MUSEU DE ÉVORA
Rituais de Poder. Armas Orientais.
A colecção de Jorge Caravana
Museu de Évora, 13 de Março | 13 de Junho
O Museu de Évora apresenta a exposição Rituais de Poder. Armas Orientais. A colecção de
de Jorge Caravana.
Esta iniciativa propõe dar visibilidade à colecção particular do cirurgião Jorge Caravana,
residente em Évora há vários anos. Nesta cidade, entre 1989 e até à data, reuniu um conjunto de cerca de cem obras, de excepcional valor cultural e artístico, no âmbito da armaria
oriental.
A colecção está orientada para armas brancas e armaduras, oriundas das áreas geográficas relacionadas com a Expansão Portuguesa no Oriente. Neste enquadramento
histórico, objectos representativos da Índia, Ceilão, Nepal, China, Japão, Indonésia/Malásia
e Filipinas, ilustram as distintas regiões da Ásia onde os portugueses projectaram a sua
presença, desde o início do século XVI, até meados da centúria de Oitocentos, período
cronológico que o conjunto acompanha e estende até aos inícios do século XX.
Neste contexto, revelador do gosto e das prioridades de aquisição do coleccionador, as
espadas e as adagas constituem o núcleo mais expressivo da colecção, opção a que é
sensivel toda a carga de simbolismo de que estas se revestem e que, em muitas culturas,
ultrapassa o de simples instrumento de agressão. A riqueza de conteúdos emergentes da
contextualização histórica, associada à abrangência cultural dos objectos, foram aspectos
que pesaram na ideia de dar visibilidade à colecção de Jorge Caravana no Museu.
O discurso expositivo conduz o visitante a viver este imenso horizonte geográfico do
passado, onde a singularidade das culturas e riquezas particulares de cada país deram
expressão à função marcial, simbólica e/ou mágica destas armas, associando-lhe a beleza
das formas e decorações.
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O porquê desta Colecção
Desde sempre convivi com diversas formas e origens de arte, sendo a arte oriental a que
mais me fascinou e permanecendo vivo esse sentimento. O meu avô paterno (Santos Silva),
que exerceu a magistratura em Quepém, Murmugão e Pangim no Estado de Goa, entre 1926
e 1937, nutriu sempre grande interesse por todas as formas da cultura oriental, adquirindo
várias peças que me habituei a admirar em casa dos meus pais. A epopeia dos descobrimentos portugueses sempre me atraiu, nomeadamente a forma peculiar de relacionamento com os povos com que contactavam, que enquadrado ao pensamento da época foi único
pelo intercâmbio de culturas que gerou.
Estas armas, que algumas vezes combateram contra outras ao lado dos Portugueses,
patenteiam na sua decoração, muitas das artes por estes levadas para tão longínquas
paragens. Pensando que a história das civilizações se fez com uma arma na mão e de entre
estas a arma branca foi a mais nobre, carecendo o seu uso de combate cara a cara, sendo
muitas vezes apenas usadas como símbolo de poder, foi-se, lentamente formando no meu
espírito o gosto por este tipo de colecção. Por outro lado, talvez pelo facto de ser médico
cirurgião, seduz-me a admiração do belo, sobretudo quando associado a lâminas, o que
parece fazer todo o sentido. Em 1998, Rainer Deahnhardt fez uma exposição na Cordoaria
Nacional, em Lisboa, de parte da sua colecção, na sua maioria composta por armas antigas
de todos os géneros e proveniências. Nessa exposição havia uma loja de antiguidades
do mesmo tipo das expostas, onde adquiri as primeiras armas da minha colecção. Em
conversa com Rainer Deahnhardt sobre os limites de uma colecção e interpretando o meu
gosto pelas armas brancas orientais, aconselhou-me a seguir o tema: “Armas Brancas e
Armaduras Orientais relacionadas com a Expansão Portuguesa pelo Oriente”, conselho que
segui como se estivesse há muito predestinado.
