a UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO “A VEZ DO MESTRE” O LÚDICO ANTE A CRIANÇA ESTRESSADA VANDA VALE DE CARVALHO ORIENTADORA: PROF ª.FABIANE MUNIZ DA SILVA RIO DE JANEIRO 1 / 2004 MARÇO 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PRÓ-REITORIA DE PLANEJAMENTO E DESENVOLVIMENTO DIRETORIA DE PROJETOS ESPECIAIS PROJETO “A VEZ DO MESTRE” O LÚDICO ANTE A CRIANÇA ESTRESSADA VANDA VALE DE CARVALHO Trabalho monográfico apresentado como requisito parcial para obtenção do Grau de Especialista em Psicopedagogia. RIO DE JANEIRO MARÇO / 2004 3 AGRADECIMENTO Agradeço ao Pai Criador, pelo dom da vida; a meus pais queridos, pela chance de estar aqui; a meu marido e filhos, companheiros de jornada, pela grande ajuda com paciência e tolerância; a todos os amigos que direta e indiretamente contribuíram com suas palavras de incentivo e carinho; e, em especial, a meus alunos, que ao trazerem tantas dificuldades deram-me o impulso necessário para buscar esses conhecimentos tão interessantes, que são verdadeiros alimentos para o meu viver. Muito obrigada, Senhor, por tudo! 4 DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho a meu marido Celso, amigo de tanto tempo na alegria e na dor, que tanto colaborou, não só incentivando, mas lendo e ouvindo com paciência. A meus filhos Rafael e Felipe que nos trazem tantos ensinamentos. Ao segundo lar, o Abrigo Teresa de Jesus, e suas criancinhas, trabalhadores em geral, verdadeiros amigos, em especial à Regina Pinho, pelo apoio nos momentos mais difíceis e à Nilda Vilela por nos trazer tantos ensinamentos e oportunidades de trabalho. À minha querida mãe, Maria Dolores, por me apoiar nos primeiros passos dessa jornada, tornando-se minha primeira professora. 5 EPÍGRAFE “Precisamos mesmo de muita imaginação para acreditar na possibilidade de criar a sociedade renovada do mundo de regeneração que nos falam, e de muita criatividade para antecipar as características dessa renovação em nossas relações afetivas de hoje. Os homens imaginativos e criativos de hoje foram às crianças que tiveram a oportunidade de desenvolver esse potencial, vivendo uma infância rica de experiências afetivas e brincadeiras. Cabe-nos vencer os nossos preconceitos culturais, para que possamos ampliar essa condição na infância, permitindo às nossas crianças o desenvolvimento da imaginação e da fantasia, para que se formem, cada vez mais homens imaginosos e criativos em nossa sociedade”. (Souza, D., 1996) 6 RESUMO O tema abordado neste trabalho foi à dificuldade de aprendizagem verificada em crianças carentes, vítimas de estresse, atendidas por uma entidade religiosa, situada na cidade do Rio de Janeiro. No primeiro capítulo foram descritos os temas, violência e estresse, em virtude do ambiente, sócio-cultural em que as crianças estão inseridas, gerando dificuldades em seu desenvolvimento cognitivo e afetivo. No segundo capítulo foram vistas a educação, como um todo em sua evolução histórica, esclarecendo sobre a diferença que existe entre a educação e instrução. No terceiro capítulo procurou-se demonstrar a importância da educação dos sentimentos e da teoria das inteligências múltiplas. No quarto capítulo foi analisado o valor do lúdico na educação dos sentimentos, as diversas formas de aprender de maneira agradável, brincando. No quinto capítulo foi analisado o papel do lúdico na educação dos sentimentos, na formação do homem integral. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 08 CAPÍTULO I A VIOLÊNCIA 10 CAPÍTULO II A EDUCAÇÃO 19 CAPÍTULO III A EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS 25 CAPÍTULO IV O LÚDICO 39 CAPÍTULO V O PAPEL DO LÚDICO NA EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS 63 CONCLUSÃO 77 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 80 ÍNDICE 82 FOLHA DE AVALIAÇÃO 84 8 INTRODUÇÃO A presente monografia tem como tema central a importância do lúdico, no processo ensino-aprendizagem. O objetivo principal foi enfocar a educação integral da criança carente, com dificuldades de aprendizagem, vítima de estresse, abordando de forma detalhada, porém não prolixa, os aspectos principais que compõem a verdadeira educação dos sentimentos. No despertar do terceiro milênio, onde surgem os raios de uma Nova Era, clareando os recantos obscuros do planeta, tanto na ciência, na filosofia e na religião, a educação assume caráter de mais alta importância como mola propulsora de todo o progresso humano. Esta educação não deve ser vista apenas no seu aspecto intelectual, mas a educação que compreende o homem no sentimento que eleva, que aprimora, que auxilia a evolução do espírito. Este trabalho não descartou as injunções religiosas tão pouco analisadas nos dias atuais, sem, contudo, prender-se a aspectos sectários e dogmáticos das religiões tradicionais. Vislumbra, ainda, a necessidade imperiosa da inserção de conceitos espirituais e espiritualistas que contrapõem-se de forma eficaz aos sentimentos materialistas e imediatistas que norteiam a educação em nosso século, como cita Boechat (2002), o homem deste século afina-se com o perfil de cidadão do novo tempo: ágil, evoluído, explícito, criativo, sem fronteiras. Qualquer tempo é a Era do Impossível. Ai da família que não ensina o amor que resiste a distancia; ai do educador sem educação; ai da escola que não implanta valores para ajudar a formar o homem de boa vontade; ai da empresa sem pacto social; ai das religiões sem educação das emoções; ai de toda a humanidade sem Deus. Tudo depende da educação que é a ponta perdida da linha que a sociedade deixou embolar, porque se distraiu, olhando pela janela do mundo na direção contrária: valorizando tudo o que é feio, indigno, inferior, imperfeito. 9 Nós da educação que estamos compondo a dando as mãos para ajudar a desembaraçar o novelo social, temos uma proposta infalível para desatar os nós da vida: O amor. 10 CAPÍTULO I A VIOLÊNCIA É o argumento daqueles que não têm boas razoes”. (Rivail, 1993) 11 1. LÚDICO – adj. Referente a, ou o que tem caráter de jogos, brinquedos e divertimentos. 2. ESTRESSE – subst. É o conjunto de reações do organismo a agressões de ordem física, psíquica, infecciosa, e outras, capazes de perturbar-lhe a homeostase, o equilíbrio. Estressedo: É o que apresenta estresse; agitado; abalado; perturbado; aborrecido ou irritado com alguém. (Dicionário da Língua Portuguesa – Novo Aurélio, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, séc. XXI) 3. VIOLÊNCIA – Do latim violentia. Qualidade do violento. Constrangimento físico ou moral; uso da força, coação. (Aurélio B. Holanda, 1999) A violência, como atitude agressiva, desconcertante, que produz choques e gera receios, se estende por todo o planeta, ameaçando a integridade física, moral e social da Humanidade, como uma verdadeira epidemia. Sempre houve violência no mundo, mas atualmente está generalizada. Segundo Correl (1994), os estados de insatisfação íntima, os distúrbios emocionais, aliados aos graves fatores sócio-econômicos levam o ser humano a praticar a delinqüência. Percebemos então que o homem está doente, e a sociedade, que é o corpo grupal, encontra-se desestruturada, em padecimento total. Quais as causas? “As criações tradicionais são substituídas pelo desequilíbrio, sem alicerce cultural, sem memória ancestral”. (Angelis, 1990). A ciência tecnológica, com sua ambição imediatista prejudica o indivíduo, a sociedade, com a perseguição desenfreada de lucros. Os direitos humanos, tão exaltados em toda parte, sofrem o desrespeito das autoridades que deveriam defendê-los. Há um verdadeiro desprezo às instituições que se comprometeram socorrer. A presença na sociedade de idosos abandonados, a negação do direito de mínimo socorro da saúde a milhões de enfermos; o desinteresse pelas causas da falta de pão e água; o crescente número de seres em condições sub-humanas nas grandes 12 cidades; o abandono de legiões de menores carentes; a enorme escassez de oportunidade para a educação de crianças em formação de personalidade são a maior forma de violência contra o homem. Há um enorme desrespeito ao ser humano que as leis e os cidadãos dominantes desprezam e abandonam, impondo a escravidão da ignorância. As crises de autoridade, de respeito, de honradez, de valores ético-morais acontecem a todo instante, invadindo os lares através da mídia, tornando-se exemplo de conduta para aqueles menos conscientes. A desumanização das pessoas atinge a área do comportamento tornando-as emocionalmente enfraquecidas, insensíveis ou mais intensos na busca do prazer e da violência, conduzidos pelas ambições sem fim. Podemos incluir a estas condições negativas a destruição do intuito da família. “Na educação das gerações mais novas verifica-se a queda do respeito que todos se devem, que estimula a indisciplina”. (Franco, 1993). Segundo o psiquiatra Jorge (2003), vítimas de assaltos, seqüestros, balas perdidas, brigas familiares ou violência no trânsito sofrem, além do trauma, de doenças como depressão, fobias, síndrome do pânico, gastrites e hipertensão. Essas doenças afetam pessoas de todas as classes sociais. O maior problema é que as chances de recuperação são cada vez menores, porque as vítimas, não tendo como se afastar permanecem no ambiente violento, sofrendo com os transtornos mais comuns causados pela violência. Todos esses males são sintomas de um mal que é considerado social, que deve ser combatido coletivamente. A violência está geralmente em todas as classes sociais e as vítimas devem ser atendidas e tratadas para que possam avançar coletivamente em sua organização social e política. Segundo Antunes (2003), experimentos demonstram que entre 10% a 15% dos estressados têm surtos de pânico; 70% sofrem de depressão; 10% tendem a tornar-se 13 obsessivamente ansiosos ou com distimia (a doença do mal humor); sem falar nas probabilidades concretas de sofrer de úlceras, infartos, doenças da pele e insônia. 1.1. A CRIANÇA E A VIOLÊNCIA Uma das características do homem moderno é a ansiedade. A insegurança pessoal e coletiva predomina no mundo emocional do ser humano, devido à violência da competição pela sobrevivência. O medo e a inquietação encontram-se em todos os meios sociais. Segundo Fernandes (1998), o luxo e a miséria coexistem, a abundancia e a escassez, o excesso e a ausência gerando a indiferença, o desentendimento é uma característica do estado de primitivismo em que transitamos, longe dos valores éticos, únicos capazes de tornar a vida digna de ser vivida. O problema básico da violência é o desamor humano, o egoísmo. “Os direitos humanos universais começam em espaços restritos, em casa”. (Roosevelt, 2003) Em uma comunidade carente observa-se que dentro do ambiente familiar, bem como em seu próprio grupo, a criança vive uma realidade diferente, muitas vezes sofrida e desajustada. A carência e a dependência econômica não devem ser tratadas puramente em termos de baixa renda e falta de bens materiais. Os educadores e poder público precisam estar sensíveis à preparação da criança para a vida e desta forma coibir os problemas sociais que nos afligem. Segundo Mussen (1977), o registro de agressões humanas se estende por toda a história do homem, desde os primórdios da civilização até os vários conflitos e revoltas que marcaram o século vinte. Não só as guerras, mas assassinatos, combates e destruição 14 da propriedade, causando sérios distúrbios emocionais. Esses fenômenos se estendem até os nossos dias com alto índice de delinqüência, através de agressões físicas e verbais. O mesmo autor atribui à agressão como sendo um componente da autodestruição do ser humano e seu ambiente. As pessoas tornam-se desconfiadas devido às crises, tanto pela violência armada de uns indivíduos contra outros, quanto pela agressividade automática. Na educação das gerações mais novas verifica-se, em especial na criança carente, a queda do respeito a tudo e a todos, o que estimula a indisciplina. As crianças são relegadas a plano secundário, em que a preocupação é oferecer coisas materiais, numa verdadeira chantagem emocional. As mães, normalmente sem o apoio do companheiro, esforçam-se trabalhando mais tempo fora do lar para dar à criança “tudo o que eu não pude ter”, para que não se sinta inferior diante da sociedade que só valoriza a aparência. A crise de autoridade começa em casa, onde não recebem companheirismo e orientação saudável, tornando-se mais exigentes. Os maus exemplos sociais através de modelos, favorecem a desonestidade discreta e pública em todos os ambientes. A necessidade de relacionamento humano, como mecanismo de afirmação pessoal, tem gerado vários distúrbios de comportamento, refletindo na criança em especial uma grande dificuldade em seu desenvolvimento psíquico, social e afetivo. Segundo os dados do Censo de 2000 do IBGE, 25% das famílias brasileiras são chefiadas por mulheres. Isso reflete a falta de compromisso comum entre homens que confundem o término do casamento com o fim da responsabilidade da presença e do sustento financeiro junto dos filhos. O que predomina na vida dessas mulheres é a sobrecarga derivada do acúmulo de funções. Ela é a provedora e cuidadora principal ou exclusiva. Com o aumento das atividades surge o estresse, crescem a irritabilidade, a impaciência e a intolerância com os filhos. Está comprovado, através de instituições que trabalham com o problema da violência doméstica, que as mães são as principais agressoras. A solidão, a falta de uma rede de apoio eficaz são fatores que pesam em sua atitude. 15 A “feminização da pobreza”, segundo Maldonado (2003) é um fenômeno onde as empregadas domésticas ocupam a maior fatia do mercado de trabalho feminino no Brasil. Há boa parte de mulheres que têm filhos com diferentes companheiros, que não contribuem para o sustento dos mesmos. Nas camadas populares ainda existe a cultura da falta de responsabilidade do homem pela paternidade, gerando a idéia de que os “filhos são da mãe”. Os filhos mais velhos recebem uma maior carga de agressividade devido à lembrança do antigo companheiro que se foi, gerando graves distúrbios em seu comportamento. A família autoritária, com atitudes de violência, física ou verbal, estimula em algumas crianças a internalização deste modelo (Oliveira, 2002). Neste tipo de família é normal o caminho da violência para resolver conflitos. O padrão de dominação / submissão, nas relações familiares tornam-se aceitáveis, onde ocorrem atitudes de abuso de poder, especialmente pelo provedor. Vários estudos mostram que boa parte dos adultos violentos foram crianças violentadas. Por outro lado, segundo a autora, a influência da família permissiva é devastadora. Quando os limites devidos não são cobrados é grande o risco de falhas no desenvolvimento do controle da impulsividade. A criança e o jovem continuam centrados em seus próprios desejos; a tolerância à frustração, a noção de empatia, solidariedade e respeito pelos outros ficam subdesenvolvidas. Tudo isto é, agravado pela “cultura da impunidade” que, dentro do próprio lar, espelha a mesma cultura que existe na sociedade. 