinar de investigação (Camargo, 1984). É concebida como método ou como técnica de pesquisa, possui tipificações, especificidades e limitações. 3 3.1 História oral como método ou como técnica? Pereira (2000) aponta a história oral como um “lugar de encontro de várias disciplinas”, de diálogo entre história, sociologia, antropologia e educação, entre outras. É interessante notar que, entre os diversos autores que escrevem sobre história oral, ou que a utilizam, não há um consenso sobre o seu conceito. Alguns, como Verena (1990), entendem-na como uma metodologia de pesquisa (também assim a história oral é conceituada no site da Associação Brasileira de História Oral). Para outros, como Queiroz (1988), a história oral pode ser uma técnica de coleta de dados: História oral é um termo amplo que recobre uma quantidade de relatos a respeito de fatos não registrados por outro tipo de documentação, ou cuja documentação se quer completar. Colhida por meio de entrevistas de variada forma, ela registra a experiência de um só indivíduo (história de vida) ou de diversos indivíduos de uma mesma coletividade (tradição oral). (Queiroz, 1988, p.19) Tentar chegar a um consenso sobre se a história oral é um método ou uma técnica de pesquisa é pouco relevante, à medida que se acredita que o uso da história oral depende do objetivo da investigação que se quer realizar. Mesmo assim, cabe enunciar alguns conceitos de outros autores. Para Meihy (2002, p.13), “a história oral é um recurso moderno usado para a elaboração de documentos, arquivamento e estudos referentes à vida social de pessoas.” Nesse sentido, pode ser concebida como técnica. Já para Alberti (1990, p. 1-2), História oral é um método de pesquisa (histórica, antropológica, sociológica, etc.) que privilegia a realização de entrevistas com pessoas que participaram de, ou testemunharam, acontecimentos, conjunturas, visões de mundo, como forma de se aproximar do objeto de estudo. Como conseqüência, o método da história oral produz fontes de consulta (as entrevistas) para outros estudos, podendo ser reunidas em um acervo aberto a pesquisadores. Trata-se de estudar acontecimentos históricos, instituições, grupos sociais, categorias profissionais, movimentos, etc, à luz de depoimentos de pessoas que deles participaram ou os testemunharam. De acordo com a conceituação de Alberti (1990), a história oral deve ser entendida como um método, de forma mais ampla, que utiliza várias técnicas para a coleta e a análise de dados, mas que teria como objetivo a compreensão de acontecimentos históricos por meio das pessoas que os vivenciaram ou testemunharam. Esse método, portanto, é adequado para captar as diversas maneiras como cada um desses indivíduos apreenderam e interpretaram o acontecimento, e parte do pressuposto de que a realidade é uma construção social. Alberti (2004b) argumenta que ainda se ouvem comentários relacionados à história, apenas como acontecimentos ligados ao passado, evocados por meio de representações dos indivíduos, ou mesmo ligando os acontecimentos ao status de construções do passado, sem necessariamente estarem vinculados à realidade. Entretanto, na visão da autora, as representações criadas pelos indivíduos são, na verdade, fatos advindos de acontecimentos relacionados à realidade. Sendo assim, a história não é uma ficção, mas uma possibilidade de reconstruir fatos que aconteceram no passado e que estão vinculados a um determinado contexto e realidade. 3.2 Pressupostos teórico-metodológicos da história oral 4 Uma das peculiaridades da história oral, seja utilizada como método ou como técnica, segundo Alberti (2004a, p.23), é a proposta da “recuperação do vivido, concebido por quem viveu”. Isso significa pensar que o vivido é lembrado de forma diferente por cada indivíduo, que, ao contar algum acontecimento atribui diferentes configurações de importância ou de percepção. A produção deliberada do documento da história oral permite recuperar aquilo que não é encontrado em documentos de outra natureza. Nota-se, afinal, que a importância do testemunho oral pode estar concentrada não na veracidade de um evento, mas na forma como ele é lembrado, o que o torna psicologicamente verdadeiro (Thompson, 1992). Daí, pode-se perceber a intensa