A IMPORTÂNCIA DO BRINCAR NA ONCOLOGIA PEDIÁTRICA DO
HOSPITAL SÃO VICENTE EM BARBALHA - CE.
Francisco David Batista Campelo1
Orientadora: Profª. Ms. Alana Mara Alves Gonçalves
Universidade Regional do Cariri - URCA
INTRODUÇÃO
Todas as pessoas já foram um dia criança, porém muitos não se lembram disso. Mas
deduzam qual seja o significado da infância. Essa fase da vida é marcada pelo “primeiro”, ou
seja, o primeiro brinquedo, amigo, risos, choro, machucado, castigo, amor platônico, pela
primeira queda, travessura, cara emburrada, vontades de fazer o que quer na hora que bem
entender. Na sua maior parte, não existem preocupações, horários obrigatórios ou préestabelecidos para realização das atividades. As responsabilidades são poucas, pois
existem as intervenções dos pais para tais.
Mas se o destino de repente propiciasse uma realidade totalmente diferente da
relatada. Onde essa fase da vida também, fosse marcada pela dor, incerteza, angústia,
internações, responsabilidades e obrigações diárias, restrições sejam elas alimentares ou de
espaço e tempo, marcadas também pelo medo, exames, procedimentos médicos, choro,
sofrimento e horários obrigatórios.
São perguntas que nos fazemos, mas na maioria das vezes negligenciamos tais
respostas. Pois as pessoas que um dia foram criança, agora já são adultas. Essas têm
muitas responsabilidades, preocupações e vivem independentemente o seu mundo. Ou
simplesmente, fingir que essa realidade não existe, ou agradecer a Deus por esse problema
não ter acontecido com alguém próximo.
Mas esse ser humano agora adulto, cheio de tarefas, compromissos e
preocupações, não podem ser tão cruéis a ponto de não saber o significado, do brincar para
uma criança. E essa, sendo uma criança, que terá que enfrentar um grande desafio em sua
vida. Uma experiência nunca antes imaginada ou desejada, que é o processo de internação
e intervenção contra uma doença chamada de “câncer”.
2. CÂNCER E O BRINCAR
A busca de alternativas para humanização, intervenção, manutenção, e recuperação
de pacientes em tratamento oncológico, é questão de missão entre os profissionais da
saúde. Uma vez que, apenas uma pequena minoria dos pacientes recebe o diagnóstico de
câncer quando a doença ainda está em fase inicial e há chances reais de cura.
1
Educador Físico pela Universidade Regional do Cariri – URCA, Pós‐Graduando em Saúde Mental pela Faculdade Leão Sampaio. O tratamento do câncer pode ser curativo, almejando a eliminação completa da
doença, paliativo, visando apenas o seu controle, ou de suporte, voltado para a diminuição
da dor e sofrimento. O tratamento abrange cirurgia, quimioterapia, radioterapia, transplante
de medula dentre outros, que podem ser empregados isoladamente ou em conjunto
dependendo de cada caso (HERZBERG, 1997, pág. 21– 40.).
Outro exemplo de tratamento que foi muito criticado, mas revolucionou a medicina,
mas precisamente o da oncologia, foi o do médico Pacth Adams. Ele comprovou que o
sorriso é um forte aliado durante o tratamento das crianças, pois este está associado ao
fator emocional, que é responsável desde os sentimentos de alegria e tristeza aos mais
complexos, como elevação do fluxo sangüíneo, pressão arterial e aumento dos batimentos
cardíacos.
De acordo com Revista da Associação Médica Brasileira (2000), o tratamento
freqüentemente ocasiona efeitos colaterais imediatos (náuseas, vômitos, alterações no
peso, dor de cabeça, irritabilidade, nervosismo), e ou tardios (déficit neuropsicológico,
esterilidade em homens, falência ovariana em mulheres, estreitamento intestinal e em
alguns casos amputações de membros).