Tenho sucessivamente, com o gradual conhecimento do mercado e estudo do tema, vindo
a requintar o tipo de peças adquiridas, privilegiando as armas com hipótese de alguma
personalização, da sua qualidade em geral, mas sobretudo das lâminas e materiais empregues na sua decoração. Uma colecção, no meu entendimento, deve coexistir paralelamente
com o estudo das peças que se adquirem, bem como do ambiente social e histórico em
que estiveram inseridas. Para tal é necessário possuir uma vasta biblioteca e congregar
o esforço de peritos na área. Devo salientar o Prof. Manoucher Moshtagh Korasani cuja colaboração na tradução dos textos indo-persas foi preciosa para uma melhor caracterização de
muitas das minhas peças.
As peças adquiridas estão de um modo geral, em boas ou óptimas condições de conservação, no entanto quatro delas careceram de algum restauro, para o que contribuiu a habilidade do meu amigo José Faria e Silva. Qualquer colecção exige muita dedicação e sempre
um esforço financeiro maior ou menor consoante o tipo de objectos que se colecciona.
Há sempre que fazer opções que muitas vezes relegam para segundo plano outro tipo de
investimento. Agradeço à minha família e em especial à minha mulher Isabel, companheira
de trinta e cinco anos, o apoio que sempre me deu e possibilitou assim reunir o conjunto de
peças aqui exposto.
Todo o coleccionador é um pouco obsessivo e talvez egoísta, quiçá para combater estes adjectivos abracei com entusiasmo a hipótese de partilhar com os demais, o objecto da minha
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dedicação nos últimos dez anos, incentivando outros para o coleccionismo, principalmente
quando é possível associá-lo a um estudo de uma área do conhecimento.
Porquê no Museu de Évora? Em Évora tenho vivido os últimos vinte anos da minha vida,
onde trabalho e tenho sido acarinhado. O Museu de Évora, que me habituei a frequentar e
a admirar sofreu profunda remodelação, que o obrigou a estar encerrado por vários anos.
Actualmente tem a dirigi-lo uma equipa dinâmica e competente e é por isso da mais elementar justiça que aqui faça a minha primeira exposição.
Foi com grande sentimento de gratidão e mesmo de alguma surpresa que recebi este
convite para, pela primeira vez, expor a minha colecção em tão importante Museu. Por
me ter habituado a vê-la crescer nos últimos dez anos, não a terei valorizado como o Sr.
Prof. Joaquim Oliveira Caetano, que com a sua visão experiente abraçou com entusiasmo e
grande coragem este ambicioso projecto.
O meu obrigado ao Museu de Évora, patrocinadores e a todos os que tornaram possível com
o seu enorme esforço e profissionalismo concretizar esta exposição.
Jorge Caravana
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“As armas e os barões”:
aspectos bélicos da presença portuguesa
no Oriente
Poderá dizer-se que, na abertura de Quinhentos, o porte de armas brancas ofensivas era
prática comum em Portugal, desde os membros de estratos sociais mais elevados, que
amiúde se faziam acompanhar das suas espadas nos afazeres diários, até às gentes das
classes mais populares, por regra sempre munidas de alguma espécie de punhal ou adaga.
Este vulgar armamento quotidiano era alargado e reforçado em circunstâncias especiais.
Uma expedição venatória, por exemplo, poderia obrigar à utilização de arcos ou bestas, com
as respectivas flechas ou virotes, de armas de haste, como lanças, ou mesmo de armas
de fogo portáteis. Entretanto, os homens de armas profissionais, e também todos aqueles
que eram mobilizados para participação em conflitos de maior importância, ostentavam
ainda uma larga diversidade de armas de haste, como alabardas, croques, foices de guerra,
machados ou maças de armas, e também armas defensivas, que podiam incluir escudos ou
adargas, capacetes ou morriões, cotas de malha, couraças, e variadas peças de armadura.
