Recebido em: 15/3/2010 Emitido parece em: 5/4/2010 Artigo original COMPARAÇÃO DO DESEMPENHO MOTOR ENTRE ESCOLARES DO SEXO MASCULINO E FEMININO Ana Karolina Rodrigues Ponce, Renan Passini, Thaís Santos Lisboa, Vanessa Grando Amorim, Patricia Berbel Leme de Almeida RESUMO A infância é um período crítico, extremamente importante, associado aos aspectos de conduta e de solicitação motora. Nesta fase do desenvolvimento humano, além das implicações de cunho fisiológico relacionadas aos aspectos de maturação biológica, o organismo jovem encontra-se especialmente sensível à influência de fatores ambientais e comportamentais tanto de natureza positiva como negativa. Com isso, o objetivo do presente estudo foi comparar o desempenho motor entre escolares do sexo masculino e feminino. Para tanto, foram avaliados 116 escolares, sendo 55 do sexo feminino e 61 do sexo masculino, com faixa etária entre 7 e 10 anos. Os testes motores realizados foram salto horizontal parado, salto vertical sem o auxílio dos braços e com o auxílio dos braços, flexão e extensão dos braços, abdominal e shuttle run. Para análise dos dados foi utilizada estatística descritiva e teste “t” de student para amostras independentes (p<0,05). No salto horizontal parado houve diferença significante entre as moças e os rapazes, respectivamente, aos 8 anos (102,919,9; 126,916,9), aos 9 anos (118,014,2; 130,613,1) e aos 10 anos (118,221,7; 133,111,5), sendo os maiores valores observados nos rapazes. No salto vertical com o auxílio dos braços observou-se diferença significante somente aos 10 anos entre as moças (21,15,9) e os rapazes (26,65,3), sendo os maiores valores atribuídos aos rapazes. No teste de flexão e extensão dos braços houve diferença significante entre as moças e os rapazes, respectivamente, aos 7 anos (2,11,1; 9,74,5), sendo os maiores valores encontrados nos rapazes. No teste abdominal observou-se diferença significante entre as moças e os rapazes, respectivamente, aos 7 anos (7,812,9; 19,613,0) e aos 10 anos (27,110,3; 35,28,6), sendo os maiores valores encontrados nos rapazes. No shuttle run houve diferença significante entre as moças e os rapazes, respectivamente, aos 7 anos (14,71,1; 13,61,1) e aos 10 anos (12,80,8; 11,80,7), sendo os menores tempos realizados pelos rapazes, ou seja, os melhores desempenhos. Nos demais testes e idades não houve diferença estatística entre os grupos avaliados. Com isso concluiu-se que na infância, a partir dos 7 anos, já encontram-se diferenças sexuais no desempenho motor em escolares, sendo que os rapazes apresentam maior desempenho nos testes motores em relação às moças da mesma idade. Palavras-chave: Desempenho motor, escolares. COMPARISON OF MOTOR PERFORMANCE BETWEEN MALE AND FEMALE STUDENTS ABSTRACT Childhood is a critical period, extremely important, combined with aspects of conduct and motor request. At this stage of human development, and the implications of physiological aspects related to biological maturation, the young organism is especially sensitive to the influence of environmental and behavioral factors of both positive and negative nature. Therefore, the purpose of this study was to compare the motor performance of male students and female. To this end, we assessed 116 students who were 55 females and 61 males, aged between 7 and 10 years. The motor tests performed were standing horizontal jump, vertical jump without the aid of arms and with the aid of the arms, flexion and extension of the arms, abdominal and shuttle run. Data analysis was used descriptive statistics and t test of Student for independent samples (p <0.05). In the horizontal jump there was no significant difference between girls and boys, respectively, to 8 years (102,919,9; 126,916,9), to 9 years (118,014,2; 130,613,1) and 10 years (118,221,7; 133,111,5), and the highest values observed in boys. In the vertical jump with the help of the arms showed a significant difference only at 10 years among girls (21,15,9) and boys (26,65,3), and the highest values assigned to the boys. In the test of flexion and extension of the arms Coleção Pesquisa em Educação Física - Vol.9, n.1, 2010 - ISSN: 1981-4313 95 was no significant difference between girls and boys, respectively, to 7 years (2,113,1; 9,74,5), and the highest values found in girls. In abdominal test showed significant difference between girls and boys, respectively, to 7 years (7,812,9; 19,613,0) and 10 years (27,110,3; 35,28,6), and the highest values found in boys. For the shuttle run there was no significant difference between girls and