Um dos primeiros efeitos da quimioterapia é a queda de cabelos. É um momento
difícil para as crianças, pois elas pensam que vão morrer. Quanto à estética, os meninos se
comparam aos seus ídolos do esporte, onde a maioria tem cabeça raspada. Já para as
meninas é algo que as preocupa, pois no seu meio é muito raro ter uma garota careca.
Devido às altas doses de medicações as crianças podem ficar neutropênicas, ou
seja, suas defesas orgânicas ficam abaixo do normal. Com isso, elas deverão usar uma
mascara cobrindo o nariz e a boca, bem como ficar isoladas das demais crianças evitando
assim, o risco de uma infecção.
Todas essas intervenções contra o câncer trazem consigo uma série de mudanças
na vida da criança sejam elas no plano social, emocional e psicológico.
De acordo com a autora Giselle (2005), a dificuldade dos pais em falar sobre o
diagnóstico, ou a utilização de eufemismos para se referir ao câncer, seja um mecanismo de
defesa que, inconscientemente, os adultos utilizam para evitar a real presença de uma
doença crônica e suas conseqüências: onipresença da morte, a incerteza do futuro e a
interrupção do ciclo vital da família.
No momento que a criança é submetida ao tratamento contra o câncer, vários fatores
contribuem para o aparecimento de dissabores existenciais ao seu desenvolvimento. Antes
de chegar à enfermaria para ser internada a criança já tem visitado o hospital diversas
vezes, feito vários exames e procedimentos médicos.
Em primeiro momento, a criança terá que se afastar por algum tempo da escola por
conta do tratamento que é longo. As pessoas estranhas que estarão agora a sua volta, na
maioria das vezes pacientes e acompanhantes. O cheiro do ambiente, o sabor da
alimentação, as roupas dos profissionais ali presentes, as intervenções rotineiras que a
crianças passarão.
Vale ressaltar que em nosso país, os aspectos sobre tratamento e direitos da criança
e do adolescente hospitalizados, estão previstos de acordo com a Resolução CONANDA nº.
41 de 17 de outubro de 1995.

Art. 8 – Direito de ter conhecimento adequado de sua enfermidade, dos cuidados
terapêuticos e diagnósticos, respeitando sua fase cognitiva, além de receber amparo
psicológico quando se fizer necessário.
 Art. 9 – Direito de desfrutar de alguma forma de recreação, programas de educação
para a saúde, acompanhamento do curriculum escolar durante sua permanência
hospitalar.
 Art. 10 – Direito de seus pais ou responsáveis, participarem ativamente do seu
diagnóstico, tratamento e prognóstico, recebendo informações sobre os
procedimentos a que será submetida.
Então perante toda essa nova situação que traz consigo, todos esses fatores,
adivinhos dessa nova circunstância que a doença proporciona, buscam-se estratégias de
atenção especial enquanto ao trato recreativo da criança.
Nessa contextualização entra a palavra “Brincar”, que nos faz lembrar imagens,
diversão, gargalhadas, partilha, alegrias e amigos. Por outro lado, o ato de brincar nos
permite ser quem não somos, de estarmos em lugares e planetas diferentes, o prazer de
satisfazer o desejo mesmo que de forma ilusória.
Brincar de fato é divertido, gostoso, prazeroso como aponta o Dicionário de Língua
Portuguesa Michaellis (2005), ao definir o termo brincar, em primeiro plano, como diversão:
recrear-se, distrair-se, divertir-se infantilmente, entreter-se em jogos de criança.
Onde o que devemos levar em consideração sob o ponto de vista lúdico, não é a
brincadeira que determina o prazer em se brincar, e sim, a imaginação da criança naquele
instante, pois é através dela que a criança pode recriar ou até criar novas formas, regras e
estratégias de se brincar ou jogar num ambiente restrito.
Segundo Winnicott (1975), o brincar é essencial para a criança, pois é através dele
que se manifesta a criatividade da criança. Benjamin (1984) vem reforçar ainda mais essa
afirmação, pois ele também acredita na independência do brincar em relação ao brinquedo.
