UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DA NATUREZA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA MESTRADO EM GEOGRAFIA ELIANE MARIA BARBOSA DE MENDONÇA AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE MEIO AMBIENTE E A QUESTÃO AMBIENTAL NOS LIVROS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA JOÃO PESSOA 2010 ELIANE MARIA BARBOSA DE MENDONÇA AS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS DE ALUNOS DO ENSINO FUNDAMENTAL SOBRE MEIO AMBIENTE E A QUESTÃO AMBIENTAL NOS LIVROS DIDÁTICOS DE GEOGRAFIA Dissertação apresentada como requisito para obtenção do título de Mestre em Geografia pelo Programa de Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Orientadora: Profª. Drª. Maria Adailza Martins de Albuquerque JOÃO PESSOA 2010 M539r Mendonça, Eliane Maria Barbosa de. As representações sociais de alunos do ensino fundamental sobre meio ambiente e a questão ambiental nos livros didáticos de geografia / Eliane Maria Barbosa de Mendonça. - - João Pessoa: [s.n.], 2010. 120 f. : il. Orientadora: Maria Adailza Martins de Albuquerque. Dissertação (Mestrado) – UFPB/CCEN. 1.Geografia. 2.Meio ambiente. 3.Representações sociais. 4.Livro didático. 5.Educação ambiental.. UFPB/BC CDU: 91(043) À minha família que sempre me incentivou a correr atrás dos meus ideais. DEDICO. AGRADECIMENTOS Sempre que damos mais um passo nessa longa caminhada que é a vida, nos deparamos com pessoas que se tornam verdadeiras molas propulsoras a nos dar força e impulsionar para frente. Agradeço a Deus, que no seu infinito amor sempre me deu forças para fazer esta caminhada. A Dadá, que nesta caminhada se mostrou muito mais que uma orientadora, sendo amiga, solidária, me incentivando nos momentos de desânimo. Meu sincero agradecimento pelo crescimento que me proporcionou com suas excelentes e ponderadas contribuições. À minha mãe Dolores, pelo amor e incentivo que sempre me deu e pelas inúmeras vezes em me ajudou. Ao meu esposo Expedito, que tanto me apoiou nessa caminhada e sendo tolerante nos meus momentos de stress. Aos meus filhos Bárbara e Bernard, presentes de Deus na minha vida. A minha irmã Edinha, sempre amiga e presente na minha vida. A minha amiga Ana Teresa, pela grande contribuição para este trabalho e por tantas vezes me dar a sua mão amiga. Ao querido Marco, apoio constante. Aos colegas e alunos da Escola Cônego João de Deus, pela ajuda que me deram para que este trabalho se realizasse. A todos os professores do Programa de Pós-Graduação em Geografia, da Universidade Federal da Paraíba, pela grande contribuição que deram para o meu crescimento acadêmico. A todos aqueles que, direta ou indiretamente, contribuíram para a realização deste trabalho. Se planejarmos para um ano, deveremos plantar cereais. Se planejarmos para décadas, deveremos plantar árvores. Se planejarmos para uma vida toda, deveremos educar o homem. (KUAN TZU) RESUMO Esta dissertação possui como foco de investigação as representações sociais de meio ambiente dos alunos do ensino fundamental e a abordagem dos livros didáticos sobre esta temática. Tivemos como grupo de pesquisa os alunos da Escola Cônego João de Deus. Ao procurarmos conhecer essas representações, encontramos subsídios para confrontar as ideias dos alunos com os conceitos trabalhados por nós (professores) e pelo livro didático de Geografia, o que nos possibilita levantar questões importantes para realizarmos uma reflexão sobre nossa prática educativa, assim como a averiguação da necessidade ou não de trabalhar na perspectiva da superação de visões distorcidas que esses alunos eventualmente apresentaram no decorrer da pesquisa, sem, contudo, esquecer que o ato de ensinar exige respeito aos saberes dos alunos. Para tanto, no decorrer do presente trabalho fizemos uma contextualização da problemática ambiental e procuramos apresentar os principais paradigmas que permeiam a discussão acadêmica em torno do conceito de meio ambiente. A partir daí, procuramos explicitar a relação entre a problemática ambiental e a necessidade de uma educação capaz de dar respostas às ameaças ambientais. As representações sociais dos alunos sobre meio ambiente foram trabalhadas por meio do questionário com perguntas abertas, das rodas de conversa e da produção de desenhos. Essas representações, após análise, foram classificadas como naturalistas e antropocêntricas e, depois, comparadas com a abordagem ambiental feita no livro didático. Observamos, com isso, que tanto as representações sociais, quanto o livro analisado, trouxeram um predomínio da visão naturalista de meio ambiente; no entanto, os alunos apresentaram uma percepção bastante crítica dos problemas ambientais, colocando-se enquanto sujeitos responsáveis pelos problemas ambientais, mas que podem, ao mudarem de atitudes e valores, trabalhar em benefício de um meio ambiente sustentável. Palavras-chave: Representações sociais. Meio ambiente. Livro didático. Geografia. Educação ambiental. ABSTRACT This thesis investigates social representations of the environment by primary school pupils and how school books approach this subject. Our research subjects consisted of the pupils of the Escola Cônego João de Deus. While seeking these representations, we met means of confronting the pupils ideas with the concepts proposed by us (teachers) and by the geography school books. This raises the opportunity of discussing important questions while reflecting upon our teaching practices, as well as a means of validating the need, or lack of it, of working under the perspective of overcoming distorted points of view these pupils have eventually presented throughout the research period, without forgetting that teaching demands respect for the pupils prior knowledge. In order to do so, we have performed a contextualization of the environmental problematic, and we have sought to present the main paradigms that permeate the academic discussion around the concept of environment. From this starting point on, we have tried to explain the relationship between the environment problematic and the need for an environment education able to give solutions to environmental threats. The pupils social representations of the environment were worked upon via open questions, as well as open discussions and the production of drawings. These representations were subject to analysis, then organized as naturalist and anthropocentric, then compared with the school books approach to the environment. We have remarked that in both the social representations and the books, the naturalistic point of view predominates. However, the pupils are very critical regarding environmental problems, positioning themselves as responsible for these problems who may, by changing their attitudes and values, work for the benefit of a sustainable environment. Keywords: Social representations. Environmental education. Environment. School book. Geography. LISTA DE ILUSTRAÇÕES Figura 1 Mapa da localização da Escola Cônego João de Deus .................................... 52 Figura 2 Imagem externa da escola ................................................................................ 53 Figura 3 Imagem interna da escola e dos alunos em atividade ...................................... 54 Figura 4 Momento lúdico no pátio interno da escola ........................................................ 55 Figura 5 Pátio interno da escola, sendo utilizado como palco para apresentação de peça teatral ........................................................................................................ 55 Figura 6 Alunos realizando estudo do meio na comunidade São Rafael, João Pessoa . 56 Figura 7 Idade dos alunos ............................................................................................... 57 Figura 8 Meios de informação ......................................................................................... 58 Figura 9 Profissão dos responsáveis ............................................................................... 59 Figura 10 Responsável pela educação dos alunos ........................................................... 60 Figura 11 Representações sociais de meio ambiente ....................................................... 64 Figura 12 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 65 Figura 13 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 66 Figura 14 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 67 Figura 15 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 68 Figura 16 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 69 Figura 17 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 70 Figura 18 Alunos do 6º ano da Escola Cônego João de Deus realizando estudo do meio na comunidade São Rafael, João Pessoa, às margens do rio Jaguaribe 71 Figura 19 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 72 Figura 20 Representação gráfica do meio ambiente ......................................................... 73 Figura 21 Representação gráfica dos problemas ambientais ........................................... 74 Figura 22 Representações sociais dos problemas ambientais ......................................... 75 Figura 23 Representação gráfica dos problemas ambientais ........................................... 77 Figura 24 Cordel representando os problemas ambientais ............................................... 78 Figura 25 Capa do cordel representando os problemas ambientais ................................. 79 Figura 26 Capa do livro didático do 6º ano ........................................................................ 92 Figura 27 Garoto escovando os dentes com a torneira aberta ......................................... 101 Figura 28 Mineração de ouro em serra Pelada, PA, 2004 ................................................ 105 Figura 29 Embarque de manganês no Amapá, 1999 ........................................................ 105 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Trajetórias da Educação Ambiental ........................................................ 40 Quadro 2 - Representações sociais de meio ambiente ............................................... 64 Quadro 3 – Representações sociais dos problemas ambientais ................................. 75 Quadro 4– Sumário do livro didático do 6º ano ........................................................... 93 LISTA DE SIGLAS Ibama - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais. MEC - Ministério da Educação e Cultura. MMA - Ministério do Meio Ambiente. NEA - Núcleo de Educação Ambiental. OEMA – Organização Estadual do Meio Ambiente ONG - Organização Não Governamental. ONU - Organização das Nações Unidas. PCN - Parâmetros Curriculares Nacionais. PIEA - Programa Internacional de Educação Ambiental. Pnuma - Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente. Pronea - Programa Nacional de Educação Ambiental. Sema - Secretaria Especial do Meio Ambiente. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ..................................................................................................... 14 CAPÍTULO 1 ........................................................................................................ MEIO AMBIENTE, UM CONCEITO EM (RE)CONSTRUÇÃO ............................ 1.1 Um breve histórico sobre a questão ambiental ........................................ 1.2 As variadas concepções de meio ambiente .............................................. 1.3 Trajetórias da Educação Ambiental ........................................................... 1.3.1 A Conferência de Estocolmo ................................................................ 1.3.2 Conferências Internacionais decorrentes de Estocolmo ...................... 1.3.3.A Conferência do Rio de Janeiro ......................................................... 1.4 O desenvolvimento da educação ambiental no Brasil ............................. 1.5 Representações de meio ambiente e educação ambiental ...................... 1.6 Representação social e meio ambiente ..................................................... 17 18 18 22 28 29 30 32 33 41 45 CAPÍTULO 2 ........................................................................................................ OS SUJEITOS E A PESQUISA ........................................................................... 2.1 A origem dos estudos em representações sociais .................................. 2.1.1 Moscovici e as representações sociais ................................................. 2.2 A opção pela representação social como referencial metodológico ...... 2.3 A escola e os arredores ............................................................................... 2.4 Os sujeitos da pesquisa .............................................................................. 2.5 Representações dos alunos sobre meio ambiente .................................. 46 47 47 48 50 51 56 61 CAPÍTULO 3 ........................................................................................................ 81 MEIO AMBIENTE: TEMA TRANSVERSAL E CONTEÚDO DO LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA ............................................................................... 82 3.1 O Meio Ambiente: transversal na Geografia ............................................. 82 3.2 O livro didático como objeto de análise .................................................... 87 3.2.1 Procedimentos de análise do livro didático ........................................... 89 3.2.2 Uma breve apreciação do livro didático de Geografia utilizado pelos alunos pesquisados ............................................................................................. 91 3.2.3 O meio ambiente no livro didático analisado ........................................ 94 3.2.4 As representações sociais dos alunos e o livro didático ....................... 106 3.3 As representações de meio ambiente como instrumento para a educação ambiental ........................................................................................... 109 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS .............................................................................. 114 REFERÊNCIAS .................................................................................................... 117 INTRODUÇÃO A questão ambiental apresenta-se revigorada no pensamento contemporâneo, e, a partir de novas abordagens, revela uma preocupação fundamental no que tange ao papel da ciência e da tecnologia na construção de novos conceitos e novos saberes que possam contribuir para uma mudança paradigmática do conhecimento. Entre essas mudanças, destacamos o resgate e a valorização da cultura como fornecedora de novos insights conceituais capazes de mostrar a importância do ambiente natural como elemento de realização social e de impulsionar ações mais justas dos homens entre si e com a natureza. No atual momento histórico, com o processo de urbanização cada vez mais acelerado, a capacidade de países subdesenvolvidos como o Brasil, de oferecer serviços essenciais à população, não acompanha o ritmo de seu crescimento populacional, tampouco apresenta soluções que possam equacionar os problemas sociais. Com isso, a educação básica passa a constituir-se num grande investimento social. Torna-se urgente, portanto, a busca de alternativas educacionais que propiciem aos educandos o desenvolvimento de uma percepção abrangente da questão ambiental, proporcionando-lhes a compreensão das inter-relações entre os diferentes aspectos que envolvem a realidade e, com isso, contribuir para a formação de cidadãos com direito a uma vida com qualidade. A teoria das representações sociais tem sido utilizada para o estudo de muitas questões contemporâneas por diversos pesquisadores que compreendem que os pontos comuns entre elas são as influências recebidas dos conhecimentos tradicionais, étnicos, populares e científicos, ou seja, elas são as visões de mundo e senso comum que diferentes indivíduos e grupos sociais possuem, de forma fragmentada e difusa. No que diz respeito à contemporaneidade dos conhecimentos relacionados ao meio ambiente, verifica-se que se encontra em plena construção, não existindo consenso sobre esse conceito na comunidade científica. Admitindo-se que o mesmo ocorra com a comunidade em geral, é evidente a necessidade de conhecer e trabalhar a partir das representações que as pessoas envolvidas no processo educativo têm a respeito da temática ambiental. Portanto, conhecer as representações dos alunos sobre as questões relativas ao ambiente poderá nos auxiliar a entender como eles as estão captando, interpretando e agindo em sua realidade próxima, já que essas representações são fundamentais na formação de opiniões e no estabelecimento de atitudes individuais e coletivas. No entanto, como são dinâmicas, é importante identificá-las, para que sejam trabalhadas tanto com os alunos, quanto nas relações escola-comunidade. Ao procurarmos conhecer essas representações, teremos subsídios para confrontar as ideias dos alunos com os conceitos trabalhados por nós professores e nos livros didáticos, possibilitando-nos levantar questões importantes para uma reflexão sobre nossa prática educativa, verificando a necessidade ou não de trabalhar na perspectiva da superação de visões distorcidas que esses alunos eventualmente possam ter, sem, no entanto, esquecer que o ato de ensinar exige respeito aos saberes dos educandos (FREIRE, 2002). Esses saberes – acumulados da vivência de diferentes experiências - não podem ser desconsiderados no processo de ensino-aprendizagem, uma vez que isso promoveria uma ruptura entre as relações vida e escola, aprendizado formal e informal. (FREIRE, 2002). Considerá-los, portanto, seria auxiliar o desencadeamento de um processo de reflexão a respeito da temática ambiental, demonstrando que fazemos parte de um todo e que o mundo não existe apenas em função de nós mesmos. Coletiva e significativamente, construiremos uma nova forma de compreender o ambiente e agir sobre ele. Isto não quer dizer que nós educadores não devamos compartilhar conhecimentos científicos, mas que precisamos ter consciência de que o educando, embora ainda não tenha se apropriado dessa forma de conhecimento, é um detentor de um saber que é fruto da cultura e da vida em sociedade, resultante das relações com pessoas que pensam, sentem e comunicam. Sendo assim, não são homens vazios e, portanto, não podem ser considerados depósitos de conteúdos (FREIRE, 2003). O presente trabalho investiga as representações sociais dos alunos do 6º ano da Escola Municipal de Ensino Fundamental Cônego João de Deus, referentes ao meio ambiente, buscando analisar a relação que estes alunos estabelecem entre essas representações e as questões ambientais presentes no seu cotidiano e as abordadas no livro didático de Geografia por eles utilizado. O primeiro capítulo faz uma contextualização da problemática ambiental no tempo e no espaço, apontando os principais objetivos e justificativas do estudo. Procura apresentar quais são os paradigmas que permeiam a discussão acadêmica em torno do conceito de meio ambiente. Partindo dessa premissa, o capítulo procura explicitar a relação entre a problemática ambiental e a necessidade de uma educação ambiental capaz de dar respostas às ameaças ambientais. Para isso, ressaltamos também, nesta parte do trabalho, a necessidade de investigarmos as representações sociais dos alunos acerca do meio ambiente e dos problemas ambientais. No segundo capítulo tecemos uma discussão teórica sobre representações sociais, destacando as origens e evolução dos estudos nesse campo de pesquisa, bem como a nossa opção pela representação como referencial metodológico. Apresentaremos também, nesse capítulo, a escola, os alunos e as suas representações sobre meio ambiente e os problemas ambientais. No terceiro capítulo, fazemos uma abordagem sobre o tema transversal meio ambiente e a Geografia, bem como, analisaremos o livro didático de Geografia utilizado pelos alunos pesquisados, focando a temática ambiental, objetivando após essa análise, confrontar as representações dos alunos com a abordagem da temática no livro didático. Por fim, discutimos a importância das representações sociais de meio ambiente como instrumento para a educação ambiental. ___________________________________________________________________ CAPITULO 1 MEIO AMBIENTE, UM CONCEITO EM (RE)CONSTRUÇÃO 1.1 Um breve histórico sobre a questão ambiental Nos últimos tempos, as discussões acerca dos problemas ambientais têm se intensificado, seja pela ampliação desses problemas ou pelo espaço que essa temática tem tomado na mídia internacional. Basta olharmos ao nosso redor para constatarmos problemas de toda ordem. Os veículos de comunicação de massa se encarregam de divulgar esses problemas que já se tornaram rotineiros, principalmente nas sociedades subdesenvolvidas, onde a violência de toda espécie, a fome, a miséria e o desrespeito aos direitos dos menos favorecidos parecem não chocar mais. Além do mais, constatamos que se por um lado há um avanço da tecnologia, por outro, a sociedade como um todo continua pobre, gerando miséria e deterioração. Sobre esse antagonismo agravado pela crescente globalização, Santos (2008) destaca que: De fato, para a maior parte da humanidade a globalização está se impondo como fábrica de perversidades. O desemprego crescente torna-se crônico. A pobreza aumenta e as classes médias perdem em qualidade de vida. O salário médio tende a baixar. A fome e desabrigo se generalizam em todos os continentes. Novas enfermidades como a SIDA se instalam e velhas doenças, supostamente extirpadas, fazem seu retorno triunfal. A mortalidade infantil permanece, a despeito dos progressos médicos e da informação. A educação de qualidade é cada vez mais inacessível. Alastram-se e aprofundam-se males espirituais e morais, como os egoísmos, os cinismos, a corrupção. A perversidade sistêmica que está na raiz dessa evolução negativa da humanidade tem relação com a adesão desenfreada aos comportamentos competitivos que atualmente caracterizam as ações hegemônicas. Todas essas mazelas são direta ou indiretamente imputáveis ao presente processo de globalização (SANTOS, 2008, p. 19 e 20). De acordo com Leff (2001), estamos vivendo uma crise ambiental e civilizatória, cuja superação exigirá mudanças profundas na concepção de natureza, de mundo, de sociedade, de poder, de qualidade de vida. Fala-se de uma nova ética, que estaria fundamentada na solidariedade, entre os seres humanos e entre esses com a natureza. Percebemos, então, que essas mudanças são de paradigmas, destacando que o novo paradigma, pressupõe necessariamente a compreensão de que o homem é parte da natureza e que tudo que a ela fizer estará fazendo a si mesmo. Para Gadotti (2000), o paradigma emergente tem como característica o fato de que o desenvolvimento social se dá pelo modo como são satisfeitas as necessidades humanas fundamentais e é tanto maior, a nível global, quanto mais diverso e menos desigual; a natureza é a segunda natureza da sociedade e, como tal, sem se confundir com ela, tampouco lhe é descontínua. Deve haver, portanto, um estrito equilíbrio entre as três formas principais de propriedade: a individual, a comunitária e a estatal, contrapondo-se ao paradigma ainda dominante que Gadotti (2000) classifica como capital expansionista. Esse paradigma possui como característica, o fato do desenvolvimento social ser medido essencialmente pelo crescimento econômico, que é contínuo e assentado na industrialização e no desenvolvimento tecnológico, que o autor afirma serem virtualmente infinitos. A descontinuidade entre natureza e sociedade é total. Nessa visão paradigmática tradicional, vinculada ao processo de produção capitalista, considera-se o homem e a natureza como polos excludentes, concebendo a natureza como objeto, fonte ilimitada de recursos à disposição do homem. Com base nessa premissa desenvolveram-se práticas apoiadas no processo de industrialização, em que a acumulação se realiza por meio da exploração intensa dos recursos naturais e da mão de obra, com efeitos perversos para a natureza e para uma grande parcela dos homens, pois desde o início acreditou-se que o crescimento econômico não tinha limites e que o desenvolvimento significava dominar a natureza e os homens, apesar dos alertas