PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO Isabel Victoria Galleguillos Jungk A SEMIOSE DA ESCRITA E SUA RECONFIGURAÇÃO NA HIPERMÍDIA Uma análise semiótico-sistêmica MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA SÃO PAULO 2011 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO Isabel Victoria Galleguillos Jungk A SEMIOSE DA ESCRITA E SUA RECONFIGURAÇÃO NA HIPERMÍDIA Uma análise semiótico-sistêmica MESTRADO EM COMUNICAÇÃO E SEMIÓTICA Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em Comunicação e Semiótica, sob orientação da Profa. Dra. Maria Lucia Santaella Braga. São Paulo - 2011 3 BANCA EXAMINADORA 4 P ra Haresh, Diana e Arthur 5 AGRADECIMENTOS Cada realização é um mosaico único de inspiração, superação e aprendizado, para o qual tantos contribuem de tantas formas. Esta pesquisa não poderia ser diferente. E pela felicidade de ter chegado ao fim desta jornada, agradeço sinceramente àqueles que a tornaram possível: À professora e orientadora Lucia Santaella, com quem tanto aprendi, pelo incentivo generoso e constante. Minha profunda admiração. À professora e orientadora Leda Tenório da Motta, pela amizade que me dedicou e pelo apoio inestimável. Minha eterna gratidão. Ao professor Winfried Nöth, pelos textos e apontamentos fundamentais para os rumos desta pesquisa. Ao professor Fernando Andacht, pelo estímulo e sugestões valiosas durante a qualificação. Aos professores do programa em Comunicação e Semiótica, Jorge Albuquerque Vieira, por descortinar um mundo de possibilidades epistemológicas; Ivo Assad Ibri, por compartilhar seu conhecimento em aulas inspiradoras; e Arlindo Machado, pela ajuda e compreensão durante o seminário de pesquisa. Ao professor Claudio César Montoto, por ter me mostrado o caminho para este trabalho, ainda no curso de especialização. À minha mãe, pela presença e colaboração incondicionais. A meu pai, por praticar e me ensinar o significado da palavra resiliência. A meu esposo e nossos filhos, pela ajuda carinhosa e paciência sempre renovadas. À minha irmã, pelos ensinamentos em conversas gratificantes. A meus amigos e familiares, cujos nomes não cabem aqui, mas que estão gravados em meu coração, por toda a ajuda e incentivo que de mil maneiras fizeram tanta diferença. A Deus, pois “é bom lembrar que cada uma das verdades científicas é devida à afinidade da alma humana com a alma do universo, por imperfeita que seja esta afinidade” (CP 5.47). Ao CNPq, pela bolsa concedida que grandemente contribuiu para a concretização deste projeto. 6 “De fato, homens e palavras educam-se mutuamente; cada aumento de informação humana envolve e é envolvido por um aumento de informação das palavras.” “Todo pensamento se dá por meio de signos; e os ignorantes também usam signos. Mas, talvez, eles raramente pensem neles como signos. Fazê-lo é, evidentemente, um segundo passo no uso da linguagem.” Charles Sanders Peirce (CP 5.313; 5.534) 7 RESUMO Com o advento da Internet e das tecnologias hipermidiáticas de transmissão de texto, novas grafias de palavras do léxico estão se tornando usuais, como forma de adaptação da linguagem escrita aos suportes digitais e suas peculiaridades. Esta pesquisa tem como principal objetivo investigar as manifestações e as potencialidades da palavra escrita a partir dessas novas grafias caracterizadas por um grau considerável de hibridismo e complexidade. Parte-se do pressuposto de que a análise semiótica da palavra no interior do sistema da língua e da palavra escrita reconfigurada na hipermídia, dada a natureza eminentemente híbrida que adquire, pode ser facilitada pelo uso da classificação dos signos idealizada por Charles S. Peirce, e da distinção apontada entre a palavra como lei geral e a sua efetiva aplicação. Visando ao exame teórico do contexto em que as mudanças têm ocorrido, adotamos um enfoque sistêmico, tanto do sistema de escrita quanto da hipermídia, segundo a Teoria Geral dos Sistemas, como elaborada por Jorge A. Vieira. Questões concernentes aos desafios que esse novo tipo de escrita representa para a escrita convencional são levantadas por meio de bibliografia especializada sobre a linguagem verbal na hipermídia, auxiliar na contextualização lingüística do problema. O corpus constitui-se de exemplos práticos das transmutações da natureza semiótica da escrita e das novas grafias. A análise do corpus é feita por meio da aplicação dos conceitos semióticos, especialmente aqueles extraídos da teoria e classificação dos signos operacionalizados em função das necessidades que o objeto da pesquisa impõe. Espera-se que os resultados da pesquisa nos levem a uma compreensão criticamente fundada dos processos evolutivos da escrita. Palavras-chave: semiótica peirceana; teoria sistêmica; escrita digital; novas grafias. 8 ABSTRACT With the advent of Internet and hypermedia technologies for text transmission, new spellings of words of the lexicon are becoming common as a form of adaptation of written language to digital media and its peculiarities. The main target of the present research is to investigate the manifestations and potentials of the written word in these new spelling characterized by a considerable degree of hybridism and complexity. The starting point is the assumption that the semiotic analysis of the word within the language system and of the written word reconfigured in hypermedia, given its eminently hybrid features, can be facilitated by using the classification of signs devised by Charles S. Peirce and by the distinction drawn between the word as a general law and its effective application. Aiming to examine the theoretical context in which changes have occurred, a systemic approach to the writing system as well as to hypermedia is adopted, according to the general systems theory as developed by Jorge A. Vieira. Questions concerning the challenges posed by this new kind of writing to conventional writing are raised through specialized bibliography on verbal language at hypermedia, auxiliary of the problem contextualization. The corpus consists of practical examples of the transmutations of the semiotic nature of writing and of new spellings. Corpus analysis is done by means of semiotic concepts appropriately operationalized to the needs required by the research object. It is expected that the research results will lead to a critically founded understanding of evolutionary processes of writing. Keywords: peircean semiotics; systems theory; digital writing; new spellings. 9 ABREVIATURAS UTILIZADAS CP Collected Papers of Charles Sanders Peirce. Hartshorne, C.; Weiss, P. (Eds.) V. I-IV; BURKS, W. (ed) v. VII-VIII. Cambridge: Harward University Press. A forma usual de citação dos Collected Papers é CP, seguido do número do volume, ponto e o número do parágrafo. SS Semiotic and Significs. The correspondence between Charles S. Peirce and Victoria Lady Welby. Ed. Charles S. Hardwick. (1977) Indiana university Press. MS The Charles S. Peirce Papers. Peirce Edition Project, cf. Annotated Catalogue of the Papers of Charles S. Peirce, Richard Robin, Amherst: university of Massachussets Press, 1967. W Writings of Charles S. Peirce, vols. 1 a 6. Edição cronológica. Peirce Edition Project. Blomington: Indiana University Press, 1980-2000. CLG Cours de linguistique générale. Ferdinand de Saussure (1906-1911), organizado por C.Bally, A.Sechehaye, e A.Riedlinger, publicado em 1915 (1ª.ed.). Tradução para o português de A.Chelini, J.P. Paes, I.Blikstein. São Paulo, Cultrix, 2006. 10 SUMÁRIO RESUMO, 8 ABSTRACT, 9 ABREVIATURAS, 10 INTRODUÇÃO, 14 Capítulo 1 - TEORIA PEIRCEANA 1. AS CATEGORIAS E A TEORIA GERAL DOS SIGNOS ................................................... 18 1.1. Primeiridade, 22 1.2. Secundidade, 24 1.3. Terceiridade, 24 1.4. Interdependência entre as categorias, 26 2. O CONCEITO DE SIGNO .................................................................................................. 27 2.1. Representamen, 29 2.2. Objeto do signo, 30 2.3. Interpretante, 31 3. CLASSIFICAÇÃO DOS SIGNOS ...................................................................................... 34 3.1. As três tricotomias, 34 1ª. tricotomia: o signo em relação a si mesmo, 35 2ª. tricotomia: a relação signo-objeto dinâmico, 36 3ª. tricotomia: a relação signo-interpretante final, 39 3.2. As dez classes de signos, 41 4. A SEMIOSE OU AÇÃO DO SIGNO .................................................................................. 45 4.1.Relações de implicação entre os signos, 47 Capítulo 2 - MANIFESTAÇÕES SÍGNICAS DA PALAVRA 1. A PALAVRA: SIGNO LINGÜÍSTICO POR EXCELÊNCIA ................................... 51 1.1. A palavra multifacetada, 55 2. A PALAVRA COMO LEGISSIGNO ...................................................................... 57 2.1. Convenção: fundamento do legissigno, 57 2.2. Legissigno e objeto dinâmico, 58 2.3. Objeto dinâmico, necessidade e a motivação da palavra, 59 11 2.4. Onipresença e recursividade das categorias, 61 2.5. Combinação de signos: necessidade lógica, 62 2.6. Legissignos indiciais, 64 2.7. Legissignos simbólicos, 68 2.8. Legissignos icônicos, 75 3. A PALAVRA COMO SINSIGNO ........................................................................... 80 4. A PALAVRA COMO QUALISSIGNO .................................................................... 84 Capítulo 3 - LINGUAGEM VERBAL: CONJUNTO DE SISTEMAS SÍGNICOS 1. VISÃO SISTÊMICA ............................................................................................... 88 1.1. Ontologia Sistêmica e Semiótica, 88 1.2. Sistemas abertos e parâmetros sistêmicos fundamentais, 92 1.3. Evolução da linguagem verbal, 95 2. UM CONJUNTO SISTÊMICO VERBIVOCOVISUAL ........................................... 97 2.1. Sistemas sígnicos: as três matrizes, 101 2.2. Funções dos signos nos sistemas de escrita, 105 Capítulo 4 - ESCRITA E HIPERMÍDIA 1. TECNOLOGIA E HIPERMÍDIA ........................................................................... 115 2. HIPERMÍDIA: SISTEMA AMBIENTE DA ESCRITA ........................................... 117 3. HIPERMÍDIA E HIPERTEXTO ............................................................................ 118 4. SUPORTE MULTIDIMENSIONAL DA ESCRITA ............................................... 122 5. LINGUAGEM VERBAL E ESCRITA HIPERMIDIÁTICA ..................................... 125 6. ICONICIDADE DA ESCRITA EM AMBIENTES HIPERMIDIÁTICOS ................. 129 Capítulo 5 - RECONFIGURAÇÃO DA ESCRITA: NOVAS GRAFIAS 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS ............................................................................. 135 2. PRECURSORES ................................................................................................ 138 2.1. Edgar Allan Poe, 139 2.2. Stéphane Mallarmé, 142 2.3. Poesia concreta, 142 2.4. E-poetry, 146 12 3. NOVAS GRAFIAS .............................................................................................. 149 3.1. Economia de caracteres, 151 3.2. Omissão vocálica, 151 3.3. Grafia silábica, 152 3.4. Sinais semográficos, 154 3.5. Rébus e grafias híbridas, 154 3.6. Números e letras, 155 4. SOBRE OS EMOTICONS .................................................................................. 156 5. CONEXÃO LEXICAL: A PALAVRA PERFEITA .................................................. 160 Capítulo 6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS 1. ALGUMAS CONCLUSÕES ................................................................................ 163 2. O FUTURO DA ESCRITA ................................................................................... 168 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ................................................................................... 172 13 INTRODUÇÃO A proposta do presente estudo é lançar luz sobre o fenômeno multifacetado da reconfiguração da escrita em ambientes hipermidiáticos. A linguagem verbal passa por um momento único. As inovações nos suportes da escrita determinam mudanças sensíveis na grafia convencional, em função de princípios como economia, velocidade, oralidade, que antes ficavam restritos à linguagem verbal oral, e que vão sendo incorporados à linguagem verbal escrita com rapidez crescente. Questões como a natureza dos suportes e do próprio sistema de escrita não se fazem esperar. Como abordar um fenômeno com implicações de tamanha magnitude para o sistema de escrita atual? A metodologia foi um grande desafio neste estudo. Como concatenar a miríade de aspectos e relações envolvidas buscando clareza sem deixar de contemplar detalhes significativos foi igualmente um caminho árduo. O primeiro passo foi adotar a semiótica idealizada por Charles Sanders Peirce, dado o pressuposto de que, devido ao seu poder de análise dos mais diversos tipos de signos, ela poderia revelar sutilezas e diferenças entre a palavra como lei geral e a palavra escrita que, via de regra, passam despercebidas. Para a consecução desse fim, buscou-se uma definição de palavra como unidade autônoma, possibilitando sua análise pela aplicação das classes de signos e suas relações semiósicas. A contribuição de Peirce para a linguagem verbal é impar. Seus exemplos e aplicações da teoria semiótica ao signo lingüístico (que à sua época ainda estava por receber essa denominação) são incontáveis, e seu valor, inaquilatável. No entanto, seu interesse não estava na estrutura gramática, tendo ele deixado essa tarefa a futuros pesquisadores. “Peirce interessava-se intensamente por língua e gramática, mas não pode ser considerado um lingüista no sentido moderno. Por isso, mesmo quando ele fala de palavras ou de significado ao explicar as conseqüências de sua 14 teoria dos signos e interpretantes, Peirce não investiga a estrutura gramática (...). Não é de surpreender, portanto, que ele tenha deixado a tarefa de aplicar e ampliar sua teoria a campos como a lingüística para futuras gerações de pesquisadores.” (SHAPIRO 1988: 124) A semiótica peirceana foi concebida com um caráter extremamente geral e abstrato, pois as categorias são onipresentes, e um mesmo signo pode exibir uma pluralidade de faces ao mesmo tempo. Isso torna muito difícil a tarefa de aplicá-la com proveito a processos concretos de linguagens, e determina a necessidade de estabelecer os caminhos pelos quais as aplicações se fazem possíveis. Em contrapartida, as peculiaridades hipermidiáticas pediam uma reflexão cuidadosa, tanto quanto as peculiaridades sígnicas dos sistemas de escrita, o que não poderia ser feito por intermédio somente da teoria peirceana. No entanto, o ecletismo teórico neste caso, não só é bem vindo como é necessário para abordar particularidades impossíveis de analisar somente sob conceitos gerais e abstratos como os de Peirce, e para conhecer a semiose específica que se busca compreender. “É evidente que para tudo isso, o mapa lógico peirceano precisa, veementemente necessita, da interação com outras teorias específicas da semiose sob exame (o ecletismo teórico, quando se trabalha com os diagramas de Peirce, é não apenas bem-vindo, mas também indispensável). Além disso, como todo mapa, este também precisa do contato estreito com seu objeto; exige a familiaridade e intimidade do analista com a semiose específica que ele quer compreender.” (SANTAELLA 1992a: 200) A visão peirceana, em todas as áreas em que seu pensamento se desenvolveu, é sistêmica, os conceitos formando uma rede complexa de interconexões, o que possibilitou sua ponte com os conceitos da Teoria Geral dos Sistemas, conforme elaboração de J.A.Vieira. Na intersecção entre esses dois quadros teóricos, a hipermídia e os sistemas de escrita puderam ser abordados de forma a iluminar o contexto das transformações em curso. 15 Por outro lado, a semiótica peirceana não estabelece relações estanques, já que um continuum de gradações, regressões e progressões infinitas são justamente o que seu arcabouço filosófico busca evidenciar. Coerentemente, optamos por justapor a seus conceitos uma classificação dos sistemas de escrita em função da natureza de seus signos elaborada por R.Bringhurst, que além de estar em prefeita consonância com as tipologias mais conhecidas, se apresenta de forma diagramática e contínua. Os conceitos peirceanos, ao serem aplicados, apresentam um grau de dificuldade diretamente proporcional ao nível de esclarecimento a que se pretende chegar na análise de um determinado fenômeno, esforço certamente recompensado pelo potencial que uma teoria dessa envergadura representa para o progresso epistemológico humano. Por meio desse caminho metodológico, acreditamos então, ter abordado os principais fatores e características das novas formas de utilização da escrita em contexto hipermidiático, que exigiram, para sua compreensão, uma análise cuidadosa de todos os seus aspectos envolvidos: semióticos, sistêmicos e lingüísticos. No primeiro capítulo, a teoria peirceana é apresentada com vistas à elucidação dos conceitos teóricos que serão utilizados nas análises. Os conceitos da semiótica são apresentados dentro do quadro categorial de Peirce e no contexto de sua arquitetura filosófica. Ao final, diagramas explicativos do processo de semiose foram elaborados para facilitar sua visualização e compreensão. Já no segundo capítulo, as manifestações sígnicas da palavra como unidade autônoma são analisadas segundo o quadro conceitual da semiótica, a fim de estabelecer a distinção entre a palavra como lei geral e a sua efetiva aplicação, bem como demonstrar sua capacidade de se manifestar 16 iconicamente, motivadamente, desmontando antigos conceitos e preconceitos oriundos da tradição saussureana. No terceiro capítulo, é enfocada a linguagem verbal como conjunto de sistemas sígnicos. Conceitos da Teoria Geral dos Sistemas são expostos e aplicados para a compreensão das inter-relações entre os diversos sistemas sígnicos que compõem o todo da linguagem verbal e de sua evolução. As funções dos signos no interior dos sistemas de escrita são consideradas em detalhes. O quarto capítulo, a fim de contextualizar as mudanças que se processam, trata das relações entre escrita e hipermídia sob diversos ângulos: tecnologia, sistema ambiente, sistema hipertextual, suporte multidimensional. Ao final, as relações entre linguagem verbal e escrita hipermidiática são estabelecidas, e sua crescente iconicidade é analisada. No quinto capítulo, a reconfiguração da escrita em novas grafias é considerada sob a influência de alguns fatores determinantes, alguns precursores relevantes são apontados, e as novas grafias e suas peculiaridades são exemplificadas e teoricamente analisadas. No sexto e último capítulo, considerações finais são tecidas; algumas conclusões são depreendidas do percurso de estudo e análise, bem como são apontadas possíveis tendências do desenvolvimento da escrita no futuro. Este estudo busca, dessa forma, elucidar as novas reconfigurações da escrita desvendando o funcionamento de seus processos sígnicos, aliado a um enfoque sistêmico e lingüístico. Sem a pretensão de esgotar o assunto, esperamos que seus resultados sejam frutíferos para outros pesquisadores tanto quanto foi percorrer o caminho de sua pesquisa. 17 Capítulo 1 - TEORIA PEIRCEANA “Tento uma análise do que aparece no mundo. Aquilo com que estamos lidando não é metafísica: é logica, apenas.” (CP 2.84) “A lógica deve, para a realização de sua idéia seminal, ser l’art de penser. L’art de penser! Que sublime concepção! (CP 4.46) 1. AS CATEGORIAS E A TEORIA GERAL DOS SIGNOS Para compreender a lógica das ciências e seus métodos de raciocínio, foco dos estudos peirceanos (SANTAELLA 2001:32), toda sua Lógica foi concebida dentro de uma teoria geral dos signos ou Semiótica (SANTAELLA, 1983:20), que em sua arquitetura científico-filosófica1, mantinha uma posição de dependência em relação à Faneroscopia2, dela extraindo todos os seus princípios. Seu sonho era elaborar “uma filosofia como aquela de Aristóteles, quer dizer, delinear uma teoria tão abrangente que, por um longo tempo, o trabalho inteiro da razão humana, na filosofia de todas as escolas e espécies, na matemática, na psicologia, nas ciências físicas, na história, na sociologia, e em qualquer outro departamento que possa haver, deve aparecer como o preenchimento de seus detalhes. O primeiro passo para isso é encontrar conceitos simples, aplicáveis a qualquer objeto.” (CP 1,p.vii) Nessa medida, para compreendermos a Semiótica, faz-se necessário compreender primeiramente a Faneroscopia, como ciência da observação, geral e abstrata, dedicada a estudar o phaneron, ou fenômeno, e cuja função 1 Peirce dialogou com toda a tradição filosófica ocidental para construir uma abrangente e coerente arquitetura classificatória das ciências e de suas inter‐relações. Conseqüentemente, para ele, as ciências podiam ser divididas em ciências 1) da descoberta, 2) da digestão e 3) aplicadas, as mais gerais fornecendo princípios norteadores para as mais específicas, e estas, por sua vez, fornecendo dados para as mais gerais. As ciências da descoberta (Matemática, Filosofia e Ideoscopia) estão num tal nível de generalidade, que são consideradas ciências da observação. Dentro da Filosofia, encontraremos a Faneroscopia juntamente com as Ciências Normativas (Estética, Ética e Lógica considerada como Semiótica) e a Metafísica (SANTAELLA 1983:23‐27). 2 Faneroscopia foi o nome dado por Peirce a sua Fenomenologia por volta de 1902, quando da construção arquitetônica de seu sistema (SANTAELLA 1983:27). 