Viajando pelas magia do cordel
Márcia Aparecida Barbosa Vianna
Resumo: Este artigo tem por objetivo apresentar e discutir a esfera Literatura, no gênero Literatura de
Cordel, e a esfera Artes / Mídias, no gênero Telenovela, que dialogam na produção televisiva Cordel
Encantado, exibida pela Rede Globo de Televisão, em 2011. O ensino desses gêneros justifica-se dada a
importância desse meio cultural de difusão de informação e de conhecimento na vida contemporânea. O
trabalho com o gênero Literatura de Cordel, destacam-se os vários diálogos entre contos, lendas e
personagens históricos reapresentados no enredo da telenovela; posteriormente, enfocam o gênero
Telenovela, com a predominância da linguagem verbal e não-verbal, assim como os elementos
multissemióticos da oralidade, perfazendo um caminho de leitura e imaginação, representados através do
enredo, do espaço fictício, da iluminação, da performance dos personagens e das cenas editadas para
criarem narrativas, enfatizando as principais características dessa tipologia textual e de sua estrutura, com
relação à ficção, ao dialogismo entre as obras e à capacidade dos alunos em reconhecer nesses textos,
outros textos. Enquadra-se nos eixos de ensino “análise de língua e de linguagens”, “representações
lúdicas” e “compreensão e produção de textos escritos e orais”.
Palavras-chave: Literatura de Cordel; Telenovela; Mídia; Educação
1 INTRODUÇÃO
Para Lemos (1997) e Silva (1998), ao longo dos anos as inovações chegaram às
escolas, muitos rótulos caíram, o processo de desenvolvimento e de trabalho em sala de
aula alterou e transformou a aplicação pedagógica escolar. Aos poucos, os educadores,
foram se identificando com o processo de interação das práticas didáticas relacionadas
ao uso das novas tecnologias. Por isso a inserção dos produtos midiáticos, gerando
interfaces com os processos educacionais, pode contribuir para o aprimoramento
educacional, criando vínculos, sociabilidade e interação com nossos alunos, pois esses,
às vezes, passam horas em frente aos aparelhos de televisão ou ao computador, cuja
função consiste em manter o interesse pelos produtos midiáticos, mas a mídia, quase
sempre, deixa de oferecer orientações educacionais de como aproveitar esse conteúdo
para sua formação educacional, desenvolvendo apenas a superficialidade.
O propósito, neste artigo, consiste em trabalhar com a esfera Literária,
abordando o gênero Literatura de Cordel, apresentado por Meyer (1980), com enfoque
nas narrativas dos folhetins, gênero literário popular, típico do nordeste brasileiro, cujas
situações de produção envolvem a ficção e os contos populares. Posteriormente, a
análise foca a adaptação dos mesmos para um novo gênero discursivo, com novas
condições de produção, de circulação e de recepção - a linguagem televisiva,
pertencente à esfera Artes/Mídias com enfoque no gênero Telenovela, comentado por
Campadelli (1985) e subsidiado pelos conteúdos dos sites pesquisados na web, no qual
encontramos contos, lendas, romances, dicas de filmes, imagens e crônicas do cotidiano
do sertão brasileiro dialogando e compondo a trama da telenovela Cordel Encantado, da
Rede Globo de Televisão, escrita por Duca Rachid e Telma Guedes, com a direção de
Ricardo Waddington e Amora Mautner, exibida de 11 de abril a 24 de setembro de
2011, no horário das 18h, para um público de todas as idades e classes sociais
diversificadas.
Os gêneros pesquisados possuem formas de composição híbridas, um misto de
ficção e realidade, porque várias histórias se cruzam, em um processo de
carnavalização, e as múltiplas vozes do texto tecem um enredo composto pelos
símbolos dos processos sociais, políticos e culturais de duas comunidades imaginárias
distintas, representadas na ficção como Seráfia – país imaginário do continente europeu
- e Brogodó – cidadezinha criada dentro dos critérios típicos do sertão brasileiro. Nesse
ambiente desenvolvem-se personagens diversos, caracterizados por suas ações,
vestimentas, costumes, fatores místicos, além da cultura popular e do romantismo
expressos pela obra.
