A quem pertence esta história?
Christiane Baldin Adami-Lauand
São Paulo
2012
Resumo
Este trabalho tem como referência básica a dissertação de mestrado intitulada
“As experiências alimentares de mães com filhas portadoras de
Transtornos Alimentares: investigando a transgeracionalidade” e pretende
apresentar reflexões sobre herança psíquica transgeracional a partir da
compreensão das experiências alimentares das mães de meninas que sofrem
de transtornos alimentares
A quem pertence esta história?1
Christiane Baldin Adami-Lauand
Introdução
Pretendo
neste
trabalho
apresentar
reflexões
sobre
herança
transgeracional a partir da compreensão das experiências alimentares das
mães de meninas que sofrem de transtornos alimentares
O conceito transmissão psíquica tem sido pensado há tempo. Em
algumas de suas principais obras Freud (1976a) dá sinais de interesse sobre o
tema apesar de não ter utilizado o termo especificamente. Em “Totem e Tabu”
(1976a), ele retoma o debate sobre o que pertence a ordem do inato e do
adquirido, lançando a questão sobre a transmissão entre gerações, incluindo a
transmissão do tabu, do crime e da culpa. Ainda neste artigo, o autor discorre
sobre um inconsciente formado pela transmissão do recalcamento que contém
objetos perdidos, lutos e segredos que não puderam ser simbolizados e são
transmitidos de geração em geração. Em “Psicologia de Grupo” e “Análise do
Ego” o mesmo autor (1976c), afirma que todo o processo de transmissão num
grupo ocorre pela identificação2 considerando, contudo, que o material
transmitido psiquicamente possa se transformar ou manter-se igual.
Adami-Lauand (2010), pautada por uma escuta atenta das aflições e
angústias de mães cujas filhas apresentavam transtornos alimentares, sugere
que, em alguns casos, os enredos da dupla mãe-filha se misturam e, os
conflitos pertencentes à geração anterior, tendem a se repetir. Histórias
rejeitadas pelas mães, guardadas no “porão de suas mentes”, lutos não
elaborados, segredos, traumas, silêncios parecem encontrar um terreno fértil
1
Este trabalho tem como referência básica a dissertação de mestrado intitulada “As experiências alimentares de
mães com filhas portadoras de Transtornos Alimentares: investigando a transgeracionalidade” defendida pela
autora na Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo para obtenção do título Mestre em
Ciências, Programa de Pós Graduação Enfermagem Saúde Pública, no ano de 2010.
2
Processo psicológico pelo qual um sujeito assimila um aspecto, uma propriedade, um atributo do outro e se
transforma, total ou parcialmento, segundo o modelo desse outro. A personalidade constitui-se e diferença-se por uma
série de identificações” . LAPLANCHE, J.; PONTIALIS, J. B. Vocabulário de psicanálise. Tradução Pedro Tamen. 3.
ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
no psiquismo de suas filhas caracterizando um processo de transmissão
psíquica entre as gerações.
A herança transgeracional e os transtornos alimentares: algumas
reflexões
Klein (1895) evidencia que as experiências que o bebê tem com a
alimentação e a presença da mãe iniciam o que chamou de relação de objeto.
A interação entre os impulsos libidinais e agressivos, mesmo que em
proporções variadas, corresponde à integração entre as pulsões de vida e de
morte. A autora aponta que numa experiência nutridora em que não haja
tensão ou fome há possibilidade de um equilíbrio entre estes impulsos. Porém,
quando o bebê tem dificuldade em tolerar as privações e lidar com suas
ansiedades a força dos impulsos destrutivos em interação com os impulsos
libidinais fornece a base constitucional para intensificar a voracidade.
