1 FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS ESCOLA DE ADMINISTRAÇÃO DE EMPRESAS DE SÃO PAULO FRANCISCO JOSÉ DA COSTA A INFLUÊNCIA DO VALOR PERCEBIDO PELO CLIENTE SOBRE OS COMPORTAMENTOS DE RECLAMAÇÃO E BOCA A BOCA: uma investigação em cursos de pós-graduação lato sensu SÃO PAULO 2007 2 FRANCISCO JOSÉ DA COSTA A INFLUÊNCIA DO VALOR PERCEBIDO PELO CLIENTE SOBRE OS COMPORTAMENTOS DE RECLAMAÇÃO E BOCA A BOCA: uma investigação em cursos de pós-graduação lato sensu Tese apresentada à Escola de Administração de Empresas de São Paulo como requisito para a obtenção do grau de Doutor em Administração de Empresas. Área de concentração: Estratégias de Marketing Orientador: Prof. Dr. Marcos Henrique Nogueira Cobra SÃO PAULO 2007 3 Costa, Francisco José da. A influência do valor percebido pelo cliente sobre os comportamentos de reclamação e boca a boca: uma investigação em cursos de pós-graduação lato sensu / / Francisco José da Costa. - 2007. 240 f. Orientador: Marcos Henrique Nogueira Cobra. Tese (doutorado) - Escola de Administração de Empresas de São Paulo. 1. Valor (Economia). 2. Comportamento do consumidor. 3. Satisfação do consumidor. 4. Marketing de relacionamento. 5. Clientes – Contatos. 6. Marketing viral. I. Cobra, Marcos. II. Tese (doutorado) - Escola de Administração de Empresas de São Paulo. III. Título. CDU 658.89 4 Dedico este trabalho à minha esposa, Socorro Cláudia, atenta e colaborativa, e a meus pais José Nobre e Francisca Fernandes, a quem devo a vida e um exemplo de amor. 5 AGRADECIMENTOS Agradeço de modo especial ao professor Marcos Henrique Nogueira Cobra, meu grande orientador e incentivador ao longo do desenvolvimento da tese. Estendo este agradecimento ao professor Rubens da Costa Santos, que foi meu orientador durante os primeiros momentos deste trabalho. Seguramente, muito do que está escrito aqui não teria sido possível sem a colaboração destes mestres. Também tiveram uma grande contribuição para este trabalho os professores André Torres Urdan, e Nicolau André de Miguel, membros de minha banca de qualificação, e que providenciaram preciosas indicações de formas de aprimoramento do trabalho. Agradeço ainda aos professores Cláudia Buhamra e Dílson Gabriel, membros da banca examinadora. Quero agradecer à Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), que forneceu minha bolsa de estudos, sem a qual a realização do curso não teria sido possível. Também agradeço a todos os coordenadores dos cursos, aos professores e aos estudantes, por terem viabilizado a coleta de dados para o trabalho. Agradeço ainda aos diversos colegas com quem interagi durante a fase curricular, de maneira especial os colegas da linha de Estratégia de Marketing Hermes Moretti, Sylmara Dias, Suzana Zeido, Luiz Fernando, Paulo Biscola, e Zé Moreira, e os colegas de outras linhas, Helio Arthur, Fábio Meira, Eloy Eros, Vilmar Moreira, Teodósio, e tantos outros que não caberiam neste espaço. O meu muito obrigado pela companhia, e pelo apoio durante as dificuldades vividas. Devo agradecer aos professores que tive no curso, de maneira especial aos professores Ricardo Fasti e Juraci Parente. Agradeço, por fim, à Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP), que mais que qualquer outra instituição, trouxe uma grande contribuição para minha formação. 6 “Olhou, e não entendeu. Olhou novamente, e entendeu algo. Olhou mais uma vez, e entendeu muito... Mas não era o bastante. Continuou olhando...” (Zé Júlio – Poeta popular) 7 RESUMO Esta tese tem como tema central o valor para o cliente, e como finalidade principal explorar a relação entre valor e comportamentos de reclamação e de boca a boca. O trabalho justificou-se pela necessidade de uma análise conjunta dos três temas, como forma de viabilizar uma melhor compreensão destes temas como elementos relevantes do paradigma de marketing de relacionamento. Foi desenvolvida uma revisão da literatura sobre cada um dos temas, com maior extensão sobre o valor para o cliente. Em cada um destes foram apontados: uma visão geral dos temas; a discussão conceitual e a relevância teórica e prática de cada assunto; os principais desafios para pesquisa; aspectos relacionados à mensuração; e os desenvolvimentos dos temas no contexto brasileiro. Foi elaborado a partir desta revisão um total de cinco proposições, que geraram dois modelos estruturais aos quais foram agregadas as proposições conceituais associadas aos construtos de benefício e de sacrifício como dimensões de valor para o cliente. Para avaliar os dois modelos, decidiu-se proceder a um levantamento de dados, por meio de um questionário estruturado, junto a estudantes de cursos de pós-graduação lato sensu da área de gestão, na cidade de Fortaleza. Foram coletados 261 questionários, dos quais 248 foram utilizados nas análises. Os modelos foram avaliados a partir da técnica de Modelagem de Equações Estruturais, tendo-se destacado os seguintes resultados: com relação à reclamação, identificou-se que, quanto mais os clientes percebem valor nos serviços, mais se tornam predispostos a reclamar, e mais efetivamente reclamam; quanto ao comportamento de boca a boca, verificou-se que quanto mais valor os clientes percebem, mais são predispostos a tais comunicações, e efetivamente falam mais intensamente e mais favoravelmente. Adicionalmente, foram identificadas algumas dificuldades com as proposições conceituais, e com os antecedentes do valor. Com base nos resultados, são apontadas algumas recomendações para outras pesquisas envolvendo os temas em questão, como forma de superar as limitações identificadas, e de avaliar os problemas identificados em cada um dos temas. Palavras-chave: valor para o cliente; reclamação; boca a boca. 8 ABSTRACT This dissertation has the customer value as the main subject, and the main purpose was to analyze the relationship of value with complaining and word-of-mouth behaviors. The research is justified for the necessity of a scientific analysis putting the three subjects together, in order to make possible a better comprehension of them as elements of the marketing relationship paradigm. This way, it was done a research on the academic literature of each subject, more extensively on customer value. For each subject, it was appointed: an overall analysis; a discussion about the concepts and the theoretical and practical relevance; the main challenges for academic research; aspects of measurement; and the development of researches on the subject in the Brazilian context. From the literature evaluation, five propositions were developed, what generated two different structural models. Conceptual propositions related to the benefits and sacrifices dimensions related to customer value concept were also put in the models. In order to evaluate the two models, a questionnaire was prepared, and the data collected with students of management lato sensu post graduate courses from Fortaleza. A total of 261 questionnaires were collected, and 248 were used in the analysis. Structural Equation Modeling were used to evaluate the models, and the main results were: related to complaining behavior, it was identified that value perceived influences positively the complaining intention, and the action of complaining; related to word-of-mouth, it was identified that value perceived influences positively the word-of-mouth intention, and also the behavior intensity and favorability. In addition, some difficulties were found relating the value conceptual propositions, both with the benefits and the sacrifices dimensions. From the results, some research recommendations involving the subjects were suggested, as a way to solve the limitations of this research, and to evaluate the problems identified in each one of the subjects. Key words: Customer value; complaining behavior; word-of-mouth. 9 FRANCISCO JOSÉ DA COSTA A INFLUÊNCIA DO VALOR PERCEBIDO PELO CLIENTE SOBRE OS COMPORTAMENTOS DE RECLAMAÇÃO E BOCA A BOCA: Uma investigação em cursos de pós-graduação lato sensu Tese apresentada à Escola de Administração de Empresas de São Paulo como requisito para a obtenção do grau de Doutor em Administração de Empresas. Área de Marketing concentração: Estratégias de Data de defesa: 02 de fevereiro de 2007 Banca Examinadora _____________________________________ Prof. Dr. Marcos Henrique Nogueira Cobra (Orientador) – FGV / EAESP _____________________________________ Prof. Dr. André Torres Urdan FGV / EAESP _____________________________________ Prof. Dr. Nicolau André de Miguel FGV / EAESP _____________________________________ Prof. Dr. Cláudia Buhamra Abreu Romero UFC _____________________________________ Prof. Dr. Dílson Gabriel dos Santos FEA /USP 10 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Modelo de relacionamento de preço, qualidade e valor ........................... 32 Figura 2 – Processo de determinação do valor ......................................................... 35 Figura 3 – Correntes de estudos sobre valor ............................................................ 36 Figura 4 – Eixos e abordagem do valor percebido .................................................... 46 Figura 5 – O modelo da compensação ..................................................................... 49 Figura 6 – Os cinco valores que influenciam o comportamento de escolha ............. 53 Figura 7 – Hierarquia de valor ................................................................................... 56 Figura 8 – Tipos de respostas à insatisfação ............................................................ 83 Figura 9 – Comportamento pós-compra online .........................................................87 Figura 10 – Antecedentes e conseqüências da satisfação ....................................... 88 Figura 11 – Modelo do Índice de Satisfação do Consumidor [Norte-] Americano ..... 89 Figura 12 – Modelo do processo de gerenciamento de reclamações ....................... 92 Figura 13 – Modelo de predisposições comportamentais de Cronin Jr., Brady e Hult ... 99 Figura 14 – Modelo de predisposições de boca a boca de Hartline e Jones ........... 99 Figura 15 – Modelo de predisposições de boca a boca de Petrick. ........................ 100 Figura 16 – Modelo de comportamento de boca a boca de Brown et al. ................ 101 Figura 17 – Modelo de Harrison-Walker.................................................................. 102 Figura 18 – Modelo de ações comportamentais...................................................... 109 Figura 19 – Modelo de predisposições comportamentais ....................................... 110 Figura 20 – Modelos relacionados ao valor percebido ............................................ 110 Figura 21 – Esquema geral do trabalho .................................................................. 114 Figura 22 – Modelo de ações comportamentais: valor unidimensional ................... 184 Figura 23 – Modelo de ações comportamentais: valor multidimensional reflexivo .. 188 Figura 24 – Modelo de predisposições comportamentais: valor unidimensional..... 191 Figura 25 – Modelo de predisposições comportamentais: valor multidimensional reflexivo ............................................................................................... 195 11 LISTA DE QUADROS Quadro 1 – Formas multidimensionais de valor ........................................................ 60 Quadro 2 – Escala de valor – PERVAL..................................................................... 71 Quadro 3 – Escala de valor – SERV-PERVAL .......................................................... 72 Quadro 4 – Escala de valor – VVBB ......................................................................... 74 Quadro 5 – Esferas de influência sobre a reclamação ............................................. 85 Quadro 6 – Itens utilizados na mensuração das dimensões de valor ..................... 124 Quadro 7 – Itens utilizados na mensuração de ações comportamentais ............... 125 Quadro 8 – Itens utilizados na mensuração de predisposições comportamentais .. 126 Quadro 9 – Resultados finais das proposições ....................................................... 206 12 LISTA DE TABELAS Tabela 1 – Número de cursos e crescimento .......................................................... 141 Tabela 2 – Número médio de cursos ...................................................................... 142 Tabela 3 – Número de matrículas e conclusões ..................................................... 142 Tabela 4 – Dados sobre cursos de especialização em Fortaleza ........................... 143 Tabela 5 – Instituições e cursos .............................................................................. 145 Tabela 6 – Idade dos respondentes ........................................................................ 147 Tabela 7 – Renda familiar mensal........................................................................... 147 Tabela 8 – Áreas de formação na graduação ......................................................... 148 Tabela 9 – Tempo de experiência na área do curso ............................................... 149 Tabela 10 – Condição atual de trabalho.................................................................. 149 Tabela 11 – Motivos para realização do curso ........................................................ 150 Tabela 12 – Resultados para qualidade percebida ................................................. 152 Tabela 13 – Resultados para reputação percebida................................................. 152 Tabela 14 – Resultados para benefício social percebido ........................................ 153 Tabela 15 – Resultados para sacrifício monetário percebido.................................. 154 Tabela 16 – Resultados para sacrifício não monetário percebido........................... 154 Tabela 17 – Resultados para valor percebido geral ................................................ 155 Tabela 18 – Resultados para intensidade das ações de boca a boca .................... 156 Tabela 19 – Resultados para favorabilidade das ações de boca a boca ................ 156 Tabela 20 – Resultados para ações de reclamação ............................................... 157 Tabela 21 – Resultados para predisposição a ações de boca a boca .................... 158 Tabela 22 – Resultados para predisposição a ações de reclamação ..................... 158 Tabela 23 – Matriz dos fatores de benefícios percebidos ....................................... 160 Tabela 24 – Matriz dos fatores de sacrifícios percebidos........................................ 161 Tabela 25 – Matriz dos fatores de ações comportamentais .................................... 162 Tabela 26 – Matriz dos fatores de predisposições comportamentais...................... 163 Tabela 27 – Medidas de ajustamento de qualidade percebida .............................. 167 Tabela 28 – Escores de qualidade e respectivos CRs. ........................................... 167 Tabela 29 – Medidas de ajustamento de reputação percebida .............................. 168 Tabela 30 – Escores de reputação e respectivos CRs............................................ 168 13 Tabela 31 – Medidas de ajustamento de benefício social percebido ..................... 169 Tabela 32 – Escores de benefício social e respectivos CRs ................................... 169 Tabela 33 – Medidas de ajustamento de sacrifício monetário percebido ............... 170 Tabela 34 – Escores de sacrifício monetário e respectivos CRs............................. 170 Tabela 35 – Medidas de ajustamento de sacrifício não monetário percebido ........ 171 Tabela 36 – Escores de sacrifício não monetário e respectivos CRs...................... 171 Tabela 37 – Medidas de ajustamento de valor percebido geral (pelas variáveis observáveis) ........................................................................................ 172 Tabela 38 – Escores de valor percebido geral e respectivos CRs (pelas variáveis observáveis) ......................................................................................... 172 Tabela 39 – Medidas de ajustamento de valor percebido geral (pelas variáveis latentes) ............................................................................................... 173 Tabela 40 – Escores de valor percebido geral e respectivos CRs (pelas variáveis latentes)................................................................................................ 173 Tabela 41 – Resumo das medidas dos construtos de valor percebido ................... 174 Tabela 42 – Medidas dos construtos de valor percebido e respectivos CRs .......... 174 Tabela 43 – Medidas de ajustamento de intensidade de BAB ................................ 176 Tabela 44 – Escores de intensidade de BAB e respectivos CRs ............................ 176 Tabela 45 – Medidas de ajustamento de favorabilidade de BAB ........................... 176 Tabela 46 – Escores de favorabilidade de BAB e respectivos CRs ........................ 177 Tabela 47 – Medidas de ajustamento de reclamação ............................................ 177 Tabela 48 – Escores de reclamação e respectivos CRs ......................................... 178 Tabela 49 – Medidas de ajustamento de predisposição a BAB ............................. 179 Tabela 50 – Escores de predisposição a BAB e respectivos CRs .......................... 179 Tabela 51 – Medidas de ajustamento de predisposição a reclamação .................. 180 Tabela 52 – Escores de predisposição a reclamação e respectivos CRs ............... 180 Tabela 53 – Resumo das medidas dos construtos de boca a boca e reclamação.. 181 Tabela 54 – Medidas dos construtos de boca a boca e reclamação e CRs ............ 181 Tabela 55 – Variância extraída e compartilhada entre construtos........................... 182 Tabela 56 – Medidas de ajustamento – valor unidimensional ................................. 184 Tabela 57 – Parâmetros estimados – valor unidimensional .................................... 185 Tabela 58 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional formativo .............. 186 Tabela 59 – Parâmetros estimados – valor multidimensional formativo.................. 187 Tabela 60 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional reflexivo................ 189 14 Tabela 61 - Parâmetros estimados – valor multidimensional reflexivo.................... 190 Tabela 62 – Medidas de ajustamento – valor unidimensional ................................. 192 Tabela 63 – Parâmetros estimados – valor unidimensional .................................... 192 Tabela 64 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional formativo .............. 193 Tabela 65 – Parâmetros estimados – valor multidimensional formativo.................. 194 Tabela 66 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional reflexivo................ 195 Tabela 67 – Parâmetros estimados – valor multidimensional reflexivo ................... 196 Tabela 68 – Resumo de medidas do ‘modelo de ações comportamentais’ ............ 197 Tabela 69 – Resumo de medidas do ‘modelo de predisposições comportamentais’ ....199 15 SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 18 1.1. PRECEDENTES E DELIMITAÇÃO TEMÁTICA............................................. 18 1.2. DESENVOLVIMENTO DO PROBLEMA DE PESQUISA ............................... 23 1.3. DESENVOLVIMENTO DOS OBJETIVOS...................................................... 23 1.4. RELEVÂNCIA TEÓRICA DO TRABALHO ..................................................... 24 1.5. RELEVÂNCIA PRÁTICA DO TRABALHO ..................................................... 26 1.6. ESTRUTURA DO TRABALHO....................................................................... 27 2. REFERENCIAL TEÓRICO.................................................................................... 29 2.1. DIAGNÓSTICO DO TEMA VALOR ................................................................ 29 2.1.1. O valor em pauta .................................................................................. 31 2.1.2. Correntes de pensamento em valor...................................................... 35 2.1.2.1. Estudos sobre as influências centrais ..................................... 37 2.1.2.2. Estudos sobre as perspectivas recentes ................................. 41 2.1.2.3. Estudos sobre os novos desenvolvimentos............................. 43 2.1.3. Desafios da literatura sobre valor ......................................................... 45 2.2. A CONCEITUAÇÃO DE VALOR .................................................................... 46 2.2.1. Modelos de definição............................................................................ 47 2.2.1.1 O modelo dos componentes de valor ...................................... 47 2.2.1.2. O modelo da compensação .................................................... 48 2.2.1.3. Modelo meios-fins ................................................................... 51 2.2.2. A questão da dimensionalidade............................................................ 57 2.2.3. A questão do sacrifício ......................................................................... 61 2.3. A MENSURAÇÃO DO VALOR ....................................................................... 63 2.3.1. Considerações sobre mensuração em marketing................................. 63 2.3.2. Medição do valor .................................................................................. 65 2.3.2.1. Medições para relacionamento com outros construtos ........... 66 2.3.2.2. Escalas específicas de mensuração do valor ......................... 70 2.4. ABORDAGENS DO TEMA VALOR NO BRASIL ............................................ 75 2.5. COMPORTAMENTOS DE RECLAMAÇÃO E BOCA A BOCA....................... 78 2.5.1. O comportamento de reclamação......................................................... 79 16 2.5.1.1. Conceito e relevância teórica.................................................. 81 2.5.1.2. Abordagens relevantes do tema ............................................. 82 2.5.1.3. Mensuração da reclamação.................................................... 89 2.5.1.4. Abordagens do tema reclamação no Brasil ............................ 91 2.5.2. O comportamento de boca a boca........................................................ 94 2.5.2.1. Conceito e relevância teórica.................................................. 96 2.5.2.2. Abordagens relevantes do tema ............................................. 97 2.5.2.3. Mensuração do boca a boca................................................. 103 2.5.2.4. Abordagens do tema boca a boca no Brasil ......................... 106 2.6. OS MODELOS DESTA TESE ...................................................................... 109 2.7. SÍNTESE DO CAPÍTULO ............................................................................. 111 3. DISCUSSÃO METODOLÓGICA ........................................................................114 3.1. DELINEAMENTO DA ETAPA EXPLORATÓRIA ......................................... 115 3.1.1. Primeira fase da pesquisa .................................................................. 115 3.1.2. Segunda fase da pesquisa ................................................................. 116 3.1.2.1. Procedimentos exploratórios e definição do setor ................ 116 3.1.2.2. Pesquisa qualitativa .............................................................. 119 3.2. INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS .................................................. 121 3.2.1. Procedimentos gerais ......................................................................... 122 3.2.2. Discussão das escalas ....................................................................... 122 3.3. PROCEDIMENTOS E DECISÕES SOBRE A COLETA DE DADOS ........... 126 3.4. PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE ESTATÍSTICA ....................................... 127 3.4.1. Análise exploratória preliminar............................................................ 127 3.4.2. Análise univariada e multivariada ....................................................... 128 3.4.3. Modelagem de Equações Estruturais ................................................. 129 4. TRABALHO EMPÍRICO...................................................................................... 136 4.1. CURSOS DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU ....................................... 136 4.1.1. Base conceitual ..................................................................................136 4.1.2. Problemas dos cursos ........................................................................ 137 4.1.3. Perspectivas e aplicações .................................................................. 140 4.1.4. Dados estatísticos .............................................................................. 141 4.2. ANÁLISE EXPLORATÓRIA PRELIMINAR .................................................. 144 4.3. DESCRIÇÃO DA AMOSTRA ....................................................................... 145 4.3.1. Informações demográficas ................................................................. 146 17 4.3.2. Informações associadas ao serviço.................................................... 147 4.4. ANÁLISE UNIVARIADA DAS VARIÁVEIS DOS CONSTRUTOS ................ 151 4.4.1. Variáveis associadas ao valor percebido............................................ 151 4.4.2. Variáveis associadas às ações comportamentais .............................. 155 4.4.3. Variáveis associadas às predisposições comportamentais ................ 157 4.5. ANÁLISE MULTIVARIADA...........................................................................159 4.5.1. Análises multivariadas preliminares.................................................... 159 4.5.1.1. Análise Fatorial Exploratória.................................................. 159 4.5.1.2. Confiabilidade da mensuração dos construtos ...................... 164 4.5.2. Análise da mensuração dos construtos .............................................. 166 4.5.2.1. Construtos associados aos benefícios percebidos................ 167 4.5.2.2. Construtos associados aos sacrifícios percebidos ................ 170 4.5.2.3. Construto valor percebido geral............................................. 171 4.5.2.4. Construtos associados às ações comportamentais............... 175 4.5.2.5. Construtos associados às predisposições comportamentais.....178 4.5.2.6. Análise de validade discriminante ......................................... 181 4.5.3. Análise dos modelos estruturais ......................................................... 183 4.5.3.1. Modelos de ações comportamentais ..................................... 183 4.5.3.2. Modelos de predisposições comportamentais....................... 190 4.5.4. Discussão adicional dos resultados.................................................... 196 4.6. SÍNTESE DO CAPÍTULO............................................................................. 201 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 204 5.1. DISCUSSÃO GERAL DOS RESULTADOS ................................................. 204 5.2. IMPLICAÇÕES ACADÊMICAS .................................................................... 207 5.3. IMPLICAÇÕES GERENCIAIS...................................................................... 209 5.4. LIMITAÇÕES E SUGESTÕES DE FUTURAS PESQUISAS ....................... 212 REFERÊNCIAS....................................................................................................... 215 APÊNDICES ........................................................................................................... 227 APÊNDICE 1 – ROTEIRO PARA ENTREVISTA EM PROFUNDIDADE................. 228 APÊNDICE 2 – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS .................................... 230 APÊNDICE 3 – FREQÜÊNCIAS NAS RESPOSTAS .............................................. 235 APÊNDICE 4 – CONFIABILIDADE DAS ESCALAS ............................................... 238 APÊNDICE 5 – COEFICIENTES DE DETERMINAÇÃO NOS MODELOS ............. 240 18 1. INTRODUÇÃO Este capítulo traz a introdução do trabalho de tese desenvolvido, tendo sido estruturado da seguinte maneira: inicialmente, são apresentados os precedentes do estudo, e a delimitação da temática, com a exposição dos principais recortes feitos para viabilizar a pesquisa; a partir desta delimitação, os dois itens seguintes trazem, respectivamente, o desenvolvimento do problema de pesquisa e os objetivos do trabalho; em seguida, é feita uma discussão sobre a relevância teórica, seguida de uma exposição da relevância prática do tema definido; por fim, apresenta-se a estrutura das demais partes do trabalho. 1.1. PRECEDENTES E DELIMITAÇÃO TEMÁTICA O tema valor percebido tem sido objeto de vários estudos na área de comportamento do consumidor1, especialmente a partir dos anos 1980. Os trabalhos de Zeithaml (1988), Sheth, Newman, Gross (1991), Woodruff, Shumann e Gardial (1993), Woodruff (1997), Holbrook (1996; 1999), Payne e Holt (2001), dentre outros, são ilustrações do esforço feito por pesquisadores em marketing para compreender como os clientes percebem valor, e qual a melhor maneira de operacionalizar o valor como construto. É possível crer que a justificativa para tal atenção ao tema está relacionada à percepção de que um dos principais papéis da função mercadológica na organização é gerar continuamente valor aos clientes, e não apenas oferecer satisfação, ou qualidade (normalmente aquilo que os fornecedores [e não os clientes], do bem ou serviço entendem como qualidade). Vejamos alguns argumentos que sustentam esta interpretação. No que tange à questão da satisfação, a mudança de perspectiva tem vários 1 Há discordâncias com relação à filiação da disciplina Comportamento do Consumidor à disciplina de Marketing, tendo-se como argumento principal a diversidade de áreas do conhecimento que abordam os temas de comportamento do consumidor (SHETH; GARDNER; GARETT, 1988). Para este trabalho segue-se o entendimento de que o Comportamento do Consumidor constitui-se uma subdisciplina de Marketing. 19 adeptos, alguns com argumentações bastante consistentes. Gardner (2001), por exemplo, observou que as empresas que buscam lealdade e relacionamento duradouro com seus clientes devem modificar o pressuposto de que a averiguação da satisfação irá providenciar condições para tanto, devendo-se focar naquilo que os clientes valorizam na empresa. Neal (1999) também foi enfático em afirmar que a satisfação é relevante, mas é o valor percebido pelos clientes naquilo que a empresa lhe oferece que irá dirigir sua lealdade. Em uma perspectiva baseada no valor percebido, a satisfação é encarada como uma conseqüência ou um elemento influenciador (a partir do benefício e do sacrifício percebidos) da lealdade dos clientes (DAY, 2002; e PETRICK, 2004). A satisfação se torna, portanto, decorrente do foco organizacional na entrega do benefício que o cliente avalia mais favoravelmente, e da redução do sacrifício. Concernente à questão da oferta de qualidade, esta foi durante muito tempo o foco da oferta de valor ao cliente. Conforme argumentou Santos (1996, p. 24), foi comum o entendimento de que o “valor de um produto ou serviço estava se referindo à qualidade contida neste item e o quanto esse item custava para ele”. No entendimento do mesmo autor, o conhecimento adquirido sobre o valor percebido pelos clientes de um produto2 envolve questões muito além da qualidade e do custo, ou seja, a idéia de que a atividade de marketing deveria se orientar para a entrega de produtos com nível cada vez maior de qualidade a um custo cada vez menor não corresponde inteiramente a um ideal de atendimento das expectativas dos clientes, uma vez que a qualidade, a despeito de sua importância em marketing, não é mais que um elemento de valor a ser entregue ao cliente. Nestes termos, uma perspectiva de marketing mais ampla e mais completa surge a partir do momento em que o foco se concentra no valor que o cliente percebe nas relações de consumo (ZEITHAML, 1988; SANTOS, 1996; e WOODRUFF, 1997). Esta perspectiva tem o potencial de reorientar toda a estrutura de oferta de produtos, e várias das atividades mercadológicas. O que parece inicialmente trivial tem, em realidade, grandes impactos tanto na pesquisa como na prática de marketing. É 2 Doravante, neste trabalho será utilizada a palavra produto como se referindo tanto a um bem quanto a um serviço. 20 ilustrativa a perspectiva colocada por Slater (1997) que chega a falar em uma nova teoria da firma, esta desenvolvida a partir de uma visão de negócios totalmente gerada a partir da idéia de valor ao cliente. Ao mesmo tempo em que esta temática revela sua importância nos contextos profissional e acadêmico em marketing, muitas questões ainda são motivos de debates, a começar pelo conceito de valor, o que já rendeu esforços de vários autores, conforme mostrado por Woodruff (1997) e Khalifa (2004), dentre outros3. Além deste debate, encontram-se ainda algumas divergências e desafios em torno da mensuração do valor, como evidenciado em Sweeney e Soutar (2001), Petrick (2002) e Paiva (2004), e também da elaboração de esquemas interpretativos do valor tem sido objeto de atenção, como se observa nas propostas de Sheth, Newman e Gross (1991), Woodruff (1997), Holbrook (1996; 1999). Por fim, tem maior destaque e maior dinamismo o desafio relacionado ao entendimento dos antecedentes do valor percebido pelo cliente4, e do relacionamento deste com vários outros construtos (ao longo do referencial teórico as questões acima serão retomadas, com avanços direcionados ao propósito traçado por este trabalho). O desenvolvimento de uma pesquisa em um campo desta relevância na teoria mercadológica é uma das principais motivações deste trabalho, e as questões ainda em aberto concernentes a este tema são prova de que a proposta de abordá-lo em uma tese é consistente. Com efeito, a temática do valor percebido está longe de um esgotamento teórico, e caminha ainda lentamente no sentido da consolidação de seus pressupostos no universo prático de marketing, carecendo de maiores esforços no campo científico. Seguramente não é simples a tarefa empreendida pelos pesquisadores de 3 Como poderá ser observado no item 2.2, a definição mais recorrente e que servirá de base para este trabalho entende valor com a compensação entre benefícios e sacrifícios da compra ou consumo. A relevância deste debate reside na possibilidade de redirecionamentos na operacionalização do construto, conforme está mostrado no capítulo de revisão de literatura desta tese. 4 A literatura sobre valor não é uniforme quanto a expressão mais adequada. São mais comuns as expressões ‘valor para o cliente’ e ‘valor percebido pelo cliente’. Mesmo considerando as possíveis ambigüidades que a primeira expressão pode conter (por haver o risco de uma confusão com os valores pessoais do cliente), optou-se nesta tese pelo entendimento das duas expressões como sinônimas. 21 comportamento do consumidor no sentido de ampliar a compreensão do valor percebido (PARASUARAMAN, 1997; LARENTIS; GASTAL, 2004), mas cada nova pesquisa e cada novo olhar sobre o tema têm sua contribuição na consolidação de uma literatura ampla e consistente. Esta crença motiva o desenvolvimento deste trabalho, que, apesar de abordar outros construtos relevantes em marketing, tem uma orientação predominantemente sobre o valor que os clientes percebem no consumo de produto. Por outro lado, a dimensão mais dinamicamente abordada nos estudos orientados para compreender o valor para o cliente refere-se às associações deste construto com outros, tais como qualidade percebida, lealdade, risco percebido, dentre outros. A partir da análise exploratória da literatura chegou-se à conclusão de que o foco exclusivo sobre o valor percebido não é em si bastante para o desenvolvimento de uma tese de doutorado, tendo-se tomado o desafio de identificar elementos adicionais a partir dos quais se possa desenvolver uma discussão consistente com a temática. Assim, para este trabalho definiram-se como temas adicionais os comportamentos de reclamação e boca a boca5. A motivação para esta decisão está relacionada, primeiramente, a uma propensão pessoal deste pesquisador, e adicionalmente, pelo fato destes comportamentos serem de grande relevância, e apresentarem diversas lacunas teóricas na análise de seus antecedentes. Estes dois comportamentos, assim como o valor percebido, têm sido objetos de análise de vários autores da área em comportamento do consumidor. Sua análise consiste em uma preocupação coerente com uma teoria de marketing que se orienta para a construção de um relacionamento duradouro e vantajoso entre as empresas e os clientes. Com efeito, o desenvolvimento e a consolidação do paradigma de marketing focado no relacionamento têm como um de seus pré-requisitos a compreensão de como os clientes se comportam após a compra e o consumo de um produto ou serviço. A literatura sobre o assunto apresenta alguns recortes convencionais na forma como 5 A literatura utiliza tanto a expressão boca-a-boca como boca a boca. Nesta tese optou-se pela expressão não hifenizada, que segue a interpretação do Dicionário Aurélio (FERREIRA, 2004), e que parece captar melhor as diversas nuances de sentido da expressão. 22 estes comportamentos são analisados: diversos estudos analisam cada comportamento na forma de intenções (ou de predisposições) de proceder à ação, forma que será aqui identificada por ‘predisposições comportamentais’6; a segunda refere-se às ações efetivadas, que serão aqui genericamente chamadas de “ações comportamentais”. Em ambas as dimensões, a quantidade de pesquisas é considerável, de modo que se optou por abordar as duas perspectivas. Em síntese, a presente proposta teórica consiste em analisar especificamente os comportamentos de ‘reclamação’ e de ‘boca a boca’, tanto na forma de predisposições a proceder a estes comportamentos quanto na forma de ações procedidas, tomando o valor percebido como um construto de influência. As delimitações acima procedidas estão de acordo com um conjunto significativo de trabalhos já realizados, como poderá ser verificado adiante. Por outro lado, não se evidenciou na literatura pesquisada nenhuma tentativa de abordagem envolvendo estes dois comportamentos e o valor percebido conjuntamente. Neste sentido, a análise aqui desenvolvida consiste em uma relevante contribuição para o conhecimento tanto de valor para o cliente quanto de comportamentos estudados7. Por outro lado, tal proposição não pode ser pensada consistentemente sem levar em conta o contexto específico de análise. Com efeito, a natureza do produto ou serviço e as características do contexto onde o consumo se dá, entre outros fatores, são determinantes na forma como as temáticas acima se associam, de modo que se faz necessário definir mais precisamente o contexto empírico da pesquisa. Neste sentido, optou-se por analisar os consumidores diretos de serviços educacionais (estudantes), com foco específico sobre os clientes de instituições 6 A literatura internacional utiliza recorrentemente a expressão “behavioral intentions”, que em uma tradução literal seria ‘intenção comportamental’. Benet (1995, p. 22) aponta a seguinte definição para a expressão (que se ajusta ao propósito deste trabalho): “a cognitive plan to perform a behavior or action (“I intent to go shopping later”), created through a choice/decision process that focuses on beliefs about the consequences of the action”. Por outro lado, a avaliação dos trabalhos indica que a expressão em Português corresponderia mais a um conceito de tendência, inclinação, ou predisposição. A expressão ‘intenção comportamental’ sugere dubiedade, tendo-se optado, portanto, pela utilização da expressão predisposição. Maiores detalhes são apontados no capítulo 2. 7 Há precedentes de outros estudos já desenvolvidos com orientação semelhante, mas associando qualidade percebida e comportamentos pós-consumo (ZEITHAML; PARASURAMAN; BERRY, 1996), ou valor percebido e satisfação (BEI; CHIAO, 2001; DAY, 2002; McDOUGALL; LEVESQUE, 2000), porém relativamente à proposição aqui apresentada ainda não houve indicação na literatura pesquisada sobre os temas. 23 voltadas para o ensino superior, que contratam serviços de pós-graduação lato sensu. O recorte geográfico será a cidade de Fortaleza, capital do Estado do Ceará. Uma discussão sobre esta opção e suas conseqüências está apresentada no capítulo 3. As observações e delimitações acima foram apresentadas para justificar este trabalho. O tópico seguinte parte desta convicção para apresentar o problema central da pesquisa a ser desenvolvida. 1.2. DESENVOLVIMENTO DO PROBLEMA DE PESQUISA As temáticas abordadas no trabalho sugerem um conjunto de questões a serem respondidas. Algumas destas são: o que constitui valor no consumo em serviços educacionais? Quais são os comportamentos de pós-consumo mais recorrentes por parte dos consumidores destes serviços? Há implicações da forma como os clientes percebem valor com o modo como se comportam? Caso sim, qual a natureza destas implicações? A partir destas questões, foi definido como problema central da pesquisa o seguinte: De que modo o valor percebido pelos clientes influencia os comportamentos de reclamação e boca a boca nos consumidores de serviços? 1.3. DESENVOLVIMENTO DOS OBJETIVOS A partir do conteúdo da justificativa exposta anteriormente, e do problema de pesquisa delimitado, foi definido como objetivo geral do trabalho o seguinte: Analisar, no contexto de serviços de ensino superior privado, o relacionamento entre a percepção de valor por parte dos clientes e seus comportamentos de reclamação e de boca a boca. Como objetivos específicos foram definidos os seguintes: a) Identificar como os clientes de serviços educacionais percebem valor durante o consumo (atividade de formação) destes serviços; b) Analisar os comportamentos de reclamação e de boca a 24 boca nas formas de predisposição e de ação efetivada; c) Compreender o relacionamento entre valor percebido pelos clientes e as predisposições e as ações de reclamação; d) Compreender o relacionamento entre valor percebido pelos clientes as predisposições e as ações de boca a boca. 1.4. RELEVÂNCIA TEÓRICA DO TRABALHO Na reflexão de Voss (2003), o valor da contribuição de uma pesquisa se define a partir de duas dimensões: a exploração de conceitos centrais de uma disciplina ou tema; e a ligação entre estes conceitos. Para o autor, uma contribuição significativa seria aquela que explora os mesmos conceitos centrais dando uma nova abordagem (que o autor chama de inovação arquitetural), ou quando explora novos conceitos, e dá uma nova estrutura à disciplina ou à temática (inovação radical). Nestes termos, é possível assegurar a relevância que esta tese tem na dimensão teórica, uma vez que, mesmo operacionalizando conceitos já abordados na literatura de marketing e de comportamento do consumidor, o faz de maneira ainda não realizada na literatura especializada, viabilizando uma inovação arquitetural para a teoria sobre valor para o cliente, e para os estudos de reclamação e boca a boca. A perspectiva aqui abordada contribui assim para os três temas. Primeiramente, este estudo significa mais um avanço no debate rumo a uma compreensão mais ampla do tema valor para o cliente, uma demanda ainda bastante evidente nos estudos de comportamento do consumidor, como argumentam Parasuraman (1997) e Larentis e Gastal (2004). De acordo com os argumentos de Day (2002), a compreensão do valor percebido em conexão com construtos satisfação e insatisfação, e com os demais associados aos julgamentos pós-consumo, constitui uma das direções de avanço no entendimento do valor percebido. A pergunta de pesquisa a ser respondida e os objetivos a serem atingidos nesta tese seguem nesta direção. Acredita-se, portanto, que este trabalho complemente os demais estudos já 25 encaminhados, e ao mesmo tempo promova uma inovação em termos de pesquisa. Esta crença vem da verificação de que a maioria dos estudos já desenvolvidos e que exploraram o tema valor ou qualquer de seus componentes (benefícios e sacrifícios), o fizeram de maneira restrita, se comparados à proposta desta tese: alguns estudos simplificaram o conceito operacional de valor, reduzindo-se a um trade-off simples entre preço e qualidade (FORNELL et al. 1996; SWEENEY; SOUTAR; JOHNSON, 1999); outros focaram somente uma ou duas das manifestações de comportamentos pós-consumo, sem levar em consideração outras (MCDOUGALL; LEVESQUE, 2000; BEI; CHIAO, 2001; SANTOS; BOOTE, 2003). A proposta de uma exploração extensiva, a partir de uma conceituação mais ampla e multidimensional de valor e da abordagem dos comportamentos de reclamação e de boca a boca tanto na forma de ação quanto de predisposição, traz uma potencial contribuição teórica inovadora para a literatura sobre o assunto. Como conseqüência da proposta, o estudo, além de ajudar a compreender o tema valor, também traz uma importante contribuição para os estudos associados aos dois comportamentos aqui utilizados. Especificamente os estudos sobre boca a boca têm neste trabalho um importante avanço, uma vez que este é um dos temas menos estudados dentre os comportamentos pós-consumo, conforme argumentou HarrisonWalker (2001). Este mesmo autor considera que a compreensão dos antecedentes das ações de boca a boca, principalmente com foco no emissor de mensagens, é uma das demandas em aberto neste campo de estudos, e chega a sugerir uma investigação que avalie o caráter preditivo do valor percebido na intensidade e na favorabilidade de ações de boca a boca de clientes. Do mesmo modo, os estudos de comportamento do consumidor ainda levam como uma de suas preocupações o entendimento dos antecedentes dos comportamentos de reclamação (CRIÉ, 2003), e a investigação do valor como um destes antecedentes ainda não foi extensivamente explorada. Em síntese, a abordagem destes comportamentos, considerando tanto o nível da predisposição quanto o nível da ação, foi pouco relatada na literatura consultada, de modo que a proposta desta tese deve representar um importante avanço para estes estudos (alguns destes estudos são apresentados no item 2.5 deste trabalho). 26 1.5. RELEVÂNCIA PRÁTICA DO TRABALHO O desenvolvimento da pesquisa, com o atendimento dos objetivos propostos e com uma resposta satisfatória ao problema de pesquisa, também traz uma potencial contribuição para o aprimoramento da prática de marketing no universo empresarial. Inicialmente, a proposta avança na compreensão do tema valor percebido pelos clientes, o que é uma demanda atual do universo profissional de marketing. Como argumentaram Anderson e Narus (1999), um número crescente de empresas tem procurado entender o comportamento do consumidor a partir de seu conhecimento do que os clientes julgam como valor. Os autores deixaram claro que quanto maior o avanço no entendimento do valor melhor será a prática gerencial em marketing. Na abordagem de Sheth, Mittal e Newman (2001), as organizações devem entender de forma abrangente o valor ao cliente8, seja este posicionado como usuário, comprador, ou pagador. Para cada um destes, a interpretação de como entendem valor é necessária para o direcionamento do foco das ações mercadológicas. Merece destaque no trabalho destes autores o resgate do conceito de miopia de marketing, desenvolvido por Theodore Levitt, para realçar potenciais enganos comuns nas empresas em relação à sua oferta de valor. Segundo os autores, “o reconhecimento dos clientes como pessoas que buscam soluções para problemas e do valor que daí resulta são fundamentais para a viabilidade de uma empresa em longo prazo” (SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001, p. 73). Também é interessante o que ressaltou Higgins (1999), a partir do que chamou de “valor da análise de valor para o cliente”, na qual enfatizou a relevância de propostas de modelos para a compreensão da dimensão que o valor tem com relação aos 8 No texto os autores utilizam a expressão valor de mercado, definindo-o como “o potencial que um produto ou serviço tem de satisfazer às necessidades e os desejos dos clientes” (SHETH; MITTAL; NEWMAN, 2001, p. 74). Apesar desta definição não evidenciar os componentes de benefício e sacrifício, este autor acredita estarem implícitos no conceito. É relevante destacar que os próprios autores reforçam a diferença desta perspectiva de valor e da utilização da expressão no entendimento dos valores pessoais de um sujeito. 27 diversos tópicos de preocupação dos gestores de empresas9. Neste contexto, a pesquisa desenvolvida tem uma contribuição, na medida em que investiga elementos relevantes para a modelagem envolvendo tanto o valor como os comportamentos definidos. O entendimento dos níveis de predição das predisposições a ações a partir do valor percebido seguramente contribui para o gerenciamento dos comportamentos citados, orientando-os no sentido de serem praticados da maneira mais positiva para a empresa, além de contribuir para o ajuste do planejamento dos elementos de benefício e sacrifício mais adequados à satisfação. 1.6. ESTRUTURA DO TRABALHO A tese desenvolvida consta de mais quatro capítulos, além desta introdução. O capítulo seguinte trata do referencial teórico da tese, mantendo foco nas definições dos construtos envolvidos, nas abordagens já estudadas, e nas alternativas de mensuração de cada um destes. Ao final deste capítulo são consolidados os modelos estruturais que foram submetidos a teste. O terceiro capítulo traz a metodologia do trabalho empírico, dividido em quatro momentos: primeiramente é feita uma exposição dos procedimentos de pesquisa exploratória; em seguida é feita a discussão sobre o instrumento de pesquisa e as escalas utilizadas; o terceiro momento apresenta as determinações para a coleta de dados; por fim, a quarta parte traz as decisões sobre os procedimentos de análise dos dados. O quarto capítulo apresenta a análise dos dados coletados. Optou-se por desenvolver neste capítulo algumas considerações sobre o setor que serviu de base para a coleta de dados, para em seguida desenvolver a exposição dos resultados, com a descrição da amostra, e com as análises univariada e multivariada. Neste capítulo os dois modelos estruturais são avaliados, e as proposições de pesquisa são debatidas quanto à sua aceitação ou refutação. 9 São exemplos de propostas de modelos os trabalhos de Sheth, Newman e Gross (1991), Anderson e Narus (1999), Gardner (2001), dentre outros. 28 O quinto capítulo consolida a tese, a partir da apresentação das principais conclusões do trabalho, com a discussão do problema de pesquisa e dos objetivos definidos, além da análise dos impactos teóricos e práticos gerados. O trabalho apresentou algumas limitações, que são comentadas ao final do capítulo, a partir das quais são feitas algumas sugestões para o desenvolvimento de novas pesquisas. Após este capítulo, são apresentadas referências bibliográficas que serviram de base para o trabalho, além dos cinco apêndices com informações e outros detalhes adicionais sobre o trabalho empírico. 29 2. REFERENCIAL TEÓRICO Este trabalho tem como tema principal o valor. Trata-se de um tema da maior importância em diversas áreas do conhecimento, tais como Economia, Sociologia, Finanças, Administração Geral, dentre outras. Para o contexto desta tese, o tema será abordado com foco na percepção por parte do cliente, e em conexão com os comportamentos de reclamação e boca a boca, duas temáticas já recorrentes nos estudos de comportamento do consumidor. Nestes termos, o texto que segue aborda de maneira mais abrangente o tema central (valor), e está complementado com uma discussão sobre os demais temas que serão utilizados no trabalho empírico. Na primeira parte do capítulo procura-se responder às seguintes questões: de que forma tem sido explorado o tema valor? Como foi o desenvolvimento dos estudos e motivações ao longo do tempo? Quais os principais problemas ainda não resolvidos? Quais os requisitos para o desenvolvimento de pesquisas sobre a temática? A partir deste conjunto de questões foram desenvolvidos os tópicos específicos sobre o tema valor, conforme exposto a seguir. Há ainda outras questões sobre a relação de valor com os comportamentos póscompra e pós-consumo, que serão apresentadas posteriormente. A finalidade do capítulo será, portanto, compreender o estado da arte sobre o tema valor e aprofundar de maneira o mais abrangente possível seu relacionamento com os dois comportamentos referidos. Assim, este capítulo viabiliza o desenvolvimento de um conjunto de proposições a serem testadas, ao mesmo tempo em que apresenta a forma de operacionalização destas proposições no desenvolvimento do trabalho de campo. É relevante ressaltar que a revisão de literatura apresentada foi feita somente com textos publicados até a primeira metade do ano de 2006. 2.1. DIAGNÓSTICO DO TEMA VALOR O objetivo deste tópico é analisar de forma abrangente a literatura sobre valor em 30 marketing, buscando promover um entendimento amplo sobre o estado da arte do tema, e introduzir uma exploração de natureza mais operacional (em termos de pesquisa), desenvolvida nos itens seguintes. Concernente ao interesse pelo tema valor, a partir da revisão da literatura foi possível observar que os estudos do assunto em marketing se intensificaram a partir do início da década de 1970, principalmente por ocasião do desenvolvimento da chamada Escola das Trocas Sociais (SHETH; GARDNER; GARETT, 1988). Esta corrente do pensamento de marketing teve como principal finalidade explorar a transação enquanto situação desencadeadora da atividade de marketing. O texto de Philip Kotler10 (1972, p. 50) afirma que “a preocupação fundamental de marketing é de produzir respostas desejadas em indivíduos livres a partir da criação e entrega cuidadosa de valor”11. A partir desta observação, é possível verificar que, na posição de Kotler, o atendimento à expectativa do cliente (que na época do texto já era uma das principais preocupações da atividade de marketing) passaria pela criação e oferta de valor. Assim, o valor seria um componente fundamental para a realização da transação, esta a tarefa fundamental de marketing. Ao mesmo tempo em que Kotler e todos os demais autores filiados à Escola das Trocas Sociais ressaltam a relevância do valor como tema de marketing (BAGOZZI, 1975; HOUSTON; GASSENHEIMER, 1987, dentre outros), já se desencadeia um dos principais desafios ainda em discussão na ocasião do desenvolvimento desta pesquisa, relacionado à definição do que seja valor. No referido artigo de Kotler, o máximo que o autor fez foi afirmar que valor seria completamente subjetivo e que existiria a partir da percepção do mercado. Um texto mais recente de Robin (1995) propõe uma explicação em termos analíticos da inserção do valor no contexto da troca entre dois indivíduos, e ilustra de forma 10 Este texto, já considerado um clássico em marketing, teve como finalidade complementar um outro artigo do mesmo autor (em co-autoria como Sidney Levy [1969]), em um movimento de orientação do marketing para além do contexto empresarial, que ficou conhecido como broadening movement, e que desencadeou diversas alterações no contexto da pesquisa e da prática de marketing (SHETH; GARDNER; GARETT, 1988; KOTLER, 2005). 11 As citações diretas de textos em língua inglesa serão feitas por meio da tradução livre dos trechos citados. 31 sintética a relevância do valor para marketing. Segundo observa o autor, não haveria motivação para troca entre quaisquer indivíduos se não houvesse a percepção de valor por parte de cada um naquilo que o outro oferece. O dinheiro que um comprador possui deve ser equivalente ao produto de um dado fornecedor. Pela simples equivalência entre o dinheiro e o produto, não haveria motivação para a troca caso o comprador não percebesse mais valor no produto que em seu dinheiro, e caso o fornecedor não percebesse mais valor no dinheiro do cliente que em seu produto. A partir desta observação, que sintetiza o papel do valor na troca, os questionamentos são evidentes, a começar pela identificação da natureza do valor em cada contexto de troca, pela definição formal do valor, pela relação deste com os diversos comportamentos dos clientes, pela forma como se pode mensurar o valor que os clientes percebem, pela configuração do valor na ótica do fornecedor do produto ou dos colaboradores internos, e muitas outras, que, ao longo do tempo foram constituindo este que é um importante tópico de pesquisa em comportamento do consumidor e marketing. 2.1.1. O valor em pauta A análise da literatura especializada indicou um número bastante elevado de estudos envolvendo o valor. Nestes termos, buscou-se inicialmente identificar quais foram os trabalhos mais relevantes no volume de trabalhos identificados (com avaliação a partir do número de citações geradas, e de sua utilização como referencial para outros trabalhos), tendo-se encontrado evidências da existência de quatro trabalhos principais. Este tópico apresenta estes trabalhos, e acrescenta alguns comentários. No desenvolvimento da literatura sobre valor, observa-se um destaque especial para o artigo desenvolvido por Valarie Zeithaml (1988). A autora buscou desenvolver um modelo que envolveria, além do valor, uma série de outros construtos (qualidade, preço, sacrifício...) que apresentariam evidências de associação entre si, tendo como resultado final a compra. O modelo desenvolvido pela autora tornou-se um clássico na literatura, e está representado na Figura 1. 