18 era a de “realizar a mais radical análise de todas as experiências possíveis” (SANTAELLA 1983:28), já que Peirce entendia fenômeno3 no sentido mais amplo que se pode conceber, simplesmente como tudo aquilo que se apresenta à percepção e à mente, independentemente de ser um evento externo ou uma idéia, sonho ou abstração, sendo a primeira tarefa da Filosofia, e, portanto, da Faneroscopia, a de desenvolver uma doutrina de categorias formais, gerais e abstratas, absolutamente universais, no sentido de que fosse possível observá-las em todo e qualquer fenômeno, sem excluir nem mesmo conflitar com outras tantas categorias materiais e particulares possíveis de ser encontradas em todas as coisas. Tais categorias não poderiam brotar nem da língua, como as de Aristóteles, nem da lógica da proposição, como as de Kant (SANTAELLA 1983: 28; CP 5.294), mas somente do exame agudo da própria experiência. Para Peirce, “... a palavra Categoria possui substancialmente o mesmo significado em todos os filósofos. (...) a categoria é um elemento dos fenômenos com uma generalidade de primeira ordem. Segue-se daí que as categorias são poucas (...). A tarefa da fenomenologia é traçar um catálogo de categorias, provar sua eficiência, afastar uma possível redundância, compor as características de cada uma e mostrar as relações entre elas. (...) As categorias universais, de seu lado, pertencem a todo fenômeno, talvez sendo uma mais proeminente que a outra num aspecto do fenômeno, mas todas pertencendo a qualquer fenômeno.” (CP 5.43) Peirce chegou à conclusão que toda a diversidade fenomênica era redutível a três, e não mais que três modos de ser, que, sendo universais, 3 O fenômeno pertence à categoria do real, do existente, da secundidade, daquilo que pode forçar‐se sobre nossa percepção a despeito daquilo que sobre ele possamos pensar, mas que pode ser investigado pela nossa mente. Para Peirce: “Há coisas Reais, cujos caracteres independem por completo de nossas opiniões a respeito delas; esses Reais afetam nossos sentidos segundo leis regulares e conquanto nossas sensações sejam tão diversas quanto nossas relações com os objetos, poderemos, valendo‐nos das leis de percepção, averiguar, através do raciocínio, como efetiva e verdadeiramente as coisas são; e todo homem, desde que tenha experiência bastante e raciocine suficientemente acerca do assunto, será levado à conclusão única e Verdadeira. A concepção nova que se introduz é a de Realidade.” (CP 5.384) 19 deveriam ser observáveis em todo e qualquer fenômeno, ainda que em diferentes graus de proeminência: “Minha opinião é que existem três modos do ser. Afirmo que podemos observá-los diretamente nos elementos de tudo que está a qualquer momento presente à mente de qualquer maneira. São o ser da possibilidade qualitativa positiva, o ser do fato atual, e o ser da lei que governará os fatos no futuro.” (CP 1.23) Esses modos de ser são o fundamento de uma lógica ternária cujas categorias são tão abstratas que podem ser consideradas intangíveis, simples matizes de conceitos4, mas que, no entanto, ganham força nas relações de interdependência em que estão envolvidas, gerando uma combinatória que, na Semiótica, dá origem às diversas classificações de signos. Esses três elementos formais, no seu grau de abstração máxima, devem ser entendidos como mônada, relação diádica e relação triádica, respectivamente: “Terceiridade, no sentido de categoria é o mesmo que mediação. Por essa razão, pura díada é um ato de vontade arbitrária ou força cega; pois se houver alguma razão ou lei governando-a [a díada], ela [a razão ou lei] se constitui em mediação [da díada] entre os dois sujeitos trazendo a tona sua conexão. A díada é um fato individual, já que ela é existencialmente, não possuindo qualquer generalidade. O ser de uma qualidade monádica é uma mera potencialidade, sem existência. Existência é puramente diádica.” (CP 1.328) Por esses motivos, buscando expressar conceitos sem precedentes, que se constituem em substratos lógico-formais universais, Peirce batizou-os como categorias ceno-pitagóricas (CP 2.87), em virtude de suas conexões com os números, chamando-as de primeiridade (firstness), secundidade (secondness) e terceiridade (thirdness). Em suma, 4 “Talvez nem se devesse chamar as categorias de concepções; são tão intangíveis que mais parecem timbres ou matizes dos conceitos...” (CP 1.353) 20 “Por serem tão universais a ponto de se presentificarem em tudo e qualquer coisa, Peirce resolveu esvaziar os termos de qualquer conteúdo material, reduzindo-os à sua natureza puramente lógica. Daí as categorias passarem a ser designadas por (1) primeiridade = mônada, (2) secundidade = relação diádica e (3) terceiridade = relação triádica. Em cada fenômeno particular, a roupagem aparente dessas categorias se modifica, mas o substrato lógico sempre permanece.” (SANTAELLA 2001:15) O fundamento para a compreensão das categorias está, portanto, na compreensão do substrato lógico-formal de cada uma delas, substratos esses que se mantêm inalterados, apesar da “roupagem” de que se revestem quando observados na variabilidade material de cada fenômeno específico. Para Peirce, a lista de categorias “é uma tábua de concepções extraída da análise lógica do pensamento, aplicáveis ao ser” (CP 1.300). Dessa forma, podemos observar que “O primeiro esta aliado às idéias de acaso, indeterminação, frescor, originalidade, espontaneidade, potencialidade, qualidade, presentidade, imediaticidade, mônada... O segundo às idéias de força bruta, ação- reação, conflito, aqui e agora, esforço e resistência, díada... O terceiro esta ligado às idéias de generalidade, continuidade, crescimento, representação, mediação, tríada...” (SANTAELLA 2000:8) As categorias poderão ser, então, compreendidas em si mesmas, como modos de apreensão dos fenômenos, a saber: qualidade de sentimento (primeiridade), ação e reação (secundidade) e mediação (terceiridade), ou ainda como modos de ser, tanto dos fenômenos do universo físico, bem como da mente ou consciência, como é possível observar nas passagens a seguir: “Peirce concluiu que tudo que nossa mente é capaz de apreender, tudo que aparece à consciência, assim o faz numa gradação de três e não mais do que três elementos formais: (1) qualidade de sentimento, (2) ação e reação e (3) mediação. Suas conclusões, contudo, foram ainda além disso. Esses modos de apreensão não são, para ele, apenas elementos presentes no ato de apreender os fenômenos, e, portanto, fatores devidos à natureza peculiar da nossa mente, mas são também elementos formais de todo e qualquer 21 fenômeno (...) Nos fenômenos, a gradação dos elementos se expressa como: (1) qualidade, (2) reação, (3) representação.(...) Se tomarmos o acaso do universo físico, como um outro exemplo, nele, as categorias aparecerão sob a forma de (1) acaso, (2) leis mecânicas e (3) a tendência evolutiva do universo para adquirir novos hábitos.” (SANTAELLA 2001:15) “Aqui, portanto, temos indubitavelmente três elementos radicalmente diferentes da consciência, só estes e nenhum outro. E eles estão evidentemente ligados às idéias de um-dois-três. Sentimento imediato é a consciência do primeiro; o sentido da polaridade é a consciência do segundo; e consciência sintética é a consciência do terceiro ou meio.” (CP 1.382) As categorias peirceanas não são, dessa forma, noções estáticas ou terminais; elas são dinâmicas e interdependentes, formais, onipresentes e, portanto, universais. Assim, “não substituem, não excluem, nem entram em atrito com a infinita variedade de outras tantas categorias materiais e particulares que podem ser encontradas em todas as coisas” (SANTAELLA 2001: 36). 1.1. Primeiridade A categoria da primeiridade também foi chamada de Presentidade (presentness, CP 5.44), bem como de Originalidade (CP 2.89) ou Oriência. A primeiridade é o modo de ser daquilo que é tal como ele é, sem referência a qualquer outra coisa (CP 8.328). Essa pura qualidade positiva é o primeiro modo de ser, e enquanto tal, está presente em todo e qualquer fenômeno. É o ser da possibilidade qualitativa positiva (SANTAELLA 2001: 35; CP 1.304), é mera potencialidade (CP 1.328), e, portanto, originalidade e liberdade. “Primeiridade é a categoria que dá à experiência sua qualidade distintiva, seu frescor, originalidade irrepetível e liberdade. Não liberdade em relação a uma determinação física, pois que isso seria uma proposição metafísica, mas liberdade em relação a qualquer elemento segundo.” (SANTAELLA 1983:50) 22 Essa qualidade monádica do fenômeno é difícil de ser percebida, uma vez que ao pensarmos, já não é mais possível captá-la em sua imediaticidade, já que pensamento é mediação (SANTAELLA 1983: 43). Para captá-la é preciso suspender o fluxo do pensamento, estar com a consciência aberta, porosa, disponível para aquilo que a ela se apresenta sem relação com nada mais. Peirce diz que o modo como o artista vê o mundo é aquele capaz de captar as qualidades do mundo fenomênico (CP 5.41), e afirma que a pura qualidade de sentimento que experienciamos quando estamos com a percepção completamente aberta ao fenômeno é a representante psíquica da primeiridade. “Quando algo se apresenta ao espírito, qual é a primeira característica que se nota (...)? A sua presentidade, certamente. (...) O presente é o que é, não determinado pelo ausente, passado e futuro. É como tal, ignorando totalmente qualquer outra coisa. (...) Imaginemos, se quisermos, uma consciência onde não existe nenhuma comparação, relação, nenhuma multiplicidade reconhecida (uma vez que partes não seriam o todo), nenhuma mudança, nenhuma imaginação de qualquer modificação daquilo que está positivamente lá, nenhuma reflexão, - nada além de uma simples característica. Tal consciência pode ser simples odor, por exemplo, essência de rosas; ou uma contínua dor de cabeça, infinita (...). Em suma, qualquer qualidade de sentimento, simples e positiva, preenche a nossa descrição daquilo que é tal como é, absolutamente sem relação com nenhuma outra coisa. A qualidade de sentimento é a verdadeira representante psíquica da primeira categoria do imediato em sua imediaticidade, do presente em sua presentidade.” (CP 5.44) Como exemplo de uma qualidade em si mesma, um poder ser não necessariamente realizado (CP 1.303), pura primeiridade, podemos pensar “a mera qualidade em si mesma da vermelhidão, sem relação com nenhuma outra coisa, antes que qualquer coisa no mundo seja vermelha” (SANTAELLA 2001:35), lembrando que uma qualidade em si nunca é objeto de observação; ela é produto de reflexões lógicas: “Uma qualidade, como tal, nunca é objeto de observação. Olhando, vemos que uma coisa é azul ou verde, mas a qualidade de ser azul e a qualidade de ser verde não são coisas que possamos ver; são produtos de reflexões lógicas.” (CP 5.369) 23 1.2. Secundidade Assim como as outras, esta categoria recebeu diferentes nomes ao longo da obra de Peirce, tais como Conflito (CP 5.45), Obsistência (CP 2.89), Binariedade (CP 2.79). “Obsistência (sugerindo obviar, objeto, obstinado, obstáculo, insistência, resistência, etc.) é aquilo no que a secundidade difere da primeiridade; ou é aquele elemento que, tomado em conexão com a Originalidade, faz de uma coisa aquilo que uma outra a obriga a ser.” (CP 2.89) Onde há um fenômeno, há uma qualidade (primeiridade) que não é senão parte desse fenômeno, e que para ganhar existência tem de, necessariamente, incorporar-se, “materializar-se” num singular. É nesta corporificação que se dá a secundidade, já que existência é puramente diádica (CP 1.328). A díada é, portanto, um “fato individual, existencial; não tem generalidade” (CP 1.328), sendo “a ação mútua de duas coisas sem relação com um terceiro, ou medium, e sem levar em conta qualquer lei da ação” (CP 1.322), isto é, “sem o governo da camada mediadora da intencionalidade, razão ou lei” (SANTAELLA 1983:51). Nesse sentido, temos como exemplo, “a qualidade sui generis do vermelho no céu de um certo entardecer de outubro” (SANTAELLA 2001: 35). Para a consciência, que está em constante reagir com o mundo, o aspecto diádico de todo fenômeno ou secundidade é o momento da surpresa (CP 5.52), do choque, do conflito. É quando, inesperadamente, algo diferente de nossas expectativas se força sobre nossa percepção. 1.3. Terceiridade Como terceiridade, no sentido categorial, é o mesmo que mediação (CP 1.328), ela também foi chamada de Transuasão, no sentido de “modificação da primeiridade e da secundidade” (CP 2.89), já que terceiridade é o modo de ser daquilo que coloca em relação recíproca um primeiro e um segundo “numa síntese intelectual” ou “elaboração cognitiva”. (SANTAELLA 2001: 51). Dessa forma, é possível observar que, assim como 24 a primeiridade sempre está contida na secundidade, ambas, primeiridade e secundidade estão sempre presentes na terceiridade. De fato, a forma mais típica da terceiridade encontra-se na noção do signo. O signo é, portanto, uma relação triádica, na qual a ação do signo ou semiose, que é a ação de ser interpretado em outro signo, realiza-se. “A forma mais simples de terceiridade é a noção de signo. Se o universo do signo é o território legítimo da semiótica, esta já tem início dentro da própria fenomenologia, ou mais precisamente, a terceira categoria fenomenológica já é uma categoria semiótica.” (SANTAELLA 2001: 36) E como Peirce defende a idéia de que não há pensamento sem signos (CP 5.283), e isto equivale a dizer que pensamento é representação, a categoria da terceiridade é o modo de ser da mente, do pensamento, enfim, de toda inteligência: “Então, estes são esses três modos de ser: primeiro, o ser de um sentimento, em si mesmo, não ligado a qualquer sujeito, que é uma mera possibilidade atmosférica, uma possibilidade flutuando in vacuo, não racional porém capaz de racionalização; segundo, o ser que consiste na arbitrária e bruta ação sobre outras coisas, não somente irracional, mas também antiracional, já que racionalizá-lo seria destruir seu ser; e terceiro, há uma inteligência viva da qual toda realidade e todo poder são derivados; que é necessidade e necessitação racionais.” (CP 6.342)5 A categoria da terceiridade pode, ainda, ser considerada a categoria do próprio homem, já que em mais de uma passagem, Peirce afirmou que o homem é signo, “pois o homem é o pensamento” e o pensamento é signo (CP 5.314), sendo os signos as únicas coisas com as quais um ser humano pode ter qualquer relação. “Signos, as únicas coisas com as quais um ser humano pode, sem com isso inferiorizar-se, admitir ter qualquer relação, sendo ele mesmo um signo, são triádicos; uma vez que um signo denota um sujeito, e significa uma forma de fato, que posteriormente ele conecta com o primeiro.” (CP 6.344) 5 No original: “... which is rational necessity and necessitation.” (CP 6.342) 25 1.4. Interdependência entre as categorias As categorias formam uma tríade lógica, invariavelmente interdependentes umas das outras. Isso implica dizer que toda vez que nos referirmos a alguma das categorias, podemos supô-la sem as demais, no entanto, sem poder dissociá-la completamente das outras duas. Da mesma forma, as categorias não podem ser distinguidas totalmente umas das outras. O princípio a determinar a lógica das categorias é o principio da prescisão. Peirce fala em graus de separabilidade de uma idéia em relação a outra, constituindo-se a prescisão no grau de separabilidade a elas aplicável, pelo qual a “categoria do primeiro pode ser prescindida do segundo e terceiro, e o segundo prescindindo do terceiro. Mas o segundo não pode ser prescindido do primeiro, nem o terceiro do segundo” (CP 1.353). Essas relações de prescisão entre as categorias, por outro lado, evidenciam um crescente de complexidade à medida que o primeiro, necessariamente, se faz presente no segundo, e o primeiro e o segundo no terceiro, conseqüentemente. Peirce dá exemplos claros de como manejar a dependência de uma categoria em relação a outra: “Na minha primeira tentativa de trabalhá-las [as categorias] lancei mão de três graus de separabilidade de uma idéia em relação a outra. Em primeiro lugar, duas idéias podem estar tão pouco ligadas que uma pode achar-se presente à consciência como imagem que de forma alguma conterá a outra; neste sentido, podemos imaginar vermelho sem imaginar azul e vice-versa; podemos também imaginar som sem melodia, mas não melodia sem som. Chamo esta espécie de separação de dissociação. Em segundo lugar, mesmo em casos em que duas concepções não possam ser separadas na imaginação, podemos freqüentemente supor uma sem a outra, assim podemos supor um espaço não colorido, embora não possamos dissociar o espaço da cor. Chamo este modo de separação de prescisão. Em terceiro lugar, mesmo quando um elemento supõe o outro, podem distinguir-se muitas vezes. Assim, mais alto supõe mais baixo, mas pode-se distinguir o mais baixo do mais alto. É a distinção. Ora as categorias não podem ser dissociadas umas das outras na imaginação (nem das outras idéias).” (CP 1.353) 26 Em outra passagem, Peirce esclarece esse tipo de separação mental, a chamada prescisão, em termos de atenção e negligência: “um tipo particular de separação mental, nomeadamente, aquele por atenção a um ponto e negligência em relação a outro. Aquele ao qual atenta-se é chamado de prescindido; e aquele que é negligenciado é dito abstraído. (...) Atenção é uma concepção definida ou suposição de um elemento da consciência, sem nenhuma suposição positiva da outra.” (W1:518 [1866]) Dessa forma, se por um lado as categorias são indissociáveis, interdependentes, é justamente neste sutil grau de separabilidade a elas aplicável, que l’art de penser ganha força, força na qual está assentado todo o edifício filosófico de Peirce, sua classificação das ciências e, conseqüentemente, sua lógica ou semiótica e toda a classificação dos signos. 2. O CONCEITO DE SIGNO A Faneroscopia define terceiridade como a categoria da generalidade, continuidade, crescimento e inteligência, já que ela pode ser entendida como o modo de ser daquilo que coloca em relação um primeiro e um segundo “numa síntese intelectual, [que] corresponde à camada de inteligibilidade, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo” (SANTAELLA 1983: 51). Na Semiótica ou Lógica, que tem por função classificar e descrever todos os tipos de signos logicamente possíveis (SANTAELLA 1983: 29), encontramos a forma mais simples de terceiridade, a noção de signo, já que ele se constitui numa relação triádica, na qual a ação do signo ou semiose, que é a ação de ser interpretado em outro signo, realiza-se. Conseqüentemente, o signo é definido como uma estrutura irredutivelmente triádica formada pelo representamen, pelo objeto, e pelo interpretante do signo. “Um signo, ou representamen, é aquilo que, sob certo aspecto ou modo, representa algo para alguém. Dirige-se a alguém, isto é, cria na mente dessa pessoa, um signo equivalente, ou talvez, um signo mais desenvolvido. Ao 27 signo assim criado, denomino interpretante do primeiro signo. O signo representa alguma coisa, seu objeto. Representa esse objeto não em todos os seus aspectos, mas com referência a um tipo de idéia que eu, por vezes, denominei fundamento do representamen.” (CP 2.228) Devido a essa estrutura triádica, o signo pode ser analisado sob diversos aspectos, ou seja, o signo pode ser considerado em relação a um, dois ou aos seus três componentes ou correlatos. “Um Representamen é o Primeiro Correlato de uma relação triádica, o Segundo Correlato sendo chamado de seu Objeto, e o possível Terceiro Correlato, chamado de seu Interpretante, por cuja relação triádica o possível Interpretante é determinado como sendo o Primeiro Correlato da mesma relação triádica para o mesmo Objeto e para algum possível Interpretante.” (CP 2.242) Esses correlatos passam ainda por algumas subdivisões. O objeto se divide em objeto dinâmico e objeto imediato, e o interpretante, por sua vez, se divide em interpretante imediato, interpretante dinâmico, e interpretante final ou em si (in itself), conforme o diagrama do signo a seguir (SANTAELLA 1983:59): SIGNO Interpretante dinâmico (intérprete) Objeto Imediato Interpretante Imediato Fundamento Objeto dinâmico Interpretante final ou em si 28 Importante distinção que o diagrama do signo aponta é a de que nem todas as subdivisões dos correlatos do signo se encontram no signo propriamente dito. Como veremos mais adiante, o signo é formado internamente pelo seu fundamento, pelo objeto imediato, e pelo interpretante imediato, enquanto permanece inexoravelmente ligado, embora exteriormente, ao seu objeto dinâmico e aos interpretantes dinâmico e final. 