De qual universidade o
Brasil precisa?
Renato Dagnino
Este trabalho foi preparado para a discussão nas atividades
programadas no Instituto de Geociências durante a greve e aguarda a
contribuição crítica de professores, funcionários e estudantes.
Junho 2014
S
e tivesse que fazer um diagnóstico sobre a universidade pública no Brasil, eu
poderia resumi-lo numa palavra: disfuncionalidade. Ela não é funcional, quer
dizer, não é necessária, nem para a classe dominante nem para a classe
dominada.
Essa disfuncionalidade é por isso percebida tanto pela direita quanto pela esquerda. O
que varia em cada caso é a proposta sobre o tipo de aliança que ela deve buscar para
ganhar forças, recuperar sua legitimidade e superar a disfuncionalidade.
A direita da universidade pública vem se dedicando a encontrar aliados na esfera
privada. A esquerda sabe que universidade pública não rima com empresa privada e
sim com o “público”. Sua busca por aliados deve estar cada vez mais orientada para a
esfera pública. São os movimentos sociais e o próprio Estado os atores que precisam
do (e tem direito ao) conhecimento que a universidade pública pode produzir. A
empresa privada até hoje não demandou significativamente conhecimento localmente
produzido. E, quando o fizer, poderá procurá-lo, para valorizar a rima, na universidade
privada.
A direita brasileira vê a universidade pública como disfuncional ao modelo neoliberal
que desejou implementar desde finais dos anos oitenta. Um modelo de abertura
econômica indiscriminada, de desindustrialização, que não necessita de uma
universidade que faça pesquisa e forme recursos humanos qualificados. Uma
condição característica da situação periférica foi e é a fraca demanda de
conhecimentos e recursos humanos gerados localmente. Se esta situação já se fazia
sentir no modelo agroexportador primário e durante a vigência do modelo de
industrialização via substituição de importações, onde o problema não mudou
1
significativamente, com mais razão ela se dá no modelo neoliberal.
Esse diagnóstico de disfuncionalidade por parte da direita tem como ação política uma
visão pragmática da universidade e o consequente corte de tudo o que é considerado
“desnecessário”, que se manifesta não somente na pressão sobre os salários e as
condições de trabalho, mas também numa mudança da função e reconhecimento que
hoje já não tem a universidade frente às elites políticas e o poder econômico no Brasil.
Para expressar isso de uma forma muito dura: as elites universitárias já não
conseguem convencer as elites do pode econômico e político que o conhecimento, o
saber e, portanto, a pesquisa, universitários, podem ser importantes para o futuro.
Durante muito tempo a comunidade universitária conseguiu relacionar-se com essas
forças de considerável poder econômico e político, permitindo que a universidade
existisse da forma que tem feito até agora no Brasil. O próprio governo militar viu na
universidade pública um instrumento para seu projeto do Brasil “grande potência” e
estimulou várias áreas do conhecimento, sobretudo as áreas duras. Entretanto, essa
vinculação hoje se torna impossível. Os aliados que a universidade pública tem tido, de
forma tácita ou explícita, inclusive durante o governo militar, já não estão mais
acessíveis.
Esta situação, então, de crise, de disfuncionalidade, pode ser resumida mais ou menos
desta forma: a universidade já não é necessária para que a classe dominante siga com
seu projeto de acumulação; a universidade, num país cada vez mais dependente do
ponto de vista tecnocientífico, é muito cara para ser desnecessária. E é seu alto custo e
baixa legitimidade que a colocam cada vez mais indefesa frente às ameaças de
privatização.
E o diagnóstico da universidade feito pela esquerda?
A universidade pública no Brasil, até os anos 1960, foi responsável pela maior parte da
matrícula de terceiro grau. No começo dos anos 1960, antes do golpe militar, a
universidade pública era responsável por algo em torno de 70% da matrícula do
ensino superior. Hoje está entre 20 e 30%. Esse número varia. É maior nos estados do
nordeste, onde as elites conseguiram pressionar para que lá se estabelecessem
universidades federais. As elites dos estados mais ricos, como São Paulo e os mais ao
sul, não pressionaram o governo federal. De fato, a porcentagem de matrículas
públicas no Estado de São Paulo é de mais ou menos 15%. Isso quer dizer que cerca
de 85% dos estudantes do terceiro grau estudam ao setor privado.