1.2. DISTÚRBIOS DA APRENDIZAGEM CONDICIONADOS PELA SITUAÇÃO FAMILIAR E PELA EDUCAÇÃO RECEBIDA FORA DA ESCOLA Segundo Correll (1994), o campo familiar é de grande importância não só na educação, podendo favorecer ou provocar distúrbios de aprendizagem. O autor descreve 16 diversas situações vivenciadas pela criança na família, que poderiam provocar dificuldades na escola. Cita, entre outras, a ausência do pai, educação por parte do padrasto; família sem a presença da mãe; a presença da madrasta provocando uma educação desigual; a situação do órfão e, por último, a situação do lar desunido. Muitas vezes, crianças provenientes de lar desfeito não estão, em condições de desenvolver uma autentico relacionamento social. Isso significa uma perturbação no processo de identificação e, com isso, uma ameaça tanto para a ação didática quanto para o desenvolvimento ético-moral da criança. “Do ponto de vista da psicanálise, uma educação sem pai representa um desenvolvimento perturbado do superego e da consciência” (Schwarze, 1994). O rendimento menor dos órfãos não deve, portanto, ser relacionado necessariamente com falta de capacidade. O autor cita, ainda, as características das crianças provenientes de família sem pai: • Sentimento social perturbado; • Tendência para a falta de ligações com outros; • Escassa motivação; • Facilidade de distração; • Sentimento de medo e insegurança. O seu sentimento de auto-estima é, por isso, sempre instável e sua autoconfiança é extremamente pequena. Em linhas gerais, o psicopedagogo busca detectar as causas pelas quais o sujeito não aprende, ou melhor, onde se localiza sua inadaptação à aprendizagem, e levá-lo a descobrir sua própria modalidade, ou seja, seu modo, particular de se relacionar com o ensino escolar. Segundo Benites (1998) como possíveis fontes de interferência seis fatores podem ser verificados, a saber: os de natureza cognitiva e maturacional, os de natureza emocional, os de natureza pedagógica, os lingüísticos e os ambientais. Nem sempre as dificuldades aparecem no início da vida infantil, do processo de aprendizagem ou quando as solicitações sejam mais em nível de hábitos cotidianos. Podem surgir quando solicitações passam a envolver raciocínio, a capacidade para a síntese e outras mais 17 complexas. Estas, somadas à coordenação visomotora, à percepção, à lateralidade, à organização espaço-temporal, à memória e à atenção, são adquiridas ao longo do processo maturacional, dentro de um ritmo próprio de cada indivíduo. Quando tais fatores deixam de ser considerados, a aprendizagem fica comprometida, podendo causar, futuramente, a inadaptação ao processo de aprendizagem escolar. - Fatores de Natureza Emocional: Freqüentemente percebe-se que as crianças mais ansiosas, deprimidas, intolerantes, impulsivas ou hiperativas de mostram maiores dificuldades de aprendizagem, apesar de possuírem íntegros os chamados pré-requisitos necessários. A aprendizagem informal, socialização, interações consigo e com o outro, antecede a formal, para depois caminharem paralelamente. Benites afirma que uma vez compreendida a aprendizagem informal como possibilidade para a estimulação da autonomia, da independência, da tolerância e da flexibilidade, assegura-se, mais facilmente, a aprendizagem formal e a assimilação dos conteúdos simbólicos nela contidos. O que verificamos, em nossa experiência junto à criança carente, é que faz-se necessário executar procedimentos de reeducação em relação a esses aspectos. Cabe ao psicopedagogo consciente e responsável, diante de tantas barreiras e obstáculos existentes, atuar de forma preventiva e especialmente reeducativa. Segundo Benites (1998) a orientação psicopedagógica constitui-se, então, em uma busca para aproximar os seres humanos e ajudá-los (percebendo-os) a seguirem seus caminhos. “Elemento fundamental do processo de desenvolvimento é a interação social que desempenha um papel formador e construtor. Isso significa que algumas das categorias de funções mentais superiores (atenção voluntária, memória lógica, pensamento verbal e conceitual, emoções complexas, 18 etc), não poderiam surgir no processo do desenvolvimento sem a contribuição construtora das interações sociais”. (Vygotsky, 2001, pág. 06) 19 CAPÍTULO II A EDUCAÇÃO O estado natural é a infância da humanidade e o ponto de partida do seu desenvolvimento intelectual e moral. O homem, sendo perfectível e trazendo em si o germe de seu melhoramento, não foi destinado a viver perpetuamente no estado natural, como não foi destinado a viver perpetuamente na infância. O estado natural é transitório e o homem o deixa pelo progresso e pela civilização. (Emmanuel) 20 EDUCAR – v.t. Estimular, desenvolver e orientar as aptidões do indivíduo, de acordo com os ideais de uma sociedade determinada; aperfeiçoar e desenvolver as faculdades físicas, intelectuais e morais de; ensinar; instruir; domesticar; adestrar; aclimar. (Holanda, 1964) O século XVIII iniciou-se entre lutas renovadoras. Diversos personagens da Filosofia e da Ciência, nascidos particularmente na França tentam combater os erros da sociedade e da política. Dentre estes reformadores encontramos Voltaire, Montesquieu, Rousseau, D’Alembert, Diderot, Quesnay. Suas lições generosas repercutem em todo o mundo. Rousseau foi o marco inicial de uma reforma na educação no ocidente, denunciando uma “falsa educação” praticada na época, principalmente na França, propondo, em sua obra Emílio, uma nova educação, baseada no desenvolvimento natural da criança, antevendo o surgimento da psicologia infantil. Pestalozzi, em sua visão avançada, percebe que a criança possui em germe um grande potencial interior, e define educação como “o desenvolvimento harmonioso e progressivo de todas as faculdades do ser”. Define três estados ou etapas morais do homem, demonstrando a evolução do estado primitivo ao estado social e, deste ao estado moral. De Herbart e Froebel ao movimento da escola nova, muitas luzes brilharam procurando destacar a importância da atividade no processo de aprendizagem que passa a ser vista como uma conquista que requer atividades e energia do educando. Lamarck e Darwin, com a teoria da evolução, demonstraram a continuidade evolutiva entre os animais e o homem, abrindo caminho aos princípios evolucionistas, auxiliando-nos a compreender os processos de desenvolvimento de aprendizagem. Decroly em sua fabulosa Escola da Ermida (I’Ermitage), procura preparar a criança para a vida, levando-a a observar, diariamente, os fenômenos da natureza e as manifestações de todos os seres vivos, em trabalho espontâneo e 21 criador. Foi o criador de um método globalizante, ou “Centro de Interesse”, criando um laço entre as disciplinas normais da escola, fazendo-as convergir ou divergir para um mesmo centro, tendo-se em conta o interesse da criança, que segundo ele é a alavanca de tudo. Dewey destaca a educação como permanente organização ou reconstrução da experiência, sendo, portanto, um processo ativo, onde o aluno deve ter uma meta a atingir. Rudolf Steiner, criador da Pedagogia Waldorf, destaca a importância de se trabalhar a vida sentimental da criança, apelando para sua fantasia criadora, aumentando essas forças com imagens que as fecundem e elevem. A criança não pode pensar nem aprender sem que esteja engajada emocionalmente. A Pedagogia Waldorf é a única ciência pedagógica do ocidente que percebe a criança como um ser eterno. Claparede, ao criar o Instituto Jeans-Jacques Rousseau, em Genebra, trabalhando na psicologia e na pedagogia, destacou que a escola deve ser ativa, antes um laboratório que um auditório, procurando estimular ao máximo a atividade da criança. A escola é um meio alegre, onde a criança passa a amar o trabalho. O professor passa a ser o estimulador de interesses, despertador de necessidades intelectuais, não se limitando a transferir seus conhecimentos aos alunos, mas ajudando-os a adquirilos por si mesmo, através do trabalho, de pesquisas, da ação. Ao mesmo tempo, abre caminho para as pesquisas de Piaget. Freinet, na pequena aldeia da Bar-sur-Loup, na França, promoveu uma escola ativa e cheia de vida, introduzindo a aula-passeio, o jornal escolar, a imprensa na escola, o texto livre, onde as crianças escolhiam, por votação, o que ia ser impresso e elas mesmas faziam a correção. Jean Piaget, em uma vida toda dedicada ao estudo da criança, demonstra através de um trabalho sério e profundo que todo conhecimento é construído através de um processo contínuo de adaptação, transformando nossas estruturas anteriores em estruturas, mas aperfeiçoadas. Demonstra ainda a existência da moral heterônoma e da moral autônoma, afirmando a necessidade do respeito mútuo, do afeto e da cooperação para que o educando possa chegar à autonomia moral. Vygotsky, trabalhando a teoria da zona do desenvolvimento proximal, demonstra a importância da 22 integração social e do trabalho cooperativo das crianças. Wallon apresenta uma atrativa proposta de psicologia integradora com ênfase nos processos emocionais e afetivos. Propondo uma teoria da emoção junto ao funcionamento da inteligência, afirma que a infância é a fase emocional por excelência. Dos reflexos condicionados de Pavlov, do Behaviorismo de Watson, que destacam o condicionamento do comportamento através de estimulo e resposta, à psicologia da Gestalt, com Max Wertheimer, Kohler e Koffka, que afirmam que a percepção depende também das circunstâncias psicológicas do indivíduo, ou seja, a percepção é o resultado da interação do indivíduo receptor e o ambiente emissor e, portanto, duas pessoas submetidas aos estímulos de um mesmo ambiente físico, podem adotar comportamentos totalmente diversos. Destacando que a aprendizagem é o desenvolvimento de insights (discernimento, compreensão penetração no entendimento de um assunto), afirmam que o insight é uma conquista de quem aprende e não pode ser, simplesmente transferida de uma pessoa para outra, mas o professor pode auxiliar o aluno a desenvolver seu insight. Enfim, de Skinner, que propôs um controle do comportamento previsível e controlado, fazendo restrições ao livre-arbítrio e à vontade interior, até Rogers que contrapondo-se firmemente a Skinner, afirma que a ciência do comportamento deve liberar e não controlar, destacando a importância, da vontade e propondo uma educação de natureza dinâmica, onde os indivíduos devem ser estimulados para que desenvolvam suas próprias potencialidades, num clima de liberdade, auto-realização e consciência social. O senso moral, apesar de não desenvolvido, não está ausente; porque ele existe, em princípio, em todos os homens; é esse senso moral que os transforma mais tarde em seres bons e humanos. Ele existe no selvagem como o princípio do aroma no botão de uma flor que ainda não se abriu. Todas as faculdades existem no homem em estado rudimentar ou latente e se desenvolve segundo as circunstâncias mais ou menos favoráveis. O desenvolvimento excessivo de umas impede ou neutraliza o de outras. A superexcitação dos instintos materiais asfixia, por assim dizer, o senso moral, como o 23 desenvolvimento deste arrefece pouco a pouco as faculdades puramente animais. (Emanuel) 2.1. O DESENVOLVIMENTO MORAL E PESTALOZZI Pestalozzi continua sendo o “grande desconhecido” dos educadores atuais. No entanto, suas idéias e seu exemplo de vida são de profunda importância para todos os que se preocupam com a educação, que contínua atual, pois seus princípios revelam à verdadeira natureza da educação e, como verdade, se mantém sempre em sua visão extradiordinária, Pestalozzi via o homem criado por Deus, que trazia em seu íntimo um conjunto de qualidades e poderes herdados do criador. Para ele a educação é o desenvolvimento natural e progressivo desses poderes e faculdades que todos possuem, definindo-a assim: “Uma educação perfeita é para mim simbolizada por uma árvore plantada perto das águas fertilizantes. Uma pequena semente que contém o germe da árvore, sua forma e suas propriedades, é colocada no solo. A árvore inteira é uma cadeia ininterrupta de partes orgânicas, cujo plano existia na semente e na raiz. O homem é como a árvore. Na criança recém-nascida estão ocultas as faculdades que lhe hão de desdobrarse durante a vida, os órgãos do seu ser gradualmente se formam, em uníssono, e constroem a humanidade à imagem de Deus. A educação do homem é um resultado puramente moral. Não é o educador que lhe dá novos poderes e faculdades, mas lhe fornece alento e vida. Ele cuidará apenas de que nenhuma influência desagradável traga distúrbios à marcha do desenvolvimento da natureza. Os poderes morais, intelectuais e práticos do homem devem ser alimentados e desenvolvidos em si mesmo e não por sucedâneos artificiais. Desse modo, a fé deve ser cultivada pelo nosso próprio ato de crença, e não como argumentos a respeito da fé; o amor, pelo próprio ato de amar, não por meio de palavras a respeito do amor; o pensamento pelo nosso próprio ato de amar, não por meio de palavras a respeito do amor; o pensamento pelo nosso próprio ato de pensar, não por mera apropriação dos pensamentos de outros homens, e o conhecimento pela nossa própria investigação, não por falações intermináveis sobre os resultados da arte e da ciência”. 24 (Pestalozzi, ano, pág.) Educação é, portanto “o desenvolvimento natural, progressivo e harmonioso, de todos os poderes e faculdades do ser”. Mas esta educação não ocorre por meio de palavras e aulas frias. O amor se desenvolve pelo próprio ato de amar, o pensamento pelo próprio ato de pensar, enfim, a criança aprende, sentindo, agindo, participando das experiências naturais da vida, vivendo um ambiente estimulador de suas qualidades interiores. Qual a semente plantada perto de águas fertilizantes, a criança em um ambiente adequado, verá germinar suas qualidades superiores. As águas fertilizantes representam as criaturas que lhe cercam, os pais, professores, amigos, as atividades e o ambiente geral que lhe cerca de vibrações estimulantes das qualidades superiores. Recebendo o estímulo superior, suas qualidades superiores acordam, ressurgindo do estado de latência e imprimindo-se no espírito para sempre. 