Podemos afirmar isso em relação ao próprio contexto hospitalar, onde a maior parte
das atividades será realizada na própria enfermaria. A esse respeito, Masetti (1997), diz que
o brinquedo também pode ser utilizado de forma específica, por meio do palhaço, com a
função de alegrar o ambiente e amenizar as sensações desagradáveis da hospitalização,
humanizando assim o setor hospitalar.
Temos que levar em conta que o próprio espaço da enfermaria inviabiliza
determinadas atividades bem como o quadro clínico da criança, com isso o profissional terá
que usar muitas vezes de improvisação.
Altman (1993) ressalta que ao brincar, a criança enferma que em geral tem um
retrocesso em seu desenvolvimento, é estimulada e retoma o impacto vital, recuperando-se
mental e fisicamente; readquire a autoconfiança, consegue comunicar-se e cria coragem
para ultrapassar as adversidades.
Esse processo só acontece porque o brincar sempre foi e será uma atividade
espontânea e muito prazerosa, acessível a todo ser humano de qualquer faixa etária ou
classe social.
METODOLOGIA
Este estudo se caracteriza como uma pesquisa etnográfica, de caráter qualitativo,
onde não se baseou em critérios numéricos para garantir sua representatividade. Com base
nos procedimentos técnicos utilizados, esta pesquisa qualificou-se como um estudo de caso.
De acordo com as autoras Marconi e Lakatos (2005), a pesquisa etnográfica,
consiste no levantamento de todos os dados possíveis sobre a sociedade em geral e na
descrição, com a finalidade de conhecer melhor o estilo de vida ou a cultura específica de
determinados grupos.
A observação obriga o investigador a ter um contato mais direto com a realidade, ou
seja, para o pesquisador compreender a realidade a ser estudada, ele terá que
compreender todas as emoções, sentimentos, atitudes envolvidas no seu grupo específico.
Em relação aos aspectos éticos da pesquisa, tivemos o compromisso de resguardar
a integridade de todos os envolvidos. Usando assim, nomes fictícios para as crianças,
familiares e profissionais do Hospital São Vicente.
RELATO DE EXPERIÊNCIA
Nunca mencionávamos o termo paciente ou doente, mas sim amigo (a), dizíamos
também, que aquele momento era apenas um estágio em suas vidas. E que tudo iria dá
certo, confiando em Deus, acima de tudo. Nossa abordagem com as crianças se dava da
seguinte forma: perguntávamos a elas o que nosso amigo (a) estava fazendo naquele hotel
cinco estrelas.
Mostrávamos também a vista de fora do hospital, que dava de encontro a uma serra
e montanhas da própria cidade, falávamos também que qualquer problema que eles
tivessem em relação às acomodações e instalações do quarto ou com alimentação, era só
falar conosco que resolveríamos de imediato o problema com a dona do hotel.
Dando continuidade, por conta da medicação e do soro, as crianças ficavam com o
equipo no braço, ou seja, um material de borracha que tem uma entrada por onde se
encaixa uma mangueira de borracha que permite a passagem da medicação venosa.
Nesses casos, perguntávamos que horas era naquele relógio. As crianças
começavam a rir, e diziam: Não é um relógio não, vocês são doidos? Fazíamos com que
eles imaginassem que aquilo fosse um relógio de verdade.
Em relação ao tratamento, não tínhamos acesso à sala de cirurgia, nem a de
radioterapia. Já aos demais procedimentos, não só acompanhávamos como também
ajudávamos à enfermeira chefe. As crianças choravam muito na hora da medicação, que
era feita através de injeções intramusculares, ou intravenosas. Fazer com que elas
sorrissem naquele momento, era uma das tarefas mais difíceis para nós.
Então em uma das visitas ela nos chamou para auxiliá-la. E nesse dia Rosinha
(nome fictício da criança) chorava muito, antes mesmo de tomar a medicação. Aí ela me
chamou e disse:
(...) Palhacinho, palhacinho, por favor, não deixa tomar essa injeção
não, por favor, por favor. Faz com que esse momento passe rápido,
por favor, por favor, palhacinho. (ROSINHA, 2008).
