UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA MARIA CENTRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS E HUMANAS DEPARTAMENTO DE ECONOMIA CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS: UMA VISÃO DE SUA ATUAÇÃO NO CENÁRIO INTERNACIONAL TRABALHO DE CONCLUSÃO DE CURSO GABRIEL CORRÊA VASCONCELOS FONTES PEREIRA Santa Maria, RS, Brasil 2014 AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS: UMA VISÃO DE SUA ATUAÇÃO NO CENÁRIO INTERNACIONAL Gabriel Corrêa Vasconcelos Fontes Pereira Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação de Relações Internacionais da Universidade Federal de Santa Maria, como requisito parcial para a obtenção de grau de Bacharel em Relações Internacionais. Orientador: Igor Castellano da Silva Santa Maria, RS, Brasil 2014 Universidade Federal de Santa Maria Centro de Ciências Sociais e Humanas Curso de Graduação Bacharelado em Relações Internacionais AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS: UMA VISÃO DE SUA ATUAÇÃO NO CENÁRIO INTERNACIONAL. Elaborado por Gabriel Corrêa Vasconcelos Fontes Pereira como requisito parcial para a obtenção do grau de Bacharel em Relações Internacionais COMISSÃO EXAMINADORA: Igor Castellano da Silva José Renato Silveira Danielle Jacon Ayres Pinto Santa Maria, 09 dezembro de 2014. DEDICATÓRIA Em memória a Leopoldo Ayres de Vasconcelos. (21/12/1932* - 14/09/2014†) AGREDECIMENTOS Ao meu orientador, a minha família pelo apoio incondicional dado na minha graduação, a minha namorada pela paciência e para todos aqueles que contribuíram para minha formação como caráter, em especial ao meu avô Leopoldo. RESUMO AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS: SUAS FORMAS DE ATUAÇÃO NO CENÁRIO INTERNACIONAL. AUTOR: GABRIEL CORRÊA VASCONCELOS FONTES PEREIRA ORIENTADOR: PROFESSOR MESTRE IGOR CASTELLANO DA SILVA Santa Maria, 09 de dezembro de 2014 O estudo terá como tema principal as Empresas Militares Privadas, entendendp como elas atuam no cenário internacional e traçar quais são os principais benefícios e malefícios percebidos na usa utilização. Para compreender esse fenômeno, é necessário entender o surgimento dessas empresas no final da Guerra Fria como características únicas criaram um novo mercado de segurança privada. As hipóteses principais do estudo são: (1) As Empresas Militares Privadas atuam tanto em conflitos armados conflagrados quanto em processos de resolução de conflitos. Na primeira situação, as EMPs podem ter uma participação tanto direta como indireta. No apoio a processos de resolução de conflitos, as EMPs prestam serviços secundários em missões de manutenção de paz como também tem uma participam de processos de Reforma do Setor de Segurança (RSS). (2) O balanço dos benefícios e malefícios está relacionado não apenas com os riscos que cada ator possui ao contratar as EMPs, mas também com os impactos na sociedade em que elas atuarão. Os pontos positivos podem ser destacados como a redução dos dispêndios militares no curto prazo, a mobilização rápida para o cumprimento dos serviços e a prestação de serviços especializados. Aos pontos negativos encontram-se a falta de controle que os contratantes têm sobre os contractors; a dependência do Estado nas EMPs; e o peso político e social que abusos aos direitos humanos por parte de funcionários das EMPs podem causar aos contratantes e a sociedade no seu local de atuação. Uma atuação mais sustentável para a atuação de EMPs parece ocorrer em processos de resolução de conflitos que não envolve emprego de força direto, mas a construção de capacidades, como no caso da Reforma do Setor de Segurança. Palavras-chave: Empresas Militares Privadas; Conflitos armados; Resolução de Conflitos. ABSTRACT The study will have as the main theme the Private Military Companies, trying to understand their effect on the international scene and trace what are the main benefits and disadvantages perceived in their use. To understand this phenomenon, it’s necessary to understand the emergence of these companies at the end of the Cold War as unique features created a new private security market. The main hypothesis of the study are: (1) The Private Military Companies act both in armed conflict and in conflict resolution processes. In the first situation, the PMCs may have an interest either directly or indirectly. In supporting the processes of conflict resolution, the PMCs provide secondary services in peacekeeping missions but also has a part in the Security Sector Reform process (SSR). (2) The balance of benefits and harms associated not only with the risks that each actor has to hire PMCs, but also the impacts on the society in which they will work. The strengths can be highlighted as the reduction of military expenditures in the short term, the rapid mobilization for the performance of services and the provision of specialized services. The negative points are the lack of control that contractors have on contractors; the dependence of the state in PMCs and the political and social impact that human rights abuses by officials of PMCs may cause to contractors and society as a place of work. A more sustainable performance to the performance of PMCs seems to occur in conflict resolution processes that do not involve direct use of force, but capacity building, as in the case of Security Sector Reform. Key words: Private Military Companies; Armed conflicts ; Resolving conflicts LISTA DE ILUSTRAÇÕES Imagem 1 – Operações da Executive Outcomes em Serra Leoa (1995-1997) Figura 1 – Estratificação de Empresas Militares e Segurança por Nikolaos Tzifakis Figura 2 – Número de contractors pelo número de tropas norte-americanas no Iraque (20072011) Figura 3 – Número de contractors por serviço no Iraque (2008-2011) Figura 4 – Origem das Empresas Militares Privadas por país Figura 5 – Histórico dos fundadores das EMPs Figura 6 – Capacidades Dominantes das Empresas Militares Privadas (Baseado na classificação de Avant) Figura 7 – Relação Proximidade com a Capital (50 milhas) com a Receita Total das EMPs (2006) SUMÁRIO INTRODUÇÃO ................................................................................................. 11 1. HISTÓRIA DA ASCENSÃO DAS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS: NOVOS ATORES, NOVOS CONTRATOS ........................... 15 1.1 Definição de mercenário e Empresas Militares Privadas (EMP) – suas principais diferenças. ............................................................................................................................ 15 Mercenários ....................................................................................................................... 16 Empresas Militares Privadas ............................................................................................. 18 Diferenças entre Mercenários e Empresas Militares Privadas .......................................... 20 História dos mercenários. .................................................................................................. 21 1.2 Situação no pós-guerra fria – ambiente de expansão das EMPs. ............................. 23 Conclusão do capítulo ....................................................................................................... 25 2. AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS EM AÇÃO ........................... 26 2.1 Envolvimento direto nas operações de combate. ....................................................... 27 Executive Outcomes expulsa rebeldes de Angola e Serra Leoa ....................................... 27 O caso angolano a Executive Outcomes entra no mercado .............................................. 27 Serra Leoa, guerra dos “diamantes de sangue”, Executive Outcomes mostra sua capacidade de combate ...................................................................................................... 28 2.2 Empresas Militares Privadas e seu envolvimento indireto nas ações de combate. . 31 Guerra do Iraque................................................................................................................ 31 Do ambiente favorável ao boom da indústria. ................................................................... 31 As Empresas Militares Privadas no Iraque e seus serviços ............................................... 32 Serviços de Segurança ....................................................................................................... 33 Serviços de apoio ao combate. .......................................................................................... 35 2.3 Envolvimento em missões de paz da ONU.................................................................. 37 Estados-membros contratando as EMP em nome da ONU............................................... 38 Missões de paz .................................................................................................................. 38 2.4 Empresas Militares Privadas como atores na Reforma do Setor de Segurança. .... 40 Conclusão do capítulo ....................................................................................................... 43 3. PRINCIPAIS DEBATES SOBRE O USO DE EMPRESAS MILITARES PRIVADAS ........................................................................................................ 44 3.1 A geografia das Empresas Militares Privadas ........................................................... 44 3.2 Empresas Militares Privadas e os impactos nas sociedades locais. .......................... 48 3.3 Questões legais............................................................................................................... 51 3.4 Balanço sobre os benefícios e malefícios do uso de Empresas Militares Privadas. 54 Conclusão do capítulo ....................................................................................................... 57 CONSIDERAÇÕES FINAIS ........................................................................... 58 ANEXOS ............................................................................................................ 61 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 65 11 INTRODUÇÃO Em 1967, nasceu uma companhia mercenária, mas desta vez diferente daquelas antigas tropas as quais Maquiavel1 descreveu no século XVI na obra O Príncipe. A Watch Guard International tinha seus fundadores e funcionários sido formados na tropa de elite do Reino Unido, a temida Special Air Service. Esta empresa tinha como intuito treinar militares com as táticas e técnicas aprendidas durante o tempo que serviram à Rainha e ofertar aos países que estivessem dispostos a pagar pelo treinamento (GARCIA, 2009, p.116-117). Estes militares aposentados iniciariam um fenômeno que ficaria muito evidente, a partir do final da Guerra Fria em 1991. Empresas Militares Privadas, como ficaram conhecidas, passaram a ter muita relevância nos conflitos. A evolução de simples empresas de aconselhamento a treinamentos militares esporádicos, como era o caso da Watch Guard International, para empresas com um escopo que cobrisse praticamente todas as facetas de uma guerra deu-se bastante rápido. O final da Guerra Fria gerou um ambiente propício para a ascensão destas empresas no mercado da guerra. O vácuo de poder deixado pelas grandes potências na periferia do mundo, fez com que antigas tensões desses países viessem a se confrontar, este fato propiciou o surgimento de vários conflitos interestatais e intraestatais nestas regiões. Aliados a isso, outros fatores como o alto contingente militar que foi dispensado pelos exércitos das grandes potências para a vida civil e a crença da efetividade dos mercados incentivada pelo neoliberalismo foram o combustível para que empresas militares privadas fossem formadas e crescessem. Esse ambiente conflituoso da década de 1990 fez com que muitos Estados possuíssem uma carência por segurança, ou seja, alta demanda por serviços militares especializados fizeram com que se criasse uma situação para essas empresas privadas que desempenhavam um papel de segurança tivessem uma oportunidade de suprir essa demanda. Não era a primeira vez que tal situação ocorria. Como mostra Tiago Borne (2008), em outras ocasiões históricas o fim de um conflito central leva ao incremento da atividade mercenária. Um exemplo pode ser visto na Guerra dos Cem Anos (1337-1453), quando ao fim das hostilidades gerou o fluxo de os homens dispensados do conflito (tanto franceses 1 Nicolau Maquiavel (1469-1527) escreveu o Príncipe, considerado um dos mais importantes autores do realismo político, escreve um capítulo sobre tropas mercenárias, a qual despreza profundamente: “As mercenárias e auxiliares são prejudiciais e perigosas; e se um príncipe fundamenta o seu poder nas armas mercenárias, não terá jamais sólido nem gozará de segurança, porque os soldados não se lhe afeiçoam, são ambiciosos, indisciplinados e infiéis, animosos entre os amigos, vis diante do inimigo; e não temem a Deus nem usam de lealdade para com os outros”. (MAQUIAVEL, 1982, p.87) 12 quanto ingleses) à Itália renascentista, uma zona conturbada da época. Lá eles se tornariam condottiere2. Diferentemente desses mercenários renascentistas que ofereciam seus serviços a quem pagasse mais, as Empresas Militares Privadas (EMPs) são corporações que operam na legalidade, mostram sua cartilha de serviços abertamente, têm acionistas e diretores, objetivam o lucro e podem atuar de forma simultânea em várias partes do globo. Essa maior institucionalização das atividades das atuais EMPs em comparação com os antigos mercenários não significa que não haja controvérsias e questionamentos sobre o seu uso em conflitos armados. Mesmo que seus contratos continuem sinuosos as EMPs aparecem para os meios midiáticos, muita das vezes como violadoras de direitos humanos. Há vários relatos de contractors violando direitos humanos desde o abuso da força até prostituição. Em grande parte, estes abusos são possibilitados pela falta de regulação tanto na esfera nacional quanto na internacional. Apenas alguns países tem uma legislação nacional que leva em conta a atuação dessas empresas ou que de alguma forma regulamente e restrinja suas ações. Contudo, recentemente iniciativas vêm sendo criadas com o objetivo de reduzir os abusos cometidos pelos contractors como o Documento de Montreux e o Código de Conduta das Empresas Militares Privadas. Este trabalho aborda o fenômeno da privatização da guerra, mais especificamente o caso das Empresas Militares Privadas. A tendência de crescimento para essa movimentação de “privatização da guerra” tem sido vital para se entender como os agentes vêm se comportando diante dos conflitos nessas últimas duas décadas. Enquanto que para a operação Desert Storm, realizada em 1991, somente um ente a cada cinquenta membros do corpo expedicionário americano era contratado, em 2003, quando do início das novas operações no Iraque, a proporção passou a ser um para cada dez. Em outras palavras, 10% das tropas passaram a ser compostos por soldados contratados (BORNE, 2008, p.10-11). O trabalho visa responder as seguintes perguntas de pesquisa: Como as Empresas Militares Privadas atuam no cenário internacional? Quais são os principais benefícios e malefícios percebidos na usa utilização? As hipóteses sugeridas são: 2 Nome dado aos mercenários do tempo da Renascença Italiana que formavam grandes companhias mercenárias. (COURAU, 2004) 13 1) As Empresas Militares Privadas atuam tanto em conflitos armados conflagrados quanto em processos de resolução de conflitos. Na primeira situação, as EMPs podem ter uma participação tanto direta, atuando como tropas que empregam força, como indireta, apoiando logisticamente os exércitos estatais e oferecendo segurança a terceiros em zonas de conflito. No apoio a processos de resolução de conflitos, as EMPs prestam serviços secundários em missões de manutenção de paz como também tem uma participam de processos de Reforma do Setor de Segurança (RSS). 