25 CAPÍTULO III A EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS “A educação cabe a tarefa de modificar para melhor e tornar mais feliz a paisagem moral dos habitantes da terra não a educação exercida pelas grades e programas escolares, responsáveis pela instrução, pela transmissão de conhecimento teóricos e tecnológicos”. (Angelis, 2003, pág. 12) 26 Será pela educação moral, segundo Antunes (1998), especialmente no lar, na família, mediante o exemplo dos pais e da sua dedicação, que serão transformadas as estruturas do ser humano desde a infância, no seu processo de evolução. A constância do amor e os exemplos de bondade em todas as horas difíceis junto aos filhos, o respeito que se devem manter os familiares, constituem a mais segura pedagogia para diminuir e mesmo erradicar a violência do comportamento do ser humano. Como esperar que educadores remunerados, igualmente portadores de conflitos, atendendo a deveres que têm na formação dos alunos, consigam o que a família deixa de realizar? Segundo Tiba (1998), a educação está a crise, a família e conseqüentemente a sociedade também. Qual seria a solução para esse impasse, onde a criança torna-se, a principal vítima, num verdadeiro circulo vicioso, transformando-se num adulto em desequilíbrio prejudicando a sociedade mais que contribuindo para a evolução? Em especial as famílias econômica, social e moralmente carentes sentem maior dificuldade em transmitir uma educação integral a seus filhos, já que não receberam e ainda não são capazes de fazê-lo. À escola é relegado esse papel de educar e instruir, gerando grandes dificuldades e insatisfação junto ao professor, que necessita atualizar seus métodos pedagógicos. Segundo o autor, as escolas precisam capacitar seus professores. Mas é possível melhorar a educação com a “teoria integração relacional”. O autor dessa teoria baseou-se em 30 anos de prática em psicoterapia para adolescentes e suas famílias, reforçadas pelo trabalho na área de educação com professores, crianças e jovens. 27 “A integração relacional é um conceito de saúde biopsicossocial para o melhor entendimento do ser humano e seus relacionamentos na busca de melhor qualidade de vida, realizando seus potenciais”. (Tiba, 1998). E escola precisa investir no novo paradigma que é capacitar o professor a exercer o papel de orientador: ajudar o aluno a buscar, compreender (digerir), assimilar e integrar a informação para poder transformá-la em conhecimento, favorecendo o exercício do conhecimento pela prática, de modo que o aluno adquira sabedoria sobre o assunto. Algumas escolas privadas brasileiras estão investindo pesadamente na capacitação dos professores e na melhora das condições físicas e psicológicas para o aprendizado de seus alunos, promovendo a integração dos pais e suas atividades, trabalhando a seis mãos. O autor focaliza especificamente a educação relacional e, para compreendê-la usa cita os três níveis de comportamento humanos: 1 – Nível biológico ou instintivo característico dos animais mamíferos, regidos pelos instintos (de sobrevivência, princípio do prazer, desprazer, do afeto, da agressividade, etc.). 2 – Nível psicológico ou aprendido, resultando da inteligência humana, é base fundamental para o nível seguinte. 3 – Nível social ou evoluído que caracteriza a capacidade relacional, já que o ser humano é gregário e vive em sociedade, aqui estão a disciplina, a gratidão, a religiosidade, a ética relacional e a cidadania. É neste terceiro nível que reside a educação relacional. Atualmente, a educação domiciliar carece desse terceiro nível, pois já é grande a dificuldade de ensinar o segundo. Muitas famílias têm clara a noção de certo e errado e não conseguem estabelecer limites e responsabilidades, permitindo que os filhos ajam guiados pelo prazer, evitando qualquer coisa que lhes dê trabalho, entendida como desprazer. “A criança escolhe algo. Se é gostoso, vai em frente. Se encontra dificuldades, larga. É uma geração com 28 muita iniciativa e pouca “acabativa”, que está indo para a escola sem grandes motivações de estudo e dificilmente se adaptará ao sistema psicopedagógico clássico”. (Tiba, 1998) 3.1. O QUE É A EDUCAÇÃO EMOCIONAL? “Somente a educação do espírito, que desvenda ao homem o conhecimento de sua realidade espiritual, com suas potencialidades divinas e de sua finalidade superior na terra, pode motivá-lo e orientá-lo adequadamente para realizar mudanças profundas e efetivas”. (Flora, 2001) Tal afirmação parece refletir apenas uma concepção religiosa do ser humano. Entretanto, as novas concepções da física quântica, da psicologia transpessoal e de outras ciências revelaram ao homem que ele transcende a sua personalidade transitória, é um ser holístico lançando por terra a clássica dissociação espírito-matéria e, como novidade para o mundo ocidental, está em contínua interação com as forças cósmicas. Tais conceitos reviveram, nas mais filosófica, mas cientificamente, verdades expressas há milênios, pela cultura oriental e, ao mesmo tempo, estão em consonância com a moderna ciência. Possibilitando ao homem o desenvolvimento de sua realidade eterna, rumo a uma integração com a consciência espiritual. A educação dos sentimentos beneficia a todos e, particularmente, aos grupos socialmente mais carentes das grandes cidades, mais expostos às influências desagregadoras, pois é um processo de ajuda na formação de um sistema de valores ético-morais. Sabemos que não é fácil superar as influências culturais e sociais, a não ser que aja aceitação plena de outros valores. Este, na verdade, é o grande desafio da educação, mas partimos da convicção de que todos, sem exceção, trazemos “os germes do bem e do belo” que podemos gradativamente 29 desenvolver por ser uma educação transformadora, só se efetivará com a adesão da vontade do educando, através da motivação e estimulação de suas potencialidades. “Todas as criaturas, em todas as idades, são educáveis, pois a vida é, em si, um permanente processo de construção e reconstrução de experiências. Contudo, a infância, pela sua organização neuropsicológica especifica, é o período mais favorável para a formação de hábitos e atitudes e deve merecer maior atenção. Para que possamos educar a criança adequadamente, temos que compreender as características do seu desenvolvimento e como ocorre o processo de aprendizagem”. (Flora, 2001, pág. 13) • Princípios gerais do desenvolvimento segundo Piaget: É da natureza do homem, diz Piaget organizar suas experiências e adaptar-se ao que tenha experimentado. A adaptação, que é um processo simples de ajustamento ao meio ambiente, envolve dois aspectos importantes de funcionamento: assimilação e acomodação. Assimilação, o indivíduo incorpora as coisas e pessoas segundo as estruturas mentais já constituídas. Exemplo: quando o bebê vê um objeto e tenta agarrá-lo, ele está assimilando. Ele está incorporando a experiência e ajustando-a a uma estratégia que já possui, neste caso, alcançar e agarrar. Acomodação é o processo complementar adaptando o corpo (conceito ou idéia) em concordância com o que foi incorporado. Na acomodação há uma readaptação das estruturas mentais já constituída. Exemplo: quando o bebê muda a forma da mão para poder segurar um objeto, ele mostra uma acomodação. Para Piaget, a natureza do homem funciona para se organizar e se adaptar, quer física, quer mentalmente. O conceito de equilíbrio corresponde a uma boa relação entre o organizador e o ambiente. E a adaptação é o resultado dos dois processos fundamentais que se sucedem de modo integrado: assimilação e acomodação. 30 • Seqüência do desenvolvimento: Toda criança nasce com algumas estratégias básicas para interagir com o ambiente. Este é o ponto de partida para o desenvolvimento do pensamento. Essas estratégias vão se aperfeiçoando, tornando-se cada vez menos automáticas e mais sujeitas e um controle voluntário, podendo experimentar novas formas de exploração. Vai percebendo que os objetos são constantes. Estas descobertas parecem ocorrer em uma seqüência fixa, mas cujo ritmo é afetado pelo ambiente onde a criança vive. Ela desenvolve-se mais rapidamente num ambiente estimulador, pois o desafio é o alimento para o seu pensamento. 1 – Sensório-motor (0 a 2 anos) Passagem dos comportamentos reflexos para intencionais; Fase inicial da representação interna. 2 – Pré-operacional (2 a 6 / 7 anos), subdivide-se em 2 períodos: - Pré-Conceitual (2 a 4 anos) Início da função simbólica (o faz-de-conta); Evocação de objetos em sua ausência (já tem a imagem mental); Egocentrismo (a criança conversa e brinca sozinha, mesmo no grupo); - Do Pensamento Intuitivo (4 a 6 / 7 anos) Passagem da fase egocêntrica à socializada; Inteligência intuitiva (elabora o pensamento segundo sua percepção visual); Pensamento irreversível (não tem a idéia de conservação quando se muda a forma); Início da capacidade de classificar. 3 – Operações concretas (6 / 7 a 11 / 12 anos) Operações mentais concretas; Pensamento reversível (compreende a conservação de quantidade, comprimento, área e volume, independente da forma); 31 Conexões lógicas na presença de objetos e ações concretas; Linguagem socializada; Sentimentos morais e sociais de cooperação e aceitação do ponto de vista do outro. 4 – Operações formais (11 / 12 anos ao final da adolescência) Operações mentais lógicas e pensamento abstrato; Introspecção (auto-análise); Imaginação rica. • A adolescência é dividida em 2 fases, pela predominância de algumas características: 1ª fase: de 11 / 12 aos 14 anos. 2ª fase: de 15 aos 18 / 20 anos. Além das características mentais, a adolescência é marcada por profundas mudanças e nível físico, instintivo-emocional e a nível social, como preocupação com problemas sociais e políticos; busca de respostas para questões existenciais e preocupação com a escolha da profissão. Ao educador consciente cabe conhecer melhor essas necessidades e interesses do educando para motivá-los, proporcionando um melhor desenvolvimento. O desenvolvimento moral da criança. “Piaget (Flora, 2001) em seu livro “O Julgamento Moral da Criança”, descreve duas grandes fases de desenvolvimento moral: a da moral heterogênea e a da moral autônoma. Precedendo essas fases, nos primeiros anos de vida, a criança pode obedecer ordens mas apenas por impulsos ou condicionamentos. É uma fase pré-moral ou de anomia. De 4 / 5 a 7 / 8 anos, na fase da moralidade heterônoma, as crianças consideram um ato bom ou mal dependendo de suas conseqüências e não importando as intenções de quem age. Por exemplo, uma criança que quebra 32 quinze xícaras é considerada pior do que aquela que quebra apenas uma, mesmo que a primeira tenha quebrado as xícaras quando tentava ajudar a mãe, enquanto a segunda criança quebrou-a em uma crise de raiva. Nesta fase a criança também crê que regras são imutáveis, não dependem do contexto; são externas a sua consciência (realismo moral). Esta fase dá lugar posteriormente, à fase da moralidade autônoma. As intenções de quem age tornam-se mais importantes do que as conseqüências de sua ação; as regras e ordens resultam de mútuo consentimento e os julgamentos da criança tornam-se mais flexíveis. “O fim da educação moral é o de construir personalidades autônomas aptas para cooperação”. (Piaget, apud Flora, 2001). Em outras palavras, o educando deve ser capacitado para escolher consciente e livremente o bem. Para isso, será necessário um meio social alicerçado na colaboração e não na submissão, num contexto de afeição e liberdade, praticando, o educador, a reciprocidade com seu exemplo. Ao invés de disciplina impostas, regras de convivência elaboradas com a criança ou o grupo na própria ação, evitando a obediência por conformismo, submissão à regra sem perceber seu significado real ou a possibilidade de adaptar novas regras em situações diferentes. Kohlberg (1998), outro estudioso do desenvolvimento moral, afirma que este desenvolvimento evolui de estágios em que predominam o medo da punição e o valor da recompensa para o de conformidade ao grupo, até chegar ao agir autônomo, ditado pela consciência moral, a regra áurea “faça aos outros, o que gostaria que lhe fizessem”. 3.2. INTELIGÊNCIAS MÚLTIPLAS A Teoria das Inteligências Múltiplas foi elaborada a partir dos anos 80, em Harward, tendo como líder o psicólogo Howard Gardner. 33 Originou-se pelo acompanhamento do desenvolvimento profissional de pessoas que haviam sido alunos fracos; e com surpresa verificou-se o sucesso que vários conseguiram. Os pesquisadores passaram então a questionar a avaliação escolar que não consideravam a capacidade individual, tão importante na vida das pessoas. Demonstrou-se que as demais faculdades, também são produtos de processos mentais, e que não há motivo para diferenciá-los do que se considera inteligência. Daí ampliou-se o conceito de inteligência que, segundo Gardner pode ser definida como “a capacidade de resolver problemas ou elaborar produtos valorizados em um ambiente cultural ou comunitário”. Estabeleceu vários critérios para que uma inteligência seja considerada, da possível manifestação em todos os grupos, culturais até a local de sua área no cérebro, devido a pesquisas por exigência de um mundo novo, Gardner considerou os seguintes tipos de inteligência: • Lógico-matemática. Muito valorizada ainda em nossa cultura, influenciada pelo pensamento cartesiano, racional, no “penso logo existo” de descartes. A idéia de ser inteligente geralmente está associada a um desempenho muito bom nessas áreas. É o modo de pensar do ocidente, habilidade para o raciocínio dedutivo, direcionando ao pensamento cientifico, às idéias tradicionais; • Lingüística. Desenvolvimento da fala, expressão, facilidade de lidar com as palavras nos diferentes níveis da linguagem (semântica, síntaxe); • Interpessoal. É a capacidade de uma pessoa dar-se bem com as demais, compreendendo-as percebendo suas motivações e facilidade para saber como satisfazer suas expectativas emocionais. Esse tipo de inteligência é ressaltado nos indivíduos com empatia com o Ghandi, políticos, terapeutas e animadores de espetáculos; 34 • Intrapessoal. É a competência de uma pessoa para conhecer-se e estar bem consigo mesma. É o controle emocional, característica dos “bem-resolvidos”, através do autoconhecimento; • Corporal-cinestésica. Revela uma especial habilidade para utilizar o próprio corpo de diversas maneiras. Envolve tanto o autocontrole corporal quanto a destreza para a manipulação de objetos. Atletas, malabaristas e mímicos têm essa inteligência; • Espacial. É a capacidade de situar-se espacialmente e utilizar esse modelo para orientar-se entre objetos ou transformar as características de um determinado espaço. É especialmente desenvolvida em arquitetos, navegantes, pilotos, engenheiros e escultores; • Musical. Permite que se organizem sons de maneira criativa, discriminado elementos como tons, timbres e temas. Facilidade para exercer atividades musicais; • Pictórica. É a facilidade de reproduzir, pelo desenho, objetos e situações reais ou mentais, organiza elementos visuais de forma harmônica, estabelecendo relações estéticas entre elas destaca-se em pintores, artistas plásticos, ilustradores e chargistas; • Naturalista. Capacidade de perceber a natureza, o ambiente. Exemplo: Jacques Cousteau. Segundo Gardner as inteligências se integram, envolvemos mais de uma habilidade na solução de problemas, embora aja uma predominância. Existe a possibilidade de se explorar uma em favor da outra. É o uso da chamada rota secundária para se alcançar a rota principal de uma determinada inteligência. Por exemplo, se uma criança tem dificuldade de memorizar números, mas é musical, pode-se usar a música como rota secundaria para ajudá-la na memorização matemática. Segundo o autor, excetos os casos de lesões, todos nascem com o potencial de várias inteligências. A partir das relações com o ambiente, incluindo os estágios culturais, desenvolvemos mais algumas e deixamos de aprimorar outras. Isso dá a cada pessoa um perfil particular de inteligência, o “espectro”. 