21 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 ISSN 1517-8595 EFEITO DA TEMPERATURA E TEOR DE GORDURA NAS PROPRIEDADES TERMOFÍSICAS DO LEITE DE COCO Lizzy Ayra Pereira Alcântara1, Rafael da Costa Ilhéu Fontan2, Renata Cristina Ferreira Bonomo3, Alana Rocha Lemos4 RESUMO Neste trabalho estudou-se o efeito da temperatura (5°C a 80°C) e do teor de gordura (10.5% a 20.1%) nas propriedades termofísicas densidade, calor específico, difusividade térmica e condutividade térmica do leite de coco. Verificou-se que um aumento do teor de gordura causou um decréscimo nos valores de todas as propriedades. A densidade foi afetada negativamente pelo aumento da temperatura, comportamento contrário ao observado para difusividade térmica e condutividade térmica. Modelos lineares múltiplos foram ajustados aos dados experimentais, sendo adequados para a predição das propriedades em estudo. As equações propostas neste trabalho são simples, de fácil utilização e podem ser usadas satisfatoriamente no dimensionamento e adaptação de equipamentos para o beneficiamento do leite de coco. Palavras-chave: condutividade. composição, modelagem, densidade, difusividade, calor específico, EFFECT OF TEMPERATURE AND FAT CONTENT ON THE COCONUT MILK THERMOPHYSICAL PROPERTIES ABSTRACT The present work demonstrates the effect of temperature (5°C to 80°C) and fat content (10.5% to 20.1%) on the density thermophysical properties, specific heat, thermal diffusivity and thermal conductivity of coconut milk. It was verified that an increase in fat content caused a decrease in the values of all properties. Density was affected negatively by rising temperatures, contrary to the behavior observed in thermal diffusivity and in thermal conductivity. Multiple linear models were applied to experimental data so as to predict the properties under study. The equations proposed in this paper are simple, easy to use and can be employed satisfactorily in the design of equipments for the coconut milk processing. Keywords: composition, modeling, density, diffusivity, specific heat, conductivity. . Protocolo 12-2010-25 de 27/10/2010 1 Doutoranda em Ciência e Tecnologia de Alimentos, Departamento de Tecnologia de Alimentos, Universidade Federal de Viçosa (UFV), Viçosa – MG. E-mail: [email protected]. 2 MSc. em C & T de Alimentos, Professor Assistente, Laboratório de Engenharia de Processos, Departamento de Tecnologia Rural e Animal (DTRA), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), Pça. Primavera, 40, Primavera, Itapetinga – BA. 45700-000. Tel: 77-3261-8659, Fax: 77-3261-8601. E-mail: [email protected] 3 DSc. em C & T de Alimentos, Professora Titular, Laboratório de Engenharia de Processos, DTRA, UESB. E-mail: [email protected] 4 MSc. em Engenharia de Alimentos, Professora do Ensino Médio, Técnico e Tecnológico, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Baiano (IF Baiano), Campus de Senhor do Bonfim – BA. E-mail: [email protected] 22 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco INTRODUÇÃO O leite de coco pode ser definido como uma emulsão do tipo óleo-em-água, obtida por meio da extração do endosperma sólido do coco (Cocos nucifera L.) com ou sem adição de água. Sua composição é feita basicamente de água e gorduras, e pequenas quantidades de carboidratos, proteínas e cinzas (Simuang et al., 2004). Embora a recuperação do óleo seja uma das maiores preocupações na indústria processadora de coco, nota-se uma crescente demanda para o leite de coco, para uso caseiro e na indústria de alimentos (Seow & Gwee, 1997). Com o aumento da industrialização de alimentos, e a oferta de produtos em locais cada vez mais distantes dos locais de produção, a segurança alimentar passou a ser um fator decisivo para indústrias competitivas. Nesse contexto, além da boa seleção da matéria prima e de práticas adequadas de higiene, é importante que os processos industriais sejam adequados e seguros. Por isso torna-se necessário o conhecimento das propriedades termofísicas dos alimentos, uma vez que as mesmas são essenciais para o correto dimensionamento de equipamentos como bombas e trocadores de calor (Azoubel et al., 2005). Devido à carência de informações sobre o comportamento das propriedades termofísicas em função da composição e da temperatura, o dimensionamento e controle preciso dos equipamentos são difíceis. O tamanho do equipamento é normalmente superestimado levando a um dimensionamento incorreto. As consequências