UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” AVM FACULDADE INTEGRADA O DÉFICIT HABITACIONAL E SUAS CONSEQÜÊNCIAS PARA A POPULAÇÃO DE BAIXA RENDA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO Por: Pedro Angelo Machado da Silva Orientador Prof. Mario Luiz Trindade Rocha Rio de Janeiro 2014 2 UNIVERSIDADE CANDIDO MENDES PÓS-GRADUAÇÃO “LATO SENSU” AVM FACULDADE INTEGRADA O DÉFICIT HABITACIONAL E SUAS CONSEQÜÊNCIAS PARA A POPULAÇÃO DE BAIXA RENDA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO Apresentação de monografia à AVM Faculdade Integrada como requisito parcial para obtenção do grau de especialista em Gestão Pública Por: Pedro Angelo Machado da Silva 3 AGRADECIMENTOS Aos amigos e família, tão preciosos na minha vida. 4 EPÍGRAFE “Era uma casa muito engraçada, não tinha teto, não tinha nada, ninguém podia entrar nela não, porque na casa não tinha chão”. (Vinícius de Moraes) 5 RESUMO O presente trabalho propõe uma reflexão sobre a questão do déficit habitacional na cidade do Rio de Janeiro, tendo como cerne o seu reflexo na população de baixa renda. O que foi buscado nessa pesquisa foi o processo histórico da habitação no Brasil e no Rio de Janeiro, desde o início do século XIX até os dias atuais, a formulação de políticas públicas e tentativas, ainda que tímidas, de amenizar essa situação tão premente de solução e propostas concretas que podem proporcionar a melhoria da política pública de habitação de interesse social na cidade do Rio de Janeiro. Palavras-chaves: política de habitação de interesse social, área portuária do Rio de Janeiro, regularização fundiária em áreas de interesse social, imóveis públicos subutilizados. 6 METODOLOGIA O trabalho foi desenvolvido a partir da reunião de dados sobre a situação da moradia no espaço de tempo já citado, obtidos através da leitura de periódicos, artigos científicos antigos e atuais, a consulta a sítios especializados nessa questão, de dados oficiais do governo e do banco oficial mais expressivo que trata de habitação no Brasil. Procurei a leitura de alguns autores que me deram suporte no resgate histórico, como Maurício de Almeida Abreu em “A questão da habitação popular no Rio de Janeiro”, Fernanda Guimarães Correia em “Breve histórico da questão habitacional na cidade do Rio de Janeiro” e Nabil Georges Bonduki em “Origens da Habitação social no Brasil”. Com Luiz Torres Barros, Aldo Rezende e Tâmara Tânia Cohen Egler pretendi ater-me ao lugar do Estado nessa questão, a forma dos governos lidarem com esse problema, as tímidas tentativas de solução num âmbito nacional; já com Rose Compans e Rosanne Biasotto pretendi delimitar o tema à cidade do Rio de Janeiro. Não pude olvidar, dada a magnitude do tema, de consultar a ilustre Sonia Zylberberg, autora do livro Morro da Providência: Memórias da Favella, bem como a leitura de artigos do IPPUR/UFRJ (Instituto de pesquisa e Planejamento Urbano e Regional). A junção desses artigos e livros foram de extrema valia para estrutrurar a análise sobre o problema pelo qual o Rio de Janeiro padece e que parece não ter fim. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO 8 CAPÍTULO I – A PROBLEMÁTICA DA QUESTÃO HABITACIONAL 11 CAPÍTULO II – CONTEXTO HISTÓRICO E O PAPEL DO ESTADO NO PROBLEMA HABITACIONAL 16 CAPÍTULO III – SOLUÇÕES PARA A QUESTÃO DA MORADIA POPULAR 37 3.1 – PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA? 37 3.1.1 – PMCMV E A HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 42 3.1.2 – IMPACTO DO PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO 44 3.2 – USO DOS IMÓVEIS PÚBLICOS E CENTRAIS E RENOVAÇÃO DAS ÁREAS PORTUÁRIAS 49 3.2.1 – REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA: ÁREAS DE INTERESSE SOCIAL 54 CONCLUSÃO 60 BIBLIOGRAFIA 64 SIGLAS 68 8 INTRODUÇÃO O presente trabalho propõe uma reflexão sobre a questão do déficit habitacional na cidade do Rio de Janeiro, tendo como cerne o seu reflexo na população de baixa renda, buscando apresentar soluções para os problemas de moradia na Cidade Maravilhosa. O tema sugerido é de fundamental relevância, pois basta flanar pelo Rio de Janeiro, seja no asfalto, seja principalmente nas favelas, que percebemos que a Cidade Maravilhosa ainda não resolveu seus problemas de moradia. A oferta de moradia à população de baixa renda ainda tem sérios entraves, diretamente ligados à estrutura sócio-econômica, datadas ainda da época colonial. As iniciativas visando resolver esse problema quase sempre atenderam ao interesse privado ou a uma ótica de controle social. A política de remoção de favelas miseráveis tinha um viés higiênico, com o intuito de deixar o Rio de Janeiro como uma Paris. Essa política continuou na época do governador Lacerda, empurrando os pobres para áreas longínquas da cidade, sem proporcionar a mínima infraestrutura, seja no local de moradia, seja no acesso a um transporte digno. O governo sempre tem ensaiado formas de mudar esse panorama, ainda sem lograr êxito. É, portanto, objetivo geral dessa pesquisa desenvolver uma base teórica capaz de propor uma melhoria concomitante com uma alternativa viável para a solução da conflituosa questão habitacional no município do Rio de Janeiro; acessórios ao objetivo geral, tenho a abordar a investigação da problemática relacionada à produção habitacional, analisar a demanda habitacional de interesse social, traçar um viés histórico de toda a questão habitacional, desde a vinda da Corte Portuguesa e dando maior destaque às transformações da época do prefeito Pereira Passos até os dias atuais, analisar o papel do governo e das camadas sociais no planejamento e construção de moradias e o impacto da localização na vida dessas pessoas. Em um primeiro momento será abordada a problemática da questão da habitação, situando tal problema não só no ambiente material de moradia, mas demais questões ligadas de forma intrínseca ao direito de moradia, quais 9 sejam políticos, sociais, econômicos, culturais e ambientais, ressaltando o chamamento do Estado à sua responsabilidade. Adiante, teremos o contexto histórico do problema, onde no início do século XX a tônica constantentemente usada era a de criminalizar os setores sociais que lutavam pelo seu direito inalienável de moradia. O remocionismo e a limpeza urbana eram o destaque dessa “política de habitação”. Embora com o decorrer dos anos passou-se a constatar o déficit habitacional como um problema e houvesse tentativas de melhorias visando o enfrentamento desse problema, sendo a criação do BNH o ensaio mais representativo, todas elas não restaram exitosas, seja pela ausência de recursos financeiros, corrupção, seja pela falta de sintonia entre as três esferas de governo, dentre outros obstáculos. O Programa Minha Casa Minha Vida surge não como uma ação social, mas como uma resposta à crise mundial de 2008. Não afeta a especulação imobiliária e repete o modelo de gestão do BNH de construir fora da cidade, com edificações nas áreas periféricas das cidades. Passamos a ter mais “cidades partidas”, se prioriza o modelo de atendimento ao mercado, ao invés de atender ao direito de moradia. Em sede do município do Rio de Janeiro não se vislumbra mudanças nesse panorama: as construções são feitas majoritariamente na Zona Oeste da cidade, área emblemática para reassentamento de famílias removidas das áreas que sofrem intervenções urbanísticas. Os imóveis situados nas áreas central e portuária da cidade, pertencentes na faixa de 62% à União Federal não são utilizados para amenizar esse problema social de moradia, pelo contrário, o governo cede à Prefeitura esses imóveis de forma a revitalizar a zona portuária, conseguinte a atender o turismo e o comércio. Os mega eventos (Copa do Mundo de 2014 e Olimpíadas de 2016) vieram na esteira dessa forma de agir. A utilização de áreas de interesse social, as chamadas ZEIS, formaliza o reconhecimento da diversidade das ocupações existentes na cidade e a possibilidade da construção de um arcabouço legal nos assentos, tanto na qualificação e regularização das áreas ausentes de legalização, quanto na democratização do acesso à cidade provida de infraestrutura. Ademais, visa 10 regular o mercado imobiliário e permitir que a regulação urbana ocorra de forma paralela à regularização jurídica do assentado que propiciem direitos e deveres aos cidadãos. Os benefícios da regularização fundiária para a população são inegáveis, bem como segurança na posse através da legalização dos imóveis ocupados para moradia ou outros usos residenciais; acesso a serviços públicos básicos e financiamentos habituais para melhoria dos imóveis existentes, integração das diversas áreas da cidade, por meio de endereçamento oficial, inclusão dos lotes nos cadastros municipais. Entretanto, as conquistas de destinação dos imóveis públicos subutilizados para Habitação de Interesse Social e recursos do OGU para a construção de moradia popular esbarram na ausência de empenho político para a desburocratização dos processos, em especial da CEF, beneficiando assim a especulação imobiliária que atinge os imóveis públicos. A abordagem textual é delimitada para o município do Rio de Janeiro, sem prejuízo de eventuais referências textuais ao problema no Brasil e em outros países do mundo. 11 CAPÍTULO I A PROBLEMÁTICA DA QUESTÃO DA HABITAÇÃO: Sendo uma necessidade humana básica de onde e como morar, amparada pela ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (1948), a problemática da habitação constitui-se em um dos elementos primordiais para a composição, produção e reprodução do espaço social construído. Não se configura como um meio isolado, está dentro de um contexto que mantém ligações em um rol de elementos básicos, como a educação, saúde, lazer, renda, dentre outros elementos intrínsecos à vida humana. Ela torna possível aos indivíduos e grupos desenvolverem suas habilidades e capacidades e se inserirem na sociedade de uma maneira ativa. Sendo assim, o direito a moradia têm como componentes essenciais a disponibilidade de serviços e infra-estrutura, acessibilidade, de um modo geral a implementação de políticas habitacionais que vão de encontro às necessidades dos grupos mais vulneráveis, casados com o respeito aos direitos inerentes aos cidadãos, quais sejam sociais, políticos, econômicos, culturais e ambientais. A moradia por si só não representa uma maior estabilidade material, mas também social, em razão do lugar fundamental de produção e reprodução da sociedade, que admite a sobrevivência dos cidadãos mesmo em situações de renda insuficiente, como é o caso de uma parte da população que não consegue trabalho estável e formal. Dessa maneira, as habitações possuem características intimamente ligadas à renda da população, inclusive no tocante à estrutura dos lugares e a condição da moradia, se estendendo à classe social dos indivíduos que lá moram. Essa diferenciação tem suporte no peso que o mercado imobiliário sempre teve na produção de moradias. Ressalta-se o fato da terra urbana ter se tornado uma mercadoria cara e escassa, contribuindo para o aumento do problema da carência por moradia, forçando uma parte da população a procurar alternativas, preferencialmente em áreas periféricas, uma vez que as áreas centrais estão rendidas pela especulação imobiliária. Os recursos públicos sempre andaram casados com os investimentos econômicos, ao invés de priorizar os gastos sociais. 12 Nesse diapasão, o processo de urbanização tem como destaque a exclusão e uma sociedade concentradora de renda, onde os investimentos estão em sintonia com a vontade do capital imobiliário. Essa forma de pensar tem se mostrado lucrativa para esse capital e incompatível com as classes hipossuficientes, gerando uma sociedade excludente e uma cidade partida pela segregação e conseqüentemente negação do direito de acesso desse setor social aos bens e serviços públicos. MARICATO (1997) salienta o fato de que a moradia tornou-se uma mercadoria, especial até, por ser mais caro do que outras mercadorias e estar num patamar elevado para a condição de pagamento dos trabalhadores, asseverando também que o direito social de máxima importância para uma vida digna e saudável tem se transformado em um bem de consumo, sujeito às leis do mercado. A análise sobre o problema habitacional não pode ser feita de forma isolada, pois há outros fatores que permeiam a questão da moradia. O tema habitação não é adstrito ao espaço físico, mas um conjunto de práticas sociais, associadas aos serviços de infra-estrutura e serviços públicos. A materialização do direito à moradia é, portanto, condição básica e núcleo essencial da defesa da dignidade da pessoa humana, uma vez que garantir a moradia significa possibilitar o seu exercício num local adequado, com acesso a serviços básicos de fornecimento de água tratada, luz, captação de esgoto, transporte, pavimentação de ruas, escola, creche, centro de saúde e áreas de lazer. (FITTIPALDI, 2006, p.54). A política de habitação de interesse social não pode ser divorciada da ação e responsabilidade do Estado, tampouco delegada a terceiros. Os programas desenvolvidos pelo Estado devem contemplar famílias de baixa renda e procurar viabilizar o acesso à moradia digna e apropriada aos segmentos sociais desfavorecidos. Construir uma casa não é suficiente, a política de habitação deve estar cercada de acesso aos bens e serviços públicos. Em um contexto histórico de desigualdade de renda, no qual as ações de melhoria da infra-estrutura, serviços públicos e habitação se concentraram nos setores da sociedade com renda média e alta, se olvidando dos demais, faz-se mister intervenções do poder público para garantir que a sociedade alcance o mínimo de bem estar e de segurança social. A Constituição Federal de 1988 trouxe uma maior descentralização do poder antes limitado ao governo federal, onde a habitação tornou-se uma 13 atribuição também dos três níveis de governo, tendo dois artigos (182 e 183), dispondo sobre objetivos e mecanismos para o desenvolvimento dos municípios. Dessa forma, tem como objetivo o desenvolvimento urbano municipal, a implementação das funções sociais da cidade e a garantia do bem estar dos habitantes, porém é omissa no tocante aos requisitos que determinam a função social da cidade, deixando essa definição a cargo do Plano Diretor, enquanto instrumento básico da política de desenvolvimento e expansão urbana do município. A política habitacional implementada no Brasil no decorrer dos tempos sinaliza o fato de que tal política não atendeu o seu objetivo maior, o de solucionar o problema da moradia para a população de menor renda, mas fechou os olhos para a expansão capitalista nas áreas urbanas, onde se estabeleceu um mercado urbano de terras. Ao longo do tempo, o espaço urbano tem sofrido mudanças e tem sido reconstruído, materializando o rápido processo de urbanização vivenciado nas grandes e médias cidades brasileiras. Esse rápido processo tem sido facilitado pelas políticas públicas ofertadas pelo poder público, no entanto limitado somente à parcela da população com renda formal e que pode viver na cidade legal. A evolução de demais indicadores sociais, econômicos e financeiros, como os números da população favelada e da violência, evidencia contrastes nas cidades brasileiras. A política habitacional no Brasil se deu em virtude do déficit habitacional e também se constituiu como resposta do Estado ao capital, no sentido de atender aos interesses externos, além de ter servido como mecanismo de controle econômico, político e social, ajudando em certos momentos a suavizar os conflitos pela posse do solo urbano. Compreender a questão da moradia na sociedade capitalista significa olhar para as contradições inerentes ao acesso à moradia. O significado da terra, por exemplo, é um bem natural que não pode ser reproduzido, logo não pode ser criado pelo trabalho. A valorização da terra acontece graças à monopolização do acesso a esse bem de máxima necessidade à sobrevivência, que diante da realidade capitalista, torna-se caro e escasso. 