32 Atributos Extrínsecos Atributos Intrínsecos Qualidade percebida Preço Objetivo Preço Monetário Percebido Abstrações de alto nível Valor percebido Atributos Intrínsecos Compra Sacrifício Percebido Preço não Monetário percebido Atributos de baixo nível Percepção de atributos de baixo nível Atributos de alto nível Figura 1 - Modelo de relacionamento de preço, qualidade e valor Fonte: Zeithmal (1988, p. 4) Um dos principais pontos citados neste artigo é a definição que a autora propõe para valor. A partir de evidências da literatura pesquisada e de um estudo qualitativo, a autora identifica as seguintes definições: Valor é baixo preço; Valor é qualquer coisa que se procura em um produto; Valor é a qualidade recebida pelo preço pago; Valor é que se recebe pelo que se paga. A partir destas definições, Zeithaml (1988, p.14) propõe uma definição para valor percebido, sugerindo-o como sendo “a avaliação global do consumidor da utilidade de um produto baseado na percepção do que é recebido e do que é dado”. Esta definição tem sido a referência para diversos trabalhos com foco em valor percebido, apesar de existirem correntes que apontam críticas e limitações, como será analisado adiante neste trabalho. O que merece maior destaque é a proposição de uma compensação entre o que os consumidores recebem pelo que pagam, para então construírem uma percepção de 33 valor. Em uma das proposições do trabalho, a autora reconhece duas dimensões no conceito de valor, a primeira associada aos benefícios, que, segundo a autora, “incluem os atributos intrínsecos e extrínsecos de um produto, a qualidade percebida, além de outros componentes de elevado nível de abstração” (p. 14). Já a segunda dimensão está associada ao que os consumidores têm que “dar” para ter direito aos benefícios ofertados. Esta proposição associa-se à questão do sacrifício em marketing, que segundo, a autora “inclui tanto o preço monetário quanto o preço não monetário” (p. 14). Além de Zeithaml, outros autores podem ser citados como propulsores de estudos sobre valor percebido. Dentre estes, os mais destacados são Sheth, Newman e Gross (1991), Holbrook (1996), e Woodruff (1997). A seguir comentam-se estes trabalhos. A proposição básica de Sheth, Newman e Gross (1991) consistiu em ampliar o debate sobre as manifestações do valor, a partir da adoção de um conjunto de possibilidades de valor, que formariam dimensões a serem percebidas e julgadas pelos clientes na ocasião da escolha de compra. O modelo proposto, que será mais detalhadamente discutido adiante neste trabalho, tem servido de apoio para trabalhos empíricos sobre o tema (LEBLANC; NGUYEN, 1999), inclusive para o desenvolvimento de escalas de aferição de valor (SWEENEY; SOUTAR, 2001). De modo semelhante, Holbrook (1996) discutiu o valor como um construto multidimensional, o que permitiu o desenvolvimento de uma tipologia de valor para o cliente, em um modelo que também teve desdobramentos em vários trabalhos que foram posteriormente publicados em um dos principais livros sobre valor para o cliente identificados na época da pesquisa bibliográfica realizada (HOLBROOK, 1999). Por fim, um outro trabalho que também pode ser considerado como um dos mais relevantes de um debate mais profundo e qualificado sobre valor foi desenvolvido por Woodruff (1997). O artigo desenvolvido aprofundou a discussão sobre a temática, e foi um dos mais citados na literatura pesquisada, tendo impactado fortemente nos estudos subseqüentes, principalmente na sua justificativa da 34 relevância do construto valor, e na discussão da definição deste construto. Comentase neste item sua proposta interpretativa do valor, e no item 2.2.1 a discussão sobre a definição. Concernente à proposta interpretativa, o autor procurou reposicionar o valor como elemento da gestão, afirmando-o como uma das principais fontes de vantagem competitiva para as organizações. A proposta foi coerente com o movimento pela defesa do conceito de orientação para o mercado como fonte de vantagem competitiva, ao invés da proposição corrente (na época de publicação do artigo) de que as fontes de vantagem competitiva estariam relacionadas ao aprimoramento operacional (associada principalmente aos movimentos da qualidade total, do downsizing, e da reengenharia [cf. PORTER, 1996]). Pela orientação para o mercado, o foco das organizações seria “reorientar a estratégia no sentido da oferta de valor superior para o cliente” (WOODRUFF, 1997, p. 140). Uma das preocupações de Woodruff (1997) que merece maior destaque foi aquela referente à relação do valor com a satisfação. Apesar da associação aparentemente óbvia (de que o valor percebido define a satisfação do cliente), os desdobramentos dos estudos associados ao assunto mostraram primeiramente uma dificuldade conceitual, e adicionalmente uma dificuldade relativa ao nível de relacionamento entre estes construtos12. Merece ainda destaque a proposta do Processo de Determinação de Valor. Tal processo, que se baseia em uma proposição anterior do mesmo autor (cf. WOODRUFF; GARDIAL, 1996), postula que a determinação do valor parte de um processo de aprendizado sobre os clientes e sobre o que os satisfaz, e ocorre a partir de um conjunto de cinco questões interdependentes. A Figura 2 expõe a idéia do autor sobre este processo. Em síntese, a proposta de Woodruff (1997) traz um conjunto de contribuições relevantes para a temática na medida em que: 1. ressalta a relevância do assunto para o contexto da busca da vantagem competitiva além das ações de 12 Os estudos são os mais diversos, e não seria aqui o espaço adequado para aprofundar a temática. Alguns trabalhos serão analisados posteriormente neste capítulo. 35 aprimoramento operacional; 2. incorpora a proposta de uma estratégia gerida a partir da orientação para o mercado; 3. reforça a relevância da aprendizagem; 4. avança no debate da associação de valor com satisfação; 5. desenvolve uma análise profunda do debate conceitual (ver item 2.2). 1. O que valorizam os clientesalvo? 2. De todas as dimensões que o mercado-alvo valoriza, qual a mais importante? 3. Quão satisfatoriamente estamos entregando o valor que o mercado alvo deseja? 5. O que o mercado-alvo provavelmente valorizará no futuro? 4. Quais as razões de nosso desempenho na entrega de valor? Figura 2 - Processo de determinação do valor Fonte: Woodruff (1997, p. 144) É importante também ressaltar que a proposta deste autor reforça que o valor mais relevante é o valor para o cliente, não sendo mencionados elementos de valor para os demais stakeholders (acionistas, colaboradores, fornecedores...), enfatizando-se que em marketing o valor somente seria definido a partir do cliente. Sobre os demais stakeholders, por não serem o foco desta tese, não se desenvolveu uma pesquisa mais exaustiva, apesar de se reconhecer indícios de uma convergência de modelos e propostas no sentido de integrar as diversas entidades que se relacionam no contexto da troca. O item seguinte aborda alguns elementos desta discussão. 2.1.2. Correntes de pensamento em valor O paradigma dominante em marketing a partir da década de 1990 foi o do relacionamento13. A partir desta realidade, a literatura de marketing vem passando 13 De acordo com a leitura de Kuhn (1978), a palavra paradigma somente deve ser usada em um contexto mais amplo de atividade científica, perfazendo não uma ciência individualmente, mas uma 36 por uma série de revisões de conceitos e construtos, agora sob a ótica do desenvolvimento das trocas a partir de um relacionamento mais contínuo e mais duradouro, além de se orientar sempre para a ampliação das perspectivas de interesse nas atividades de uma organização, especialmente a partir do reconhecimento da importância dos stakeholders (e não somente o cliente ou o empreendedor)14. Valores do consumidor e valor para o consumidor Conceito de produto aumentado Satisfação do consumidor e Qualidade de serviços Estudos sobre as influências centrais Teoria da cadeia de valor Criação e entrega de valor Valor do cliente para as organizações Estudos sobre as perspectivas recentes Valor percebido pelos clientes Valor para o cliente e para o acionista Valor no contexto do relacionamento Estudos sobre os novos desenvolvimentos Figura 3 - Correntes de estudos sobre valor Fonte: Payne e Holt (2001, p. 162) orientação geral no desenvolvimento científico, tal como a positivismo, o funcionalismo, ou o pósmodernismo. Por outro lado, a utilização da palavra ‘paradigma’ referindo-se às diferentes perspectivas interpretativas das temáticas de marketing não é novidade, e a revisão de literatura realizada para fundamentar este trabalho não foi elucidativa o bastante para consolidar um posicionamento em relação aos paradigmas em marketing. Nestes termos, será utilizada a palavra ‘paradigma’ também de acordo com a prática corrente na literatura de marketing, com referencia à escolas de pensamento, ou perspectivas interpretativas. 14 Neste contexto passa a ser também relevante para os estudos de valor a perspectivas não somente dos clientes (o customer value), dando-se destaque também para o conceito de valor para o acionista (o shareholder value) e para os colaboradores (o employee value). 37 Nesta perspectiva de análise, merece destaque o trabalho de Payne e Holt (2001). Estes autores, em uma ampla e profunda pesquisa sobre valor em marketing, desenvolveram uma proposta de visualização da literatura sobre o assunto. Dada a adequação da proposta ao contexto de desenvolvimento desta tese, optou-se por uma análise da proposição, com a apresentação de algumas alternativas de aprimoramento. Na perspectiva de Payne e Holt (2001), são identificados três níveis de desenvolvimento na literatura sobre valor para o cliente: o nível das influênciaschave, contendo as principais correntes da literatura que influenciaram a temática (envolvendo as teorias dos valores do cliente e do valor para o cliente; do conceito de produto aumentado; da satisfação do consumidor e da qualidade nos serviços; e a cadeia de valor); o nível das “perspectivas recentes”, contendo as correntes de literatura concentradas já na temática (envolvendo os estudos sobre a criação e a entrega de valor; valor do cliente para a empresa; e valor percebido pelos clientes); e o terceiro nível referindo-se aos “novos desenvolvimentos” sobre o assunto (envolvendo o valor para o cliente e para o acionista; e o valor no contexto do relacionamento). A Figura 3 ilustra a proposta destes autores. 2.1.2.1. Estudos sobre as influências centrais A ‘primeira’ das influências refere-se aos estudos sobre os valores do consumidor. Estes estudos estão relacionados aos princípios pessoais dos consumidores que têm, a priori, influência direta nas decisões que estes tomam. Os estudos são mais associados à identificação de valores de consumo (por meio da ferramenta “List of Values” - LOV), e dos valores e estilos de vida (por meio da ferramenta “Values and Lifestyles” - VALS)15. Especificamente para os estudos de valor tal como se desenvolve aqui, não se explorou mais profundamente os estudos sobre valores dos clientes, apesar de alguns itens da literatura sobre o assunto por vezes apontarem formas de No contexto acadêmico e de mercado em marketing, tais estudos têm uma associação mais direta com segmentação de mercado, planejamento de produtos, e de esforços de comunicação de marketing (KAMAHURA; NOVAK, 1992; NOVAK; MACEVOY, 1990). 15 38 associação, argumentando que o valor que os clientes percebem recebe influência dos valores que estes possuem16. Ainda no primeiro bloco de influências, Payne e Holt (2001) acrescentam os estudos sobre valor para o consumidor (e ainda não para o cliente). Pelo exposto, tais estudos são relacionados com as vantagens que os consumidores recebem por uso (valor de uso), ou pela posse (valor de posse): o valor de uso refere-se à experiência de utilização de um produto, ou seja, a partir de consumo dos diversos benefícios que o produto possui; já o valor de posse está associado ao valor que o consumidor recebe pelo direito de possuir algo, como ocorre com freqüência na posse de obras de arte (apreciação de natureza estética e social), de objetos como armas (para segurança), ou outros objetos de valor social. São relevantes algumas observações sobre esta primeira corrente. Primeiramente, a idéia de compensação (trade-off), presente na maioria dos estudos sobre valor desde a proposta de definição de Zeithaml (1988), não foi explorada. Os trabalhos desta corrente avaliam o valor pela perspectiva da finalidade que o consumidor busca e em princípio não acrescentam na análise de valor os elementos de sacrifício (pelo menos de forma evidente). Trata-se não exatamente de uma corrente que influencia os estudos sobre valor, mas sim de uma das teses sobre o que seja valor, e condiciona uma série de re-interpretações sobre a temática (cf. item 2.2, sobre definição de valor). A ‘segunda’ influência está associada aos estudos sobre o conceito de produto aumentado. Trata-se de um conceito que foi inicialmente proposto por Levitt (1980; 1981), que reconheceu que nos produtos existem componentes intangíveis (não exatamente um produto intangível) e classificou os produtos em cinco níveis: básico, genérico, esperado, aumentado, e potencial. Tal proposição, posteriormente difundida nos livros didáticos de marketing (cf. KOTLER, 1998), define produto aumentado como características que são agregadas a um produto, ou a redução dos 16 Não foram encontradas referências teóricas com fundamento empírico de tal associação, apesar de algumas análises aproximarem os dois contextos e temas (LEÃO; MELLO, 2006). Em verdade, vários dos estudos que tentam promover a referida associação parecem mais confundir o conceito de valor (que se relaciona ao que os clientes recebem e assim avaliam) e os valores que influenciam decisões. O item 2.2 retoma esta questão. 39 custos de obtenção e consumo, de modo a exceder as expectativas do cliente. O entendimento de Payne e Holt (2001) foi de que o conceito de produto ampliado supera o conceito tradicional de produto, indicando o reconhecimento de que um produto é mais que um conjunto de características com valor funcional (produto básico ou genérico). Trata-se de reconhecer que o produto possui características adicionais de valor, algumas das quais de natureza intangível, remetendo assim aos modelos posteriores que reconhecem a existência de aspectos sociais e condicionais, e simbólicos (como será analisado posteriormente nos modelos de SHETH; NEWMAN; GROSS [1991]). Payne e Holt (2001) não apontaram, mas o conceito de produto ampliado tem maior influência nos estudos sobre criação e entrega de valor. A ‘terceira’ influência refere-se aos estudos de satisfação do cliente e qualidade nos serviços. São dois tópicos que habitualmente são explorados pelos mesmos autores, e que tem uma relação muito próxima aos estudos de valor. Com relação aos estudos sobre satisfação do cliente, o elenco de trabalhos é tão abrangente quanto os estudos de valor, principalmente a partir das correntes de pensamento em marketing que argumentam que os clientes devem estar no foco principal da atividade de marketing. Apesar de ser um tópico bastante associado com valor, e a despeito das possibilidades de confusão conceitual (como acentuam WOODRUFF [1997], e PARASURAMAN [1997]), os estudos envolvendo satisfação e valor são análises de relacionamento entre construtos. Há nestes estudos variações entre os níveis de relacionamento, principalmente pela indefinição de qual construto é influenciador do outro, ou se têm influência mútua17. Como observam Payne e Holt (2001), o valor está mais concentrado na interação 17 A questão encontra divergências na literatura, e não são incomuns pesquisas que pressupõem que a satisfação é influenciada pela percepção de valor pelos clientes (e. g. FORNELL, et al. 1996; PETRICK, 2004), ou que esta influencia a forma como os clientes percebem valor (cf. CRONIN Jr; BRADY; HULT, 2000). Se o valor determina a satisfação, para satisfazer um cliente necessita-se compreender o valor, tendo este maior relevância; se a satisfação determina o valor, este passa a ter relevância secundária, em um contexto onde a satisfação dos clientes é prioridade. Para uma análise mais exaustiva sobre esta relação, ver Day (2002). 40 entre o produto e o usuário, enquanto a satisfação geralmente está concentrada no produto. O autor desta tese acredita que a influência somente se configura a partir do entendimento inicial do relacionamento comentado no parágrafo anterior, mas não foram encontrados estudos que elucidassem esta questão. Já com relação aos estudos sobre qualidade nos serviços, tem-se aí de fato uma forte influência. Os estudos de qualidade de serviços são muito semelhantes aos estudos de valor para o cliente, inclusive pelo elenco de pesquisadores sobre a temática. Podem-se apontar tópicos específicos sobre qualidade nos serviços que são comumente utilizados em estudos sobre valor, tais como as definições (PARASURAMAN; ZEITHAML; BERRY, 1988; PARASURAMAN; BERRY; ZEITHAML, 1991), e mensuração (SWEENEY; SOUTAR, 2001). Possivelmente, a questão de maior relacionamento entre o valor para o cliente e qualidade nos serviços está no entendimento de que qualidade é uma das dimensões de valor. Não foi identificada clareza e sequer qualquer esforço sobre esta questão, a despeito de parecer evidente que a qualidade é algo que é recebido em uma definição de valor como o que é recebido pelo que é dado, e é também uma meta que os clientes almejam, em uma definição de valor como aquilo que os clientes buscam. Aceitando a qualidade como uma dimensão de valor, quanto mais se compreende a qualidade, mais se compreende sobre valor, verificando-se que, de fato, os estudos de qualidade, não somente qualidade dos serviços, têm uma forte influência nos estudos sobre valor. A ‘quarta’ e última influência proposta por Payne e Holt (2001) são os estudos sobre a cadeia de valor. A idéia está relacionada ao conjunto de atividades organizacionais que são executadas com a finalidade de aprimoramento dos produtos, e que em conjunto são determinantes para a criação de vantagem competitiva nas organizações. O estudo da cadeia de valor tem maiores desenvolvimentos na área de estratégia empresarial, com destaque para o trabalho de Michael Porter (1986), um dos primeiros autores a abordar mais profundamente a temática. A relevância para os estudos de valor está mais associada à sua criação e entrega, principalmente pela forma mecânica e concentrada no processo de concepção inicial 41 do conceito (PAYNE; HOLT, 2001, p. 165), sendo ainda possível encontrar associações com as medições de valor percebido como parte da tarefa de identificação e avaliação do ciclo de criação de valor. 2.1.2.2. Estudos sobre as perspectivas recentes A ‘primeira’ das perspectivas recentes relaciona-se aos estudos sobre criação e entrega de valor. Esta corrente de estudos ganhou um reforço intenso na década de 1990, compondo-se a partir de duas das correntes de influência acima descritas (conceito de produto aumentado e cadeia de valor), juntamente com um conjunto considerável de trabalhos sobre orientação para o mercado, além do reforço da crença no postulado de que o cliente deve ser o foco de todo o esforço de marketing. Segundo Payne e Holt (2001, p. 166), [...] a ênfase destes estudos está sobre a ligação entre o valor para o cliente e a lucratividade da organização, o desempenho e a vantagem competitiva, e postula que o sucesso de uma empresa depende do grau em que entrega para os clientes o que é valor para eles. Trata-se de reconhecer, mais uma vez, que os clientes demandam o que entendem como valor, daí a afirmação de que há uma relação dos esforços de criação de valor para o cliente com os resultados para a empresa, manifestos a partir da lucratividade, do desempenho, e da geração de vantagem competitiva. Adicionalmente, pode-se observar que, a partir da discussão sobre criação de valor, é possível inserir o debate sobre o papel do colaborador interno na construção de valor, o que vai desencadear um interesse para os estudos sobre valor na perspectiva deste stakeholder (employee value), e dar um outro sentido às tentativas de desenvolvimento de uma literatura sobre marketing interno, no qual os clientes são os colaboradores. Assim, passa a ser possível ampliar o escopo de análise para pelo menos três elementos: o cliente, o acionista, e o colaborador. A ‘segunda’ perspectiva é do valor do cliente para a organização. Esta área de estudos envolve análises não concentradas ou orientadas para o cliente, mas no acionista, na medida em que se propõe a avaliar o retorno gerado ao longo do tempo. A relação com valor para o cliente reside no fato de que o cliente gera retorno em troca do valor que é produzido e entregue pela empresa (PEYNE; HOLT, 42 2001)18. Esta corrente de estudos é fortemente vinculada à área financeira das organizações, na medida em que implica na utilização de ferramentas de análise financeira para avaliação do retorno dos clientes. A literatura recente em marketing tem apresentado esforços no sentido de promover a aproximação entre os estudos de marketing e de finanças, com finalidade principal de demonstrar o retorno financeiro das atividades de marketing (SRIVASTAVA; SHERVANI; FAHEY, 1998; 1999)19. Este elenco de estudos tem relevância maior pelas seguintes razões (PAYNE; HOLT, 2001, p. 167): Primeiro, viabiliza a utilização de alternativas de segmentação baseadas no valor gerado pelo cliente, possibilitando um melhor desempenho das ações estratégicas de marketing a partir de variáveis de interesse tanto dos clientes quanto dos acionistas; Segundo, ao viabilizar a retenção de uma maior fatia de clientes geradores de maior valor, é possível elevar consideravelmente a rentabilidade da empresa; Em terceiro lugar, viabiliza uma análise também do nível interno, direcionando os estudos sobre valor para os colaboradores (inclusive a partir do papel que estes representam nas estratégias de retenção das empresas [REICHHELD, 1997]). A ‘terceira’ e última corrente dos desenvolvimentos recentes é pertinente aos estudos de valor percebido pelos clientes. Os estudos nesta corrente chegam a se confundir com os estudos sobre valor para o cliente, principalmente a partir do pressuposto de que qualquer proposta de valor para o cliente deve necessariamente ser indicada pelo próprio cliente, a partir daquilo que este percebe como valor20. Trata-se, assim, de avaliar o valor na perspectiva do cliente, sendo o campo de 18 Esta corrente de estudos tem forte associação com os estudos sobre retenção de clientes, uma área de estudos amplamente explorada, com destaque para o trabalho de Reichheld e Sasser (1990), que analisaram, a partir de dados empíricos, o quanto a retenção ou o abandono de um cliente têm implicações sobre os resultados financeiros de uma empresa, e de Reichheld (1997), que apontou táticas e estratégias a serem adotadas pelas empresas para administrar lucrativamente a lealdade dos clientes (e também dos colaboradores). 19 Esta tem sido uma das preocupações recentes dos pesquisadores em marketing, tendo o Journal of Marketing (Vol. 68, N° 4) publicado um número especial com um total de 12 artigos sobre esta temática, com destaque para o artigo de Venkatesan e Kumar (2004) e, também o Journal of the Academy of Marketing Science publicou (vol. 33, N° 4) publicou um total de 16 artigos na mesma linha temática. Para uma análise retrospectiva sobre a temática, ver Hyman e Mathur (2005). 20 Tal interpretação, apesar de ser alinhada com o princípio que coloca o cliente como foco principal das atividades de marketing, pode ser considerada limitada pela impossibilidade do cliente avaliar elementos de valor que este desconhece, como ocorre, por exemplo, com produtos de tecnologia. Para uma análise envolvendo este tipo de produto, ver Pura (2005). 43 estudo mais extenso, mais dinâmico, e com mais possibilidades de desenvolvimentos teóricos e de aplicações no ambiente prático. Esta corrente tem fundamentos e implicações na maior parte das demais correntes de análise, em especial nas análises de valor para o consumidor, produto aumentado, satisfação e qualidade de serviços, e, apesar de não ser apontado por Payne e Holt (2001), nos estudos de criação e entrega de valor, uma vez que esta perspectiva promove a ligação entre os objetivos e expectativas dos clientes com os elementos de oferta das organizações. Apesar de esta perspectiva ser de grande atratividade, tem a limitação de enfocar somente o cliente, sem dar maior atenção aos demais stakeholders das empresas. Por outro lado, a demanda por modelos envolvendo tanto clientes quanto colaboradores, acionistas, ou quaisquer outros envolvidos nas atividades de uma organização, representa uma oportunidade para atividades de pesquisa. Especificamente para esta tese, a concentração do trabalho empírico será sobre o valor restrito à perspectiva do cliente. 2.1.2.3. Estudos sobre os novos desenvolvimentos A ‘primeira’ corrente de novos desenvolvimentos nos estudos sobre valor trata do valor para o cliente e para o acionista. O que diferencia esta corrente daquela dos estudos de valor do cliente para a organização é inserção do foco no cliente, sendo relevante definir modelos onde a atividade de criação de valor se mostre orientada para estes dois stakeholders. Deste modo, são envolvidos aqui elementos das correntes de valor percebido, geração e entrega de valor, e valor do cliente, juntamente com os estudos de valor gerado para os acionistas. É esta também uma corrente na qual se verifica uma forte influência das ferramentas da área de administração financeira, uma vez que um de seus propósitos é mensurar o valor que é gerado para os acionistas pelas diversas atividades da organização (e não somente no relacionamento com os clientes). Há, inicialmente, algumas dificuldades operacionais na integração no 44 desenvolvimento dos estudos desta corrente, apesar da lógica aparentemente simples da associação existente. O princípio seria simples: a organização somente existirá enquanto gerar valor (não exclusivamente financeiro) para seus acionistas, o que será, ao final, produzido a partir do cliente; por outro lado, a organização precisa criar e gerar valor para este mesmo cliente, pois são elementos de valor que o cliente busca. Esta relação, que a primeira vista somente reforça a lógica da troca (comentada acima), abre a perspectiva para uma análise conjunta a partir de modelos específicos da literatura sobre valor, criando a possibilidade de integração da análise. Este esforço é uma das principais áreas onde será possível avançar nos estudos de valor (PAYNE; HOLT, 2001, p. 169). Os modelos mais recorrentes são de natureza econômica (como o SVA – Shareholder Value Added, e o EVA – Economic Value Added), e não integram os elementos de valor para o cliente em seus pressupostos. Aceitando a afirmação de Cleland e Bruno (1997) de que o valor para o cliente é uma condição necessária (mas não suficiente) para o valor para o acionista, entende-se que tais modelos precisam evoluir e envolver estes elementos21. A maior demanda é pela definição da medida em que o valor para o cliente condiciona ou determina o valor para o acionista da organização. Apesar da literatura não ser esclarecedora neste aspecto, o que requereria mais e mais análises e proposições de modelos de medição, foi notado uma convergência nas opiniões de que estudos de valor para o cliente e para o acionista precisam ser avaliados conjuntamente. A ‘última’ das correntes de valor apontadas por Payne e Holt (2001) relaciona-se com as análises de valor no paradigma do relacionamento. Trata-se de um esforço de análise no qual se reconsideram os conceitos e modelos anteriores a partir do princípio dominante de que as organizações devem se orientar para a geração e manutenção de relacionamentos mais intensos e duradouros com os stakeholders, em substituição a um entendimento da troca como uma atividade discreta, fria e com foco restrito aos clientes e fornecedores dos produtos. 21 A área de maior convergência com correntes anteriores é com os estudos sobre valor do cliente. Em verdade, esta corrente tem nas análises de valor do cliente para a empresa uma de suas atividades. 45 É possível observar que tal corrente tem fundamento nas correntes anteriores, e reforça a relevância do valor enquanto determinante dos construtos mais associados ao paradigma do relacionamento, tais como retenção, envolvimento, intenção de recompra, dentre outros. Evidencia-se assim que, a partir da criação e da entrega de valor que os clientes percebem e demandam, é possível gerar maior fidelidade, e por conseqüência retenção e comprometimento dos clientes, tendo-se como conseqüência a geração de valor para os acionistas. De maneira complementar, também são analisadas as possibilidades de criação de valor para o cliente a partir do relacionamento que a empresa promove com este, que sai de um contexto de transações discretas para transações mais contínuas, gerando maior satisfação. Configura-se assim uma troca de valor entre a organização e o cliente, verificável principalmente em longo prazo (RAVAL; GRÖOROS, 1996). A partir do paradigma do relacionamento, passa-se também a proceder às análises de todos os stakeholders de uma organização, de maneira mais evidente para os clientes e os acionistas (a partir da corrente anterior e das demais influências), e com maiores limitações nos colaboradores (que, como comentado anteriormente, não foram devidamente explorados na literatura de valor). 2.1.3. Desafios da literatura sobre valor A partir da análise da literatura sobre valor para o cliente, em conjunto com discussões com o orientador e com outros estudiosos do tema, foi possível identificar os principais desafios de pesquisa da temática valor para o cliente. De um total de cinco grandes desafios identificados, quatro são mais relevantes para esta tese: o primeiro desafio, um dos mais recorrentes na literatura, concerne à definição de valor, envolvendo principalmente as questões da dimensionalidade e do sacrifício enquanto componente do valor; o segundo desafio refere-se ao desenvolvimento de modelos de valor, envolvendo as questões da hierarquia, e da identificação de componentes de valor complementares aos elementos funcionais; o terceiro concerne à mensuração, no qual se procura desenvolver formas de mensuração a serem aplicadas em pesquisas (acadêmicas ou não), principalmente a partir de 46 modelos e conceitos distintos; já o quarto desafio refere-se à análise do relacionamento do construto valor com outros construtos relevantes em marketing, e em comportamento do consumidor mais especificamente. Este último desafio mostrou ser o mais dinâmico, e que têm atraído mais a atenção e o interesse dos pesquisadores, e será abordado aqui com foco específico no relacionamento com os construtos reclamação e boca a boca. Modelos de interpretação Conceituação e escopo Mensuração do construto Valor para o cliente Criação de valor Relação entre construtos Figura 4 - Eixos e abordagens do valor percebido Fonte: Elaborado pelo autor Além destes, na literatura tem-se dedicado uma grande atenção à criação de valor, onde a preocupação está na identificação dos precedentes para produção, no processo de criação propriamente dito, e nas formas de entrega de valor, como comentado no item anterior. Por estar fora dos propósitos desta tese, este desafio não será desenvolvido aqui. A Figura 4 ilustra os desafios comentados. 2.2. A CONCEITUAÇÃO DE VALOR O debate conceitual sobre valor tem se mostrado como um dos tópicos mais controvertidos nos estudos de valor dos últimos 20 anos. Ao se avaliar a literatura foi possível identificar pelo menos três modelos distintos, dois componentes básicos (na grande maioria dos trabalhos), e várias possibilidades de dimensionamento para efeito de operacionalização. Além destas possibilidades, que já seriam bastante para demonstrar a complexidade do conceito, têm-se ainda algumas distinções de acordo com a perspectiva de stakeholders distintos dos clientes22. 22 Como visto no subitem anterior, no contexto do relacionamento em marketing é necessário uma avaliação da troca de valor enfocando-se não somente o cliente ou o fornecedor do serviço. A partir 47 Dados os objetivos desta tese, a preocupação aqui será em discutir a definição do valor para o cliente23. Esta é, em princípio, a dimensão de análise de valor que é mais relevante em marketing e comportamento do consumidor, apesar de, como visto, haver estudos e apelos de integração com os estudos de valor para o acionista e valor para o colaborador. 2.2.1. Modelos de definição Khalifa (2004) procedeu a um levantamento amplo da literatura sobre definição de valor tendo observado que o construto tem sido conceituado a partir de três modelos distintos: o modelo dos componentes de valor, o modelo da compensação, e o modelo da cadeia meios-fins. 2.2.1.1 O modelo dos componentes de valor O modelo dos componentes de valor parte dos atributos dos produtos e das distintas experiências associadas ao consumo, e tem por fim apresentar os elementos de valor que determinam a decisão de compra. Assim, tem-se como meta identificar e analisar como aspetos de valor, na percepção do cliente, podem ser decisivos nas situações de intenção de compra, efetivação da troca, e utilização do produto. A forma mais comum de análise dentro do modelo de valor pelos seus componentes consiste no cruzamento do nível de satisfação do cliente com o nível de presença dos atributos de valor. O esforço maior é na identificação dos tipos de atributos: Atributos de insatisfação (dissatisfiers): são os atributos essenciais com potencial maior de geração de insatisfação do que de satisfação, ou seja, que não satisfazem por existiram em um produto, mas geram insatisfação por sua desta constatação, torna-se ainda mais complexo tentar definir valor de maneira unificada, dada à diferença de perspectivas e de interesse envolvidos. 23 A expressão valor para o cliente seria uma tradução de value for the customer. Em verdade, a literatura em língua inglesa não apresenta unanimidade em relação à expressão com o significado que tem o ‘valor para o cliente’ em português. Woodall (2003) identificou um total de 18 diferentes expressões relacionadas. A mais comum é o customer value, sendo ainda recorrentes consumption value, value for the customer, value for customer, consumer value, customer perceived value, buyer value, dentre outras. 48 ausência24; Atributos de satisfação (satisfiers): são os atributos claramente desejados pelos clientes, e estão mais diretamente associados com o desempenho do produto. Estes atributos são avaliados diretamente pelos clientes, e sua manifestação tem associação direta com o nível de satisfação25; Atributos de encantamento (delighters): são os atributos que superam as expectativas dos clientes, seja pela inovação das características deste produto, seja pela adição de atributos que não estão previstos. Pelo fato de estes atributos não serem esperados, não há efeito negativo a ser gerado por sua ausência26. A proposição deste primeiro modelo conceitual de valor tem sido fundamento dos discursos mais orientados para a prática de marketing, sendo por esta razão bastante recorrente nos textos associados à satisfação de clientes. Têm o apelo do conceito de ‘valor agregado’, e de ‘geração de encantamento’. Por outro lado, não é suficiente para um contexto de relacionamento (pois mantém o foco centrado no cliente), além de não envolver o conceito de sacrifício. 2.2.1.2. O modelo da compensação O segundo modelo identificado por Khalifa (2004) é o modelo da compensação. Este envolve os conceitos de benefício e sacrifico como os dois componentes do valor, pressupondo a compensação entre estes dois elementos, ou seja, o modelo entende o valor como a compensação entre o que é recebido na forma de benefício, e o que é concedido pelo cliente na forma de sacrifício27. Este entendimento é o mais recorrente nos estudos empíricos de valor para o cliente, e desencadeia uma associação entre os estudos de benefício e de sacrifício 24 Como exemplos, têm-se a limpeza de um hospital, ou o acesso aos livros de uma biblioteca de uma escola. 25 Como exemplo, pode-se citar o desempenho de um automóvel, que quanto maior, maior a possibilidade de satisfação. De modo semelhante, quanto maior a organização dos serviços de uma faculdade, maior a satisfação dos estudantes com os serviços. 26 São exemplos de atributos de encantamento a oferta de bônus na compra de um automóvel, assim como a oferta de descontos especiais para clientes mais fiéis de uma companhia aérea. 27 Trata-se, basicamente, da definição de valor de Zeithaml (1988), que pode ser verificada no item 2.1.1 acima. 49 ainda não inteiramente abordada na literatura. Em realidade, a maioria dos estudos identificados está focado na análise dos benefícios, possivelmente por ser esta uma área de maior dinamismo (vejam-se os estudos sobre qualidade, por exemplo). A Figura 5 abaixo ilustra o conceito de compensação. Valor líquido para o Valor Valor líquido global cliente Valor líquido para o fornecedor do produto Preço Custo Figura 5 - O modelo da compensação Fonte: Khalifa (2004) Pelo que pode ser observado, se não houvesse qualquer forma de sacrifício para o cliente, o valor seria todo o conjunto de benefícios que o produto possui, ou seja, o ‘valor global’. No entanto, o fornecedor do produto na maioria das vezes vai ter um ‘custo’ de desenvolvimento, que representa a primeira forma de solicitação a ser feita ao demandante do produto. A diferença entre o valor total e o custo de produção constitui o ‘valor líquido’. Além do custo, o cliente também paga um ‘valor líquido para o fornecedor do produto’. Será o custo mais o valor liquido para o fornecedor que constituirá o ‘preço total’ a ser cobrado pelo produto. Por fim, o valor global subtraído do preço constituirá o valor líquido para o cliente. A título de ilustração, têm-se a seguir algumas das definições associadas a este modelo conceitual. Primeiramente, tem-se a definição de Gale (1996, p. xv), segundo o qual “valor ao cliente é a qualidade percebida pelo mercado ajustada pelo preço relativo de seu produto”. Este definição adota dois dos componentes mais evidentes de benefício e de sacrifício. A qualidade juntamente com o componente funcional (a finalidade básica do produto) são apontados na literatura como os benefícios mais esperados, ao passo que o preço (relativo) tende a ser a forma de sacrifício mais lembrada. Uma proposta de definição mais completa foi apresentada por Kotler (1998, p. 51), segundo o qual: 50 Valor entregue ao cliente é a diferença entre o valor total para o cliente e o custo total para o cliente. O valor total constitui o conjunto de benefícios que os clientes esperam de um determinado produto ou serviço. O custo total é o conjunto de custos em que os consumidores esperam incorrer para avaliar, obter, utilizar e descartar um produto ou serviços. Kotler (1998, p. 52) aponta ainda elementos mais específicos de valor para cada um dos dois componentes. Para o valor total ao consumidor, os benefícios são: valor do produto, valor dos serviços, valor dos funcionários, e valor de imagem. Já o custo total do consumidor tem os seguintes componentes: custo monetário (preço), custo de tempo, custo de energia física, custo de energia psíquica. Uma outra definição próxima da anterior, mas sutilmente diferente, é proposta por Churchill e Peter (2000, p. 13), que afirmam: “valor para o cliente é a diferença entre as percepções do cliente quanto aos benefícios e quanto aos custos da compra e uso de produtos e serviços”. A diferença entre esta definição e a anterior está no pressuposto da percepção que Churchill e Peter adotam, não claramente evidenciado por Kotler (não se pode tomar a idéia de percepção desta definição com a idéia de ‘espera’ anteriormente apresentada). Por outro lado, Churchill e Peter sumarizam as situações de percepção de valor na compra e no uso, ao passo que Kotler detalha mais, apontando a avaliação, obtenção, utilização e até o descarte de um produto. Por fim, tem-se uma definição proposta para o contexto business-to-business, proposto por Anderson et al. (1993, p. 5), que escrevem: “valor em mercados de negócios é o valor (worth) percebido em unidades monetárias do conjunto de benefícios econômicos, técnicos, de serviços e sociais, recebidos por uma firma cliente em troca do preço pago pelo produto, levando-se em consideração a disponibilidade a oferta e os preços dos fornecedores”. Como seria razoável esperar, a definição não apresenta maiores diferenças em relação às demais acima, merecendo destaque somente o fato de os autores terem detalhado os possíveis benefícios, e não tendo apontado maiores detalhes sobre os sacrifícios. Woodruff (1997, p. 141) analisou um conjunto de cinco definições de diferentes trabalhos e autores, tendo identificado alguns aspectos convergentes e divergentes em relação às definições do modelo da compensação, que merecem destaque, e 51 que também pode ser verificadas nos exemplos acima. Com relação às convergências, duas observações devem ser feitas: primeiramente, o autor identificou que as definições estão associadas ao uso de alguma forma de produto, o que já indica que o valor para o cliente é definitivamente diferente dos valores de um cliente, e do valor para uma organização e seus stakeholders; em segundo lugar, Woodruff (1997) percebeu que o valor para o cliente é anunciado na maioria das definições como sendo percebido por este, indicando assim que a criação, a oferta e a entrega de valor devem ser definidas a partir do que o cliente perceber, e não daquilo que o fornecedor entender como valor (com exceção dos itens de valor que o cliente não pode perceber tais como benefícios de produtos tecnológicos)28. Concernente às divergências de conceitos, Woodruff (1997) observou que: primeiramente, as definições apresentam diferentes elementos para indicar os benefícios (com destaque para utilidade, qualidade, valor monetário), elementos estes que também não há unanimidade em relação à suas definições29; um segundo ponto de divergência é referente à situação onde se pode (ou se deve) analisar o valor dentro da cadeia pré-compra–compra–consumo–pós-consumo (ou póscompra), como comentado acima. 2.2.1.3. Modelo meios-fins O modelo meios-fins envolve todas as propostas de análise que interpretam os produtos como portadores de atributos que os clientes demandam como forma de atender a determinados desejos ou necessidades, ou seja, este modelo analisa o valor como meio para atingir alguns fins. De acordo com Khalifa (2004, p. 653) este modelo está fundamentado na cadeia de meios-fins (mean-end chain), a qual postula que as: [...] ligações entre os atributos, as conseqüências produzidas por meio do consumo, e os valores pessoais dos consumidores, fundamentais para seus processos de tomadas de decisão. Os meios são os produtos e serviços, e 28 Uma terceira convergência encontrada foi concernente exatamente à idéia de compensação entre benefício e sacrifício. 29 Apesar de o autor não citar, o mesmo ocorre também em relação ao sacrifício, no qual se observa com maior freqüência o uso do preço como seu referencial. 52 os fins são os valores pessoais considerados relevantes para os consumidores. Como apontam Leão e Mello (2003), tal cadeia aceita que os produtos e o modo como estes se relacionam com os consumidores podem ser representados por um modelo de três níveis: (1) atributos de produtos, (2) conseqüências de consumo e (3) valores pessoais. Assim, é possível observar, a partir deste modelo, uma aproximação com o modelo de definição dos componentes de valor, e também o resgate da dimensão dos valores pessoais. Com relação ao modelo dos componentes de valor, a diferença fica na forma como os atributos de um produto são interpretados: enquanto no primeiro modelo procurase analisar os atributos genéricos para a satisfação dos clientes, o que implica uma análise mais próxima do tema satisfação; no modelo em análise a preocupação está em avaliar primeiramente o que os clientes intentam com o consumo30, com maior associação com os construtos intenção de compra, de recompra, de expectativas de resultados, dentre outros. Com relação à associação com os valores dos clientes, a associação se materializa na seqüência atributo-conseqüência-valor (A-C-V), na qual “cada consumidor forma uma percepção da extensão pela qual a conseqüência derivada do uso do produto irá ajudá-lo a obter os estados finais desejados” (LEÃO; MELLO, 2003, p. 23). Assim, se configura uma proposta de relação entre a percepção dos atributos do produto e a avaliação das conseqüências de tais atributos sobre os objetivos finais desejados31. 30 É possível argumentar que os fins que os consumidores almejam estejam subordinados ao objetivo final da satisfação no consumo, ou seja, o modelo meios-fins seria um detalhamento do modelo dos componentes de valor. Por outro lado, é possível também argumentar que os componentes de um produto devem ser analisados com a finalidade de atender de forma satisfatória aos fins desejados pelos consumidores. Esta segunda possibilidade colocaria assim o modelo dos componentes de valor como uma explicação mais detalhada do modelo dos meios-fins. Qualquer das duas perspectivas cria problemas de fronteira entre os dois modelos em comparação. Tendo em vista que na literatura não houve uma discussão mais prolongada neste contexto, este autor considera a distinção entre os dois modelos um desafio da literatura, e que não será profundamente abordado aqui. 31 A diferença entre os valores do cliente e o valor para o cliente chega a ser motivo de diversos mal entendidos, possivelmente pelo fato de a expressão ‘valor’ ser a mesma para os dois significados. Esta confusão está presente em vários trabalhos, tanto nacionais quanto internacionais, como atestam Leão e Mello (2003). Por não ser o foco deste trabalho, esta questão não será abordada aqui. 53 Assim como o modelo da compensação, o modelo meios-fins tem a adesão de diversos pesquisadores, alguns entre os mais citados na literatura sobre valor. Neste modelo há vários aspectos relevantes a serem analisados, com destaque para a definição da extensão do valor ao longo do processo pré-compra–compra– consumo–pós-consumo, e/ou da configuração deste em cada uma destas etapas. É possível observar diferentes perspectivas ou concentrações de análise. Merecem destaque as propostas de Sheth, Newman e Gross (1991), Woodruff (1997), apresentada a seguir32. Sheth, Newman e Gross (1991) mantêm concentração na análise da escolha de um cliente. Os autores adotam três postulados sobre valor e escolha: 1. a escolha do mercado é função de múltiplos valores; 2. estes valores fazem contribuições diferenciadas em situações específicas de escolha; 3. os valores são interdependentes. Como pode ser visto na Figura 6, são cinco as categorias de valor, e estas quando associadas ao consumo são em realidade os objetivos finais buscados pelos consumidores, e seriam estas as motivações para uma determinada escolha. Vejamos cada uma destas categorias. Valor funcional Valor Social Valor Emocional Comportamento de escolha Valor Epistêmico Valor condicional Figura 6 - Os cinco valores que influenciam o comportamento de escolha Fonte: Adaptado de Sheth, Newman e Gross (1991, p. 7) O valor funcional refere-se aos atributos do produto (bem ou serviço) que está sendo adquirido, sendo mais associado, a priori, às especificações técnicas do produto, sendo normalmente associado em primeira mão ao construto qualidade, e, de acordo com Sweeney e Soutar (2001), a sua relação com o preço. A 32 Os modelos apresentados a seguir atendem ao segundo desafio para o estudo de valor apresentado acima, tendo sido colocado aqui por conveniência. 54 definição para este valor é nas palavras de Sheth, Newman e Gross (1991: p. 18), “a utilidade percebida adquirida por uma alternativa como resultado de sua habilidade de executar seus propósitos funcionais, utilitários e físicos. As alternativas adquirem valor funcional a partir da posse de destacados atributos funcionais, utilitários e físicos”; Além desta dimensão de valor, também é extremamente relevante a percepção de como o consumo se associará aos relacionamentos entre as pessoas. Conforme consideraram Sheth, Newman e Gross (1991, p. 19) há uma motivação social para o consumo, que se expressa pelo valor social, definido da seguinte forma: “a utilidade percebida adquirida por uma alternativa como resultado de sua associação com um grupo social específico. As alternativas adquirem valor social a partir da associação positiva ou negativa com aspectos demográficos, socioeconômicos e ético-culturais de um grupo”; Um produto consumido também deve afetar os sentimentos dos compradores e consumidores, seja de forma positiva ou negativa. Tal ocorre em razão do valor emocional associado ao consumo. Esta dimensão de valor está definida como segue (SHETH; NEWMAN; GROSS, 1991, p. 20): “a utilidade percebida adquirida por uma alternativa como resultado de sua habilidade de gerar sentimentos e afetividade. As alternativas adquirem valor emocional quando facilitam ou perpetuam sentimentos”; Há ainda diversos tipos de produtos comprados ou adquiridos que são fortemente motivados pela possibilidade que têm de gerar conhecimentos ou satisfazer alguma curiosidade. Tal fato se deve ao valor epistêmico associado ao produto. A definição desta dimensão de valor está exposta a seguir (SHETH; NEWMAN; GROSS, 1991, p. 21): “a utilidade percebida adquirida por uma alternativa como resultado de sua habilidade de gerar curiosidade, apresentar novidade, e/ou satisfazer um desejo de conhecimento. As alternativas adquirem valor epistêmico de sua capacidade de oferecer algo novo e diferente”; Por fim, há circunstâncias especiais em que uma determinada escolha de consumo está condicionada por algo em especial, sem as quais tal decisão seria relativizada. Trata-se do valor condicional que o consumo adquire, definido a seguir (SHETH; NEWMAN; GROSS, 1991, p. 22): “a utilidade percebida adquirida por uma alternativa como resultado de uma situação específica ou de 55 um contexto enfrentado pelo decisor da escolha. As alternativas adquirem valor condicional na presença de antecedentes e contingências físicas ou sociais que elevam seu valor funcional ou social, mas não possuem valor em outras soluções”. Um outro autor que desenvolveu uma proposta de conceituação a partir do modelo dos meios-fins foi Woodruff (1997, p. 142). Após uma avaliação de várias conceituações de valor, o autor formulou a seguinte definição: É a preferência percebida por um cliente, e a avaliação dos atributos de produto, desempenho destes atributos, e conseqüências provenientes do uso que facilitam (ou dificultam), o alcance dos objetivos e propósitos deste cliente nas situações de uso. Nesta definição enfatizam-se os seguintes aspectos: primeiramente, reafirma-se o caráter percebido do valor; além disto, reforça-se a distinção entre o valor desejado e o recebido pelo cliente, destacando a questão da percepção, da preferência, e da avaliação; por fim, esta definição desencadeia a análise do valor a partir de uma hierarquia. Leão e Mello (2006), por outro lado, identificam uma ambigüidade na perspectiva dada por Woodruff, especialmente na teorização que segue no artigo em que a definição foi apontada. Segundo afirmam Leão e Melo, o autor dá uma definição para o cliente como uma das facetas do(s) valor(es) do cliente. No entanto, as definições associadas ao valor para o cliente são mais associadas ao conceito de valor percebido, e não exatamente valores do cliente. Os autores chegam a especular se Woodruff não teria cometido alguma forma de equívoco no uso das expressões. Avaliando ainda a proposta de Woodruff, a partir da Figura 7, é possível delinear níveis distintos de valor com uma percepção progressiva por parte o cliente. Assim, na base têm-se os atributos como referência para o cliente formar uma percepção de valor desejado, e desencadear também uma forma de satisfação baseada nos atributos. No segundo nível têm-se as conseqüências de uso como definidoras do valor percebido como desejado, e a correspondente satisfação baseada nas conseqüências de uso. Por fim, tem-se a formação da percepção do valor desejado 56 a partir dos objetivos e propósitos do cliente, formando-se assim a satisfação baseada nos objetivos. Valor desejado pelo cliente Satisfação do cliente com o valor recebido Objetivos Objetivos ee propósitos do propósitos do cliente cliente Satisfação baseada nos objetivos Conseqüências desejadas nas situações de uso Satisfação baseada nas conseqüências Atributos desejados e desempenho dos atributos Satisfação baseada nos atributos Figura 7 - Hierarquia de valor Fonte: Woodruff (1997, p. 142) Merece destaque a avaliação que Parasuraman (1997) faz da definição comentada acima. Primeiramente, este autor observa que a definição acima tem dificuldades em termos de operacionalização. Segundo afirma (PARASURAMAN, 1997, p. 154-155), [...] ironicamente, a potencial deficiência operacional da definição surge a partir de sua riqueza conceitual – destacando-se os múltiplos contextos (pré-compra e pós-compra), as múltiplas atividades cognitivas (‘preferência por’, e ‘avaliação de’), e os múltiplos, e crescentemente abstratos, níveis de critérios de avaliação (produto, atributos, conseqüências de uso, e objetivos dos clientes) que estão envolvidos. A partir desta observação, o mesmo autor ressalta que tal definição não conseguiu superar o nível dos atributos, o que pode ocasionar algumas dificuldades de operacionalização do construto, provocando assim alguma confusão com as análises de satisfação. Com efeito, tanto Woodruff (1997) quanto Parasuraman (1997) reconhecem que os atributos que possibilitam a avaliação do valor confundem-se com aqueles utilizados na avaliação de satisfação. A despeito de o reconhecimento de Woodruff (1997), sua definição não aponta de que forma o valor vai se diferenciar. A proposta de Parasuraman (1997) é que o valor seja avaliado considerando sua característica de abstração em relação à satisfação. Em sua análise do modelo meios-fins, Khalifa (2004) observa que este modelo falha 57 por não dar suficiente atenção ao sacrifício feito pelos clientes. Tal como é possível observar em Woodruff et al. (1993), os sacrifícios acabam sendo entendidos dentro do contexto dos atributos, apontando-se como desejável que um produto tenha como um de seus atributos a redução dos sacrifícios. Tal perspectiva reconhece no sacrifício a possibilidade de seu entendimento como um benefício (o benefício do pouco sacrifício), podendo gerar dificuldades na construção de escalas multidimensionais para mensuração do valor33. 2.2.2. A questão da dimensionalidade A partir de uma análise dos modelos de conceituação acima descritos, principalmente os modelos da compensação e dos meios-fins, é possível perceber que o construto valor pode ser operacionalizado tanto como construto unidimensional quanto de forma multidimensional. Como foi possível verificar na literatura, o valor na maioria das vezes é entendido como envolvendo benefícios e sacrifícios (mesmo que o sacrifício possa ser interpretado pela ótica do benefício). Por outro lado, Rust e Oliver (1994) sustentam que, apesar do valor (em um serviço) poder ser conceituado a partir de benefício (qualidade) e sacrifício (preço), não é muito claro como estes dois construtos (benefício e sacrifício) interagem para formar o construto valor. Lin, Sher e Shih (2005) chegam a afirmar que, por esta dificuldade, os trabalhos empíricos sobre valor chegam a ser confusos, e por vezes até contraditórios. Pelo fato do construto ser conceitualmente uma composição de dois outros construtos, surgem dificuldades tanto para seu entendimento como unidimensional quanto como multidimensional. No tratamento do valor como um construto unidimensional tem-se a vantagem da simplificação, com sua mensuração sendo facilmente realizada a partir dos métodos 33 A geração de questões em medição pode ter grandes variações. Como exemplo, ao perguntar para um cliente se considera o risco de uso de um produto baixo, ou o preço atrativo, está-se tentando avaliar o quanto o sacrifício é baixo. Por outro lado, ao se perguntar o quanto o preço influencia na escolha, ou o quanto o esforço de aprendizado determina a decisão de recompra, a finalidade é avaliar de que modo o sacrifício é determinante da compra. A sutiliza das diferenças ocasiona dificuldades diversas em pesquisas empíricas, e pode motivar interpretações variadas de resultados de pesquisas. 58 psicométricos tradicionais. Como ilustração, pode-se citar os procedimentos de mensuração que usam na maioria das vezes expressões como o ‘valor pelo que se paga’, a ‘qualidade pelo dinheiro gasto’, dentre outras. Como pode ser observado na literatura, é possível a obtenção de resultados satisfatórios, mas tendo como custo uma evidente simplificação no conceito. Em verdade, respostas que possibilitam uma operacionalização quantitativa satisfatória parecem estar escondendo uma dificuldade que permanece sem solução, que consiste em trabalhar com construtos distintos que compõem um terceiro que é, por outro lado, influenciado por estes mesmos construtos34. Os diversos trabalhos disponíveis que operacionalizam o valor como unidimensional não dão resposta para este problema. Como afirmam Lin, Sher e Shih, (2005, p. 319), [...] apesar de este procedimento capturar o valor percebido em um padrão meios-fins (e também em um modelo de compensação), os usuários serão levados a considerar os componentes de benefício e sacrifício e o construto valor como conceitos distintos, com relacionamentos baseados sobre redes nomológicas (de modelos estruturais), implicando assim que os componentes de benefício e sacrifício não são partes do valor percebido. Como afirmam ainda Lin, Sher e Shih, (2005, p. 321), por esta perspectiva, o relacionamento entre valor, benefício e sacrifício são conceitualmente tautológicos, porque “a percepção de elevado valor implica necessariamente a percepção de elevados benefícios e reduzidos sacrifícios, ou ambos”. Assim, tais modelos, por sua condição tautológica, seriam auto-verificáveis, e, portanto, não falseáveis. A despeito desta suposição, verifica-se que nem sempre os resultados são de fato assim verificados. Também as interpretações desenvolvidas nos modelos parecem consistentes, razão pela qual a operacionalização do valor nesta perspectiva foi procedida nesta tese. Concernente à percepção do valor como um construto multidimensional, as formas de benefício e de sacrifico são entendidas como dimensões do valor. Estas formas não devem, por outro lado, substituir uma medida do valor percebido, ou seja, nos 34 A suposição de ser influenciado por outros construtos é completamente distinta daquela de que o construto é composto por outros. A diferença fundamental está no método de operacionalização. Vários dos modelos estruturais desenvolvidos colocam elementos de benefício e de sacrifício como antecedentes do valor. Um entendimento preliminar partiria dos construtos de benefício e sacrifício como dimensões de valor, que é, conceitualmente, formado a partir destes, porém nos modelos com valor unidimensional a operacionalização é feita em separado, na forma de construtos distintos. Tal procedimento possibilita a compreensão de que, apesar de o valor ser a compensação de benefício e sacrifício, seus componentes são distintos deste. 