A trama toda encontra subsídios em livros, filmes e sites mencionados, fazendo
referências aos contos de fadas e às narrativas típicas do cordel. Enfoca, ainda, a
literatura popular, os ditos do povo, trabalhando com o imaginário social de seus
telespectadores, fixando atenções em um espaço maravilhoso, possibilitado pela ficção,
e nele se desenvolvem “narrativas trançadas” com personagens comuns, expostos em
cenas cotidianas, num tempo remoto, sob um olhar puro do romantismo centralizador
do enredo, formado por triângulos amorosos, repleto de mocinhas disputadas por heróis
surgidos do próprio povo.
Com o apoio da teoria de bakhtiniana, pode se observar a narrativa inserida no
discurso da telenovela. Essa, além de dialogar com outros textos, faz referências
literárias, concentra elementos do folclore brasileiro e da literatura mundial, dando vida
aos personagens da novela, como: o conto de fadas “A gata borralheira” (o amor entre
o rei e a cozinheira), “A história de Antônio Conselheiro e Canudos” (O profeta e a Vila
da Cruz), “O cangaço” (Herculano e seus cangaceiros), “O homem da máscara de
ferro” – de Alexandre Dumas (O Duque Petrus), “A história de Santa Clara e São
Francisco de Assis” (príncipe Inácio e a jovem Antônia), além da velha luta entre o bem
e o mal (ilustrada em personagens como a Duquesa Úrsula, que traz em si toques de
bruxaria – a alquimia) e a crueldade do Coronel Timóteo (uma representação do poder
do coronelismo nordestino).
A produção do folhetim televisivo proporciona um trabalho com a oralidade
regional, principalmente para a análise da variação linguística, característica de um
determinado grupo social, com enfoque nas falas do povo (coloquial) e da realeza
(culta). Os elementos multissemióticos das cenas ilustram primorosamente os cenários,
enfatizando o ambiente do sertão nordestino, constituindo figurinos perfeitos, com o
intuito de valorizar as artes e o artesanato nordestino ao trazer a produção de roupas em
couro, vestidos de renda filé ou golas em renda renascença, vestimentas de algodão cru
dos trabalhadores em contraste com os ricos uniformes dos nobres que contracenam
com suas damas em vestidos ricamente bordados.
Pretende-se, neste artigo, discutir gêneros textuais/discursivos tão amplos, que
proporcionam aos leitores a produção de sentido e o resgate de valores culturais, além
de interagir com as TICs (Tecnologias de Informação e Comunicação), trazendo
conhecimentos mais profundos das esferas Artes/Mídias e Literária, com ênfase nos
gêneros Literatura de Cordel e das Telenovelas, nas suas produções e nos sistemas que
vêm dos antigos folhetins, divididos em capítulos, com ganchos para os próximos
episódios. Com esse propósito observa-se micro-histórias que compõem uma macrohistória - Cordel Encantado - dialogando entre o saber popular e o saber educacional,
enfatizando os elementos da narrativa e a oralidade popular.
Todos os aspectos citados evidenciam a análise situacional do conhecimento dos
alunos sobre a narrativa, desde a proposta pela vinheta de abertura da novela, uma
síntese da trama de toda a história central, articulada em fragmentos compostos por
ilustrações em xilogravura (a característica das capas dos livros de cordel). Ainda há o
enfocaque do gênero Literatura de Cordel, para conhecer as características desta
literatura popular; depois a abordagem foca o gênero Telenovela, analisando o corpo da
produção midiática e os elementos de composição de tal folhetim; para finalizar, a
proposta consiste em trabalhar com o diálogo existente entre as obras literárias e o
folhetim televisivo, observando cada tópico responsável por criar o corpus do
metatexto.