2.1. Representamen Na irredutível relação triádica do signo, o representamen desempenha o lugar de um primeiro. Em algumas passagens dos textos peirceanos, ele também foi chamado simplesmente de signo, palavra que, então, passou a ter duas acepções: “Antes de tudo, deve-se levar em conta que a palavra signo pode ser tomada sob dois sentidos: um geral e um específico. (...) a palavra signo pode se referir tanto à relação triádica, signo-objeto-interpretante, quanto ao primeiro membro dessa relação. Algumas vezes, Peirce utilizou o termo representamen, no lugar de signo, para designar o primeiro membro da tríade.” (SANTAELLA 2001:191) Por representamen entende-se aquilo que funciona como signo para quem o percebe. É o signo considerado em relação a si mesmo, ao seu fundamento, ou seja, àquilo que o faz funcionar como signo, qualidade essa que somente poderá ser percebida por abstração, já que ela não aparece isoladamente, e sim, constitui-se num modo pelo qual o representamen substitui o objeto. “Tão somente por algum aspecto ou modo que lhe é próprio, o Representamen ficará no lugar do objeto. A esse aspecto ou modo, Peirce aqui denomina fundamento do representamen. Sendo o fundamento alguma qualidade do signo, somente será captada distintamente por via de abstração.” (SILVEIRA 2007: 31) Para Peirce, tudo pode ser signo, qualquer coisa pode funcionar como signo, sendo necessário, no entanto, identificar nessa potencialidade sígnica 29 dos fenômenos, o quê ou qual aspecto do representamen está funcionando como signo na semiose, ou seja, o seu fundamento. “Qualquer coisa que seja, pode ser um signo, isto é, pode funcionar nesse papel; mas para que faça isso, deve ter algum caráter em virtude do qual pode assim funcionar. Esse caráter é o que constitui o fundamento ou razão de sua capacidade para ser signo, embora ele não seja realmente um signo enquanto não for interpretado como tal.” (RANSDELL 1966:80 apud SANTAELLA 2000:21) 2.2. Objeto do signo Por objeto do signo entende-se aquilo que é representado pelo signo, aquilo no lugar do qual o signo está. “Um signo intenta representar, em parte (pelo menos), um objeto que é, portanto, num certo sentido, a causa ou determinante do signo, mesmo que o signo represente o objeto falsamente.” (CP 6.347) Sendo um segundo, do qual o representamen é um primeiro, o objeto se dividirá em: objeto dinâmico, aquele que determina o signo e permanece fora dele, ou ainda, aquilo que o signo substitui, e objeto imediato, que é o objeto interno ao signo, ou o modo como o objeto dinâmico está representado no signo. “Resta observar que normalmente há dois tipos de Objetos [...]. Isto é, temos de distinguir o Objeto Imediato, que é o Objeto tal como o próprio Signo o representa, e cujo Ser depende assim de sua representação no Signo, e o Objeto Dinâmico, que é a Realidade que, de alguma forma, realiza a atribuição do Signo à sua Representação.” (CP 4.536) O objeto dinâmico é o objeto em si próprio, a coisa em si, o existente, sendo que para Peirce, mesmo sonhos e coisas in abstracto são consideradas existentes. O objeto dinâmico é sempre multideterminado, permanecendo o signo sempre incompleto em relação a ele, já que não é possível capturá-lo em um único signo. No entanto, é ele que se impõe, conferindo aos signos que a ele se conformam em algum grau ou aspecto, 30 um valor de verdade, que nunca é absoluto, mas sempre passível de aperfeiçoamento. Mas é justamente essa incompletude do signo que determina uma semiose ad infinitum, na tentativa de sempre apreender e conhecer o objeto dinâmico com mais precisão. O objeto imediato funciona como mediação entre o signo e o objeto dinâmico, exterior a ele. É o objeto tal como está representado, ou ainda, aquele aspecto que o signo recorta do objeto dinâmico ao representá-lo. O objeto imediato está dentro do signo, no próprio signo. “O objeto dinâmico, portanto, tem autonomia, enquanto que o imediato só existe dentro do signo. Mas uma vez que não temos acesso ao objeto dinâmico a não ser pela mediação do signo, é o objeto imediato, de fato, aquele que está dentro do signo, que nos apresenta o objeto dinâmico. O objeto dinâmico, como o próprio nome diz, não cabe dentro de um só signo. Por isso mesmo pode ser representado de uma infinidade de maneiras, através dos mais diversos tipos de signos. (...) O objeto dinâmico é infinitamente determinado. Cada signo representa apenas algumas de suas determinações.” (SANTAELLA 1998: 48,49) 2.3. Interpretante O interpretante não pode ser confundido com o intérprete. Ele é o efeito que o signo está destinado a causar naquele ou naquilo que o interpreta. Também é preciso ressaltar que a teoria peirceana não é logocêntrica. Seu conceito de mente interpretadora, i.e., passível de sofrer a ação do signo, não se restringe à mente humana, sendo tão abrangente a ponto de Peirce considerar como dotados de mente científica, aquela capaz de aprender com a experiência, não somente animais e insetos, mas inclusive os cristais6. Como visto, é a incompletude do signo em relação a seu objeto que gera sempre um novo signo, ou seja, um novo interpretante, tornando o processo da semiose infinito. 6 “O pensamento não está necessariamente conexo a um cérebro. Ele aparece no trabalho das abelhas, dos cristais, e em meio ao mundo puramente físico; e ninguém mais pode duvidar que ele esteja realmente lá, tanto como estão as cores, as formas, etc. dos objetos. (...) Não somente o pensamento se encontra no mundo orgânico, mas nele se desenvolve.” (CP 4.551) 31 “Mas dizer que ele [signo] representa seu objeto implica que ele afete uma mente, de tal modo que, de certa maneira, determina, naquela mente, algo que é mediatamente devido ao objeto. Essa determinação da qual a causa imediata ou determinante é o signo e da qual a causa mediada é o objeto pode ser chamada de interpretante.” (CP 6.347) O interpretante é um terceiro determinado pelo signo, um primeiro, e por sua vez, se divide em imediato, dinâmico, e final. Embora existam diversas classificações e nomenclaturas para as subdivisões de interpretantes, esta primeira divisão é bastante elucidativa para a compreensão do conceito de signo, pois trata-se mais de diferentes graus ou níveis na geração do interpretante do que de diferentes tipos de interpretantes. “O segundo princípio de divisão do interpretante (...) está baseado na fenomenologia ou teoria das categorias, correspondendo à divisão triádica do interpretante em imediato (primeiridade), dinâmico (secundidade) e final (terceiridade). Esta divisão diz respeito aos níveis por que passa o interpretante até se converter em um outro signo, caminhando para o interpretante em si ou interpretante final. Esta divisão não corresponde, de modo algum, a três interpretantes, vistos como coisas separadas, mas, ao contrário, são graus ou níveis do interpretante, ou melhor, diferentes aspectos ou estágios na geração do interpretante.” (SANTAELLA 2000: 67) O interpretante imediato é o potencial interpretativo do signo independentemente do efeito que será produzido na mente do intérprete, sendo esse potencial do signo que torna possível sua interpretação. É a interpretabilidade do signo. O interpretante dinâmico é externo ao signo e refere-se ao efeito efetivo, singular, produzido em uma mente interpretadora (intérprete), dependendo desta para sua realização. Já o interpretante final, seria o resultado interpretativo último, caso o processo da semiose fosse levado até o fim, e corresponderia à coincidência total sempre adiada, entre interpretante e objeto dinâmico, anunciando um fim nunca alcançado da semiose e da mediação signo. Essa correspondência ideal equivaleria à revelação completa do real, o que é impossível, já que da verdade só podemos nos aproximar assintoticamente. 32 Com referência ao interpretante, este ainda pode dividir-se em emocional, energético e lógico. No interpretante emocional, o signo produz apenas uma qualidade de sentimento, sem produzir cognição. No interpretante energético, há um esforço envolvido, seja ele físico ou mental. No interpretante lógico, uma regra interpretativa vai comandar a associação de idéias para que o signo possa ser interpretado. Há dissensões sobre esta divisão, se ela seria aplicável aos três níveis de interpretante, ou se ficaria restrita somente ao interpretante dinâmico, ou se ela seria equivalente aos interpretantes imediato, dinâmico e lógico, respectivamente. “O primeiro efeito significado de um signo é o sentimento por ele provocado. Na maior parte das vezes existe um sentimento que interpretamos como prova de que compreendemos o efeito específico de um signo, embora a base da verdade neste caso seja freqüentemente muito leve. Este ‘Interpretante emocional’, como o denomino, pode importar em algo mais do que o sentimento de recognição; e, em alguns casos, é o único efeito significado que o signo produz (...) Se um signo produz ainda algum efeito desejado, fá-lo-á através da mediação de um interpretante emocional, e tal efeito envolverá sempre um esforço. Denomino-o ‘Interpretante energético’. O esforço pode ser muscular (...), mas é usualmente um exercer do mundo interior, um esforço mental. Não pode ser nunca o significado de um conceito intelectual, uma vez que é um ato singular (...) Mas que espécie de efeito pode ainda haver? (...) Vou denominá-lo ‘interpretante lógico’. (...) Devemos dizer que este efeito pode ser um pensamento, o que quer dizer, um signo mental? Sem dúvida pode sê-lo; só que se esse signo for de natureza intelectual - como teria de ser - tem de possuir um interpretante lógico; de forma que possa ser o derradeiro interpretante lógico do conceito.” (CP 5.475-76) Há ainda uma última subdivisão da qual trataremos quando abordarmos a terceira tricotomia da classificação dos signos, aquela que divide os interpretantes em rema, dicente e argumento. Também neste caso encontramos divergências7 de opinião, sendo essa subdivisão considerada aplicável ao interpretante lógico por alguns, e ao interpretante final, por outros. 7 Para uma abordagem detalhada das posições sustentadas por diversos autores em relação à teoria dos interpretantes de Peirce, ver SANTAELLA 2000: 61‐88. 33 3. CLASSIFICAÇÃO DOS SIGNOS Da principal classificação de signos elaborada por Peirce decorrem dez classes de signos a partir de três tricotomias. Essa classificação apresenta um considerável grau de complexidade na análise dos signos, podendo nos dar uma contribuição importante na análise da palavra escrita. A base desta classificação é o princípio de prescisão ou implicação que rege as categorias, aquele segundo o qual o primeiro prescinde do segundo e do terceiro, e o segundo do terceiro, sendo que todo terceiro implica o segundo e o primeiro. É também esse princípio lógico que vai mostrar porque, enquanto são possíveis 27 combinações sígnicas, somente 10 são válidas. “As relações de implicação mantidas entre as categorias nortearão todo o processo classificatório. A categoria da terceiridade, e tudo que por ela for caracterizado, implicará nas realizações que se fizerem na instância da categoria de secundidade, e essas, por sua vez, dependerão do que se der ao nível da categoria da primeiridade.” (SILVEIRA 2007:65) Observando detalhadamente esta classificação e justapondo-a ao diagrama do signo, é possível notar que ela se baseia no fundamento do signo e na relação deste com duas subdivisões de seus correlatos que permanecem fora do signo: o objeto dinâmico e o interpretante final. Para melhor compreendermos os elementos que a compõe, é oportuno descrever a natureza das três divisões de signos a partir das quais as classes são formadas. 3.1. As três tricotomias As dez classes de signos foram obtidas por Peirce pela combinação lógica das três categorias fenomenológicas (primeiridade, secundidade e terceiridade) com as três tricotomias estabelecidas pela consideração do signo em função de três aspectos: 34 1º) o signo em relação a si mesmo (fundamento ou representamen) 2º) a relação do signo com seu objeto dinâmico 3º) a relação do signo com o interpretante final Em cada um desses aspectos será possível observar a ação das categorias, o que resultará em três tricotomias de signos de acordo com as relações entre os correlatos do signo, conforme quadro8 a seguir: Categorias Representamen Objeto dinâmico Interpretante final (fundamento) (relação S-OD) (relação S- IF) 1º QUALISSIGNO ÍCONE (Hipoícones: REMA Imagem, Diagrama, Metáfora) 2º SINSIGNO ÍNDICE DICENTE 3º LEGISSIGNO SÍMBOLO ARGUMENTO 1ª tricotomia: o signo em relação a si mesmo A primeira tricotomia será formada pela consideração do signo em relação a si mesmo, ou ainda, pela ação das categorias sobre seu fundamento (ground). É o modo de apreensão do signo em si mesmo. No fundamento do signo, considerado um primeiro, operam as três categorias, havendo, a esse respeito, três tipos de signos: qualissignos, sinsignos e legissignos, que também receberam o nome de tones, tokens (ou réplicas) e types (tipos), respectivamente. Surge aqui a primeira tricotomia do signo. Nos qualissignos, são as meras qualidades que, apresentando-se à percepção, funcionam como signos. Aqui encontramos sons, cores, formas, entre outras formas de primeiridade, funcionando como representamina. “Um Qualissigno (por exemplo, o sentimento [feeling] de vermelho) é uma qualidade qualquer, na medida em que é um signo.” (CP 2.254) 8 Este quadro foi elaborado com base em SANTAELLA 1983:62. Foram feitas algumas modificações para adequá‐lo ao presente trabalho. 35 Já os sinsignos constituem-se por existentes, individuais e singulares que, na sua secundidade, funcionam como signos para quem os percebe. “... um sinsigno (onde a sílaba sin é tomada como significando ‘sendo uma única vez’, como em singular, em simples, no latim: semel) é uma coisa ou evento existente que é um signo.” (CP 2.245) Os legissignos, por sua vez, constituem-se de tipos gerais, hábitos, convenções e leis, entre outras formas de terceiridade, que funcionam como signos para aquele ou aquilo que os percebe “Um legissigno é uma lei que é um Signo. (…) Não é um objeto singular, mas um tipo geral que, há concordância a respeito, será significante.” (CP 2.246) 2ª tricotomia: a relação signo-objeto dinâmico Na determinação das dez principais classes de signos, é na relação entre o signo (S) seu objeto dinâmico (OD) que aparece a segunda tricotomia de signos, onde igualmente operam as três categorias fenomenológicas. Essa tricotomia, que relaciona o signo ao objeto representado, exterior a ele, e que divide os signos em ícones, índices e símbolos, é, provavelmente, a mais conhecida de Peirce, sendo ela uma das tricotomias que ficou mais claramente definida em sua extensa obra. Na passagem a seguir, fica evidente quão diferentes podem ser as representações de um mesmo e único objeto, e as diferentes relações que um signo pode manter com seu objeto dinâmico. “Esclareçamos: o signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma outra coisa diferente dele. Ora, o signo não é o objeto. Ele apenas está no lugar do objeto. Portanto, ele só pode representar esse objeto de um certo modo e numa certa capacidade. Por exemplo: a palavra casa, a pintura de uma casa, o desenho de uma casa, a fotografia de uma casa, o esboço de uma casa, um filme de uma casa, a planta baixa de uma casa, a maquete de uma casa, ou mesmo o seu olhar para uma casa, são todos signos do objeto casa. Não são a própria casa, nem a idéia geral que temos de uma casa. Substituem-na, apenas, cada um deles de um certo modo que depende da natureza do próprio signo. A natureza de uma fotografia não é a mesma de uma planta baixa.” (SANTAELLA 1983:58) 36 Um signo será um ícone quando ele partilhar de alguma das qualidades de seu objeto dinâmico, e a relação que com ele manterá será de semelhança (likeness). “Eu chamo um signo que está para alguma coisa simplesmente porque ele se assemelha a ela, um ícone. Ícones são tão completamente substituíveis pelos seus objetos que dificilmente são distinguidos deles.” (CP 3.362) Ícones puros, por pertencerem unicamente à categoria da primeiridade, são meras possibilidades. Assim, para existirem efetivamente, os ícones precisam encontrar sustentação no universo da experiência, passando a ser denominados hipoícones por Peirce (CP 2.276-277), e subdividindo-se em imagens (primeiridade), diagramas (secundidade) e metáforas (terceiridade). Estes já são signos genuinamente triádicos que representam seus objetos dinâmicos e que mantêm relações de semelhança com os objetos representados: semelhança na aparência, nas relações internas e no significado, respectivamente. Importante ressaltar que, como a lógica categorial determina, a terceiridade compreende a secundidade e esta, a primeiridade, levando a que metáforas encapsulem diagramas, e estes envolvam imagens. “As imagens propriamente ditas participam de simples qualidades ou Primeiras Primeiridades. Essa definição de imagem, à primeira vista enigmática, fica mais simples quando se traduz ‘primeiras primeiridades’ por similaridade na aparência. As imagens representam seus objetos porque apresentam similaridades ao nível de qualidade. (...) Os diagramas representam as relações - principalmente as relações diádicas ou relações assim consideradas - das partes de uma coisa, utilizando-se de relações análogas em suas próprias partes. Assim sendo, os diagramas representam por similaridade nas relações internas entre signo e objeto... As metáforas representam o caráter representativo de um signo, traçando-lhe um paralelismo com algo diverso (CP 2.277). É por isso que a metáfora faz um paralelo entre o caráter representativo do signo, isto é, seu significado, e algo diverso dele. (...) Pela lógica peirceana, no entanto, quando passamos da imagem para o diagrama, este embute aquela, assim como a metáfora 37 engloba, dentro de si, tanto o diagrama quanto a imagem.” (SANTAELLA e NÖTH 1999: 62) Os índices, por pertencerem à categoria da secundidade, estão numa relação de fato, existencial, com seus respectivos objetos. “O índice não afirma nada; ele somente diz ‘Lá!’ Ele toma conta de seus olhos, e os dirige para um objeto em particular, e lá ele pára.” (CP 3.361) O índice indica, aponta seu objeto dinâmico em função da conexão dinâmica que estabelece com ele. Índices são, dessa forma, necessários a toda forma de apresentação e representação para que estas se conformem a um particular. Um índice poderá ter como fundamento um sinsigno ou um legissigno. Os símbolos, por sua vez, estão relacionados a seus objetos em virtude uma lei, convenção ou hábito de associação, e funcionam em virtude dessa associação de idéias que produzem em razão de uma regra interpretativa já ter sido estabelecida a priori. “Essa mesma lógica de encapsulamento dos níveis mais simples pelo mais complexo também vai ocorrer nas relações entre ícone, índice e símbolo. É por isso que o símbolo não é senão uma síntese dos três níveis sígnicos: o icônico, o indicial e o simbólico.” (SANTAELLA e NÖTH 1999: 62) Há um exemplo bastante simples e elucidativo. Pensemos numa nuvem: se toda coisa pode ser signo, o que é uma nuvem, em termos semióticos? A melhor resposta é: depende. Depende do aspecto pelo qual a coisa está sendo tomada como signo. Se ficarmos olhando as nuvens e imaginando com o quê elas se parecem, elas estarão funcionando como ícones para nós. Já se observarmos as nuvens procurando indicações sobre se choverá esta tarde ou não, então elas estarão funcionando como índices. Mas para um físico, que conhece as leis de formação das nuvens, elas são símbolos. Assim fica claro como e porque qualquer coisa, ou ainda, como qualquer existente, pode funcionar como signo, inclusive como diversos tipos de signo, sem, no entanto, deixar de ser aquilo que é. 38 Ícones e índices não crescem em significado; o índice porque aponta para um objeto particular e nele se detém; e o ícone porque sua referencialidade é mera possibilidade em função de semelhanças qualitativas, e a ponte com o objeto dinâmico deverá ser sempre construída pela mente interpretadora no ato da interpretação. Já o símbolo é sempre maior do que a interpretação que se tem dele, pois ele é uma soma geral, um acúmulo de interpretantes, estando em contínuo crescimento, sendo suscetível também de mudanças. No entanto, assim como qualquer outro signo, não é capaz de esgotar o objeto dinâmico. “Um signo plenamente geral deverá ser um símbolo produzido por via argumentativa, por uma estrita necessidade lógica. Signos cujo interpretante é determinado por necessidade lógica crescem, indefinidamente, como o pensamento por sua própria virtude. São genuinamente capazes de se autoorganizarem sem qualquer limitação, representando, em constante crescimento e evolução, toda classe de fenômenos. Por esta razão, conferem a todo pensamento uma dimensão cósmica e assumem a forma de uma rede em infinita expansão.” (SILVEIRA 2007:45) Assim, ícones representam em função de uma relação de semelhança, sendo seu objeto e seu interpretante meras possibilidades, a serem estabelecidos pela mente interpretadora. Já o índice funciona em função de uma conexão dinâmica com seu objeto, sem a qual não subsistiria, podendo ter como interpretante tanto uma existência (secundidade) como uma possibilidade (terceiridade). Já o símbolo, signo genuinamente triádico, carrega em si a regra (lei ou hábito) segundo a qual ele será interpretado de determinada forma. 