dados por autores como Élisée Reclus (1985), que ainda no século XIX apontava para problemas ambientais decorrentes do modo de produção que se ampliavam para todo o planeta. Bernardes e Ferreira (2003) ressaltam que a dialética homem/natureza está na base do processo de desenvolvimento das sociedades humanas e que, pelo trabalho, o homem modifica as formas das matérias naturais, de modo a satisfazer suas necessidades. Essa interação homem/natureza mediada por instrumentos de trabalho levou o homem a se sentir soberano sobre a Terra. O desenvolvimento intelectual permitiu-lhe criar não só instrumentos com materiais existentes na natureza, mas também criar materiais não existentes na natureza e com eles atender às suas necessidades e desejos. A sociedade industrial provocou sérios desastres ambientais, com consequências muitas vezes irreversíveis e o marco dessa destruição ocorre principalmente a partir da segunda metade do século XX, logo após a Segunda Guerra Mundial, quando houve uma considerável expansão de empresas multinacionais para a periferia do mundo capitalista, acarretando um aumento de consumo e consequente utilização de recursos naturais como matéria-prima para produção de mercadorias. A partir dos anos de 1970 verificou-se acelerado crescimento oriundo do avanço da tecnologia, ocasionando mudanças profundas no meio ambiente. Por sua vez, a sociedade, cada vez mais industrializada, contribuiu para um aprofundamento na degradação ambiental. Junto a esses fatores, ampliou-se também o processo de urbanização, que antes era concentrado nos países desenvolvidos, e nesse período ramificou-se, de forma considerável, para a periferia do mundo capitalista. A sociedade urbana, consumidora em potencial, aglomerada em cidades que crescem a um ritmo intenso, passa a conviver com problemas relacionados ao excesso de lixo, falta de saneamento básico, poluição atmosférica, entre outras questões não menos graves que afetam o meio ambiente em geral. Como já dito anteriormente, a concepção que se tinha até então era da natureza como objeto, fonte ilimitada de recursos à disposição do homem, pois se acreditava que o desenvolvimento, econômico ou tecnológico, não tinha limites. Foi nesse período de acelerado crescimento, já citado anteriormente, que se percebeu que os recursos naturais são esgotáveis e que o crescimento sem limites começava a se revelar insustentável. Levantou-se, então, uma crescente preocupação com as questões ambientais, fazendo surgir movimentos ambientalistas para combater a crescente destruição do meio ambiente. Muitos desses grupos tiveram suas origens nos movimentos sociais pacifistas da década de 1960, os quais se opunham a um mundo turbulento, ameaçador e de corrida armamentista desenfreada. Levando-se em conta seu objetivo, esses grupos logo incorporam em seu ideário a questão ecológica, dando origem às ONGs (Organizações Não Governamentais), cujo ideal é o combate à destruição do meio ambiente e a luta em defesa dos direitos de segmentos específicos da população, como mulheres, minorias raciais, bem como de direitos políticos, entre outros. Vale salientar, apenas, a título de informação, posto que essa discussão não esteja em pauta no nosso trabalho, que parte dessas ONGs se aproveita da temática como meio de obter recursos financeiros oriundos do setor público em benefício próprio. No que tange especificamente à temática de que aqui tratamos, podemos destacar que muitas dessas ONGs assumem o papel de pressionar o poder público e a iniciativa privada para adotarem medidas que evitem ou ao menos minimizem as consequências dos impactos socioambientais. Esses movimentos ambientalistas, segundo Leff (2001): Não emergem numa arena política deserta. Seus propósitos convergem e se somam aos de muitas causas populares e movimentos sociais que surgem em resposta à administração pública setorizada, tecnocrática e antidemocrática, e a regimes políticos centralizados e totalitários. Abriu-se, assim, a busca de novos espaços de autonomia cultural e participação democrática nas decisões e na gestão dos processos que determinam as condições de vida de diferentes grupos sociais, onde se plasmam suas aspirações, desejos e demandas (LEFF, 2001, p. 102). Essas demandas, ainda segundo Leff (2001), questionam as práticas ideológicas, administrativas, econômicas e políticas prevalecentes. Assim, o ambientalismo é um movimento multidimencional que questiona os modos de produção, os estilos de vida e os critérios de produção e aplicação dos conhecimentos no processo de desenvolvimento. O ambientalismo abre, assim, para um novo projeto de civilização, orientando para a construção de uma nova racionalidade social e produtiva, como afirma Leff (2001): O ambientalismo introduz valores na ação social e na organização política; gera novas formas de participação, estratégias de mudança social e relações de poder. Os movimentos ambientalistas surgem mais como consciência viva e criadora do que como uma resistência cega. Mas, ainda que os princípios do ambientalismo introduzam novas motivações, objetivos e perspectivas de mudança social no campo político, as próprias circunstâncias nas quais se manifesta a problemática ambiental obstaculizam a tradução desta consciência crítica em estratégias de poder eficazes e vias claras para transitar para uma racionalidade ambiental (LEFF,2001, p. 106). Nesse contexto, o saber ambiental emergente traz à tona um novo paradigma do conhecimento que, pela complexidade das inter-relações que ocorrem no meio ambiente, estará sempre em construção. Uma construção que ao contrário de privilegiar a racionalidade econômica, valoriza o homem como um ser emocional, humano e social; compreende a natureza como fonte de vida que precisa ser valorizada e respeitada dentro dos seus limites e capacidades. Ou seja, um paradigma que reinvente o mundo pautado nas relações de respeito entre os homens e destes com a natureza. Essa harmonia dos seres humanos entre si e com a natureza é essencial para a continuidade da vida no planeta. A esse respeito, Leff (2001) acrescenta que: Deste modo a racionalidade ambiental se funda numa nova ética que se manifesta em comportamentos humanos em harmonia com a natureza; em princípios de uma vida democrática e em valores culturais que dão sentido à existência humana. Estes se traduzem num conjunto de práticas sociais que transformam as estruturas do poder associadas à ordem econômica estabelecida, mobilizando um potencial ambiental para a construção de uma racionalidade social alternativa (LEFF,2001, p. 85). Essas mudanças paradigmáticas solicitam um saber a ser incorporado em uma nova educação que aponte uma compreensão da totalidade do mundo, a partir de uma visão crítica e transformadora da sociedade. Uma educação que valoriza a dimensão afetiva do humano, que respeita a diversidade cultural, natural e social, mas que procura direcionar toda essa diversidade para a unidade da vida, ou seja, uma educação ambiental. 1.2 As variadas concepções de meio ambiente Como apontado em relatório do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (IBAMA, 1994), o meio ambiente apresenta o conjunto de componentes naturais e sociais e suas interações em um espaço e tempo determinados. Assim, a constituição do conceito de meio ambiente deu-se historicamente pela passagem de uma visão, que o considerou apenas sob seus aspectos biológicos e físicos, para uma visão mais ampla em que os aspectos econômicos e socioculturais são essenciais para explicar a realidade que correlaciona todos os diferentes aspectos. Dessa forma, com uma associação também referente à dinâmica das interações sociedade e natureza e suas consequências no espaço onde há vida humana, o meio ambiente é gerado e construído ao longo do processo histórico de ocupação e formação do espaço pela sociedade. Portanto, a caracterização de uma realidade ambiental deve necessariamente estar contextualizada num espaço e tempo, sendo resultado do processo histórico-cultural das relações entre sociedade e natureza. A Conferência de Tibilisi-Unesco, considerou meio ambiente como “o conjunto de sistemas naturais e sociais em que vivem o homem e os demais organismos e de onde obtêm sua subsistência”, ressaltando o fato de que os problemas ambientais são, consequentemente, não só derivados do aproveitamento dos recursos naturais e da sua contaminação, mas também do próprio subdesenvolvimento. Ainda sobre o conceito de meio ambiente, Pierre George (1984) acrescenta: O meio ambiente é, ao mesmo tempo, um meio e um sistema de relações (...). O meio ambiente é este conjunto de dados fixos e de equilíbrio de forças concorrentes que condicionam a vida de um grupo biológico, que comporta, ele próprio, simbioses e parasitoses, que entram na combinação dos equilíbrios. (...) Reveste-se de uma carga de elementos sociológicos quando se faz intervir, na noção de meio, o conjunto humano no qual está mergulhado o indivíduo, de elementos econômicos e tecnológicos se se tomar em consideração um nível de equipamento, de oferta de meios de acesso ao consumo, de produtos, de quadros materiais de existência, de instrumentos, transportes, de trabalho, de comunicação (GEORGE, 1984, p. 9). Analisando o desenvolvimento do conceito de meio ambiente, observamos o envolvimento crescente das atividades humanas. No entanto, percebemos que ele continua fortemente ligado a uma concepção naturalista, sendo que o homem socialmente organizado parece se constituir mais como um fator que elemento do ambiente. De maneira geral, e observando-se tanto o senso comum como o debate acadêmico, a impressão geral que se tem é de que a abordagem sobre o meio ambiente está diretamente relacionada à natureza, onde os elementos do quadro natural estão hierarquicamente em posição mais importante e sem os quais, não haveria a possibilidade da compreensão ambiental da realidade. Suertegaray (2001), ao discutir os conceitos que, segundo ela, são balizadores da Geografia, destaca que em seu período inicial, a Geografia referia-se ao meio, em lugar de ambiente, e o conceito de meio se define em relação aos elementos físicos, portanto, está impregnado de um sentido ecológico. A ideia de meio ambiente, ou simplesmente meio apresenta raízes científicas vinculadas historicamente à biologia, tendo sido introduzida nesta área do conhecimento pela mecânica newtoniana. No entanto, em seu desenvolvimento histórico, o conceito perde sua base de veículo mediando um objeto a outro e assume a concepção de unidade de diversas manifestações entre si relacionadas. Ainda de acordo com Suertegaray (2001), o ambiente passa nessa perspectiva, a ser lido como algo exterior ao homem, cuja preocupação seria estudar o funcionamento dos sistemas naturais. Ou ainda, segundo a mesma autora, incluir o homem, neste caso, em uma única esfera cuja chave principal de leitura está constituída por processos naturais. A autora destaca ainda que a ideia de ambiente elimina, por conseguinte, toda a tensão, toda a contradição e, neste particular, a tensão essencial, qual seja a de ser o homem o sujeito. O único sujeito em um mundo oposto a ele. Suertegaray (2004) acrescenta que as últimas tendências concebem o ambiente sem negar as tensões das suas diferentes dimensões. E, na perspectiva da Geografia, retoma-se um pensamento conjuntivo, onde meio ambiente é pensado como ambiente por inteiro, na proporção em que sua análise exige compreensão das práticas sociais, das ideologias e das culturas envolvidas. Acrescenta ainda que: O termo ambiental, para além de todas as conceituações expressas, indica a compreensão do ser na relação com seu entorno. Este ser pode ser entendido individualmente ou coletivamente, de forma genérica e naturalizada, ou como um ser social e historicamente construído. Estas formas de compreensão promovem leituras diferenciadas da questão ambiental e expressam a tensão relativa a diferentes concepções de mundo. Resgatam a importância da compreensão socioeconômica nas transformações da natureza, nas suas derivações, nos impactos... Daí o questionamento: esta dimensão analítica ainda é passível de ser reconhecida como compreensão da natureza ou como geografia física? Não estaria a questão ambiental promovendo uma construção que ultrapassa o campo especificamente da geografia física? Não estaria esta temática exigindo um repensar mais conjuntivo da própria geografia e, para além dela, um repensar transdisciplinar? (SUERTEGARAY, 2004. p. 113, 114). Nessa perspectiva, a autora ressalta ainda que, diante da unificação do mundo pela produção e reprodução da natureza que é tomada como uma mercadoria, discutir a natureza e a questão ambiental perpassa a discussão da própria unidade da ciência geográfica, que na sua construção teórica, assim como as demais ciências, tornou-se fragmentada. Esse debate em torno da relação sociedade versus natureza pauta-se na análise de um mundo construído sob a ótica da modernidade e que, entre tantas consequências, desencadearam um processo progressivo de separação do homem da natureza, como se esse fosse superior e externo a ela e que a natureza fosse apenas um recurso capaz de suprir as necessidades humanas. Mendonça (2004), ao discorrer sobre a evolução do conceito de meio ambiente, alega que continua muito ligado a uma concepção naturalista, levando em conta que o homem é visto mais como um fator do que como um elemento do ambiente. Levanta ainda a discussão que tanto no meio acadêmico quanto no senso comum a abordagem sobre o meio ambiente está diretamente relacionada à natureza, vista como relativa ao quadro natural e sendo colocada numa posição hierarquicamente mais elevada e sem a qual não haveria possibilidade de compreensão da realidade. Acrescenta ele: Ainda que tenha sido ampliado e se tornado mais abrangente, o termo meio ambiente – ou ambiente – (estes sim podem ser tomados como sinônimos) parece não conseguir desprender-se de uma gênese e uma história fortemente marcada por princípios naturalistas, o que leva a crer que tenha sido gerada uma concepção cultural do meio ambiente que exclui a sociedade da condição de componente/sujeito, mas inclui como agente/fator (MENDONÇA,2004, p. 125). Observamos, assim, que há historicamente uma visão fortemente naturalista em torno da concepção de ambiente e que inserir na abordagem ambiental a perspectiva social é um desafio para todos os que realizam discussões sobre a temática em questão. Assim, na atualidade, há uma tendência à utilização do termo socioambiental. Essa evolução conceitual, podemos assim dizer, teve como marco a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento e Meio Ambiente, conhecida também como Rio ou Eco/92, ocorrida no Rio de Janeiro em 1992. Na ocasião, como resultado dos vários debates travados, ocorreram mudanças no tocante às concepções relacionadas ao meio ambiente que, de certa forma, redundaram em novas maneiras de se conceber os problemas ambientais. Mendonça (2004) ressalta ainda que: A importância atribuída à dimensão social desses problemas possibilitou o emprego da terminologia socioambiental, e este termo não explicita somente a perspectiva de enfatizar o envolvimento da sociedade como elemento processual, mas é também decorrente da busca de cientistas naturais a preceitos filosóficos e da ciência social para compreender a realidade numa abordagem inovadora (MENDONÇA,2004, p. 126). Moraes (2005), ao tratar sobre os fundamentos epistemológicos para o estudo do meio ambiente, afirmou que um dos principais problemas relacionados a esta temática, diz respeito à diversidade conceitual e de linguagem que a envolve, e acrescenta: O termo ecologia, por exemplo – e ninguém vai negar a sua centralidade para a discussão em foco -, aparece em alguns contextos discursivos como um objeto; porém, em outros contextos aparece como método; em outros, ainda, como ciência, e mesmo em alguns, como questão política. Temos então um termo que varia bastante, dependendo do contexto discursivo de quem o emprega (MORAES, 2005, p. 47). Apesar de haver uma pluralidade de concepções e conceitos referentes ao termo ambiente, em acepções científicas, políticas, culturais, etc., há consenso num aspecto: os termos ambiente e ambientalismo, empregados na atualidade, ligam-se às concepções completamente diferentes das existentes no final do século XIX e início do século XX. No passado, essas concepções estavam diretamente associadas ao estudo da natureza exterior ao homem, enquanto que, no presente, ligam-se mais aos vários problemas decorrentes da relação dialética entre a sociedade e a natureza. Leff (2006 ), ao discutir o conceito, destaca que: Ambiente não é o meio que circunda as espécies e as populações biológicas: é uma categoria sociológica (e não biológica), relativa a uma racionalidade social, configurada por comportamentos, valores e saberes, bem como por novos potenciais produtivos. Neste sentido, o ambiente do sistema econômico está constituído pelas condições ecológicas de produtividade e regeneração dos recursos naturais, bem como pelas leis termodinâmicas de degradação de matéria e energia no processo produtivo. O ambiente estabelece potenciais e limites às formas e ritmos de exploração de recursos, condicionando os processos de valorização, acumulação do capital (LEFF,2006, p. 160). Essa discussão sobre o termo meio ambiente ou simplesmente ambiente, como se pode perceber, está longe de um consenso, e embora tenha se ampliado em função das profundas transformações que ocorrem no espaço, atualmente, muitas concepções estão ainda fortemente arraigadas aos princípios naturalistas, que excluem a sociedade da sua condição de componente/sujeito. Leff (2006 ) nos adverte ainda que o saber ambiental ultrapassa o campo da racionalidade científica e da objetividade do conhecimento. Este saber, segundo ele, está se conformando dentro de uma nova racionalidade teórica, da qual emergem novas estratégias conceituais. Isso propõe a revalorização de um conjunto de saberes sem pretensão de cientificidade. Ante a vontade de resolver a crise ecológica por uma “manipulação racional do ambiente”, questiona-se a “irracionalidade” da razão científica (FEYERABEND, 1977). O saber ambiental, ainda de acordo com Leff (2006 ), é afim com a incerteza e a desordem, com o campo do inédito, do virtual e dos futuros possíveis, incorporando a pluralidade axiológica e a diversidade cultural na formação do conhecimento e na transformação da realidade. E nos afirma ainda: A racionalidade ambiental inclui novos princípios teóricos e novos meios instrumentais para reorientar as formas de manipulação produtiva da natureza. Essa racionalidade está sustentada por valores (qualidade de vida, identidades culturais, sentidos da existência) que não aspiram a alcançar um status de cientificidade. Abre-se, dessa forma, um diálogo entre ciência e saber, tradição e modernidade (LEFF, 2006, p. 168). Nesse sentido, quando se fala de meio ambiente, reconhece-se, também, a identidade de um povo e seus saberes tradicionais como sendo parte de suas formas culturais de apropriação de seu patrimônio relativo aos recursos naturais. Daí, o que leva Leff a ressaltar: O saber ambiental propõe a questão da diversidade cultural no conhecimento da realidade, mas também o problema da apropriação de conhecimentos e saberes dentro de diferentes ordens culturais e identidades étnicas. O saber ambiental não apenas gera um conhecimento científico mais objetivo e abrangente, mas também produz novas significações sociais, novas formas de subjetividade e de posicionamento ante o mundo. Trata-se de um saber que não escapa à questão do poder e à produção de sentidos civilizatórios. (...) O saber ambiental reconhece as identidades dos povos, suas cosmologias e saberes tradicionais como parte de suas formas culturais de apropriação de seu patrimônio de recursos naturais. Assim, inscreve-se dentro dos interesses diversos que constituem o campo conflitivo do ambiental. Emergem daí novas formas de subjetividade na produção de saberes, na definição dos sentidos da existência e na qualidade de vida dos indivíduos, em diversos contextos culturais. Nesse sentido, mais que reforço da racionalidade científica prevalecente, o saber ambiental impulsiona novas estratégias conceituais para construir uma nova racionalidade social (LEFF,2006 , p. 169). Nesse sentido, percebemos que a complexidade da questão ambiental não defende apenas a necessidade de se estabelecer uma articulação entre as ciências para se ter uma compreensão da temática. A complexidade ambiental, portanto, emerge do diálogo entre os diversos tipos de saberes e conhecimentos. Não podemos considerar o meio ambiente apenas do ponto de vista ecológico, pois estaremos reduzindo a história ambiental a uma história natural. Tampouco, considerarmos o meio ambiente apenas sob a ótica do materialismo histórico que evidencia as relações sociais de produção ou a luta de classes em detrimento das condições impostas pela natureza e pela cultura à organização e à mudança social. O meio ambiente se redefine a partir dos processos ecológicos e das identidades culturais que se hibridam com os processos econômicos e tecnológicos. 1.3 Trajetórias da Educação Ambiental Os problemas ambientais causados pelas sociedades humanas, em seu processo de construção e reconstrução do espaço, não são somente de ordem ecológica, mas fundamentalmente política, econômica e cultural. Eles decorrem, sobretudo, do modo como a sociedade se apropria da natureza. Assim sendo, a degradação do meio ambiente está intimamente relacionada ao modelo de desenvolvimento econômico adotado ou ao próprio sistema capitalista, que encontra sua base de sustentação no processo de produção e consumo. Foi a partir dessa tomada de consciência que nos anos de 1970 se intensificou e se institucionalizou o debate acerca da problemática ambiental mundial, sua relação com o desenvolvimento social e econômico das nações e as mudanças de comportamento a partir da inserção da educação ambiental. Em meio à efervescência da temática, em 1972, durante a primeira Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, realizada em Estocolmo, nasce a ideia de desenvolvimento ecologicamente autossustentável ou desenvolvimento sustentável. Também se atribui a essa Conferência a responsabilidade de inserir a temática da educação ambiental na agenda dos acontecimentos internacionais. Procuraremos, então, traçar uma breve trajetória da educação ambiental em nível global, visando sua melhor compreensão no Brasil, pois, como afirma Morin (2001): O global é mais que o contexto, é o conjunto das diversas partes ligadas a ele de modo inter-retroativo ou organizacional. Dessa maneira, uma sociedade é mais que um contexto: é o todo organizador de que fazemos parte. O planeta Terra é mais do que um contexto: é o todo ao mesmo tempo organizador e desorganizador de que fazemos parte. O todo tem qualidades ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo (...) é preciso recompor o todo para se conhecer as partes (MORIN, 2001, p. 37). 1.3.1 A Conferência de Estocolmo O marco inicial de interesse para a educação ambiental foi a Conferência da Organização das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano – A Conferência de Estocolmo. Realizada em 1972, aconteceu ao mesmo tempo em que o Clube de Roma publicava importante documento de caráter reflexivo, relacionando o elevado crescimento demográfico e a exploração dos recursos naturais a um provável colapso da humanidade, destacando, assim, a necessidade de se reavaliar o modelo de crescimento humano. Dias (1994), ao analisar os resultados dessa Conferência, afirma que: Considerada um marco histórico político internacional, decisivo para o surgimento de políticas de gerenciamento do ambiente, a Conferência de Estocolmo, além de chamar a atenção do mundo para os problemas ambientais, também gerou controvérsias. Os representantes dos países em desenvolvimento acusaram os países industrializados de querer limitar seus programas de desenvolvimento industrial, usando a desculpa da poluição como um meio de inibir a capacidade de competição crescente dos países pobres (DIAS, 1994, p. 38). Mesmo com toda essa polêmica, um dos resultados dessa Conferência foi a Declaração sobre o Ambiente Humano, também conhecida como Declaração de Estocolmo, cujos princípios estão voltados para o compromisso da melhoria e preservação ambiental, tornando pública a necessidade de se considerar a dimensão social nos processos ecológicos e a responsabilidade do ser com o meio ambiente. Ainda no contexto da Conferência de Estocolmo, a Unesco considerou as recomendações do Plano de Ação da mesma sobre capacitação e desenvolvimento de novas tecnologias para a educação ambiental e promoveu três Conferências Internacionais, em Belgrado, Tbilisi e Moscou. 