1.1 O trabalho com gêneros textuais no ensino de língua portuguesa
Em virtude do mundo globalizado atual e do acesso às informações
fragmentadas, a pluralidade cultural torna-se inevitável. Percebe-se isso no decorrer dos
capítulos da Novela Cordel Encantado, quando vários textos foram revisitados, todavia,
somente alguns telespectadores conseguiram reconhecê-los. Nesse ponto encontra-se o
questionamento sobre o valor estético, porque poucos estão preparados para identificar
os gêneros ali presentes, muitos sequer notam suas presenças. Isso pode ocorrer por uma
questão de gosto ou até de desinformação, uma vez que os textos/discursos, apesar de
descaracterizados em decorrência das mudanças de esferas, de Literária para
Artes/Mídias, quando inseridos em outros contextos, apresentam características
originais ou similares. Encontra-se, nesse aspecto, a necessidade de:
uma reflexão maior sobre gêneros discursivos, a dificuldade de conceituação,
utilização e aplicação (...) no âmbito da linguística teórica e aplicada para o
esclarecimento de formas como as teorias bakhtinianas vêm sendo
mobilizadas. O intuito é demonstrar que a dinamicidade dos conceitos
bakhtinianos, que não se prestam a aplicações mecânicas, tem a vantagem de
valorizar o corpus e despertar no leitor/analista/fruidor a capacidade de
dialogar com esse corpus e, a partir de sua materialidade, de suas
particularidades, surpreender nas incontáveis formas assumidas pela língua,
no caso a Língua Portuguesa, o interdiscruso, as memórias aí contidas e em
constante movimento, graças às interações textos/leitores. (BRAIT, apud
ROJO, 2000, p.16-17)
Os ambientes escolares precisam trabalhar com as raízes de seu povo, priorizar o
ensino da diversidade cultural de seu país e do mundo através da literatura, da música,
da arte etc. Neste ponto há o envolvimento e o posicionamento do professor – observar,
contextualizar, apresentar, levar ao gosto e à cultura, promovendo maior receptividade e
percepção através dos gêneros textuais e discursivos. Proporcionar esse conhecimento
amplia a possibilidade de envolver o aluno com as etapas de ensino-aprendizagem
propostas e de ter a formação de leitores mais críticos. Fixa-se neste ponto a
necessidade de haver uma pesquisa mais profunda acerca das temáticas trabalhadas, e
assim utilizar os gêneros Telenovela e Literatura de Cordel, no ambiente escolar, no
intuito de fornecer subsídios aos educandos.
Marcuschi (2008), em sua obra Produção e Análise de Gêneros e Compreensão
orienta esse processo, mostrando como enfocar um discurso, no caso televisivo
(midiático), ensinando a esquematizá-lo ao adotar os gêneros coerentes com os estudos
(Literatura de Cordel e Telenovela), fundamentados em textos que priorizam essa
aplicabilidade, por exigirem determinadas configurações, ações discursivas e uma
ordem sequencial gradativa, cuja função encontra-se em apresentar as informações
específicas sobre cada etapa, e também selecionar a linguagem adequada para tal gênero
(no caso a fala popular adotada pelo cordel, com rimas, sonoridade etc.). A fala do autor
complementa esta pesquisa na seguinte citação:
Quando se ensina alguém a lidar com textos, ensina-se mais do que usos
linguísticos. Ensinam-se operações discursivas de produção de sentidos
dentro de uma dada cultura com determinados gêneros como formas de ação
linguística.” (MARCUSCHI, 2008, p. 90).
Na sala de aula, a estética e os valores diferem de acordo com as condições
socioculturais dos estudantes, poucos conhecem música clássica, obras de arte ou
apreciam a leitura dos clássicos, no entanto boa parte tem contato com o meio
televisivo. Ao oferecer um trabalho mais efetivo sobre a Telenovela e a Literatura de
Cordel, surgem condições de levá-los a um conhecimento capaz de fazê-los apreciar,
reconhecer os gêneros correlatos, e podem alcançar bons resultados de aprendizagem,
porque se eles não tiverem repertório ou contextualização do que lhes é apresentado,
não saberão avaliar esteticamente e desenvolver o gosto por uma cultura erudita,
intelectual ou mesmo popular, de outra região, como no caso do Cordel.
1.2 As esferas comunicativas Artes/Mídias e Literatura
O texto Letramento e capacidades de leitura para a cidadania, Rojo (2004)
discute a importância da leitura para o desenvolvimento do ser na sociedade, no trabalho
e em seus ambientes de convivência, pois afirma que ler não é apenas saber decodificar
os grafemas e os morfemas, mas sim ter profundidade, penetrar no texto, discuti-lo,
poder utilizá-lo e principalmente, fazer dele um objeto para o crescimento pessoal e
intelectual.
No entanto, todos esses fatores dependem da prática didática de leitura das
escolas, tendo em vista a atualidade e o pouco avanço na metodologia, principalmente
quando há insistência na simples repetição e na leitura em voz alta, sem ampliar o
conhecimento para traçar um elo entre o momento e a oportunidade de transformá-lo em
objeto de debate, de discussão, de análise de entendimento e interpretação,
possibilitando ao aluno expor aquilo que realmente entendeu do texto e compreender o
quanto essa leitura acrescentará à sua ideologia, ao seu pensamento e à sua capacidade
leitora.