As armas de fogo individuais, como pistolas, mosquetes e espingardas, começavam então
a vulgarizar-se, com os correspondentes apetrechos (balas, polvorinhos, morrões). Tudo
dependia da natureza do conflito, dos recursos disponíveis, e do tempo de preparação, mas,
na realidade, o exercício de algum tipo de armas fazia parte da formação, e também do
entretenimento, de largas camadas da população portuguesa. A produção de armamento
nacional, a cargo de uma grande variedade de artífices, nem sempre conseguiu dar resposta
às necessidades dos portugueses, sobretudo depois do início da expansão ultramarina, de
modo que houve sistemático recurso à importação. As armas defensivas e ofensivas, para
além das respectivas funções utilitárias, desde sempre detiveram elevado valor simbólico,
associado aos rituais de exercício do poder. Por isso mesmo, peças de armamento fabricadas com materiais mais raros ou valiosos, e decoradas de forma mais elaborada, foram
requentemente utilizadas como ofertas de prestígio.
Assim, o diversificado papel das armas no mundo oriental, como instrumentos bélicos
e como artefactos simbólicos, é reconhecido pelos portugueses desde a primeira hora,
e mesmo antes da partida de Vasco da Gama para a Índia. Aliás, poderia dizer-se que o
armamento funcionava como uma espécie de língua franca um pouco por toda a massa continental euro-asiática, já que as semelhanças tipológicas e funcionais abundavam, mesmo
que os níveis tecnológicos fossem substancialmente distintos. Por este motivo, sem dúvida,
o capitão-mor da primeira expedição portuguesa ao Oriente ofertou ao rei de Melinde “huma
rica espada que trazia em huma caixa feita pera ella, a qual era d’ouro d’esmalte muito rica,
com suas cintas muito ricas”, bem como “huma lança de ferro dourado, e huma adarga
forrada de setim cremesim laurada de fio d’ouro”. Como referirá mais tarde o cronista
Gaspar Correia, que viveu na Índia ao longo da primeira metade do século XVI e que relatou
este episódio nas suas Lendas da Índia, os presentes cerimoniais de armas tinham longa
tradição na Europa. Nesses primeiros contactos entre portugueses e orientais, entretanto,
foi possível documentar, a nível de armamento pessoal, evidentes paralelos com a Europa,
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já que os homens de armas do Samorim de Calecute andavam “todos armados de espadas
e bisarmas e escudos e arcos e frechas”, à semelhança dos próprios europeus. A diferença
mais significativa talvez se relacionasse com a frequente utilização pelos portugueses,
em ocasiões de combate, de protecções de metal para a cabeça e outras partes do corpo,
prática que não estava divulgada em todas as regiões orientais de idêntico modo.
Rui Manuel Loureiro
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Os Símbolos nas armas e as armas como
símbolos: A Importância sócio-religiosa dos
motivos decorativos nas Armas Indianas da
colecção do Dr. Jorge Caravana
Aquando do estudo e observação de armas, particularmente se estas forem ornamentadas,
devemos vê-las não apenas como objectos bélicos, mas também como símbolos de status
e riqueza. Armas muito ornamentadas teriam pouco uso em situações de batalha, sendo
em vez disso envergadas pelos seus proprietários em situações onde a demonstração
do seu status seria vantajosa, como em cerimónias ou eventos públicos, representando
assim símbolos de poder e não de violência. De certa maneira, o leitor contemporâneo
pode assim compará-las a acessórios de moda de valor financeiro elevado, tal como um
colar de diamantes, servindo assim para ostentar um certo poder monetário, e reforçar a
importância financeira e social de quem o usa. Por muito importante que estes símbolos
representados nas armas sejam, como iremos ver mais abaixo, é essencial considerarmos
a maioria destes tipos de armas como símbolos em si. Algumas armas ornamentadas
poderão ter sido utilizadas num contexto bélico, mas armas dedicadas expressamente a
esse propósito seriam normalmente simples e não decoradas, por razões práticas. Essa
decoração iria provavelmente dificultar a função principal da arma, e armas primariamente
bélicas sofreriam também danos e desgaste no campo de batalha.
