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A VINHA E O VINHO NO ESPAÇO
MACARONÉSICO
Um vínculo europeu, atlântico e
colonial ao mundo insular
ALBERTO VIEIRA
COMO REFERENCIAR ESTE TEXTO:
Vieira, Alberto, A VINHA E O VINHO NO ESPAÇO MACARONÉSICO. Um vínculo europeu, atlântico e
colonial ao mundo insular, online, Funchal, CEHA, disponível em: http://www.madeira-edu.pt/
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A VINHA E O VINHO NO ESPAÇO MACARONÉSICO
Um vínculo europeu, atlântico e colonial ao mundo insular
ALBERTO VIEIRA.
CEHA(Funchal-MADEIRA)
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O vinho é uma presença constante na cristandade Ocidental. Acompanhou os primeiros
cristãos nas catacumbas e expandiu-se na Europa monástica e seguiu-a na expansão nos
mares. A dupla presença no acto litúrgico e alimentação traçou-lhe o caminho e
protagonismo. As ilhas atlânticas são exemplo disso. Os europeus fizeram chegar as
cepas a todo o lado mesmo àqueles onde a cultura teria dificuldades em se adaptar, como
foi o caso de Cabo Verde. Apenas na Madeira, Açores e Canárias a fama do produto se
igualou à dimensão comercial que assumiu, pautando o movimento com os mercados
europeu e americano. Aliás, a concorrência entre os vinhos foi feroz. Primeiro foi a
disputa pelo mercado inglês e, depois, no século XVIII, pelo norte-americano, onde a
Madeira usufruiu uma posição de destaque mercê do favorecimento dos tratados e leis de
navegação da coroa britânica. Nalgumas ilhas dos Açores as condições do solo e clima
retiraram-lhe importância, exceptuando-se o caso do Pico e Graciosa onde o vinho se
igualou ao da Madeira e Canárias.
Em qualquer dos casos o mercado do vinho insular desenvolveu-se pela solicitação do
mundo colonial. Os vinhos da Madeira e Canárias tiveram desde o século XV presença
assídua na mesa da aristocracia europeia. O mesmo se poderá dizer do Verdelho do Pico
que foi corrente nos palácios dos czares da Rússia. Para os norte-americanos as ilhas
atlânticas [Açores, Canárias e Madeira] são identificadas pelo vinho. Desde o século
XVIII que são nomeadas na documentação e historiografia como as ilhas do vinho1. O
epíteto demonstra o papel que o vinho lhes atribuiu no mercado americano. Em alguns
dos registos alfandegários norte-americanos do século XVIII o vinho da Madeira surge
juntamente com o dos Açores2, tornando-se difícil quantificar a verdadeira origem.
O Madeira foi, sem dúvida, o que mais se evidenciou no universo das ilhas. O luzidio
rubinéctar que continua a encher os cálices de cristal é, não só, a materialização da
pujança económica presente, mas também, o testemunho de um passado histórico de
riqueza. Prende-o à ilha uma tradição de mais de cinco séculos. Nele reflectem-se as
épocas de progresso e de crise. No esquecimento de todos fica, quase sempre, a parte
amarga da labuta diária do colono no campo e adegas, o árduo trabalho das vindimas, o
alarido dos borracheiros. Hoje, para recriar a ambiência, torna-se necessário olhar os
1 . GUIMERÁ RAVINA, Agustin, "Las Islas del Vino (Madeira, Azores y Canarias) y la America Inglesa Durante el Siglo XVIII", in
Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1989, pp.900-934.
2 . A. D. Francis, The Wine Trade, Edinburg, 1973, p.216; Ch. M.Andrews, The Colonial Period of American History, H. Haven,
1964, p.112
restos materiais e documentos, donde é possível desbobinar o filme do quotidiano de luta
que se esconde por entre a ferrugem, a traça e o pó.
O Vinho Madeira, celebrado por poetas e apreciado por monarcas, príncipes, militares,
exploradores e expedicionários, perdeu paulatinamente nos últimos cem anos parte
significativa do mercado, fruto da conjuntura criada, nos finais do séc. XVIII e princípios
do séc. XIX. A grande procura obrigou a utilizar todo o vinho e a acelerar o processo de
envelhecimento. Tudo isto se passou até que sucedeu o fastio em 1814. As doenças
acabaram com as cepas de boa qualidade, fazendo-as substituir pelo produtor directo que
se manteve lado a lado com as europeias numa promiscuidade pouco adequada à
manutenção da qualidade. O passado recente anunciou o retorno das castas tradicionais e
abriu as portas a novos momentos de riqueza.
A atestar a dimensão económica e social assumidas pela vinha e vinho no quotidiano das
diversas localidades temos a presença figurativa nos brasões das vilas e cidades. No
Funchal surge desde o século XVII, enquanto na ilha de Tenerife está igualmente
presente na emblemática de diversas vilas3.
FORMAS DE VER E ESTUDAR O VINHO
Na actualidade é cada vez mais evidente o interesse pelo estudo do vinho. A atenção do
público e comunidade científica é grande. Já na segunda metade do século XIX,
momento definido por uma conjuntura de crise da viticultura europeia, deparamos com
igual euforia editorial sobre a temática da vinha e vinho. Aqui somos confrontados, para
além das discussões sobre as soluções económicas e técnicas, com estudos descritivos da
realidade e História da cultura e comércio do produto. Assim, podemos definir dois tipos
de publicações, de acordo com a posição em que se coloca o autor:
1. Os estrangeiros, nomeadamente os ingleses, procuravam divulgar junto dos
consumidores o historial do vinho que corria diariamente à mesa.
2. Os nacionais que, motivados por conjunturas de crise, intervém no sentido de
apresentar soluções, indo ao encontro de causas políticas ou económicas. Assim,
quando a crise se situava na esfera comercial, surgiram tratados em favor do
proteccionismo e na área da produção tivemos soluções miraculosas para debelar
a crise.
A segunda metade do século XIX foi o momento de consciencialização para a dimensão
científica social, económica, cultural e histórica do vinho. Os estudos científicos
adequaram-se ao combate da praga e espicaçaram a curiosidade de todos e permitiram a
publicação de inúmeros trabalhos. Em muitos dos casos a recorrência à História foi o
necessário alento para a aposta, debelar das doenças e fazer com que a cultura voltasse a
assumir a adequada dimensão na sociedade e economia. Sucederam-se exposições4,
3 Em Arafo, La Guancha, La Matanza de Acentejo, San Miguel de Abona, Santiago del Teide, Tacoronte, Icod de Los Vinos,
Tegueste, Vilaflor, Mazo.
4. Em Espanha tivemos em 1877 a Exposición Vinicola Nacional. Em Portugal: Exposição Histórica do Vinho do Porto(1931-32).
congressos5 e estações vitícolas6 e enológicas, associadas a publicações periódicas
especializadas7.
O vinho assumiu uma dimensão importante nas ilhas, sendo de destacar as economias da
Madeira e Tenerife a partir do século XVII. É na Madeira que encontramos um conjunto
variado de textos, que procuram traçar a História ou fazer o ponto da situação do
problema vitivinícola entre finais do século XIX e princípios do presente. É de considerar
a obra de D. João da Câmara Leme, o Conde de Canavial, o mais destacado estudioso e
conhecedor dos problemas políticos e enológicos. Nas Canárias os estudos são parcelares,
ao clássico estudo de Andrés de Lorenzo Caceres8 deverá juntar-se outro de A.
Bettencourt Massiu9 e, recentemente, os de A. Guimerá Ravina10, Manuel Lobo Cabrera11
e Pedro Miguel Martínez Galindo12 e o de George F. Steckley, de que foi publicada uma
síntese em 1981 na Revista Aguayro13. Para os Açores é reduzida a atenção da
historiografia à cultura e produto, não obstante ter conseguido uma posição de relevo na
economia de algumas ilhas açorianas, como foi o caso do Pico e Graciosa.
Todo o esforço de divulgação da História do vinho traduziu-se em inúmeras publicações
sob o formato papel e digital, que continuam a merecer a atenção do público. Idêntica
dedicação esteve presente ao nível museológico, ficando ao dispor dos interessados
espaços específicos das empresas e instituições do sector. O vinho marcou épocas de
prosperidade com evidentes os reflexos no quotidiano e arte. Várias expressões disso
estão presentes na arquitectura urbana dos séculos XVIII e XIX e em alguns museus.
Na análise da realidade vitivinícola não poderá esquecer-se a estrutura produtiva e formas
de evolução. Há que ter em conta o grupo de mercadores que serviram de suporte ao
mercado do vinho e dele tiraram o maior rendimento. O estudo das casas comerciais é um
tema ainda em aberto que se torna merecedor de atenção, tendo em conta a
disponibilidade de alguns e importantes arquivos empresariais14. Os estudos no âmbito da
História da Empresa têm aqui um campo que aguarda a atenção do historiador.
Não deverá esquecer-se a envolvência do vinho na sociedade e as implicações daí
resultantes. Assim, no caso da Madeira, é comum definir-se um modelo de criação
artística e urbanística, influenciado pelo vinho, que levou alguns a definirem a cidade do
Vinho. A propriedade do termo é discutível mas não impede de consideramos as relações
do vinho com a arte e mesmo o quotidiano insular. A sociedade madeirense de oitocentos
5
. Para Espanha: 1878 - Congreso Antifiloxerico de Madrid, 1886; Congreso de Viticultores. Em Portugal: Congresso Vinicola
Nacional(1895).
. Em Espanha: Málaga, Zaragoça(1880), Sagunto(1881), Unidad Real(1882), Tanagona(1882). Em Portugal: Quinta de
Nalaria(1887), Douro(1957), Régua(1929).
7
. Revista Vinícola Jerezana(1866) The Wine and Spirit Market (França-1871), The Wine Trade Review (Londres. 1864), Revista do
Comércio de Vinhos (1896) O País Vinhateiro (1884), Anais do Instituto do Vinho do Porto(1940), O Vinho(1935), Vinicultura(1934).
8
. Malvasia y Falstaff. Los Vinos de Canarias, La Laguna, 1941.
9
. "Canarias e Inglaterra. El Comercio de Vinos(1650-1800)", in Anuario de Estudios Atlanticos, nº 2, 1956. Publicado em livro em
1991
10
. Burguesia Extranjera y Comercio Atlantico. La Empresa Comercial Irlandesa en Canarias(1703-1771), Santa Cruz de Tenerife,
1985.
11
. El Comercio del Vino entre Gran Canaria y las Indias en el Siglo XVI, Las Palmas de Gran Canaria, 1993.
12 . La Vid y El Vino en Tenerife en la Primera Mitad del siglo XVI, La Laguna, 1998.
13
"La Econmía Vinícola de Tenerife en el Siglo XVII: Relación Angloespañola en un Comercio de lujo", Aguayro, Las Palmas de
Gran Canaria, 138, 1981.
14
Cf. Alberto Vieira, Guia Para a História e Investigação das Ilhas Atlânticas, Funchal, 1995, p.167.
6
é herdeira do impacto provocado pela dominância da vinha e vinho, faltando estudos que
a valorizem.