boys, respectively, to 7 years (14,71,1; 13,61,1) and 10 years (12,80,8; 11,80,7), with the lowest time achieved by the boys, that is, the best performers. In other tests and ages there was no statistical difference between the groups. Thus it was concluded that in childhood, from age 7, it is already noticeable sex differences in motor performance in school, and boys have higher performance in motor tests than females the same age. Keywords: Motor performance, students. INTRODUÇÃO O comportamento motor é um fenômeno complexo e se daria no momento em que diferentes níveis de organização (molecular, celular, orgânico, comportamental e social) são vinculados para gerar comportamentos (BORDIGNON e OLIVOTO, 2004). Num estudo cujo um dos objetivos foi mapear as diferenças motoras entre os gêneros, em crianças do 1º ciclo do ensino básico, observaram-se uma tendência generalizada para as meninas de uma dada idade mostrar perfis de coordenação motora inferiores aqueles que são esperados para sua idade (LOPES et al., 2003). Já num estudo com crianças da 1º série no Paraná, mostrou que as meninas tiveram um maior aproveitamento nos testes, onde praticamente em todos os testes realizados, a grande maioria delas, obteve uma pontuação maior em relação aos meninos, ou seja, as mesmas se encontram melhor preparadas para a execução das tarefas realizadas (PERROTTI e MANOEL, 2001). Outro trabalho salienta a importância de se analisar não somente os princípios fisiológicos que envolvem as capacidades físicas do desenvolvimento motor, mas também os fatores motivacionais e de origem sociocultural, isso por considerar que empenham um papel relevante nos índices de desempenho da aptidão física entre os gêneros e as idades (KREBS e MACEDO, 2005). Levando em consideração, o fator de multicausalidade que interfere em tal desenvolvimento, e percebendo que o gênero é uma variante que influi nos domínios que constituem o mesmo, o presente estudo visa comparar o desempenho motor de escolares do sexo masculino e feminino. METODOLOGIA Foram avaliadas 116 crianças, com faixa etária entre 7 e 10 anos, de 1ª a 4ª série, sendo 55 meninas e 61 meninos, distribuídos conforme tabela 1. Tabela 1. Distribuição da amostra por gênero feminino (Fem) e masculino (Masc) e faixa etária. 1ª série n 2ª série 3ª série 4ª série Fem Mas Fem Mas Fem Mas Fem Mas 14 18 13 10 12 19 16 14 Para avaliar a potência de membros inferiores foram realizados os testes salto horizontal, impulsão vertical sem auxílio dos braços e impulsão vertical com auxílio dos braços; para avaliar força de membros superiores foi realizado o teste de flexão e extensão dos braços; para avaliar resistência muscular localizada foi realizado o teste abdominal e para avaliar a agilidade foi realizado o teste shuttle run. Todos os testes foram realizados de acordo com o protocolo descrito em Guedes e Guedes (2006). Para análise dos dados foi utilizada estatística descritiva (média e desvio padrão) e teste “t” de student para amostras independentes (p<0,05). 96 Coleção Pesquisa em Educação Física - Vol.9, n.1, 2010 - ISSN: 1981-4313 RESULTADOS A figura 1 apresenta o resultado do teste salto horizontal. Observa-se um aumento com a idade em ambos os sexos, sendo os maiores resultados apresentados pelo sexo masculino. Houve diferença significante entre o sexo feminino e masculino na segunda, terceira e quarta série (p<0,05). Figura 1. Salto horizontal. * * * * p<0,05 (em relação ao gênero feminino) A figura 2 apresenta o resultado do teste salto vertical sem o auxílio dos braços. Observa-se um aumento com a idade nos indivíduos do sexo masculino, porém, nos indivíduos do sexo feminino esse aumento acontece até a terceira série, sendo que na quarta série há uma redução dos valores em relação à idade anterior. Na primeira e quarta série o resultado maior foi alcançado pelo sexo masculino, na segunda série o resultado foi o mesmo para ambos os sexos e na terceira série as meninas apresentaram resultado superior ao dos meninos. Não houve diferença significante entre os sexos em nenhuma faixa etária. Figura 2. Salto vertical sem o auxílio dos braços. p<0,05 (em relação ao gênero feminino) A figura 3 apresenta o resultado do teste salto vertical com o auxílio dos braços. Como no resultado do salto vertical sem o auxílio dos braços, observa-se um aumento com a idade nos indivíduos do sexo masculino, porém, nos indivíduos do sexo feminino esse aumento acontece até a terceira série, sendo que na quarta série há uma redução dos valores em relação à idade anterior. Na primeira, segunda e quarta