Por outro lado, do total de jovens brasileiros entre 18 e 24 anos, somente 15% está no
terceiro grau. O que quer dizer que apenas 3 a 4% recebem nas universidades
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públicas uma educação que pode ser considerada “de qualidade”. Nos países
desenvolvidos, como no Canadá, 80% dos jovens nessa faixa etária está na
universidade. Estes dados nos dão uma ideia de como a universidade no Brasil é
elitista ou, melhor dizendo, é elitizada.
Devo adicionar que, caso se possa falar de qualidade (uma vez que o conceito que
adotamos é socialmente construído nos países de capitalismo avançado), a
universidade privada tem uma qualidade muito baixa e não faz pesquisa. Ela é
considerada por muitos como uma “fábrica de fazer diplomas”. Enquanto que as
pessoas que entram na universidade pública, quer dizer, que passam no vestibular,
tendem a ser as que fizeram ensino fundamental e médio privados, que nesses níveis
é melhor. Então se dá o paradoxo bem conhecido de que as pessoas com menos
recursos estão nas universidades privadas e os ricos estão na universidade pública.
Essa situação faz com que também exista um diagnóstico pela esquerda acerca da
disfuncionalidade. Para ela, a universidade pública não representa como no passado
uma alternativa ou possibilidade de ascensão social para as classes de baixa renda. A
ascensão social não ocorre mais pela via da universidade.
No modelo de substituição de importações existia a possibilidade, ou ao menos a
meta, de que o Brasil, depois de substituir importações, pudesse também substituir a
tecnologia necessária para produzir esses bens. O abandono desse modelo, que se
manifestou na abertura comercial – e que não por acaso se dá e simultâneo ao
desmantelamento das redes tecnoeconômicas que tinham como núcleo as empresas
estatais que foram privatizadas –, inviabilizou essa meta. As atividades de pesquisa,
tanto a adaptativa, realizada nos institutos públicos da área industrial que
implementavam
a
proposta
da
vinculação
universidade–empresa,
quanto
a
universitária, concebida em torno de uma agenda mais qualificada, que iria alavancar
o projeto de autonomia tecnológica formulado pelos militares, se tornaram
desnecessárias.
Em conclusão, poderíamos dizer, voltando a que afirmei no início, que hoje a
universidade pública não é funcional, quer dizer, não é necessária, nem para a classe
dominante nem para a classe dominada.
Esta situação, entretanto, não é percebida dessa forma pelo movimento docente nem
pelas forças políticas de esquerda que se manifestam na universidade. Seguimos
defendendo uma concepção de universidade (ou um modelo ou projeto) que não
corresponde ao momento em que vivemos. Ao fazê-lo, contribuímos para que o que
está ocorrendo há muito tempo: a universidade pública vem sendo atacada pelas
forças conservadoras, perdendo capacidade de convencimento, prestígio, legitimidade
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e força política.
A maneira como se pretende enfrentar essa crise estrutural e as de natureza
conjuntural, como as greves que se sucedem e às vezes chegam a durar quase um
ano, como ocorreu com a Universidade Autônoma do México, em 1999, é o que se
conhece como uma “resposta reflexa”; aquela que levou os dinossauros à extinção
frente a um planeta que mudava. Nas greves, o que tem feito o movimento docente é
adotar uma atitude meramente sindical, de defender nossas justas reivindicações
corporativas. Temos tentado “provar” aos dirigentes universitários (muitas vezes
entendidos como nossos patrões, como se não fossem colegas que, lamentavelmente
e por culpa do próprio movimento docente nunca foram expostos a uma discussão
como a que se pretende fazer neste documento) e como se eles não soubessem (!)