3ª tricotomia: a relação signo-interpretante final É na relação entre o signo e seu interpretante final (IF) que surge a terceira tricotomia. Essa relação pode ser entendida como a natureza da influência de um signo, que poderá ser de possibilidade (primeiridade), existência (secundidade) ou lei (terceiridade). Sob esse aspecto, um signo 39 poderá ser um rema, um dicente, ou um argumento, respectivamente, em função da categoria fenomenológica que predominar em cada relação. Um rema é uma mera possibilidade lógica, um termo, um signo de essência. Um dicente é uma proposição, um signo que diz algo da existência concreta de seu objeto. Um argumento pode ser exemplificado por um silogismo, duas premissas das quais segue uma conclusão. “Um Rema é um Signo que, para seu Interpretante, é um Signo de Possibilidade qualitativa, ou seja, entendido como representando tal e tal espécie de Objeto possível. Todo Rema fornecerá, talvez, alguma informação; mas não é interpretado como destinado a fazê-lo. Um Dicente é um Signo que, para seu Interpretante é Signo de existência concreta. Não pode, conseqüentemente, ser um ícone, porque este não fornece base para sua interpretação, como referindo-se a uma existência concreta. Um Dicisigno envolve, como parte dele e necessariamente um Rema para descrever o fato que se entende que indique. Trata-se, porém, de uma peculiar espécie de Rema; e embora seja essencial para o Dicisigno, de nenhuma forma o constitui. Um Argumento é um Signo que, para seu Interpretante é Signo de lei. Podemos dizer que um Rema é um signo que se entende representar seu objeto simplesmente em seus caracteres; que o Dicisigno é um signo que se entende representar seu objeto com referência à existência concreta; e que um Argumento é um Signo que se entende representar seu Objeto em seu caráter de Signo.” (CP 2.250-253) No tocante a essa relação signo-interpretante final, portanto, teremos, novamente, que o argumento (lei) incorporará o dicente (existência) e o rema (possibilidade), e o dicente envolverá somente o rema. Outro importante ponto a observar, é o de que a relação de interpretante nunca poderá ser mais “forte”, i.e., pertencer a uma categoria de ordem superior na escala categorial, do que a relação de objeto, e esta, por sua vez, não poderá ser superior à relação de representamen (SILVEIRA 2007: 62). 40 3.2. As dez classes de signos Nesta classificação, a combinação não é aleatória, pois as divisões e subdivisões do signo não são independentes; ela segue uma seqüência rigorosa baseada na lógica das categorias. Como conseqüência, temos apenas 10 classes principais de signos, e não 27 como decorreriam da combinação independente das subdivisões das tricotomias. Todas as demais combinações possíveis entre essas tríades inexistem por inconsistência lógica. Vale observar que essa classificação foi claramente elaborada e explicada por Peirce, o que a torna uma ferramenta extremamente útil para qualquer análise sígnica. A seguir, são apresentadas sucintamente as definições das dez classes de signos, resultantes da combinação das três tricotomias descritas. Esse detalhamento nos será útil tanto na análise da natureza semiótica da escrita, como também das transformações da escrita na hipermídia, pois nele observamos claramente a crescente complexificação dos signos na medida em que cada classe incorpora elementos das anteriores. I) Qualissigno icônico remático: é uma qualidade qualquer que funciona como signo, em virtude de alguma semelhança com o objeto denotado (CP 2.254). II) Sinsigno icônico remático: é qualquer objeto de experiência, ou seja, um existente, que determina a idéia de um objeto em função de alguma de suas qualidades, i.e., ele incorpora um qualissigno (CP 2.255). III) Sinsigno indicial remático: é qualquer objeto de experiência direta que direciona a atenção para um objeto pelo qual sua presença encontra sua causa. Envolve um sinsigno icônico (CP 2.256). IV) Sinsigno indicial dicente: qualquer objeto de experiência que, sendo realmente afetado pelo seu objeto, fornece informação no que diz respeito a ele. Envolve um sinsigno icônico para incorporar a informação e um sinsigno indicativo remático para indicar o objeto ao qual a informação se refere (CP 2.257). 41 V) Legissigno icônico remático: qualquer lei ou tipo que em cada uma de suas instâncias incorpora uma determinada qualidade que o torna capaz de suscitar idéias de objetos a ela semelhantes. Suas réplicas serão sinsignos icônicos de tipo especial (CP 2.258). VI) Legissigno indicial remático: também um tipo geral ou lei, que independentemente de como tenha sido estabelecido, requer que cada uma de suas instâncias seja de fato afetada por seu objeto de modo a chamar a atenção sobre esse mesmo objeto. Suas réplicas serão sinsignos indiciais de tipo especial, e para seu interpretante, ele funcionará como um legissigno icônico (CP 2.259). VII) Legissigno indicial dicente: é qualquer tipo geral ou lei que requer que cada uma de suas instâncias seja de fato afetada pelo seu objeto de maneira a fornecer informação definida a respeito desse mesmo objeto. Ele envolverá um legissigno icônico para significar tal informação e um legissigno indicial remático para denotar o sujeito dessa mesma informação. Suas réplicas serão sinsignos dicentes de tipo especial (CP 2.260). VIII) Legissigno simbólico remático: um tipo ou lei geral conexo a seu objeto por uma associação geral de idéias de modo a suscitar uma imagem na mente por ele afetada, imagem, que, em virtude de certos hábitos e disposições daquela mente, tende a produzir um conceito geral. Suas réplicas, sinsignos indiciais remáticos de tipo especial, serão interpretadas como instâncias daquele conceito. Seu interpretante o representará como um legissigno indicativo remático em algumas ocasiões, e em outras, como um legissigno icônico (CP 2.261). IX) Legissigno simbólico dicente: é uma proposição ordinária, um signo conexo ao seu objeto por uma associação de idéias gerais, atuando de forma semelhante a um símbolo remático, mas sendo a existência ou lei que ele evoca realmente conexa ao objeto que ele indica. O interpretante vê o símbolo dicente como um legissigno indicial dicente, que envolve um legissigno indicial remático e um legissigno icônico como vimos. Sua réplica é um sinsigno dicente de tipo especial (CP 2.262). 42 X) Legissigno simbólico argumentativo: ou simplesmente argumento, é um signo cujo objeto é geral, e cujo interpretante representa seu objeto como sendo um signo ulterior, em função da lei pela qual a passagem do conjunto das premissas envolvidas para o das conclusões tende para a verdade. Sua réplica será um sinsigno dicente (CP 2.263). Ele envolverá símbolos dicentes e símbolos remáticos. A seguir, apresentamos um quadro elaborado a partir dos exemplos que Peirce (CP 2.254-263) nos dá de cada uma das classes: Classe de signo Abreviatura Exemplo I Qualissigno icônico remático 111 um sentimento de vermelhidão II Sinsigno icônico remático 211 um diagrama individual III Sinsigno indicial remático 221 um grito espontâneo IV Sinsigno indicial dicente 222 um catavento V Legissigno icônico remático 311 um diagrama, abstraída sua individualidade VI Legissigno indicial remático 321 um pronome demonstrativo VII Legissigno indicial dicente 322 um pregão de rua 331 um nome (substantivo) comum VIII Legissigno simbólico remático IX Legissigno simbólico dicente 332 uma proposição X Legissigno simbólico argumentativo 333 um silogismo Dessa combinatória, temos que um qualissigno (111) só poderá ser icônico e remático; um sinsigno icônico (211) será necessariamente remático; e um legissigno icônico (311) também será sempre remático. Todo símbolo 43 (33_) será necessariamente um legissigno, e todo argumento (333), um legissigno simbólico. Essas relações merecem atenção detalhada. Todo qualissigno será necessariamente um ícone, uma vez que, tendo como fundamento uma pura possibilidade, somente poderá se relacionar ao seu objeto dinâmico também numa forma de primeiridade. Seu interpretante também pertencerá, necessariamente, ao domínio da primeira categoria. “Como a qualidade é, seja o que for, positivamente aquilo que é, só pode denotar um objeto em virtude de algum ingrediente comum com o objeto ou uma similaridade com ele; de tal modo que um Qualissigno é necessariamente um ícone. E mais ainda, uma vez que uma qualidade é uma mera possibilidade lógica, somente pode ser interpretada como um signo de essência, isto é, um Rema.” (CP 2.254) Já sinsignos são signos de existência, e serão necessários a todos os outros tipos de signo para que estes possam ser incorporados em algum existente, i.e., todo sinsigno incorporará qualidades (qualissignos), e toda réplica de outros signos será um sinsigno de tipo especial. A essa relação também foi dado o nome de type-token, em função da tríade legi-sinqualissigno ter sido chamada também de type-token-tone, respectivamente. Por seu representamen pertencer ao domínio da secundidade, a relação de um sinsigno com seu objeto poderá ser: indicial, quando apontar, através de uma conexão dinâmica, para aquilo que representa; ou meramente icônica, quando esta relação se restringir a uma mera associação entre atributos qualitativos. Quanto ao seu interpretante, também este não poderá ultrapassar a categoria do segundo, podendo ficar no nível dicente, oferecendo informações concretas sobre seu objeto, ou restringir-se ao nível conjectural, remático. Os legissignos, cujo representamen ou fundamento já pertence à categoria da terceiridade, implicarão em todas as realizações das categorias anteriores. Poderão, assim, manter uma relação com seu objeto dinâmico em qualquer um dos três níveis, icônico, indicial ou simbólico, sendo que neste último representará seu objeto por força de um sistema de signos no interior 44 do qual estará determinado o seu funcionamento. Respeitando-se o nível em que essa relação com o objeto se der, seu interpretante pertencerá: ao nível do primeiro (rema), para os legissignos icônicos e indiciais; e ao domínio do segundo (dicente), para legissignos simbólicos e indiciais; ficando o interpretante de terceiridade (argumento) restrito a legissignos simbólicos. Outro aspecto a destacar é a implicação entre as categorias, pela qual signos mais gerais implicam signos menos gerais, resultando em que o geral (terceiro) não pode prescindir do existente (segundo), e nem este do potencial (primeiro). Esse princípio categorial, que poderá ser melhor observado ao se estudar o processo semiósico, “permite que se perceba tanto na relação do Representamen, onde o primeiro correlato do signo é constituído, quanto na relação do Representamen para com o Objeto, segundo correlato do signo, de que modo o geral implica o existente e este, implica o potencial: o Legissigno implica Sinsignos e estes implicam Qualissignos; enquanto que, os Símbolos implicam Índices e Ícones a estes atribuíveis. (...) A classe dos Argumentos, constituída pelos interpretantes de lei implicam Dicentes como interpretantes de existência. Ambas as classes implicam, por sua vez, Remas, como interpretantes de potencialidade.” (SILVEIRA 1996: 47) 4. A SEMIOSE OU AÇÃO DO SIGNO Semiose significa processo sígnico ou ação do signo. Para Peirce, todo pensamento se dá em signos, portanto é através do estudo dos mecanismos sígnicos, através da teoria dos signos, ou semiótica entendida como lógica, que podemos compreender mais amplamente a percepção, a cognição e o raciocínio humanos. Como sempre, vale lembrar que os conceitos de mente e pensamento em Peirce não são logocêntricos, não se restringindo ao ser humano. No entanto, o presente trabalho foca especificamente aspectos da linguagem humana, para os quais as classificações sistemáticas de signos podem ser altamente elucidativas, desde que não sejam tomadas como um esqueleto rígido de definições estanques. As classificações de signos 45 “fornecem um padrão para análise sígnica compreensiva ao invés de funcionar como uma classificação estrito senso. Esse padrão inclui todos os aspectos epistemológicos e ontológicos do universo dos signos, o problema da referência, da realidade e ficção, a questão da objetividade, a análise lógica do significado, e o problema da verdade” (BUCZINSKA-GAREWICZ 1983:27 apud SANTAELLA 1992a: 55) Em se tratando da percepção e cognição humanas, é mister dizer que não temos acesso direto ao real, ao objeto dinâmico. Ele nos chega através da medi(ação) sígnica, em que o signo, sempre incompleto em relação a seu objeto (sendo por isso mesmo um signo), o representa parcialmente. A apreensão do objeto em si, se dá somente por meio do objeto imediato, que é o objeto semiótico tal como aparece na semiose, isto é, a maneira como o objeto dinâmico está representativamente presente nesse processo. Assim, o objeto, para nós sempre mediado, é aquele que pensamos ser, a coisa como representada até então, não obstante se nosso pensamento sobre ele é falso ou verdadeiro. Dessa forma, a semiose ininterrupta, contínua do universo, representará, através de signos, os objetos aos quais não temos acesso direto, mas que, no entanto, através do signo, se imporão para determinar interpretantes que se multiplicarão em novos signos, criando sempre na mente interpretadora outros signos, mais desenvolvidos ou não, do seu objeto. É nesse respeito que podemos concluir que o objeto imediato sempre levará em conta a possibilidade de erro, enquanto o objeto dinâmico será requerido para a concepção da verdade, sempre in futuro. “Semiose quer dizer ação do signo. A ação que é própria ao signo é a de determinar um interpretante, quer dizer, ação do signo é a ação de ser interpretado num outro signo, pois o interpretante tem sempre a natureza de um signo (mesmo que seja um signo rudimentar, um sentimento, por exemplo, ou uma percepção ou uma ação física ou mental).” (SANTAELLA 2001: 43) 46 4.1. Relações de implicação entre os signos A seguir, apresentamos as relações de implicação entre legissignos e sinsignos, bem como alguns aspectos da sintaxe entre as dez classes de signos, tendo parte delas sido apresentada com a descrição de cada classe sígnica. A relação de implicação entre legi e sinsignos é também chamada de instanciação ou de relação type-token. As instâncias de um tipo geral ou legissigno corresponderão às suas réplicas ou ocorrências, ou ainda, a sinsignos de tipo especial, que, por sua vez, incorporarão qualidades (qualissignos). “As réplicas dos Símbolos, como as de qualquer Legissigno, serão constituídas por existentes - Sinsignos, na linguagem peirceana - dotados de uma configuração tal que possam ser identificados para o exercício da função de indicar a presença daquele Legissigno. Exercerão, como também Peirce afirmava, o papel de ‘ocorrências’ (tokens) de um determinado ‘tipo’ (type). [CP 4.537 e CP 5.429]. A configuração distintiva das réplicas resultará do confronto de determinadas qualidades de que devem ser dotados aqueles Sinsignos. Estas qualidades, como potencialidades positivas necessárias para constituição de qualquer signo, estarão no início de todo processo semiótico. Qualidades que são signos, são denominadas por Peirce, Qualissignos.” (SILVEIRA 1996: 47) As relações entre as dez classes podem ser divididas em três grupos, dependendo se elas forem relações de envolvimento, de “instanciação” (“governar réplicas”), ou de interpretação (“seu interpretante representa-o como...”). Essas relações estão baseadas nas relações entre as três categorias, e descrevem como gerais (types) são instanciados num número indeterminado de singulares e existentes (tokens) e como suas qualidades (tones) são prescritas. “Pode-se dividir em três grupos as relações acima descritas: (i) ‘envolvimento’: 211>111, 221>211, 222>221, 222>211, 322>311, 322>321, 332>331, 332>321; (ii) ‘governar réplicas’: 311>211, 321>221, 322>222, 331>221, 332>222, 47 333>222; (iii) ‘seu interpretante representa-o como (...), e isso ele o é’ (compartilha da natureza): 321>311, 331>321, 331>311, 332>322.” (QUEIROZ 2004:97) Essas relações são acima indicadas de forma sucinta, usando-se os nomes das classes abreviadamente, e podem ser descritas, conforme Queiroz (2004:96) com base em Peirce (CP 2.254-263) como segue: - um qualissigno (111) só poderá ser observado ao ganhar corpo num existente, que será um sinsigno icônico (211) que o envolverá, e que por sua vez será envolvido por um sinsigno indicial remático (221). Um sinsigno indicial dicente (222) envolverá tanto um sinsigno icônico (211) como um sinsigno indicial remático (221); - um legissigno icônico (311) será replicado em sinsignos icônicos (211). Um legissigno indicial remático (321) será replicado em sinsignos indiciais remáticos (221); no entanto, será “em certa medida” para seu interpretante, um legissigno icônico (311). Um legissigno indicial dicente (322) envolverá um legissigno icônico (311) e um legissigno indicial remático (321), mas será replicado em sinsignos indiciais dicentes (222); - um símbolo remático (331) compartilha da natureza do legissigno indicial remático (321) e do legissigno icônico (311), e será replicado em sinsignos indiciais remáticos (221). Um símbolo dicente (332) atua como um símbolo remático (331), embora seja um legissigno indicial dicente (322) para seu interpretante; suas réplicas serão sinsignos indiciais dicentes (222). Argumentos (333) serão replicados em sinsignos indiciais dicentes (222). Outra relação entre as classes, sob um ponto de vista lógico, determina que “o discurso consiste de argumentos [333], compostos de proposições [332], e estas de termos gerais [331]” (MS 930:27 apud SANTAELLA 2001: 279) Para facilitar a compreensão e visualização de todas essas relações, elaboramos dois diagramas, nos quais é possível observá-las separadamente, e um esquema geral, em que todas são contempladas. No 48 primeiro, somente as diferentes relações de envolvimento e de instanciação são retratadas, representadas pelas setas tracejadas e pelas setas simples, respectivamente. Note-se que os sinsignos encontram-se dentro de uma esfera, demonstrando que somente eles têm existência concreta: No segundo diagrama, as relações de “interpretação” são mais claramente observadas, onde fica evidenciado que símbolos dicentes são interpretados como legissignos indiciais também dicentes, enquanto legissignos remáticos relacionam-se entre si na relação de interpretação. A seguir, apresentamos um quadro geral da semiose entre as dez classes de signos, elaborado parcialmente a partir do modelo de Marty (apud QUEIROZ 2004: 119), porém dando destaque às relações descritas por Peirce (CP 2.254-263). Note-se que foram incluídas as relações entre os argumentos (333) e os símbolos dicentes (332), e entre estes e os símbolos remáticos (331): 49 50 Capítulo 2 - MANIFESTAÇÕES SÍGNICAS DA PALAVRA “Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível que lhe deres: Trouxeste a chave?” Drummond de Andrade (1962: 187) 1. A PALAVRA: SIGNO LINGÜÍSTICO POR EXCELÊNCIA Para compreender as mudanças que hoje se operam na escrita em contextos hipermidiáticos, iniciaremos com uma análise das potencialidades e manifestações sígnicas da palavra. Especulações de todo tipo sobre a palavra têm estado presentes de diferentes formas ao longo da história do conhecimento, nas mais diversas épocas e ciências, a começar pela gramática tratada como parte da filosofia, passando por outros campos das humanidades, tendo recebido, no século XX, um tratamento específico dado pela lingüística, ciência iniciada por Saussure, que considerou o signo lingüístico arbitrário, ou seja, sem ligação necessária (no sentido filosófico) entre a imagem acústica e conceito. A etimologia de palavra9 vem de sua origem grega parabole, que significa “lançar ao lado de”, “ação de se desviar do caminho reto”, usada no sentido de comparação, aproximação, semelhança. Isso mostra como estamos sempre observando, conhecendo e tentando nos aproximar do real, do existente10, e que a possibilidade de uma maior e melhor adequação entre palavras e os objetos que elas designam é, portanto, uma busca humana constante. A diversidade das línguas e palavras é gigantesca; ao buscar 9 Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa. 51 transpor esse abismo entre os humanos e a realidade, produzimos uma miríade de signos e combinações lingüísticas, pelas quais se transformam e evoluem todas as línguas e seus correspondentes sistemas de escrita, e das quais somos, como diz Peirce, a própria “encarnação” “O homem denota qualquer objeto de sua atenção num momento dado. Conota o que conhece ou sente sobre o objeto e é também a encarnação desta forma ou espécie inteligível.” (CP 7.591) Mas o que vem a ser uma palavra? Embora a resposta pareça óbvia, ela demanda uma discussão sobre seu status na estrutura lingüística. Primeiramente, palavra é um termo vago, impreciso, difícil de ser definido de maneira a contemplar a diversidade de formas que ela incorpora na enorme variedade das línguas, mormente no que tange às suas diferenças no âmbito das línguas isolantes e aglutinantes11. “Palavras são as típicas unidades da Lexicologia e Lexicografia. Isso parece bastante óbvio, mas tem havido uma grande discussão acadêmica sobre o status da palavra na estrutura lingüística. Alguns lingüistas evitam o termo dando preferência ao morfema como a menor e mais básica unidade gramatical (...) ‘palavra’ é um termo altamente ambíguo e difícil de definir de uma forma válida para todas as línguas. Palavras são unidades no limite entre a morfologia e a sintaxe servindo a importantes funções como portadoras de informação tanto semântica como sintática, e como tais estão sujeitas à variação tipológica. Em algumas línguas, as palavras parecem ser mais claramente delimitadas e mais estáveis do que em outras.” (COULMAS 2003: 38) Dessa maneira, temos, inicialmente, a palavra definida como a típica unidade da lexicologia e lexicografia, como uma unidade portadora de informação tanto sintática quanto semântica, ou seja, a palavra é uma 11 Isolante, em lingüística, diz‐se da língua cujas palavras tendem a ser ou são sujeitas a poucas variações, ou seja, nelas não se podem distinguir o radical e os elementos gramaticais (as funções e as categorias são expressas por palavras autônomas, preposições ou partículas). O principal exemplo de língua isolante é o chinês. Aglutinante, em lingüística, diz‐se de ou língua cujo mecanismo predominante de formação de palavra é a aglutinação, e cujas palavras podem ser segmentadas numa série de morfemas que permanecem nitidamente distintos. (cf. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa) 52 unidade significativa e gramaticalmente autônoma, e apesar de existirem unidades mais básicas que a compõe, ela é a “menor unidade que pode sustentar-se sozinha”, dotada de mobilidade posicional sem com isso afetar a gramaticalidade da sentença em que está inserida. Vejamos: “Apesar dessas dificuldades, lexicologistas concordam mais ou menos nas unidades de sua pesquisa, embora eles possam diferir em alguns detalhes de como distinguir palavras de outras unidades lingüísticas. Palavras são significativas e são gramaticalmente autônomas. É verdade que há unidades semânticas abaixo do nível das palavras - por exemplo, raízes verbais nas línguas aglutinantes - bem como constituintes mínimos que consistem em mais de uma palavra - por exemplo, expressões como ‘round the bend’, em inglês, que significa ‘pirado’, maluco. Entretanto a palavra, tipicamente, é a menor unidade que pode sustentar-se sozinha como uma emissão completa, e que pode ser inserida, extraída, movida e disposta na sentença sem destruir sua gramaticalidade. Mobilidade posicional, portanto, é uma importante característica das palavras, que entre outras coisas, permite-lhes serem retiradas de contextos e dispostas em listas.” (COULMAS 2003: 39) Assim, as palavras são unidades lexicais, intuitivamente compreensíveis, porém difíceis de “capturar” numa definição, por situarem-se nos limites entre a morfologia e a sintaxe, e capazes de serem fixadas por signos visíveis nos quais ganham corpo. Elas constituem-se, assim, em “unidades analíticas da língua escrita”. “Importante o fato de que palavras são unidades dadas intuitivamente, mas difíceis de determinar. Uma vez fixadas por signos visíveis, elas adquirem uma existência corporal. Deve ser lembrado que antes de mais nada as palavras são unidades lexicais ou lemmata, isto é, unidades analíticas da língua escrita.” (COULMAS 2003: 39) Outro ponto sob o qual pode a unidade lexical ser observada é o ortográfico, ou mesmo, tipográfico: a palavra é uma unidade limitada por espaços na língua escrita. No entanto, esse critério também é bastante impreciso, uma vez que há questões concernentes à separação e à hifenização das palavras que precisam ser consideradas. O uso do hífen 53 varia bastante de uma língua para outra, mudando também no curso do tempo dentro do sistema de cada língua. “Claramente, não há nada universal sobre a separação de palavras. Em algumas línguas, mas não em outras as palavras escritas são unidades reconhecíveis de acordo com esse critério, e não é difícil encontrar exemplos de quão inconsistentemente ele é aplicado numa dada língua. Almost pareceria ser uma palavra ortográfica, all right são duas, e all-out não é nem uma nem outra. O espaçamento entre palavras, além disso, não é somente diferente em diferentes línguas, mas também contingente em função de desenvolvimentos históricos.” (COULMAS 2003: 39,40) Por todos esses fatores, é bastante difícil definir com precisão o que seja uma ‘palavra’. Para o estudo dos sistemas de escrita, é imperioso notar que ‘isso’, a que denominamos palavra, ou uma unidade claramente delimitada, é muito mais um produto desse mesmo sistema de escrita do que um pré-requisito para que ela seja grafada. Dessa forma, assumiremos, com Saussure, que ela é uma unidade que “atinge a mente”, um conceito, ou seja, que a palavra, como nos diz Pignatari (1979: 9), “é o signo lingüístico por natureza”, ou ainda, o signo lingüístico por excelência. “Para os propósitos presentes é apropriado trabalhar com uma simples e pragmática noção da palavra, porque onde palavras são reconhecidas na escrita isso não é o resultado de uma análise teórica da fala, mas uma interpretação. Nós assumiremos que a palavra é uma unidade ‘que atinge a mente’ no sentido em que Saussure aludiu, mas também assumiremos que seu status como uma unidade claramente delimitada de uma determinada língua é mais um resultado do que um pré-requisito da escrita.” (COULMAS 2003: 40) As palavras são signos, e para Peirce todo pensamento se dá em signos que são, na maior parte, “da mesma estrutura geral das palavras”, além de contar com outros signos necessários para “melhorar os defeitos das palavras”, constatando assim, a não suficiência dos símbolos, ou palavras de caráter eminentemente simbólico, para exprimir o pensamento: “... todo pensamento é conduzido em signos que são, na maioria, da mesma estrutura geral das palavras; aqueles que não são assim, são daquela 54 natureza de signos dos quais nós, aqui e ali, em nossas conversas com outros, necessitamos para melhorar os defeitos das palavras ou símbolos. Esses signos-pensamento não-simbólicos são de dois tipos: primeiro, figuras ou diagramas ou outras imagens (eu os chamo Ícones) tal como aqueles que tem que ser usados para explicar o significado das palavras; e segundo, signos mais ou menos análogos aos sintomas (eu os chamo Índices) dos quais as observações colaterais, pelas quais sabemos sobre o que um homem está falando, são exemplos. Os ícones ilustram principalmente a significação dos pensamentos-predicado, os índices as denotações dos pensamentos-sujeito. A substância dos pensamentos consiste dessas três espécies de ingredientes.” (CP 6.338) Essa constatação será esclarecedora quanto à riqueza das manifestações que as palavras podem e precisam assumir para cumprir suas funções representativas, sejam elas simbólicas, indexicais ou icônicas, e quanto a todas as transformações pelas quais ela passa na hipermídia. 1.1. A palavra multifacetada Apesar das dificuldades em estabelecer uma definição precisa do que seja uma palavra, como vimos, ela é o signo lingüístico por excelência. Uma das principais características de que ela é dotada é sua mobilidade posicional, o que permite considerá-la um signo, de certa forma, autônomo, não necessariamente inserido num texto: podemos encontrar palavras numa lista, por. ex., ou ainda escritas sobre uma caixa, indicando seu conteúdo. Ainda que as palavras estejam inseridas num texto, pode-se considerá-las em sua individualidade. Essa autonomia relativa das palavras sempre permitiu que elas se manifestassem de forma multifacetada, o que fica ainda mais evidenciado no contexto hipermidiático, em que elas aparecem de modo híbrido, renovado, na forma de links e hotwords, por exemplo (ver capítulo V), e que torna necessária uma análise minuciosa de suas manifestações sígnicas, o que, a 55 partir de agora, faremos por meio da aplicação da classificação peirceana dos signos aos signos lingüísticos. Nesta jornada que empreenderemos rumo a uma maior compreensão dos atributos sígnicos das palavras, é imperioso lembrar a lógica das categorias, pela qual cada uma delas está presente, indissociavelmente, em todo e qualquer fenômeno, tornando impossível criar classificações estanques. Um olhar plural faz-se, então, mister, para podermos enfocar o grau de proeminência de cada categoria em cada signo de forma enriquecedora para nossa compreensão e espírito investigativo. “As categorias peirceanas são onipresentes o que significa que um mesmo signo pode exibir uma pluralidade de faces ao mesmo tempo. Nessa medida as classificações devem funcionar como meios para iluminar essa pluralidade e não para fixar um signo dentro de uma distinção em detrimento das outras. (...) Assim como para ser signo, algo não precisa deixar de ser coisa, para ser um legissigno, um signo não precisa deixar de ser um sinsigno e um qualisigno. Ao contrário, não pode deixar de ser esses três aspectos ao mesmo tempo.” (SANTAELLA 2001: 53) E o próprio Peirce é quem enfatiza a talvez impossível precisão classificatória: “Constitui interessante problema dizer a que classe pertence um dado signo, pois que todas as circunstâncias do caso têm de merecer consideração. Contudo, raramente se exige grande precisão, pois que se alguém não situa o signo de modo adequado, pelo menos dele se aproximará, com facilidade, o suficiente para caracterizá-lo com vistas a qualquer objetivo ordinário de lógica.” (CP 2.265) Dessa forma, contando com a compreensão peirceana das dificuldades do caminho, examinaremos as facetas sígnicas da palavra. 56 2. A PALAVRA COMO LEGISSIGNO A linguagem verbal constitui-se num típico sistema de legissignos. No entanto, entre as dez principais classes sígnicas, há seis tipos de legissignos, todos pertencentes ao domínio da terceiridade em função do seu representamen ser uma lei, norma ou convenção, mas com possibilidades de relacionar-se ao seu objeto dinâmico de formas tanto simbólicas, quanto icônicas e indiciais. Como nos diz Santaella: “Para começar é preciso considerar que nem todo legi-signo é necessariamente simbólico, mas pode também ser indicial e icônico. O universo lingüístico, desde o nível fonológico até o discursivo está repleto deles.” (SANTAELLA 2001: 271) Esse é um dos objetivos do presente estudo: investigar as potencialidades sígnicas da palavra à luz das dez principais classes de signos idealizadas por Peirce, que permitirão esmiuçar o signo lingüístico, identificando nuanças que, de outra forma, passariam despercebidas. 2.1. Convenção: fundamento do legissigno Tomando a palavra como signo na acepção peirceana do termo, se considerada em relação ao seu representamen, em relação a si mesma, como signo, i.e., seu fundamento, ela é um legissigno. Um legissigno é uma lei, hábito ou convenção pela qual um signo será interpretado de determinada maneira. Essa classificação da palavra como convenção é a mais aceita, já que na própria lingüística ela é assim considerada. Mas o que precisa ficar evidenciado, e esse é o primeiro ponto importante que vai fundamentar as análises buscadas neste estudo, é que essa convencionalidade se refere ao seu fundamento, ao aspecto pela qual ela é tomada como signo. Desse modo, é possível dizer que, a palavra, embora nasça como legissigno, posto que nasce no interior do sistema da língua, não tem suas potencialidades sígnicas restritas à convenção. 57 A convencionalidade das palavras é requisito para a comunicação. O próprio Peirce, em seu conceito de mente, refere-se àquela mente que consiste de tudo aquilo que dever ser bem compreendido entre emissor e intérprete para que o signo cumpra sua função: “mente na qual as mentes do emissor e do intérprete têm de se fundir a fim de que qualquer comunicação possa ocorrer. Esta mente pode ser chamada de Comens. Ela consiste de tudo aquilo que, de saída, é e deve ser bem compreendido entre emissor e intérprete a fim de que o signo em questão cumpra sua função.” (SS 196,197) 2.2. Legissigno e objeto dinâmico Outro importante aspecto a ser considerado, que pode parecer mais controverso em função de toda a tradição saussureana, é o do objeto ao qual a palavra se refere. Lembrando que a lingüística não leva em conta o objeto referido (referente), sendo que para ela o signo lingüístico relaciona somente conceito (significado) e imagem acústica (significante) (CLG 81), a teoria peirceana tem uma contribuição importante a fazer no que tange à questão do objeto. Como vimos, para Peirce, o objeto do signo se divide em objeto dinâmico e objeto imediato, e o objeto dinâmico sempre determinará o signo visto que ele é sua causa (CP 4.531; 6.347). Na classificação peirceana dos signos, fica evidente que a palavra é sempre convencional12, e que essa convencionalidade refere-se ao fundamento da palavra como signo que ela é, fazendo dela, invariavelmente, um legissigno. Um legissigno, então, sendo uma lei ou convenção, poderá ser, na sua relação com o objeto dinâmico, um ícone, um índice ou um símbolo. Saussure não distinguiu essas nuances e considerou o signo lingüístico arbitrário como um todo. 12 Note‐se que Peirce usa a palavra convenção ao se referir aos símbolos, que são invariavelmente legissignos: “Pois símbolos fundam‐se tanto sobre hábitos, que são, é claro, gerais, ou sobre convenções ou acordos, que são igualmente gerais.” (SS 70; ver também SS 33). Saussure, por outro lado, também usa a palavra hábito: “... a idéia de que a língua seja um hábito” (CLG 221). 58 Então a palavra, por sua vez, dentro do sistema da língua, sendo invariavelmente um legissigno em relação ao seu fundamento, poderá apresentar-se sob diferentes aspectos na sua relação signo-objeto dinâmico, sem ficar restrita à sua função simbólica: “a [afirmação] de que a palavra é pura e simplesmente símbolo é decididamente equivocada.” (SANTAELLA e NÖTH 1999: 63) Essa variação, que não afeta seu caráter convencional, possibilitará à palavra, ao manifestar-se, que ela também o faça de formas icônicas e indiciais, além das formas simbólicas já amplamente reconhecidas. Dessa maneira, a palavra, nas suas manifestações sígnicas, poderá, dentro do espectro das dez classes de signos, ser um: - legissigno icônico, - legissigno indicial, ou - legissigno simbólico. A distinção de como a palavra se relaciona com seu objeto dinâmico é primordial para o melhor entendimento das mudanças pelas quais passa a palavra escrita nos suportes eletrônicos. Analisando suas manifestações simbólicas, indiciais e icônicas, bem como seus desmembramentos em imagens, diagramas e metáforas, teremos uma compreensão ampliada das relações sígnicas que a regem. 2.3. Objeto dinâmico, necessidade e a motivação da palavra O signo lingüístico foi considerado arbitrário13, não motivado, por Saussure, o que equivale a dizer que não há ligação necessária (no sentido filosófico) entre a imagem acústica e conceito, muito menos entre imagem acústica e o objeto do signo. 13 “... queremos dizer que o significante é imotivado, isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem nenhum laço natural na realidade” (CLG 83). 59 De fato, não há (e provavelmente nunca haverá) ligação14 necessária15 entre um objeto e um signo lingüístico, seja de que língua for. Por necessidade16 lógica entende-se uma relação onde uma causa sempre leva a determinado efeito. Este é o principal argumento daqueles que, como Saussure, postulam contra a motivação do signo lingüístico: não há nada que determine que um dado objeto receberá necessariamente tal denominação, sendo a própria diversidade das línguas a primeira e mais evidente prova de tal argumento (CLG 81,82). Mas a liberdade17 (filosoficamente, por livre entende-se aquilo que não sofre determinação) na criação de diferentes palavras (signos) designando um mesmo objeto, não impede que a palavra seja considerada motivada, uma vez que não se trata de liberdade, mas sim, da variedade dos aspectos passíveis de darem motivação ao surgimento de uma palavra. A palavra, ou melhor, a forma que ela assume, é fruto da percepção humana18, da captação, através do aparelho sensório, de diferentes aspectos de um determinado objeto, ou melhor, de um determinado existente. Como fruto da mediação sensória, ela é traduzida19 para a linguagem verbal a fim de que o humano possa expressar-se. Nesse momento, ao ser cunhada, a palavra visa a designar um determinado objeto, referindo-se a ele em função de um determinado aspecto que se faz mais premente naquele momento. Dessa maneira, a palavra se liga, por meio de uma das formas de relação signo-objeto dinâmico (iconicidade, indexicalidade, simbolicidade), a um dos aspectos do objeto, sendo impossível que uma palavra se ligue ao 14 “A língua , ao contrário, não está limitada por nada na escolha de seus meios, pois não se concebe o que nos impediria de associar uma idéia qualquer com uma seqüência qualquer de sons” (CLG 90). 15 “... não existem relações necessárias entre som e sentido” (CLG 220). 16 Necessário, em lógica e metafísica, falando de relações: 1)É dito necessário o encadeamento das causas e dos efeitos num sistema determinado; ou ainda, 2) é dita necessária a relação de um meio com um fim, de uma condição com um condicionado, se esse fim for atingido apenas por esse meio ou esse condicionado se puder realizar apenas sob essa condição (cf. LALANDE 1999: 726,727). 17 “Livre é o que não tem outro atrás de si determinando suas ações; (...) A liberdade só se manifesta na multiplicidade e na variedade incontrolada ...” (CP 1.302). 18 Cf. artigo “A palavra como mediação entre a percepção humana e o existente” (JUNGK: 2010). 19 Peirce nos dá um exemplo: “Substantivos comuns são primariamente (primitively) usados para denotar perceptos sensórios (sense‐percepts)...” (CP 2.353). 60 objeto que representa em todos os seus aspectos. Neste caso, ela teria que ser o próprio objeto, e não sua representação. Daí a diversidade das línguas, onde cada palavra nasce ligada somente a um dos aspectos do objeto representado, ligação essa que muitas vezes se enfraquece com o tempo, com a necessidade da convencionalidade, levando a uma aparente arbitrariedade do signo lingüístico20. Dito de outro modo, a palavra pode ser motivada em relação a seu objeto de formas icônicas e indiciais, não somente simbólicas, captando, em sua trama sígnica, um aspecto do seu objeto com mais evidência do que outros, sem deixar de ser um legissigno, ou seja, sem contrariar a natureza convencional que ela incorpora no interior do sistema da língua. “Porque símbolo é coisa viva, e isto, sem usar figura retórica. O corpo do símbolo muda lentamente, mas o significado cresce inevitavelmente, incorpora novos elementos e deita fora elementos antigos. (...) Cada símbolo é, em sua origem, ou imagem da idéia significada, ou reminiscência de ocorrência individual, pessoa ou coisa, ligada com seu significado, ou é metáfora.” (CP 2.222) 2.4. Onipresença e recursividade das categorias Existem dois aspectos fenomenológicos que corroboram a abordagem da palavra como legissigno icônico e indicial, além de simbólico: a onipresença e a recursividade das três categorias, o que faz com que os legissignos (terceiridade) possam relacionar-se aos seus respectivos objetos dinâmicos tanto em nível de primeiridade (icônicos), de secundidade (indiciais), como de terceiridade (simbólicos). Por onipresença devemos entender que não é possível encontrar uma categoria pura, isolada das outras. As três encontram-se sempre relacionadas, em maior ou menor grau, dentro de um fenômeno e, portanto, de um signo. Por isso, Peirce as chamou de categorias universais de toda e qualquer experiência e pensamento (SANTAELLA 1983: 29). 20 Esse argumento foi levantado e analisado com mais detalhes, sob o ponto de vista da psicanálise, em trabalho anterior, intitulado “Modelos de Sensibilidade” (JUNGK 2009). 61 Por outro lado, o princípio da recursividade das categorias, que podem ser utilizadas como “recursos formais diferenciadores”, nos diz que, dentro de cada signo, primeiridade, secundidade e terceiridade voltam sempre a operar repetidamente, “à maneira de uma caixa chinesa” (SANTAELLA 1992a: 122), o que também pode ser claramente observado no caso do ícone, que pertencendo predominantemente à categoria da primeiridade, subdivide-se em imagens (primeiridade), diagramas (secundidade) e metáforas (terceiridade). 2.5. Combinação de signos: necessidade lógica Outro aspecto importante, de natureza eminentemente cognitiva, é o da necessidade lógica, para a qual Peirce aponta com veemência, da combinação de signos ligados às três categorias: símbolos, índices e ícones. “Juntamente com a tese de que não há pensamento sem signos, ele [Peirce] também defendeu a tese de que não há pensamento, linguagem ou raciocínio que possa se desenvolver apenas por meio de símbolos, nem mesmo o raciocínio puramente matemático, dedutivo. Há sempre uma mistura de signos que é constitutiva de todo pensamento.” (SANTAELLA 2001:32) O motivo para essa necessária combinação de signos é que cada um deles serve para apresentar, perante a mente, ou seja, perante o pensamento, um tipo especifico de objeto que os outros não apresentam. “O próximo passo consiste em considerar porque os pensamentos devem tomar essas três diferentes formas. Observar-se-á que cada tipo de signo serve para trazer perante a mente objetos de diferentes tipos daqueles revelados pelas outras espécies de signos.” (CP 6.339) Para Peirce, um sistema de notação lógica, ou seja, uma linguagem, e, portanto, uma língua, deve empregar signos desses três tipos para que os raciocínios empreendidos possam ser completos. Nos símbolos, predominam relações de terceiridade, especialmente a de generalidade, pela qual eles 62 apontam para conceitos mais ou menos gerais e abstratos que precisam que uma conexão dinâmica com um existente venha a ser estabelecida a fim de que tenham poder referencial. Este poder lhes é conferido pelos índices, signos nos quais a relação com o objeto dinâmico é predominantemente uma secundidade. Por outro lado, os símbolos precisam, para ter poder de significação, de ícones que lhes forneçam seu conteúdo. “Eu tive dificuldades para tornar clara minha distinção entre ícones, índices e tokens21 [símbolos], a fim de enunciar esta proposição: num sistema perfeito de notação lógica, signos desses vários tipos devem todos ser empregados. Sem tokens não haveria generalidade nas declarações, por eles serem os únicos signos gerais, e generalidade é essencial ao raciocínio. (...) Mas somente tokens não estabelecem o tema de um discurso, que não pode, de fato, ser descrito em termos gerais; somente pode ser indicado. O mundo real não pode ser distinguido de um mundo imaginário por nenhuma descrição. Daí a necessidade de pronomes e índices, e quanto mais complicado for o assunto, maior é a necessidade deles. (...) Índices também são necessários para mostrar de que maneira outros signos estão conectados. Com esses dois tipos de signos somente, qualquer proposição pode ser expressa, mas não pode ser raciocinada, pois o raciocínio consiste na observação de que onde certas relações subsistem, certas outras são encontradas, e isso, portanto, requer a exposição das relações raciocinadas dentro de um ícone.” (CP 3.363) A partir disso, podemos compreender como, num discurso, os símbolos servem à generalidade e inteligibilidade do raciocínio; os índices exercem a função referencial e denotativa que lhes é própria, além de servirem como conectores entre outros tipos de signos; e finalmente como os ícones, sem os quais o discurso perderia qualquer poder de significação, contribuem para a compreensão da proposição expressa pelos símbolos e índices, fornecendo-lhes seu conteúdo. Peirce reforça o caráter indispensável da ação conjunta dessa tríade de signos para todo raciocínio: 21 Peirce usou diversos termos para denominar seus tipos sígnicos até chegar a uma nomenclatura um pouco mais definida. Na passagem citada, a palavra token foi usada como sinônimo de símbolo. Posteriormente, token é tomado como sinônimo de sinsigno, na equivalência entre as tríades qualissigno‐sinsigno‐legissigno e tone‐token‐type (ver capítulo I). 