59 modelos estruturais nos quais são operacionalizados construtos de benefício e de sacrifício, deve-se incluir a análise do construto valor. Conforme afirmam Lin, Sher e Shih, (2005, p. 322), Se o interesse de um a teorização é em valor percebido, tratar os elementos de benefício e de sacrifício com partes do valor e como antecedentes em modelos estruturais, mas com a omissão de uma medida de valor geral, significa analisar hipóteses sobre valor percebido, conduzir análises no nível de componentes, e estabelecer conclusões no nível de valor percebido. O estabelecimento de uma medida de valor geral sem sua mensuração por meio de variáveis observáveis é feito de duas formas distintas. Primeiramente, pode-se interpretar o valor percebido geral como um construto multidimensional formativo de segunda ordem, com a utilização dos componentes de benefício e de sacrifício como os indicadores formativos, estes refletidos por seus indicadores observáveis. Conforme argumentam Lin, Sher e Shih, (2005, p. 326), "os componentes de primeira ordem (dimensões) não são antecedentes do valor; antes, são parte integrais deste”. A segunda alternativa consiste em admitir o valor como um construto multidimensional reflexivo de segunda ordem, com a utilização das dimensões de benefício e de sacrifício como variáveis. O procedimento consiste em, basicamente, gerar uma medida de cada construto (variável latente), e, em seguida, utilizar as diversas medidas como variáveis observáveis. Surge aqui um problema conceitual: utilizar este modelo significa supor que primeiramente o cliente percebe valor, e em seguida avalia os benefícios e sacrifícios. Tal interpretação traz dúvidas, pois é possível supor que primeiramente o cliente avalia o que receberá de benefício, quais serão os sacrifícios, para em seguida formar uma percepção de valor. As duas alternativas sugeridas trazem a vantagem de viabilizar uma interpretação mais ampla do valor, comparativamente à sua interpretação como construto unidimensional. Por outro lado, a literatura pesquisada ainda não explorou mais detidamente as peculiaridades das possibilidades apresentadas. Lin, Sher e Shih, (2005), que mostraram evidente predileção pelo modelo multidimensional formativo, optaram por desenvolver as três possibilidades para avaliar a consistência dos modelos que desenvolveram. Nesta tese, optou-se também por uma avaliação dos modelos desenvolvidos pelas três alternativas (outros detalhes serão comentados no 60 item 2.6 e nos capítulos 3 e 4). Com relação à operacionalização do valor como um construto multidimensional, diversos trabalhos foram identificados, tendo-se percebido que, na sua maioria, trazem um maior detalhamento dos benefícios que dos sacrifícios. O Quadro 1 abaixo aponta os trabalhos considerados mais relevantes para esta tese. Trabalho Propósito Sweeney e Soutar (2001) Desenvolvimento de escala Petrick (2002) Desenvolvimento de escala Paiva (2004) Desenvolvimento de escala Lapierre (2000) Desenvolvimento de escala Dimensões de benefícios Qualidade Valor emocional Valor social Qualidade Resposta emocional Reputação Empatia Confiabilidade Benevolência Competência Soluções alternativas Qualidade do produto Personalização do produto Receptividade Flexibilidade Confiabilidade Competências técnicas Imagem do fornecedor Confiança e solidariedade Dimensões sacrifício Preço Preço monetário Preço comportamental Preço Preço Tempo/esforço/energia Conflito Quadro 1 – Formas multidimensionais de valor Fonte: Elaborado pelo autor Um primeiro trabalho foi realizado por Sweeney e Soutar (2001) com o propósito de desenvolver uma escala de medição de valor para consumidores de bens duráveis. Das quatro dimensões identificadas para o contexto de desenvolvimento de seu trabalho, três eram relacionadas a benefícios: qualidade, valor emocional, e valor social. Sobre o sacrifício foi apontado somente o construto preço35; Em um estudo com propósito semelhante, Petrick (2002) desenvolveu uma escala para medição de valor percebido em serviços. O autor identificou, a partir da literatura por ele pesquisada, que o valor deveria ser mensurado a partir de cinco dimensões, três das quais na forma de benefício: qualidade, resposta emocional e reputação. Para o sacrifício foram encontradas duas dimensões, 35 O trabalho foi desenvolvido tomando-se por base o trabalho de Sheth, Newman e Gross (1991) descrito acima. Para detalhamento sobre este trabalho, e outros deste item, ver o item 2.3.2.2. 61 identificadas por preço monetário e preço não monetário (behavioral price); Um terceiro trabalho foi desenvolvido por Paiva (2004), que concentrou esforço no desenvolvimento de mais uma escala de valor, esta relacionada com a medição do valor percebido por clientes de bancos de varejo. O autor identificou um total de cinco dimensões de valor, quatro das quais relacionada a benefício: empatia, confiabilidade, benevolência, e competência. Para sacrifício o autor apontou somente o preço; Ainda sobre o desenvolvimento de escalas, destacou-se o trabalho desenvolvido por Lapierre (2000), que desenvolveu uma proposta de avaliação do valor no contexto industrial. Para este autor, o valor pode ser avaliado em dimensões de primeira e segunda ordem. Em primeira ordem foram identificadas treze dimensões (dez das quais benefícios), que geram em segunda ordem duas dimensões (benefício e sacrifício). As dimensões de benefício foram: soluções alternativas, qualidade no produto, personalização do produto, receptividade, flexibilidade, confiabilidade, competências técnica, imagem do fornecedor, confiança e solidariedade. As dimensões do sacrifício foram três: preço, tempo/esforço/energia, e conflito. 2.2.3. A questão do sacrifício Considerando a relevância do sacrifício na composição do valor para o cliente, decidiu-se aprofundar a discussão neste tópico. Como verificado acima, o sacrifício tem sido explorado na maioria dos estudos de maneira secundária em relação aos desdobramentos dos benefícios. Por outro lado, há autores que reforçam a relevância dos sacrifícios, ponderando que os consumidores são mais influenciados pelos sacrifícios que pelos benefícios, ou mais pelas perdas que pelos ganhos (BOLTON, 1998; RAVAL; GRÖNROOS, 1996); ou ainda que o valor para o cliente é entregue mais efetivamente a partir da redução dos sacrifícios que pelo acréscimo de benefícios (GRÖNROOS, 1997; SWEENEY; SOUTAR; JOHNSON, 1999). No entanto, não foi evidenciado na literatura pesquisada qualquer esforço no sentido de aprofundar o estudo do sacrifício. Avaliando especificamente o sacrifício em cada um dos exemplos do Quadro 1, é evidenciado que este não pode ser interpretado somente a partir do preço, apesar 62 de ser esta a opção de dois dos quatro trabalhos. Têm-se, por outro lado, dois estudos que citam os elementos do sacrifício de formas variadas, aportando outros elementos além do preço monetário. Todavia, apesar do reconhecimento de que o sacrifico não é necessariamente monetário, a nomenclatura que sempre associa o sacrifício à idéia de custos é evidente na literatura, o que ocasiona dificuldades de avanços rumo a um entendimento mais adequado do tema. O estudo de Woodall (2003) que identificou na literatura sobre valor diversas referências aos sacrifícios, ilustra este argumento. As expressões mais recorrentes são a seguintes: preço, preço de mercado, custos, custo monetário, custo financeiro, custo de uso, custo percebido, custo de busca, custo de aquisição, custo de oportunidade, custo de entrega e instalação, custo de reparo, custo de treinamento e manutenção, custo não monetário, custo não financeiro, custo psicológico, tempo, esforço, energia humana, dentre outras. Este mesmo autor propõe uma classificação dos diversos tipos de sacrifício em duas dimensões (WOODALL, 2003, p. 14): Sacrifício monetário - envolve preço alem do preço os seguintes custos: procura, aquisição, oportunidade, distribuição, aprendizado, manutenção, e descarte; Sacrifício não-monetário - envolve os custos de relacionamento e psicológico, o tempo, e o esforço. A proposta do autor, apesar de constituir um avanço na avaliação do sacrifício, não deixa evidenciada a forma como estas categorias se compensam nos pontos de interseção. Por exemplo, o custo monetário de procura é bastante semelhante ao custo não-monetário de tempo, assim como o custo monetário de aprendizado confunde-se com o custo não-monetário de esforço. Há ainda outras categorizações genéricas, tendo-se considerado o entendimento de Khalifa (2004) como o mais adequado. Por esta perspectiva foi possível identificar pelo menos quatro categorias distintas de sacrifício. São as seguintes: Preço monetário: relacionado ao desembolso efetuado na aquisição de um produto. Esforço: refere-se ao esforço físico ou mental que deve ser dispensado pelo consumidor/cliente para desfrutar dos benefícios de um produto. Há diversos tipos citados na literatura sobre esforço, sendo mais relatado: pesquisa, 63 aquisição, aprendizado, uso, assistência técnica etc.; Tempo: está vinculado ao tempo que o consumidor/cliente tem que ceder para acessar os benefícios do produto. É muito semelhante ao esforço, pois ambos podem ocorrer simultaneamente, sendo as situações de esforço as mesmas do tempo, ou seja, pesquisa, aquisição, uso...; Risco: esta categoria de sacrifício é uma das menos recorrentes, apesar dos estudos de risco serem anteriores aos estudos mais avançados sobre valor. Especificamente sobre o risco como uma dimensão de valor, considerou-se explicativa a sugestão de Ostrom e Iacobucci (1995), que colocaram o risco percebido na condição de ‘sacrifício previsto’, alegando que os clientes buscam incrementar os benefícios para compensar tanto os sacrifícios presentes quanto os futuros. Trata-se, em realidade, de uma categorização alternativa do sacrifício tomando-se como critério o tempo de sua realização. Pelo interesse que já demonstrou na literatura, o risco traz já associado a si um subconjunto de categorias. Para Brooker (1983), estas categorias são: risco financeiro, de desempenho, físico, psicológico, social, e de perca de tempo. Apesar da relevância potencial para a literatura sobre valor, uma exploração mais profunda da temática está fora dos propósitos desta tese. 2.3. A MENSURAÇÃO DO VALOR A problemática da medição está evidenciada em vários autores, e constitui um componente fundamental no estudo do valor para o cliente. Deste modo, o objetivo deste item é avaliar como o valor na perspectiva do cliente é mensurado, analisando-se as propostas de escalas já desenvolvidas. 2.3.1. Considerações sobre mensuração em marketing A medição de construtos em ciências sociais em geral, e em marketing em particular, é uma preocupação constante tanto para o contexto de pesquisa quanto para o contexto prático (DEVILLES, 2003). A razão vem da constatação de que um construto ou um fenômeno poderá ser mais bem compreendido a partir de sua 64 medição (DEVELLIS, 2003; NETEMEYER; BEARDEN; SHARMA, 2003). Os esforços de medição passam primeiramente pela compreensão do que significa mensurar um construto. A mensuração, segundo Netemeyer, Bearden e Sharma (2003, p. 2), consiste em “regras para atribuição de símbolos a objetos para representar numericamente quantidades de atributos”. Tais atributos são componentes de um dado construto. Serão medidos, assim, os atributos, e a partir destes, será medido o construto, em um processo de mensuração indireta. A literatura pesquisada indicou que os estudos de marketing e comportamento do consumidor avançaram bastante nos últimos 30 anos na solução do problema da mensuração de seus construtos. Como pode ser conferido nos “handbooks” de escalas em marketing, centenas de construtos já têm escalas desenvolvidas e testadas, podendo ser utilizadas em estudos acadêmicos ou não (BEARDEN; NETEMEYER, 1998; BRUNER II; JAMES; HENSEL, 2001). Por outro lado, parece não ser muito aceita a idéia de que os estudos devem partir destas escalas já desenvolvidas. Como argumentou Bruner II (2003), muitos pesquisadores preferem desenvolver uma escala adicional, independente da existência de outra escala, seja por desconhecimento ou por conveniência. Cabe aos autores de pesquisas ou aos executivos uma análise mais cuidadosa destes procedimentos, considerando as vantagens de desvantagens. A utilização de escalas já desenvolvidas envolve alguns cuidados, e deve-se preceder à análise de vantagens e desvantagens. A principal vantagem consiste no baixo sacrifício de se usar uma escala já pronta, principalmente porque o desenvolvimento de uma escala requer bastante esforço, e normalmente envolve elevados custos. Por outro lado, a utilização de uma escala pré-existente envolve riscos diversos, tais como a inadequação da amostra, as diferenças no contexto sócio-cultural, a finalidade do estudo, dentre outros. Segundo Bruner II (2003), três características são fundamentais na análise do uso de uma escala: a padronização, que consiste no nível em que as mesmas regras de aplicação de uma escala podem ser utilizadas em um construto em diferentes 65 situações; a equivalência, referente ao uso de diferentes escalas para medir um mesmo construto, com a finalidade de se analisar o quanto escalas para um mesmo construto são convergentes; e justificativa, que corresponde às justificativas para o uso ou não de uma escala pré-definida. Desde que haja compatibilidade entre o construto definido, condições de aplicação, e convergência entre a escala e o construto, a melhor alternativa é utilizar uma escala já existente. A recomendação é, portanto, que primeiramente seja avaliada a situação, e partir para o trabalho de desenvolvimento de uma escala somente quando não houver possibilidade de utilização de uma outra já preparada. Por outro lado, como é recorrente que haja de uma pesquisa para outra algumas diferenças de ordem cultural, temporal, das características pessoais do respondente, dentre outras, é comum um esforço de adaptação a partir de um exame contextualizado da aplicação, e de procedimentos qualitativos, como forma de promover um aprimoramento das propriedades de mensuração das escalas (este procedimento foi utilizado nesta tese). 2.3.2. Medição do valor A medição do valor percebido tem sido feita de maneiras distintas, com conceituações distintas, e com composições variáveis. O principal fator determinante destas variações é o contexto de uso da medição. Vejamos cada uma das opções: Nas situações em que o valor é medido para analisar seu relacionamento com outros construtos, a mensuração tende a ser feita de maneira mais parcial, e, de modo geral, de forma separada das medições de qualidade percebida. Isto ocorre, possivelmente, pela melhor adequação aos propósitos de pesquisa que envolve múltiplos construtos, seja porque viabiliza um esforço menos exaustivo, seja porque facilita a coleta de dados; Já em situações mais orientadas para a aferição do construto em suas múltiplas dimensões, as escalas tendem a ser mais amplas, com a inserção das medições percepções de benefícios e de sacrifícios separadamente. A aplicação desta opção com propósito declarado de medir as várias dimensões de valor foi verificada em menor escala na literatura; 66 Um terceiro contexto de medição utiliza as duas formas comentadas, ou seja, é feita uma mensuração dos componentes de valor em separado, além de uma mensuração global (do valor como construto unidimensional). Optou-se por apresentar as duas primeiras opções em separado (a terceira opção decorre das duas iniciais), inicialmente com a apresentação das medições de valor para relacionamento com outros construtos, e em seguida para avaliações sem intenções prévias de relacionamento. 2.3.2.1. Medições para relacionamento com outros construtos As medições de valor percebido nos trabalhos em que este construto se associa com outros são bastante diversificadas. A análise de alguns destes trabalhos mostra, por outro lado, alguns pontos de convergência com o conceito de valor, principalmente no seu entendimento como uma troca de benefícios por sacrifícios. Assim, dentre os diversos trabalhos avaliados, optou-se por apresentar somente quatro exemplos, selecionados com o máximo de variação entre si possível. Em uma análise prévia dos quatro trabalhos selecionados, pode-se observar que três deles envolveram além do valor percebido, a qualidade percebida. Considerando que a qualidade é uma das dimensões do valor, optou-se por expor como este construto (a qualidade) está sendo medido. Também se deve observar que um dos trabalhos traz o construto sacrifício sendo operacionalizado de modo separado do valor. Trabalho 1 Fornell et al. (1996) desenvolveram um estudo para testar as hipóteses do American Customer Satisfaction Index – ACSI (Índice de Satisfação do Cliente [Norte-] Americano). Este índice envolve um modelo de relacionamento entre os construtos qualidade percebida, expectativas do consumidor, valor percebido, satisfação geral do consumidor, reclamação dos clientes, e lealdade. Cada um destes construtos é medido em uma escala de pontos que o respondente aplica para cada item36. Para a 36 Apesar de o artigo não deixar claro qual a referência para pontuação, a escala parece ter sido de 10 pontos. 67 aferição da qualidade percebida os seguintes itens são pontuados: Avaliação geral da qualidade experimentada (na situação de póscompra); Avaliação da experiência de customização, ou o quanto o produto se ajusta bem às demandas pessoais do cliente (na situação de póscompra); Avaliação da confiabilidade da experiência, ou com que freqüência houve problemas com o produto (na situação de pós-compra). Especificamente para a aferição de valor percebido, os autores utilizaram as seguintes questões: Avaliação para a qualidade, considerando o preço; Avaliação do preço, considerando a qualidade. Conforme é possível observar, os autores resumem o valor percebido a uma relação entre qualidade e preço, seguindo os estudos sobre o Profit of Impact Marketing Strategies (PIMS), sem explorar outras dimensões do valor. Avaliando-se a partir da discussão conceitual desenvolvida anteriormente, a proposta pode ser entendida como uma subexploração do construto, o resumindo em excesso. Trabalho 2 Já o estudo de McDougall e Levesque (2000) apresentou a relação do valor percebido juntamente com os construtos qualidade essencial e qualidade relacional, todos estes construtos como sendo formativos de satisfação do consumidor, e este último influenciando as intenções de lealdade ou ruptura do relacionamento dos clientes com empresas de serviços. Na medição da qualidade os autores adotaram uma alternativa comparativa. A medição foi da seguinte maneira: partindo-se da seguinte afirmação “se um escore ideal é 100%, como você pontuaria o prestador do serviço”, Quanto à habilidade técnica ___ (qualidade essencial)? Quanto ao relacionamento pessoal ___ (qualidade relacional)? Já para medir o construto valor percebido os autores utilizaram um único item, que consistia na seguinte afirmação: ‘o (prestador do serviço) ofereceu um bom valor pelo dinheiro requerido’. Para avaliação, o autor utilizou uma escala de Likert de 7 pontos, com 1 correspondendo à discordância total, e 7 correspondendo à concordância total. De modo semelhante ao trabalho de Fornell et al. (1996), McDougall e Levesque 68 (2000) não demonstraram uma maior preocupação em explorar as várias dimensões do valor, reduzindo excessivamente as possibilidades de exploração do construto. Trabalho 3 Um outro trabalho relevante que faz a aferição de valor percebido foi desenvolvido por Cronin Jr., Brady e Hult (2000). A proposta destes autores foi analisar o relacionamento entre qualidade em serviços, valor, sacrifício (operacionalizado de modo separado do valor), satisfação e predisposições comportamentais, com uma análise em quatro setores diferentes de serviços: esportivos, entretenimento, cuidados de saúde, entregas em longa distância, e alimentos (fast food). Para a aferição da qualidade, os autores partiram da escala SERVQUAL, de Parasuraman, Zeithaml e Berry (1988), com adaptações. Inicialmente, a qualidade foi avaliada em 10 itens, em uma escala de performance da qualidade do serviço, mostrada a seguir: De maneira geral, os funcionários fornecem os serviços confiáveis e consistentes; De maneira geral, os funcionários são desejosos e aptos a fornecer os serviços pontualmente; De maneira geral, os funcionários são competentes (em conhecimento e habilidades); De maneira geral, os funcionários estão disponíveis e são fáceis de contatar; De maneira geral, os funcionários são corteses, polidos e respeitosos; De maneira geral, os funcionários ouvem e falam na língua que posso compreender; De maneira geral, os funcionários são honestos e confiáveis; De maneira geral, estas facilidades me trazem um clima de segurança; De maneira geral, os funcionários se esforçam para entender minhas necessidades; De maneira geral, o ambiente físico e os funcionários são arrumados e limpos. Cada um destes itens era avaliado com uma pontuação de 1 a 9, sendo 1 representando “muito baixo”, e 9 indicando “muito alto”. Além destes itens, a percepção da qualidade geral dos serviços foi avaliada a partir de três outros itens, também em uma escala de 9 pontos, conforme exposto abaixo: Pobre Inferior Baixo padrão 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 2 3 4 5 6 7 8 9 1 2 3 4 5 6 7 8 9 Excelente; Superior; Alto padrão. O sacrifício percebido foi avaliado em três itens, também com uma pontuação 1 a 9, com o mesmo significado aplicado em desempenho da qualidade. Os itens foram: 69 O preço cobrado para utilizar esta facilidade é ____; O tempo exigido para utilizar esta facilidade é ____; O esforço que eu devo fazer para receber o serviço oferecido é ___. Por fim, o valor percebido no serviço foi avaliado em apenas dois itens, com a mesma referência de pontuação dos dois construtos anteriores: De um modo geral, o valor desta facilidade para mim é ___; Comparativamente com o que dou, a capacidade deste serviço de atender a minhas necessidades é ___. Esta aferição, apesar de ter medido o valor com apenas dois itens, trouxe inovação na operacionalização do sacrifício, neste caso operacionalizado de modo separado. Trata-se de uma alternativa na análise do valor percebido que pode ser utilizada para situações em que se prefere ilustrar os efeitos do sacrifício em separado tanto sobre o valor como sobre outros construtos de um modelo estrutural. Trabalho 4 Por fim, o trabalho de Yang e Peterson (2004) analisou o valor percebido e a satisfação percebida como determinantes da lealdade dos consumidores, e verificou o nível de influência dos custos de ruptura percebidos pelos clientes nesta relação. Diferente dos três trabalhos acima, estes autores não envolveram o construto qualidade na relação. Os autores também preferiram avaliar o valor percebido sugerindo a comparação com outras empresas. Assim, foram utilizadas cinco afirmações a serem avaliadas pelos respondentes a partir de uma escala de Likert de 5 pontos, com 1 representando discordância total, 3 indicando posição neutra, e 5 indicando concordância total com a afirmação. As afirmações foram as seguintes: Comparando com outras companhias, a atual oferece custos de produto/serviço atrativos; Comparando com outras companhias, a atual me cobra um preço justo por produtos/serviços similares; Comparando com outras companhias, a atual me oferece mais serviços gratuitos; Comparando o que eu pago pelo que eu devo receber de outras companhias concorrentes, penso que a atual me proporcionou um bom valor; Comparando o que eu pago pelo que eu devo receber de outras companhias concorrentes, penso que a atual me proporciona um bom valor. Conforme é possível observar nos itens acima, Yang e Peterson (2004) inseriram as 70 questões referentes aos sacrifícios no mesmo contexto dos benefícios, com ênfase na justiça do sacrifício do cliente, e na idéia de troca dos benefícios pelos sacrifícios, principalmente o preço monetário. 2.3.2.2. Escalas específicas de mensuração do valor Com relação às escalas desenvolvidas especificamente para medição de valor percebido, na análise da literatura destacaram-se três propostas diferentes, desenvolvidas em contextos distintos, uma associada a produtos físicos, e as outras duas associadas a serviços. Proposta de Sweeney e Soutar (2001) Sweeney e Soutar (2001) desenvolveram uma escala multiitem para aferição do valor percebido por clientes de produtos duráveis, no nível de marcas. A escala, desenvolvida foi nomeada PERVAL, e teve as seguintes características: Quanto à definição do construto: os autores não deixam muito claro a definição de valor que orienta o desenvolvimento da escala. A análise do texto permitiu compreender que a definição de referência vê o valor percebido com a “utilidade percebida” pelos clientes na decisão de compra, com ênfase menor no sacrifício. Descrição: para a operacionalização do construto é utilizada a proposta de Sheth, Newman e Gross (1991) que definiram cinco categorias de valor associadas ao consumo: social, emocional, funcional, epistêmico, e condicional, com a exclusão das dimensões de valor epistêmico e condicional, e o valor funcional tendo sido dividido em qualidade e preço. Assim, os autores desenvolveram a escala com quatro dimensões de valor: social, emocional, qualidade, e preço. Desenvolvimento: foram realizados seis grupos de foco (em um total de 60 pessoas), com a geração inicial de 117 itens. A seguir os itens foram submetidos a avaliações de especialistas, mantendo-se 85 itens. Foi desenvolvido um questionário e aplicado a 273 estudantes australianos, restando, a partir da depuração dos dados, um total de 24 itens. O segundo estágio envolveu um levantamento por telefone com 303 respondentes válidos, possibilitando um aperfeiçoamento da escala com a utilização de 19 itens. Um terceiro estágio de levantamentos envolveu duas amostras com 323 e 312 respondentes no ponto 71 de vendas, confirmando a validade da escala com 19 itens, e com quatro dimensões. Em todos os quatro fatores, a confiabilidade, medida pelo ‘Alpha de Cronbach’, foi bastante significativa (pelo menos 0,84). Segundo os autores, as validades convergente e discriminante confirmaram a consistência das dimensões da escala. Escores: os respondentes deveriam responder às afirmações nos 19 itens em uma variação de 1, para discordo totalmente, a 7, representando concordo totalmente. A escala desenvolvida encontra-se no Quadro 2. 1 2 3 4 5 6 7 ITENS 1. QUALIDADE: nível de qualidade do produto com relação à durabilidade e desempenho Tem qualidade consistente É bem feito Tem um padrão de qualidade aceitável Tem fabricação pobre* Não duraria muito Deve ter desempenho consistente 2. EMOCIONAL: características do produto que geram satisfação e prazer em nível pessoal Eu gostaria muito do produto Dá vontade de utilizar Sinto-me relaxado em usar Faz me sentir bem Traz prazer quando uso 3. PREÇO: nível de retorno em benefícios pelo preço pago, e justiça no preço Está racionalmente precificado Oferece valor pelo que é pago É um bom produto pelo preço que tem È econômico 4. SOCIAL: características do produto que geram satisfação e prazer pessoal em nível social Ajudaria a me sentir aceito Melhoraria a forma como sou percebido Teria uma boa impressão para as outras pessoas Daria ao proprietário aprovação social * As variáveis grafadas em itálico têm sentido inverso Quadro 2 - Escala de valor – PERVAL Fonte: Adaptado de Sweeney e Soutar (2001). Proposta de Petrick (2002) Petrick (2002) desenvolveu uma escala multiitem de aferição do valor percebido por clientes de serviços, com foco em serviços de lazer, e, mais especificamente, serviços de cruzeiros marítimos. Na escala desenvolvida, chamada SERV-PERVAL, destacam-se os seguintes aspectos: Definição adotada: o autor utilizou a definição clássica de valor como um trade-off 72 entre benefícios e sacrifícios, conforme proposto por Zeithaml (1988), o que direcionou a medição de cada um destes componentes; Descrição: o autor se baseou em uma ampla pesquisa bibliográfica e apresentou a operacionalização do valor a partir de cinco dimensões, sendo três associadas aos benefícios (qualidade, resposta emocional, e reputação), duas associadas ao sacrifício (preço monetário; e preço não monetário, este identificado por preço comportamental). Desenvolvimento: Petrick analisou em um primeiro momento a literatura, gerando um total de 52 itens. Estes itens foram submetidos a 4 especialistas com o intuito de avaliar clareza e representatividade, tendo resultado um total de 25 itens, Em seguida foi desenvolvido um questionário e aplicado em uma amostra piloto composta por 344 estudantes universitários. Em um terceiro momento, o questionário foi aplicado a clientes de dois cruzeiros marítimos, tendo-se obtido 374 e 398 respostas. A análise estatística validou a escala satisfatoriamente: em todos os cinco fatores, a confiabilidade, medida pelo ‘Alpha de Cronbach’, foi de pelo menos 0,70. Segundo o autor, as análises de validade convergente e discriminante confirmaram a consistência da escala. Escores: na indicação do valor percebido, os entrevistados deveriam responder às afirmações nos 25 itens em uma variação de 1, representando totalmente falso, a 5, representando totalmente verdadeiro. A escala desenvolvida encontrase no Quadro 3. ITENS 1 2 3 4 5 1. QUALIDADE: nível de qualidade do produto com relação à durabilidade e desempenho É de qualidade excepcional É muito confiável É muito seguro É muito consistente 2. RESPOSTA EMOCIONAL: características do produto que geram satisfação e prazer em nível pessoal Faz com que eu me sinta bem Dá-me prazer Traz-me alegria Faz-me sentir deleitado Traz-me felicidade 3. PREÇO MONETÁRIO: nível de retorno em benefícios pelo preço monetário pago, e justiça no preço É uma boa compra É válido pelo dinheiro gasto Tem um preço justo Tem um preço racional É econômico Parece uma boa pechincha 73 4. PREÇO NÃO MONETÁRIO: envolve os custos não-monetários inclui aspectos com o tempo gasto, custo de pesquisa, imagem de marca e conveniência É fácil de encontrar Requer pouco esforço na compra É fácil comprar Requer pouca energia na compra É facilmente comprável 5. REPUTAÇÃO: refere-se à imagem e reputação do serviço consumido, e da empresa que presta o serviço; Tem boa reputação É bem respeitado Tem boa imagem Tem status É reputável Quadro 3 - Escala de valor – SERV-PERVAL Fonte: Adaptado de Petrick (2002) Proposta de Paiva (2004) A terceira escala apresentada é uma contribuição brasileira no avanço do aprimoramento da medição de valor. Trata-se da proposta de escala desenvolvida por Paiva (2004), que sugere uma escala específica para o varejo bancário, denominada VVBB (Valor no Varejo Bancário Brasileiro). Têm-se as seguintes características: Definição adotada: o autor não deixou clara a definição de valor tomada como referência. Utilizou o conceito de estrutura de valor para o cliente, que, segundo informa (PAIVA, 2004, p. 3): […] tem como função refletir aquilo que o cliente entende, no momento presente, como valioso para o início e manutenção de um relacionamento fiel e duradouro com uma organização, proporcionando um gerenciamento eficaz no sentido de incrementar o valor do cliente no decorrer de sua vida útil de consumo. Descrição: na operacionalização do construto, o autor resolveu utilizá-lo como tendo cinco dimensões, uma das quais se refere ao preço (sacrifício)37. As cinco dimensões utilizadas são: empatia, confiabilidade, preço, benevolência, e competência. Desenvolvimento: inicialmente o autor identificou um conjunto de 117 itens a partir de mini-grupos de foco, e, após a submissão à análise de especialistas, manteve um total de 82 itens. A partir de um questionário elaborado, os itens foram submetidos a um levantamento junto a clientes de alta renda de um banco brasileiro, tendo-se obtidos 227 questionários válidos, resultando, após um 37 Na proposta do autor é utilizado, em lugar do conceito de dimensão, o conceito de subconstruto. Para manter coerência com as duas escalas anteriores, preferiu-se aqui utilizar a nomenclatura dimensão. 74 processo de depuração, 32 itens. Um segundo levantamento foi realizado junto a outros 116 respondentes com características semelhantes em relação ao levantamento anterior, resultando, após a análise desta última amostra, um total de 25 itens. Além dos procedimentos estatísticos, Paiva comparou sua escala com a escala de medição da qualidade no serviço (SERVQUAL), desenvolvida por Parasuraman, Berry e Zeithaml (1988), tendo concluído que a escala de valor era consistente. A análise estatística validou a escala satisfatoriamente: em todos os cinco fatores, a confiabilidade, medida pelo ‘Alpha de Cronbach’, foi de pelo menos 0,56, no fator preço (um valor baixo mas que pode ser aceito). Segundo o autor, as análises de validade convergente e discriminante confirmaram a consistência da escala. Escore: em cada um dos itens da escala, os avaliados deveriam responder às afirmações nos 25 itens em uma variação de 1, representando discordância total, a 6, representando concordância total. A escala desenvolvida encontra-se abaixo. ITENS 1 2 3 4 5 6 1. EMPATIA - Capacidade de transmitir uma imagem favorável e superior da marca, criando identidade com o cliente de forma que ele se sinta satisfeito, convicto e comprometido em manter o relacionamento com o banco. O cliente do Banco Ideal receberá tratamento semelhante em qualquer uma das agências As dependências (agências e salas de auto-atendimento) do Banco Ideal terão aspecto visual que agrade ao cliente Todas as dependências do Banco Ideal seguirão o mesmo padrão de funcionamento, fazendo dele um banco com identidade única O Banco Ideal apoiará ações e investimentos de interesse social O Banco Ideal terá produtos e serviços adequados aos diferentes tipos de clientes 2. CONFIABILIDADE - Demonstrar, de forma permanente, que o banco é capaz de prestar serviços e disponibilizar produtos que cumprem o prometido, utilizando-se de linguagem clara, informações fidedignas e solucionando problemas com presteza e interesse. O Banco Ideal adotará uma linguagem clara ao se comunicar com o cliente As falhas do Banco Ideal serão corrigidas tão logo sejam detectadas O Banco Ideal comunicará previamente ao cliente toda mudança que afete a movimentação da sua conta corrente Todos os documentos referentes a transações com o Banco Ideal terão linguagem facilmente compreensível pelo cliente Todas as pessoas que precisarem dos serviços do Banco Ideal serão atendidas com respeito O cliente se sentirá protegido de danos à sua integridade física nas dependências do Banco Ideal O Banco Ideal cumprirá fielmente o que for acordado com o cliente Os funcionários do Banco Ideal saberão utilizar a linguagem mais adequada para se comunicar com os diferentes tipos de cliente 75 3. PREÇO - Relação custo-benefício positiva para o cliente, motivando o incremento na aquisição e utilização dos produtos e serviços do banco. Os rendimentos das aplicações financeiras no Banco Ideal serão maiores do que nos concorrentes As taxas de juros para empréstimos no Banco Ideal serão inferiores às dos concorrentes À medida que o cliente aumentar o volume das suas aplicações no Banco Ideal, a taxa de juros de empréstimos para ele será reduzida O Banco Ideal dará descontos e prêmios ao cliente pelo maior uso do cartão de crédito O Banco Ideal concederá ao cliente um período por mês para utilização do limite do cheque especial sem cobrança de juros 4. BENEVOLÊNCIA - Adotar práticas que respeitem e favoreçam as preferências do cliente, acima dos interesses do banco. O cliente do Banco Ideal será sempre orientado a utilizar as máquinas de auto-atendimento, mesmo quando preferir fazer transações no caixa O Banco Ideal oferecerá seus produtos e serviços, independentemente do interesse do cliente O Banco Ideal poderá enviar todo tipo de propaganda ao cliente, independente da sua vontade 5. COMPETÊNCIA - Demonstrar que o banco possui habilidades, recursos e compromisso para que os meios que viabilizam as transações com o cliente funcionem e atuem de forma correta e segura. As transações pela Internet com o Banco Ideal estarão protegidas contra fraudes Os extratos emitidos pelo Banco Ideal não conterão erros As máquinas de auto-atendimento do Banco não apresentarão problemas O Banco fará contato com o cliente quando não houver saldo suficiente na sua conta para pagar um cheque ou outro tipo de débito Observações: As variáveis grafadas em itálico têm sentido inverso. Quadro 4 – Escala de valor – VVBB Fonte: Adaptado de Paiva (2004) Cada uma das três escalas acima tem precondições de uso, que devem ser levadas em consideração por quem pretende utilizá-las. A possibilidade de utilização de qualquer das três não deve dispensar a análise de padronização e equivalência de Bruner II (2003), além de ser procedida a partir de uma boa justificativa. 2.4. ABORDAGENS DO TEMA VALOR NO BRASIL Desenvolver pesquisas sobre valor tem sido também uma preocupação de muitos pesquisadores brasileiros. A pesquisa nos anais dos eventos científicos da Associação Nacional de Pós-Graduação em Administração – ANPAD (entre os anos de 1997 e 200638), e em alguns dos principais periódicos brasileiros (nos períodos que estão disponíveis na Internet), apresentou um bom número de trabalhos, nas 38 Ver www.anpad.org.br. Constam no site os anais dos encontros da Associação a partir do ano de 1997. Foram analisados os anais do Encontro Anual da ANPAD (ENANPAD) e do Encontro de Marketing. 76 várias perspectivas de abordagem do tema39. Especificamente na análise do valor para o cliente, as pesquisas seguem a mesma perspectiva dos trabalhos em nível internacional, ou seja, buscam-se abordar as várias dimensões das pesquisas sobre valor (ver figura 4, no item 2.1)40: há discussões sobre a problemática conceitual de valor, como o artigo de Leão e Mello (2006), Larentis e Gastal (2004), e Ikeda e Veludo-de-Oliveira (2005); propostas sobre criação de valor para o cliente, como foi a proposta de Santos (1996) e Rowe (2002)41; também sobre mensuração de valor, a partir do desenvolvimento de escalas, como foi a proposta de Paiva (2004); e pela associação do construto valor em modelos estruturais de relacionamento com outros construtos (esta dimensão envolve a maioria dos trabalhos desenvolvidos)42. Por uma construção de uma reflexão crítica e profunda sobre a produção da literatura sobre o tema no Brasil, merece destaque aqui o trabalho desenvolvido por Leão e Mello (2006). Estes autores avaliaram, a partir dos anais dos encontros anuais da ANPAD e no I Encontro de Marketing, os estudos que exploraram o tema valor entre os anos 2000 e 2004, perfazendo 5 anos e 27 trabalhos. Destacaram-se os seguintes aspectos: Primeiramente, os autores enfatizam as três possibilidades de uso da palavra valor em português: valor para o cliente, correspondente ao conceito já definido para este trabalho; valor do cliente, associado aos valores pessoais dos clientes; e valor do cliente para a empresa, como a tradução do customer equity, ou seja, o que o cliente representa em termos de valor gerado para a organização e seus acionistas. Conforme discutem os autores, a confusão no uso da terminologia é 39 Uma fonte bastante rica em estudos sobre a temática são as teses e dissertações produzidas e publicadas nos programas de pós-graduação brasileiros. A opção pela não inclusão deste material aqui tem duas razões: primeiramente, há dificuldades de acesso aos diversos estudos desenvolvidos; em segundo lugar, a maioria dos trabalhos deste tipo que tem maior consistência é adaptada para o formato de artigo e publicada nos eventos e periódicos. 40 Em uma verificação exploratória foi possível perceber nos livros profissionais e didáticos de marketing uma atenção recorrente ao tema valor, alguns com foco mais analítico e profundo, outros mais superficiais, e ainda outros utilizando a palavra valor como um clichê para dar um sentido de elegância ao discurso. O autor desta tese reconhece a importância desta literatura, mas optou por enfocar aqui somente os trabalhos de natureza mais acadêmica. 41 Apontado aqui por ser um artigo publicado em língua portuguesa, em um periódico brasileiro. O autor é estrangeiro. 42 Não foi identificado qualquer estudo contendo proposições sobre modelos de interpretação e operacionalização do valor. 77 recorrente na literatura, tanto nacional como internacional, especialmente na confusão entre o valor para o cliente e os valores pessoais deste; Foi identificado que, dos 27 trabalhos, 21 pretenderam pesquisar valor para o cliente, ao passo que 2 relacionavam-se aos valores do cliente e 4 ao valor do cliente para a empresa. Esta distribuição indica que o tema na perspectiva adotada nesta tese tem despertado maior interesse de pesquisadores no Brasil; Na avaliação da consistência conceitual dos trabalhos, surpreende o número de trabalhos com equívocos na conceituação de valor. Dos 21 trabalhos sobre valor para o cliente, 7 apresentam confusão conceitual. Na operacionalização do construto, foram apontados 4 trabalhos com problemas, e curiosamente houve trabalhos com conceito equivocado, mas operacionalização consistente (possivelmente por fazer a aplicação de alguma escala utilizada em outros estudos). É relevante realçar que a confusão conceitual é também recorrente na literatura internacional. Por outro lado, a utilização despropositada da palavra e do conceito de valor não pode ser tolerada, até para evitar uma confusão maior para os iniciantes no tema e para os praticantes de mercado. Realçar valor percebido como valores do cliente, ou mesmo resgatar o discurso do valor segundo a teoria marxista do valor, parece não ter qualquer propósito, apesar de parecer ser válida uma possível associação entre valores pessoais e o valor percebido, como já foi comentado por alguns autores (em uma análise do condicionamento do primeiro sobre o segundo – cf. KHALIFA [2004]). Um bom desafio para os estudos sobre valor é superar este problema, a partir de um amplo debate conceitual sobre o tema, e também a partir de uma perspectiva crítica sobre o que já se produziu, tal como fazem Leão e Mello (2006). A pesquisa no Brasil necessita, portanto, de um redirecionamento de foco, em busca de uma maior consistência conceitual e operacional. Como pôde ser observado na leitura da literatura profissional e mesmo nos textos acadêmicos, a expressão valor é recorrentemente citada como algo dado, sem uma conceituação que esclareça o sentido de seu uso. A palavra valor, que já virou um clichê, normalmente tem um sentido confuso, mas que traz uma elegância estilística ao discurso, com forte tendência de configuração de mais um modismo em marketing. 78 2.5. COMPORTAMENTOS DE RECLAMAÇÃO E BOCA A BOCA Neste item estão discutidos os comportamentos selecionados para análise em conjunto com o valor percebido pelo cliente. Como foi colocado no capítulo de Introdução, foram selecionados os comportamentos de reclamação e boca a boca, tendo-se como principal justificativa a relevância de cada um destes comportamentos nos estudos e na prática de marketing, além do fato de ambos serem comportamentos envolvendo manifestações verbais, podendo ser analisados em um mesmo contexto. A perspectiva de avaliação definida para esta tese envolve a análise destes comportamentos primeiramente como predisposição, e depois na forma de ação. Neste sentido, considerou-se relevante apontar aqui algumas considerações sobre estes níveis comportamentais. Conforme foi possível identificar na literatura especializada, as teorias e modelos que envolvem intenções e predisposições comportamentais estão relacionados principalmente às teorias sobre a atitude. Para dar um contexto ao que segue, são expostos alguns elementos destas teorias43. Atitude é definida por Sheth, Mittal e Newman (2001, p. 367) como “predisposições aprendidas para responder a um objeto ou a uma classe de objetos de forma consistentemente favorável ou desfavorável”. Para Engel, Blackwell e Miniard (2000, p. 238), atitude “pode ser definida como simplesmente uma avaliação geral”, sobre objetos, marcas, eventos, produtos etc. A partir da definição de atitude são apresentados três componentes: 1. cognitivo, referente ao conjunto de crenças de uma pessoa sobre um objeto; 2. afetivo, relacionado aos sentimentos de uma pessoa em relação ao objeto da atitude; 3. conativo, referente às ‘tendências’ de ação ou comportamento da pessoa em relação ao objeto. São facilmente verificáveis variações interpretativas desta composição quanto ao entendimento do componente conativo. Assim, em Sheth, Mittal e Newman (2001) é 43 A teoria da atitude é bastante extensa, e sua abordagem está fora do contexto desta tese. Para uma análise abrangente e crítica das principais teorias, ver Bagozzi (1992), e para uma avaliação da literatura recente (de 1996 a 1999), ver a revisão de Ajzen (2001). Em ambos os textos são evidenciados a complexidade e a larga amplitude da temática, além das diversas possibilidades interpretativas. 79 dado um sentido de ação a esta dimensão, o que colocaria a ação procedida como parte da atitude. Já Engel, Blackwell e Miniard (2000) entendem este componente como intenção comportamental, reafirmando a antecedência da atitude em relação à ação. Os modelos desenvolvidos trazem estes construtos reunidos em propostas de interpretação mais compreensíveis. Segundo aponta Bagozzi (1992, p. 179), as principais teorias são três: Teoria da Ação Fundamentada44: nela a atitude interage com a norma subjetiva (influências sociais, crenças e motivações) na formação da intenção, e esta determina a ação; Teoria do Comportamento Planejado: que acrescenta à teoria anterior a dimensão ‘Controle comportamental percebido’, como forma de agregar ao modelo a influência do controle da vontade pela pessoa; Teoria da Tentativa: que envolve a atitude frente ao sucesso, frente ao fracasso, e frente ao processo, além da expectativa de sucesso, de fracasso, e da norma subjetiva frente à tentativa, todos estes compondo a intenção, para em seguida efetivar a tentativa, incluindo-se a influência de freqüência das tentativas passadas e a atualidade destas tentativas. A partir das definições, e considerando a composição conforme expõem Engel, Blackwell e Miniard (2000), assim como a partir de qualquer das teorias, tem-se a identificação de uma clara distinção entre intenção e ação, sendo que a primeira antecede a segunda. Por outro lado, nada assegura que a intenção vá efetivar a ação. A partir desta perspectiva, a análise dos comportamentos a seguir procura sempre realçar estas diferenças, como forma de constituir uma análise de associação com a percepção de valor em cada um destes dois momentos do comportamento. 2.5.1. O comportamento de reclamação O comportamento de reclamação tem sido amplamente estudado pelos pesquisadores de comportamento do consumidor. Tal atenção ao tema é compatível 44 Teoria da Ação Fundamentada, de Theory of Reasoned Action; Teoria do Comportamento Planejado, de Theory of Planned Behavior; (as duas traduzidas em ENGEL; BLACKWELL; MINIARD, 2000); Teoria da Tentativa, de Theory of Trying (tradução livre) 80 com sua relevância para a prática de marketing, na qual há uma maior preocupação com o aprofundamento do relacionamento com os clientes, o que requer uma participação mais ativa destes. Diferente dos demais construtos analisados nesta tese, a reclamação possui um periódico dedicado a seu estudo (o Journal of Satisfaction, Dissatisfaction and Complaining Behavior), e possui, portanto, um elenco de pesquisadores interessados que mantêm continuamente estudos envolvendo o tema45. A despeito dos diversos estudos já desenvolvidos, há ainda alguns desafios concernentes ao estudo da reclamação, alguns dos quais estão a seguir apresentados: Primeiramente, podem-se identificar facilmente exemplos de condicionamentos de natureza externa quanto ao comportamento de reclamação (HERNANDEZ; FUGATE, 2004). Nestes termos, o entendimento da determinação específica de alguns fatores (sociais, legislativo e educacionais, dentre outros) sobre a reclamação precisa ser mais bem compreendida46; Também a análise de antecedentes do comportamento de reclamação constitui um relevante desafio, ainda que já venham sendo desenvolvidos estudos diversos nesta direção (cf. HERNANDEZ; FUGATE, 2004). Nas palavras de Crié (2003, p. 65) “a literatura é pobre nas análises dos determinantes e conseqüências do comportamento de reclamação”. Um outro desafio consiste em avaliar mais detidamente aspectos relacionados ao canal utilizado para proceder a ações de reclamação. Com efeito, os estudos anteriores à era da internet sequer podiam imaginar o impacto que esta tem na potencialização do comportamento de reclamação. Neste sentido, a análise da utilização específica deste canal, apesar de haver estado presente em estudos recentes, deve entrar nas prioridades dos estudos de reclamação nos próximos anos (MATTILA; WIRTZ, 2004). 45 Uma pesquisa exploratória indicou que reclamação é um tema recorrente na literatura de mercado. Também uma pesquisa feita na internet por meio de sites de busca apresentou alguns milhares de referências à palavra, com centenas de treinamentos, artigos em revistas de negócios, dentre outros. A revisão aqui desenvolvida manteve foco na literatura acadêmica sobre o tema. 46 Um exemplo desta preocupação é o entendimento da forma como os fatores legislativos (como por exemplo a existência de um código jurídico de defesa do consumidor), ou educacional (como o avanço na formação recente de uma maior número de pessoas com nível superior) afetam as predisposições dos reclamantes, assim como a forma como procedem ao ato de reclamar. 81 Esta tese atende principalmente ao segundo desafio apresentado, inserindo-se no contexto dos estudos dos antecedentes da reclamação, enquanto predisposição e enquanto ação efetivada. 2.5.1.1. Conceito e relevância teórica Os conceitos de reclamação são bastante convergentes entre os diversos autores pesquisados. Vejamos a seguir algumas das definições constantes na literatura: De acordo com Jaboby e Jaccard (1981), a reclamação é uma ação iniciada por um indivíduo que procede a uma comunicação de alguma coisa ‘negativa’ relativa a um produto ou serviço, seja em direção ao fornecedor, ou a qualquer outra organização; Day et al. (1981), por sua vez, entendem a reclamação como uma expressão do cliente, sendo uma conseqüência de um ato de consumo em que o consumidor é confrontado com uma situação de grande insatisfação; Já Singh (1988), este um dos maiores estudiosos do tema, entende a reclamação como uma resposta emocional ou sentimental a uma situação de insatisfação, consistindo de duas dimensões: a primeira, fundamentada nas ações iniciadas pelo consumidor (para o fornecedor, outra organização, ou parentes), é de natureza comportamental, mas não necessariamente dirigida à empresa. Conforme este autor, seria esta a dimensão de reclamação que deveria receber maior atenção, uma vez que é este comportamento o mais interpretado como reclamação em si. A segunda dimensão refere-se à ausência de ação por parte do consumidor, seja por esquecimento ou opção em não proceder a ações de verbalização (cf. item 2.51.2). Outras definições encontradas na literatura são muito próximas destas. Analisando as três, encontram-se alguns aspectos que merecem destaque: primeiramente, pode-se observar que a reclamação está, segundo os autores, associada a um sentimento de insatisfação; em segundo lugar, também fica evidente que a reclamação não é necessariamente dirigida à organização que ‘gerou’ a insatisfação, podendo ser dirigidas a outras organizações ou a outras pessoas (este segundo aspecto será mais bem discutido posteriormente, considerando a finalidade desta tese). 82 A importância do tema pode ser percebida pela relevância dos tópicos aos quais o comportamento se associa. Assim, considerando a satisfação do cliente como uma meta a ser atingida por todas as empresas contemporâneas, a intensidade da reclamação serve, em um primeiro momento, como um indicador do sucesso deste propósito, além de ser ainda um comportamento com potencial fornecimento de informações para melhoria dos produtos e serviços. Segundo afirma Crié (2003, p. 60), no contexto do marketing orientado para o relacionamento, predominante na forma de paradigma de pesquisa e ação, a reclamação ganha um grande poder enquanto fornecedor de sinais que a organização deve considerar. Segundo este autor, isto ocorre, primeiramente, porque reclamação dá à empresa uma última chance de reter o cliente, se a organização reage adequadamente; em segundo lugar, porque é um ato legítimo e ético em direção ao cliente. Ainda no contexto do relacionamento, Plymire (1991, p. 40), reconsidera o papel da reclamação, enfatizando o que esta traz de benefício para a organização. Nas palavras deste autor, “o caminho mais certo para uma cultura focada no cliente é através do incremento das reclamações”. Dois dos principais benefícios da reclamação apontados por este autor são os seguintes (PLYMIRE, 1991, p. 40): Primeiramente, cada reclamação constitui um meio de servir ao cliente de maneira diferente, e, desta forma, uma nova oportunidade potencial. O feedback ouvido do cliente deve guiar a expansão dos serviços ou até a criação de novos serviços; A ênfase sobre reclamações como um feedback informa aos empregados que isto é uma cultura focada no cliente. [...] Por outro lado, se é dito aos empregados para prestar um bom serviço ao cliente e reduzir as reclamações, está-se dizendo para eles que os seus trabalhos são mais relevantes que o feedback dos clientes. Pelo exposto, é possível assegurar que a temática reclamação se consolida como um dos principais temas para uma agenda de pesquisa em marketing que mantenha uma real orientação de foco no cliente. Esta tem sido efetivamente uma das preocupações de diversos autores, inclusive no Brasil (cf. item 2.5.1.4). 2.5.1.2. Abordagens relevantes do tema Como analisado nas definições acima, o comportamento de reclamação está 83 entendido como uma alternativa de resposta à insatisfação. Uma das primeiras preocupações consistiu em avaliar de que forma tal comportamento ocorre, identificando-se as possibilidades e ramificações de alternativas. Assim, partindo-se da insatisfação, são identificados dois tipos de resposta dos clientes: a de natureza comportamental e a não comportamental. Vejamos cada uma destas (CRIÉ, 2003): A resposta comportamental pode ser pública ou privada: caso seja pública, pode ser dirigida a vendedores, produtores, organizações oficiais, à justiça..., e poderá ser configurada nos comportamentos de ‘reclamação’, ‘ação legal’, ‘devolução do objeto comprado’, ou ‘pedido de reparo’; se a resposta for privada, poderá ser dirigida à família, a amigos ou parentes, e poderá ser configurada na forma de boca a boca, e boicote ou saída. Veja-se que as repostas públicas são perceptíveis à empresa, e que a resposta é na maioria das vezes imperceptível; Caso a resposta seja não comportamental, resultará na imobilidade, com ou sem a modificação de atitude, ou no esquecimento e perdão. INSATISFAÇÃO Resposta nãocomportamental Resposta comportamental Para a Resposta comportamental organização Para o Resposta comportamental mercado Perceptível pela empresa Não perceptível pela empresa Reclamação Reclamação simples Ação legal Saída Pedido de reparo Figura 8 - Tipos de respostas à insatisfação Fonte: Crié (2003, p. 63) B-A-B negativo Inatividade Mudança de atitude Recompra e lealdade 84 Como pode ser percebido, são diversas as possibilidades de resposta. É razoável supor que a diversidade destas possibilidades está relacionada à diversidade de níveis possíveis de insatisfação, e ao valor envolvido no produto. Adicionalmente, tais comportamentos não ocorrem necessariamente de maneira separada, ou seja, é possível a utilização de um mix destas possibilidades, tais como a reclamação publica juntamente ao boca a boca, ou reclamação juntamente à saída (HIRSCHMAN, 1973)47. A Figura 8 ilustra visualmente estas possibilidades. Alguns aspectos merecem comentário em relação a esta categorização. Todas as possibilidades de resposta são entendidas no contexto da reclamação, mas há comportamentos que não são desencadeados por qualquer forma de insatisfação. Assim, o comportamento de boicote ou saída poderá ocorrer como solidariedade a uma causa ou como precaução gerada por alguma forma de aviso ou recomendação (Cf. REICHHELD; SASSER, 1990; REICHHELD, 1996). Também o comportamento de boca a boca não se dá somente por insatisfação, podendo ocorrer também na situação inversa, na forma de recomendação positiva (cf. item 2.5.2)48. Como apontado nos desafios descritos acima, uma das preocupações dos estudos de reclamação é aquela orientada à identificação e à validação dos antecedentes da reclamação. De fato, a postulação de que a reclamação tem a insatisfação como o seu precedente pode ocultar outros fatores que são potencialmente relevantes na explicação do comportamento. O estudo de Hernandez e Fugate (2004), por exemplo, ilustrou outros potenciais desencadeadores, tais como as características pessoais do possível reclamante, o valor percebido em reclamar, dentre outros. De acordo com Crié (2003), são identificáveis três esferas de antecedentes, cada uma destas com diversos itens relacionados, além da insatisfação. São elas: a esfera psicológica, que envolve a predisposição para reclamar que algumas pessoas 47 É considerado de grande relevância o trabalho de Hirschman (1973) (Voz, saída, e lealdade). Este autor entende a saída como uma resposta ativa e destrutiva à insatisfação, e a reclamação (voz) como uma reposta construtiva, uma vez que tem a expectativa de uma mudança nas práticas da organização. 