que sim, há recursos, para conceder os reajustes que demandamos. E entramos na
armadilha de discutir valores, porcentagens etc., sem atentar para o fato de que, se
não tivermos um projeto que oriente nossa universidade no sentido que demanda a
sociedade (e os mais pobres que pagam o imposto que se transforma no salário que
recebemos), e se não o implementarmos de modo adequado, não vamos convencer
ninguém. Nossa atitude, que possui caráter implícito de superioridade (um “gosto”, lá
“no fundinho”, daquela pretensão de que nos acusam), como se tudo o que fazemos
estivesse correto e adequado ao que a sociedade espera de nós, e que se o único que
precisássemos fossem mais recursos para melhor cumprir a nossa missão, vai ser
cada vez mais criticada. As forças conservadoras e a sua mídia tenderão a convencer a
sociedade de que nossa sula disfuncionalidade não poderá ser revertida –
endogenamente – por nós. Não merecem confiança pessoas cada vez mais alheias à
realidade que essas forças, mas também os movimentos sociais, estão apontando.
Submergida no cientificismo-produtivismo, de um lado, e, de outro, numa dinâmica
tecnocientífica
programada,
convencional
obsoletismo
presidida
planejado,
pelo
lucro,
consumismo
que
origina
exacerbado
deterioração
e
degradação
ambiental a universidade, dirão ela, não deve mais orientar-se a si mesma.
Mas a comunidade universitária segue em geral tentando convencer as elites políticas
e econômicas de sua importância e necessidade, e se queixa que o governo não a
entende, não valoriza a ciência, que os empresários são atrasados, não fazem
pesquisa, não são patrióticos, e por isto não demandam a pesquisa e os profissionais
produzidos pela universidade. É um discurso defensivo e como tal se esgota em si
mesmo, não gera uma ação eficaz, muito menos um projeto para o futuro. Parece que
a comunidade universitária perdeu a possibilidade de formular um projeto alternativo
que lhe permita ganhar força, apoio e propor algo distinto. Esta situação se agrava a
cada ano e não tem solução a persistirem as características que se vêm manifestando
até agora.
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Entretanto, as mudanças que se podem visualizar para o futuro nos trazem a pergunta
sobre o que fazer com a universidade pública, como recompô-la, em que direção, com
qual projeto? Durante o governo militar, sabíamos como combater o inimigo, mesmo
sem que tenhamos logrado grandes resultados, sabíamos o que fazer. Mas, quando os
militares foram embora e começou o governo civil, o movimento docente parece ter
ficado desorientado e ainda segue assim. O contexto mudou e vai mudar de uma
forma muito radical, e é necessário preparar a reação da universidade, do movimento
docente, diante disso.
Durante o governo militar, uma estratégia defensiva que a universidade desenvolveu
para se preservar foi se isolar do adverso contexto político. Levantando a bandeira da
qualidade e insistindo na necessidade de critérios acadêmicos de contratação e
promoção, ela conseguia ficar a salvo do autoritarismo e oportunismo dos regimes
militares.
Mas se escondendo defensivamente atrás dos biombos da “ciência pura”, não prestou
atenção à possibilidade de gerar conhecimento relevante para sua sociedade. Este foi
um traço característico da nossa universidade pública durante o período que, bem
distante dos ideais da Reforma de Córdoba e da proposta engajada da Universidade
de Brasília, estávamos todos de acordo que ela deveria ser uma trincheira contra o
autoritarismo.
Na atualidade, a universidade pública orienta seu ensino e sua pesquisa, que é onde
isto aparece de modo mais evidente, de uma forma exógena. As agendas e os critérios
de investigação são tentativas de se emular o que se faz nos países desenvolvidos.
Uma imitação do que nós chamamos uma “dinâmica de exploração da fronteira do
conhecimento”, mas que é na realidade um conhecimento cada vez mais
monopolizado (a metade da pesquisa que se faz hoje no mundo é feita nas
multinacionais). Não há consciência por parte dos pesquisadores brasileiros de que
poderia haver outro tipo de tecnocientífica (ou de ciência e tecnologia) e de pesquisa
distinta da que se faz por e para as empresas dos países desenvolvidos.