1.3.2 Conferências Internacionais decorrentes de Estocolmo A Conferência de Belgrado, na antiga Iugoslávia, denominada Encontro Internacional em Educação Ambiental, realizada em 1975, contando com a participação de sessenta e cinco países, formulou princípios e orientações para o programa de educação ambiental. Nesse mesmo encontro foi criado o Programa Internacional de Educação Ambiental (PIEA) que, como resultado, formulou os seguintes princípios: a educação ambiental deve ser continuada, multidisciplinar, integrada às diferenças regionais e voltada para interesses nacionais. A Conferência também obteve como resultado a Carta de Belgrado (Unesco, 1975), um documento que propõe a erradicação das causas básicas da pobreza, tais como a fome, o analfabetismo, a poluição e a exploração humana, almejando, com isso, a construção de uma nova ética global. Em 1977, em Tbilisi (Geórgia), antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, a Unesco promoveu a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, contando com a cooperação do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA). Assim, o Programa Internacional de Educação Ambiental, iniciado em 1975 na Conferência de Belgrado, atinge seu ponto máximo, resultando desse encontro um documento sobre os objetivos, estratégias, características, princípios e recomendações para a prática da educação ambiental. Pedrini (1997) destaca que, embora não seja possível transcrever o documento na íntegra, vale ressaltar alguns pontos que ele considera de partida: Deveria a Educação Ambiental basear-se na ciência e tecnologia para a consciência e adequada apreensão dos problemas ambientais, fomentando uma mudança de conduta quanto à utilização dos recursos ambientais. Deveria se dirigir tanto pela educação formal como informal a pessoas de todas as idades. E, também, despertar o indivíduo a participar ativamente na solução de problemas ambientais do seu cotidiano. Teria que ser permanente, global e sustentada numa base interdisciplinar, demonstrando a dependência entre os povos da Terra. Foram formuladas 41 recomendações que primam pela união internacional dos esforços para o bem comum, tendo a EA como fator primordial para que a riqueza e o desenvolvimento dos países sejam atingidos mais igualitariamente. Ao final convida diferentes instâncias políticas dos países da Terra a: a) incluir em suas políticas de educação conteúdos, diretrizes e atividades ambientais contextualizadas nos seus países; b) intensificar trabalhos de reflexão, pesquisa e inovação em EA por parte das autoridades em educação; c) estimular os governos a promover intercâmbios de experiências, pesquisas, documentação, materiais e formação de pessoal docente qualificados entre os países; d) fortalecer os laços de solidariedade internacionais em uma esfera de atividade que simbolize uma adequada solidariedade entre os povos com o fim de promover a união internacional e a causa da paz (PEDRINI,1997, p. 28). Desse modo, esta Conferência é tida como um marco da educação ambiental e até hoje seus princípios e definições servem como base para as atuais propostas de educação ambiental em todo o mundo. O terceiro momento de discussão sobre a educação ambiental ocorreu em Moscou, na antiga União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, em 1987, com a realização do Congresso Internacional de Educação e Formação Ambiental, promovido pela Unesco/Pnuma, reunindo cerca de 300 especialistas de 94 países, dentre eles o Brasil e teve entre os seus principais objetivos o de fazer uma avaliação sobre o desenvolvimento da educação ambiental desde a Conferência de Tbilisi (1977), em todos os países membros da Unesco. Os conceitos consagrados em Tbilisi (1977) foram reforçados neste Congresso não governamental, dentre eles, o de que a educação ambiental deveria preocupar-se tanto com a promoção da conscientização e transmissão de informações, como com o desenvolvimento de hábitos e habilidades, promoção de valores, estabelecimento de critérios, padrões e orientações para a resolução de problemas e tomada de decisões. Toda essa discussão resultou no documento “Estratégia Internacional de Ação em Matéria de Educação e Formação Ambiental para o Decênio de 1990”. Dentre as metas apontadas no documento, destacamos algumas, que são o desenvolvimento de um modelo curricular, o intercâmbio de informações sobre o desenvolvimento de novos recursos instrucionais, a promoção de avaliações de currículos, a capacitação de docentes e licenciados em educação ambiental, a capacitação de alunos dos cursos profissionalizantes, a criação de um banco de programas audiovisuais, o desenvolvimento de museus interativos, a capacitação de especialistas ambientais por meio da pesquisa, a utilização das unidades de conservação ambiental para a capacitação regional de especialistas, entre outras medidas não menos importantes. Este Congresso teve o papel de consolidar as recomendações das duas Conferências anteriores, promovidas pela ONU e Unesco, respectivamente. Dessas reuniões derivaram outras em escalas menores, mas também importantes como as que ocorreram aqui na América Latina, mais especificamente na Costa Rica em 1979, na Argentina em 1988 e no Brasil em 1991. A ênfase, como se pode atestar é colocada na necessidade de atender prioritariamente à formação de recursos humanos nas áreas formais e não formais da educação ambiental e na inclusão da dimensão ambiental nos currículos de todos os níveis de ensino. 1.3.3 A Conferência do Rio de Janeiro Vinte anos após a Conferência de Estocolmo (1972), quinze depois da Conferência de Tbilisi (1977) e cinco depois de Moscou (1987), chegou-se à Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), que se transformou num momento especial também para a constituição da Educação Ambiental. Além dos debates oficiais, dois, entre os incontáveis eventos paralelos, foram marcantes: a "1ª Jornada Internacional de Educação Ambiental", um dos encontros do Fórum Global, atraiu cerca de 600 educadores do mundo todo; e o "Workshop sobre Educação Ambiental" organizado pelo MEC. Destes eventos, foram elaborados três documentos que hoje estão entre as principais referências para quem trabalha com educação ambiental: ·A Agenda 21, que é um instrumento de planejamento para a construção de sociedades sustentáveis, e subscrita pelos governantes de mais de 170 países que participaram da Conferência oficial, dedicou todo o Capítulo 36 à "Promoção do Ensino, da Conscientização e do Treinamento". Este capítulo contém um conjunto de propostas que ratificaram, mais uma vez, as recomendações de Tbilisi, reforçando ainda a urgência em envolver todos os setores da sociedade através da educação formal e não formal. Além disso, a conscientização e o treinamento são mencionados em outros capítulos, já que estas são necessidades que permeiam todas as áreas. A Carta Brasileira para a Educação Ambiental, produzida no Workshop coordenado pelo MEC, destacou, entre outros, que deve haver um compromisso real do poder público federal, estadual e municipal, para se cumprir a legislação brasileira visando à introdução da Educação Ambiental em todos os níveis de ensino. Também propôs o estímulo à participação das comunidades direta ou indiretamente envolvidas e das instituições de ensino superior. O Tratado de Educação Ambiental para Sociedades Sustentáveis e Responsabilidade Global (1992), resultante da Jornada de Educação Ambiental, elaborado pelo fórum das ONGs (Organizações não governamentais), explicita o compromisso da sociedade civil para a construção de um modelo mais humano e harmônico de desenvolvimento, onde se reconhecem os direitos humanos da terceira geração, a perspectiva de gênero, o direito e a importância das diferenças e o direito à vida, baseados em uma ética biocêntrica e no amor. Apesar de a literatura registrar que desde 1960 já se discutia educação ambiental, o seu reconhecimento, no contexto internacional como estratégia para se construir sociedades sustentáveis, remonta a 1973, ao se instituir o Programa Internacional de Educação Ambiental. Segundo Reigota (2004), a educação ambiental é uma proposta que altera profundamente a educação como é conhecida, não sendo necessariamente uma prática pedagógica voltada para a transmissão de conhecimentos relativos à ecologia, não se tratando apenas de uma educação que visa não somente a utilização racional dos recursos naturais, mas basicamente a participação dos cidadãos nas discussões e decisões sobre a questão ambiental. 1.4 O desenvolvimento da educação ambiental no Brasil No Brasil, a educação ambiental emerge muito antes da sua institucionalização pelo Governo Federal, na década de 1970, num contexto de surgimento de um movimento ambientalista que se manifesta por meio da ação isolada de professores, estudantes, escolas, igrejas, organizações da sociedade civil ou mesmo de Prefeituras Municipais e Governos Estaduais, a partir de atividades educacionais relacionadas às ações voltadas para recuperação, conservação e melhoria do meio ambiente. Inclusive, nessa época surgem os primeiros cursos de especialização em Educação Ambiental. No que tange ao processo de institucionalização pelo Governo Federal da educação ambiental, este teve início em 1973 com a criação, pelo poder executivo da Secretaria Especial do Meio Ambiente (Sema), vinculado ao Ministério do Interior. A Sema estabeleceu como parte de suas atribuições “o esclarecimento e a educação do povo brasileiro para o uso adequado dos recursos naturais, tendo em vista a conservação do meio ambiente” (BRASIL, 2003, p. 7) e foi responsável pela capacitação de recursos humanos e sensibilização inicial da sociedade para questões ambientais. Segundo Saito (2002), o enfoque na educação ambiental, nesse período, foi bastante naturalista; procurou-se inserir tópicos ambientais no ensino de ciências e, em alguns casos, buscou-se uma integração com a geografia e a educação artística como era nomeada esta disciplina no período em foco. Ainda de acordo com o mesmo autor, coube À psicologia reforçar essa vertente de pensamento, consolidando na educação ambiental uma concepção de que o mais importante seria a promoção da sensibilização das pessoas para os estímulos ambientais. Sobre o assunto, Saito acrescenta: Acreditava-se que as pessoas estavam distanciadas da natureza e a primeira tarefa da educação ambiental era restabelecer essa ligação, tendo sido desenvolvidas, para tanto, uma série de técnicas nesse sentido (SAITO, 2002, p. 48). Essa visão do homem, exterior à natureza, além de ter a influência do debate internacional, pode ser justificada pelo contexto histórico do Brasil. Na mesma obra o autor comenta ainda: O Brasil encontrava-se sob o governo militar que restringia o debate político e as ações coletivas. A temática social não fazia parte da pauta educacional e cultural, muito menos ambiental. Por sinal, o ambientalismo, de certa forma, representava um obstáculo à consolidação da nova “ideologia nacional”: a busca desenfreada do desenvolvimento econômico, batizada de “o milagre econômico” (SAITO, 2002, p. 48). Como podemos concluir, no decorrer desse período da nossa história, a educação ambiental só poderia se desenvolver sob a égide de um forte naturalismo, desprovido de debate político que articularia as questões ambientais às socioeconômicas. Um segundo passo na institucionalização da educação ambiental no Brasil foi dado com a Política Nacional de Meio Ambiente, que estabeleceu em 1981, no âmbito legislativo, a necessidade de inclusão da educação ambiental em todos os níveis de ensino, inclusive a educação da comunidade, objetivando capacitá-la para a participação ativa na defesa de meio ambiente, evidenciando a importância que se desejava imprimir a essa prática pedagógica. Reforçando essa tendência, a Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no inciso VI do Artigo 225, a necessidade de “promover a Educação Ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente” (BRASIL, 1988). Esses avanços ocorridos na década de 1980 foram permeados pelo aumento da discussão em torno das questões ambientais, tanto em nível nacional como internacional. No período em questão, houve uma retomada dos movimentos coletivos pela democratização do país, o que acabou por favorecer a expansão e a consolidação da Educação Ambiental e sua consequente inserção na agenda nacional de debates. Foi um período de intensos e calorosos debates, dentre eles, o de inserir ou não a Educação Ambiental como disciplina escolar dentro do currículo de ensino fundamental – no período denominado, de primeiro grau. Saito (2002) nos adverte que: No então Conselho Federal de Educação apontavam para a necessidade de enfatizar o caráter interdisciplinar da temática ambiental, não sendo muito favoráveis à criação da educação ambiental como disciplina específica (SAITO, 2002, p. 49). No ECO-92, conferência sobre o meio ambiente, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, foi reafirmada a necessidade de se colocar em prática o desenvolvimento sustentável, isto é, de se adotar um modelo de desenvolvimento econômico voltado para a exploração racional dos recursos naturais, para a preservação do meio ambiente ou para o equilíbrio ecológico e combate às desigualdades sociais entre os seres humanos e entre as nações. Nessa conferência, foi produzida a Carta Brasileira para Educação Ambiental, com o apoio do MEC, na qual, entre outras coisas, vê-se reconhecida a educação ambiental como um dos instrumentos mais importantes para viabilizar a sustentabilidade como estratégia de sobrevivência do planeta e, consequentemente, da melhoria da qualidade de vida do homem. De acordo com a Carta, existe pouco desenvolvimento no tocante à produção de conhecimentos, falta de comprometimento real do poder público no cumprimento e complementação da legislação em relação às políticas específicas de Educação Ambiental, em todos os níveis de ensino, o que consolida, de certa forma, um modelo educacional que não corresponde às reais necessidades do país. Como já discorrido anteriormente, de acordo com os preceitos da Agenda 21, deve-se promover, com a colaboração apropriada das organizações não governamentais, inclusive as organizações de mulheres e de populações indígenas, todo tipo de programa de educação de adultos para incentivar a educação permanente sobre meio ambiente e desenvolvimento, centrando-se nos problemas locais. As indústrias devem estimular as escolas técnicas a incluírem o desenvolvimento sustentável em seus programas de ensino e treinamento. Nas universidades, os programas de pós-graduação devem contemplar cursos especialmente concebidos para capacitar os responsáveis pelas decisões que visem ao desenvolvimento sustentável. Em cumprimento às recomendações da Agenda 21 e aos preceitos constitucionais, é aprovado no Brasil o Programa Nacional de Educação Ambiental (Pronea), que prevê ações nos âmbitos de Educação Ambiental formal e não formal. O documento apresenta, como justificativa, a alegação de que as estratégias de enfrentamento da problemática ambiental, para surtirem o efeito desejável na construção de sociedades sustentáveis, envolvem uma articulação coordenada entre todos os tipos de intervenção ambiental direta, incluindo nesse contexto as ações em educação ambiental. Dessa forma, assim como as medidas políticas, jurídicas, institucionais e econômicas voltadas para a proteção, recuperação e melhoria socioambiental, despontam também as atividades no âmbito educativo. O documento justifica, assim, que a atuação do poder público no campo da educação ambiental possa ocorrer de modo articulado tanto entre as iniciativas existentes no âmbito educativo, como entre as ações voltadas à proteção, recuperação e melhoria socioambiental, propiciando, assim, um efeito multiplicador com potencial de repercussão na sociedade. Faz-se necessário, portanto, a formulação e implementação de políticas públicas de educação ambiental que integrem essa perspectiva. Nesse sentido, defende o documento a criação do Programa Nacional de Educação Ambiental que se configura como um esforço do governo federal no estabelecimento das condições necessárias para a gestão da Política Nacional de Educação ambiental, fortalecendo os processos na sociedade brasileira existentes nessa direção. Portanto, defende a justificativa, no sentido de promover a articulação das ações educativas voltadas às atividades de proteção, recuperação e melhoria socioambiental, e de potencializar a função da educação para as mudanças culturais e sociais, que inserem a educação ambiental no planejamento estratégico do governo federal. Quanto aos objetivos do Pronea, podemos destacar: Estimular e apoiar processos de educação ambiental na construção de valores e relações sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências que contribuam para a participação de todos na edificação de sociedades sustentáveis; Estimular e apoiar processos de formação de educadores ambientais; Estimular e apoiar processos de formação ambiental continuada e inicial de professores dos sistemas de ensino; Contribuir com a organização de voluntários, profissionais e instituições que atuam em programas de intervenção, ensino e pesquisa em educação ambiental; Contribuir para a internalização da dimensão ambiental nos projetos de desenvolvimento e de melhoria da qualidade de vida, nas políticas e programas setoriais do governo em todas as suas esferas e setores, nas empresas, nas escolas e nas organizações da sociedade civil (Pronea, 2003). Os objetivos do Programa Nacional de Educação Ambiental (Pronea) encontram-se em consonância com os objetivos fundamentais da educação ambiental, descritos no artigo 5º da Lei nº 9.795/99 de 27 de abril de 1999, que dispõe sobre a educação ambiental e institui a Política Nacional de Educação Ambiental, regulamentando os artigos 205 e 225 da Constituição Federal. Um marco na educação ambiental no país, que só irá sair do papel com a sua regulamentação em 2002 (BRASIL, 2008). Os objetivos fundamentais da Educação Ambiental, definidos no artigo 5º da Lei, são: I - o desenvolvimento de uma compreensão integrada do meio ambiente em suas múltiplas e complexas relações, envolvendo aspectos ecológicos, psicológicos, legais, políticos, sociais, econômicos, científicos, culturais e éticos; II - a garantia de democratização das informações ambientais; III - o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social; IV - o incentivo à participação individual e coletiva, permanente e responsável, na preservação do equilíbrio do meio ambiente, entendendo-se a defesa da qualidade ambiental como um valor inseparável do exercício da cidadania; V - o estímulo à cooperação entre as diversas regiões do país, em níveis micro e macrorregionais, com vistas à construção de uma sociedade ambientalmente equilibrada, fundada nos princípios da liberdade, igualdade, solidariedade, democracia, justiça social, responsabilidade e sustentabilidade; VI - o fomento e o fortalecimento da integração com a ciência e a tecnologia; VII - o fortalecimento da cidadania, autodeterminação dos povos e solidariedade como fundamentos para o futuro da humanidade. (BRASIL, 1999). Na década de 1990, O Ministério da Educação (MEC), o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) desenvolveram diversas ações para consolidar a educação ambiental no Brasil. No MEC, foram aprovados os novos Parâmetros Curriculares Nacionais que incluem como um dos temas transversais o Meio Ambiente, devendo-se, pois, tratar-se da questão ambiental, tendo como um dos eixos a educação ambiental como elemento indispensável para a transformação da consciência ambiental. Saito (2002), ao avaliar a política nacional de educação ambiental nesse período, ressalta que o debate sobre a disciplinarização da educação ambiental ganha um desfecho final com os Parâmetros Curriculares Nacionais – PCNs, que de certa forma consolidam a posição do Conselho Federal de Educação de 1987, que foi a de não constituir a educação ambiental como disciplina específica, tendo adquirido em sua formulação final o caráter de tema transversal, apresentado pelos PCNs. A própria Lei 9.795/99 reafirma esse posicionamento em seu artigo 10, parágrafo primeiro: “A educação ambiental não deve ser implantada como disciplina específica no currículo de ensino” (BRASIL, 1999). Nos últimos tempos a educação ambiental é introduzida nos currículos escolares, com novo enfoque, compondo uma parte diversificada e flexibilizada do currículo escolar. Desenvolve-se também um programa de capacitação de multiplicadores em educação ambiental em todo o país. O Ministério do Meio Ambiente cria a Coordenação de Educação Ambiental para desenvolver políticas nessa área no país e sistematizar as ações existentes. O Ibama cria, consolida e capacita os Núcleos de Educação Ambiental (NEA) nos estados, o que permite desenvolver Programas Integrados de Educação Ambiental para a Gestão. Várias Organizações Estaduais do Meio Ambiente (Oemas) implantam programas de educação ambiental. Paralelamente, as Organizações Não Governamentais (ONGs) têm desempenhado importante papel no processo de aprofundamento e expansão das ações de educação ambiental que se completam e muitas vezes impulsionam iniciativas governamentais. Como ressalta Saito (2002): Por sinal, o movimento ambientalista se fortaleceu com a proliferação de ONGs ambientalistas, embora, muitas vezes, tal fenômeno tenha se dado segundo a concepção política neoliberal de oposição ao Estado, e até de substituição de seu papel. Inegavelmente, as ONGs contribuíram para fortalecer e difundir a ideia da necessária diminuição do Estado para implantar a descentralização e a autonomia, ao mesmo tempo em que permitiram, em diversas situações, a reconfiguração do papel do Estado para atender aos interesses dos setores dominantes. Por isso, termos como “autonomia”, “descentralização”, “diversidade” e “comunidade” tornaram-se bastante populares, carregando para alguns a ideia de democratização e, para outros, de minimização do papel regulador e provedor do Estado (SAITO, 2002, p. 49-50). Nesse breve histórico, podemos inferir que a Política Nacional de Educação Ambiental (1999) resulta de uma longa marcha de lutas junto ao Estado e á sociedade para expressar uma concepção de ambiente e sociedade em consonância com o momento histórico em que se institucionalizou a educação ambiental no Brasil. É evidente que o aprofundamento de processos educativos ambientais apresenta-se como condição sine qua non para construir uma nova racionalidade ambiental que possibilite modalidades de relações entre a sociedade e a natureza, entre o conhecimento científico e as intervenções técnicas no mundo, nas relações entre os grupos sociais diversos e entre os diferentes países em um novo modelo ético, centrado no respeito e no direito à vida em todos os aspectos. No quadro a seguir, poderemos conferir sinteticamente esse breve relato da trajetória da educação ambiental na escala nacional e global: Quadro 1: Trajetórias da Educação Ambiental No Mundo No Brasil 1972 - Conferência Internacional sobre o Ambiente Humano – ONU / Estocolmo. Avaliação dos problemas ambientais globais. Elaboração e divulgação da Carta de Princípios sobre o Ambiente Humano - 26 artigos entre os quais está instituída a Educação Ambiental. 1975 - PROGRAMA INTERNACIONAL DE EDUCAÇÃO AMBIENTAL – PIEA Encontro de Belgrado, promovido pela Unesco, com orientações específicas para E A. 1977 - I CONFERÊNCIA INTERGOVERNAMENTAL SOBRE EDUCAÇÃO AMBIENTAL, Tbilisi, Geórgia (ex-URSS) - Unesco – Marco conceitual em E A. 1987 - II CONFERÊNCIA INTERGOVERNAMENTAL SOBRE E A – Moscou. Ênfase: Formação de pessoal, pesquisa, informação e divulgação de experiências. 