63 “Uma tríade muito importante é a seguinte: encontraram-se três espécies de signos que são absolutamente indispensáveis em todo raciocínio; a primeira é o signo diagramático ou ícone, a qual exibe uma semelhança ou analogia com o sujeito do discurso; a segunda é o índice que, semelhante a um pronome demonstrativo ou relativo, força a atenção sobre o objeto particular pretendido sem descrevê-lo; a terceira (ou símbolo) é o nome geral ou descrição que significa seu objeto por meio de uma associação de idéias ou conexão habitual entre o nome e o caráter significado.” (CP 1.369) Dessa forma, é possível inferir que, por meio de ícones, índices e símbolos, toda língua e seu correspondente sistema de escrita notam, denotam e conotam, sons e significados entretecidos numa sintaxe para expressar o que a mente humana é capaz de conhecer. “Instrutivamente, esses termos (ícone, índice, símbolo) e/ou seus equivalentes provisórios, são definidos em termos de denotação ou extensão e conotação ou compreensão. Assim, ícones (copies, likenesses) conotam sem denotar, índices (signs, mere signs, conventional signs) denotam sem conotar, e símbolos ou termos gerais denotam em virtude de conotar.” (BROCK 1997:560) Lembramos, mais uma vez, que entre as dez classes de signos, três são icônicas, quatro são indiciais e três são simbólicas, independentemente da natureza de seus representamina. 2.6. Legissignos indiciais Por motivos didáticos, começaremos pelos legissignos indiciais. Estes não são signos gerais, pois, embora sejam signos de lei em sua relação de representamen, sua relação com o objeto não é de natureza simbólica, e não representam, assim, nenhuma classe geral de objetos, o que não os impede de participarem de processos genuinamente semióticos, i.e., triádicos, que envolvam interpretantes. “As classes de signos... mostram que pode haver processos genuinamente semióticos não constituídos por signos gerais e, mais ainda, por signos convencionais. (...) Há signos lingüísticos, como são os pronomes 64 demonstrativos e os nomes próprios, que constituídos pelo código lingüístico, somente indicam os objetos que designam deles não produzindo um conceito geral.” (SILVEIRA 1996: 46) Os legissignos indiciais podem ser de dois tipos: dicentes ou remáticos. O rema é um interpretante lógico de possibilidade; as palavras de características indiciais pertencerão, portanto, a esta classe de legisssignos indiciais, embora, no seu uso efetivo, possam adquirir um caráter dicente22. Eles podem ser definidos como: “qualquer tipo ou lei geral, independentemente de como tenha sido estabelecido, que requer que cada uma de sua instâncias seja realmente afetada por seu objeto, de maneira tal a simplesmente atrair a atenção para aquele Objeto.” (CP 2.259) A caracterização do legissigno indicial remático é de extrema importância para toda a teoria da linguagem (SILVEIRA 2007: 104) em função de sua capacidade designativa ou referencial, já que dentro dos sistemas convencionais de signos, ele é o elemento indispensável para atribuir uma idéia ou representação geral a uma individualidade em função da insuficiência dos símbolos para designar sujeitos de atribuição e, conseqüentemente, produzir efeitos no universo da experiência. Conforme Silveira: “Sendo em sua constituição própria um tipo ou lei geral, (o legissigno indicial remático) integra o universo das demais representações, por mais gerais e abstratas que elas sejam. Contudo, em sua relação com o Objeto, faz com que suas ocorrências sofram efetiva ação do Objeto, ligando, portanto, as representações gerais à individualidade dos Objetos representados, efetivamente designando-os, chegando, em certos casos, a fisicamente apontá-los.” (SILVEIRA 2007:104) Peirce nos explica o funcionamento dessa capacidade designativa (referencial) dos legissignos indiciais remáticos, a necessidade que temos deles e sua importância para a clareza da mensagem: 22 Peirce dá o exemplo do legissigno indicial remático, a palavra aquele, que na expressão “Aquele é Farragut“ adquire um caráter dicente. (CP 2.265) 65 “Nenhuma questão de fato pode ser asseverada sem o uso de algum signo que sirva como índice. Se A diz a B: “Há um incêndio”, B perguntará? “Onde?” A partir do que A vê-se forçado a recorrer a um índice, mesmo que ele esteja fazendo referência a um lugar qualquer do universo real, passado e futuro. Caso contrário, ele apenas teria dito que existe uma idéia como a de fogo, que não veicularia informação alguma, pois a menos que já fosse conhecida, a palavra “fogo” seria ininteligível. Se A aponta o dedo na direção do fogo, seu dedo está dinamicamente conectado com o fogo, tal como se um alarme contra fogo auto-ativante (self-acting) o tivesse voltado nessa direção, ao mesmo tempo em que também força o olhar de B a virar-se nessa direção, sua atenção a debruçar-se sobre o fato, e sua compreensão a reconhecer que sua pergunta está sendo respondida.” (CP 2.305) Foi o próprio Peirce quem nos legou exemplos valiosos destes legissignos indiciais remáticos na linguagem verbal, tais como nomes próprios, pronomes demonstrativos (este, isto, isso, aquilo, etc.) e pronomes relativos (que, quem, cujo, etc.), que “são quase puros índices, porque eles denotam coisas sem descrevê-las” (CP 3.361). Peirce esclarece que os nomes próprios são produzidos por associação por contigüidade, pois são “palavras que denominam coisas, coisas essas que ele (o homem) identifica pela união de suas reações” (CP 4.157). Vejamos outros exemplos: “A par dessas orientações indiciais do que fazer para chegar ao objeto apontado, devem classificar-se aqueles pronomes a que importa chamar seletivos (ou quantificadores) por que informam a pessoa que ouve acerca de como deve ela escolher um dos objetos referidos; os gramáticos denominam esses pronomes utilizando a indefinida designação de pronomes indefinidos. Duas espécies desses pronomes são particularmente importantes em lógica, os seletivos universais, tais como quivis, quilibet, quisquam, ullus, nullus, nemo, quisque, uterque; em português, qualquer, cada, todos, nenhum, ninguém. Significam eles que o interlocutor tem liberdade de escolher o exemplo que lhe agrade, dentro dos limites expressos ou entendidos, e a asserção pretende aplicar-se a esse exemplo. A outra espécie logicamente importante inclui os seletivos particulares, quis, quispiam, nescio quis, aliquis, quidam; em português, algum, alguém, alguma coisa, um, certo, este ou aquele. 66 Relacionados com os pronomes acima referidos estão expressões tais como “todos menos um”, “um ou dois”, “uns poucos”, “quase todos”, etc. Além dos pronomes, devem ser qualificados os advérbios de lugar, de tempo, etc. Não muito diversas seriam expressões como “o primeiro”, “o último”, “o sétimo”, “dois terços de”, “milhares”, etc.” (CP 2.289) “Outras palavras indiciais são as preposições e as frases preposicionais, tais como ‘à direita (ou esquerda) de’. Direita e esquerda não podem ser identificadas por qualquer expressão geral. Outras preposições poderão, talvez, indicar relações passíveis de serem descritas, mas quando se referem, como acontece com maior freqüência do que se poderia supor, a uma situação relativa ao observado ou admitido como de conhecimento por experiência, lugar e atitude de quem fala, em relação à do ouvinte, então o elemento indicial se torna o elemento dominante.” (CP 2.290) Peirce discute, ainda, as “eficiências e ineficiências de cada tipo de signo”, e considera que os índices, impossibilitados de fornecer qualquer insight sobre a natureza dos objetos que eles designam, por outro lado, “fornecem uma certeza positiva acerca da realidade”, além da proximidade com seus objetos (CP 4.531). Por isso, a linguagem verbal precisa de índices dos mais variados tipos para se referir ao mundo real: “Nenhuma língua, tanto quanto eu saiba, tem qualquer forma particular de discurso capaz de mostrar que é do mundo real que se está falando. Mas isso não é necessário, visto que os tons e olhares são suficientes para mostrar quando o falante está sendo sério. Esses tons e olhares agem dinamicamente sobre o ouvinte, e fazem-no atentar para as realidades. São, portanto, índices do mundo real.” (CP 2.337) Não por acaso encontramos os índices desempenhando suas funções de conexão com a realidade nos traços supra-segmentais23 da fala e na comunicação gestual, não-verbal que a acompanha. “São ainda exemplos de índices muitos dos traços supra-segmentais da fala e boa parte da comunicação não-verbal que a acompanha. (...) Em razão disso é que a oralidade está sempre entremeada de traços indiciais, não23 Supra‐segmental, em lingüística, diz‐se dos fatos prosódicos que se superpõem à cadeia de fonemas segmentais, como o acento tônico, o tom, a duração e a entonação. Prosódia, por sua vez, é a parte da gramática tradicional que se dedica às características da emissão dos sons da fala, como o acento e a entoação. (Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa) 67 verbais, responsáveis pelas sinalizações que ligam o universo discursivo ao universo dos fatos, daquilo que está fora do discurso.” (SANTAELLA 2000: 126) 2.7. Legissignos simbólicos Os símbolos, lembrando que todo símbolo é um legissigno, se referem a seu objeto em virtude de sua relação representamen-objeto dinâmico que pertence à categoria da terceiridade, que envolve os conceitos de lei, norma, hábito e convenção. Devido à categoria da terceiridade ser aquela da generalidade, os símbolos representam seus objetos como constituindo uma classe geral, sendo os substantivos comuns, o exemplo mais usual de legissigno simbólico na linguagem verbal. “Os Símbolos,... só se referem ao Objeto que denotam, em virtude de uma lei e, freqüentemente, por força de uma convenção. Referem-se usualmente ao Objeto, atribuindo-lhe conjuntos de predicados e é somente devido a esta atribuição que atuam como signos do Objeto. Devido ao nível de generalização com que representam o Objeto, deverão os Símbolos representá-lo como constituindo uma classe geral. Para o cumprimento desta função, os Símbolos em sua própria constituição como signo, ou seja, no fundamento de sua relação de Representamen, necessitam ser um signo geral e compartilhar da natureza da lei. Devem ser, segundo a nomenclatura peirceana, um Legissigno. Assim procedem, aliás, os substantivos comuns, que lhe servem de exemplo.” (SILVEIRA 1996: 46) Assim, Peirce, esclarece que a palavra não tem existência em si mesma, embora tenha um “ser real” ao qual todas as suas manifestações, ou réplicas, deverão conformar-se. A palavra é um tipo geral de sucessão de sons (palavra falada), e ainda, um tipo geral de representamens de sons (palavra escrita) que se torna um signo em função de um hábito ou lei pela qual ela será interpretada de determinada forma, toda vez que ela se apresentar, seja para ser ouvida, ou para ser lida. “Falamos de escrever ou pronunciar a palavra “homem”, mas isso é apenas uma réplica ou materialização da palavra que é pronunciada ou escrita. A palavra, em si mesma, não tem existência, embora tenha ser real, 68 consistindo em que os existentes deverão se conformar a ela. É um tipo geral de sucessão de sons, ou representamens de sons, que só se torna um signo pela circunstância de que um hábito ou lei adquirida levam as réplicas, a que essa sucessão dá lugar, a serem interpretadas como significando um homem. Tanto as palavras quanto seus signos são regras gerais, mas a palavra isolada determina as qualidades de suas próprias réplicas.” (CP 2.292) Pode-se dizer, com muita parcimônia, é claro, que o ser real de uma palavra a que Peirce se refere, é algo que está acima de qualquer língua. Ele é, de certa forma, em certo sentido, e para alguns fins, um ser supralingüístico, não havendo diferença em qual língua encarna-se sua réplica. “Suponhamos que eu apague esta palavra ‘seis’ e escreva ‘Seis’. Não se tem aí uma segunda palavra, mas sim, a primeira novamente. Elas são idênticas. Ora, pode a identidade ser interrompida ou devemos dizer que a palavra existia, embora não estivesse escrita? Esta palavra ‘seis’ implica que duas vezes três é cinco mais um. Esta é uma verdade eterna, a verdade que sempre é e será verdade; e que seria verdade, embora não houvesse no universo seis coisas que pudessem ser contadas, dado que ainda seria verdadeiro que cinco mais um teriam sido duas vezes três. Ora, essa verdade É a palavra SEIS; se por seis entendemos não este traço de giz, mas aquilo em que concordam seis, six, sex, sechs, zes, sei.” (CP 7.593) Esse ser real pode ser comparado a uma idéia, um compósito de qualidades, real, isto é, sobre o qual não pode exercer nenhuma influência o pensamento. Essa idéia não se confunde com o conceito, que para Peirce, é um hábito formado pela ocorrência repetida de tal idéia associada à experiência de sua utilização. Para Ransdell, essa idéia que vem à mente quando estamos diante de uma palavra é “um conjunto antecipatório” ou gestalt resultante de uma mistura de dados perceptivos reais e imaginários (apud SANTAELLA 2001: 269). “Uma idéia, que pode grosseiramente ser comparada a uma fotografia composta, ganha vividez, e essa idéia composta pode ser chamada de idéia geral. Não é propriamente um conceito; porque o conceito não é, de modo algum uma idéia mas um hábito. Porém, a ocorrência repetida de uma idéia geral e a experiência de sua utilidade, resulta na formação de um hábito ou 69 fortalecimento daquele hábito que é o conceito; ou se o conceito já é um hábito cuidadosamente compacto, a idéia geral é a marca do hábito.” (CP 7.498). Vem daí a generalidade que é própria ao símbolo, e que nenhuma ocorrência interpretativa em um intérprete particular poderá esgotar. Vem daí também, a plasticidade do símbolo. Sua aptidão para a mudança, já que tais mudanças são produzidas quando ocorrem transformações no hábito interpretativo de um símbolo, pois as regras de interpretação, isto é, os interpretantes lógicos podem ser modificados (SANTAELLA 2001: 266). Por isso mesmo, o símbolo é um signo em crescimento nos interpretantes que ele gerará no longo caminho do tempo: “a característica ontolológica de mudança que diz respeito à estrutura do signo, se aplica apenas aos legissignos (aos quais pertencem todos os signos lingüísticos). Todos os outros signos, incluindo qualquer réplica de um legissigno, é incapaz de um crescimento de significado (embora nossa compreensão de sua significação possa continuar a crescer). (...) Mas os símbolos, os principais tipos de legissigno, crescem não só conceitualmente, bem como formalmente...” (SHAPIRO 1988: 124,125) Signos gerais implicam signos menos gerais para se constituírem, e o símbolo, na sua generalidade, conterá ícones para instanciar seu objeto na mente em que efetivar seu interpretante, e implicará índices, suas réplicas, como decorrência de se instanciar existencialmente. “O que é certo é que signos mais gerais implicam signos menos gerais e não se constituiriam sem assumi-los. É neste momento, que se torna possível compreender plenamente a exigência expressa por Peirce de que todo signo seja um Ícone ou nele o tenha contido. (...) O caráter geral do Símbolo, para inserir-se no universo da experiência ao qual pertence e somente no qual cabe-lhe atuar, exige, então, que ele próprio se concretize em réplicas e que o Objeto por ele denotado possa se instanciar existencialmente. Embora de um Símbolo, devido ao seu caráter essencialmente geral, só se possa exigir que a instanciação de seu Objeto se realize, diz Peirce, ‘no universo possivelmente imaginário ao qual o Símbolo se refere.’ [CP 2.249].” (SILVEIRA 1996: 46) 70 É por isso que o símbolo “é aplicável a tudo aquilo que possa concretizar a idéia relacionada com a palavra”, já que, por si mesmo, o símbolo “não identifica as coisas”. Peirce nos diz que ele, o símbolo, não é capaz de nos mostrar “um pássaro”, mas supõe que somos capazes de imaginar tais coisas, tendo a elas associados as palavras (CP 2.298). É esse universo imaginário ao qual o símbolo se refere. Com respeito ainda à generalidade do símbolo, existem dois tipos de generalidade, uma ligada à categoria da primeiridade e outra à categoria da terceiridade (RANSDELL apud SANTAELLA 2001: 267). A primeira pode ser considerada subjetiva ou entitativa, e está relacionada ao ícone; e a segunda, objetiva ou referencial, relacionada ao símbolo. O símbolo funciona então como síntese de todas essas dimensões, já que, como vimos, eles “denotam em virtude de conotar” (BROCK 1997:560). Santaella nos ensina com clareza: “Há, portanto, dois modos de generalidade: (1) objetiva ou referencial; e (2) subjetiva ou entitativa, esta subdividida em (2.1) qualitativa e (2.2) nômica. O sin-signo indicial é o único tipo de signo que está desprovido de generalidade. Ele sempre indica, aponta para individuais ou coleção de individuais. O ícone apresenta uma generalidade entitativa do tipo qualitativo. O símbolo, por sua vez, possui tanto a generalidade referencial, geral, quanto a entitativa do tipo nômico, isto é, a generalidade que pertence a necessidade condicional. Mas, uma vez que o símbolo contém dentro de si elementos de iconicidade e elementos de indicialidade, o símbolo funciona como síntese de todas essas dimensões. (...) Ao retomar as noções lógicas tradicionais de compreensão (profundidade) e extensão (aplicação), Peirce considerou-as como as duas propriedades semióticas do símbolo. O nome que deu a elas foi variado, tais como significação, conotação para a profundidade e denotação para a extensão. Enquanto a denotação, extensão ou aplicação, isto é, o poder aplicativo, referencial do símbolo corresponde ao seu ingrediente indicial, a significação, conotação ou profundidade corresponde ao seu ingrediente icônico” (SANTAELLA 2001: 268) Então, o símbolo denotará em função de seu ingrediente indicial, e conotará, isto é, significará por meio de seu componente icônico, que terá um 71 caráter especial dado estar atrelado ao símbolo. Como diz Pignatari (1979:9), “não se pode ter uma idéia (terceridade) isolada de sua forma (primeiridade)”. O símbolo, portanto, conterá um conceito, ingrediente simbólico24 que é um hábito, e uma idéia geral, ingrediente icônico, que é um compósito de qualidades. “Para ligar ‘o pensamento a uma experiência particular ou uma série de experiências conectadas por relações dinâmicas’ (CP 4.56), o símbolo precisa de índices. Assim, o poder de referência, poder indicativo do símbolo vem de seu ingrediente indicial. Entretanto, o índice está desprovido do poder de significar. Por isso mesmo, para significar, o símbolo precisa de um ícone. Nesse caso, não se trata de um ícone tout court, mas de um tipo especial de ícone, a saber, um ícone que está atado a um ingrediente simbólico. Esse ingrediente ou parte - símbolo, Peirce chamou conceito; a parte-ícone, ele chamou de idéia geral. Para Ransdell..., o conceito é o sentido e a idéia geral é a significação. A parte-símbolo, conceito ou sentido, corresponde ao hábito geral e não atualizado. A parte-ícone ou idéia geral é aquilo que atualiza o hábito produzindo a significação. É por isso que Peirce repetiu tantas vezes que o símbolo significa por meio de um hábito e de uma associação de idéias.” (SANTAELLA 2001: 268) Na linguagem verbal, isso se traduzirá em palavras produzidas em função de uma associação de idéias por semelhança, “palavras que significam ou querem dizer qualidades que são fotografias compostas de idéias de sentimentos, e tais palavras são verbos ou porções de verbos, tais como são os adjetivos, os substantivos comuns, etc.” (CP 4.157), e palavras constituídas por uma associação de idéias por contigüidade, das quais, como vimos, os nomes próprios são exemplo. Santaella nos explica como o conceito e a idéia geral funcionam quando o símbolo é uma palavra: “Como todos os símbolos, as palavras também contém o ingrediente propriamente simbólico do símbolo, a saber, o conceito ou hábito. Entretanto, Peirce afirmou que a palavra e o conceito são regras gerais. Há aí duas regras portanto. Para essa dualidade, Ransdell (IBID.: 187) fornece 24 Interessante notar que Peirce se refere especificamente àquelas palavras puramente simbólicas: “Ou ela [a palavra] pode ser