Ainda subjazem no trabalho científico e na concepção daqueles que o desempenham,
sejam de direita ou de esquerda – sem distinção ideológica, portanto –, os mitos da
Neutralidade e do Determinismo tecnocientífico. Como se a tecnociência avançasse
num caminho linear e inexorável. Como se a ciência fosse universal e o conceito de
qualidade que emana desta noção devesse ser o único padrão de avaliação da
atividade de pesquisa.
Esses mitos que ainda predominam na universidade têm raízes muito antigas que
remontam ao nascimento da própria ciência, na origem do capitalismo, que surgem
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em confrontação com a religião, criticando o pensamento dogmático, substituindo a fé
pelo método. Mas caso se preste atenção no que acontece de fato, se percebe que
essa maneira de pensar não faz sentido. Já não se pode falar de ciência e de
tecnologia, de pesquisa básica e pesquisa aplicada, como se tratasse de atividades ou
processos separados; pelo contrário, desde as últimas décadas do século XX, o correto
é falar de tecnociência. Os critérios de localização e de temporalidade utilizados até
agora para diferenciar ciência básica de aplicada e ciência de tecnologia já não
funcionam. Enquanto o critério locacional localizava a ciência básica na universidade e
a ciência aplicada ou o desenvolvimento tecnológico na indústria, o critério temporal
indicava que a ciência básica não serve para o imediato senão para o futuro, enquanto
que o desenvolvimento tecnológico é para amanhã.
Hoje, as 20 empresas que mais gastam em pesquisa no mundo investem mais que a
França e Grã-Bretanha, dois países líderes em muitos campos do conhecimento, que
junto com outros seis gastam 90% do que se investe no mundo em pesquisa. A
pergunta é: essas 20 empresas fazem ciência básica ou ciência aplicada? Uma dessas
grandes empresas tem dez prêmios Nobel em sua folha de pagamento, enquanto que
o Japão, para dar um exemplo, teve seis prêmios Nobel em ciência, e apenas três
trabalhavam em seu país no momento de recebê-lo. O que quero dizer com isto é que
cada vez mais a pesquisa que nós chamamos de básica se faz na empresa. Portanto, o
critério espacial para distinguir ciência de tecnologia já não é verdadeiro. O critério de
tempo também não funciona. Se alguém olha a história das inovações desde começos
do século XX, vai se dar conta que o tempo que medeia a invenção e a inovação ou
entrada de um produto no mercado, antes se contava em décadas, depois em anos e
agora em meses.
Hoje, no mundo, 70% da pesquisa que se realiza é gasto em empresas. E desses, 70%
em empresas multinacionais. O que significa que a metade da pesquisa que se faz no
mundo se faz em empresas multinacionais que, como sabemos, adoram o meio
ambiente, adoram o gerar emprego. Quer dizer, a dinâmica tecnocientífica que temos
(e que emulamos em nossa universidade) está condicionada pelo interesse dos
grandes conglomerados multinacionais, da indústria armamentista etc.
A pergunta então é: por que continuar trabalhando com a ideia que devemos emular
esse padrão de ciência que obviamente não é neutro, que serve às grandes potências
e está cada vez mais monopolizado pelas grandes empresas dos países ricos? É claro
que esta forma de produção do conhecimento está enviesada pelos países ricos e
pelas classes dominantes. Portanto, os bens que incorporam a tecnologia mais
recente jamais vão chegar a beneficiar o conjunto da população de nossos países.
É uma falácia a ideia oriunda da concepção da Neutralidade e do Determinismo de
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que essa maneira de explorar a fronteira do conhecimento pode ser funcional e
adaptada para um projeto de incorporação da maior parte da população brasileira
que está fora, para não falar do mercado, do território em que os direitos de cidadania
são respeitados e garantidos. Evidentemente, esta é uma afirmação polêmica.
Entretanto, hoje um grupo crescente de professores e pesquisadores no Brasil está
criticando o “alto clero da ciência dura” porque ainda não é capaz de admitir isto.