1992 CONFERÊNCIA INTERNACIONAL DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO – ECO-92, Rio de Janeiro - Fórum Global: Conferência paralela das Organizações Não Governamentais; lançamento de tratados em diversas áreas, entre os quais o Tratado de EA para Sociedades Sustentáveis e de Responsabilidade Global. - Resultado final: Agenda 21 - Bases para consolidar o Desenvolvimento Sustentável. 1973 - Criação da Secretaria Especial de Meio ambiente – Sema, vinculada à Presidência da República. 1975 - Revisão da proposta de Ciências Naturais. 1981 - Instituída a Política Nacional de Meio Ambiente, consolidando o Sistema Nacional de Meio ambiente. 1987 - Parecer 226 - Conselho Federal de Educação – MEC. Indicação para interdisciplinaridade da E A. 1988 - Promulgação da Constituição Federal - Cap. I, Meio Ambiente. - Trata da EA como obrigatória em todos os níveis de ensino, inclusive para a comunidade. Na década de 1990, O Ministério da Educação (MEC), o Ministério do Meio Ambiente (MMA) e o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) desenvolvem diversas ações para consolidar a Educação Ambiental no Brasil. No MEC, são aprovados os novos Parâmetros Curriculares Nacionais que incluem como um dos temas transversais o Meio Ambiente, devendo-se, pois, tratar-se da questão ambiental, tendo como um dos eixos a Educação Ambiental como elemento indispensável para a transformação da consciência ambiental. Nesse breve histórico, podemos inferir que a Política Nacional de Educação Ambiental resulta de uma longa marcha de lutas junto ao Estado e à sociedade para expressar uma concepção de ambiente e sociedade em consonância com o momento histórico em que se institucionalizou a Educação Ambiental no Brasil. 1.5 Representações de meio ambiente e educação ambiental As representações sociais se apresentam como uma maneira de interpretar a realidade cotidiana, uma forma de conhecimento da atividade mental desenvolvida pelos indivíduos e pelos grupos, para fixar suas posições em relação a situações, eventos, objetos e comunicações que lhes concernem. O social intervém de várias formas, dentre elas, o contexto concreto no qual se situam grupos e pessoas, pela comunicação que se estabelece entre eles, pelo quadro de apreensão que fornece sua bagagem cultural, pelos códigos, símbolos, valores e ideologias ligadas às posições e vinculações sociais específicas. As representações sociais se sobressaem em relação a outros fenômenos no plano simbólico porque surgem da realidade cotidiana, a qual tem prevalência sobre outras realidades como a religiosa e a científica, por exemplo. E essa prevalência é determinada tanto pela linguagem como pela estrutura social da realidade, em cuja interação o indivíduo compartilha sua subjetividade, estabelecendo diferenças entre realidades vividas e outras que existem na consciência. Em outras palavras, a representação social é um conhecimento prático, que dá sentido aos eventos que nos são normais, forja as evidências da nossa realidade consensual e ajuda na construção social de nossa realidade. A representação é sempre a atribuição da posição que as pessoas ocupam na sociedade. Toda representação social é representação de alguma coisa ou de alguém. Ela não é cópia do real, nem cópia do ideal, nem a parte subjetiva do objeto, nem a parte objetiva do sujeito, ela é o processo pelo qual se estabelece a relação entre o mundo e as coisas. As representações sociais, conforme Reigota (2004), estão basicamente relacionadas com as pessoas que atuam fora da comunidade científica, muito embora possam aí, também, estar presentes. Nessas representações, podemos encontrar os conceitos científicos da forma como foram apreendidos e internalizados pelas pessoas. Assim posto, as representações sociais devem ser encaradas de modo ativo, pois, como explica Moscovici, As representações se mostram semelhantes a teorias que ordenam ao redor de um tema (as doenças mentais são contagiosas, as pessoas são o que elas comem, etc.) uma série de proposições que possibilitam que coisas ou pessoas sejam classificadas, que seus caracteres sejam descritos, seus sentimentos e ações sejam explicados e assim por diante (MOSCOVICI, 2003, p. 209 e 210). De acordo com Moscovici (2003), o conceito dado às representações sociais vem de Durkheim, mas nos dias atuais existe uma visão diferente. A partir da ótica da sociologia as representações sociais eram vistas Como artifícios explanatórios, irredutíveis cuja função teórica era semelhante à do átomo na mecânica tradicional, ou à do gene na genética tradicional; isto é, átomos e genes eram considerados como existentes, mas ninguém se importava sobre o que faziam, ou com o que pareciam (MOSCOVICI, 2003, p. 45). A psicologia social, a partir dos estudos de Piaget, passa a considerá-las sob um ângulo diferente, de forma que, ainda sob a ótica de Moscovici (2003), todos sabiam que as representações sociais existiam nas sociedades, mas não era dado a elas o devido valor, ou melhor, ninguém se importava com sua estrutura e sua dinâmica. Hoje, assevera o estudioso em pauta, as representações sociais “devem ser vistas como uma maneira específica de compreender e comunicar o que nós já sabemos.”. Elas surgiram pela necessidade contínua de se “re-construir o „senso comum‟ ou a forma de compreensão que cria o substrato das imagens e sentidos, sem a qual nenhuma coletividade pode operar” (MOSCOVICI, 2003, p. 46-48). A partir do posicionamento do autor anteriormente citado, “as representações sociais se apresentam como uma „rede‟ de ideias, metáforas e imagens mais ou menos interligadas livremente”, que têm uma existência à medida que são úteis (MOSCOVICI, 2003, p. 20). A teoria das representações sociais parte da premissa de que existem formas diferentes de conhecer e de se comunicar; podemos destacar a consensual e a científica. A diferença, no caso, não significa hierarquia nem isolamento entre elas, apenas propósitos diversos. O universo do senso comum seria aquele que se constitui principalmente na conversação informal, na vida cotidiana, enquanto o universo científico se cristaliza no espaço acadêmico, com toda sua especificidade e hierarquia rigidamente postas. Ambas, portanto, apesar de terem propósitos diferentes, são eficazes e indispensáveis para a vida humana. As representações sociais constroem-se mais frequentemente na esfera consensual, embora as duas esferas não sejam totalmente estanques. Na esfera consensual, todos podem falar com a mesma competência, pois em nível da aparência, neste universo não há fronteiras, todos podem falar de tudo. Obviamente que nesse contexto estarão implícitos os valores, a cultura e as ideologias de cada grupo. Enquanto que na esfera acadêmica, a especialidade determina quem pode falar sobre o quê. Moscovici (2003) afirma que apesar da ciência ser tão diferente das representações sociais, elas são complementares entre si; daí a necessidade de pensar e falar em ambos os registros. Acrescenta ainda que a ciência avança, o conhecimento é transmitido ao mundo consensual: A ciência era antes baseada no senso comum e fazia o senso comum menos comum; mas agora senso comum é ciência tornada comum. Sem dúvida, cada fato, cada lugar comum esconde dentro de sua própria banalidade um mundo de conhecimento, determinada dose de cultura e um mistério que o fazem ao mesmo tempo compulsivo e fascinante. Baudelaire pergunta: “Pode algo ser mais encantador, mais frutífero e mais positivamente excitante do que um lugar comum?” E poderíamos acrescentar, mais coletivamente efetivo? Não é fácil transformar palavras não familiares, ideias ou seres, em palavras usuais, próximas e atuais. É necessário, para dar-lhes uma feição familiar, pôr em funcionamento os dois mecanismos de um processo de pensamento baseado na memória e em conclusões passadas (MOSCOVICI, 2003, p. 60). Moscovici (2003) assevera ainda que esses mecanismos transformam o não familiar em familiar, primeiramente transferindo-o para nossa esfera particular, onde somos capazes de compará-lo e interpretá-lo para depois reproduzi-lo entre as coisas que podemos ver e tocar e, consequentemente, controlar. Esse autor, na mesma obra, sistematiza tais fundamentos recorrendo a dois processos ou mecanismos. O primeiro mecanismo, aquele que dá sentido ao objeto que se apresenta à nossa compreensão, ele o denomina de ancoragem. Esse processo trata da maneira pela qual o conhecimento se enraíza no social e volta a ele, ao converter-se em categoria e integrar-se à grade de leitura do mundo do sujeito. A esse respeito, Moscovici (2003) considera que: Esse é um processo que transforma algo estranho e perturbador, que nos intriga, em nosso sistema particular de categorias e o compara com um paradigma de uma categoria que nós pensamos ser apropriada (MOSCOVICI, 2003, p. 61). Ancorar, assim posto, é classificação e conceituação de alguma coisa. Coisas, que não são classificadas e que não possuem nomes, são estranhas, e evidentemente, experimentamos uma resistência, um distanciamento, quando não somos capazes de avaliar algo, de descrevê-lo a nós mesmos ou a outras pessoas. O outro processo denominado objetivação esclarece como se estrutura o conhecimento do objeto. Ele trabalha em três etapas, sendo a primeira a forma como se faz a seleção e descontextualização dos elementos do que vai ser representado, operando-se assim um enxugamento da informação transmitida. Essa sofre cortes baseados na nossa informação prévia, na experiência e nos nossos valores. Uma vez feitos os recortes, reconstituem-se os fragmentos num esquema que se torna o núcleo figurativo da representação, o qual tende a apresentar um aspecto de imagem. Tal aspecto constitui o foco da representação. Procedendo assim, aquele objeto que era misterioso foi devidamente decodificado, recomposto e agora se torna algo efetivamente objetivo, tangível, passa a nos parecer natural. Chegamos, portanto à fase da naturalização, completando assim o ciclo da objetivação. Moscovici, ao discorrer sobre o assunto, afirma ainda que: Objetivar é descobrir a qualidade icônica de uma ideia ou ser impreciso; é reproduzir um conceito em uma imagem. Comparar é já representar, encher o que está naturalmente vazio, com substância. Temos apenas de comparar Deus com um pai e o que era invisível, instantaneamente se torna visível em nossas mentes, como uma pessoa a quem nós podemos responder como tal. Um enorme estoque de palavras, que se referem a objetos específicos, está em circulação em toda sociedade e nós estamos sob constante pressão para provê-los com sentidos concretos equivalentes. Desde que suponhamos que as palavras não falam sobre “nada”, somos obrigados a ligá-las a algo, a encontrar equivalentes não verbais para elas. Assim como se acredita na maioria dos boatos por causa do provérbio; “não há fumaça sem fogo”, assim uma coleção de imagens é criada por causa do provérbio: “Ninguém fala sobre coisa alguma” (MOSCOVICI, 2003. p. 72). A partir desse pressuposto, percebemos que a teoria em pauta opera uma transformação do sujeito e do objeto na medida em que são modificados no processo de elaborar o objeto. O sujeito amplia sua categorização e o objeto se acomoda ao repertório do sujeito, repertório o qual, por sua vez, também se modifica ao se agregar a mais um indivíduo. 1.6 Representação social e meio ambiente Ecologia, meio ambiente e desenvolvimento, a partir das conferências de cúpula e dos movimentos ambientalistas, tornaram-se conceitos amplamente divulgados, utilizados e discutidos, desde a década de 1970 até o presente momento. Daí decorre, que o estudo das representações sociais sobre estes temas têm-se verificado de ampla e profícua produção. Quando se trata dos conceitos de meio ambiente e educação ambiental, por serem tão difusos e muito variados, devem ser trabalhados a partir das representações sociais. Sendo assim, no que diz respeito à contemporaneidade dos conhecimentos relacionados ao meio ambiente, verifica-se que se encontra em plena construção, não existindo consenso sobre esse conceito nem mesmo na comunidade científica. Admitindo-se que o mesmo ocorra com a comunidade em geral, fica evidente a necessidade de se conhecer e de se trabalhar a partir das representações que os sujeitos sociais envolvidos no processo educativo têm a respeito da temática ambiental. Portanto, conhecer as representações sociais dos alunos sobre o meio ambiente poderá contribuir para entender como eles as estão captando, interpretando, construindo e agindo em sua realidade, uma vez que essas representações são fundamentais na formação de opiniões e no estabelecimento de atitudes individuais ou coletivas. Para isso, destacamos a necessidade de verificarmos em que medida a compreensão dessas representações de meio ambiente ou simplesmente ambiente pode nos indicar caminhos para a inserção da educação ambiental na nossa prática pedagógica. Sob essa ótica, apresentaremos no próximo capítulo, a escola onde fizemos a nossa pesquisa, os alunos e as suas representações sociais de meio ambiente e dos problemas ambientais por eles percebidos. CAPITULO 2 OS SUJEITOS E A PESQUISA 2.1 A origem dos estudos em representações sociais As representações sociais começaram a ser discutidas na sociologia com Émile Durkheim que, sob a influência da sociologia positivista do final do século XIX, e sem qualquer vínculo com a psicologia, assegurou que as representações coletivas não poderiam ser reduzidas a representações individuais. Sendo assim, defendia a divisão entre as representações individuais como campo da psicologia e representações coletivas, como objeto da sociologia. Minayo (2008) destaca ainda que: Na concepção de Durkheim, é a sociedade que pensa. Portanto, as representações não são necessariamente conscientes do ponto de vista individual. Assim, de um lado, elas conservam sempre a marca da realidade social onde nascem, mas também possuem vida independente, reproduzem-se e se misturam, tendo como causas outras representações e não apenas a estrutura social (p. 90). Ainda para Minayo, embora reconheça como base o substrato social, Durkheim defende sua autonomia relativa. Segundo ele, algumas, mais que outras, exercem sobre nós uma espécie de coerção para atuar em determinado sentido. Dentre estas se destacam a religião e a moral, assim como as categorias de espaço, tempo e personalidade, consideradas por ele como representações sociais históricas. Na ótica de Moscovici (2003), Durkheim acreditava que todo modo de agir, permanentemente ou não, que possa exercer alguma forma de coerção externa ao indivíduo ou que, por demonstrar existência própria, independe das manifestações coletivas, como fatos sociais. Assim, a sociologia não considerava o indivíduo de maneira isolada, mas sim, inserido em um contexto coletivo, de uma realidade objetiva. Segundo Moscovici (2003), para Durkheim, as diferentes formas de linguagens, os mitos, as lendas, as concepções religiosas, as crenças morais, elaboradas pela sociedade, são avaliadas como efeitos sociais, que demonstram que os fatos sociais são construídos pelo modo como a sociedade entende a si própria e ao mundo que a cerca. Minayo (2003), ao analisar as ideias de Durkheim sobre representações sociais, assevera que; No seu afã de considerar a objetividade da sociologia, Durkheim tenta eximir a análise de qualquer fato social e, portanto, das representações sociais, do envolvimento do pesquisador e dissecar esse “fato” de qualquer comprometimento ideológico. Diz que o método sociológico deve ser isento de qualquer filosofia; deve ser objetivo, isto é, os fatos são coisas e como tal devem ser tratados; os fatos sociais são exclusivamente sociológicos: a noção de especificidade da realidade é de tal modo necessária ao sociólogo que só uma cultura especificamente sociológica pode compreender os fatos sociais (MINAYO, 2003, p. 91). Como se pode observar, Durkheim entendia a representação social enquanto coletiva, ou seja, o indivíduo enquanto ser coletivo e, apesar de reconhecermos as suas contribuições para o presente debate, não nos apoiaremos nesta perspectiva teórica, buscaremos para as nossas análises a abordagem elaborada por Moscovici e discutida por outros autores. 2.1.1 Moscovici e as representações sociais A nossa pesquisa apoia-se no conceito trabalhado por Moscovici, além de outros teóricos que, de certa forma, percorrem a mesma linha de pensamento de Moscovici, a exemplo de Jovchelovitch (2008), Farr (2008), sobre as representações sociais. Moscovici (2003) concebe as representações sociais diferentemente de Durkheim, apesar de reconhecer a importância do trabalho desenvolvido por esse sociólogo acerca das representações coletivas. Moscovici (2003) entende as representações como sociais, posto que sejam na verdade estruturas dinâmicas, que operam em um conjunto de relações e de comportamentos. Por este motivo, enfatiza o termo „social”, e não “coletivo”, como o fez Durkheim. Na ótica de Moscovici (2003), as representações são sociais, não somente devido ao seu objeto comum ou pelo fato de serem compartilhadas, mas também por ser produto de uma divisão de trabalho que as distingue com certa autonomia. Moscovici (2003) argumenta, ainda que, com o apoio dos meios de comunicação de massa, as ciências, religiões e ideologias oficiais, sofrem muitas mudanças para que consigam inserir-se na vida cotidiana das pessoas e tornar-se parte da realidade comum. Por esse motivo, há constante necessidade de reconstruir o senso comum, pois como defende Boaventura de Souza Santos em seu trabalho intitulado um discurso sobre as ciências: A ciência pós-moderna procura reabilitar o senso comum, por reconhecer nesta forma de conhecimento algumas virtualidades para enriquecer a nossa relação com o mundo. É certo que o conhecimento do senso comum tende a ser um conhecimento mistificado e mistificador, mas apesar disso e apesar de ser conservador, tem uma dimensão utópica e libertadora que pode ser ampliada através do diálogo com o conhecimento científico (SANTOS, 2004, p. 89). Na maioria das vezes, as representações sociais são entendidas como um saber do senso comum; no entanto, observamos que este tipo de conhecimento é de grande relevância para o estudo dos processos cognitivos e das relações sociais. Assim, as representações não devem ser compreendidas como um conhecimento falso ou sem validade, mas como uma forma de conhecimento que, apesar de não ser científico, é de grande valia para a construção do próprio conhecimento científico. Nesse sentido, Reigota (2004) discute a importância de estabelecermos uma distinção entre as representações sociais e os conceitos científicos. Estes possuem como característica a generalidade e o rigor. Em contrapartida, as representações sociais estão mais ligadas a um tipo de conhecimento que pode abranger aspectos de cientificidade, que se fundamentam na compreensão descompromissada do real e se mantêm fora do padrão inflexível de formulação do saber. Assim, o autor afirma ainda que temos a oportunidade de localizar os conceitos científicos nos moldes em que foram apreendidos e internalizados pelas pessoas e as representações sociais atravessam a sociedade exteriormente aos indivíduos isolados e formam um complexo de ideias e motivações que se apresentam a eles já consolidadas. Sendo assim, as representações não devem ser consideradas estáticas ou construídas por indivíduos isolados, pois elas surgem mediante a interação entre as pessoas e, exatamente por este motivo, quando as estudamos, estamos na verdade, analisando as pessoas, com suas crenças, seus valores, seus preconceitos, enfim, com seus pensamentos. Sob este aspecto, para Moscovici (2003), as representações possuem um foco, que é o de tornar familiar algo não familiar. Deste modo, as representações que construímos, com frequência, são um esforço de tornar comum e real algo que é incomum, ou seja, não familiar. Todavia, esta tarefa de tornar o não familiar em familiar não é simples como pode parecer. Exige-se para isso um difícil processo de pensamento fundamentado na memória e em conclusões passadas, isto é, quem determina o direcionamento em que o grupo tenta dar ao não familiar são as imagens, ideias e a linguagem compartilhada por determinados grupos. Assim, o pensamento social possui estruturas tradicionais, em que o que prevalece muitas vezes é a convenção e a memória. No momento em que o indivíduo nasce, é inserido em um meio social que possui imagens, ideias e linguagens, passando, assim, a interagir com as representações; assim as consideramos como históricas em sua essência. Moscovici ao analisar o desenvolvimento dessas representações, afirma que: Nossas representações de nossos corpos, de nossas relações com outras pessoas, da justiça, do mundo, etc. se desenvolvem da infância à maturidade. Dever-se-ia enfrentar um estudo detalhado do seu desenvolvimento, estudo que explorasse a forma como uma sociedade é concebida e experimentada simultaneamente por diferentes grupos e gerações (MOSCOVICI, 2003, p. 108). Um estudo a partir das representações, de como uma sociedade é concebida e experimentada por diferentes grupos e gerações, pode fornecer subsídios para se compreender muitos aspectos que estão presentes na sociedade atualmente e, com isso, buscarmos elementos para atuar nessa sociedade. 2.2 A opção pela representação social como referencial metodológico Ao optarmos por trabalhar com representações sociais como referencial metodológico, acreditamos ser este o melhor caminho para compreendermos o que pensam e quais são os conhecimentos que os alunos trazem sobre o conceito de meio ambiente ou simplesmente ambiente. As representações dos alunos sobre meio ambiente são política e historicamente construídas e definidas por meio das experiências pessoais e coletivas. Vale salientar que diversos meios de comunicação, como a mídia, também assumem um papel relevante na formação dessas representações. Este trabalho busca, portanto, interpretar algumas representações que permeiam entre os alunos do 6º ano, sobre o meio ambiente e dos problemas ambientais que afetam principalmente o seu ambiente local, sem, contudo, desconsiderar o ambiente global. De acordo com a teoria proposta por Moscovici, para apreendermos as representações sociais dos alunos precisamos buscá-las no diálogo. Sendo assim, procuramos trabalhar com questões abertas, pelas quais os alunos se sentiram livres para desenvolver seus pensamentos sobre o tema pesquisado. As técnicas de investigação a que recorremos neste trabalho foram as observações, entrevistas semiestruturadas por meio de rodas de conversas, desenhos e questionários com perguntas abertas objetivando não induzir o respondente a enquadrar suas ideias em alternativas preestabelecidas. Trabalhamos inicialmente com duas perguntas: 1- O que é meio ambiente? 2Quais os problemas ambientais? Todavia, considerando as ponderações de Abric (1994, apud SILVA, 2007) que, apesar de defender o questionário como um importante instrumento de levantamento das representações, estabelece que seja a entrevista o instrumento mais adequado para se realizar um estudo sobre representações sociais. No decorrer da nossa pesquisa, estabelecemos momentos com “rodas de conversa”, oportunizando aos alunos falarem a respeito do ambiente e sobre os problemas ambientais em suas comunidades e na própria escola. Esses momentos foram facilitados por estarmos na condição de pesquisador participante, uma vez que trabalhamos na escola em questão. 