Adami-Lauand, (2010), realizou um estudo clínico com mães de meninas
portadoras de transtornos alimentares e evidenciou na história de vida destas
mães que suas necessidades alimentares não se baseavam somente no
caráter nutritivo dos alimentos. Elas pareciam buscar constantemente cuidado,
atenção e afeto, confirmando o caráter afetivo envolvido no processo alimentar
e na alimentação. Nesta função, os alimentos que lhes eram oferecidos vinham
acompanhados de temperos-emoções tanto amargo como o desprezo e a
rejeição, quanto recheados por carinho. Estes ingredientes tornaram-se
essenciais na construção de seus hábitos alimentares e de seus vínculos
afetivos. Outro ponto que chamou a atenção nestes enredos refere-se ao fato
de todas as mães terem apresentado alguma experiência de restrição
alimentar, seja pela dificuldade financeira familiar ou pela resistência em ingerir
determinados alimentos principalmente durante a infância. Baseando-se nestes
enredos e pautada pela literatura, a autora pode supor que a existência de
dificuldades precoces na construção dos vínculos com suas genitoras, de
alguma maneira, foram reativadas, consciente ou inconscientemente, nas
atitudes frente à alimentação e aos cuidados com suas próprias filhas,
constituindo
a
base
transgeracionalmente.
de
uma
herança
psíquica
transmitida
Freud (1976b), em sua obra “Introdução ao Narcisismo”, já fornecia
indícios de uma transmissão entre as gerações e através delas. Para o autor, a
formação do psiquismo da geração precedente sofre influência do narcisismo
parental tornando-se responsável pela continuidade da vida psíquica entre as
gerações. O investimento dos pais na criança a torna depositária de seus
desejos insatisfeitos e projetos não-realizados marcando as condições do
nascimento psíquico desta criança.
Silva (2003) traz que, em casos de transtornos emocionais graves,
observa-se que o self destes pacientes é habitado por conteúdos inconscientes
que pertencem a outra geração impedindo o desenvolvimento de um psiquismo
próprio. Nas palavras da autora: “Esses pacientes funcionavam como
hospedeiros de uma história inconsciente de outras gerações que não lhes
pertencia (...) como um corpo sem um si mesmo, ausente de si, confuso,
enlouquecido” (p 29).
Miranda (2004) compreende a origem dos transtornos alimentares sob a
ótica de uma transmissão transgeracional. Nas palavras da autora: “[...] nesses
conflitos de mulheres, a relação fusional mãe-filha e suas ascendências e
heranças afetivas serão evocadas o tempo todo, constituindo-se, a meu ver, no
núcleo principal dos distúrbios alimentares.” (p. 319).
Ela ainda esclarece na mesma obra:
“Na transmissão transgeracional, a menina, ancorada na historia de seus
ascendentes (mãe, avó, bisavó,) recebe um material psíquico que não foi
eficientemente metabolizado pelas gerações anteriores, dificultando uma nova
integração, responsável por sentimentos de vazio e falhas no processo
identificatório” (p.319).
Considerações finais
O que se observou neste trabalho é que tanto mãe quanto filha vivem
num cenário de dor, sofrimento, desencontro e frustrações no qual não há
culpados ou vítimas, já que esta herança muitas vezes passa despercebida
pelas gerações impedindo-as de buscarem a subjetivação, ressignificar
experiências e sentimentos, construir novos capítulos em suas vidas e
transformar o inominável.
Referências bibliográficas
Adami Lauand, C. B. As experiências alimentares de mães com filhas
portadoras de transtornos alimentares: investigando a transgeracionalidade.
2010. 94f. Dissertação (Mestrado) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto,
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2010
Freud, S. (1976). Totem e tabu (J. Salomão, Trad.). Em S. Freud, Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol.
13, pp. 17-194). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1913)
Freud, S. (2004). À guisa de introdução ao Narcisismo (L.A. Hanns,
Trad.). Em Obras Psicológicas de Freud. (Vol. 1, p. 95-131) Rio de Janeiro:
Imago. (Originalmente publicado em 1914)
Freud, S. (1976). Psicologia de grupo e a análise do ego. (J. Salomão,
Trad.). Em S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud (Vol. 18, pp. 91-179). Rio de Janeiro: Imago.
(Trabalho original publicado em 1921)
Klein, M. (1985). . Inveja e gratidão e outros trabalhos: 1946-1963. Rio
de Janeiro: Imago.
Miranda, M. R. (2004). O mundo objetal anoréxico e a violência bulímica
em meninas adolescentes. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, 38,
(2), 309-334.
Silva, M. C. P. (2003). A herança psíquica na clinica psicanalítica. São
Paulo: Casa do Psicólogo.
A quién pertenece esta historia?