35 Gilford é citado por Celso Antunes quando fala em muitas habilidades na inteligência. A inteligência artificial do mundo moderno, da máquina considera que o mais inteligente é resolver o maior número de problemas é diferente da inteligência cognitiva que possibilita a formação de um novo cidadão, mais feliz, menos ansioso, mais criativo, com maior poder de decisão. D. P. Franco fá fala no “homem integral”, desenvolvido em todos os aspectos, um ser cósmico. Os testes de inteligência (Q.I), usados no passado não medem criatividade. Há uma certa ruptura, um desenvolvimento diferente, quando se tenta enquadrar o educando nesse antigo padrão. O aluno precisa ser olhado por inteiro. Há deficiências não só físicas, os deficientes têm forma de aprender diferente, uns aprendem ouvindo, outros escrevendo. Na escola passa-se 95% de tempo só ouvindo. Segundo Paulo Freire, existem culturas paralelas, distintas e socialmente complementares. O pobre sabe, mas nem sempre sabe que sabe. A pedagogia da autonomia incentiva o uso de método diferente para alfabetizar adultos, de acordo com sua cultura, sua vivência. Cabe ao educador a responsabilidade ética na tarefa docente. Celso Antunes, baseia-se em Piaget e faz referencia à importância do brinquedo em termos de evolução social e da inteligência, mostrando como se caracteriza, basicamente em cada período do desenvolvimento. O melhor meio de estimular a inteligência é através de jogos. Deve-se explorar os diversos tipos de acordo com as diferenças do aluno. Exemplo: Jogo Pedagógico. É diferente do lúdico, além de recrear, conduz alguma habilidade. O autor citado refere-se ainda a alfabetização emocional, tão necessária numa sociedade tecnicista como a nossa. Independente de idade, o 36 educando é educado até pela postura, o exemplo do educador é mais importante do que o que fala. Os jogos de raciocínio possibilitam o desenvolvimento da observação e concentração. No passado havia apego à memória. Os melhores alunos recitavam textos. A escola nova relegou para segundo plano a utilização da memória. Celso Antunes comenta em seu vídeo que os efeitos são sérios e o jogo ajuda muito a trabalhar essa dificuldade. O estímulo é muito importante na infância. O clima das aulas deve ser favorável, usando a emoção, sem autoridade, facilitando o aprendizado, motivando. Segundo Fátima Alves, “os primeiros anos de vida têm uma importância capital: o desenvolvimento da inteligência, da afetividade, das relações sociais é tão rápido que a sua realização determinará em grande parte as capacidades futuras. O meio ambiente deverá ser favorável para haver uma maturação normal para o desenvolvimento da inteligência. A escola recebe a criança para implantar e reforçar a sabedoria, mas o bom desempenho dependerá de como ela foi preparada pela família”. (Fátima Alves, 2003) Numerosos distúrbios de desenvolvimento de uma criança carente são atribuídos à hereditariedade, embora sejam resultados desfavoráveis de vida, antes e após o nascimento. Tais crianças, se recebessem, cuidados e afeição necessárias de sua família, teriam as mesma oportunidade que as outras. Edgar Morin elaborou a teoria do pensamento complexo (significa abraçar) que visa produzir um conhecimento que não seja fragmentado, que considera o individuo como um todo, assim como o planeta. No texto “Os sete saberes necessários à educação do futuro”, que serviu de base para elaboração de nossos parâmetros curriculares nacionais, Morin coloca que a reforma mais ampla no ensino pode começar a ser feito em cada sala de aula. Compara o planeta a uma nave espacial, em que a economia, a ciência, a tecnologia e a política seriam os motores que atualmente estão danificados. O papel da educação nessa nave seria trazer a compreensão e fazer 37 as ligações necessárias para esse sistema funcionar bem. O problema é que os relacionamentos nessa nave são muito ruins. Desde o convívio entre os pais e filhos, cheios de briga, até as relações internacionais, cheias de guerras. Para o autor o objetivo é ensinar valores, que são incorporados pela criança desde muito cedo. É preciso mostrar a ela como compreender a si mesma para que compreenda os outros e a humanidade em geral. O sistema educativo fragmenta a realidade, simplifica o complexo, separa o que é inseparável, ignora a multiplicidade e a diversidade (cada um é um universo com suas individualidades). O trabalho interdisciplinar, segundo Morin, deve ser sempre buscado pelo educador. Hoje existe um abismo entre as humanidades e as ciências, o que é grave para as duas. Somente uma comunicação entre elas vai propiciar o nascimento de uma nova cultura, e essa, sim, deverá perpassar a formação de todos os profissionais. Uma grande reforma educacional, segundo ele, vai começar por uma minoria que sente necessidade de mudar, através de experiências pilotos, onde se visse temas como compreensão humana, o estudo da condição humana em seus aspectos biológicos, físicos, culturais, sociais e psíquicos. Daí viria a mudança e finalmente o progresso. Os professores polivalentes da escola primária são os ideais para tratar de temas tão profundos, por terem uma visão mais ampla dos saberes, por não serem especialistas. Com isso haverá construção, a transformação de um homem novo. A educação deve passar por essa transformação, a construção da realidade, através de uma visão holística. 38 CAPÍTULO IV O LÚDICO “Brincar é o último reduto de espontaneidade que a humanidade tem”. (Hortelio, Lydia, 2004). 39 “Brincadeira é a dramatização dos pensamentos que emergem do mundo íntimo da criança. A sua realização vão permitir a interação com conteúdos que precisam ser trabalhados. A brincadeira, o jogo, não é uma simples recordação de impressões vividas, mas uma reelaboração criativa delas, um processo através do qual a criança combina entre si os dados da experiência no sentido de construir uma nova realidade, correspondente às suas curiosidades e necessidades”. (Souza, 1996, FEB) A brincadeira infantil, no processo educacional, a observação talvez seja o item de que nós temos descuidado mais freqüentemente. A respeito disso, vale a pena destacar uma afirmativa de Jung: “Os valores espirituais, as propriedades da alma, são inacessíveis a um tratamento meramente intelectual. Também de nada adianta que alguém tenha condições céticas a respeito disso, a natureza pouco se importa com as nossas opiniões. Ao lidarmos com a alma humana, somente nos acercaremos dela se passarmos para o “chão” que lhe é próprio. É isso que devemos fazer sempre que nos encontrarmos diante dos problemas reais da vida que ameaçam subjugarnos”. (Jung, apud Souza, 1996) Como poderemos passar para o “chão” que é próprio da alma infantil? De que maneira poderemos observar mais adequadamente a criança e compreender como se organiza seu psiquismo? O adulto geralmente considera a brincadeira infantil uma perda de tempo, mas é exatamente aí que poderemos observar melhor a criança. É por intermédio da brincadeira que a criança conquista o domínio do mundo exterior, ao mesmo tempo em que aprende a lidar com suas inquietações internas. A brincadeira lhe possibilita a aprendizagem do controle do próprio corpo, ajuda-a com seus problemas psicológicos e a inicia nas relações sociais, amparando-a no difícil aprendizado do ajustamento aos outros. Além disso tudo, ainda podemos acrescentar que é pela brincadeira que a criança nos deixa entrever seus impulsos e tendências, que são parte dos seus registros perispirituais. 40 É importante destacar, segundo Souza (1996), que, quanto mais oportunidades a criança tenha de desfrutar a riqueza e a liberdade de fantasia da brincadeira em todas as suas formas, mais solidamente seu desenvolvimento se processará. O adulto precisa, em especial o educador, respeitar a brincadeira da criança e tem que resistir à tentação de direcioná-la de acordo com a sua perspectiva pedagógica. A dimensão “mágica” da brincadeira está no sentimento que a criança extrai dela e esse valor estará perdido, se ela perceber que está sendo direcionada artificialmente para essa ou aquela aprendizagem, especifica. O aproveitamento pedagógico da brincadeira pode ser útil na escola, assim como na família; é preciso deixar que a criança se sinta livre para entregar-se à brincadeira, liberando a própria fantasia. É tão importante a brincadeira infantil que se torna necessário aprofundar mais a nossa compreensão dos mecanismos psicológicos que estão nela envolvidos. É relativamente recente a preocupação da psicologia com a imaginação e a fantasia. Antes do advento das pesquisas psicológicas, seu estudo pertencia ao âmbito da Filosofia, mas, ainda assim, de Aristóteles a Santo Agostinho, não dispunham os filósofos de palavras distintas para essas duas faculdades. Devemos a Hegel a implantação definitiva da distinção entre ambas, que são determinações da inteligência, sendo a imaginação uma faculdade simplesmente reprodutiva e a fantasia uma faculdade criativa. Para o adulto, a brincadeira infantil é geralmente uma inutilidade. O adulto, em nossa sociedade, se encontra contaminado pelo pragmatismo da cultura em que vivemos, em que útil é o que contribui para a produção de bens materiais. Não seria a insatisfação indefinível da vida adulta. O desejo não declarado de recuperar a experiência infantil de prazer, a anseio de redescobrir a vida como brinquedo? Se uma sociedade baseada no mito da oportunidade (e na realidade do lucro), precisa de homens pela metade – fiéis executores, diligentes reprodutores, dóceis instrumentos sem vontade própria – é sinal de que está mal 41 feita, é sinal de que é preciso mudá-la. Para mudá-la, são necessários homens criativos que saibam usar sua imaginação. (Rodary, apud Souza, 1996) Se brinquedos são sempre suportes de brincadeiras, sua utilização deveria criar momentos lúdicos de livre exploração, nos quais prevalece a incerteza do ato e não se buscam resultados. Porém, se os mesmos objetos servem como auxiliar da ação docente, buscam-se resultados em relação à aprendizagem de conceitos e noções ou, mesmo. Ao desenvolvimento de algumas habilidades. Nesse caso, o objeto conhecido como brinquedo não realiza sua função lúdica, deixa de ser brinquedo para torna-se material pedagógico. Um mesmo objeto pode deixar adquirir dois sentidos conforme o contexto em que se utiliza: brinquedo ou material pedagógico. O uso de brinquedos e jogos destinados a criar situações de brincadeiras em sala de aula nem sempre foi aceito. Conforme a visão que o adulto tem da criança e da instituição infantil, o jogo torna-se marginalizado. Se a criança é vista como um ser que deve ser apenas disciplinado para aquisição de conhecimentos em instituições de ensino acadêmicos, não se aceita o jogo. Entende-se que se a escola tem objetivos a atingir e o aluno a tarefa de adquirir conhecimentos e habilidades, qualquer atividades por ele realizada na escola visa sempre a um resultado, é uma ação dirigida e orientada para a busca de finalidades pedagógicas. O emprego de um jogo em sala de aula necessariamente se transforma em um meio para a realização daqueles objetivos. Portanto, o jogo entendido como ação livre, tendo um fim em si mesmo, iniciado e mantido pelo aluno, pelo simples prazer de jogar, não encontra lugar na escola. São tais ponderações que têm aquecido as discussões em torno da apropriação do jogo pela escola e, especialmente, o jogo educativo. • Jogo Educativo Dois interessantes trabalhos detalham a história dos jogos educativos, mostrando seu aparecimento e precisando o significado atribuído ao termo. Rabecq-Maillard (1969), mostra o gradual aparecimento dos jogos educativos na 42 história ocidental, a partir do século XVI, e Brougère (1987), a penetração da idéia o jogo educativo na escola maternal francesa. Embora Rabecq-Maillard aponte o século XVI como o contexto em que surge o jogo educativo, os primeiros estudos em torno do mesmo situam-se na Roma e Grécia antigas. Platão, já comentava sobre a importância do “aprender brincando”, em oposição à utilização da violência e da repressão. Da mesma forma Aristóteles sugere, para a educação de crianças pequenas, o uso de jogos que imitem atividades sérias, de ocupações adultas, como forma de preparo para a vida futura. Era o aprender através do exemplo, de uma forma agradável. Entre os Romanos, jogos destinados ao preparo físico voltam-se para a formação de soldados e cidadãos obedientes e devotos e a influência grega acrescenta-lhes cultura física, formação estética e espiritual. O interesse pelo jogo decresce com o advento do cristinianismo, a poderosa sociedade cristã que torna posse do império desorganizado e impõe uma educação disciplinadora. Escolas episcopais e anexas a mosteiros impõem dogmas e distanciam-se do desenvolvimento da inteligência. Os mestres recitam lições e lêem cadernos. Aos alunos resta a memorização e a obediência. Neste clima não há condições para a expansão dos jogos, considerando delituosos, à semelhança da prostituição e embriaguez. O aparecimento de novos ideais traz outras concepções pedagógicas que reabilitam o jogo. Durante o renascimento, a felicidade terrestre, considerada legítima, não exige a modificação do corpo, mas seu desenvolvimento. Desta forma, a partir do momento em que o jogo deixa de ser objeto de reprovação oficial, incorpora-se no cotidiano de jovens, não como diversão, mas como tendência natural do ser humano. É nesse contexto que Rabecq-Maillard situa o nascimento do jogo educativo. 43 O grande acontecimento do século XVI que coloca em destaque o jogo educativo é o aparecimento da companhia de Jesus. Inácio de Loyola, militar e nobre, compreende a importância dos jogos de exercícios para a formação do ser humano e preconiza sua utilização como recurso auxiliar do ensino. O renascimento reabilita exercícios físicos banidos pela Idade Média. Exercícios de barra, corridas, jogos de bola semelhantes ao futebol e o golfe, são práticas que se generalizam. Aos jogos do corpo são acrescidos os do espírito. O baralho adquire nessa época o estatuto de jogo educativo pelas mãos do Padre Franciscano Thomas Murner. Percebendo que seus estudantes não entendem a dialética em imagens, sob forma de jogo de cartas, engajando os alunos em um aprendizado mais dinâmico. Ao pôr em prática os ideais humanistas do renascimento o século XVII, provoca a expansão contínua de jogos didáticos ou educativos. Esse processo é acompanhado por estudos de filósofos acerca da importância da imagem e dos sentidos para a apreensão do conhecimento. Comenius mostra, em 1657, na obra “Orbis Sensualium Pictus”, a relevância das imagens para a educação infantil. Locke, o pai do empirismo, reforça a tese, explicando que tudo que está na inteligência passa pelos sentidos. A eclosão do movimento cientifico no século XVIII diversifica os jogos que passam a incluir inovações. Preceptores da época servem-se de imagens publicadas na enciclopédia científica para criar jogos destinados ao ensino de ciências para a realeza e a aristocracia. Popularizam-se os jogos. Antes, restritos à educação de príncipes e nobres, tornam-se posteriormente veículos de divulgação e crítica. Jogos de trilha contam a glória dos reis, suas vidas e ações. Jogos de tabuleiro divulgam eventos históricos e servem como instrumentos de doutrinação popular. 