2.3 A escola e os arredores Para a realização desta pesquisa, de início, foram intencionalmente escolhidas duas escolas públicas no município de Bayeux, já que a intenção era trabalhar com escolas localizadas em áreas que apresentassem fortes problemas ambientais. Todavia, a pesquisa nessas duas instituições se tornou impraticável devido ao fato de se situarem em outro município, ficando distante das outras escolas em que trabalhamos em João Pessoa, e tornando inviável o nosso envolvimento efetivo no trabalho com aquela comunidade. Nesse mesmo período ingressamos por concurso público na Prefeitura Municipal de João Pessoa e passamos a trabalhar na Escola Municipal de Ensino Fundamental Cônego João de Deus, localizada na avenida Expedicionários, Nº. 728, no bairro dos Expedicionários. Portanto, a escolha dessa escola se deu por questões de conveniência, tendo em vista a nossa designação para trabalhar nesse estabelecimento, assim como a mesma também atendia aos objetivos da nossa pesquisa, tendo em vista que os alunos da escola moram, em sua maioria, em uma área com sérios problemas ambientais. A escola em questão foi fundada em 1948 e ficava localizada no bairro da Torre na rua Maroquinha Ramos, s/n, em uma casa que foi alugada pela prefeitura. Passou a ter sede própria em 1971, mas devido à grande procura, houve a necessidade de se instalar em prédio mais apropriado para o seu funcionamento, e por isso se instalou em vários endereços distintos, até que em 1986 foi instalada no prédio atual (Figuras 1e 2). . Figura 1: Croqui da localização da Escola Cônego João de Deus Fonte: STRANS, 2008 Figura 2: Imagem externa da escola Fonte: Eliane Mendonça, 2008 Atualmente, a escola funciona nos três turnos, compreendendo as séries do 1º ao 9º ano do ensino fundamental. Sendo que, no turno da manhã, funcionam duas turmas do 6º ano, três do 7º ano, uma do 8º e uma do 9º ano, totalizando 158 alunos. À tarde estão matriculados 75 alunos distribuídos em uma turma do 1º ano, uma do 2º ano, uma do 3º, uma do 4º e uma do 5º ano, somando 75 alunos. No turno da noite, funcionam turmas do EJA (Educação de Jovens e Adultos) para onde migram os alunos que ficam fora da faixa etária adequada para os turnos diurnos. A quantidade de alunos do turno da noite é ainda mais reduzida e o índice de evasão escolar também é alto. Atualmente, estão matriculados 68 alunos; no entanto, é comum, após o recebimento da carteira de estudante, eles “desaparecerem”. O prédio apresenta um espaço físico não muito amplo, com dez salas de aulas, mas em função da quantidade de alunos que a cada ano é mais reduzida, é suficiente para a atual demanda (Figuras 3 e 4). A escola possui 10 salas de aulas, um laboratório de informática com acesso à internet, recursos didáticos diversos, como aparelhos eletrônicos (datashow, DVD, TV), uma biblioteca com um bom acervo, além do espaço externo que, apesar de estar precisando de algumas reformas como a cobertura da quadra de esportes, é amplo o bastante para ser aproveitado em vários projetos que possam contribuir para a formação dos educandos. (Figura 5) Quanto à quantidade de profissionais que trabalham na escola, atualmente são trinta e dois professores, sendo vinte e seis do quadro efetivo e seis prestadores de serviço. No quadro administrativo, a escola conta com sete funcionários. Figura 3: Imagem interna da escola e dos alunos em atividade Fonte: Marcellyno Lima, 2008 Figura 4: Momento lúdico no pátio interno da escola Fonte: Marcellyno Lima, 2008 Figura 5: Pátio interno da escola, sendo utilizado como palco para apresentação de peça teatral Fonte: Marcellyno Lima, 2008 Como já citado anteriormente, a escola localiza-se no bairro dos Expedicionários que, segundo dados colhidos pelo IBGE, no último censo de 2000, a população residente era de 3.384 habitantes, sendo 1.470 homens e 1.914 mulheres. Ainda segundo o IBGE, o bairro possui boa infraestrutura, com ruas calçadas e linha de transporte coletivo. Com relação ao quesito saneamento básico, é que, de um total de 913 residências, apenas 800 fazem coleta de lixo pelo serviço oferecido pela Prefeitura Municipal, enquanto 111 dão destino ao seu lixo enterrando ou jogando em terrenos desocupados. Das 913 residências, 905 possuem banheiro, com ligação ao sistema público de esgoto. 05 utilizam-se de fossa séptica, 16 possuem fossa rudimentar e os 23 restantes usam o problemático sistema de vala (Figura 6). Figura 6: Alunos realizando estudo do meio na comunidade São Rafael, João Pessoa Fonte: Eliane Mendonça, 2008 2.4 Os sujeitos da pesquisa Nas duas turmas do 6º ano do turno da manhã, foram matriculados 54 alunos, sendo 26 alunos no 6º ano A e 28 alunos no 6º ano B; no entanto, no 6º ano A ocorreram 5 transferências e 4 desistências, enquanto que no 6º ano B ocorreram 2 transferências e 5 desistências, restando apenas 38 alunos para realizarmos a nossa pesquisa. A caracterização desses alunos foi feita com base em dados coletados a partir de questionários aplicados nas duas turmas, por meio dos quais foram colhidos dados que formam o perfil socioeconômico dos mesmos e de suas famílias. Em relação à idade dos alunos, constatou-se que apenas 21% (vinte e um por cento) estão na idade adequada para a série, que é de 10 e 11 anos, mas a idade próxima, ou seja, 12 anos, representa a maioria nas duas turmas (37%). Com relação aos alunos que estão com idade acima da indicada para a série, ou seja, fora da faixa etária, verificou-se que estes formam um percentual bastante considerável nas turmas. (Figura 7) Figura 7: Idade dos alunos Fonte: Pesquisa direta Questionou-se também a respeito dos principais meios de informação que os alunos têm à disposição em seus lares. A grande maioria faz uso dos meios eletrônicos mais acessíveis a essa camada da população, estando a televisão e o aparelho de DVD como os veículos de informação mais utilizados pelos alunos. Em seguida, eles apontaram os aparelhos de som (rádios) e os livros didáticos fornecidos pela escola. Dentre os meios citados, observamos que as revistas representam aquelas menos utilizadas (Figura 8). É interessante salientarmos que o nosso interesse em buscar dados acerca dos meios de informação utilizados pelos alunos teve como objetivo entender as origens das representações desses alunos. E como podemos observar pelos resultados, a TV, entre outros aparelhos eletrônicos, representa um percentual significativo na realidade desses alunos. Reigota (2002) adverte que no Brasil o cotidiano de milhares de pessoas é repleto de presenças e realidades virtuais, trazidas principalmente pelos meios de comunicação de massa, sobretudo a televisão. Nesse sentido, ressaltamos que, a partir do momento em que a televisão difunde imagens que adentram com muita força o cotidiano das pessoas, ela se torna veículo de difusão de representações sociais sobre os mais variados temas. Figura 8: Meios de informação Fonte: Pesquisa direta A maior parte dos alunos que estuda na escola, de acordo com as fichas individuais, reside nas áreas circunvizinhas, dentre elas, o bairro da Torre, de Tambauzinho e, principalmente, nas comunidades de Brasília de Palha, Padre Hildon Bandeira, São Rafael e Cafôfo. Possuem baixo poder aquisitivo, seus pais vivem principalmente de atividades relacionadas à prestação de serviços, tais como: empregadas domésticas, pedreiros, carpinteiros, faxineiras, jardineiros, manicures, entre outras, que oferecem uma renda mensal média que varia de meio a um e meio salário mínimo (Figura 9). Figura 9: Profissão dos responsáveis Fonte: Pesquisa direta Os pais dos alunos, ainda de acordo com as informações obtidas nas fichas individuais, possuem baixo nível de escolaridade, muitos dos quais são analfabetos e, como é relatado pelos próprios alunos, de um modo geral, não costumam ajudar nas tarefas escolares, ou porque não saber ler, ou porque, simplesmente, delegam totalmente para a escola, a tarefa de escolarizar seus filhos. No tocante aos responsáveis pelos alunos (Figura 10), verificou-se que a grande maioria reside com ambos os genitores, o que chamou a nossa atenção, pois em 2004, quando trabalhávamos em uma escola da rede privada de João Pessoa, o Colégio Marista Pio X, foi feito uma pesquisa com os alunos e os resultados demonstraram que a maioria dos alunos morava com a mãe em função do alto índice de divórcios entre os pais. Figura 10: Responsável pela educação dos alunos Fonte: Pesquisa direta Como pesquisadora participante, nos foi possível realizar uma observação além do universo da sala de aula, no que diz respeito à hora do intervalo, ao momento da merenda, da aula “vaga”, entre outros espaços que fazem parte do cotidiano escolar. Na hora do intervalo, percebemos que, apesar da escola apresentar um espaço físico relativamente adequado à quantidade de alunos matriculados, este é subaproveitado para as atividades que possam se desenvolver fora da sala de aula, impossibilitando, assim, as crianças de gastarem a sua energia de forma mais saudável, isto é, educativa. Essa energia acaba sendo canalizada para a violência que, de certa forma, já se tornou banal, posto que em suas comunidades e, muitas vezes, na própria família, o contato com as diversas formas de violência é comum. Daí, ser corriqueiro, os empurrões, os murros, entre outras formas de agressões não menos preocupantes. Quando questionamos um aluno que havia dado um soco no abdômen do colega, o porquê de tanta violência, ele nos disse: Professora, a senhora não sabe o que é violência não. Eu só dei um murro, não enfiei a faca nele não (Aluno do 6º ano, Escola Cônego João de Deus, 2008). Após o recreio, a visão é desoladora: lixo e objetos utilizados na merenda por todos os lados, inclusive nas salas de aulas. A volta dos alunos para as salas após o recreio e no intervalo entre as aulas, quando há troca de professores, também é um problema, sendo necessária muitas vezes a ajuda dos membros do corpo técnico para os fazerem retornar às suas respectivas salas. Ao abordarmos essas questões relacionadas à indisciplina, objetivamos tão somente contextualizar o universo do aluno, tendo em vista que ao estudarmos suas representações, devemos levar em conta as experiências de vida, a sua bagagem cultural, entre outros aspectos que, direta ou indiretamente, contribuirão para a nossa pesquisa. 2.5 Representações dos alunos sobre meio ambiente Conforme o que já discutimos anteriormente, o foco desta pesquisa foi a busca pelas representações dos alunos acerca do meio ambiente e dos problemas ambientais. Com esta pesquisa, nós nos propusemos compreender a percepção subjetiva de alguns aspectos relacionados ao meio ambiente e aos problemas ambientais percebidos pelos alunos para chegarmos posteriormente à prática da educação ambiental. Entendemos que o ato de cuidar começa com o ato de gostar e para gostar é necessário antes de qualquer coisa, conhecer. Tendo como referência os objetivos da pesquisa, elaboramos inicialmente um roteiro de entrevista para que os alunos nessa roda de conversa se sentissem livres para falarem sobre o meio ambiente. No entanto, percebemos que a maioria não se sentiu à vontade para falar; daí, partimos para a segunda opção que foi a aplicação de questionário com duas perguntas “abertas”: 1- O que é meio ambiente? 2- E quais os problemas ambientais que eles reconheciam no espaço vivido por eles. Sugerimos então que aqueles que não se sentissem à vontade para responder por palavras, que o fizessem por desenhos, já que o desenho espontâneo também se constitui um elemento de análise sobre o desenvolvimento cognitivo da realidade representada pelo aluno. Pontuschka et al (2007), ao destacarem a importância do desenho, afirmam que: Os desenhos espontâneos em diferentes faixas etárias e níveis socioeconômico-culturais possibilitam identificar o desenvolvimento gráfico-espacial dos alunos como uma representação do mundo próximo e conhecer não só suas informações sobre lugares, mas também seu imaginário sociocultural. Os desenhos de crianças oferecem dados aos professores sobre situações de vida, pensamentos, medos. É por meio do desenho, em atividade individual ou coletiva, que o não dito se expressa nas formas, nas cores, na organização e na distribuição espacial (PONTUSCHKA et al. 2007, p. 293). Muitos alunos então optaram em utilizar o desenho como meio de expressar as suas ideias e quando eles começaram a responder a segunda pergunta, que foi a de buscar as representações sobre os problemas ambientais, conseguimos utilizar os dois meios, isto é, as respostas por meio do questionário e os desenhos, além do “bate-papo” que estabelecemos na sala. Procuraremos estabelecer um diálogo entre o estudo das representações sociais dos alunos e o da percepção a partir da ótica de Yi-Fu Tuan, pois entendemos que as representações perpassam pela experiência que, segundo Tuan (1983), é um termo que abrange as diferentes maneiras através das quais uma pessoa conhece e constrói a realidade. Ainda de acordo com Tuan (1983), essas maneiras variam desde os sentidos mais diretos e passivos como o olfato, paladar e tato, até a percepção visual e a maneira indireta de simbolização. A realidade que nos cerca é apreendida por nós por meio dos sentidos, que podem ser comuns, assim como a visão, a audição, o tato, o olfato, o paladar, ou mais refinados, como o sentido das formas, de harmonia, de espaço, de lugar. Os fenômenos que nos chegam diretamente, por intermédio dos sentidos, ocupam apenas uma parte de nosso repertório de conhecimentos. O outro, o das informações adquiridas de maneira indireta, nos é transmitido pelas pessoas, escola, livros, meios de comunicação, entre outros meios que povoam o nosso cotidiano. Cada imagem e ideia sobre o mundo é composta da experiência pessoal, aprendizado, imaginação e memória. Os espaços com os quais nos relacionamos, os mundos sobre os quais lemos e vemos, povoam nossa imaginação e contribuem para a formação das nossas representações. Todas as nossas experiências, desde àquelas mais estreitamente ligadas ao nosso mundo diário, até aquelas que são mais distanciadas, vêm juntas compor o nosso quadro individual da realidade. O meio ambiente é elaborado por cada pessoa, pela refração através de lentes culturais e pessoais, de costumes e fantasias. A capacidade de perceber, conhecer, representar, pensar e se comunicar permite ao homem moldar o meio ambiente. Suas respostas ambientais são influenciadas pelas interpretações que ele é capaz de fazer a partir de suas experiências perceptivas presentes e passadas, de suas expectativas, propósitos, aspirações, gostos e preferências. Assim sendo, percepção no entendimento de Tuan (1980), é tanto a resposta dos sentidos aos estímulos externos, como a atividade proposital, na qual certos fenômenos são claramente registrados, enquanto outros retrocedem para a sombra ou são bloqueados. Se a percepção é um fator sempre presente em todas as atividades do homem, podemos concluir que ela tem um efeito marcante na conduta dos indivíduos frente ao meio ambiente. Sendo assim, a percepção do meio ambiente se faz em várias escalas, que vão desde a pessoal e local até as mais complexas e globais. Ao analisar as diferentes maneiras como as pessoas sentem e conhecem o espaço, Tuan (1983) destaca que a experiência implica a capacidade de aprender a partir da própria vivência. Daí, experienciar é aprender; significa atuar sobre o dado e criar a partir dele. O dado, ainda segundo Tuan (1983), não pode ser conhecido em sua essência. O que pode ser conhecido é uma realidade que é um constructo da experiência, uma criação de sentimento e pensamento. Dentre os meios que utilizamos para percebermos o mundo à nossa volta, a visão é o sentido mais eficaz de que nos servimos para nos movimentarmos no meio ambiente e desenvolvermos nossas atividades, pois, como considera Tuan (1980), O homem depende mais conscientemente da visão do que dos demais sentidos para progredir no mundo. Ele é predominantemente um animal visual. Um mundo mais amplo se lhe abre e muito mais informação, que é espacialmente detalhada e específica, chega até ele através dos olhos (TUAN, 1980, p. 7). Classificamos as representações de meio ambiente dos alunos em duas categorias, sendo a primeira, naturalista, caracterizada por apresentar noções relativas aos aspectos naturais do meio ambiente, assim como noções espaciais, estas correspondentes ao habitat do ser vivo. A segunda se diferencia por seu caráter antropocêntrico, destacando a utilidade dos recursos naturais para a sobrevivência dos seres humanos (REIGOTA, 1999). A pesquisa foi feita com trinta e quatro (34) dos trinta e oito (38) alunos das duas turmas do 6º ano, embora naquele ano de 2008 mais alunos houvessem se matriculado, como já demonstrado anteriormente; no entanto, alguns já haviam desistido quando iniciamos a pesquisa, por volta do mês de agosto deste mesmo ano. Ao realizarmos a classificação, observamos que 65% dos alunos possuem uma concepção naturalista do meio ambiente, enquanto 35% têm uma visão antropocêntrica. (Figura 11 e Quadro 2). Figura 11: Representações sociais de meio ambiente Fonte: Pesquisa Direta Quadro 2: Representações sociais de meio ambiente Representações sociais de meio ambiente Naturalistas 22 Antropocêntricas 12 Total 34 Tuan (1980) nos alerta que as imagens da topofilia são derivadas da realidade circundante. Sendo assim, as pessoas atentam para aqueles aspectos do meio ambiente que lhes inspiram respeito ou lhes prometem sustento e satisfação no contexto das finalidades de suas vidas. Na maioria das respostas, tanto nas escritas, como nos desenhos, encontramos essa relação de admiração, de respeito e de satisfação, demonstrada pelas citações e desenhos que fizeram do rio, das frutas e de outros elementos que, de certa forma, representam essa topofilia. As representações de meio ambiente apresentadas por 65% dos alunos, investigados nas duas turmas do 6º ano estão associadas a uma visão naturalista do ambiente, como as demonstradas nas figuras a seguir: Figura 12: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluna A, 11 anos - 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008 Merideau (1974), ao analisar o desenho infantil, ressalta que: A avaliação do espaço obedece primeiramente a imperativos que não são métricos, mas afetivos [...] A criança não se preocupa nem um pouco em respeitar as proporções dos objetos; ela lhes atribui uma “grandeza afetiva (1974, p. 43). Pelas imagens do desenho, a aluna A (11 anos), demonstra a sua visão naturalista do meio ambiente, reforçada na sua escrita: É floresta protegida que tem ar puro e limpo. O rio protegido é um lugar limpo. Nesta outra representação, o rio é colocado em primeiro plano, evidenciando a relação afetiva com o lugar, posto que mesmo os alunos que não moram na comunidade São Rafael que se localiza nas margens do rio Jaguaribe possuem algum tipo de relação com o rio. O vale que aparece na Figura 13 é identificado por Tuan (1980) simbolicamente com útero e com refúgio, já que a sua concavidade protege e nutre a vida. Figura 13: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluno B, 13 anos - 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Em mais um desenho (Figura 14), o rio é representado, levando-nos a concordar com Tuan (1980), ao dizer que ele promete uma subsistência fácil por ser um nicho ecológico altamente diversificado, já que há nos rios, nas planícies de inundação e nas encostas dos vales, uma grande variedade de alimentos. Figura 14: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluno C, 10 anos- 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Muitos desenhos expressam uma visão de meio ambiente relacionada aos problemas ambientais, dentre os quais, o desmatamento, a poluição do próprio rio, que, como já citado anteriormente, é um elemento muito presente na vida do aluno (a) que reside nas proximidades do rio. Em alguns desenhos, a casa aparece demonstrando certa relação de pertencimento ao meio ambiente. Com relação à presença do elemento casa em desenhos, Merideau assim discute: Entre todos os temas possíveis, o da casa pode permitir apreender de que modo a criança vive o espaço. Primeiro espaço explorado, símbolo do meio familiar em que se desenvolvem as primeiras experiências decisivas, a casa aparece violentamente carregada de afetos. Prolongamento do corpo e da personalidade da criança, a casa constitui para ela o mundo usual de sua experiência perceptiva, cognitiva e afetiva, lugar em que se abrem os primeiros gestos, refúgio contra um universo desconhecido e ameaçador (MERIDEAU, 1974, p. 51). Figura 15: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluno D, 11 anos- 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Na análise do desenho, observamos que, embora o aluno tenha priorizado os elementos naturais do ambiente, ao desenhar a casa o homem cortando a árvore, demonstra uma visão antropocêntrica expressa no desenho do alto com o menino à margem do rio com uma prancha de surf e abaixo a trouxa de roupa à beira do rio, caracterizando a utilidade do rio, tanto para o lazer, como para o trabalho, sem falar no alimento, representado pelo peixe. Na Figura 15, o aluno E, 14 anos, também corrobora com essa visão antropocêntrica ao afirmar que o meio ambiente: É um lugar onde o ser vivo se adapta ao ambiente. Figura 16: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluno E, 14 anos - 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Na opinião da aluna F, 14 anos: O meio ambiente é muito importante para os seres humanos, porque é o ambiente que nos dá vida, ar, etc. e dá vida aos animais. Ainda segundo a aluna: O problema onde moro é que as pessoas não cooperam com o meio ambiente, eles jogam lixo nas ruas, o rio tá poluído, o ar daqui a uns dias nós vamos respirar só lixo. A aluna, além de evidenciar mais uma vez a relação com rio, confirma a sua concepção antropocêntrica ao afirmar que é o ambiente que nos dá vida, ar, etc., e, apesar dessa visão de homem exterior, já nos chama a atenção para a responsabilidade de cada um para com o meio ambiente. Figura 17: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluno F, 14 anos- 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Alguns alunos, mesmo demonstrando uma percepção naturalista ou antropocêntrica, associam diretamente o meio ambiente com a poluição revelando, em muitos casos, reconhecerem, além dos aspectos biofísicos, os sociais e culturais do ambiente: Pra mim o meio ambiente é a não poluição nas ruas, só isso; e a poluição que vocês veem, eu já vi poluição nos rios, nas praias e nas ruas que a gente passa, etc. Ao examinarmos essas representações do meio ambiente associadas aos problemas ambientais, concluímos que elas estão diretamente relacionadas com o espaço de vivência deles, nas proximidades com o rio Jaguaribe, que evidencia toda a problemática ambiental, como mais tarde tivemos a oportunidade de concretizar essa visão, ao visitar com eles o ambiente próximo ao rio. Figura 18: Alunos do 6º ano da Escola Cônego João de Deus realizando estudo do meio na comunidade São Rafael, João Pessoa, às margens do rio Jaguaribe Fonte: Eliane Mendonça, 2008. Na Figura 19, o aluno representou a relação entre os componentes naturais, quando evidencia a vegetação com componentes sociais, destacando as pessoas, os carros, a ponte e, evidentemente, o lugar onde vive, onde estabelece os seus vínculos afetivos e suas experiências. Merleau-Ponti (apud MERIDEAU, 1974, p. 43) ressalta que “[...] além da distância física e geométrica que existe em mim e todas as coisas, uma distância vivida me liga às coisas que importam e que existem para mim”. O autor considera, portanto, que o desenho respeita primeiramente os imperativos afetivos, tendo em vista que a criança não estabelece uma relação de grandeza com objetos representados no desenho: Figura 19: Representação gráfica do meio ambiente Fonte: Aluno G, 14 anos - 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Os alunos que evidenciaram essa percepção de meio ambiente demonstraram nas suas respostas uma visão mais integrada do meio ambiente, além de salientar a preocupação com o cuidar, chamando a atenção para a responsabilidade de cada um com o meio. Podemos observar isso na Figura 20, por meio da qual, o aluno deixa claro essa relação topofílica com o meio ao desenhar o ato de plantar e o abraço à árvore. Entretanto, Tuan (1980) nos alerta que apesar de certos meios ambientes possuírem o irresistível poder de despertar sentimentos topofílicos, esta não pode ser a causa direta da topofilia. No entanto, ainda segundo o autor, pode fornecer o estímulo sensorial que, ao agir como imagem percebida, dá forma às nossas alegrias e ideais. Em minha opinião meio ambiente é o planeta Terra, onde existem vários seres vivos, onde há vida, onde há pessoas, animais. Onde há fábricas, árvores, praças, casas, etc. (Aluno H, 12 anos, 2008). Pra mim na verdade tudo faz parte do meio ambiente: fauna, flora, as pedras, os vivos, etc. (Aluno I, 15 anos, 2008). Figura 20: Representação gráfica do meio ambiente Fonte:Aluno I, 15 anos- 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. No segundo momento da pesquisa, os alunos foram questionados sobre os problemas ambientais que tanto existem nos arredores da escola, no lugar em que vivem, como até, numa escala mais ampla, no planeta de um modo geral. Alguns alunos da turma do 6º ano B moram na comunidade