Tínhamos que ser fortes, e ao mesmo tempo divertidos, pois era difícil naquele exato
momento da penetração da agulha fazer a criança sorrir. Tentávamos acalmá-las também,
mais parecia quase impossível. Então depois dessa cena, ficamos pensando como
poderíamos realmente intervir de forma que as crianças sofressem menos e sorrissem mais.
Saímos do Hospital com o intuito de buscar alguma estratégia mais eficaz para aqueles
procedimentos.
Dai tivemos a idéia de fazer uma brincadeira que batizamos como “corrente do bem”.
Onde na hora que qualquer criança fosse tomar a injeção, pegávamos um na mão do outro
e a fila se estendia onde dizíamos que a dor iria passar para o último da ponta. E esse
escolhido com um piscar de olhos tinha que improvisar uma a cena divertida. Depois
dávamos uma massagem na região da injeção, e continuávamos com as atividades do dia.
(“...) nesse dia uma mãe chegou pra mim e disse que minha mão era
mágica”. Pois seu filho dizia que sempre sentia dor, e, nesse dia ele
não sentiu nada. E gostaria que eu fizesse essa brincadeira
novamente, pois ele estava recebendo alta mais depois de 21 dias,
estaria novamente lá para tomar o reforço da injeção. (IRANILDES,
2008).
A partir desse momento começamos a usar também de outro recurso que foi muito
valioso nas nossas visitas, que era o ato de conversar independentemente de outras
atividades. Isso de seu porque tanto as crianças como seus familiares eram carentes de
conversa que não fosse do trato médico hospitalar.
Em outro momento conhecemos Cicinha, uma menina de quatorze anos, que tinha
um câncer de ovário. Ela sempre ficava deitada e não brincava com freqüência. Em um
determinado dia, percebemos que ela estava bastante triste, e fomos até ela para saber o
que estava acontecendo. Quando chegamos ao seu leito e demos um bom dia, ela nos
respondeu bem baixinho. E começamos a falar da mesma forma que ela, bem baixinho.
Conversa vai e vem, entramos por acaso no assunto de música. Foi quando
descobrimos que ela era fã do grupo Calypso. Naquele instante tivemos a idéia de fazer o
concurso para ver qual era a melhor Joelma. Para nossa surpresa era se levantou da cama,
ficou toda animada. Se fomos bons ou ruins não sabemos, mas conseguimos o mais
gratificante que era fazer uma criança a qual o tratamento não estava respondendo mais,
sorrir por alguns instantes.
Isso aconteceu numa quinta-feira, quando chegamos na outra semana para brincar
novamente com ela, recebemos a péssima notícia que ela havia falecido. Nesse momento
abraçamo-nos e tivemos a nítida certeza de que aquilo fora uma despedida.
Outra história de amor, força, e garra, a do menino Antonio de quatro anos, com um
câncer de intestino. Tive o prazer de acompanhá-los durante 10 meses. Presenciei a maioria
dos momentos alegres e também dos momentos mais delicados e complexos durante o seu
tratamento. Na recuperação da ultima cirurgia ele passou vinte e hum dias sem poder tomar
água e nem comer nada, estava com sonda e dreno com o objetivo de limpar o intestino.
O caso era tão complexo que em algumas vezes ele colocava fezes pela boca. Ele
chorava de tanta sede, então eu e a sua mãe com autorização da enfermeira chefe
molhávamos um algodão com água e passávamos sobre seus lábios. Brincar com ele nesse
período foi muito marcante pra mim. Ele adorava meu cordão, que era feito com sementes e
de cores fortes, e com isso despertava a atenção dele. Fingia que era um boi e ele teria que
me laçar, e isso dava um estímulo tão grande a ele, que ele buscava força dentro de si para
brincar
Em outro momento, recebemos Dorinha, uma criança de quatro anos também com
um tumor no intestino. Tive a oportunidade de está no momento da sua internação. Ela e
sua mãe chegaram abraçadas, choravam bastante, e não queria ficar ali. Isso é normal, pois
nesse primeiro momento os mais complexos sentimentos são vivenciados. Passaram-se
dois dias, e quando voltamos na enfermaria oncológica, ela já tava com o um soro no braço,
e o primeiro contato foi brincar logo com o soro que a incomodava muito. Dissemos que
aquele objeto era um relógio, e ambas sorriram.