48 Nos termos desta tese, para efeito de organização e como forma de providenciar um melhor entendimento sobre os comportamentos, considerou-se mais oportuno discutir o boca a boca separado de reclamação. Ainda que ambos possam ter uma motivação comum (a insatisfação), não são necessariamente manifestações oriundas de um mesmo tipo de resposta ou motivo, uma vez que o boca a boca pode ocorrer em situações de satisfação ou mesmo neutralidade. 85 possuem como característica; a esfera econômica, que envolve os elementos associados ao mercado, especialmente aqueles relacionados com os custos e a estrutura geral de troca; e a esfera ética, esta relacionada ao conceito de igualdade e justiça. O Quadro 5 sintetiza estas esferas e seus elementos. ESFERA SIGNIFICADO Psicológica Envolve a predisposição individual para reclamar Econômica Ética Envolve os elementos relacionados com elementos de custos e estrutura de trocas Relaciona-se ao conceito de igualdade e justiça ELEMENTOS Fatores sócio-culturais; Frustração; Aprendizado; Atribuição; Atitude; Experiências; Nível educacional. Estrutura do mercado; Freqüência de compras; Interação comprador-vendedor; Custo de reclamação; Probabilidade de sucesso; Ganho esperado; Rendas; Barreiras de saídas. Igualdade; Lealdade; Informação. Quadro 5 - Esferas de influência sobre a reclamação Fonte: Adaptado de Crié (2003, p. 66). Ainda na perspectiva de Crié (2003), um modelo mais adequado de avaliação de antecedentes de reclamação seria por meio do conceito de fatores iniciadores (ou desencadeadores) e de fatores moduladores (influenciadores). Do ponto de vista dos clientes, os fatores desencadeadores são: frustração percebida, igualdade percebida, segurança percebida, autocontrole, desejo de agir, avaliação preliminar de insatisfação, dentre outros. Já os influenciadores seriam: experiência de reclamação, aprendizado com reclamação, lealdade, educação, idade, além de sexo, eticidade, modo de vida, e avaliação secundária de possibilidades de reposta. A proposta do autor é, a priori, bastante consistente, uma vez que está fundamentada em uma ampla revisão de literatura sobre o tema. Por outro lado, o autor não avaliou a convergência dos fatores citados a partir de dados empíricos. Analisando alguns trabalhos testados empiricamente, foi possível observar que tais estudos são feitos em uma ampla variedade de tópicos relacionados à reclamação. Uma destas possibilidades envolve o estudo sobre a predisposição dos clientes a proceder a reclamações, e a segunda envolve os estudos associados à ação de reclamação efetivada. Nestes termos, e considerando os objetivos desta tese, optouse por expor alguns estudos considerados relevantes sobre cada uma destas duas orientações49. 49 O critério de relevância foi a associação com a forma como o estudo se associa com o objetivo deste trabalho de tese. 86 Estudos sobre predisposições a reclamação Sobre as predisposições a reclamar, destacamos inicialmente o trabalho de Singh (1990), que desenvolveu um estudo com a pretensão de construir uma tipologia de estilos de resposta de clientes insatisfeitos. A análise foi desenvolvida nos setores de supermercados, reparo de automóveis (oficinas mecânicas), serviços médicos e serviços bancários. Além do comportamento em análise, o autor envolveu ainda os seguintes construtos: a alienação do consumidor (estilo de interação do cliente e as crenças sobre as práticas dos prestadores dos serviços); a atitude em relação à reclamação; o valor percebido em reclamar; e, a experiência prévia como reclamação. Ao analisar as predisposições a reclamações, o autor o fez com três dimensões, sendo uma para reclamação direta (predisposição para ações de reclamação direta para o vendedor/fabricante); uma outra para reclamação privada (predisposição para proceder a reclamações para amigos ou parentes50); e a terceira para uma outra organização (predisposição para reclamar para uma parte não envolvida na troca). Ainda na dimensão de predisposição a reclamar, destaca-se o estudo de Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996), sobre a influência da qualidade percebida sobre as predisposições comportamentais a lealdade, saída, pagar mais, e a proceder a resposta externa ou interna. A predisposição de proceder a reclamação estava relacionada ao item resposta externa ou interna. Um outro trabalho relevante foi apresentado por Cho et al. (2002). Os autores desenvolveram um estudo sobre a avaliação pós-compra nos contextos online e offline (tradicional), buscando avaliar diferenças entre estas duas modalidades de compra. O modelo de análise envolveu o grau de insatisfação, a relevância da compra, os benefícios percebidos em reclamar, as características e competências pessoais, e o contexto específico enquanto determinantes da predisposição a reclamar. O modelo de análise consistiu em uma adaptação de outros modelos anteriores e encontra-se exposto na Figura 9, com algumas adaptações (apesar dos autores inserirem o construto comportamento de reclamação, este não está operacionalizado, razão pela qual ficou em destaque na Figura): 50 Dimensão associada ao conceito de boca a boca negativo. 87 Alternativa de resposta Avaliação póscompra Grau de insatisfação Sem ação (imobilidade) Repetir a compra? Importância da compra: Tempo de procura Custo do produto Ego Envolvimento Benefícios percebidos em reclamar Características e competências pessoais Ação privada Predisposição a reclamar Comportamento de reclamação Ação pública Influencia situacional Tempo de resposta Figura 9 - Comportamento pós-compra online Fonte: Adaptado de Cho et al. (2002, p. 319) Considerando a literatura sobre valor revisada, e verificando a abordagem de Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996), concluindo que a qualidade percebida é um influenciador significativo das predisposições a reclamar, fica a dúvida se o valor percebido, enquanto um construto que envolve a qualidade, também não constitui um influenciador da predisposição à reclamação. A dúvida que surge é reforçada quando se avalia o trabalho de Cho et al. (2002), no qual encontramos os elementos de benefício e sacrifício em relação à predisposição à reclamação: se ambos são componente do valor, não seria o construto valor um influenciador da predisposição a reclamar? Os estudos embasam a seguinte proposição: P1. A relação entre o valor percebido pelos clientes e a predisposição a proceder à reclamação é positiva. Estudos sobre as ações de reclamação Já na dimensão da ação de reclamação, destaca-se inicialmente o trabalho Bearden e Teel (1983). Estes autores desenvolveram e testaram um modelo de análise dos determinantes de satisfação, e em um segundo nível, de satisfação. A avaliação dos autores partiu dos construtos expectativas, atitudes e intenções, como forma de avaliá-los antes e depois da verificação do nível de satisfação. O modelo 88 desenvolvido está exposto na Figura 10. Desconfirmação Expectativas Atitude 1 Intenção 1 In(satisfação) Reclamação Atitude 2 Intenção 2 Figura 10 - Antecedentes e conseqüências da satisfação Fonte: Bearden e Teel (1983, p. 22) Como informado, há ainda outros estudos concernentes ao comportamento de reclamação, e diversas possibilidades de concepção de construtos relacionados a este comportamento. Como exemplo, pode-se citar o trabalho de Singh (1990) comentado acima, que concebe os construtos ‘atitude em relação ao ato de reclamar’, ‘valor percebido em reclamar’, e ‘expectativa em relação à reclamação’. Já Tax, Brown e Chandrashekaran (1998) analisaram construtos relacionados à resposta à reclamação. Os construtos foram: percepção de ‘justiça interacional’, ‘justiça procedural’ e ‘justiça distributiva’, que são analisados como antecedentes da ‘satisfação com a reclamação’. Outras possibilidades são facilmente encontradas na literatura (cf. também item 2.5.1.4, sobre os estudos desenvolvidos no Brasil). Novamente considerando a literatura sobre valor revisada, especialmente a análise de Fornell et al. (1996), sobre as relações entre os construtos qualidade percebida, expectativas dos consumidores, valor percebido e satisfação geral, como influenciadores de ações de reclamação e lealdade do consumidor (cf. Figura 11), temos uma evidência de que a percepção de valor é fator de influência sobre a ação de reclamação, seja de forma direta ou de forma intermediária. Mas em um estudo envolvendo o valor e suas dimensões de beneficio e sacrifício, esta influência se confirmaria? Na revisão da literatura desenvolvida por Crié (2003) há evidências de 89 que tal associação pode ocorrer, mas deveriam ser considerados elementos de natureza psicológica, econômica e ética, somente captáveis a partir de uma análise multidimensional de valor. A partir destas observações, é possível enunciar a seguinte proposição: P2. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com as ações de reclamação destes clientes. Qualidade percebida Reclamação do cliente Valor percebido Satisfação geral Lealdade do cliente Expectativas do cliente Figura 11 - Modelo do Índice de Satisfação do Cliente [Norte-] Americano Fonte: Fornell et al. (1996, p. 8) Para atender aos objetivos desta tese, em complemento ao que foi exposto logo acima, e também para apontar meios para o teste das duas proposições definidas, é relevante que se verifique a forma com o construto foi medido. O item seguinte traz esta exposição. 2.5.2.3. Mensuração da reclamação Iniciando pelos estudos que abordaram a predisposição a reclamar, temos que, no estudo de Singh (1990), a aferição destas predisposições foi feita com a utilização de 10 itens distribuídos em cada uma das três dimensões (reclamar diretamente, com três itens; reclamação privada, com três itens; e reclamação para terceiros com quatro itens), sendo estes itens avaliados em uma escala de 6 pontos, com extremos entre muito provavelmente e muito improvavelmente. Os itens referentes à 90 reclamação no contexto desta tese são sete, e estão expostos a seguir51: Com que probabilidade você52: 1. Esqueceria o incidente e não faria nada? (escore reverso) 2. Definitivamente reclamaria para o gestor em sua próxima viagem? 3. Pediria o retorno imediatamente e solicitaria mais cuidado com o problema? 4. Reclamaria para uma agencia de consumidores e pediria para que seja solicitado à empresa que tome mais cuidado com o problema? 5. Escreveria uma carta para um jornal local sobre a experiência problemática? 6. Reportaria a uma agência de defesa de clientes para que outros clientes fossem avisados? 7. Encaminharia algum procedimento legal contra a empresa? No trabalho de Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996), sobre a reclamação como predisposição comportamental, foi utilizada uma escala de concordância do tipo Likert de 7 pontos, para resposta a um item de resposta externa (outros dois foram mais relacionado boca a boca), e um outro item relacionado à resposta interna. Para resposta externa, o item foi: ‘Reclamaria para agencias externas [...] se você vivesse uma experiência problemática com o serviço da empresa’. Já o item relacionado à experiência interna foi: ‘Reclamaria para funcionários da empresa se fosse vivenciada uma experiência problemática com o serviço desta empresa’. Já Cho et al. (2002) avaliaram a predisposição a reclamar a partir de quatro itens, consistindo estes de afirmações apresentadas aos respondentes (o texto não deixa claro, mas é provável que a aferição tenha sido em uma escala Likert de 7 pontos). Os itens estão apresentados a seguir (CHO, et al., 2002, p 326): Sou mais propenso a devolver um produto insatisfatório que a maioria das pessoas que conheço Eu tentaria manter contato com o gerente da empresa caso percebesse que o serviço em uma dada empresa fosse ruim; Eu me sinto constrangido em devolver produtos os quais estou insatisfeito Quando eu estou insatisfeito, eu reclamo. Concernente à medição da ação de reclamação, temos em Bearden e Teel (1983) a utilização de 5 itens, sendo a primeira relacionada ao boca a boca, e por isto omitida. As demais foram: Retornou (o veículo) para refazer o trabalho ou reclamar à 51 Os demais itens referiam-se à reclamação para terceiros, e, sendo estes mais associados a boca a boca, optou-se por não apresenta-los aqui. A título de informação, os itens eram os seguintes: (Com que probabilidade você) 1. decidiria não usar o serviço novamente; 2. falaria para amigos e parentes sobre sua me experiência; 3. convenceria seus amigos e parentes a não usar nova o serviço. 52 Os três primeiros itens referem-se à predisposição a reclamação direta, e os outros quatro referemse à reclamação para terceiros. 91 administração; Contatou a fabricante; Consultou o órgão oficial de defesa do consumidor ou alguma agência privada de apoio ao consumidor; Encaminhou alguma ação legal. Já no modelo de Fornell et al. (1996), a reclamação foi avaliada em um único item, com aferição em uma escala de 10 pontos (possivelmente com extremos entre nunca e muito frequentemente). A afirmação era a seguinte: ‘O consumidor tem reclamado, formal ou informalmente, sobre os produtos ou serviços?’ (a pergunta era dirigida para representantes de empresas dos setores analisados). 2.5.1.4. Abordagens do tema reclamação no Brasil Considerou-se relevante avaliar a temática reclamação a partir da literatura produzida no Brasil. A referência de pesquisa foram os anais do Encontro anual da ANPAD e do Encontro de Marketing. A busca também foi feita em alguns periódicos nacionais. Em todas as averiguações foi observado que poucos estudos têm preocupação em explorar o tema e a maioria dos estudos está associada a uma única autora. Um trabalho que chamou a atenção foi desenvolvido por Giglio e Chauvel (2002), que analisaram as reclamações de consumidores brasileiros insatisfeitos, feitas por meio de cartas enviadas à imprensa. A inovação vem da avaliação utilizando o referencial teórico da antropologia. O estudo, apontado como de natureza exploratória, evidencia condicionamentos da cultura brasileira, e das características da percepção dos consumidores reclamantes em relação à empresa reclamada. Dentre os demais estudos pesquisados, os trabalhos desenvolvidos por Santos, como única autora (1997; 2001), ou em co-autoria (SANTOS; ROSSI, 2002; FERNANDES; SANTOS, 2004; 2006) têm maior destaque. Da autora foram encontrados na literatura vários artigos que analisam a reclamação na perspectiva da organização, ou, na expressão recorrentemente citada, no gerenciamento da reclamação. A proposta consiste em levar a exploração do tema para um contexto que avalia as ações organizacionais, além da atitude dos clientes diante das referidas ações. Assim, na avaliação das respostas das organizações à reclamação, 92 a autora analisa inicialmente o conceito de marketing de defesa53. Tal proposição tem evidência pragmática na existência dos chamados departamentos de Atendimento ao Cliente, ainda que estes não sejam exclusivamente para gerenciar reclamações. A preocupação consiste assim em avaliar o impacto das ações de gerenciamento sobre o cliente, e do impacto sobre a empresa da ação de reclamar. Satisfação / insatisfação pós-consumo Satisfeito? Satisfação / insatisfação final com a experiência de consumo S Lealdade N N Ações de reclamação pósinsatisfação Reclama à empresa? S Legenda S – Sim N – Não Gerenciamento de reclamações Figura 12 - Modelo do processo de gerenciamento de reclamações Fonte: Santos (2000) A Figura 12 sintetiza a perspectiva de análise. Como pode ser observado, o cliente insatisfeito, diante da ação de reclamar, leva para a empresa a oportunidade de gerenciar a reclamação. Somente após a avaliação do gerenciamento da reclamação o cliente define sua lealdade. É a partir deste pressuposto que a autora constrói e testa o modelo de lealdade, considerando alguns influenciadores da satisfação com o gerenciamento da reclamação. Nesta perspectiva, identificou-se um primeiro trabalho da autora no qual se utilizaram os construtos confiança (nas suas dimensões de confiança na benevolência e confiança na competência) e percepção de justiça (nas dimensões justiça distributiva, justiça processual e justiça interpessoal) em associação com a satisfação com o gerenciamento da reclamação e em seguida com a lealdade do 53 Segundo afirma a autora, “marketing de defesa é todo o esforço feito pela empresa para identificar e resolver os problemas dos consumidores com seus produtos e/ou serviços, a fim de que se desenvolva um relacionamento efetivo com os mesmos. Isso irá maximizar a satisfação do cliente, possivelmente fazendo com que ele venha a ter atitudes e comportamentos positivos com relação à empresa, como a recompra do produto”. 93 cliente (SANTOS, 2000). Um estudo posterior apresentou algumas adaptações e o teste do modelo junto a assinantes de serviços de televisão a cabo (SANTOS, 2001), acrescentando posteriormente, no mesmo setor (aparentemente na mesma amostra) o construto benevolência da empresa (SANTOS; ROSSI, 2002). Mais adiante a autora desenvolveu (em co-autoria) uma análise no setor de concessionárias de automóveis, confirmando agora em um outro setor que os clientes estão interessados no gerenciamento de reclamação, e que as respostas da organização são determinantes da atitude destes frente à empresa (FERNANDES; SANTOS, 2004). E ainda um outro estudo apresentou uma tipologia de clientes a partir de suas respostas à insatisfação, considerando as respostas clássicas (boca a boca, deserção e reclamação) (FERNANDES; SANTOS, 2006). Merece ainda destaque a pesquisa de Queiroz, Pretto e Mirapalheta (1995), que analisaram uma amostra de clientes de serviços de atendimento ao cliente (SACs), nos setor de eletroeletrônicos no Brasil. Os autores avaliam e confirmam a hipótese de que os reclamantes têm o atendimento do SAC como principal fator de satisfação com o gerenciamento da reclamação, e não a solução do problema em si, reforçando assim que no gerenciamento da reclamação é da maior importância que o cliente perceba um bom sistema de atendimento. Por fim, foi identificado um estudo abordando a temática com o propósito de construção de modelos envolvendo vários construtos. O trabalho, desenvolvido por Urdan e Rodrigues (1999), que testou junto a clientes brasileiros o modelo ASCI (Fornell et al., 1996). Os autores analisarem 304 proprietários de veículos, tendo identificado que o modelo, em sua aplicação no Brasil ‘pareceu indicar que padecia de desajustamento’, embora no teste original tenha se mostrado consistente54. Apesar de o tema ser abordado por diversos outros estudos de forma menos enfática, especialmente em avaliações do construto em associação com outros, a percepção foi de que, no Brasil, o tema aguarda ainda por ser aprofundado, o que indica um desafio e ao mesmo tempo uma oportunidade para pesquisas futuras. 54 Este mesmo modelo também foi testado por Gonçalves Filho, Guerra e Moura (2004), mas com a exclusão do construto reclamação. 94 2.5.2. O comportamento de boca a boca O boca a boca constitui um dos comportamentos mais relevantes em marketing. Conforme argumenta Gremler (1994), o boca a boca é em muitas situações a maior fonte de informações que os clientes utilizam em suas decisões de compra, como ocorre, por exemplo, nos setores de cosméticos, higiene pessoal e perfumaria, ou em produtos que envolvem risco de grandes perdas (como veículos, cursos superiores...), e ainda serviços como cabeleireiro, advogados, dentistas, contadores (cf. BOWN; REIGEN, 1987; HARRISON-WALKER, 2001). A revisão da literatura apontou a existência de alguns desafios relacionados a este comportamento. Dentre estes, merecem destaque os desafios apontados por Harrison-Walker (2001), descritos a seguir: O primeiro desafio relevante concerne à conceituação, que se apresenta na maioria das vezes de maneira bastante simples, e com foco prioritário nas ações favoráveis (ações desfavoráveis são entendidas como reclamações), possivelmente em razão da relevância prática que tem o comportamento de recomendação favorável de uma marca, produto ou organização (cf. REICHHELD, 2003; BROWN et al. 2005); Em segundo lugar, tem-se a carência de estudos com foco prioritário na mensuração do comportamento de boca a boca. A maioria das medições e escalas existentes não está testada e validada empiricamente, e as escalas existentes com validação confirmada, além de serem pouco divulgadas, não são suficientes para capturar a potencial riqueza do boca a boca como construto55 (o que é compreensível em razão do primeiro desafio acima apresentado); O terceiro desafio está relacionado ao foco. Como argumenta Harrison-Walker (2001), a maioria dos estudos não mantém foco no emissor das ações de boca a boca, apesar de o comportamento ser considerado uma importante ferramenta promocional para profissionais de marketing. São mais recorrentes estudos com foco nos efeitos do boca a boca e identificação de sua influência na escolha e 55 O comportamento de boca a boca não é unanimemente aceito como um construto na concepção convencional de construto (HARRISON-WALKER, 2001). Apesar de não se tratar de um fator impeditivo da realização de estudos, tal interpretação possibilita abordagens muito diversas em relação ao comportamento. No presente trabalho, se seguiu posicionamento de Harrison-Walker (2001), que interpretou o boca a boca como um construto. 95 seleção de produtos; Já o quarto desafio vem do fato de poucos estudos terem procurado apontar pesquisas empíricas sobre como potenciais antecedentes influenciam o comportamento de boca a boca. A maioria dos estudos tem foco nas conseqüências do boca a boca (como a predisposição para compra de um produto), e nas predisposições a promover boca a boca (cf. item 2.4.2). Além destes desafios, foram ainda identificados na literatura os seguintes: A quantidade de estudos sobre o comportamento de boca a boca pode ser considerada pequena, se comparada a outros temas igualmente relevantes de comportamento do consumidor (tais como lealdade, reclamação, dentre outros), mesmo considerando a literatura sobre promoção de marketing. Um dos primeiros trabalhos relevantes sobre o tema, desenvolvido por Arndt (1967) já observava que a temática não tinha a atenção merecida por parte dos pesquisadores de marketing. Após trinta anos de pesquisas, Anderson (1998) reafirmou que todo o tempo decorrido não foi bastante para que o tema figurasse entre os mais pesquisados em marketing, principalmente os estudos sobre os antecedentes do boca a boca. Até onde se procedeu a revisão teórica para este trabalho, havia ainda autores com apelos para que fosse dada uma maior atenção ao tema, com destaque para os artigos de Harrison-Walker (2001) e Brown et al. (2005)56. Um outro desafio para o tema consiste na orientação para bens ou serviços. A análise dos estudos já desenvolvidos mostrou uma forte concentração de foco em produtos tangíveis. Por outro lado, é nos serviços que o boca a boca ganha uma importância especial. Harrison-Walker (2001) apresenta as seguintes razões para esta orientação: inicialmente, há uma grande dificuldade de avaliação de serviços antes da compra (como os serviços de telefonia celular, por exemplo), sendo comum, portanto, a tomada de opinião por potenciais compradores; nos serviços que envolvem elevados riscos, o boca a boca constitui a melhor 56 Merece aqui ser reforçado que o foco dado é sobre a literatura acadêmica. No contexto de mercado e na literatura didática o boca a boca é tido como um dos tópicos bastante avaliados. Este autor acredita que este primeiro desafio segue para uma superação não muito distante. Como evidência de um esforço neste sentido, foi identificada uma associação tendo o boca a boca como foco (a Word-ofmouth Marketing Association – WOMMA [ver site www.womma.org]), e é evidente a preocupação com os novos desdobramentos da comunicação boca a boca a partir da consolidação da internet como canal de comunicação (ANDRADE; MAZZON; KATZ, 2006). 96 alternativa para os clientes reduzirem a percepção de risco, na medida em que as ações de boca a boca ajudam a fazer comparações e a entender melhor os serviços (faculdades, serviços de internet...). 2.5.2.1. Conceito e relevância teórica A revisão da literatura especializada permitiu concluir que os conceitos apresentados para o boca a boca são todos muito próximos e não apresentam maiores variações interpretativas57. Vejamos algumas das definições: Uma definição muito recorrente nos textos analisados é a proposta por Arndt (1967, p. 295) segundo o qual boca a boca trata-se de uma “comunicação oral, pessoa a pessoa, entre o receptor e um comunicador, na qual o receptor não percebe uma relação comercial quanto a uma marca, produto ou serviço”. Já Bone (1992, p. 579) conceitua boca a boca como um “fenômeno grupal, na forma de troca de comentários individuais, pensamentos, e idéias entre dois ou mais indivíduos em que nenhum deles representa uma fonte de marketing”. Para Harrison-Walker (2001, p. 63), boca a boca é “uma comunicação pessoal e informal entre um comunicador percebido como não comercial e um dado receptor, relacionada a uma marca, a um produto, a uma organização, ou a um serviço”. Nas três definições acima, tem-se o entendimento do boca a boca como um comportamento que envolve pelo menos duas pessoas, no qual o emissor da mensagem (que pode se comunicar na forma de comentário, pensamentos ou idéias) não deve ser ‘percebido’ pelo receptor como associado a uma marca, produto ou organização (o que constituiria uma propaganda pessoal). Sobre a maneira do contato, merece destaque a avaliação de Butle (1998), que contraria a definição de Arndt (1967), ao apresentar o argumento de que as ações de boca a boca não tem que ser necessariamente presenciais, e muito menos orais58. 57 Novas expressões associadas ao boca a boca são utilizadas no contexto do boca a boca eletrônico. Uma rápida apresentação destas expressões e seus significados pode ser encontrada no item 2.5.2.4 (ANDRADE,; MAZZON; KATZ, 2006). 58 A argumentação foi de que, na atualidade, os mecanismos de comunicação virtual são efetivamente meios de comunicação boca a boca. Nas palavras do autor, “the electronic community in effect generates virtual WOM which is not face to face, direct, oral and ephemeral. The history of electronic WOM is traceable through archival threads” (BUTTLE, 1998, p. 243) 97 Já pela conceituação é possível perceber a forte presença do boca a boca nas atividades cotidianas, sendo esta a razão da grande relevância que tal comportamento ganha quando analisado como alternativa de comunicação de marketing. No levantamento de informações ilustrativas da importância do boca a boca em marketing, foi identificado o seguinte (ver também item 2.5.2.4): De acordo com Harrison-Walker (2001), tem-se: na promoção de troca de marcas por clientes, o boca a boca chega a ser sete vezes mais efetivo que anúncios em revista, quatro vezes mais que a venda pessoal, duas vezes mais que o anúncio em rádio; o boca a boca é também nove vezes mais efetivo que a propaganda em converter clientes neutros ou desfavoráveis em clientes favoráveis; Um estudo desenvolvido por Reichheld (2003) mostra que a medida da ‘disposição do cliente em recomendar positivamente uma empresa’ é o melhor indicador de crescimento da empresa, superando inclusive a medida de satisfação, vista em alguns estudos como a mais adequada para prever crescimento; Conforme expõem Brown et al. (2005), estudos indicam que o boca a boca já pode ser considerado uma das principais respostas aos esforços das empresas direcionados ao fortalecimento do relacionamento com o cliente, ou seja, o boca a boca pode ser considerado o teste mais fundamental da eficiência dos programas de relacionamento com o cliente59. 2.5.2.2. Abordagens relevantes do tema Abordagens importantes nos estudos de boca a boca são aquelas que buscam identificar os antecedentes do comportamento, e suas conseqüências60. Sobre os antecedentes, a literatura apresenta algumas variações. Merece atenção a reflexão de Bone (1992), segundo a qual o boca a boca pode ser parcialmente explicado por: 1. forças sociais; 2. a presença ou ausência de um indivíduo tendo o papel de tomador de decisões comprometido; 3. a satisfação do consumidor; 4. a novidade 59 Alguns estudos relatam a relevância do boca a boca a partir da disposição dos clientes em proceder este comportamento de acordo o nível de satisfação. Não foram relatados aqui estes estudos por se considerar que estes enfatizam a relevância da satisfação e o seu condicionamento na intensidade e na favorabilidade do boca a boca, e não o comportamento em si. 60 A despeito da relevância dos estudos que avaliam as conseqüências do boca a boca, estes não serão detalhadamente apresentados aqui, por fugir do foco desta tese. Alguns exemplos podem ser verificados no item 2.5.1.1 acima. 98 percebida. Já Gelb e Johnson (1995), em um estudo orientado para serviços de saúde, discutem quatro antecedentes como sendo os mais relevantes: primeiramente, os autores identificam a disposição característica de alguns tipos de pessoas em proceder a recomendações de marcas, produtos ou organizações; em segundo lugar, a ocorrência de situações emocionais que desencadeiam reações positivas ou negativas; em terceiro lugar, a insatisfação que algumas pessoas vivenciam, o que as conduz a transmitir mensagens pessoais, como se procedesse a uma reclamação; por fim, os autores identificam elementos do composto de marketing como influenciadores, como a comunicação de marketing e o produto em si. Na revisão da literatura para esta tese foram encontrados trabalhos já testados pondo como antecedentes os seguintes construtos: comprometimento, sacrifício, e qualidade de serviços (HARRISON-WALKER, 2001); participação (FILE; JUDD; PRINCE, 1992); satisfação com atendimento, e identificação com a organização (BROWN, et. al, 2005)61 dentre outros. De grande importância para esta tese são as abordagens do tema a partir da predisposição a proceder ao comportamento de boca a boca, e das ações efetivas do comportamento. Por esta razão foram selecionados alguns estudos considerados mais relevantes para exposição (também aqui o critério de relevância foi a associação com a forma como o estudo se associa com a forma como o tema é explorado nesta tese). Estudos sobre a predisposição a boca a boca Relacionado às predisposições a proceder a ações de boca a boca, destaca-se inicialmente o trabalho de Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996). Estes autores analisaram as predisposições comportamentais (PC) influenciadas pela qualidade de serviços, inserindo dentre as predisposições aquela de proceder a ações de boca a 61 Conforme expuseram Brown et al. (2005), em diversos estudos são apontadas situações nas quais a satisfação se apresenta como um antecedente consistente do comportamento, ao passo que outros não apresentam qualquer relação direta entre os dois construtos. Como pôde ser visto no item 2.51, tem-se o boca a boca negativo como uma potencial resposta à insatisfação, mas se trata de uma alternativa de resposta, assim como o boca a boca positivo é também uma alternativa de resposta para satisfação. 99 boca em um item relacionado à resposta externa, e três itens relacionados à intenção de lealdade. Sacrifício Sacrifício Valor no serviço Qualidade no serviço PC Satisfação Figura 13 - Modelo de predisposições comportamentais de Cronin Jr., Brady e Hult. Fonte: Cronin Jr., Brady e Hult (2000, p. 207) De modo semelhante, Cronin Jr., Brady, e Hult (2000) avaliaram o modelo estrutural com qualidade, sacrifício, satisfação e valor de serviços como influenciadores de predisposições comportamentais, nas quais a predisposição a boca a boca foi inserida. O modelo está apresentado na Figura 13. Serviço de Sacrifício recepção Serviço de quarto Valor no serviço Predisposiç ão a B-A-B Serviço de arrumação Serviço de lazer Qualidade no serviço Serviço de telefonia Figura 14 - Modelo de predisposições a boca a boca de Hartline e Jones. Fonte: Hartline e Jones (1996, p. 210) Já o trabalho de Hartline e Jones (1996) concentrou-se especificamente nas predisposições de proceder a comportamentos de boca a boca, ao analisarem o 100 atendimento ao cliente em hotéis como determinantes do valor e da qualidade percebidos nos serviços, e estes como determinantes das predisposições a boca a boca. O modelo avaliado está exposto na Figura 14. Por fim, um último trabalho relevante concernente ao boca a boca enquanto predisposição comportamental foi desenvolvido por Petrick (2004), que avaliou, em serviços de cruzeiros marítimos, a relação entre valor e suas dimensões, satisfação, intenção de recompra e predisposição a proceder a ações de boca a boca favoráveis. O modelo testado e validado por este autor está exposto na Figura 15. Resposta emocional Satisfação Intenção de recompra Qualidade Predisposi ção B-A-B Valor no serviço Preço monetário Preço não monetário Figura 15 - Modelo de predisposições a boca a boca de Petrick. Fonte: Petrick (2004, p. 404) Considerando a literatura sobre valor revisada, e considerando a demonstração de Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996) de que a qualidade percebida tem um papel determinante em um conjunto de predisposições comportamentais (inclusive de proceder à boca a boca) associadas ao consumo de quatro serviços, e lembrando que a qualidade é uma dimensão do valor, não teria o valor também papel determinante nas predisposições a boca a boca? Pelos trabalhos de Hartline e Jones (1996) e Petrick (2004), é possível observar evidências de que as percepções de valor e qualidade determinam tais predisposições, tanto diretamente quanto atuando como mediadores do desempenho de pessoal de serviços de hotel. Deste modo, tem-se a seguinte proposição: P3. A relação entre valor percebido e predisposição a ações de boca a boca é positiva 101 Estudos sobre as ações de boca a boca Já com relação aos estudos que operacionalizam o boca a boca como um comportamento efetivado, foram encontradas duas variações: por um lado, alguns estudos enfocam as ações de boca a boca sem especificar se tais ações são favoráveis ou não; uma outra variação operacionaliza o construto verificando especificamente a favorabilidade. No primeiro grupo de trabalhos destaca-se o estudo de Bone (1992), que analisou a forma como o comportamento de grupo afeta a ação de boca a boca. No estudo deste autor em serviços de restaurantes, destacaram-se os seguintes achados: 1. primeiramente, foi confirmado que quando algum membro de um grupo está na posição de tomador de decisões, este tende a intensificar as ações de boca a boca; também se eleva a intensidade quando uma maior quantidade de pessoas em um grupo tem experiências positivas de satisfação; e quando as pessoas do grupo percebem novidade; 2. por outro lado, o estudo não encontrou associação entre o crescimento das atividades de boca a boca e o nível de relacionamento entre membros de um grupo; nem quando recebem um serviço de uma organização pela primeira vez, ou qualquer serviço específico desta organização; nem quando o serviço representa uma forma de presente; nem quando há uma grande experiência de insatisfação. Boca a boca Satisf. atenSacrifício dimento Comprometimento Identificação Figura 16 – Modelo de comportamento de boca a boca de Brown et al. Fonte: Brown et al. (2005, p. 124) Já o estudo de Brown et al. (2005) avaliou, no contexto do varejo de veículos, o relacionamento entre satisfação no atendimento, identificação com a organização e comprometimento, com os comportamentos de boca a boca. O modelo avaliado pelo 102 autor está exposto na Figura 1662. Um outro estudo considerado relevante foi desenvolvido por Harrison-Walker (2001), que analisou em um mesmo modelo tanto a intensidade de boca a boca quanto a favorabilidade. No estudo, associado aos serviços de salão de beleza e clínicas veterinárias, foi avaliado o condicionamento do comprometimento afetivo, do sacrifício do comprometimento e da qualidade do serviço sobre estas duas possibilidades de comportamento de boca a boca. O modelo testado pelo autor está exposto na Figura 17. Comprometimento afetivo intensidade de B-A-B Sacrif. no comprometimento Qualidade serviços Favorabili dade Figura 17 - Modelo de Harrison-Walker Fonte: Harrison-Walker (2001, p. 67) Considerando-se a proposta de Gelb e Johnson (1995), de que a intensidade de boca a boca é determinada pelo nível de envolvimento emocional dos clientes com os serviços, e com as características percebidas nos produtos, e também a argumentação de Bone (1992) de que características percebidas nos produtos são determinantes das comunicações de boca a boca, não seria o valor para o cliente (que pode captar aspectos emocionais e as características dos produtos) também um influenciador na intensidade de comunicação boca a boca? Considerando o trabalho de Harrison-Walker (2001), no qual se evidencia que sacrifício e qualidade têm relação positiva tanto com a intensidade quanto com a favorabilidade das ações de boca a boca, e lembrando que estes dois construtos são também componentes do valor para o cliente, fica a dúvida se o valor não teria também uma relação com 62 Este mesmo modelo de relacionamento também foi testado com relação à intenção de boca a boca. 103 estas duas dimensões da ação de boca a boca. Este dúvida é colocada pelo próprio autor ao sugerir a necessidade de que seja feita a análise do valor percebido como um dos antecedentes das ações de boca a boca (p. 71). A partir destas observações, as seguintes proposições podem ser enunciadas63: P4. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com a intensidade das ações de boca a boca; P5. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com a favorabilidade das ações de boca a boca. Para atender aos objetivos desta tese, e em complemento ao que foi exposto logo acima, é relevante que se verifique também a forma com o construto foi medido em cada um destes estudos. O item seguinte traz esta exposição. 2.5.2.3. Mensuração do boca a boca Como foi apontado acima, a mensuração é considerada um dos principais desafios na pesquisa associada ao comportamento de boca a boca. De acordo com HarrisonWalker (2001), apesar de diversos estudos terem sido realizados com medições associadas à boca a boca, não foi identificada a existência de escalas consolidadas. A razão está possivelmente, nas diversas possibilidades de abordagem do tema, como pôde ser observado no item imediatamente acima (2.5.2.3). Nestes termos, a pesquisa sobre as alternativas de mensuração de boca a boca teve de considerar as formas como o construto foi medido nas várias alternativas de abordagem. Assim, no trabalho de Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996), para o boca a boca, como predisposição comportamental, foi utilizada uma escala de concordância do tipo Likert de 7 pontos, inicialmente, para resposta à afirmação ‘reclama para outros clientes se foi vivenciado algum problema com o serviço da organização’ (associada ao que os autores chamaram ‘resposta externa’), e adicionalmente para resposta a mais três itens: ‘fala positivamente sobre a empresa para outras pessoas’; ‘recomenda o serviço para alguém que procurar por conselho’; ‘encoraja amigos e parentes a comprar com a organização’ (para aferir intenções de lealdade). 63 Especificamente neste item preferiu-se utilizar a recomendação de operacionalização das ações de boca a boca em dois níveis, de modo semelhante ao desenvolvido por Harrison-Walker (2001). 104 Cronin Jr., Brady e Hult (2000), mediram o que chamaram intenções comportamentais, dentre as quais se incluía a predisposição a boca a boca. Foram utilizados três itens a serem respondidos em uma escala de 9 pontos, com extremos em ‘muito baixo’ e ‘muito alto’. Dos três, o item seguinte correspondia ao boca a boca: ‘Possibilidade de recomendar este serviço para um amigo’. Já Hartline e Jones (1996) mediram a predisposição dos clientes a se engajarem em atividades de boca a boca a partir da questão ‘Qual a possibilidade de você recomendar a empresa para amigos ou colegas?’. A resposta deveria ser dada em uma escala de 5 pontos (1 - ‘não há possibilidade’, e 5 - ‘extremamente provável’). Ainda relacionado à predisposição a boca a boca, Petrick (2004) pedia resposta para a afirmação: ‘Quando discutindo sobre o serviço desta semana com outras pessoas, qual das seguintes alternativas descreve positivamente ou negativamente o que você vai falar com os outros sobre o serviço?’. As respostas possíveis foram: extremamente negativamente, bastante negativamente, pouco negativamente, neutro, pouco positivamente, bastante positivamente, extremamente positivamente (provavelmente o autor estabeleceu uma correspondência de 1 a 7 para as alternativas citadas). Com relação às ações de boca a boca, o trabalho de Bone (1992) mensurou o construto da seguinte maneira: primeiramente uma escala gráfica de 11 pontos, com extremos entre ‘eu não falo do serviço de maneira alguma’ e ‘eu falo muito sobre o serviço recebido’; em seguida, foi utilizada uma escala de Likert (7 pontos) para a afirmação de que ‘o serviço foi uma parcela das conversas durante o consumo’; por fim, foi novamente utilizada uma escala de Likert (7 pontos) para ‘nada foi falado sobe o serviço’, e ‘o principal tópico do assunto foi o serviço’. Já o trabalho de Brown et al. (2005) mensurou o comportamento de boca a boca em 7 itens, em uma escala de 7 pontos variando entre nunca e freqüentemente. Os itens foram os seguintes64. 64 Na avaliação da predisposição a boca a boca, foi novamente utilizada uma escala Likert de 1 a 7, com 1 sendo definitivamente faria, e 7 definitivamente não faria, para as seguintes: ’Se um amigo estivesse comprando uma dada marca, com que possibilidade você recomendaria esta empresa’; e 105 1. Mencionou para outros que você tem negócios com a empresa; 2. Assegurou aos outros o conhecimento de que você mantém negócios com a empresa; 3. Falou positivamente sobre os empregados da empresa para outras pessoas; 4. Recomendou a empresa para familiares; 5. Falou positivamente da empresa para outras pessoas; 6. Recomendou a empresa para conhecidos; 7. Recomendou a empresa para amigos próximos. Dentre as formas de medição encontradas, a mais elaborada foi a proposta por Harrison-Walker (2001). Este autor procurou manter o foco no emissor, o que oferece algumas vantagens, permitindo captar diversos aspectos tais como freqüência, número de pessoas com quem se mantém contato, quantidade de informações emitidas, e a favorabilidade. Um outro aspecto relevante consistiu na validação estatística realizada, fato não comum nos demais estudos analisados. Os itens da referida escala foram os seguintes65,66: 1. Desde quando mantenho relacionamento com esta organização, raramente tenho mencionado o nome desta organização (de serviços) (R)*; 2. Menciono esta organização para outras pessoas com grande freqüência**; 3. Eu raramente tenho oportunidade para mencionar o nome desta organização para outras pessoas (R)*; 4. Tenho falado mais sobre esta organização que sobre a maioria das outras organizações (também de serviços)**; 5. Eu raramente perco a oportunidade de falar sobre esta organização**; 6. Tenho falado muito pouco sobre esta organização (R)*; 7. Quando falo com alguém sobre os serviços desta organização, tenho a tendência de falar com bastantes detalhes**; 8. Eu raramente faço mais que falar o nome desta organização para outras pessoas (R)*; 9. Uma vez que começo a falar sobre esta organização, é difícil parar*; 10. Somente tenho boas coisas a falar sobre esta organização***; 11. Apesar de utilizar os serviços desta organização, eu não a recomendo para outras pessoas (R)*; 12. Em geral, eu não falo favoravelmente sobre esta organização (R)*; 13. Tenho orgulho de dizer para outras pessoas que uso os serviços desta organização***. É relevante ressaltar que, dos 13 itens, 7 não foram validados estatisticamente, possivelmente em razão das especificidades da amostra coletada. A despeito da inovação na operacionalização do comportamento de boca a boca, a proposta do ‘Se você estivesse ajudando seu filho, filha ou outro parente próximo a tomar uma decisão sobre qual empresa comprar uma marca, com que possibilidade você recomendaria esta empresa’. 65 Todos os itens utilizaram o modelo Likert de 1 a 7, com 1 sendo concordo totalmente e 7 discordo totalmente. 66 (*) indica item não validado na pesquisa; (**) indica intensidade de boca a boca; (***) indica favorabilidade de boca a boca; (R) - indica escore reverso. 106 autor não foi de todo satisfatória. Por outro lado, a escala merece ser aperfeiçoada para a solução destas dificuldades, como forma de manter uma mensuração consistente com a discussão conceitual do comportamento. 2.5.1.4. Abordagens do tema boca a boca no Brasil Assim como procedido com os temas valor e reclamação, também para o boca a boca procedeu-se a um levantamento e a uma breve avaliação da literatura produzida no Brasil. Novamente foram tomados como base os anais dos eventos da ANPAD (ENANPAD e Encontro de Marketing), além de alguns dos principais periódicos nacionais. O primeiro estudo identificado foi desenvolvido por Ikeda (1997) e avaliou o boca a boca a partir da perspectiva da comunicação de marketing, contexto de pesquisa onde o tema é mais debatido. Assim, a primeira preocupação da autora foi contextualizar o boca a boca como uma técnica de comunicação ‘influenciada’ pelo profissional de marketing, em contraponto às demais técnicas (propaganda, venda direta, relações públicas...) que seriam de ‘iniciativa’ deste profissional. A autora desenvolveu um estudo de campo junto a 89 jovens de São Paulo, captando posicionamentos relacionados a 16 serviços distintos. Foi detectado que em 12 dos 16 serviços pesquisados a recomendação de amigos e parentes foi relatada como a mais importante, tendo sido os serviços médicos e de lazer aqueles de maior discrepância em relação às demais técnicas. Foram identificadas ainda variações da influência das diferentes técnicas de comunicação em cada serviço, evidenciando que a comunicação boca a boca tem seu potencial de influência definido pela natureza do serviço. Ikeda (1997) destaca que, a despeito da grande relevância da comunicação boca a boca, tem-se evidências de que esta não prescinde de um esforço de comunicação integrado com as diversas técnicas. É o caso, por exemplo, de serviços com elevado risco, ou que envolvem aquisição de conhecimento, nos quais se apontou que recomendações de especialistas têm uma influência mais forte que recomendações de amigos ou parentes. 107 Um outro estudo foi desenvolvido por Pires e Marchetti (2000), que analisaram os fatores influenciadores da escolha da fonte de informações. Os autores desenvolveram um estudo empírico junto a 128 compradores de automóveis novos, na cidade de Maringá (Paraná), e identificaram para esta modalidade de compra que as fontes de comunicação boca a boca (amigos e parentes) são apontadas entre as quatro mais consultadas por compradores (mais até mesmo que revistas especializadas, vendedores e propagandas), e ainda que os parentes são as fontes consideradas mais confiáveis. Apesar dos autores apontarem já no título do trabalho que avaliariam a influência da comunicação boca a boca, o trabalho enfoca diversos outros aspectos, deixando de explorar de forma mais profunda o tema. O estudo de Loureiro et al. (2003) teve o propósito de avaliar a influência das comunicações interpessoais sobre as decisões de compra dos ‘consumidores’, com foco nas comunicações boca a boca negativo, nos boatos e nas lendas urbanas67. Os autores desenvolveram um estudo empírico com dados coletados junto a 128 idosos que receberam a vacinação contra a gripe do Ministério da Saúde do Brasil, tendo identificado que a influência destas informações é condicionada pela experimentação, ou seja, o fato de o indivíduo ter tido ou não experiência com a vacina é determinante de sua percepção e atitude, destacando-se a necessidade de um esforço promocional adequado como forma de amenizar os impactos destas fontes de informação negativas. Também merece destaque o trabalho de Bentivegna (2002), que desenvolveu uma análise do comportamento de boca a boca no contexto online. O autor primeiramente contextualiza o comportamento de boca a boca em relação a seu meio de difusão, realçando a internet como um dos canais interpessoais possíveis de transmissão de informações. A publicação se insere no conjunto dos estudos que buscaram re-contextualizar as comunicações de marketing a partir da progressiva virtualização das atividades gerenciais e de marketing68. O autor desenvolveu um 67 Os autores consideraram o boca a boca negativo, os boatos e as lendas urbanas como os três tipos mais comuns de comunicações negativas entre consumidores, mas não apontaram a fonte de tal afirmação. Adicionalmente, os autores usam recorrentemente no artigo as expressões “consumidor” e “decisões de compra”, ainda que se trate de um estudo sobre o recebimento de um serviço público. 68 Bentivegna (2002) utiliza diversos termos distintos aparentemente com o mesmo sentido, como por exemplo, propaganda boca a boca online, marketing boca a boca online, e marketing boca a boca 108 estudo empírico exploratório, com coleta de dados junto a 20 jovens usuários de internet da cidade de São Paulo, destacando neste universo seis fatores necessários para o marketing boca a boca virtual de sucesso: a familiaridade do transmissor com a marca a ser comentada; a existência de um número significativo de diferentes transmissores; baixa complexidade da informação; a existência de incentivos para os transmissores; conteúdo de diversão na mensagem; e ineditismo e criatividade da mensagem. A propósito da utilização de variadas expressões para a prática do boca a boca no contexto da internet, Andrade, Mazzon e Katz (2006) desenvolveram um trabalho que tem a finalidade de discutir as diferenças conceituais entre as expressões ‘marketing viral’, ‘buzz marketing’ e ‘word-of-mouse’, entendidos pelos autores como expressões associadas ao que chamaram ‘boca a boca eletrônico’. Estas expressões ganharam maior utilização a partir de algumas ações desenvolvidas por empresas para potencializar a difusão pessoal de informações pela internet. Com exceção da expressão word-of-mouse (uma adaptação da tradução da expressão boca a boca em inglês [word-of-mouth]), as expressões são corriqueiramente usadas ora como sinônimas, ora com sentidos distintos. Vejamos os conceitos discutidos69: O marketing viral consiste em, “um esforço que, nos seus estágios iniciais, é controlado pelo praticante de marketing, com a intenção de expor o consumidor a uma dada mensagem, com o propósito de capturar sua atenção e, a partir do endosso de demais pessoas, aumentar os níveis de aceitação e retenção, fomentando sua predisposição a disseminar a informação recebida”. Pelo conceito já é possível observar que o marketing viral terá sua expressão concreta no contexto da internet, e é diferente do conceito clássico de boca a boca na medida em que é um processo menos espontâneo, com um contato menor entre os indivíduos, mais amplo (envolve mais pessoas), e mais fácil de proceder (basta redirecionar um email). Já o buzz marketing é entendido pelos autores como o efeito agregado nas conversações e boatos das pessoas, gerados a partir de ações promocionais diversas, inclusive ações de boca a boca. Por esta caracterização, o buzz virtual. Destes, o autor enfatiza o conceito de marketing viral, apontado como o planejamento e a execução de estímulo ao marketing boca a boca na internet. 69 Os autores se limitaram a uma revisão conceitual e uma reflexão, sem desenvolver trabalho empírico, mas apresentaram um conjunto de hipóteses a serem submetidas a teste. 109 também pode ser estimulado, acelerado ou amplificado a partir de ações do profissional de marketing. Segundo entenderam Andrade, Mazzon e Katz (2006), o marketing viral é uma ação, enquanto que o buzz marketing é o efeito de um conjunto de ações. O levantamento realizado foi bastante para verificar que é bastante reduzido o interesse dos pesquisadores brasileiros no tema. Adicionalmente, não foi identificada qualquer orientação sistemática de um pesquisador ou grupo de pesquisadores (como se observou nos estudos sobre reclamação), nem mesmo daqueles que mantêm foco nos estudos de comunicação de marketing. A preocupação com a identificação de antecedentes das ações de boca a boca não foi observada, seguindo neste sentido a mesma orientação da literatura internacional. 2.6. OS MODELOS DESTA TESE A discussão da literatura conduziu à formação de cinco proposições relacionando o valor percebido e os comportamentos de boca a boca e reclamação. Estas proposições, que serão doravante identificadas por ‘proposições centrais’, geraram dois diferentes modelos a serem submetidos a teste: as proposições P2, P4 e P5 (cf. item 2.5) estão reunidas no ‘modelo de ações comportamentais’; e as proposições P1 e P3 (ver item 2.5) foram reunidas no ‘modelo de predisposições comportamentais’. Os dois modelos estão expostos nas Figuras 18 e 19. Intensidade de boca a boca + Valor percebido + Favorabilidade de boca a boca + Reclamação Figura 18 - Modelo de ações comportamentais Fonte: Elaborado pelo autor O primeiro modelo estabelece que o valor percebido tem influência positiva nas ações efetivamente realizadas de boca a boca, tanto na sua intensidade como na 110 sua favorabilidade, e tem ainda influência positiva nas atividades de reclamação por parte dos clientes. Já o segundo modelo estabelece que o valor percebido pelos clientes influencia positivamente as predisposições destes a proceder a ações de boca a boca e de reclamação. + Predisposição a boca a boca Valor percebido + Predisposição a reclamação Figura 19 - Modelo de predisposições comportamentais Fonte: Elaborado pelo autor Para a análise do valor percebido, optou-se por uma avaliação mais exaustiva das possibilidades de operacionalização do construto. A revisão da literatura indicou a possibilidade de operacionalização em três formas distintas. A primeira forma entende o valor percebido como um construto multidimensional reflexivo de segunda ordem, com a causalidade partindo do valor para suas dimensões (Figura 20a) QUA QUA BS BS SM Valor SM SNM SNM REP REP Figura 20a – Construto reflexivo Valor Figura 20a – Construto formativo ou unidimensional Legenda: QUA – Qualidade; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REP – Reputação. Figura 20: Modelos relacionados ao valor percebido Fonte: Elaborado pelo autor 111 A segunda forma entende o valor como um construto multidimensional formativo de segunda ordem, com causalidade partindo das dimensões para o valor, sem que este tenha sua verificação a partir de variáveis observáveis. Tal alternativa tem a forma da Figura 20b. A terceira alternativa consiste em considerar o valor como um construto unidimensional, que entende as suas dimensões como antecedentes do valor. Para esta alternativa, é necessário que sejam coletados dados relacionados com indicadores especificamente para este construto. Esta alternativa tem também a forma da Figura 20b. Em qualquer dos modelos, é esperado que as dimensões de benefício (qualidade, reputação e benefício social) influenciem positivamente o valor, ao passo que os construtos que indicam sacrifício (monetário e não monetário) exerçam influência negativa. Estas proposições serão entendidas como ‘proposições conceituais’. 2.7. SÍNTESE DO CAPÍTULO Este capítulo apresentou a revisão da literatura sobre valor para o cliente, além da discussão sobre os comportamentos de reclamação e boca a boca. A finalidade foi identificar na literatura acadêmica especializada indicações para a construção de modelos de relacionamento. Na revisão da literatura sobre valor, optou-se por partir, inicialmente, de uma visão panorâmica sobre o assunto, resgatando os principais estudos desenvolvidos ao longo dos últimos 30 anos, tendo-se observado um conjunto de trabalhos basilares, comentados no item 2.1.1. Também foi apresentado e comentado o estudo de Payne e Holt (2001), que apresentaram uma proposta de evolução dos estudos sobre valor (proposta esta considerada bastante consistente pelo autor desta tese). O conjunto de influências e perspectivas proposto por estes dois autores apontou, além dos desdobramentos anteriores que consolidaram o tema, o desafio contemporâneo de integração entre os estudos de valor para o cliente e de valor para os demais stakeholders. 112 Também no primeiro momento da revisão, foram apresentados os cinco principais desafios de desenvolvimento da temática, definidos pelo autor em conjunto com o orientador e outros pesquisadores do assunto. Os desafios foram os seguintes: 1. definição de valor; 2. mensuração; 3. desenvolvimento de modelos de associação com outros construtos; 4. desenvolvimento de modelos globais; 5. criação e entrega de valor. A partir da determinação dos desafios da literatura, o restante da revisão sobre valor concentrou-se nos desafios 1 e 2 (discussão conceitual e mensuração). Sobre a questão conceitual, foram apresentados: o modelo dos componentes de valor; o modelo da compensação; e o modelo meios-fins (inserindo-se nesta discussão elementos do desafio relacionados aos modelos gerais de valor já propostos). Adicionalmente foi apresentada uma discussão sobre o problema da dimensionalidade do valor, além de algumas considerações sobre a questão do sacrifício, este identificado como um dos campos de estudos mais carentes de pesquisas (considerando a avaliação do sacrifício na perspectiva do valor para o cliente). O segundo desafio da literatura discutido nesta tese foi pertinente à mensuração do valor, tendo-se identificado três tendências: a primeira em avaliar o valor de forma unidimensional, mais utilizada nos estudos de relacionamento do valor com outros construtos; a segunda em avaliar o valor de maneira multidimensional, utilizada principalmente em estudos para o desenvolvimento de escalas específicas, servindo ainda de suporte para estudos de relacionamento; e a terceira utilizando modelos integrados do valor, em uma percepção geral, e de seus componentes. Para cada uma das duas primeiras tendências foram expostos estudos já desenvolvidos, procurando-se evidenciar convergências e divergências. A segunda parte do capítulo está concentrada nos comportamentos de reclamação e boca a boca. Assim, foram desenvolvidos, em separado, considerações sobre estes comportamentos, em cada um destes enfatizando: os desafios da literatura específica; o conceito e a relevância teórica; as abordagens mais relevantes (com ênfase no nível de predisposições e também de ações); e os procedimentos de mensuração utilizados nos estudos já desenvolvidos. 