São Rafael, os demais, na comunidade Padre Hildon Bandeira que se localiza mais próximo à escola. Os que vivem na comunidade São Rafael, ao serem questionados sobre os problemas ambientais que existem no seu bairro, responderam que o rio é o maior problema, pois a própria comunidade joga lixo no rio (Figura 21). Figura 21: Representação gráfica dos problemas ambientais Fonte: Aluno J- do 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Outro problema muito citado pelos alunos foi o desmatamento, além do acúmulo de lixo em terrenos desocupados ou “baldios”, como eles assim o chamam. Quando uma aluna abordou o problema das enchentes, já que naquele ano de 2008, mais especificamente no mês de maio, ocorreu uma grande enchente lá na comunidade, deixando muitas pessoas desabrigadas, um aluno tomou a palavra de imediato e disse que a enchente acontecia porque construíam as casas na “beira” do rio. Isso gerou certa celeuma na sala, pois a maioria acreditava que as enchentes eram provocadas apenas por excesso de chuvas. No bate-papo, apenas uma aluna ressaltou a violência, mais especificamente, o tráfico de drogas na comunidade como um problema ambiental. Os outros alunos viram como problemas ambientais só os relacionados ao meio natural. Com relação ao questionário e aos desenhos que os alunos fizeram, estabelecemos uma seleção dos problemas de acordo com as representações que os mesmos iam destacando. Os dados representam o total de vezes em que os problemas foram sendo citados e não o total de alunos (Figura 22 e Tabela 4). Figura 22: Representações sociais dos problemas ambientais Fonte: Pesquisa direta Quadro 3: Representações sociais dos problemas ambientais Problemas ambientais Lixo Desmatamento Poluição dos rios Poluição do ar Produtos químicos Esgoto a céu aberto Assassinato Roubo Violência na escola Atropelamento Maltrato com os animais Drogas/Tráficos Representações sociais 12 10 19 8 1 1 3 1 1 2 3 3 Nas narrativas escritas e gráficas, os alunos ressaltam a sujeira nas ruas, o desmatamento, a poluição do rio; alguns problemas sociais, como a violência em geral; e alguns problemas específicos da escola, como a falta de uma cobertura para a quadra de esportes, a sujeira dos banheiros, as carteiras quebradas e a falta de educação dos próprios alunos. Sujeira nas ruas, quadra caindo aos pedaços, banheiros da escola sujos. Pias caindo, má educação, etc. (aluna L, 11 anos, 2008). Onde eu moro tem muito lixo no rio, nas casas e nos esgotos, as pessoas jogam muito lixo nas ruas e também nas calçadas. Minha mãe nunca fez isso, mas desse jeito o mundo um dia vai se acabar. (aluno M, 13 anos, 2008). Para a aluna N, 11 anos, o rio é o principal elemento a sofrer com os problemas ambientais (Figura 23): Figura 23: Representação gráfica dos problemas ambientais Fonte: aluno N, 11 anos - 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Com essas representações, partilhadas pelas narrativas escritas, orais e gráficas, acreditamos ter avançado um passo na identificação tanto das concepções acerca do meio ambiente, quando na percepção dos alunos em relação aos problemas ambientais. Ao discutir sobre a relação entre os conceitos que estão presentes no dia a dia de nossas vidas e a aprendizagem, Callai (2000) assevera que: O processo de construção do conhecimento que acontece na interação dos sujeitos com o meio social, mediado pelos conceitos (sistema simbólico), é um processo de mudança de qualidade na compreensão das coisas, do mundo. Não é um processo linear, nem de treinos, mas de construção pelos alunos de conhecimentos novos, na busca do entendimento das suas próprias vivências, considerando os saberes que trazem consigo e desvendando as explicações sobre o lugar (CALLAI, 2000, p. 104). Os alunos, como podemos atestar, têm as suas próprias concepções a respeito de muitas coisas, eles trazem nas suas “bagagens” as experiências e o conhecimento que adquirem ao longo de suas vidas; cabe-nos, portanto, a tarefa de estabelecermos uma relação entre esses conhecimentos e os conceitos que serão trabalhados por nós professores na sala de aula. Afinal, uma relação de ensinoaprendizagem só se estabelece quando há partilha entre o que aprende e o que ensina. O texto e o desenho a seguir (Figuras 24 e 25), foram produzidos na aula de português. A professora desta disciplina, ao trabalhar literatura de cordel, fez uso da temática trabalhada na nossa pesquisa – os problemas ambientais, resultando numa exposição, na escola, de cordéis produzidos pelos alunos: Figura 24: Cordel representando os problemas ambientais Fonte: Aluno O - do 6º ano, da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. Figura 25: Capa do cordel representando os problemas ambientais Fonte: Aluno P- do 6º ano da Escola Cônego João de Deus, João Pessoa, PB, 2008. São inúmeras as possibilidades em trabalhar de forma interdisciplinar, sobretudo com a temática ambiental. Durante as rodas de conversa e em alguns desenhos ficou evidente que alguns alunos consideram o meio ambiente constituído pelos elementos produzidos pela natureza, os produzidos pelo homem e o homem, evidenciando a separação homem/meio e o não reconhecimento de que o ser humano não é apenas parte integrante, mas elemento indissociável e dependente do ambiente. Contudo, é importante salientar que diante da complexidade das questões ambientais, as práticas educativas não podem deixar de buscar a aproximação com as ideias, crenças, valores e atitudes dos envolvidos no processo educativo. Assim sendo, pelo diálogo entre os diferentes saberes, é possível se desenvolver práticas educativas direcionadas para a formação de responsáveis e comprometidos com um mundo melhor. indivíduos ambientalmente ___________________________________________________________________ CAPITULO 3 MEIO AMBIENTE: TEMA TRANSVERSAL E CONTEÚDO DO LIVRO DIDÁTICO DE GEOGRAFIA 3.1 O Meio Ambiente: tema transversal na Geografia Os Parâmetros Curriculares Nacionais (BRASIL,1997a) apresentam como justificativa para o estabelecimento dos temas transversais o argumento de que eleger a cidadania como eixo central da educação escolar implica colocar-se explicitamente favorável aos valores e práticas sociais que respeitem os princípios ditados pelos PCNs (1997b). Esse documento curricular, por sua vez, defende a necessidade de uma proposta educacional que tenha em vista a qualidade da formação a ser oferecida a todos os estudantes. O ensino de qualidade que a sociedade demanda atualmente, ainda segundo os PCNs (1997b), se expressa aqui como a possibilidade de o sistema educacional vir a propor uma prática educativa adequada às necessidades sociais, políticas, econômicas e culturais da realidade brasileira, que considere os interesses e as motivações dos alunos e garanta aprendizagem essencial para a formação de cidadãos autônomos, críticos e participativos, capazes de atuar com competência, dignidade e responsabilidade na sociedade em que vivem, comprometendo-se com as perspectivas e decisões que os favoreçam. Isso se refere tanto a valores como a conhecimentos que permitam desenvolver as capacidades necessárias para a participação social efetiva. Argumenta-se ainda, na justificativa desse documento, que a realidade social é constituída de diferentes classes e grupos sociais; por isso ela é contraditória, plural e polissêmica, e que isso implica na presença de diferentes pontos de vista e projetos políticos. Assim, será possível compreender que seus valores e limites são também contraditórios. Desse modo, a visão de que a constituição da sociedade é um processo histórico permanente permite compreender que os limites são potencialmente transformáveis pela ação social. Nessa perspectiva, admite-se pensar sobre a ação política dos educadores e compreender que, apesar da escola não ser a única responsável por mudanças na sociedade, é possível partilhar um projeto com segmentos sociais que assumam os princípios democráticos, constituindo-a não apenas como espaço de reprodução, mas também como espaço de transformação. Apesar de todo o discurso sobre um projeto mais democrático para a escola, alguns autores compreendem que este documento pode ser criticado tanto pelo seu processo de elaboração, centralizado e sem a devida participação de órgãos e entidades representativas da área educacional e sem discussões amplas, quanto pela falta de esclarecimento sobre as diferenças entre interdisciplinaridade, temas transversais e trabalhos por projetos, como bem afirmam Castro; Spazziani; Santos (2002): Com relação a essas críticas, podemos remeter a Macedo (1999), que segundo ela, os PCNs pouco ajudaram no que concerne ao esclarecimento quanto à diferença entre interdisciplinaridade, temas transversais e trabalho por projetos. Para a autora, o documento não explicita como integrar os conteúdos com os temas transversais (CASTRO; SPAZZIANI; SANTOS, 2002, p. 167). Corroborando com esta posição percebemos, na nossa prática em sala de aula, que a dificuldade com relação à integração entre conteúdos e temas transversais se torna maior quando se fala em interdisciplinaridade. Castro; Spazziani; Santos (2002) alegam, que, no texto do referido documento, a cidadania foi eleita como eixo central da educação escolar e, assim, se justifica a seleção de temas que geram conteúdos de grande relevância social. Para Pontuschka (2007) os temas transversais constituem um conjunto de assuntos que aparecem transversalizados nas áreas definidas, isto é, permeando a concepção, os objetivos e as orientações didáticas de cada área do conhecimento. A respeito dessa discussão a autora afirma que [...] educar na transversalidade implica mudar a perspectiva do currículo escolar, indo além da complementação das áreas disciplinares e chegando mesmo a remover as bases da instituição escolar remanescente do século XIX. [...] Os temas transversais são também interpretados como ponte entre o conhecimento do senso comum e o conhecimento acadêmico, estabelecendo articulação entre ambos (p. 127). Além de servirem de elo entre o senso comum e o conhecimento acadêmico, os temas transversais podem também ser convertidos em aliados na aproximação com os assuntos ou temas significativos que permeiam o mundo atualmente, além do fato de que no ensino fundamental a transversalidade foi uma forma encontrada pelo próprio MEC para promover a aproximação entre as várias disciplinas escolares no Brasil. Castro; Spazziani; Santos (2002) discorrem que, de acordo com os PCNs (1997), a transversalidade se define a partir de alguns pontos: a) os temas não constituem novas áreas, pressupondo um tratamento integrado nas diferentes áreas; b) a proposta de transversalidade traz a necessidade de a escola refletir e atuar conscientemente na educação de valores e atitudes em todas as áreas, garantindo que a perspectiva político-social se expresse no direcionamento do trabalho pedagógico; influencia a definição de objetivos educacionais e orienta eticamente as questões epistemológicas mais gerais das áreas, seus conteúdos e, mesmo, as orientações didáticas; c) a perspectiva transversal aponta uma transformação da prática pedagógica, pois rompe a limitação da atuação dos professores às atividades formais e amplia a sua responsabilidade coma formação dos alunos. Os temas transversais permeiam necessariamente toda prática educativa que abarca relações entre alunos, entre professores e alunos e entre diferentes membros da comunidade escolar (p. 170). Percebemos, assim, que a proposição curricular apresentada nos PCNs orienta para que todas as áreas ou disciplinas incorporem conteúdos e objetivos dos temas transversais. Para reforçar essa ideia, Yus (1998) argumenta que “os temas transversais aludem, pois, a uma forma de entender o tratamento de determinados conteúdos educativos que não fazem parte das disciplinas ou áreas clássicas do saber e da cultura” (p. 21). Os temas transversais, portanto, não se constituem como disciplinas curriculares, mas se convertem em uma metodologia dinâmica, tendo a emancipação da cidadania como norteadora do currículo escolar. Percebemos que a proposta da transversalidade diz respeito à adoção de caminhos que levem a uma prática capaz de gerar um conhecimento escolar desencadeador de um processo permanente, crítico e construtivo, no que tange à integração entre as diversas áreas do conhecimento. Entre os temas transversais propostos pelos PCNs, quais sejam: ética, saúde, meio ambiente, orientação sexual e pluralidade cultural, e tendo em vista a nossa pesquisa, já amplamente apresentada, optamos por trabalhar com um desses temas, ou seja, o meio ambiente, já que o foco da nossa pesquisa aborda as representações sociais dos alunos sobre o meio ambiente. Para tanto recorremos a um debate sobre a educação ambiental, visto ser esta uma nova dimensão a ser incorporada ao processo educativo, trazendo uma ampla e recente discussão sobre a sua inserção nos currículos escolares. No entanto, mesmo com toda essa discussão, quando analisamos o seu desenvolvimento no Brasil, observamos que a educação ambiental se insere timidamente no contexto nacional, com a introdução do tópico Meio Ambiente como um dos temas transversais, já discutido anteriormente –, como também na Política Nacional de Educação Ambiental (Lei nº 9.795/99), que trata como princípios básicos, estabelecidos no seu Art. 4º: I - o enfoque humanista, holístico, democrático e participativo; II- a concepção do meio ambiente em sua totalidade, considerando a interdependência entre o meio natural, o socioeconômico e o cultural, sob o enfoque da sustentabilidade; III- o pluralismo de ideias e concepções pedagógicas, na perspectiva da inter, multi e transdisciplinaridade; IV- a vinculação entre a ética, a educação, o trabalho e as práticas sociais; V- a garantia de continuidade e permanência do processo educativo; VI- a permanente avaliação crítica do processo educativo; VII- a abordagem articulada das questões ambientais, regionais, nacionais e globais; VIII- o reconhecimento e o respeito à pluralidade e à diversidade individual e cultural (BRASIL, 2003, p.19). Percebe-se, portanto, que na Lei 9.795/99 ficam evidentes as bases epistemológicas a partir das quais compreendemos a EA, sem as quais não seria possível falar em um processo educativo que parta da realidade e dos saberes diversos que compõem o cotidiano do aluno. No entanto, a realidade nos mostra que o paradigma cartesiano produziu uma forma de saber fragmentada, compartimentada, na qual a natureza foi submetida à condição de objeto, trazendo como consequência, um tipo de conhecimento dualista e mecanicista, reduzindo, assim, a complexidade do real. A esse respeito discorre Morin (2005): [...] se tentarmos pensar no fato de que somos seres ao mesmo tempo físicos, biológicos, sociais, psíquicos e espirituais, é evidente que a complexidade é aquilo que tenta conceber a articulação, a identidade e a diferença de todos esses aspectos, enquanto o pensamento simplificante separa esses diferentes aspectos ou unifica-os por uma redução mutilante. Portanto, nesse sentido, é evidente que a ambição da complexidade é prestar contas das articulações despedaçadas pelos cortes entre disciplinas, entre categorias cognitivas e entre tipos de conhecimento (p. 176-177). Em síntese, para ele há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entre o objeto do conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade (MORIN, 2000, p. 38). E acrescenta ainda: Nestas condições, as mentes formadas pelas disciplinas perdem suas aptidões naturais para contextualizar os saberes, do mesmo modo que para integrá-los em seus conjuntos naturais. O enfraquecimento da percepção do global conduz ao enfraquecimento da responsabilidade (cada qual tende a ser responsável apenas por sua tarefa especializada), assim como ao enfraquecimento da solidariedade (cada qual não mais sente os vínculos com seus concidadãos) (p. 40-41). Face ao exposto, na educação ambiental torna-se o fio condutor que unirá as ciências da natureza às humanas. Em síntese, os Parâmetros Curriculares Nacionais enfatizam o envolvimento de toda a comunidade escolar no ensino da educação ambiental, por meio da qual cada membro tem um papel a desempenhar nas ações a serem empreendidas no tocante às questões ambientais. No entanto, cabe ao professor, a competência de trabalhar procedimentos científicos que acarretem a produção de conhecimentos e pesquisas na área. No tocante ao ensino da Geografia e tomando por base os Parâmetros Curriculares Nacionais (1997b), apreendemos que uma das características fundamentais da produção acadêmica da Geografia, nos últimos tempos, é a definição de abordagens que considerem as dimensões subjetivas e, portanto, singulares que os homens em sociedade estabelecem com a natureza. Essas dimensões são socialmente elaboradas, fruto das experiências individuais marcadas pela cultura na qual se encontram inseridas, e resultam em diferentes percepções do espaço geográfico e sua construção. É, portanto, essencialmente a busca de explicações mais plurais, que promovam a interseção da Geografia com outros campos do saber (BRASIL, 1997b). Assim posto, podemos inferir que a proposta pedagógica para a Geografia, presente na legislação brasileira, se coaduna com a perspectiva de uma educação ambiental crítica e emancipatória, pois esta se caracteriza, fundamentalmente, por uma dimensão complexa e multidimensional da questão ambiental; assim como, pela defesa de um amplo desenvolvimento das liberdades e possibilidades humanas; além de buscar desenvolver uma atitude crítica diante da crise civilizatória; uma associação entre os argumentos técnico-científicos e a orientação ética do conhecimento, e por fim, o estímulo ao diálogo e à complementaridade entre as ciências e as múltiplas dimensões da realidade entre si. A Geografia, segundo Pontuschka; Paganelli; Cacete (2007), possui teorias, métodos e técnicas que têm a capacidade de auxiliar na compreensão das questões ambientais e no aumento da consciência ambiental das crianças, jovens e professores. A partir do conhecimento dos problemas e da consciência ambiental, podem contribuir na busca de soluções possíveis, para que a sociedade enfrente os complexos desafios que mexem com múltiplos interesses, tanto na escala local como na escala global. Assim, a Geografia poderá proporcionar um conhecimento que permitirá ao aluno interpretar e agir no seu meio a partir de perspectivas sociais e culturais, para que a vida no planeta seja preservada, saudável e digna. 3.2 O livro didático como objeto de análise As pesquisas relacionadas ao livro didático são relativamente recentes, sendo essas anteriormente consideradas secundárias enquanto produção acadêmica. A esse respeito, Munakata (2003) ressalta que até os anos de 1980, as investigações científicas relacionadas ao livro didático eram consideradas tabus aqui no Brasil, pois, no decorrer da ditadura militar iniciada em 1964, em meio à imposição das reformas educacionais, os livros didáticos foram identificados como suporte da ideologia oficial. O que, de fato, ainda segundo o autor, pode ser comprovado por meio de um severo diagnóstico realizado nos livros didáticos que foram publicados nesse período, “recheados” de ilustrações, gráficos, uso das cores, mas com conteúdo restrito e empobrecido. O autor destaca ainda que Levar a sério o livro didático equivalia, nessas circunstâncias, a colaborar com a ditadura. As discussões a respeito, propostas por profissionais e pesquisadores ligados à área da Tecnologia Educacional (que carregava o estigma de colaboracionismo), não eram levadas em conta (MUNAKATA, 2003, p. 3). O livro didático era, assim, acusado de carregar a ideologia do estado ditatorial e, em função de se pensar o livro didático a partir dessa perspectiva ideológica, aqueles que se propuseram a pesquisar o livro didático, eram, consequentemente, vistos como colaboradores do regime. As pesquisas em torno do livro didático buscavam denunciar a ideologia oficial veiculada nos manuais da época, além de condenarem o caráter anticientífico desses livros. O que de fato acontecia, como diz Mukanata, ainda analisando as pesquisas nesse momento histórico: Certamente, muitos livros que fazem apologia do regime ou que continham erros em seu conteúdo foram merecidamente criticados. Mas, do mesmo modo que a ditadura encontrava subversão em cada gesto inocente, essas investigações passaram a descobrir a presença insidiosa da ideologia em cada parágrafo, cada frase, cada palavra. Sorrateira e solerte, a ideologia era surpreendida até mesmo em obras aparentemente “críticas”: bastava que a “crítica” que o livro propunha seguisse referenciais diferentes da ortodoxia professada pelo pesquisador (MUKANATA, 1997, 1998 apud MUKANATA, 2003, p. 4). Essa abordagem de investigação apresenta, como se pode inferir, o inconveniente de encontrar e denunciar a ideologia pregada pelo regime ditatorial em todos os livros, o que acarreta uma análise preestabelecida por aqueles pesquisadores da época. Contrapondo-se a esta posição, porém não negando o papel do livro como difusor de ideologias, o autor supracitado aponta para o fato de que o livro didático também pode ser abordado a partir da sua materialidade, pois esse, além de ser objeto cultural, é também mercadoria, o que faz disso, muitas vezes, o determinante na sua produção final, já que o interesse principal será o lucro. Atualmente, destaca Mukanata (2003), há uma variedade de profissionais de diversas áreas, como Biblioteconomia, Editoração, Linguística, para não citar outras, ocupando-se da investigação do livro didático que antes era restrita aos campos ligados ao ensino, como História, Geografia, Física, Matemática, entre outras. No entanto, mesmo com a multiplicidade de pesquisas nessa área, ainda há muito que se explorar, principalmente no tocante ao uso do livro didático na sala de aula, tendo em vista que a produção do conhecimento escolar resulta, em grande parte, da relação do professor com os livros didáticos, e esses processos, segundo Choppin (2004, apud GARCIA e PIVOVAR, 2008), ainda são pouco estudados cientificamente, tanto no Brasil como em outros países, dentro do campo das análises epistemológicas didáticas. A partir desses questionamentos, apresentaremos a seguir algumas proposições que nos orientarão nas análises dos livros didáticos utilizados pelos alunos da escola onde desenvolvemos a pesquisa. 3.2.1 Procedimentos de análise do livro didático A análise do livro didático utilizado pelos alunos com os quais desenvolvemos a pesquisa se deu pela necessidade que encontramos de confrontar as representações sociais desses alunos sobre meio ambiente com a abordagem dessa temática no livro didático. Pontuschka; Paganelli; Cacete (2007) estabelecem alguns critérios que podem servir de orientação para avaliação dos livros didáticos e, em função dos objetivos do nosso trabalho, nos orientaremos por algumas dessas proposições, apresentadas a seguir. Segundo as autoras, a capa de um livro contém conteúdo expresso em imagem e texto que devem ser avaliados, pois podem indicar subsídios que digam se é uma capa capaz de incentivar o leitor a abrir o livro, se está adequada ou não aos interesses e faixas etárias a que se destina e, como nos adverte Bittencourt (2004), a análise da capa sempre fornece indícios interessantes, que vão desde as suas cores e ilustrações até o título e as informações sobre as vinculações com as propostas curriculares. A identificação do autor ou autores, ainda segundo Pontuschka; Paganelli; Cacete (2007) é outro aspecto importante, já que fazer um estudo biográfico do autor ou autores fornece elementos para entendermos melhor a obra. O público a que se destina a obra é outro ponto relevante, para que na nossa avaliação possamos averiguar se o conteúdo da obra está coerente com o público que se propõe atender. Outro elemento importante, na concepção das autoras supracitadas, é o índice e estrutura do livro, pois nesse espaço é possível realizar uma primeira avaliação da estrutura e da organização dos conteúdos, vendo que temas são priorizados e se eles obedecem aos parâmetros curriculares nacionais. No caso da diagramação, as autoras chamam atenção para o fato de não ser suficiente o livro apresentar um bom conteúdo, é necessário, segundo as mesmas, haver interação entre conteúdo e forma, para que haja compreensão do conteúdo. Outro aspecto importante, principalmente quando se trata de livros didáticos de Geografia, é a presença de imagens, representações gráficas e cartográficas, pois elas irão subsidiar um melhor entendimento dos conteúdos propostos pelo livro didático. A proposta teórico-metodológica é, na argumentação das autoras, outro item a ser considerado como relevante, posto que a Geografia enquanto ciência possui vários caminhos teóricos que, de certa forma, servem como norteadores para a produção desse material didático, na medida em que seus autores seguirem a proposta ou as propostas a que se vinculam. A linguagem é outro enfoque que deve ser levado em conta, pois, se o livro não apresentar uma linguagem apropriada à idade e realidade do aluno, este dificilmente o compreenderá. Outro importante aspecto que também deve ser observado neste item é a presença de outras formas de expressão, como música, poesia, textos de revistas ou jornais, para que os conteúdos sejam vistos de forma contextualizada e de mais fácil apreensão. Por último, deve-se observar se as atividades motivam os alunos a pesquisarem e, consequentemente, apreenderem os conteúdos trabalhados, ou se apenas o induzem à memorização. A análise de um livro didático poderá nos indicar vários outros questionamentos; no entanto, por considerarmos que na nossa pesquisa sobre o livro didático, o foco é a temática ambiental, deter-nos-emos em analisar o livro a partir das proposições discutidas anteriormente. 