ligação da história oral com a biografia e memória. Cabe, assim, ao pesquisador, evocar a memória do entrevistado. A história oral geralmente deve ser empregada em investigações sobre temas contemporâneos, eventos ocorridos em um passado não muito remoto (aproximadamente 50 anos), isso é, que a memória dos seres humanos alcance, para que se possam entrevistar pessoas que dele participaram, seja como atores, ou como testemunhas (Alberti, 1990). Além disso, caso seja feita com idosos, a entrevista pode ser considerada mais fidedigna, pois os entrevistados, ao discorrerem sobre o passado, tendem a não se sentirem mais “ameaçados” por certos valores e obrigações sociais. Ferreira (1998) assinala que há possibilidades para o uso da história oral que vão além do meio acadêmico, como o caso da utilização em projetos comunitários, a fim de reconstruir temas como: memórias de bairros, militância política de trabalhadores sindicalizados, operários aposentados e outros. Já no contexto empresarial, Ferreira (1998) cita o caso de empresas que buscam registrar um memorial a partir de depoimentos orais, enfocando crescimento e mudanças ao longo dos anos, acontecimentos importantes e pessoas que marcaram a história da empresa. Outras possibilidades de uso da história oral, também podem ser citadas como: história do cotidiano, padrões de socialização e trajetórias, história de comunidades, biografias, história de experiências e registro de tradições culturais (Alberti, 2004b). Alberti (1997) acrescenta, ainda, que outras investigações podem ser apreendidas, tendo como base a fonte oral: imigração, memória, história política, gênero, relações de trabalho, categorias profissionais e história de instituições. Ferreira (1994) identifica duas linhas de trabalho da história oral predominantes nos dias atuais. A primeira usa os depoimentos orais para preencher possíveis lacunas da documentação escrita. Essa linha tem trabalhado com excluídos, com elites e com políticas públicas. Na segunda, o foco são as relações entre história e memória. Neste caso, as possíveis distorções da memória e a subjetividade deixam de ser um problema, pois o objetivo não é confirmar ou não os depoimentos obtidos. Ressalta-se, também, que, para alguns objetivos de investigação, o pesquisador não deve se ater apenas aos relatos orais colhidos nas entrevistas, sendo mais comum utilizá-los como complementação de outras fontes pesquisadas. Com isso, evita-se ficar “refém” somente da memória dos entrevistados. Thompson (1992) argumenta que o lembrar é um processo ativo e recíproco, ou seja, o pesquisador deve remeter o pesquisado a eventos passados, ajudando-o. Para isso, o pesquisador tem que conhecer os fatos e eventos mais comumente reportados por outras fontes já existentes, a fim de que possa ajudar o entrevistado. Fica claro que isso deve ser feito com extrema habilidade, para não enviesar ou intimidar o entrevistado. Na verdade, o entrevistador tem uma presença social, mesmo quando não emite ou demonstra nenhuma opinião explícita que possa influenciar o pesquisado (Thompson, 1992). 5 O autor salienta que, caso a relação social da entrevista se torne um vínculo social, aumentase o perigo de conformidade social nas respostas. Além disso, nem sempre maior intimidade gera menos inibição. Muitas vezes, as pessoas são mais sinceras com quem não conhecem, nem mantém nenhum tipo de relação. No que se refere ainda aos pressupostos da história oral, destaca-se a possibilidade de ela permitir que a própria pessoa conte o que considera relevante, ao mesmo tempo em que reflete sobre suas experiências. Essa perspectiva trata os indivíduos como capazes de serem construtores e participantes da história. É possível afirmar que o uso da história oral representa uma contribuição muito valiosa por auxiliar a desvendar aspectos que outros métodos de investigação não alcançam: aqueles que envolvem a subjetividade e a percepção do indivíduo sobre os fatos. Utilizando a oralidade, o indivíduo, de alguma forma, passa a ser sujeito, reconstruindo, muitas vezes, uma história já escrita de que participou, mas da qual não é considerado ator principal. De acordo com Thompson (1992, p. 137), “a história oral, transformando os objetos de estudo em sujeitos, contribui para uma história que não só é mais rica, mais viva e mais comovente, mas também é mais verdadeira". 