puro símbolo, nem icônica, nem indicativa, como as palavras e, ou, de, etc.” (CP 4.447) 72 uma explicação muito clara. A regra, que é a palavra, é puramente intralingüística, ou seja, regra que determina as combinatórias permitidas e proibidas para a palavra no sistema da língua. Já a regra ou lei que é o sentido ou hábito é a regularidade do conceito. As línguas humanas relacionam, por meio de associações de idéias, as regras intralingüísticas com as regras do conceito. É por isso que o símbolo ‘homem’ ou símbolo ‘seis’ não são as palavras ‘homem’ e ‘seis’, mas sim o conceito de homem e seis nas suas manifestações de fato com as palavras ‘homem’, ‘homme’, ‘hombre’, ‘man’, etc. e com as palavras ‘seis’, ‘six’, ‘sechs’, ‘zes’, etc. As réplicas das palavras atualizam o conceito tanto na sua manifestação denotativa, aplicativa (índice) quanto na sua manifestação icônica. Como atualização do conceito que constitui o sentido do símbolo, o ícone é uma idéia geral que o símbolo produz ao se concretizar em uma réplica.” (SANTAELLA 2001: 269) Importante frisar, então, que cada palavra, conterá duas regras: a regra intralingüística, que determina sua sintaxe, isto é a forma como ela será utilizada dentro do sistema da língua; e a regra que é a regularidade do conceito, a regularidade da aplicação da idéia geral que ela comporta, e que constitui o sentido do símbolo; podemos mesmo acrescentar que a regra intralingüística se desdobrará em diversas regras: sintáticas, gramaticais, ortográficas, e até mesmo tipográficas, se tomarmos como exemplo que substantivos comuns em alemão devem ser grafados com inicial maiúscula. Mais importante ainda, é frisar que a linguagem verbal relaciona todas essas regras intralingüísticas com as regras do conceito. Silveira nos explica, uma vez mais, como essas três dimensões, icônica, indicial25 e simbólica, se apresentam no símbolo, denotando em função de elementos indicadores e conotando qualidades: “A associação de idéias gerais que o Símbolo representa, por constituir-se num atributo mais ou menos complexo da classe de objetos denotada, 25 “É por isso que, no universo do discurso, há vários tipos de palavras, entre elas, as gerais, estritamente simbólicas e as indiciais, como são os pronomes pessoais, demonstrativos, os advérbios de lugar etc. estas últimas se constituem no ingrediente indicial do símbolo, também chamadas de marcas enunciativas, cuja função é conectar o pensamento, o discurso, o signo geral a experiências particulares.” (SANTAELLA 2001: 267) 73 deverá implicar tais idéias sob a forma de ícones, ou qualidades gerais atribuíveis a objetos as podendo possuir. Devem também conter, elementos indicadores, - Índices, para Peirce - que designem o lugar de sua ligação com o objeto, sujeito da atribuição.” (SILVEIRA 1996: 47) Essas três dimensões se encadeiam num crescente de significado, que Peirce, em sua Ética da Terminologia (CP 2.219-224), evidencia textualmente. Por essa progressão é que signos em que predominam primeiridade e secundidade chegam a transformar-se em símbolos, em cuja origem encontram-se, conseqüentemente, ou relações de semelhança com o objeto significado (relações icônicas), ou a conexão dinâmica com a ocorrência individual (relações indexicais) à qual o signo encontrava-se primeiramente ligado. Reiteramos esta passagem seminal: “Porque símbolo é coisa viva, e isto, sem usar figura retórica. O corpo do símbolo muda lentamente, mas o significado cresce inevitavelmente, incorpora novos elementos e deita fora elementos antigos. (...) Cada símbolo é, em sua origem, ou imagem da idéia significada, ou reminiscência da ocorrência individual, pessoa ou coisa, ligada com seu significado, ou é metáfora. Termos da primeira e terceira origens serão inevitavelmente aplicados a concepções diversas ...” (CP 2.222) Nesse crescente, os símbolos se expandem, se desenvolvem26 a partir também de outros símbolos, de seus conceitos, e como conseqüência, seu significado se amplia. É o que acontece com as palavras: “Os símbolos se expandem. Surgem por desenvolvimento a partir de outros signos, especialmente a partir de ícones ou de signos mistos que participam da natureza de ícones e de símbolos. Só pensamos através de signos. Os signos mentais são de natureza mista; as partes-símbolo são chamadas conceitos. Se um homem cria novo símbolo, ele o faz por via de pensamentos que envolvem conceitos. Assim, só a partir de símbolos é que um novo símbolo se pode desenvolver. Omne symbolum de symbolo. Uma 26 Em outra passagem, Peirce mostra como, no desenrolar da evolução da linguagem humana, esses aspectos icônicos e indiciais vão sendo obliterados pela simbolicidade dos signos: “Se os sons foram, originalmente, em parte icônicos, em parte indiciais, esses caracteres há muito tempo perderam sua importância. As palavras apenas representam os objetos que representam, e significam as qualidades que significam, porque vão determinar, na mente do ouvinte, signos correspondentes.” (CP 2.92) 74 vez existente, o símbolo dissemina-se. Por meio do uso e da experiência, seu significado se amplia. Palavras como ‘força’, ‘lei’, ‘riqueza’, ‘casamento’, tem, para nós, significado muito diverso do que tinham para nossos ancestrais...” (CP 2.302) Então fica claro como a formulação da parte-conceito de um símbolo precisa de ícones, que Peirce diz que muitas vezes passam despercebidos, mas cuja influência é “viva”, e pela qual, pode-se dizer, se forma em nossas mentes o sistema conceitual que é a linguagem verbal: “Um conceito não é apenas uma mistura de particulares - esta é apenas a sua forma mais crua. Um conceito é a influência viva que exerce sobre nós um diagrama, ou ícone, com cujas diversas partes um número igual de sentimentos e idéias se une no pensamento para formar sistemas. Mas o ícone nem sempre é claramente apreendido. Podemos não saber sequer o que ele seja; ou podemos tê-lo apreendido por observação da natureza.” (CP 7.467) 2.8. Legissignos icônicos Se as representações gerais ou símbolos dizem respeito à inteligibilidade dos fenômenos, sendo nisso insubstituíveis, além da capacidade referencial do discurso fornecida pelos índices, será a necessária significação advinda dos signos icônicos. “O raciocínio deve estar relacionado com as formas que são os principais objetos do insight racional. Por isso mesmo, ícones são especialmente requisitados para o raciocínio.” (CP 4.531) Já vimos como a iconicidade está presente em todo símbolo por meio da idéia que ela envolve; mas ela se manifesta de muitas outras maneiras na linguagem verbal, nas quais a forma como a iconicidade aparece pode ser considerada até mais aparente. Segundo Nöth (1995: 98) há, basicamente, dois tipos de iconicidade na língua: exofórica, que se refere à similaridade entre a linguagem e aquilo que está fora dela, pois aqui “o representamen lingüístico possui, a princípio, 75 um correlato no mundo não lingüístico”; e endofórica, que diz respeito a segmentos lingüísticos que se assemelham a outros segmentos lingüísticos precedentes, ou seja, “nas estruturas que não se referem ao mundo externo, mas ao mundo do próprio discurso”. “Iconicidade do tipo endofórico é, desse modo, referência icônica a outros lugares dentro de um mesmo texto. Tal referência é a base do princípio da recorrência da linguagem. Repetições, paralelismos, rimas, aliterações e outras formas de reiteração de unidades equivalentes num mesmo texto são formas de iconicidade endofórica. A base semiótica da poeticidade, que Jakobson localiza no princípio da recorrência, é portanto, uma relação de iconicidade endofórica.” (NÖTH 1995: 98) A iconicidade endofórica, além de intratextual, pode ser intertextual, quando identificamos padrões num texto que se referem a “padrões de semelhança em outros textos: citações, alusões, e outras relações intertextuais...” (NÖTH 1999: 614). Também podemos encontrar exemplos de iconicidade endofórica no interior do sistema da língua, que são principalmente de tipo diagramático, como, por exemplo, aquelas encontradas nos sufixos de superlativos (NÖTH 1999: 614), já que se pode considerar o sistema da língua como constituindo “um ícone diagramático, um sistema de padrões estruturais e relações entre forma e conteúdo” (NÖTH 1999: 615). Já no caso da iconicidade exofórica, similaridade entre o signo lingüístico e aquilo que está fora dele, temos como um primeiro exemplo de legissignos icônicos, as onomatopéias e as palavras delas derivadas, que podem ser interpretadas como “ícones de seus objetos (modelos icônicos de seus objetos)” (QUEIROZ 2007:155), por serem signos que compartilham propriedades qualitativas (fonéticas) com seus objetos. “Na categoria de ícones que participam das qualidades simples dos objetos, temos em substância, as palavras onomatopéicas: murmúrios, sussurro, chiado ou bum são exemplos de palavras que participam das qualidades acústicas dos seus objetos.” (NÖTH 1995: 97) 76 No entanto, na busca da compreensão dos legissignos icônicos, é necessário lembrar que o conceito de ícone se desdobra em imagem, diagrama e metáfora, e que, “... para Peirce, nem todos os signos icônicos são imagens visuais, podendo englobar formas acústicas, táteis, olfativas, formas conceituais de semelhança, ou podendo englobar, com a noção de ícone puro, até mesmo as quase-formas mentais em estado de gestação.” (SANTAELLA 2001:188) Assim, quando falamos de onomatopéias, estamos considerando um legissigno icônico somente no que diz respeito a uma imagem acústica. Outra fonte de iconicidade da palavra é a etimologia, pela qual se estuda o seu étimo, sua origem. Ela não nos dá o significado27 de uma palavra, mas nos mostra, em muitos casos, o objeto imediato do signo lingüístico, isto é, o objeto dinâmico como ele está, ou como foi inicialmente, representado em determinada palavra. São exemplos28 as palavras hipopótamo, cuja etimologia significa “cavalo de rio”, mas que muito bem poderia ter sido representado como cavalo grande, gordo, cinza, ou por qualquer uma de suas outras qualidades; como verdura, pela cor verde dos vegetais; ou mesmo em palavras compostas, como cavalo-marinho, que não é um mamífero e sim um peixe, mas cuja cabeça tem um formato similar à cabeça de um cavalo. A iconicidade dessas palavras pode ser considerada imagética, afinal, o hipopótamo é geralmente visto sob a água, e a cor e a forma são visualmente perceptíveis. Em outros casos, como a palavra centeio, que vem do número cem, devido à crença de que a planta produzia cem grãos por semente, e a palavra centopéia, que significa ‘que tem cem pés’, pode-se considerar a 27 Peirce diz: “a história das palavras, não sua etimologia, é a chave para seus significados” (SS 79). Lady Welby, ao se referir à etimologia da palavra holliness (wholle‐ness), ressalta: “Como em muitos casos semelhantes, nós aqui tristemente perdemos uma lição psicológica na derivação rastreável, geralmente curiosa de um termo recente.” (SS 178) 28 Cf. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa. Para uma abordagem das palavras como modelos de seus objetos, ver JUNGK: 2009. 77 iconicidade do tipo diagramática, já que no caso de centeio, a etimologia expressa uma relação entre uma característica da planta e um número, o mesmo acontecendo com a quantidade de pés da centopéia. Existe uma miríade de palavras baseadas em números que buscam expressar atributos quantitativos dos objetos que representam. Pode parecer discutível a afirmação dessas palavras como ícones diagramáticos de seus objetos, no entanto, também parece difícil considerá-la uma iconicidade imagética ou metafórica. Tampouco se trata de uma relação puramente simbólica, e muito menos de indexicalidade. É, sem dúvida, uma relação entre qualidades do objeto dinâmico e do signo que o representa. Peirce procurou mostrar a natureza mental desse tipo de ícone, que é indicado por signos simbólicos, exemplificando-o com um sistema de equações algébricas. Ele afirma: “Quando, em álgebra, escrevemos equações, compondo um sistema, e especialmente quando usamos letras semelhantes para traduzir coeficientes correspondentes, o sistema é um ícone. Eis um exemplo: a1 x + b 1 y = n 1 a2 x + b 2 y = n 2 Isso é um ícone no sentido de que faz parecerem semelhantes quantidades que mantêm relações análogas para com o problema. Em verdade, toda equação algébrica é um ícone, na medida em que exibe, por meio de signos algébricos (que em si mesmos não são ícones), as relações das quantidades em causa. Serem todos os ícones semelhanças ou não é algo discutível. Por exemplo, se um ébrio é apontado (exhibited) para mostrar, por contraste, a excelência da temperança, temos certamente um ícone, mas pode-se duvidar se se trata ou não de uma semelhança. A questão parece até certo ponto sem importância.” (CP 2.282) Os ícones de tipo algébrico, e, portanto, diagramático, mesmo que de forma simples, quase rudimentar, poderíamos dizer, existem, são exibidos 78 em todas as proposições gramaticais ordinárias. Para Peirce, eles são ícones lógicos do tipo dos que podem ser auxiliados pelas regras convencionais: “O fato de os ícones de tipo algébrico, embora geralmente muito simples, existirem em todas as proposições gramaticais ordinárias é uma das verdades filosóficas trazidas à luz pela lógica booleana. Em todas as escritas primitivas, tal como os hieróglifos egípcios, há ícones de tipo não lógico, os ideógrafos. Nas primeiras manifestações da comunicação verbal houve provavelmente amplo elemento de imitação. Todavia, em todas as línguas conhecidas essas representações foram substituídas por signos auditivos convencionais. Estes, contudo, são tais que só podem ser explicados por meio de ícones. Na sintaxe de todas as línguas há, porém, ícones lógicos do tipo dos que podem ser auxiliados pelas regras convencionais.” (CP 2.280) Um exemplo de ícone diagramático propriamente lingüístico é a palavra quiasmo, que significa “a disposição cruzada da ordem das partes simétricas de duas frases, de modo que formem uma antítese ou um paralelo” (p.ex.: vou sempre ao cinema, ao teatro não vou nunca; meu filho abraçou-me carinhosamente, carinhosamente o abracei). Sua etimologia vem do grego khiasmós, que por sua vez significa 'disposição em cruz, em forma da letra grega khi (X)’. Temos de considerar, ainda, que um legissigno icônico poderá ser do tipo metafórico. Nesse sentido, encontramos ainda um enorme conjunto de palavras cujo “sentido figurado” não passa de seu uso metafórico, isto é, icônico. São exemplos as palavras: solução (de um problema), que originariamente significa “o efeito de solver”; chave (de um enigma), etc., lembrando que toda metáfora compreende um diagrama e uma imagem encapsuladas dentro de si. Peirce demonstra o quanto as metáforas participam da criação de uma linguagem, já que além de certas preposições elencáveis, todo o restante de uma linguagem fica por conta delas: “Se um lógico tivesse que construir uma linguagem de novo... diria naturalmente: necessitarei de preposições para expressar as relações temporais ‘antes’, ‘depois’, e ‘ao mesmo tempo que’; necessitarei 79 preposições para expressar relações espaciais ‘contigüidade’, ‘inclusão’, ‘justaposição’, ‘no âmbito de’, ‘próximo de’, ‘distante de’, ‘à direita de’, ‘à esquerda de’, ‘acima de’, ‘abaixo de’, ‘antes de’, ‘atrás de’; e necessitarei de preposições para expressar movimentos, no sentido ou a partir dessas situações. Quanto ao resto, posso fazê-lo com metáforas.” (CP 2.290) Essa iconicidade metafórica tendo sido, desde sempre, explorada por poetas e artistas, é fonte tanto de riqueza expressiva da língua, quanto de significação para o símbolo. “... há imagens alegóricas que figuram simbolicamente aquilo que denotam. Assim, também há necessariamente imagem no símbolo, pois sem a imagem, o símbolo não poderia significar.” (SANTELLA e NÖTH 1999: 63) 3. A PALAVRA COMO SINSIGNO Todo signo precisa estar encarnado num existente. Sendo os legissignos leis gerais, hábitos ou convenções, nenhum deles terá, por si só, existência concreta, e, portanto, só tomarão corpo através de existentes, denominados réplicas ou sinsignos de tipo especial por Peirce. Sendo signos em que predomina a categoria da secundidade, os sinsignos poderão ser de dois tipos quanto à relação com seu objeto dinâmico: sinsignos icônicos e sinsignos indiciais. Em relação ao seu interpretante final, sinsignos icônicos serão sempre remáticos, enquanto os sinsignos indiciais poderão ser dicentes ou remáticos. Os três poderão funcionar como réplicas de legissignos, conformados às leis que os regerem em cada ocorrência específica (ver capítulo I). No caso das palavras, lembrando que a tricotomia quali-sin-legissigno também foi denominada tone-token-type em algumas passagens, Peirce nos dá um exemplo claro de como um legissigno toma corpo em réplicas (sinsignos): 80 “Haverá, de ordinário, por volta de vinte ‘the’ em uma página, e naturalmente eles contam como vinte palavras. Em um outro sentido da palavra ‘palavra’, contudo, há somente uma palavra ‘the’ na língua inglesa; e é impossível que esta palavra estivesse visivelmente em uma página ou fosse ouvida em uma fala, pois não é ela uma coisa ou um acontecimento particular. Ela não existe; ela somente determina coisas que efetivamente existem. A uma tal Forma definitivamente significante, proponho que se denomine um Tipo [Type]. Uma acontecimento particular que acontece uma vez e cuja identidade se limita àquele acontecimento ou um objeto particular ou coisa que se encontra em um determinado lugar em algum instante do tempo, um tal acontecimento ou coisa sendo significante somente enquanto ocorre, quando e onde ocorrer, me aventurarei a denominar Ocorrência [Token]. Um caráter significante indefinido tal como o tom de uma voz não poderá ser denominado Tipo ou Ocorrência. Proponho denominar um tal Signo, Tom [Tone]. A fim de que um Tipo possa ser usado, deve ser ele corporificado em uma Ocorrência que será um signo do Tipo, e através disso do objeto que o Tipo significa. Proponho denominar tal Ocorrência de um Tipo, uma Instância do Tipo. Desse modo, pode haver vinte Instâncias do tipo ‘the’ em uma página...” (CP 4.537) Dessa forma, a palavra será tanto legi quanto sinsigno, dependendo da instância em que for considerada. No interior do sistema da língua, ela será sempre um legissigno, uma lei que regerá as formas de seu uso e de suas combinações com os demais componentes do sistema. Mas ao ser efetivamente utilizada, ela o será através de uma réplica, que se constituirá num singular, único e concreto a cada vez que ela for pronunciada ou escrita. Peirce é bastante claro a esse respeito: “Um legissigno é uma lei que é um Signo. Essa lei é geralmente estabelecida pelo homem. Todo signo convencional é um legissigno (porém o inverso não é verdadeiro). Ele não é um objeto singular, mas um tipo geral que, há concordância a respeito, será significante. Todo legissigno ganha significado por meio de um caso de sua aplicação, que pode ser denominado Réplica. Assim, “the” (em inglês) comumente aparecerá de 15 a 25 vezes numa página. Em todas essas ocorrências é uma e a mesma palavra, o mesmo legissigno. Cada instância singular sua é uma Réplica. A Réplica é um sinsigno. Dessa forma todo legissigno requer sinsignos. Todavia, esses não 81 são sinsignos ordinários, uma vez que são ocorrências peculiares, encaradas como revestidas de significação. Nem a Réplica seria revestida de significação, não fosse a lei que lhe confere significação. ” (CP 2.246) No exemplo de um substantivo comum, numa ocorrência determinada, ele se fará acompanhar por um pronome demonstrativo, ou mesmo por um artigo definido, que funcionará como um indicador de um caso particular da lei geral. “Tomemos, por exemplo, uma palavra, do tipo substantivo comum, qualquer substantivo comum, digamos, ‘estrela’, o objeto dessa palavra não é uma estrela que vejo, aqui e agora, neste céu ao escurecer. É claro que esta estrela, aqui e agora, pode ser referida pela palavra ‘estrela’, mas, para isso, temos de colocar um pronome demonstrativo antes da palavra ‘estrela’. É esse demonstrativo que tem o poder neste momento determinado. Sem o pronome, que funciona como indicador, a palavra ‘estrela’ não pode se referir a uma estrela particular, mas a um tipo de coisa, isto é, algo que tem um caráter tão geral quanto o da própria palavra. Do mesmo modo, o efeito interpretativo, ou interpretante, que a palavra ‘estrela’ produz, é tão geral quanto ela mesma, ou seja, é um outro símbolo. Se alguém lhe perguntar o que é uma estrela, para responder, você terá de usar algo semelhante a um sinônimo, exatamente aquilo que encontramos no dicionário: estrela = astro celeste. O significado do símbolo é, assim, um outro símbolo. Temos aí a explicação do que é um signo relativamente genuíno. Digo relativamente porque o simples fato de o símbolo estar atualizado numa réplica em que ele, que é necessariamente abstrato e geral, materializa-se já o faz perder seu caráter de genuinidade, adquirindo certas características de degeneração, isto é, passa a ter algo de situacional, provisório, passageiro, irrepetível.” (SANTAELLA 1998: 42) No tocante às réplicas do legissigno indicial remático, estas se constituirão em sinsignos indiciais remáticos de tipo especial, sendo que na complexa rede da semiose, o “interpretante de um legissigno indicial remático representa-o como um legissigno icônico; e isso ele o é em certa medida - 82 mas em medida muito reduzida” (CP 2.259). Essas relações ficarão mais claras