Os educadores se preocupam em como abordar a temática, preparar as aulas,
selecionar os textos, mas ficam em dúvida sobre quais mídias darão suporte às aulas, às
finalidades culturais desenvolvidas etc. Rojo (2009) discute tais conflitos:
Dois conceitos bakhtinianos podem auxiliar nossa reflexão: o conceito de
esfera de atividade ou de circulação de discursos e o conceito de gêneros
discursivos, ambos de Bakhtin (1992 [1952-53/1979]). Na vida cotidiana,
circulamos por diferentes esferas de atividades (doméstica e familiar, do
trabalho, escolar, acadêmica, jornalística, publicitária, burocrática, religiosa,
artística etc.), em diferentes posições sociais, como produtores ou
receptores/consumidores de discursos, em gêneros variados, mídias diversas
e em culturas também diferentes. (ROJO, 2009, p. 109)
Em sua citação a autora expõe os interesses sobre a aplicabilidade da leitura no
decorrer da história do ensino de língua portuguesa, mostrando os vários processos
integrados ao ato de ler, como a decodificação, a compreensão, a interação, a relação
com o discurso e a réplica. Para tanto, há necessidade de compreendê-los e então propor
as principais estratégias para alcançar o gosto pela leitura, o prazer de ler, interpretar,
discutir e opinar. Esse caminho situa-se na escolha das esferas Artes/Mídias e
Literatura, porque abordam a temática selecionada, criando possibilidades de
aprendizagem, com enfoque nos gêneros Literatura de Cordel e Telenovela, por serem
próximos à realidade dos estudantes, ou seja, o trabalho com a literatura popular e com
a televisão consiste em enfocar multimeios presentes no cotidiano dos estudantes, por
onde circulam várias informações, entretenimento e cultura em fluxo grande, contínuo,
barato e acessível. Em seu artigo Trigueiro (2005) comenta esses aspectos e conceitua
hibridização como
[...] tudo que dá tônica à cultura popular no mundo globalizado pelos meios
de comunicação e pelos novos interesses de consumo de bens culturais.
O cordel por um longo tempo foi um importante meio de comunicação
popular e usado para atingir o maior número possível de pessoas. [...]
Atualmente temos uma mediação midiática fortemente influenciada pela
televisão que se apropia das manifestações das culturas populares para os
seus mais diversos interesses. (TRIGUEIRO, 2005, p. 3).
A inserção dos produtos midiáticos, da esfera Artes/Mídias, criando interfaces
com os processos educacionais pode contribuir para o aprimoramento educacional, criar
vínculos, sociabilidade e interação, pois sabemos que nossos alunos passam horas em
frente aos aparelhos de televisão ou ao computador, e têm grande fascínio pelos
mesmos. Por isso, ao eleger a televisão como suporte incidental, apesar de encontrar na
novela Cordel Encantado diversos textos, caracteristicamente eles não fazem parte do
sistema televisivo, nem das atividades regulares desse meio, no entanto:
A televisão acha-se no mesmo caso de ambiguidade que o rádio (é
simultaneamente vista como suporte, meio e serviço), mas com a diferença
de que aqui temos a imagem e não só o som. Além disso, poderíamos pensar
em meios ou sistemas de transportes diversos na TV, já que ela pode servir-se
de outros suportes e até de eventos complexos, pois na TV podemos ter a
transmissão do teatro, cinema, novela e assim por diante. Mas ela não seria o
suporte do teatro ou do cinema e sim um meio de transmissão.
(MARCUSCHI, 2008, p. 181)
Os
gêneros
apresentados
foram
produzidos
dentro
de
cada
esfera
correspondente, por isso os gêneros da esfera Literária, priorizam as narrativas
noticiosas, os contos e histórias, presentes no caráter folhetinesco da Literatura de
Cordel.
Poder-se-ia classificar essa esfera como primordial, por ser anterior aos
multimeios, sendo estes adaptados e adequados à contemporaneidade, de acordo com os
discursos de um tempo e de um contexto sócio-histórico, fundamental para a
compreensão da esfera Artes/Mídias, já que estão ligados à realidade, e, por meio deles,
recuperam-se muitos dados relacionados à história, principalmente, no texto de
Trigueiro (2005), no que diz respeito “às tradições culturais populares e os processos
midiáticos de apropriações e (re) elaborações dos seus significados e ao uso das
narrativas orais dos contos populares”.