3.3 Os tipos de história oral, sua utilização e as críticas Existem três tipos de história oral, segundo Meihy (2002): a história de vida, a história temática e a tradição oral. Para Queiroz (1988, p. 20), “a história de vida se define como o relato de um narrador sobre a sua existência através do tempo, tentando reconstituir os acontecimentos que vivenciou e transmitir a experiência que adquiriu”. Distingue-se da autobiografia, porque prescinde da presença do pesquisador, e da biografia, porque interessa ao pesquisador, com a história de vida, captar a coletividade através da narrativa. Já na biografia, ressaltam-se os aspectos marcantes da existência do indivíduo sobre quem se decidiu escrever. O quadro 1 resume as características de cada tipo. Quadro 1 – Tipologia da história oral História oral de vida - Sujeito primordial é o depoente. - Retrato oficial do depoente. - A verdade está na versão por ele apresentada. - Narrador é soberano para revelar ou ocultar casos, situações e pessoas. As perguntas das entrevistas devem ser amplas, sempre colocadas em grandes blocos, de forma indicativa dos grandes acontecimentos e na seqüência cronológica da trajetória do entrevistado. - O entrevistador não deve contestar o entrevistado Aspectos principais História oral temática - É a que mais se aproxima das soluções comuns e tradicionais de apresentação de trabalhos analíticos em diferentes áreas do conhecimento acadêmico. - A entrevista é mais um documento, compatível com a busca de esclarecimentos e, por isso, o grau de atuação do entrevistador como condutor dos trabalhos fica mais explícito. - Parte de um assunto específico e preestabelecido a objetividade é direta, pois a temática gira em torno de um esclarecimento ou opinião do entrevistador sobre algum evento definido. - Pretende-se que a história oral temática tenha alguma versão de um acontecimento que seja discutível ou contestatória. O entrevistador tem papel mais ativo, inclusive de contestação do Tradição oral - Trabalha com a permanência dos mitos e com a visão de mundo de comunidades que têm valores filtrados por estruturas mentais asseguradas em referências do passado remoto. - remete às questões de um passado longínquo que se manifestam pelo folclore e pela transmissão geracional. - Exemplos de estudos de tradição oral: destino dos deuses, semideuses, heróis, personagens históricos e malditos, origem de povos, calendários, festividades, rituais, cerimônias cíclicas. - O sujeito neste tipo de pesquisa é sempre mais coletivo e menos individual. - Seu uso é comum em estudos de 6 que o entrevistado diz. - Detalhes da vida pessoal do narrador interessam por revelarem aspectos úteis à informação temática central. tribos e clãs, que resistem à modernidade. - A entrevista deve abranger pessoas que sejam depositárias das tradições. Fonte: Adaptado de Meihy (2002). Alguns exemplos podem ser apresentados para facilitar se compreender a utilização de cada um desses tipos de história oral na administração. Sobre a história de vida, há o trabalho publicado por Corrêa e Carrieri (2007) acerca do assédio moral vivenciado por 12 mulheres gerentes de empresas privadas de Minas Gerais. Os autores solicitaram às gerentes que narrassem as suas trajetórias profissionais de forma a possibilitar a reconstrução de experiências profissionais e comportamentos de assédio moral em sua transição para cargos gerenciais. O uso da história de vida, segundo os autores, permitiu também perceber, como pano de fundo dos casos de assédio, as relações de poder presentes em todos os níveis hierárquicos e não somente nas relações de autoridade, como o assédio moral do tipo horizontal (por pares) e ascendente (por subordinados). A história oral de vida foi também utilizada no artigo de Carvalho e Fischer (2006) que investigou a condição de instituição total da Ordem Beneditina no Mosteiro de São Bento, na Bahia. Com uma pesquisa longitudinal, as autoras mapearam as mudanças ocorridas na gestão do Mosteiro entre 1994 e 2004 por meio do relato de vida com o objetivo de “apreender a subjetividade do outro a partir da subjetividade de cada