IDEOLOGIA E INCONSCIENTE: EDUCAR É
POSSÍVEL?1
MARCOS AURÉLIO BARBAI
Laboratório de Estudos Urbanos/Universidade Estadual de Campinas
Caixa Postal 6166 – 13086-970 – Campinas – SP – Brasil
[email protected]
Resumo. O objetivo deste texto é refletir sobre aprendizagem na educação
escolar através da relação entre a Análise de Discurso e a Psicanálise.
Para isso analisamos a cena de um filme (Entre les Murs, de Laurent
Cantet, França, 2008) particularmente uma cena em que uma aluna
(Henriette) diz “eu não aprendi nada” ao professor de francês (François
Marin) durante o ano letivo. Na enunciação entre a aluna e o professor há
um ato falho que nos permite pensar o fracasso da aprendizagem através da
noção do sintoma como é articulado pela Psicanálise. As dificuldades de
aprendizagem não podem ser uma ferramenta política de justificativa do
funcionamento de um déficit simbólico do sujeito.
Palavras-Chave. Aprendizagem. Educação. Sintoma. Ato falho.
Abstract. The aim of the text is to reflect about learning in the school
education through the relation between the Discourse Analysis and the
Psychoanalysis. We analyze the scene of a film (Entre les Murs, [The Class]
by Laurent Cantet, France, 2008) particularly a scene where the student
(Henriette) says “I did not learn nothing” to the French teacher (François
Marin) on the school year. In the utterance between the pupil and the
professor there are a slips of the tongue that we allows to reflect the failure
of the learning through the symptom concept as is articulated by the
Psychoanalysis. The learning difficulties cannot be an implement politics
and the reason of the operating a deficit symbolic of the subject.
Keywords. Learning. Education. Sympton. Slips of the tongue.
La poussière des archives, la craie des
tableaux et la sueur des divans 2...
Michel Pêcheux
Matérialités Discursives
Nas publicações atuais de muitos analistas e estudiosos das questões de
Psicanálise é comum a utilização e o trabalho com um recurso curioso: o cinema para
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Texto apresentado no ENELIN 2011 na Mesa-Redonda “Língua, Discurso e Psicanálise”. Este texto é
um escrito do inconsciente na voz da ideologia.
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A poeira dos arquivos, o giz dos quadros e o suor dos divãs...
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Anais do Enelin 2011. Disponível em: www.cienciasdalinguagem.net/enelin
falar dos conceitos fundamentais desenvolvidos por Freud e especialmente Lacan. A
materialidade desse material tem, parece-me, o poder pedagógico e cultural de
transmitir a experiência que articula esse campo do saber, produzindo uma contribuição
que deixa de ser unicamente teórica.
Essa prática de reflexão da Psicanálise contemporânea toca-me particularmente
porque penso não se tratar de uma aplicação da Psicanálise ao Cinema – como se as
imagens fossem a figurabilidade do psíquico ou uma tradução do trabalho onírico e a
voz e a imagem a figuração do pensamento. Problematiza-se através do enquadramento
da tela o real que não cabe no enquadre. Assim, o efeito-verdade de um filme é
constituído por algo que não sossega no enquadramento.
Como destaca Vieira (2008, p. 20) o enquadre, o foco, fora descrito por Lacan
como um endereçamento ao Outro (com O maiúsculo). O Outro, é preciso dizer, não é
o homem mais próximo, o homem ambíguo que ressoa na formulação dos textos
evangélicos “Ama teu próximo como a ti mesmo”. Esse outro (com letra minúscula) é
introduzido por Freud através da função do Nebenmensch, uma coisa primária, um grito.
O próximo (esse com quem mantenho relação) “é a iminência intolerável do gozo” (cf.
Lacan 2008, p. 219). O campo gozo pode ser definido “como tudo o que decorre da
distribuição do prazer no corpo” (idem, p. 218).
O campo do Outro (com letra maiúscula) é definido por Lacan (2008, p. 24) no
seminário livro 16 - De um Outro ao outro - como sendo “o lugar em que o discurso do
sujeito ganharia consistência, e onde ele se coloca para se oferecer a ser ou não
refutado”. O campo do Outro funciona como lugar de presença da articulação
significante do inconsciente, ele é um “em-fôrma” (idem, p. 292). Em suma, “é no
Outro que está o inconsciente estruturado como uma linguagem (idem, p. 220).