2) O balanço dos benefícios e malefícios está relacionado não apenas com os riscos que cada ator que contrata as EMPs, mas também com os impactos na sociedade em que elas atuarão. Os pontos positivos podem ser destacados como a redução dos dispêndios militares no curto prazo e de eventuais pressões sociais no envio de tropas, a mobilização rápida para o cumprimento dos serviços e a prestação de serviços especializados (como segurança de pessoas e instalações em ambientes extremos). Aos pontos negativos encontramse a falta de controle que os contratantes têm sobre os contractors, podendo refletir diretamente na qualidade dos serviços e em custos excedentes no médio e longo prazo; a dependência do Estado nas EMPs, principalmente na questão tecnológica; e o peso político e social que abusos aos direitos humanos por parte de funcionários das EMPs podem causar aos contratantes e a sociedade no seu local de atuação. Uma atuação mais sustentável para a atuação de EMPs parece ocorrer em processos de resolução de conflitos que não envolve emprego de força direto, mas a construção de capacidades, como no caso da Reforma do Setor de Segurança. A principal finalidade deste trabalho é estudar as EMPs, focando-se na sua atuação estratégica, em como são efetuadas suas ações no cenário internacional atual e quais são as consequências positivas e negativas de seu uso. Mais especificamente, objetiva-se: (1) apresentar um histórico do uso de mercenários apontando as causas da ascensão das EMPs na última década do século XX e o escopo de seus serviços prestados; (2) levantar estudos de casos onde as Empresas Militares Privadas atuaram sob os diversos tipos de serviços em conflitos armados e na resolução de conflitos; e (3) debater os dilemas que as EMPs trazem para a comunidade internacional, discutindo pontos positivos e negativos no seu uso. Trata-se de um fenômeno contemporâneo nas Relações Internacionais, que afeta de forma significativa como os atores se comportam nos conflitos atuais. Entretanto, há escassez de pesquisas desse tema em território nacional, comparando com a produção em países que tem tradição na área. Além disso, importa problematizar o debate sobre o tema das EMPs e 14 seu emprego de sua força, uma vez que Estados e populações, contratantes e contratados, podem ser profundamente afetados por essas empresas, dependendo do tipo de atuação que as EMPs estejam executando. Metodologicamente, este trabalho de conclusão de curso em Relações Internacionais adotou o tipo de pesquisa descritiva que vai expor as características e a problemática envolvida no fenômeno da ascensão das EMPs. A abordagem do trabalho é do tipo hipotéticodedutivo. Também será utilizado o procedimento técnico de pesquisa bibliográfica mediante o uso de fontes como pesquisas acadêmicas, dados nas Organizações Não-Governamentais, grupos de estudos, Think Tanks e relatórios governamentais relacionados às EMPs. Este trabalho divide-se em três capítulos. O primeiro capítulo trará a história da ascensão das Empresas Militares Privadas, bem como mostrará como e porque essas empresas diferem dos antigos mercenários e porque não devem ser tratados sob mesma ótica. O segundo capítulo abordará como as Empresas Militares Privadas atuam durante e na resolução dos conflitos, seu envolvimento direto e indireto nos combates e seu apoio a missões de paz e nos projetos de Reforma do Setor de Segurança. No terceiro capítulo, o trabalho trará o arranjo global das EMPs, quais sejam: os principais países aonde se encontram as iniciativas de regulação da indústria, (i.e. Documento de Montreux e Código de Conduta), e, por fim, o balanço sobre pontos positivos e negativos percebidos em sua utilização. Há grandes incertezas sobre a viabilidade e sustentabilidade da utilização de EMPs em conflitos armados, haja vista que a sua utilização pode implicar custos significativos no longo prazo para contratantes e populações onde elas atuam. Já na esfera da resolução de conflitos vislumbra-se possibilidades menos danosas, já que envolvem atuação prioritariamente indireta. Contudo, essa participação é válida desde (1) que existam normas muito bem estruturadas para que possa haver punições sobre o estabelecimento de algum excesso por parte dos contractors e (2) envolva um direcionamento estatal adequado em processos de reconstrução de Forças Armadas nacionais. 15 1. HISTÓRIA DA ASCENSÃO DAS EMPRESAS PRIVADAS: NOVOS ATORES, NOVOS CONTRATOS MILITARES Mercenários são utilizados desde sociedades antigas. O primeiro registro histórico de sua utilização remonta à Batalha de Kadesh, entre egípcios e hititas no ano de 1294 a.C. Ao longo da história, os mercenários mostraram que, caso bem empregados, poderiam ser decisivos no contexto dos conflitos armados. Este primeiro capítulo buscará distinguir os mercenários clássicos na atuação das Empresas Militares Privadas (EMP) e a ascensão dessas empresas. O período que compreende esta ascensão começa ao final da Guerra-Fria e perdura na contemporaneidade. As EMPs atuaram na década de 1990 principalmente no continente Africano. Mas é possível verificar suas ações na Europa, em regiões de desintegração da União Soviética, e no sudeste do continente asiático. Nos anos 2000, há uma mudança de cenário de atuação dessas empresas. Com o ataque de 11 de setembro, as empresas passam a se concentrar no Oriente Médio, especificamente no Iraque e no Afeganistão. Houve uma escalada da demanda pelas Empresas Militares Privadas nos acontecimentos após 11 de setembro, especialmente no Afeganistão e Iraque, e uma conexão com a defesa de sua pátria (para empresas e/ou contractors estadunidenses). A confluência de todas essas dinâmicas levou tanto o surgimento e rápido crescimento da indústria militar privada. Não há sinais de que essas tendências vão diminuir ou reverter no futuro previsível (SCHEIER; CAPARINI, p.6)3. O desempenho das EMPs se dá pelo intermédio de contratantes diretos dos governos, e também por vários outros atores no cenário internacional como empresas multinacionais, Organizações Não-Governamentais (ONGs) e Organizações Interestatais para diversos fins. 1.1 Definição de mercenário e Empresas Militares Privadas (EMP) – suas principais diferenças. Apesar de muitos não fazerem a distinção entre os contractors e mercenários, existe uma diferença muito grande entre estes atores. Por isso, é necessário conceitua-los e mostrar porque devem ser analisados diferentemente. 3 “Finally there has been the escalation in the demand for PMCs and PSCs in the wake of 9/11, particularly in Afghanistan and Iraq, and in connection with homeland defence. The confluence of all these dynamics led to both the emergence and rapid growth of the privatized military and security industry. There are no signs that these trends will slow or reverse in the foreseeable future.” 16 Mercenários O Grande Dicionário Unificado da Língua Portuguesa traz a definição de mercenário como: “Aquele que trabalha por soldo, sem idealismo algum; ávido de ganho; soldado que por dinheiro serve a um governo estrangeiro” (RIOS, 2010, p.451). Outra definição mais recente e completa diz que o mercenário é “um indivíduo de organização financiada para agir em uma entidade estrangeira dentro de um escopo de serviço militar, incluindo a condução de operações de característica militar, sem levar em conta os ideais, compromissos legais ou morais, e nacional e internacional" (GODDARD, 2001, p.8). Conectando a uma definição mais normativa, pode-se retornar às conferências diplomáticas de Genebra que aconteceram nos anos de 1974 e 1977. Essas conferências resultaram de protocolos adicionais às Convenções de Genebra de 1949 em que foram debatidos os assuntos relacionados com proteção de vítimas em conflitos armados internacionais (protocolo I) e internos (protocolo II) (MIGUEL, 2011, p.14-15). Assim, no que consta o Artigo 47° do Primeiro Protocolo Adicional das Convenções de Genebra de 1949, intitulados Mercenários, pode-se ler o seguinte: 1) Um mercenário não terá direito da ser um combatente ou prisioneiro de guerra; 2) Um mercenário é qualquer pessoa que: a. Seja especialmente recrutada localmente, ou no estrangeiro, para combater num conflito armado; b. Tenha, de fato, uma ação direta nas hostilidades; c. Seja motivado para atuar nas hostilidades essencialmente pelo desejo de ganhar proveitos pessoais e a quem, de fato, lhe tenha sido prometido por uma das partes envolvidas no conflito, direta ou indiretamente, uma compensação material substancialmente acima da que é prometida ou paga aos combatentes de suas forças armadas, de patentes e funções idênticas, dessa mesma parte; d. Não seja nem cidadão de uma das partes do conflito, nem reside nem território controlado por um das partes em conflito; e. Não seja membro das Forças Armadas de nenhuma das partes em conflito; f. Não tenha sido enviado por um Estado, que não seja parte no conflito, para cumprir uma missão oficial enquanto membro das suas Forças Armadas. 17 A classificação de mercenário vai além da caracterização de pessoa ou entidade. É necessário fazer uma melhor diferenciação entre estes atores e as Empresas Militares Privadas. Para isso, destaca-se a colocação por Schreier e Caparini: Tradicionalmente, os mercenários foram definidos como estrangeiros contratados para tomar parte direta nos conflitos armados. As principais motivações sempre são ditas ser os ganhos monetários, em vez da lealdade a um Estado. Por isso, que são chamados de soldados da fortuna. (...) Às vezes, eles são veteranos de guerras passadas ou insurgência que procuram por qualquer novo conflito para continuar o que faziam antes: lutar (SCHEIER; CAPARINI, 2005, p.16)4. No senso comum, a principal ideia sobre a atividade mercenária se resume no ganho monetário. Essa superficialidade do termo não atinge a amplitude dos aspectos que determinam a atividade em si. Muitas vezes, ex-combatentes não conseguem se habituar à vida civil, e os programas de reingresso propostos por seus países não são eficazes, fazendoos voltarem para atividade que exerciam antes. A maioria desses mercenários age de forma ad hoc. Eles advêm de várias nacionalidades, incluindo ex-combatentes do bloco soviético como ucranianos, russos e sérvios, de países sul-africanos, norte-americanos, israelenses, etc. Esses indivíduos lutam por todo o globo, onde haja um conflito e possibilidade de emprego. São, muitas vezes, acusados de banditismo e de quebra dos direitos humanos. Scheier e Caparini afirmam, por exemplo, que “estes ‘cães de guerra’ são conhecidos por sua deslealdade e falta de disciplina” (SCHEIER; CAPARINI, 2005, p.16). São, acima de tudo, soldados freelancer (autônomos), sem residência fixa, que buscam grandes quantias em dinheiro, lutam por causas duvidosas, jogam com os dois lados para ver quem consegue comprá-los ao preço mais alto, e, em função disso, prolongam os conflitos com interesse em continuar obtendo ganhos. Essas características parecem vir permeando a história. Desde os tempos de Maquiavel, pelo menos, mercenários são descritos como homens com que se deve ter muito cuidado, a priori evitados: As mercenárias e auxiliares (tropas) são prejudiciais e perigosas; e se um príncipe fundamenta o seu poder nas armas mercenárias, não terá jamais sólido nem gozará de segurança, porque os soldados não se lhe afeiçoam, são ambiciosos, indisciplinados e infiéis, animosos entre os amigos, vis diante do inimigo; e não temem a Deus nem usam da lealdade para com os outros (MAQUIAVEL, 1982, p.87). 4 “Traditionally, mercenaries have been defined as non-nationals hired to take direct part in armed conflicts. The primary motivation is said to be monetary gain rather than loyalty to a nation-state. This is why they are also called soldiers of fortune. Mercenaries can also be misguided adventurers, but often they are merely disreputable thugs, ready to enlist for any cause or power ready to pay them. Sometimes, they are veterans of a past war or an insurgency looking for whatever new conflict to continue in what they did before: fighting.” 18 É por isso que o termo “mercenário” ainda é carregado de estereotipagem e a primeira vista, a própria definição de Empresas Militares Privadas implica em seu nome uma conotação negativa. No entanto, “o rótulo de mercenário é inapropriado quando aplicado a Empresas Militares Privadas.” (MAGALHÃES, 2005, p.159). As EMPs podem ser descritas como uma nova realidade dentro do fenômeno histórico de uso de entidades privadas em conflitos. Empresas Militares Privadas Antes de tecer uma definição mais clara das várias tipologias que autores adotam para se referirem às Empresas Militares Privadas, vale notar que não existe uma normativa internacional que expresse a diferenciação das EMPs da ação mercenária. Mesmo a ONU não faz essa separação. Existem poucos países que regulam essa atividade de serviços relacionados à guerra, um exemplo é os Estados Unidos que têm a regulação mais complexa para a exportação e contratação desses serviços. Por isso, não será usada uma normativa em especial para a definição dos serviços dessas empresas, contemplando assim uma definição acadêmica dos autores que dissertaram sobre o assunto. Quando descreve-se o que são Empresas Militares Privadas, existe a dificuldade de tentar classificá-las em certas categorias. Lueka Groga (2011) prefere a separação das Empresas Militares Privadas em companhias que provêm suporte ao combate direto. Seriam aquelas que atuam diretamente nas ações de combate com o objetivo de acabar com o conflito, servem como complemento das forças nacionais, e podem funcionar como substituição das forças nacionais. Uma segunda classificação seriam as empresas prestadoras de apoio ao indireto ao combate. Na verdade sob esta forma age a grande maioria das EMPs. Aqui o escopo de macro serviços é maior e vai desde consultoria militar até a segurança de instalações, ou seja, não participam diretamente do combate, mas influem nele através de serviços prestados de suporte (GROGA, 2011, p.8-9). Outro autor que faz a estratificação das Companhias Militares Privadas é Nikolaos Tzifakis (2012). Para ele, pela diversidade de serviços e pelas características das operações das diversas empresas se faz necessária uma especificação para um melhor entendimento do 19 assunto. Além de diferenciar empresas de segurança privada, que prestam serviços de segurança de instalações e pessoas, de empresas militares privadas, Tzifakis (2012) propõe uma diferença entre Military Provider Companies (Companhias Prestadoras de Militares), prestadoras de apoio direto de combate; Military Consulting Companies (Companhias de Consultoria Militar), que provêm treinamento militar e consultoria militar; e Military Support Companies (Companhias de Suporte Militar), companhias de logística que atuam em zonas de conflito (ver figura abaixo). Figura 1 – Estratificação de Empresas Militares e Segurança Privadas por Nikolaos Tzifakis (2012). Empresas Militares e