113 Ao final das considerações sobre cada um dos tópicos desenvolvidos (valor, reclamação e boca a boca), foi feita uma exposição sobre a literatura produzida e publicada no Brasil, tendo-se tomado por base os anais de eventos da ANPAD, além de alguns periódicos nacionais. Também foi possível verificar, tanto na literatura nacional quanto internacional, uma carência de estudos relacionando os construtos aqui abordados, tendo-se identificado alguns indícios de associação. Assim, ao longo da revisão foram apontadas algumas proposições de pesquisa para serem testadas em um estudo empírico. A partir destas proposições foram construídos dois modelos estruturais, envolvendo valor para o cliente e os comportamentos de reclamação nos níveis de predisposição e ação. 114 3. DISCUSSÃO METODOLÓGICA Este capítulo apresenta a metodologia da tese, com foco preponderante no trabalho de campo. Tem-se assim o propósito de expor os caminhos da pesquisa, com a explicitação dos principais recortes definidos, além da explicitação dos procedimentos operacionais da pesquisa a ser desenvolvida. O esquema geral do trabalho de pesquisa está exposto na Figura 21: Revisão da literatura Desenvolvimento do modelo preliminar Pesquisa exploratória Desenvolvimento do modelo a ser testado Desenvolvimento do instrumento de pesquisa e das escalas Teste do modelo com Modelagem de Equações Estruturais Análise, interpretação dos resultados Conclusões e sugestões Figura 21 – Esquema geral do trabalho Fonte: Elaborado pelo autor Decidiu-se estruturar o que segue destacando os seguintes aspectos: 1. Delineamento da etapa exploratória; 2. Discussão do instrumento de coleta de dados e operacionalização das escalas; 3. Procedimentos e decisões sobre a coleta de dados; 4. Procedimentos estatísticos a serem desenvolvidos. 115 3.1. DELINEAMENTO DA ETAPA EXPLORATÓRIA Entende-se que a etapa exploratória da pesquisa está constituída de duas fases. A primeira consta da pesquisa bibliográfica desenvolvida e exposta no capítulo 2 deste trabalho. Já a segunda fase consistiu nos procedimentos exploratórios gerais e na pesquisa qualitativa. 3.1.1. Primeira fase da pesquisa Conforme apontado, a primeira fase constou de uma ampla revisão da literatura relacionada aos temas de interesse: valor percebido, comportamento de reclamação, e comportamento de boca a boca. O estudo permitiu o desenvolvimento de dois modelos de associação entre os construtos, com a definição de cinco proposições para serem testadas a partir dos dados coletados. As proposições foram as seguintes: Sobre a relação entre valor percebido e predisposições comportamentais P1. A relação entre o valor percebido e a predisposição a ações de boca a boca é positiva P3. A relação entre o valor percebido pelos clientes e a predisposição a ações reclamação é positiva Sobre a relação entre valor percebido e ações comportamentais P2. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com as suas ações de reclamação; P4. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com a intensidade das ações de boca a boca; P5. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com a favorabilidade das ações de boca a boca. Para efeito de análise, estas cinco proposições foram identificadas por “proposições centrais” da tese. Além destas, também é esperado que o valor percebido pelos clientes mantenha uma relação positiva com os construtos qualidade, reputação e beneficio social, e que a relação com os construtos sacrifício monetário e sacrifício 116 não monetário seja negativa. As proposições que associam valor e suas dimensões foram identificadas por “proposições conceituais”, e também serão submetidas a teste. 3.1.2. Segunda fase da pesquisa Esta fase do estudo consistiu nos procedimentos exploratórios gerais associados à definição do setor de análise, e na descrição dos procedimentos da pesquisa qualitativa desenvolvida. 3.1.2.1. Procedimentos exploratórios e definição do setor Nos procedimentos exploratórios para definição do setor de aplicação da análise empírica, diversas atividades foram realizadas, consistindo principalmente de conversações com o orientador e com outros pesquisadores. Tomaram-se como diretrizes para a definição do setor as possibilidades de verificação do modelo desenvolvido em nível teórico, e de efetivação do estudo por parte do pesquisador, além da relevância prática do estudo no setor. Um primeiro recorte consistiu na definição do macro-setor de aplicação, tendo-se optado pelo macro-setor de serviços, em detrimento dos macro-setores industrial ou de agronegócios. Tal recorte tem consonância com uma tendência na literatura contemporânea de marketing em manter foco em serviços (LOVELOCK; GUMMESSON, 2004; VARGO; LUSCH, 2004a, 2004b) e segue o padrão da maioria dos estudos sobre valor percebido analisados. A partir do primeiro recorte e das conversações desenvolvidas, foi analisada a decisão de desenvolvimento do estudo em um ou mais setores, tendo-se optado pela utilização de um único setor, principalmente em razão do segundo critério de definição, viabilizando ainda uma análise mais concentrada, o que se acredita ser dos propósitos de um trabalho de tese. Adicionalmente, considerou-se o condicionante geográfico da pesquisa, tendo-se definido que os dados seriam relacionados especificamente na cidade de Fortaleza 117 (Cf. Introdução). Após analisadas várias possibilidades, a decisão recaiu sobre o setor de educação superior70. O setor envolve as instituições de ensino superior privadas e públicas (doravante anotadas como IES), e teve um avanço relativamente grande em Fortaleza entre 1995 e 2005, especialmente em função da significativa defasagem que as cidades nordestinas apresentavam no ensino superior, em comparação com o contexto das cidades das regiões Sul e Sudeste do Brasil. Dados de Schwartzman e Schwartzman (2006, publicados originalmente no ano de 2002), apontam que na região Nordeste encontrava-se não mais que 8,1% do total de estudantes do ensino superior privado. Esta realidade motivou os investimentos de diversas instituições, inclusive algumas de atuação nacional, nesta região. Os dados dos mesmos autores indicaram que a prioridade de investimento foi nos cursos das áreas de Ciências Sociais (especialmente Administração e Direito). A partir de uma avaliação preliminar do setor, pôde-se verificar que o estudo teria boa aplicação prática, uma vez que as diversas organizações tiveram experiência de crescimento e queda bastante rápidos, carecendo cada vez mais de aprimoramento administrativo e mercadológico, atendendo-se assim ao terceiro critério de delimitação. Alguns recortes adicionais necessitaram ser feitos, levando-se em conta a heterogeneidade das atividades desenvolvidas pelas IES. Uma primeira decisão foi concernente aos cursos. Para tanto, decidiu-se pesquisar os cursos pagos, independente da IES ser pública ou privada. Por esta decisão, um recorte mais específico direcionou os esforços de análise para os estudantes dos cursos de pósgraduação. Para dar ainda uma maior homogeneidade, optou-se por uma análise restrita da área de Estudos Sociais Aplicados, envolvendo aqui os cursos de pósgraduação lato sensu nas áreas de Administração, Economia, Contabilidade, 70 No caso específico, seria possível a delimitação inicial do setor educacional e as denominações de subsetor, segmento, indústria... para o nível de ensino superior. A dificuldade da definição do que seja um setor deixa a liberdade de adoção de qualquer destas possibilidades sem perda de compreensão. Nestes termos, optou-se pela utilização da palavra setor para o nível específico de ensino superior, do setor educacional. 118 Turismo, dentre outros. Cabem algumas observações que já são recorrentes nos estudos que têm como base empírica estudantes do ensino superior. A primeira questão relevante consiste na identificação de quem vem a ser o cliente de uma IES; adicionalmente, há divergências sobre como tratar este cliente em um estudo de marketing. A motivação para estes questionamentos é decorrente do diversificado público que uma IES atende, e da forma peculiar como tal atendimento ocorre. Com relação ao primeiro aspecto, pode-se entender o cliente de uma IES como sendo: 1. a sociedade como um todo, uma vez que um profissional educado contribui para o desenvolvimento econômico e social; 2. a indústria onde o profissional vai atuar, pois é o ambiente específico de trabalho e aplicação das competências que o estudante desenvolveu; 3. o próprio aluno, este que recebe mais diretamente o serviço de formação, que paga pelo serviço e o consome de maneira direta. Com relação ao entendimento do estudante como cliente, foi possível observar alguns aspectos que merecem ser destacados. Uma primeira discussão entende o estudante como um cliente, pelo fato deste comprar e consumir o serviço de uma IES; uma outra possibilidade entende o cliente como um produto da instituição, pois o profissional formado é o serviço de referência de uma IES. A tendência de aceitar o estudante como cliente é a mais difundida, especialmente no nível administrativo das IES. Conforme observam Cleyson e Haley (2005), são mais comuns as IES que adotam o ‘modelo do cliente’ para os estudantes, o que se evidencia, por exemplo, no fato da comunicação promocional para futuros estudantes ser praticamente idêntica às estratégias convencionais para os demais serviços. Para estes autores, alguns cuidados devem ser tomados ao se propor este entendimento, em razão de sua inaplicabilidade em alguns contextos específicos, como a formação de um militar ou de um médico, por exemplo. Já o entendimento do estudante como um produto vem da interpretação de que o principal cliente de uma IES seja a sociedade ou a indústria, e de que o estudante 119 devidamente educado é a principal contribuição que a IES oferece à sociedade e ao mercado. Tal interpretação é mais bem aceita como complementar à primeira na relativização do conceito de clientes e ajuda a abarcar as peculiaridades de uma IES, podendo, por outro lado, levar ao risco de assimetria no poder das decisões institucionais, reconhecidamente um problema que gera resistências as mais diversas junto aos estudantes. Para esta tese adota-se o entendimento proposto por Cleyson e Haley (2005), que argumentam que mais que um cliente, ou um produto, o estudante é um membro do conjunto de stakeholders de uma IES, participando desta nas duas condições e ainda como parceiro no processo de co-produção de todo o processo educativo, configurando assim uma das proposições do conceito de relacionamento (cf. capítulo 2). Conforme argumentam os autores (CLEYSON; HALEY, 2005, p. 6): Os estudantes são somente um grupo dos muitos que determinam o contexto e o tipo de educação e treinamento a que estão expostos. A universidade ou faculdade forma uma rede de relacionamento com exalunos, pais, pagadores, governo e indústria, tentando, na medida das disponibilidades de seus recursos, satisfazer todas as suas necessidades que são relevantes para a missão institucional. É relevante lembrar ainda que uma IES oferece serviços diversificados (cursos de graduação, extensão, pós-graduação lato sensu e stricto sensu) e, que cada um destes possui peculiaridades. Detalhes sobre o contexto específico selecionado para pesquisa (cursos de pós-graduação lato sensu) são apresentados e analisados no item 4.1. 3.1.2.2. Pesquisa qualitativa Ainda na fase exploratória foi realizado um estudo qualitativo, a partir de um conjunto de entrevistas em profundidade realizadas junto a estudantes de cursos de especialização de Fortaleza. O objetivo nesta fase foi aprimorar as variáveis de estudo, como forma de verificar com antecedência possíveis problemas nos construtos estudados, além de viabilizar o ajustamento dos itens das escalas de medição adotadas (BOYD; WESTFALL, 1982; BRASIL, 2005; PRADO, 2004). A fase de levantamento durou três semanas (as duas últimas semanas do mês de 120 setembro de 2006, e a primeira semana do mês de outubro do mesmo ano). Os dados das entrevistas foram consolidados e em seguida analisado. A análise assegurou a consistência das proposições desenvolvidas com base na literatura, além de apontar diversos redirecionamentos necessários nas escalas utilizadas. Operacionalmente, tal atividade deu-se pela abordagem de exatamente 10 entrevistados, escolhidos entre os potenciais pesquisados. A abordagem dos pesquisados levou em consideração os seguintes aspectos: Primeiramente, procurou-se abordar respondentes provenientes de diferentes instituições e cursos, como forma de minimizar o viés das opiniões. Nestes termos, foram abordados alunos de cinco diferentes instituições (um da Universidade de Fortaleza, três da Universidade Federal do Ceará, três da Universidade Estadual do Ceará, dois da Faculdade Integrada do Ceará, e um da MRH Treinamento [parceira da Fundação Getulio Vargas em cursos de MBA em Fortaleza]); os alunos distribuíram-se em cinco diferentes cursos de três diferentes áreas (seis de marketing, dois de recursos humanos, dois de gerência geral); Para cada respondente procedeu-se inicialmente o contato por telefone ou email, a partir do qual foram programados os encontros para as entrevistas. Os locais de entrevistas seguiam a conveniência do respondente. Assim, sete entrevistas foram realizadas nas instituições onde realizavam o curso, duas foram desenvolvidas na residência dos estudantes, e uma no local de trabalho. O tempo de cada uma das entrevistas variou de 40 minutos até uma hora e meia. Cada entrevista foi realizada com o apoio de um roteiro semi-estruturado nãodisfarçado. Tal roteiro foi desenvolvido pelo autor a partir da literatura revisada, e da avaliação de outros roteiros de entrevistas aplicados em trabalhos semelhantes. A estrutura foi definida em cinco partes: a primeira parte consistia no levantamento de informações sobre o respondente; a segunda parte levantava informações sobre percepção de benefício e sacrifício; a terceira parte levantava informações sobre o comportamento de reclamação; a quarta parte focava as informações sobre o comportamento de boca a boca; por fim, a quinta parte era destinada a apontar informações adicionais. O roteiro utilizado encontra-se no Apêndice 1. 121 Durante as entrevistas, o procedimento consistiu nas seguintes atividades: primeiramente, era feita a apresentação do entrevistador; em seguida era feita uma rápida exposição do objetivo do trabalho de tese, com a apresentação de quais seriam as etapas da entrevista; depois de contextualizada a entrevista, seguia-se com as questões do roteiro definido. Na medida em que os respondentes comentavam as questões colocadas, o entrevistador anotava os detalhes mais relevantes. Ao final, os respondentes eram convidados a apresentar sugestões e outros comentários adicionais. O resultado da avaliação das entrevistas mostrou a consistência do propósito de pesquisa, não tendo havido maiores indicações de problemas que viessem a comprometer as proposições previamente delineadas. A principal reorientação indicada neste estudo consistiu na identificação da necessidade de mudanças sobre os construtos de benefício. Assim, conforme havia sido delineado a partir na pesquisa bibliográfica, seria adequada a utilização de cinco dimensões, sendo três de benefícios (benefício emocional, reputação e qualidade) e duas de sacrifícios (monetário e não-monetário). Nas entrevistas ficou evidente que o componente benefício emocional não teria muito sentido para o contexto empírico da pesquisa, possivelmente em razão do menor envolvimento dos estudantes com cursos de especialização e pelo pouco tempo de duração do curso71. Por outro lado, ficou bastante evidente a importância que era dada ao valor social nos cursos, o que indicou a necessidade de uma abordagem desta dimensão no modelo originalmente delineado. Os resultados desta fase da pesquisa foram mais significativos para orientar a construção das escalas de mensuração, conforme detalhado no item seguinte. 3.2. INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS Como forma de acessar as informações empíricas, foi selecionado como instrumento o questionário. Relativo a esta fase, é relevante destacar quais foram os 71 Alguns respondentes relataram sentir saudades do curso e da turma de graduação, indicando que esta dimensão seria melhor aplicável neste contexto. Possivelmente no universo de estudantes de graduação o benefício emocional seja um dos importantes componentes da percepção de valor. 122 procedimentos adotados para a elaboração do instrumento, e também as decisões relativas às escalas. 3.2.1. Procedimentos gerais Considerou-se conveniente encaminhar os procedimentos de elaboração do instrumento em três etapas: uma sondagem inicial, a estruturação do instrumento, e seu pré-teste. A sondagem inicial consistiu no levantamento bibliográfico específico, sobre a elaboração de roteiros de pesquisa e sobre outras pesquisas semelhantes (livros, artigos e dissertações). Este procedimento indicou quais eram os requisitos formais exigidos para o instrumento, seus formatos e estruturação e, ainda, os procedimentos anteriores e posteriores à aplicação. A partir dos resultados desta sondagem foi definida a estrutura preliminar do roteiro de pesquisa. Foi decidido que o questionário seria dividido em três blocos de questões: o primeiro bloco contendo as variáveis de identificação mais relacionadas ao serviço, com a finalidade de identificar alguns antecedentes e as motivações dos estudantes em contratar o serviço; o segundo bloco envolvendo as questões referentes aos construtos de referência do estudo, estando assim dividido em quatro diferentes partes (a primeira com as questões relacionadas aos benefícios percebidos; a segunda com as questões relacionadas à percepção de sacrifício; a terceira com os itens sobre as ações de reclamação e boca a boca; e a quarta com os itens sobre a predisposição do respondente a estes comportamentos); por fim, o terceiro bloco contemplou a identificação dos respondentes, com questões sobre dados demográficos e socioeconômicos. Objetivando a validação do conteúdo do roteiro de pesquisa elaborado, correções quanto ao posicionamento e direcionamento das questões e possíveis melhorias em termos de linguagem, o instrumento foi inicialmente submetido a três professores, e em seguida foi realizado um pré-teste junto a uma amostra de 13 respondentes. 3.2.2. Discussão das escalas Tomou-se um cuidado especial em relação às escalas de medição utilizadas no 123 instrumento de pesquisa, especialmente em relação à mensuração dos construtos de referência na análise dos modelos desenvolvidos. Conforme pôde ser observado no capítulo 2, na literatura em marketing são utilizadas diversas escalas para aferição de tais construtos. Assim, tomou-se a decisão de analisar inicialmente as escalas pré-existentes, uma vez que já foram submetidas aos testes e às validações necessárias. Tal decisão exigiu, por outro lado, uma tomada de posição em relação a algumas restrições já bastante recorrentes na literatura, especialmente considerando os riscos de utilização de escalas sem as devidas adaptações. Dentre os condicionantes mais relevantes, merecem destaque os apontados por Brasil (2005) e Bruner II (2003), segundo os quais, ao se escolher uma escala, deve-se levar em consideração: 1. O caráter temporal dos instrumentos desenvolvidos, pois uma escala utilizada em um determinado momento pode perder a validade em um momento posterior; 2. O contexto de desenvolvimento e aplicação dos instrumentos, especialmente porque a maioria das escalas foi utilizada em outros países, recebendo, deste modo, influências específicas de seu contexto social, cultural e econômico; 3. As indicações de adaptações geradas na fase exploratória da pesquisa, que pode mostrar a necessidade de alterações as mais diversas; Assim, para cada construto tomaram-se os itens das escalas já testadas juntamente com as indicações da fase de entrevistas, e em seguida os itens foram submetidos a cinco diferentes professores pesquisadores com experiência em mensuração de construtos em marketing. Os procedimentos foram os seguintes: primeiramente, foi elaborada uma tabela, com a indicação para cada um dos construtos dos itens de mensuração já utilizados em outros estudos, e daqueles selecionados na entrevistas, tendo sido ainda apontada qual seria a pergunta de partida e qual a forma de resposta; foi deixado um espaço para que o professor apontasse qual daqueles itens corresponderia a uma melhor medida daquele construto, e apontasse comentários adicionais; após o contato telefônico com os professores, o arquivo foi enviado para cada um via e-mail; uma semana após o primeiro envio, o arquivo foi reenviado para aqueles que não haviam dado resposta. Quatro dos cinco professores contatados enviaram respostas. 124 A etapa seguinte consistiu na consolidação das respostas e na análise dos comentários. A seleção de cada um dos itens foi baseada na sua indicação pela maioria dos professores. O Quadro 6 aponta para cada uma das dimensões de valor quais foram o número de itens da escala testada (baseada em PETRICK [2002]), o número de itens gerados nas entrevistas, e o total de itens utilizados, seguidos da apresentação destes itens. Quadro 6 - Itens utilizados na mensuração das dimensões de valor QUALIDADE N° itens da escala - 4 N° itens da entrevista - 11 N° itens final - 8 As atividades do curso são adequadamente desenvolvidas O serviço prestado no curso é confiável Os professores têm boa competência ‘de mercado’ O conteúdo do curso é adequado Os professores têm boa competência ‘acadêmica’ O trabalho de coordenação do curso é adequado O currículo está alinhado com as demandas profissionais Os professores têm boa ‘competência didática’ BENEFICIO SOCIAL N° itens da escala - 0 N° itens da entrevista - 6 N° itens final - 5 O curso traz o benefício de viabilizar a troca de experiências entre colegas O relacionamento com a turma que é propiciado pelo curso é bastante positivo A partir do curso viabilizam-se bons contatos para negócios O curso traz a vantagem de viabilizar a formação de uma rede de contatos profissionais O curso é um bom lugar para interação com outros profissionais REPUTAÇÃO N° itens da escala - 5 N° itens da entrevista - 5 N° itens final - 5 A instituição promotora do curso tem boa reputação O ‘nome’ da instituição promotora do curso é forte no mercado O curso tem bom conceito de mercado O curso tem uma boa imagem externa Tenho orgulho de estudar neste curso SACRIFÍCIO MONETÁRIO N° itens da escala - 6 N° itens da entrevista - 6 N° itens final - 5 O preço pago na mensalidade do curso é adequado O dinheiro gasto no curso é um bom investimento A soma do gasto em dinheiro no curso está adequada Considero o gasto em dinheiro com este curso excessivo e injusto* Entendo que tenho um gasto adequado para realizar este curso SACRIFÍCIO NÃO MONETÁRIO N° itens da escala - 5 N° itens da entrevista - 7 N° itens final - 5 O curso tem uma demanda de tempo apropriada O curso demanda um esforço apropriado Apesar do cansaço e do stress, não é difícil fazer este curso Considero apropriado o esforço necessário para fazer este curso As atividades do curso exigem um esforço adequado * Item de escore reverso Fonte: Elaborado pelo autor Conforme é possível verificar, cada item corresponde a uma afirmação acerca do serviço. Assim, os respondentes foram solicitados a apontar o grau de concordância 125 em uma escala de 1 a 7, na qual 1 indicava discordância total, 7 indicava concordância total, e os números intermediários correspondiam ao grau de concordância no intervalo entre estes dois extremos. Já o Quadro 7 expõe os mesmos dados agora relacionados às ações de reclamação e de boca a boca, sendo para estas últimas apontados o nível de intensidade e de favorabilidade. Novamente, optou-se pela apresentação dos itens na forma de afirmações, sobre os quais os respondentes foram solicitados a apontar o grau de concordância com a afirmação, na mesma escala acima. Quadro 7 – Itens utilizados na mensuração de ações comportamentais AÇÃO DE RECLAMAÇÃO N° itens de outras escalas¹ – 4 N° itens da entrevista - 5 N° itens final - 4 Tenho reclamado sobre os serviços associados ao curso Eu reclamo sobre os problemas do curso sempre que vejo necessidade Sempre que me sinto prejudicado(a) por eventuais problemas do curso, costumo reclamar Não sou de reclamar sobre os problemas do curso* AÇÃO DE BOCA A BOCA – INTENSIDADE N° itens de outras escalas² – 8 N° itens da entrevista - 7 N° itens final - 5 Falo bastante sobre este curso O curso é um de meus assuntos rotineiros Eu raramente falo sobre o curso* Menciono este curso para outras pessoas com grande freqüência Nas oportunidades que tenho, converso bastante sobre o curso AÇÃO DE BOCA A BOCA – FAVORABILIDADE N° itens de outras escalas² – 4 N° itens da entrevista - 10 N° itens final - 5 Prefiro dar sempre informações positivas sobre o curso e a organização Tenho preferência por comentar os assuntos favoráveis sobre o curso Falo mais positivamente que negativamente sobre o curso Sempre que posso, recomendo o curso para outras pessoas Externamente, procuro falar bem do curso e da organização. ¹ Baseado em Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996); ² Baseados em Harrison-Walker (2001) * Item de escore reverso Fonte: Elaborado pelo autor Por fim, o Quadro 8 expõe os dados relacionados à predisposição de reclamação e boca a boca. Como pode ser observado, optou-se por averiguar a probabilidade de o respondente proceder aos referidos comportamentos. A mensuração foi feita em uma escala de 1 a 7, na qual 1 significava muito improvável, 7 significava muito provável, e os demais números indicavam posições intermediárias. Para o construto valor percebido geral72 decidiu-se pela adaptação da medição utilizada por diferentes autores (CRONIN JR.; BRADY; HULT, 2000; MCDOUGALL; 72 Correspondente ao conceito de overall value constante na literatura pesquisada. 126 LEVESQUE, 2000; YANG; PETERSON, 2004). Ao total foram utilizados quatro itens, apontados na forma de afirmações, sobre os quais novamente os respondentes foram convidados a apresentar seu grau de concordância na mesma escala utilizada nos construtos anteriores. Os itens foram os seguintes: O conjunto de benefícios do curso é compatível com o conjunto de sacrifícios realizados; O que recebo neste curso compensa bem o que pago; Considero que o que recebo no curso esteja adequado com os sacrifícios que tenho que fazer; Comparativamente com o que dou, o curso atende as minhas necessidades. Quadro 8 - Itens utilizados na mensuração de predisposições comportamentais PREDISPOSIÇÃO A RECLAMAR N° itens de outras escalas ¹ - 4 N° itens da entrevista – 7 N° itens final - 5 Probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso Probabilidade de reclamar junto ao gestor ou outro responsável caso percebesse que os serviços ligados ao curso fossem ruins Probabilidade de procurar os responsáveis pelo curso para apresentar queixas sobre problemas detectados Probabilidade de fazer reclamações quando percebe problemas nas atividades do curso Probabilidade de apresentar queixas sobre as atividades problemáticas que surgem PREDISPOSIÇÃO A AÇÕES DE BOCA A BOCA N° itens de outras escalas² - 3 N° itens da entrevista - 5 N° itens final - 5 Probabilidade de motivar outras pessoas a fazer este curso Probabilidade de falar sobre o curso, se a ocasião permite Probabilidade de dar recomendações deste curso e desta instituição para outras pessoas Probabilidade de encorajar amigos ou parentes a fazer este curso Probabilidade de recomendar o curso para alguém que procurasse por conselho ¹ Baseado em Singh (1990) e Cho et al. (2002); ² Baseado em Zeithaml, Berry e Parasuraman (1996) e Cronin Jr., Brady e Hult (2000) Fonte: Elaborado pelo autor Em cada bloco os itens foram dispostos de forma aleatória, como forma de minimizar qualquer viés nas respostas de itens de mensuração de um mesmo construto. Os itens de mensuração do valor percebido geral foram inseridos de forma separada nos itens de mensuração de benefício (dois itens), e de sacrifício (dois itens). O instrumento utilizado no levantamento encontra-se no Apêndice 2. 3.3. PROCEDIMENTOS E DECISÕES SOBRE A COLETA DE DADOS O terceiro aspecto relevante na descrição da metodologia concerne às informações relativas ao trabalho de campo. Foram delineadas as configurações apresentadas a seguir (BOYD; WESTFALL, 1982; ROESCH, 1999). Universo da pesquisa: o universo da pesquisa foi constituído pelos estudantes de 127 cursos de pós-graduação lato sensu, da área de gestão e negócios, ofertados pelas instituições de ensino superior atuantes no município de Fortaleza. O tamanho exato deste universo não pôde ser definido, mas estimativas apontam um total em torno de 1500 elementos; Amostra: dada a indefinição do tamanho exato do universo de pesquisa, juntamente com a dificuldade de abordagem de todos os estudantes, optou-se pela utilização de uma amostra. As mesmas razões indicaram a necessidade de realização de uma amostragem por conveniência, com a definição do tamanho condicionada à possibilidade de operacionalização dos testes estatísticos definidos. Assim, foram selecionados 261 questionários, restando válidos para análise 248; Método de coleta: a coleta de dados foi procedida pelo próprio pesquisador junto aos estudantes. Foram acessados 14 cursos em cinco diferentes instituições. Em 12 cursos a abordagem se deu na própria sala de aula, a partir da colaboração de coordenadores e professores. Nos outros dois cursos os questionários foram deixados com os alunos para coleta nos dias que se seguiam. Tempo: os questionários da amostra foram aplicados em três semanas (as duas últimas semanas de outubro e a primeira semana de novembro de 2006). O tempo aproximado de resposta foi de 15 minutos. 3.4. PROCEDIMENTOS DE ANÁLISE ESTATÍSTICA Esta tese tem como foco uma pesquisa descritiva. Assim, a orientação preponderante foi de natureza quantitativa, com a utilização de ferramentas estatísticas apropriadas, além do apoio de algumas ferramentas qualitativas. Os procedimentos estatísticos para os dados coletados no trabalho de campo foram três tipos: análise exploratória preliminar; análise univariada e multivariada; Modelagem de Equações Estruturais. Com exceção desta última análise, todas as demais foram desenvolvidas com o apoio do software SPSS, versão 12. 3.4.1. Análise exploratória preliminar A avaliação exploratória preliminar de dados consiste em um conjunto de averiguações juntos à massa de dados coletados, como forma de identificar e 128 corrigir eventuais dificuldades, e de estabelecer alguns condicionantes nas análises posteriores (HAIR et al., 2005). Seguindo a instrução de análise de Hair et al. (2005, p. 49-50), neste item são avaliadas ordenadamente: a existência de valores perdidos (missing values) e possíveis ações de correção; identificação de observações atípicas (outliers) e possíveis decisões em caso de ocorrência; suposições subjacentes às análises multivariadas, principalmente a suposição de normalidade. 3.4.2. Análise univariada e multivariada A análise univariada consistiu na apresentação e análise de cada item ou variável individualmente. Para esta análise foram analisados em separado os itens do questionário relacionados à caracterização da amostra, daqueles relacionados às escalas de mensuração. Os itens de caracterização envolvem basicamente as avaliações de freqüência, ao passo que nos itens da amostra são avaliadas por medições de tendência central (média) e de dispersão (desvio padrão). Já a análise multivariada consiste em um conjunto de técnicas utilizadas para a “análise de múltiplas variáveis em um único relacionamento ou conjunto de relações” (HAIR et al., 2005, p. 23). As técnicas de análise multivariada têm larga aplicação em pesquisas em marketing, havendo um conjunto significativo de alternativas analíticas, inclusive a Modelagem de Equações Estruturais, comentada no item seguinte. Antes da aplicação desta ferramenta de análise, algumas outras foram utilizadas para uma exploração preliminar dos dados. Assim, aplicou-se inicialmente a técnica de Análise Fatorial Exploratória. Segundo informam Hair et al. (2005, p. 91), a análise fatorial consiste em uma “classe de métodos multivariados cujo propósito principal é definir a estrutura subjacente em uma matriz de dados”. A partir desta técnica é possível agregar, a partir das correlações existentes, um conjunto de variáveis em dimensões ou fatores. O procedimento é exploratório, e as dimensões da Análise Fatorial Exploratória não 129 garantem a consistência dos fatores para a Modelagem de Equações Estruturais. Por outro lado, sua utilização é relevante para indicar previamente sugestões de modificações nos indicadores dos construtos, ou mesmo a exclusão de variáveis. Para esta tese, esta ferramenta foi utilizada para cada bloco de questões (benefícios, sacrifícios, ações comportamentais, e predisposições comportamentais), com a finalidade de avaliar exploratoriamente a estrutura das variáveis e a convergência com a suposição inicial de vinculação entre variáveis e construtos. Adicionalmente, procedeu-se a avaliação da confiabilidade dos itens de cada construto. A forma convencional para tal procedimento consiste na extração e análise do coeficiente Alpha de Cronbach. Tal procedimento foi realizado por construto a partir do conjunto de variáveis preliminarmente vinculadas. Após a avaliação da Análise Fatorial Exploratória e da exposição e análise das medidas de confiabilidade das escalas, partiu-se para os procedimentos de avaliação dos modelos desenvolvidos. Os detalhes de tais procedimentos estão no item seguinte. 3.4.3. Modelagem de Equações Estruturais Os modelos de proposições desenvolvidos somente poderão ser avaliados por meio da técnica Modelagem de Equações Estruturais. Esta técnica de análise tem sido amplamente utilizada, não somente nos estudos de marketing, mas de diversas outras áreas que envolvem pesquisas empíricas, e possui a vantagem de possibilitar a avaliação de uma série de relações simultâneas, nas quais uma determinada variável pode ser avaliada na condição de dependente e também de independente (HAIR et al. 2005, p. 466). A Modelagem de Equações Estruturais é caracterizada por Hair et al. (2005) como uma técnica de análise multivariada, a qual combina elementos relacionados à regressão múltipla com a análise fatorial, visando estimar uma série de relações de dependência simultaneamente. A utilização desta ferramenta estatística justifica-se para este trabalho principalmente em razão dos objetivos definidos e dos modelos de relacionamento entre construtos gerado na análise do referencial teórico. 130 Os mesmos autores informam a existência de três diferentes estratégias de modelagem: 1. a primeira é a estratégia de modelagem confirmatória, a partir da qual um só modelo é proposto, e são realizados os testes de adequação; 2. a segunda é a estratégia de modelos concorrentes (ou de modelos rivais), que consiste na análise de alternativas de avaliação de um dado modelo, mesmo que este tenha sido considerado ajustado; 3. e a última é a estratégia de desenvolvimento de modelos, que consiste em propor um modelo para ser melhorado por meio de sucessivas modificações nos modelos estrutural e de mensuração. A terceira estratégia é a mais comum, pois parte do pressuposto de que os modelos devem ser progressivamente melhorados, viabilizando análise de eventuais condicionamentos setoriais, ou vieses diversos. Para esta tese, optou-se pela utilização desta estratégia. A seqüência de etapas da modelagem, conforme sugerida por Hair et al. (2005) é a seguinte: 1. especificação do modelo estrutural e de mensuração; 2. construção do diagrama de caminhos; 3. conversão do diagrama de caminhos em um conjunto de modelos estrutural e de mensuração; 4. escolha do tipo de matriz de entrada e estimação do modelo proposto; 5. avaliação da identificação do modelo estrutural; 6. avaliação de critérios de qualidade de ajuste; 7. interpretação e modificação do modelo. As etapas 1 e 2 foram desenvolvidas no capítulo 2, com as proposições de associação reforçadas no item 3.1. As decisões sobre as demais etapas estão descritas a seguir. As ações procedidas foram realizados com o software AMOS, versão 4. Com relação à terceira etapa, Hair et al. (2005) indicam a necessidade de dois procedimentos: a especificação e análise do modelo de mensuração, e do modelo estrutural. A primeira envolve a especificação das variáveis que constituem um dado construto, a partir do apontamento de quais são as variáveis a partir do conjunto de dados coletados, e da avaliação da confiabilidade do construto. Tal avaliação se dá por meio da Análise Fatorial Confirmatória, a partir das análises, para cada construto, das medidas de ajustamento, da unidimensionalidade, da confiabilidade e da validade. Assim, considerando os resultados da Análise Fatorial Exploratória e da análise de 131 confiabilidade das escalas (item 3.4.2), procedeu-se à Análise Fatorial Confirmatória, cujos detalhes estão detalhados a seguir: Primeiramente foi procedida a extração e avaliação das medidas de ajustamento, a partir da qual se asseguravam condições para os procedimentos subseqüentes (ver etapa 5). Para cada construto, as variáveis foram avaliadas a partir da definição inicial, e, caso houvesse necessidade de reorientações, seguia-se com a averiguação de alternativas de melhoria. Depois de alcançadas as condições adequadas nestas medidas, seguia-se para as análises subseqüentes; A unidimensionalidade avalia se o conjunto de indicadores possui um conceito em comum (HAIR et al. 2005). A avaliação da unidimensionalidade pode ser realizada de três diferentes formas: pela avaliação das cargas estimadas e sua significância estatística (a não significância indica falta de unidimensionalidade); pela avaliação da matriz de resíduos padronizados, na qual se avalia a existência de valores acima de 2,58, o que indicaria a falta de unidimensionalidade; ou pela avaliação do índice de ajustamento comparativo (CFI), a partir do qual valores superiores a 0,9 indicam unidimensionalidade. Dada a facilidade de avaliação deste índice, optou-se aqui pela avaliação nesta terceira alternativa; A confiabilidade composta consiste em uma “medida de consistência interna dos indicadores do construto, descrevendo o grau em que estes indicam o construto latente em comum” (HAIR et al., 2005, p 489). Sua aferição é feita pela medida de confiabilidade de construto, e da variância extraída. A confiabilidade de construto é medida pela seguinte fórmula: Confiabilidade de construto = (∑ cargas padronizadas)² (∑ cargas padronizadas)² + (∑ erros de mensuração) Já a variância extraída reflete quantidade geral dos indicadores que é explicada pelo construto latente. A medição da variância extraída é feita a partir da seguinte fórmula: Variância extraída = ∑ (cargas padronizadas²) ∑ (cargas padronizadas²) + (∑ erros de mensuração) As cargas fatoriais padronizadas são obtidas a partir dos resultados gerados pelo 132 software utilizado, e os erros de mensuração para cada indicador são obtidos pelo seguinte cálculo: [1 – (carga fatorial padronizada do indicador)²]. Segundo recomendações da literatura, o valor de confiabilidade de construto deve ser maior que 0,7, e a variância extraída deve exceder 0,5 (HAIR et al, 2005). A análise de validade consiste em verificar quão bem os indicadores estão medindo aquilo a que se propõem a medir. Para efeito de averiguação em Análise Fatorial Confirmatória, faz-se necessário que sejam verificadas a validade convergente e a validade discriminante. • A validade convergente indica até que ponto as variáveis da escala se correlacionam positivamente com outras medidas do mesmo construto (MALHOTRA, 1999, p. 283). Esta pode ser acessada a partir da significância das cargas fatoriais dos indicadores, pela análise dos t-values (no software AMOS pela análise dos critical ratios – CR), sendo que valores superiores a 1,96 indicam resultados adequados. • Já a validade discriminante indica o quanto a medida de um construto não se correlaciona com outros construtos os quais deve diferir (MALHOTRA, 1999, p. 283). Nestes termos, a validade discriminante é assegurada quando a medida de um construto não apresentar correlação muito elevada com as outras medidas. Nesta tese, a validade discriminante foi medida pela comparação entre a variância extraída em cada construto, e a variância compartilhada com os demais construtos (medida pelo quadrado do coeficiente de correlação de Pearson). A etapa 4 consiste na escolha do tipo de matriz de entrada e estimação do modelo proposto. Conforme argumentam Hair et al. (2005, p. 484), há dois tipos de matrizes de entrada de dados: correlação e covariância. A matriz de covariância é a mais adequada para se proceder ao “teste de teoria”, uma vez que as variâncias e covariâncias são as formas apropriadas dos dados para validar relações causais. Nestes termos, optou-se nesta pesquisa pela utilização da matriz de covariância para a entrada dos dados. Com relação ao método de estimação, optou-se pelo método Maximum Likelihood (ML; máxima verossimilhança), que é método de estimação padrão (default) na maioria dos programas de modelagem de equações estruturais. 133 Para a etapa 5, de avaliação da identificação do modelo estrutural, faz-se necessário inicialmente o apontamento dos critérios de medição adotados. A avaliação do ajuste de um modelo estrutural, diferentemente das demais técnicas multivariadas, não se dá a partir de um único parâmetro. A literatura é rica em alternativas de avaliação, sendo diversos os índices que se geram a partir da análise dos modelos (ARBUCKLE, 2006). Segundo informam Hair et al. (2005, p. 521), “apesar de em muitos casos orientações terem sido sugeridas, nenhum teste absoluto está disponível, e o pesquisador deve, em ultima instância, decidir se o ajuste é aceitável”. Hair et al. (2005) distinguem três tipos de medida: 1. as medidas de ajuste absoluto, que “determinam o grau de em que o modelo geral (estrutural e de mensuração) prevê a matriz de covariância ou de correlação observada” (p. 521); 2. as medidas de ajuste incremental, que “compraram o modelo proposto com algum modelo de referência (o modelo nulo)” (p. 523); 3. medidas de ajuste parcimonioso, que “relacionam o índice de qualidade de ajuste do modelo com o número de coeficientes estimados exigidos para atingir esse nível de ajuste” (p. 524). Cada uma destas medidas é realizada a partir de diferentes índices, e a avaliação da literatura apontou a utilização de variadas medidas. A mesma literatura apresentou alguns índices em comum. Considerando a recomendação técnica (HAIR et al., 2005) e as práticas em outros trabalhos desenvolvidos (SAMPAIO, 2000; COSTA, 2002; MIGUEL, 2004; SANTOS, 2004; BRASIL, 2005; GUARITA, 2005), para esta tese decidiu-se pela utilização dos seguintes indicadores: Estatística Qui-Quadrado (X²): segundo informam Hair et al. (2005), o quiquadrado é a medida de ajuste mais fundamental em Modelagem de Equações Estruturais. Sua averiguação se dá a partir da razão pelo número de graus de liberdade (X²/gl). Segundo os autores “baixos valores de qui-quadrado73, que resultam em níveis de significância maiores que 0,05 ou 0,01, indicam que as matrizes de entrada real e prevista não são estatisticamente distintas”, ou seja, é adequado que não haja significância estatística do teste. Por outro lado, o teste qui-quadrado é muito sensível ao tamanho da amostra, especialmente para 73 A literatura pesquisada aponta que uma valor de X²/gl menor que 5 indica boa adequação. 134 aquelas com tamanho maior que 200 respondentes, que é o caso desta tese. Assim, outras medidas complementares são necessárias; Raiz do erro quadrático médio aproximado (RMSEA): trata-se de uma medida que “tenta corrigir a tendência da estatística qui-quadrado em rejeitar qualquer modelo especificado com uma amostra suficientemente grande”. A literatura não é homogênea quanto ao entendimento de valores adequados desta medida, porém a maioria aponta como adequados valores entre 0,05 e 0,08, havendo ainda autores que recomendam valores abaixo de 0,05 (HU; BENTLER, 1999; ITS/UTEXAS, 2006; ARBUCKLE, 2006). Índice de Adequação do Ajustamento (GFI): é um índice de ajuste absoluto, que é baseado na porcentagem das covariâncias observadas que são explicadas pelas covariâncias presentes no modelo. O índice varia de 0 a 1, sendo desejáveis valores próximos a 1. A maioria dos autores aponta valores acima de 0,9 como adequados, havendo alguns outros que apontam medidas acima de 0,8 como sendo também aceitáveis (SAMPAIO, 2000; PERIN; SAMPAIO; FALEIRO, 2004); Índice de Adequação do Ajustamento Calibrado (AGFI): trata-se de uma medida de ajuste incremental, desenvolvida a partir de uma extensão do GFI ajustada ao número de graus de liberdade do modelo proposto e do modelo nulo (HAIR et al., 2005). Também varia de 0 a 1, e, assim como o GFI, será adequado com valores próximos a 1, havendo autores apontando valores adequados somente a partir de 0,8, e outros a partir de 0,9. Índice Tucker-Lewis (TLI), também conhecido como Índice de ajuste nãonormado (NNFI), é considerado um indicador bastante robusto, e combina uma medida de parcimônia em um índice comparativo entre os modelos proposto e o nulo. Os valores ficam tipicamente entre 0 e 1, mas não necessariamente limitado a estes valores. Arbuckle (2006) informa que valores próximos a 1 indicam um bom ajustamento. A maioria dos autores sugere valores adequados acima de 0,9, e outros apontam a necessidade de um valor de TLI acima de 0,95 (HU; BENTLER, 1999; ITS/UTEXAS, 2006); Índice de Ajuste comparativo (CFI): é um índice de ajuste incremental, e representa uma comparação “entre o modelo estimado e um modelo nulo ou de independência” (HAIR et al. 2005). O CFI varia de 0 a 1, e a maioria dos autores entende como adequados os valores de 0,9, havendo ainda aqueles que vêem 135 adequação em valores acima de 0,8 (SAMPAIO, 2000; PERIN; SAMPAIO; FALEIRO, 2004); A etapa 6, que consiste na avaliação de critérios de qualidade de ajuste, envolve a análise dos indicadores acima apontados, tanto para o modelo de mensuração quanto para o modelo estrutural proposto. Por fim, a etapa 7 envolve a interpretação dos resultados, à luz dos determinantes teóricos definidos, e das possíveis modificações do modelo. Nesta etapa foram levadas em consideração principalmente as recomendações geradas pelo software AMOS, a partir da função modification indices, que apontam alternativas de alteração para mudanças nos valores de qui-quadrado. 136 4. TRABALHO EMPÍRICO Neste capítulo são analisados os dados oriundos da coleta de dados realizada a partir do questionário definido. Como forma de viabilizar uma análise mais consistente, optou-se por expor, inicialmente, algumas considerações sobre o contexto a partir do qual os dados foram coletados, ou seja, sobre os cursos de pósgraduação lato sensu. A partir deste primeiro item, segue a análise a partir da base de dados consolidada, expondo: os procedimentos preliminares e avaliação exploratória geral dos dados; a descrição da amostra; a análise univariada das variáveis associadas aos construtos; as análises multivariadas exploratórias, de avaliação do modelo de mensuração, e de avaliações dos modelos estruturais desenvolvidos; avaliação dos resultados e das proposições desenvolvidas. 4.1. CURSOS DE PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU A exposição que segue foi dividida em quatro blocos: primeiramente é desenvolvida a análise conceitual; em seguida são apontados e comentados os principais problemas e dificuldades dos cursos; a terceira parte apresente as perspectivas para estes serviços, e quais as possíveis aplicações destes; por fim, são apresentados e comentados dados estatísticos que foram encontrados na pesquisa sobre o assunto. 4.1.1. Base conceitual Os cursos lato sensu são cursos de pós-graduação de orientação ampla e aberta, em comparação aos cursos de natureza stricto sensu, estes orientados para a formação acadêmica. Os cursos lato sensu envolvem, segundo estabelece a legislação brasileira os cursos de especialização, aperfeiçoamento em nível de pósgraduação, os cursos designados como Master in Business Administration (MBA)74. 74 A tradução é Mestrado em Administração de Negócios, e refere-se à titulação de mestrado em administração concedida nos Estados Unidos. No modelo que foi adotado no Brasil, o MEC preferiu interpretá-lo como sendo um curso lato sensu. 137 Já os cursos stricto sensu envolvem os cursos de mestrado (nas modalidades acadêmica e profissional) e de doutorado (BRASIL, 2001). A natureza aberta dos cursos lato sensu é a razão de seu dinamismo, tendo-se como resultado a larga oferta destes cursos a partir dos anos 1990 pelas instituições de ensino superior. No contexto geral da formação em nível superior no Brasil, a formação lato sensu se insere como a primeira alternativa para os estudantes que detêm o titulo de graduação e que pretendem orientar suas carreiras para o exercício de sua atividade profissional. 4.1.2. Problemas dos cursos Possivelmente pela mesma razão (serem abertos e amplos), os mesmos cursos enfrentam uma série de dificuldades conceituais, legais, de dados estatísticos, mercadológicas, e teóricas. A seguir estes problemas são descritos, a partir dos relatos de Fonseca (2004) e Pilati (2006), e dos comentários do autor. Na dimensão conceitual, há algumas dificuldades de especificação. A lei brasileira informa que a pós-graduação lato sensu envolve cursos de aperfeiçoamento, mas nada mais informa sobre o que sejam estes cursos, a distinção em relação à especialização, e os pré-requisitos de oferta. Adicionalmente, não é de todo claro se há distinção entre especialização e MBA (a legislação se limita a informar que ambos são cursos lato sensu). Também o marco legal da pós-graduação lato sensu é bastante precário. As pesquisas nas mais diversas fontes apontam uma circularidade, sempre retomando os mesmos pontos ambíguos. Segundo aponta Fonseca (2004), a primeira tentativa de atribuir um suporte legal para estes cursos foi apresentada somente em 1983, tendo passado por um aperfeiçoamento em 1999, e encontrado um suporte, mais consistente em 2001, mas ainda sem estabelecer condições adequadas para o desenvolvimento e consolidação destes cursos. Sobre as estatísticas, a pesquisa realizada indicou que foram poucos os esforços feitos no sentido de promover um retrato da pós-graduação lato sensu no Brasil. De 138 todas as fontes pesquisadas, inclusive o senso da educação superior desenvolvido pelo Ministério da Educação (MEC), e nas informações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), quase nada foi encontrado, a não ser estimativas de anos remotos75. Os cursos lato sensu, especificamente aqueles de especialização e MBA, estão entre as fontes de receita para as instituições que os ofertam, sejam estas públicas ou privadas. A evolução recente observada na oferta desta modalidade de curso evidencia uma explosão da oferta, o que veio juntamente com a larga expansão vivenciada no nível de graduação (com a atuação de várias novas instituições, e com a formação de um grande número de novos graduados), além de uma crescente preocupação com a formação continuada. Esta ampliação da oferta não parece ter tido a contrapartida no nível de demanda, ou seja, muitos foram os cursos oferecidos que não tiveram, ou não têm, a demanda para seu funcionamento e formação de turmas. Esta tem sido uma das maiores dificuldades vivenciadas pelos cursos de especialização, o que, somada a uma aparente dificuldade em termos de benefício e de adequação às reais necessidades e desejos dos estudantes, tem apontado para o fracasso de muitos dos cursos e programas de formação76. Na dimensão teórica, o problema se aprofunda. Na pesquisa desenvolvida para esta tese, buscou-se referências nas mais diversas fontes, desde as bases de dados de artigos (Scielo, Periódicos Capes...), passando por anais de eventos77, até as referências de textos oficiais, tendo-se encontrado um número bastante reduzido de referências. Pôde-se perceber que os pesquisadores optaram por não orientar suas análises para esta dimensão de formação, apesar de ser muito mais antiga e abrangente, por exemplo, que os cursos de mestrado profissional, que já tem uma ampla literatura produzida. 75 Na ocasião da pesquisa, estava em andamento o processo de cadastramento dos cursos, por solicitação do MEC. 76 Para ilustrar o argumento, observou-se que, em uma das instituições pesquisadas, havia meses que estavam em oferta um total de 25 diferentes cursos, mas somente um estava em funcionamento. Os demais não conseguiam consolidar sequer uma turma. 77 Foram pesquisados os anais do encontro anual da ANPAD doa anos 1997 a 2006, além dos anais da Reunião Anual da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação – ANPED, de 2000 a 2005. 139 Especificamente em relação aos cursos da área de administração, foram encontrados cinco trabalhos significativos: Bandeira et al. (1998) desenvolvem uma pesquisa com a finalidade de propor um instrumento de avaliação da qualidade de cursos de pós-graduação lato sensu. O estudo foi desenvolvido junto a estudantes de três diferentes instituições do Estado de Minas Gerais. A escala desenvolvida segue todos os procedimentos de construção de escala, e pode servir, segundo os autores, como um instrumento para o aperfeiçoamento das ofertas de cursos desta natureza; Quintella, Melo e Leal (2001) relatam a experiência do processo de certificação de qualidade vivenciado no Programa de Capacitação Profissional Avançada, apontado como responsável pelos cursos de pós-graduação lato sensu da Escola de Administração da Universidade Federal da Bahia. Os autores descreveram os impactos da certificação, e aproveitaram para discutir a qualidade nos cursos de especialização, propondo alternativa para a melhoria em termos de qualidade desta modalidade de formação; Antonello e Ruas (2002) desenvolveram um artigo com a finalidade de avaliar a aplicação do conceito de comunidades de prática em cursos de pós-graduação lato sensu desenvolvido na modalidade in company. O propósito dos autores foi entender a articulação entre a aprendizagem formal e a informal na formação gerencial, visando o desenvolvimento de competências, tendo o curso servido como espaço de avaliação de proposta; Grohmann (2005) desenvolveu um estudo para avaliar como o estudo formal, especificamente o de especialização, impacta sobre o processo de aprendizagem gerencial. A partir de entrevistas com oito estudantes, a autora conclui que o curso analisado teve como principais reflexos na aprendizagem dos gerentes “a ampliação de suas habilidades e valorização de outras; a aquisição de novos conhecimentos (voltados às tarefas); e poucas mudanças de atitude”; Sousa, Oliveira e Rezende (2006) desenvolveram um estudo de replicação, baseando-se no modelo teórico de Sirdeshmukh, Singh e Sabol (2002), no qual foi testado um modelo em que os construtos confiança nas políticas e práticas da organização, e confiança nos funcionários de contato (cada um destes, em separado, como reflexivos dos construtos ‘competência operacional’, ‘benevolência operacional’, e ‘orientação para a solução de problemas’) interagiam como formativos do valor percebido, e, por meio deste (e também 140 diretamente), na formação da lealdade dos clientes. O modelo foi replicado junto a 937 estudantes de cursos lato sensu da modalidade a distância da Universidade Federal de Lavras, confirmando-se as hipóteses originais. 