Esta ênfase ao campo do Outro se dá por conta do quadro teórico que vou
articular para falar de educação, aprendizagem, assim como do material de análise, um
recorte de um filme, com o qual vou trabalhar. Na reflexão que empreenderei, de meu
lugar de analista de discurso interessado e em formação na Psicanálise, o Outro (o
discurso do inconsciente) fala entre o Outro do campo do discurso, que pode ser
definido como o isso fala (Ça parle3) da ideologia, uma voz anônima “que fala antes,
depois e independentemente”. Pensar entre análise de discurso e psicanálise (cujo
“entre” remonta a ideia de espaço, de intervalo, de relação e de alternativa) é aqui um
gesto teórico e um esforço de trabalho. Esse pensar entre é materializado no “e” que
liga ideologia e inconsciente, acrescido de uma pergunta: educar é possível?
Para abordar esta questão escolhi como lugar de enquadramento dos
significantes e dos sentidos um filme que se produz em um espaço institucional muito
presente e forte em nossa sociedade ocidental: a escola. Refiro-me aqui a uma cena
específica de um filme que procurou enquanto trabalho simbólico e de autoria falar de
um entre que se passa nos muros de uma escola. Trata-se do filme Entre les Murs
(Entre os muros da escola – tradução brasileira) de Laurent Cantet, França, 2008. Esse
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O Ça parle (isso fala) da formulação “ça parle avant, ailleurs et independement” pode ser lido no
movimento da expressão “Ça circule” de Michel Pêcheux (1981, p. 18) – “isso circula” – regida pelo
autor em vários sentidos: a circulação positiva da modernidade discursiva liberal; a das línguas de vento;
os turbilhoes do “não importa que” que ocupam nossa atenção; e a circulação discursiva que se faz no
espaço da repetição, lugar em que o isso vira, báscula, dobra, contorce e retorna.
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filme, sobretudo no recorte que vou analisar, tem uma história de dor e de sofirmento no
que diz respeito à aprendizagem. Há ali, no campo do sentido, algo que não sossega no
enquadramento. As palavras faltam para falar com o próximo – esse nosso ent(r)e no
mundo, como faltam para falar num velório (em que precisamos consolar alguém) ou
nós lençóis da cama que partilhamos (ou não) com alguém.
Há um irredutível nesse “entre” que vigora na cena do filme, como também na
relação entre os campos do discurso e da psicanálise. Desse modo, não se trata aqui de
reduzir ou simplificar o desconhecido de um ao já sabido do outro (como se um campo
ou instância pudesse alimentar o outro e estar simultaneamente dele separado). O
“entre” que vigora neste texto convoca a interpretação e nada melhor, penso, que a
Análise de Discurso e a Psicanálise para provocar (e a expressão é de Orlandi, 1996) a
interpretação.
A ressemantização constante dos sentidos de sucesso e de fracasso em educação
e da educação, pensando-se nas condições de produção da sociedade brasileira, ao
circular nos discursos de diversos campos do saber, dentre eles o pedagógico - a
autoridade no assunto -, funciona produzindo uma estranha intimidade, familiaridade:
no anseio do tão almejado sucesso (uma educação universal e democrática com
capacidade de produzir o estatuto daquilo que liberalmente é chamado de humanidade)
vive-se a angústia do fracasso (sustentado no consenso de um déficit orgânico e
simbólico do sujeito e nas desigualdades da sociedade capitalista). Esse discurso do
sucesso/fracasso não é novo. Na tentativa de justificar e deliberar o sucesso da educação
(sucesso para todos? Que sucesso?) reforça-se, antes de tudo, o lugar dos fracassados os da e em educação.
O problema do fracasso da aprendizagem, considerado um desfuncionamento do
sistema educacional e do sujeito da educação (aquele que vive as contendas com a fala e
a escrita de sua língua, com o cálculo, com um saber que o torna apto para o trabalho)
tem produzido um conjunto de políticas públicas (o que pressupõe a existência de uma
região homogênea de afinidades na sociedade - cf. Orlandi, 2010, p. 7) para salvar a
educação e incluir o sujeito em uma ordem e patamar considerados decentes pela
sociedade.