14 A qualidade dos imóveis no país é outro problema ao qual se deve atenção, visto que é significativa a quantidade de moradias que possuem algum tipo de inadequação, seja no padrão de construção, regularidade fundiária, acesso aos serviços e equipamentos urbanos, dentre outros. Esse perfil demonstra que os programas relacionados à habitação não estão se articulando com os demais programas de desenvolvimento urbano, como a política fundiária, o saneamento ambiental e o programa de infraestrutura urbana. O modo como foi estruturada a urbanização brasileira não se mostra adequada aos padrões de vida local, visto que, promove a especulação imobiliária das áreas centrais, elevando o valor dos terrenos e imóveis, fazendo com que a população de baixa renda não tenha acesso à moradia nestas áreas. Sendo assim, essa população é obrigada a se deslocar para áreas mais distantes do centro, aumentando a expansão horizontal das cidades e estimulando, assim, a constituição de assentamentos precários e muitas vezes irregulares, como as favelas. Neste sentido, tendo em vista que o planejamento urbano, a gestão do solo e a regulação urbanística priorizam o mercado das classes médias em detrimento do mercado de baixa renda, observa-se, portanto, sobretudo nas grandes cidades, um intenso processo de segregação social e exclusão da população menos favorecida economicamente. Assim, como foi mencionado anteriormente, o processo de urbanização brasileiro desenvolvido pelo poder público não se mostra adequado, visto que provoca a formação de vazios urbanos nas áreas centrais e uma intensa segregação e exclusão da população de baixa renda nas zonas periféricas. Esses núcleos urbanos que se formam nas extremidades da cidade dificultam o acesso dos serviços e equipamentos urbanos, reproduzindo ainda mais as desigualdades sócioterritoriais. O transporte coletivo é um exemplo, pois a dificuldade de acesso a esses núcleos urbanos, em função da distância destes com o centro demanda maior tempo nas viagens, além de elevar o valor da passagem. As conseqüências disso são a queda na qualidade do sistema de transporte urbano, juntamente com a redução na qualidade de vida da população. 15 BRANDÃO e LOPES (2012) nos mostra que em relação aos processos de regularização fundiária de assentamentos, dificilmente estes processos chegam à etapa final, em função de uma série de burocracias a que são submetidos e, devido ao grande número de instituições que estão envolvidas no procedimento, como cartórios, poder judiciário e entidades federativas. O Estado, enquanto ente político-administrativo responsável pelo planejamento, pelos investimentos e pela implementação das políticas públicas tem como uma de suas funções a promoção do bem estar da vida urbana. Entretanto, pôde-se verificar durante décadas políticas habitacionais inconsistentes, por vezes indiferentes, excludentes e não abrangentes, que ora o governo tomava para si a responsabilidade e, após comprovadas as dificuldades financeiras, a corrupção, políticas de apadrinhamento, falta de controle e acompanhamento dos programas, restando para a população ter como opção de acesso à moradia casas e barracos, insalubres e sem a mínima condição digna de habitabilidade, construídas na maioria das vezes em áreas e terrenos invadidos. Essa situação precisa de uma solução premente, sob pena de passarmos mais um longo tempo convivendo com essa desigualdade tão triste. 16 CAPÍTULO II CONTEXTO HISTÓRICO DO PROBLEMA HABITACIONAL: Até o início do século XIX, a sociedade brasileira ainda tinha ares campestres, com cidades divididas em vilarejos. A maioria da população era escrava, com poucos trabalhadores livres. A vinda da Família Real em 1808 provocou a demanda por áreas que servissem como locais de moradia permanente ou chácaras, em regiões como Botafogo, São Cristóvão e Engenho Velho. A escolha dessas regiões se dava pelo fato de querer evitar a alta concentração de doenças endêmicas (pestes, varíola e febre amarela) nas moradias coletivas à época. Naquele tempo o Rio de Janeiro era considerada uma cidade perigosa e extremamente suja, indigna para ser moradia da realeza pelas moradias coletivas existentes. Cabe destacar o combate ao cortiço, habitação coletiva resultante da aplicação de capitais de origens as mais diversas, mas com predominância do pequeno capital mercantil, eternizada pelo romance de Aluízio Azevedo. ABREU (1986) nos ensina que a questão da salubridade dos cortiços permeia toda a argumentação política e técnica sobre higiene pública durante o Segundo Reinado. Já em 1.843, quando a cidade sofria um surto epidêmico de febre escarlatina, a Academia Imperial de Medicina sugeria evitar a superlotação das habitações. A habitação ganha uma tônica de controle, resultando até em demolição dessas formas de edificação. Essas medidas de controle estavam relacionadas, também, à crise econômica causada pela permanência de uma economia latifundiária, com uso de mão-de-obra escravista, tendo como conseqüência perdas de capitais externos e queda na produtividade. O tom utilizado pela imprensa era sempre a questão da salubridade da cidade, comprometida pela situação dos cortiços, mas também tinha um tom crítico contra o governo, pelas falhas de abastecimento de água e por continuar a permitir tais moradias “perigosas”. 17 Esse panorama obscuro passa a mudar com o desenvolvimento da produção cafeeira, que possibilitou a modernização das lavouras e o surto industrial brasileiro. Nesse período, a cidade atrai vultuosos investimentos de capitais externos interessados no setor de serviços públicos, como transporte, esgoto e gás, concedidos pelo Estado. Ainda assim, com o surgimento da Estrada de Ferro D. Pedro II, em 1.861, não contribui para a melhora desse quadro, já que somente aqueles que possuíam rendas consideráveis poderiam morar fora da cidade e nos arredores. A localização central era a condição indispensável para a própria sobrevivência, pois além da economia no transporte, ali era o local para trabalhadores, livres ou ainda não livres, procurar o trabalho, cada vez mais difícil por causa da concorrência da força de trabalho imigrante. Sendo assim, os cortiços vinham sendo alvo de preocupações por parte do governo, relacionadas à situação econômica e política que o país vivia. O esgotamento do sistema escravista e o novo processo industrial, sustentado no modelo agroexportador, aliado à situação urgente de formação de operários industriais não deixava de se tornar periclitante a problemática da pobreza e das condições subumanas das moradias dos trabalhadores, principalmente os imigrantes, exterminados pelas doenças. Seja pelo governo imperial, seja pelo governo republicano, havia uma certa preocupação em subsidiar o capital e isentar de impostos as empresas dispostas a construir habitações para o povo, de forma a substituir os cortiços, causadores de doenças e da baixa produtividade dos operários. No governo republicano recebeu a alcunha de vilas operárias (habitações higiênicas para seus funcionários). Essa união do Estado com o capital não produziu resultados consideráveis. Entretanto é notável que a solução do governo para substituir os cortiços centrava-se na forma da habitação, mantendo o aspecto de habitação coletiva, porém agora “higiênicas”. Ao contrário do cortiço, podia ser facilmente controlável, amparado sob um forte regulamento rígido. Indubitável é o entendimento de que a questão do controle dos trabalhadores ultrapassa a questão da higiene, já que esses regulamentos rígidos impediam a participação dos operários em diferentes tipos de 18 manifestação política, com vistas a organizar e controlar suas vidas, uma vez que o movimento operário começava a flertar com os ideais sindicais e anarquistas trazidos pelos operários europeus ao Brasil. De forma a evitar o agravamento das tensões urbanas, diversas habitações coletivas passaram a ser demolidas, sob o pretexto da higiene, apesar de entendimentos contrários. A demolição do maior cortiço da época, o famoso “Cabeça de Porco”, na rua Barão de São Félix e próximo de onde hoje se encontra o túnel João Ricardo, ganhou ares de operação de guerra: para lá se deslocaram uma força de infantaria da polícia, de cavalaria, bombeiros, operários da Inspetoria de Obras Públicas, além do chefe de Polícia e do prefeito Barata Ribeiro. Esse cortiço abrigava em torno de quatro mil pessoas. A cidade do Rio de Janeiro enfrentava desde então contradições em sua organização interna. As relações de trabalho assalariadas não extinguiram a participação de mão-de-obra escrava na economia e, ainda, essa mão-de-obra assalariada era dizimada pelas epidemias. O capital estrangeiro, que modernizava o setor de infraestrutura básica, conflitava com toda a estrutura urbana proveniente dos tempos coloniais. A rapidez do transporte de carga ferroviária contrastava com a estrutura portuária colonial, distantes dos terminais ferroviários, encarecendo os custos de circulação e aumentando o congestionamento das ruas centrais. Precisava-se criar uma capital condizente com a nova divisão internacional do trabalho, que expressasse valores modernos e capitalistas. O Rio precisava se tornar uma Paris, embora estivesse muito distante daquela capital francesa, por possuir uma área central tipicamente colonial, com becos escuros, com uma mistura de classes e usos sociais diversos, bem como mistura de edifícios públicos e cortiços. Cabe ainda frisar a falta de coleta de lixo, ruas sem circulação de ar, os focos de epidemias, umidade e os cortiços como alvos a serem combatidos. O prefeito Pereira Passos, nomeado durante a presidência Rodrigues Alves, proporcionou em quatro anos a maior mudança já observada no espaço urbano carioca à época. Essa intervenção caracterizou-se como um programa de reforma urbana, aliada ao controle de epidemia, sob um viés higienista. 19 A Reforma Passos, assim denominada, representa uma época de grandes transformações, motivadas pela inevitabilidade de adequação do urbano às necessidades de criação, concentração e acumulação do capital. Foi o exemplo de intervenção direta e abrangente do estado sobre o espaço urbano, tendo como sustentáculos o controle da circulação (melhoria das comunicações internas e externas, materializadas na construção do novo porto, otimizando os eixos de transportes de mercadorias e solucionando o problema de logística da área central carioca) e o controle urbanístico (uso de estratagemas jurídicos capazes de dar ao prefeito poderes para organizar a cidade e aumentar a carga de tributos, permitindo vigilância até sobre a vida dos cariocas. Esse controle podia ser notado na proibição de reformas dos cortiços ainda existentes, do comércio ambulante e de quiosques (ponto de encontro do operariado), na proibição de criação de suínos nas casas e na proibição do exercício da mendicância. Entretanto, há beneficiários dessa reforma, qual seja o capital financeiro (principalmente o internacional), concessor de empréstimos necessários à realização das obras; os proprietários dos imóveis localizados no Centro e na Zona Sul, cujos valores do solo urbano aumentaram de forma considerável, gerando altas rendas para esses proprietários, sem haver contrapartida vantajosa para o estado, já que o baixo custo do imposto predial pago não acompanhava esse aumento. Cabe ressaltar ainda que as indústrias de construção civil também se beneficiaram dessa Reforma, que diminuiu os custos na importação e exportação de seus produtos, ao desfrutar das novas vias de transporte que se abriam. Ademais, Pereira Passos delimitou com mais força as áreas nobres das pobres, separando os locais de residência dos locais de trabalho, proporcionando o deslocamento do operariado para os subúrbios, com novas alternativas de transporte a custo menor. Em virtude da grande oferta imobiliária nos subúrbios, as vilas operárias caem em desuso. ABREU (1986) constata que alguns bairros periféricos foram preservados dessa reforma por possuírem alta densidade demográfica e não serem alvo de qualquer interesse, quais sejam Catumbi, Cidade Nova, Estácio, partes da Lapa, Gamboa, Santo Cristo e Saúde. Estes viriam a se tornar 20 grandes favelas da cidade, exatamente pela omissão pública e pela ausência de alternativa dos trabalhadores, assim como a área suburbana não receberia atenção do governo para serviços estruturais básicos. Não se pode desprezar a importância de Pereira Passos, pois o período de sua gestão representou o primeiro exemplo de intervenção do estado sobre a questão urbana e social, rearrumando e delimitando os espaços de habitação das camadas mais pobres que não condiziam com a nova imagem que se desejava passar da cidade. É notório o privilégio das classes