série o resultado maior foi alcançado pelo sexo masculino, sendo que na terceira série Coleção Pesquisa em Educação Física - Vol.9, n.1, 2010 - ISSN: 1981-4313 97 as meninas apresentaram resultado superior ao dos meninos. Houve diferença significante entre os sexos somente na quarta série, sendo os maiores valores alcançados pelos indivíduos do sexo masculino (p<0,05). Figura 3. Salto vertical com o auxílio dos braços. * * p<0,05 (em relação ao gênero feminino) A figura 4 apresenta o resultado do teste flexão e extensão dos braços. Houve diferença significante entre os sexos na primeira e quarta série, sendo os maiores valores alcançados pelos indivíduos do sexo masculino (p<0,05). Figura 4. Flexão e extensão dos braços. * * * p<0,05 (em relação ao gênero feminino) A figura 5 apresenta o resultado do abdominal. Observa-se um aumento com a idade nos indivíduos do sexo feminino, sendo que nos indivíduos do sexo masculino o aumento ocorre da primeira para a segunda série, na terceira série os valores diminuem e voltam a aumentar na quarta série. Houve diferença significante entre o sexo feminino e masculino na primeira e quarta série (p<0,05), sendo os maiores valores encontrados nos indivíduos do sexo masculino. Para Bordignon e Olivoto (2004), os resultados obtidos no teste abdominal nos levam a crer que as atividades propostas para as crianças foram sugeridas de forma mais equilibrada, procurando envolver todos os grupos musculares envolvidos no teste proposto. 98 Coleção Pesquisa em Educação Física - Vol.9, n.1, 2010 - ISSN: 1981-4313 Figura 5. Abdominal. * * * p<0,05 (em relação ao gênero feminino) A figura 6 apresenta o resultado do teste de agilidade. Observa-se um aumento de desempenho com a idade em ambos os sexos, ou seja, houve redução do tempo do teste e consequente aumento da velocidade. Houve diferença significante entre os sexos na primeira e quarta série (p<0,05), com os melhores resultados sendo apresentados pelos indivíduos do sexo masculino. Figura 6. Agilidade. * * * p<0,05 (em relação ao gênero feminino) O fato de a idade cronológica e o estágio maturacional não terem contribuído de modo estatisticamente significante na explicação da variabilidade da agilidade, sugere que o componente coordenativo, na faixa etária da presente pesquisa, não tem a dependência tão elevada dos processos normais de crescimento e desenvolvimento, como possivelmente teria se estivéssemos tratando de outras faixas etárias. Entretanto, para fazer essa afirmação de modo conclusivo são necessários estudos de caráter longitudinal (RÉ et al., 2005). Coleção Pesquisa em Educação Física - Vol.9, n.1, 2010 - ISSN: 1981-4313 99 CONCLUSÃO Com isso concluí-se que na infância, a partir dos sete anos, já se encontram diferenças sexuais no desempenho motor em escolares, sendo que os rapazes apresentam maior desempenho nos testes motores em relação às moças da mesma idade. REFERÊNCIAS BORDIGNON, O.; OLIVOTO, R. Diagnóstico do nível de aptidão física em crianças escolares de ambos os sexos com idade cronológica entre 8 a 10 anos. Lectures Educación Física y Deportes, año 10, n. 77, 2004. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd77/criancas.htm. Acesso em: 14/12/2009. GUEDES, D. P.; GUEDES, J.E.R.P. Manual prático para avaliação em educação física. Barueri: Manole, 2006. KREBS, R. J.; MACEDO, F.O. Desempenho da aptidão física de crianças e adolescentes. Lectures Educación Física y Deportes, año 10, n. 85, 2005. Disponível em: http://www.efdeportes.com/efd85/aptidao.htm. Acesso em: 18/10/2009. LOPES, V. P.; MAIA, J.A.R.; SILVA, R.G.; SEABRA, A.; MORAIS, F.P. Estudo do nível de desenvolvimento da coordenação motora da população escolar (6 a 10 anos de idade) da Região Autónoma dos Açores. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, vol. 3, n. 1, p. 47-60, 2003. Disponível em: http://www.fade.up.pt/rpcd/_arquivo/artigos_soltos/vol.3_nr.1/1.5.investigacao.pdf Acesso em : 18/10/2009. PERROTTI, A. C.; MANOEL, E. J. Uma visão epigenética do desenvolvimento motor. Revista Brasileira de Ciência e Movimento, vol. 9, n. 4, p. 77-82, 2001. RÉ, A. H. N.; BOJIKIAN, L. P.; TEIXEIRA, C. P.; BOHME, M. T. S. Relações entre crescimento, desempenho motor, maturação biológica e idade cronológica em jovens do sexo masculino. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, vol. 19, n. 2, p. 153-62, 2005. 1 Faculdade de Educação Física da Associação Cristã de Moços de Sorocaba - FEFISO. R. José Luongo, 144. Jardim Dinorah São Paulo/SP. 100 Coleção Pesquisa em Educação Física - Vol.9, n.1, 2010 - ISSN: 1981-4313