Quando nos países avançados se lançou no mercado o computador pessoal,
pouquíssimas famílias tinham acesso a ele. Mas isto não foi um problema porque,
numa sociedade com ganhos bem distribuídos e uma economia em crescimento,
rapidamente o PC penetrou em a toda a pirâmide de ganhos e hoje virtualmente está
em todas as casas dos Estados Unidos. É evidente que isso não acontece em países
como os nossos. Da mesma forma que a esquerda latino-americana criticou a ideia de
que temos que crescer para depois distribuir, é muito ingênuo acreditar que essa
maneira de desenvolver o conhecimento pode servir para a grande massa da
população.
No Brasil, como no resto da América Latina, há uma grande necessidade de satisfazer
demandas
materiais
de
bens
e
serviços
relacionados
a
infraestrutura,
telecomunicações, estradas, alimentação, habitação, saúde etc. – o que nós
chamávamos nos anos 1970 de necessidades básicas. Entretanto, caso se observe a
orientação que teve a exploração da fronteira do conhecimento, pode-se ver que o
conhecimento e as tecnologias disponíveis para produzir esses bens e serviços se
estancaram ao longo do tempo, não foram rejuvenescidas com conhecimento novo.
Dessa forma, se hoje no Brasil queremos produzir casas ou fornecer água potável para
satisfazer o imenso déficit que temos, teremos que fazer pilhas de tijolos como faziam
os babilônios ou como os romanos. O “progresso tecnológico” se orientou, como é
natural que ocorra em sociedades capitalistas, para atender à demanda pujante dos
ricos dos países ricos. Não se desenvolveu conhecimento eficaz para o que necessitam
os pobres dos países pobres. E assim se deu com qualquer tecnologia relacionada
com infraestrutura e produção de bens e serviços. Em todos os casos vamos observar
que são extremamente ineficientes e ambientalmente desastrosas.
Entretanto, a maior parte dos professores universitários e pesquisadores costumam
dizer que os problemas associados à satisfação das necessidades básicas são
meramente políticos. Não são tecnológicos e muito menos científicos. A Argentina, por
exemplo, tem a possibilidade de produzir e produz comida para 700 milhões de
pessoas – conforme tenho lido –, tem 40 milhões de habitantes e 20 milhões passam
fome. Há tecnologia para produzir comida para todos os argentinos? Eu tenho certeza
que não. Porque se a tecnologia se produz de forma concentrada, a produção vai estar
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concentrada. Dou outro exemplo: no Brasil vamos ter que acelerar a reforma agrária.
Como a faremos: dividiremos a terra, daremos a cada camponês uma pá, um enxadão
e um saco de sementes? É obvio que não. Isso seria condenar a experiência ao
fracasso. Obviamente se necessita um padrão tecnocientífico distinto que permita ao
pequeno produtor ser competitivo. E esse pacote tecnológico não é o da Monsanto,
não somente porque é insustentável do ponto de vista ambiental, mas porque é
inacessível para o pequeno produtor. Outro exemplo: 50% das casas no Brasil não têm
água potável. Como se resolve isto? Basta conectar todas as casas à rede com tubos
de plástico baratos para que qualquer família pobre possa comprá-los? Novamente
devo dizer que não.
Estamos falando de milhões e milhões de casas, por isso estamos obrigados a resolver
primeiro outros temas como: de onde tirar a água, como transportá-la, como tratá-la,
como distribuí-la, o que fazer com a água oferecida, assegurar que haja água para
todos.
Todos esses são problemas que têm um componente tecnocientífico, que não
somente exige que façamos pesquisa, senão que, além disso, de uma forma que não
sabemos fazer e que não se faz em nenhuma parte: pesquisa interdisciplinar que
trabalhe por problema e não por disciplina. Em definitivo, acredito que o futuro
contém desafios que, pela primeira vez, podem fazer que com a universidade
brasileira não seja um luxo, mas sirva realmente a um projeto. O segmento de
esquerda da comunidade universitária tem que convencer os pesquisadores e os
professores de que, sim, há necessidade de uma universidade pública de pesquisa no
futuro que a sociedade quer construir. Teremos que pensar juntos, na universidade,
uma nova política de alianças da universidade que inclua os movimentos que lutam
pelo aprofundamento da democracia.