44 A imagem da criança como ser dotado de natureza distinta do adulto, chega com o século XVIII, permitindo a criação e expansão de estabelecimentos para educar a infância, que culmina no século seguinte. O início do século XIX presencia o término da Revolução Francesa e o surgimento de inovações pedagógicas. Há um esforço para colocar em prática, princípios de Rousseau, Pestalozzi e Froebel. Mas é com Froebel que o jogo, entendido como objeto e ação de brincar, caracterizado pela liberdade e espontaneidade, passa a fazer parte da historia da evolução infantil. Manipulando e brincando com materiais como bolas e cilindros, montando e desmontado cubos, a criança estabelece relações matemáticas e adquire conhecimentos de Física e Metafísica, além de desenvolver noções estéticas. Embora Froebel, em sua teoria, enfatize o jogo livre como importante para o desenvolvimento infantil, mesmo assim introduz a idéia de materiais educativos, os dons, como recursos auxiliares necessários à aquisição de conhecimento, como meios de instrução. Com a expansão dos novos ideais de ensino, crescem experiências que introduzem o jogo com vistas a facilitar tarefas de ensino. Paralelamente ao desenvolvimento da ciência e da técnica constitui fonte propulsora de jogos científicos e mecânicos. A expansão dos jogos na área da educação dar-se-á no início deste século estimulado pelo crescimento da rede de ensino infantil e pela discussão sobre as relações entre os jogos e a educação. Além de melhorar a qualidade de seus produtos, os fabricantes de jogos educativos procuram melhorar as normas de segurança dos brinquedos e introduzem, nos folhetos, informações que orientam a ação de brincar e aprender, além de especificações sobre adequação de brinquedos para as faixas etárias. Em sínteses, afirma Kishmoto (1994), o jogo educativo surge no século XVI, como suporte da atividade didática, visando à aquisição de conhecimentos e conquista um espaço definitivo na educação infantil. 45 Brougère (1987), reproduz o debate ocorrido entre inspetores da escola maternal francesa acerca da introdução do jogo educativo entendido ora como jogo livre, ora como jogo orientado. Certamente, desde tempos passados, alguns estudos apontam uma ligação entre o jogo e a aprendizagem. Mas predomina a idéia do jogo associado à recreação, a situações que se contrapõem ao trabalho escolar. 4.1. O LÚDICO – SUJEITO PROIBIDO DE ENTRAR NA ESCOLA. “O homem só se torna plenamente humano quando brinca”. (Schiller, apud Carvalho, 1996). No mundo do trabalho não há espaço para o brincar, considerando que este nada tem de produtivo na forma que preconiza o capital. O mundo moderno adquiriu dimensões onde não há espaço para o homem manifestar sua ludicidade. Valoriza-se a produção em detrimento do processo de humanização. A partir da Revolução Industrial, o homem passou a se ajustar ao sistema de produção da nova ordem estabelecida. O produto de seu trabalho transformou-se em mercadoria, sua força de trabalho adquire aspectos e é tratada como mercadoria. Trabalhar deixa de ser prazer, para tornar-se necessidade e obrigação, onde a maioria das vezes o poder de criação é menos prezado. O homem (trabalhador), tem sua humanidade aviltada e logicamente embrutecida. Após a Revolução Industrial, a escola passou a assumir uma posição de grande importância nas sociedades ditas industrializadas. A escola passa a ser a responsável pela formação da mão-de-obra, imprescindível para as industrias. Ao assumir esta função, outra função é assumida ao mesmo tempo, que é a de reprodutora da ideologia dominante. A fim de garantir a reprodução das relações de produção, advindo a partir daí sua institucionalização. 46 Dentro desse processo de desumanização do homem, pelo poder tecno-industrial, parece não ter sobrado espaço para brincar, considerando-se que este não se encaixa nos modelos de produção. Esta observação vale também para a escola; ao contrário do trabalho do adulto, o brincar é uma atividade não produtiva, na gera lucro, nem produz objetos de valores próprios da sociedade, em que vivemos. O brincar da criança não gera lucro, no entanto, proporciona prazer e alegria, coisas esquecidas por grande parte dos adultos envolvidos em seu cotidiano preocupados em sobreviver, e que através da escola querem fazer com que a criança também as esqueça. Criança, brinquedo, jogo e brincadeira são indissociáveis, mas parece que nosso sistema escolar não consegue perceber essa idéia. “A escola é terrivelmente difícil de suportar quando comparada aos momentos em que o jovem pode fazer aquilo que deseja e do modo como deseja, sem que lhes prescrevam determinado objetivo e determinado método para atingi-lo, sem que tenha que prestar contas nem ser avaliado, sem que seja obrigado a uma atividade de resposta”. (Snyders, 1993, pág. 50) Observamos, de maneira geral, que o movimento e a espontaneidade da criança fazem com que a escola a perceba como transgressora de uma ordem preestabelecida. O seu brincar é desprovido da disciplina exigida pela escola e pelo adulto, os quais procuram imprimir no corpo infantil a obediência servil, impondo suas regras de comportamento, cerceando a criança o fato dela ser ela mesma, estabelecendo um verdadeiro jogo de poder, como se quisesse provar e reafirmar sua autoridade. Autoridade essa, que nada mais é do que o próprio autoritarismo, o qual é repressivo e não garante a manutenção da ordem e da disciplina. “Para deixar nascer a disciplina não é nem nunca foi necessário sufocar o lúdico ou a alegria. A vida não é isto ou aquilo, mas é na verdade, isto e aquilo”. (Morais, 1994, pág. 28) 47 A escola ao exigir certa imobilidade da criança, reprime a necessidade que esta tem de se movimentar, de se expressar, de vivenciar corporalmente o ato educativo de construir seu conhecimento a partir do próprio corpo. McLaren (apud, Carvalho, 1991, pág. 229) descreve os rituais criados dentro da escola e que os alunos são conduzidos a segui-los, não importando se estes rituais violentam ou não seus corpos. Esses rituais, de que nos fala Mclaren, ficam bem claros, quando o autor descreve duas situações vivenciadas pelos alunos. A primeira verifica-se dentro da escola que seria o estado de estudante, onde o aluno é obrigado a assumir uma postura compatível com tal estado, deixando para trás sua liberdade e espontaneidade, para assumir outro comportamento (mais formal) exigido pela escola. Ao mesmo tempo passam a ser controlados pelos professores através de meios coercitivos próprios da escola, a fim de se ajustarem aos padrões normais, atitudes e gestos exigidos pela escola. A criança é, de certa forma, forçada a se encaixar dentro daquilo que a escola exige dela. Para isso são adotados artifícios como a punição e o prêmio, coisas já institucionalizadas no sistema de ensino, mas que funcionam de forma eficaz quando se trata de restringir o comportamento do aluno em sala de aula. Mesmo com toda rigidez imposta, o aluno consegue burlar essa rigidez como forma de resistência, tentando, em determinados momentos, não sujeitar-se a ela. A segunda situação o autor refere-se ao estado de esquina de rua. Aqui o aluno pode ser ele mesmo, sendo que este estado não pode adentrar nos domínios da escola; o aluno é obrigado a deixá-lo do lado de fora. Mas é neste estado que o aluno vivencia seus papéis junto ao grupo de amigos a que pertence, experiência seu “eu”, enquanto identidade, dando vazão a seus sentimentos. Os próprios movimentos corporais são expressados mais livremente e o contato físico mais intenso e espontâneos, podendo os sentimentos e as emoções fluir mais livremente. Afirma ainda, que no “estado de esquina de rua”, prevalece sempre o espírito lúdico ou da natureza do jogo e da brincadeira. 48 Em nossas escolas esses dois estados podem ser percebidos claramente ao ingressar na escola a criança sofre um processo de ruptura muito grande entre seu mundo lúdico infantil (entenda-se aqui como mundo lúdico infantil a fantasia, o jogo, a brincadeira, e os folguedos próprios da infância), e o mundo das coisas impostas. Seu tempo, até então disponível para jogar e brincar, passa a partir daquele momento, a ser controlado pela escola; seu corpo fica preso a uma cadeira muitas vezes inadequada a seu tamanho, executando tarefas estéreis que pouco ou quase nada tem a ver com o seu ser criança. Segundo Alves (1991), o saber precisa ter sabor; na maioria de nossas escolas este sabor está mais para o amargo do que para o doce. No entanto, sabemos que tudo que é muito doce logo enjoa, assim como tudo o que é amargo dificilmente conseguimos ingerir. O gosto gostoso precisa ter sabor de quero mais, querer sempre mais, e na escola, na educação em si, é necessário fazer com que nossas crianças gostem da escola enquanto um ambiente de troca de experiências, de aquisição de novos conhecimentos, que queiram sempre saber mais, questionar mais, nunca se satisfazendo com aquilo que lhes é dado imediatamente. A escola precisa perceber a criança como um ser em desenvolvimento e em constante movimento, dotada de um corpo. O ato educativo não é exclusivamente mental; ao contrário, este vincula-se diretamente ao corpo em sua totalidade. Se educar é libertar, então que educação é esta que oprime e exclui o corpo do ato educativo? Nossas escolas mantêm ainda hoje a idéia de que a aprendizagem só se concretiza com o acúmulo de conhecimentos, de conteúdos que são repassados de forma abrupta e até certo ponto aleatória para a criança, utilizando-se de técnicas e métodos onde o corpo não se encontra inserido no contexto educacional. O corpo, aquele objeto incomodo, que só serve para atrapalhar, fazer barulho, movimentar-se, tirar a concentração de todos na sala de aula. Impõe-se então a repressão, como meio de disciplinar esses corpos 49 indóceis (seus sentimentos e até seus pensamentos), os quais resistem em caminhada na ordem estabelecida. É fora da sala de aula que a criança consegue ser ela mesma, um acordo que brinca, que joga, que sente, que percebe, que se expressa, que descobre e aprende na relação com o outro. O lúdico se contrapõe aos valores de nossa sociedade, ele ultrapassa a própria realidade. 50 4.2. O BRINCAR NA VISÃO DE PIAGET. Piaget estrutura o jogo em três categorias: • O jogo de exercícios: Onde o objetivo é exercitar a função em si; • O jogo simbólico: Onde o indivíduo se coloca independente das características do objeto, funcionando em esquemas de assimilação e; • O jogo de regras: No qual está implícita uma relação inter individual que exige a resignação por parte do sujeito. Piaget ainda cita uma 4ª modalidade, que é o jogo de construção, em que a criança cria algo. Está última situa-se a meio caminho entre o jogo e o trabalho, pelo compromisso com as características do objeto. Tais modalidades não se sucedem simplesmente acompanhando as etapas das estruturas cognitivas, pois, tanto o bebê pode fazer um jogo de exercício, como também uma criança poderá fazer sucessivas perguntas só pelo prazer de perguntar. Para ele, a origem do jogo está na imitação que surge da preparação reflexa. Imitar consiste em reproduzir um objeto na presença do mesmo. Quando isso acontece, significa que há uma evocação simbólica de realidades ausentes. E uma ligação entre a imagem (significante) e o conceito (significado), capaz de originar o jogo simbólico também. Para Piaget, o símbolo nada mais é do que um meio de agregar o real aos desejos e interesses da criança. 4.3. VIGOTSKY. Para o autor, o brinquedo cria uma zona de desenvolvimento proximal (capacidade que a criança possui), pois na brincadeira a criança comporta-se num nível que ultrapassa o que está habituada a fazer, funcionando como se fosse maior do que é. 51 O jogo traz oportunidade para o preenchimento de necessidades irrealizáveis e também a possibilidade para exercitar-se no domínio do simbolismo. Quando a criança é pequena, o jogo é objeto que determina sua ação. Na medida em que cresce, a criança impõe ao objeto um significado. O exercício do simbolismo ocorre juntamente quando o significado fica em primeiro plano. Do ponto do desenvolvimento da criança, a brincadeira traz vantagens sociais, cognitivas e afetivas. Possui, ainda, três características: imaginação, imitação e a regra. Elas estão presentes em todos os tipos de brincadeiras infantis, tanto nas tradicionais, naquelas de faz-de-conta, como ainda nas que exigem regras. Pode aparecer também no desenho, como atividade lúdica. Do ponto de vista psicológico, Vygotsky atribui ao brinquedo um papel importante, aquele de preencher uma atividade básica da criança, ou seja, ele é um motivo para a ação. A criança pequena tem uma necessidade muito grande de satisfazer os seus desejos imediatamente. Quando mais jovem é a criança, menor será o espaço entre o desejo e sua satisfação. No pré-escolar há uma grande quantidade de tendências e desejos não possíveis de ser realizados imediatamente, e é nesse momento que os brinquedos são inventados, juntamente para que a criança possa experimentar tendências irrealizáveis. A impossibilidade de realização imediata dos desejos cria tensão, e a criança se envolve com o ilusório e o imaginário, onde seus desejos podem ser realizados. É o mundo dos brinquedos. Segundo o autor, a imaginação é um processo novo para a criança,, pois constitui uma característica típica da atividade humana consciente. É certo, porém, que a imaginação surge da ação, e é a primeira manifestação da 52 emancipação da criança em relação às restrições situacionais. Isso não significa necessariamente que todos os desejos não satisfeitos dão origem aos brinquedos. 