Segurança Privadas Military Provider Companies Empresas Militares Privadas Empresas de Segurança Privada Military Consulting Companies Military Support Companies Autor: TZIFAKIS, 2012, p.11. Adaptação: PEREIRA, 2014. Diferentemente dos autores que preferem essa classificação mais minuciosa Peter Singer (2003), procura entender essas empresas como um complexo único. Ele reconhece que existem diferenças, mas prefere colocá-las como Firmas Militares e englobá-las num espectro maior. As delibera como: “(...) organizações com fins lucrativos que oferecem serviços profissionais intrinsecamente relacionados com conflitos. Elas são corporações que se especializam na provisão de habilidades militares – incluindo operações em combate tático, planejamento estratégico, análise e coleta de inteligência, suporte em operações, treinamento de tropas e assistência técnica à militares” (SINGER, 2003, p.8). Continuando essa análise, Miguel (2011) referencia as EMPs num aspecto mais amplo. Ele expõe que as EMPs são corporações multifacetadas não só no espectro do combate 20 direto; mas que também adicionam prestações de serviços diferenciados como consultoria militar e apoio logístico militar: Assim, considera-se que as EMP são organizações profissionais privadas legais, de caráter permanente e transnacional, cuja estrutura corporativa assenta numa lógica empresarial, que comercializam e competem num mercado aberto e global, e que fornecem serviços intimamente relacionados com a guerra, nomeadamente no âmbito de combate militar, consultoria militar e de apoio militar (MIGUEL, 2011, p.14). Diferenças entre Mercenários e Empresas Militares Privadas Após essa discussão inicial, pode-se buscar uma melhor diferenciação entre as EMPs e os mercenários. O primeiro módulo de diferenciação é a forma comercial. Os mercenários são contratados em ad hoc, enquanto Empresas Militares Privadas “formam complexos permanentes e claramente hierarquizados, capazes de competir e sobreviver no mercado internacional” (BORNE, 2008, p.60). Outro ponto importante é que essas empresas buscam lucros em longo prazo, não de forma imediatista que motivam mercenários (ROBERTS, 2007, p.2). As EMPs competem no mercado internacional de forma aberta. Em países onde exigem certa legislação são obrigadas a prestarem contas e a fornecer relatórios de suas atividades e de seus contratantes. Os mercenários, por sua vez, são “atores internacionais marginalizados, (...) geralmente devem atuar na sombra da lei.” (BORNE, 2008, p.60). Outra diferença entre estes dois atores reside nos seu escopo de serviços, sendo que os contractors podem oferecer uma gama de serviços muito maior e complexa que serviços oferecidos por mercenários. Sobre os tipos de clientes que cada um pode possuir Borne exemplifica: A própria clientela dessas empresas tende a ser muito mais diversificada do que aquela que recorre aos soldados da fortuna. Não apenas Estados, mas também Organizações Internacionais como as Nações Unidas, Organizações NãoGovernamentais (ONGs) e mesmo empresas comumente alugam os Serviços das EMPs. Dessa sorte, muitas delas são capazes de trabalhar para múltiplos clientes em múltiplos mercados e teatros de operação simultaneamente (BORNE,2008, p. 61). Os integrantes das EMPs são contratados de forma aberta como qualquer outro emprego no setor privado, os contractors são constituídos de ex-militares competentes, que geralmente já passaram por operações de combate ou que possuem uma habilidade específica. Como não há necessidade de treinamento pesado, apenas uma adequação à realidade da empresa, se faz com que a empresa não precise desprender muito recursos para programas de 21 treinamento. Esse tipo de seleção proporciona aos empregados dessas firmas níveis de disciplina e coesão dificilmente encontrados em forças mercenárias (BORNE, 2008, p.61). Pode-se visualizar na tabela abaixo um resumo das principais diferenças: Tabela 1 – Mercenários x Empresas Militares Privadas Organização Mercenários EMPs Individual Corporativa Temporal ou Ad Hoc Hierarquizada Permanente Eficiente Competitiva Remuneração Motivação Individual com lucro em curto Pensamento empresarial com lucro em longo prazo prazo Operações Serviços Escopo diversificado exclusivamente de combate (treinamento, logística, direto para um único cliente por inteligência) atuando com vários vez. clientes, simultaneamente. Recrutamento Pouco transparente Público e especializado Autor: BORNE, Thiago (UFRGS), 2008. Fonte: SINGER, 2008. Adaptação: PEREIRA, 2014. História dos mercenários. A ideia de olhar para o setor privado fornecendo proteção e defesa para os Estados está longe de ser um fenômeno novo. De fato, pode-se argumentar a suposição que o fornecimento de defesa nacional através das Forças Armadas é principalmente, se não exclusivamente, a responsabilidade do Estado, setor público, tem sido mais a exceção do que a regra (EDMONDS, 1999, p.115) 5. 5 “The idea of looking to the private sector to provide for the defense and protection of the state is far from being a new phenomenon. Indeed, it might be argued that the assumption that armed forces and the provision of 22 Singer (2003) aponta para o fato dos mercenários estarem sempre presentes na história das guerras. O autor divide o histórico de conflitos em alguns períodos que acompanham a história, comprovando que houve mudanças da dinâmica de como operavam os mercenários, e que características permearam cada período (SINGER, 2003, p.19-39). O primeiro período se refere à Antiguidade, com exemplos como a Batalha de Kadesh, em 1294 A.C., situação onde o Faraó Ramsés II do Egito usou tropas núbias contra os hititas. Cartago é outro exemplo, sua formação e expansão foi o alto uso de seus mercenários. Tal dependência motivou uma revolta durante a Primeira Guerra Púnica (264-241 A.C.), naquela que ficou conhecida como Guerra dos Mercenários. Roma também tinha em sua política o alto uso de mercenários, utilizou-os por quase toda sua existência, tanto que ao final do século I, existam mais soldados germânicos em suas fileiras do que romanos. Na segunda fase, no período medieval, o sistema feudal impunha um tipo de serviço militar que não possuía uma qualidade boa. Desse ambiente, surgiram condições propícias para que mercenários se especializassem em algum tipo de arte militar. Essas artes requeriam um elevado grau de especialização e treinamento. Como exemplo, pode-se referir ao manejo do arco e flechas e das bestas. Os mercenários ofereciam os seus serviços pelo valor mais alto, o que fazia com que a contratação de seus serviços fosse realizada com extrema atenção. A Itália renascentista foi outro um dos palcos principais destes soldados da fortuna. Muitas cidades-estados estavam dispostas a pagar uma quantia atrativa para esses homens. Esse marco profissionalizou a arte da guerra através de contratos chamados de condotta entre os líderes italianos e as companhias mercenárias, implementando assim, os conhecidos condottieri.As primeiras companhias que prestavam serviços militares privados surgiram quando os mercenários e as tropas dispensadas de outras partes da Europa, principalmente da Guerra dos Cem Anos, perceberam que ganhariam mais se trabalhassem em grupos organizados. A partir disso, nasceram companhias como Compagnia Bianca del Falco (13381354), que chegou a compor um contingente de mais de 10.000 homens que atuavam em toda a região da atual Itália, e a Gran Compañia Catalana (1302 a 1388), que desenvolveu parte de suas atividades em Atenas, onde governou por mais de 60 anos (HOLMILA, 2012, p.50-54). A Guerra dos 30 anos marcou um turning point no sistema político internacional. Apesar de grande contratação de mercenários, consolida-se o princípio da soberania estatal e national defense is primarily, if not exclusively, a state/public sector responsibility has been more the exception than the rule.” 23 os Estados passam a gradualmente exercer o monopólio da força e formarem exércitos permanentes. Por conseguinte, a paz de Vestefália, em 1648, impôs uma diminuição da necessidade de recrutar mercenários. Contudo, essa nova dinâmica demoraria a se consolidar, a atividade mercenária continuaria a desempenhar um papel importante como contingente de exércitos europeus. “O exército típico em 1700 refletia esta mistura e era verdadeiramente uma força multinacional. As forças contratadas constituíam ente 25 a 60 por cento de todas as forças terrestres” (SINGER, 2003, p. 32). Essa mudança acelerou a partir da Revolução Francesa, em 1789, pela forte ideia de que um exército estatal é o exército do povo, e que soldados contratados só são contratados para a defesa da nobreza (OSTELLS, 2012, p.7-9). O sétimo período marcou a emergência de grandes organizações militares privadas como parte da prática de prioridades da política externa que detinha o monopólio do comércio em regiões controladas por Estados colonizadores. Nesse caso, as empresas de segurança foram utilizadas principalmente para garantir segurança das províncias ultramarinas. Destacam-se, dentre elas, a Companhia Holandesa das Índias Orientais (CHIO) e a Companhia Britânica das Índias Orientais (CBIO). Os lucros que essas companhias obtinham, transformaram-nas em empresas altamente rentáveis com forças mercenárias próprias. Por final, os mercenários só voltaram a atuar de uma forma mais relevante após a Segunda Guerra Mundial, mais nitidamente na fase de descolonização do terceiro mundo. A atuação destes “cães de guerra” foi muito intensa no continente africano. Tanto Bob Denard, quanto Mike ‘Mad’ Hoere destacaram-se principalmente pela intensa atividade dos dois mercenários, mas também pelo seu histórico vasto de clientes. Com o final da Guerra Fria, estes mercenários clássicos perderam espaço frente às Empresas Militares Privadas. Essas empresas entenderam as novas dinâmicas que estavam surgindo, deixando estes agentes cada vez mais marginalizados. 1.2 Situação no pós-guerra fria – ambiente de expansão das EMPs. O final da Guerra Fria gerou uma série de modificações que propiciaram o elevado crescimento das Empresas Militares Privadas no cenário internacional. Dentre os principais fatores podem-se apontar três grandes evidências para a escalada do mercado de segurança 24 privada: redução dos contingentes militares, vácuo de poder deixado pelas potências centrais, e crença na efetividade do mercado (neoliberalismo). O primeiro fator, redução dos contingentes militares, é significativo para o aumento da atividade das EMPs, pois saídos de duros combates bélicos ou preparação para tanto, quando se remete à Guerra Fria, os mercenários perderam espaços no seu campo de trabalho e passaram a qualificar o quadro da mão-de-obra das empresas privadas. Com a redução da competição estratégica, desde o fim da Guerra-fria mais de sete milhões de militares foram dispensados de suas atividades, muitos com alta capacidade de combate (SCHEIER; CAPARINI, 2005, p.3). Esse fenômeno veio junto com uma profissionalização maior das Forças Armadas, assim os exércitos focaram em “core competencies”: combater, fazendo outsourcing de todas outras atividades (MAGALHÃES, 2010, p.162). Essa grande diminuição das tropas, aliada a uma significativa reestruturação organizacional militar, leva a uma alta disponibilidade não somente de equipamentos bélicos, mas também de mão-de-obra altamente qualificada no mercado internacional, ambas as parte dos quadros militares dos Estados nacionais no passado (BLANCO, 2010, p.178). Vale ressaltar que muitos destes indivíduos desmobilizados, a maioria oriunda de unidades de elite, utilizaram a estrutura que exista no exército para formarem suas próprias companhias (MAGALHÃES, 2005, p. 164). Um exemplo a se destacar é a Executive Outcomes formada por ex-combatentes das forças especiais do South African Defence Force que atuou em todo continente africano. O segundo fator centra-se no vácuo de poder deixado pelas potências centrais. Isso reduziu a sua participação e engajamento em zonas periféricas, dando liberdade para mudanças de correlações de forças e ascensão de tensões não revolvidas e novos atritos. Somou-se ainda a alta oferta de armamentos dos arsenais da Guerra Fria que fizeram proliferar as zonas de conflito (SCHEIER; CAPARINI, p.4). Assim, Estados fracos ficaram incapazes de conseguir prover segurança a sua população e como as grandes potências não desprendiam muito esforço em ajudar, muitos chefes de estados, empresas e organizações passaram a contratar Empresas Militares Privadas para exercer esse tipo de serviço. Essa mudança de comportamento deu abertura para o mercado de segurança. Se antes eram as grandes potências a darem aconselhamento militar, agora, seriam as EMPs, e, para isso, a diversificação dos serviços dessas empresas deveria ser amplificada. 25 Para entender o último fator se faz necessário explicar a chamada modernização das Forças Armadas. Após a Guerra Fria, o conceito da Revolução nos Assuntos Militares que integra a crença do futuro da arte da guerra com a utilização intensiva de tecnologia. Tal paradigma tornaria as Forças Armadas mais dependentes das tecnologias, sendo um peso para os Estados custearem tal dinâmica. Por isso, a arte da guerra se fez conglomerada na privatização, onde se transfeririam os custos do público para o privado abrindo amplo espaço para as EMPs (BLANCO, 2010, p.178). Após descrição, entende-se porque a privatização é um elemento que ajuda a desenvolver a indústria do setor de segurança privado. Para Magalhães (2005), a mercantilização da esfera pública é o principal fator para o aumento recente da indústria de segurança. Ou seja, no contexto da ascensão do neoliberalismo, a entrega de serviços antes realizados pelos Estados para o mercado, poderia maximizar a eficiência. Na esfera militar, não foi ser diferente, as grandes potências focaram nas atividades de combate apenas, as atividades de logística foram privatizadas abrindo um grande leque de oportunidades para EMPs atuarem. Em virtude desse ambiente favorável, as Empresas Militares Privadas começam a ter uma relevância muito pertinente nos conflitos que sucederam na década de 1990 e mais ainda nos anos 2000. Comparando a ação do contingente desses contractors nos conflitos posteriores à virada do milênio, Guerra do Iraque e Afeganistão, as mais significativas para as EMPs, houve determinados momentos que os números chegaram a ultrapassar o de soldados regulares. Conclusão do capítulo Neste capítulo foi mostrado como as EMPs são diferentes dos mercenários comuns, muito pelo fato de sua lógica empresarial institucionalizada. Também apresentou-se um breve histórico do uso de mercenários e como tiveram seu auge e declínio. Posteriormente foram abordados os principais fatores de crescimento das EMPs. Atualmente, se pode dizer que os principais fatores para a expansão das EMPs ainda reside no fato que alguns exércitos estatais privatizam suas esferas não militares. No próximo capítulo será exposto os vários tipos de atuação que as EMPs desempenham. 