A um nível restrito poderá partir-se para um novo tipo de abordagens. Primeiro a arte do
vinho, lavrada em gravuras, avulsas ou ilustrativas de livros e rótulos. O rótulo para além
da expressão plástica pode ser também um espelho da época através das temáticas
dominantes e mensagens escritas15. O levantamento das referências que mereceu na
literatura torna-se imperioso. Em prosa ou em verso o vinho é uma constante que está
ainda por descobrir.
A Etnografia é uma preciosa auxiliar do conhecimento e definição da ambiência que
envolve a cultura da vinha e o fabrico do vinho. O Folclore e as tradições definiram, no
passado, confundem-se com a realidade global. A tecnologia tradicional parece ter sido
esquecida nos armazéns. São poucos os lagares tradicionais que persistem e falta quem
providencie o estudo e inventariação.
O fabrico do vinho tinha lugar em lagares de madeira e pedra. Hoje são raros e o fabrico
do vinho adequou-se às inovações tecnológicas para que o produto final esteja conforme
os padrões de qualidade da Comunidade Económica Europeia. No caso das Canárias é
evidente nas ilhas de Tenerife e El Hierro o interesse dedicado a estas estruturas de
madeira. Já nos Açores é fácil encontrar no Museu do Vinho dos Biscoitos um conjunto
único de lagares e lagariças de pedra, a que se pode juntar idênticas infra-estruturas com
carácter museológico no Pico e Graciosa. Na Madeira são poucos os lagares de tabuado e
pedra. As lagariças de pedra, circunscritas ao Curral das Freiras, Ponta do Pargo e S.
Vicente, jazem hoje ao abandono. Em Taganana, na ilha de Tenerife, temos notícia de
uma lagariça de pedra e do uso dos odres no transporte do vinho, tal como se fazia na
Madeira16.
O Vinho ganhou raízes nas ilhas pela necessidade dos primeiros povoadores mas cedo se
espalhou a fama da qualidade fazendo com que acompanhasse as rotas comerciais do
Novo Mundo e tradicionais mercados europeus. Fama e comércio foram sinónimo de
interesse científico e editorial. Daqui resulta que a Madeira se apresenta como um caso
raro na Historiografia da Vinha e do Vinho. O vinho foi e continuará a ser uma referência
importante de definição da ilha e da labuta de cinco séculos das gentes. As ilhas ficarão
para a História como uma referência no percurso histórico entre o mundo antigo e o novo.
A VINHA E O VINHO
A presença da vinha nas ilhas, associada aos primeiros colonos, era uma inevitabilidade
do mundo cristão. O ritual religioso fez do pão e do vinho os elementos substanciais da
prática e a tradição elevou-os a símbolos da essência da vida humana e de Cristo. O vinho
e o pão avançaram com a Cristandade e revolucionaram os hábitos alimentares. A partir
15 . Cf. José de Sains-Trueva, Heráldica de Prestígio em Rótulos de Vinho Madeira, in Islenha, nº.9, 1991, 62 e segs; F. Guichard, A
Linguagem do Rótulo. O Vinho entre o Dito e o não Dito, in Os Vinhos Licorosos e a História, Funchal, 1998, pp.71-80.
16 . Alberto Galvan Tudela, Taganana. Un Estúdio Antropológico Social, Santa Cruz de Tenerife, 1980.
do séc. VII comer pão e beber vinho ficaram como símbolos no mundo cristão do
sustento humano. A partir de meados do século XV, com o arranque do processo de
ocupação e aproveitamento do novo espaço, é dada como certa a introdução de videiras
do reino e, mais tarde, das célebres cepas do Mediterrâneo.
O Madeira adquiriu, desde tempos recuados, fama no mundo colonial, tornando-se a
bebida preferida do militar e aventureiro na América ou Ásia. Escolhido pela aristocracia
manteve-se com lugar cativo no mercado londrino, europeu e colonial. Perante isto o
ilhéu desde o último quartel do século XVI fez mudar os canaviais por vinhedos, que vai
substituindo todas as terras cultivadas, devorando a floresta a Sul e a Norte. O madeirense
embalado pela excessiva procura do vinho esqueceu-se de assegurar a auto subsistência.
O vinho era a única fonte de rendimento e a moeda de troca para o alimento,
indumentária e manufacturas. Estamos perante uma troca desigual para o madeirense e
muito rentável para o inglês.
Já no séc. XV o vinho competia com o trigo e açúcar na economia local, assumindo-se
como um meio de troca no mercado externo. Paulatinamente os trigais e canaviais deram
lugar às latadas e balseiras e a vinha tornou-se na cultura quase exclusiva do madeirense.
Tudo isto projectou o vinho para o primeiro lugar na actividade económica da ilha,
mantendo-se por mais de três séculos. O ilhéu apostou, desde o último quartel do séc.
XVI, na cultura da vinha, tirando dela o necessário para o sustento diário e manter a vida
de luxo, construção de sumptuosos palácios, igrejas e conventos. A Madeira viveu, entre
o século XVII e princípios do XIX, embalada na opulência do comércio do vinho. Com
tão avultados proventos, o madeirense deixou-se vencer pelo luxo exuberante do meio
aristocrático, habituou-se à vida cortesã e copiou os hábitos ingleses.
Contra a política exclusiva imposta pelo mercantilismo inglês manifestaram-se, quer o
Governador e Capitão General J. A. Sá Pereira, com um “regimento de agricultura” para
o Porto Santo, quer o Corregedor e Desembargador António Rodrigues Veloso nas
instruções que deixou em 1782 na Câmara da Calheta. Mas foi tudo em vão, ninguém foi
capaz de travar a "febre vitícola", nem de convencer o viticultor a diversificar as culturas
da terra. Vivia-se um momento de grande procura do vinho no mercado internacional e as
colheitas eram insuficientes para satisfazer a incessante procura. Perante tão desusada
solicitação e à falta de melhor socorriam-se dos vinhos do norte da ilha e mesmo dos
Açores e Canárias para saciar o sedento colonialista.
A rota do vinho começou a ser traçada no século XV, partindo da Europa ao encontro do
colonialista na Ásia ou América. O comerciante inglês, que surgiu a partir do séc. XVII,
soube tirar partido do produto fazendo-o chegar em quantidades volumosas às mãos dos
compatriotas que o aguardavam nos quatro cantos do mundo. Vários factores fizeram
com que o inglês se instalasse na ilha e se afirmasse como um potencial negociante do
vinho. Para tanto contribuíram as condições favoráveis exaradas nos tratados lusobritânicos e o favorecimento que as regulamentações britânicas do comércio colonial
atribuíam à Madeira. Do numeroso grupo de britânicos merecem referência: Richart
Pickfort (1638/82), W. Boltom (1695/1714), James Leacock (1741), Francis Newton
(1745), R.Blandy (1811).
OS AÇORES E AS CANÁRIAS
Quer nos Açores, quer nas Canárias a cultura da vinha esteve também presente desde o
início do processo de povoamento. Os madeirenses estão ligados à introdução da cultura
da vinha em ambos os arquipélagos.
Em princípios do século XVI fala-se da malvasia de Canárias no mercado londrino, numa
posição concorrencial com a da Madeira, mas só a partir de meados da centúria o vinho
adquiriu dimensão de relevo nas exportações. No caso de Tenerife sabe-se que até à
década de trinta necessitou de importar vinho, definindo-se medidas limitativas da
importação desde meados da centúria17. Deste modo as Canárias, a exemplo da Madeira,
repartem o vinho entre a velha Europa e os novos espaços de ocupação do outro lado do
Atlântico, como Puerto Rico, Santo Domingo e Cuba18.
A partir de meados do século XVU as Canárias competem directamente com a Madeira
no domínio do mercado do vinho britânico. A união peninsular não terá sido favorável ao
vinho madeirense, uma vez que abriu as portas do mercado colonial ao vinho de
Canárias. A conjuntura económica que se anunciou em 1640 abriu novas perspectivas
para o Malvasia da Madeira, com o retorno da posição de privilégio no mundo português
e britânico. O competidor directo era apenas o vinho dos Açores, produzido nas ilhas
Graciosa e do Pico.
Os pactos de amizade entre as coroas de Portugal e Inglaterra sedimentaram as relações
comerciais favorecendo a oferta do vinho madeirense e açoriano nas colónias britânicas
da América Central e do Norte, como o determinavam as leis de navegação a partir de
Carlos II, aprovada em 164119. A situação de privilégio concedida ao vinho dos
arquipélagos portugueses repercutiu-se negativamente na economia das Canárias sendo
um travão ao desenvolvimento da economia vitivinícola, a partir de finais do século
XVII20. E. Steckley, não obstante documentar uma época de prosperidade no comércio
com Inglaterra, anuncia a crise que se aproximava: Así pues durante dicha centuria
algunos de los antiguos mercados canarios de vino se estancaron y las islas portuguesas
demonstraron ser unos competidores capaces y eficientes para los nuevos mercados
americanos de vino21. A mesma ideia aparece no estudo de António Macíaz e Agustin
Millares Cantero, que definem o período de 1640 a 1670 com de crisis del prolongado
esplendor económico, como resultado de la oferta madeirense y de o porto que comenzó
a sustituir a la Canaria en el mercado ingles22. A criação em 1665 da Companhia dos
17 . Pedro M. Martínez Galindo, La Vid y el Vino en Tenerife en la Primera Mitad del Siglo XVI, La Laguna, 1998, pp.259 e segs.
18 . Elisa Torrres Santana, História del Atlantico. El comercio de la Palma con el Caribe 1600-1650. Relaciones de Interdependência,
La Palma, 2003, p.179; Manuel Lobo Cabrera, El Comercio Canário Europeo Bajo Filipe II, Funchal, 1988, pp.120-123.
19.Rupert CROFT-COOKE, Madeira, Londres, 1961, pp.26-28; André L.SIMON, "Introduction" e "Notes on Portugal
Madeira and the Wines of Madeira", in The Bolton Letters.Letters of an English Merchant in Madeira 1695-1714, Londres,
1928
20.A. Bethencourt MASSIEU, "Canarias Y Inglaterra. el Comercio de Vinos(1650-1800)", in Anuario de Estudios Atlanticos, nº.2,
1956, pp.195-308: IDEM, "Canarias y el Comercio de Vinos(siglo XVII)", in Historia General de las Islas Canarias, tomo, III,
1977, 266-273;
21."La Economia Vinicola de Tenerife en el Siglo XVII: Relación Anglo-espanola en un Comercio de Lujo", in Aguayro,
nº. 138, Las Palmas, 1981, p. 29
22."Canarias en la Edad Moderna(circa 1500-1850)", in Historia de Los Pueblos de Espana. Tierras Fronterizas(I)
Andalucia Canarias, Madrid, 1984, pp.319, 321
mercadores de Londres e a reacção popular que gerou com o derrame dos vinhos
conduziu inevitavelmente à perda de importância do malvasia de Canárias no mercado
europeu em favor do Jerez.