mais ricas, que receberam serviços de arborização e asfalto em seus bairros, concomitante com os investimentos no centro da cidade. Tal remodelação de espaços somente beneficiou a elite local, ao expulsar antigos moradores(como quilombolas, por exemplo) de áreas consideradas exclusivas das classes burguesas, como Copacabana e a Lagoa Rodrigo de Freitas. Em linhas gerais, a questão habitacional foi delineada pela política do “bota abaixo”, ou seja, pela remoção das pessoas que moravam nos cortiços e casas de cômodos para áreas afastadas ao centro urbano da então capital federal do país. Nesse sentido, a aludida Reforma não teve como base manter o vínculo da população carente com o seu local de moradia, ao afastá-la para a periferia. Atraindo grande quantidade de mão de obra e em contraponto sem oferecer espaços para sua reprodução, inaugura-se aí um paradoxo: ao mesmo tempo em que a premissa de Passos era o controle urbano, tornara-se impossível controlar a forma de habitação que já vinha se desenvolvendo, amparada na própria informalidade e ausência de controle, tudo o que se pretendia extinguir. Nascia a favela, já presente na cidade desde 1897, quando com a autorização de chefes militares, os morros da Providência, situados nos fundos de guarnições do Exército e da Polícia, haviam sido ocupados por praças retornados da Guerra de Canudos junto com suas famílias, logo se revelando uma solução ideal para o problema de habitação do proletariado. De residência temporária de militares, no aguardo ad eternum de uma providência, esses 21 morros logo se transformaram em opção de moradia permanente. Tal modelo foi se difundindo com considerável rapidez pelo resto da cidade. As administrações posteriores, como por exemplo André Gustavo Paulo de Frontin e Carlos Sampaio, não só continuaram tal política, como acentuaram ainda mais o abismo entre os bairros, contribuindo para o aumento da estratificação e estigmatização espacial e social. Dentro deste ideal de modernidade, a demolição dos morros do Castelo e Santo Antônio seria o ponto inicial para a reordenação do centro da cidade, superando a dualidade entre tradição e modernização. O discurso cientificista veio conferir legitimidade à sanitaristas e arquitetos identificados com o ideal de “limpeza urbana”. BONDUKI (2004) nos ensina que a Revolução de 1930 marca uma ruptura na forma de intervenção do Estado na economia e nas relações capital/trabalho. Procura-se abandonar os interesses da economia agroexportadora em prol de um processo de criação de novas condições para que as atividades urbano-industriais sejam o cerne da economia. No setor de habitação, Getúlio Vargas estima o modelo higienista de rejeição da cidade real, enfatizando o embelezamento e a monumentalidade. A favela só tem espaço na agenda oficial de governo em 1937, com o Código de Obras da Cidade, que previa a demolição destas áreas e a remoção de seus habitantes para os parques proletários, repetindo os atos normatizantes e disciplinantes de Pereira Passos. O propósito era exterminar o feio, o incômodo estético e não se preocupar com a condição de vida da população. Como as leis e medidas serviram que serviram para beneficiar a classe trabalhadora eram restritas ao universo urbano-industrial, verifica-se o aumento do fluxo migratório do campo para a capital, adensando a ocupação nos subúrbios e favelas. O governo Vargas não se propôs a formular uma política habitacional articulada e coerente, como pode-se depreender da criação em 1.937 das carteiras prediais dos Institutos de Aposentadoria e Pensões, seguida pela instituição da Fundação da Casa Popular, em 1946, por Eurico Gaspar Dutra. A primeira, por não ser um órgão propriamente destinado a enfrentar o problema da habitação, e sim instituições previdenciárias, agindo de forma 22 complementar dentro de uma lógica marcada pela necessidade de investir os fundos de reserva da Previdência Social para preservar seu valor; a segunda, já gestada com objetivos grandiosos demais (forte ingerência nos setores de financiamento, moradia, infraestrutura, saneamento, material de construção) para uma realidade frágil, carente de recursos e desarticulada com outros órgãos. BONDUKI (2004) não nos deixa olvidar da Lei do Inquilinato, criada em 1942, com o intuito de congelar os aluguéis, representando dessa maneira uma intervenção de forma indireta que desestimulava a prática de acumulação de renda com as casas de aluguel, incentivando a aquisição de moradias próprias. Não foi exitoso, pois abarcou somente a classe média, uma vez que a classe baixa sequer tinha renda para aluguéis, lhes restando somente a autoconstrução e as favelas. Em 1952, o governo federal acaba por reduzir as atribuições da Fundação da Casa Popular. A década de 50 veio acompanhada de um grande avanço da indústria brasileira, com intenso crescimento urbano e intervenções do Estado de forma a adequar o espaço urbano à circulação de automóveis; entretanto, cabe frisar que a expansão urbana foi marcada por grande desigualdade: a classe média crescia e tinha ao seu alcance financiamentos de apartamentos e bens duráveis, à medida que às classes pobres restavam as favelas e os loteamentos ilegais nas áreas periféricas. Nesse contexto, o governo de Juscelino ensaia, no final da década de 50, fortalecer a FCP, que tem nessa época seu período mais dinâmico, com maiores investimentos e maior número de unidades habitacionais construídos. Não resolveu o problema da carência de moradia, pois os recursos financeiros eram sempre inconstantes, já que o Estado era o principal financiador e a verba para esse órgão dependia da distribuição interna dos recursos e da situação econômica do país. Aliado a isso, existiam os problemas de caráter autoritário e clientelista, típicos do regime populista, que delimitava as regiões de construção desses conjuntos habitacionais e os critérios obscuros de seleção dos candidatos. Chegava-se ao absurdo de, mesmo após a entrega dos apartamentos, existir a visita de técnicos para avaliar e orientar o comportamento social e individual 23 dos moradores, que poderiam ter seus contratos rescindidos caso tivessem conduta contrária à ordem ou à moral da Administração. Ressalta-se que essa época foi marcada pelos movimentos migratórios oriundos dos estados nordestinos, incentivados pelo acesso a bens de consumo, emprego e ilusão de uma vida melhor. Essa população, que restou por ser excedente de mão de obra, sem sustento oficial e aumentando assim o mercado informal, enfrenta sérios problemas com a habitação. Malgrado todo esse esforço de reformulação, a FCP produziu cerca de 17.000 moradias, passando longe de uma política estruturada de habitação, e sim objeto de ações visando prestígio político para obtenção de votos. A postura de remoção de outrora passa a ser questionada por intelectuais, estudantes e participantes do Partido Comunista. Amedrontada pela ameaça “comunista”, a Igreja Católica se associa ao Estado, oferecendose como agente de cristianização dos pobres e assumindo responsabilidade pela assistência social. Em 1946 surge a Fundação Leão XIII. A Igreja ofertava o convencimento, o diálogo e a resignação, ao invés de cultivar as lutas política e pelo acesso a bens públicos e a negação do assistencialismo. De forma a aprofundar o seu domínio junto às favelas e aliar urbanização e cristianismo, é criada em 1955 a Cruzada São Sebastião, com uma missão mais voltada para o controle político, executando serviços básicos de luz e urbanização em 12 favelas; sua ação mais marcante foi a construção do conjunto habitacional Cruzada, no Leblon, que foi o primeiro exemplo de remoção para a proximidade da área onde se encontrava a favela a ser demolida, a favela da praia do Pinto. Em 1956, a Prefeitura cria o SERFHA, com atuações modestas, porém atrelada aos projetos catequisantes da Igreja. Procurou uma aproximação com os moradores, entretanto o que estava em jogo era subordinar politicamente os seus habitantes, promovendo o controle político a uma pauta mínima de direitos sociais referente a problemas de infraestrutura. Essas iniciativas da Igreja e do Estado não impediram que os moradores das favelas criassem uma entidade autônoma pra negociar seus interesses junto ao poder competente, surgindo em 1957 a Coligação dos trabalhadores Favelados do Distrito Federal. Pouco tempo depois, o governador Carlos 24 Lacerda redefine a atuação do SERFHA, desvinculando-o da Igreja Católica e dá início à Operação Mutirão, a fim de proporcionar uma cooperação entre o estado e as favelas. Em 1962, a COHAB foi criada, visando promover a célebre política de remoções de favelas empreendida por Lacerda. Os recursos que tornaram viáveis a execução dos primeiros conjuntos habitacionais foram provenientes do Acordo do Trigo Estados Unidos – Brasil, firmado entre o governo estadual e a Agência para o Desenvolvimento Internacional (USAID), da qual a receita proveniente da compra de trigo norte-americano seria revertida na urbanização de favelas e na construção de moradias. Mesmo com a criação da FAFEG em 1963, a tendência do Estado era cooptar as lideranças de moradores de favelas de forma a evitar que cumprissem sua função de pressionar a administração pública para atender a demanda das favelas por melhorias. A renúncia de Jânio Quadros trouxe, a contragosto dos militares, a vinda de João Goulart para o governo. Havia um pavor dos militares por Jango em virtude de sua ligação com partidos políticos comunistas e socialistas e o medo do Brasil virar uma nova “Cuba”. Dentro de suas reformas de base, tinha espaço para a reforma urbana, com vistas ao fornecimento de habitação digna a todas as famílias, projeto esse elaborado por urbanistas ligados ao IAB. Não houve tempo para isso e deposto Jango e instaurado o golpe militar, em 1964, a FCP foi extinta, nascendo assim o Plano Nacional de Habitação, o primeiro grande dos planos megalomaníacos dos golpistas de Estado. Além das questões ligadas à habitação, esse plano buscava tornar a economia mais dinâmica e o desenvolvimento do país (criação de empregos, fortalecimento do setor de construção civil etc.) e, mormente, controlar as massas, garantindo a estabilidade social. A concepção de política urbana da ditadura militar tinha como carrochefe o planejamento como a solução para o caos urbano e para controlar o crescimento das favelas e ocupações irregulares. Os planos diretores dos militares ignoravam os problemas e as necessidades da cidade real (que 25 incluía a cidade informal). O cerne da política de habitação desse período era construção de moradias e obras de infraestrutura na cidade formal. À partir de 1.964, as ações públicas voltadas para as vilas e favelas são asfixiadas; os movimentos sociais e as associações populares são ferozmente reprimidos, lançados na ilegalidade e impossibilitados de atuar; os favelados e as favelas/ocupações passam novamente a ser tratados como caso de polícia. De forma a tornar concretas essa concepção de cidade e de política para habitação, o Banco Nacional de Habitação foi criado, tornando-se o principal órgão da política habitacional e urbana do país. Sua prioridade era orientar, disciplinar e controlar o Sistema Financeiro Nacional, visando dar impulso à construção e à aquisição da casa própria, em especial pelas classes de menor poder aquisitivo. O caminho perseguido pelo SFH e pelo BNH não foi linear e pode ser compreendido por três fases: a primeira, entre 1.964 e 1.969, foi a de implementação e expansão do BNH e das COHABs, com considerável financiamento de moradias para o povo, harmonizando com o objetivo de ser legítimo junto ao povo. A sua importância foi aumentada na gestão de Costa e Silva, em 1.967, quando o BNH recebe a gestão dos depósitos do FGTS e com a implementação do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimos, o que ampliou significamente o capital do banco; a segunda, entre 1.970 a 1.974, baseou-se em um esvaziamento e uma crise do SFH, especialmente perda de dinamismo das COHABs, que se tornaram financeiramente frágeis por culpa da inadimplência decorrente da perda do poder de compra do salário mínimo, que refletia nos principais mutuários, os mais pobres. Com isso, os financiamentos passaram a ser cada vez mais direcionados às famílias de classe média,uma vez que os juros para essa camada eram mais altos e o índice de inadimplência era menor, se comparado aos das classes mais pobres; já a terceira fase do SFH, entre 1.975 e 1.980 foi caracterizada pela reestruturação e fortalecimento das COHABs, com aumento do número de moradias, destinadas em sua grande maioria à classe média. Sendo assim, o que restava para as famílias mais pobres eram as favelas e os loteamentos clandestinos das zonas periféricas das capitais e cidades das regiões metropolitanas. Não é de causar surpresa o crescimento desses loteamentos 26 nas periferias, pois esse era a possibilidade de acesso à moradia existente, aliado à compra de lotes ilegais ou irregulares e mais baratos e também autoconstrução. No âmbito do Rio de janeiro, em 1966 é criada a CODESCO pelo governador Negrão de Lima, com um viés de reconhecimento dos direitos dos favelados e de baixa renda, objetivando procurar alternativas para integrá-los à cidade formal. A sua filosofia era de manter os seus favelados no seu lugar de origem e de dar importância à regulamentação da posse da terra. Observa-se o olhar humano sobre o problema, ao se deparar com o programa desenvolvido, onde se usava o desenho dos próprios moradores para posteriormente os arquitetos redesenharem as plantas das casas. Apesar disso, o discurso remocionista ainda possuía certa força e a ação da CODESCO foi se esvaziando, nascendo em 1968 a CHISAM, com o objetivo de ditar uma política única para os favelados, sem participação popular. A percepção da CHISAM era de que as soluções viriam somente do poder público, em detrimento do “caos” e “desordem” dos favelados. O seu objetivo era claro: exterminar as favelas do Rio de Janeiro. E durante os seus 8 anos de existência, foi responsável pela eliminação de 49 favelas. Conforme análise de BRUM apud COMPANS (2011), o programa de eliminação tinha uma estratégia mais ampla de reordenação do solo urbano, que preservaria a zona sul como área turística e residencial da elite, enquanto a zona norte abrigaria indústrias e áreas residenciais