O tratamento por sua vez estava agindo bem, mais o câncer pega todos de surpresa,
e em uma segunda feira ela veio a óbito só que eu não fiquei sabendo. Então quando
cheguei em ouro momento para brincar com ela e não há vi, pensei que ela tivesse recebido
alta. Por alguns instantes fiquei feliz, mas para minha surpresa ouvi algo que jamais gostaria
de ter escutado, a notícia de que ela havia falecido na segunda-feira.
Foi um grande impacto, sentei por cerca de três minutos, fiquei transtornado mais
jamais poderia transparecer. Quando sai do hospital tive uma vontade imensa de chorar,
mais me contive. Foi doloroso demais, pois acompanhei a maior parte do seu tratamento,
desde a sua chegada, a ultima vê que estivemos juntos brincamos mais do que as outras
vezes, ela estava tão bem, e, na hora da sua partida não estava lá para dá pelo menos um
abraço.
Realizávamos também atividades com pintura, pois além de ser prazeroso, tinha
como objetivo desenvolver os aspectos cognitivos, motores e coletivos, uma vez que o
material era para todos. No início os desenhos só representavam para mim uma gravura ou
uma imagem de alguma coisa. Comecei a me aprofundar num estudo o qual aborda o
significado dos desenhos para a criança com câncer.
Partindo desse raciocínio, constatei que o desenho da casa, era o desejo de voltar
para a sua moradia de costume. Pois muitas das crianças ficavam hospitalizadas num
período mínimo de quatro dias, e até meses. O desenho da família representava a falta
desse convívio diário com todos os membros, neste ato ficando o maior convívio com a
mãe. O desenho dos super-heróis representava o sentimento de não ter medo da injeção,
que não ia doer, e que ele iria ficar bom, pois assim como nos desenhos ou filmes, o superheróis não tem medo, não sentem dor, e sempre vencem a sua missão.
Em outra visita fui ajudar Maria enfermeira chefe da oncologia pediátrica, em um
procedimento. Vanessa era uma menina de três anos, que só em ver a enfermeira já caia no
choro. A enfermeira pediu minha ajuda naquele procedimento.
Confesso que foi muito difícil, pois foram seis tentativas para conseguir alcançar o
objetivo. Ela olhava para mim com aquele olhar que podia dizer, hei me tira daqui eu tenho
uma vida, to com medo, faz com esse momento passe rápido. De repente disse a ela que a
dor estava passando pra mim, então comecei a gritar também, foi aí que ela parou de chorar
e ficou me observando, e nesse momento, conseguimos encontrar a tão desejada veia e ela
já havia se acalmado mais.
No dia 24 de dezembro véspera de Natal, passei o dia no hospital. Essa data para as
famílias de um modo geral representa uma data muito especial, que é o nascimento do
menino Jesus. É onde os laços fraternos são renovados nessa data. É de costume as
famílias se reunirem e fazer uma ceia. Já para essas famílias passar o natal em um hospital,
mas precisamente na oncologia é algo muito triste e penoso.
Pois não existe aquele encontro de todos os membros para a ceia, nem as mesmas
preocupações em relação aos preparativos da festa, tais como: o peru não queimar, ou o
refrigerante não gelar, ou tal pessoa ainda não chegou. Agora as preocupações são com a
sonda posta pelo nariz ou boca, drenos, soro, ou com o próprio estado clínico do paciente.