A estratégia de persuadir as elites políticas ou econômicas para que voltem a acreditar
na importância da universidade e da pesquisa, tem que ser trocada por outra visão
que procure outros aliados na sociedade. As elites políticas e econômicas podem
muito bem sobreviver sem a universidade. Entretanto, para satisfazer as necessidades
básicas do conjunto da sociedade, para agregar valor às matérias primas que
produzem nossos países, necessita-se de conhecimento novo.
É certo que o Brasil e todos os países da América Latina não vão poder, nem é
intenção de nenhum governo progressista que o povo elegeu dando um basta ao
neoliberalismo imperialista, fechar fronteiras. Vamos ter que seguir “vivendo” no
mercado internacional, possivelmente com uma atitude mais agressiva em relação aos
centros de poder internacional, os bancos etc. Eu acredito que se apresenta no futuro
para o governo brasileiro uma oportunidade e uma missão, que é justamente criar um
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bloco que nos permita ter uma posição mais firme no mercado internacional frente
aos grupos de poder.
No que se refere ao comércio propriamente dito, o Brasil segue sendo um país
exportador de produtos primários e segue exportando suas mercadorias com pouca
elaboração e com pouco valor agregado. E isso se deve em grande medida ao fato de
que não conseguimos desenvolver tecnologias que nos permitam dar conta da
especificidade de nosso país, de nossa riqueza natural, de nossa mineração, de nossa
biomassa etc. Somos um país que ainda segue colonizado; mas desde sempre, por
nossas elites com mentalidade de intermediários coloniais. A alteração desse quadro
possui evidentes desdobramentos para o que temos que conceber, como tentam fazer
os países avançados ainda submergidos no pântano do neoliberalismo ao clamarem
por uma sociedade do conhecimento, a nossa sociedade o conhecimento. A sociedade
que estamos ajudando a construir terá que ser intensiva em conhecimento. E para
isso, cada vez mais, temos que pensar as áreas das políticas públicas que se
relacionam mais diretamente com o conhecimento (e a política de ensino e de C&T são
aqui fundamentais e fundantes) como germes de uma futura política cognitiva que
orientará nosso caminho na direção de uma sociedade em que o conhecimento seja
de todos e para todos; compartilhado e produzido por todos.
A disfuncionalidade que estamos discutindo vai continuar enquanto a comunidade
universitária se mantiver refratária e “se fizer de surda” aos sinais de relevância que os
movimentos sociais estão emitindo cada vez com maior intensidade e, nos dois
sentidos do termo, frequência. Mas se ela se convencer de algumas ideias básicas a
respeito de como a ciência pode ser transformada, então há uma oportunidade de
que a universidade pública no Brasil tenha um futuro brilhante, que não só signifique
a possibilidade de uma boa educação a um número crescente de jovens.
As dificuldades são muitas, porque qualquer tentativa de reorientar a agenda de
pesquisa é vista por parte da comunidade científica como uma intervenção perniciosa.
Os temas de pesquisa são escolhidos de forma muito pouco racional, sem
participação;
a
política
científica
e
tecnológica
segue
sendo
controlada
predominantemente pela comunidade científica e não tem havido possibilidade de
trazer novos atores para participar desse processo.
Essa situação leva a um círculo vicioso, no qual novos temas não têm como entrar na
agenda e, ademais, se agrava por algo que é tradicional nos arquipélagos que são
nossas universidades, a incompreensão e a dificuldade de diálogo entre os “inexatos”
e os “desumanos”.
Tudo isso debilita a capacidade de resposta e de transformação do potencial cognitivo
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de professores, pesquisadores, funcionários e estudantes. Pelo que pude ver até
agora na América Latina, a comunidade universitária segue dando respostas reflexas
diante de uma situação que mudou profundamente.