Os discursos pertencentes à esfera Literária possuem em sua estrutura um
reflexo de atividades próprias, relacionadas aos autores, tais como o estilo (os recursos
linguísticos utilizados na elaboração do texto), o conteúdo temático (a finalidade do
gênero) e a construção composicional (a organização textual). Nesses aspectos a
Literatura de Cordel exerce uma postura diferenciada, pela particularidade de suas
publicações, um entrelaçamento da oralidade e escrita disposto num único espaço
representado “pelos folhetins com seus ganhos de interrupção das estórias ficcionais no
momento de maior tensão de suas tramas, dramaticidade e, mais recentemente, passando
pelo cinema e pela televisão.” (TRIGUEIRO, 2005, p. 3).
1.3 Os gêneros Literatura de Cordel e Telenovela
É impossível haver comunicação sem a utilização dos gêneros ou de textos
realizados em algum gênero, já que esses variam de acordo com o discurso adotado.
Sendo assim, Marcuschi (2008, p. 154) afirma que “quando dominamos um gênero textual,
não dominamos uma forma linguística e sim uma forma de realizar linguisticamente objetivos
específicos em situações particulares.".
Foi exatamente refletindo sobre esta afirmação que surgiu a escolha das esferas
Literatura e Artes/Mídias, para discutir os gêneros multimodais, como a literatura (de
Cordel) e a mídia (televisiva), e encontrar nos textos elementos para a observação do
estilo, da forma composicional, porque ambos traçam um paralelo e compõem uma
nova representação da história, das raízes brasileiras, em formatos característicos das
produções televisivas, com todas as suas particularidades, criando um diálogo
organizador da narrativa, cuja função consiste em armazenar os dados e transmitir
cultura aos leitores e telespectadores, para assim retomarem em suas memórias
conhecimentos anteriores e interagirem com a nova criação.
O trabalho pedagógico com os gêneros (orais, escritos ou multimodais) dá ao
aluno a oportunidade de reconstruir essas práticas de linguagem e de se
apropriar delas. Essa apropriação se torna efetiva a partir do momento em
que o aluno é capaz de dominar um gênero e compreendê-lo/produzi-lo de
forma adequada, de modo a poder participar ativamente da comunidade a que
pertence. (BENTES, 2011, p. 01).
Entende-se que os grupos sociais desenvolveram diferentes linguagens, ao
contrário não sobreviveriam, pois dentro de todos os espaços, de todo o tempo, os
discursos interagiram, criaram um senso comum, uma referência e concederam algo
extratemporal, cuja expressão encontrara-se no “fazer” diferenciado de alguns artistas.
Eagleton (2006) denominou esses aspectos diferenciados como “literariedade”, presente
na poética empregada pelos autores para a produção desse gênero híbrido, constituindo
uma fronteira entre a Telenovela e a Literatura de Cordel.
Esse tipo de composição configura a conjunção entre os gêneros, criando uma
permuta de informações textuais, viajando pela história, perfazendo uma trilha de
múltiplas interpretações, deixando ao leitor a opção de trilhar por caminhos diversos, de
acordo com o seu ponto de vista. Isso constitui os verdadeiros fatos do cotidiano
expostos sob a visão do autor, mas de modo mágico, tocante e profundo, conduz o
receptor às profundezas da alma humana, através da beleza refletida nas cenas descritas.
A estética textual se utiliza dos diversos estilos narrativos; sociológicofolclórico, ao representar uma manifestação popular – a Literatura de Cordel. Segundo
Meyer (1980) tal gênero literário provém da tradição oral de contar histórias,
principalmente porque muitas vezes o contador anotava ou ditava algo de sua memória,
ou uma novidade que inventava. Posteriormente, com o surgimento das máquinas de
impressão, essas produções ganharam novos leitores, foram reproduzidas para um povo
simples, pouco escolarizado, e muitas vezes chegaram a ser decoradas por analfabetos,
ao serem lidas por alguém. Em virtude disso, popularizou-se como característica do
improviso, dos debates (o repente) e dos versos dos poetas cheios de mágoas, alegrias e
situações do cotidiano. Esse tipo de publicação adquiriu características específicas no
Nordeste brasileiro e hoje é considerado um rico elemento nas manifestações culturais
da região.