operárias. A política de remoção enfrenta forte reação social de moradores, estudantes e intelectuais empenhados na tentativa de se estabelecer um processo democrático de urbanização. Essas reações aumentaram sobremaneira os custos das remoções, tornando-se um dos principais motivos de seu abandono. A partir desse momento, houve uma reformulação do planejamento urbano estratégico, de forma a afastar os métodos autoritários e homogêneos em voga. A cidade do Rio de Janeiro então passa a ser a primeira metrópole que procurou adotar mecanismos participativos em sua administração. O panorama de ausência de fiscalização nessas áreas centrais começa a mudar na década de 70, encarecendo os lotes na periferia. Ademais, a 27 inflação galopante e a decorrente perda do poder de compra do salário resultaram na queda da produção de lotes nas periferias e concomitantemente ao aumento do número de favelas, inclusive das já existentes. O Regime Militar, na tentativa de refrear esses processos e suprir a deficiência de ação das COHABs, cria programas com vistas a oferecer aos que estavam à margem dos programas habitacionais uma alternativa dentro do SFH. Foi criado em 1.975, o PROFILURB, fornecendo condições de saneamento e infraestrutura básica; ao mutuário cabia a responsabilidade de construir conforme suas disponibilidades. Esse programa não prosperou, pois os lotes eram longínquos dos centros urbanos, o que dificultava o acesso à cidade e aos seus serviços. Entre as décadas de 1970 e 1980, a cidade do Rio de Janeiro apresenta um declínio no seu crescimento populacional. Entretanto, a população das favelas mantém seu crescimento. Os motivos mais plausíveis de entender esse descompasso são o esgotamento de terrenos livres disponíveis na cidade a crise da dívida externa na década de 80, juros exorbitantes praticados, que acabaram por praticamente extinguir os programas destinados à habitação, tornando inviável o acesso à moradia para boa parte das camadas sociais de baixa renda. O esgotamento da fronteira urbana é perceptível pelo índice de crescimento populacional das regiões mais afastadas do Centro do Rio (Barra da Tijuca, Jacarepaguá e Campo Grande). Um mercado fechado, acompanhado do encarecimento das terras e políticas governamentais tímidas forçaram essas camadas sociais de condições econômicas precárias, a procurar abrigo nas favelas. No que se refere à questão urbana, a crise do estado representa o fim dos grandes projetos de planejamento urbano e a retirada do financiamento dos planos de reforma de qualquer ente governamental. A favela, até então vista como um problema de ordem urbana e social a ser resolvido, passa a ser considerada como uma solução para os seus habitantes, inclusive para os órgãos públicos, que se limitam a fornecer infraestrutura básica. A administração das dívidas públicas pelo FMI e o Banco Mundial e a inaptidão dos paises latino-americanos estimularam mudanças no plano de 28 enfrentamento da favelização nas grandes cidades. Os pacotes econômicos de aperto fiscal, a organização das ONGs e a teoria social foi envolvida por novas propostas que buscavam minimizar o problema habitacional, através da manutenção das moradias já existentes, melhorando suas condições e garantindo a posse através da formalização e legalização. Ficou mais fácil melhorar o que já existe do que intervir, com suporte público e privado e promover a reforma estrutural da pobreza urbana. A filosofia era de oferta de infraestrutura básica de água e esgoto e obras de engenharia civil com o intuito de ajudar a racionalizar e melhorar as habitações já construídas pelos próprios moradores. Essa mudança na maneira de pensar tem um porquê: o discurso da remoção, tratado como autoritário, passa a não ter lugar neste momento. Esse discurso é substituído pela retórica da volta da valorização à cultura popular, o espaço comunitário e dos laços sociais criados em meio à pobreza. Indubitável o fato que esta atitude esconde a responsabilidade e o compromisso do ente estatal em diminuir a pobreza e o déficit de habitação. O Estado não é mais o agente principal, ele é coparticipante, visando capacitar o indivíduo para resolver seus próprios problemas. Esquece-se o caráter público de solução desses problemas, passando o ente privado a ser parte das políticas públicas. A gestão urbana é terceirizada então, exemplificada no financiamento privado das habitações, a concessões de obras para empreiteiras e o fomento à ações das ONGs. No Brasil, há uma mudança na maneira de enfrentar a questão urbana, principalmente o déficit habitacional e o “problema favela” e é no Rio de Janeiro que vemos seu exemplo mais cristalino, pois aqui a crise do Estado e as políticas econômicas neoliberais transformaram a favela em parte da solução para o problema habitacional, anulando aquela imagem cultivada durante muitas décadas de um problema que deve ser resolvido. Programas de diversas esferas do Estado (Municipal, estadual e Federal) colocaram a favela no centro de propostas de assentamento urbano dos grupos sociais mais pobres. Em 1981, aconteceu o primeiro encontro estadual de favelas organizados pela FAFERJ, onde já se encontravam presentes os principais 29 pontos que viriam a ser tomados pelo programa Favela-Bairro: desapropriação de todas as áreas faveladas, com vistas a garantir o reconhecimento da propriedade da terra pelos moradores, urbanização das favelas, participação da CEDAE como responsável pelo abastecimento e distribuição da água e implantação da rede de esgoto nas favelas, com todos os direitos e deveres dos moradores da maioria dos bairros da cidade; responsabilização da COMLURB no que se refere à coleta permanente de lixo, obras de calçamento de ruas e becos, garantia do uso de pelo menos 3% da renda bruta do Estado em obras de reurbanização nas favelas. Essa mudança na formulação de políticas públicas vai de encontro ao conceito de sociologia urbana marxista francesa relacionada com a instauração de um Estado de Bem-estar Social, absorvida na concepção de planejamento urbano do Brasil. Suas principais diretrizes foram políticas de seguro social e de construção de habitações populares. Dentro esta ótica, a reforma urbana está intimamente relacionada com um novo papel conferido ao Estado, de proteção social contra o desemprego e criação dos programas de habitação popular, onde esse mesmo estado adquire um papel regulador, não interventor, a fim de reduzir a pobreza e assegurar as garantias adquiridas pela sociedade civil. Desde 1982, a questão habitacional ganhou novo enfoque com a eleição de Leonel Brizola para o governo do Estado do Rio de Janeiro. Com interesse primordial para as áreas carentes, pode-se destacar na política de Brizola três metas principais: regularização fundiária, infraestrutura e incentivo à auto-construção. Destaca-se a atuação do PROFACE, desenvolvido entre 1983 e 1985, que levaria sistemas de água e esgoto a cerca de 60 favelas, incorporando-as à rede dos seus bairros. A coleta de lixo também foi viabilizada através da compra de microtratores pela COMLURB, adaptadas às condições das favelas. Em 1985 foi iniciado um programa de iluminação pública através da Comissão Municipal de Energia. O programa Cada Família, um lote, a cargo da Secretaria de Estado do Trabalho e da Habitação, pelo qual incluía a regularização da propriedade em áreas faveladas (400 mil lotes clandestinos), beneficiando a área com significativa urbanização, repassando a preços 30 simbólicos os lotes a seus moradores. O governo Brizola também procurou alterar a relação entre Estado e favelados, definindo uma nova conduta para as polícias civil e militar, pautada no respeito a seus direitos civis. Na década de 80, a crise financeira toma proporções mais graves, deixando claro que o modelo representado pelo BNH passa a apresentar sinais de esgotamento. O padrão de financiamento se exaure, uma vez que a arrecadação bruta do FGTS depende diretamente do comportamento da massa salarial e boa parte de seus recursos vinculados destina-se a compensar situações de risco no âmbito do mercado de trabalho, diminuindo assim sua arrecadação de forma sensível e culminando na restrição de financiamento dos programas habitacionais. Essa crise financeira, que afetou de forma negativa os investimentos do SFH, aliado à inadimplência dos mutuários que buscavam renegociar suas dívidas e dos inúmeros casos de corrupção verificados durante a sua existência, resulta na extinção do BNH em novembro de 1.986, que transferiu suas funções para a Caixa Econômica Federal. Entre 1.964 e 1.986, o BNH financiou aproximadamente quatro milhões de moradias, número bastante expressivo para o país. Entretanto, esses investimentos alcançaram predominantemente a classe média, alijando da política de financiamento da casa própria os trabalhadores que recebiam menos de um salário mínimo. Aliás, o BNH desde o seu embrião teve uma lógica que fez com que todas as suas operações tivessem a orientação de transmitir as suas funções para o setor privado. O banco arrecadava os recursos financeiros e os transferia para os agentes privados intermediários, demonstrando assim uma preocupação em conciliar o planejamento das ações de urbanização aos interesses do capital imobiliário. Dessa maneira, pode-se afirmar que o SFH/BNH era na verdade um eficaz agente dinamizador da economia nacional, desempenhando um papel importante junto ao capital imobiliário, entretanto fugia do seu objetivo principal, que era de induzir as políticas habitacionais para superação do déficit de moradia. O recebimento pela CEF das funções do BNH foi um golpe cruel para a oferta habitacional pública, pois a questão urbana e habitacional, tão 31 importante e cara ao povo brasileiro, passa a depender de uma instituição em que estes temas eram tratados de forma meramente secundária. Findo o lúgubre período da ditadura militar, chega ao poder Fernando Collor de Mello, que governou um período curto, entre 1990 e 1992. Suas políticas passam a ter um forte viés neoliberal, o que acabou por causar mais uma vez decepção para aqueles que esperavam uma mudança. Essa decepção pôde ser verificada através da política pouco consistente e ao não se aplicar de forma eficiente e eficaz os recursos financeiros, assim como nas demais áreas. Durante essa tumultuada fase, observa-se, entretanto, algumas mudanças no SFH, como alterações na correção das parcelas dos financiamentos e a facilitação de quitações para mutuários de empréstimos habitacionais. Os principais programas de habitação passaram para o controle do Ministério da Ação Social (o Ministério do Interior fora extinto). Merece destaque a criação do PAIH, que previa a construção, em caráter emergencial, de aproximadamente 245 mil casas em 180 dias, através da contratação de empreiteiras privadas. Ou seja, mais um programa direcionado ao capital imobiliário privado. Obviamente não cumpriram as metas estabelecidas: o prazo alongou-se por mais de 18 meses, o custo médio foi bem superior ao previsto, a meta diminuiu de 245 mil para 210 mil casas, causando assim o término dos recursos e conseqüentemente perpetuando a crise habitacional. Com um panorama de total instabilidade que se segue na área política e com o posterior impeachment de Collor, assume o então vice-residente Itamar Franco, que criou os programas Habitar Brasil e Morar Município, que tinham como objetivo financiar a construção de moradias para população de baixa renda, a serem construídas em regime de “ajuda mútua”. Todavia, esses Programas tinham uma padronização excessiva e muitas exigências legais, o que impedia muitos municípios de captarem os recursos disponibilizados. Porém, nesse mesmo governo, temos dois avanços: o primeiro (ainda que associado às exigências das agências internacionais) foi uma mudança conceitual, com incentivo à formação de conselhos e à criação de fundos para habitação; o segundo foi a constituição, em 1992, do Fórum Nacional de Habitação, composto por entidades da sociedade civil, setores do Estado e empresários da construção civil, cujo objetivo era construir uma aliança entre os interesses envolvidos no financiamento, na produção e no uso da moradia. (MOTTA, 2013:7 e 8). 32 Apesar desses fatos negativos, houve uma preocupação em redesenhar a área de habitação de forma a aumentar o controle social e a transferência dos programas. Percebe-se uma maior seriedade com a política habitacional nesse período, estendendo-se à finalização das obras inacabadas e suspensas do governo anterior. Foi responsável também por demais alterações no SFH, ao criar um sistema de amortização baseado no comprometimento de renda, substituindo o plano de equivalência salarial. Dessa maneira, conseguiu relativo equilíbrio nos financiamentos, que costumavam apresentar valores exorbitantes, em função das trocas constantes de moedas, fruto do desequilíbrio e instabilidade econômica dos últimos anos. Ainda hoje, decorridos mais de vinte anos, é possível verificar saldos devedores de financiamentos, oriundos das décadas de 80 e 90, com saldos de até duas ou três vezes o valor de mercado do imóvel, sem considerar as prestações já efetivamente pagas nesse período. Tenta-se amenizar o estrago causado, através de mutirões de conciliação junto aos Tribunais Federais, onde procura-se chegar a um acordo entre mutuários e Caixa Econômica Federal. O programa Favela Bairro, em sede no Rio de Janeiro foi implementado na década de 90, pautado por uma filosofia de “reconstrução da cidade”, contando com diversas fontes de financiamento, a saber: BID, CEF, União Européia e fundos da própria prefeitura. Presente em 105 favelas desde 1994, o programa estabeleceu como objetivos implantar rede de água e esgoto, canalização de canais e valas, abertura de vias de acesso (ruas, corredores e escadas), regularização fundiária e instalação de serviços públicos municipais (por exemplo, posto de saúde e creches), oferecendo assim as condições de vista da favela como bairro da cidade. Ao contrário do que se esperaria de um programa de reforma urbana, o Favela Bairro interfere de forma mínima no espaço urbano. Não há a preocupação em substituir a favela, mas em reconhecê-la como um bairro da cidade. Em 1995, assume o governo Fernando Henrique Cardoso, por um período que perdurou por dois mandatos. A economia brasileira, ao longo de 33 seu mandato presidencial, se