Como podemos resolver nossos problemas mais complexos
de forma pacífica?
Palestra de Adam Kahane
São Paulo, 4 de junho de 2008
Nos últimos quinze anos, tenho concentrado toda a minha atenção na resposta a uma
pergunta: Como podemos resolver nossos problemas mais complexos de forma
pacífica? Não é difícil tentarmos resolver nossos problemas de forma violenta, usando
dinheiro, autoridade ou armas para fazermos com que as coisas fiquem da maneira
que nós queremos. Também não é difícil sermos pacíficos; deixando, contudo, as
coisas exatamente como estão. Como podemos, então, trabalhar conjuntamente para
co-criar novas realidades sociais?
Há alguns anos, passei por uma cirurgia em um dente. No dia seguinte, ao entrar no
avião, bati a cabeça contra o compartimento de bagagens, o que me fez sentir uma
dor aguda no maxilar. Voltei ao consultório do dentista e reclamei com a enfermeira
sobre a dor pungente que sentia ao bater a mão contra a cabeça. Ela me olhou
calmamente e me deu o conselho mais lógico que já recebi “Se dói”, disse ela, “então
não faça mais isso”.
A maneira mais comum de tentarmos resolver problemas complexos dói, portanto
deveríamos parar com isso. Nos últimos quinze anos, tenho trabalhado de uma forma
incomum de resolver problemas complexos. Iniciei esta jornada de forma um tanto
quanto inesperada.
No início da década de 90, eu estava trabalhando em Londres, no departamento de
planejamento estratégico da Royal Dutch Shell, empresa mundial de petróleo. Um dia
recebemos uma ligação de um grupo de ativistas de esquerda da África do Sul que
desejavam usar a metodologia de planejamento estratégico da Shell para fazer planos
para o período de transição de seu país após o apartheid. Também queriam saber se
alguém da Shell poderia lhes fornecer conselhos metodológicos. Encontrei-me então
atuando como facilitador de uma equipe de líderes sul africanos: negros e brancos, de
esquerda e de direita, da oposição e da elite governante, da política, de empresas e
da sociedade civil. Todos eles falando sobre o que estava acontecendo e o que fariam
a respeito.
Testemunhei, na África do Sul, que é possível para um grupo altamente diversificado
de líderes de todo um sistema social, até mesmo aqueles que estiveram literalmente
em guerra uns com os outros, engajar-se na co-criação de um futuro melhor.
Nos últimos quinze anos, juntamente com meus colegas, tenho seguindo esta rotina,
iniciada na África do Sul. Nossa abordagem básica tem sido o trabalho com equipes de
líderes de um dado sistema social, que têm o compromisso e a capacidade de agir
para mudar esse sistema, para construir um entendimento compartilhado de sua
realidade atual, do seu próprio papel em tal realidade e do que podem e irão fazer
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para co-criar uma nova realidade. Temos trabalhado desta forma com todos os tipos
de equipes, com uma gama de desafios complexos, em todas as partes do mundo: na
Guatemala, para implementar os acordos de paz; na Índia, para reduzir a subnutrição
infantil; nos Estados Unidos, para revitalizar áreas urbanas e rurais; no Canadá, para
mudar para uma economia de baixo carbono; por toda a Europa e Américas, fazendo
com que sistemas de alimentação sejam mais sustentáveis e na África do Sul, para
responder aos vários impactos sociais da epidemia do HIV/AIDS.
Nos últimos quinze anos, tenho dado várias cabeçadas. Mas, se você se concentra em
uma questão pelo tempo suficiente, uma resposta então começará a surgir na sua
mente. Aqui está o início da resposta que surgiu para mim: se quisermos ser capazes
de resolver nossos problemas mais complexos pacificamente, temos que nos tornar
bilíngües. Temos que aprender a falar duas línguas que não são traduzíveis de uma
para a outra. Temos que aprender a falar a língua do poder e a língua do amor.