Para pensar a questão do fracasso da aprendizagem em educação, na análise do
recorte do filme, articulo algumas idéias e conceitos elaborados pela Psicanálise. Há
aqui um gesto teórico e um investimento pessoal de tentar na análise operar com os
conceitos desse campo. Guia a minha leitura três textos de Freud: A pulsão e suas
vicissitudes – 1915 - (em que abordarei a questão da reversão do conteúdo: da atividade
para a passividade); A Denegação - 1925 - (em que tratarei da inexistência do “não” no
inconsciente e na ideologia) e Lembranças encobridoras - 1899 - (em que para falar da
questão da lembrança refratária, articularei a questão do esquecimento trabalhada pela
análise de discurso). Exploro ainda dois seminários de Jacques Lacan: O Sinthoma 1975-1976 - (para tratar da questão da falha) e de Um outro ao Outro - 1968-1969 (com a questão do saber).
A seleção desses textos e o apontamento de algumas questões ali discutidas se
dão por conta do caminho que escolhi para pensar o fracasso da aprendizagem na
educação, ou seja, o do sintoma. A Psicanálise com a noção de sintoma (definido por
Jacques Lacan, no texto a Terceira, “como o sentido expulso do real”) abre uma via
interessante de reflexão: ao se recusar a tratar o que é considerado um déficit do sujeito,
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um desfuncionamento do sistema da educação, ela escuta o que está em pane ou incapaz
de expressão. Essa escuta não se propõe jamais a uma aplicação ou oferta de um mestre
que tudo sabe e pode.
Em minha reflexão, a Análise de Discurso e a Psicanálise entram em cena, em
minha análise, para sustentar que a ideologia e o inconsciente são saberes que ninguém
está impedido de ter acesso. Os rituais - nesse caso o ritual da lição escolar - reforçam,
como diz Pêcheux (1988, p. 303), “que o pensamento é fundamentalmente
inconsciente”. Ao olhar para o sintoma sucesso/fracasso da aprendizagem esses campos
liberam algo fundamental: a falha, o equívoco. Nesse sentido, uma questão de Lacan é
aqui imprescindível: “A falha, aquilo que a consciência transforma em pecado, é da
ordem do lapso?” (cf. Lacan, 2007, p. 94). Levar às últimas conseqüências esse
questionamento é abrir-se para o que perturba e fratura a linguagem. A ideologia e o
inconsciente renovam a noção de falha sendo fundamental respeitar o saber que dela
advém: um desacerto que impede de se adequar o sujeito.
Considerando que a ideologia e o inconsciente não são educáveis e de que a
Análise de Discurso e a Psicanálise não têm um espírito reformista, detenho-me na cena
do filme a um enunciado que incitou a produção deste texto. Assim, no final do ano
letivo, com a turma reunida, o professor propõe a seus alunos dizerem o que
aprenderam. Ao se encerrar a aula uma aluna se aproxima e o diálogo que se segue é
travado: H (Henriette – a aluna) FM (François Marin – o professor)
H: Professor? FM: O que houve? H: Eu não aprendi nada. FM: Por que está
dizendo isso? Não é verdade. H: Agora a pouco todo mundo disse que tinha aprendido
alguma coisa. E me comparando com eles não aprendi nada. FM: Aprendeu tanto
quanto eles. Também tiveram que se lembrar. Não é fácil nos lembrarmos do que
aprendemos. H: Mas eu não compreendo. FM: Você não compreende. O que quer
dizer com isso? H: Não entendo o que fazemos. FM: Em francês? H: Em tudo! FM:
Não pode dizer que não aprendeu nada no conjunto das disciplinas. Isso não é
verdade.
Ao recortar esta cena, desse documentário-ficção, inscrevo aqui duas questões:
como os sujeitos (se) significam nessas condições? Qual é o não-saber que estava em
companhia daquela menina? Na análise que faz do funcionamento do discurso
pedagógico Orlandi (1983, p. 31) aponta que “o professor é institucional e idealmente
aquele que possui o saber e está na escola para ensinar, o aluno é aquele que não sabe e
está na escola para aprender”. O professor, cujo dizer é homônimo de saber, sustenta-se
em um discurso de poder que atesta que o aluno deve sempre aprender. Ele é a-luno
(sem luz). O não-aprender é assim associado a noção de erro, de culpa em não
incorporar um saber legítimo valorizado pela sociedade. De certa forma, persuadem-se
os alunos obtendo o seu consentimento de que, uma vez na escola, eles têm que
aprender. O sentido de aprendizagem fica tão saturado, que não aprender (sinônimo de
não ter acesso e sucesso em relação ao conhecimento homogêneo, objetivo e diluído
praticado na escola) configura-se como uma violência simbólica ao qual não se tem
condições de responder e uma ferramenta política de humilhação (cf. Barbai, 2008) e de
segregação. No imaginário constitutivo da educação escolar é impossível não aprender.