O casamento de Carlos II de Inglaterra com D. Catarina de Bragança foi o prelúdio da
conjuntura favorável ao vinho Madeira, sendo referido por Viera y Clavijo como um
golpe tan feliz para la isla de la Maderas como infausto para las Canárias23. A guerra de
Cromwell contra Espanha levou ao encerramento do mercado londrino, no período de
1655 a 1660, ao vinho de Canárias e ao estabelecimento de medidas preferenciais para o
das ilhas portuguesas. O texto da ordenança de 1663, repetido mais tarde na de 1665, era
claro: Wines of the growth of Maderas, the Western Islands or Azores, may be carried
from thence to any of the lands, islands, plantatinos, & colonies, territories or places to
this majesty belonging, in Asia, Africa or America, in english built ships.24
Com o fim da guerra de fronteiras entre Portugal e Espanha e a assinatura das pazes em
Madrid a 5 de Janeiro de 1668, ratificadas a 13 de Fevereiro em Lisboa, restabeleceramse os contactos entre os dois arquipélagos25. O reforço das relações é testemunhado pela
presença de Bento de Figueiredo no Funchal como cônsul castelhano26. Não acabaram
aqui as dificuldades pois apenas com as pazes de Ultrecht de 1713 se abriram novas
perspectivas de negócio, quando os vinhos madeirenses e açorianos haviam conquistado
uma posição sólida no mercado colonial e britânico.
O arquipélago das Canárias encontrava-se na posição de perdedor e a braços com uma
crise económica por falta de escoamento do vinho27. Procuraram-se várias alternativas no
sentido de debelar a crise e encontrar um bom mercado para os caldos canarios. A moda
do vinho Madeira nas colónias britânicas levou-nos à falsificação. O falso Madeira, de
Canárias ou dos Açores, foi uma dificuldade mais para a afirmação da hegemonia do
Madeira no mercado colonial britânico28. A questão persistiu no decurso do século XVIII
e goradas as iniciativas diplomáticas houve que esperar até que em 1778 se anunciou uma
era nova para o vinho madeira, com o livre comercio para as Índias e a abertura do
mercado norte-americano em consequência da independência proclamada em 177629. A
situação reflecte-se de forma positiva nas exportações entre 1790 e 181430.
No caso dos Açores a situação é distinta, pois desde o início não se testemunha grande
valoração da cultura e do produto nas exportações. Apenas a partir do século XVII se
denota um incremento da cultura nas ilhas do Pico, Faial, S. Jorge. A má qualidade da
maioria dos vinhos açorianos levou a que se desenvolve o fabrico da aguardente que tinha
exportação fácil para o Brasil, em que se especializou a ilha Graciosa31. Apenas as ilhas
23.Citado por A. LORENZO-CÁCERES, Malvasia y Flastaff. los Vinos de Canarias, La Laguna, 1941, p.19.
24.André L.SIMON, "Notes on Portugal, Madeira and the Wines of Madeira", in The Bolton Letters. Letters of an English
Merchant in Madeira 1695-1714, Londres, 1928.
25.A coroa insistiu na nova situação, recomendando às autoridades madeirenses que publicitassem o que foi feito por meio
de um bando a 8 de Maio. Veja-se Arquivo Regional da Madeira, Câmara Municipal do Funchal, nº.1215, fls.37vº.38
26.Ibidem, nº.1215, fls.58-58vº, 17 de Dezembro de 1672.
27.G.STECKLEY, art.cit., pp.25-31.
28 Agustin Guimerá Ravina, burguesia extrangera y Comercio Atlântico, p.330.
29 . Cf. A. Béthencourt Massieu, Canarias Y Inglaterra. el Comercio de Vinos (1650-1800), Las Palmas, 1995.
30 . A. M. Macias Hernández, La Economia Moderna(siglos XV-XVIII), in Historia de Canárias, Las Palmas, 1995.
31 . Carreiro da Costa, Aguardente da Graciosa para o Brasil in Boletim da Comissão Reguladora do Comercio dos Cereais dos
de S. Jorge e Pico apresentavam vinho com qualidade para exportação32. O Padre
António Cordeiro33 afirma mesmo a superior qualidade da malvasia do Pico em relação à
madeirense. Por força disso importava-se desde o século XVI vinho da Madeira para as
cerimónias e festas religiosas, situação que perdurava no século XVIII.
AS ILHAS DO FALSO MADEIRA
A baldeação externa com o vinho dos Açores e Canárias adquiriu importância no debate
entre 1783 e 1810. A situação parece que foi prática corrente nos momentos de maior
procura de vinho. A Junta havia permitido a entrada de vinho do reino e ilhas para o
consumo das tabernas, o que foi aproveitado pelas praças estrangeiras para a falsificação do
vinho. Como a situação gerava desconfiança sobre a qualidade do vinho exportado os
negociantes decidiram tirar certidões autênticas para desvanecer boatos. Em 178334 o vinho
recuperava o mercado americano e por isso a introdução, baldeação e franquia deste género
(vinho das Canárias), não só seria temível exemplo para o futuro, mas ainda poderia atrair
uma bem fundada suspeita de que este vinho seria d'aqui exportado a título de vinho da
Madeira, mas que resultaria um considerável prejuízo há estabelecida reputação do
comércio exportativo que faz florescer este estado". Daí a interdição da entrada de 100 pipas
de vinho, que então se pretendia, não sendo permitido o despacho nem por baldeação, nem
por franquia35.
Em 179136 Carlos Maurray, Cônsul geral inglês, em representação dirigida a Luís Pinto
de Sousa, Ministro e Secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros, manifestou-se
contra a fraude praticada por alguns comerciantes que exportavam vinhos da Madeira
para as Canárias, onde os lotavam com os aí produzidos, mais baratos e de inferior
qualidade. Dos navios que desviaram a rota para às Canárias entre 1784/7, temos o
Duque de Bragança, Invencível, Santíssimo Sacramento, Cara Assada, Trindade37. O
vinho dos Açores surge em 180038 num pedido de Domingos Oliveira Júnior em que era
solicitado o desembarque de 80 pipas de vinho do Faial, transportadas no bergantim Bom
Nome, apresentando como justificação as descargas permitidas em 1796 aos vinhos das
Canárias e de Clarete. O Senado39, nobreza, povo e comerciantes nacionais e estrangeiros40,
a Junta da Fazenda e o Governador41, levantaram-se em uníssono argumentando que a
importação dos vinhos de inferior qualidade para depois serem reexportados como
procedentes da Madeira, arruinaria o comércio dos vinhos da ilha42. A documentação diznos que os vinhos, quer das Canárias e Açores, quer de Málaga e Catalunha, foram
admitidos, atingindo-se as 200 pipas43.
Açores, nº. 31-32, p.157
32 . Avelino de Freitas de Menezes, Os Açores nas Encruzilhadas de Setecentos(1740-1770). Vol. II, Ponta Delgada, 1995, p.94
33 Historia Insulana, p.414
34
ANTT, PJRFF, nº 942, p. 120.
35
ANTT, AF, nº 237, fol. 210vº.
36
AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1253.
37
Idem, nº 1254.
38
Idem, nº 1221 e 1255.
39
Idem, nº 1204, 1219, 1220, 1259.
40
Idem, nº 1203; ARM, RGCMF, T. 13, fols. 107vº/111.
41
Idem, nº 1218.
42
Idem, nº 1260.
43
Idem, nº 1263/1272.
Para obviar a situação decidiu-se em 22 de Dezembro de 180044 colocar marcas nas pipas e
mais vasilhas em que se exportavam os vinhos da Madeira e dos Açores ao mesmo tempo
que em 1817 se proibia a saída de vasilhas vazias para fora da ilha45. Segundo o cônsul e
homens de negócios as providências sobre as marcas do vasilhame para exportação do vinho
não evitavam as fraudes, antes as facilitavam, pelo que clamavam por uma melhor
regulamentação46. Marcelino Gomes, Guarda de número da Alfândega47, apresentara um
plano para melhorar a arrecadação dos direitos reais48 e medidas conducentes a impedir a
entrada de todo e qualquer vinho, a baldeação interna e externa. O plano consistia num
regimento do ofício de tanoeiros da cidade do Funchal49 e no regimento dos oficiais da
Mesa da Inspecção dos vinhos da ilha da Madeira50. Não houve consenso manifestando-se
contra o Juiz da Alfândega, Manuel Caetano César de Freitas51 e a favor o Corregedor,
Manuel Caetano d'Almeida e Albuquerque, que as achavam razoáveis e úteis52. Outra
medida, mais eficaz foi a de tornar obrigatório o uso de manifestos singulares e outros
documentos autênticos que depois seriam examinados nos países de destino53.
Em 181054 desembarcaram no calhau por contrabando algumas pipas de vinho da ilha
Terceira. O Senado da Câmara, colocado perante a situação, insiste no comprimento da lei
para que se fique entendendo que de nenhuma maneira se tolera a introdução de vinhos
estrangeiros para que se não animem os contrabandistas a repetir a especulação na certeza
do castigo que os espera e se evitem a equivocação na qualidade e quebra no preço dos
vinhos da Madeira, único ramo de comércio deste e se evite em uma palavra a ruína total
de todas as classes de seus habitantes e dos direitos de sua Alteza Real. Por tudo isto,
segundo informação à margem do citado documento, se derramou o referido vinho em 9 de
Março de 1810 na praça do Pelourinho.
As dificuldades do mercado na segunda década do século XIX levaram a reclamações
contra a introdução de vinho de fora em que se incluía o proveniente do reino. A situação
repetiu-se na década de trinta e nos anos sessenta55. Por ordens de 181256 e de 181457
proibiu-se a entrada de qualquer vinho e a baldeação ou franquia, de modo a evitar qualquer
subterfúgio que venha a diminuir a estima dos vinhos da Madeira58. Em 1819 aludia-se à
baldeação externa como prática que estava na origem do estado em que a ilha se encontrava:
Outras muitas providências são precisas para derevidar (sic) nas praças estrangeiras o
crédito do nosso vinho também manchado pela mistura que alguns negociantes dele fazem
44
Idem, nº 1252, 1222; em 1817 proibiu-se a saída de vasilhame vazio, ARM, RGCMF, T. 1, fols. 147vº/148.
Idem, nº 4531/4532; ARM, RGCMF, T. 14, fols. 147vº/148.
46
Idem, nº 1251; ARM, RGCMF, T. 13, fols. 107vº/111.
47
Idem, nº 4511.
48
Idem, nº 4527.
49
Idem, nº 4524.
50
Idem, nº 4526.
51
Idem, nº 4530.
52
Idem, nº 4529.
53
ARM, RGCMF, T. 13, fols. 107vº/111.
54
Idem, T. 13, fols. 204/205.
55 . Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp. 49-52, 49-61, 63-64, 67, 73-79, 182,
185, 189, 212.
56
ANTT, AF, nº 238, fol. 196.
57
ANTT, PJRFF, nº 404, p. 463. Veja-se ainda Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993,
pp. 59-67
58
ANTT, AF, nº 238, fol. 196
45
em vinho estufado de Canárias e Faial, ganhando com prejuízo mais de cento por cento.