4.1.3. Perspectivas e aplicações A despeito destas dificuldades, os cursos lato sensu desempenham um importante papel na educação em nível de pós-graduação. Como apontam Fonseca (2004) e Pilati (2006), a especialização, que já foi a melhor alternativa para a formação de quadros docentes para o ensino superior, redireciona suas prioridades para outras finalidades, e tende a se fortalecer, desde que tenha sua estrutura redefinida a partir da solução das dificuldades acima apresentadas, e da sua definição enquanto provedora de formação para diversas finalidades. Neste sentido é que Pilati (2006) propõe algumas orientações para um redirecionamento destes cursos, tanto para o contexto acadêmico quanto para o contexto profissional não acadêmico. Para o contexto acadêmico, o autor propõe o seguinte: Primeiramente, o autor entende que a dita ‘sociedade do conhecimento’, a partir das instituições universitárias, institutos de pesquisa, centros tecnológicos..., vai ampliar as exigências por formação continuada, dinâmica, e ao mesmo tempo profunda para uma integração condizente com a demanda de integração institucional e nacional na cadeia mundial de conhecimento. Daí a demanda pela atualização continuada, que encontra nos cursos de especialização e aperfeiçoamento seus melhores espaços de desenvolvimento; Adicionalmente, os sistemas de ensino continuarão necessitando de profissionais especialistas para composição de seus quadros: para o ensino básico, a especialização é o próximo passo para a melhoria da qualidade; para o ensino superior, é uma opção adequada para professores em início de carreira, para áreas de formação nas quais não há ainda a formação suficiente de quadros em cursos stricto sensu, ou para aprimoramento de professores já experientes. Nas palavras do autor (PILATI, 2006, p. 23): “Os programas rígidos e complexos de mestrado e doutorado são indispensáveis para a produção do conhecimento, porém os programas de especialização podem possibilitar a formação continuada para o exercício 141 da docência qualificada de graduação”. Por fim, o autor entende que os cursos de especialização constituem um relevante “mecanismo para importantes centros de pesquisa e produção de conhecimento disseminarem o conhecimento produzido, tanto no meio acadêmico quanto técnico”. A proposta, a despeito de parecer mais associada a um conceito de aperfeiçoamento, encontra exemplos em diversas instituições que mantêm cursos de especialização vinculados a grupos de estudo e de pesquisa. Para a esfera profissional não acadêmica, o primeiro e mais evidente papel dos cursos lato sensu é a ampliação da qualidade profissional, pelo aperfeiçoamento das atividades em execução ou pelo aprofundamento dos conhecimentos nos cursos de especialização e MBA. Adicionalmente, o mesmo autor entende que os diversos profissionais atuantes no mercado têm cada vez mais a necessidade de aprimoramento de suas práticas, e vem se fortalecendo os laços com as instituições escolares, a partir de parcerias as mais diversas. Neste sentido, entende-se que a especialização, tanto na modalidade presencial como a distância, pode ser entendida como “espaço privilegiado para a concretização da mediação pedagógica entre a informação a oferecer e a aprendizagem autônoma de construção do conhecimento pelos graduados e profissionais” (PILATI, 2006, p. 24). 4.1.4. Dados estatísticos Como apontado acima, são poucos e parciais os dados existentes sobre os cursos de pós-graduação lato sensu. Alguns dados foram selecionados e apresentados por Pilati (2006), e estão expostos a seguir. O primeiro levantamento realizado pelo autor aponta o número de instituições que foram credenciadas pelo MEC para a oferta de cursos e o crescimento anual. Tabela 1 – Número de cursos e crescimento Ano 2001 2002 2003 Públicas 119 120 127 Percentual 0,8 5,9 Fonte: Pilati (2006, p. 11) Privadas 454 599 716 Percentual 31,9 25,8 Total 573 719 843 Percentual 25,5 21,6 142 Como pode ser observado na Tabela 1, a grande maioria das instituições credenciadas é de natureza privada, e foram justamente estas que tiveram uma maior taxa de crescimento na oferta entre os anos de 2001 e 2003. As instituições públicas representam cerca de 20% do total, e tiveram um pequeno crescimento de oferta. Os números não permitem compreender, por outro lado, o peso destes cursos em cada uma das modalidades institucionais. Já a Tabela 2 apresenta o número médio de cursos existentes. Os dados complementam a Tabela 1, e apontam que as instituições públicas têm uma quantidade média de cursos bastante superior à quantidade média de cursos das instituições privadas, possivelmente pelo fato das instituições públicas serem, em sua grande maioria, universidades, e as instituições privadas serem em sua maioria faculdades e centros universitários. Tabela 2 – Número médio de cursos Categoria administrativa Pública Privada Ano 2002 21,9 8,2 2003 24,2 8,7 Fonte: Pilati (2006, p. 11) Por fim, Pilati (2006) apresenta o número de matrículas e conclusões. Conforme pode observado na Tabela 3, entre 2002 e 2003 o número de estudantes matriculados girou em torno de 300.000, com um crescimento aproximado de 20% entre os dois anos. O número de conclusões em 2003 ficou em torno de 140.000. Pode-se verificar que a relação entre os alunos que concluem e os estudantes matriculados é menor que 50%, o que indica um número significativo de evasão78. Tabela 3 – Número de matrículas e conclusões Matrícula e conclusões Matrículas Conclusões Ano 2002 274030 - 2003 322656 136272 Fonte: Pilati (2006, p. 11) Especificamente para o Estado do Ceará, não foram encontradas estatísticas sobre 78 A indicação é meramente especulativa, pois parte do princípio de que a cada ano um número aproximadamente igual ao do ano anterior deveria estar concluindo os cursos. 143 os cursos de especialização. A verificação passou pelo levantamento exploratório, a partir do questionamento junto a coordenadores das áreas de pós-graduação nas instituições, e ainda de uma consulta aos sites das instituições, como forma de captar as ofertas e os cursos em andamento. Para qualquer das duas pesquisas, os resultados encontrados não podem ser entendidos como seguros. Na pesquisa junto aos coordenadores, alguns destes não puderam ser acessados, ao passo que outros informaram não poder assegurar qual seria o número exato de alunos, dada o número de desistências que não podem ser identificadas senão após um longo período. Especificamente para o universo desta tese (estudantes de cursos das áreas de gestão e negócios), estimou-se cerca de 1500 estudantes matriculados e cursando. Com relação às pesquisas nos sites, os dados encontrados variavam na organização de informação, tais como: havia instituições em que somente são apontados os cursos, sem apontar se estão ou não em funcionamento; em outras, os sites estavam desatualizados, tendo-se identificado alguns cursos ainda em oferta que já haviam aberto turma e encerrado inscrições, outros não eram mais ofertados, mas havia alunos remanescentes atrasados com a entrega de monografias; outras apresentavam o mesmo curso como ofertado e como em andamento; algumas instituições sequer traziam informações sobre os cursos em seus sites. Tabela 4 - Dados sobre cursos de especialização em Fortaleza INSTITUIÇÃO79 UECE UFC FIC UNIFOR FA7 Outras Total NÚMERO DE CURSOS 81 55 50 49 25 81 341 CURSOS EM GESTÃO 11 17 20 16 8 37 109 Fonte: Dados da pesquisa A partir de alguns ajustes procedidos, com a exclusão de cursos repetidos, e pela avaliação de cursos em oferta ou em andamento, foi possível gerar uma informação 79 As siglas têm os seguintes significados: UECE – Universidade Estadual do Ceará; UFC – Universidade Federal do Ceará; FIC – Faculdade Integrada do Ceará; UNIFOR – Universidade de Fortaleza; FA7 – Faculdade 7 de Setembro. 144 parcial, que ilustra, ainda que de forma aproximada, a quantidade de cursos das principais instituições de ensino superior de Fortaleza. Como é mostrado na Tabela 4, tem-se cerca de 340 cursos em oferta ou em andamento em Fortaleza, sendo cerca de 110 aqueles voltados para a área de gestão e negócios, totalizando aproximadamente 30% do total80. 4.2. ANÁLISE EXPLORATÓRIA PRELIMINAR Após a tabulação, inicialmente procedeu-se a uma averiguação geral da estrutura de dados, como etapa preparatória para as análises subseqüentes. Foram analisados: os missing values, os outliers, e a normalidade. Foram identificados diversos missing values relacionados às variáveis dos construtos, e em número menor naqueles relacionados às demais variáveis. A verificação da matriz de dados apontou que os valores eram provenientes de 13 entradas. Após a ponderação do peso de cada uma destas na análise do modelo, decidiu-se excluir completamente as 13 entradas, restando ao final somente um missing value associado à variável renda familiar; A análise das medidas de assimetria e curtose indicou a não normalidade nas variáveis. Tal resultado é esperado em variáveis utilizadas em pesquisas de marketing, não tendo sido adotado qualquer procedimento de ajuste; Na análise de outliers, a averiguação de cada uma das variáveis pelos escores padronizados não apresentou qualquer justificativa para exclusão de dados, uma vez que os muito raros foram os valores que ficaram fora do intervalo [–3,5; +3,5]. A avaliação da distância Mahalanobis, que indica a distância multivariada entre os valores de um caso individual e as médias, também não apresentou motivos para exclusão de dados. Assim, dos 261 questionários coletados, restaram ao final das primeiras avaliações um total de 248 entradas de dados válidas. A Tabela 5 mostra de quais instituições e cursos os questionários válidos foram provenientes. Como pode ser observado, foram cinco diferentes instituições, sendo três universidades (duas públicas [UFC e 80 Estes números apontam o que foi identificado pelo autor. É possível supor a existência de um número ainda maior que este, tendo em vista as dificuldades de coleta de dados apresentadas. Diálogos exploratórios com alguns professores apontam a existência de pelo menos mais 50 outros cursos. 145 UECE] e uma particular [UNIFOR]), e duas faculdades particulares (FIC e Faculdade Ateneu [FATE/CV&C]). A UFC foi a instituição que apresentou o maior número de respondentes (83 ao final, sendo 33,5% do total), seguida pela FIC com 64 (25,8%), pela UNIFOR com 48 (19,4%), pela FATE/CV&C com 35 (14,1%), e pela UECE com 18 respondentes (7,4%). Tabela 5 – Instituições e cursos Instituição UFC FIC UNIFOR FATE/CV&C UECE Curso Número Gerência Executiva de Marketing Gestão e Finanças Públicas Estratégia e Gestão Empresarial Subtotal Planejamento e Gerenciamento de Marketing Gestão Estratégica Organizacional Consultoria de Empresas Subtotal Gestão Empresarial Marketing Subtotal MBA em Gestão Hoteleira e Eventos Turísticos MBA em Gestão de Pessoas MBA em Gestão Estratégica de Marketing MBA em Controladoria e Finanças Subtotal Gerência de Recursos Humanos Gestão Financeira Subtotal Total geral 27 28 28 83 16 23 25 64 13 35 48 8 9 9 9 35 7 11 18 248 Percentual do total 10,9 11,3 11,3 33,5 6,5 9,3 10,1 25,8 5,2 14,1 19,4 3,2 3,6 3,6 3,6 14,1 2,8 4,4 7,3 100,0 Fonte: Dados da pesquisa A Tabela 5 mostra ainda que os respondentes eram provenientes de 14 diferentes cursos, 10 dos quais da modalidade especialização, e quatro da modalidade MBA. Agrupando os cursos por área gerencial, temos que quatro são em marketing, totalizando 87 respondentes (35,1% do total), três em finanças, com 48 respondentes (19,4%), dois em Estratégia empresarial, com 51 respondentes (20,6%), dois em Recursos humanos, com 16 respondentes (6,5%), dois em Administração Geral (Consultoria e Gestão empresarial), com 38 respondentes (15,3%), e um em uma área aplicada (Gestão hoteleira e eventos turísticos), com 8 respondentes (3,2%). 4.3. DESCRIÇÃO DA AMOSTRA Os dados de descrição da amostra estão classificados em dois grupos. O primeiro 146 grupo contém dados demográficos e sócio-econômicos, especificamente idade, sexo, estado civil, e renda familiar. Estas questões foram as últimas levantadas no questionário. O segundo grupo contém questões mais associadas ao serviço, tendose questionado a área de formação de graduação do respondente, se tinha experiência na área do curso, quanto tempo de experiência, se o respondente estava trabalhando e em qual condição, além de qual era a principal motivação para realizar o curso. As questões deste segundo grupo foram as primeiras levantadas no questionário. Cada grupo de questões foi apresentado com a exposição dos valores totais, percentuais e freqüência acumulada de respostas de cada variável, e em alguns casos foram investigados ainda cruzamentos com outras variáveis, especialmente instituição, curso, idade e sexo. 4.3.1. Informações demográficas Dos 248 respondentes, um total de 138 foi do sexo feminino, e 110 do sexo masculino. Em percentuais, os respondentes do sexo feminino representaram 55,6% do total, ao passo que aqueles de sexo masculino representaram 44,4%. Os dados confirmam a progressiva preocupação das mulheres por preparação em nível superior. O cruzamento com as instituições e os cursos indicou que as mulheres foram maioria em 4 das cinco instituições, tendo igualado em número em uma (UNIFOR). Em relação aos cursos, verificou-se que as mulheres eram maioria em 10 dos 14 cursos, ao passo que em um deles o número de homens e mulheres eram iguais e em 4 a maioria foi de homens. Com relação à idade, a grande maioria dos respondentes informou ter até 30 anos de idade (58,5%), vindo em seguida um número significativo de respondentes com idade de 30 até 40 anos (24,2%), e um número menor com idade acima de 40 até 50 anos. Somente uma pequena minoria informou ter mais de 50 anos de idade (3,2%). Estes dados, mostrados na Tabela 6, indicam que os cursos de pós-graduação pesquisados atendem a um público bastante jovem, a maioria nas fases iniciais de sua carreira. Os respondentes com idade até 30 anos foram a maioria em todas as instituições, e cursos, com exceção do MBA em Controladoria e Finanças. 147 Tabela 6 – Idade dos respondentes Faixas de idade Freqüência Percentual Acumulado Até 30 anos 145 58,5 58,5 Acima de 30 até 40 anos 60 24,2 82,7 Acima de 40 até 50 anos 35 14,1 96,8 Acima de 50 anos 8 3,2 100,0 Total 248 100,0 - Fonte: Dados da pesquisa Quanto ao estado civil, a grande maioria informou ser solteira, com 56,5% do total de respondentes. Somente 39,1% apontaram serem casados, ao passo que 4,4% apontaram ‘outros’ como resposta. O resultado é compatível com as indicações feitas para idade, ou seja, os estudantes são em sua maioria jovens, em início de carreira, sem sua família constituída. A última questão relacionava-se com a renda média familiar mensal. Os resultados, indicados na Tabela 7, apontam que a maioria dos respondentes (30,6%) tem renda familiar mensal acima de R$ 4000,00, e somente uma minoria tem renda familiar até R$ 1000,00. Somando os percentuais em dois grupos, é possível observar que pouco menos da metade dos respondentes apresenta condição de renda acima de R$ 3000,00, indicando um elevado padrão econômico dos estudantes dos cursos referidos analisados. Tabela 7 – Renda familiar mensal Faixas de renda Freqüência Percentual Acumulado Até R$ 1000,00 29 11,7 11,7 Acima de R$ 1000,00 até R$ 2000,00 51 20,6 32,4 Acima de R$ 2000,00 até R$ 3000,00 50 20,2 52,6 Acima de R$ 3000,00 até R$ 4000,00 41 16,5 69,2 Acima de R$ 4000,00 76 30,6 100,0 Total de respondentes 247 99,6 Sem resposta 1 0,4 Total geral 248 100,0 - Fonte: Dados da pesquisa A partir dos dados apontados, pôde-se observar que os respondentes, de maneira geral, são jovens, predominantemente solteiros, vivem em uma razoável condição econômica (familiar), e são bem divididos entre os sexos, apesar de as mulheres já serem maioria. 4.3.2. Informações associadas ao serviço Nas questões mais associadas ao serviço, a primeira questionava qual a área de 148 formação do respondente no curso de graduação, dentre as opções clássicas de divisão das áreas do conhecimento. Os resultados, apresentados na Tabela 8, evidenciam que a grande maioria dos respondentes é proveniente de cursos da área de Ciência Humanas e Sociais, com 78,6% do total. Em segundo lugar, com um número quatro vezes menor, estão os estudantes provenientes de cursos da área de Ciências Exatas e Tecnológicas (com 19% do total) e em um número muito reduzido estão os estudantes provenientes das áreas de Ciências da Saúde e das Ciências Agrárias. Tabela 8 – Áreas de formação na graduação Áreas Freqüência Percentual Acumulado Ciências Humanas e Sociais 195 78,6 78,6 Ciências Exatas e Tecnológicas 47 19,0 97,6 Ciências da Saúde 5 2,0 99,6 Ciências Agrárias 1 0,4 100,0 Total 248 100,0 - Fonte: Dados da pesquisa Os resultados não surpreendem, uma vez que os cursos pesquisados estão inseridos na macro-área de Ciências Sociais Aplicadas, atraindo assim a maioria dos estudantes que já tem alguma formação na área. Os demais percentuais justificamse pela já tradicional inserção nas atividades de gestão de profissionais das áreas de engenharia, e pelo pouco freqüente envolvimento com esta área de conhecimento de profissionais de saúde ou de Ciências Agrárias. A questão seguinte foi mais específica, buscando identificar se o respondente tinha, ou havia tido, experiência profissional na área do curso. As respostas, que eram somente sim ou não, apontaram que a grande maioria (77,8% do total) possuía experiência na área, indicando assim que os cursos representavam, para a maioria dos respondentes, uma oportunidade de aperfeiçoamento da experiência que vivia ou havia vivido. Para aqueles que informaram já possuir experiência na área do curso, foi questionado quanto tempo tinham de experiência na área81. Os resultados, mostrados na Tabela 9, indicam que metade de todos os respondentes tem até 5 81 Alguns respondentes, mesmo sendo instruídos a não responder a esta questão caso respondessem não na questão anterior, apontaram resposta. Nestes casos, optou-se por desconsiderar estas respostas, incluindo-as na alternativa não se aplica. 149 anos de experiência (49,6%), e em número menor estão aqueles que têm mais de 5 até 10 anos de experiência (15,7%), havendo ainda um número reduzido de respondentes com experiência de 10 a 15 anos (6,5%), e acima de 15 anos (6%). O cruzamento destes dados com as instituições e os cursos apontou que, em qualquer das instituições e dos cursos, a maioria dos estudantes é pouco experiente. Também foi procedido o cruzamento com sexo e idade: mostrou-se que há uma correspondência entre os respondentes menos experientes e os mais jovens; e foi indicado ainda que a proporção de mulheres é maior tanto dentre os que têm até 5 anos experiência na área, quanto dentre aqueles que têm de 5 até 10 anos de experiência, mas a partir deste tempo, verifica-se uma pequena maioria de homens, o que se explica possivelmente pela ‘recente’ ascensão das mulheres ao mercado de trabalho. Tabela 9 – Tempo de experiência na área do curso Faixas de tempo Até 5 anos Mais de 5 até 10 anos Mais de 10 até 15 anos Mais de 15 anos Não se aplica Total Freqüência Percentual Acumulado 123 49,6 49,6 39 15,7 65,3 16 6,5 71,8 15 6,0 77,8 55 22,2 100 248 100,0 - Fonte: Dados da pesquisa Perguntados sobre as condições atuais em relação ao trabalho, os resultados, mostrados na Tabela 10, indicam que a grande maioria dos respondentes estava trabalhando em tempo integral (83,1%), ou parcialmente (5,6%), ou seja, aproximadamente 90% dos respondentes estavam trabalhando ao mesmo tempo em que realizavam o curso. Uma pequena parcela informou estar desempregado (8,1%) ou afastado do trabalho (3,2%). Tabela 10 – Condição atual de trabalho Condição Freqüência Percentual Acumulado Trabalhando integralmente 206 83,1 83,1 Desempregado(a) 20 8,1 91,1 Trabalhando em meio turno 14 5,6 96,8 Afastado(a) do trabalho 8 3,2 100,0 Total 248 100,0 - Fonte: Dados da pesquisa Nesta questão, o cruzamento com sexo surpreendeu ao se observar que a grande maioria dos que informaram estar desempregados ou afastados é do sexo feminino, 150 e que um número exatamente igual de homens e mulheres (103) está trabalhando em tempo integral. Este número, avaliado em termos percentuais indica, por outro lado, que uma maior proporção dos estudantes do sexo masculino trabalha, e em tempo integral, ao passo que a uma parte significativa das mulheres não está ainda inserida no mercado, e tem no curso, possivelmente, uma oportunidade de ganho de vantagem na busca de emprego. Outros cruzamentos realizados mostraram que a distribuição acima segue aproximadamente igual nos diversos e instituições, e também em todas as faixas de idade. A última questão buscava saber qual a principal motivação para a realização do curso, dentre um conjunto de alternativas disponíveis, extraídas da revisão da literatura e das entrevistas. Os resultados, que podem ser observados na Tabela 11, mostram que os dois motivos mais recorrentes são: preparação para o mercado, com 44,4% dos respondentes; e desejo pessoal de aperfeiçoamento, com 42,3% do total. As demais alternativas mostraram-se como motivo principal para cerca de 13% do total, surpreendendo o pequeno número de respondentes que visam no curso principalmente sua preparação para um curso de mestrado (7,7%). Um número muito reduzido informou fazer o curso por exigência do emprego, ou por outras razões (2,8% cada). Tabela 11 – Motivos para realização do curso Motivos Preparação para o mercado Desejo pessoal de aperfeiçoamento Preparação para um mestrado Exigência do seu emprego Outros Total Freqüência Percentual Acumulado 110 44,4 44,4 105 42,3 86,7 19 7,7 94,4 7 2,8 97,2 7 2,8 100,0 248 100,0 - Fonte: Dados da pesquisa Também neste item os dados foram cruzados com outras questões, destacando-se dentre os resultados o seguinte: no cruzamento com idade, observou-se que os respondentes com até 30 anos de idade indicaram, em sua maioria (51%), que fazem o curso com a finalidade de preparação para o mercado, ao passo que os respondentes com mais de 30 anos de idade apontaram, em sua maioria, que cursam por desejo de aperfeiçoamento. Já no cruzamento com o sexo, observou-se que, daqueles que apontaram desejo pessoal de aperfeiçoamento, a grande maioria 151 (63%) são mulheres, e que estas também são maioria dentre os respondentes que buscam preparação para o mercado, sendo os homens maioria dentre os que informaram buscar no curso uma preparação para o mestrado. Os demais cruzamentos feitos não apontaram diferenças significativas entre os grupos. 4.4. ANÁLISE UNIVARIADA DAS VARIÁVEIS DOS CONSTRUTOS Para a análise das variáveis dos construtos, considerou-se mais oportuno sua apresentação em três momentos, conforme foi definido no posicionamento de cada um nos modelos desenvolvidos. Assim, a apresentação que segue apresenta inicialmente as variáveis dos construtos associados ao valor percebido, seguidos pelas variáveis dos construtos sobre ações comportamentais, e por fim as variáveis dos construtos sobre predisposições comportamentais. A análise se deu, principalmente, por meio da média e do desvio-padrão de cada variável. A opção por esta medida foi em razão da maior facilidade de interpretação da média em relação a outras medidas. Como forma de viabilizar a consistência das análises, foram também extraídos os percentuais de cada nível de concordância para cada uma das variáveis, o que pode ser encontrado no Apêndice 3. 4.4.1. Variáveis associadas ao valor percebido As variáveis de benefícios e sacrifícios percebidos, assim como aquelas de valor percebido geral, foram nomeadas por X seguido por um número correspondente ao seu ordenamento no questionário aplicado. Na exposição, os números não seguem a seqüência natural porque as variáveis foram dispostas em ordem aleatória. Inicialmente, em relação aos benefícios, os resultados para o construto qualidade percebida estão dispostos na Tabela 12. Conforme é possível verificar, a média verificada para a concordância com a afirmação “As atividades do curso são adequadamente desenvolvidas” (4,61), foi sensivelmente menor que as demais, o inverso ocorrendo para a afirmação de que ‘os professores têm boa competência ‘acadêmica’’, que foi superior a todas as demais (5,59). A diferença entre os dois extremos pode ser considerada bastante significativa. É interessante observar que 152 os estudantes consideram o serviço bastante confiável, a despeito de não serem fortemente de acordo com a afirmação de que o desenvolvimento das atividades é apropriado, nem com a de que o trabalho de coordenação seja adequado. Tabela 12 – Resultados para qualidade percebida X1 X4 X7 X9 X11 X13 X16 X20 Variável As atividades do curso são adequadamente desenvolvidas O serviço prestado no curso é muito confiável Os professores têm boa competência ‘de mercado’ O conteúdo do curso é adequado Os professores têm boa competência ‘acadêmica’ O trabalho de coordenação do curso é adequado O currículo está alinhado com as demandas profissionais Os professores têm boa ‘competência didática’ Média Desvio padrão 4,61 1,28 5,29 1,33 5,59 1,30 5,10 1,30 5,69 1,29 4,91 1,46 5,35 1,17 5,17 1,35 Fonte: Dados da pesquisa Foi possível observar ainda que a variação na percepção foi maior no entendimento sobre as atividades relacionadas à coordenação, e foi menor na percepção de alinhamento do currículo do curso com as demandas profissionais de mercado. Também foi possível verificar que as médias para avaliação de professores foram todas elevadas, ou seja, os estudantes concordam quando se afirmam que os professores têm competência prática, acadêmica e didática. Com relação à percepção de reputação, os resultados indicaram que o nível de concordância com as cinco afirmações apresentadas foi elevado, como pode ser observado na Tabela 13. Pode-se verificar que a diferença entre o menor nível concordância médio (para a afirmação ‘tenho orgulho de estudar neste curso’ [5,19]), e o maior (para a afirmação ‘a instituição promotora do curso tem boa reputação’ [5,91]) pode ser considerada pequena, indicando que as afirmações apresentaram níveis médios de concordância próximos, o que se justifica pela proximidade de sentido das afirmações (compreensível, pois se está medindo o mesmo construto). Tabela 13 – Resultados para reputação percebida X2 X6 X10 X15 X19 Variável A instituição promotora do curso tem boa reputação O ‘nome’ da instituição promotora do curso é forte no mercado O curso tem bom conceito de mercado O curso tem uma boa imagem externa Tenho orgulho de estudar neste curso Fonte: Dados da pesquisa Média Desvio padrão 5,91 1,31 5,73 1,49 5,44 1,31 5,32 1,45 5,19 1,56 153 A dispersão em cada uma das variáveis pode ser entendida como elevada, especialmente se comparada com os dados da Tabela 12, indicando assim que não existe uma forte convergência de opiniões entre os estudantes, ou seja, ao passo que muitos alunos percebem sua instituição como bem reputada, vários outros pensam de maneira oposta. Ainda assim, na percepção dos estudantes, de modo geral, suas instituições oferecem fortemente este benefício, ou seja, estes entendem suas instituições como bem reputadas. O terceiro construto associado aos benefícios percebidos concerne à percepção de benefício social. Os resultados para cada uma das cinco variáveis podem ser observados na Tabela 14. Como é possível verificar, a média de concordância com cada uma das afirmações correspondentes às variáveis foi elevada, com exceção da variável X12, e ficaram relativamente próximas entre si. Tabela 14 – Resultados para benefício social percebido Variável O curso traz o benefício de viabilizar a troca de experiências X3 entre colegas O relacionamento com a turma que é propiciado pelo curso é X8 bastante positivo X12 A partir do curso viabilizam-se bons contatos para negócios O curso traz a vantagem de viabilizar a formação de uma rede X14 de contatos profissionais X18 O curso é um bom lugar para interação com outros profissionais Média Desvio padrão 5,75 1,30 5,90 1,27 4,85 1,36 5,15 1,45 5,59 1,33 Fonte: Dados da pesquisa Os dados permitem concluir que, em média, os estudantes entendem como bastante positivo o relacionamento entre si proporcionado pelos cursos, e que estes percebem os cursos como um bom espaço para troca de experiências, para interação para outros profissionais, e para a formação de uma rede de contatos profissionais, e entendem ainda, em menor escala, que se formam, a partir do curso, bons contatos para negócios. Comparando-se o nível de dispersão observado entre as variáveis, verifica-se uma evidente proximidade, sendo este mais elevado na variável X14, possivelmente porque a formação de uma rede de contatos profissionais depende em muito da atitude individual de cada aluno, cabendo ao curso oportunizar as situações para a formação das redes. 154 Com relação à percepção de sacrifício, analisando inicialmente as variáveis associadas à percepção de preço, têm-se os dados da Tabela 15. É possível verificar inicialmente que o nível médio de concordância com cada uma das afirmações é bastante elevado, com exceção da variável X28, que foi submetida com escore reverso. Tabela 15 – Resultados para sacrifício monetário percebido Variável X21 O preço pago na mensalidade do curso é adequado X23 O dinheiro gasto no curso é um bom investimento X25 A soma do gasto em dinheiro no curso está adequada X28 Considero o gasto em dinheiro com este curso excessivo e injusto* X32 Entendo que tenho um gasto adequado para realizar este curso * Item de escore reverso Média Desvio padrão 5,15 1,33 5,55 1,35 5,19 1,25 2,67 1,54 5,15 1,31 Fonte: Dados da pesquisa Merecem destaque as seguintes conclusões: primeiramente, os dados evidenciam que os estudantes entendem os gastos em dinheiro com os cursos como bons investimentos em suas carreiras e em seu aprendizado, apontando também como adequados os gastos não somente com as mensalidades, mas com a soma de todos os gastos realizados; adicionalmente, o nível de dispersão para cada variável não fica além dos níveis dos demais construtos; como pode ser observado, o maior nível de dispersão ocorreu na variável X28 possivelmente pelo fato da pergunta ter sido realizada com sentido inverso. Tabela 16 – Resultados para sacrifício não monetário percebido X22 X24 X27 X29 X31 Variável Média Desvio padrão O curso tem uma demanda de tempo apropriada 4,77 1,52 O curso demanda um esforço apropriado 5,48 1,24 Apesar do cansaço e do stress, não é difícil fazer este curso 5,24 1,50 Considero apropriado o esforço necessário para fazer este curso 5,20 1,38 As atividades do curso exigem um esforço adequado 5,15 1,29 Fonte: Dados da pesquisa O segundo construto associado à percepção de sacrifício consistiu no sacrifício não monetário, medido por meio de cinco variáveis, apresentadas em cinco afirmações, cujos resultados podem ser observados na Tabela 16. Aspectos como tempo, esforço, cansaço e stress foram inseridos, e as médias de concordância podem ser consideradas elevadas, com exceção da variável X22, associada ao tempo (variável que também apresentou o maior nível de dispersão nas respostas). Com exceção 155 desta variável (X22), verifica-se que as médias ficaram próximas entre si. Pelos dados expostos pode-se afirmar que, no entendimento dos estudantes, o esforço demandado para fazer o curso é adequado, e que, a despeito do cansaço e do stress vivenciado, não é tão difícil realizar o curso. Por outro lado, os estudantes concordam em menor grau com o entendimento de que o tempo é apropriado, o que se explicaria, possivelmente, pelo fato de a maioria dos estudantes trabalhar em tempo integral, e os cursos serem ou no turno noturno (após o expediente), ou nos finais de semana, sacrificando o tempo livre para o lazer e as famílias. Por fim, no construto associado ao valor percebido geral, foram propostas quatro variáveis também na forma de afirmações. As médias e os desvios padrão do nível de concordância com cada uma destas estão expostos na Tabela 17. Como é possível observar, estas variáveis apresentaram médias sensivelmente menores comparativamente às medias das variáveis dos construtos até aqui avaliados, e apresentaram ainda desvios-padrão maiores. Tabela 17 – Resultados para valor percebido geral Variável Média O conjunto de benefícios do curso é compatível com o conjunto 5,00 X5 de sacrifícios realizados X17 O que recebo neste curso compensa bem o que pago 4,88 Considero que o que recebo no curso esteja adequado com os X26 4,83 sacrifícios que tenho que fazer Comparativamente com o que dou, o curso atende as minhas X30 4,91 necessidades Desvio padrão 1,41 1,43 1,44 1,43 Fonte: Dados da pesquisa Apesar de menores em relação às demais variáveis, comparando-as entre si as médias ficaram muito próximas, o mesmo ocorrendo em relação como os desviospadrão. Pode-se afirmar assim que os estudantes entendem que o que recebem nos cursos é compatível com o que têm que dar, ou que comparativamente ao que têm que sacrificar, os resultados atendem bem às suas necessidades. 4.4.2. Variáveis associadas às ações comportamentais Para a avaliação das ações de boca a boca, primeiramente em relação à intensidade destas ações, foram apresentadas cinco afirmações, cujas médias e desvios padrão estão apresentados na Tabela 18. Os números relativos às médias 156 indicam uma evidente tendência a um nível intermediário de concordância com as afirmações, indicando um nível não muito intenso de ações de boca a boca. Tabela 18 – Resultados para intensidade das ações de boca a boca Variável Média Desvio padrão Y1 Falo bastante sobre este curso 4,66 1,59 Y7 O curso é um de meus assuntos rotineiros 3,93 1,76 Y9 Nas oportunidades que tenho, converso bastante sobre o curso 4,49 1,70 Y11 Menciono este curso para outras pessoas com grande freqüência 4,22 1,76 Y14 Eu raramente falo sobre o curso* 2,94 1,88 * Item de escore reverso Fonte: Dados da pesquisa Merecem destaque aqui os elevados desvios padrão, indicando assim uma grande dispersão entre os comportamentos dos respondentes. Os dados do Apêndice 3 confirmam esta observação. O maior de todos os desvios verificado relaciona-se com o item de escore reverso, sugerindo uma melhor atenção a esta variável nas análises posteriores. Com relação à favorabilidade das ações de boca a boca praticadas, também foram utilizadas cinco variáveis, apresentadas na forma de afirmações, e cujos resultados estão na Tabela 19. É observável aqui que as médias foram um pouco acima das médias das variáveis relacionadas à intensidade de boca a boca. Os valores das médias dão a indicação de que os estudantes optam por falar mais sobre os aspectos positivos do curso e da instituição, reforçando os pontos fortes, e sempre que a ocasião permite, recomendam o curso ou a instituição para outras pessoas Tabela 19 – Resultados para favorabilidade das ações de boca a boca Y3 Y5 Y6 Y10 Y12 Variável Média Desvio padrão Falo mais positivamente que negativamente sobre o curso 5,10 1,65 Sempre que posso, recomendo o curso para outras pessoas 4,82 1,84 Externamente, procuro falar bem do curso e da organização. 5,23 1,57 Prefiro dar sempre informações positivas sobre o curso e a organização 5,09 1,60 Tenho preferência por comentar os assuntos favoráveis sobre o curso 4,75 1,65 Fonte: Dados da pesquisa Também para estas variáveis, o nível de dispersão das respostas pode ser considerado elevado, especialmente quanto à ação de dar recomendações do curso para outras pessoas. A indicação é de que, a despeito da tendência ser no sentido de relatar aspectos mais favoráveis, os estudantes dividem-se entre os níveis de concordância possíveis. 157 Relativo às ações de reclamação, optou-se pela aferição a partir de quatro afirmações, cujos resultados estão na Tabela 20. Para todas as variáveis, as médias de concordância ficaram em nível intermediário, seguindo uma perspectiva parecida com a avaliação da intensidade de boca a boca, indicando que o grau de verbalização dos assuntos dos cursos, seja para reclamar ou simplesmente para falar sobre o curso, é intermediário. Tabela 20 – Resultados para ações de reclamação Variável Média Desvio padrão Tenho reclamado sobre os serviços associados ao curso 3,78 1,98 Eu reclamo sobre os problemas do curso sempre que vejo necessidade 4,93 1,79 Sempre que me sinto prejudicado(a) por eventuais problemas do curso, Y8 4,76 1,81 costumo reclamar Y13 NÃO sou de reclamar sobre os problemas do curso* 3,23 1,88 * Item de escore reverso Y2 Y4 Fonte: Dados da pesquisa Os resultados da Tabela 20 evidenciam, portanto, que os estudantes reclamam com intensidade intermediária, esperando que sejam identificados primeiramente problemas que os façam se sentir prejudicados. Por outro lado, os desvios padrão deixam claro que há uma forte variação nas repostas, o que pode ser também confirmado pela avaliação dos percentuais de resposta por grau possível de concordância (mostrados no Apêndice 3). 4.4.3. Variáveis associadas às predisposições comportamentais Para a análise da predisposição dos estudantes a proceder a ações de boca a boca, foram apontados cinco itens indicando a probabilidade de procedimento do comportamento, a partir das quais os estudantes apontaram o quão provável seria sua ação, de pouco provável a muito provável e uma escala de 1 a 7. As médias estão expostas na Tabela 21. Tem-se a indicação de uma elevada probabilidade de que os estudantes falem sobre o curso em situações oportunas, assim como de dar recomendações dos cursos e das instituições para outras pessoas, especialmente se estas procuram por conselho. Outras conclusões que merecem destaque são as seguintes: 1. apesar de diferentes, as médias mostraram-se muito próximas, indicando a elevada predisposição a ações de boca a boca nas várias formas de manifestação deste 158 comportamento; 2. todas as variáveis tiveram níveis de dispersão de respostas relativamente elevados, indicando, assim como ocorreu nas questões associadas às ações, que as respostas variam muito entre os respondentes (como pode ser confirmado também nos dados do Apêndice 3); 3. pela comparação de médias das Tabelas 21 e 18, observa-se que as médias para predisposição são ligeiramente superiores às médias para a intensidade de ação, e em ambas os desvios padrão foram elevados, indicando que a predisposição não conduz necessariamente à ação. Tabela 21 – Resultados para predisposição a ações de boca a boca Z1 Z3 Z5 Z6 Z8 Variável Média Desvio padrão Probabilidade de motivar outras pessoas a fazer este curso 4,73 1,79 Probabilidade de falar sobre o curso, se a ocasião permite 5,20 1,44 Probabilidade de dar recomendações deste curso e desta instituição 5,06 1,63 para outras pessoas Probabilidade de encorajar amigos ou parentes a fazer este curso 4,88 1,74 Probabilidade de recomendar o curso para alguém que procurasse por 4,99 1,68 conselho Fonte: Dados da pesquisa Por fim, quanto aos resultados para predisposição a ações de reclamação, novamente foram propostas cinco frases solicitando o nível de probabilidade de ação de cada participante. Os resultados para cada uma das variáveis estão expostos na Tabela 22, e a indicação é de que os respondentes são bastante propensos a reclamar quando percebem problemas nas atividades dos cursos, ou se entendem que as atividades do curso são ruins. Tabela 22 – Resultados para predisposição a ações de reclamação Variável Média Desvio padrão Probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso 4,32 1,80 Probabilidade de reclamar junto ao gestor ou outro responsável caso Z4 5,05 1,69 percebesse que os serviços ligados ao curso fossem ruins Probabilidade de procurar os responsáveis pelo curso para apresentar Z7 4,86 1,69 queixas sobre problemas detectados Probabilidade de fazer reclamações quando percebe problemas nas 5,04 1,55 Z9 atividades do curso Probabilidade de apresentar queixas sobre as atividades problemáticas Z10 4,96 1,57 que surgem Z2 Fonte: Dados da pesquisa Em quatro das cinco variáveis, as médias assim como os desvios padrão foram próximas. A exceção ficou por conta da variável Z2 (probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso), que apresentou a menor média, assim como o maior 159 nível de dispersão (o que se confirma nos dados constantes no Apêndice 3). Isto se explica, provavelmente, pela inibição de algumas pessoas para reclamar, o que também foi indicado nas entrevistas realizadas. Comparando os dados das Tabelas 20 e 22, observa-se que as médias para predisposição a reclamar são superiores às médias para as ações de reclamação, indicando também que, ainda que propensos a reclamar, os respondentes não necessariamente o fazem nas ocasiões problemáticas ou de insatisfação. 4.5. ANÁLISE MULTIVARIADA A análise multivariada está dividida em três diferentes momentos: primeiramente são procedidas análises exploratórias preliminares, por meio da Análise Fatorial Exploratória e da de análise confiabilidade; a segunda consiste na avaliação do modelo de mensuração dos construtos, a partir dos diversos índices de ajustamento e das averiguações de unidimensionalidade, confiabilidade e validade; por fim, são analisados os modelos estruturais propostos, e as alternativas de aprimoramento. 4.5.1. Análises multivariadas preliminares As análises multivariadas foram as seguintes: primeiramente foi feita a avaliação da confiabilidade de mensuração de cada construto, a partir do índice Alpha de Cronbach; em seguida foi realizada a Análise Fatorial Exploratória; a terceira etapa consistiu na avaliação dos modelos de mensuração, a partir da Analise Fatorial Confirmatória; por fim, foi realizada a análise dos dois modelos estruturais propostos. 4.5.1.1. Análise Fatorial Exploratória Procedeu-se a Análise Fatorial Exploratória junto às variáveis da pesquisa, como forma de avaliar preliminarmente a estrutura fatorial destas em relação aos construtos definidos, além de viabilizar uma maior consistência na análise dos modelos de mensuração. Dada a estrutura do questionário, a partir da reunião de variáveis adotada, optou-se 160 por proceder a análise em quatro momentos: primeiramente em relação às variáveis de benefício percebido; em seguida pelas variáveis de sacrifício percebido; a terceira envolvendo as variáveis de ações comportamentais; e, por fim, a quarta envolvendo as variáveis de predisposições comportamentais. Nas duas primeiras análises foram excluídas as variáveis associadas a valor percebido geral (para as variáveis deste construto não foi procedida a Análise Fatorial). Em cada uma destas etapas, os procedimentos adotados seguiram a orientação da literatura especializada (HAIR et al. 2005), incluindo as seguintes avaliações: verificação da adequação da amostra, a partir dos testes KMO e Barttlet’s; análises das comunalidades das variáveis; e análise da matriz de fatores, que foi obtida pelo método dos componentes principais, com rotação varimax. Tabela 23 – Matriz dos fatores de benefícios percebidos Variáveis Fatores¹ Qualidade Reputação Valor social (50,02%)² (8,54%)² (7,86%)² X20 Os professores têm boa ‘competência didática’ ,799 X7 Os professores têm boa competência ‘de mercado’ ,751 X11 Os professores têm boa competência ‘acadêmica’ ,723 As atividades do curso são adequadamente desenvolvidas ,711 X1 O serviço prestado no curso é muito confiável ,629 ,516 X4 ,620 X16 O currículo está alinhado com as demandas profissionais ,608 X9 O conteúdo do curso é adequado X19 Tenho orgulho de estudar neste curso ,558 X2 A instituição promotora do curso tem boa reputação ,849 O ‘nome’ da instituição promotora do curso é forte no X6 ,843 mercado X15 O curso tem uma boa imagem externa ,769 X10 O curso tem bom conceito de mercado ,715 O relacionamento com a turma que é propiciado pelo ,541 X8 curso é bastante positivo O curso traz a vantagem de viabilizar a formação de uma ,860 X14 rede de contatos profissionais A partir do curso viabilizam-se bons contatos para X12 ,770 negócios O curso é um bom lugar para interação com outros X18 ,720 profissionais O curso traz o benefício de viabilizar a troca de ,602 X3 experiências entre colegas 1 = Cargas fatoriais abaixo de 0,5 foram omitidas. 2 = Percentual da Variância Explicada. Variância Total Explicada = 66,43%. Fonte: Dados da pesquisa Para as variáveis de benefício percebido, os testes KMO e Barttlet’s indicaram uma boa adequação da amostra para o emprego da análise fatorial (KMO=0,900; Barttlet’s=1253,310; sig.=0,000). Depois de procedida a análise, a matriz de 161 comunalidades indicou a variável X13 (o trabalho de coordenação do curso é adequado) com valor abaixo de 0,5. Uma explicação possível para tal ocorrência é o fato desta ser a única variável relacionada à coordenação dos cursos, vinculada ao construto qualidade. Para a análise seguinte, optou-se pela exclusão desta variável, tendo-se alcançado uma melhoria nos dois testes (KMO=0,921; Barttlet’s=2693,284; sig.=0,000). Analisando a matriz de fatores após a rotação, observa-se que emergiram claramente três fatores, como pode ser observado na Tabela 23. A estrutura mostrou-se clara, com a variável X4 (o serviço prestado no curso é muito confiável) apresentando carga elevada em dois fatores. Foram detectadas duas variáveis associadas a construtos diferentes daqueles previamente projetados: a variável x19 (tenho orgulho de estudar neste curso), inicialmente interpretada como relacionada ao construto reputação percebida, na matriz aparece associada à qualidade; e a variável x8 (o relacionamento com a turma que é propiciado pelo curso é bastante positivo), associada inicialmente a benefício social, na matriz aparece associada à reputação. Tabela 24 – Matriz dos fatores de sacrifícios percebidos Fatores¹ Sacrifício não Sacrifício Variáveis monetário monetário (57,6%)² (12,5%)² X24 O curso demanda um esforço apropriado ,838 X31 As atividades do curso exigem um esforço adequado ,837 ,780 X29 Considero apropriado o esforço necessário para fazer este curso ,684 X23 O dinheiro gasto no curso é um bom investimento ,815 X21 O preço pago na mensalidade do curso é adequado ,776 X25 A soma do gasto em dinheiro no curso está adequada ,770 X28 Considero o gasto em dinheiro com este curso excessivo e injusto ,516 ,599 X32 Entendo que tenho um gasto adequado para realizar este curso 1 = Cargas fatoriais abaixo de 0,5 foram omitidas. 2 = Percentual da Variância Explicada. Variância Total Explicada = 70,11%. Fonte: Dados da pesquisa Já para as variáveis associadas aos sacrifícios percebidos, os testes os testes KMO e Barttlet’s indicaram uma boa adequação da amostra para o emprego da análise fatorial (KMO=0,900; Barttlet’s=1253,310; sig.=0,000). Por outro lado, a matriz de comunalidades indicou que as variáveis X22 (o curso tem uma demanda de tempo apropriada) e X27 (apesar do cansaço e do stress, não é difícil fazer este curso) 162 apresentaram valores abaixo de 0,5. Optou-se por excluir estas duas variáveis, e pelo reprocessamento novamente a dos dados. adequação da Após amostra este para procedimento, a análise identificou-se (KMO=0,880; Barttlet’s=1090,719; sig.=0,000). Analisando a matriz, exposta na Tabela 24, observa-se que emergem claramente dois fatores, mas não ficam muito claras as associações das variáveis com os construtos: primeiramente, verifica-se que a variável X32 (entendo que tenho um gasto adequado para realizar este curso) apresentou cargas significativamente elevadas nos dois fatores; já a variável x21 (o dinheiro gasto no curso é um bom investimento) apareceu junto às variáveis de sacrifício não monetário, apesar de ser evidentemente enunciada como associada ao preço. Tabela 25 – Matriz dos fatores de ações comportamentais Variáveis Fatores¹ Favorabilidade Intensidade Reclamação de BAB de BAB (8,6%)² (44,7%)² (15%)² Externamente, procuro falar bem do curso e da ,890 organização. Falo mais positivamente que negativamente sobre o Y3 ,852 curso Prefiro dar sempre informações positivas sobre o Y10 ,843 curso e a organização Sempre que posso, recomendo o curso para outras ,789 Y5 pessoas Tenho preferência por comentar os assuntos Y12 ,644 favoráveis sobre o curso Y14 Eu raramente falo sobre o curso Nas oportunidades que tenho, converso bastante Y9 sobre o curso Y7 O curso é um de meus assuntos rotineiros Menciono este curso para outras pessoas com grande ,596 Y11 freqüência Y1 Falo bastante sobre este curso Sempre que me sinto prejudicado(a) por eventuais Y8 problemas do curso, costumo reclamar Eu reclamo sobre os problemas do curso sempre que Y4 vejo necessidade Y13 NÃO sou de reclamar sobre os problemas do curso 1 = Cargas fatoriais abaixo de 0,5 foram omitidas. 2 = Percentual da Variância Explicada. Variância Total Explicada = 68,3%. Y6 ,804 ,671 ,660 ,624 ,607 ,827 ,825 ,655 Fonte: Dados da pesquisa Para a avaliação das variáveis associadas às ações comportamentais, os testes KMO e Barttlet’s também indicaram uma boa adequação da amostra para o emprego da análise fatorial (KMO=0,889; Barttlet’s=1853,777; sig.=0,000). Já a análise de 163 comunalidades indicou que as variáveis Y2 (tenho reclamado sobre os serviços associados ao curso) e Y13 (não sou de reclamar sobre os problemas do curso) apresentaram valores menores que 0,5. Foi excluída a variável Y2, e reprocessada a análise, tendo-se novamente encontrado uma boa adequação da amostra (KMO=0,892; Barttlet’s=1764,472; sig.=0,000), além de não se verificar mais quaisquer problemas com as comunalidades. A matriz gerada após a rotação, observa-se que emergem claramente três fatores, como mostra a Tabela 25. Verifica-se que a variável Y11 (menciono este curso para outras pessoas com grande freqüência) apresentou escore sensivelmente elevado nos dois fatores associados à boca a boca, podendo assim ser analisada em qualquer dos dois construtos. Verifica-se ainda que, além desta, nenhuma das variáveis se associou a um construto que não aquele inicialmente imaginado. Tabela 26 – Matriz dos fatores de predisposições comportamentais Fatores¹ Predisposição Predispo. a reclamação a BAB (46,3%)² (30,3%)² Variáveis Probabilidade de fazer reclamações quando percebe problemas nas atividades do curso Probabilidade de apresentar queixas sobre as atividades Z10 problemáticas que surgem Probabilidade de procurar os responsáveis pelo curso para Z7 apresentar queixas sobre problemas detectados Probabilidade de reclamar junto ao gestor ou outro responsável caso Z4 percebesse que os serviços ligados ao curso fossem ruins Z2 Probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso Z6 Probabilidade de encorajar amigos ou parentes a fazer este curso Z1 Probabilidade de motivar outras pessoas a fazer este curso Probabilidade de recomendar o curso para alguém que procurasse Z8 por conselho Probabilidade de dar recomendações deste curso e desta instituição Z5 para outras pessoas 1 = Cargas fatoriais abaixo de 0,5 foram omitidas. 2 = Percentual da Variância Explicada. Variância Total Explicada = 77,6%. Z9 ,890 ,888 ,860 ,800 ,684 ,936 ,914 ,897 ,883 Fonte: Dados da pesquisa Por fim, na avaliação das variáveis associadas às predisposições comportamentais, novamente os testes KMO e Barttlet’s indicaram uma boa adequação da amostra para o emprego da análise fatorial (KMO=0,860; Barttlet’s=1803,222; sig.=0,000). Na análise das comunalidades, verificou-se inicialmente que a variável Z3 (probabilidade de falar sobre o curso, se a ocasião permite) apresentou valor abaixo de 0,5, sendo por esta razão excluída. Os dados foram assim submetidos a um novo 164 processamento, indicando, inicialmente, que os testes de adequação da amostra permaneceram favoráveis (KMO=0,850; Barttlet’s=1670,945; sig.=0,000), e, adicionalmente, que os valores das comunalidades mostraram-se adequados para todas as variáveis. A matriz dos dados após a rotação evidencia claramente dois fatores, conforme pode ser observado na Tabela 26. Diferente das demais matrizes de dados, não se verificou para as variáveis de predisposições comportamentais qualquer variável com elevada carga fatorial em mais de um fator. Também se verifica que a reunião de variáveis em cada um dos dois fatores se ajusta aos dois construtos inicialmente propostos. Algumas conclusões podem ser retiradas a partir das análises realizadas: primeiramente, verificou-se uma tendência à confirmação da filiação das variáveis aos construtos conforme previamente estabelecido; os casos em que as variáveis se ajustaram em outro construto diferente daqueles inicialmente estabelecido puderam ser justificados a partir do sentido e do enunciado da questão ao respondente, com exceção da variável X23 (ver Tabela 24); adicionalmente, verificou-se que em vários construtos foram excluídas variáveis, porém em nenhum destes o número de variáveis restantes ficou menor que três, número recomendado como o mínimo adequado para as análises de ajustamento subseqüentes; por fim, verificou-se que algumas das variáveis apresentaram elevadas cargas em mais de um fator, indicando a possibilidade de utilização destas em um ou outro construto. 4.5.1.2. Confiabilidade da mensuração dos construtos Na análise de confiabilidade das escalas de mensuração dos construtos foi utilizado o índice Alpha de Cronbach, recorrentemente utilizado como primeira medida de avaliação da qualidade de um construto. O índice varia de zero a um, e a literatura especializada aponta que: valores até 0,6 indicam inconsistência na escala, valores entre 0,6 e 0,8 indicam confiabilidade razoável, e valores acima de 0,8 indicam confiabilidade muito alta (MALHOTRA, 1999). 165 A extração foi feita por construto, que foram reunidos em três blocos: construtos associados a valor percebido, ações comportamentais e predisposições comportamentais. Como se trata de um procedimento exploratório, foi extraído o Alpha por construto de acordo com a vinculação inicial das variáveis. Os resultados para os construtos associados a valor percebido estão indicados no Apêndice 4, e comentados a seguir: Para a qualidade percebida, o Alpha ficou em 0,8940, indicando assim elevada fidedignidade. A exclusão de qualquer dos itens provocaria uma pequena redução no índice; Para reputação percebida, o Alpha ficou em 0,8906, também indicando aqui elevada fidedignidade. Também a exclusão de qualquer dos itens não provocaria qualquer melhoria no índice; Para benefício social percebido o valor do Alpha foi 0,8516, ligeiramente menor que os dois acima, mas também muito elevado. Novamente, a exclusão de qualquer dos itens não traria qualquer melhoria do índice; Já para o sacrifício monetário, o Alpha foi de 0,8495, bastante elevado, mas com uma possível melhora a partir da exclusão do X28 (considero o gasto em dinheiro com este curso excessivo e injusto), justamente a que teve sua análise com escore reverso (para 0,8694); Para o sacrifício não monetário, o Alpha foi de 0,7772, sensivelmente menor que os demais construtos. Somente a partir da exclusão da variável X27 (apesar do cansaço e do stress, não é difícil fazer este curso) haveria uma pequena melhoria no índice (para 0,7934); Por fim, a medida do Alpha para a percepção de valor geral foi de 0,8841, também bastante elevado. A exclusão dos itens de qualquer dos itens não melhorariam o índice. De modo geral, as medidas de confiabilidade dos seis construtos associados a valor percebidos foram satisfatórias. Já para os construtos associados às ações de boca a boca e reclamação, teve-se o seguinte (os detalhes estão expostos no Apêndice 4): Para a intensidade das ações de boca a boca, o Alpha foi de 0,8315, bastante elevado, mas com uma possível elevação a partir da exclusão da variável Y14 (eu raramente falo sobre este curso – para 0,8566), justamente o item de escore reverso; 166 Para a favorabilidade das ações de boca a boca, o Alpha foi de 0,9059, muito elevado, mas ainda com uma possível melhoria a partir da exclusão da variável Y12 (tenho preferência por comentar os assuntos favoráveis sobre o curso – para 0,9068); Já para o construto ação de reclamação, o valor do Alpha foi de 0,6466, um valor que pode ser considerado adequado, apesar de baixo em relação aos demais construtos. Uma pequena melhoria ocorreria com a exclusão da variável Y2 (tenho reclamado sobre os serviços associados ao curso – para 0,6780). Dada a discrepância do Alpha do construto reclamação em relação aos demais, maior atenção deverá ser dada a este nas etapas seguintes da análise. Por fim, para os construtos associados às predisposições comportamentais, os resultados, que podem ser observados no Apêndice 4, foram os seguintes: Para a predisposição a ações de boca a boca, o Alpha foi de 0,9151, e pode ser considerado muito elevado. Uma possível melhoria poderia ocorrer a partir da exclusão da variável Z3 (probabilidade de falar sobre o curso, se a ocasião permite – para 0,9341); Por fim, para a predisposição a ações de reclamação, o Alpha foi de 0,8821, também muito elevado. Uma possível melhoria ocorreria a partir da exclusão da variável Z2 (probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso – para 0,9072). Como comentado, a análise dos valores do Alpha de Cronbach não são suficientes para garantir a qualidade da medição de um construto, mas asseguram condições para o prosseguimento da análise em torno dos construtos avaliados. Complementase, assim, a Análise Fatorial Exploratória enquanto análise exploratória preliminar para submissão dos dados à Análise Fatorial Confirmatória, desenvolvida no item seguinte. 4.5.2. Análise da mensuração dos construtos Para a análise do modelo de mensuração dos construtos, a literatura especializada indica a necessidade da análise das medidas de ajuste, da unidimensionalidade, confiabilidade, e as validades convergente e discriminante. As análises a seguir são 167 feitas inicialmente para cada construto em separado, com ênfase inicial nos indicadores extraídos a partir do processamento dos dados no software AMOS, versão 4. 