mostrou estável, marca positiva de seu governo obtida em função do controle da inflação e da estabilidade monetária, conseguidos com a continuidade do Plano real, iniciado no governo de Itamar Franco. Entretanto, sob a égide do neoliberalismo, não procurou intervir na política habitacional de Estado, deixando de ser o regulador social. Enquanto o regime militar tinha um papel centralizador, o governo FHC tinha a proposta de descentralizar a distribuição dos recursos federais na provisão de moradias, facilitando o caminho para o setor privado, visando fornecer crédito para o mutuário final. A construção civil, graças a essa política, sofre retrações consideráveis, conseqüência da redução de imóveis financiados pela Caixa Econômica Federal e das demais instituições, se comparadas ao extinto BNH. O déficit habitacional então se aprofundou, atingindo cerca de 7 milhões de famílias sem condições dignas de moradia. A falta de moradia, aliada ao crescimento populacional refletiu-se então na proliferação de favelas, surgindo a figura do “sem-teto”, além de promover bolsões gigantescos de pobreza e crescimento sem freios da miséria, da marginalização e da criminalidade, resposta à ausência do Estado no tocante ao oferecimento à população de bens públicos, entre eles a moradia. A eleição de Luís Inácio Lula da Silva em 2002 proporcionou expectativas apara a institucionalização de uma nova política habitacional e urbana, alinhada com a agenda de reformas que já vinham sendo discutidas por técnicos e acadêmicos progressistas e militantes de movimentos sociais no âmbito do Fórum Nacional pela Reforma Urbana. É criado em 2003 o Ministério das Cidades, que é um dos responsáveis por dotar o país de uma efetiva política de habitação e a lê passam a estar vinculados os diversos setores da política de desenvolvimento urbano, com a criação das secretarias de habitação, saneamento e mobilidade urbana. O nascimento desse ministério é de suma importância, passando a desempenhar o papel de mais importante órgão nacional desde a extinção do BNH. Abre caminho para uma ruptura com a tradicional forma de lidar com a questão urbana no âmbito da gestão pública, ao aderir a um formato 34 participativo, com a Conferência Nacional das Cidades e Conselhos, como o Conselho Nacional das Cidades e o Conselho Gestor do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, instâncias a serem replicadas nos estados e municípios. Apesar desses avanços, o governo esbarra no costumeiro limitador da questão financeira. O Ministério das Cidades não consegue se sobrepor à Caixa Econômica Federal e, por conseqüência, ao Ministério da Fazenda e à equipe econômica. Malgrado essas restrições relacionadas aos primeiros anos de ajuste fiscal do governo Lula, os recursos destinados ao financiamento residencial aumentaram tanto para o mercado privado quanto para a baixa renda, em conformidade com o Projeto Moradia, iniciado em 2001, compondo assim a proposta do novo governo para a política urbana e habitacional. Dessa maneira, amplia-se a atuação do mercado privado, antes adstrito ao segmento de luxo, no sentido da classe média, concentrando os recursos públicos na baixa renda, onde se concentra 90% do déficit habitacional do país. Merece destaque as seguintes medidas adotadas: o advento da lei 10931/2004, que concedeu uma segurança jurídica maior ao mercado privado, vulnerável graças à alta inadimplência e a Resolução 3259/2005 do Conselho Monetário Nacional, que obrigou o setor bancário a cumprir a exigência legal de investir 65% dos recursos da poupança em habitação. Como conseqüência, temos um aumento de 2,2 para 27 bilhões, entre os anos de 2002 e 2008, no investimento em habitação do SBPE. Isso causa a expansão contínua do mercado imobiliário. No tocante ao uso do FGTS, de forma a aumentar os financiamentos e subsídios e conseqüentemente o atendimento à baixa renda, a Resolução 460/2004 do Conselho Curador do FGTS resolve que recursos auferidos pelas aplicações financeiras que ultrapassem as necessidades de remuneração básica do fundo deverão ser computados como subsídios, a serem inseridos nas operações de crédito habitacional para a faixa de renda de até três salários mínimos. O resultado se mostra presente no fato de que em 2005 o governo federal dispõe de um vultuoso orçamento, maior que o existente nos 35 anos 80 para financiamento habitacional, por meio de diversas fontes (OGU, FAT, FAR e FDS), principalmente por meio do FGTS, por seu bom desempenho e da aludida resolução. Em acréscimo ao lançamento do PAC e da alocação de recursos no FNHIS, que resultou em um uso maior dos recursos, temos a criação do programa Crédito Solidário, que buscava a produção por auto-gestão. Com financiamento a juros zero, a base de dispêndio é o Fundo de Desenvolvimento Social, inoperante desde a década de 90. Apesar das limitações burocráticas e critérios excessivamente rígidos para a habitação popular por parte da CEF, este programa demonstra pela primeira vez uma preocupação em âmbito federal em criar um programa voltado para moradia. Em 2009, com o começo do programa Minha Casa, Minha Vida, os recursos do FDS aumentaram e o Crédito Solidário passa a ser parte de uma das linhas desse programa. A lei 11.124/2005 é sancionada, regulamentando o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e institui, como partes dele, o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social – FNHIS e seu Conselho Gestor – CGFNHIS, que remonta ao Fundo Nacional de Moradia Popular, lançada pelo movimento de moradia em meados da década de 90. Não representa um avanço, pois não se permitiu reunir recursos do FGTS com os não-onerosos do OGU, por exemplo. Também não houve acesso direto das cooperativas de habitação popular ao fundo e a alocação de recursos no FNHIS não restou como compromisso de Estado, estacionou somente na retórica do presidente Lula. O PAC estréia em 2007, abarcando grandes obras de infraestrutura e contemplando investimentos também na área social e urbana, direcionadas para a provisão habitacional, desenvolvimento institucional e a urbanização de assentamentos precários. Na contramão do cenário internacional de crise econômica, nasce em 2009 o pacote habitacional Minha Casa, Minha Vida – PMCMV, sendo uma das medidas adotadas pelo governo visando a diminuir os efeitos da crise sobre a economia brasileira. Sua meta inicial é de 1 milhão de unidades, enfocando a dinamização da construção civil, por seus efeitos multiplicadores e seu impacto positivo sobre o desemprego, ameaça forte na passagem de 36 2008 para 2009. Até o presente momento continua sendo o único programa de habitação no âmbito do governo federal. 37 CAPÍTULO III SOLUÇÕES PARA A QUESTÃO DA MORADIA POPULAR Diante da complexidade e da dificuldade em resolver o problema de habitação no Brasil, algumas tentativas são feitas e outras acabam por fugir do seu propósito inicial, em virtude de interesses alheios à solução efetiva do aludido problema, a seguir narrados: 3.1 – PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA? Em meados de 2008, a crise internacional toma proporções mais nítidas e preocupantes. Tal fato influencia a conjuntura nacional, com o ano de 2009 iniciado sob a égide da retração econômica e desaceleração do PIB. O Governo Federal incentiva a liquidez na economia doméstica, de forma a criar estímulos à atividade econômica. Parte desses estímulos se concentrou no setor de construção civil e infraestrutura, por representar um papel importante tanto na geração de emprego quanto no comportamento do PIB. Aliado a crise internacional que passa a influenciar a situação econômica ao fato do governo decidir em combater os seus reflexos, privilegiando o setor de construção civil, temos a mola propulsora para a constituição do PMCMV (Programa Minha Casa Minha Vida). Não merece ser ignorado o fato de seu caráter social, mas não é uma ação exclusivamente social, é uma resposta do governo à crise. Com a aprovação da Medida Provisória 459/2009, o programa passa a ser implementado. Com investimentos vultuosos da ordem de R$ 34 bilhões (sendo 25,5 bilhões do OGU, 7,5 bilhões do FGTS e 1 bilhão do BNDES), o programa previu a construção de um milhão de moradias, no prazo de dois anos, além da geração de emprego, renda e sustentação econômica para um país amedrontado pela crise. 38 Primeiramente, há um enfoque na população de baixa renda, através de subsídios, de modo a atingir essa faixa da população responsável por 90% do déficit habitacional. O programa abarca as seguintes categorias de participação: 1. Habitação Urbana Para famílias com renda até R$ 1.600,00 Para a família que ganha até R$ 1.600,00 por mês, existem duas maneiras de participar do programa Minha Casa, Minha Vida: A. Indicação pelo Município ou Governo do Estado/Distrito Federal Aquele que não tem renda ou possui renda familiar bruta mensal até R$ 1.600,00, reside em capital, região metropolitana ou município com população igual ou superior a 50 mil habitantes e não tem imóvel, pode procurar a Prefeitura da cidade. As famílias a serem beneficiadas são indicadas e selecionadas pelo município ou Governo do Estado/Distrito Federal. Deve haver cadastro no CADÚNICO. A Prefeitura inclui, mantém e atualiza esse cadastro. A execução das obras do empreendimento é realizada por Construtora contratada pela CAIXA, que se responsabiliza pela entrega dos imóveis concluídos e legalizados. O imóvel é financiado em 120 prestações e o valor das prestações é calculado de acordo com a sua renda familiar, sendo 5% da sua renda, mas nunca menor que R$ 25,00. B. Indicação pelas Entidades Organizadoras Aquele que possui renda familiar mensal bruta até R$ 1.600,00, pode ser beneficiário do Programa por meio da indicação de uma Entidade Organizadora habilitada pelo Ministério das Cidades, na qual seja associado. Além disso, deve haver cadastro no CADÚNICO. A Prefeitura inclui, mantém e 39 atualiza esse cadastro. As entidades podem ser as cooperativas, associações ou entidades da sociedade civil sem fins lucrativos, com atribuições de organizar e apoiar as famílias no desenvolvimento de cada uma das etapas dos projetos voltados para a solução dos seus problemas habitacionais. O imóvel é financiado em 120 prestações e o valor das prestações é calculado de acordo com a sua renda familiar, sendo 5% de sua renda, mas nunca menor que R$ 25,00. Para famílias com renda até R$ 5.000,00: Se há renda familiar mensal bruta até R$ 5.000,00, o agente financiador CAIXA indica procurar um correspondente imobiliário CAIXA Aqui ou Agência da CAIXA e financie seu imóvel com muito mais facilidade. Números do PMCMV: Fonte: http://mcmv.caixa.gov.br/numeros/ 40 O reflexo do PMCMV na cidade se faz na prioridade que o programa dá aos municípios que adotarem a desoneração tributária e doarem terrenos localizados em área urbana consolidada, além de utilizarem o Estatuto da Cidade. Entretanto, a regulamentação dos planos é ausente e deve-se considerar também a dificuldade por parte dos municípios em garantir a aplicação dos instrumentos previstos nesse estatuto. No Brasil, grande parte da população está excluída da cidade, ocupando o resto de terra que possa existir, mais barato face à visível especulação imobiliária. Para garantir o sucesso do programa e concomitantemente enfrentar os preços elevados dos terrenos, a tendência é utilizar terrenos mais baratos, longínquos da malha urbana, implicando esse fato na repetição do modelo de gestão do BNH de construir fora da cidade, com edificações nas áreas periféricas. Dessa maneira, termina-se por contribuir para a formação de cidades partidas. Por essas razões, o programa é omisso quanto à questão urbana, pois há outras formas de prover moradia além da construção de novas moradias. Deve-se levar em consideração o fato de que o PMCMV não regula a especulação imobiliária, tampouco garante a função social da propriedade, A questão urbana é tratada de forma superficial. Em linhas gerais, o programa apresenta uma diversidade de programas dentro do próprio programa, com interesses econômicos, sociais e de reestruturação do setor. Enquanto outros programas visavam atender uma faixa de renda e determinado grupo de família, o PMCMV apresenta uma estrutura que prevê atender famílias com renda de até R$ 5.000,00, componentes tanto do grupo vulnerável da sociedade e incluído no atendimento de interesse social, como também permite auxílio àqueles que podem ser beneficiados pelas linhas de crédito oferecidas pelo mercado. O Programa também merece destaque no contexto da política habitacional no que se refere à suas propostas e recursos. Desde o BNH não existia o empenho e comprometimento do governo com a oferta de moradias que enfrentasse a difícil realidade do déficit habitacional do país. O número de 41 um milhão de moradias no PMCMCV, anunciado com alarde, ainda é insuficiente face ao déficit de 5,24 milhões, segundo dados do IPEA (2013). A utilização de recursos do próprio OGU, apesar de timidamente realizado nos governos de Itamar Franco e FHC, é retomado com valores vultuosos, jamais empregados na área. 42 3.1.1 – PMCMV E A HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL A estrutura de atuação do PMCMV se baseia a partir de grupos de famílias separados de acordo com suas rendas. O primeiro grupo, de menor poder aquisitivo, é formado por famílias com renda de até no máximo R$ 1.600,00, o grupo incluso nos cerca de 90% do déficit habitacional do país. Diante desse fato, o programa desponta no panorama geral ao propor, imediatamente, 400 mil unidades a esse grupo específico. Esse número representa uma inovação, face à histórica ausência de ações direcionadas à questão habitacional desde o BNH. O governo então passa a reconhecer que as ações nessa área necessitam ser direcionadas a esse grupo de famílias, haja vista que o mercado, utilizado pelo Estado de forma a prover moradias no país, não tem respondido à demanda de forma plena e satisfatória. Se nos debruçarmos sobre o quesito renda, a opinião de BONDUKI apud ROMAGNOLI assevera: o desenho do programa no tocante a renda é pouco expressivo para os mais necessitados (renda até R$ 1.600,00), enquanto que para os demais grupos, em que o déficit é reduzido, a meta proposta pode até culminar em um financiamento de segunda moradia. MARICATO apud ROMAGNOLI sinaliza a problemática da