Selando-se os vasos de embarque com marca distintiva, fazendo-se manifestos para
aparecer em todos, também com fiscalização por via dos cônsules portugueses para
verificar a identidade do vinho Madeira, assim como pratica a companhia do Porto, que faz
os seus embarques debaixo de chancela do seu conservador com manifestos volantes por
todas as praças a anunciar que só é vinho de feitoria, o que leva aquele selo de
autenticidade, mas é melhor corrigir, primeiro os males do interior reintegrando o vinho à
sua generosidade natural e imediatamente quando já nos não poderem encrepar com
retracção de inferior infâmia, fazer-se uso desta medida...59.
Para o período de 1817 a 1822 temos a decisão da Junta em comprar os melhores vinhos da
ilha, como forma de restaurar a fama e qualidade no mercado externo, relegando para
segundo plano o comércio dos vinhos ordinários ou baldeados. Com isto pretendia-se escoar
grandes quantidades em stock. A Junta considerava ainda a necessidade de impedir aos
efeitos perniciosos do monopólio inglês do comércio: Esta medida produziu logo o melhor
efeito, baixando o cambio das letras a 20 por cento, como ela possa ainda produzir maiores
utilidades, não só no aumento da cultura e crédito dos vinhos, diminuindo pelo embarque
deles o adulterado, mas também evitará o monopólio do comércio dos vinhos desta ilha,
comprados e exportados por um pequeno número de casas estrangeiras, que unidas podem
estabelecer a seu modo o preço de compra deles e mesmo os da venda nas praças onde o
conduzem como se vê da mesma resposta60.
ROTAS E DESTINOS
O movimento de exportação do vinho da Madeira nos sécs. XVIII e XIX liga-se de modo
directo com o traçado das rotas marítimas coloniais inglesas que tinham passagem
obrigatória na ilha. São as rotas da Inglaterra colonial que faziam do Funchal porto de
refresco e de carga para o vinho no percurso para as Índias Ocidentais e Orientais, donde
os navios regressavam, pelos Açores, com o recheio colonial. Também os navios
portugueses da rota das Índias, ou do Brasil escalavam a ilha onde recebiam o vinho que
conduziam às praças lusas. São ainda os navios ingleses que se dirigiam à Madeira com
manufacturas e retornavam por Gibraltar, Lisboa, ou Porto. E, finalmente, os navios
norte-americanos que traziam as farinhas para sustento diário do madeirense e
regressavam carregados de vinho. Por tudo isto o vinho madeirense conquistou o
mercado britânico em África, Ásia e América afirmando-se até meados do séc. XIX
como a bebida dos funcionários e militares das colónias. Com o movimento
independentista das colónias todos regressaram à terra de origem trazendo na bagagem o
vinho.
O momento de apogeu da exportação do vinho Madeira situa-se entre finais do séc.
XVIII e princípios do séc. XIX, altura em que a saída atingiu a média de 20.000 pipas.
Mais de 2/3 do vinho exportado destinava-se ao mercado americano, com destaque para
59
ARM, RGCMF, T. 14, fol. 202/203vº. in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.
86-87
60
ANTT, PJRFF, nº 763, fols. 66/66vº, vide nº 405/407.
as Antilhas e as plantações do Sul da América do Norte e N. York. A primeira metade do
séc. XIX foi pautada por uma alteração no mercado consumidor do vinho da Madeira.
Era o período de afirmação dum novo destino capaz de suprir a perda do mercado
colonial. A Inglaterra e a Rússia tomaram o lugar a partir de 1831. Devemos associar a
concorrência do vinho de França, Espanha e Cabo. O fim das guerras europeias, em
princípios do séc. XIX, abriu as comportas do vinho europeu os mercados asiático e
americano. A saida do colonialista foi considerada uma perda irreparável para o vinho
Madeira.
Hoje, passados mais de quinhentos anos sobre a introdução da vinha na Madeira, estão
ainda presentes na memória os tempos áureos de apreciação e comércio do vinho. A
imagem passou rapidamente à História. À euforia da procura sucedeu a crise dos
mercados, agravada pela presença das doenças que atacaram a vinha (oídio e filoxera). A
crise do sector produtivo, resultado de factores botânicos alastrou a todo o espaço vitícola
apresentando efeitos semelhantes na economia e mercado do vinho. Perdeu-se a ligação
ancestral com as tradicionais castas europeias mas, em contrapartida, conquistaram-se
novas variedades americanas. As dificuldades conduziram à debandada dos agentes
comerciais que traçaram o mercado. A Madeira conseguiu paulatinamente recuperar ou
conquistar novos mercados.
Os vinhos dos Açores e Canárias seguiram uma trajectória semelhante ao da Madeira.
Foram os madeirenses que levaram as primeiras cepas para os Açores e Canárias. O
vinho das Canárias concorreu de forma directa com o da Madeira no mercado britânico já
no século XV, a atestar pelas referências de Shakespeare. Para o vinho dos Açores foi
apenas a partir do século XVII. A grande luta foi sempre entre o malvasia da Madeira e
os caldos de Tenerife. Da disputa pelo mercado europeu passou-se ao colonial.
O século XVII foi o momento de viragem do mercado atlântico do vinho conseguindo a
Madeira levar a melhor na preferência do mercado norte-americano e colónias nas
Antilhas. O vinho Madeira era uma moda. Os viticultores e comerciantes de Tenerife
para poderem sobreviver tiveram que se sujeitar ao fabrico de um vinho semelhante ao
Madeira, ou à baldeação com o de Tenerife para depois venderem com o rótulo de
Madeira 61. O século XVIII foi a época de afirmação do falso e verdadeiro Madeira62.
O CASO MADEIRENSE
A partir de finais do século XVIII ocorreram profundas alterações no processo de
vinificação madeirense provocadas, quer pelo funcionamento das estufas para aceleração
do envelhecimento do vinho, quer pela adição de aguardentes, primeiro de França e,
depois da terra, para fortificar os vinhos mais fracos. O método antigo, conhecido de
canteiro, entrou em desuso, por ser mais demorado, dispendioso e incapaz de atender às
solicitações do mercado. A solução estava nas estufas e na fortificação com as
61 . Burguesia Extranjera y Comercio Atlantico. La Empresa Comercial Irlandesa en Canarias(1703-1771), Santa Cruz de Tenerife,
1985, pp.317-332; G.L.Beer, The Old Colonial System. 1660-1754, N. York, vol. II, 1912, p. 287.
62 . Alberto Vieira, Breviário da Vinha e do Vinho na Madeira, Ponta Delgada, 1991, p.30-31.
aguardentes.
D. João da Câmara Leme, que, em meados do século XIX tomara contacto com os
processos de vinificação utilizados no trato, apercebeu-se do deficiente uso das
aguardentes e estufas, apostando numa solução mais rápida e eficaz para o trato do vinho,
que ficou conhecida como sistema canavial, definido pelas seguintes fases: 1º - sistema
sem aquecimento; 2º - sistema com aquecimento lento, ficando o vinho em comunicação
com o ar ambiente; 3º - sistema com aquecimento rápido e arrefecimento lento,
demorado ou não, em recipiente fechado63.
A situação privilegiada da comunidade britânica é resultado dos tratados de amizade,
nomeadamente o de Methuen, e da estratégia definida pelas actas de navegação inglesas
(em 1660 e 1665). A Madeira foi para os ingleses a ilha das escalas e abastecimento em
vinho. São inúmeros os testemunhos da presença das armadas britânicas no porto do
Funchal. A passagem era frequente, usufruindo de um tratamento especial das
autoridades locais.
Algum do vinho embarcado fazia o percurso de ida e volta. Os tonéis de vinho no porão
das embarcações estavam expostos ao calor dos trópicos e sujeitos à constante baldeação
resultante das correntes marítimas, adquiria um envelhecimento prematuro, assim
descrito por A. Sarmento64: Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes e
exportadores de vinho que este, sujeito a uma longa viagem, batido pelo balouço da
embarcação, aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões, tornava
características especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido, pelo que
mandavam muitas pipas à índia com frete de torna-viagem, para de lá voltar melhorado
o vinho, que ficou sendo chamado da roda do mundo ou simplesmente vinho da roda.
Diz-se, que da constatação deste facto à prática corrente foi um salto. Os ingleses,
principais consumidores do vinho Madeira, foram os primeiros apreciadores do vinho da
roda, por isso no mercado britânico, desde finais do século XVIII, os Common Madeira,
London Market e London Particular foram preteridos em favor do East India Madeira.
As pipas embarcadas eram marcadas com as seguintes iniciais: V.O. W. I (Very Old West
Indies Madeira). A diferença de preços entre um e outro era do dobro, resultante dos
custos do transporte, elevada procura e reputação que o mesmo adquiriu no Reino Unido
onde teve um estatuto especial65.
A primeira referência ao comércio do vinho retornado das Índias surge em 172266. Nos
meses de Setembro e Novembro de 1790 Mr. Christie colocou à venda no mercado
britânico 3 pipas de vinho Madeira vindo da Índia e 39 do Brasil.
Foi a partir daqui que se generalizou o uso das estufas como sistema de envelhecimento
dos vinhos, estando a primeira documentada em 1794. A solução representava uma maior
63 Idem, ibidem, p. 1.
64. SARMENTO, Alberto Artur, Ensaios Históricos da Minha Terra, vol. III, Funchal, 1952, pp.119-120
65 . A.Jullien, Topographie de tous les Vignobles Connus, Paris, 1816(reed.1832), p.467; Rupert Croft-Cooke, Madeira, London,
1961, p.86
66 .A. Huetz de Lamps, Le Vin de Madere, p.36.
economia de tempo e custos permitindo colocar, em pouco mais de três meses, à
disposição do cliente um vinho prematuramente envelhecido, com propriedades
semelhantes ao que tinha cinco anos no casco. O uso das estufas generalizou-se. Era
vulgar ver-se as pipas jacentes nos fornos de pão da cidade, ou simplesmente ao Sol. O
vinho estufado, para alem de ter gerado acesa polémica em princípios do século XIX não
mereceu os elogios do consumidor.
O vinho da Roda era diferente e tinha o condão de melhorar as qualidades organolépticas
sem se degradar, o que não sucedia, segundo alguns, com o vinho estufado. Em 1826 a
prática de embarque de vinhos para envelhecer havia-se generalizado e todo o vinho de
roda era reembolsado dos direitos pagos à saída ou levantava fiança até ao retorno.
Ficou célebre, entre os apreciadores, o vinho que o cônsul inglês H. Veitch ofereceu em
1815 a Napoleão Bonaparte, aquando da passagem pelo Funchal com destino ao exílio de
Santa Helena. O imperador não o bebeu e o vinho acabou de volta à ilha, onde foi
engarrafado a partir de 1840 com o título de Battle of Waterloo. Winston Churchill de
visita à ilha em 1950 foi um dos poucos contemplados com uma garrafa.
Em 1992 recriou-se a referida rota e a técnica de envelhecimento com o embarque de 600
litros de Boal a bordo do veleiro Kaisei, que participou na regata Colombo 1992.