são implicações de custo e qualidade inferior do produto final (Mohsenin, 1980). Choi & Okos (1986) desenvolveram modelos gerais para a predição das propriedades térmicas (condutividade térmica, calor específico e difusividade térmica) de alimentos em função de seus componentes básicos (gordura, proteína, umidade, carboidratos, fibras e cinzas). Nesses modelos, admite-se que cada componente tem as mesmas propriedades térmicas sem considerar a estrutura dos diferentes componentes do alimento (Sweat, 1995). A previsão das propriedades térmicas baseada em fundamentos teóricos é difícil, principalmente devido à Alcântara et al. complexidade física das matrizes dos alimentos. Portanto, medições experimentais devem ser realizadas, a fim de se obter modelos precisos que levem em consideração a estrutura do alimento (Minim et al., 2002). Alguns trabalhos sobre as propriedades termofísicas do leite de coco já foram realizados previamente. Tansakul & Chaisawang (2006) estudaram a variação da condutividade térmica e do calor específico em função do teor de gordura (20% a 35% em massa) e da temperatura (60 °C a 80 °C), enquanto Simuang et al. (2004) estudaram o efeito do teor de gordura (15% a 30% em massa) e da temperatura (70 °C a 90 °C) na viscosidade aparente do leite de coco. No entanto informações sobre outras propriedades, como a densidade e a difusividade térmica, ainda são escassas, principalmente para valores mais baixos do teor de gordura e temperatura. Assim sendo, o objetivo neste trabalho foi determinar como a temperatura (5 °C a 80 °C) e o teor de gordura (10.5 % a 20.1 %) afetam as propriedades termofísicas do leite de coco, densidade, difusividade térmica, e condutividade térrmica e calor específico, bem como propor modelos simples de aplicações práticas. MATERIAIS E MÉTODOS Preparo das amostras Para a realização das análises, foram adquiridos no comércio local (Itapetinga, BA, Brasil), dois lotes de leite de coco integral (20.1% de gordura) e leite de coco parcialmente desengordurado (10.5% de gordura). Para a obtenção das amostras com diferentes teores de gorduras (10.5 %, 12.9%, 15.3%, 17.7% e 20.1%), foram misturados os leites de coco integral e parcialmente desengordurado nas proporções de 0:1, 1:3, 1:1, 3:1 e 1:0, respectivamente. O teor de gordura dos produtos adquiridos no comércio foi determinado em triplicata, de acordo com as normas analíticas do Instituto Adolfo Lutz (IAL, 2008). Para as amostras já misturadas, o teor de gordura foi determinado por balanço de massa. O teor de gordura das amostras está expresso em porcentagem em massa de gorduras em relação ao volume de leite de coco. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco Delineamento experimental Para se estudar o efeito da temperatura e teor de gordura sobre as propriedades termofísicas do leite de coco foram planejados dois experimentos diferentes. Para se estudar as propriedades densidade e difusividade térmica foi montado um experimento no delineamento inteiramente casualizado (DIC) em esquema fatorial 5 X 6 com duas repetições, em triplicata cada uma, sendo 5 níveis para o teor de gordura (10.5 %, 12.9%, 15.3%, 17.7% e 20.1%) e 6 níveis para a temperatura (5°C, 20°C, 35°C, 50°C, 65°C e 80°C ), totalizando 60 unidades experimentais. Já para se estudar as variações no calor específico, foi avaliado apenas o efeito do teor de gordura, em um experimento também no DIC, porém com apenas os cinco níveis para o teor de gordura em duas repetições, mas com quatro replicatas, totalizando 10 unidades experimentais. Os valores para a condutividade térmica foram obtidos via correlação matemática, conforme metodologia descrita abaixo. Os resultados obtidos foram submetidos à Análise de Regressão Linear com os testes F de Fisher e t de Student a 5% de probabilidade. A escolha dos modelos mais adequados para descrever a variação de tais propriedades foi feita com base na falta de ajustamento do modelo (p>0.05), significância dos parâmetros (p<0.05), análises de resíduos e no valor do coeficiente de determinação (R2) em relação aos tratamentos, além da explicação do fenômeno observado. Todas as análises estatísticas foram realizadas no pacote estatístico Statystical Analysis System versão 9.0 (SAS, 2008). Alcântara et al. mA mP VP 23 (1) Em que ρ é a densidade (kg.m-3) da amostra de leite de coco na temperatura desejada, mA é a massa do picnômetro com a amostra (kg), mP é a massa do picnômetro vazio (kg) e Vp é o volume exato (m3) do picnômetro na temperatura desejada. Calor específico O calor específico médio das amostras de leite de coco com diferentes teores de gordura, na temperatura de 25 ºC foi determinado utilizando um calorímetro de mistura (Hwang e Hayakawa, 1979; Muniz et al., 2006) previamente calibrado com água destilada. O calor específico das amostras foi ser calculado utilizando-se a Eq. 2. cp cw mw Ccal Teq T0 ms Ts Teq (2) em que cp é o calor específico da amostra (kJ·kg-1·°C-1), cw é o calor específico da água, Ccal é a capacidade calorífica do calorímetro (kJ·°C-1), mw é a massa de água dentro do calorímetro (kg), ms é a massa de amostra, T0 é a temperatura inicial do calorímetro com água (°C), Ts é a temperatura inicial da amostra e Teq é a temperatura de equilíbrio entre o calorímetro com água e a amostra. Difusividade térmica Determinação das propriedades termofísicas Densidade A determinação gravimétrica da densidade (ρ) das amostras de leite de coco foi realizada utilizando-se uma balança analítica (modelo AG200, Gehaka, São Paulo, Brasil), com dados incerteza ± 0.0001 g e picnômetro com volume nominal de 25 mL (Fontan et al., 2009; Minim et al., 2009). O picnômetro foi previamente calibrado com água destilada para cada temperatura, mantida constante por meio do uso de um banho termostático (Modelo Q214S2, Quimis, São Paulo, Brasil) com incerteza de ± 0.1 ºC. A densidade das amostras foi determinada utilizando-se a Eq. 1. Na determinação da difusividade térmica foi utilizado um método adaptado de Dickerson (1965), empregando uma cápsula metálica de aço inoxidável (3.8 cm de diâmetro, 25.5 cm de altura e 1.0 mm de espessura) com dois termopares de cobre-constantan acoplados, um na superfície externa da cápsula e o outro disposto no plano central da mesma. Calculouse a difusividade térmica para a amostra dentro da cápsula de acordo com a Eq. 3. A R2 4 Text Tint (3) em que é a difusividade térmica (m2·s-1), A é a taxa de subida de temperatura do banho Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 24 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco (°C/min), R é raio interno da célula (m), e (Text – Tint) é a diferença entre a temperatura externa e a temperatura interna da cápsula (°C). Condutividade Térmica Os valores da condutividade térmica das amostras nas temperaturas estudadas foram obtidos utilizando-se uma correlação entre densidade, difusividade térmica e calor específico, conforme Szczesniak (1983) e Belibagli et al. (2003), apresentada na Eq. 4. k cp (4) Tabela 2. Valores experimentais para densidade, difusividade térmica e condutividade térmica do leite de coco em diferentes temperaturas e teores de gordura. T xg α · 107 k · 103 (%) (kg·m-3) 5 10.5 1000.83 3.021 1.216 12.8 1000.09 2.852 1.043 15.3 997.93 2.525 0.992 17.7 996.77 2.374 0.811 20.1 998.66 2.266 0.737 10.5 999.27 3.170 1.274 12.8 997.56 3.302 1.205 15.3 995.51 2.694 0.937 17.7 20.1 994.36 993.35 2.562 2.417 0.873 0.781 10.5 996.87 3.301 1.323 12.8 992.43 3.669 1.331 15.3 17.7 992.91 992.49 3.108 2.875 1.079 0.977 20.1 987.13 2.631 0.845 10.5 991.92 3.603 1.437 12.8 984.38 4.029 1.452 15.3 988.57 3.415 1.180 17.7 980.21 3.343 1.123 20.1 981.85 2.812 0.899 10.5 12.8 988.10 983.67 5.141 5.056 2.043 1.820 15.3 985.27 3.884 1.338 17.7 978.87 3.815 1.280 20.1 10.5 975.51 974.61 3.917 7.527 1.244 2.951 12.8 971.82 6.961 2.473 15.3 963.47 5.526 1.861 17.7 20.1 959.09 963.62 4.928 4.601 1.619 1.442 20 35 50 RESULTADOS E DISCUSSÃO 65 Na Tabela 1 são apresentados os resultados médios do calor específico das amostras de leite de coco, em função do teor de gordura.Os resultados experimentais para densidade, difusividade térmica e condutividade térmica do leite de coco em diferentes temperaturas e teores de gordura são apresentados na Tabela 2. Tabela 1. Valores experimentais par a o calor específico do leite de coco em função do teor de gordura. cp (kJ·kg-1·°C-1) xg (%) 10.5 4.022 12.8 3.657 15.3 3.496 17.7 3.425 3.255 20.1 (m2·s-1) (W·m-1·°C-1) (ºC) onde k é a condutividade térmica (W·m-1·°C-1), α é a difusividade térmica (m²·s-1), ρ é a densidade (kg·m-³) e cP é o calor específico (kJ·kg-1·°C-1). Para o uso desta correlação neste trabalho, o valor do calor específico obtido para cada teor de gordura (na temperatura de 25°C) foi utilizado para toda a faixa de temperatura estudada. Tal consideração foi necessária devido a limitação do método utilizado, mas é embasada na