Christiane Baldin Adami-Lauand
São Paulo
2012
Resumen
Este trabajo tiene como referencia básica la disertación de la maestría titulada
“Las experiencias alimenticias de madres con hijas portadoras de
Trastornos Alimenticios: investigando la transgeneracionalidad”
y
pretende presentar reflexiones sobre la herencia psíquica transgeneracional
desde la comprensión de las experiencias alimenticias de madres de niñas que
sufren trastornos alimenticios.
A quien pertenece esta historia?3
Christiane Baldin Adami-Lauand
Introducción
Pretendo en este trabajo presentar reflexiones sobre la herencia
transgeneracional desde la comprensión de las experiencias alimenticias de
las madres de niñas que sufren trastornos alimenticios
El concepto transmisión psíquica ha sido pensado hace tiempo. En
algunas de sus principales obras Freud (1976) da señales de interés sobre el
tema a pesar de no haber utilizado el término específicamente. En “Tótem y
Tabú” (1976), él retoma el debate sobre lo que pertenece al orden de lo innato
y de lo adquirido, lanzando la cuestión sobre la transmisión entre generaciones,
incluyendo la transmisión de tabú, de crimen y de culpa. Todavía en este
artículo, el autor describe sobre un inconsciente formado por la transmisión
recalcada que contienen objetos perdidos, lutos y secretos que no pudieron ser
simbolizados y son transmitidos de generación en generación. En “Psicología
de Grupo” y “Análisis del Ego” el mismo autor (1976), afirma que todo proceso
de transmisión en un grupo ocurre por la identificación 4
considerando no
obstante, que el material transmitido psíquicamente puede transformarse o
mantenerse igual.
Adami-Lauand (2010), pautada por una escucha atenta de las aflicciones
y angustias de madres cuyas hijas presentaban trastornos alimenticios, sugiere
que, en algunos casos, la historia de la pareja madre-hija se mezcla y, los
conflictos pertenecientes a la generación anterior, tienden a repetirse. Historias
rechazadas por las madres, guardadas en el “sótano de sus mentes”, lutos no
3
Este trabajo tiene como referencia básica la disertación de maestría titulada: “Las experiencias alimenticias de
madres con hijas portadoras de Trastornos Alimenticios: investigando la transgeracionalidad” defendida por
la autora en la Escuela de Enfermería de Ribeirão Preto de la Universidad de São Paulo para obtener el título de
Maestro en Ciencias, Programa de Pos Graduación Enfermería Salud Pública, en el año 2010.
4
Proceso psicológico por el cual un sujeto asimila un aspecto, una propiedad, un atributo de otro y se transforma, total
o parcialmente, según el modelo de ese otro. La personalidad se constituye y diferencia por una serie de
identificaciones”. LAPLANCHE, J.; PONTIALIS, J. B. Vocabulario de psicoanálisis Traducción Pedro Tamen. 3. ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1998.
elaborados, secretos, traumas, silencios, parecen encontrar un terreno fértil en
la psique de sus hijas caracterizando un proceso de transmisión psíquica entre
las generaciones.
La herencia transgeneracional y los trastornos alimenticios:
algunas reflexiones
Klein (1895) evidencia que las experiencias que el bebé tiene con la
alimentación y la presencia de la madre inician lo que denominó de relación de
objeto. La interacción entre los impulsos de la libido e impulsos agresivos,
mismo que en proporciones variadas, corresponde a la integración entre las
pulsiones de vida y de muerte. La autora muestra que en una experiencia
nutriente en que no haya tensión ó hambre hay posibilidad de un equilibrio
entre estos impulsos. Sin embargo, cuando el bebe tiene dificultad en tolerar la
privaciones y lidiar con sus ansiedades, la fuerza de los impulsos destructivos
en interacción con los impulsos de la libido provee la base constitucional para
intensificar la voracidad.