Esta reposta requer um pouco de explicação, pois as palavras poder e amor são
definidas por muitas pessoas diferentes, de formas muito diferentes. Estou usando
duas definições em particular, sugeridas por um teólogo americano de origem alemã,
chamado Paul Tillich, que acredito ressoam profundamente minha própria experiência.
Tillich define poder como “a força de tudo que vive para realizar a si próprio, com
crescente intensidade e amplitude”. Portanto, poder, neste sentido, é a força de
realizar um trabalho, de alcançar um propósito, de crescer. Passei a maior parte da
minha carreira no mundo dos negócios, que é dominado por esta linguagem do poder:
pela força ativa e empreendedora dos indivíduos e das organizações para terem seus
trabalhos realizados, seus objetivos alcançados e crescerem. E, há quinze anos,
quando me envolvi no primeiro projeto na África do Sul, o que mais me impressionou
a respeitos dos sul-africanos foi a energia empreendedora para realizarem seu
trabalho, para alcançarem seus objetivos e para crescerem dentro do que a
conjuntura exigia deles.
Tillich define amor como “a força em direção à unidade do que está separado”.
Portanto, amor, neste sentido, é a força de religar aquilo que é inteiro, que é único,
mas que parece partido em fragmentos. Testemunhei esta força em direção à
unidade, afastando-se do apartheid na África do Sul; pois afinal a palavra apartheid
em africano significa separação. Testemunhei, também, esta mesma força em todo o
trabalho que fiz na América Latina, Colômbia, Argentina, Paraguai e especialmente na
Guatemala, trabalhando com equipes de líderes que estão tentando unir-se para curar
as feridas causadas por décadas de polarização, repressão e guerra.
Há algumas semanas, tive uma experiência na qual testemunhei uma expressão
muito nítida dos fenômenos de poder e amor. Estava em um workshop de um projeto
que reúne líderes de todas as partes da sociedade israelense judia; uma sociedade
profundamente e perigosamente dividida. Os líderes eram de esquerda e de direita,
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religiosos e laicos, políticos, empresários, rabinos e ativistas, todos tentando
desenvolver respostas para uma pergunta essencial: que tipo de sociedade podemos
imaginar, que levaria nossos descendentes a terem orgulho de fazerem parte e na
qual poderíamos viver de forma amistosa com nossos vizinhos que não são judeus?
De um lado, a sociedade israelense judia exemplifica o fenômeno do poder: a força de
um povo ressurgindo de sua quase extinção provocada pelo Holocausto, para perceber
a si própria intensiva e amplamente, e os conflitos que esta força inevitavelmente
produz. E este mesmo fenômeno esteve presente no próprio workshop, com cada um
dos participantes tomado pela força de realizar-se a si próprio, de ser verdadeiro
consigo mesmo, de argumentar seu ponto de vista com paixão e os argumentos
complexos que esta força inevitavelmente produz.
Porém, houve um segundo fenômeno também presente no workshop. Uma certa
manhã, tivemos um diálogo longo e muito sincero sobre inclusão e exclusão da
sociedade israelense. Para mim, parecia que todas as camadas da sociedade sentiamse excluídas: a religiosa, a laica, os imigrantes, os árabes, os russos e os etíopes.
Pude ouvir a dor nas vozes das pessoas, mas não pude compreender o motivo pelo
qual esta conversa foi tão importante para o grupo. Então, de repente, percebi o que
não estava ali. É como a piada do Sherlock Holmes e o Watson em um acampamento.
No meio da noite, Holmes acorda o Watson e pergunta: “Watson, o que você vê?”. O
Watson está acostumado a estes testes de suas habilidades de observação e começa
a responder, “Vejo as estrelas brilhando, a lua crescente e as nuvens que passam”,
mas Holmes o interrompe e diz: “Não Watson, seu burro!Alguém roubou a barraca!”.