Trabalhando especificamente com a formulação do filme há no diálogo um
funcionamento muito interessante: se observarmos com atenção esse enunciado há um
jogo em que o professor e a aluna falam as mesmas palavras. Eu diria, apropriando-me
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de uma expressão de Gadet e Pêcheux (2004, p. 63) que algo “une a língua à alíngua 4”,
produzindo um ato falho que estilhaça o ritual da lição pedagógica. Destaco no
enunciado o jogo lingüístico em torno de algumas expressões: do aprender (no
imperfeito, no particípio passado), do aprender (como sinônimo de se lembrar, de
compreender e de fazer), o isso (como um sentido indefinido), como o francês (língua –
de colonização - e disciplina curricular), (como um resumidor), além da presença da
partícula negativa.
A observação desse jogo dos sentidos atualizou-me alguns conceitos elaborados
por Freud (2006a), dentre eles o de pulsão, considerada pelo autor, no texto de 1915, “a
estimulação dentro do organismo e seu aparecimento de uma força constante” (idem, p.
125), cuja fronteira se dá entre o mental e o somático (o que liga mente e corpo
indissociavelmente). Com o conceito de pulsão Freud aborda o problema da energia, da
energia própria da libido, desenvolvendo esse conceito por etapas. A noção de pulsão
ganha sistematicidade estrutural no pensamento lacaniano, sendo alçada a um dos
quatro conceitos fundamentais da psicanálise (cf. Lacan, 1998). A pulsão é a incidência
da linguagem no corpo, a conjunção da lógica significante com a corporeidade -, cf.
Lacan, 2008, p. 223. A finalidade da pulsão é alcançar a satisfação, o gozo.
No trajeto da pulsão, em suas vicissitudes (alternância, revés), limitadas às
pulsões sexuais, Freud localiza três polaridades: sujeito-objeto, prazer-desprazer, ativopassivo. Interessa-me particularmente a seguinte a transformação: a reversão da pulsão
em seu oposto, ou seja, “uma mudança da atividade para a passividade e uma reversão
de seu conteúdo” (cf. Freud, 2006a, p. 132).
Na cena do filme há uma demanda da aluna para o professor cuja incidência da
voz ressoa no corpo e diz: eu não aprendi nada. De certa forma, no imaginário escolar,
no discurso praticado em sala de aula, no desenvolvimento do conteúdo da grade
curricular, funciona a ideia de que o aluno (mesmo com dificuldade) deve aprender. Na
cena do filme, a atividade de aprender (a verificação do conteúdo administrado no ano
letivo) é transformada em seu contrário, o não-aprendido. O sentimento de aprender (tão
evidente para o professor) é na verdade um sentimento ambivalente na aluna. Há algo
materializado na linguagem que recusa se ajustar ao esquema da aprendizagem escolar.
No retorno da pulsão (a voz e o olhar incidindo no corpo) querendo apreender um
objeto que se chama “aprender” tem-se no corpo, em cena, o obstáculo do princípio do
prazer. Há um impossível ali tão presente que não é jamais reconhecido como tal. Na
própria pulsão, diz Lacan (1998), existe um impossível de ser satisfeito. Assim, o nãoaprender (que não pode ser plenamente satisfeito) não um é defeito. O que se chama de
aprendizagem é da ordem do acontecimento, do contingente, não é lógico, biológico e
interacional.