Alguns têm uma visão simplista da universidade. Ela é vista por um segmento da
esquerda do movimento docente – equivocada e ingenuamente – como apenas mais
uma arena da luta de classes. Outros têm uma visão despolitizada e despolitizadora da
universidade, porque alegam querer evitar a qualquer preço o risco da partidarização
que, segundo eles, nos conduziria à mediocridade. No fim das contas, dizem que o
conhecimento não é "politizável", é neutro, e nós temos que nos guiar pelo que faz
Berkeley, Stanford etc. Afirma-se que atuando dessa maneira estaremos cumprindo
com nosso dever. Mas muitos já querem desfazer-se desta postura do que os colegas
argentinos mais críticos denominam o “cumplo-y-miento”, pois sabe que o
“cumplimiento” do seu dever aponta noutra direção.
A cultura política da comunidade científica no Brasil – e na Argentina creio que é igual
–, ainda tem uma referência importante no marxismo. E numa leitura possível de
Marx, a ciência e a tecnologia são neutras, seguem um caminho inexorável. O motor
da história é o avanço das forças produtivas; esse avanço linear e inexorável é o que,
tensionando as relações de produção, transforma a humanidade em cada momento
de ruptura histórica. O avanço contínuo das forças produtivas é o que leva a mudança
de um modo de produção a outro levando da escravidão, ao feudalismo, ao
capitalismo, ao socialismo e ao comunismo.
Essa leitura simplista e positivista do Marxismo ainda está no centro do pensamento
da esquerda tradicional. Ela ainda segue entendendo que a ciência é boa em si
mesma, e o que pode ser boa ou má é a sua utilização, a tecnologia. Essa ideia, já
questionada desde os anos de 1970 pelos pesquisadores dos Estudos Sociais da
Ciência e Tecnologia da natureza do conhecimento já não faz sentido.
Mas sei que é muito difícil levar essa discussão à universidade justamente porque o
pensamento da esquerda ortodoxa rechaça essa ideia, não entende que poderíamos
fazer outro tipo de pesquisa, que poderíamos explorar a fronteira do conhecimento de
outra forma. Outro tema central nessa discussão é como se avalia o que se faz na
universidade. Parece-me cada vez mais necessária uma forma de avaliação
universitária e científica alternativa. As formas de avaliação tradicionais se centram na
“qualidade”, mas o que é a qualidade? Nos países desenvolvidos a sociedade emite
sinais de relevância que indicam o que é relevante. Esse sinal é recebido pela
sociedade científica de uma forma muito sutil, de uma forma que ela mesma não se
dá conta que o recebe. Entretanto, os campos de relevância que emitem esses sinais
estão aí e o que faz a comunidade científica é trabalhá-los com qualidade. E qualidade,
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nesse caso, é o julgamento dos pares.
Quando falo de relevância não estou fazendo nenhum juízo de valor. Os Estados
Unidos, nos anos 1980, chegou a gastar 70% dos recursos públicos para pesquisa na
área militar. Somado ao gasto que ia para a energia nuclear e aeroespacial, isso
chegava a 85%. Os 15% restantes eram para agricultura, saúde etc. Mas não há
nenhuma dúvida que a população estadunidense (ou o establishment que a
representava) naquele momento acreditava que isso era importante. Havia um sinal
de relevância e os cientistas faziam com qualidade o que era considerado importante.
Portanto, nos países desenvolvidos a relevância é essencial, é necessária, é ex-ante. A
qualidade é adjetivo, não é necessária, é ex-post. A qualidade, portanto, não é
universal, é socialmente construída. Nós que temos uma situação e condição
periférica, na qual as empresas não fazem pesquisa e o Estado e os movimentos
sociais não demandam conhecimento, não emitimos sinais de relevância. Isto faz com
que a comunidade científica não escute e, às vezes, se faça de surda.