O vinho da roda é para o madeirense e britânico uma dádiva do oceano. As agitadas
águas do Atlântico e Índico transformaram-se numa grande adega, onde os vinhos
madeirenses envelheciam. Foi uma mais-valia, sabiamente aproveitada pelos insulares
que cativou os tradicionais apreciadores britânicos. Mas nem todos comungaram da
mesma ideia, surgindo opiniões contrárias: Consumidores de vinho em Inglaterra são
muitas vezes enganados pela ideia de que uma viagem às índias Orientais ou Ocidentais
é suficiente para garantir a excelência do vinho. Mas isto é uma falácia óbvia, pois, se o
vinho não fosse de boa qualidade quando exportado da ilha, mil viagens não o poderiam
tornar no que nunca tinha sido. Todos os comerciantes na Madeira sabem bem que uma
grande parte dos vinhos assim exportados são de uma qualidade inferior, e são
adquiridos em troca de géneros por pessoas geralmente conhecidas como comerciantes
por troca67.
O vinho da roda é considerado um feliz acaso das viagens transoceânicas. No percurso da
Madeira à Índia e retorno à Inglaterra, com duas passagens pelos trópicos, melhorava. O
calor dos porões atribuía-lhe um rápido envelhecimento, que cedo se tornou notado pelos
ingleses. Foram eles os primeiros a usufruir da situação vantajosa. Este vinho tem a fama
de possuir muitas qualidades extraordinárias. Tenho ouvido dizer que se Madeira
genuíno for exposto a temperaturas muito baixas até ficar congelado numa massa sólida
de gelo e outra vez descongelado pelo fogo, se for aquecido até ao ponto de fervura e
67 . J. Holman, Travels in Madeira, London, 1840, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal,
1993, p.354. Sobre o vinho da roda veja-se: A Guide to Madeira, London, 1801, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira.
Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.343; J. L. Thudichum, A Treatise on the Origin, Nature and Varieties of Wine, London, 1872,
in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.372; A. Drexel Biddle, The Land of the
Wine Being na Account of the Madeira, London, 1900, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos,
Funchal, 1993, p.421.
depois deixado arrefecer ou se ficar exposto ao sol durante semanas seguidas em barris
abertos ou colocado em caves húmidas não sofrerá o mínimo dano apesar de sujeito a
tão violentas alterações68.
De imediato o vinho da roda ganhou fama e começou a embarcar-se pipas de vinho nos
porões dos navios para aí envelhecerem. A partir daqui deu-se o salto para a
concretização local do processo de envelhecimento prematuro do vinho. As pipas
passaram a ser expostas ao sol69 ou colocadas por cima dos fornos de pão sujeitas ao
calor. Ao mesmo tempo construíram-se as primeiras estufas, isto é, recintos fechados
onde circulava o ar quente por canos. A mais antiga conhecida, mas não a primeira, é a de
Pantaleão Fernandes e data de 179470.
O sistema de estufa está considerado oficialmente como o método de tratamento do
vinho, apenas usado pelas casas para o vinho das castas autorizadas, nomeadamente, a
tinta negra mole. De acordo com a legislação em vigor o vinho deverá manter-se
recipientes a uma temperatura constante até 55ºC. por um prazo de noventa dias.
Antigamente o vinho sofria uma evaporação de cerca de 15%, mas hoje com a nova
tecnologia as perdas são reduzidas. A disponibilização no mercado só poderá acontecer
após dois anos de estágio no canteiro71.
Apenas a empresa familiar Artur Barros & Sousa Lda. não utiliza no tratamento do vinho
as estufas. As demais dispõem do referido sistema, usufruindo da mais moderna
tecnologia. A Madeira Wine Company Lda. dispõe nas instalações ao Largo Severiano
Ferraz dois tipos de estufas tradicionais: a estufa de cimento e de madeira. Além disso
usa aqui e na rua de S. Francisco do chamado sistema de armazém de calor.
A estufa é entendida como resultado da conjuntura favorável ao escoamento rápido do
vinho, que adveio com as guerras napoleónicas, com consequente esgotamento dos
stocks, criando a necessidade do trato rápido dos vinhos novos para satisfazer as
encomendas do mercado, o que só poderia ser possível com as estufas. Ao primeiro facto
comenta D. João da Câmara Leme: Estamos em fins do século XVIII. A exportação dos
vinhos da Madeira tem aumentado, muito principalmente para a Inglaterra, porque, em
razão da guerra, lhe estão fechados os portos da Europa. As reservas de vinhos em boas
condições de embarque estão esgotadas. O sistema do canteiro não é processo aplicável
a um largo e importante consumo com a perspectiva de grandes lucros72. Quanto ao
segundo Alberto Artur Sarmento destaca: Pelo final do século XVIII, notaram os negociantes exportadores de vinho da Madeira, que este sujeito a longa viagem batido pelo
balanço da embarcação, aquecido às abafadas temperaturas que se notam nos porões,
tomava características especiais de aromatização, um todo precocemente envelhecido,
pelo que mandavam muitas pipas à Índia com frete de torna-viagem, para lá voltar
68 . J. Barrow, A Voyage to Conchinchina, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos,
Funchal, 1993, p.339
69 . Construíram-se até estufas para fruir do calor do sol, como nos refere Henry Vizetelly [Facts about Port and Madeira, London,
1880, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.397] sobre a casa Meyrelles sobrinho
& cia.
70 . Manoel de Santanna e Vasconcellos, Clamor dos Madeirenses. Funchal, 1835, p.8
71 . Alex Lidll, Madeira, London, 1998, pp.126-128.
72 Idem, ibidem, p. 6.
melhorado o vinho, que ficou sendo chamado de roda do mundo ou simplesmente vinho
de roda73.
O processo generalizou-se rapidamente, embora continuasse a ser oneroso e demorado
para as exigências do mercado. Estamos perante uma situação comumente aceite, mas
que no nosso entender deverá ter sucedido de forma distinta. O madeirense não ignorava
o sistema de tratamento usado pelos antigos. Já os Gregos e Romanos tinham
conhecimento da acção do calor dos porões dos barcos e dele se serviram para trato dos
vinhos tal como refere Plínio, entre outros. Na Madeira a prática parece ser tardia. A
primeira informação que dispomos data de 155074 e refere a despesa de dois vinténs feita
pela Misericórdia de Machico para lenha para cozer o vinho. Não sabemos a que se
reporta a situação e se refere ao fabrico de aguardente.
A primeira referência às estufas remonta a 173075. Daí à afirmação do sistema o salto foi
rápido: Vião os comerciantes que o calor dos navios e dos climas mais ardentes
beneficiaram considerável e visivelmente os vinhos em toda a sua qualidade, tanto de
sabor como de cheiro, logo pela razão, a mais bem deduzida, se persuadirão, e se
convencerão de que o vinho Madeira se aperfeiçoava e mesmo se requintava com o
calor: ocorreu logo, que sendo possível tratá-lo em terra com uma precisa quentura para
o seu benefício seriam grandes os proveitos que colheria o comércio, o público, e não
menos S. A. Real76. Assim, tivemos o primeiro ensaio de estufa com vinhos novos,
enquanto um comerciante aquecia dia e noite um armazém com vinhos novos outro
colocava no armazém canos de ar quente77. A primeira estufa levantada nesta ilha se
fabricou no ano de 1794 e 1795, e depois dela se levantavão sucessivamente muitas
outras que todas tem trabalhado até os últimos meses passados78. Em 1802 segundo John
Leacock estufas are now become general79.
Antes do aparecimento das estufas tivemos o chamado vinho de sol. A referência mais
antiga ao processo surge em 1687. De acordo com H. Sloane80 o vinho beneficiava com a
73 Op. Cit., vol. III (1965), p. 119.
74 . Alvaro Manso de Sousa, O Fato do Diabo. Curiosas Notas sobre a Misericórdia de Machico, in Das Artes e da História da
Madeira, nº.5069, 5 de Maio de 1949, p.234
75 Ruppert Croft-Cook, ibidem, p. 65.
76 AHU, Madeira e Porto Santo, nº 1431.
77 D. Joäo da Câmara Leme, ibidem, p. 6.
78. Joäo da Câmara Leme, ibidem, p. 6.
79 Ruppert Croft-Cook, ibidem, p.66. Numa carta de 1800, o mesmo descreve a sua primeira estufa que teve na ilha, dando conta do
movimento das estufas, e da discussäo sobre o vinho estufado: We are erecting an estufa & hope to have it furnished in two or three
weeks we shall stard in need of two common thermometheos. good but the least expensive, in order that we may regulate the heat; we
therefore by you will send out a couple very carefully packed we hope this new mode of treating wine will answer, but the
correspondents of those who ship its - they are now common of all the houses use estufas - several of them have built them & others
put their wine into hired estufas, where they pay 5 m000. p. pipe for 3 months stewing. We are not yet perfectly satisfied of all the
effects produced by the application of heat to the wine, but think in general they keep too fierce a degree of heat, nickel keeps the wine
constantly boiling, and in rather insipid of weak. We are of opinion that a moon moderate temperature will succeed better & shall
prolong the period to six instead of three months as we have see. However the great test will be, how it is approved by those who are
no good judges, the new wine with three months estufa imitates wine of 4 or 5 years old & we don’t think that the deception will be
easily discovered- perhaps prejudice the character of Madeira wine. Wall hot climates its improves much quicker than in gold over:
twelve months in the East or West Indies ha me effect than 3 years here, or four or five years in England - there for the heat must be
on benefit & we must make a climate [Idem, ibidem, pp. 67/68; vide também P. P. da Câmara, ibidem, pp. 76/7, onde faz uma
descriçäo da estufa; Confronte-se o texto de H. Vizetelly in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, Funchal, 1983, pp.375-399.
80 . António Aragão, ibidem, p.159
exposição ao sol: …tem a propriedade curiosa, muito especial de se tornar melhor
quanto mais exposto estiver ao sol e ao calor. Assim, em vez de o levarem para uma
adega fresca expõem-no ao sol e ao calor. A mesma constatação acontece com John
Ovington81 que em 1689 referia: O vinho Madeira tem a qualidade muito peculiar de,
quando está a fermentar, ser melhorado pelo calor do sol se o batoque for desviado da
abertura da pipa e, desta madeira, o vinho ficar exposto ao ar. A partir de 173082 era
corrente a designação de vinho de sol e em 1880 Henry Vizeteelly83 descreve a estufa de
sol da firma Krohn Brothers no Funchal.
No Funchal, principal centro vinícola da ilha, procedia-se ao tratamento do vinho por
meio das estufas. O sistema generalizou-se a partir de finais do século XIX. As estufas
distribuíam-se indiscriminadamente por toda a cidade situando-se nos terrenos anexos às
adegas na área circunvizinha do cabrestante. O processo de estufagem tinha lugar em
edifícios construídos para tal ou em cima dos fornos de cal ou de cozer pão.