população vulnerável de morador de rua, que não pode arcar sequer com o mínimo instituído pelo programa. Merece também importância a situação das famílias com rendas que não contemplam o valor mínimo de R$ 25,00 para o pagamento das prestações, já que por si só despesas como transporte, água, luz, energia e alimentação são capazes de comprometer seriamente o seu orçamento. Os subsídios fornecidos pelo programa vão de encontro aos anseios dos movimentos populares, ao utilizar recursos do OGU, mudando a visão de se focar em fundos com necessidade de retorno financeiro e auto-sustentação (como o FGTS) para enfrentar o problema da habitação com aportes públicos. Acrescenta-se a isso a inclusão do programa de urbanização de 43 assentamentos precários, demonstrando assim um novo olhar sobre a importância da atuação dos recursos públicos na política habitacional. No que se refere ao manuseio dos recursos, é indubitável o predomínio da indústria de construção civil, em detrimento das entidades sem fins lucrativos. Somados a isso, temos a costumeira dificuldade do poder público em aplicar recursos, executar programas, ineficiência, falta de pessoal, burocracia excessiva, restrições fiscais, licitações vagarosas, incompatíveis com a necessidade de uma resposta premente à realidade. Nesse quesito, o PMCMV continua a priorizar o modelo de atendimento ao mercado, ao invés de atender ao direito social de moradia. Fecha-se os olhos para outras formas de se resolver o problema de habitação, como por exemplo, a recuperação de prédios, pois procura-se agradar o setor de construção civil, ao determinar apenas a produção de unidades prontas. O interesse privado (construtoras, mercado imobiliário) se sobrepõe aos interesses sociais. Enfim, o PMCMV apresenta continuidades, rupturas e poucas inovações. Ao dispor de recursos do OGU, provoca uma mudança na visão de enfrentamento do problema habitacional, ao tomar para o ente estatal parte de sua responsabilidade; ao perpetuar o atendimento aos sabores do mercado imobiliário, continua com o antigo modelo; a mudança, ainda que acanhada, é dar ênfase à camada social de baixa renda do país. 44 3.1.2 – IMPACTO DO PMCMV NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO Um olhar mais atento sobre o direito à moradia adequada protegido pela Constituição Federal e a ser promovido pelo Estado e a realidade brasileira permite asseverar que o cumprimento desse direito continua a representar um desafio. Os modelos de desenvolvimento socioeconômico e espacial nos centros urbanos, muito visto nas metrópoles, têm sido impulsionados sob a lógica do mercado, onde é notório o privilégio dado a grandes grupos empresariais. No caso do município do Rio de Janeiro, o presente contexto de produção habitacional, inclusive social, corrobora a tese de privilégio aos interesses de mercado, onde o poder público não é mais protagonista, mas mero mediador e viabilizador desses interesses, ao entregar a esses grupos a decisão no tocante às dinâmicas de projetos, negociação com o público alvo e escolha da localização dos imóveis. Nesse panorama, apesar da atuação do poder público nos mecanismos de funcionamento do PMCMV serem limitados, cabe às prefeituras controlarem o padrão de arquitetura e o impacto urbano dos empreendimentos por meio das leis urbanísticas. No caso específico da cidade do Rio de janeiro, a prefeitura tornou flexível a legislação para a construção de Habitação de Interesse Social (HIS), estabelecendo: a) construção de unidades habitacionais (UHs) com área reduzida em relação à legislação geral vigente; b) a ampliação do número de pavimentos sem elevador; c) uma menor taxa de impermeabilização nos lotes; d) dispensa de algumas exigências nas intervenções, como número de vagas de garagem, dimensão das áreas de recreação, dimensão máxima de projeção horizontal, etc. Nesse diapasão, as empresas seguem a lógica de mercado e indicam, em sua grande maioria, as terras mais longínquas para faixas de renda de 0 a 3 salários mínimos, por o valor do solo urbano nestas áreas ser mais baixo. Em conseqüência, o distanciamento desses imóveis dos grandes centros urbanos 45 impõe obstáculos à permanência das famílias de baixa renda contemplados pelo PMCMV, produzindo uma série de problemas de mobilidade urbana, acesso a comércio e serviços, inserção em escolas, garantia de trabalho etc. Verifica-se que o PMCMV se insere no contexto da política nacional de habitação de uma maneira obtusa, pois objetiva a dinamização do setor privado da construção civil e cadeia produtiva, em detrimento de uma política pública voltada ao atendimento da população de menor faixa de renda. No âmbito do Rio de Janeiro, o PMCMV vem sendo utilizado como política de reassentamento, onde a prefeitura compra os empreendimentos da Caixa e os cede, a fundo perdido, às famílias reassentadas. O escopo dessa política são moradores de área de risco, como encostas e margem de rios, de ocupações informais como favelas, ou ainda moradores de áreas que serão alvo de intervenções em função dos eventos da Copa do Mundo e Olimpíadas, os chamados mega-eventos. CARDOSO (2013) investigou dois empreendimentos na Zona oeste da cidade, região distante do centro da cidade e carente de serviços públicos. Depreende-se enquadramento dessa e investigação delimitação que das há rendas: um equívoco projetos que grave no conseguem financiamento da Caixa como empreendimento destinado às faixas de renda de 0 a 3 salários mínimos terminaram por ser adquiridos por detentores de renda em torno de 3-6 salários mínimos. Não mais importante, temos a dificuldade de acesso da zona oeste, de forma quase exclusiva pela Avenida Brasil, restrito pela ausência de linhas de transporte decentes e da distância ao centro da cidade (55,7 km), cujo tempo de percurso é de aproximadamente duas horas. A Zona Oeste é uma área emblemática como lugar para reassentamento de famílias pela prefeitura. A justificativa é de que as antigas moradias estavam localizadas em áreas de risco ou lugares alvo de intervenções urbanísticas para a realização dos chamados mega-eventos na cidade, a saber: a Vila das Torres, situada entre Rocha Miranda e Madureira, atualmente destinada ao Parque Madureira, principal instrumento de propaganda da gestão Paes ao proporcionar lazer ao subúrbio; parte de Olaria, na região do traçado da via expressa Transcarioca, que ligará a Barra da 46 Tijuca ao Aeroporto internacional Tom Jobim, na Ilha do Governador e também outras áreas de riscos em Copacabana. A SMH/RJ concedeu a alternativa de indenizar os moradores dessas localidades, obviamente recusadas por serem irrisórias, em face do valor despendido em melhorias feitas ao longo dos anos lá vividos. Contrários a receber uma indenização tão vil, não lhes restou outra opção senão a de aceitar a proposta da prefeitura. Pela forma como os moradores da favela do Metrô foram removidos em janeiro do corrente ano, é compreensível o entendimento de que foram coagidos a se mudar para o novo endereço. Os problemas que surgiram são: a imposição de taxa de condomínio, IPTU, gás encanado, custos esses que não se enquadram para moradores de conjuntos habitacionais de interesse social. Também há relatos de que a propaganda divulgada não é condizente com a realidade, uma vez que os espaços de lazer se encontram em situações precárias. Em complemento a essa assertiva, tem-se reclamações sobre a baixa qualidade dos materiais de construção, ocorrendo vazamentos de água e fendas nas paredes, rompimento de sustentação de caixas d’água, deterioração dos brinquedos do playground e campos de esportes. Não é de causar surpresa o descaso dado a essa categoria social, haja vista a construção de conjuntos habitacionais em Niterói, com graves problemas estruturais e que tiveram que ser demolidos, nitidamente pelo uso de material de baixa qualidade, segundo a revista EPOCA (2013). Ressalta-se que esse empreendimento tinha como objetivo reassentar os sobreviventes do trágico desabamento do Morro do Bumba, em 2010, na cidade de São Gonçalo. 47 Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2013/03/predios-dominha-casa-minha-vida-no-rio-ameacam-cair-e-terao-que-ser-demolidos.html . Com relação a comércio e serviços, é precário e muitas vezes inexistente. Ademais, há todo um regramento por parte da prefeitura e de funcionários da Caixa de forma a restringir alternativas informais capazes de diminuir essa escassez. Essa restrição faz lembrar os tempos de Pereira Passos. Em referência aos locais de trabalho, há um considerável tempo de deslocamento no trajeto casa-trabalho-casa. Os transportes coletivos são problemáticos, a malha ferroviária não atende à população como deveria, há diversas ocorrências de acidentes e atrasos diários, há poucas linhas de ônibus e não há horários fixos para seu funcionamento. Apesar da criação do Bilhete Único carioca, que permite realizar duas viagens pelo preço de uma, em um prazo de até 2 horas e 30 minutos, nem sempre é possível realizar duas viagens neste tempo. O PMCMV evidencia o papel condutor do capital privado no espaço urbano, relegando o governo a um espaço secundário, cujo papel se presta a 48 viabilizar os interesses empresariais neste processo, em prejuízo da sua participação na política habitacional. Percebe-se o reflexo dessa mercantilização da moradia na cidade do Rio de janeiro, às vésperas da realização de mega-eventos, onde o setor imobiliário exerce grande influência no deslocamento da população no ambiente intraurbano através da gentrificação de áreas urbanas destinadas a grandes equipamentos urbanos e do reassentamento da população de baixa renda para empreendimentos situados em locais distantes do centro e sem infraestrutura para atender a essa população. Esse processo caminha para uma periferização da habitação de interesse social, contrariando uma das premissas do PMCMV de procurar viabilizar a construção de moradias em áreas centrais da cidade. 49 3.2 – USO DOS IMÓVEIS PÚBLICOS E CENTRAIS E AS ÁREAS PORTUÁRIAS A cidade do Rio de Janeiro, assim como outras grandes cidades brasileiras, vem enfrentando um processo de dispersão habitacional, no qual sua área central, na ausência de políticas habitacionais apropriadas à habitação de interesse social perdeu grande parte de moradores, mas manteve-se como lugar de referência cultural, de trabalho e de consumo. A presença expressiva de imóveis vagos, decorrente desse processo de esvaziamento, torna-se um paradoxo em face do déficit habitacional. Percebe-se que nos últimos anos, as políticas para o centro têm sido focadas no caráter embelezador e renovador, com vistas a reestruturá-lo para outro típico de público que não os de moradia de interesse social. O Município tem formulado propostas de “revitalização” e “requalificação” que prometem renovar e revalorizar a área central, com investimentos públicos e incentivos às parcerias público-privadas com interesse de investir nele seu capital. Entretanto, nem sempre acontecem de forma cristalina para a sociedade e muitas vezes o cerne da questão passa a ser os investimentos e não a população interessada. EGLER (2005) brilhantemente versa sobre a questão das áreas portuárias, em que a exemplo das cidades de Buenos Aires, na Argentina e São Francisco, nos Estados Unidos, a política de renovação dos sistemas portuários obedece a uma maneira de pensar que dá importância à preservação e reutilização do patrimônio imobiliário preexistente, com uso socialmente improdutivo. Trata-se do uso do espaço com um processo de renovação dirigido a uma produtividade espacial econômica associada à indústria do entretenimento global. Debruçados sobre o tema, temos o processo de revitalização do Porto Madero, que custou à população argentina milhões de dólares e dez anos de trabalho. Todo esse modus operandi se deu através de empréstimos internacionais, visando inserir a capital argentina na rede de cidades globais. É uma lógica perversa, da qual se buscam empréstimos internacionais que 50 obviamente se prestam a atender às necessidades de quem emprestou, impondo assim a sua própria interpretação de desenvolvimento. No auge da revitalização do Porto Madero, quando contratos e parcerias foram assinados e dívidas já contraídas, com projetos de arquiteturas assinados por grandes nomes, o Porto viveu um projeto de agitação global, com o turismo incrementado pelas atividades próprias ao processo para o qual havia sido construído. Instalaram-se empresas, hotéis, lojas e restaurantes indispensáveis ao desenvolvimento do processo econômico de globalização. Com a crise econômica da Argentina, temos no Porto Madero o seu espelho, pois houve o encerramento de muitas atividades nele localizadas. As empresas foram fechadas e os restaurantes finalizaram suas atividades. Ou seja, as atividades econômicas previstas não suportaram os altos custos das instalações e o encerramento de lojas e restaurantes faz parte do dia a dia do lugar. É uma sistemática que dá valor ao uso social exclusivo para o fluxo de turistas e tem por resultado um processo de dilapidação econômica e exclusão social. As atividades do mundo globalizado são passageiras e têm tempo delimitado. Indubitável o fato de que o capital global não investe localmente com o objetivo de manter atividades de longa duração. Os processos de produção duram o tempo da acumulação: esgotado esse tempo, o capital muda para novos lugares. Esse caráter transitório que atinge os espaços construídos, comandados pela política global, é grave, pois os processos feitos no âmbito local não tem um caráter de estabilidade. Esse política se repete no projeto de revitalização da área portuária da cidade do Rio de Janeiro, onde a visão de requalificação da área central, tendo como referência propostas de intervenção na Zona Portuária, é baseada na remodelação paisagística do tecido urbano e apropriação de imóveis subutilizados ou vagos para atividades turísticas e de comércio, ao invés de priorizar a população carente de moradia. O centro do Rio, atualmente, configura-se como espaço de disputas, no qual interesses mercadológicos ganham maior apoio do Estado do que os interesses sociais, tendo como projeto mais emblemático o projeto Porto Maravilha, que vem na esteira dos megaeventos que terão sede na cidade do 51 Rio de Janeiro. Não há uma reflexão no sentido de garantir a permanência da população