26 2. AS EMPRESAS MILITARES PRIVADAS EM AÇÃO Para um melhor entendimento da atuação das Empresas Militares Privadas no cenário internacional, separam-se as atuações em duas situações: Empresas Militares Privadas prestando seus serviços durante um conflito armado e na resolução dos conflitos armados. Será apresentado o amplo escopo de serviços que as EMPs são capazes de executar e posteriormente a realidade de utilização dos seus serviços pelos diversos atores nos conflitos. As duas primeiras seções do capítulo apontarão a atuação das Empresas Militares Privadas durante o período dos combates. A primeira seção explanará a ação dessas companhias atuando de forma direta no envolvimento do combate e a segunda seção tratará das EMPs atuando de forma indireta nos conflitos armados. No primeiro, trata-se do envolvimento direto nas ações de combate, mediante a participação junto aos exércitos ou até mesmo liderando o combate para um dos lados da situação. Para evidenciar esse envolvimento será apontado o caso da Executive Outcomes e sua participação em Angola e em Serra Leoa, onde de fato liderou as ações como um exército regular privado do governo da época. O segundo caso mostrará como as Empresas Militares Privadas tem envolvimento indireto na participação do combate. Diferentemente da Executive Outcomes, algumas EMPs não oferecem seus serviços como exércitos regulares privados, mas prestam serviços de segurança e de apoio logístico em operações de combate. Nos serviços de segurança, as empresas se aproveitam da vulnerabilidade causada pelo conflito e pela incompetência do Estado em oferecer proteção aos agentes que vão ao seu país. Nos serviços de apoio às operações de combate, as empresas não participam das operações como exércitos regulares, mas como empresas de suporte dessas que o exército executa, que podem ir desde monitoramento aéreo e serviços de inteligência até tradução de interrogatórios e lavanderia. Após a Guerra Fria, alguns exércitos estatais tratariam apenas das “core compitencies”, deixando outras áreas de apoio com a iniciativa privada, como foi falado no capítulo anterior. Para ambas as situações, os serviços de apoio ao combate e de segurança às EMPs se envolvem indiretamente no conflito. O caso que será estudado para revelar o trabalho das EMPs em um envolvimento indireto do combate será o da Guerra do Iraque. Não será feito um estudo aprofundado de uma empresa em específico, mas sim de todo o 27 complexo da indústria de segurança que essas empresas criaram e seguiram durante as hostilidades encontradas. Feita a apresentação destes dois casos que evidenciam o trabalho das EMPs durante o andamento do conflito, as duas seções seguintes tratarão de casos onde essas empresas atuaram em situações de resolução de conflitos. Para apontar como se dá a atuação das EMPs em um ambiente de resolução de conflitos, primeiramente será exposto como essas empresas participam de missões da paz da ONU, e posteriormente como as EMPs atuaram nos projetos de Reforma do Setor de Segurança. As EMPs tiveram uma participação secundária nessas missões: seu escopo em grande parte é para apoio logístico e prestando serviços de segurança, e é disso que tratará a terceira seção do capítulo. A quarta seção deste capítulo tratará do caso referente à situação onde há ausência de conflito. Evidenciará as EMPs atuando na Reforma do Setor de Segurança, exemplificado pelo caso da Executive Outcomes participando da Reforma do Setor de Segurança em Angola. Por final, serão mostrados alguns desafios que as EMPs trazem quando participam desses projetos. 2.1 Envolvimento direto nas operações de combate. Executive Outcomes expulsa rebeldes de Angola e Serra Leoa A Executive Outcomes (EO) foi fundada em 1989 por EebenBarloe - um militar que serviu nas forças especiais do South African Defense Force (SADF). A essência da atividade da empresa se configurava em operações táticas altamente especializadas de combate militar (MIGUEL, 2011, p.9), e essa característica se deve pelo retrospecto de seus contractos, oriundos do 32° Batalhão, aos quais serviram no conflito de Angola (OSTELLS, 2012, p.195). A EO tinha basicamente dois tipos de contratos celebrados, e eles poderiam ser mais amplos ou mais detalhados: no primeiro caso, a empresa disponibilizaria todos seus esforços e recursos necessários para definir o conflito. No segundo caso, a empresa complementaria as operações do cliente através de tarefas especializadas (MIGUEL, 2011, p.10). O caso angolano a Executive Outcomes entra no mercado A primeira ação importante que a EO realizou foi para o governo de Angola, mais especificamente para o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). 28 A ex-colônia portuguesa obteve sua independência em 1975, após uma descolonização brutal por parte de Portugal. Sem um período de transição, o país passou a ser dirigido pelo MPLA, antigo partido que havia se formado pela guerrilha marxista contra os colonizadores portugueses. Logo após a independência de Angola, a MPLA confrontou-se com o partido anticomunista, a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA), entrando numa guerra civil. Durante a Guerra Fria, os dois lados receberam armas e financiamento de seus apoiadores, MPLA da União Soviética e a UNITA dos EUA e África do Sul aliado local (OSTELLS, 2012, p.196). Com o fim da Guerra Fria, veio o fim do apoio de armas e dinheiro de ambos os lados. As partes envolvidas no conflito precisavam de alguma forma para financiar suas operações.A UNITA preferiu extrair diamantes da região sul de Angola. O MPLA, por outro lado obteve seu financiamento através das jazidas de petróleo, ao largo da costa da capital Luanda. Estas novas fontes, deram uma continuidade para a guerra civil, no caso da MPLA possibilitou até a contratação da Executive Outcomes: Fragilizado pela queda de seu protetor soviético, o MPLA decide recrutar novos soldados de fortuna para garantir sua vitória. O dinheiro do petróleo permite pagar os soldos desses mercenários estrangeiros. Uns cinquenta combatentes, que, em sua maioria, tinham combatido antes pela UNITA, passam assim a servir o MPLA na primavera de 1993 (OSTELL, 2012, p. 196). Neste contexto, foi construída a reputação da EO, mais precisamente na batalha nas instalações de petróleo de Soyo na boca do Rio Congo situada no norte de Angola. Entre Março e Abril de 1993, as forças da Executive Outcomes, representando as forças da MPLA, entraram em combate contra os rebeldes da UNITA, lideradas por Jonas Savimbi. Os 28 combatentes por parte da EO demonstraram “capacidade de combate fora do vulgar, morreram apenas três sul-africanos do lado da EMP e várias centenas de guerrilheiros da UNITA.” (MIGUEL, 2011, p.9). Essa batalha representou a reconquista dessas áreas petrolíferas por parte do governo, antes nas mãos de Savimbi. Pelos resultados positivos, o governo de Luanda estendeu o contrato com a empresa até 1996 onde a “EO tem que se retirar sob pressão exercida pelos EUA e pela ONU sobre a MPLA.” (OSTELL, 2012, p.196). Apesar deste afastamento, a consolidação da empresa em operações na África se fez evidente. Serra Leoa, guerra dos “diamantes de sangue”, Executive Outcomes mostra sua capacidade de combate 29 De 1991 a 2002, Serra Leoa enfrentou uma guerra civil. Apoiada pelo líder rebelde liberiano Charles Taylor, a Frente Revolucionária Unida (RUF sigla em inglês para Revolutionary United Front) organização liderada por Foday Sankoh, ex-cabo do exército serra-leonês, teve por objetivo derrubar o governo estabelecido, se concentrando nas fronteiras perto da Libéria, onde se marginalizaram e perpetuaram ações violentas em sua totalidade. Em 1992, os militares que lutaram contra a RUF realizaram um golpe de estado e destituíram o governo do poder. Essa nova junta foi liderada por Valentina Strasser, que diante de pressões internacionais prometeu realizar eleições democráticas em três anos, ao final de 1995. Muito desse conflito advêm da riqueza de recursos naturais que Serra Leoa possui em especial, diamantes. Contudo, essa riqueza não permanecia no país, pois Serra Leoa estava presa a licenças internacionais confiadas a estrangeiros que corrompiam o poder vigente. Sabendo desse valor a RUF aspirava primeiramente às áreas diamantíferas, pois essas serviam para financiar o tráfico de armas e drogas na região. (OSTELLS, 2012, p.196-197) A RUF, depois que roubou as áreas produtoras de diamantes, avançou cada vez mais. Quando os rebeldes estavam às portas de Freetown, a capital de Serra Leoa, o governo de Strasser recorreu a Executive Outcomes, e em maio de 1995, fechou um contrato que primeiramente enviou 50 contractors. Nos seis meses seguintes chegariam mais 130. Depois da liberação de Freetown pela EO, o alvo da empresa voltou-se para a retomada das áreas diamantíferas Kono-Koidu. Em poucos dias a EO expulsou os rebeldes da região de Kono com poucas baixas, tendo como o saldo mais importante que os rebeldes perderam sua forma de financiamento mais produtiva. Em janeiro de 1996, a Empresa Militar Privada EO estava se preparando para fazer o ataque final à base da RUF. As eleições livres puderam ser realizadas e Ahmed TejanKabbah foi eleito. Com ele no comando, o contrato com a empresa foi postergado até o fim daquele ano. Imagem 1 – Operações da Executive Outcomes em Serra Leoa 1995-1997. 30 Fonte: CIA World Factbook6, Adaptação: PEREIRA,2014. Os combates continuaram por mais um ano, quando o presidente Kabbah rescindiu o contrato com a EO, para dar lugar ao ECOMOG (sigla em inglês para Economic Community Monitoring Group) que passou a combater os rebeldes da RUF. Às vésperas do fechamento da empresa sul-africana parece estar, então no topo de seu poder. Ela conta com uma equipe de 2 mil contractors e um armamento impressionante: três Boing 727, os helicópteros usados em Serra Leoa, aviões leves, mas também caças. A EO oferece uma gama de serviços de excelência: tiro de precisão a longa distancia formação em contra insurreição urbana ou rural (o forte da experiência do 32° Batalhão), paraquedismo, etc. (OSTELL, 2012, p.197). Pode-se dizer que o saldo das operações da EMP foi positivo mesmo em curto prazo, porque expulsou os rebeldes de sua fonte de financiamento. Contudo, a EO era uma tropa pequena, não possuía a mesma estrutura de um exército regular. Adicionado a isso, consequências negativas foram que o governo ao contratar a EO só aumentou ainda mais sua dependência por forças externas. Isto deixou o Estado serra-leonês ainda muito fragilizado, só conseguindo atingir a paz em 2002, após várias intervenções no país. 6 Imagem original disponível em: https://www.cia.gov/library/publications/the-worldfactbook/geos/sl.html acesso em 12/09/2014. 31 2.2 Empresas Militares Privadas e seu envolvimento indireto nas ações de combate. Guerra do Iraque Desde os atentados de 11 de setembro, o governo dos Estados Unidos aumentou o combate contra o terrorismo. Invadiu o Afeganistão em 2001, atrás dos responsáveis pelo ataque terrorista às Torres Gêmeas, Osama Bin Laden e o grupo terrorista Al Qaeda. Invadiu também o Iraque atrás de Saddam Husseim sob o pretexto que ele seria uma ameaça global. Em ambos os conflitos a participação das Empresas Militares Privadas foi imprescindível para os ataques norte-americanos, como conta Ostells (2012): “(...) a mobilização necessária aos EUA seria considerável e inflaria seus efetivos para além do período do conflito” (OSTELLS, 2012, p.200). Para evidenciar esses casos de envolvimento indireto das EMPs nos combates, foi escolhida a Guerra do Iraque como corpus investigativo dessa proposta de estudo. Ao invés da perspectiva da seção anterior, esta não se limitará a remontar a ação de uma empresa isolada, mas sim, de todo um complexo que foi formado pelas EMPs no país do Oriente Médio. Do ambiente favorável ao boom da indústria. A Guerra do Iraque em 2003 foi junto a Guerra do Afeganistão, um dos conflitos armados com maior número de contractors estrangeiros. Durante o período, estrangeiros, empresas multinacionais, organizações não governamentais, agências estatais e a própria ONU utilizaram em algum momento Empresas Militares Privadas para garantir a segurança de pessoas e bens e para de executar funções de apoio militar. A presença das EMPs aumentou de forma expressiva no Iraque depois de uma política clara dos Estados Unidos afirmando que não iriam garantir a segurança pública dos agentes estrangeiros durante o conflito. Inclui-se o fato do vácuo de poder no governo iraquiano e a ineficácia do governo de transição em segurança; e proteção aos empreendimentos estrangeiros. Esses agentes estrangeiros garantiram a sua segurança através de contratos com Empresas Militares Privadas. Em 2007, o número de funcionários das EMPs superou o da tropa dos EUA no Iraque (PALOU-LOVERDOS; ARMENDÁRIZ, 2011, p.31). Em 32 comparação com a primeira Guerra do Golfo, a proporção de pessoal contratado era 10 vezes maior (SCHEIER; CAPARINI, 2005, p.1-2). Essa presença estrangeira, principalmente de empreiteiros civis dedicados a investir seus recursos no Iraque, não só resultou em um número crescente de Empresas Militares Privadas, como foi um dos maiores fatores que impulsionou o crescimento das EMPs. Mesmo com crescimento de oferta dos contractors a dependência pela segurança privada causou uma inflação nos preços cobrados pelas companhias. Em pouco tempo, os salários dos contractors passaram de 300 dólares por dia por agente a uma faixa salarial entre 500 a 1.500 dólares. As EMPs de renome como a Blackwater conseguiam faturar cerca de 1.500 a 2.000 dólares por pessoa / dia (SCHAHILL, 2007, p.28). Esse “boom” da indústria cresceu de uma maneira tão rápida que as próprias EMPs no Iraque fundaram um grupo comercial. Esse grupo deveria, além de representar tal parcela industrial/comercial de serviços, regular esse mercado em ascensão. Tal junta denominou-se Private Security Company Association of Iraq (PSCAI, em português Associação Iraquiana Companhias Privadas de Segurança) e dissolveu-se em 31 de dezembro de 2011, quando as tropas regulares do exército dos Estados Unidos deixaram a região. “Naquela época, o jornal londrino The Times se refere ao mercado de segurança privada no Iraque, nos seguintes termos: ‘No Iraque, a expansão dos negócios pós-guerra não é o petróleo. É a segurança” (PALOU-LOVERDOS; ARMENDÁRIZ, 2011, p.32). Estas empresas que trabalharam na reconstrução do Iraque estavam dispostas a contratar as EMPs. Apesar de esta indústria ter crescido de forma abrupta no Iraque, a segurança era um privilégio de poucos, grande parte da população iraquiana não usufruiu dessa segurança (PALOU-LOVERDOS; ARMENDÁRIZ, 2011, p.32). As Empresas Militares Privadas no Iraque e seus serviços Palou-Loverdos e Armendáriz(2011) discutem principalmente os dados apresentados por agências que cuidaram de levantar os relatórios de autoridades norte-americanas do Departamento de Defesa e da Autoridade Provisória da Coligação (CPA sigla em inglês para Coalition Provisional Authority), sobre a estimativa de cerca de 60 empresas que atuaram com cerca de 20 a 25 mil contractors no Iraque. O levantamento feito pela Associação de 33 Companhias Segurança Privada do Iraque estimou que em 2006 mais de 181 empresas de segurança privada estavam trabalhando com pouco mais de 48 mil funcionários. Periodicamente, dados computados pelo Congresso Americano mostraram que o número de contractors foi decaindo a partir de 2007 até o meio de 2011, ano de término da permanência das tropas oficiais do exército americano. Figura 2: Número de Contractors pelo número de tropas norte-americanas no Iraque (2007-2011). Fonte: CENTCOM Quarterly Census Reports; Joint Staff, Joint Chiefs of Staff, “Boots on the Ground” monthly reports to Congress. Adaptação: PEREIRA, 2014. Percebe-se que o número de tropas regulares associa-se diretamente ao número de contractors. Isso se relaciona à questão de que muitas EMPs oferecerem seus serviços ao governo estadunidense. Quando o governo diminuiu seu efetivo, a demanda por serviços de terceirização e segurança também baixou. Essa queda também se deu pela ocorrência das empresas empreiteiras já terem executado seus projetos no país. Em relação aos serviços, as principais atividades macro realizadas pelas Empresas Militares Privadas no Iraque foram: suporte às ações militares e desempenhando papeis de segurança privada. Serviços de Segurança 34 Em relação aos serviços de segurança, as Empresas Militares Privadas tinham um escopo bastante amplo. Seus contratantes eram os mais diversos, não exclusivamente os Estados, mas também governos, organizações internacionais, humanitárias, mídia e empresas transnacionais eram seus clientes mais comuns. Na tabela abaixo, são mostrados alguns de seus serviços de segurança: Principais atividades de segurança realizadas no Iraque. Serviços que incluem armas: 1. Segurança de instalações. Proteção de estabelecimentos fixos: como áreas de habitação, locais de trabalho, prédios do governo. 