4.5.2.1. Construtos associados aos benefícios percebidos Para a qualidade percebida, verificou-se inicialmente o conjunto de indicadores definidos na coleta de dados (X1, X4, X7, X9, X11, X13, X16 E X20). A avaliação indicou que, para a melhoria das medidas de ajustamento, seria necessária a exclusão de três das oito variáveis (variáveis X1, X9 e X13). Os índices do modelo estão expostos na Tabela 27, a partir da qual é possível verificar uma boa adequação para todas as medidas de ajustamento definidas. Tabela 27 – Medidas de ajustamento de qualidade percebida Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,877 0,590 10,903 5 2,181 0,053 0,983 0,949 0,980 0,990 0,069 Fonte: Dados da pesquisa O valor do índice CFI (0,99), bem superior ao valor mínimo recomendado (0,90) assegura a unidimensionalidade do construto. A avaliação das medidas de confiabilidade composta (0,877) e de variância extraída (0,59) asseguram a confiabilidade do construto, e os valores dos escores de cada indicador, juntamente com os CRs asseguram a validade convergente (cf. Tabela 28). Tabela 28 – Escores de qualidade e respectivos CRs. Variáveis Escore CR¹ ² X16 0,649 X4 0,694 9,360 10,865 X11 0,845 X7 0,825 10,689 X20 0,808 10,538 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa 168 Na avaliação do construto reputação percebida, a primeira tentativa de averiguação com as cinco variáveis preliminarmente definidas (X2, X6, X10, X15, X19) apontou problemas de ajuste. A avaliação da Análise Fatorial Exploratória realizada indicou a possibilidade de exclusão da variável X19, que ficou reunida às variáveis do construto qualidade percebida. Após a exclusão da variável, os índices apresentaram-se ainda baixos, porém o AMOS indicou uma melhoria a partir do estabelecimento de uma covariância entre os erros de mensuração das variáveis X10 e X15, procedimento realizado a partir da análise dos sentidos destas variáveis. Os resultados estão expostos na Tabela 29. Tabela 29 – Medidas de ajustamento de reputação percebida Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,881 0,651 2,007 1 2,007 0,157 0,996 0,960 0,990 0,998 0,064 Fonte: Dados da pesquisa Conforme é possível verificar, todas as medidas estão dentro de valores adequadas, o que assegura um bom ajuste dos indicadores em relação ao construto. A unidimensionalidade está assegurada pelo valor do índice CFI (0,998), e a confiabilidade também está garantida pelas medidas de confiabilidade composta (0,881) e de variância extraída (0,651). Por fim, a avaliação dos dados da Tabela 30, na qual se observam todos os valores de CR acima de 1,96, assegura a validade convergente dos indicadores do construto. Tabela 30 – Escores de reputação e respectivos CRs Variáveis Escore CR¹ ² X10 0,696 X6 0,829 11,550 X2 0,895 11,875 X15 0,795 14,607 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa Em relação à verificação dos indicadores do construto benefício percebido, na 169 primeira avaliação dos índices de ajustamento (com as variáveis X3, X8, X12, X14, X15), surgiram problemas em relação aos valores de qui-quadrado e RMSEA. A avaliação das sugestões do AMOS apontou a possibilidade de estabelecimento de uma covariância entre os erros de mensuração das variáveis X12 e X14. A análise do sentido de cada uma destas assegurou a possibilidade de tal ação. Os resultados dos índices encontram-se na Tabela 31. Tabela 31 – Medidas de ajustamento de benefício social percebido Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,845 0,525 1,894 4 0,474 0,755 0,997 0,989 1,011 1,000 0,000 Fonte: Dados da pesquisa Como pode ser observado, todos os índices apresentaram-se satisfatórios, indicando assim um bom ajustamento dos indicadores para a medição do construto82. A unidimensionalidade está assegurada a partir do valor do índice CFI (1,000), e a confiabilidade foi atestada a partir dos valores de confiabilidade composta (0,845) e variância extraída (0,525). Os valores dos escores fatoriais de cada variável, apontados na Tabela 32, juntamente com os respectivos valores de CR (todos acima de 1,96), asseguram a validade convergente dos indicadores do construto. Tabela 32 – Escores de beneficio social e respectivos CRs Variáveis Escore CR¹ ² X12 0,628 X3 0,744 8,962 X14 0,763 11,144 X18 0,822 9,390 X8 0,647 8,142 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa 82 Merece destaque o valor do índice TLI, que ficou acima do valor limite de 1. Tal ocorrência se deu porque o valor do qui-quadrado foi menor que o número de graus de liberdade. Este índice requisita cuidados se os valores forem substancialmente acima de 1 (BRASIL, 2005), o que não é o caso aqui. Seguindo a recomendação de Brasil (2005), as variáveis e a literatura foram devidamente analisadas, assegurando que não há qualquer impropriedade no nível de perfeição do ajuste. 170 4.5.2.2. Construtos associados aos sacrifícios percebidos Para a avaliação do construto sacrifício monetário percebido, o modelo foi avaliado com as cinco variáveis inicialmente propostas (X21, X23, X25, X28, X32). Os resultados extraídos, expostos na Tabela 33, foram todos bastante satisfatórios, indicando um ajuste muito bom das variáveis no construto, sem a necessidade de exclusão de variáveis, ou estabelecimento de covariâncias. Tabela 33 – Medidas de ajustamento de sacrifício monetário percebido Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,862 0,565 5,075 5 1,015 0,407 0,992 0,976 1,000 1,000 0,008 Fonte: Dados da pesquisa Na análise da unidimensionalidade, observa-se que esta fica assegurada, uma vez que o índice CFI (1,000) está acima do valor mínimo recomendado. Já a confiabilidade do construto está assegurada pelos valores da confiabilidade composta (0,862), e da variância extraída (0,565), ambos acima do valor mínimo recomendado. Por fim, a validade convergente pode ser verificada a partir dos valores de CR constantes na Tabela 34, todos acima do valor mínimo aceitável. Tabela 34 – Escores de sacri. monetário e respectivos CRs Variáveis Escore CR¹ ² X32 0,709 X25 0,934 13,393 10,297 X23 0,687 12,541 X21 0,841 X28 0,521 7,832 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa Para a avaliação do sacrifício não monetário, também aqui foi procedida a análise com as cinco variáveis inicialmente propostas para mensurar o construto (X22, X24, 171 X27, X29, x31). Os valores mostraram-se ruins, conduzindo à necessidade de exclusão da uma variável X27, que já havia sinalizado problemas na Análise Fatorial Exploratória realizada. Os resultados dos índices a partir da exclusão desta variável mostraram-se todos bastante satisfatórios, indicando um adequado ajustamento dos indicadores com o construto, conforme pode ser verificado na Tabela 35. Tabela 35 – Medidas de ajustamento de sacri. não monetário percebido Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,810 0,525 4,579 2 2,290 0,101 0,991 0,956 0,977 0,992 0,072 Fonte: Dados da pesquisa A unidimensionalidade do construto pode ser atestada pelo elevado valor do índice CFI (0,992), assim como a confiabilidade do construto está assegurada pelos valores da confiabilidade composta (0,810) e da variância extraída (0,525), ambos acima dos valores mínimos recomendados. Os resultados dos escores e dos respectivos CRs, expostos na Tabela 36, apontam também a validade convergente. Tabela 36 – Escores de sacri. não monetário e respectivos CRs Variáveis Escore CR X24 0,814 X22 0,489 7,290 X29 0,731 11,165 X31 0,814 11,993 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa 4.5.2.3. Construto valor percebido geral Por fim, em relação aos construtos associados a valor percebido, a decisão de análise adotada prevê que este construto seja avaliado primeiramente como um construto unidimensional, mensurado a partir das quatro variáveis observáveis coletadas (X5, X17, X26, X30), e em seguida como um construto reflexivo de segunda ordem, resultado das cinco variáveis latentes (os cinco construtos já avaliados). 172 Para a primeira alternativa de análise, os valores das medidas de ajustamento, constantes na Tabela 37, indicam resultados bastante satisfatórios, não tendo havido qualquer necessidade de exclusão de variáveis, ou de estabelecimento de covariâncias. Tabela 37 – Medidas de ajustamento de valor percebido geral (pelas variáveis observáveis) Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,905 0,705 3,374 2 1,687 0,185 0,993 0,966 0,992 0,997 0,053 Fonte: Dados da pesquisa A partir do valor do índice CFI (0,997) é possível assegurar a unidimensionalidade do construto, e, a partir dos valores de confiabilidade composta (0,905) e de variância extraída (0,705), está também assegurada a confiabilidade do construto. Com base nos dados da Tabela 38, se observam todos os valores de CR acima do mínimo recomendado de 1,96, também está assegurada a validade convergente. Tabela 38 – Escores de valor percebido geral e respectivos CRs (pelas variáveis observáveis) Variáveis Escore CR¹ ² X30 0,890 X17 0,890 14,703 X5 0,735 11,962 0,834 13,862 X26 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa Já com relação à segunda forma de mensuração do construto, as cinco variáveis latentes foram utilizadas como variáveis reflexivas do construto valor. Para cada uma delas, os escores de cada entrada foram agrupados pelas médias dos valores das variáveis componentes. A partir da computação dos escores em cada uma das variáveis latentes, foram extraídas as medidas de ajustamento. A primeira tentativa apresentou problemas, associados aos índices AGFI, TLI e RMSEA. Os índices de 173 modificação apresentados no AMOS apontaram como alternativa o estabelecimento de uma covariância entre os erros de mensuração das duas variáveis de sacrifício, procedimento este entendido como possível. Os resultados, que estão expostos na Tabela 39, indicam um nível de ajustamento consistente para todas as medidas utilizadas. Tabela 39 – Medidas de ajustamento de valor percebido geral (pelas variáveis latentes) Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,873 0,580 7,425 4 1,856 0,115 0,989 0,957 0,987 0,995 0,059 Fonte: Dados da pesquisa Os dados das Tabelas 39 e 40 também indicam que o construto possui unidimensionalidade, o que se confirma pelo elevado valor do índice CFI (0,995), confiabilidade, que pode ser atestada pelos valores de confiabilidade composta (0,873) e variância extraída (0,580), e validade convergente, que pode ser verificada pelos valores de CR acima de 1,96. Tabela 40 – Escores de valor percebido geral e respectivos CRs (pelas variáveis latentes) Variáveis Escore CR¹ ² Sacrifício não monetário 0,758 Sacrifício monetário 0,676 13,498 12,039 Benefício social 0,792 Reputação 0,739 11,238 Qualidade 0,834 12,574 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa Como forma de sintetizar todos os resultados acima em uma única tabela, todos os resultados para o seis construtos associados à percepção de valor dos respondentes, decidiu-se consolidar esses resultados na Tabela 41, permitindo-se a observação e a comparação de medidas os índices de ajustamento de todos os seis construtos. 174 Tabela 41 – Resumo das medidas dos construtos de valor percebido Medida Quali. Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA 0,877 0,590 10,903 5 2,181 0,053 0,983 0,949 0,980 0,990 0,069 Construtos relacionados a valor percebido Ben. Sacr. Sac. n. Valor var. Valor var. Repu. Soc. mon mon. observ. latente 0,881 0,845 0,862 0,810 0,905 0,873 0,651 0,525 0,565 0,525 0,705 0,580 2,007 1,894 5,075 4,579 3,374 7,425 1 4 5 2 2 4 2,007 0,474 1,015 2,290 1,687 1,856 0,157 0,755 0,407 0,101 0,185 0,115 0,993 0,989 0,996 0,997 0,992 0,991 0,960 0,989 0,976 0,956 0,966 0,957 0,990 1,011 1,000 0,977 0,992 0,987 0,998 1,000 1,000 0,992 0,997 0,995 0,064 0,000 0,008 0,072 0,053 0,059 Fonte: Dados da pesquisa Tabela 42 – Medidas dos construtos de valor percebido e respectivos CRs Variáveis Qualidade Construtos relacionados a valor percebido Sacrif. Sacr. não Reputação Ben. social monetário monetário X16 0,649 / X4 0,69 / 9,36 X11 0,84 / 10,86 X7 0,82 / 10,68 X20 0,80 / 10,53 X10 0,69 / X6 0,82 / 11,50 X2 0,89 / 11,87 X15 0,79 / 14,60 X12 0,62 / X3 0,74 / 8,96 X14 0,76 / 11,14 X18 0,82 / 9,39 X8 0,64 / 8,14 X32 X25 X23 X21 X28 X24 X22 X29 X31 X30 X17 X5 X26 Sac. não mon. Sac. mon Bem. Soc. Reput. Qual. Nota: escore / valor de CR (significantes a p<0.01) Valor geral 0,71 / 0,93 / 13,39 0,68 / 10,29 0,84 / 12,54 0,52 / 7,83 0,81 / 0,48 / 7,29 0,73 / 11,16 0,81 / 11,99 0,89 / 0,89 / 14,70 0,73 / 11,96 0,83 / 13,86 0,75 / 0,67 / 13,49 0,79 / 12,03 0,73 / 11,23 0,83 / 12,57 Fonte: Dados da pesquisa A partir de todas as avaliações individualmente realizadas, pode-se concluir que, 175 para os construtos relacionados a valor percebido, os resultados dos dados coletados indicaram que as variáveis selecionadas apresentaram um bom ajustamento de medida, em todos os índices, tendo sido necessário somente algumas exclusões de variáveis, além do estabelecimento de algumas covariâncias entre erros de mensuração de variáveis (em dois construtos), o que foi feito avaliação do levantamento bibliográfico realizado, e com as práticas de Modelagem de Equações Estruturais em pesquisas semelhantes a esta tese. Também com relação às cargas fatoriais, e seus respectivos critical ratios (CR), decidiu-se consolidar todos os valores em um só demonstrativo, como pode ser verificado na Tabela 42, que contém para cada construto avaliado suas respectivas variáveis, juntamente com os seus escores fatoriais e valores de CR. Além do bom ajuste das variáveis em seus respectivos construtos, as análises de unidimensionalidade, confiabilidade, e validade convergente foram satisfatórias em cada um dos seis construtos até aqui verificados. Com relação à análise da validade discriminante, optou-se por sua verificação somente após a análise dos construtos associados aos comportamentos de reclamação e boca a boca. 4.5.2.4. Construtos associados às ações comportamentais Optou-se por analisar primeiramente os dois construtos relacionados ao comportamento de boca a boca. Assim, para o construto intensidade de boca a boca, foram analisadas as cinco variáveis inicialmente propostas (Y1, Y7, Y9, Y11, Y14). Os resultados para as medidas de ajustamento, que podem ser vistos na Tabela 43, evidenciaram uma boa adequação das variáveis ao construto, não tendo sido necessário qualquer procedimento para melhorar os índices. A unidimensionalidade do construto pode ser atestada pelo elevado valor do índice CFI (0,994), e a confiabilidade verifica-se a partir das medidas da confiabilidade de construto (0,842), e da variância extraída (0,525). Já a validade convergente é assegurada pelos elevados valores de critical ratio associados aos escores fatoriais de cada uma das variáveis, conforme pode ser atestado na Tabela 44. 176 Tabela 43 – Medidas de ajustamento de intensidade de BAB Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,842 0,525 7,973 5 1,595 0,158 0,987 0,960 0,988 0,994 0,049 Fonte: Dados da pesquisa Tabela 44 – Escores de intensidade de BAB e respectivos CRs Variáveis Escore CR¹ ² Y7 0,775 Y14 0,456 6,848 0,829 12,895 Y9 Y11 0,808 12,621 Y1 0,689 10,656 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01 Fonte: Dados da pesquisa Já com relação ao construto favorabilidade de boca a boca, a primeira extração de índices de ajustamento com a utilização das cinco variáveis iniciais (Y3, Y5, Y6, Y10, Y12) apontou problemas. Assim, avaliando as indicações dos resultados da Análise Fatorial Exploratória realizada, optou-se pela exclusão da variável Y5. Os resultados, expostos na Tabela 45, evidenciam uma boa adequação das variáveis ao construto, com as medidas condizentes com as recomendações de medição pesquisadas. Tabela 45 – Medidas de ajustamento de favorabilidade de BAB Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Valor 0,887 0,666 5,003 2 2,501 Probabilidade 0,082 GFI AGFI TLI CFI RMSEA 0,990 0,952 0,984 0,995 0,078 Fonte: Dados da pesquisa Os dados da Tabela 45 também indicam a unidimensionalidade do construto, uma 177 vez que o valor do índice CFI (0,995) ficou acima do valor mínimo recomendado (0,90), e indicam ainda a confiabilidade, que pode ser atestada pelos valores das medidas da confiabilidade de construto (0,887), e da variância extraída (0,666). Já os dados constantes na Tabela 46 apontam que todos os escores fatoriais apresentaram valores de CR superiores aos valores mínimos sugeridos na literatura especializada (1,96), assegurando assim a validade convergente. Tabela 46 – Escores de favorabilidade de BAB e respectivos CRs Variáveis Escore CR¹ ² Y12 0,669 Y3 0,921 12,255 Y6 0,781 10,894 Y10 0,871 11,883 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa Por fim, procedeu-se à avaliação das quatro variáveis do construto reclamação (Y2, Y4, Y8, Y13). Os resultados da primeira análise apontaram algumas peculiaridades, comparativamente aos demais construtos avaliados. Conforme pode ser observado na Tabela 47, as medidas associadas ao qui-quadrado e a todos os índices de ajustamento indicaram uma boa adequação das variáveis. Por outro lado, as medidas de confiabilidade composta (0,672) e variância extraída (0,363) ficaram abaixo dos valores mínimos sugeridos (0,7 e 0,5, respectivamente). Tabela 47 – Medidas de ajustamento de reclamação Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,672 0,363 3,992 2 1,996 0,136 0,992 0,962 0,961 0,987 0,064 Fonte: Dados da pesquisa Alguns procedimentos foram adotados: primeiramente, analisando os resultados da confiabilidade extraída a partir do Alpha de Cronbach, e da Análise Fatorial Exploratória desenvolvida, optou-se pela exclusão da variável Y2, restando assim somente três variáveis para medição do construto; por outro lado, tal procedimento 178 inviabiliza a extração dos índices de ajustamento sem que sejam fixados valores de variância seja para a variável latente (SANTOS, 2004), seja para algum dos erros de mensuração das variáveis observáveis (BRASIL, 2005). Para qualquer dos procedimentos realizados, continuou-se com problemas nas medidas de confiabilidade e variância extraída. Decidiu-se assim manter o construto com as quatro variáveis para submeter ao modelo integrado no qual este se associa, e avaliar o modelo com ou sem este construto, ação válida a partir da estratégia de desenvolvimento de modelos estruturais (ver item 3.4.3). Tabela 48 – Escores de reclamação e respectivos CRs Variáveis Escore CR¹ ² Y4 0,799 Y8 0,711 6,601 Y13 0,449 5,561 Y2 0,326 4,243 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa A despeito da dificuldade na especificação do construto, podem-se avaliar as características da Análise Fatorial Confirmatória, a partir das condições estabelecidas. Assim, pode-se verificar a unidimensionalidade, uma vez que o valor do índice CFI (0,987) foi superior ao valor mínimo sugerido na literatura. A confiabilidade não foi alcançada, porém a validade convergente se verifica a partir dos dados da Tabela 48, em que os valores de CR ficaram acima dos valores mínimos sugeridos. 4.5.2.5. Construtos associados às predisposições comportamentais Com relação ao construto predisposição à boca a boca, a primeira avaliação, com as cinco variáveis iniciais (Z1, Z3, Z5, Z6, Z8), apontou dificuldade de ajustamento. A avaliação das medidas de ajustamento e dos resultados das análises exploratórias (ver item 4.5.1) indicou a necessidade de exclusão da variável Z3. Os resultados após estes procedimentos estão expostos na Tabela 49, a partir dos quais se observa que todas as medidas de ajustamento ficaram adequadas. 179 Tabela 49 – Medidas de ajustamento de predisposição a BAB Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,934 0,781 4,148 2 2,074 0,126 0,991 0,957 0,992 0,997 0,066 Fonte: Dados da pesquisa Ainda pelos resultados da Tabela 49, é possível verificar a unidimensionalidade, que foi assegurada pelo valor do CFI (0,997), além da confiabilidade, que foi atestada pelo fato dos valores da confiabilidade composta (0,934) e variância extraída (0,781) estarem bastante acima dos valores mínimos recomendados na literatura. Os dados da Tabela 50 asseguram a validade convergente, uma vez que se apresentam todos os valores de critical ratio dos escores de cada uma das variáveis acima dos valores mínimos exigidos na literatura. Tabela 50 – Escores de predisposição a BAB e respectivos CRs Variáveis Escore CR Z6 0,945 Z1 0,893 23,598 Z8 0,850 20,702 Z5 0,844 20,393 ¹ Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,01. Fonte: Dados da pesquisa Por fim, na averiguação do construto predisposição à reclamação, a análise com as cinco variáveis iniciais (Z2, Z4, Z7, Z9, Z10) indicou a adequação de todas as medidas de ajustamento, sem a necessidade de qualquer procedimento de exclusão de variáveis ou estabelecimento de covariâncias. Os resultados podem ser conferidos na Tabela 51. Os dados da Tabela 51 mostram ainda que unidimensionalidade do construto ficou assegurada a partir do valor do índice CFI (0,993), assim como a confiabilidade ficou assegurada pelos valores de confiabilidade composta (0,892) e variância extraída (0,631). Já a validade convergente ficou assegurada pelos elevados valores de 180 critical ratio dos escores de cada uma das variáveis observáveis, como pode ser atestado na Tabela 52. Tabela 51 – Medidas de ajustamento de predisposição a reclamação Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de Liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Valor 0,892 0,631 10,223 5 2,045 0,069 0,983 0,950 0,986 0,993 0,065 Fonte: Dados da pesquisa Tabela 52 – Escores de predisposição a reclamação e respectivos CRs Variáveis Escore CR Z10 0,898 Z9 0,919 21,464 Z7 0,834 17,847 0,728 14,052 Z4 0,526 8,925 Z2 ¹Os valores não exibidos referem-se aos parâmetros fixados em 1. ² Valores acima significativos ao nível p<0,05. Fonte: Dados da pesquisa Assim como foi feito com os construtos de valor percebido, considerou-se também relevante a consolidação de todas as informações dos cinco construtos associados aos comportamentos de boca a boca e reclamação aqui estudados. Assim, a Tabela 53 apresenta estes resultados das medidas de ajustamento, reunindo tanto os três construtos associados a ações comportamentais quanto os dois relacionados a predisposições comportamentais, ao passo que a Tabela 54 apresenta os dados dos escores fatoriais e os respectivos valores de critical ratio. Como é possível observar, somente o construto reclamação apresentou problemas nas medições extraídas, especificamente nas medidas de confiabilidade do construto. A despeito desta dificuldade, os cinco construtos avaliados apresentaram valores de escores relativamente elevados, o que é desejável, e todos apresentaram valores de CR que asseguram validade convergente. Para finalizar a análise do modelo de mensuração, resta somente a avaliação da análise da validade discriminante, o que é feito no item seguinte. 181 Tabela 53 – Resumo das medidas dos construtos de boca a boca e reclamação Predisposições comportamentais Intensidade Favorabilidade Predisposição Predisposição Reclamação de BAB de BAB a BAB a reclamação 0,842 0,887 0,672 0,934 0,892 Ações comportamentais Medida Confiabilidade composta Variância extraída Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA 0,525 7,973 5 0,666 5,003 2 0,363 3,992 2 0,781 4,148 2 0,631 10,223 5 1,595 0,158 0,987 0,960 0,988 0,994 0,049 2,501 0,082 0,990 0,952 0,984 0,995 0,078 1,996 0,136 0,992 0,962 0,961 0,987 0,064 2,074 0,126 0,991 0,957 0,992 0,997 0,066 2,045 0,069 0,983 0,950 0,986 0,993 0,065 Fonte: Dados da pesquisa Tabela 54 – Medidas dos construtos de boca a boca e reclamação e CRs Ações comportamentais Variáveis Intensidade de BAB 0,77 / 0,45 / 6,84 0,82 / 12,89 0,80 / 12,62 0,68 / 10,65 Favorabilidad e de BAB Y7 Y14 Y9 Y11 Y1 Y12 0,67 / Y3 0,92 / 12,25 Y6 0,78 / 10,89 Y10 0,87 / 11,88 Y4 Y8 Y13 Y2 Z6 Z1 Z8 Z5 Z10 Z9 Z7 Z4 Z2 Nota: escore / valor de CR (significantes a p<0.01) Reclamação Predisposições comportamentais Predisposição Predisposição a BAB a reclamação 0,79 / 0,71 / 6,60 0,44 / 5,56 0,32 / 4,24 0,94 / 0,89 / 23,59 0,85 / 20,70 0,84 / 20,39 0,89 / 0,91 / 21,46 0,83 / 17,84 0,72 / 14,05 0,52 / 8,92 Fonte: Dados da pesquisa 4.5.2.6. Análise de validade discriminante Com a validade discriminante é possível assegurar que os construtos envolvidos nos modelos estruturais são diferentes entre si, o que ocorre a partir da verificação de 182 quanto a medida de um construto não se correlaciona com outros construtos dos quais deve diferir. Recomendações de autores diversos indicam a comparação da variância extraída de cada construto com as variâncias compartilhadas entre os construtos (o quadrado do coeficiente de correlação) como uma alternativa consistente para aferir validade discriminante (FORNELL; LARCKER, 1981; GARVER; MENTZER, 1999). Este procedimento foi adotado nesta tese, e os dados encontram-se na Tabela 55. Tabela 55 – Variância extraída e compartilhada entre construtos Qual. Qual. Rep. Ben. soc. Sac. mon. Sac n mon Inten. bab Fav. bab Rec Prop.bab Prop. rec Valor_vo Valor_vl 0,59 0,40 0,41 0,35 0,40 0,12 0,34 0,01 0,32 0,00 0,53 0,72 Rep. 0,65 0,36 0,20 0,29 0,07 0,22 0,00 0,18 0,01 0,25 0,63 Ben. soc. 0,52 0,29 0,38 0,10 0,22 0,03 0,20 0,03 0,32 0,68 Sac. mon. 0,57 0,51 0,15 0,28 0,01 0,25 0,01 0,52 0,63 Sac n Inten. Fav. bab mon bab 0,53 0,15 0,28 0,01 0,33 0,03 0,52 0,72 0,53 0,39 0,02 0,38 0,05 0,20 0,17 0,66 0,01 0,69 0,01 0,47 0,40 Rec. 0,36 0,00 0,39 0,01 0,01 Prop. bab Prop. rec 0,78 0,04 0,48 0,37 0,43 0,01 0,02 Valor _vo 0,71 0,61 Valor _vl 0,58 Fonte: Dados da pesquisa Conforme é possível verificar na Tabela, nos construtos associados a benefício e sacrifício, a variância extraída foi sempre menor que a variância compartilhada com o construto valor (medido pelas variáveis latentes), o que era esperado (os construtos de beneficio e sacrifício são as variáveis latentes que deram forma ao construto valor), mas que não provoca qualquer dificuldade na análise subseqüente, uma vez que estes construtos não são associados entre si para avaliação das proposições desenvolvidas (salvo no modelo de mensuração do valor). Nos demais construtos, os valores de variância extraída foram maiores que os valores de variância compartilhada nos construtos intensidade de boca a boca, predisposição a boca a boca, predisposição a reclamação, e valor (pelas variáveis observáveis). Conforme se observa na Tabela, os construtos predisposição à boca a boca e favorabilidade de boca a boca apresentaram variância compartilha (0,69) maior que a variância extraída do segundo (0,66), o que efetivamente não constitui 183 um problema para a análise subseqüente, pois estes dois construtos são analisados em modelos separados. O mesmo pode ser dito em relação ao construto reclamação, que teve o valor de variância extraída (0,36) menor que a variância compartilhada com o construto predisposição a reclamação (0,46), e ao construto valor (pelas variáveis latentes), que teve a variância extraída menor que as variâncias compartilhadas com variáveis latentes que o deram forma, e com o construto valor (pelas variáveis observáveis). Nestes termos, pode-se considerar a validade discriminante dos construtos satisfatória. 4.5.3. Análise dos modelos estruturais Conforme estabelecido, a análise dos modelos estruturais, gerados a partir das proposições centrais desenvolvidas e das proposições conceituais, consta da avaliação das relações entre o valor percebido pelos clientes e os comportamentos de reclamação e de boca a boca. Os dois modelos estão analisados a seguir. 4.5.3.1. Modelos de ações comportamentais O ‘modelo das ações comportamentais’ foi analisado a partir das três alternativas de operacionalização do construto valor percebido: inicialmente como um construto unidimensional; em seguida como um construto multidimensional formativo; e, por fim, como um construto reflexivo. Após cada uma dos procedimentos são analisadas as três proposições desenvolvidas. Valor como um construto unidimensional O modelo operacional que conceitua o valor como um construto unidimensional parte da mensuração por meio de variáveis observáveis dos cinco construtos de benefícios e sacrifícios, e do próprio do valor. O modelo com os construtos e as indicações das respectivas variáveis observáveis está exposto na Figura 22 (por conveniência, não foram desenvolvidos extensamente os modelos de mensuração e as relações entre os construtos). As hipóteses de antecedentes do valor (proposições conceituais) são de que qualidade (QUA), reputação (REP) e benefício social (BS) exercem influência 184 positiva sobre o valor, e de que o sacrifício monetário (SM) e sacrifício não monetário (SNM) exercem influência negativa. Como conseqüências, o valor exerce influência positiva sobre as ações de reclamação, sobre a intensidade de boca a boca, e sobre a favorabilidade de boca a boca (proposições P2, P4, e P5, desenvolvida na discussão teórica). X4; X7; X11; X16; X20 QUA. X3; X8; X12; X14; X18 BS X21; X23; X25; X28; X32 SM X22; X24; X29; X31 SNM X2; X6; X10; X15 REP X5; X17; X26; X30 Valor perceb. InBAB Y1; Y7; Y9; Y11; Y14 FaBAB Y3; Y6; Y10; Y12 REC. Y2; Y4; Y8; Y13 Legenda: QUA – Qualidade; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REP – Reputação; InBAB – Intensidade de boca a boca; FaBAB – Favorabilidade de boca a boca; REC – Reclamação; Xn e Yn – Variáveis indicadoras. Figura 22 – Modelo de ações comportamentais: valor unidimensional Fonte: Elaborado pelo autor A avaliação do modelo, com todas as condições provenientes dos construtos individuais, apresentou resultados muito insatisfatórios, com exceção da medida da razão entre o qui-quadrado e o número de graus de liberdade (que ficou baixo de 5). Como pode ser verificado na Tabela 56 (coluna ‘modelo inicial’), todos os índices ficaram muito abaixo de 0,9, ou mesmo 0,8, que seria um valor com tolerância maior. Tabela 56 – Medidas de ajustamento – valor unidimensional Medida Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Modelo inicial 2382,714 731 3,260 0,000 0,654 0,612 0,730 0,747 0,096 Fonte: Dados da pesquisa Primeira modificação 839,580 316 2,567 0,000 0,794 0,754 0,870 0,883 0,082 Segunda modificação 487,767 221 2,207 0,000 0,849 0,811 0,919 0,930 0,070 185 A avaliação dos dados fornecidos pelo software AMOS indicou que as relações de reputação e beneficio social com valor, e deste com reclamação não eram significativos (p>0,1). Nestes termos, o modelo foi testado após a exclusão destes três construtos, e com o estabelecimento de covariâncias dos três construtos antecedentes do valor entre si (procedimento baseado em PETRICK [2004]), e entre os erros de mensuração dos dois construtos de conseqüências restantes. Os resultados encontram-se também na Tabela 56 (coluna ‘primeira modificação’), a partir dos quais se constata uma pequena melhoria em relação ao modelo original, mas ainda com valores que indicam a falta de adequação do modelo. Os resultados gerados pelo software não indicaram melhorias significativas com o estabelecimento de novas covariâncias, além de haver indicação de problemas na significância da relação entre sacrifício não monetário e valor (p>0,01). Nestes termos, excluído o construto antecedente, e estabelecidas as mesmas covariâncias anteriores, os novos resultados apresentaram-se satisfatórios, ainda que inadequados nos índices GFI e AGFI, conforme pode ser verificado também na Tabela 56 (coluna ‘segunda modificação’). De posse destes resultados, é possível avaliar as proposições de pesquisa definidas. Tabela 57 - Parâmetros estimados – valor unidimensional Caminho estrutural Coeficientes padronizados (β) 0,593 Significância CR e (p) 8,656 (0,000) Proposição (sinal) Positivo Positivo Positivo Negativo Negativo P2 - Positivo P4 - Positivo P5 - Positivo Resultado Não rejeitada QUA → VALOR a a a REP → VALOR a a a BS → VALOR SM → VALOR 0,412 6,569 (0,000) Rejeitada a a a SNM→ VALOR a a a VALOR → REC VALOR → INBAB 0,529 6,841 (0,000) Não rejeitada VALOR → FABAB 0,739 9,928 (0,000) Não rejeitada (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; INBAB – Intensidade de boca a boca; FABAB – Favorabilidade de boca a boca. Fonte: Dados da pesquisa Para estimação dos parâmetros, o terceiro modelo foi utilizado, e os resultados estão expostos na Tabela 57. Conforme é possível verificar, três das relações envolvendo valor percebido e seus antecedentes não puderam ser verificadas (REP→VALOR, BS→VALOR, SNM→VALOR), pela supressão de construtos do modelo, o mesmo 186 ocorrendo quanto à relação entre valor e reclamação (VALOR→REC). Os resultados com os construtos mantidos apontam coeficientes padronizados positivos, relativamente elevados, e significativos para as quatro relações mantidas. Tal resultado valida as proposições P4 e P5, assim como a proposição conceitual que associa qualidade e valor. Por outro lado, a relação entre sacrifício monetário e valor apresentou coeficiente positivo, aparentemente contrariando o conceito de valor. Este resultado pode ser justificado pela dificuldade de mensuração do sacrifício da forma como foi feita. A análise das questões de pesquisa (neste e em outros estudos) indica que, mais que avaliar o sacrifício, está-se avaliando o benefício do baixo sacrifício. Evidentemente, a inversão das questões inverte o sinal da relação (procedimento testado, mas não exposto). Por não ser propósito desta tese avaliar em maiores detalhes esta dificuldade, supõe-se justificada a aparente contradição. Valor como um construto multidimensional formativo Na avaliação do modelo operacionalizando o valor como um construto multidimensional formativo, foi testado o modelo inicial, semelhante ao modelo exposto na Figura 22, mas com a exclusão das variáveis de mensuração do valor. Os resultados estão expostos na Tabela 58 (coluna ‘modelo inicial’), e evidenciam problemas de ajustamento, uma vez que todos os índices estão abaixo dos valores mínimos sugeridos (0,9 ou 0,8). Os resultados oferecidos pelo AMOS apontam problemas de significância nas relações entre os construtos reputação e beneficio social com valor, e deste com o construto reclamação, além da sugestão de covariância entre os construtos sacrifício monetários e sacrifício não monetário. Tabela 58 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional formativo Medida Modelo inicial Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA 1949,564 585 3,333 0,000 0,669 0,623 0,730 0,747 0,097 Primeira modificação 832,224 316 2,634 0.000 0,800 0,761 0,848 0,863 0,081 Segunda modificação 412,504 181 2,279 0.000 0,869 0,833 0,902 0,916 0,072 Fonte: Dados da pesquisa Os dois construtos antecedentes foram excluídos, e foi estabelecida a covariância 187 dois a dois entre os três restantes. Os novos resultados podem ser vistos também na Tabela 58 (coluna ‘primeira modificação’), e indicam uma melhoria em relação ao modelo anterior, mas ainda com problemas em todas as medidas. A análise dos demais resultados indicou problema de significância na relação do construto sacrifício monetário com valor. Nestes termos, optou-se pela exclusão, e pela manipulação de algumas covariâncias sugeridas pelo software (entre os construtos qualidade e sacrifico não monetário). A tentativa de mensuração do construto reclamação sem a variável Y2 (procedimento justificável, como pode ser observado no item 4.5.2), conduziu, e o estabelecimento da covariância entre os erros de mensuração das variáveis Y13 e Y14 apresentaram resultados razoáveis, como pode ser observado na Tabela 58 (coluna ‘segunda modificação’). A medida da razão entre o valor de qui-quadrado e o número de graus de liberdade (X²/gl=2,279<5), assim como os demais índices apontam condições para a aceitação do modelo, apesar dos valores de GFI e AGFI (menores que 0,9, mas maiores que 0,8). De posse dos resultados deste último modelo, segue-se a análise das proposições conceituais e de pesquisa. Os resultados dos coeficientes padronizados e da significância estão expostos na Tabela 59. Tabela 59 - Parâmetros estimados – valor multidimensional formativo Caminho Coeficientes Significância Proposição Resultado estrutural padronizados (β) CR e (p) (sinal) b Positivo Aceita QUA → VALOR 0,466 a a a REP → VALOR Positivo a a a BS → VALOR Positivo a a a SM → VALOR Negativo SNM→ VALOR 0,476 2,102 (0,036) Negativo Rejeitada VALOR → REC 0,249 2,341 (0,019) P2 - Positivo Aceita VALOR → INBAB 0,554 3,545 (0,000) P4 - Positivo Aceita VALOR → FABAB 0,776 3,872 (0,000) P5 - Positivo Aceita (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações; (b) Dimensão com variância fixada em 1 Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; INBAB – Intensidade de boca a boca; FABAB – Favorabilidade de boca a boca. Fonte: Dados da pesquisa Os resultados apontam que as relações entre os construtos mantidos mostraram-se positivas, estatisticamente significativas, e elevadas, com exceção da proposição que associa sacrifício não monetário a valor percebido, e este a reclamação. Nestes termos, está confirmada a proposição conceitual que associa qualidade a valor (QUA 188 → VALOR) e as três proposições centrais desta tese (VALOR → REC; VALOR → INBAB; VALOR → FABAB), indicando assim que o valor que os clientes percebem tem influência positiva sobre suas ações de reclamação, assim como sobre a intensidade de ações de boca a boca, e no quão favorável são os comentários e reclamações procedidas. A proposição conceitual que associa sacrifício não monetário e valor foi rejeitada pelo sinal do coeficiente padronizado, fato verificado também em Petrick (2004). Tal ocorrência possivelmente tem justificativa na problemática, já comentada, de mensuração do sacrifício, ou do beneficio do baixo sacrifício. Valor como um construto multidimensional reflexivo Para a operacionalização do valor como um construto multidimensional reflexivo, as cinco variáveis latentes (construtos QUA, BS, REP, SM, SNM) são computadas como variáveis observáveis. A ilustração do modelo está exposta na Figura 23. Por este método de operacionalização, as variáveis observáveis utilizadas para mensuração de valor não são utilizadas, e os escores de cada entrada das variáveis latentes foram agrupados pelas médias dos valores das variáveis componentes. X4; X7; X11; X16; X20 QUA. X3; X8; X12; X14; X18 BS X21; X23; X25; X28; X32 SM X22; X24; X29; X31 SNM X2; X6; X10; X15 REP Valor perceb. InBAB Y1; Y7; Y9; Y11; Y14 FaBAB Y3; Y6; Y10; Y12 REC. Y2; Y4; Y8; Y13 Legenda: QUA – Qualidade; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REP – Reputação; InBAB – Intensidade de boca a boca; FaBAB – Favorabilidade de boca a boca; REC – Reclamação; Xn e Yn – Variáveis indicadoras. Figura 23 – Modelo de ações comportamentais: valor multidimensional reflexivo Fonte: Elaborado pelo autor A primeira extração de índices e medidas considerou o modelo na proposição original, com todas as regras de mensuração mantidas de acordo com os procedimentos realizados (ver item 4.5.2). Como pode ser verificado na Tabela 60 189 (coluna ‘modelo inicial’), a razão entre o valor de qui-quadrado e o número de graus de liberdade ficou dentro de um valor aceitável (X²/gl=3,349<5), porém os índices ficaram abaixo dos valores mínimos recomendados, assim como o RMSEA ficou acima do valor máximo aceito (0,8). Nestes termos, foram analisadas as demais saídas do AMOS, tendo-se identificado a sugestão do estabelecimento de uma covariância entre os erros de mensuração dos construtos intensidade de boca a boca à favorabilidade de boca a boca. A análise de sentido dos construtos indica a possibilidade de tal procedimento, e os resultados após esta modificação estão expostos na Tabela 60 (coluna ‘primeira modificação’). Tabela 60 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional reflexivo Medida Modelo inicial Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA 438,774 131 3,349 0,000 0,842 0,793 0,847 0,869 0,098 Primeira modificação 368,968 129 2,860 0,000 0,862 0,817 0,879 0,898 0,087 Segunda modificação 277,818 113 2,459 0,000 0,885 0,844 0,912 0,927 0,077 Fonte: Dados da pesquisa Conforme pode ser observado, houve melhorias nos índices, uma vez que todos ficaram acima de 0,8, porém nenhum destes ficou acima de 0,9, e o RMSEA permanece acima do máximo de 0,08. Nestes termos, considerou-se relevante a averiguação de alternativas de aprimoramento do modelo, considerando inicialmente as demais saídas do software, em as análises anteriormente realizadas. Os índices de modificação não apresentaram boas sugestões que fossem teoricamente sustentáveis. Por outro lado, a reavaliação do construto reclamação apontava a possibilidade de exclusão da variável Y2, levando o construto a ser mensurado a partir de três variáveis. Feito este procedimento, e mantidas as covariâncias anteriormente estabelecidas, novos valores das medidas de ajustamento foram geradas, como pode ser verificado na Tabela 60 (coluna ‘segunda modificação’). Os resultados evidenciam uma sensível melhoria nos índices. Todos os valores ficaram dentro das recomendações, com exceção dos índices GFI e AGFI (ainda assim, ambos ficaram bastante acima de 0,8). A partir destes resultados, seguiu-se a 190 análise das proposições deste estudo, assim como das proposições conceituais do construto valor. Foram assim extraídos os valores dos coeficientes padronizados, bem como os valores de CR e sua significância estatística. Os dados estão expostos na Tabela 61, e os resultados evidenciam que o modelo estrutural apresenta medidas estatisticamente significativas em todas as relações, o que assegura condições para análise das proposições. Assim, as proposições conceituais de valor indicaram condições de aceitação nas três associadas aos benefícios percebidos, e problemas associados nas proposições associadas aos sacrifícios percebidos. Tabela 61 - Parâmetros estimados – valor multidimensional reflexivo Caminho Coeficientes Significância Proposição Resultado estrutural padronizados (β) CR e (p) (sinal) a Positivo Aceita 0,837 QUA ← VALOR 0,733 12,500 (0,000) Positivo Aceita REP ← VALOR 0,779 13,512 (0,000) Positivo Aceita BS ← VALOR 0,696 11,566 (0,000) Negativo Rejeitada SM ← VALOR 0,767 13,195 (0,000) Negativo Rejeitada SNM ← VALOR VALOR → REC 0,272 3,403 (0,001) P2 - Positivo Aceita VALOR → INBAB 0,485 6,374 (0,000) P4 - Positivo Aceita VALOR → FABAB 0,711 9,905 (0,000) P5 - Positivo Aceita (a) Variável com variância fixada em 1 Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; INBAB – Intensidade de boca a boca; FABAB – Favorabilidade de boca a boca. Fonte: Dados da pesquisa As hipóteses centrais desta tese foram todas confirmadas, em duas com valores razoáveis (VALOR → INBAB, VALOR → FABAB), indicando assim um bom nível de influência do valor percebido pelos clientes sobre a intensidade com que praticam ações de boca a boca, assim como no direcionamento positivo dos comentários e recomendações realizadas. Sobre a relação entre valor e reclamação (VALOR → REC), foi evidenciada uma influência, ainda que menor que as demais, podendo-se assim ter certeza de que quanto mais valor os clientes percebem nos serviços recebidos, mais reclamam quando se sentem prejudicados. 4.5.3.2. Modelos de predisposições comportamentais Conforme procedido no primeiro modelo, no ‘modelo de predisposições 191 comportamentais’ também foram procedidas três etapas de análise, a partir das três formas de operacionalização do construto valor (cf. item 2.6). Após cada procedimento são analisadas as proposições conceituais e as duas proposições desenvolvidas na revisão teórica. Valor como um construto unidimensional A operacionalização do valor como um construto unidimensional utiliza os construtos de benefícios e de sacrifícios como antecedentes do construto valor, todos estes (inclusive o valor) mensurados a partir de variáveis observáveis coletadas no trabalho de campo. O modelo se completa com a inserção dos construtos predisposição a boca a boca e predisposição a reclamação, que se supõem serem influenciados positivamente pelo valor percebido. X4; X7; X11; X16; X20 QUA. X3; X8; X12; X14; X18 BS X21; X23; X25; X28; X32 SM X22; X24; X29; X31 SNM X2; X6; X10; X15 REP X5; X17; X26; X30 PRBAB Z1; Z5; Z6; Z8 PRREC Z2; Z4; Z7; Z9; Z10 Valor percebido Legenda: QUA – Qualidade; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REP – Reputação; PRBAB – Predisposição a boca a boca; PRREC – Predisposição a reclamação; Xn e Zn – Variáveis indicadoras. Figura 24 – Modelo de predisposições comportamentais: valor unidimensional Fonte: Elaborado pelo autor O modelo conforme estabelecido inicialmente apresentou dificuldades nas diversas medidas de ajustamento utilizadas, como pode ser verificado na Tabela 62 (coluna ‘modelo inicial’). Com exceção da medida da razão entre o valor de qui-quadrado e o número de graus de liberdade, que ficou abaixo do valor máximo sugerido (X²/gl=3.356<5), todas as demais medidas ficaram fora dos valores recomendados. Outras saídas do software apontaram problemas de significância estatística na relação dos construtos reputação e beneficio social com valor. Optou-se, assim, pela análise do modelo primeiramente com a exclusão de reputação, e em seguida com a 192 exclusão de benefício social. Tabela 62 – Medidas de ajustamento – valor unidimensional Medida Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Modelo inicial 1966,689 586 3.356 0,000 0,679 0,635 0,774 0,790 0,098 Primeira modificação 843,729 421 2,004 0,000 0,830 0,800 0,913 0,921 0,064 Segunda modificação 593,345 290 2,046 0,000 0,850 0,819 0,926 0,934 0,065 Fonte: Dados da pesquisa O primeiro procedimento apontou uma grande melhoria em relação ao modelo original, com um ajustamento adequado em todas as medidas, com exceção dos índices GFI e AGFI (que ficaram ainda acima de 0,8), como pode ser verificado na Tabela 62 (coluna ‘primeira modificação’). Por outro lado, neste modelo a relação entre benefício social e valor permaneceu com problemas de significância estatística. A análise do modelo com a exclusão deste construto apresentou uma leve melhoria nos índices, observáveis na Tabela 62 (coluna ‘segunda modificação’), sem mais problemas de significância. De posse deste último resultado, procedeu-se à análise das proposições de pesquisa. Tabela 63 - Parâmetros estimados – valor unidimensional Caminho estrutural Coeficientes padronizados (β) 0,482 Significância CR e (p) 5,897 (0,000) Proposição (sinal) Positivo Positivo Positivo Negativo Negativo P1 - Positivo P3 - Positivo Resultado Aceita QUA → VALOR a a a REP → VALOR a a a BS → VALOR SM → VALOR 0,257 3,625 (0,000) Rejeitada SNM→ VALOR 0,259 2,777 (0,005) Rejeitada VALOR → PRREC 0,167 2,362 (0,018) Aceita VALOR → PRBAB 0,746 10,853 (0,000) Aceita (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; PRREC – Predisposição a reclamação; PRBAB – Predisposição a boca a boca Fonte: Dados da pesquisa Os dados para análise estão expostos na Tabela 63, e permitem verificar, inicialmente, que todos os coeficientes padronizados apresentaram os respectivos 193 valores de CR significativos. Os parâmetros relacionados às proposições conceituais mostraram-se positivos em todas as relações, conformando a primeira proposição conceitual (QUA → VALOR), porém refutando as duas demais, justamente aquelas associadas a sacrifício percebido (SM → VALOR, e SNM → VALOR). As duas proposições centrais da tese, que associam valor a predisposição à reclamação e a boca a boca (VALOR → PRREC, VALOR → PRBAB) foram confirmadas. Valor como um construto multidimensional formativo Para a avaliação do modelo a partir da operacionalização do valor como um construto multidimensional formativo, foi avaliado primeiramente o modelo inicial, semelhante àquele ilustrado na Figura 24, mas com a exclusão das variáveis observáveis do construto valor. As medidas de ajustamento extraídas podem ser verificadas na Tabela 64 (coluna ‘modelo inicial’) e são indicativas de dificuldades de ajustamento do modelo. Nestes termos, partiu-se para a análise das demais saídas do software, a partir das quais se verificou que as relações entre os construtos reputação, beneficio social e sacrifício não monetário com valor e deste com o construto reputação, não foram estatisticamente significativas. Tabela 64 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional formativo Medida Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Modelo inicial 1585,605 456 3,477 0,000 0,692 0,643 0,776 0,794 0,100 Primeira modificação 348,617 132 2.461 0,000 0,881 0,845 0,913 0,925 0,082 Segunda modificação 234,023 131 1,786 0,000 0,908 0,879 0,958 0,964 0,056 Fonte: Dados da pesquisa Os três primeiros construtos foram excluídos. Os resultados, que se encontram expostos na Tabela 64 (coluna ‘primeira modificação’), indicam uma sensível melhoria nas medidas de ajustamento, porém ainda com dificuldades nos índices GFI (0,881) e AGFI (0,845) e na medida de RMSEA (0,082), este último ligeiramente acima do valor máximo recomendado. 194 Assim, a partir da análise das demais saídas do AMOS, optou-se pelo estabelecimento da covariância entre sacrifício não monetário e qualidade. Os resultados das medidas encontram-se na Tabela 64 (coluna ‘segunda modificação’), e são indicativos de um bom ajustamento, uma vez que todas as medidas ficaram acima do valor recomendado (0,9), com exceção do índice AGFI (0,879), ligeiramente abaixo deste valor. A partir deste último resultado, segui-se para a análise das proposições de pesquisa. Tabela 65 – Parâmetros estimados – valor multidimensional formativo Proposição Resultado (sinal) b QUA → VALOR Positivo Aceita a a a REP → VALOR Positivo a a a BS → VALOR Positivo a a a SM → VALOR Negativo SNM→ VALOR 0,535 1,993 (0,046) Negativo Rejeitada VALOR → PRREC 0,250 2,294 (0,022) P1 - Positivo Aceita VALOR → PRBAB 0,786 3,215 (0,001) P3 - Positivo Aceita (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações; (b) Dimensão com variância fixada em 1 Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; PRREC – Predisposição a reclamação; PRBAB – Predisposição a boca a boca Caminho estrutural Coeficientes padronizados (β) 0,370 Significância CR e (p) Fonte: Dados da pesquisa Os resultados dos coeficientes padronizados com os respectivos CRs e significância estatística estão expostos na Tabela 65. A partir dos resultados é possível observar que todas as relações são positivas, o que confirma inicialmente a proposição conceitual de que qualidade influencia positivamente valor (QUA → VALOR), mas refuta a proposição de que sacrifício não monetário exerce influência negativa (SNM→ VALOR). As duas proposições centrais deste modelo para esta tese são também, confirmadas apesar do baixo valor do coeficiente da relação entre valor e predisposição à reclamação (VALOR → PRREC). Valor como um construto multidimensional reflexivo Por fim, procedeu-se à análise dos dados adotando um conceito de valor como um construto multidimensional reflexivo. Nesta alternativa, o construto valor tem o sentido de influência invertido em relação aos construtos qualidade, reputação, beneficio social, sacrifício monetário e sacrifício não monetário. A ilustração deste modelo está exposta na Figura 25. Por este método, assim como procedido no ‘modelo de ações comportamentais’, foi utilizado o modelo de mensuração de valor pelas variáveis latentes (os construtos). 195 X4; X7; X11; X16; X20 QUA. X3; X8; X12; X14; X18 BS X21; X23; X25; X28; X32 SM X22; X24; X29; X31 SNM X2; X6; X10; X15 REP PRBAB Z1; Z5; Z6; Z8 PRREC Z2; Z4; Z7; Z9; Z10 Valor perceb. Legenda: QUA – Qualidade; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REP – Reputação; PRBAB – Predisposição a boca a boca; PRREC – Predisposição a reclamação; Xn e Zn – Variáveis indicadoras. Figura 25 – Modelo de predisposições comportamentais: valor multidimensional reflexivo Fonte: Elaborado pelo autor Procedida a primeira extração de medidas de ajustamento, observou-se que todas as medidas apresentaram-se dentro dos valores recomendados, com exceção apenas do índice AGFI, que ainda assim ficou muito próximo do valor mínimo para um bom ajustamento, mas bem acima do valor de 0,8, (também aceitável). Os dados podem ser verificados na Tabela 66. Tabela 66 – Medidas de ajustamento – valor multidimensional reflexivo Medida Qui-quadrado (X²) Graus de liberdade (gl) X²/gl Probabilidade GFI AGFI TLI CFI RMSEA Modelo original 138,679 74 1,847 0,000 0,928 0,898 0,967 0,973 0,059 Fonte: Dados da pesquisa A análise das demais alternativas de melhoria observadas nas saídas do AMOS não indicaram vantagens significativas, o que se justifica pela simplicidade que o modelo ganhou. Nestes temos, partiu-se para a avaliação das proposições da pesquisa. Os resultados dos coeficientes padronizados, e dos valores de CR e significância podem ser observados na Tabela 67. Os resultados evidenciam a confirmação de três das cinco proposições conceituais 196 (associadas aos benefícios) e refutam duas (associadas aos sacrifícios). Nestas, todos os valores dos parâmetros foram elevados e estatisticamente significativos. Por outro lado, nas proposições P1 e P3, com ambas confirmadas, o parâmetro estimado da relação entre valor e predisposição à reclamação (VALOR → PRREC) foi baixo, apesar de significativo estatisticamente (β=0,197; p <0,05). Tabela 67 - Parâmetros estimados – valor multidimensional reflexivo Coeficientes Significância Proposição Resultado padronizados (β) CR e (p) (sinal) 0,839 ª Positivo Aceita QUA ← VALOR 0,721 12,208 (0,000) Positivo Aceita REP ← VALOR 0,775 13,400 (0,000) Positivo Aceita BS ← VALOR 0,695 11,499 (0,000) Negativo Rejeitada SM ← VALOR 0,781 13,457 (0,000) Negativo Rejeitada SNM ← VALOR VALOR → PRREC 0,197 2,713 (0,007) P1 - Positivo Aceita VALOR → PRBAB 0,673 10,289 (0,000) P3 - Positivo Aceita (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; PRREC – Predisposição a reclamação; PRBAB – Predisposição a boca a boca Caminho estrutural Fonte: Dados da pesquisa 4.5.4. Discussão adicional dos resultados A partir dos resultados obtidos nas três alternativas de operacionalização do construto valor, cabem alguns comentários adicionais. Primeiramente, em relação ao ‘modelo de ações comportamentais’, um quadro geral dos parâmetros padronizados, e das medidas de ajustamento, está exposto na Tabela 68. Em relação às três proposições centrais deste modelo, os resultados foram compatíveis com as expectativas desenvolvidas. Vejamos cada um delas: Proposição P2: esta proposição afirma que o valor que os clientes percebem nos serviços influencia positivamente seus comportamentos de reclamação. Como pôde ser verificado, houve dificuldades de verificação desta hipótese quando se utiliza o valor como um construto unidimensional, no qual a proposição teve que ser excluída para se alcançar boas medidas de ajustamento do modelo. Já na operacionalização do valor como um construto multidimensional, a proposição pôde ser avaliada, e foi confirmada, tanto quando o valor é um construto formativo (β=0,249; p <0,05) quanto quando é reflexivo (β=0,272; p <0,05), apesar dos valores dos parâmetros padronizados serem baixos. A indicação é, portanto, de que quanto mais os clientes percebem valor, 197 mais reclamam sobre os serviços que recebem; Proposição P4: esta proposição afirma que o valor percebido exerce influência positiva sobre a intensidade das ações de boca a boca. Em qualquer das três alternativas de operacionalização do valor, a relação deste com a intensidade de boca a boca foi positiva. Os parâmetros padronizados podem ser considerados elevados (maiores que 0,5) nas alternativas do valor unidimensional (β=0,529; p<0,01), e multidimensional formativo (β=0,554; p<0,01), e mediano na alternativa do valor multidimensional reflexivo (β=0,485; p<0,01). O resultado evidencia assim que, nos cursos de pós-graduação lato sensu, quanto mais valor os clientes percebem, mais falam sobre o curso. Proposição P5: esta afirma que quanto mais os clientes percebem valor, mais favoráveis são seus comentários sobre o serviço. Em qualquer das três alternativas de operacionalização do valor, os resultados dos parâmetros foram positivos, e com os parâmetros bastante elevados (β>0,7), indicando, portanto, que em cursos de especialização, quanto mais valor os clientes percebem, mais estes falam favoravelmente sobre o curso. Tabela 68 – Resumo de medidas do ‘modelo de ações comportamentais’ Valor multidimen. Valor multidimen. Valor formativo reflexivo unidimensional Parâmetros padronizados (valores de critical ratio) QUA → VALOR c (+) 0,593 (8,656)* 0,466 (b) 0,837 (b) c a a REP → VALOR (+) 0,733 (12,500)* a a BS → VALOR c (+) 0,779 (13,512)* a SM → VALOR c (+) 0,412 (6,569)* 0,696 (11,566)* a SNM→ VALOR c (–) 0,476 (2,102)** 0,767 (13,195)* a VALOR → REC (–) 0,249 (2,341)** 0,272 (3,403)** VALOR → INBAB (+) 0,529 (6,841)* 0,554 (3,545)* 0,485 (6,374)* VALOR → FABAB (+) 0,739 (9,928)* 0,776 (3,872)* 0,711 (9,905)* Medidas de ajustamento Qui-quadrado (X²) 487,767 412,504 277,818 Graus de liberd. (gl) 221 181 113 X²/gl 2,207 2,279 2,459 Probabilidade 0,000 0.000 0,000 GFI 0,849 0,869 0,885 AGFI 0,811 0,833 0,844 TLI 0,919 0,902 0,912 CFI 0,930 0,916 0,927 RMSEA 0,070 0,072 0,077 (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações; (b) Dimensão com variância fixada em 1; (c) A direção da seta deve ser invertida no modelo reflexivo; * Valor significativo a p<0,001; ** Valor significativo a p<0,05 Legenda: QUA – Qualidade; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REP – Reputação; REC – Reclamação; INBAB – Intensidade de boca a boca; FABAB – Favorabilidade de boca a boca. Caminho estrutural (sina) Fonte: Dados da pesquisa 198 Com relação ao ‘modelo das predisposições comportamentais’, um quadro geral dos parâmetros padronizados, e das medidas de ajustamento, está exposto na Tabela 69. Com relação às duas proposições centrais deste modelo, os resultados permitiram as seguintes conclusões: Proposição P1: esta proposição afirma que o valor percebido tem influência positiva sobre a predisposição dos clientes a proceder a ações de reclamação. Como pode ser verificado na Tabela 69, valores positivos dos parâmetros padronizados foram encontrados nas três formas de operacionalização do valor, confirmando assim a proposição. Por outro lado, os valores dos parâmetros podem ser considerados baixos, apesar de todos serem estatisticamente significativos (p<0,05), o que indica que a influência existe e é positiva, mas não é muito intensa. De modo geral, o resultado mostra que, nos cursos de especialização da área de gestão, quanto mais valor os clientes percebem no serviço que recebem, mais propensos são a reclamar destes serviços. Proposição P3: esta proposição afirma que a relação entre valor percebido e predisposição a ações de boca a boca é positiva nos clientes de serviços. Os resultados indicaram que esta proposição foi confirmada em cada uma das três alternativas de operacionalização do construto valor. A relação estabelecida é bastante intensa, como indicam os valores dos parâmetros padronizados, todos estatisticamente significativos (p<0,01), e maiores que 0,6. A relação indica, portanto, que nos cursos de especialização, quanto mais valor os clientes percebem nos serviços envolvidos, maior sua predisposição a proceder a ações de boca a boca. A análise das Tabelas 68 e 69 indica ainda que as proposições conceituais tendem a ser parcialmente confirmadas, ou seja, aquelas associadas com a relação entre benefícios e valor mantiveram-se positivas, ao passo que aquelas associadas à relação entre sacrifícios e valor apresentaram-se como positivas, quando deveriam ser negativas. A literatura pesquisada aponta também variações com relação a proposições semelhantes, como foi o caso de Petrick (2004), que em uma análise junto a clientes de cruzeiros marítimos, não encontrou relação estatisticamente significativa entre sacrifício monetário e valor, e a relação entre sacrifício não monetário com valor foi positiva. Também Cronin Jr., Brady e Hult (2004), em uma análise em quatro setores diferentes de serviços, encontraram uma associação 199 positiva entre sacrifício e valor em um destes setores (entretenimento). Tabela 69 – Resumo de medidas do ‘modelo de predisposições comportamentais’ Valor multidimen. Valor multidimen. Caminho estrutural Valor formativo reflexivo (sina) unidimensional Parâmetros padronizados (valores de critical ratio) QUA → VALOR c (+) 0,482 (5,897)* 0,370 (b) 0,839 (b) c a a REP → VALOR (+) 0,721(12,208)* a a BS → VALOR c (+) 0,775 (13,400)* a SM → VALOR c (+) 0,257 (3,625)* 0,695 (11,499)* c SNM→ VALOR (–) 0,259 (2,777)* 0,535 (1,993)** 0,781 (13,457)* VALOR → PRREC (+) 0,167 (2,362)** 0,250 (2,294)** 0,197 (2,713)** VALOR → PRBAB (+) 0,746 (10,853)* 0,786 (3,215)* 0,673 (10,289)* Medidas de ajustamento Qui-quadrado (X²) 593,345 234,023 138,679 Graus de liberd. (gl) 290 131 74 X²/gl 2,046 1,786 1,847 Probabilidade 0,000 0,000 0,000 GFI 0,850 0,908 0,928 AGFI 0,819 0,879 0,898 TLI 0,926 0,958 0,967 CFI 0,934 0,964 0,973 RMSEA 0,065 0,056 0,059 (a) Relação suprimida do modelo após re-especificações; (b) Dimensão com variância fixada em 1; (c) A direção da seta deve ser invertida no modelo reflexivo; * Valor significativo a p<0,01; ** Valor significativo a p<0,05 Legenda: QUA – Qualidade; REP – Reputação; BS – Benefício social; SM – Sacrifício monetário; SNM – Sacrifício não monetário; REC – Reclamação; PRREC – Predisposição a reclamação; PRBAB – Predisposição a boca a boca O desenvolvimento das análises da forma aqui procedidas explora de uma maneira mais abrangente o construto, como salientado na discussão sobre dimensionalidade do valor (Capítulo 2), mas não evidencia qual seja a melhor ou pior das alternativas. Da análise destas possibilidades de operacionalização, merecem ainda destaque as seguintes considerações: O entendimento do valor como unidimensional, mesmo apresentando fragilidades de natureza conceitual, encontra respaldo em diversos estudos realizados, de modo especial naqueles que operacionalizam a qualidade de modo separado, mas encontrando sempre uma relação positiva entre os construtos. Esta alternativa apontou resultados parcialmente satisfatórios nesta tese, a despeito da necessidade de exclusão de alguns construtos, e da dificuldade com as proposições associadas aos sacrifícios; Pela revisão, teve-se o entendimento do valor como um construto multidimensional formativo como a melhor das três alternativas, por entender os construtos de benefício e sacrifício como partes integrais do valor (LIN; SHER; SHIH, 2005). Os resultados aqui alcançados podem ser entendidos como 200 parcialmente satisfatórios, uma vez que também foi necessária a exclusão de construtos, e reafirmaram-se as dificuldades com as proposições conceituais sobre os sacrifícios; Já a operacionalização do valor como um construto multidimensional reflexivo encontra também dificuldades conceituais, pelo problema da identificação da antecedência dos construtos. Tal procedimento não foi muito recorrente na literatura pesquisada, mas é possível a justificativa de seu sentido para efeito de análise. Esta foi a alternativa que gerou os melhores resultados na validação dos modelos, uma vez que permitiu a inserção de todos os componentes de beneficio e de sacrifício, mesmo com problemas nas proposições associadas aos sacrifícios. Ainda sobre a operacionalização do valor percebido, nos dados contidos nas Tabelas 68 e 69 podem ser identificadas variações nos construtos mantidos, com exceção do construto qualidade, que se manteve em todas as manipulações realizadas. Por outro lado, em qualquer das alternativas, sempre se manteve um dos construtos associados a sacrifício (ou ambos). A indicação tem precedente na literatura pesquisada, que, em diversas situações, envolve a qualidade como a manifestação mais evidente de benefício, além de manifestações de sacrifício, monetário ou não monetário (cf. Cap. 2). Adicionalmente, não ficou consolidada a associação entre os construtos benefício social e reputação com o valor percebido, salvo na avaliação deste como um construto multidimensional reflexivo. A indicação foi, portanto, de que não é muito claro o entendimento destes dois construtos como benefícios pelos quais o estudante paga ao contratar o serviço, a despeito de ambos serem, em nível conceitual, benefícios evidentes de um curso de pós-graduação. O autor desta tese não vê motivos que indiquem, a priori, uma justificativa para tal (falta de) entendimento, mas é possível supor que variações no instrumento de pesquisa, ou no universo pesquisado, possam apontar elementos que dêem resposta a esta dificuldade. Os resultados, vistos de forma integrada, evidenciam que os modelos apresentaram maior adequação nos construtos associados a boca a boca que naqueles 201 associados à reclamação. É possível que tal constatação seja evidência de que a relação entre valor e comportamento de reclamação não seja muito forte. Tal conclusão parece ter suporte tanto nos valores dos coeficientes padronizados quanto nos baixos valores de coeficientes de determinação (R² - disponíveis no Apêndice 5). Quanto ao comportamento de boca a boca, a relação evidenciada com o valor percebido foi muito forte, em qualquer das alternativas avaliadas. Também os valores dos coeficientes de determinação (Apêndice 5) foram bastante elevados, sugerindo, portanto, que o estímulo tanto para a disposição a ações de boca a boca, quanto para a intensidade e a favorabilidade destas ações, passam necessariamente pelo valor que os clientes percebem. 