de baixa renda, nem de melhorar as condições de moradia, quiçá combater a ociosidade de imóveis e propor uma utilização de moradia nessa área da cidade. A área plana da região portuária resultante de aterro é considerada acréscimo de marinha, sujeita ao controle pela Secretaria de Patrimônio da União. Os terrenos nessa área pertencem em sua maioria ao Governo Federal e suas autarquias, com 62% formados por grandes quadras, prédios e galpões abandonados. O Município e o Estado do Rio possuem, cada, 6% dos terrenos, sendo os 25% restantes pertencentes à privados (MEDINA apud BENTES, 2010). Situação Fundiária da Região Portuária. Fonte: Prefeitura do Rio de Janeiro. Apesar da lei municipal 101/2009 prever a promoção da habitação de interesse social, incentivo à recuperação de imóveis ocupados para a melhoria das condições de moradia e de seu entorno, com implantação de infraestrutura e regularização fundiária, incentivo à recuperação de imóveis ocupados para a melhoria das condições de moradia, não há acolhida dessas premissas por 52 parte da Prefeitura. Muito pelo contrário, o caminho trilhado tem sido o de remodelar essas áreas para o turismo e lazer, com idéias de gentrificação, a exemplo de outras cidades globais. Outro desafio enfrentado pela população que já habita as áreas centrais é a maneira como a Prefeitura vem agindo, no sentido de remover as famílias, já que essa área é de grande valor especulativo. A SMH/RJ apresentou os projetos às comunidades de forma rasa, com poucos esclarecimentos. No tocante ao Morro da Providência, a justificativa das remoções está baseada na implementação de um teleférico e ao velho discurso do risco. Ressalta-se que não há análise técnica capaz de sustentar a teoria de risco, inclusive várias obras já foram feitas nas encostas para estabilização e contenção. Mas o discurso de remoção acaba por ser a tônica predominante nas ações da Prefeitura. Nos processos de remoção das áreas impactadas pelo Porto Maravilha não foram apresentados mandados judiciais, não houve diálogo, sequer participação do povo para entender, opinar e propor alternativas. Esses fatos restam por provar a ausência dos governos em conduzir de forma digna e justa os processos de moradia. A SMH/RJ tem marcado as casas com números e sigla da própria secretaria, instaurando um clima de terror para as famílias, numa sucessão sistemática de demolições, direcionando essas famílias de forma compulsória para empreendimentos do PMCMV, distantes aproximadamente 50 KM do seu local de origem. Atualmente, há três grandes ocupações que resistem a esse processo de destruição das moradias centrais, quais sejam: Chiquinha Gonzaga (imóvel público do INCRA), Manuel Congo (imóvel público do INSS) e Quilombo das Guerreiras (imóvel público do DNIT). O Quilombo das Guerreiras será removido para um empreendimento chamado Quilombo da Gamboa, na região portuária. Os demais enfrentam até hoje a morosidade da burocracia (regularização fundiária) para sua regularização. De maneira brilhante, BRANDÃO e LOPES (2012) nos ensinam que as conquistas de destinação dos imóveis públicos subutilizados para Habitação de 53 Interesse Social e recursos do OGU para a construção de moradia popular esbarram na ausência de empenho político para a desburocratização dos processos, em especial da CEF, beneficiando assim a especulação imobiliária que atinge os imóveis públicos. Dentro de um contexto de megaprojetos, as prioridades das políticas públicas de habitação são desviadas do seu foco. Apesar de haver condições para a regularização e requalificação dos imóveis, por intermédio do Ministério das Cidades e do governo do Estado, a Prefeitura prefere pagar indenizações baixas ou propor reassentamento em bairros da Zona Oeste, excluindo a possibilidade de transforma-los em habitação de interesse social. Os recursos do FNHIS se quedam paralisados pela morosa burocracia e pelo descompromisso público, abrindo espaço para o capital privado especulativo, já que as demandas de HIS são direcionadas para o PMCMV, que apresenta um viés mercantil e segregador. Hoje em dia há iniciativas de membros da sociedade civil organizada, com o objetivo de incentivar o debate e a luta pela garantia da habitação popular na região central do Rio de Janeiro. Entretanto, a interferência do processo especulativo dos imóveis e a interferência negativa da prefeitura têm feito com que este ideal de moradia jamais se torne realidade. Ao invés de proporem uma utilização desses imóveis subutilizados para a solução, ainda que parcial, dos problemas de moradias, a prefeitura faz o inverso e pior: prioriza a expulsão sumária e covarde dos moradores já existentes para agradar os humores do mercado imobiliário. 54 3.2.1 – REGULARIZAÇÃO FUNDIÁRIA: ÁREAS DE INTERESSE SOCIAL A temática de regularização fundiária ganha espaço e fôlego com o advento da Constituição Cidadã de 1988, com a presença dos artigos 182 e 183, que versam sobre política urbana. Nos dois artigos a Constituição aborda a questão fundiária. No primeiro, o acesso à terra é uma das preocupações. São citados os instrumentos: parcelamento e ou edificação compulsórios, IPTU progressivo no tempo e desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública. O artigo seguinte, 183, trata do tema usucapião. Neste artigo, são definidos os requisitos básicos para que um morador seja contemplado com a usucapião. De acordo com a Constituição Federal os requisitos básicos para o benefício da usucapião são: área urbana de até duzentos e cinqüenta metros quadrados; ocupação com fins de moradia de, pelo menos, cinco anos, ininterruptamente e sem oposição; o possuidor não pode ser proprietário de outro imóvel urbano ou rural. O Estatuto da Cidade (lei 10.257/2001) cita a Regularização Fundiária e regulamenta de maneira mais minuciosa a usucapião especial de imóvel urbano. Fortalecendo ainda mais o aludido tema, nasce a lei federal 11.977/2009, alargando assim o tema da política habitacional no Brasil. Dentro desta lei, temos as seguintes definições: Art. 46. A regularização fundiária consiste no conjunto de medidas jurídicas, urbanísticas, ambientais e sociais que visam à regularização de assentamentos irregulares e à titulação de seus ocupantes, de modo a garantir o direito social à moradia, o pleno desenvolvimento das funções sociais da propriedade urbana e o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. 55 O artigo 48 define regularização de interesse social como “regularização fundiária de assentamentos irregulares ocupados, predominantemente por população de baixa renda”. Em seu inciso VI, mesmo artigo 48, define assentamentos irregulares como “ocupações inseridas em parcelamentos informais ou irregulares, localizadas em áreas urbanas públicas ou privadas, utilizadas predominantemente para fins de moradia”. Um dos objetivos dessa lei é tornar célere o processo de regularização fundiária, muito embora no plano prático a morosidade passa a dominar a tônica desse processo. A demarcação urbanística direcionada para regularização em área de interesse social de assentamentos irregulares pode ser realizada através da negociação dos proprietários com os moradores da área. Nesse diapasão, a lei 6.766/79 dispõe sobre o parcelamento do solo urbano através de loteamento ou desmembramento, tendo a infraestrutura básica dos parcelamentos situados nas zonas habitacionais de interesse social com vias de circulação, escoamento de águas de chuva, rede com abastecimento de água potável, soluções para esgoto sanitário e energia elétrica. A Regularização Fundiária de Interesse Social, segundo a lei 11.977/2009, deverá ocorrer em assentamentos ocupados por população de baixa renda, em situações reconhecidas legalmente ou administrativamente do direito à moradia. Dessa forma, as moradias devem preencher os requisitos para usucapião ou concessão de uso especial para fins de moradia, localizarse nas chamadas ZEIS; ser declarada de interesse para a implantação de projetos de regularização fundiária de interesse social, nos casos de áreas da União, Estados, Distrito Federal ou municípios. Essa lei demarcou a urbanística como um processo administrativo pelo qual o poder público, em sede de regularização fundiária de interesse social de domínio público ou privado, com seus limites, área, localização e confrontantes, com a finalidade de identificar seus ocupantes e qualificar a natureza e o tempo das respectivas posses. Ainda, definiu legitimação de posse como um ato do poder público, com vistas a conferir título de 56 reconhecimento de posse de imóvel objeto de demarcação urbanística, com a identificação do ocupante e natureza da posse. O Estatuto da Cidade dispõe de vários instrumentos urbanísticos e jurídicos destinados a integrar a cidade “legal” às áreas consideradas ilegais, visando combater a subutilização e especulação de imóveis urbanos. Na lei 11977/2009 esses instrumentos foram criados para facilitar e agilizar a materialização do direito à moradia, que dão possibilidade à emissão e o registro de legitimidade de posse e reconhecimento de propriedade que só podem ser utilizadas quando não houver conflitos com outras pessoas que se declaram proprietárias do imóvel. São eles: Plano Diretor Participativo: é um instrumento da política de desenvolvimento e expansão urbana que depende de fatores políticos, econômicos, financeiros, culturais, ambientais e sociais de acordo a realidade da população de cada município. Serve para definir a função social, visando às soluções para os problemas que afligem os moradores das cidades . Usucapião Urbana: é um dos meios de aquisição de uma propriedade, com área de até 250 m, ocupados por 5 (cinco) anos ininterruptos para fins de moradia e sem contestação judicial por parte do proprietário legal. O beneficiário não pode possuir outro imóvel urbano ou rural (Lei 10.257 Art. 9). Concessão de Uso Especial para Fins de Moradia (CUEM): introduzido através da Medida Provisória nº. 2.220/2001, é um direito subjetivo garantido aos ocupantes de áreas públicas que até a data de 30 de julho de 2001 tenham já cinco anos de posse sobre o terreno urbano de até 250 m², e o utilizem para fins de moradia sem serem proprietários de outro imóvel urbano ou rural. Concessão de Direito Real de Uso (CDRU): é um instrumento aperfeiçoado pelo Estatuto da Cidade, instituído pelo Decreto-lei nº. 271/67 que autoriza a contratação coletiva, podendo ser remunerada ou gratuita, aplicada em terrenos públicos ou particulares, por tempo certo ou indeterminado. É empregada nos casos de programas e projetos habitacionais de interesse social. Garante ao morador o direito real sobre o imóvel. 57 Direito de Superfície: permite que o proprietário de uma área urbana ocupada informalmente conceda o direito de superfície à prefeitura, para que esta promova a urbanização e depois a regularização jurídica em favor da população ocupante. O título de transferência é a escritura pública, devendo ser registrada no cartório imobiliário. Doação: A doação é a autorização não onerosa e voluntária do terreno por parte de seu proprietário (poder público municipal ou particular) à população de baixa renda ocupante de Área de Interesse Social. Compra e venda: O proprietário das terras se compromete a transferir a propriedade aos moradores, através do pagamento de uma determinada quantia e de um contrato de compra e venda e escritura pública lavrada e registrada. Aforamento: é uma forma de utilização de bens imóveis da união, de acordo com o Decreto-lei nº 9760/1946. Sugere repasse gratuito ou oneroso do domínio útil a terceiros que ficam obrigados ao pagamento de uma pensão anual. Ocupação: o morador ocupa o imóvel sabendo que se trata de um bem público da União, e fica obrigado ao pagamento anual de taxa de ocupação, correspondendo a 2% do valor atualizado do domínio pleno para as ocupações já inscritas e para aquelas cuja inscrição tenha sido requerida à Secretaria do Patrimônio da União até 30 de setembro de 1988 e 5% do valor atualizado do domínio pleno e das benfeitorias para ocupações cuja inscrição seja requerida ou promovida ex-oficio a partir de 1º de outubro de 1988, regulamentada pelo Decreto-lei n 9760/1946. Além desses instrumentos, as ZEIS são instrumentos urbanísticos com a finalidade de incluir no zoneamento da cidade uma categoria que permita, mediante a um plano específico de urbanização, estabelecer padrões urbanísticos próprios para determinados assentamentos. BACELET apud ARAUJO e AGUIRRE ensina que a concessão de uso especial apresenta o direito de uso para fins de moradias e proporciona maior controle pelos governos e pelas comunidades locais das transferências dos títulos pelos beneficiários originais. A usucapião desempenha finalidades como a de instrumento de regularização fundiária que garante o direito à moradia 58 aos segmentos sociais como favelas, cortiços, conjuntos habitacionais invadidos e loteamentos irregulares e a garantia da função social da propriedade, através da promoção de uma política de regularização fundiária. A ZEIS pretende, através de normas específicas a partir das características próprias do assentamento, reconhecer a forma de ocupação do solo urbano, apropriada ao local. Também formaliza o reconhecimento da diversidade das ocupações existentes na cidade e a possibilidade da construção de uma legalidade dos assentos, tanto na qualificação e regularização das áreas ausentes de legalização, quanto na democratização do acesso à cidade provida de infraestrutura. Ademais, visa regular o mercado imobiliário e permitir que a regulação urbana ocorra de forma paralela à regularização jurídica do assentado que propiciem direitos e deveres aos cidadãos. É inegável a importância da ZEIS, por reconhecer a diversidade das ocupações existentes na cidade, tem um caráter legalizador, através de normas específicas para as áreas ocupadas por população de baixa renda, sem desprezar a proteção dada à população da especulação imobiliária, na medida que permite a regularização urbana de forma paralela à regularização jurídica do assentamento. O Plano de Regularização Fundiária aprofunda os estudos sobre os condicionantes urbanísticos de uma área, incluindo análise de risco, das redes de água, esgoto, drenagem, eletricidade e do sistema viário existente, definindo ainda as áreas a serem tituladas e áreas reservadas para futura intervenção da prefeitura, objetivando a melhoria da condição de habitação social; dessa forma, representa um dos mais importantes instrumentos para a rearrumação do tecido urbano e a conquista do direito à cidade, onde os tipos de habitações informais presentes no Brasil são: loteamentos, ocupações consolidadas (favelas, conjuntos habitacionais público e privado, cortiços). Os benefícios da regularização fundiária para a população são inegáveis, bem como segurança na posse através da legalização dos imóveis ocupados para moradia ou outros usos residenciais; acesso a serviços públicos básicos e financiamentos habituais para melhoria dos imóveis 59 existentes, integração das diversas áreas da cidade, por meio de endereçamento oficial, inclusão dos lotes nos cadastros municipais. Em resumo, representa um fator primordial e célere para a democratização das relações sociais e conseqüentemente na conquista da cidadania plena e na diminuição da exclusão social. 