Para melhor compreender as razões porque uma arma é um tão poderoso símbolo de status
na sociedade indiana, é necessário começar por examinar a estrutura social tradicional
do subcontinente. A sociedade indiana é tradicionalmente dividida em quatro principais
classes hereditárias (ou Varnas), que são por sua vez divididas num elevado número de
castas. O conceito das Varnas data da pré-história, estando patente no Rg-veda, o mais
antigo texto sagrado Indiano, que foi propagado de forma oral antes de ter sido redigido, e
que foi composto entre 1500 e 1200 a.C. O Rg-veda descreve o desmembramento do Homem
Cósmico (Purusa) e a criação das Varnas a partir das diversas partes do seu corpo:
Os Brahman eram a sua boca
Os braços tornaram-se o Príncipe,
As suas coxas as pessoas comuns
E dos seus pés os servos nasceram.
Este verso descreve sucintamente as quatro Varnas e as suas respectivas funções; os
Brahmana são os sacerdotes e professores, os Príncipes (Ksatriya) os guerreiros, reis e
administradores, enquanto as pessoas comuns (Vaisya) são agricultores e comerciantes, e
os servos (Sudra) seriam os serventes e trabalhadores braçais, a quem não era permitida a
posse de bens imóveis. Esta estrutura social, claramente definida, existe ainda hoje na vida
indiana, e este demarcado sentido de hierarquia facilita a compreensão das razões pelas
quais símbolos de status são tão importantes nesta sociedade.
Das Varnas descritas, a mais relevante para o contexto deste artigo é a dos Ksatriya
(guerreiros e príncipes); das quatro Varnas, seria para quem as armas representariam e
simbolizariam a sua posição social. Um Brahmana, Vaisya ou Sudra não enquadraria um
escalão social onde o uso de armas ornamentadas serviria como símbolo da sua linhagem
e status social; na realidade, isso seria sim uma violação da estrutura social prevalecente.
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O facto de esta estruturação da sociedade estar já presente no mais antigo texto sagrado
indiano não é acidental, uma vez que uma estrutura social específica tem sido uma das
bases mais importantes para o desenvolvimento da religião indiana. Sociedade e religião
estão intimamente ligadas em todas as culturas, mas o sistema de castas torna esta
ligação particularmente evidente na religião do subcontinente.
Uma arma é então um símbolo de filiação a uma classe hereditária, um símbolo não só da
pessoa que a enverga num determinado momento, mas também da sua linhagem e história
familiar. Alguém que possui uma arma muito ornamentada mostra mais que a sua riqueza;
mostra também a sua linhagem, indica que é Dvija (nascido duas vezes), e que sendo assim
não é Sudra (servo). Isto por sua vez determina com quem se pode relacionar, contrair
matrimónio, ou até com quem pode estar sentado na mesma mesa. Neste contexto sócioreligioso, o portador da arma é então divinamente destinado a envergar a mesma, sendo que
reencarnou numa família Ksatriya devido ao seu valor e mérito.
Francisco Santos Silva
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FICHA TÉCNICA
EXPOSIÇÃO
Coordenação
Joaquim Caetano, Fátima Pimenta Macedo
Projecto de Arquitectura
Manuela Fernandes
Execução e Montagem
Museu de Évora
Design Gráfico
Milideias
Colaboração museográfica
Maria do Céu Grilo, Vitor de Sousa, António Alegria
Apoio de secretariado:
Teresa Martinho, Helena Varela
Divulgação
Celso Mangucci
Assistência Técnica de Sala
Cristina Perpétuo
José Lourenço
Maria de Fátima Paiva
Maria Teresa Silva
Palmira Santos
CATÁLOGO
Coordenação Joaquim Caetano, Fátima Pimenta Macedo, Jorge Caravana.
Autores dos textos
Jorge Caravana, Rui Loureiro, Francisco Santos Silva, Nuno Vassalo e Silva, Robert
Elgood, Manoucherhr Khorasani
Autor de entradas de catálogo
Fátima Pimenta Macedo
Tradução
Vanda Noronha
Edição: Editorial Caleidoscópio
Fotografia
José Rodrigues
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