2. Segurança de comboios. Proteção de comboios que viajam através do Iraque. 3. Escolta de segurança. Proteção de indivíduos que viajavam em áreas não seguras no Iraque; segurança e proteção a indivíduos especiais. Serviços de segurança que não incluem armas: 1. Coordenação operacional. Estabelecimento e gerência de comando, controle e comunicações nos centros de operações. 2. Análise de inteligência. Coleta de informações e desenvolvimento de análise de ameaças. 3. Negociação de reféns. Investigação, negociação e resgate de civis e outros contractors. 4. Treinamento de segurança. Treinamento para a Segurança Iraquiana. Autor: PALOU-LOVERDOS; ARMENDÁRIZ, 2011, p. 44 Adaptação: PEREIRA, 2014. É difícil, porém, elencar maiores informações dessas atividades, pois a maioria dos contratos se firmava sob um pacto de confidencialidade. Até em caso de contratação pelo 35 Congresso norte-americano, os detalhes permaneciam em âmbito sigiloso (DCAF, 2008, 17). Contudo, um relatório do Congresso Americano publicado em 2008, revelou alguns dos acordos que o Departamento de Defesa (DoD sigla em inglês de Department of Defence) e o CPA com EMP durante o período do conflito. Em 2005, o Departamento de Defesa inaugurou uma categoria de contrato conhecida como Worldwide Personal Protective Services II (WPPS II). Nessa categoria as empresas contratavam e mantinham um relacionamento próximo com as agências e seus diretores. No ano de 2008, o número de contractors a serviço tanto DoD e quanto do CPA passavam de 9.000. Os laços dessas agências com as Empresas Militares Privadas se fizeram cedo, no meio dos anos 90 com a Guerra da Bósnia. Contudo, foi somente a partir de 2004 que esse relacionamento se estreitou. Os contratos com a Blackwater para vistoriar e fazer a segurança da embaixada dos EUA em Bagdá em 2004; ou com o contrato com a Dyn Corp por suporte aéreo e treinamento policial das Forças Iraquianas; passando pela análise de risco feita pela Aegis Defence Services em 2005; mostram como existe uma política estadunidense para procurar no setor privado soluções em segurança. Serviços de apoio ao combate. Além do desenvolvimento sem precedentes da indústria de segurança privada, as EMPs também tiveram participação em serviços de apoio militar. Há assim como nos serviços de segurança, um amplo escopo de serviços de apoio ao combate. Os serviços ofertados incluíam planejamento estratégico, reconhecimento aéreo, operações de voo, serviços de inteligência. Mas não só estes serviços eram considerados de suporte ao combate, e sim todo serviço prestado que serviam os militares foi registrado como de suporte ao combate, como apoio na logística de armamentos e suprimentos para os quartéis-generais, além de trabalhos como lavanderia e de refeição. Provavelmente um dos exemplos mais conhecidos a respeito da privatização das atividades militares esteja relacionado com o desempenho dos serviços de inteligência, que aumentaram desde o início da "guerra ao terror". Durante a guerra e a ocupação do Iraque, o desempenho desses serviços por Empresas Militares Privadas incluíram atividades como 36 interrogação prisional, tradução de documentos estrangeiros e gerenciamento de outros sistemas de inteligência (ELSEA; SERAFINO, 2004, p.4-7) Além disso, parte do treinamento militar para as forças armadas nacionais e policiais locais foi realizada em conjunto com algumas empresas. Estava incluso aí um treinamento tático especial para situações críticas, planejamento estratégico e suporte para treinamento com armas e equipamentos. Outros serviços realizados exclusivamente por militares, como depuração de minas terrestres, foram transferidos às atividades das EMPs (GAO, 2005, p.1317). Em relação à dimensão e ao risco que cada serviço ocupa, foi traçado um panorama como base o relatório do Congresso Americano sobre o número de contractors por serviço prestado no Iraque. O gráfico ilustra como a variação dos serviços “Base Support”, terceirizados e militares relacionavam-se com a segurança e o número de contratantes: Figura 3: Número de contractors por serviço no Iraque 2008-2011: Fonte: DoD US CENTCOM 2nd Quarter FY2011 Contractor Census Report .. Adaptação por PEREIRA, 2014. Em 2011, percebe-se que o número de contractors relaciona-se com o outsourcing, ou seja, a terceirização de algumas funções que antes eram realizadas pelo exército americano, 37 confirmando os números de queda apresentados que acompanham a diminuição do número de tropas regulares. Os outros serviços se mantiveram estáveis no encaminhamento final do conflito. Visto isso, pode-se dizer que os resultados das ações das EMPs foram múltiplos e merecem uma análise diferenciada em comparação a ação da EO nos anos 1990. Para as empresas e agentes que as contrataram aparentemente foi uma relação muito positiva, pois as EMPs conseguiram prestar seus serviços em um ambiente que necessitava de segurança ou outsourcing. às empresas, governos, OIs e ONGs que as contrataram, as EMPs eram a solução possível, pois os Estados Unidos não garantiram segurança para agentes terceiros. Estes quando viram que não encontrariam segurança acharam nas EMPs uma forma de poder atuar no Iraque. Para a população a presença das EMPs não causou uma segurança de fato. As empresas não se envolviam com a população com este propósito. Inclusive esse relacionamento possuía vários atritos, como em situações onde os direitos humanos foram violados pelos contractors na população como abuso de força, assassinatos e tortura. A situação que ocorreu no Iraque e Afeganistão pode ser uma amostra de como serão os conflitos futuros envolvendo uma grande potência e as EMPs. A possibilidade de essas potências utilizarem essas empresas é bastante alta, sobretudo aquelas originárias de seu próprio país. 2.3 Envolvimento em missões de paz da ONU. As discussões sobre o envolvimento das EMPs em operações da ONU geralmente abarcadas de um entendimento errôneo do papel desempenhado por essas empresas. Como bem mostra Ostensen (2011) as Empresas Militares Privadas não desempenham serviços de segurança somente. Frequentemente o que mais fornecem são serviços logísticos em áreas de conflito. O trabalho dessas EMPs não substitui o trabalho a ser realizado numa missões de paz da ONU, pois as empresas são contratadas para tarefas específicas como logística em locais de difícil acesso. Os contractors não participam das forças de paz como soldados efetivados em situações de manutenção de paz, (OSTENSEN, 2011, p.11). 38 Estados-membros contratando as EMP em nome da ONU As Nações Unidas são clientes regulares das EMPs buscam, diferentes serviços dependendo da agência ou programa como o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), World Food Programme (WFP) e o Programa de Desenvolvimento das Nações Unidas (PNUD). As EMPs também se envolvem frequentemente em operações da ONU através de alguma contratação de seus Estados-membros. Essa prática, por exemplo, é rotineira para os Estados Unidos. Desde que o DoD estabeleceu que sua polícia federal não participa-se em missões internacionais, os Estados Unidos faz um contrato com alguma EMP para integrar estas missões como representante de sua força policial (OSTENSEN, 2011, p.12). O exemplo disso, em abril de 2004 a Dyn Corp foi a empresa que forneceu seu pessoal para integrar as forças de policial civil dos Estados Unidos, o que significa que todos os policiais estadunidenses da Polícia Civil das Nações Unidas (UNCIVPOL sigla em inglês) eram contractors. Desde então, o contrato é segue com outras EMPs. A Pacific Architects & Engineers fez parte da contribuição nas Missões de Paz no Haiti e na Libéria. A Dyn Corp firmou em 2003 outro grande contrato com o Departamento de Defesa norte americano. Desta vez, a companhia deveria dar suporte à manutenção de paz na África, onde a empresa poderia executar qualquer serviço possível de peacekeeping, capacidade de vigilância e outros esforços no continente africano. Países em desenvolvimento também buscam soluções junto as Empresas Militares Privadas para realizar algum trabalho nas operações de peacekeeping. A Paramount Group exerceu trabalhos de treinamento e logística, Aegis e a Global Risk foram contratadas pelos Estados Unidos para dar proteção aos seus funcionários das Nações Unidas no Iraque. Missões de paz Nas operações humanitárias, as Empresas Militares Privadas atuam prestando serviços de proteção a funcionários e instalações da missão, na avaliação de riscos no planejamento da missão e oferecem treinamento de segurança tanto para os agentes da missão quanto para os militares que vão acompanhar o trabalho deles. As agências das Nações Unidas interessadas 39 na contratação de alguma Empresa Militar Privada precisaram procurar autoridade específica do United Nations Procurement Division (Divisão de Aquisições das Nações Unidas) para tal finalidade. A empresa Defence Systems Limited, por exemplo, forneceu agentes de segurança para a UNICEF no Sudão e na Somália. Os serviços comprados com mais frequência das EMPs por agências da ONU são segurança física de instalações, seguido de treinamento de segurança. A ArmorGroup também realizou para o Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) serviços de segurança de escritório em 2008 (OSTENSEN,2011, p.14-15). As tarefas realizadas por atores privadas em operações de peacekeeping são normalmente restrito para funções de suporte e algumas relacionadas com segurança, (LILLY, 2000, p. 53-64). A ONU contrata as EMPs durante as operações de manutenção de paz para serviços variados como guarda estática de segurança, apoio logístico e de desminagem e destruição de material explosivo (OSTENSEN, 2011, p.15-17). Exemplos de EMPs que prestam serviços de apoio às operações de paz incluem a Dyn Corp, com o fornecimento de transporte de aéreo e controle de redes de comunicações via satélite para a missão no Timor Leste. A Defence Systems Limited também prestou serviços de logística e inteligência para as forças que participaram desta missão (SINGER, 2003, p.182186). A Pafic Architects & Engineers, por exemplo, também proveu apoio logístico à Missão das Nações Unidas em Serra Leoa entre 2000 e 2003 e vários serviços de logística para a Missão das Nações Unidas na República Democrática do Congo (MONUSCO) em 2001(CHATTERJEE, 2004). Em muitos casos, os serviços parecem ser adquiridos em combinação: os serviços de logística são muitas vezes combinados com a segurança, que por sua vez pode implicar na coleta de informações ou serviços de inteligência semelhantes. Este parece ter sido o caso na MONUSCO, quando a Armor Group prestou serviços de segurança e logística para a missão (ALVES et al, 2014, p.17-18). Contudo, a contratação dessas EMPs por parte das Nações Unidas pode levar a questionamento do interesse dessas empresas como em 2010, quando a EMP ugandense Saracen Uganda foi contratada pelas ONU para prover serviços de segurança não armada para a MONUSCO. Tal contratação levantou polêmicas após a empresa ter sido acusada de 40 um envolvimento ilegal de recursos naturais na República Democrática do Congo e no treinamento de um grupo paramilitar no país em parceria com o General Salim Saleh, irmão do presidente ugandense Yoweri Museveni, o qual possui 25% da empresa (ALVES et al, 2014, p.24). Ultimamente a utilização das Empresas Militares Privadas em missões de paz tem sido significativa. De 2009 até 2013 foram feitas 31 contratações de empresas, sob diversos tipos em serviços com uma faixa de orçamento bem diversificada também; desde U$ 54,517 mil em serviços de segurança apresentados pela G4S Security Services na Sérvia entre 2010 e 2011, até os U$ 2.761,213 mil da Asia Pafic Assurance Company Unipessoal (APAC) para os mesmos serviços de segurança pessoal e de instalações no Timor Leste entre 2009 e 20107. Como cada contratação e cada Missão de Paz têm suas próprias características, é difícil apontar para uma situação onde a participação das Empresas Militares Privadas seja decisiva ou não. A ONU não parece ter uma política clara em relação de como esses contratos devem ser estabelecidos e não possui um protocolo claro de como essas EMPs devem operar. Constata-se, portanto, que mesmo sem uma política clara a ONU continuará a usufruir dos serviços das Empresas Militares Privadas em suas missões de paz desde que regulamentadas para evitar qualquer desvio no eventual uso da força. 2.4 Empresas Militares Privadas como atores na Reforma do Setor de Segurança. O papel das Empresas Militares Privadas na Reforma do Setor de Segurança (RRS) pode ser melhor entendido no contexto de uma nova estratégia para o desenvolvimento que ocorreu nos países em desenvolvimento. A ideia de incluir o setor de segurança no âmbito dos programas para o desenvolvimento de países do terceiro mundo foi encabeçada pelos países da Escandinávia e Holanda. Este grupo de países via a reestruturação do setor de segurança como parte importante para alcançar resultados significativos na melhoria da resolução de conflitos (WILLANS apud KINSEY, 2000, p.2), principalmente porque não se tratava apenas de um reforma nas forças policiais, mas sim de um processo mais amplificado que buscaria reformar todo o sistema de justiça criminal, além de uma reestruturação militar ligada a uma gestão de defesa nacional que também incluía reformas no legislativo e executivo (KINSEY, 2006, p.123-124). 7 Verificar Anexo 1. 