60 CONCLUSÃO A partir do estudo sobre a questão da política habitacional, com um olhar particular sobre a habitação de interesse social, verificamos poucas mudanças ao longo dos séculos. Não é difícil constatar que uma política de habitação efetiva pode impactar fortemente sobre a redução da desigualdade social e da pobreza, contribuindo para a melhoria da qualidade da vida das pessoas. Entretanto, as políticas implementadas pelo governo, apesar do discurso oficial ser de melhorar a condição de moradia da população de baixa renda, historicamente terminam por financiar a classe média e alta, inclusive com benefícios e subsídios. O Estado Brasileiro possui diversos desafios a serem enfrentados para amenizar esta situação e auxiliar na provisão de moradias dignas e a solução do problema habitacional merece uma ação direcionada à oferta habitacional condizente com o nível de renda da população, ao invés de ofertar novas moradias. De maneira a combater o déficit habitacional e aumentar a eficiência e a eficácia das políticas públicas, é mister integrar as ações e programas habitacionais às demais ações de desenvolvimento urbano e de políticas sociais do governo, onde somente uma política de habitação integrada, distributiva e bem focalizada poderá contribuir para uma solução do problema de habitação brasileiro. Nesse diapasão, o governo surge com o PMCMV, com recursos diretos do OGU, onde a taxa de juros varia conforme a renda do contratante: quanto maior a renda, maior é a taxa de juros. Entretanto, o grupo sem renda formal ou que não atende à faixa de renda do programa torna-se pouco expressivo ou até inexistente no que tange à conquista do direito à moradia. O PMCMV inova ao utilizar recursos do OGU, sem a necessidade de usar recursos com necessidade de retorno financeiro e auto-sustentação. Apesar disso, continua a priorizar o modelo de atendimento ao mercado imobiliário, em detrimento do direito social de moradia. 61 Em sede da cidade do Rio de Janeiro, o governo perde uma grande oportunidade de resolver, ainda que parcialmente, o problema de habitação na Cidade Maravilhosa. Há uma presença expressiva de imóveis vagos na área portuária da cidade, majoritariamente pertencente à União e que, por intermédio da lei de Regularização Fundiária de Interesse Social, poderia ser utilizada para a solução parcial desse problema, com utilização desses imóveis para produção social. Acontece justamente o contrário: o Governo Federal autoriza a desapropriação de seus terrenos e a Prefeitura baseia a remodelação paisagística do tecido urbano e apropriação desses imóveis subutilizados em atividades turísticas e de comércio, ao invés de priorizar a população carente de moradias. Na esteira dos mega-eventos que serão sediados no Rio de Janeiro, a cidade configura-se em um centro de disputas, onde interesses mercantis ganham maior apoio do Estado do que os interesses sociais. O projeto Porto Maravilha encampa toda essa série de disputas. Não há uma reflexão de modo a garantir a permanência da população de baixa renda, nem de melhorar as condições de moradia, o que dizer de combater a ociosidade de imóveis e propor uma utilização de moradia social nessa área da cidade. Os benefícios da regularização fundiária das ZEIS para a população são inegáveis, como a segurança na posse através da legalização dos imóveis públicos subutilizados para moradia ou outros usos residenciais; acesso a serviços públicos básicos e financiamentos habitacionais para melhoria dos imóveis existentes e integração das diversas áreas da cidade. Representa um fator primordial e célere para a democratização das relações sociais e consequentemente na conquista da cidadania plena e na diminuição da exclusão social. O PMCMV, no município carioca, que se propõe como uma solução atual, não se efetiva como tal na prática na cidade. Evidencia o papel condutor do capital privado no espaço urbano, relegando ao governo a um espaço secundário, de somente viabilizar os interesses especiais nesse processo, em prejuízo da sua participação na política habitacional. Às vésperas da realização da Copa do Mundo de Futebol e em 2016 das Olimpíadas, o setor imobiliário desloca involuntariamente a população no 62 ambiente intra-urbano, através da gentrificação de áreas urbanas destinadas a grandes equipamentos urbanos e do reassentamento da população de baixa renda para empreendimentos em locais longínquos do centro e sem infraestrutura para atender a essa população. Esse processo caminha para uma periferização da habitação de interesse social, onde historicamente a Zona Oeste, carente de serviços públicos e de difícil acesso, é novamente e equivocadamente utilizada, contrariando uma das premissas do atual programa do governo, o PMCMV, de procurar viabilizar a construção de moradias em áreas centrais da cidade. É difícil reverter uma situação que já dura mais de um século em um curto espaço de tempo. Durante décadas pôde-se verificar políticas habitacionais inconsistentes, por vezes indiferentes, excludentes e não abrangentes, que ora o governo tomava para si a responsabilidade e, após comprovadas as dificuldades financeiras, a corrupção, políticas de apadrinhamento, falta de controle e acompanhamento dos programas, restando para a população ter como opção de acesso à moradia casas e barracos, insalubres e sem a mínima condição digna de habitabilidade, construídas na maioria das vezes em áreas e terrenos invadidos. A oferta de quem atua no mercado formal de trabalho tem continuidade nas condições de financiamento e até de subsídios, com prestações adequadas à capacidade de pagamento do mutuário. Porém, há muito a se fazer em relação à oferta de moradia à população carente e realmente necessitada, sempre esquecida. A materialização do direito à moradia é condição intrínseca e núcleo primordial da defesa da dignidade da pessoa humana, uma vez que não se concebe tal direito simplesmente como a existência física de um lugar para morar, mas também como o lugar onde se realizam outros direitos inerentes aos seres humanos, como saúde, saneamento, lazer, transportes, obviamente em um local adequado, com acesso a serviços básicos de fornecimento de água tratada, luz, esgoto, pavimentação de ruas, educação etc. As ações neste setor necessitam de maior ampliação, de forma a estimular uma atuação maior e mais atenta do Estado a desenvolver políticas públicas realmente efetivas, sem caráter demagógico ou de maquiagem social. 63 Do contrário, estaremos condenados a passar mais um longo tempo sem obter reduções no déficit habitacional e sem poder viver numa sociedade mais igual e com moradias dignas. Precisamos entender que casa própria não é um sonho e sim um direito! 64 REFERÊNCIAS ABREU, Mauricio de Almeida. Da habitação ao habitat: a questão da habitação popular no Rio de Janeiro. Revista Rio de Janeiro vol.1, n.2, jan/abril, 1986. Acesso em 03/08/2013. ARAUJO, Ronaldo de Sousa e AGUIRRE, Camila Ayres Ferreira. Regularização Fundiária: áreas de interesse social. Disponível em http://seer.perspectivasonline.com.br/index.php/HSA/article/view/61/59. Acesso em 02/01/2014. BENTES, Júlio Cláudio da Gama. Análise dos Planos Urbanísticos Recentes para a Região Portuária do Rio de Janeiro. Disponível em http://www.anparq.org.br/dvd-enanparq/simposios/129/129-639-2-SP.pdf Acesso em 14/02/2014. BONDUKI, Nabil Borges. Origens da habitação social no Brasil. Páginas 715 -721. São Paulo: Estação Liberdade, 2004. BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil (1988). Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Constituicao/Constituicao.htm Acesso em 04/11/2013. _________. Estatuto da Cidade (2001). Disponível em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/LEIS_2001/L10257.htm Acesso em 07/11/2013. BRANDÃO, Rossana Brandão e LOPES, Maria de Lurdes. Projeto Moradia é Central - lutas, desafios e estratégias. Páginas 55-59. Disponível em http://www.polis.org.br/uploads/1512/1512.pdf Acesso em 07/02/2014. 65 CAIXA ECONÔMICA FEDERAL. Programa Minha Casa Minha Vida. Disponível em http://mcmv.caixa.gov.br/minha-casa-minha-vida/ Acesso em 05/02/2014. _________. Programa Minha Casa Minha Vida – Números. Disponível em http://mcmv.caixa.gov.br/numeros/ Acesso em 03/02/2014. CARDOSO, Adauto Lucio. O programa Minha Casa Minha Vida e seus efeitos territoriais. Páginas 143-160. Rio de Janeiro:Letra Capital, 2013. COMPANS, Rose. Política habitacional e legitimação política no Rio de Janeiro. XIV Encontro Nacional da ANPUR. Maio 2011. Rio de Janeiro. CORREIA, habitacional na Fernanda cidade Guimarães. do Rio Breve de histórico Janeiro. da questão Disponível em www.achegas.net/numero/31/ fernanda correa31.pdf Acesso em 17/10/2013. EGLER, Tâmara Tânia Cohen. Políticas urbanas para o espaço global. Revista Economia, Sociedade e Território, México, Nº 17, 2005. EPOCA. Prédios do Minha Casa, Minha Vida no Rio ameaçam cair e terão que ser demolidos. Disponível em http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/noticia/2013/03/predios-do-minhacasa-minha-vida-no-rio-ameacam-cair-e-terao-que-ser-demolidos.html Acesso em 05/12/2013. FITTIPALDI, Mariana. Direito à cidade: diálogo de eqüidade entre o direito à moradia e o direito ao meio ambiente. 2006. 247p. Dissertação de Mestrado (Direito). PUC-RIO, Rio de janeiro. 66 Instituto João Goulart (IJG). Documento sobre as reformas de base. Disponível em http://www.institutojoaogoulart.org.br/conteudo.php?id=68 Acesso em 05/12/2013. Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA), 2013. Estudo aponta redução no déficit habitacional no país. Disponível em http://www.ipea.gov.br/portal/index.php?option=com_content&view=article&id=2 0656 Acesso em 05/02/2014. MARICATO, Ermínia. Habitação e cidade. São Paulo: Atual, 1997. MOTTA, Luana Dias. A questão da habitação no Brasil: políticas públicas, conflitos urbanos e o direito à cidade. Disponível em http://conflitosambientaismg.lcc.ufmg.br/geral/anexos/txt_analitico/MOTTA_Lua na_-_A_questao_da_habitacao_no_Brasil.pdf Acesso em 17/08/2013. ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS. Declaração Universal dos Direitos Humanos. 1948. Disponível em http://www.ohchr.org/EN/UDHR/Documents/UDHR_Translations/por.pdf Acesso em 23/11/2013. ROMAGNOLI, Alexandre J. O programa “minha casa, minha vida”: continuidades, inovações e retrocessos. Disponível em http://seer.fclar.unesp.br/temasadm/article/view/6181 Acesso em 05/01/2014. SECRETARIA DE PATRIMÔNIO DA UNIÃO. SPU/RJ assina contrato para revitalização do Porto Maravilha. Disponível em http://patrimoniodetodos.gov.br/pastanoticia.2009-07-02.8239097967/spu-rjassina-contrato-para-revitalizacao-do-porto-maravilha/?searchterm=porto do rio de janeiro Acesso em 09/01/21014. 67 _________. Secretaria acompanha cessão no Porto Maravilha. Disponível em http://patrimoniodetodos.gov.br/pastanoticia.2009-07- 02.8239097967/secretaria-acompanha-cessao-no-portomaravilha/?searchterm=porto do rio de janeiro. Acesso em 09/01/2014. VIENNE, Jean-Michel. Pourquoi em appeller au peuple? IN: SOUCHARD, Maryse; PINSON, Jean-Claude; GAUBERT, Joel. Le populisme aujourd’hui. Páginas 55-74. França. M-editer edições. ZYLBERBERG, Sonia. Morro da Providência: Memórias da Favella. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1992. 122p. 68 SIGLAS BID – BANCO INTERAMERICANO DE DESENVOLVIMENTO BNDES – BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL BNH – BANCO NACIONAL DE HABITAÇÃO CEDAE – COMPANHIA ESTADUAL DE ÁGUA E ESGOTOS CEF – CAIXA ECONÔMICA FEDERAL CGFNHIS – CONSELHO GESTOR DO FUNDO NACIONAL DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL CHISAM – COORDENAÇÃO DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL CODESCO – COMPANHIA DE DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADES COHAB – COMPANHIA DE HABITAÇÃO POPULAR DO ESTADO DA GUANABARA COMLURB – COMPANHIA MUNICIPAL DE LIMPEZA URBANA DNIT – DEPARTAMENTO NACIONAL DE INFRAESTRUTURA DE TRANSPORTE FAFEG – FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES DE FAVELAS DO ESTADO DA GUANABARA FAFERJ – FEDERAÇÃO DAS ASSOCIAÇÕES DE FAVELAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO FAR – FUNDO DE ARRENDAMENTO RESIDENCIAL FAT – FUNDO DE AMPARO AO TRABALHADOR FCP – FUNDAÇÃO DA CASA POPULAR FDS – FUNDO DE DESENVOLVIMENTO SOCIAL FGTS – FUNDO DE GARANTIA POR TEMPO DE SERVIÇO FHC – FERNANDO HENRIQUE CARDOSO FMI – FUNDO MONETÁRIO INTERNACIONAL FNHIS – FUNDO NACIONAL DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL HIS – HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL IAB – INSTITUTO DOS ARQUITETOS DO BRASIL IPTU – IMPOSTO PREDIAL TERRITORIAL URBANO 69 INCRA – INSTITUTO NACIONAL DE COLONIZAÇÃO E REFORMA AGRÁRIA INSS – INSTITUTO NACIONAL DE SEGURIDADE SOCIAL OGU – ORÇAMENTO GERAL DA UNIÃO ONG – ORGANIZAÇÃO NÃO GOVERNAMENTAL PAIH – PLANO DE AÇÃO IMEDIATA PARA A HABITAÇÃO PMCMV – PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA PROFACE – PROGRAMA DE FAVELAS DA CEDAE PROFILURB – PROGRAMA DE FINANCIAMENTO DE LOTES URBANIZADOS SBPE – SISTEMA BRASILEIRO DE POUPANÇA E EMPRÉSTIMOS SFH – SISTEMA FINANCEIRO DE HABITAÇÃO SMH/RJ – SECRETARIA MUNICIPAL DE HABITAÇÃO DO RIO DE JANEIRO SERFHA – SERVIÇO ESPECIAL DE RECUPERAÇÃO DE HABITAÇÕES ANTI-HIGIÊNICAS USAID – United States Agency for International Development - AGÊNCIA DOS ESTADOS UNIDOS PARA O DESENVOLVIMENTO INTERNACIONAL ZEIS – ZONAS ESPECIAIS EM ÁREAS DE INTERESSE SOCIAL