Embora não seja tradicionalmente brasileira, suas raízes europeias não
evoluíram como aqui, no Nordeste são chamados apenas de ‘folhetos’ e em outros
países têm denominações diferentes: na França, colportage (mascate); na Inglaterra,
chapbook ou balada; na Espanha, pliego suelto, e em Portugal, ‘literatura de cordel’ ou
‘folhas volantes’. (MEYER, 1980, p.3).
O Cordel tem como principais características as narrativas populares impressas
em folhetos de folhas pares, sempre múltiplas de 04. As ilustrações de suas capas,
tradicionalmente, trazem xilogravuras (gravura feita em tacos de madeira) com a
intenção de chamar a atenção dos leitores. Depois de todo esse processo artesanal, ficam
expostas penduradas em cordéis nos locais públicos, como feiras e exposições, contando
com o auxílio e a irreverência de seus vendedores que declamam trechos para despertar
a curiosidade dos passantes. Seus textos priorizam as narrativas e versam sobre contos
maravilhosos, notícias de personalidades e feitos regionais ou nacionais.
Ao longo da história da literatura brasileira, o preconceito sobre determinados
gêneros literários prevaleceu, dificultando que nossos leitores tivessem acesso a alguns
escritos, por influência mercadológica ou pudor; sendo assim, poucas obras chegaram
aos bancos escolares ou recebeu dos críticos o valor necessário para sua divulgação. Foi
exatamente isso que ocorreu no caso do Cordel, mas acabou sendo regionalizado e seu
rico conteúdo precariamente trabalhado nas outras regiões do país. Talvez o motivo seja
o domínio literário surgido com o consumismo burguês do século XIX, via folhetins,
caracterizado por seu papel social de informação via jornal, impedindo a função
informativa do Cordel de obter o prestígio de um texto cujas publicações traziam as
notícias com o espírito da inteligência e da expressão irreverente dos escritores. Sobre
essa temática, Trigueiro (2005) tece um comentário relevante:
A continuidade das pequenas cidades interioranas do Nordeste, quando
adaptada para as narrativas ficcionais do cinema, da televisão, do teatro ou da
literatura aproxima o Brasil urbano do Brasil rural [...]
São esses gêneros narrativos da oralidade popular projetados pelas
manifestações folclóricas (os mitos messiânicos característicos das
comunidades rurais, as conversas entre compadres e vizinhos, as brigas de
amor e ódio, os ‘fuxicos’ que circulam nas redes de comunicação cotidiana
entre parentes e amigos etc.) que, ao longo do tempo, continuam enraizados
na oralidade, ‘correndo de boca em boca’ do povo do semi-árido nordestino e
apropriados por escritores, autores e diretores, que reinventam suas histórias
em livros, teatro, contos, filmes, vídeos e telenovelas. São esses processos de
apropriação do imaginário sociocultural brasileiro, nordestino/sertanejo que a
televisão continua reproduzindo para o mundo globalizado e que dão bons
resultados de audiência. O imaginário cultural rural do Nordeste é um ‘prato
feito’ para a teledramaturgia brasileira, por ser uma cultura polissêmica,
multicolorida, carregada de superstições, do sagrado e do profano, do
ecológico e do alegórico que contrasta, quase sempre, com a miséria e o
analfabetismo dos seus protagonistas. (TRIGUEIRO, 2005, p. 5).
A transposição das características do gênero Literatura de Cordel ao gênero
telenovela possui uma história de sucesso, porque desde 1963 as pessoas recebem em
suas casas, diariamente, em horários variados, “um novelo” (segundo Campadelli,
1985), com aproximadamente 100 capítulos que vai “desenrolando” uma “narrativa
trançada”, semelhante aos folhetins, com ganchos, e que exigem do autor uma condução
hábil dos desdobramentos de seus personagens e dos conflitos. Se a trama agradar ao
público, seus capítulos podem ser “espichados”, tudo depende das pesquisas de opinião
que costumam determinar a duração e a própria evolução da trama, pois o telenovelista
escreve sua obra gradativamente, interagindo com seu público e de acordo com as
críticas.
A macroestrutura de uma telenovela abrange a estrutura geral e a de cada
semana. Os pontos-chave serão distribuídos de modo a manter a tensão
dramática através de capítulos [...]
[...] a sucessividade permite a manipulação do suspense, também faculta ao
novelista manobrar sua própria história, tendo como termômetroa opinião
pública. Na verdade, este é um aspecto ambíguo, pois o escritor se torna um
falso demiurgo, e o público um co-autor indesejado.