3.2.2 Uma breve apreciação do livro didático de Geografia utilizado pelos alunos pesquisados Embora o foco da nossa avaliação seja de fato a análise de como o meio ambiente e os problemas ambientais são trabalhados no livro didático, entendemos que seja necessário fazermos uma breve apreciação do livro, levando em conta os critérios já discutidos anteriormente, por considerarmos complementar ao nosso trabalho de pesquisa. O livro analisado por nós é o primeiro volume de uma obra intitulada Projeto Araribá: Geografia (Figura 26). Trata-se de uma obra coletiva, concebida, desenvolvida e produzida pela editora Moderna, 1ª edição, São Paulo, 2006. A obra se divide em quatro volumes direcionados para os alunos do 6º ao 9º ano. Todos os volumes estão divididos em oito unidades, sendo o 1º volume direcionado para os alunos do 6º ano, o 2º volume para os alunos do 7º ano, o 3º volume para os alunos do 8º ano e o 4º volume para os alunos do 9º ano. Como a nossa opção por analisar apenas o 1º volume desta obra se deu em razão dos objetivos da pesquisa que desenvolvemos com os alunos do 6º ano, não entraremos em detalhes quanto aos conteúdos trabalhados nos outros três volumes. A capa do livro avaliado (Figura 26) contém apenas a foto de uma bússola antiga, dificultando até a compreensão do aluno quanto ao tipo de instrumento e, consequentemente, o porquê de seu registro na capa do livro, além dos dados referenciais do livro, como título, série e editora. O livro não apresenta na capa, portanto, imagens que agucem a curiosidade do aluno e o motivem a abri-lo. Figura 26: Capa do livro didático do 6º ano Outro dado relevante quanto à produção deste livro é o fato de ser uma obra organizada de forma coletiva pela editora Moderna, ou seja, a publicação não possui autoria, impossibilitando aos professores de fazerem um diagnóstico do autor ou de seus autores, pesquisando sobre sua formação, sua vinculação com a escola e o ensino de Geografia, além de não poderem conhecer a corrente teórica a que está atrelado o autor. Quanto ao índice e estrutura do livro, observamos que a tendência é seguir a sequência usual de organização dos conteúdos nos livros didáticos destinados ao ensino fundamental, partindo de alguns conceitos introdutórios da ciência geográfica, dentre eles, o conceito de paisagem, espaço e lugar, para, em seguida, trabalhar com Orientação e localização no espaço geográfico. Na sequência, o Planeta Terra e suas esferas, sendo essas trabalhadas de maneira isolada, sem relação de continuidade de um capítulo para outro. Nas três últimas unidades, é dada ênfase às atividades econômicas, destacando o campo e a cidade na unidade 6 e na unidade 7 é trabalhado o extrativismo e a agropecuária. Esses conteúdos são trabalhados de forma fragmentada, sem qualquer correlação entre eles. Na última unidade, o livro trata das atividades econômicas, indústria, comércio e prestação de serviços, sem, contudo estabelecer vínculos com os conteúdos trabalhados nas unidades anteriores. A seguir, para melhor compreensão do que foi exposto, dispomos de forma resumida, o conteúdo descrito no sumário do livro: Quadro 4: Sumário do livro didático do 6º ano Unidade 1 Unidade 2 Unidade 3 Unidade 4 Unidade Unidade 6 Unidade 7 Unidade 8 O campo e Atividades Atividades a cidade econômicas econômicas 5 A Geografia ea O planeta Terra Os Relevo e continentes, hidrografia Clima e vegetação compreensão as ilhas e I: II: indústria, do mundo os oceanos extrativismo comércio e e prestação agropecuária de serviços. De um modo geral, o livro em questão apresenta textos curtos, ilustrados com muitas imagens e caixas de textos utilizadas para melhorar a compreensão do conteúdo trabalhado e certos vocabulários presentes no texto. Foram inseridos textos complementares ao final das unidades, com conteúdos interessantes, mas que se tornam “soltos” em função dos conteúdos dispostos nas unidades não apresentarem correspondência entre si. O livro apresenta um grande volume de imagens, dentre elas, fotografias, alguns gráficos e mapas, que complementam os conteúdos que são expostos por meio de uma linguagem adaptada ao nível de ensino a que se propõe. Entretanto, observamos explicações e descrições muito resumidas, sem a complementação de elementos novos que venham enriquecer a leitura, havendo, assim, uma valorização do básico, da objetividade. Apesar de se apresentar como uma obra de caráter crítico, o livro aborda os conteúdos de forma tradicional, uma vez que apresenta os conteúdos de maneira descritiva, fragmentados e sem aprofundamento. Desse modo, o aluno não é levado a refletir sobre o espaço vivido, sobre suas experiências, partindo de uma realidade concreta para desenvolver os conhecimentos abstratos. A partir dessas considerações resultantes da breve apreciação feita no livro analisado, partiremos para discutir a maneira pela qual o meio ambiente é abordado nesse livro didático. 3.2.3 O meio ambiente no livro didático analisado O espaço escolar se configura como um importante agente de transformação, ocupando um lugar de destaque na sociedade, e constituindo, portanto, um importante veículo de transmissão direta ou indireta de ideologias que podem ser voltadas para a melhoria da qualidade de vida ou para dominação de determinados grupos sociais. Nesse contexto, o livro didático enfrenta muitas críticas, porém tem passado por transformações significativas. No atual momento em que a sociedade vive, não é possível desconsiderar o papel desse recurso didático na escola, em especial para as classes menos favorecidas, tendo em vista que para muitos alunos das classes menos abastadas o livro didático é o único a que eles têm acesso. Na nossa pesquisa com os alunos da escola, tivemos a oportunidade de constatar isso. Embora seja uma amostragem pequena, representa, de certa forma, um recorte da realidade do nosso país. Nesta perspectiva, buscaremos discutir a questão ambiental trabalhada no livro didático, analisando a partir dos aspectos relacionados ao nível de conscientização da problemática ambiental, das relações sociedadenatureza e dos níveis de participação do indivíduo na construção da sociedade. O livro Projeto Araribá: Geografia, do 6º ano: Como já citado anteriormente: trata-se de uma produção coletiva da editora Moderna, dividido em oito unidades, (Tabela 5), sendo que cada unidade está subdividida em mais quatro capítulos. Para que o leitor tenha uma melhor compreensão, apresentaremos, a seguir, a forma como os conteúdos estão dispostos no sumário. Sumário Unidade 1 - A Geografia e a compreensão do mundo 1 - Paisagem, espaço e lugar As paisagens e seus elementos O espaço geográfico O lugar 2 - O trabalho e a transformação do espaço geográfico O trabalho humano As relações entre trabalho e paisagem 3 - Orientação no espaço geográfico A orientação A orientação pelo Sol A orientação pela bússola Os modernos instrumentos de orientação A orientação pela Lua 4 - Localização no espaço geográfico Os paralelos e os meridianos A latitude e a longitude Unidade 2 – O planeta Terra 1 - Apresentando o planeta Terra A Terra: Características gerais Os movimentos da Terra Os fusos horários A linha internacional de mudança de data Os fusos horários no Brasil 2 - A origem da Terra O tempo geológico A Terra por dentro e por fora 3 - Como se formaram os continentes da Terra A deriva continental 4 - A Terra em movimento: placas tectônicas, vulcões e terremotos A teoria das placas tectônicas Os vulcões Os terremotos Dobramentos e falhamentos Unidade 3 – Os continentes, as ilhas e os oceanos 1 - Os continentes A divisão física e a divisão política das terras emersas A América A África A Antártida A Ásia A Europa A Oceania 2 - Ilhas oceânicas e ilhas continentais As ilhas e os arquipélagos 3 - Os oceanos e os mares Os oceanos Os mares 4 - A água nos continentes A distribuição da água doce nos continentes O ciclo da água Onde está a água doce nos continentes? Unidade 4 – Relevo e hidrografia 1 - As principais formas do relevo terrestre As formas do relevo 2 - Os processos de formação e transformação do relevo Agentes internos Agentes externos Os seres humanos 3 - O relevo brasileiro As principais formas de relevo no Brasil 4 - A importância dos rios e as bacias hidrográficas do Brasil A importância dos rios As bacias hidrográficas do Brasil Unidade 5 – Clima e vegetação 1 - O clima O tempo e o clima Elementos e fatores climáticos 2- Os climas da terra e do Brasil Os climas do Brasil Os climas que não ocorrem no Brasil 3 - As grandes paisagens vegetais da Terra Tipos de paisagem natural 4 - A vegetação brasileira Tipos de vegetação do Brasil Unidade 6 – O campo e a cidade 1 - O espaço rural e suas paisagens Paisagem rural 2 - Problemas ambientais no campo A degradação dos solos O uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos Impactos ambientais resultantes da irrigação 3 - O espaço urbano e suas paisagens Os diferentes tipos de paisagens urbanas 4 - Os principais problemas urbanos no Brasil Moradias precárias Transporte urbano Água e esgoto Ilhas de calor Unidade 7- Atividades econômicas I: extrativismo e agropecuária 1 - Atividades econômicas e recursos naturais O trabalho humano e a exploração dos recursos naturais Recursos naturais e fontes de energia Os recursos naturais no Brasil Recursos naturais e atividades econômicas 2 - O extrativismo A mais antiga das atividades 3 - A agricultura As diferenças na produção agrícola mundial Condições naturais necessárias para o desenvolvimento da agricultura Os principais produtos agrícolas Sistemas de produção agrícola Tipos de agricultura Empresas agrícolas e agroindústrias Produtos agrícolas no Brasil. 4 - A pecuária A relação entre pecuária e agricultura Animais criados pela pecuária e sistemas de produção A pecuária no Brasil Unidade 8 - Atividades econômicas II: indústria, comércio e prestação de serviços 1 - Da máquina a vapor ao robô Da produção manual às máquinas 2 - Tipos de indústria Classificação dos tipos de indústria 3 - O comércio Tipos de comércio 4 - A prestação de serviços A expansão do setor de serviços O rápido crescimento do turismo O livro Projeto Araribá: Geografia, como podemos constatar pelo resumo do sumário, não apresenta uma introdução que trata da questão ambiental especificamente; apenas no segundo capítulo da unidade 6, sobre campo e cidade, é que essa questão irá ser tratada. O primeiro capítulo da unidade 1 do livro analisado aborda as paisagens e seus elementos, trazendo como subitens as paisagens transformadas, em destaque a destruição da vegetação, a exploração do solo e a utilização dos rios e oceanos. Ao ressaltar os impactos do desmatamento, citam-se, de forma isolada, os danos ao solo, à vegetação e ao clima, sem, contudo, estabelecer uma relação de interdependência entre eles, não contribuindo para a construção de uma visão holística do ambiente, na qual o aluno percebesse essa interdependência que caracteriza o meio ambiente como um todo. Os subitens que abordam a exploração do solo e a utilização dos rios e oceanos o fazem de maneira bastante descritiva, destacando, por exemplo, os danos causados pela agricultura e mineração à fauna especialmente, como se a sociedade em si não fosse afetada por essas transformações. Percebemos, assim, a ideia implícita de homem exterior ao ambiente e essa concepção é reforçada na afirmação a seguir extraída do livro: “A transformação de uma paisagem natural pelos seres humanos pode provocar sérios danos ao meio ambiente” (2006, p. 14). Da forma como o texto está escrito, passa-se a mensagem de que tanto o homem como a paisagem não fazem parte do meio ambiente. No segundo capítulo dessa mesma unidade são abordadas as transformações desencadeadas pelo trabalho, mas de forma fragmentada em relação aos conteúdos trabalhados anteriormente. Ao tratar da relação entre trabalho e paisagem, se faz menção ao fato de que as diferenças de rendimentos entre as pessoas representam um dos fatores geradores das desigualdades espaciais, o que poderá induzir o aluno a interpretar este fator como único responsável pelas diferentes paisagens, já que não fazem alusão a outros fatores. Na unidade 2, que tem como tema o Planeta Terra, no tópico intitulado A Terra por dentro, ao destacar as camadas do globo terrestre, descreve-se a litosfera assim: A litosfera, também chamada de crosta terrestre ou superfície terrestre, é a camada externa, formada por rochas e minerais. É na litosfera que se desenvolvem a vida e os seres humanos, que junto com a natureza, constroem o espaço geográfico (2006 p. 54). Dessa forma, o homem é, mais uma vez, visto como exterior á natureza, caracterizando o paradigma da oposição homem/natureza que, na concepção de Gonçalves (1989), constitui o centro do pensamento moderno, operando uma verdadeira separação entre o homem e a natureza. Para as concepções cartesianas, a natureza é percebida como simples objeto, fonte de recursos naturais, e o homem, em oposição à natureza, é visto como centro do mundo, enquanto o paradigma emergente fundamenta-se na consciência do estado de interdependência entre todos os elementos, sejam físicos, sociais ou culturais. Assim como argumenta Leff (2006), A complexidade ambiental inaugura uma nova reflexão sobre a natureza do ser, do saber e do conhecer, sobre a hibridação de conhecimentos na interdisciplinaridade e na transdisciplinaridade; sobre o diálogo de saberes e a inserção da subjetividade, dos valores e dos interesses nas tomadas de decisão e nas estratégias de apropriação da natureza. Mas questiona também as formas pelas quais os valores permeiam o conhecimento do mundo, abrindo um espaço para o encontro entre o racional e o moral, entre a racionalidade formal e a racionalidade substantiva (LEFF, 2006, p. 195). Assim, a complexidade ambiental pressupõe uma mudança de mentalidade, uma transformação do conhecimento e, consequentemente, das práticas educativas, para se buscar um saber coerente com a construção de um mundo melhor. Na unidade 3, intitulada Os continentes, as ilhas e os oceanos, observamos que o conteúdo trabalhado é a distribuição das massas de água e de terras emersas no globo terrestre. Entretanto, no capítulo 1 dessa unidade, faz-se apenas uma descrição dos continentes: América, África, Antártida, Ásia, Europa e Oceania, de modo bastante superficial e de caráter informativo, não instigando o aluno a se aprofundar no conteúdo. Nos capítulos 3 e 4 desta respectiva unidade, é descrito também superficialmente, sobre as ilhas oceânicas e continentais, além dos oceanos e mares, sem instigar qualquer discussão a respeito da problemática ambiental, salvo uma foto na página inicial do capítulo, que mostra uma criança escovando os dentes (Figura 27), e um pequeno texto abaixo da foto destacando o desperdício de água com algumas atitudes que fazem parte do nosso dia a dia, como tomar banho, lavar a calçada com a mangueira, entre outras ações não menos prejudiciais. No entanto, a foto pode acarretar alguns equívocos como o de se achar que escovar os dentes é uma atitude prejudicial e comparável até com a de lavar a calçada com uma mangueira. Figura 27: Garoto escovando os dentes com a torneira aberta “Muitas pessoas desperdiçam água lavando carro ou calçada com mangueiras, lavando louça com a torneira aberta o tempo todo ou ficando muitos minutos no banho” (p. 90). Por esta imagem, o livro subentende que o professor pode estabelecer um aprofundamento da temática com os alunos, discutindo a responsabilidade que cada um tem no tocante á problemática da água. Porém, não discute a questão mais profunda do uso da água, do desperdício nas ruas, do uso abusivo nas indústrias, entre outros problemas também relevantes. No capítulo que versa sobre a água nos continentes, o conteúdo, mais uma vez, é tratado de modo descritivo e descontextualizado. Notamos que a questão ambiental não é trabalhada no decorrer do texto e a concepção de homem como ser superior está implícita no texto, a partir da descrição utilitarista da natureza, como se pode inferir: Os rios são cursos naturais de água doce que correm sobre os continentes e ilhas. Eles são muito importantes para as sociedades humanas, pois fornecem água e alimento, são utilizados para geração de energia elétrica, permitem a navegação e a irrigação de áreas agrícolas e servem para o lazer (2006, p. 92). Em várias partes do livro, encontramos indicações de como o solo, os rios e a vegetação são importantes para os seres humanos, de como eles podem ser utilizados para a alimentação, lazer, transporte dentre outros usos, apontando para o domínio do homem sobre a natureza. Na unidade 4, destaca-se a relação entre o relevo e a hidrografia, sem, no entanto, estabelecer vínculos com as massas líquidas trabalhadas no conteúdo anterior, como se estas não compusessem também a hidrografia do planeta. Mais uma vez os elementos da natureza são focados de maneira isolada, prevalecendo a fragmentação dos conteúdos e dificultando a compreensão da natureza como um todo. Os conteúdos sobre clima e vegetação, para não fugir à regra, são descritos da mesma forma que os anteriores, descontextualizados e sem estabelecimento de correlações. Só ao final do conteúdo é trabalhado um texto do Greenpeace sobre alterações climáticas, mas sem relacioná-lo com os conteúdos tratados nos capítulos anteriores. Na unidade que trata do campo e da cidade, trabalha-se com os problemas ambientais no campo, destacando-se a degradação dos solos, o uso excessivo de fertilizantes e agrotóxicos, além dos impactos ambientais resultantes da irrigação. No entanto, ao abordar a degradação dos solos, algumas causas são citadas, sem, contudo, aprofundar como ocorre o processo: “técnicas inadequadas de uso do solo, desmatamento, irrigação sem os devidos cuidados, poluição por agrotóxicos e erosão são alguns problemas responsáveis pela degradação dos solos” (2006, p. 173). Que técnicas inadequadas seriam essas? Que cuidados seriam esses? Mais adiante, é afirmado que as atividades agropecuárias ampliam a erosão, mas também não se diz de que forma esse processo ocorre. Contudo, ao abordar o uso de fertilizantes e agrotóxicos, faz-se uma reflexão no tocante ao uso, consequências negativas e necessidade de se partir para a utilização de técnicas que não causem problemas ambientais, como os adubos orgânicos. No trato com os problemas urbanos, são discutidos os problemas das moradias precárias, citando a desigualdade social como causa. Faz-se menção aos locais onde geralmente são construídas as favelas, destacando problemas como enchentes, desmoronamentos, além da falta de infraestrutura como saneamento básico, asfaltamento das ruas, entre outros problemas. Sem, contudo, estabelecer relações entre os problemas citados e a questão ambiental que, quando citada, se refere tão somente aos elementos físicos, não mencionando em nenhum momento os problemas sociais e ambientais. Além dos problemas urbanos já citados, são enfatizados três graves problemas que envolvem o transporte urbano: a poluição do ar, os congestionamentos e as deficiências no transporte coletivo, que são tratadas como consequências da ineficiência de uma rede de transporte urbano coletivo, sem, no entanto, trazer uma discussão quanto à responsabilidade de cada um, ante o uso de meios de transportes que possam minimizar esses problemas. Ou seja, conscientiza, por um lado, quanto às responsabilidades do poder público com relação aos meios de transportes coletivos, mas não conscientiza quanto às responsabilidades individuais. Ao tratar do problema do lixo, ressalta-se a importância da coleta, dos destinos que o lixo pode ter após essa coleta, como os lixões, aterros sanitários, incineração, compostagem e reciclagem, destacando os problemas que cada tipo de destino acarreta; no entanto, apesar de mostrar o problema, não se discute maneiras de equacioná-lo, como a diminuição da sua produção, ou, sendo mais específica, a diminuição do consumo que por consequência acarreta um grande volume de lixo. Água e esgoto são temas também tratados neste capítulo, por meio do qual se faz a associação entre a falta desses serviços básicos e o surgimento de doenças e a poluição de córregos, rios e até oceanos, chamando a atenção, mais uma vez, do poder público como responsável por este problema, sem destacar as responsabilidades que nós temos, enquanto indivíduos, para com o ambiente do qual fazemos parte. O enfoque utilitarista da natureza é reforçado nas duas últimas unidades, que trabalham com as atividades econômicas, quando é dito: “Muitos recursos naturais são usados pelos seres humanos como fontes de energia” (2006, p. 195). A partir daí, os recursos classificados como renováveis e não renováveis são descritos de maneira informativa, sem o estabelecimento de relações com os conteúdos trabalhados anteriormente e sem aprofundar a discussão da problemática ambiental, tendo em vista que não é possível dissociarmos as questões de ordem econômica das questões ambientais. Como podemos constatar pelo fragmento extraído do texto: “Por meio do extrativismo mineral, os seres humanos obtêm importantes recursos, como a bauxita, o cobre, o estanho, o urânio, o ouro, etc., que são utilizados como matéria-prima na indústria ou na geração de energia” (2006, p. 206). Complementando, o texto afirma que o extrativismo mineral pode ser realizado da forma tradicional, com a utilização de equipamentos simples e trabalhadores sem qualificação ou por indústrias extrativas minerais que utilizam equipamentos sofisticados, máquinas, grandes somas de dinheiro, mão de obra qualificada, pesquisa e organização empresarial (2006. p. 206). Apesar de fazer um paralelo entre as duas formas de extração, não se questiona qual das duas degrada mais o meio ambiente. Do modo como está posto, pode até mesmo acarretar uma interpretação equivocada: ao se falar da sofisticação e qualificação relacionada ao tipo de exploração moderna, deixa margem para se pensar que esta é melhor do que a outra tradicional. Não é feito, portanto, nenhuma alusão ao problema ambiental causado pela extração desses recursos. Ainda na mesma página estão duas imagens, exemplificando a extração de ouro em serra Pelada (Figura 28) e o embarque de manganês no Amapá (Figura 29), que poderiam destacar os desequilíbrios ambientais causados por essas atividades e, no entanto, só destacam a exploração quanto ao uso de tecnologia: [...] extração feita da forma tradicional, com instrumentos simples, poucos recursos e mão de obra não qualificada (p. 206). [...] Os processos de extração e transporte são realizados com muitos recursos e técnicas e equipamentos modernos (p. 206). Figura 28: Mineração de ouro em serra Pelada – PA, 2004 Figura 29: Embarque de manganês no Amapá, 1999 Ao abordar a extração vegetal, descreve-se em que consiste tal atividade e relaciona-se o ritmo de extração com o de crescimento natural, ressaltando as consequências do desmatamento acelerado. Entretanto, ao falar dessa atividade nos países ricos, afirma-se que nesses toda atividade de exploração florestal é planejada, visando diminuir os impactos ambientais e a degradação das florestas. Contudo, não é citado que, embora lá em seus territórios, atualmente, esses países se preocupem com o meio ambiente, eles estão nos países subdesenvolvidos por meio de suas empresas, exaurindo suas riquezas (p. 207). Os seres humanos, como no livro é posto, são apontados como grandes responsáveis pela degradação ambiental, mas, da forma como se coloca, o uso da palavra homem torna-se indeterminado, ou seja, vago, o que, de certa forma, tira a responsabilidade individual que cada um pode tomar para si, vendo-se enquanto sujeito com poderes para agir na busca de solução dos problemas socioambientais. Concluímos que a maneira como a questão ambiental é discutida no livro está muito além do indivíduo, como se cada um não fizesse parte dessa realidade que é o ambiente e este não é visto como um sistema, onde cada elemento tem o seu papel ou função, e sim como um amontoado de elementos fragmentados e desconectados entre si, numa visão reducionista do meio ambiente, sem levar em conta a sua dimensão social. 