A negação da aluna - “não aprendi nada” - pode ser considerada como um afeto
discursivo, estruturado pela ideologia e pelo inconsciente. Ali “o eu que fala” se
exprime numa forma negativa. Freud (2006b) diz que essa expressão do eu se dá por
conta do reconhecimento do inconsciente. De fato, a aluna se contra-identifica com esse
sentido de que todos aprenderam. Na enunciação o sujeito diz o inconsciente rejeitando
esse sentido. Há ai certamente a falta de completude com o Outro. No sentido recusado
está a latência do real e o fato de que um significante (aprender) não pode dizer jamais o
4
A língua inscrevendo-se no real. O que quebra e corta é o que convoca a alíngua.
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todo. Assim, no “não aprendi nada” a denegação consiste, a meu ver, em eliminar esse
significante do Outro.
A negação demonstra que o encontro com essa coisa “aprender” é faltoso. Eu
diria que aí está em jogo não uma questão que se localiza no conteúdo linguístico da
negação, como se a metalinguagem falasse, e sim das estruturas que falam o sujeito e o
sentido. A ideologia e o inconsciente estão no mecanismo que produz a contraidentificação com o sentido de aprender. Na associação que se dá entre estar na escola e
aprender a voz da aluna funciona deslocando esse sentido. O aprender irrompe na voz
do professor no sentido de se lembrar, recordar. O saber é assim administrado como um
registro, a gravação de algo que se escuta, se entende e se aprende. Não há tensão,
resistência. Não há contradição. Há apenas homogeneidade.
A expressão “eu não aprendi nada” na voz da aluna é dita por seu professor
como a qualidade e a dificuldade de se lembrar de um conteúdo trabalhado na escola.
Na fala do professor “Aprendeu tanto quanto eles. Também tiveram que se lembrar.
Não é fácil nos lembrarmos do que aprendemos” aponta que esse coletivo/universal
“aprendemos” não significa aprendizagem para todos, de todos e de um todo. Lembrarse do que aprendeu faz a memória funcionar no efeito daquilo que Freud (2006c)
designou como “lembrança refratária”, isto é, “cujo conteúdo estabelece uma relação
com o material suprimido” (idem, p. 302) – e um aparte faz-se aqui necessário:
“refratária” é, no nosso cotidiano oral brasileiro, um recipiente de vidro que
armazenamos comida ou a levamos ao forno para assar, gratinar. Descrita enquanto
refratária a lembrança encobridora é de fato para Freud “aquela que deve seu valor
enquanto lembrança não a seu próprio conteúdo, mas às relações existentes entre esse
conteúdo e algum outro que tenha sido suprimido” (idem).
Essa relação entre “não se lembrar do que aprendeu” e a “lembrança
encobridora” permite-me articular a memória para além do conteúdo da reminiscência.
Não se lembrar ou ter a memória encoberta aproxima-se daquilo que Freud diz do
recalcamento. Encontramos, assim, novamente o conceito de pulsão dado o fato de que
destino do desejo de aprender foi inibido e desviado de seu fim. Há um impossível de
ser satisfeito no Outro. De fato, a antiética do sentido “não-aprender” produz a
irresponsabilidade do sujeito para com esse sentido.
A memória como tão bem diz a Análise de Discurso é constituída pelo
esquecimento, que diferente do recalque, não é um bloqueio. O esquecimento como diz
Orlandi (1999, p. 35) é estruturante. Ele é parte da constituição dos sujeitos e dos
sentidos. Esquecemos o que já foi dito e esse esquecimento não é voluntário.
Retomamos palavras como se elas já existissem e nos originássemos nelas. Assim
sujeito e sentido estão sempre em movimento, significando-se sempre de muitas
maneiras. A memória é filiação ao sentido. Nessa direção, retomo uma expressão de
Michel Pêcheux (1997) que me soa capital: não há aprendizagem, há filiação aos
sentidos. Face às “coisas-a-saber” nós tropeçamos sempre com o real, porque aquilo que
podemos “saber” fala antes, depois e independente de nós.
Como diz Lacan (2008, p. 196) aprender é uma coisa terrível. Para isso “é
preciso passar por uma toda uma burrice daqueles que nos explicam as coisas, e isso é
penoso de destacar, mas sim Saber algo não é sempre algo que se produz como um
clarão?” E prossegue o psicanalista:
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Ter alguma coisa a fazer com as mãos, saber montar a cavalo ou esquiar, tudo
o que se diz da suposta aprendizagem não tem nada a ver com o que é saber.