Adami-Lauand, (2010), realizó un estudio clínico con madres de niñas
portadoras de trastornos alimenticios y evidenció que en la historia de vida de
estas madres, que sus necesidades alimenticias no se basaban solamente en
el carácter nutritivo de los alimentos. Ellas parecían buscar constantemente
cuidado, atención y afecto, confirmando el carácter afectivo involucrado en el
proceso alimenticio y en la alimentación. En esta función los alimentos que les
eran ofrecidos venían acompañados de condimentos-emociones tanto amargo
como el desprecio y el rechazo, cuanto llenos por cariño. Estos ingredientes se
tornaron esenciales en la construcción de sus hábitos alimenticios y de sus
vínculos afectivos. Otro punto que llamó la atención en estas historias se refiere
al hecho que todas las madres presentaron alguna experiencia de restricción
alimenticia, sea por la dificultad financiera familiar o por la resistencia en ingerir
determinados alimentos principalmente durante la infancia. Basándose en
estas historias y pautada por la literatura, la autora puede suponer que la
existencia de dificultades precoces en la construcción de los vínculos con sus
progenitoras,
de
alguna
manera,
fueron
reactivadas,
consciente
ó
inconscientemente, en las actitudes frente a la alimentación y los cuidados con
sus propias hijas, constituyendo la base de una herencia psíquica transmitida
transgeneracionalmente.
Freud (1976), en su obra “Introducción al Narcisismo”, ya daba indicios
de una transmisión entre las generaciones y a través de ellas. Para el autor, la
formación de la psique de la generación precedente sufre influencia del
narcisismo de los parientes tornándose responsable por la continuidad de la
vida psíquica entre las generaciones. La inversión de los padres en los niños
los torna depositarios de sus deseos insatisfechos y proyectos no realizados
marcando las condiciones del nacimiento psíquico de estos niños
Silva (2003) trae que, en casos de trastornos emocionales graves, se
observa que el self de estos pacientes es habitado por contenidos
inconscientes que pertenecen a otra generación impidiendo el desarrollo de un
psiquismo propio. En las palabras de la autora: “Esos pacientes funcionaban
como huéspedes de una historia inconsciente de otras generaciones que no les
pertenecía (…) como un cuerpo sin un si mismo, ausente de si, confuso,
enloquecido” (p 29).
Miranda (2004,) comprende el origen de los trastornos alimenticios sobre
la visión de una transmisión transgeneracional. En las palabras de la autora:
“(…) en estos conflictos de mujeres, la relación fusionada madre-hija y sus
ascendencias y herencias afectivas serán evocadas todo el tiempo,
constituyéndose, desde mi punto de vista, en el núcleo principal de los
disturbios alimenticios.” (p. 319).
Ella todavía aclara en la misma obra:
“En la transmisión transgeneracional, la niña, anclada en la historia de
sus ascendentes (madre, abuela, bisabuela) recibe un material psíquico que no
fue eficientemente metabolizado por las generaciones anteriores, dificultando
una nueva integración, responsable por sentimientos de vacío y fallas en el
proceso de identificación” (p. 319).
Consideraciones finales
Lo que se observó en este trabajo es que tanto la madre cuanto la hija
viven un escenario de dolor, sufrimiento, desencuentro y frustraciones en el
cual no hay culpables o victimas, ya que esta herencia muchas veces pasa
desapercibida por las generaciones impidiéndolas de buscar la subjetividad,
redefinir experiencias y sentimientos, construir nuevos capítulos en sus vidas y
transformar lo innombrable.
Referências bibliográficas
Adami Lauand, C. B. As experiências alimentares de mães com filhas
portadoras de transtornos alimentares: investigando a transgeracionalidade.
2010. 94f. Dissertação (Mestrado) – Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto,
Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, 2010
Freud, S. (1976). Totem e tabu (J. Salomão, Trad.). Em S. Freud, Edição
standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud (Vol.
13, pp. 17-194). Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1913)
Freud, S. (2004). À guisa de introdução ao Narcisismo (L.A. Hanns,
Trad.). Em Obras Psicológicas de Freud. (Vol. 1, p. 95-131) Rio de Janeiro:
Imago. (Originalmente publicado em 1914)
Freud, S. (1976). Psicologia de grupo e a análise do ego. (J. Salomão,
Trad.). Em S. Freud, Edição standard brasileira das obras psicológicas
completas de Sigmund Freud (Vol. 18, pp. 91-179). Rio de Janeiro: Imago.
(Trabalho original publicado em 1921)
Klein, M. (1985). . Inveja e gratidão e outros trabalhos: 1946-1963. Rio
de Janeiro: Imago.
Miranda, M. R. (2004). O mundo objetal anoréxico e a violência bulímica
em meninas adolescentes. Revista Brasileira de Psicanálise, São Paulo, 38,
(2), 309-334.
Silva, M. C. P. (2003). A herança psíquica na clinica psicanalítica. São
Paulo: Casa do Psicólogo.
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