Entre muitas outras coisas, esta é uma diferença entre o texto que é escrito
para publicação (romance) e o texto televisivo. Uma vez publicada a obra, ela
não sofre modificação. A relação trinária autor/obra/público aparece depois.
Na televisão, o processo da escritura ‘as picadinhos’, como no folhetim, lida
com o universo aleatório. (CAMPADELLI, 1985, p. 21-22).
Os aspectos característicos do gênero telenovela têm três pilares fundamentais:
os capítulos, a narração de várias situações simultâneas e o poder da expectativa de
esperar o próximo capítulo para desenrolar mais um pouco da trama. Por se tratar de um
gênero híbrido, em sua estrutura sempre podemos encontrar:
personagens representativas do povo, aristocratas, camponeses, lojistas,
príncipes, órfãs, bem como permutas sociais impressionantes (opulência se
transformando em miséria, ou vice-versa) e se, por outro lado, elabora
conflitos de sentimentos e caracteres, o melodrama, por sua vez, trabalha com
o máximo empenho a divisão entre o Bem e o Mal, manipulando esta
dualidade do início ao fim, [...] (CAMPADELLI, 1985, p. 28-29).
Dia-a-dia o espectador recebe a história, acomodado no sofá de casa, cria certa
familiaridade com os personagens e com a trama de narrativa linear, progressiva
(começo, meio e fim). Seu enredo é constituído em um determinado tempo, e se projeta
cronologicamente para o futuro. O diálogo torna-se base do discurso novelístico, a
telenovela investe nos recursos narrativos, principalmente os literários, como os
romances folhetinescos do século XIX, porém incrementa seu texto com elementos
multissemióticos que ampliam a produção num elo entre texto/imagem, sincretizando o
real/imaginário, o visual projeta-se e dialoga com as falas, o elenco, os figurinos, a trilha
sonora, entre outros. Pode haver em meio aos capítulos, flashbacks, denotando uma
volta ao tempo psicológico.
Seus personagens, pertencentes a um milionário elenco, permanecem inalterados
em várias produções, então se espera que o herói continue com suas virtudes – ética,
justiça, beleza; e o vilão com seus vícios – injustiça, perversidade. Alguns atores se
destacam e seus personagens se modificam no decorrer da trama, outros não são bem
aceitos pelo público e têm vida curta na novela. Muitas vezes os telespectadores se
envolvem tanto com a telenovela que acreditam na veracidade das cenas e sofrem,
reagem e se emocionam.
2 PROPOSTAS EDUCACIONAIS
Como fazer com que os alunos entendam que não dá para ter a programação de
leitura da escola apenas como um elemento sem envolvimento? Precisa-se oferecer-lhes
o funcionamento discursivo, mostrar-lhes o contexto em que se faz essa leitura, quais
são os seus objetivos e o quanto isso pode lhes favorecer, conduzindo à definição do
lugar social do autor e do leitor do texto, apresentando os gêneros trabalhados e algumas
abordagens sobre o mesmo tema, comparadas a outras produções. Assim concretiza-se
um passo fundamental em na vida profissional e acadêmica do educador, principalmente
porque insere em seu ambiente de trabalho e o leva à reflexão de como tem efetuado
suas atividades cotidianas, avaliando os erros e acertos, diante das dúvidas,
possibilidades de aprofundamento e de soluções para condução de suas aulas.
Preparar o material para aplicar em sala, analisar conteúdo, buscar textos,
acrescentar “algo” ao currículo adotado nas escolas públicas requer muito cuidado,
porque o sucesso consiste exatamente na frequente inquietação de trazer coisas novas,
provocar, instigar e tornar nossos momentos de trabalho um jogo de prazer e troca. Com
relação a isso temos a fala de Rojo (2009):
Um dos objetivos principais da escola é justamente possibilitar que seus
alunos possam participar das várias práticas sociais que se utilizam da leitura
e da escrita (letramentos) na vida da cidade, de maneira ética, crítica e
democrática. Para fazê-lo, é preciso, pois, que a educação linguística leve
em conta hoje, também de maneira ética e democrática. [...] (ROJO, 2009, p.
107) (grifo da autora)
De acordo com os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998) o Brasil
vem avançando no ensino da Língua Portuguesa, tanto no nível acadêmico, como em
sala de aula, essa mudança tem ocorrido devido aos fundamentos teóricos e pesquisas
dos grandes educadores nacionais e internacionais, como Dolz, Noverraz e Schneuwly
(2004).