D. João da Câmara Leme, especialista em assuntos eneológicos teve oportunidade de em
França entrar em contacto com os sistemas de aquecimento usados desde o primeiro
quartel do século XIX, nomeadamente os sistemas em vaso fechado de Appert, Ervais,
Verguette, Cemotte e Pasteur84. De regresso à Madeira foi confrontado com o processo
de estufagem em uso, notando que o sistema de aquecimento lento com comunicação
com ar ambiente85 dava ao vinho um sabor torrado de queimado muito desagradável86 ao
mesmo tempo que lhe retirava as propriedades essenciais: Um sistema que priva os
vinhos novos das suas melhores qualidades naturais e lhes introduz efeitos persistentes;
que lhes tira o açúcar, alcool, óleos essenciais, e lhes introduz, um sabor desagradável
que o carvão vegetal empregado lhes não pode nunca tirar de tudo, e que os impede de
adquirir a finura tão assinalada nos antigos vinhos de canteiro. Na destilação do vinho
de garapa despreza-se o vinhão e guardam-se líquidos acoólicos, éteres, e sais e guardase o vinhão87.
Perante a constatação houve que tomar providências, optando-se por um sistema de
aquecimento em vaso fechado, de modo especial, o método Pasteur, conhecido por
pasteurização. Feitas as devidas experiências D. João da Câmara Leme conclui que o
gosto de novo desaparecia muito pouco para que o vinho Madeira pudesse ser
embarcado em pouco tempo como vinho mais velho, e que os seus outros caracteres não
tinham suficientemente melhorado88. Em 1889, ao fim de seis anos de estudo e 10 anos
de ensaios e experiências, estabeleceu um sistema de aquecimento e afinamento dos
vinhos, que tomou o nome de sistema canavial.
81 . António Aragão, ibidem, pp.197-198
82 Rupert Croft-Cooke, Madeira, p.66.
83 . Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira, p.392
84 Vide M. L. Pasteur, Études sur le Vin, ses Maladies, Causes qui le Provoquant Procédés Nouveaux pour le Conserver et pour le
Vieilliès, Paris, 1873, pp. 130/204, dando pp. 205/262 aparelhos de aquecimento.
85 Op. cit., p. 6/12.
86 Idem, ibidem, p. 7.
87 Idem, ibidem, pp. 10 e 12.
88 Idem, ibidem, p. 13.
O método exposto era considerado o único processo de tratamento por estufa que
animava a qualidade do vinho fazendo-o adquirir características e qualidades próprias, e
capaz de rivalizar com os melhores de canteiro. O vinho canavial89 era normalmente
preparado com o boal, com as seguintes propriedades: digestivo, anticéptico, medicinal,
alimentício.
Muito antes de D. João da Câmara Leme temos notícia de outro invento de estufagem. O
novo método dava-se nos vinhos comunicando-lhes o calor internamente e de os fazer
assim vermelhos em pouco tempo90. Será o mesmo sistema do praticado em França,
conhecido como pasteurização?91. Tudo indica que assim seja uma vez que o autor foi a
França várias vezes, donde trouxe alambiques de destilação contínua e travou contacto
com as inovações da técnica francesa de destilação e aquecimento do vinho.
As estufas não morreram apenas foram sendo aperfeiçoadas com o tempo. Os
mecanismos a vapor e a moderna tecnologia eléctrica substituíram as fornalhas de lenha
propiciando uma temperatura constante de 45 a 50 graus centígrados por um período de
três meses. No presente o sistema de canteiro convive de modo cordial com o das estufas.
Ambos persistem e são usados pelas empresas de acordo com o tipo de vinhos que se
pretende fazer. Os chamados vinhos novos de cinco anos são quase sempre de estufa,
enquanto os demais são de canteiro. Apenas uma empresa, Artur Barros & Sousa Lda.,
continua fiel à tradição do sistema de canteiro em todos os vinhos que comercializa.
OS INGLESES E O VINHO DAS ILHAS
A relação da ilha com o mundo inglês deve ser encarada num âmbito mais vasto. Não foi
um jogo de interesses de um punhado de britânicos [náufragos na ilha, a exemplo de
Machim] versus os madeirenses, martirizados pela opressão. Tudo isto faz parte de um
processo mais vasto. As origens devem ser encontradas nos tentáculos do império
colonial. O polvo surgiu com Cromwell e manteve-se até que o ideário independentista,
revelado pelos náufragos do Mayflower, fez esboroar todo o vasto império.
Na estratégia imperial a Madeira foi uma pedra chave. Não era o clima ameno, nem tão
pouco a necessidade de uma antecâmara de adaptação ao calor tórrido dos trópicos ou
frio que a valorizavam. Tudo isso foi o bónus para o real empenho de fazer do Funchal
uma base para as incursões além Atlântico. A ilha foi refresco de veleiros e vapores,
sedentos de carvão. A estas condicionantes associa-se o vinho. A necessidade e presença
na dieta alimentar de marinheiros, soldados e colonizadores é inquestionável.
O cosmopolitismo britânico, evidente na sociedade local, coroava o impacto da
comunidade, escrevendo algumas das páginas mais significativas da História da ilha. Os
ingleses foram os últimos [há quem diga que teriam sido os primeiros, baseando-se na
fatídica aventura de Machim] a se envolverem no fascínio da ilha. Os portugueses
89 D. Joäo da Câmara Leme, Sobre o Vinho Canavial, Funchal, 1892.
90 AHU, Madeira e Porto Santo, nº 9480.
91. D. João da Câmara Leme, Ibidem, pp.17-19
desbravaram o terreno e abriram caminho para a presença europeia. Depois chegaram os
italianos, franceses e flamengos para fruir das riquezas. Só muito mais tarde vieram os
ingleses, atraídos pelo aroma da célebre malvasia. A fama, proclamada na obra de
Shakespeare, foi o mote para a imposição ao paladar da aristocracia britânica, que se
deliciava até ao afogamento nos tonéis cheios de vinho. O Malvasia madeirense encantou
a aristocracia e coroa inglesas, animando os serões dos súbditos de Sua Majestade, dentro
e fora da grande ilha.
Múltiplas e variadas razões fizeram com que o Funchal se afirmasse a partir do século
XVIII como centro chave das transformações sócio-políticas operadas de ambos os lados
do oceano. Aqui deverá sinalizar-se a presença da comunidade inglesa e o facto de ter
transformado a ilha num importante centro para a afirmação colonial e marítima. A
vinculação ao império britânico foi notória no quotidiano e devir histórico madeirenses
dos séculos XVIII e XIX.
O vinho, não só alegrava o coração, como também supria as deficiências calóricas. Era
assim que o encaravam os homens da época. Os portugueses haviam provado que era o
único a resistir ao calor dos trópicos e que se adaptara muito bem às constantes mudanças
de temperatura. Tudo isto junto gerou a aliança da Madeira com o império britânico. O
vinho e a posição geográfica da ilha foram os protagonistas. A aliança fez prosperar a
ilha, encheu-a de latadas, de quintas e ingleses, sedentos do vinho.
A afirmação na vida local, controlo económico e das relações externas levaram à
conquista de uma desusada posição e à afirmação no plano político, por meio de tratados
ou de uma interessada ligação às autoridades da ilha e país. A feitoria, ao nível local, as
autoridades consulares, no reino e ilha, conjugavam-se para o mesmo objectivo. A
situação dos ingleses era especial. Desde o século XVII que a feitoria inglesa definiu um
estatuto à parte para a comunidade, que permitia ter conservatória e juiz privativo. O
espírito de união da feitoria, que persistiu até 1842, favoreceu a posição na sociedade
madeirense e demarcou o fosso com os naturais. A influência inglesa foi ganha nos
bastidores do poder político e, por vezes, sob o olhar complacente daqueles [os
republicanos] que, à primeira vista, pareciam ser inimigos. O caso da família Hinton e o
célebre engenho é exemplo disso.
Os relatórios dos cônsules, que surgem na ilha a partir de 1658, incidem a atenção no
plano económico. O ponto da situação, feito em Julho, era elaborado de acordo com as
orientações do Foreign Office. A incidência sobre os súbditos de Sua Majestade era,
acima de tudo, uma forma de controlo do trafico comercial de e para as colónias. A ilha
era um dos eixos da estratégia. Foi por isso que em princípios do século XIX foi ocupada
por duas vezes pelas tropas britânicas. Mais do que preservar os interesses britânicos na
ilha estava a necessidade de impedir o avanço francês no Atlântico, o que poderia
molestar os ainda importantes domínios coloniais. Os tratados sedimentaram a posição
confortável dos ingleses, enquanto que as leis de navegação do século dezassete mais não
fizeram que reforçar os laços definidos pelo mercantilismo inglês.
O turismo e o vinho estão indissociavelmente ligados aos ingleses. Foram eles os
principais mentores, intervenientes e usufrutuários, que traçaram os rumos do mercado
colonial e definiram o processo de vinificação adequado ao paladar e às contingências da
rota e destino. Para o turismo a presença é por demais evidente. Foram os primeiros
turistas e os promotores dos hotéis, desde finais do século XIX. O Reid's hotel é o
emblema de ouro.
A presença inglesa foi uma constante no quotidiano92. Muitos visitantes testemunham-no,
destacando a extrema dependência93. Em 1873 Álvaro Rodrigues de Azevedo94 afirmava
que a Madeira está em grande parte anglicizada, na raça, nos costumes, a propriedade,
no comércio, na moeda; e a língua inglesa é aqui a mais falada depois da nacional. Se
nós somos imprudentes em dizer isto, o que são os governos se o ignoram? E pior, se não
o ignoram, pois que o não evitam, o que serão? Só o brio português nos mantém
portugueses. Ainda, em 1924, a mesma ideia persistia no testemunho presencial de Raul
Brandão: Esta ilha é um cenário e pouco mais-cenário deslumbrante com pretensões a
vida sem realidade e desprezo absoluto por tudo o que lhe não cheira a inglês. Letreiros
em inglês, tabuletas em inglês e tudo preparado e maquinado para inglês ver e abrir a
bolsa95.
Embora os ingleses estivessem presentes na Madeira desde o início, até associados à
questão da descoberta da ilha no século XIV, nunca dominaram os circuitos comerciais
locais, que estavam nas mãos dos flamengos e genoveses. Somente a partir do século
XVII começaram a fazer sentir a influência. Em 1651, com o novo tratado firmado para o
casamento de D. Catarina de Bragança com Carlos II de Inglaterra, dizia-se que a
Madeira estava contemplada no dote da princesa. O facto, verdadeiro ou não, evidencia o
interesse pelo domínio da Madeira que, embora não tivesse sido consumado na realidade,
veio a existir de facto. Com base no tratado foram atribuídas condições especiais à
presença britânica na ilha, com a isenção de metade dos direitos de exportação do vinho e
a décima e o donativo.96
O Malvasia foi o mote para que o inglês viesse à descoberta das infindáveis qualidades
terapêuticas da ilha, da raridade das espécies botânicas e, por fim, o deleite das
infindáveis belezas do interior da ilha devassado a pé, a cavalo ou de rede. São inúmeros
os testemunhos captados pela pena ou no traço de aguarelistas e gravadores. Os ingleses
tiveram o mérito de descobrir duas inigualáveis marcas que definem o rincão: o vinho e
as belezas paisagísticas. E, como tal, foram dos primeiros e principais fruidores. Durante
muito tempo a ilha foi para eles sinónimo disso. Depois, com a plena afirmação da
hegemonia britânica no Atlântico e Indico, a Madeira transformou-se num pilar
92 Faltam um estudo sobre a presença britânica na Madeira. A maioria dos textos existentes é de origem inglesa, como é o caso de
Desmond Gregory, the Beneficient Usurpers, London, 1988; Walter Minchinton, British Residents and their Problems in Madeira
Before 1815, in Actas do II Colóquio Internacional de História da Madeira, Funchal, 1990, pp.477-492. De entre os portugueses
temos A. Sarmento, Os Ingleses na Madeira, in Diário de Notícias, Março/Abril, 1930; Paulo Miguel Rodrigues, A Política e as
Questões Militares na Madeira. O período das Guerras Napoleónicas, Funchal, 1999.