A comunidade científica nos países desenvolvidos produz recursos humanos que vão
ser empregados nas empresas para inovar. Nos EUA, 70% dos mestres doutores que
se formam em ciência dura vão à empresa privada para fazer pesquisa. O Brasil está
formando 40 mil mestres e doutores ao ano, e somente 4 mil trabalham nas empresas
locais fazendo pesquisa. O que quer dizer que, se esse número aumentar 10%, no ano
vem teremos uma demanda adicional de apenas 400! Mas a realidade é ainda pior. De
fato, entre 2006 e 2008, enquanto formamos 90 mil mestres e doutores em ciências
duras, apenas 68 profissionais foram contratados pelas empresas para fazer pesquisa!
O que indica que o esforço que faz a universidade para treiná-los para colocá-los à
disposição das empresas e que tampouco as bolsas que crescentemente fornece o
governo para que elas os absorvam, tampouco pode ser considerada uma “coisa
certa”.
Numa sociedade em que não há demanda por “pessoal bem formado” para as
empresas e que, ademais, o critério que se usa para conformar a agenda de pesquisa
e ensino é exógeno e absurdo, uma vez que baseado na “qualidade” (e, por isto na
relevância dos países avançados), é claro que há uma enorme necessidade de refazer
esses critérios de avaliação e produzir uma nova agenda de pesquisa.
Outra insuficiência é a maneira de entende e elaborar a política de C&T. Muitas vezes
se diz por aqui que a empresa não faz pesquisa, então a universidade deve fazer
pesquisa e logo colocá-la ao alcance da empresa. Mas se nos Estados Unidos, do total
do gasto das empresas com pesquisa, somente 1% é utilizado para contratar
pesquisas com a universidade (o 99% restante é gasto intramuros), o que se espera
que possa acontecer na América Latina?
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Não existe informação semelhante para o caso brasileiro, mas o que divulga o IBGE é
que das 30 mil empresas inovadoras somente 7% se relacionam com universidades e
institutos de pesquisa. E que 70% destas consideram estas relações de baixa
importância. O que sugere o mesmo em relação à pouca relevância que possui para
elas (80% das quais dizem, dando prova da irrepreensível racionalidade que orienta o
empresariado periférico, baseia sua estratégia de inovação na compra de máquinas e
equipamentos) as medidas que defende a comunidade de pesquisa, que não por
acaso é o ator hegemônico da Política de C&T, para reforçar sua lucratividade e, assim
se alega, a competitividade do país e o bem-estar de seu povo.
Medidas que visam a incrementar a relação universidade-empresa, como as de criação
incubadoras, polos e parques tecnológicos, e de estímulo ao patenteamento
universitário e ao estabelecimento de parcerias via projetos conjuntos, pouca
importância têm para modificar o capotamento racional dos excelentes empresários
locais e o crescimento do país; menos ainda para o seu desenvolvimento.
Em vez de seguir insistindo com o mito dos parques, polos e incubadoras, é hora de
apoiar-nos na realidade estadunidense para “entender” o que significa a relação
universidade-empresa. A universidade não serve à empresa como produtora de
conhecimento intangível. Serve como produtora de recursos humanos que sabe fazer
pesquisa e que fará nas empresas. A realidade estadunidense questiona, também, a
falácia de que as universidades podem se autofinanciar vendendo serviços ou
resultados de pesquisas à empresa: somente 1% do “orçamento” da universidade
estadunidense vem dessa atividade.
Até agora, discussões políticas (de policy e de politics) com caráter estratégico (que
pesquisa faremos, que alunos queremos formar, qual é o papel da universidade etc.?)
não ocorrem nos órgãos de direção da universidade, nos conselhos, nas
congregações, nas reuniões de departamento. O que faremos com nossa
representatividade política na universidade? Ainda não conseguimos fazer com que
essas discussões penetrem nos organismos políticos. O que sugere que como
professores e pesquisadores, façamos isso nas salas de aula e nos nossos
laboratórios.
Que possibilidade temos de mudar a gestão da universidade senão politizando, no
bom sentido do termo, a vida universitária?
Só à medida que essa politização ganhar corpo, conseguiremos mudar a realidade de
nossa universidade e de sua relação com a sociedade. Eu não vejo outra forma.
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