Chegou por volta de 10h30minh da manhã César, um menino de onzes anos, com
suspeita de câncer. Embora suas pernas e joelhos doessem muito, ele tinha uma expressão
facial serena e alegre. Comecei a conversar com ele coisas da sua vida, casa, escola e
amigos. Nesse dia três jogadores de futebol, dois do flamengo e um do Vasco, que estavam
aqui na região, passaram por lá também, o que alegrou ainda mais a criança. Passaram-se
dois dias, e veio à confirmação da doença.
Pude acompanhar a emoção da sua mãe, e logo dei um forte abraço, e disse
suavemente: Se Deus quiser ele iria ficar bom, e nós iríamos fazer o possível e impossível
para alegrá-lo durante sua estadia lá. Seu primeiro dia foi totalmente diferente das demais,
ele não chorou, pelo contrário, estava com a expressão facial serena. Depois de um mês ele
veio a falecer.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Vê-se então que o brincar exerce uma função muito importante para as crianças que
estão em tratamento oncológico. Pois além de proporcionar o seu desenvolvimento
psicomotor, social e emocional, ele permite que a criança tenha momentos alegres,
descontraídos e prazerosos durante a sua estadia no hospital.
É cabível ressaltar que o trabalho recreativo – educativo no contexto da oncologia
pediátrica é algo que envolve muita emoção, amor, paciência, compreensão e que aborda
profissionais de áreas diferentes.
Em alguns momentos tive que lidar com a tão temida e indesejada morte, que
assusta pais e filhos que convivem naquele ambiente. Porém vivenciei também momentos
alegres na recuperação pós-cirúrgica, no aumento do sistema imunológico, na regressão de
tumores, e ver o sorriso estampado no rosto não só das crianças, mas de todas as pessoas
que se encontravam naquele ambiente, desde a faxineira até os médicos.
A partir das análises de dados podemos considerar que os objetivos inicialmente
propostos foram atingidos de forma a responder as questões que deram suporte ao estudo,
sendo assim podemos ponderar que o brincar dentro do hospital pode ser considerado
como uma ferramenta lúdica, educativa e terapêutica.
Em primeiro momento lúdica, porque toda criança tem a necessidade de se divertir,
rir, brincar, imaginar e se relacionar.
Educativa, pois quando você brinca você desenvolve aspectos afetivo, cognitivo,
coletivo, cooperativo, motor e social.
Terapêutica, voltado para amenizar o impacto e sofrimento do tratamento,
contribuindo assim para uma melhor recuperação. Pois no momento do brincar, ocorre há
liberação de endorfinas que tem papel na diminuição do estresse, recuperação da alta
estima, melhoramento do bom humor e do sistema imunológico, como também, possibilita
maior disposição física e mental.
REFERÊNCIAS
BENJAMIN, W. Reflexões: a criança, o brinquedo, a educação. São Paulo: Summus,
1984.
FÁTIMA, Giselle. Ser mãe de uma criança com câncer: um estudo compreensivo.
Monografia de final do curso. Faculdade de ciências da Saúde – FACS. Curso de Psicologia.
Brasília, 2005.
FERRARI, C.; HERZERBEG, V. Tenho câncer, e agora? Enfrentando o câncer sem
medos ou fantasia. São Paulo: FAZ 1997.
MARCONI, Marina de Andrade, LAKATOS, Eva Maria. Fundamentos de Metodologia
Científica. 6ª Edição. Editora Atlas. São Paulo, 2005.
MASETTI, M. Soluções de palhaços. São Paulo: Palas Athena, 1998.
MICHAELIS. Dicionário de língua Portuguesa: Editora melhoramentos Ltda. São Paulo.
2005.
PATCH, Adams. O amor é contagioso. Rio de Janeiro, Editora Sextante, 1999.
Resolução 41, de outubro de 1995 do CONANDA: Direitos da Criança e do Adolescente
Hospitalizado.
REVISTA. Associação Médica Brasileira. Vol. 46 n.3. São Paulo July/Sept. 2000.
WINNICOTT, D. W. (1975) O brincar & a realidade. Trad. J. O. A. Abreu e V. Nobre. Rio de
Janeiro, 1975.
Download

Leia na íntegra