pesquisador” (p.1). As autoras selecionaram duas pessoas-chave na hierarquia do Mosteiro para relatarem suas histórias de vida fora e dentro da Ordem e, a partir dos relatos individuais, buscaram extrair o dado social, tais como suas relações com membros de seu grupo, de sua camada social e da sociedade como todo. Delimitaram, também ações de articulação da atual Abadia entre instâncias institucionais e a tentativa de imprimir novos modelos de gestão interna e de atuação na cidade. A partir da análise dos relatos e documentos, Carvalho e Fischer (2006) apreenderam o Mosteiro como uma forma singular e paradoxal de instituição total. Meihy (2002) ainda lembra que há grupos que acreditam que a história oral deve gerar um documento escrito, a ser analisado em seguida. Outros entendem que a produção do texto escrito e o exame da entrevista podem ou não ocorrer. Arquivistas, por exemplo, valorizam a elaboração documental para uso posterior, esgotando, nesta fase, a função da história oral. Na Administração, a história oral pode ser útil em termos de análise dos seus estatutos, reconstrução dos organogramas, das funções existentes, das relações entre departamentos, do processo de tomada de decisão (Ferreira, 1994). Além disso, pode ser usada para o estudo da cultura organizacional, da ecologia organizacional, do empreendedorismo. Um bom exemplo do emprego da história oral em organizações pode ser encontrado em Dias2, onde o autor faz um estudo da Eletrobrás e da Petrobrás. Como acontece qualquer método de pesquisa, muitas vezes a história oral é criticada, e sua validade é posta em cheque. Alguns questionamentos mais freqüentemente feitos serão evidenciados na próxima seção. Por utilizar-se da entrevista como ferramenta de coleta de dados, a história oral acaba compartilhando das críticas feitas às entrevistas e os possíveis vieses que elas contêm. No entanto, Thompson (1992) argumenta que são escassas as discussões sobre os vieses inerentes à documentação escrita. Quanto às críticas levantadas, uma delas refere-se à subjetividade do pesquisador estar presente em um trabalho científico, que busca, na maioria das vezes, a objetividade. Entretanto, Alberti (2004 a, p.23) explica que “jamais poderemos apreender o real, tal como 7 ele é, apesar disso, insistimos em obter uma aproximação cada vez mais acurada dele, para aumentar qualitativa e quantitativamente nosso conhecimento”. Cabe lembrar que a história oral, conforme já dito, se vale da memória dos depoentes. Este também é um ponto que torna a metodologia vulnerável a críticas, no que diz respeito ao alcance da memória e à veracidade dos fatos. No entanto, cabe ao pesquisador tentar buscar outras fontes, que confirmem ou não o que foi dito. Alberti (1990) argumenta que não é mais fator negativo o fato de o depoente distorcer a realidade, ter falhas de memória ou errar em seu relato: o que importa agora é incluir tais ocorrências em uma reflexão mais ampla, perguntando-se por que razão o entrevistado concebe o passado de uma forma e não de outra e por que razão e em que medida a sua concepção difere (ou não) das de outros depoentes. (Verena, 1990, p. 3) Outra fonte de problemas da história oral é a questão da representatividade dos informantes. Ao se preocupar com técnicas de amostragem (aleatória, por exemplo), pode-se deixar de entrevistar informantes potencialmente melhores que os selecionados. Dessa forma, nem sempre usar de critérios de amostragem será a melhor estratégia a seguir. Mas esse tipo de polêmica se encontra também em outras técnicas qualitativas. Neste aspecto, talvez fosse melhor buscar mais validade da amostra do que fidedignidade (Thompson, 1992, p. 173). Em termos da entrevista, sabe-se que a padronização de perguntas é uma dificuldade a mais a ser enfrentada, principalmente em casos de história de vida, dada a singularidade da mesma. Esse aspecto, em histórias temáticas, é menos problemático, pois as entrevistas podem ser semi-estruturadas, já que o pesquisador previamente sabe com mais precisão o que deve ser buscado. De qualquer forma, a história oral pode trazer contribuições importantes ao conhecimento científico. Algumas vezes, ela é praticamente o único método a disposição do pesquisador, para recuperar e investigar eventos ainda não-documentados. Outras vezes, ajuda a descobrir outras faces, ainda desconhecidas, de uma realidade complexa. 