A dor naquela sala era a dor do desejo por algo que não estava ali: um sentimento de
inclusão, de ligação, de união. Este é o fenômeno do amor: a força em direção à
unidade do que está separado. A dor naquela sala era o desejo dos israelenses judeus
de estarem unidos uns aos outros e também aos seus vizinhos que não eram judeus.
Até este momento, falei sobre poder e amor de forma neutra e direta. Mas
naturalmente nossa situação não é de forma alguma neutra ou direta. Isto acontece
porque ambos, poder e amor, têm duas faces: uma criadora e outra degenerativa e
obscura. A feminista Paula Melchiori me chamou a atenção ao fato de que podemos,
ver claramente estes dois conjuntos de duas faces se observarmos os papéis
tradicionais dos gêneros. O pai, que incorpora o poder masculino, sai ao mundo para
realizar seu trabalho. A face criadora deste poder é a construção de algo de valor no
mundo; a criação de uma história. A face degenerativa de seu poder é que ele pode
ficar tão concentrado em seu trabalho, que esquece sua ligação com as outras
pessoas e pode tornar-se um robô ou mesmo um tirano.
Por outro lado, a mãe, incorporando o amor feminino, fica em casa para criar os
filhos, renunciando sua capacidade de criar história. A face criadora de seu amor é
que ela literalmente dá sua vida ao filho. A face degenerativa de seu amor é que ela
pode ficar tão concentrada em seu filho que bloqueia sua capacidade de crescer e
realizar-se. Portanto, precisamos ser bilíngües porque poder e amor são
complementares.
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Amor é o que torna o poder criador ao invés de degenerativo e poder é o que torna o
amor criador ao invés de degenerativo.
O aluno mais famoso de Paul Tillich foi o líder americano dos direitos civis Martin
Luther King Jr. Em um discurso de King feito seis anos antes de ser assassinado, ele
falou diretamente sobre esta complementaridade fundamental. “Poder sem amor”,
disse ele: “é descuidado e abusivo; amor sem poder é sentimental e anêmico. Este
conflito, entre poder imoral e moralidade sem poder, constitui a maior crise de nosso
tempo.”
Minha própria experiência apóia fortemente a análise de King. Poder sem amor é
descuidado e abusivo. Se eu agir de forma a me realizar, sem reconhecer que você e
eu somos um só, na melhor das hipóteses, o resultado será insensível e, na pior das
hipóteses, opressivo ou mesmo genocida.
Amor sem poder é sentimental e anêmico. Se reconheço nossa unicidade, mas não
mudo minhas ações para estarem de acordo com este reconhecimento, então o
resultado que produzirei será, na melhor das hipóteses, inútil e, na pior das hipóteses,
um reforço inconsciente da situação atual.
Não é fácil trabalhar com poder e amor juntos. Um não é o oposto do outro, mas
também não são a mesma coisa. Eles estão em constante tensão, fora de equilíbrio,
instáveis. Tive a experiência de ser descuidado e abusivo em dias pares; sentimental
e anêmico em dias impares. O psicólogo junguiano Roberto Johnson disse:
“Provavelmente, o par de opostos mais problemático de se (que podemos tentar)
reconciliar é o amor e o poder. Nosso mundo moderno está despedaçado por esta
dicotomia e muito mais fracassos do que sucessos são encontrados na tentativa de
reconciliá-los.”
Um amigo franco-canadense me disse uma vez que sua experiência como bilíngüe, o
que literalmente significa falar dois idiomas, foi na verdade a de ser bi-cefálico, de ter
dois cérebros. Sempre compreendi o que ele falou de forma metafórica, até há alguns
dias quando me deparei com um livro incrível da neuroanatomista Jill Bolte Taylor. Há
dez anos Taylor teve um derrame cerebral, perdendo completamente o funcionamento
do hemisfério esquerdo de seu cérebro. Por três semanas, ele teve a experiência de
ter apenas o funcionamento do hemisfério direito. Aqui está o que ela relata: “Os dois
hemisférios...processam informações de forma diferente, cada um pensa em coisas
diferentes, preocupa-se com coisas diferentes, e ouso dizer até que possuem
personalidades diferentes. O hemisfério esquerdo é aquela voz que diz “Eu sou. Eu
sou”. E tão logo meu hemisfério esquerdo diz “Eu sou”, acabo ficando separada.”