41 As evidências que provam esta mudança conceitual podem ser identificadas nos diferentes cursos ofertados para os países africanos por parte dos governos doadores. Os times de instrutores estadunidenses, por exemplo, começaram a enfatizar a importância de se estabelecer relações civis-militares para gerenciar as forças de defesa nacional. Os cursos oferecidos eram diversificados abrangendo um escopo grande como treinamento militar, orçamento de defesa, compreensão do papel dos militares dentro de democracias, gestão de logística entre outros. No caso do Reino Unido, o ministro da defesa britânico estendeu o mandato do Time Britânico de Treinamento e Assistência Militar (TBTAM) na África do Sul para ajudar o país na criação e consolidação de seus mecanismos executivos de supervisão civis sobre as forças armadas, enquanto o Departamento de Desenvolvimento Internacional colocou a questão da RSS na agenda internacional em 1999 (HENDRICKSON, 2002, p.10-11). Sua inclusão na área de desenvolvimento foi resultado deste doador pensar sobre a relevância da SSR em questões de desenvolvimento. A partir dos anos 1980, algumas firmas de segurança e consultoria começaram a mover-se para as áreas de aconselhamento e consultoria em segurança. A EMP Control Risk Group começou a atuar com consultorias de segurança para países desenvolvidos desde 1982. A MPRI, também realizou programas de reforma militar nos Balcãs na virada do milênio, também empreendendo reformas na área da justiça e aplicação da lei. Empresas como a Atos Consulting, tem se envolvido na reforma dos sistemas de segurança e justiça nos países em desenvolvimento. Um dos maiores projetos da empresa nesta área específica foi realizado na Jamaica, onde a empresa foi convidada a rever e prestar um relatório de três grandes ministérios, entre eles o da Segurança Nacional e o da Justiça (KISNEY, 2006, p.125). Esta experiência no setor público deu a habilidade para trabalhar em projetos na Reforma do Setor de Segurança, pois apesar da RSS ter uma característica holística, muitas das pautas que estes projetos possuem se remete a ajustes no setor de justiça. Grande parte do trabalho realizado por essas empresas de consultoria focadas a atender o setor público está na contribuição para a construção das competências e capacidades locais. Neste quesito reside uma diferença entre EMPs e forças de segurança privada locais no tocante a tarefas de pós-conflito. Em grande parte as EMPs irão prestar seus serviços ao setor público e as forças de segurança privadas locais irão prestar serviços ao setor privado, não 42 impactando de forma tão significativa para o projeto da RSS (WILLIANS; ABRAHMSEN, 2006, p.5-16). Uma das principais regiões onde houve projetos de Reforma no Setor de Segurança foi o continente africano. Os Estados africanos passaram por processos de reestruturação na segurança, envolvendo políticas de reformatação das forças e profissionalização. Contudo, muitos dos militares que compunham esses Estados precisavam ser democratizados e entender que eles eram responsáveis pelo Estado, e não por algum indivíduo que ocupa o cargo de Estado (BRYDEN, 2010, p.3). As dificuldades de envolvendo recursos para essas tarefas acabaram sendo partilhadas com doares internacionais(KISNEY, 2006, p.126). Neste contexto africano, algumas agências internacionais e locais se aliaram às EMPs para ofertar treinamento militar dirigidos por ex-militares. A Executive Outcomes, por exemplo, se envolveu na reciclagem de militares africanos, realizando contratos para treinar parte de militares angolanos. Estas novas táticas de contra insurgência, um dos serviços mais bem executados da antiga empresa sul-africana, fez com que a MPLA criasse os “grupos táticos”, todos com uma doutrina altamente especializada com a experiência que a Executive Outcomes pôde primeiramente treinar e aperfeiçoar. A EO foi utilizada pelos militares angolanos devido à experiência prévia dos contractors da empresa. Os militares que fundaram a EO tinham participado da guerra de independência angolana, apoiando junto ao exército sul-africano e as forças da UNITA. Este conhecimento do modus operandi da UNITA deu uma vantagens substancial para a formação de grupos táticos treinados das Forças Armadas Angolanas (FAA) treinadas pelas Executive Outcoems. Além disso, a EO sensibilizou o governo Angolano, ao usar seu conhecimento para ajudar a população local a superar o problema da falta de saneamento. Isso ocorreu por meio de purificação de água à população, serviço que não foi cobrado. A Executive Outcomes contribuiu, assim para mudanças que ocorreram nas FAA entre 1993 e 1995. Um dos serviços prestados foi o aconselhamento de estratégia e doutrina. Dentre as novas táticas que a EMP treinou os recrutas angolanos formando pequenos batalhões. Com isso a FAA conseguia ter maior flexibilidade nos combate, aliada à competência histórica em 43 guerra convencional (CASTELLANO, 2012, p.32-33). Isso contribuiu para que a UNITA tivesse de retomar antigas táticas de guerrilha perto da virada do ano 2000 (JANES, 2009, p.83). Outra Empresa Militar Privada que participou também dos treinamentos e aperfeiçoamento de doutrina e táticas, foi a Military Professional Resources Inc (MPRI), som sede nos Estados Unidos, que seguiu a mesma linha que a EO praticava até 2002 (JANES, p.51). Entretanto, existem limites para a atuação das EMPs em RSS. Um desses limites reside no fato que as EMPs não têm competências para doutrinar um exército inteiro em todas as sua complexidade. No caso angolano, a EO só treinou parte de alguns batalhões, enquanto reformas mais amplas ocorriam direcionadas pelo Estado angolano com parceria de forças estrangeiras. O caso das RSS na República Democrática do Congo demonstra como este modelo não é necessariamente favorável à capacitação das forças nacionais, sobretudo quando está ausente um projeto mais amplo de reformulação doutrinária e de estabelecimento de um sistema efetivo de comando e controle (CASTELLANO, 2014, 163-164). Outro limite que as EMPs enfrentam quando participam de projetos de RSS é a capacidade que burlar o sigilo de aspectos do emprego de força. Os exércitos, sobretudo de países em desenvolvimento, que passam por processos de RSS correm o risco de uma empresa privada obter informações sobre sua doutrina e procedimentos, fato que pode incrementar a sua vulnerabilidade. Enfim, as EMPs podem, com apoio e controle adequados, gerenciar programas de RSS mais específicos. Também é visto que é necessário que a Reforma no Setor de Segurança desses países seja de forma holística, ou seja, que abranja todos os pontos para melhorar a segurança e consequentemente o desenvolvimento do país. Por fim, é necessário que se entendam os limites dessa atuação se ela quiser manter seu objetivo que é o desenvolvimento de países desestabilizados. Conclusão do capítulo Este capítulo abordou várias formas de atuação das Empresas Militares Privadas. Primeiramente, tratou-se da atuação dessas empresas em conflitos armados, de forma direta como no caso de Serra Leoa e de forma indireta como na Guerra do Iraque. Posteriormente, evidenciou-se que a atuação das EMPs na resolução dos conflitos, em missões de paz e nos projetos de Reforma no Setor de Segurança. No próximo capítulo serão debatidos os dilemas envolvidos na atuação das Empresas Militares Privadas. 44 3. PRINCIPAIS DEBATES SOBRE O USO DE EMPRESAS MILITARES PRIVADAS Dando continuidade as explicações sobre as Empresas Militares Privadas, se faz necessário, definir, classificar e apresentar os serviços de tais empresas a fim de verificar a sua forma de atuação no mercado de trabalho. Primeiramente, será exposta a localização geográfica das empresas e, posteriormente, a relação dos seus fundadores com os governos e com a opinião pública. Na segunda seção do capítulo será explanada casos de abusos de direitos humanos por parte dos contractors. Ainda nesta parte cerceará pontos sobre a legalidade das empresas. Informará, também, dentre os países que mais possuem EMPs e os que mais receberam sua atuação que tipo de legislação possuem sobre as Empresas Militares Privadas. Seguindo essa seção serão evidenciadas algumas iniciativas internacionais como o estabelecimento de parâmetros de controle e qualidade, e iniciativas internacionais sobre o regulamento das EMPs por parte dos Estados. Por fim, sucede-se um balanço sobre a utilização incluindo os positivos e negativos das Empresas Militares Privadas. 3.1 A geografia das Empresas Militares Privadas Ter acesso a um banco de dados sobre as Empresas Militares Privadas é dificultoso, principalmente pelos parâmetros que cada censo é realizado e por ser um mercado muito fechado. Geralmente, as pesquisas são sobre um acontecimento mais especifico como o levantamento realizado pelo Congresso estadunidense, da atuação das EMPs nos conflitos do Iraque e Afeganistão. Apesar disso, para mostrar como as Empresas Militares Privadas estão dispostas geograficamente foi utilizado o estudo de Dunar, Mitchell e Robbins em 2007. Nesse trabalho os autores apresentam dados sobre as Empresas Militares Privadas. Escolheu-se a pesquisa mencionada pela quantidade de dados obtida. Em relação ao posicionamento geográfico das Empresas Militares Privadas espalhadas pelo globo é interessante notar que quase metade das 486 pesquisadas tem suas bases principais instaladas nos Estados Unidos com a porcentagem de 46%. Os números seguem os do Reino Unidos com 19% e África do Sul e Europa com 6% cada. Figura 4: Origem das Empresas Militares Privadas por país. 45 Localização das EMP por país Estados Unidos (46%) Reino Unido (19%) África do Sul (6%) Europa (sem Reino Unido) (6%) Oriente Médio (5%) África (1%) Outros (5%) Desconhecido (12%) Fonte: DUNAR, MITCHELL, ROBBINS, 2007, p. 16 Adaptação: PEREIRA, 2014. Apesar da maioria das EMPs aturem mais em Estados fracos, suas bases se encontram nos países centrais. Muito desse fato, mostra a necessidade dos exércitos desses países na privatização de características antes feitas por militares. Em alguns casos reside no fato destes países possuírem um histórico de atividades mercenárias, como a África do Sul e Reino Unido. Outra análise interessante que Dunar, Mitchell e Robbins (2007) trazem é a origem dos fundadores dessas Empresas Militares Privadas. Essa informação é um indicador de como essas empresas podem se relacionar com seus governos. Caso os seus fundadores tenham advindo do exército ou de agências de inteligência, por exemplo, isso pode gerar a companhia vantagens perante as outras empresas em virtude de alguma conexão que obtiveram no meio público. Segundo Dunar, Mitchell e Robbins 86% das empresas tiveram seus fundadores militares aposentados, ex-agentes oficiais de defesa, inteligência ou segurança. Figura 5: Histórico dos fundadores das EMPs 46 Histórico dos Fundadores das EMP Ex militares, CIA, FBI, Serviço Secreto e ex-policias (86%) Sem ter passado por algum ambiente militar ou político (14%) Fonte: DUNAR, MITCHELL, ROBBINS, 2007, p. 14 Autor: PEREIRA, 2014. Outro fator que evidencia o arranjo global das Empresas Militares Privadas relaciona-se às capacidades quanto ao exercício de suas atividades. Assim, baseado na classificação de Avant (2005) percebe-se que as empresas têm um escopo bastante diversificado quanto as suas capacidades profissionais. Figura 6: Capacidades Dominantes das Empresas Militares Privadas (Baseado na classificação de Avant) Capacidades Dominantes Suporte Logístico (172) Treinamento e Aconselhamento Militar (113) Segurança Pessoal e de Instalações (40) Suporte Operacional (15) Prevenção de Crime e Inteligência (4) Sem uma Capacidade Dominante (55) Fonte: DUNAR, MITCHELL, ROBBINS, 2007, p.28 Autor: PEREIRA, 2014. 47 O gráfico mostra como o Suporte Logístico (43%), o Treinamento e Aconselhamento Militar (28%) são as capacidades dominantes na maioria das EMPs. Esse fato vislumbra como as Empresas Militares Privadas focam-se nas atividades de apoio às tropas estatais. A relação das Empresas Militares Privadas com os governos onde ficam suas sedes é importante, pois evidencia em parte como os próprios governos demandam serviços das EMPs. Numa comparação entre as duas capitais dos dois países que concentram o maior número de Empresas Militares Privadas, Washington e Londres, a porcentagem das EMPs que tem suas bases próximas a centros políticos (50 milhas) chegou a 39% em 2007. Deve-se esse fato pelo motivo que as empresas ficam próximas às decisões governamentais, possibilitando um contato proximal com aqueles que vão decidir os contratos de prestação de serviços das empresas. Essas empresas, quanto mais próximas das cidades capitais, detém mais renda, tanto que representam 58,3% da receita total de produção no ano de 2007. Figura 7: Relação Proximidade com a Capital (50 milhas) com a Receita Total das EMPs (2006). 8 7 6 5 US$ 7,149 bi 4 US$ 5,11 bi 3 2 1 0 EMP longe das cidades capitais EMP próximas das cidades capitais Fonte: DUNAR, MITCHELL, ROBBINS, 2007, p. 60 Adaptação: PEREIRA, 2014. Contudo, a percepção pública norte-americana sobre o uso de Empresas Militares Privadas no apoio ao combate do exército tem sido negativa principalmente pelas fontes midiáticas (KORNBURGER, DOBOS, 2007, p. 35). Casos como o da Blackwater (ver seção 48 3.2) no Iraque só corroboram essa nuvem crescente de negatividade, diminuindo ainda mais o apoio ao público para as EMPs. Não é somente só nos Estados Unidos que a opinião pública tem uma conotação negativa do uso de EMPs. Em uma pesquisa de opinião realizada na Rússia (INSENBERG, 2014), a porcentagem de pessoas que responderam negativamente foi de 78%, contra as pessoas que responderam positivamente foi de 18% para questionamento sobre a necessidade de utilização de EMPs pelo exército russo. Há bastante tempo, as autoridades russas desejam legalizar suas EMPs. É difícil determinar especificamente qual a totalidade de países aonde as Empresas Militares Privadas já atuaram. Contudo, se for separado de forma mais ampla os locais de atuação das EMPs verifica-se que grande parte foi Estados fracos. Nos anos 1990, o alto índice de conflitos nos países periféricos se mostrou um ambiente onde as EMPs exerceriam suas maiores atuações. Mesmo com a virada no milênio, a configuração de países não mudou, continuaram sendo Estados periféricos com alto nível de instabilidade onde as Empresas Militares Privadas mais atuaram. 3.2 Empresas Militares Privadas e os impactos nas sociedades locais. O impacto que as Empresas Militares Privadas causam nas comunidades locais é profundo. Os contractors fazem uso de práticas de abuso de força com frequência como visto no Iraque e Afeganistão. O impacto na população dar-se-á de forma muito negativa para as comunidades locais na maioria dos casos. Problemas como a definição correta do que seriam as EMPs, e a falta uma legislação efetiva foram fatores que propiciaram certas situações em que os direitos humanos foram transigidos por parte das EMPs, sendo que em muito dos casos não houve qualquer tipo de penalidade para os seus funcionários. Os contractors, independente do tipo de empresa, irritam de muitas formas as populações locais. Em sua maioria não respeitam a população quando as encontram diariamente. Forçam os civis a desviar-se da estrada, dirigem na contra mão sem constrangimento, ameaçam os civis com armas quando não dão passagem. Mesmo os funcionários das EMPs que trabalham desarmados irritam a população, pois a percepção dos 49 locais é que estas pessoas retiram as oportunidades de emprego e mesmo quando as EMPs contratam alguém local, o tratam eles com desrespeito (HAMMES, p.6, 2010). Abusos em relação ao uso da força são, talvez, os maiores problemas que as comunidades podem enfrentar com a atividade das Empresas Militares Privadas. No Iraque, por exemplo, há grandes relatos em relação ao abuso da força por parte das EMPs. Em novembro de 2005, por exemplo, funcionários da Aegis International deliberadamente atiraram contra carros civis perto de uma rodovia do aeroporto de Bagdá (MATHIEU, DEARDEN, 2006, p.14). Outro caso notório é da empresa Blackwater. Em setembro 2007, ocorreu o incidente da Praça Nissour. Funcionários da companhia entraram em um tiroteio, perto da Praça em Bagdá e deixaram um saldo de 17 civis mortos e em torno de 20 feridos. Segundos relatos os contractors se encontravam em quatro carros quando foram surpreendidos por insurgentes que atiraram contra o comboio. A partir desse fato, os funcionários das EMPs começaram a atirar indiscriminadamente (PALOU-LOVERDOS, ARMENDÁRIZ, 2011, p.54). Os contractors foram julgados e considerados culpados por crimes de guerra, após sete anos de investigações dentro dos Estados Unidos e somente após pressões socias (APUZZO, 2014). Apesar dessa condenação a percepção que os iraquianos possuíam sobre os contractos era de “desgosto”. Muitos iraquianos se voltavam até contra os Estados Unidos que, para a visão da população dava legitimidade para os excessos cometidos pelos contractors. Houve ainda mais raiva com as ações dos contractors. Os iraquianos notaram que os Estados Unidos deram aos contractors autoridade para usar força letal em seu nome. Enquanto os iraquianos não confiavam que as foças estadunidenses iriam punir eles por mortes da população, acreditavam ao mesmo na possibilidade. (HAMMES, p.6, 2010) Esses eventos de contractors atirando e ameaçando de forma aleatória com o pretexto de autodefesa não discriminando civis de insurgentes parece ser uma prática comumente usada no Iraque: (...) foi relatado que o procedimento operacional padrão das EMP foi muitas vezes para atirar primeiro, perguntar depois. Alguns casos também foram identificados, onde teve o tiroteio de civis foi justificado com o argumento que eles considerados (perigosos) por estarem dirigindo perto demais de seu comboio (PALOU; ARMENDÁRIZ, 2011, p.55)8. 