O saber é isto: alguém lhes apresenta coisas que são significantes e, da
maneira como estas lhes são apresentadas, isso não quer dizer nada, e então
vem um momento em que vocês se libertam e, de repente, aquilo quer dizer
alguma coisa, e é assim desde a origem (idem)
No prefácio a obra Juventude Desorientada, de Aichhorn, Freud (1925/2006d, p.
307) comenta da esperança e a da excitação que provocou a aplicação da psicanálise na
educação. Ele diz
Minha cota pessoal nessa aplicação da psicanálise foi muito leve. Em um
primeiro estádio, aceitei o bon mot que estabelece existirem três profissões
impossíveis – educar, curar e governar -, e eu já estava inteiramente ocupado
com a segunda delas.
As palavras de Freud fazem-me pensar em uma educação para além dos ideais
pedagógicos. De certa, tem-se uma desconsideração dos ideais pedagógicos que não
deve jamais ser confundido com desmerecimento do empreendimento educativo,
depreciando-se a educação. Uma educação viável, como aponta Cohen (2004, p. 7), é
talvez aquela que considere a passagem do impossível saber para um saber “não-todo”,
o que não desfaz certamente as dificuldades que se vinculam nessa prática que se chama
ensinar. Há a questão da transmissão e dos encontros subjetivos na sala de aula que é a
ordem do acontecimento, da contingência. Assim, o “não aprendi nada” - o não-sentido,
em companhia da aluna -, pode ser considerado algo perigoso, já que não tendo a
aparência característica do sentido do aprendido, deixa de ser algo estável, coerente,
homogêneo e administrável. O que não se pode admitir é o uso político do “não
aprendido” como uma ferramenta nefasta que justifica o tão falado déficit simbólico do
sujeito e muitas vezes o seu uso como um argumento de segregação social.
Como aponta Lacan (2008, p. 354) a “exploração do homem pelo homem
começa no nível da ética [...] que é o escravo que é ideal do senhor. É o escravo que dá
ao senhor o que falta, seu um-a-mais. O ideal está aí, é o serviço do serviço”. E o ideal
(um conceito), o ideal (da educação), o Ideal (do Eu - Freud) é isso “um corpo que
obedece” (idem). Na educação todos estamos presos no lugar de um produto, fabricados
como um resto que o Mestre capitalista nada quer saber (cf. Lacan, 1992). Fica assim
encoberto e apagado no discurso do Mestre moderno a divisão do sujeito e a
impossibilidade de saber “tudo”. Gravitamos (cf. Melman, 2003) numa educação com
uma promessa ilusória de gozo: um dia, você estudante, vai ser liberto dessa
impossibilidade de um saber “todo”, para isso siga esse imperativo: “estude para gozar
melhor no futuro!”- (cf. Cohen, 2004, p. 97). Nossa sociedade contemporânea,
individualista produz no sujeito essa necessidade (cf. Orlandi 2010, p. 16) de se
encontrar heroicamente e solitariamente, e isso passa pelo educar-se.
Procurei, nesta reflexão, saber tirar proveito do sintoma, liberando algo desse
“eu não aprendi nada” vocalizado e enquadrado no filme por uma personagem. Tirar
proveito do sintoma é fazer com que alguma coisa significante ali ressoe, é apreender
um ritual que se estilhaça. No diálogo que trava a aluna e o professor o “aprender”
fracassa. Há ai, tal qual um ato falho, uma falsa leitura da aprendizagem, uma falsa
audição do que é aprender. De fato, na incapacidade de se encontrar um objeto comum
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entre os muros da escola, produz-se a não-correspondência entre o que o professor
ensina e a aluna aprende. Essa inversão, esse deslocamento, essa não-correspondência,
essa falha mostra a ideologia e o inconsciente produzindo no encontro “da língua com a
alíngua” a fratura da linguagem, o equívoco do um sentido enquadrado na tela. O que aí
acontece faz a Análise de Discurso e a Psicanálise lembrarem que o fracasso não é tão
mortífero quanto o sucesso.
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DVD
Entre les murs. Entre os muros da escola. França. 2008. Direção: Laurent Cantet. 150
min. Distribuição: Imovision.
9
Anais do Enelin 2011. Disponível em: www.cienciasdalinguagem.net/enelin
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Dos sucessos e dos fracassos em educação: por um saber que não