4. O exemplo da pesquisa na PMMG: a história oral como técnica complementar A utilização da história oral temática na tese de Cappelle (2006) contribuiu principalmente para compreender como as policiais que atuavam no policiamento operacional se viam como membros de uma organização eminentemente masculina e também a forma como elas eram vistas pelos colegas policiais que trabalhavam com elas. A intenção era captar como a inserção de mulheres no policiamento operacional se manifestava nas subjetividades dos sujeitos da pesquisa (as policiais e seus colegas), por meio de seus relatos orais, porque, segundo Alberti (2004a, p.23), essa técnica proporciona a “recuperação do vivido, concebido por quem viveu”. Os objetivos relacionados acima não constituíram o objetivo central da pesquisa de Cappelle (2006), portanto, a história oral foi usada como técnica complementar e não como método. O método foi o estudo de caso. Meihy (2002) defende o uso da história oral, justificando que a suposta inexatidão, as interferências emocionais e os vieses variados a que os relatos estão sujeitos, são justamente o que interessa para o pesquisador. O interesse da história oral utilizada residiu na emoção dos policiais que narraram e o objetivo central da coleta desses depoimentos não se esgotava na busca da verdade e sim na da experiência de cada um. A importância pretendida com o testemunho oral dos entrevistados estava concentrada não na veracidade dos eventos, mas na forma como eles foram lembrados, o que 8 os tornou psicologicamente verdadeiros (THOMPSON, 1992). Para Meihy (2002), a importância da história oral consiste no fato de ela tratar de impressões, aspectos subjetivos, fantasias e visões de mundo que implicam interpretações diferentes. Na história oral, por meio da memória individual, se busca o conhecimento do fenômeno social, à medida que se acredita que toda memória individual tem índices sociais que a justificam. Assim, pela memória individual dos policiais entrevistados, buscou-se a compreensão das relações de gênero na polícia. A escolha das fontes das histórias foi feita em um grupo definido de pessoas, qual seja, as policiais, os seus superiores, pares e subordinados entrevistados. A escolha se justificou pelas experiências comuns no trabalho operacional da Polícia Militar que vinculam esses sujeitos entre si, num processo que Meihy (2002) chama de “identidade decorrente de memórias culturais” (p.68). Nesse processo, as experiências de cada um são autênticas e se equiparam às gerais mediante a construção de uma identidade comum. Cappelle (2006) preocupou-se, contudo, com a diversidade dos sujeitos ao se eleger tanto homens como mulheres policiais para os depoimentos, a fim de valorizar as experiências individuais mesmo que dentro da vida comunitária na organização. No contexto da pesquisa, optou-se pela história oral temática entre as modalidades de história oral (história oral de vida, história oral temática e tradição oral). Isso por que, segundo Meihy (2002), a história oral temática é quase sempre utilizada como técnica de coleta de dados por ser a que mais permite articular diálogo com outros documentos e outras fontes de coleta, além de partir de um assunto – ou tema - específico e previamente estabelecido para captar uma versão do tema elaborada pelo entrevistado. Nessa modalidade, detalhes da história pessoal do narrador apenas interessarão se revelarem aspectos úteis à informação temática central. Assim, no final de cada entrevista, Cappelle (2006) solicitou aos entrevistados que contassem uma história sobre a policial militar feminina. As histórias, em sua maioria, relataram acontecimentos reais com a presença de policiais mulheres: alguns fatos do início da participação das mulheres na corporação, sobre problemas de adaptação e preconceitos sofridos, mas muitos sobre a inserção, curiosidades e comportamentos heróicos das policiais. Cappelle (2006) optou por utilizar as histórias no início dos capítulos de apresentação dos resultados, como forma de introduzir o conteúdo dessas partes por meio de um relato de acontecimento elaborado