8 “For example, at least one case has been reported where the PMSC’s standard operating procedure ‘was often to shoot first, ask questions later’ Some cases have been also identified where the shooting of civilians was justified on the grounds that they were deemed to have been driving too close to their convoy under protection.” 50 Um caso como as EMPs podem prejudicar não só a população, mas também seu contratatantes foi o incidente em Fallujah. Onde quatro contractors da Blackwater foram mortos, mutilados e expostos pela mídia mundial. Devido a esse fato, o exército americano fez uma das maiores operações de combate de toda a Guerra do Iraque (RICKS, p.399, 2007). Esta ação resultada de um ato falho da EMP fez com que muitos civis iraquianos, e militares americanos fossem mortos, ou seja, os custos tanto políticos quanto financeiros que a Blackwater causou ilustra como as EMPs podem ser perigosas. Além do abuso de força cometido pelos contractors, principalmente no Iraque e Afeganistão, houve também abusos de direitos humanos9. Em 2001 na Bósnia, vários colaboradores da Dyn Corp foram acusados de participar de uma rede de prostituição que usava garotas menores de idade, além de compra de armas ilegais e de forjar passaportes. Um dos supervisores da EMP foi acusado de estupro. Ele filmou a cena incluindo duas jovens, suas vítimas, que não se sabe se eram menores de idade. Embora os funcionários envolvidos tenham sido demitidos, nenhum enfrentou um processo criminal, perante alguma corte internacional ou do próprio país. Kathryn Bolkovac, o empregado que fez a denuncia, também foi demitido. Outro episódio notório que chocou a opinião pública mundial foram os abusos cometidos nas prisões de Abou Garaib (DEL PRADO, 2010). Nesse episódio, participaram não só militares nas torturas dos prisioneiros de guerra, mas também os funcionários da L-3 Communication-Titan e da CACI. Em relação à Dyn Corp, há ainda, duas acusações envolvendo atividades sob contratação dos Estados Unidos no Plano Colômbia, em que no início dos anos 1990 a EMP foi contratada para jogar agentes químicos antidrogas nas plantações de cocaína. O uso desenfreado e não correto desses produtos resultou a contaminação de uma parte da população que morava perto das plantações (DEL PRADO, 2007). Existem inúmeros casos de funcionários de Empresas Militares Privadas que cometeram abusos durante a prestação de seus serviços. Em muitos desses episódios isso aconteceu pela falta de uma estrutura estatal forte para regulá-los e julgá-los quando 9 O abuso de força ocorre quando os efeitos de se buscar certo objetivo afetam de forma direta terceiros, onde não se tem essa intenção, mas o excesso de força e a transgressão ocorrem da mesma forma. Já a violação dos direitos humanos diz respeito é uma consequência direta do objetivo visado. 51 necessário. Contudo, trata-se de uma responsabilidade que envolve igualmente contratante e Estados sede das EMPs. 3.3 Questões legais As leis nacionais que regem o uso de Empresas Militares Privadas variam muito em extensão e complexidade. Os Estados Unidos têm o sistema de regulação mais complexo implementado (DCAF, 2008, p.7). Em vários sistemas nacionais, as EMPs que prestam serviços militares e /ou de segurança estão sujeitas a requisitos de licenciamentos e de habilitação. Contudo, em muitos estados, ainda existe a exploração comercial desses serviços que são realizados de forma obscura e sem regulação. Foi feita a análise dos três principais países onde se originam as EMPs que são os Estados Unidos, Reino Unido e África do Sul. Também serão mostrados os dois países que mais receberam contractors, que são o Iraque e Afeganistão que tipo de mudanças esses dois grupos de países possuem. Por final, será colocada como andam as iniciativas internacionais encabeçadas pela Suíça. Em ambos os países Afeganistão e Iraque, essa regulação está diretamente relacionada às invasões lideradas pelos Estados Unidos. Como foram os maiores palcos para a atuação das Empresas Militares Privadas. Fez-se necessário uma legislação que atentasse para a atuação das EMPs. Quando esses dois países tiveram certa independência política em relação às coalizões que as invadiram, além da alta regulação das EMPs, começou um processo de restrição das ações das Empresas Militares Privadas. A situação no Afeganistão ficou crítica. O governo tolerou a presença das EMPs a até 2010, quando o governo afegão anunciou uma política de dissolver EMPs locais e proibir outras de operar. Esse processo ainda está em andamento, as lacunas de proteção e segurança agora estão sendo fornecidas pelas forças afegãs (PSM, 2014). No caso do Iraque, o turning point foi em 2007 quando ocorreu o incidente da praça Nissour, envolvendo os contractors da Blackwater, A partir desse fato, cada vez mais o parlamento iraquiano considera novas normas para uma regulação maior sobre as EMPs (HAMMES, 2010, p.5-7). Na África do Sul, os serviços de segurança e serviços militares têm crescido nos últimos anos, principalmente pelas altas taxas de criminalidade do país. Outro fator que faz com que esse país tenha uma legislação mais intensa e uma regulação alta sobre essas empresas deriva 52 pelo fato da África do Sul ter um histórico de atividades mercenárias desde a extinção do apartheid, vide Executive Outcomes. Com a preocupação que isso poderia causar para a paz e segurança no continente africano, o governo de Pretória preferiu restringir fortemente as operações dessas empresas e criar um quadro regulamentar interno sofisticado para reger o setor. O Reino Unido, como segundo país que mais concentra Empresas Militares Privadas, possui uma legislação para empresas de segurança que atua domesticamente, e outra legislação que regula as empresas que atua externamente. As EMPs que atuam no exterior não possuem muita restrição em suas atividades. Devido ao escopo internacional de operações do Reino Unido, o governo de Londres opta por uma abordagem de autorregularão dessas empresas com base na assinatura de acordos internacionais. Os Estados Unidos são o maior consumidor mundial de serviços militares e de segurança privada, além disso, é o país que concentra o maior número de Empresas Militares Privadas. Pelo fato do governo americano utilizar excessivamente essas empresas, sua regulação e supervisão ficam difusas e divididas entre o Congresso, as agências federais. Empreiteiros militares e de segurança privadas estão sujeitos a um conjunto complexo de leis e regulamentos, e suas atividades são analisadas e relatadas por mais de 20 órgãos de fiscalização federal e comitês. Frente à insuficiência das legislações locais, a Suíça é um dos principais apoiadores nos esforços para uma regulação internacional sobre as Empresas Militares Privadas. Está na liderança patrocinando duas iniciativas para as duas partes mais interessadas nesse processo, os governos e as empresas signatárias normas e regulamentos para a indústria de segurança privada. O documento Montreux (FDFA, 2008) é uma iniciativa intergovernamental, com o objetivo dos estados signatários se comprometerem a defender o direito humanitário internacional e dos direitos humanos. Atualmente, o número total de países signatários10 é 51, mais a União Europeia, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) e a Organization for Security and Co-operation in Europe (OSCE). 10 Ver Anexo B. 53 A segunda iniciativa encabeçada pela Suíça em 2013 é em relação ao Código Internacional de Conduta (ICOC sigla em inglês para International Code of Conduct), essa iniciativa buscou uma alta definição dos padrões de conduta utilizados pelas Empresas Militares Privadas. As empresas signatárias do ICOC concordaram em aderir a um conjunto de práticas para suas operações baseados nos direitos humanos, bem como para melhorar a prestação de contas da indústria e estabelecer um mecanismo de supervisão independente externo. Presentemente, o número de EMPs participantes é de 708 (ICOC, 2008) 11 espalhadas pelo globo, mas com uma concentração maior na Europa e América do Norte. Apesar dos suíços terem uma tradição mercenária medieval, o país não sofreu os efeitos que propiciaram a ascensão das Empresas Militares Privadas em suas terras com o fim da Guerra Fria. Mesmo assim, esse país tem se esforçado para criar normativas interessantes para a regulação das EMPs e a receptividade das iniciativas estão dando resultados, visto a alta aderência de Estados, no Documento de Montreux, e das Empresas Militares Privadas, na ICOC, em tão pouco tempo. A ONU tem uma participação mais discreta nesse processo. Como comentado no primeiro capítulo, sua legislação e definição sobre as Empresas Militares Privadas ainda são desatualizados. O debate das EMPs está contido no Conselho de Direitos Humanos. A organização não possui uma diretriz formal perante os Estados sobre o uso de mercenários ou agentes de segurança privados como os trabalhados pelo Documento de Montreux. Recentemente, foram anunciados relatórios através do Grupo de Trabalho das Nações Unidas sobre o uso de Mercenário, tanto que em 2013 o próprio grupo fez um apelo (UNRIC, 2013) à instituição que realmente faça um debate sobre o as violações de direitos humanos cometidos pelos contractors. Apesar dessas movimentações, para a regulação dessas empresas, houve uma demora em se pensar em um ordenamento jurídico. Desde a ascensão das EMPs no início dos anos 1990 até o final dos anos 2000 com o Documento do Montreux (2008) e o Código Internacional de Conduta (2013), a aplicação do direito internacional sobre os contractors era difusa. 54 Isso não significa que, pelo fato de existir uma normativa sólida, esse acordo terá efetividade. A mudança dos signatários deve se fazer presente também na prática de suas ações, não apenas para uma aceitação de opinião pública. 3.4 Balanço sobre os benefícios e malefícios do uso de Empresas Militares Privadas. Como o assunto Empresas Militares Privadas são de certa forma bastante plural, estabelecer os pontos positivos e negativos de seu uso torna-se essencial para fazer o balanceamento de seu uso. Isso, pois existem muitas variáveis que devem ser consideradas como tipo de atuação, serviços, perfil e histórico das empresas entre outros. Contudo, um dos pontos de destaques evidenciados, por aqueles que defendem a utilização de EMPs enfatiza que o uso das EMPs gera uma redução de gastos militares em curto prazo. Essa argumentação tem como base que as EMPs podem representar uma diminuição de custos em curto prazo para os governos. Embora, os custos de salários dos contractors sejam maiores custos que dos soldados, todos os equipamentos e outros gastos aparentes que o Estado gasta com seus militares, não precisam desprender como moradia para militares, auxílio médico, pagamento de pensões etc. Também o emprego dos contractors retira certo peso político, em curto prazo, pois a morte de um combatente recai sob a responsabilidade do governo, diferentemente se fosse um combatente privado. As EMPs, que prestam serviços de terceirização para os Estados, diminuem a quantidade de funcionários convocados, o tempo de especialização e gerenciamento desse pessoal. Além disso, essas empresas responsabilizam-se para certos serviços que o exército teria que dispor não referente ao combate, como alimentação, lavanderia, entre outros. Este fato deixa os exércitos exclusivamente a cargo das competências militares, há menos burocracia e menos gasto de dinheiro para o Estado. Outro fator positivo é a mobilização rápida. A habilidade na rapidez em mobilizar um grande número de especialistas em um curto espaço de tempo é algo característico em Empresas Militares Privadas. Como muitas vezes é necessário algum tempo de treinamento, instrução e todo um planejamento de adequação param se mobilizar uma tropa até seu destino, ao contratar as EMPs esse tempo restringido pela bagagem e experiências eu apresentam os contractors. 