4.4. WINNICOTT. Para o psicanalista Winnicott, a garantia do espaço de brincar é suporte do sentimento de que vale a pena viver, insistir, “querer ser maior do que é na realidade”. Esse autor talvez esteja entre os teóricos que mais tenham ressaltado a importância do aspecto relacional da brincadeira. A partir de uma extensa investigação clínica com bebês, define que o brincar tem espaço potencial de criatividade com o mundo. Segundo ele, essa atividade permite ao homem conhecer o mundo e a si próprio de forma criativa, como “espaço de função da liberdade de criação”. No brincar, e, talvez, apenas no brincar é que a criança inicia sua liberdade de criança. Winnicott afirma, ainda, que é no “brincar mútuo”, e não no “brincar submisso” que se realiza esse espaço potencial de relação criativa com o mundo. Sua “teoria sobre os fenômenos transacionais” fala desse campo relacional, onde os primeiros diálogos da criança com o mundo parecem como fundamentos de suas experiências culturais. Em sua obra “Brincar e a Realidade” (1975), Winnicott analisa o conceito dos fenômenos transacionais. Esses fenômenos estão na origem da vida imaginativa e localizam-se no espaço potencial das primeiras relações do bebê com o mundo. O brincar e a experiência cultural são a ampliação desse espaço. Winnicott estudou, ainda, o impulso criativo ressaltando a complexidade e a 53 significância dos estágios primitivos da relação de objetos e da formação de símbolos. A teoria dos “objetos transacionais” é resultado desse estudo, “não tanto o objeto usado, quanto o uso do objeto”. Para esse autor, os fenômenos transacionais descrevem a jornada do bebê, desde o puramente subjetivo até a objetivação. Revelar o seu sentido desperta o respeito à infância e às suas formas próprias de aprender. Desde o nascimento, o ser humano está envolvido com o problema da relação entre o que é objetivamente percebido e aquilo que é subjetivamente concebido. Na sustentação deste paradoxo, situa-se o seu grau de saúde. Nessa relação entre “mundo interno” e “mundo externo”, Winnicott reivindica uma terceira área de experimentação, onde se dão os espaços transacionais: espaços intermediários entre, a viabilidade do bebê e a sua crescente habilidade. É sabido que, assim que nascem, os bebês tendem a usar o punho, os dedos e os polegares. Sabe-se, igualmente, que após alguns meses, bebês de ambos os sexos passam a gostar e brincar com bonecas e que na maioria das mães não permitem aos bebês acesso a algum objeto especial. Encontra-se, então, uma grande variação de eventos desde as primeiras atividades do “punho na bica, objetos “eu” até a ligação a um ursinho, uma boneca e os brinquedos em geral, objeto “não eu”. (Winnicott, 1975, pág. 13) Na relação com o objeto transacional, o bebê passa do controle onipotente, mágico, para o controle da manipulação, envolvendo o erotismo muscular e o prazer da coordenação dos movimentos. A adaptação da mãe às necessidades do bebê dá a este a “ilusão” de que existe uma realidade externa correspondente à sua própria capacidade de criar. A coordenação psicomotora que se dá na passagem da motilidade (movimento sem deslocamento) para a mobilidade, tem a ver com o ritmo da curiosidade satisfeita, permitindo à criança construir sua relação objeto com o mundo. 54 Segundo Winnicott, esta experiência de poder criar a partir de si próprio é suporte do sentimento de segurança. O fato de a criança sentir que vale a pena viver, sentir-se segura para crescer, investir, brincar, aprender, garante o seu verdadeiro self. Winnicott associa, ainda: “o verdadeiro self ao gesto espontâneo, no sentido do gesto não reprimido. É na expressão espontânea que está também, a possibilidade de conexão entre o corpo e o sentimento. É através da brincadeira que a criança liga idéias com a função corporal, pode-se, então, reconhecer mais nitidamente a tendência saudável que existe na brincadeira, que relaciona mutuamente os dois aspectos da vida: o funcionamento físico e a vivencia de idéias”. (Winnicott, 1979. pág. 164) Desta forma, o autor fundamenta a importância do impulso de curiosidade, de poder exprimir-se. Se este é constantemente reprimido, o que se observa é o impulso infantil submetido a um controle, o que pode provocar ansiedade. Para Winnicott, o impulso de curiosidade é o próprio impulso criativo, que pode ser considerado algo em si mas, também, algo que se faz presente quando qualquer pessoa – bebê, criança, adolescente, adulto ou velho – se inclina de maneira saudável para algo ou realiza deliberadamente alguma coisa. (1975, pág. 100) À medida que a criança amplia as suas relações, o ritmo desse impulso, inicialmente por ela estabelecido, vai aos poucos, encontrando o ritmo do outro. 55 Na relação do adulto com a criança, o ritmo mais adequado a um desenvolvimento saudável é aquele que equilibra a interdição (proibição de fazer) e a invasão (anulação do fazer). Quando está presente esse equilíbrio, o adulto é “continente” para a criança. Esta contensão de seu “apetite de viver” propicia, ao mesmo tempo, segurança e liberdade para ser, arriscar, experimentar, aprender. A perda do viver criativo é, para este autor, a perda do sentimento de que a vida tem sentimento de que a vida tem significado. Viver criativamente, ou não, estaria relacionado à qualidade e quantidade das provisões ambientais no começo ou nas fases primitivas (1975, pág. 103). Winnicott lembra ainda, que o que se contrapõe ao viver criativo é um tipo de relacionamento de submissão, onde a pessoa reconhece o mundo, apenas, como algo a que se ajustar, ou a exigir adaptação. O destino dos fenômenos transacionais é perderem o seu significado. A sua ampliação tem ligação direta com o brincar, espalhando-se por todo o campo cultural da vida adulta. Para ele, “o brincar tem um lugar, que não é dentro, tampouco é fora. Para controlar o que está fora, há que fazer coisa, não simplesmente pensar ou desejar; e fazer coisas toma tempo. Brincar é fazer”. (Winnicott, 1975, pág. 63) A criança traz para dentro da área da brincadeira objetos e fenômenos oriundos da realidade externa, usando-os a serviço da realidade interna. Nesse processo, ela coloca para fora uma amostra do seu potencial onírico. “Na área de superposição entre o brincar da criança e o de outra pessoa, há possibilidade de introduzir enriquecimentos”. (Winnicott, 1975, pág. 74). Porém, para permitir o brincar como experiência criativa, Winnicott esclarece, é preciso que ele aconteça no “brincar mútuo”. O adulto envolvido com a criança que brinca assume um lugar dentro da relação. Sendo o adulto capaz de entrar na brincadeira, permite à criança 56 “surpreender-se na brincadeira”. Esta atitude é diferente daquela cujo interesse recai sobre o “uso da brincadeira” na utilização do seu conteúdo para fins de qualquer tipo de tratamento. Para Winnicott, uma atitude de respeito ao brincar deve incluir o reconhecimento que este pode tornar-se assustador. “os jogos e sua organização devem ser encarados como uma tentativa de prevenir o aspecto assustador do brincar. Quando o organizador tem de se envolver numa posição de administrador, ocorre a implicação de que a criança, ou crianças são incapazes de brincar no sentido criativo”. (Winnicott, 1975, pág. 75) A teoria de Winnicott afirma, portanto, que o desenvolvimento da percepção objetiva da criança acerca do mundo e de si própria necessita de um ambiente relacional “suficientemente bom”, um ambiente que a escola, ao mesmo tempo em que permita a sua livre expressão. Esse ambiente assim concebido possibilita a socialização das crianças na direção de sujeitos mais seguros, críticos e criativos: “as atividades lúdicas são, neste ponto, especialmente importante, visto serem, ao mesmo tempo, reais e concretas, por uma parte, e imaginada ou sonhada por outra, e embora as experiências lúdicas permitam sentimentos de todos os gêneros, as brincadeiras livres e o comportamento precisam tornar-se relacionados com o grupo”. ((Winnicott, 1975, pág. 219). A brincadeira facilita esse diálogo, constituindo-se num dos meios característicos das crianças de fazer perguntas e explicar coisas e fatos. 4.5. O SIGNIFICADO ATUAL DO JOGO NA EDUCAÇÃO. Segundo Kishimoto (1994), as divergências em torno do jogo educativo estão relacionados à presença concomitante de duas funções: 57 • Função Lúdica: O jogo propicia a diversão, o prazer e até o desprazer quando escolhido voluntariamente, e; • Função Educativa: O jogo ensina qualquer coisa que complete o indivíduo em seu saber, seus conhecimentos e sua apreensão do mundo. O equilíbrio entre as suas funções é o objetivo do jogo educativo. Entretanto, o desequilíbrio provoca duas situações: • Não há mais ensino, há apenas jogo, quando a função lúdica predomina ou, ao contrário; • Quando a função educativa elimina todo hedonismo, resta apenas o ensino. Cresce o número de autores que adotam o jogo na escola assumindo o significado usual: incorporando a função lúdica e educativa. Entre eles destaca-se Campagne (1989), que sugere critérios para uma adequada escolha de brinquedos de uso escolar, de modo a garantir a essência do jogo. São eles: • O valor experimental – permitir a exploração e a manipulação; • O valor da estruturação – dar suporte a construção da personalidade infantil; • O valor de relação – colocar a criança em contato com seus pares e adultos, com objetos e com o ambiente em geral para propiciar o estabelecimento de relações, e; • O valor lúdico – avaliar se os objetos possuem as qualidades que estimulam o aparecimento da ação lúdica. A tais critérios são acrescidos questionamentos relativos à idade, preferências, capacidades, projetos de cada criança e uma constante verificação da presença do prazer e dos efeitos positivos do jogo. Há que se considerar ainda que o jogo não é inato, mas uma aquisição social. 58 Desta forma o educador tem que estar atento para auxiliar a criança ensiná-la a utilizar o brinquedo. Só depois ela estará apta a uma exploração livre. 4.5.1. Brinquedoteca. A organização de espaços adequados para estimular brincadeiras constitui hoje umas das preocupações da maioria de educadores e profissionais de instituições infantis. Nessa organização do espaço da chamada brinquedoteca existe a necessidade, segundo Campagne (1989), de analisar componentes como: a disponibilidade de materiais, o nível de verbalização entre adultos e crianças e aspectos educativos e corporais para estimular brincadeiras. O suporte material deve incluir locais apropriados, dotados de estantes para comportar diferentes tipos de brinquedos, dispostos de modo acessível às crianças e espaços para o seu uso. As brinquedotecas surgiram na década de 30/40 como alternativa de educação para a paz e defesa do direito ao lazer e à brincadeira para crianças e jovens. É um espaço cultural cuja filosofia é norteada por um novo paradigma, um novo sistema de “aprender a aprender”, no qual o sujeito decide o que fazer, como organizar o tempo, o espaço e as regras em grupo, favorecendo ainda o uso não convencional de objetos ou idéias. Estas ações sócio-educativas exercitam a cidadania daqueles que convivem neste ambiente lúdico, compartilhando experiências e tomando decisões, gerando ainda situações de aprendizagem desafiadoras de suas capacidades cognitivas. 59 Podemos identificar, em linhas gerais, duas concepções de brnquedoteca na escola: Uma mais voltada para o jogo-brinquedoteca como empréstimo de brinquedo; espaço psico-pedagógico de aspecto mais disciplinado, com brinquedos nas prateleiras. Outra mais voltada para o jogador propostas de ações sócio-educativas que tenham o lúdico como eixo, com ambientes facilitadores da livre escolha e da imaginação. Vale lembrar ainda, segundo Friedman, et alli (1992), que várias brinquedotecas latino-americanas têm alcançado sucesso no combate à marginalidade através de ações também voltadas para a capacidade profissional. A brinquedoteca escolar, segundo o autor, deve ser considerada como uma modalidade de apoio à infância e à juventude compatível com a formação de sujeitos cooperativos, autônomos e criativos, capazes assim de melhor enfrentar a complexidade e as incertezas do mundo contemporâneo. O projeto deve ter como objetivo experimentar e refletir este novo paradigma de ações voltadas para um fazer criativo e significativo na escola. No segmento da educação infantil, a brinquedoteca desempenha o papel de fomentar experiências que sensibilizem e instiguem os profissionais da educação, devidamente preparados a perceber o brincar como uma linguagem promotora da imaginação infantil, e que, portanto, precisa estar presente em sua prática educativa, recusando o modelo reduzido da escola de 1º grau. A sala de brincar deve ser um espaço acolhedor e facilitador da brincadeira livre, dispondo, na medida do possível, de um acervo variado entre artesanal, tradicional e industrial de brinquedos, além de materiais ou brinquedos não estruturados (panos, jornais, caixas, terra,...) área de recreação e jogos corporais. Os profissionais responsáveis pelo trabalho na brinquedoteca deve ter conhecimentos de psicomotricidade que possibilitam a avaliação do aspecto 60 comunicativo do corpo, através da análise de percepção, coordenação, orientação e/ou estruturação espacial temporal, conhecimento corporal e lateralidade. A Psicopedagogia, cujo principal objetivo é buscar maior qualidade na educação e prevenção dos problemas de aprendizagem possui recursos valiosos, facilitando a atuação desse educador que deve pautar o trabalho de forma que haja uma ação interdisciplinar, visando a educação não só do aluno, assim como dos educadores e demais envolvidos. A brinquedoteca funciona como um “ateliê de arte”, sem conotação com aprendizagem obrigatória, onde crianças e jovens aprendem a lidar com esta liberdade, utilizando seu tempo não de forma rotineira, enquanto consumidores passivos, mas enquanto possibilidade de escolha e crítica. Para o jovem ou adulto que ali convive, possibilita o estabelecimento de novas relações que favorecem sua comunicação com os mais jovens, ali onde estes estabelecem regras para o convívio social dentro do respeito e prazer de viver. O resgate da afetividade do saber com o mundo vivido têm reflexo direto na produção do conhecimento formal também, pois quanto mais se vive esta dimensão lúdica, mais a criança tem a dizer, relacionando seu pensamento e o mundo vivido. Junto aos educadores, a brinquedoteca busca refletir criticamente, de uma forma muito consciente este novo paradigma, através de diferentes ações: • Experiências lúdicas através de brincadeiras e jogos; conversa e registro da memória da infância e do brincar do grupo; • Campanha para formação de um acervo básico de brinquedos e criação do espaço de brincar em sua sala de aula; • Exercício da “observação atenta” de crianças e jovens neste espaço, atividade fundamental para a qualidade da interação que se pretende na sala de brincar; 61 • Exercício do “brincar mútuo”, onde se experimentará o equilíbrio necessário entre a interdição e o limite por um lado, e o exercício da liberdade para a construção da autonomia daquele que brinca; • Noções sobre as diversas concepções de brincar presentes na historia e estudo de textos relativos ao tema, abrangendo os campos da pedagogia, psicologia e antropologia principalmente. 