pelos próprios sujeitos da pesquisa. Assim, utilizando a oralidade, os entrevistados passaram a ser sujeitos, reconstruindo uma história já escrita de que participaram – o ingresso de mulheres na polícia mas da qual não eram considerados atores principais (Meihy, 2002). Por exemplo, na introdução do capítulo denominado “A organização Polícia Militar e o policial militar ideal” (Cappelle, 2006, p. 220), foi utilizada a história a seguir. Eu vou tentar contar sobre uma Tenente que chegou aqui no quartel recentemente. Ela estava trabalhando numa subárea muito complicada e ela estava no meio de uma favela e fez a prisão de duas pessoas que estavam em atrito. E a comunidade se revoltou com a ação da Polícia Militar e foi tudo em cima dela e queriam tomar o preso dela. Aí, ela pegou o rádio e pediu prioridade, pediu reforço e o reforço chegou, um colega nosso que trabalha no Tático Móvel, que é de recobrimento. E aí, conseguiram organizar o tumulto e prenderam os elementos. Ela me lembra muito a pessoa que eu era quando eu entrei na Polícia Militar pela garra que ela tem e pela vontade de fazer as coisas diferente. É a imagem que ela me passa e essa história ficou por que a gente brinca muito com ela: ‘é, não agüentou o tranco sozinha, não! Teve que chamar o reforço, tinha que chamar os bombados!’ A gente 9 chama de ‘bombados’ [os policiais do operacional] por que eles são bastante musculosos e eles gostam de fazer musculação. (História contada pela Efem 15) No referido capítulo, a autora pretendia apresentar e discutir as estruturas objetivas e subjetivas do campo de poder que envolvia a Polícia Militar, fundamentadas em um perfil de policial que exaltava a masculinidade, a coragem e a força física como atributos principais. Pretendia ilustrar também uma organização militar baseada fortemente na hierarquia, na disciplina e no cumprimento de seu dever: garantir a Segurança Pública mediante a preservação da ordem pública. O perfil de policial e as características da organização estão no campo de estudo possível à história oral, pois se inserem em temas contemporâneos e eventos ocorridos em um passado não muito remoto (Thompson, 1992). Com a história usada como ilustração, Cappelle (2006) quis mostrar o perfil do policial que atuava no policiamento operacional como o de um profissional que impõe sua presença pela força física, considerada um capital simbólico muito valorizado ainda dentro da Polícia, principalmente, quando se trata do policiamento operacional. Apresentou também um distanciamento entre a Polícia Militar e a comunidade, que se revoltou contra a policial militar por ela ter tentado reprimir uma situação de atrito entre dois membros dessa comunidade. Nesse capítulo, as análises da autora trataram de temas como a socialização dos policiais militares que, de forma intensa busca afastá-los do mundo civil; o descontentamento da população com a polícia e os órgãos de segurança pública em geral; e a tradição de atitudes reativas e repressivas nas ações policiais, que depõem contra a PM perante a sociedade. Especificamente sobre relações de gênero vivenciadas pelas policiais, Cappelle (2006), por meio da história oral que citou, tratou do preconceito sofrido pelas policiais entre os próprios colegas. Nesse caso, a importância do testemunho oral estava concentrada não na veracidade de um evento, mas na forma como ele era lembrado na subjetividade das policiais, ou seja, o seu efeito psicológico (Thompson, 1992). Outro exemplo analisado foi o das histórias orais utilizadas para iniciar o capítulo intitulado “O ingresso de mulheres na Polícia Militar: entre a expectativa e a desconfiança” (Cappelle, 2006, p.248 a 250). Eu me lembro pelo fato de eu ter presenciado os primórdios da atuação feminina. Uma coisa que é marcante, que eu poderia lembrar, é as dificuldades que as mulheres tiveram nos primeiros anos do Curso de Formação de Oficiais, principalmente, quando tinha uma atividade anual lá, que era chamada de acampamento, em que a gente vai para o meio do mato com a tropa toda, fica lá acampado uma semana realizando atividades de incursão, de maneabilidade, de tiro, etc e tal, na área rural. E eu lembro que no acampamento de 1985, as mulheres ficaram em uma situação bastante