3.2.4 As representações sociais dos alunos e o livro didático Como já discutimos anteriormente, as representações sociais permitem repensar o conteúdo escolar e identificar o que os nossos alunos trazem como conhecimento. Posto que a representação social se configure como uma modalidade particular de conhecimento e ao as identificarmos, temos que considerar que essas são adquiridas a partir das experiências de vida, da recepção da mídia, entre outros meios que cercam o cotidiano desses alunos. Elas consistem na construção pela qual o jovem ou a criança se apropria do real, tornando-o inteligível. Bittencourt (2004) adverte que pela sua eficiência como produto, a representação social não pode ser ignorada e deve estar inserida na construção do saber escolar criado e definido no contexto da aprendizagem. Não desconsideramos a importância do trabalho do professor com essas representações sociais, no entanto, para a nossa pesquisa, é necessário, já que estamos avaliando a forma como o meio ambiente e as questões ambientais estão apresentadas no livro didático, ao estabelecermos uma relação entre essas representações e o livro didático. Quando chegamos à escola em agosto de 2008, os alunos já haviam cursado os dois primeiros bimestres, ou seja, já estavam na metade do ano letivo e não tivemos contato com a professora anterior; portanto, não tivemos condição de interrogá-la quanto ao uso de outro tipo de material nas suas aulas. Mas, no contato com os alunos, pudemos inferir que o livro era o único material utilizado pela professora e que teria sido ela a responsável pela escolha deste livro no ano anterior. Os alunos afirmaram também que a mesma costumava ler o livro com eles durante as aulas e depois os mandava fazer os exercícios contidos no final dos capítulos. Ao discorrer a respeito das pesquisas sobre os usos do livro didático, Bittencourt (2004) enfatiza que: A utilização do livro didático pelos professores é bastante diversa. Algumas das pesquisas sobre esse tema revelam que não existe um modelo definido e homogêneo nas práticas de leitura, conforme pressupunham muitas das análises sobre a ideologia dos conteúdos escolares das obras didáticas. Segundo muitas das pesquisas, o poder da ideologia reside em uma imposição sem mediações e toda ideologia é integralmente incorporada por alunos e professores (BITTENCOURT, 2004. p. 316). Os valores e a ideologia, indubitavelmente, estão presentes nas obras didáticas; no entanto, é indispensável ressaltarmos a importância que as representações desempenham na apreensão do conteúdo do livro didático, como nos adverte Bittencourt (2004): Embora não se possa negar e omitir o papel dos valores e da ideologia nas obras didáticas, as conclusões de muitas das atuais pesquisas sobre as práticas de leitura desse material têm apontado para a importância das representações sociais na apreensão do seu conteúdo e método. A recepção feita pelos usuários é variada, até porque o público escolar não é constituído por um grupo social homogêneo (BITTENCOURT, 2004, p. 317). Uma mesma obra, portanto, pode ser diferentemente apreendida, pois os conhecimentos prévios dos alunos se impõem de acordo com seu contexto e sua realidade social. Bittencourt (1987), ao discorrer sobre a importância dessas representações na construção do conhecimento, afirma que A atividade do sujeito é assim colocada no centro da construção do conhecimento. É ele, sujeito, que analisa e estrutura o que é proveniente de seu contexto social - do qual a escola faz parte – a fim de elaborar sua própria resposta e é em função deste contexto que ele percebe as relações de uma dada situação. Entre o sujeito e o objeto do conhecimento se estabelece um sistema complexo de inter-relações que envolvem a situação de aprendizagem, o contexto no qual um e outro se situam. Por conseguinte, estes conhecimentos efetivamente se impõem como um fato, como uma realidade ativa e logo terão um papel relevante na apreensão do conteúdo do livro didático. Vejamos alguns exemplos do posicionamento de alguns alunos, quando questionados sobre seus conhecimentos acerca do meio ambiente e dos problemas ambientais: O meio ambiente é um lugar que tem árvores, animais, frutos e ar fresco, riachos, cachorros, lagos. E os problemas ambientais é o lixo nas ruas, o rio poluído, as queimadas, as drogas, os peixes mortos, ladrão, assassinato, água contaminada. É isso! (Aluno do 6º ano). O meio ambiente é o planeta Terra, onde existem vários seres vivos, onde há vida, onde há pessoas, animais. Onde há fábricas, árvores, praças, casa, etc.. Há muitos problemas ambientais e se eu for falar tudo, vai encher a folha, mais vou falar alguns. Sujeira na rua, a maioria das vezes quando estou indo para o colégio na parte da manhã, piso em lixo, cocô de cachorro, folhas de plantas [...] os alunos na hora da merenda deixam e jogam lixo no chão e depois sobra para os faxineiros limpar (Aluno do 6º ano). O meio ambiente é tudo que está ao nosso redor, é a natureza, os rios, as frutas, os animais, etc.. E os problemas é que jogam lixo nos terrenos baldios, jogam lixo nos rios, jogam lixo nas ruas, etc. (Aluna do 6º ano). O meio ambiente é uma floresta linda e bonita. Por exemplo: como a Amazônia tem mata, tem água, floresta, isso tem árvore, tem rio, etc. E os problemas são a quadra perto da minha casa quase caindo, as paredes da escola riscadas, falta de educação na escola, falta de porta no banheiro da escola, falta calçamento na cidade, a fumaça da padaria que polui o meio ambiente na rua (Aluna do 6º ano). Como podemos observar por esses exemplos citados, e com base nos resultados gerais da pesquisa, os alunos demonstram, em suas representações, tanto uma concepção naturalista quanto antropocêntrica do meio ambiente, o que, de certa forma, não se distancia muito da visão reducionista de meio ambiente que prevalece no livro didático utilizado. No entanto, quanto às representações dos problemas ambientais, enquanto o livro apresenta esses problemas de forma fragmentada e descontextualizada, os alunos demonstraram, nas suas afirmações, estarem muito além, especialmente ao analisarem os desequilíbrios ambientais nas suas comunidades. Como pudemos constatar, os alunos citaram o rio, a violência, o lixo e, nas suas falas, se posicionaram enquanto sujeitos que são corresponsáveis na produção do ambiente onde vivem e se relacionam. Portanto, embora o livro didático apresente a questão ambiental de forma dissociada, não contribuindo para que o aluno se veja como sujeito que faz parte e é responsável por suas ações no meio ambiente em que vive, este apresenta, por meio das suas representações, a consciência de que os problemas ambientais não são apenas os que afetam o meio natural, e demonstra essa visão, ao falar da violência, das drogas, dos assaltos, entre outros problemas que fazem parte do seu cotidiano, tanto na comunidade em que vive como no próprio ambiente escolar, além de se posicionar como sujeito que, por meio de suas atitudes, pode transformar o seu ambiente. 3.3 As representações de meio ambiente como instrumento para a educação ambiental As representações de meio ambiente e da questão ambiental são fundamentais para se entender a preferência, o gosto e as ligações afetivas que as pessoas e, no nosso caso, especialmente os alunos, têm com o meio ambiente, uma vez que, por meio desse recurso podem-se constituir práticas e atitudes que se coadunem com os objetivos da educação ambiental. Essa, segundo Rodriguez (2009), é um processo de aprendizagem e comunicação das questões relacionadas com a interação dos seres humanos com o ambiente, tanto em âmbito global, natural, como no criado pelo homem. Por meio dela, os educandos teriam condições de participar de forma ativa, responsável e eficaz na conservação da natureza e solução dos problemas ambientais, assim como na melhoria da qualidade de vida. Nós somos parte do meio ambiente e, como tal, somos responsáveis pelos impactos causados ao meio em que vivemos. Sendo assim, a criação de uma ética para uma vida sustentável é indispensável, porque as pessoas agem de acordo com aquilo em que acreditam e aceitam. Uma ética define direitos e responsabilidades e apela ao sujeito individual; no entanto, seu destino é o bem coletivo, como afirma Leff (2001): O bem comum se constrói em relações de outridade; está orientado para o porvir e transcende da realidade presente até o que ainda não é através do reconhecimento dos potenciais do real e da criatividade humana. Recupera a autoria, a autonomia e a diferença como princípios de vida (LEFF, 2001, p. 466). Uma ética voltada para uma vida sustentável, portanto, fundamenta-se na confiança de que as pessoas são uma força criativa e no valor de cada indivíduo e de cada sociedade. A educação ambiental é, por assim dizer, o fio condutor para as mudanças de percepções, atitudes e valores humanos, que conduzirão o aluno a desenvolver uma mentalidade conservacionista e responsável pelo meio em vive. Os problemas ambientais vivenciados por nossa sociedade atualmente demandam atitudes pautadas numa ética ambiental que é uma ética da vida e não da sobrevivência dos seres humanos, mas da recriação da vida humana e, como assevera Leff (2001): Não haverá ethos ecológico planetário e global e uma solidariedade das almas caritativas e compassivas que salve o mundo e os seres humanos de cair no desastre ecológico e na bulimia da alma nesta era do vazio global, sem uma ética do pensamento criativo e da não ação social. A ética ambiental não é uma ética ecológica, mas uma racionalidade poética que abre a possibilidade de desconstruir a gênese da moralidade e as ideias que entreteceram os nós e as cadeias da imaginação, atando o mundo ao círculo fechado do pensamento único e da lógica cega do mercado (p. 459). Para se romper esse paradigma que ainda faz parte da realidade, é necessário se construir uma nova racionalidade, sendo esta centrada no ser e aberta ao mundo. Pensar na formação de sujeitos portadores de novos comportamentos, valores e atitudes, orientados para uma convivência social e ambiental mais harmoniosa, requer o conhecimento das interações entre os sujeitos, o grupo social e o meio ambiente. Esse conhecimento é uma etapa fundamental para a educação ambiental, como estratégia capaz de promover transformações nas ações dos sujeitos, assegurando a formação de pessoas ambientalmente saudáveis. A utilização do estudo das representações como estratégia para identificar as concepções dos alunos sobre o meio ambiente e os problemas ambientais, possibilita-nos conhecer e compreender as percepções que esse grupo tem do meio ambiente e, embora já tenhamos discutido anteriormente a diferença entre o senso comum e o conhecimento científico, temos a consciência de que, salvo essas diferenças, ambos são representações do mundo. Em razão disso, argumenta Reigota (2002): O processo pedagógico deve ter como recursos conhecimentos (científicos e senso comum) vindos de diferentes fontes, seja aqueles produzidos pelos cientistas, pelos grupos étnicos, movimentos sociais e populares, seja evidentemente as mensagens, discursos e representações veiculadas pelos meios de comunicação. Digamos, então, que o processo pedagógico contemporâneo ou pós-moderno considera os diferentes momentos de transmissão, construção, desconstrução e reconstrução para atingir os seus objetivos: uma intervenção cidadã baseada em sólidos argumentos (p. 137). Cabe ao professor, portanto, perceber qual o melhor momento para trabalhar esses conhecimentos, que certamente permitirão que a dialogicidade seja estabelecida. É necessário para isso, como assevera Reigota (2002), que o principal e fundamental objetivo seja o de fazer, por meio do processo pedagógico, com que as pessoas possam obter uma melhor e mais abrangente compreensão do problema em geral complexo, como é o caso das questões ambientais, e que essa compreensão possibilite ações que busquem alternativas e soluções para questões tão complexas. Sendo assim, a desconstrução das representações sociais, sejam elas originadas nos meios científicos, nos meios populares ou nos meios de comunicação de massa, constituem-se um componente inovador da proposta pedagógica. Reigota (2002) afirma ainda que essa proposta apresenta para o espaço educativo a possibilidade de um exercício básico e fundamental, como a discussão de ideias, a desconstrução de linguagens explícitas e /ou implícitas nas imagens e a busca de um denominador comum que possibilite uma ação conjunta em face da complexidade dos problemas expostos, sem esquecer-se de estabelecer prioridades, ou seja, definir que problemas ambientais são prioritários e podem ser equacionados a partir do processo educativo. Por essas considerações, entendemos que a educação ambiental deve ser focada nas pedagogias problematizadoras do concreto vivido e no reconhecimento das diferentes necessidades e interesses, tal como declara Ruscheinsky (2002): A pretensão de fazer com que temáticas a serem destacadas tomem a forma de problema, de interrogação, significa propagar uma ação pedagógica baseada na pergunta. Ao contrário, o modo tradicional de abordar se fundamentava no discurso, na oferta e na resposta pronta. A educação ambiental que problematizar as condições de existência necessariamente penetrará no terreno das representações sociais. Na leitura do real os indivíduos consolidam representações que se ancoram no contexto em que vivem e podem possuir a performance da autonomia ou da dominação ideológica (p. 82). Deste modo, a educação ambiental deve lidar com todos os aspectos da vida do educando, como um sujeito que está em permanente construção, consciente de seu tempo e de seu papel na sociedade. Freire (2003), ao propor uma educação libertadora, oferece uma grande contribuição teórica e metodológica para a prática da educação ambiental, por meio da problematização dos temas geradores pertencentes ao universo vivido. Nesse sentido, trabalha sua percepção de indivíduo no mundo em relação com outros indivíduos visando sua inserção crítica na realidade. Por meio desse processo, os alunos reconhecem sua situação como problema e se deparam com a possibilidade de assumirem sua história, superando os obstáculos que, porventura, possam impedir o seu crescimento e consequente humanização. Ruscheinsky (2002) destaca ainda que importante também nesse processo é a compreensão da consciência não como um receptáculo de informações, mas como uma construção, na qual o mundo também se constrói, em um processo de relações dos homens entre si e deles com a natureza. Como podemos inferir, é necessário enfatizarmos a importância do diálogo no processo de ensino-aprendizagem, valorizando o saber do educando, a crítica, a reflexão e a criatividade como elementos indispensáveis à promoção deste, enquanto sujeito que toma para si a responsabilidade pelo mundo e é consciente da responsabilidade para consigo mesmo, com os outros e com o ambiente, sem, contudo, dicotomizar e/ou hierarquizar essas dimensões da ação humana. Não pretendemos esgotar nossas reflexões acerca da temática aqui abordada, pois, em se tratando de educação, o terreno é muito vasto e fértil; e com relação aos pontos discutidos, entendemos que a educação deve ser fundamentada na produção e não na reprodução do conhecimento. O processo educativo ao qual nos referimos não hierarquiza o saber científico e o conhecimento popular, não separa a razão da subjetividade, como também não quantifica o conhecimento aprendido. Deste modo, como educadores, precisamos manter o compromisso de fomentar capacidades para que o aluno forje seu próprio saber na relação com o seu meio de modo a que possa nele atuar como sujeito crítico, participativo e responsável. 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS O interesse deste trabalho foi o de investigar as representações sociais de meio ambiente dos alunos do 6º ano do ensino fundamental de uma escola municipal, tendo em vista a comparação posterior dessas representações com a temática meio ambiente abordada no livro didático. Apesar de termos, no decorrer do trabalho, reunido um vasto material que nos oferece várias possibilidades de pesquisa, o nosso foco foi dado às representações sociais dos alunos sobre o meio ambiente, pois entendemos que o estudo das representações sociais é de grande relevância para o desenvolvimento da nossa prática pedagógica. Esta pesquisa partiu da nossa prática, na lida com os problemas e conflitos vivenciados pelos próprios alunos, com relação aos problemas ambientais existentes nas suas comunidades, como da premissa de que cada um, a partir da sua vivência, do seu cotidiano, teria construído o seu próprio conhecimento sobre o meio ambiente e, mais ainda, sobre os problemas ambientais que estão presentes no seu dia a dia. A pesquisa nos apresentou, ainda no 1º capítulo, que há um amplo debate no meio acadêmico, com relação ao conceito de meio ambiente e que, por esta razão, existem diversos conceitos de meio ambiente, tendo em vista que tanto as áreas do conhecimento que tratam dessa questão são variadas quanto as correntes teóricas a que se vinculam os que trabalham com essa temática. Além do fato de que as mudanças ambientais globais vêm acarretando uma relativa modificação nas concepções científicas relacionadas com o conceito de meio ambiente, pois para apreender uma realidade cada vez mais complexa, há que se fazer uso de um saber ambiental interdisciplinar ou multidisciplinar, voltado para a construção de um conhecimento capaz de entender as múltiplas causas e as relações de interdependência dos processos de ordem natural e social que determinam as mudanças socioambientais. Assim, em função da apreciação que fizemos com relação às variadas concepções de meio ambiente que existem no meio acadêmico, entendemos ser relevante também buscar o conhecimento dos alunos acerca da temática, pois consideramos que todos os alunos possuem sua própria visão de mundo, seus próprios conceitos, obtidos a partir das suas vivências e de suas relações sociais, pois entendemos que o pensamento dos homens está dentro deles mesmos, ou seja, são eles os construtores e constitutivos da realidade. Tendo em vista o exposto acima, já no início do nosso trabalho, percebemos a importância que as representações sociais dos alunos, no tocante ao meio ambiente e à problemática ambiental, apresentam para o desenvolvimento de práticas educativas capazes de dar respostas às ameaças ambientais. Outro ponto a destacar diz respeito ao fato de que, apesar das representações sociais serem entendidas como um saber do senso comum, concluímos que esse tipo de saber é de grande valor para o estudo dos processos cognitivos e das relações sociais. Sendo assim, elas devem ser compreendidas como uma forma de conhecimento que, apesar de não ser científico, é relevante para a construção do próprio conhecimento científico. Deste modo, percebemos que o estudo, a partir das representações sociais, nos fornece subsídios para compreendermos muitos aspectos pertinentes à relação dos alunos com o meio ambiente e buscar elementos para atuarmos como mediadores no estabelecimento de ações pedagógicas que os conduzam não só a compreender melhor a realidade complexa na qual estão inseridos, como também saber atuar nessa mesma realidade. Na aplicação das metodologias de pesquisa, percebemos que as rodas de conversa e os desenhos se apresentaram como excelentes recursos didáticos para trabalharmos com variados temas no ensino da Geografia; e, a partir deles, pudemos compreender melhor a visão dos alunos sobre as questões ambientais em geral e aquelas que são específicas da sua realidade. Ao classificarmos as representações sociais de meio ambiente dos alunos, concluímos que muitos ainda apresentam uma concepção de meio ambiente ligada às concepções naturalistas, ou seja, o meio ambiente é percebido enquanto natureza pura, natureza das “plantinhas”, dos “animaizinhos”, onde o homem não se insere enquanto elemento constituinte desse meio. É, portanto a visão do homem exterior à natureza. Um pequeno grupo de alunos possui uma visão antropocêntrica, percebendo o homem enquanto ser superior à natureza e esta sendo a provedora, por meio dos seus recursos, das necessidades do homem. Resta-nos fazer um questionamento acerca dessas ponderações: será que esta concepção de meio ambiente trazida pelo aluno também não teve a contribuição da escola, nas séries anteriores que eles estudaram? Como não nos preocupamos inicialmente com esta questão, somente a apontamos como possibilidade de uma resposta futura, em um trabalho em que possamos dar continuidade a este que por hora se encerra. Assim, enfatizamos que, embora os alunos tenham apresentado uma visão do meio ambiente enquanto natureza, numa perspectiva naturalista ou até mesmo antropocêntrica, não percebendo deste modo, o homem enquanto elemento constituinte do meio ambiente, eles demonstraram em suas representações estarem conscientes não só dos problemas ambientais que existem no entorno onde moram e na escola, bem como da responsabilidade que cada um tem tanto na origem dos problemas quanto na busca de soluções desses mesmos problemas. Em face do exposto, deduzimos que, diante da complexidade das questões ambientais, não podemos, enquanto educadores, desconsiderar o diálogo com os diferentes saberes na construção do conhecimento. A análise do livro didático de Geografia do 6º ano foi focada na temática do meio ambiente e nos possibilitou inferir que a abordagem do meio ambiente no livro didático utilizado pelos alunos da escola pesquisada é reducionista e desconsidera o aspecto social do meio ambiente. Procuramos estabelecer uma relação entre as representações sociais dos alunos sobre o meio ambiente e aquilo que diz o livro didático sobre o tema, pois entendemos que tais representações fornecem elementos para avaliarmos como os alunos estão apreendendo os conteúdos do livro didático e, a partir dessas observações, percebemos que as representações dos alunos se coadunam com o tipo de abordagem da temática no livro por eles utilizado. Entretanto, com relação aos problemas ambientais, os alunos apresentaram uma percepção mais próxima da perspectiva socioambiental, demonstrando isso por meio da consciência de que tanto são causadores dos problemas ambientais como também podem, por meio de mudanças de atitudes e valores, equacionar ou minimizar esses problemas. Assim, a partir da problematização feita pelos alunos, por meio das suas representações de meio ambiente e dos problemas ambientais que fazem parte do cotidiano deles, teremos subsídios para darmos continuidade ao nosso trabalho na escola em que realizamos a pesquisa, tendo em vista que na condição de professora dessa escola e pesquisadora participante, dispomos já de elementos e possibilidades para trabalhar transformadora e emancipatória. a educação ambiental numa perspectiva REFERÊNCIAS ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS TÉCNICAS. NBR 6023: informação e documentação: referências: elaboração. Rio de Janeiro, 2002. _______. 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