93 . An Historical Sketch of the Island of Madeira, London, 1819, p.58; Francis L. Hawks, Narrative of the Expedition of an American
Squadron to the China Seas and Japan…, N. Y., 1856, p.104; J. Edith Hutcheon, Things Seen in Madeira, London, 1928, p.140. F. b.
Spilsbury, Account of a Voyage to the Western Coast of Africa, London, 1807, p.7
94 .Anotações, in Saudades da Terra, livro segundo, Funchal, 1873, p.720
95 . As Ilhas Desconhecidas, Lisboa, 1926, p.264.
96 . ANTT, PJRFF, nº.396, fl.71vº, ordem régia de 16 de Outubro; ARM, RGCMF, tomo IV, fl.44, provisão de 27 de Fevereiro de
1669; idem, ibidem, fl. 44vº, 27 de Novembro de 1670; idem, ibidem, fl. 45, 26 de Janeiro de 1662.
importante do vasto império: a base imprescindível para o corso marítimo [a forma usual
de represália nos mares] e porto obrigatório para o abastecimento dos porões das
embarcações, tão procurada nas tabernas londrinas como nas messes das hostes britânicas
além Atlântico.
A feitoria britânica surgiu na segunda metade do século XVII como forma de
organização e defesa dos interesses da comunidade na ilha, usufruindo de um estatuto
diferenciado que lhe dava a possibilidade de possuir desde 1761 cemitério próprio, para
além do direito a igreja, enfermaria, conservatória97 e juiz privativo. Sabemos, ainda, que
estavam isentos do pagamento de qualquer direito na alfândega, cobrando, por iniciativa
própria, um tributo sobre os barcos ingleses para as despesas da feitoria. A situação,
segundo o Governador João António de Sá Pereira98, era antiga e contava com o hábito
de obsequiar os governadores para os ter sempre propícios afim de melhor continuar nos
grandes interesses que tira d'esta ilha....
A feitoria arrecadava o chamado tributo de nação, isto é, uma quantia sobre os produtos
exportados pelos ingleses, que no caso do vinho era de 240 réis por cada pipa, usado
depois para auxílio mútuo, apoio aos serviços médicos e religiosos da comunidade99. A
comunidade todos os anos no dia de Reis retribuíam os favores do governo da ilha, na
figura do Governador, com uma oferta de 600$000, que representava metade do que
auferia a autoridade de vencimento durante um ano.
Com o tratado de 1661 abriram-se de novo as portas para o domínio inglês do mercado
insular, mercê de medidas de privilégio e a isenção dos direitos de exportação do vinho.
Em 1689 foi-lhes concedida a faculdade de se fixarem com casas comerciais de vinho,
comestíveis e manufacturas, fazendo entrar na ilha os artigos de luxo100. Com o tratado de
Methuen (1703) pôs-se cobro à situação criada em 1684, ao mesmo tempo que se firmou
a dependência do mercado local ao inglês.
Os portugueses tornaram-se consumidores dos panos ingleses e fornecedores de vinho ao
mercado inglês. Segundo Alvaro Rodrigues de Azevedo o tratado trouxe para a Madeira
a mais apertada vassalagem ao mercantilismo britânico101. E isto foi de modo que em
97
. Public Record Office, FO , 811/1, fls.278, 31 de Janeiro de 1724.
. Veja-se AHU, Madeira e Porto Santo, nº 317, 30 de Abril de 1768. Sobre os ingleses na ilha veja-se Fernando Augusto da
SILVA, Elucidário Madeirense, 3 vols., Funchal 1984, entradas "ingleses", Estrangeiros, conservados dos ingleses, Cemitério
Britânico, igrejas inglesas; A.A. SARMENTO, "A Feitoria Inglesa", in Fasquias da Madeira, Funchal, 1951, pp. 99-103; Walter
MINCHINTON, "British Residents and their Problems in Madeira Before 1815", in Actas do II C.I.H.M., Funchal, 1990, pp. 477-492;
Desmond GREGORY, ob. cit.; Graham BLANDY (ed.) Copy of Record of the Establishement of the Chaplaincy and Notes on the Old
Factory at Madeira, Funchal, 1959.
99 . Esta situação é descrita do seguinte modo por H. Vizetelly [Facts about Port and Madeira, London, 1880, in Alberto Vieira,
História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, pp.394-395]: feitoria Britânica, a qual tinha quase um
monopólio do comércio de vinho da ilha, fixando anualmente o preço do mosto adquirido aos produtores, bem como também os
preços a que os vinhos deviam ser exportados. Ao lançar um imposto sobre cada pipa de vinho exportada por eles próprios, criaram
os fundos necessários para fazer um cemitério onde os súbditos britânicos podiam ser decentemente enterrados, pois nessa altura, os
corpos dos que näo eram de fé católica Romana eram insolentemente atirados ao mar. Antes de haver este cemitério, um membro da
feitoria que näo gostava nada da ideia do seu cadáver servir de comida aos peixes, implorou aos seus sócios que o enterrassem,
quando morresse, debaixo da sua secretária na casa da contabilidade. Secretamente, fizeram isso e o caixäo que tinha sido
preparado para o seu cadáver foi enchido de pedras e entregue às autoridades para ser lançado ao mar. Cf. ainda J. Jonhson,
Madeira…, London, 1885, in Alberto Vieira, História do Vinho da Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.407
100 . Todavia, passados quatro anos depois D. Pedro II deu um golpe nesse comércio especulativo de artigos de luxo ao interditar a
entrada de panos estrangeiros.
101Op. cit., p. 720.
98
1722102 aos vinhos produzidos na ilha só existia duas alternativas: ou embarcá-los para o
Brasil, ou vendê-los aos ingleses e por qualquer destes princípios lhes tinha pouca
conveniência, porque os ingleses os queriam extrair, como o extraiam, por muito
inferiores, por vezes a troco de alguns géneros comestíveis que lhes tinha pouca conta os
moradores dessa ilha....
Desde 1658 que os ingleses tinham um cônsul na ilha e vinham adquirindo importância
na sociedade local. Em 1725103, aquando da nomeação do cônsul Guilherme Rider, davase conta dos princípios porque se regiam as relações entre os dois reinos e dos privilégios
dos súbditos ingleses na ilha: E que as pessoas desta república possam livremente levar
aos reinos, portos e territórios de el-rei de Portugal, assim armas, pão, peixes com todos
os outros géneros e mercadorias e vendê-las a seu arbítrio ou pelo meudo ou por junto a
quaisquer homens ou por qualquer preço que poderem. As regalias foram confirmadas
todas as vezes que um novo cônsul tomava o lugar. Assim o sucedendo em 1751104 com
Guilherme Nayche e em 1779105 com David Bell, com a carta de privilégio concedida ao
comerciante estabelecido no Funchal.
No porto do Funchal a presença de armadas inglesas era constante. O relacionamento
com as autoridades locais amistoso, sendo recebidos pelo governador com toda a
hospitalidade. Destas relevam-se as de 1799 e 1805, compostas, respectivamente de 108 e
112 embarcações. Para além disto era assídua a presença de uma esquadra inglesa a
patrulhar o mar madeirense, sendo a de 1780 comandada por Jonhstone.
As expedições científicas do século XVIII conduziram a que instituições científicas
europeias ficassem depositários de algumas das Colecções: o Museu Britânico, a
Universidade de Kiel, Universidade de Cambridge, Museu de História Natural de Paris.
Por cá passaram destacados especialistas da época, sendo de realçar John Byron, James
Cook, Humbolt, John Forster. A lista é infindável, contando-se, entre 1751 e 1900, quase
uma centena de cientista.James Cook escalou a Madeira por duas vezes (1768 e 1772),
numa réplica da viagem de circum-navegação com interesse científico. Os cientistas,
Joseph Banks, J. Reinold Forster, que o acompanharam intrometeram-se no interior da
ilha à busca das raridades botânicas para a classificação e depois revelação à comunidade
científica. Na primeira viagem aportou ao Funchal a 12 de Setembro, sendo muito bem
recebido e homenageado com uma festa na casa do cônsul, Thomas Cheap.
Se o consulado pombalino foi pautado por um esfriamento na influência britânica as
invasões francesas, mais tarde, com os tratados de 1808, 1810 vieram repor a velha
ordem. As ocupações da ilha em 1801/2 e 1807/8106 que confirmaram o domínio
britânico. A primeira pelo coronel Clinton quase não se fez sentir mas não evitou o
nervosismo do governador que, em carta de 26 de Julho de 1801, dizia que em tudo tem
102ARM, RGCMF, t. 8, fol. 14.
103Idem, t. 8, fol. 37-52vº.
104Idem, t. 9, fols. 196vº-199.
105Idem, t. 12, fols. 108-109.
106A. Sarmento, Ensaios..., vol. III, pp. 147/163, 175/206.
sido necessário disfarçar107 e o desagrado dos estudantes108. Com a segunda o Majorgeneral W. C. Beresford conseguiu que o domínio efectivo da ilha passasse para a
administração inglesa. A curta permanência na ilha foi suficiente para confirmar e
reforçar o domínio britânico, através de medidas administrativas que conduziram à
diminuição das tarifas aduaneiras em certos produtos109 ou através dos salvo-condutos
aos navios110. As medidas confirmação pelo tratado de 1810111 que perdurou até 1836.
Os súbditos britânicos concretizaram a velha ambição de fazer da ilha um recanto de Sua
Majestade. O primeiro indício da apetência surgiu em 1661, quando nas negociações para
o dote do casamento da infanta D. Catarina com o rei Carlos II a parte inglesa reivindicou
a inclusão da ilha da Madeira. A tradição, que surge sempre quando os documentos se
calam, afirma que os madeirenses teriam recusado tal opção levando a coroa portuguesa a
substitui-la pela ilha de Bombaim e a fortaleza de Tanger, para além de uma elevada
quantia em dinheiro foi o resgate pago pelos madeirenses para manterem a fidelidade à
coroa portuguesa. Todavia a realidade parece ser outra. A doação feita em 1 de
Novembro de 1656 por D. João IV à Infante D. Catarina contraria o princípio que levou
D. Manuel em 1498 ao fazer reverter para a coroa a posse, ficando realenga para sempre,
pelo que não poderia ser alienada.
À figura de Napoleão associa-se a um período fulgurante da História da Madeira definido
pela dominância do vinho e pela cada vez mais omnipresente posição do inglês. Também
a ilha e o vinho desfrutaram de uma posição inigualável. Talvez por tudo isso, quando o
fatídico imperador passou pela ilha em Agosto de 1815 a caminho do exílio, o cônsul
inglês, Henry Veitch, não encontro melhor lembrança para lhe ofertar que tonel de
vinho112.