Priorizam-se as esferas Literárias e Artes/Mídias desenvolvidas pelos gêneros
Literatura de Cordel e Telenovela, com ênfase no ensino da oralidade, da produção
textual e de leitura, porque em suas configurações encontram-se os elementos ideais
para trabalhar com os alunos, através de ações discursivas elaboradas em uma ordem
gradativa, cujo enfoque mira a ação-reflexão-ação, baseada nas informações específicas
sobre cada etapa, subdivididas em módulos, relacionando-se com a linguagem adequada
ao gênero escolhido.
Torna-se primordial refletir sobre a utilização dos multimeios, da interação dos
alunos com os mesmos e também de ideias novas, surgidas no decorrer das aulas, ou
seja, não diante de propostas estanques, ao contrário, elas tem a intenção de ser a base,
respeitam a cultura dos alunos, sua gramática internalizada e os multiletramentos típicos
das turmas heterogêneas.
Propõe-se o desenvolvimento do gênero Literatura de Cordel, enfatizando não
somente esse gênero, mas criando um entrelaçamento com o gênero Telenovela, com
enfoque na produção televisiva Cordel Encantado com a contribuição de textos, links,
canções, clipes e vídeos sugeridos. Essa temática auxilia nos momentos de reflexão e
situações de aprendizagem. Dessa forma incentivam a prática da escrita, criam situações
de comunicação, ensinam a escrever enredos de telenovelas, textos narrativos, além da
estrutura e das particularidades desses encontradas nos discursos selecionados.
Alguns objetivos também visam, principalmente, perceber as diferentes
características da narrativa em textos literários; fazer com que os alunos aprendam a ler
e a produzir textos a partir dos temas propostos; ampliando os conhecimentos de
linguagem e as possibilidades de participação social; inclusive ao observar o efeito
provocado pela forma como os autores criam as narrativas nos cordéis; e também como
se desenvolvem a oralidade e os elementos multissemióticos no trabalho do cordel
trabalha com a notícia e nos contos maravilhosos, onde se percebe como as pessoas,
objetos e imagens podem trazer lembranças de um tempo passado e que a ficção pode
registrá-las oralmente e por escrito nas poesias, nas produções televisivas ou em textos
literários.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Apesar de todas essas mudanças, os educadores ainda precisam encontrar meios
de aproximar os alunos das tecnologias do impresso e do livro, quer seja pela sugestão
de leitura, ou ao transformar suas aulas em adaptações de obras em novas linguagens
como músicas, teatros, televisão ou ainda tirar de seus cotidianos elementos que possam
ser pesquisados ou perpetuados nas estantes das bibliotecas, em trabalhos com o
dialogismo, ou a temática de um filme, ou a montagem de uma telenovela, ou o resgate
de uma tradição etc.
O professor precisa inovar e adaptar-se à realidade dos alunos, trocar
experiências, preparar suas aulas para que cativem seus educandos, citar obras, traçar
pontos de contato entre as diversas esferas, dar profundidade ao saber e ao ensinar, só
assim resgatará e fará com que o conhecimento do jovem atual não fique na
superficialidade, que obtenha raízes nas páginas dos jornais e revistas, em sites culturais
ou nas prateleiras das bibliotecas.
Tem a função de transformar o alunado em leitores ideais, protagonistas de
aprendizagem em vários níveis, quer recebam informações de seus mestres, de materiais
didáticos ou outra fonte de ensino, precisam conhecer e interagir com as diversas formas
e estruturas dos gêneros vistos, assumirem a função de autores, pois terão condições de
produzir seus próprios textos, com embasamento e autonomia para efetuá-los de acordo
com os PCNs e com o novo currículo, dividido por gêneros, determinados para cada
ano, distintamente.
A importância da possibilidade de trabalhar a leitura nas classes, de saber qual a
intenção para com os alunos, como avaliar suas capacidades leitoras e se possível
adquirir conhecimento para melhorar a prática docente, refletirá, e provavelmente trará
bons resultados profissionais. Lucramos os educadores, os educandos aproveitam e a
sociedade recebe cidadãos críticos, cultos e bem preparados para exercer sua cidadania.
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Viajando pelas magia do cordel Márcia Aparecida Barbosa Vianna