Então, na minha linguagem, o hemisfério esquerdo é o cérebro da auto-realização, do
poder. Taylor continua a relatar: “O hemisfério direito diz: “Somos seres de energia
ligados uns aos outros...como uma família humana...somos perfeitos. Somos um só e
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somos lindos”. Então na minha linguagem, o hemisfério direito é o cérebro da
totalidade, do amor.
Precisamos aprender a sermos bi-cefálicos e bilíngües. Precisamos aprender a falar
tanto a língua do amor como a língua do poder. Poder e amor não são a mesma coisa
e nem opostos. Assim como nossa natureza masculina e feminina, ou nossos
hemisférios esquerdo e direito, eles existem em áreas diferentes; um complementa o
outro. Se pudermos nos tornar mais bilíngües, seremos então mais capazes de
resolver nossos problemas mais complexos de forma pacífica.
Sobre o autor:
ADAM KAHANE é sócio fundador (com Joseph Jaworski e Bill O´Brien) da Generon Consulting e
da Global Leadership Initiative. É um destacado e reconhecido criador e facilitador de
processos pelos quais líderes de empresas, governo e da sociedade civil podem trabalhar
juntos para resolver seus problemas mais difíceis e complexos. Nessa área, já trabalhou em
mais de cinqüenta países, em todas as partes do mundo, com executivos e políticos, generais
e guerrilheiros, funcionários públicos e sindicalistas, ativistas comunitários e autoridades das
Nações Unidas, jornalistas e clérigos, acadêmicos e artistas. No início da década de 1990,
Adam encabeçou os Cenários Sociais, Políticos, Econômicos e Tecnológicos da Royal
Dutch/Shell, em Londres. Anteriormente, tinha ocupado cargos nas áreas de estratégia e
pesquisa na Pacific Gas and Electric Company (São Francisco), na Organização para a
Cooperação e o Desenvolvimento Econômico , Agência Internacional de Energia (Paris), no
Instituto Internacional de Análise Sistêmica Aplicada (Viena), no Instituto de Economia
Energética (Tóquio) e nas Universidades de Toronto, Colúmbia Britânica, Califórnia e Cabo
Ocidental. Entre 1991 e 1992, Adam foi facilitador do Projeto de Cenários de Mont Fleur, no
qual um grupo diversificado de sul-africanos trabalhou em conjunto para realizar a transição
para a democracia. Desde então, tem liderado muitas iniciativas semelhantes, envolvendo
múltiplos interessados no processo de diálogo e ação por todo o mundo. Foi uma das dezesseis
personalidades da primeira lista anual de notáveis da revista Fast Company, e é membro da
Comissão de Globalização do Diálogo de Líderes Empresariais do Aspen Institute, da Society
for Organizational Learning, e da Global Business Network. Adam é bacharel em Física
(graduação com honra) pela Universidade McGill (Montreal), licenciado em Economia de
Energia e Recursos pela Universidade da Califórnia (Berkeley) e Master of Arts em Ciências
Comportamentais Aplicadas pela Universidade Bastyr (Seattle). Também estudou negociação,
na Faculdade de Direito de Harvard (Harvard Law School) e violoncelo no Institut MargueriteBourgeoys. Nascido em Montreal, no Canadá, vive atualmente entre Boston e a Cidade do
Cabo, com a esposa Dorothy e família.
www.reospartners.com
Autor dos livros: Como resolver problemas complexos – Editora Senac; Poder e Amor – Editora Senac
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Amor x Poder