A conjuntura europeia protagonizada por Napoleão fizera com que o vinho madeirense
adquirisse uma posição dominante no mercado atlântico, fazendo aumentar a riqueza dos
ingleses, os principais comerciantes e consumidores. Diz a tradição que o tonel com o
precioso rubinéctar regressou à ilha, reclamado pelo doador. O vinho regressado à ilha
desmultiplicou-se, em 1840, em centenas de garrafas, que fizeram as delícias de inúmeros
ingleses. Churchill, de visita à ilha em 1950, foi um dos felizes contemplados.
A conjuntura política envolvente ao governo imperial de Napoleão Bonaparte repercutiuse de forma evidente no espaço atlântico, provocando uma alteração no movimento
comercial. O mútuo bloqueio continental entre a França e a Inglaterra lançaram as bases
para uma nova era da economia atlântica. Os circuitos comerciais que se iniciavam e
107Idem, pp. 152/3.
108Idem, pp. 160/1.
109ARM, RGCMF, t. 19, fol. 189vº.
110A. Sarmento, ibidem, p. 206.
111Vide texto do tratado in M. H. Pereira, Portugal no Século XIX. Revolução, Finanças, Dependência Externa, Lisboa, 1979, pp.
228/241.
112 . Quando nos referimos ao fim que teve Napoleão, todos, ou quase todos, reclamam a inevitável referência à passagem do mesmo
pela ilha ao caminho do cativeiro em Santa Helena e o retorno dos seus restos mortais em 1840. Alguns, mais afoitos, recordam a
importante peça literária que a esse propósito leu J. Reis Gomes na sessão da classe de letras da academia de Ciências em 18 de
Janeiro de 1934 e publicado, em separado, com o título O Anel do Imperador, Funchal, 1936. Na nossa mente estão outras questões
mais importantes, que definem o perfil do devir económico madeirense em tal momento.
finalizavam nos portos europeus, desapareceram, por algum tempo, pois o cordão
umbilical que os mantinha foi cortado. Neste contexto é evidente a valorização das ilhas
que passaram a dispor de um mercado aberto para os produtos como o vinho até aqui alvo
da concorrência do europeu.
Os ingleses, fiéis às ordens de Sua Majestade, acataram as determinações régias de 16 de
Maio de 1806, favorecendo, inevitavelmente, a Madeira. A partir daqui todas, ou quase
todas, as embarcações que se dirigiam aos portos franceses e castelhanos foram desviados
para a Madeira. Ademais os ingleses desfrutavam de uma posição preferencial, adquirida
pela argúcia das operações comerciais e amplos privilégios e garantias ditados pelas
forças britânicas que ocuparam a ilha. O empenho britânico era por demais evidente
sendo a única explicação plausível para a ocupação pelas tropas inglesas.
O facto mais evidente da conjuntura não foi a subordinação do madeirense à soberania
britânica mas o que isso implicou em termos da consolidação da comunidade. As
principais casas comerciais viram a posição reforçada dominando o mercado de
exportação de vinho e importação de artefactos e alimentos. O período que decorre a
partir da década de noventa do século dezoito foi marcado por uma acentuada subida da
produção do vinho resultante da cada vez maior procura nos mercados americano e
indico. O momento de 1794 a 1813 ficou para a História do vinho madeirense como o de
maior solicitação do mercado, atingindo-se no último ano o maior número de pipas
exportadas, isto é, cerca de 22.000.
A elevada procura de vinho fez esgotar os stocks, prejudicando o processo de
envelhecimento mas promovendo a expansão da cultura. O preço de venda era elevado e
a aposta na vinha compensadora. A conjuntura revolucionou as técnicas de vinificação,
adaptando-se a esta cada vez maior procura. Generalizou-se o uso das estufas e
aguardentes. As primeiras permitiram o rápido e prematuro envelhecimento dos vinhos,
enquanto as segundas possibilitaram o recurso a vinhos de baixa qualidade para o
embarque. A adulteração foi fatal para a boa reputação do vinho Madeira, repercutindose, mais tarde, com a abertura dos mercados europeus. A conjuntura emergente das
guerras napoleónicas propiciou um momento alto da economia vitivinícola, enquanto que
a derrota de Waterloo (1815) foi o prelúdio de próxima fatalidade para o vinho e a ilha.
Não conhecemos qualquer manifestação de agravo por parte da coroa inglesa à
inesperada mudança, mas de uma coisa temos a certeza, os ingleses nunca voltaram as
costas à ambição hegemónica, pelo que quando o momento o propiciasse a esperança
acabava por se tornar uma realidade. Sucedeu assim com a situação conturbada de
princípios do século dezanove e, mais perto de nós, com a célebre revolta da Madeira de
Abril de 1931113. Por algum tempo os ingleses não se coibiram de fazer jus à pretensão ao
proclamarem em Dezembro de 1807 a soberania britânica na ilha114.
Subjacente ao fascínio britânico, dizem alguns, está a polémica questão da lenda de
113 . Veja-se Maria Elisa F. Brazão, A Revolta da Madeira, Funchal, 1994.
114 . Cf. Paulo Miguel Rodrigues, A Política e as Questões Militares na Madeira. O Período das Guerras Napoleónicas, Funchal,
1999.
Machim. Diz-se até que ela era reabilitada a cada momento que semelhante conjuntura
fosse realidade. Teria sucedido assim na década de sessenta do século dezassete com a
promoção feita pela Epanáfora Amorosa de D. Francisco Manuel de Melo, repetindo-se
em 1814 com o benemérito Robert Page, que dizia ter encontrado o madeiro da vera cruz
que encimou a cova do par amoroso. Mas tudo isto não passará de mera coincidência,
considerada por alguns, como Álvaro Rodrigues de Azevedo e o Pe Eduardo Pereira, de
origem duvidosa. Todavia nunca vingaram os argumentos históricos na reivindicação
inglesa para a posse do arquipélago. Ela aconteceu de facto, servindo-se de favores
estabelecidos em tratados, de uma paulatina conquista do comércio da maior riqueza que
era o vinho. Existiu, na verdade, uma forte contestação à presença britânica na ilha no
século XIX. Uma está patente nas palavras do Juiz do povo, que em 1770 os
responsabilizava pela crise do comércio do vinho resultado da impunidade com que
actuavam na ilha.
A acção dos ingleses foi dominadora nos séculos XVIII e XIX controlando, não só as
vias de escoamento do vinho, como também o comércio e abastecimento do mercado
local. Desde os começos do século XVIII que as relações comerciais entre a Madeira e a
Inglaterra nunca mais deixam de crescer. Comerciantes ingleses desde há muito que
substituíam os flamengos ou italianos no conjunto da praça funchalense. Muitos activos
arrematam o vinho aos produtores e colocam-no nos mercados por eles controlados. Os
produtos manufacturados e os víveres que vêm da Inglaterra e colónias americanas em
troca do vinho para as suas mãos. Armadores ingleses garantem o grosso desse tráfego,
assim mesmo quando a balança comercial se equilibrava ou apresentava ligeiro
favorecimento à Madeira os lucros da própria exportação vinham acumular-se nas mãos
dos mercadores e armadores ingleses115. Uma das estratégias usadas pelos negociantes
ingleses era a troca antecipada do mosto por manufacturas.116
O predomínio inglês no mercado interno e externo madeirense era justificado em 1821
pela letargia e desprezo das classes abastadas locais: Os governos antigos quasi sempre
erão compostos de nobres e plebeus. Os primeiros vaidosos das suas honras e dos seus
talentos, olhavam para o negócio com um baixo e desprezível emprego e só nos segundos
competia as honrosas ocupações da agricultura, comércio e indústria. Nesta ilha
portanto o mesmo sistema prevaleceu e como os da segunda classe, conforme as
populações do país eram de poucos teres para se entregarem neste tráfico, deixaram
inteiramente apossar-se dele os estrangeiros, que aqui concorriam. A eles pertencia
suprir as faltas da província, em quanto os ociosos fidalgos (pois que aqui não há
nobres) vivendo do produto das suas terras, só cuidaram em sustentar a soberba e
ostentação de suas casas, pouco considerando, que vindo a faltar-lhes aqueles frutos,
ficariam também reduzidos à pobreza que nos mais tanto desprezavam117.
Os ingleses foram os únicos estrangeiros que conseguiram assumir uma posição
115. J. J. de Sousa, O Movimento do Porto do Funchal, p.99.
116 . J. Barrow, A Voyage to Conchinchina in the Years 1792 and 1793, London, 1806, in Alberto Vieira, História do Vinho da
Madeira. Documentos e Textos, Funchal, 1993, p.339; F. R. G. S., Wanderinghs in West Africa…, London, 1863, in Alberto Vieira,
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117Patriota Funchalense, nº 41, p. 2.
privilegiada na sociedade madeirense criando um mundo à parte e funcionando com
instituições próprias, privilégios exorbitantes, o controlo quase total da economia da ilha
e fruidores da riqueza: Os lucros provenientes desta ilha são, indubitavelmente, mais
consideráveis para a Grã-bretanha do que para a sua Terra mãe (Portugal), como
consequência do comércio realizado entre elas e da feitoria britânica aí estabelecida e
que consiste, presentemente, em mais de vinte casas comerciais e cujas fortunas
adquiridas se centram na Grã-bretanha. As outras nações pouco disputam aos Ingleses
neste seu comércio com a Madeira. Mesmo os Portugueses que tentaram competir com
eles, raramente prosperaram por terem, como se supõe, menos conhecimento comercial
assim como também, provavelmente, um capital e crédito mais pequenos e menos
ligações com estrangeiros. Os comerciantes Britânicos controlam, para seu interesse, os
cultivadores de vinha, fornecendo-lhes de antemão tudo o que eles necessitam, nos
intervalos da vindima e nas estações mais baixas. Os seus negócios com os habitantes
portugueses do Funchal também devem ser intensos; exceptuando este facto, parecem
não existir muitas relações sociais entre eles118.
A britanofobia madeirense, evidente em princípios dos séculos XIX e XX, confunde-se,
por vezes, com a afirmação do liberalismo e republicanismo, quando a origem parece ser
outra. A crise económica, com especial incidência no sector comercial, resultado do
desaparecimento do império britânico com a perda das colónias, a partir da
independência dos EUA, fez catalisar as vozes da revolta. O inglês era o principal
culpado porque cortara o cordão umbilical que ligava a Madeira ao Novo e Velho
Mundo. O mal ia mais fundo e filiava-se na secular ausência de uma burguesia comercial
madeirense capaz de protagonizar e apontar o papel dos súbditos de Sua Majestade. Foi
por isso que na Madeira se fez sentir o impacto negativo da crise do império. O século
XX contribuiu para o quase total apagamento da comunidade britânica na Madeira.
Paulatinamente os ingleses foram perdendo a hegemonia no comércio dos vinhos e
bordados. O processo de autonomia política, a partir de 1976, conduziu à completa
transformação da conjuntura económica, atribuindo aos nacionais o necessário
protagonismo.
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