55 Serviços especializados com resultados significativos também podem ser considerados vantagens das Empresas Militares Privadas. Esse ponto está relacionado com os serviços de segurança, quando empresas multinacionais, organizações não governamentais ou intergovernamentais precisam de um serviço de segurança rápido e confiável. Os pontos negativos geralmente apontados no uso de EMPs estão relacionados principalmente pela falta de controle dos contrates sobre essas empresas. Abusos cometidos por contractors, podem gerar altos custos políticos para os contratantes, sobretudo os Estados. Estes custos podem redundar em custos militares, caso a ação de contractors gere reações locais e acabe agravando e estendendo a complexidade do conflito armado, como ocorrido no caso do Iraque. Outros pontos negativos relacionam-se à transparência de negociações e contratos. Apesar de o governo americano, por exemplo, publicar relatórios sobre o uso de contractors regularmente no Iraque e Afeganistão, não chegam a dar detalhes sobre como os contratos de fato que foram acordados com as EMPs. Assim, permanecem ocultos detalhes que poderiam esclarecer o relacionamento destas empresas com os governos e qual a responsabilidade que cada parte tem a cumprir. Outro ponto discutido sobre a utilização apontado pelos críticos das EMPs é o fato de muitas vezes o contratante não ter o controle de quem realmente irá fazer o serviço, ou seja, não se sabe a qualidade desses funcionários. O Estado não tendo o controle das pessoas que estão executando as operações, não tem o controle do que está sendo executado diariamente, nem da interação com a população local. Não possui relatórios para reavaliação de sua doutrina, aperfeiçoamento de seu treinamento. Este conhecimento não permanece no exército e mantem-se na empresa contratada. Além dos impactos nos direitos humanos existe outro fator ligado a isso que é um ponto negativo ao usar EMPs. Na existência de algum abuso por parte de algum funcionário da empresa, geralmente a população local associa este abuso como responsabilidade do seu contratante. Este fato pode dar ao seu contratante uma consequência política indesejada, muitas vezes negativa. Muito disso explica grande parte da mídia frisar tanto os episódios de abusos de direitos humanos, acusando não só as EMPs, mas os atores que algum dia a contrataram. O caso mais notório deste fato sucedeu-se no incidente de Fallujah, quando contractors da Blackwater foram mortos, mutilados e expostos nos noticiários mundiais, tal 56 reverberação do caso que houve uma ação de combate do exército americano na cidade, sendo uma das maiores batalhas ocorridas no conflito. Por último, um ponto que está intimamente ligado ao debate do uso de EMPs é o aumento da dependência do Estado pelos serviços dessas empresas. Com o aumento da terceirização feita pelos exércitos, muitos daqueles que fazem críticas apontaram para a crescente dependência que os exércitos podem ter quando terceirizam parte de suas capacidades e competências. Sistemas de satélites, manutenção de drones, sistemas de inteligência, por exemplo, todas estas capacidades em parte tem alguma participação das EMPs. Essa interação entre governos e EMPs cria uma dependência por parte do Estado em áreas estratégicas e logística. Essa situação é ainda agravada no caso de Estados fracos. Por fim, o risco que algum contratante possui ao contratar uma Empresa Militar Privada é relativo. Dependendo dos tipos de atuação que esta empresa vai prestar seu serviço pode ter um risco maior ou menor. Quando as EMPs tem uma atuação durante o acontecimento de um conflito, seja por envolvimento direto ou indireto, o risco que aconteçam com mais frequência os pontos negativos é maior, principalmente pela falta de controle que seus contratantes irão ter e pelo peso político que eventuais abusos cometidos pelos contractors podem trazer. Mesmo com a mobilização rápida e custos reduzidos decorrente do uso das EMPs, os benefícios seriam reduzidos se o conflito estendesse como ficou claro no caso do Iraque e Afeganistão. Por outro lado, quando se tenta fazer esse balanço para a atuação das EMPs na resolução de conflitos os possíveis riscos são diminuídos, e a utilização dessas empresas como apoiadoras parece ser mais positiva. Isso, desde que haja uma regulamentação das suas operações e que se tenha muito bem definido os controles para seus abusos. Ter o know-how logístico, a rápida mobilização, o apoio à segurança de forma eficiente sugerem o potencial grande das Empresas Militares Privadas em auxiliar organizações como a ONU a aperfeiçoar seu serviço de missões de paz. Isso, desde que não sejam os atores principais da missão como capacetes azuis, por exemplo. Em Reformas do Setor de Segurança, as EMPs podem ser aliado para estabilização de países. Muito embora, haja riscos significativos, relacionados ao sigilo e informações doutrinárias e à atomização do processo, caso não seja direcionado por um modelo estratégico de fortalecimento das forças armadas nacionais. A transformação do exército angolano utilizou parte dos conhecimentos da EO direcionado à formação de um Exército nacional robusto com grandes funções sociais (educação e reintegração nacional). 57 Conclusão do capítulo Este capítulo trouxe alguns dilemas envolvendo a utilização de Empresas Militares Privadas. Primeiramente, foi feita a colocação espacial destas empresas no globo. Posteriormente, foi visto como as EMPs em maioria impactam negativamente as populações locais, muito advento do excessos cometidos pelos funcionários dessas empresas. As novas iniciativas internacionais podem ajudar neste sentido, já que muito desses abusos são decorrentes da falta uma legislação que responsabilize corretamente estes atores. Por fim, foram demonstrados alguns pontos positivos e negativos da utilização das EMPs. Como pontos positivos em grande parte estão relacionados a diminuição de custos e de burocracia no curto prazo. Contudo, se os contratos se estenderem por um longo período o balanço de seu uso pode se tornar negativo, pela falta de controle por parte dos contratantes sobre as EMPs e os possíveis custos políticos que os contractors podem gerar se houver algum incidente grave envolvendo a população. Os benefícios maiores, embora com ressalvas importantes, podem ser verificados na utilização de EMPs em processos de resolução de conflitos armados. 58 CONSIDERAÇÕES FINAIS O trabalho tratou sobre a atuação das Empresas Militares Privadas no cenário internacional. O objetivo da pesquisa foi focado na sua atuação estratégica dessas empresas e nas consequências positivas e negativas de seu uso. O trabalho teve por finalidade também apresentar o histórico da ascensão das EMPs, evidenciar os tipos de serviços prestados e debater os principais dilemas que as EMPs trazem para a comunidade internacional. No primeiro capítulo foi mostrado porque as EMPs devem ser consideradas diferentes de mercenários comuns. Sua principal diferenciação dá-se pela institucionalização e pela lógica comercial que as EMPs possuem. Logo após esta explicação, relatou-se de um breve histórico do uso de mercenários e como tiveram seu auge e declínio. Por fim, foram expostos os principais fatores da ascensão das Empresas Militares Privadas. Atualmente, se pode dizer que os principais fatores para a expansão das EMPs ainda residem no fato que alguns exércitos estatais estão privatizando cada vez mais suas esferas não militares. O capítulo 2, pretendeu responder a primeira pergunta de pesquisa. Para um melhor entendimento de como poderia ser apresentado os vários tipos de atuação das Empresas Militares Privadas o capítulo foi dividido em duas situações. A primeira situação mostrou as principais formas de atuação das EMPs durante um conflito armado. Para isso, mostrou-se tanto o envolvimento direto das EMPs, como no caso da Executive Outcomes em Serra Leoa, e um envolvimento indireto nas ações de combate, sendo o caso exposto a Guerra do Iraque. Como resultado, em ambos os casos a atuação das EMPs não ajudaram na estabilização dos conflitos elas participaram. Já a segunda na situação expôs a atuação das EMPs nas resoluções de conflitos armados. Avaliou-se, portanto, o envolvimento das Empresas Militares Privadas em missões de paz e atuando nos projetos de Reforma do Setor de Segurança. Nestes casos o balanço de sua atuação foi mais positivo, mas esse tipo de atuação tem seus condicionantes. As empresas não devem ser os principais atores nessas missões e deve-se ter algum tipo de apoio jurídico, caso haja algum abuso. Além disso, os processos de RSS precisam ser direcionados por modelos de reconstrução de doutrina, unidade e comando e controle para poderem se valer positivamente dos serviços das EMPs. O capítulo 3 trouxe alguns desafios enfrentados pela comunidade internacional dilemas envolvendo o uso de Empresas Militares Privadas. A geografia das EMPs é singular, pois majoritariamente se encontram nos países centrais ou nos Estados que possuem um 59 histórico em atividade mercenária. Contudo, essas empresas atuam em regiões de periferia do globo, em sua maioria em Estados fracos. O relacionamento que essas empresas possuem com a população local gera quase sempre atritos, muito pelo fato dos contractors. Muito desses abusos são decorrentes da falta uma legislação que responsabilize estes atores. Foi debatido o balanço do uso de EMPs e em que condições se poderia ter um saldo positivo ou negativo. Os argumentos positivos estão em grande parte relacionados à diminuição de custos e de burocracia, fazendo destas empresas uma opção possível alternativa no curto prazo. Entretanto, no longo prazo o balanço de seu uso pode se tornar negativo, pela falta de controle por parte dos contratantes sobre as EMPs e os possíveis custos políticos que os contractors podem gerar se houver algum incidente grave envolvendo a população. Em ambos os casos evidenciados na pesquisa expressam que as EMPs não trouxeram resultados positivos para a resolução do conflito. A Executive Outcomes teve um bom papel desempenhado na guerra civil serra-leonesa, mas falhou, pois deixou Serra Leoa dependente cada vez mais de agentes externos sem uma estrutura estatal para a formação de um exército que pudesse dar autonomia para o país, deixando o país muito vulnerável. O conflito no Iraque também provou ter sido um ambiente de alto risco no uso de EMPs, apesar da redução aparente nos gastos militares, o prolongamento do conflito, a falta de controle que os agentes tinham em relação às Empresas Militares Privadas, mais o ônus que os abusos cometidos pelos contractors, levaram grandes constrangimentos de contratantes e população local. Houve em custos políticos quanto custos financeiros o retorno que essas empresas deram a população foi nulo em relação a uma ação efetiva a resolução do conflito. Já os casos que obtiveram menores riscos e maiores vantagens foram justamente aqueles que foram à atuação das EMPs deu-se na resolução dos conflitos, prestando auxílio para as missões de paz, e quando as EMPs participaram dos projetos de Reforma do Setor de Segurança. Nos casos citados os benefícios do uso de EMPs podem ser notados, ambos os agentes receptores dos serviços das EMPs obtém um escopo especializado que muitas vezes militares convencionais já não executam, como serviços de segurança. A rápida mobilização em casos de missões humanitárias se faz interessante para as Nações Unidas. Para os países que desejam passar pelo processo de RSS as EMPs podem representar um poder de escolha frente a sua realidade, como mostrado em Angola, a Executive Outcomes trouxe benefícios as FAA, muito pelo conhecimento prévio pelo trabalho altamente especializado que foi proposto e pelo direcionamento dado pelo Estado. 60 As recomendações para políticas públicas do uso das EMPs são diversas. Como visto sua utilização em situações de resolução de conflito armados, mostrou-se ser um caminho interessante para a estabilização do país. Mesmo assim são necessárias restrições para que não ocorram abusos por partes dos contractors. Neste sentido as iniciativas como o Documento de Montreux e da ICOC parecem práticas bem-vindas na regulação por parte dos Estados e de empresas. Além disso, iniciativas nacionais também são necessárias, uma legislação que se atente para esse fato. Pesquisas futuras poderiam avaliar como os Militares se relacionam com os contractors e qual a visão deles em relação a essa maciça privatização de alguns serviços antes realizados pelas forças estatais. Outra necessidade é tentar entender como as EMPs estão operando no processo de segurança marítima, um dos mercados de segurança que mais crescem atualmente. 61 ANEXOS Anexo A:Missões das Nações Unidas que já Fizeram Uso de Entidades Privadas (2009 – 2013). Empresa: País Missão: da Tipo de serviço: Dat a de Início: Data de Término: Custo (US$) Sogafer Costa Marfim do Serviços de Segurança 1-Set-09 31-Ago-10 $288,129 Laavegarde Costa Marfim do Serviços de Segurança 1-Set-09 31-Ago-10 $565.036 EPSS Costa Marfim do Serviços de Segurança 1-Set-09 31-Ago-10 $384,172 Asia Pafic Assunrance Company Unipessoal Timor Leste Serviços de Segurança para escritório para a Missão e residências oficiais 1-Set-09 31-Ago-10 $2,761,213 Securitas Seguridad España Espanha Serviços de Segurança para a Base das Nações Unidas em Valência 1-Mar-10 28-Fev-11 $357,002 G4S Security Service Sérvia Serviços de Segurança desarmada para o escritório das Nações Unidas em Belgrado 1-Mai-10 30-Abr-11 $54,517 Saracen Uganda Uganda Serviços de Segurança desarmada em Entebbe e Kampala 1-Ago-10 31-Jul-11 $170,685 Global Shield For Trade & Security Jordânia Serviços de Segurança desarmada para a base regional da UNAMI em Amman 7-Set-10 6-Set-11 $320,339 IDG Security Afeganistão Serviços de Segurança armada para a UNAMA 6-Nov-10 31-Out-11 $9,314,486 Tariq Yousafzai Construction Company Afeganistão Trabalho de Reforço na Segurança do Escritório de Khost 2-Dez-10 16-Fev-11 $66,897 Kuw Ait Al Soqoor For Security and Protection Kuwait Guarda desarmada para a UNAMI 1-Abr-11 31-Mar-12 $229,995 Segurisa, Servicios Integrales Seguridad Espanha Serviços de Segurança desarmada para a Base das Nações Unidas em Valência 1-Abr-11 31-Mar-14 $2,265,046 de 62 Security & Safety Solutions SAL Líbano Serviços de Reparo e manutenção 25-Ago-11 31-Jul-14 $252,000 Secur ity & Safety Solutions SAL Líbano Serviços de Reparo e manutenção 1-Ago-11 31-Jul-14 $84,000 Hart Security Limited Chipre Treinamento (SAIT) para a UNAMI 1-Ago-11 31-Out-12 $1,143,682 G4S Security Services Santo Domingo Guarda Armada 1-Nov-11 31- $141,676 Out-12 IDG Security Afega nistão Serviços de Segurança Desarmada para a UNAMA 1-Jan-12 30-Abr-12 $191,407 Serviços de Segurança para UNSOA 1-Mar-12 28-Fev-13 $205,153 Serviços de Segurança desarmada para a ONUCI 1-Mai-12 30-Abr-15 1,937,440 G4S Security Services Quênia Sogafer Costa Marfim Inter-Com Security Systems Liberia Libéria Serviços de Guarda Desarmada para a UNMIL 11-Mai-12 10-Mai-13 $1,466,423 Executive Security Consultancy (EXSECON) Libéria Serviços de Guarda Desarmada para a UNMIL 11-Mai-12 10-Mai-13 $864,942 Vigassistance Costa Marfim Serviços de Segurança desarmada para ONUCI 1-Mai-12 30-Abr-15 $1,939,075 Henderson Asset Protection Sérvia Serviços de Segurança para UNMIK 1-Ago-12 31-Jul-13 $271,925 Askar Security Services Limited Uganda Serviços de Segurança desarmada em Entebbe e Kampala 1-Out-12 30-Set-13 $254,880 S.L.S. Security Logistics Services Iraque Serivços de Guarda desarmada para UNAMI em Erbil 7-Dez-12 6-Mar-13 $64,829 Wackenhut Pakistan Paquistão Serviços de Segurança para UNMOGIP em Islamabad 16-Jul-13 15-Jul-16 $600,847 KK Security Rwanda Sarl Ruanda Serviços de Segurança para o escritório da 7-Jul-13 06-Jul-15 $55,118 do Of For and do 63 MONUSCO em Kigali Fonte: Divisão de Aquisições das Nações Unidas (United Nations Procurement Division, 2014) Autor: Comissão de Construção da Paz (CCP), 2014. Adaptação: PEREIRA, 2014. Anexo B - Países signatários do Documento do Montreux País Data de assinatura: 1. Afeganistão 17-Set-2008 2. Angola 17-Set-2008 3. Austrália 17-Set-2008 4. Áustria 17-Set-2008 5. Canada 17-Set-2008 6. China 17-Set-2008 7. França 17-Set-2008 8. Alemanha 17-Set-2008 9. Iraque 17-Set-2008 10. Polônia 17-Set-2008 11. Serra Leoa 17-Set-2008 12. África do Sul 17-Set-2008 13. Suécia 17-Set-2008 14. Suíça 17-Set-2008 15. Reino Unido 17-Set-2008 16. Ucrânia 17-Set-2008 17. Estados Unidos 17-Set-2008 18. Macedônia 3-Fev-2009 19. Equador 12-Fev-2009 20. Albânia 17-Fev-2009 21. Holanda 20-Fev-2009 22. Bósnia e Herzegovina 9-Mar-2009 23. Grécia 13-Mar-2009 64 24. Portugal 27-Mar-2009 25. Chile 6-Abr-2009 26. Uruguai 22-Abr-2009 27. Liechtenstein 27-Abr-2009 28. Qatar 30-Abr-2009 29. Jordânia 18-Mai-2009 30. Espanha 20-Mai-2009 31. Itália 15-Jun-2009 32. Uganda 13-Jul-2009 33. Chipre 29-Set-2009 34. Georgia 22-Out-2009 35. Dinamarca 9-Ago-2010 36. Hungria 1-Fev-2011 37. Costa Rica 25-Out-2011 38. Finlândia 25-Nov-2011 39. Bélgica 28-Fev-2012 40. Noruega 8-Jun-2012 41. Lituânia 13-Jun-2012 42. Eslovênia 24-Jul-2012 43. Islândia 22-Out-2012 44. Bulgária 8-Jan-2013 45. Kuwait 2-Mai-2013 46. Croácia 22-Mai-2013 47. Nova Zelândia 14-Out-2013 48. República Tcheca 14-Nov-2013 49. Luxemburgo 17-Nov-2013 50. Japão 6-Fev-2014 51. Irlanda 13-Nov-2014 Fonte: Federal Department of Foreign Affairs. 65 Autor: PEREIRA, 2014. BIBLIOGRAFIA ALVES, F. et al. 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