62 CAPÍTULO V O PAPEL DO LÚDICO NA EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS “O senso moral não está desenvolvido quando há crueldade, mas não está ausente, porque ele existe, em principio, em todos os homens. É esse senso moral que fará mais tarde seres bons e humanos. Ele existe, pois, no selvagem, mas está como o principio do perfume está no germe da flor, antes dela desabrochar”. (Espírito. l, 1954). 63 5.1. AS SEMENTES DO AMOR: EDUCAR PARA A PAZ. A palavra “amor” é usada milhões de vezes em poemas, canções, novelas, teatro, cinema, no rádio, na TV e ainda nas conversas diariamente. Poucos, no entanto, conseguem entender seu verdadeiro significado, sua aplicação e o real significado que damos a esse vocábulo. Segundo Caprio (1994), a necessidade básica de afeto é tão predominante em todos nós que o ato de amar é inconscientemente motivado pelo desejo ou a necessidade de ser amado. Todo ser humano nasce com o instinto de amar para gozar o dom a vida, cujo objetivo é o amor. Fomos criados pelo e para o amor. O amor no seu mais amplo sentido é o amor pela vida em si mesma, para viver e evoluir, sempre. Um dos grandes desafios do século XXI é continuar descobrindo caminhos eficazes para ajudar crianças e jovens a crescer com a capacidade de construir a paz e a solidariedade em um mundo com tantos episódios de violência não apenas contra eles, mas também entre eles. Se estamos cuidando de crianças como pais ou profissionais de saúde e educação, temos uma oportunidade preciosa e uma enorme responsabilidade de participar dessa tecelagem de uma nova pessoa que acaba de chegar ao mundo em que vivemos. Com o desenvolvimento da tecnologia, é possível fotografar e filmar a evolução do ser humano desde o momento da concepção. Já se sabe que o bebê não nasce como uma folha em branco. Tudo fica registrado nos arquivos moleculares, base da memória, da percepção dos sentimentos. No ventre materno, o feto desenvolve habilidades incríveis: os movimentos não são aleatórios, mas graciosos e coordenados, escuta a voz da mãe e os ruídos do interior do seu corpo, aprende a gostar até mesmo das músicas que ela escuta ou que a mãe costuma cantar. 64 Nos últimos meses de gestação, o feto também escuta a voz do pai, quando ele fala próximo à barriga da mãe. São tantos os estudos e as descobertas sobre as competências pré-natais, que há quem considere o útero da mãe nossa primeira “sala de aula”. Os conhecimentos recentes da neurociência afetiva referente à influência do relacionamento sobre o desenvolvimento do cérebro da criança nos primeiros anos de vida apontam muito claramente para o poder da expansão do amor e para a enorme importância de plantar as sementes da paz e da solidariedade no ser humano. Há, portanto, bons motivos para investir cada vez mais nesse “capital humano”, acreditando na sabedoria das crianças e dos jovens, criando condições para que desenvolvam habilidades e competências para construir um ser independente, uma vez que, ao nascer, o bebê está equipado para iniciar a grande aventura da vida: descobrir a si mesmo, as pessoas e o mundo ao seu redor. Nos primeiros anos de vida, é essencial apresentar a criancinha a beleza do mundo, para que ela possa apreciá-la, valorizá-la, cultivá-la fora e dentro de si mesma. Não é possível continuar considerando a violência como entretenimento nem como espetáculo que faz crescer os índices de audiência. Num mundo com tantos episódios violentos e tristes, antes da poluição do consumismo, dos shoppings, dos comerciais da TV e dos videogames. É preciso descobrir a magia das árvores, da água, dos pequenos animais, das paisagens naturais, o encantamento com a natureza é a base da chamada “alfabetização ecológica”, que se alicerça no desenvolvimento da cooperação. As sementes do amor precisam ser plantadas na consciência dos bebês e das criancinhas nas pequenas cenas do cotidiano: é nessas miudezas do dia-a-dia que estão os grandes temas da vida. É assim que aprendermos a colocar em prática os valores fundamentais do convívio: gentileza, respeito, 65 consideração, cooperação e solidariedade. O desenvolvimento da empatia é essencial para controlar a impulsividade e canalizar a agressividade para fins construtivos. Ser amorosamente firmes com a criança é a melhor maneira de ajudá-la a conter o impulso de fazer o que não pode sem criar clima de guerra, segundo Maldonado (2003). Para a autora, todos os grandes marcos do desenvolvimento nos primeiros anos de vida são oportunidades de estimular o crescimento das sementes do amor por si mesma, pelos outros e pelo ambiente. A parceria entre a família e a escola é essencial para estimular o desenvolvimento harmônico da criança em suas redes de convivência. Amor, carinho e respeito são os ingredientes indispensáveis para formar crianças não-violentadas e solidárias, para fazer frente ao grande desafio de encontrar meios de globalizar a compreensão e a ternura com a mesma eficiência dedicada à globalização da violência. São os pais os mais responsáveis educadores, que devem gravar no ser que lhes é confiado, sobretudo pelo amor, paciência e bondade, os sentimentos de dignidade e entendimento em relação à existência e à sua finalidade. Mas cabe, igualmente, aos profissionais da educação os deveres da boa conduta, do exemplo positivo com que as apresentam em sua profissão, que fortalecem o valor dos princípios morais que transmitem e servem de base a uma vida mais feliz. Através do exemplo o educador promove, indiretamente, o desenvolvimento da família do aluno, que leva para a comunidade o conhecimento adquirido. Não só a família e a escola, mas a comunicação exerce um papel fundamental na educação do homem integral. Num país lindíssimo, com milhões 66 de coisas maravilhosas para se contar e mostrar, faz-se uma síntese diária de tudo o que não deu certo na sociedade, em tempo integral, ao vivo e em cores, pela TV. Os profissionais comprometidos com a sociedade devem, imediatamente, reunir-se num encontro social para tentar desatar os “nós”, morais, políticos, religiosos, pedagógicos, sociais. Devem assumir o comando com sinais de alerta máximo e a postura do agente de transformações sociais, capaz de implantar uma nova diretriz pedagógica e justa avaliação do desempenho desta obra de construção do homem. Já foi apontado pelos educadores que a maior interferência no processo de ensino-aprendizagem é originada, muitas vezes, no desinteresse quase geral de aprender “aquilo” que a escola ensina e, principalmente entender, para quê? Os educadores “tecnicistas” enfrentam os “construtivistas” que tropeçam nos chamados tradicionais que se interpõem na frente dos modernistas e a proposta curricular da escola bate de frente com as necessidades do indivíduo, da empresa, enfim, da sociedade cósmica que evolui numa velocidade nunca vista de tão perto. O que é uma escola moderna? Sempre será aquela que ensinar as pessoas a serem felizes! “A humanidade anda assustada, porque ao criar a tecnologia da informação, esqueceu-se de ensinar aos especialistas da notícia que acontecem muito mais coisas belas, boas e úteis no mundo do que a desgraça selecionada que se resume na manchete para assustar. Esqueceu-se também de criar a escola que prepara as emoções dos seres humanos para testemunhar o eclipse civilizatório, ao vivo em cores, vinte e quatro horas”. (Egan, Kieran, apu Boechat, 2003) 5.2. AS DUAS ASAS – AMOR E SABEDORIA. 67 “Se queremos progredir não devemos repetir a história, mas fazer uma história nova”. O uso de drogas por crianças, algumas chegando à adolescência, assim como a tendência para outros vícios, o suicídio, a violência e a depressão que elas vêm apresentando, tem sido uma constante preocupação por parte dos pais, professores, autoridades governamentais e do povo em geral. Como evitar que isso ocorra, é a pergunta que normalmente se faz. “Há um elemento, que não se costuma fazer pesar na balança. Esse elemento é a educação, não a educação intelectual, mas a educação moral. Não nos referimos, porém, à educação moral pelos livros e sim à que consiste na “arte e formar os caracteres”, à que “incute hábitos”, porquanto a educação é o conjunto dos hábitos adquiridos. Considerando-se a multidão de indivíduos que todos os dias são lançados na torrente da população, sem princípios, sem freios e entregues a seus próprios instintos, serão de espantar as conseqüências desastrosas que daí decorrem?” (Souza, J. B., Setembro/2002) Duas asas conduzirão o ser humano ao desenvolvimento global. Uma chama-se AMOR, a outra SABEDORIA. Através do amor, valorizamo-nos para a vida. Através da sabedoria, somos pela vida valorizados. Daí a necessidade de marcharem juntas, a inteligência e a bondade. Como pássaros, que para voar necessitam de duas asas, o homem deveria estar desenvolvendo tanto o aspecto intelectual quanto o moral. Mas o progresso não se realiza simultaneamente, em todos os sentidos, como desejamos. Em uma etapa ele pode avançar em ciência em outra em moralidade. Encontramos em Piaget a seguinte afirmação: “A vida afetiva e a vida cognitiva são inseparáveis, porque qualquer permuta com o meio supõe, ao mesmo 68 tempo, uma estruturação e uma valorização, sem que por causa disso sejam menos, distintas, posto que estes dois aspectos do comportamento não se podem reduzir um ao outro... Um ato de inteligência supõe, portanto, um ajuste energético interno (interesse, esforço, facilidades, etc...), e outro externo (valor das soluções procuradas e dos objetos sobre os quais recai a pesquisa). Mas tais ajustes são de natureza afetiva e se comparam a todos os outros da mesma ordem...” (Psicologia da Inteligência, Cap. I) Também encontramos em Henri Wallon as mesmas idéias: “A afetividade, nesta perspectiva, não é apenas uma das dimensões da pessoa; ela é também uma fase do desenvolvimento, a mais arcaica. O ser humano foi, logo que saiu da vida puramente orgânica, um ser afetivo. Da afetividade diferenciou-se, lentamente, a vida racional. Portanto, no início da vida, afetividade e inteligência estão sincreticamente misturadas, com o predomínio da primeira. A sua diferenciação logo se inicia mas a reciprocidade entre os dois desenvolvimentos se mantém de tal forma que as aquisições de cada uma repercutem sobre a outra permanentemente. Ao longo de trajeto, elas alternam preponderâncias, e a afetividade reflui para dar espaço à intensa atividade cognitiva assim que a maturação põe em ação o equipamento sensório-motor necessário à exploração da realidade. A partir daí, a história da construção da pessoa será constituída por uma sucessão pendular de momentos dominantemente afetivos ou dominantemente cognitivos, não paralelos, mas integrados. Cada novo momento terá incorporado as aquisições feitas no nível anterior, ou seja, na outra dimensão. Isto significa que a afetividade depende, para evoluir, de conquistas realizadas no plano da inteligência, e viceversa”. (Wallon, apud Dantas, H. Parte 2) A humanidade está caminhando veloz rumo ao absurdo, ao impossível, e aos extremos, todavia vai, rapidamente, à procura de algo mais, que não conseguiu ainda definir; a utopia, talvez da paz. Muitas responsabilidades são requeridas e, mais uma vez, cobranças gerais encostam na parede a família, a escola, a igreja, a sociedade, como um rolo compressor: onde está a solução? 69 O perfil do cidadão do século XXI mudou, sendo necessário que ele aprenda a conhecer – cultura vasta e suficiente; aprenda a fazer – competência para numerosas situações profissionais; e aprenda a viver junto, com a compreensão do outro e a percepção das interdependências. Assim há a necessidade de se reconhecer e tomar posse das mudanças. Vocação como sinônimo de profissão, segundo Boechat, é coisa do passado, foi desmentido pelas múltiplas inteligências que o homem pode mobilizar. Nasceu a competência essencial, aprendizagem e trabalho. Ai sim, afirma a autora, são palavras sinônimas e todo profissional, hoje, tem o perfil do educador, do líder, do cidadão multifuncional. Hoje, o professor deve ser um facilitador; o aluno um colaborador próativo; a ênfase educacional deve estar no incentivo ao pensamento crítico; e a avaliação baseada na interpretação, com criatividade. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (MEC, 1977) preconizam que: “(...) atender necessidades singulares de determinados alunos é estar atendo à diversidade: é atribuição do professor considerar a especificidade do indivíduo, analisar suas possibilidades de aprendizagem e avaliar a eficácia das medidas adotadas... A atenção à diversidade deve se concretizar em medidas que leva em conta não só as capacidades intelectuais e conhecimentos de que o aluno dispõe, mas também seus interesses e motivações”. (PCN, 1997, pág. 63) Sendo assim, é inadmissível pensar em um projeto curricular fechado, formatado, que não seja flexível e aberto às inúmeras possibilidades que se oferecem a cada momento. Como admitir um currículo fechado, se as fronteiras do conhecimento caíram? A escola atual deve rever sua proposta e a própria conduta pedagógica interessando-se em ajudar a traçar o perfil do cidadão que se quer construir. Incomoda muito o desprestígio da escola junto à sociedade. O índice de rejeição é alto, ainda mais quando se refere ao produto – O HOMEM – que se forma 70 (deforma?) tão incapaz de exercer a consciência de cidadão cósmico. Analfabeto social, ele sai tropeçando nos fenômenos que acontecem ao seu redor, não consegue sequer ler as próprias emoções, interpretá-las e viver feliz. Russel (2003) afirma que a humanidade está no limiar da revolução das consciências. Angellis (1997) concluiu que a terra sofre um processo de transformação. Está passando de planeta de provas e explicações, para planeta de regeneração, onde não haverá tanta violência, onde a educação do homem integral conseguirá o equilíbrio das suas asas, amor e sabedoria, rumo ao infinito, ao belo, à felicidade tão almejada. 5.3. VIVENCIANDO A VERDADEIRA EDUCAÇÃO. O Abrigo Teresa de Jesus, entidade filantrópica destinada a assistir a criança desvalida, fundado por religiosos espíritas em 01/01/1909, possui em sua estrutura organizacional um departamento de educação infantil cujo objetivo é o atendimento não só à criança, mas a toda a família. A casa oferece, além do cuidado, ao pré-escolar, todo o apoio necessário aos alunos matriculados na rede oficial de ensino. Dentre as atividades educacionais existe uma grande preocupação com a formação do homem integral. A grande maioria dos assistidos reside em comunidades carentes próximas, convivendo com altos níveis de violência, tanto familiar quanto social. Um percentual considerável de assistidos tem somente a mãe, como provedora da família, que necessita deste apoio que o Abrigo oferece para que possa trabalhar. A instituição também oferece aulas de evangelização, de caráter ecumênico, respeitando sempre a religião de cada, atendendo a todas as crianças e seus respectivos responsáveis. 