observação de Tansakul & Chaisawang (2006), que verificaram que o teor de gordura tem maior efeito sobre o calor específico do leite de coco, quando comparado à temperatura. Alcântara et al. 80 Densidade Os resultados experimentais para a densidade variaram de 963.62 kg·m-³ a 1000.83 kg·m-³, sendo sua variação em função da temperatura e dos diferentes teores de gordura mostrada na Figura 1 A. O modelo que melhor se ajustou aos dados experimentais é Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco mostrado na Eq. 5, apresentando efeito linear para o teor de gordura e efeito quadrático para a temperatura, que afetou mais pronunciadamente a densidade do leite de coco. Alcântara et al. 1012.0263 0.9044 xg 0.0213 T 0.00495 T 2 25 (5) em que ρ é a densidade do leite de coco (kg·m-³), xg é o teor de gordura (%) e T é a temperatura (ºC). Figura 1. (A) Efeito da temperatura e teor de gordura na densidade do leite de coco. (B) Desvio percentual (Δρ = ρobs - ρpred) entre a densidade observada (ρobs) e predita (ρobs) em função da densidade observada. As linhas tracejadas são dois desvios-padrão de ajuste. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 26 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco Alcântara et al. O modelo ajustado foi significativo ao nível de 1% de probabilidade (p<0.01), apresentou um elevado valor de coeficiente de determinação (R2 = 0.94), falta de ajuste não significativa (p>0.05) e boa dispersão residual, como pode ser visto na Figura 1 B. De modo geral, os resultados obtidos para a densidade apresentaram o comportamento esperado, seguindo a mesma tendência de variação com a temperatura e teor de gordura, como observado por Moura et al. (2001) para soluções modelo similares a creme de leite, Minim et. al (2002) para o leite de vaca e Tansakul & Chaisawang (2006) para leite de coco. Calor específico Os valores médios para o calor específico das amostras de leite de coco em função dos diferentes teores de gordura, bem como o modelo ajustado são apresentados na Figura 2 A e Eq. 6. c p 6.0230 0.2568 xg 0.00601 xg 2 (6) Em que cp é o calor específico do leite de coco (kJ·kg-1·°C-1), xg é o teor de gordura (%). O modelo apresentou um bom ajuste, o que foi confirmado por meio da significância dos parâmetros (p<0.01), do alto valor de R2 de 0.97, falta de ajuste não significativa (p>0.05) e boa dispersão dos resíduos, como pode ser observado na Figura 2 B. Verificou-se que o aumento do teor de gordura afetou negativamente o cp, assumindo menores valores a medida que o teor de gordura aumenta. Esse comportamento era esperado, uma vez que as gorduras possuem menor calor específico que a água, e um aumento desse componente deveria causar a redução nos valores desta propriedade no alimento (Mohsenin, 1980). Tal comportamento também foi observado por Tansakul & Chaisawang (2006), que encontraram valores de cp entre 3.28 kJ·kg1 ·°C-1 a 3.71 kJ·kg-1·°C-1, quando o teor de gordura variou de 20% a 35% (em massa) e a temperatura de 60 °C a 80 °C. Figura 2. (A) Efeito do teor de gordura no calor específico do leite de coco a 25 ºC. (B) Desvio percentual (Δcp = cpobs - cppred) entre o calor específico observado (cpobs) e predito (cppred) em função do calor específico observado. As linhas tracejadas são dois desvios-padrão de ajuste. Difusividade térmica O efeito da variação da temperatura e teor de gordura na difusividade térmica do leite de coco, bem como o modelo ajustado são apresentados na Figura 3 A e Eq. 7, respectivamente. 4.955 107 1.402 108 xg 2.111109 T 7.288 1011 T 2 (7) em que α é a difusividade térmica do leite de coco (m2·s-1), xg é o teor de gordura (%) e T é a temperatura (ºC). O modelo ajustado é adequado para explicar o efeito da temperatura e teor de gordura nesta propriedade, uma vez que seus parâmetros foram significativos (p<0.01), o R2 Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco apresentou um valor satisfatório igual a 0.91, a falta de ajuste não significativa (p>0.05) e a dispersão dos resíduos foi aleatória e nãotendenciosa, como pode ser observado na Figura 3 B. Como pode ser visto na Figura 3 A, verificou-se que a difusividade térmica do leite de coco apresentou uma relação estritamente positiva com a temperatura, enquanto que o aumento do teor de gordura afetou negativamente esta propriedade. Observou-se Alcântara et al. 27 ainda que o efeito da variação da temperatura sobre a difusividade térmica foi maior que o efeito da