4.6. SÍNTESE DO CAPÍTULO Este capítulo teve como finalidade desenvolver uma análise das proposições desenvolvidas no capítulo de referencial teórico, buscando identificar se aquelas teriam ou não sustentação no contexto empírico, sobre o qual as especulações teóricas devem ser confirmadas ou refutadas, contexto este para o qual os estudos se orientam com a proposta de aprimoramento das práticas. O ambiente escolhido para verificação empírica foi o de serviços educacionais, especificamente os cursos de pós-graduação lato sensu ofertados pelas instituições de ensino superior cearenses, na área de gestão. Pela especificidade deste setor, optou-se pelo desenvolvimento preliminar de uma descrição de suas principais características. Somente a partir desta primeira caracterização é que foram procedidas as análises dos dados coletados junto aos estudantes. O restante do capítulo seguiu o direcionamento convencional de trabalhos de tese: foi inicialmente procedida a avaliação preliminar da planilha de dados, conforme os procedimentos sugeridos por Hair et al. (2005); em seguida foi feita a descrição da amostra; em terceiro lugar foi realizada a análise univariada; e, por fim, foi desenvolvida a análise multivariada, com foco principal na avaliação das proposições de pesquisa. A análise preliminar consistiu na avaliação de valores faltantes (missing values), 202 valores extremos (outliers), e a normalidade das variáveis dos construtos, indicandose resultados e procedimentos adotados. Optou-se por uma intervenção na planilha somente nos casos relacionados aos valores faltantes. Quanto aos outliers e à normalidade, os resultados não indicaram necessidade de qualquer procedimento adicional. De posse destes resultados, foram analisadas as variáveis de descrição da amostra, em duas etapas: a primeira relacionada às variáveis demográficas; e a segunda com as variáveis mais diretamente associadas ao serviço. Estas variáveis foram descritas individualmente, e diversos cruzamentos foram realizados como forma de descrever melhor as características dos respondentes. A análise univariada foi desenvolvida por construto. Assim, em cada um dos grupos de construtos definidos, foi procedida a extração e a análise das médias e desvios padrão de cada variável. Esta etapa do capítulo, apesar de essencialmente descritiva, viabilizou um melhor entendimento das características e percepções da amostra. A etapa de análise multivariada constitui a parte central do capítulo, uma vez que é a partir destas análises que é possível que se testem os modelos e as proposições definidas. Nestes termos, foi procedida uma Análise Fatorial Exploratória com as variáveis reunidas por blocos, conforme a sua vinculação a valor percebido, reclamação, ou a comportamentos de boca a boca. As análises procedidas indicaram algumas das modificações que poderiam ser feitas nas análises posteriores, e apontaram também limitações da estratégia de mensuração pensada. Em seguida, foi desenvolvida a análise dos índices de confiabilidade das escalas, a partir dos valores de Alpha de Cronbach. De posse destes resultados, ambos de natureza exploratória, partiu-se para a análise dos modelos estruturais, divida em duas fases: a análise do modelo de mensuração, a partir da qual foi avaliada a viabilidade de mensuração dos construtos a partir das variáveis observáveis coletadas; e análise dos dois modelos estruturais, cada um destes avaliados a partir das três alternativas de operacionalização do construto valor. 203 Os resultados confirmaram as cinco proposições centrais da pesquisa, indicando assim que os comportamentos de reclamação e boca a boca, assim como a predisposição dos clientes a proceder estes comportamentos, é influenciada pelo valor percebido pelos clientes. Por outro lado, as análises indicaram algumas dificuldades na avaliação da relação entre valor e reclamação, sugerindo que a relação, apesar de existir, não é muito forte, o contrário do que ocorre em relação ao comportamento de boca a boca. Também houve dificuldades em relação aos construtos associados ao conceito de valor, apesar da confirmação de algumas das proposições conceituais. 204 5. CONSIDERAÇÕES FINAIS Este capítulo encerra a pesquisa, com a consolidação final do trabalho. Nestes termos, são retomados e discutidos as questões e o problema de pesquisa, os objetivos definidos, assim como as proposições de pesquisa. Após esta primeira discussão, são avaliadas as implicações do trabalho, primeiramente as implicações acadêmicas, e em seguida as implicações gerenciais. Por fim, são apontadas e discutidas as limitações do trabalho, e são sugeridas algumas propostas de novos estudos. 5.1. DISCUSSÃO GERAL DOS RESULTADOS O trabalho desenvolvido originou-se a partir de diversas leituras e avaliações de outras pesquisas da área de comportamento do consumidor, bem como de diversos diálogos com pesquisadores da área de marketing, e de modo mais intenso com o orientador. Os diversos questionamentos desenvolvidos, apontados no capítulo de introdução, formaram a base dos objetivos delineados, e conduziram ao problema central de pesquisa. Estas questões, problema e objetivos são a seguir retomados e comentados à luz dos resultados do trabalho empírico. A primeira questão indagou o que constitui valor para o cliente no consumo de serviços educacionais, e estava associada ao primeiro objetivo específico definido (identificar como os clientes de serviços educacionais percebem valor durante o consumo [atividade de formação] destes serviços). Uma resposta para esta questão teve suporte tanto na literatura quanto nas entrevistas em profundidade desenvolvidas. A literatura indicou que, em serviços, há pelo menos cinco dimensões de valor, cuja aplicação é perfeitamente extensível ao tipo de serviço em referência. Assim, partiuse para a entrevista com três dimensões de benefício (qualidade, benefício emocional, e reputação), e duas de sacrifício (monetário e não monetário). Este propósito, que encontrou suporte em autores diversos (SHETH; NEWMAN; GROSS, 205 1991; LEBLANC; NGUYEN, 1999; PETRICK, 2004, dentre outros), foi modificado pela percepção da pouca relevância da dimensão benefício emocional, e da importância atribuída à dimensão benefício social, que não estava originalmente no roteiro de entrevista. Uma outra dimensão de benefício que seria evidente relacionase ao benefício epistêmico, proposto por Sheth, Newman e Gross (1991), operacionalizado no trabalho de Leblanc e Nguyen (1999), mas que não foi aqui utilizado, por ser este a própria natureza do serviço (educação e conhecimento). Nestes termos, o resultado de todas estas avaliações indicou que, para serviços educacionais de nível de pós-graduação do tipo lato sensu, o valor para o cliente é bem dimensionado a partir da qualidade do serviço, da reputação da instituição e do curso, do benefício social, do sacrifício monetário, e do sacrifício não monetário. Outros recortes no mesmo contexto sugerem ainda outras aplicações, como seria o caso da exclusão total ou parcial da dimensão sacrifício monetário em instituições públicas, ou da inserção da dimensão benefício emocional em cursos de graduação (pois estes envolvem um período mais longo, e, portanto, maior envolvimento emocional dos alunos). A segunda questão perguntou quais comportamentos de pós-consumo eram mais recorrentes por parte dos consumidores destes serviços, e estava associada ao segundo objetivo específico (analisar os comportamentos pós-consumo nas dimensões de predisposição e de ação efetivada). Quanto a esta questão, a literatura não apontou maiores especificidades, apenas indicando que nestes serviços são comuns o boca a boca e a reclamação, tópicos analisados nesta tese. Vale destacar, por outro lado, que o comportamento de reclamação é menos intenso que o de boca a boca, fato verificado tanto na fase qualitativa quanto na quantitativa. É possível supor, pela experiência vivenciada ao longo dos anos, que tal fato seja independente da especificidade do curso, podendo-se esperar o mesmo em cursos de graduação ou pós-graduação stricto sensu. A terceira e a quarta questões estavam vinculadas à relação entre a percepção de valor por parte dos clientes e a forma como se comportavam, e remetiam aos dois últimos objetivos específicos da tese (compreender o relacionamento entre valor percebido pelos clientes e as predisposições e ações de reclamação; compreender o 206 relacionamento entre valor percebido pelos clientes as predisposições e ações de boca a boca). A partir das quatro questões, originou-se o problema central de pesquisa, assim enunciado: de que modo o valor percebido pelos clientes influencia os comportamentos de reclamação e boca a boca nos consumidores serviços? Este problema deu direcionamento à formulação do objetivo geral da tese, que foi analisar, no contexto de serviços de ensino superior, o relacionamento entre a percepção de valor por parte dos clientes e seus comportamentos pós-consumo. O problema foi respondido, e o objetivo alcançado, a partir dos resultados do trabalho de campo. O problema central também serviu de base para as proposições de tese, que, em síntese, afirmavam que o valor percebido exerce influência positivas nos dois comportamentos definidos. As proposições e os resultados estão especificados no Quadro 9. As duas proposições relacionadas à predisposição aos comportamentos (P1 e P3) foram satisfatoriamente confirmadas, porém, em relação às três proposições associadas às ações (P2, P4 e P5), apesar de todas terem sido confirmadas, houve dificuldades em relação ao comportamento de reclamação em uma das alternativas de operacionalização do valor percebido. Quadro 9 – Resultados finais das proposições Proposição P1. Enunciado A relação entre o valor percebido pelos clientes e a predisposição a proceder a reclamação é positiva. P2. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com as ações de reclamação por parte dos clientes. P3. A relação entre valor percebido e predisposição a ações de boca a boca é positiva. P4. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com a intensidade das ações de boca a boca; P5. O valor percebido pelos clientes de serviços está positivamente relacionado com a favorabilidade das ações de boca a boca. (ª) Proposição não verificada em uma das etapas de análise Resultado Aceita Aceita (ª) Aceita Aceita Aceita Fonte: Elaborado pelo autor Tal fato justificou-se pelas dificuldades associadas à operacionalização deste construto, como pôde ser verificado na análise do modelo de mensuração. Nestes termos, pode-se afirmar que uma resposta satisfatória foi dada ao problema, mas algumas melhorias podem ser efetuadas em outros estudos, seja por uma melhor especificação e operacionalização dos construtos associados à reclamação, seja por 207 sua exclusão da análise. 5.2. IMPLICAÇÕES ACADÊMICAS A revisão da literatura indicou que o tema valor percebido vem apresentando uma importância crescente nas últimas três décadas, com diversos desdobramentos, ampliações, e desenvolvimentos de modelos. Conforme observado, a percepção de valor tende a se consolidar como um dos temas centrais em marketing, seja por sua essencialidade na compreensão das relações de troca (KOTLER, 1972; BAGOZZI, 1975; HOUSTON; GASSENHEIMER, 1987; ROBIN, 1995), seja para uma melhor formatação dos pressupostos do paradigma de relacionamento, dada a necessidade de uma avaliação da troca de valor enfocando-se não somente para o cliente ou o fornecedor do serviço, mas viabilizando uma integração das correntes recentes de análise de valor do cliente, valor para o cliente, e valor para os colaboradores (RAVAL; GRÖNROOS, 1996; PAYNE, HOLT, 2001). Nestes termos, o propósito de desenvolvimento da temática a partir dos cinco eixos e abordagens de pesquisa (Figura 4) deve constituir uma contribuição potencial para o direcionamento das análises sobre o assunto. Quatro dos cinco eixos foram abordados na tese (conceituação de valor, modelos de interpretação, criação de valor, mensuração, e relação entre construtos), com uma discussão ampla, a partir dos principais desenvolvimentos recentes (até o ano de 2006). Acredita-se que a revisão de literatura sobre o tema se constitua base para um panorama geral do estado da arte do assunto. Em relação aos comportamentos de boca a boca e reclamação, escolhidos para dar seguimento à análise do valor no eixo de relacionamento com outros construtos, em ambos os comportamentos seguiu-se a abordagem convencional, a partir de uma introdução à temática, seguindo-se com uma discussão conceitual e com a relevância do assunto. Os passos seguintes consistiam na análise de algumas abordagens de outros estudos, das formas de mensuração utilizadas, e da exposição e análise das pesquisas desenvolvidas no Brasil sobre os temas. Nestes termos, não houve na revisão da literatura maiores contribuições. A maior contribuição está na associação destes comportamentos com a percepção de valor, 208 e na extensão dada à análise do comportamento de boca a boca, este de reconhecida importância gerencial, mas com papel secundário nos estudos de orientação mais acadêmica. A avaliação específica do comportamento de reclamação apresentou algumas limitações (comentadas no item 5.4), mas conduziu a conclusões que levantam novas especulações sobre os antecedentes do comportamento, aspecto sobre o qual a literatura acadêmica é bastante deficiente, segundo afirma Crié (2003). Nesta perspectiva, além de complementar alguns estudos já orientados neste sentido (HERNANDEZ; FUGATE, 2004), os resultados indicam que o valor percebido tem potencial de explicação sobre comportamento de reclamação, aspecto pouco analisado nos diversos estudos desenvolvidos, e que poderá servir de apoio para modelos explicativos mais amplos e profundos. A pesquisa empírica também trouxe importantes resultados em relação ao comportamento de boca a boca, analisado a partir de três diferentes construtos. Acredita-se que haja para este comportamento uma significativa contribuição teórica, atendendo a uma recomendação de Harrison-Walker (2001), que propõe uma abordagem acadêmica do boca a boca como um construto (em contraponto com a ampla diversidade de análises ‘de mercado’ já desenvolvidas). Assim, acredita-se que a alternativa de mensuração utilizada aqui indica uma contribuição para uma literatura que é limitada em modelos e alternativas de medição. Também foi dado o foco sobre o emissor das ações de boca a boca, em contraste com a maioria dos estudos desenvolvidos, que tendem a enfocar as conseqüências de tal comportamento sobre as ações promocionais (contexto no qual a temática é mais amplamente estudada). O foco dado ao emissor redireciona o estudo para a área de comportamento do consumidor, contexto no qual esta tese se insere, e onde é evidenciada a maior carência de estudos da temática. O estudo seguiu também um caminho com poucos precedentes na literatura revisada, ao analisar o valor como um antecedente da predisposição a boca a boca, da intensidade de tal comportamento, e da favorabilidade com que as emissões são praticadas (conforme pôde ser atestado [Cap. 2], a maioria dos estudos mantém 209 foco nas conseqüências do boca a boca). A análise dos modelos de mensuração partiu de uma variação metodológica em relação aos demais estudos já analisados, uma vez que aqui o construto valor foi operacionalizado de três formas distintas. A implicação deste procedimento para a literatura se insere no debate do eixo conceitual e de escopo de valor, que, conforme comentado (Cap. 2), tem em seu conceito certa dubiedade, denunciada por alguns dos autores pesquisados (RUST; OLIVER, 1994; LIN; SHER; SHIH, 2005). A opção metodológica evidencia algumas diferenças, de acordo com a alternativa de operacionalização adotada, o mesmo tendo ocorrido na pesquisa desenvolvida por Lin, Sher e Shih (2005). Nestes termos, o trabalho aqui desenvolvido acrescenta mais informações a esta problemática, não superando, por outro lado, a dúvida sobre qual seja a melhor alternativa de mensuração. Apesar de o foco dado na tese estar muito mais associado às dimensões teóricas de valor para o cliente, reclamação e boca a boca, acredita-se que os resultados também contribuem para os estudos que são desenvolvidos sobre formação de gestores, e para a literatura em educação em administração, literatura esta que possui sua própria dinâmica de desenvolvimento, em nível internacional, e, mais recentemente no Brasil (a partir da definição de ensino e pesquisa em administração como área de pesquisa nos eventos científicos brasileiros, com destaque para o ENANPAD). Em especial para as análises de cursos de pós-graduação, acredita-se que este estudo traga novas indicações para o aprimoramento de análises, mais especificamente, para os cursos de natureza lato sensu, que, como pode ser atestado no Capítulo 4, têm ainda uma grande carência de pesquisas, apesar de estes cursos serem amplamente ofertados pelas instituições de ensino superior. 5.3. IMPLICAÇÕES GERENCIAIS O trabalho desenvolvido envolveu três temáticas distintas, todas estas da maior importância e bastante recorrentes na literatura ‘de mercado’. A razão pela qual esta literatura vem abordando tão enfaticamente estes temas é evidente: as trocas, ou o relacionamento, pressupõem oferta e recebimento de valor. Ademais, o feedback dos clientes é sempre necessário, mesmo que seja na forma de reclamação em 210 razão da insatisfação. Também o comportamento de boca a boca tem um papel especial na era do marketing de relacionamento, e no contexto em que as comunicações pessoais aumentam seu potencial de impacto sobre as organizações, em razão das tecnologias que viabilizam contatos mais rápidos e de maior amplitude. Os resultados da pesquisa são indicativos de informações para o setor de serviços como um todo, que passa a ter, a partir de sua oferta de valor, informações sobre o potencial que este tem na geração de feedback ou comunicação espontânea de clientes. A compreensão do que seja valor, benefício e sacrifício, de sua composição e alternativas de interpretação a partir da perspectiva dos clientes é uma necessidade permanente. Nestes termos, o levantamento da literatura e a pesquisa empírica providenciam conhecimentos relevantes para a prática gerencial, que ainda tem na compreensão do valor um desafio. A indicação de que o valor que os clientes percebem influencia os comportamentos de reclamação e de boca a boca fortalece o valor pragmático das informações geradas neste trabalho. Com relação à reclamação, Crié (2003) lembra que esta dá à empresa uma última chance de reter o cliente. Adicionalmente, as empresas não podem deixar de ver na reclamação um benefício, pois, conforme advoga Plymire (1991), a reclamação, no paradigma do marketing de relacionamento, deve ser interpretada como um feedback necessário para as empresas. O estudo mostrou que, efetivamente, o quanto o cliente percebe valor condiciona sua disposição e sua ação de reclamar, apontando para os gestores informações que devem ser levadas em consideração para condicionar tal feedback. Há diversos setores ou produtos que têm na comunicação boca a boca sua principal forma de comunicação de marketing. São exemplos os serviços de entretenimento (cinema, turismo, peças teatrais...), produtos eletrônicos, instituições educacionais, dentre outros (SALZMAN; MATATHIA; O’REILLY, 2003). O boca a boca é também uma alternativa de comunicação das mais eficientes, conforme atestam diversos autores (HARRISON-WALKER, 2001; SALZMAN; MATATHIA; O’REILLY, 2003; BROWN et al., 2005). Neste contexto, a compreensão de fatores que induzem ou intensificam tais comportamentos tem uma importância evidente. Assim, a 211 compreensão de que o valor que os clientes percebem é um relevante antecedente da predisposição a boca a boca, assim como da intensidade de tais ações, providencia relevantes informações para os tomadores de decisão e gestores de serviços. Adicionalmente, a partir da uma perspectiva que considera ‘novas’ possibilidades de comunicação, com suas vantagens (como propaganda a baixo custo), e suas desvantagens (como a difusão de informações negativas [como já há exemplos diversos do dia-a-dia de informações denegrindo empresas ou pessoas por email]), o entendimento dos fatores que conduzem a comunicações favoráveis ganha maior importância. Assim, organizações têm um bom motivo para incrementar a oferta de valor para os clientes, e fazê-los perceber isto, uma vez que tais percepções medeiam a favorabilidade das emissões realizadas. A pesquisa desenvolvida teve ênfase no relacionamento teórico entre as temáticas envolvidas. Por outro lado, a averiguação empírica se deu no setor educacional. É esperado, portanto, que os resultados sejam especialmente relevantes para este contexto de prestação de serviço. Assim, para este setor, os resultados trazem informações adicionais para os diversos estudos já desenvolvidos, acrescentando-se aqui a comprovação da relação entre três aspectos que são da maior relevância na oferta destes serviços. De modo mais específico para os cursos de pós-graduação do tipo lato sensu, acredita-se que os resultados aqui encontrados atendem a uma demanda deste mercado, que é bastante amplo, envolve todos os tipos de instituições de ensino superior, além de outras não IES, mas que é evidentemente carente de estudos tais como estes aqui desenvolvidas (cf. item 4.1). As instituições têm assim maiores informações sobre os elementos de valor relevantes, além do condicionamento que estes têm sobre os comportamentos de reclamação e de boca a boca. Acredita-se ainda que os resultados sejam relevantes para os gestores de tais cursos. A experiência e os contatos diversos com o ambiente acadêmico informam que tais cursos trazem bons retornos. Por outro lado, são recorrentes dificuldades quanto à captação e manutenção de alunos. Partindo-se do pressuposto de que a 212 oferta de valor aos clientes é o que condiciona a permanência dos alunos, de que a reclamação é um importante fator de aprimoramento das diversas atividades desenvolvidas, e de que as recomendações pessoais estão entre as principais formas de comunicação de marketing, o entendimento amplificado de cada um destes aspectos, e da forma como estes se relacionam, configura para os gestores relevantes informações para o planejamento de suas ofertas e para o melhor gerenciamento do relacionamento. 5.4. LIMITAÇÕES E SUGESTÕES DE FUTURAS PESQUISAS Como todos os estudos de natureza científica, diversas foram as restrições a que este trabalho foi submetido, desencadeando assim diversas limitações. Entende-se que cada uma das limitações desencadeia a sugestão de novos desenvolvimentos de pesquisa. Assim, ao se comentar as limitações são também comentadas as sugestões. Uma primeira limitação consistiu na seleção dos comportamentos pós-consumo. A literatura é rica em estudos envolvendo valor com lealdade, satisfação, predisposição à fidelidade, predisposição à recompra, dentre outros (cf. Cap. 2). Caberia uma explanação envolvendo mais modelos que integrem os diversos outros construtos, com uma abordagem mais ampla dos dois comportamentos aqui analisados, especialmente o boca a boca, que indicou ter uma forte associação com valor percebido. As decisões sobre a amostragem, com um número pequeno de elementos em relação ao universo e com abordagem por conveniência, são fatores que comprometem a possibilidade de generalização dos resultados. Assim, uma sugestão seria proceder a um levantamento de dados por meio de definições mais rigorosas de amostragem, e promover uma comparação dos resultados. O universo de pesquisa também foi muito específico, dada a necessidade de recortes em estudos desta natureza. Nestes termos, uma sugestão seria estender a pesquisa para cursos de outras naturezas, como aqueles das áreas de Saúde, de Ciências Exatas, de Ciências Agrárias, ou mesmo para as diversas possibilidades 213 nas áreas de Ciências Humanas e Sociais. Também seria recomendável a verificação dos mesmos modelos aqui testados em cursos de graduação, ou cursos stricto sensu. Os resultados seriam especialmente relevantes para cursos de graduação que são o serviço principal da grande maioria das instituições de ensino privadas, e que enfrentam problemas de captação, e de manutenção de alunos. Também o escopo geográfico foi bastante restrito, limitando-se aos cursos de uma só cidade. Sugere-se que os modelos fossem submetidos, em uma replicação, a uma amostra de estudantes de cidades, Estados e regiões distintas. Além destas limitações, que foram de natureza mais metodológica, ainda outras relacionadas aos elementos teóricos que foram pesquisadas, e merecem ser lembradas e comentadas. Como atestaram os resultados da pesquisa empírica, o comportamento de reclamação teve dificuldades em sua utilização nos modelos propostos. Duas hipóteses são imediatas: ou os construtos não foram adequadamente analisados, por dificuldades de mensuração ou por problemas de questionário; ou não há, efetivamente, a imaginada relação entre valor e reclamação. Os resultados indicaram que houve problemas de mensuração no construto ação de reclamar, mas o mesmo não ocorreu com o construto predisposição a reclamar (mesmo assim, estes dois se apresentaram com elevada variância compartilhada). Nestes termos, caberia uma maior exploração da relação entre valor e reclamação, em uma perspectiva com ou sem o construto satisfação (este sempre presente nos diversos trabalhos pesquisados, mas que, por definição, já é o principal antecedente da reclamação). Outras especulações envolvendo reclamação e valor poderiam surgir a partir da relação direta das várias dimensões de valor, procedimento este não realizado aqui. O comportamento de boca a boca foi analisado em duas diferentes condições, na forma de três construtos. Este procedimento em um mesmo trabalho não encontrou precedentes na literatura, mas apresentou-se consistente. Nestes termos, sugere-se que este seja replicado e/ou ampliado, como forma de aprimorar a análise acadêmica e a aplicação prática do referido comportamento. 214 Especificamente em relação ao valor percebido, os resultados mostraram que as proposições conceituais envolvendo sacrifícios monetário e não monetário com valor foram em parte rejeitadas. As justificativas possíveis são: ou os construtos não exercem, efetivamente, influência negativa sobre valor; ou a estratégia de mensuração utilizada não foi adequadamente desenvolvida. A primeira hipótese gera um problema de ordem conceitual, que poderia ser justificado a partir de características setoriais, mas tal tentativa não encontra fôlego, posto que a natureza do serviço não parece justificar tal possibilidade. Acredita-se, portanto, que a explicação esteja na segunda justificativa, o que sugere uma reflexão sobre as estratégias de mensuração que vêm sendo utilizadas. Com efeito, a forma aqui adotada não foi muito diferente daquelas recorrentes na literatura, e resultados problemáticos também foram identificados na literatura pesquisada, ficando o destaque para o caso de Petrick (2004), que também teve problemas com o sacrifício não monetário (este autor desenvolver e utilizou uma escala que influenciou bastante esta que foi aqui utilizada [PETRICK, 2002; Cf. Cap. 2]). De fato, não é muito claro se as medidas são do sacrifício ou do benefício do baixo sacrifício. Caberia assim um aprofundamento desta questão, que se insere no desafio da literatura sobre a problemática conceitual de valor para o cliente. Por fim, uma sugestão de pesquisa que efetivamente merece ser desenvolvida concerne ainda à problemática conceitual do valor. Conforme observado, um conceito de valor consistente e universal ainda não foi consolidado, a não ser aquele que entende no valor uma interação entre benefícios e sacrifícios. Por outro lado, as dificuldades ainda permanecem, e a relevância da temática impõe a necessidade de novas e amplas reflexões. Aqui se optou pelo desenvolvimento da pesquisa a partir de três alternativas de operacionalização do valor percebido como construto. Os resultados foram, por outro lado, oscilantes, apesar de em qualquer deles estar sempre presente na composição do valor elementos de benefício e sacrifício (resultados semelhantes foram observados no estudo de Lin, Sher e Shih [2005]), Caberia, portanto, a ampliação desta análise, como forma de solucionar as dificuldades operacionais do construto. 215 REFERÊNCIAS AJZEN, I. Nature and operation of attitudes. Annual Review of Psychology. Vol. 52, p. 27-58, 2001. ALEXANDRIS, K.; DIMITRIADIS, N.; MARKATA, D. Can perceptions of services quality predict behavioral intentions? An exploratory study in the hotel sector in Greece. Managing Service Quality. Vol. 12, Nº 4, p. 224-231. 2002. ANDERSON, E. W. 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Customer perceived value, satisfaction, and loyalty: the role of switching costs. Psychology and Marketing. Vol. 2, N° 10, p. 799-822, October, 2004. 227 APÊNDICES 228 APÊNDICE 1 - ROTEIRO DAS ENTREVISTAS EM PROFUNDIDADE Bom dia / boa tarde / boa noite. Estou pedindo sua colaboração para a realização de um trabalho de tese, que visa analisar algumas de suas percepções e comportamentos em relação à instituição onde você estuda. Peço sua colaboração para o encaminhamento deste propósito. 1. Caracterização: a. Nome _________________________ b. Curso _______________________ c. Instituição ______________________ d. Data ________________________ e. Observações ____________________________________________________ _________________________________________________________________ 2. Valor percebido: a. Na sua decisão por fazer este curso nesta instituição, cite os fatores de maior influência em termos de benefício recebido e esperado, considerando: - Aspectos relacionados à qualidade - Aspectos emocionais - Aspectos relacionados à reputação da instituição b. Cite também os fatores ponderados em termos de sacrifícios realizados, considerando agora: - O custo monetário - Outros sacrifícios, tais como esforço, tempo e risco. c. Você seria capaz de descrever o que percebe de valor neste serviço de uma maneira geral? De que maneira esta percepção determinou sua escolha por instituição e determina sua permanência aqui? 3. Comportamento de reclamação a. Você costuma reclamar em situações de insatisfação, ou tem uma posição mais tolerante em situações problemáticas? Em casos de predisposição a reclamar, você costuma esperar o máximo possível ou prefere não esperar para ver se soluções surgirão? b. Quais são, em sua opinião, os principais motivos que lhe despertam o desejo 229 de proceder a reclamação? E quais são os motivos que, definitivamente, o conduzem a proceder a atos de reclamação? c. Quando você opta por proceder a uma reclamação, em que situações você procederia: - Reclamação direta - Meio judicial - Imprensa - Associações e representações de clientes 4. Comportamento de boca a boca a) Você se considera como uma pessoa com predisposição a falar, fora do contexto de estudo, sobre a instituição, seja para amigos, parentes, colegas de trabalho? Em casos de afirmativo, é comum você fazer da instituição um de seus assuntos preferidos? b) Quais são, em sua opinião, os principais motivos que lhe despertam o desejo de proceder a atividades de boca a boca? E quais são os motivos que, definitivamente, o conduzem a proceder estas atividades? c) Quando você opta por falar dos serviços da instituição para outras pessoas, seus comentários tendem a ser favoráveis ou desfavoráveis? Em que situações cada uma das opções é mais provável? d) Quando você opta por falar dos serviços da instituição para outras pessoas, você tem tendência a falar muito ou pouco? Em que situações cada uma das opções é mais provável? 5. Comentários adicionais _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ _________________________________________________________________ 230 APÊNDICE 2 – INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS QUESTIONÁRIO Olá, Estou pedindo sua colaboração para a realização de meu trabalho de tese, do Curso de Doutorado em Administração, na Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getulio Vargas (EAESP/FGV). Meu propósito é analisar suas percepções e comportamentos em relação ao curso que realiza. Peço sua colaboração para o encaminhamento deste propósito. 1. Qual o curso que você está fazendo? ___________________________________ ___________________________________________________________________ 2. Qual a sua área de formação no curso de graduação? a) [ ] Ciências Humanas e Sociais b) [ ] Ciências Exatas e Tecnológicas c) [ ] Ciências Agrárias d) [ ] Ciências da Saúde 3. Você trabalha ou trabalhou em atividades associadas ao curso? a) [ ] Sim (passe para a questão 4) b) [ ] Não (passe para a questão 5) 4. Quanto tempo de experiência você tem ou teve na área do curso? a) [ ] Até 5 anos b) [ ] Entre 5 e 10 anos c) [ ] Entre 10 e 15 anos d) [ ] Mais de 15 anos 5. Atualmente você está: a) [ ] Desempregado(a) b) [ ] Afastado(a) do trabalho (por doença, para estudo...) c) [ ] Trabalhando em meio turno d) [ ] Trabalhando integralmente 231 6. Aponte o principal motivo de sua decisão de realizar este curso de pósgraduação, dentre as opções a seguir: a) [ ] Desejo pessoal de aperfeiçoamento b) [ ] Exigência do seu emprego c) [ ] Preparação para o mercado d) [ ] Preparação para um mestrado e) [ ] Outros______________________________________________________ 7. A seguir, temos uma série de afirmações sobre características do curso que representam benefícios. Pedimos que seja apontado o quanto você CONCORDA ou DISCORDA de cada uma delas. Para tanto, adotamos como padrão de resposta o seguinte: 1 indicará que você discorda totalmente; 7 indicará que você concorda totalmente; os números intermediários correspondem a seu grau de concordância no intervalo entre estes dois extremos. a. As atividades do curso são adequadamente desenvolvidas 1 2 3 4 5 6 7 b. A instituição promotora do curso tem boa reputação 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 c. O curso traz o benefício de viabilizar a troca de experiências entre colegas d. O serviço prestado no curso é muito confiável e. O conjunto de benefícios do curso é compatível com o conjunto de sacrifícios realizados f. O ‘nome’ da instituição promotora do curso é forte no mercado g. Os professores têm boa competência ‘de mercado’ h. O relacionamento com a turma que é propiciado pelo curso é bastante positivo i. O conteúdo do curso é adequado 1 2 3 4 5 6 7 j. O curso tem bom conceito de mercado 1 2 3 4 5 6 7 k. Os professores têm boa competência ‘acadêmica’ 1 2 3 4 5 6 7 l. 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 o. O curso tem uma boa imagem externa 1 2 3 4 5 6 7 p. O currículo está alinhado com as demandas profissionais 1 2 3 4 5 6 7 q. O que recebo neste curso compensa bem o que pago 1 2 3 4 5 6 7 r. 1 2 3 4 5 6 7 s. Tenho orgulho de estudar neste curso 1 2 3 4 5 6 7 t. 1 2 3 4 5 6 7 A partir do curso viabilizam-se bons contatos para negócios m. O trabalho de coordenação do curso é adequado n. O curso traz a vantagem de viabilizar a formação de uma rede de contatos profissionais O curso é um bom lugar para interação com outros profissionais Os professores têm boa ‘competência didática’ 232 8. Sobre o que o curso exige, em relação ao preço pago, ao esforço e ao tempo demandados, dentre outras exigências, novamente pedimos que aponte seu nível de concordância com cada uma das afirmações a seguir, sendo que 1 indica discordância total, 7 indica concordância total, os números intermediários indicam graus de concordância entre estes dois extremos. a. O preço pago na mensalidade do curso é adequado 1 2 3 4 5 6 7 b. O curso tem uma demanda de tempo apropriada 1 2 3 4 5 6 7 c. O dinheiro gasto no curso é um bom investimento 1 2 3 4 5 6 7 d. O curso demanda um esforço apropriado 1 2 3 4 5 6 7 e. A soma do gasto em dinheiro no curso está adequada 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 g. Apesar do cansaço e do stress, não é difícil fazer este curso 1 2 3 4 5 6 7 h. Considero o gasto em dinheiro com este curso excessivo e injusto 1 2 3 4 5 6 7 i. Considero apropriado o esforço necessário para fazer este curso 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 k. As atividades do curso exigem um esforço adequado 1 2 3 4 5 6 7 l. Entendo que tenho um gasto adequado para realizar este curso 1 2 3 4 5 6 7 f. Considero que o que recebo no curso esteja adequado com os sacrifícios que tenho que fazer j. Comparativamente com o que dou, o curso atende as minhas necessidades 9. A seguir temos um conjunto de questões sobre seu comportamento de reclamar ou proceder a ações de boca a boca sobre o curso. Gostaria que você apontasse o seu nível de concordância, sendo que 1 significa que você discorda totalmente, 7 significa que você concorda totalmente, e os números intermediários indicam graus de concordância entre estes dois extremos. a) Falo bastante sobre este curso 1 2 3 4 5 6 7 b) Tenho reclamado sobre os serviços associados ao curso 1 2 3 4 5 6 7 c) Falo mais positivamente que negativamente sobre o curso 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 e) Sempre que posso, recomendo o curso para outras pessoas 1 2 3 4 5 6 7 f) 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 d) Eu reclamo sobre os problemas do curso sempre que vejo necessidade Externamente, procuro falar bem do curso e da organização. g) O curso é um de meus assuntos rotineiros h) Sempre que me sinto prejudicado(a) por eventuais problemas do curso, costumo reclamar i) Nas oportunidades que tenho, converso bastante sobre o curso j) Prefiro dar sempre informações positivas sobre o curso e a organização k) Menciono este curso para outras pessoas com grande freqüência 233 l) Tenho preferência por comentar os assuntos favoráveis sobre o 1 2 3 4 5 6 7 m) NÃO sou de reclamar sobre os problemas do curso 1 2 3 4 5 6 7 n) Eu raramente falo sobre o curso 1 2 3 4 5 6 7 curso 10. Agora gostaria que você respondesse as questões a seguir sobre sua predisposição a reclamar ou falar sobre o curso. Na escala apontada, 1 significa muito improvável, 7 significa muito provável; os demais espaços indicam posições intermediárias. a) Probabilidade de motivar outras pessoas a fazer este curso 1 2 3 4 5 6 7 b) Probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso 1 2 3 4 5 6 7 c) Probabilidade de falar sobre o curso, se a ocasião permite 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 1 2 3 4 5 6 7 d) Probabilidade de reclamar junto ao gestor ou outro responsável caso percebesse que os serviços ligados ao curso fossem ruins e) Probabilidade de dar recomendações deste curso e desta instituição para outras pessoas f) Probabilidade de encorajar amigos ou parentes a fazer este curso g) Probabilidade de procurar os responsáveis pelo curso para apresentar queixas sobre problemas detectados h) Probabilidade de recomendar o curso para alguém que procurasse por conselho i) Probabilidade de fazer reclamações quando percebe problemas nas atividades do curso j) Probabilidade de apresentar queixas problemáticas que surgem 11. Qual sua idade? a) [ ] até 30 anos b) [ ] acima de 30 até 40 anos c) [ ] acima de 40 até 50 anos d) [ ] mais de 50 anos 12. Qual seu sexo? a) [ ] masculino b) [ ] feminino 13. Qual o seu estado civil? a) [ ] solteiro(a) b) [ ] casado(a) sobre as atividades 234 c) [ ] outro 14. Qual a sua renda familiar mensal? a) [ ] até R$ 1000,00 b) [ ] acima de R$ 1000,00 até R$ 2000,00 c) [ ] acima de R$ 2000,00 até R$ 3000,00 d) [ ] acima de R$ 3000,00 até R$ 4000,00 e) [ ] acima de R$ 4000,00 235 APÊNDICE 3 - FREQÜÊNCIAS NAS RESPOSTAS APÊNDICE 3a - CONSTUTOS ASSOCIADOS AO VALOR PERCEBIDO GRAU DE CONCORDÂNCIA 1 2 3 4 5 6 QUALIDADE PERCEBIDA curso são 1,6 3,6 11,7 29,4 28,6 19 CONSTRUTOS E VARIÁVEIS X1 As atividades do adequadamente desenvolvidas X4 - O serviço prestado no curso é muito 2,4 1,6 5,2 11,3 confiável X7 - Os professores têm boa competência ‘de 1,2 1,6 4,8 8,9 mercado’ X9 - O conteúdo do curso é adequado 1,2 3,2 6,9 16,1 X11 - Os professores têm boa competência 0,8 3,2 2,0 7,7 ‘acadêmica’ X13 - O trabalho de coordenação do curso é 1,6 3,6 11,7 29,4 adequado X16 - O currículo está alinhado com as 0,4 2,4 3,2 12,9 demandas profissionais X20 - Os professores têm boa ‘competência 1,2 3,6 6,0 16,9 didática’ REPUTAÇÃO PERCEBIDA X2- A instituição promotora do curso tem boa 2,0 1,2 2,4 6,9 reputação X6 - O ‘nome’ da instituição promotora do curso 2,0 2,0 6,9 7,7 é forte no mercado X10 - O curso tem bom conceito de mercado 2,0 1,2 3,6 12,9 X15 - O curso tem uma boa imagem externa 2,4 2,4 6,0 14,1 X19 - Tenho orgulho de estudar neste curso 3,2 3,2 8,1 16,1 VALOR SOCIAL PERCEBIDO X3 - O curso traz o benefício de viabilizar a 1,2 2,8 1,2 7,3 troca de experiências entre colegas X8 - O relacionamento com a turma que é 1,2 1,6 2,0 7,3 propiciado pelo curso é bastante positivo X12 - A partir do curso viabilizam-se bons 2,0 2,4 11,3 20,2 contatos para negócios X14- O curso traz a vantagem de viabilizar a 1,6 4,4 7,7 15,7 formação de uma rede de contatos profissionais X18 - O curso é um bom lugar para interação 0,8 2,4 5,2 8,5 com outros profissionais PREÇO MONETÁRIO PERCEBIDO X21 - O preço pago na mensalidade do curso é 2,0 2,0 4,4 20,2 adequado X23 - O dinheiro gasto no curso é um bom 1,6 2,8 4,0 6,9 investimento X25 - A soma do gasto em dinheiro no curso 0,8 2,8 4,8 18,1 está adequada X28 - Considero o gasto em dinheiro com este 29 25,8 16,1 13,7 curso excessivo e injusto X32 - Entendo que tenho um gasto adequado 0,8 3,2 7,7 14,1 para realizar este curso PREÇO NÃO MONETÁRIO PERCEBIDO X22 - O curso tem uma demanda de tempo 4,0 6,0 9,3 16,5 apropriada X24 - O curso demanda um esforço apropriado 0,4 2,4 4,8 10,5 7 TOTAL 6,0 100,0 17,3 100,0 23,8 32,3 27,4 100,0 29,4 31,9 11,3 100,0 31,0 23 28,6 31 32,7 30,6 6,0 100,0 32,7 33,1 15,3 100,0 25,8 15,3 100,0 13,7 33,5 40,3 100,0 13,7 27,0 40,7 100,0 25,4 33,5 21,4 22,2 30,2 22,6 17,3 29,8 22,2 100,0 100,0 100,0 24,6 27,8 35,1 100,0 18,5 28,2 41,1 100,0 31,9 21,0 11,3 100,0 21,8 31,5 17,3 100,0 23,8 29,8 29,4 100,0 29,4 25,8 16,1 100,0 26,6 31,5 26,6 100,0 27,8 32,7 12,9 100,0 10,1 0,8 100,0 31,5 28,6 14,1 100,0 27 19 100,0 31 4,4 28,2 8,9 100,0 25,4 35,9 20,6 100,0 236 X27 - Apesar do cansaço e do stress, não é 2,4 3,6 8,5 difícil fazer este curso X29 - Considero apropriado o esforço 2,0 1,6 8,1 necessário para fazer este curso X31 - As atividades do curso exigem um esforço 2,4 1,6 6,0 adequado VALOR PERCEBIDO GERAL X5 - O conjunto de benefícios do curso é compatível com o conjunto de sacrifícios 2,0 2,8 10,1 realizados X17 - O que recebo neste curso compensa bem 1,6 5,2 9,3 o que pago X26 - Considero que o que recebo no curso esteja adequado com os sacrifícios que tenho 2,4 5,6 9,3 que fazer X30 - Comparativamente com o que dou, o 3,6 3,2 7,7 curso atende as minhas necessidades 11,3 21,4 32,7 20,2 100,0 14,9 27,4 28,2 17,7 100,0 12,9 35,1 29,8 12,1 100,0 18,1 26,2 26,6 14,1 100,0 20,2 29,0 21,0 13,7 100,0 16,9 30,6 25,0 10,1 100,0 17,7 29,8 27,8 10,1 100,0 APÊNDICE 3b - CONSTRUTOS ASSOCIADOS ÀS AÇÕES COMPORTAMENTAIS GRAU DE CONCORDÂNCIA 1 2 3 4 5 6 INTENSIDADE DE BOCA A BOCA Y1 - Falo bastante sobre este curso 3,6 8,5 9,7 21,4 22,6 22,2 Y7 - O curso é um de meus assuntos rotineiros 10,1 12,9 18,1 21,8 16,9 10,1 Y9 - Nas oportunidades que tenho, converso 4,0 11,3 14,1 16,9 23,4 16,1 bastante sobre o curso Y11 - Menciono este curso para outras pessoas 7,3 12,5 16,1 16,9 20,2 16,1 com grande freqüência Y14 - Eu raramente falo sobre o curso 33,9 14,9 15,7 12,9 8,5 10,1 FAVORABILIDADE DE BOCA A BOCA Y3 Falo mais positivamente que 6,0, 3,6 6,5 11,7 20,2 33,9 negativamente sobre o curso Y5 - Sempre que posso, recomendo o curso 8,1 6,9 8,1 12,1 21,8 23,0 para outras pessoas Y6 - Externamente, procuro falar bem do curso 4,0 3,6 4,8 15,7 18,1 31,5 e da organização. Y10 - Prefiro dar sempre informações positivas 4,0 4,8 6,5 14,1 24,2 26,2 sobre o curso e a organização Y12 - Tenho preferência por comentar os 4,0 8,1 10,5 17,7 20,2 25,4 assuntos favoráveis sobre o curso AÇÃO DE RECLAMAÇÃO Y2 - Tenho reclamado sobre os serviços 16,9 15,7 13,7 14,1 17,7 9,3 associados ao curso Y4 - Eu reclamo sobre os problemas do curso 5,2 8,5 7,7 14,9 16,5 24,6 sempre que vejo necessidade Y8 - Sempre que me sinto prejudicado(a) por eventuais problemas do curso, costumo 5,6 8,1 12,1 14,9 19,0 18,5 reclamar Y13 - NÃO sou de reclamar sobre os problemas 27,0 16,5 10,5 15,7 15,3 12,1 do curso* CONSTRUTOS E VARIÁVEIS 7 TOTAL 12,1 100,0 10,1 100,0 100,0 14,1 10,9 100,0 4,0 100,0 18,1 20,2 22,2 20,2 14,1 12,5 22,6 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 100,0 21,8 2,8 100,0 237 APÊNDICE 3c - CONSTRUTOS COMPORTAMENTAIS ASSOCIADOS ÀS PREDISPOSIÇÕES GRAU DE CONCORDÂNCIA TOTAL 1 2 3 4 5 6 7 PREDISPOSIÇÃO A AÇÕES DE BOCA A BOCA Z1 - Probabilidade de motivar outras pessoas a 8,5 5,6 8,1 17,3 20,2 23,4 16,9 100,0 fazer este curso Z3 - Probabilidade de falar sobre o curso, se a 2,0 3,6 5,6 16,1 25,8 27 19,8 100,0 ocasião permite Z5 - Probabilidade de dar recomendações deste 4 4,8 8,1 15,3 19,8 27,4 20,6 100,0 curso e desta instituição para outras pessoas Z6 - Probabilidade de encorajar amigos ou 6,9 4,8 9,3 15,3 18,1 27,8 17,7 100,0 parentes a fazer este curso Z8 - Probabilidade de recomendar o curso para 4,4 6,5 8,9 12,1 21,4 27,8 19 100,0 alguém que procurasse por conselho PREDISPOSIÇÃO A AÇÕES DE RECLAMAÇÃO Z2 - Probabilidade de reclamar se estou 6,9 12,5 12,1 23 16,5 13,7 15,3 100,0 insatisfeito com o curso Z4 - Probabilidade de reclamar junto ao gestor ou outro responsável caso percebesse que os 3,6 5,6 8,9 16,5 20,6 19 25,8 100,0 serviços ligados ao curso fossem ruins Z7 - Probabilidade de procurar os responsáveis pelo curso para apresentar queixas sobre 3,6 6,9 10,5 20,2 18,5 18,5 21,8 100,0 problemas detectados Z9 - Probabilidade de fazer reclamações 100,0 quando percebe problemas nas atividades do 4,4 6,5 8,9 12,1 21,4 27,8 19 curso Z10 - Probabilidade de apresentar queixas 2,0 4,8 11,3 20,6 21 18,5 21,8 100,0 sobre as atividades problemáticas que surgem CONSTRUTOS E VARIÁVEIS 238 APÊNDICE 4 – CONFIABILIDADE DAS ESCALAS APÊNDICE 4a - CONFIABILIDADE DOS CONSTRUTOS ASSOCIADOS A VALOR PERCEBIDO Itens QUALIDADE PERCEBIDA - 0,8940 X1 - As atividades do curso são adequadamente desenvolvidas X4 - O serviço prestado no curso é muito confiável X7 - Os professores têm boa competência ‘de mercado’ X9 - O conteúdo do curso é adequado X11 - Os professores têm boa competência ‘acadêmica’ X13 - O trabalho de coordenação do curso é adequado X16 - O currículo está alinhado com as demandas profissionais X20 - Os professores têm boa ‘competência didática’ REPUTAÇÃO PERCEBIDA - 0,8906 X2- A instituição promotora do curso tem boa reputação X6 - O ‘nome’ da instituição promotora do curso é forte no mercado X10 - O curso tem bom conceito de mercado X15 - O curso tem uma boa imagem externa X19 - Tenho orgulho de estudar neste curso BENEFÍCIO SOCIAL PERCEBIDO - 0,8516 X3 - O curso traz o benefício de viabilizar a troca de experiências entre colegas X8 - O relacionamento com a turma que é propiciado pelo curso é bastante positivo X12 - A partir do curso viabilizam-se bons contatos para negócios X14- O curso traz a vantagem de viabilizar a formação de uma rede de contatos profissionais X18 - O curso é um bom lugar para interação com outros profissionais PREÇO MONETÁRIO PERCEBIDO - 0,8495 X21 - O preço pago na mensalidade do curso é adequado X23 - O dinheiro gasto no curso é um bom investimento X25 - A soma do gasto em dinheiro no curso está adequada X28 - Considero o gasto em dinheiro com este curso excessivo e injusto X32 - Entendo que tenho um gasto adequado para realizar este curso PREÇO NÃO MONETÁRIO PERCEBIDO - 0,7772 X22 - O curso tem uma demanda de tempo apropriada X24 - O curso demanda um esforço apropriado X27 - Apesar do cansaço e do stress, não é difícil fazer este curso X29 - Considero apropriado o esforço necessário para fazer este curso X31 - As atividades do curso exigem um esforço adequado VALOR PERCEBIDO GERAL – 0,8841 X5 - O conjunto de benefícios do curso é compatível com o conjunto de sacrifícios realizados X17 - O que recebo neste curso compensa bem o que pago X26 - Considero que o que recebo no curso esteja adequado com os sacrifícios que tenho que fazer X30 - Comparativamente com o que dou, o curso atende as minhas necessidades Alpha se o item for excluído 0,8864 0,8734 0,8768 0,8828 0,8730 0,8888 0,8792 0,8735 0,8545 0,8746 0,8656 0,8488 0,8906 0,8214 0,8427 0,8319 0,8005 0,8057 0,7980 0,8254 0,7796 0,8694 0,8174 0,7641 0,7064 0,7934 0,6950 0,7165 0,8720 0,8277 0,8427 0,8607 239 APÊNDICE 4b - CONFIABILIDADE DOS CONSTRUTOS ASSOCIADOS ÀS AÇÕES Itens INTENSIDADE DAS AÇÕES DE BOCA A BOCA – 0,8315 Y1 - Falo bastante sobre este curso Y7 - O curso é um de meus assuntos rotineiros Y9 - Nas oportunidades que tenho, converso bastante sobre o curso Y11 - Menciono este curso para outras pessoas com grande freqüência Y14 - Eu raramente falo sobre o curso FAVORABILIDADE DAS AÇÕES DE BOCA A BOCA – 0,9059 Y3 - Falo mais positivamente que negativamente sobre o curso Y5 - Sempre que posso, recomendo o curso para outras pessoas Y6 - Externamente, procuro falar bem do curso e da organização. Y10 - Prefiro dar sempre informações positivas sobre o curso e a organização Y12 - Tenho preferência por comentar os assuntos favoráveis sobre o curso AÇÃO DE RECLAMAÇÃO – 0,6466 Y2 - Tenho reclamado sobre os serviços associados ao curso Y4 - Eu reclamo sobre os problemas do curso sempre que vejo necessidade Y8 - Sempre que me sinto prejudicado(a) por eventuais problemas do curso, costumo reclamar Y13 - NÃO sou de reclamar sobre os problemas do curso* Alpha se o item for excluído 0,7951 0,7870 0,7711 0,7729 0,8566 0,8860 0,8828 0,8697 0,8788 0,9068 0,6780 0,4884 0,5305 0,6018 APÊNDICE 4c- CONFIABILIDADE DOS CONSTRUTOS ASSOCIADOS ÀS AÇÕES Itens PREDISPOSIÇÃO A AÇÕES DE BOCA A BOCA - 0,9151 Z1 - Probabilidade de motivar outras pessoas a fazer este curso Z3 - Probabilidade de falar sobre o curso, se a ocasião permite Z5 - Probabilidade de dar recomendações deste curso e desta instituição para outras pessoas Z6 - Probabilidade de encorajar amigos ou parentes a fazer este curso Z8 - Probabilidade de recomendar o curso para alguém que procurasse por conselho PREDISPOSIÇÃO A AÇÕES DE RECLAMAÇÃO - 0,8821 Z2 - Probabilidade de reclamar se estou insatisfeito com o curso Z4 - Probabilidade de reclamar junto ao gestor ou outro responsável caso percebesse que os serviços ligados ao curso fossem ruins Z7 - Probabilidade de procurar os responsáveis pelo curso para apresentar queixas sobre problemas detectados Z9 - Probabilidade de fazer reclamações quando percebe problemas nas atividades do curso Z10 - Probabilidade de apresentar queixas sobre as atividades problemáticas que surgem Alpha se o item for excluído 0,8880 0,9341 0,8834 0,8773 0,8892 0,9072 0,8612 0,8418 0,8342 0,8353 240 APÊNDICE 5 – COEFICIENTES DE DETERMINAÇÃO NOS MODELOS 5A. COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO (R²) – construtos endógenos do Modelo das ações comportamentais Como é possível verificar na tabela, o construto valor percebido apresentou um elevado valor de R² nas duas alternativas nas quais foi mensurado, o indica um elevado poder de explicação construtos utilizados como antecedentes. Já o valor de R² para intensidade de boca a boca pode ser considerado elevado para a alternativa do valor como construto unidimensional, mas é baixo nos dois demais, indicando a existência de outros fatores de influencia além do valor. Para favorabilidade de boca a boca, houve uma inversão em relação à intensidade, ou seja, para o modelo do valor unidimensional o R² foi baixo (0,280), e nas demais alternativas, os valores foram elevados. Para reclamação, verificou-se que o poder de explicação do valor foi muito baixo onde este pôde ser avaliado. Construto Valor unidimensional Valor percebido Intensidade de boca a boca Favorabilidade de boca a boca Reclamação 0,810 0,546 0,280 ª Valor multidimensional formativo 0,763 0,307 0,601 0,062 Valor multidimensional reflexivo 0,235 0,505 0,074 5B. COEFICIENTE DE DETERMINAÇÃO (R²) – construtos endógenos do Modelo das predisposições comportamentais Como nos modelo anterior, neste o R² para valor foi bastante elevado, nas duas opções onde foi possível sua extração (0,806 e 0,707). Para a predisposição a boca a boca, nas três medições realizadas o coeficiente foi mediano ou elevado, o oposto ocorrendo em relação à predisposição à reclamação, que apresentou, em todas as medições, coeficientes muito baixos. Construto Valor percebido Predisposição a boca a boca Predisposição a reclamação Valor unidimensional 0,806 0,556 0,028 Valor multidimensional formativo 0,707 0,618 0,062 Valor multidimensional reflexivo 0,453 0,039