71 Essas aulas têm por objetivo a melhoria da qualidade de vida e da formação da família, mas com ênfase específica nos processos facilitadores do auto-conhecimento e da compreensão das leis universais que reagem a vida, a interação de todos os seres do universo. Como conseqüência desse próprio conhecimento, a “educação do espírito”, ocupa-se da educação dos sentimentos, reconhecendo a atualidade da grandeza das leis de Deus. Pretende-se, assim, que a pessoa instrumentalizada com tais conhecimentos possa superar gradativamente seus conflitos, fortalecendo-se para as lutas do cotidiano, motivada para seu conhecimento interior e usufruindo uma vida mais harmoniosa e consciente. É também objeto destas aulas que se oferecem às crianças, em especial ao pré-escolar, o desenvolvimento e harmonia do corpo e da mente. Pois sendo este, instrumentos do espírito, quanto mais estimulados, melhores são as condições que oferecem para realizar sua missão na terra. Educar o espírito não é mero repassar de informações através do intelecto; é um despertar de valores que já existem me potencial, no íntimo do ser. Os métodos utilizados nessas aulas seguem os procedimentos didáticos diversos, desde que sejam coerentes com os princípios e objetivos escolhidos e adequados às etapas do desenvolvimento do ser. São utilizadas técnicas de relaxamento muscular (antes e ao final de cada aula), visualização através da musica; canto e demais ramos da arte, isto é aprender de uma forma prazerosa. A educação dos sentimentos efetiva-se, principalmente nas relações interpessoais e indiretamente favorece o educando, a família, a comunidade de origem, a sociedade como um todo. Atualmente o abrigo presta este serviço a 300 menores e pretende ampliar o atendimento em breve. 72 No passado, a educação era centrada no conhecimento do educador, no que ele trazia para seus educandos, pois era o único detentor do saber; diferentemente da educação contemporânea cujo objetivo é suscitar sujeitos críticos, reflexíveis, investigadores e, principalmente, autônomos. Esta linha de pensamento pretende que o sujeito construa, transforme, e assim intervenha como cidadão, lute em parceria com a sociedade para a eqüidade e o equilíbrio social. As questões ligadas ao corpo-movimento, suas relações com o processo ensino-aprendizagem nas escolas, como também algumas concepções de afetividade, criatividade e coletividade são verdadeiras ferramentas para a interação do aluno com a escola, a fim de prepará-lo para a vida. Afinal a escola é responsável pela construção da identidade. E se a escola não souber articular com sensibilidade a riqueza interior, a cultura, o que está intrínseco nos seus sujeitos, o aprendizado será fragmentado ou deixará de ter significado. Segundo Hernandez (2003), para aproximar-se da identidade dos alunos a educação precisa abandonar visões reducionistas, simplistas e conteudistas, receitas pré-fabricadas ou modismos que só serviram em espaços culturais específicos. A educação não pode simplesmente readaptar a proposta do passado e atualizá-la. Apesar das relações entre professor e aluno estarem mudando em muitas escolas, mesmo públicas, ainda prevalecem formas ultrapassadas. Algumas abordam os pressupostos teóricos de Piaget, de Paulo Freire ou de Vygotsky, porém, o fazem apenas, no âmbito do discurso, sem concretizá-los em ações efetivas. Sua pratica não condiz com o que defendem em argumentos. As razoes pelas quais insistem nessa atitude podem ser explicadas pelo descompromisso que já está cristalizado principalmente nas escolas públicas. Mudar ainda é difícil para muitos. A escola tradicional necessita de efetiva revisão; a herança do autoritarismo que amarra, imobiliza e impossibilita qualquer forma de dinamismo e 73 mudança, as tarefas repetitivas e cansativas devem dar lugar à iniciativa e à criatividade. A escola moderna propõe a prática de atividades coletivas, jogos, dinâmicas, aula com vídeo, teatro, debate, todo os métodos que levam o indivíduo a se tornar pensante, autoconfiante e com poder de mudança. Esta concepção está diretamente ligada à reflexão de Wallon (apud Santos, 2003), que considera a pessoa como um todo: afetividade, emoções, movimento e especo físico se encontram num mesmo plano. De acordo com Santos (2003) a teoria de Wallon propõe que a construção de eu está condicionada basicamente a outra pessoa. Seja para ser referenciada, seja para ser negada. Nessa lógica, o espaço escolar que compõe diversas identidades, culturas e etnias. As emoções têm relevância para o desenvolvimento do individuo, que através dela demonstra seus desejos e ansiedades. Contudo, alguns aspectos ainda são pouco estimulados pelos modelos tradicionais de ensino. A raiva, o medo, a tristeza, a alegria e os sentimentos mais profundos ganham função relevante na relação da criança com o meio social. Em Wallon (apud Santos, 2003) verifica-se questões ligadas ao quanto é importante mudar a postura das escolas tradicionais. Infelizmente, a criança imobilizada na cadeira, tem limitado justamente a fluidez das emoções e do pensamento, tão necessários ao desenvolvimento do indivíduo. É um equívoco exigir que a maior parte das tarefas sejam feitas com as crianças sentadas, imóveis, com atenção concentrada a espontaneidade de uma criança, realizando suas atividades, notaremos que ela pode, mesmo imobilizada numa cadeira, não estar prestando atenção à atividade. A criança é um ser concreto e corpóreo, em processo de desenvolvimento. A postura corporal mais favorável varia conforme o tipo da atividade e do estímulo dado. Muitas vezes a variação na posição do corpo é claramente melhor, pos permite mais atenção à tarefa que está sendo realizada. A educação psicomotora favorece uma formação de base indispensável a toda criança que seja normal ou com problemas. Responde a uma dupla finalidade: assegurar o desenvolvimento funcional, tendo em conta possibilidades 74 da criança e ajudar sua afetividade à expandir-se e a equilibrar-se através do intercâmbio com o ambiente humano. Recentes pesquisas em neurologia identificam áreas no cérebro que correspondem, pelo menos de maneira aproximada, a determinados espaços de cognição e formas específicas de competência e de processamento de informações. Não se sabe claramente quais são as áreas responsáveis pelas “inteligências múltiplas”, mas existe uma possibilidade de que cada uma delas expresse uma forma diferente de inteligência, isto é, se responsabilize pela, resolução de algum problema especifico ou criação e produção de algo válido para uma cultura, afirma Gardner (1983). Segundo Gardner (1983), a inteligência corporal-cinestésica, relacionada com o movimento do corpo e a habilidade física para expressar emoção, jogar e criar um novo produto, as pessoas aprendem melhor através do movimento, do contato, movimentar-se constantemente; gostam de esportes; gostam de tocar ou de serem tocadas quando conversam com outras pessoas de artes e trabalhos manuais. A educação não só pode, mas deve aproveitar-se desse e de outros estudos para criar sistematicamente estratégias para que o ensino-aprendizagem tenha concretamente relação com o corpo, movimento, criatividade e afetividade, perpassando as inteligências múltiplas e com isso, aplicá-los nos programas e projetos pedagógicos. O professor deve promover desafios, instigar questionamentos, criar situações que encorajem o aluno a caminhar diante delas isso possibilita ao educando conhecer e entender sua maneira pessoal de aprender. O ser humano é naturalmente curioso. Isso deve ser o ensejo para o professor estimular nos educandos uma aprendizagem interessante. Baseada na fome de saber que se chama curiosidade, podemos afirmar que a curiosidade pode ser uma excelente ferramenta pra auxiliar no processo de aprendizagem da educação contemporânea. O professor precisa preservar o espaço para a fala do aluno, para o diálogo, para a participação ativa; instigar seu pensamento, 75 desafiando-o, propondo-lhe questionamentos, orientando-o, enfim; abrindo espaço para o aluno levantar e verificar suas hipóteses. Esse é o papel que o Abrigo Teresa de Jesus exerce junto a seus assistidos. Ao atuar junto à criança, enquanto sua mãe trabalha; junto à família, através da ação educativa do serviço social e da evangelização e junto à escola, ao trocar informações sobre as dificuldades dos alunos, tentando auxiliar seu desenvolvimento de uma forma abrangente. O mundo se desvela para a criança através da interação com o meio físico e social, mediado apenas quando necessário. Portanto, podemos afirmar que quanto mais o educando for estimulado, mais ele se desenvolverá, e isso acontece nas diversas áreas do saber. Precisamos garantir ao aluno uma escolarização de qualidade, completa, pois isso é fator fundamental para a integração plena. Está provado que o ser humano aprende mais com o movimento, a socialização, a afetividade e a criatividade. A educação só pode ser considerada favorável se for uma educação integral do ser humano; educação completa que respeita, valoriza as diversidades, o ser humano como um sujeito único e completo. Com certeza, condições efetivas, favoráveis podem facilitar o aprendizado e tornar a prática do professor mais humana e autentica, favorecendo a autonomia e autoconfiança dos alunos. 76 CONCLUSÃO A partir de leituras, conversas informais com diversos profissionais ligados à educação, e estudos coletados para esse trabalho, pode-se apresentar algumas idéias sobre o tema analisado. Verificamos, em nossa prática, junto ao apoio escolar no Abrigo Teresa de Jesus, que os pais devem acompanhar de perto a vida escolar de seus filhos. A família deve ajudá-los a ver criticamente a escola, mostrando seus limites e suas possibilidades de auxiliá-los em sua preparação para a vida adulta. Como exigir que famílias desestruturadas, convivendo com situações sociais tão adversas, inconscientes ainda de sua missão, possam desempenhar a contento esse papel? Há pais que consideram essas atividades como perda de tempo, acreditando que a escola deva limitar-se à ação dentro das salas de aula, para transmitirem o maior número de informações possíveis. À escola é designado o papel de também educar, além de instruir. Em crianças provenientes de comunidades carentes de serviços públicos, mais especificamente, dos referentes à segurança, observamos um grande percentual de dificuldades de aprendizagem. Deparamos, além de tudo com um elevado número de assistidos com distúrbios de comportamentos, caracterizados pela insegurança, ansiedade, medo, baixa de auto-estima e não submissão às normas disciplinares exigidas na vida em sociedade. A Escola, com as grandes dificuldades que enfrenta, não consegue se dedicar a um atendimento individual, embasado em normas pedagógicas atuais, tendo o apoio de diversos profissionais dedicados à educação, como o Abrigo Teresa de Jesus que se propõe a atuar junto à criança carente num verdadeiro trabalho de educação integral. 77 A questão da afetividade deve ser considerada pela equipe pedagógica, com muita atenção. Surgem certos impasses, pequenos atos, mas significativos, gerando dificuldades no dia-a-dia. Os educadores nas escolas enfrentam grandes exigências, por parte do sistema educacional vigente, dos educandos e das famílias. O relacionamento professor/aluno, alunos entre si, família/aluno/escola, torna-se tenso, proporcionando um alto índice de crianças estressadas desde o pré-escolar até a pré-adolescência. A equipe pedagógica, num verdadeiro trabalho interdisciplinar consegue, através de um atendimento individual, ouvir a criança que demonstra dificuldades cognitivas e afetivas, procurando analisar junto à escola e à família, qual a verdadeira causa do problema. O abrigo age como uma ponte de comunicação entre a escola e a família já que estamos mais próximos às mães cujo contato é facilitado pelo serviço social e aulas de evangelização para os pais. Ao trabalhar com o aspecto afetivo, o educador deve ser orientado sobre a necessidade de deixar bem claro para os educandos a questão dos limites, que muitas vezes não estão bem definidos pela família. Deve-se fazer com que os educandos, e até os familiares, percebam que há hora de se colocar, mas também há hora de ouvir. Há uma grande instrumental à disposição do educador consciente de seu papel de não só instrutor, mas de educador, substituindo o que não recebam ou recebem de uma forma equivocada por atividades proporcionadas com base na psicomotricidade, na arte, no lúdico, fazendo germinar aquela semente que está sufocada, à espera de mãos amigas que dela cuidem com amor. A educação humanista, dos sentimentos, é a única forma de recuperamos essas crianças que encontram-se à mercê de uma sociedade na qual a injustiça impera. Precisamos mostrar que para obter sucesso, basta que ele, o educando, tenha uma postura diferente; sabendo ouvir, refletir e colocar-se 78 de forma consciente quando solicitado, mostrando assim que para a construção de um mundo melhor cada um deve fazer a sua parte. Portanto, conclui-se que a educação integral, a verdadeira educação é a única forma de transformação social, pois cidadãos críticos e conscientes são essenciais à melhoria da sociedade e da humanidade, acelerando o progresso a que todos estão destinados. Diante de tantos desafios da atualidade, estamos dispostos para ensinar: a ver, a sonhar, a pensar, a ser feliz, a ser líder, a amar? 79 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALVES, Fátima. Psicometria: Corpo, Ação e Emoção. Rio de Janeiro: Editora WAK, 2003. ALVES, Walter de Oliveira. Educação do Espírito. São Paulo: IOF, 1997. ANGELLIS, J. O Homem Integral. Editora Alvorada, 1990. ANTUNES, Celso. Alfabetização Emocional. 2ª ed. São Paulo: Editora Terra, 1996. BENITES, K.C.P. Psicopedagogo – Abordagem Relativa a sua Função e seu Espaço de Atuação. Revista Especialistas em Educação. Out/Dez, 1998. BOECHAT, Ivone. Nós da Educação. Rio de Janeiro: Editora Reproarte, 2002. ESCOTT, Clarice Monteiro. 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O Significado Atual do Jogo na Educação 58 4.5.1. Brinquedoteca 59 CAPÍTULO V 82 O PAPEL DO LÚDICO NA EDUCAÇÃO DOS SENTIMENTOS 63 5.1. As Sementes do Amor: Educar para a Paz 64 5.2. As Duas Asas – Amor e Sabedoria 68 5.3. Vivenciando a Verdadeira Educação 71 CONCLUSÃO 77 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 80 ÍNDICE 82 FOLHA DE AVALIAÇÃO 84 83 FOLHA DE AVALIAÇÃO UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES Instituto de Pesquisa Sócio-Pedagógicas Pós-Graduação “Latu Sensu” Título da Monografia O LÚDICO ANTE A CRIANÇA ESTRESSADA. Data da Entrega: ________________ Avaliado por: Fabiane Muniz da Silva Grau: ________ Rio de Janeiro, ____ de _____________ de ____ __________________________________________________________ Coordenação do Curso