variação do teor de gordura. Esse mesmo comportamento foi verificado por Telis-Romero et. al (2000) em amostras de extrato de café, Moura et. al (2001) em amostras de creme de leite e Tansakul & Chaisawang (2006) em amostras de leite de coco, mostrando que a temperatura do alimento é um fator que deve ser considerado criteriosamente nos cálculos pertinentes. Figura 3. (A) Efeito da temperatura e teor de gordura na difusividade térmica do leite de coco. (B) Desvio percentual (Δα = αobs - αpred) entre a difusividade térmica observada (αobs) e predita (αpred) em função da difusividade térmica observada. As linhas tracejadas são dois desvios-padrão de ajuste Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 28 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco Alcântara et al. 1.40 103 2.411105 xg Condutividade Térmica São apresentados na Figura 4 A e na Eq. 8, respectivamente, a variação da condutividade térmica do leite de coco em função da temperatura e teor de gordura, e o melhor modelo ajustado. 1.105 105 T 2.594 107 T 2 (8) 1.26 106 xg T em que κ é a condutividade térmica do leite de coco (W·m-1·°C-1), xg é o teor de gordura (%) e T é a temperatura (ºC). Figura 4. (A) Efeito da temperatura e teor de gordura na condutividade térmica do leite de coco. (B) Desvio percentual (Δκ = κobs - κpred) entre a condutividade térmica observada (κobs) e predita (κpred) em função da condutividade térmica observada. As linhas tracejadas são dois desvios-padrão de ajuste. Revista Brasileira de Produtos Agroindustriais, Campina Grande, v.14, n.1, p.21-30, 2012 Efeito da temperatura e teor de gordura nas propriedades termofísicas do leite de coco O modelo ajustado descreve satisfatoriamente a propriedade em questão, visto que o mesmo foi significativo (p<0.01), com a falta de ajuste não significativa (p>0.05) e um R2 de 0.94, além de uma boa dispersão residual, conforme observado na Figura 4 B. Como pode ser visto na figura 4 A, a condutividade térmica do leite de coco teve um aumento quadrático com a elevação da temperatura, enquanto que o incremento do teor de gordura proporcionou uma redução linear do valor dessa propriedade. Este mesmo comportamento também foi observado por Minim et al. (2002) e Tansakul & Chaisawang (2006). Os modelos ajustados neste trabalho mostraram-se simples e adequados para descrever o efeito do teor de gordura e temperatura, nas faixas estudadas, sobre as propriedades em estudo. Apresentaram-se com coeficientes de determinação satisfatórios e uma boa dispersão de resíduos, não sendo tendenciosos. O comportamento observado para todas as propriedades foi semelhante ao que já haviam sido relatados por outros autores, demonstrando confiabilidade nos resultados experimentais. As informações obtidas neste trabalho poderão ser úteis para cálculos mais precisos e dimensionamento de equipamentos mais adequados ao beneficiamento do leite de coco. CONCLUSÕES Verificou-se que a variação de temperatura, entre 5°C e 80°C, e teor de gordura, entre 10.5% e 20.1%, afetou significativamente as propriedades termofísicas densidade, calor específico, difusividade térmica e condutividade térmica. Tais valores foram escolhidos por incluírem condições comumente empregadas na indústria de alimentos. Modelos múltiplos simples foram satisfatoriamente ajustados aos dados experimentais, descrevendo adequadamente o comportamento das propriedades em estudo. O aumento do teor de gordura causou um decréscimo nos valores de todas as propriedades. A densidade foi afetada negativamente pelo aumento da temperatura, comportamento contrário ao observado para difusividade térmica e condutividade térmica. As equações propostas neste trabalho podem ser utilizadas para o cálculo das propriedades termofísicas do leite de coco, considerando as informações sobre a composição disponíveis. Alcântara et al. 29 AGRADECIMENTOS À FAPESB pelo suporte financeiro e à UESB pelo suporte técnico e profissional. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Azoubel, P.M.; Cipriani, D.C.; El-Aouar, A.A.; Antonio, G.C.; Murr, F.E. Effect of concentration on the physical properties of cashew juice. Journal of Food Engineering. v.66, n.4, p. 413-417, 2005. Belibagli, K.B.; Speers, R.A.; Paulson, A.T. Thermophysical properties of silver hake and mackerel surimi at cooking temperatures. Journal of Food Engineering. v.60, p. 439-448, 2003. Choi, Y.; Okos, M.R. 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