complicada porque era a primeira vez que elas estariam ali atuando. E, com certeza, naqueles primórdios, o preconceito era muito grande e as mulheres ficavam durante a noite confinadas em uma barraca, porque eram só elas de mulheres o resto era tudo homens. Eram cinco, minha turma. Então, elas ficavam confinadas ali, porque de noite existiam várias atividades noturnas e acabava que elas não, geralmente, não participavam pela própria dificuldade de serem poucas. Essas atividades noturnas acabavam ficando mais a cargo dos homens. E elas ficavam lá, né! Já confinadas. Já reunidas em sua barraca, e eu lembro que algumas pessoas costumavam jogar algumas granadas de efeito moral, granadas de munição química, próximas à barraca delas ou até por baixo para poder inquietá-las e não deixar que elas dormissem, e tal. Isso às vezes acontecia. Isso era feito por oficiais, por cadetes do último ano que eram colegas. E a gente via a revolta que elas ficavam, de ter isso aí, mas ficavam só lá dentro. Aquelas granadas estourando e elas xingando lá de dentro, mas ninguém tinha coragem de 10 sair para ver o que estava acontecendo. Então, era uma situação assim, e a gente ficava do lado de fora rindo, né! Mas eram coisas que fazem parte da própria evolução. Mas ali, a dificuldade que elas sentiam, geralmente, é uma coisa bem complicada. No começo era... não tinha nenhum tipo de histórico ainda. Era a primeira vez que acontecia isso. Então, realmente, o preconceito era o maior possível. (História contada pelo Ecol 4) Neste capítulo, a autora usou a história para introduzir o tema do ingresso das primeiras mulheres na polícia, segundo ela, foi marcado por situações de descrédito e desconfiança, assim como de expectativa e admiração. Cappelle (2006) interpretou o treinamento relatado como um ritual de integração entre os policiais, que, no caso das policiais femininas, resultava mais na exclusão. Para mostrar outra face do ingresso das policiais, Cappelle (2006) retrata o clima de expectativa diante do desconhecido que a presença da polícia feminina causava na população com outra história. Uma história que aconteceu comigo quando eu estava estagiando em Divinópolis, na cidade de Formiga. Em Divinópolis, por que a sede fica lá. Aí, eu fui pra Formiga e lá não tinha policial feminina. Então, eu me senti um E.T. [extraterrestre] na cidade. Literalmente falando, por que as pessoas pediam pra tirar foto, me entrevistavam na rádio, o prefeito quis me conhecer... Então, eu achei muito legal. Teve gente que chegou perto de mim e falou: ‘ você é tão bonita. O que você está fazendo de polícia?’ Como se polícia fosse horrível. Teve gente que admirou, tirou retrato... Sabe aqueles desenhos que passam, assim, que alguém até bate o carro olhando para a mulher? Eu me sentia assim. Acontecia isso. Foi a história que eu conto. Lá não tinha policial feminina agora eu sei que já tem. Era uma novidade! Eu fui almoçar no restaurante e um homem ficou olhando pra mim e eu fiquei tão incomodada com o homem olhando que eu não consegui comer. Eu achei legal! (História contada pela Efem14) Cappelle (2006) quis mostrar que, como para Sansalieu (1997), a escolha da formação ou do emprego pode ser resultado de um percurso evolutivo ancorado tanto em experiências passadas, como nas oportunidades do mercado de trabalho presente e futuro. Por isso, usou duas histórias com significados antagônicos: uma sobre o preconceito que enfrentavam entre os colegas e outra sobre a admiração que as policiais, pioneiras nessa nova profissão no Brasil, causavam na população. A autora procurou, com a história oral temática, usar versões discutíveis e contestatórias do acontecimento (Meihy, 2002). Por ser uma carreira em construção, Cappelle (2006) interpretou que as histórias contadas descreviam as crenças e mitos que estavam sendo construídos em torno das primeiras policiais militares. Para captar o universo simbólico da organização, a história oral se mostrou como uma técnica interessante no sentido de enriquecer os dados disponíveis para a análise (Thompson, 1992). Além disso, permitiu o contato com informações que não seriam encontradas em documentos de outra natureza que não pela evocação da memória do entrevistado pelo pesquisador. Obviamente, o uso dessa técnica fica sujeito a limitações porque a subjetividade do pesquisador ao interpretar os dados se mostra presente, com o que se tem que ser cauteloso em um trabalho científico. Contudo, para investigações qualitativas que pretendem alcançar a subjetividade dos sujeitos, não há como evitar que isso aconteça. Considerações finais 11 Com este artigo, pretendeu-se refletir sobre as contribuições da história oral para a pesquisa qualitativa em administração, a partir da análise de uma tese de doutorado. Essas reflexões são parciais e não conclusivas, visto que se utilizou apenas um relatório de pesquisa, limitando comparações e generalizações acerca da utilidade da referida técnica. Entretanto, nem por isso o trabalho perde a sua relevância, já que ao analisar um relatório de pesquisa e apresentar isso para uma comunidade científica, por si só já amplia as possibilidades de discussão e de novas pesquisas similares e/ou complementares. O próprio documento utilizado para a análise neste artigo também possui limitações já conhecidas. Como uma característica própria ao método do estudo de caso (utilizado na tese analisada), a possibilidade de generalização da pesquisa fica limitada, pois se tratou de uma investigação em apenas uma região da Polícia Militar de apenas um estado: Minas Gerais. As limitações de tempo e a disponibilidade dos sujeitos da pesquisa também foram apontados por Cappelle (2006) como impossibilitadoras da ampliação do uso da história oral, que poderia ter sido melhor explorada pela contraposição das histórias entre os entrevistados ou pela realização de grupos de foco com eles a partir das histórias relatadas, por exemplo. Porém, existe uma contribuição específica da história oral temática na tese de Cappelle (2006) que foi a possibilidade de conhecer o vivido das diferentes formas como ele se manifestava nas memórias de cada entrevistado(a). Foi possibilitado também acessar as diferentes configurações de importância ou de percepção sobre o fenômeno pelos sujeitos. Assim, a multicausalidade relacionada às várias percepções sobre o ingresso de mulheres no contingente operacional da PMMG pode ser melhor captada do que se tivessem sido utilizadas apenas entrevistas, documentos formais e observação. Nesse ponto, ressalta-se o papel do pesquisador em conseguir evocar a memória dos entrevistados de forma que contribua para os objetivos pretendidos. No caso da história oral temática, isso fica facilitado porque ela parte de uma temática específica e preestabelecida e solicita uma opinião do entrevistado sobre o fenômeno em observação. Para continuar as pesquisas nesse campo, sugere-se a leitura e análise de outros trabalhos na área de estudos organizacionais que tenham usado a história oral em cada uma de suas três tipologias e também como método de pesquisa, não somente como técnica complementar. Esse tipo de pesquisa insere-se entre aquelas que abordam os processos de produção do conhecimento sobre estudos organizacionais. Apesar de a história oral ser um método/técnica relativamente tradicional nas pesquisas da área de Ciências Humanas, na Administração ainda pode ser bem mais explorado como estratégia de pesquisa. Principalmente, quando o problema de pesquisa estudado não é determinista e envolve dimensões subjetivas que precisam ser observadas, a subjetividade dos sujeitos e a sua consciência acerca do fenômeno em estudo. 1 Thomas, W. I.; Znaniecki, F. The Polish Peasant in Europe and America. New York : Dover, 2ª ed., 1927. Dias, José Luciano de Mattos. Registro oral, história e grandes organizações. In: Ferreira, Marieta de Moraes (coord.). Entre-vistas: abordagens e usos da história oral, Editora FGV, 1994, p. 98-123. 2 Referências Bibliográficas ALBERTI, V. História oral: a experiência do CPDOC. Rio de Janeiro: Contemporânea do Brasil, 1990. 12 ALBERTI, V. Obras coletivas de história oral. Tempo – Revista do Depto. de história da UFF, Rio de Janeiro, v.2, nº 3, p.206-219, jun, 1997. ALBERTI, V. Indivíduo e biografia na história oral. Rio de Janeiro: CPDOC, 2000. ALBERTI, V. Manual de história oral.. 2. ed. Rio de Janeiro: Editora Fundação Getulio Vargas, 2004 (a). v. 1. ALBERTI, V. 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