quando analisarmos os emoticons (ver capítulo V). A escrita considerada como subsumida à fala nada mais é do que a sua consideração no seu caráter de réplica, de sinsigno. Porém a escrita também tem uma gramática própria, suas leis e modos próprios de significar que não pertencem a fala, sendo que sua capacidade de registrar sons não é sua única função. “Há um importante elemento de verdade no argumento de que a escrita foi inventada quando certa correlação sistemática foi estabelecida entre marcas gráficas e palavras. Mas prever a história e fazer do alfabeto um ideal teleológico, simplesmente desvaloriza essa verdade, o que é, em efeito, o que acontece quando a capacidade do sistema para indicar a pronúncia é erigido no critério para reconhecer a escrita como tal.” (HARRIS 1986: 122 apud PAULUK 2003: 45) Algumas vezes, as nuances do sinsigno implicam diferenças de sentido, ou mesmo lingüísticas, sendo encaradas como ortografia e com conseqüências até mesmo gramaticais. No sistema de escrita, a letras podem ser grafadas de diferentes formas. Por exemplo, em português, no caso de uso de palavras estrangeiras num texto, estas devem ser grafadas em itálico. Nomes próprios devem ter a inicial maiúscula, bem como a primeira letra de uma sentença. Em alemão, todos os substantivos devem ser grafados com a inicial maiúscula, enquanto os adjetivos são grafados com inicial minúscula, o que resulta num interessante exemplo: “... a distinção entre maiúsculas e minúsculas pode ter uma relevância grafêmica, embora esses pares correspondam, respectivamente, apenas a um grafema, pois sua troca conduz a palavras variadas, por ex., em fest (‘firme’) VS. (das) Fest ([a] ‘festa’) ou bar (‘efetivo’) vs. (die) Bar ([o] ‘bar’) na escrita alemã.” (NÖTH 2010: 19) 83 4. A PALAVRA COMO QUALISSIGNO Um qualissigno é uma qualidade que funciona como signo, e será sempre icônico em relação a seu objeto. No todo da linguagem verbal, esse potencial encontra condições favoráveis para manifestar-se no sistema de escrita, através da exploração de suas qualidades, tais como formas, cores, diagramações. “... um maior potencial para criar imagens existe no território das artes gráficas. Aí temos múltiplas possibilidades de utilizar letras e palavras de calibres, cores e disposições diferentes, de forma a criar constelações de correspondências com os objetos do mundo. A poesia concreta tem explorado, de forma mais sistemática, esse potencial da língua.” (NÖTH 1995: 98) Quanto à palavra encarada como qualissigno, é preciso lembrar que seus atributos somente ganham corpo nos sinsignos, sendo notório como as formas29 em que se materializam se prestam a todos os tipos de expressividade, que encontramos nas mais diferentes artes ligadas à escrita, tais como tipografia, caligrafia, design gráfico, bem como a poesia concreta, a e-poetry (poesia em contexto digital), etc. A literatura e a propaganda também são pródigas em destacar esse aspecto autônomo do qualissigno que está encapsulado no legissigno e no sinsigno, criando efeitos de sentido a partir de suas qualidades materiais, que em princípio, nada tem a ver com a função representativa que o sistema da língua lhes atribui. “Uma vez que o signo não é idêntico à coisa significada, mas dela difere sob alguns aspectos, ele deve claramente (plainly) possuir algumas características próprias, que nada tenham a ver com sua função representativa. Chamo estas características de qualidades materiais do 29 Ao contrário do que disse Saussure: “... o signo gráfico é arbitrário, sua forma importa pouco, ou melhor, só tem importância dentro dos limites impostos pelo sistema; ... o meio de produção do signo é totalmente indiferente, pois não importa ao sistema (...). Quer eu escreva as letras em branco ou em preto, em baixo ou alto relevo, com uma pena ou com um cinzel, isso não tem importância para a significação.” (CLG 138,139) 84 signo. Como exemplo dessas qualidades, tome-se, na palavra “homem”, ela consistir de cinco30 letras; numa foto, ela ser plana e sem relevo.” (CP 5.287) As classificações peirceanas, como já vimos, não são estanques, e sua aplicação dependerá dos aspectos sígnicos que o observador quiser destacar, já que nenhum signo pertence exclusivamente a nenhum tipo. “Como se pode ver, as tricotomias peirceanas devem ser usadas como ferramentas analíticas por meio das quais três aspectos diferentes da semiose podem ser distinguidos. Essas distinções são sempre aproximativas e dependentes do ponto de vista que o analista assume diante do signo. Nenhum signo pertence exclusivamente a apenas um desses tipos, assim como não há nenhum critério apriorístico que possa infalivelmente decidir como um dado signo realmente funcionará. Tudo depende do contexto de sua atualização e do aspecto pelo qual é observado e analisado.” (SANTAELLA 2000: 102) Consideremos um exemplo onde o aspecto qualitativo encontra-se evidenciado na apresentação do signo, chegando mesmo a obliterar, em certa medida, o caráter de lei de um signo verbal, em virtude da semelhança entre duas letras “O” maiúsculas e o formato dos olhos, seu objeto: “Observe-se esta seqüência: Olho olhO OlhO Temos aí três diferentes quali-signos atualizados em três ocorrências ou sinsignos que funcionam como réplicas de um mesmo legi-signo. Em que medida a exacerbação do aspecto qualitativo é capaz de obliterar o caráter de lei de um signo verbal é uma questão de grau, dependente das condições de apresentação do signo, apresentação esta que pode muitas vezes estar voltada tão só para a criação de um efeito de contemplação ou dilatação dos sentidos, numa demora perceptiva com vistas à regeneração da sensibilidade de quem percebe.” (SANTAELLA 2000: 102) 30 No original: “... take in the word ‘man’, its consisting of three letters …” (CP 5.287) 85 Multiplicam-se os exemplos onde a forma do signo ratifica o significado da palavra: eu am você, matemá+ica, DOI2, QU4TRO, SE7E, OIT8, N9VE, infinit8, alf, entre muitos outros. Nestes casos, pode-se dizer que a palavra e o signo que está sendo sugerido pela sua forma possuem objetos dinâmicos equivalentes ou iguais. No entanto, se muitas vezes a forma que o sinsigno assume é usada para ratificar, encarnar o significado da palavra, aumentando seu poder expressivo, em outras esses trabalhos acrescentam mais uma camada sígnica, significante, à já complexa trama entretecida entre língua e escrita, adicionando aspectos que não estão representados no legissigno. Vejamos o exemplo: P ra você. A substituição de uma letra “A” pela figura de um coração, não interfere na inteligibilidade da sentença (legissigno), no entanto, acrescenta uma camada significante, pois seja lá o que for que estiver sendo destinado àquela pessoa, está sendo com um sentimento, com algo que vem do coração, e que pode ser expresso numa frase como: “para você com amor”, ou ainda, “para você com carinho”. Neste caso, o objeto do signo icônico “coração” é totalmente diferente do objeto da palavra “para”. Outro exemplo (e este se constitui também numa singela homenagem de minha parte) é o caso do nome próprio (patronímico) Peirce. Ele poderá designar qualquer membro da mesma família, seu pai, Benjamin Peirce, por exemplo, ou mesmo algum de seus irmãos. Mas pode ser grafado: PEIRC3 onde a substituição de uma letra por um número três, em razão de sua semelhança na forma, novamente não prejudicará a inteligibilidade do signo lingüístico, adicionando, no entanto, um elemento que determinará, dentro de determinado contexto, é claro, a qual dos membros da família o nome se 86 refere, já que somente Charles Sanders Peirce concebeu três categorias universais, e era mesmo conhecido como “triadomaníaco”31. Mesmo aqueles que não conhecessem esses detalhes, saberiam que uma certa pessoa cujo nome é Peirce, está ligada, mantém alguma relação com o número 3. Essas camadas significantes permanecem embutidas no signo lingüístico na forma de múltiplos e sucessivos palimpsestos32, camadas essas que, embora não se dêem a conhecer ao olhar apressado dos usuários da língua, sempre são exploradas por escritores, poetas e artistas os mais diversos, que buscam um acréscimo de sentido em suas obras, e nas quais a escrita encontra uma fonte quase inesgotável de riqueza expressiva, e onde signos se complexificam para condensar significados. Uma última observação se faz necessária quanto à natureza da relação entre legissignos, sinsignos e qualissignos. Sendo que só sinsignos tem existência concreta, a diferença entre legissignos e qualissignos, já que nenhum deles tem individualidade, ou seja, nenhum deles é um singular, é que um legissigno tem uma identidade definida, apesar de admitir uma grande variedade de formas nas quais pode se materializar. O qualissigno, por sua vez, não tem identidade; “é um mero qualissigno de uma aparência, e não exatamente o mesmo do começo ao fim de um segundo. Em vez de identidade, ele tem grande semelhança, e não pode diferir muito sem ser chamado de um outro qualissigno.” (CP 8.334) 31 CP 1.568‐572. Palimpsesto: “papiro ou pergaminho cujo texto primitivo foi raspado, para dar lugar a outro” (Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa). No sentido figurado, camadas que se sobrepõem. 32 87 Capítulo 3- LINGUAGEM VERBAL: CONJUNTO DE SISTEMAS SÍGNICOS “A complexidade do real exige teorias à sua altura.” Lucia Santaella (2001:29) 1. VISÃO SISTÊMICA 1.1. Ontologia Sistêmica e Semiótica O presente estudo visa à compreensão da semiose da escrita em geral e de algumas particularidades das mudanças pelas quais passa atualmente em contextos hipermidiáticos. A consecução deste objetivo iniciou-se tendo como base primeira a Teoria Semiótica de Charles S. Peirce (capítulo I) à qual agora acrescentaremos a aplicação de alguns conceitos da Ontologia Sistêmica, vista a partir da complexidade, conforme elaboração e síntese do professor Jorge de Albuquerque Vieira, numa construção de “bases pluri-inter e transdisciplinares que têm orientado sua trajetória rumo à meta nuclear de construção de uma epistemologia da complexidade de cunho próprio” (SANTAELLA in VIEIRA 2007: 14,15). Esta visão sistêmica se justifica em função do caráter eminentemente sistêmico dos elementos envolvidos, isto é, o fato da linguagem verbal poder se considerada como um conjunto de sistemas e a hipermídia como um sistema ambiente, imbricados num todo complexo de inter-relações. A Ontologia Sistêmica vista a partir da complexidade parte do pressuposto de que, como pano de fundo filosófico para as hipóteses gnosiológicas das mais diversas ciências, faz-se necessária uma “Teoria da Realidade” identificada a uma “Teoria do Ser ou dos Objetos (Ontologia)”, que segundo a Filosofia clássica, pode ser definida como “o estudo do ser enquanto ser, com independência de suas determinações particulares”, ou ainda segundo Bunge (apud VIEIRA 2008a: 22), “a ciência concernente à totalidade da realidade”. 88 “Embora ainda sendo um rico e potencial terreno de pesquisa, reconhecemos que há um profunda conexão entre tal forma de semiótica e a teoria geral dos sistemas... Acreditamos assim que um estudo integrando a semiótica, a teoria geral de sistemas e a ontologia clássica pode vir a esclarecer os conceitos de auto-organização e complexidade, que tem se tornado tão caros ao cenário de pesquisa contemporânea.” (VIEIRA 2008a: 53) É nesse sentido que a Teoria Geral dos Sistemas é uma candidata a uma Ontologia Científica, que “permitiria uma maior eficiência no tratamento das ciências a partir de suas raízes ontológicas”. No entanto, a riqueza de sua abordagem reside no fato dela ser aplicável a qualquer tipo de sistema, incluindo aqueles típicos do âmbito das humanidades. Segundo Vieira: “Podemos agora frisar um aspecto importante de nossa proposta: a visão que pretendemos apresentar é aplicável a qualquer tipo de sistema, o que inclui aqueles típicos das Ciências, aqueles típicos da Filosofia e aqueles com que lidamos no domínio das Artes. Uma Ontologia que permita, além de construções inter e transdisciplinares, o estudo de sistemas que até bem pouco tempo foram tratados como incompatíveis ou incoerentes, como pertencentes a áreas de conhecimento mesmo antagônicas, a partir da fratura por demais artificial entre ciências exatas e ciências humanas, por exemplo. O que propomos é que o conceito de sistema, em sua fundamentação ontológica, possa vir a lidar com sistemas de alta complexidade, onde Arte, Filosofia e Ciência mesclam-se, como em muitos sistemas culturais. Adotaremos assim como linha de trabalho a discussão de definições do termo Sistema e a partir daí a discussão do que alguns autores chamam Parâmetros Sistêmicos. Tais parâmetros formam um conjunto de conceitos gerais o suficiente para a descrição e embasamento de representações de qualquer coisa, satisfazendo o ideal ontológico perseguido. O que teremos então é uma ferramenta que além de descrever bem qualquer entidade irá permitir o vislumbre, a percepção de possíveis traços ou processos associados aos sistemas, características estas que ficariam mais ocultas sem o enfoque sistêmico.” (VIEIRA 2008a: 28) 89 Por essas razões, já que “admitir uma realidade implica a necessidade de hipóteses sobre a mesma”, um conjunto de tais hipóteses, em consonância com a proposta de Vieira (2008a: 24), e que tem sido cada vez mais adotado, pode ser: 1) a realidade é sistêmica, como conseqüência das noções de coisa e objeto passarem a ser adotadas “como sendo relativas a sistemas” (VIEIRA, 2008a: 27), ou em outras palavras, porque todos os elementos componentes da realidade passam a ser vistos como sistemas; 2) a realidade é complexa, já que todo sistema é sistema aberto e portanto, em constante intercâmbio com outros sistemas e com o meio em que emerge e se desenvolve. Dessa forma, a complexidade está sempre presente, sem prender-se a nenhum parâmetro sistêmico específico, embora, segundo Bunge (apud VIEIRA 2008a: 41), “teríamos duas formas de complexidade, a dita ontológica, que se refere à complexidade que existe realmente nas coisas; e a semiótica, que consiste na complexidade de nossas representações das coisas”, é por isso que a “Semiótica, a ciência geral de todos os signos e processos de comunicação, emerge neste século como uma das principais ferramentas para o estudo e conseqüente domínio sobre o problema da complexidade. Seu caráter geral e amplo, próximo ao de uma Ontologia, torna-a adequada a todas as tentativas de interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Também neste século assistimos à emergência de novos paradigmas, todos eles envolvidos com a questão da complexidade e geralmente delineados contra um fundo, também genérico, do que poderíamos chamar uma proto-Teoria Geral dos Sistemas. (...) É exatamente o caráter quase-ontológico da teoria de sistemas que permite uma ponte com o domínio da Semiótica...” (VIEIRA 2007: 45,46) 3) a realidade é legaliforme; considerando que todo elemento da realidade pode ser compreendido como sistema aberto, a conseqüente troca de informação com outros sistemas, sua internalização e elaboração, passam assim a gerar “hábitos no sentido da semiótica peirceana” coerentes com “a natureza do sistema e sua história passada”, e que possuem o caráter de leis 90 a reger o comportamento do sistema em interações presentes e futuras (VIEIRA 2008b: 21). É neste sentido que a Teoria dos Sistemas pode-se somar às categorias fenomenológicas de Peirce, tidas como um sistema exaustivo de relações monádicas, diádicas e triádicas, sob cujo prisma qualquer fenômeno pode ser observado. “De acordo com Hookway (1985: 80), ‘uma teoria das categorias é uma série de concepções altamente abstrata e que funciona como um sistema completo de summa genera, qualquer objeto do pensamento ou da experiência devendo pertencer a uma das categorias deste sistema.’ Ao longo dos anos, as categorias recebem muitas denominações, resultado de experimentos em muitas áreas, e suas correspondências são analisadas em diversos domínios.(...) As categorias foram logicamente descritas como um sistema exaustivo de relações, hierarquicamente organizado em classes de relações (3-ádicas, 2ádicas e 1-ádicas)... Esta é a fundação formal de seu modelo de semiose (‘ação do signo’) e de suas classificações sígnicas.” (QUEIROZ 2004: 272, 273) Dessa forma, acreditamos que a aplicação dos conceitos da Teoria Geral dos Sistemas ao estudo das mudanças pelas quais passa o sistema de escrita atual nos contextos hipermidiáticos, aliada a uma análise semiótica das peculiaridades dos signos que a integram, pode lançar novas luzes para o entendimento dos processos evolutivos da escrita, de vez que “uma das vantagens da prática ontológica é que, ao lidarmos com traços muito gerais de coisas, podemos utilizar os mesmos para fazer comparações e conexões inter e transdisiciplinares” (VIEIRA 2008a: 26). Vale ressaltar, ainda, que para Saussure (CLG 87), a língua, objeto de nosso estudo, constitui um “sistema demasiado complexo”, pelo que ela não é “completamente arbitrária”, e onde “impera uma razão relativa”. Esses conceitos de sistema e complexidade, de arbitrariedade e razão, e mesmo de signo, encontram-se em estado embrionário no Cours, e podem ser amplamente elucidados pelas teorias em que se baseia o presente estudo. 91 1.2. Sistemas abertos e parâmetros sistêmicos fundamentais Sistema pode, genericamente, ser definido (cf.UYEMOV apud VIEIRA 2008a: 29) como um agregado de elementos, qualquer que seja sua natureza, entre os quais existe um conjunto de relações de forma a que eles partilhem determinadas propriedades. Ou seja, o conceito de sistema é aplicável também a todo subsistema, já que essa condição é muito mais uma questão de enfoque do que da natureza das relações envolvidas. Segundo a ontologia sistêmica, como proposta por Bunge (apud VIEIRA 2008a: 29), a realidade é formada por sistemas abertos, conexos, em constante intercâmbio de informação com outros, segundo parâmetros sistêmicos, sendo o Ambiente o mais imediato desses (VIEIRA 2008a: 33). “É no sistema ambiente que encontramos todo o necessário para trocas entre sistemas, desde energia até cultura, conhecimento, afetividade, tolerância, etc., estoques necessários para efetivar os processos de permanência. (...) O que é observado é que todos os sistemas parecem ser abertos em algum nível; sistemas que tendem ao isolamento e perdem o contato com o ambiente tendem à morte...” (VIEIRA 2008a: 34) Parâmetros sistêmicos são aquelas características que ocorrem em todos os sistemas, independentemente das particularidades de cada um (VIEIRA 2008a:31). Esses parâmetros podem ser de dois tipos: Básicos (também chamados Fundamentais), e Evolutivos33. Neste estudo, nos deteremos nos parâmetros básicos, aqueles que todo sistema possui, independente de processos evolutivos. São eles: Permanência, Ambiente e Autonomia, e os três encontram-se intimamente relacionados. Permanência pode ser entendida como “sobrevivência” de um sistema, como sua viabilização ou duração no tempo em razão de determinadas condições prévias (VIEIRA 2008a: 33) onde o sistema emergiu, chamadas condições de permanência. 33 Para a compreensão dos parâmetros evolutivos, ver VIEIRA 2008a: 35‐42. 92 “ ‘Todas as coisas tendem a permanecer.’ No sentido acima, as coisas ou objetos, a partir do momento em que se tornam existentes, ‘tentam’ durar, tentam permanecer.” (VIEIRA 2008a: 32) A duração, maior ou menor, de um sistema no tempo, se dá em função de determinadas características que o adéquam ao seu Ambiente, o segundo parâmetro sistêmico fundamental, que nada mais é do que um segundo sistema envolvendo o primeiro. “É visível também que há um meio prévio ao sistema onde essas condições [de permanência] atuam localmente. Esse também é um sistema, que envolverá e envolve o sistema em questão. Esse sistema envoltório é o chamado Ambiente.” (VIEIRA 2008a: 33) A Autonomia, como terceiro parâmetro básico, leva em consideração o fato de que todo sistema é aberto em algum nível, realizando trocas de algum tipo com o ambiente em que está inserido, a partir das quais o sistema internaliza informações que tendem a gerar uma espécie de “estoque” interno ao sistema que lhe garantam autonomia em relação às condições de permanência iniciais e às modificações do próprio ambiente ao longo do tempo. “Ou seja, o conceito de sistema aberto é coerente com aquele de ambiente. Como resultado da interação entre o sistema e seu ambiente, trocas energéticas e entrópicas levam o sistema a internalizar informações, desde diversidade material e energética (...) até diversidade sígnica (...) de vários tipos. À medida que a internalização ocorre, uma espécie de ‘estoque’ é gerado no sistema. É a chamada Autonomia.” (VIEIRA 2008a: 34, grifos nossos) Pela aplicação dos parâmetros sistêmicos fundamentais, podemos admitir que um sistema de escrita, a partir do momento em que emerge como tal em determinado ambiente, procurará manter-se no tempo através de estoques de informação auridos de seu intercâmbio com outros sistemas (entre eles o próprio ambiente) que lhe forneçam a necessária autonomia em relação às possíveis transformações pelas quais venham a passar os demais sistemas com os quais interage. 93 No entanto, há três capacidades dos sistemas abertos necessárias à manutenção de sua autonomia: a sensibilidade aos fluxos de informação advindos de diversas fontes, capaz de alimentar uma função memória, flexível e capaz de armazenar informações adequadamente, e, por último, a elaboração eficiente do estoque de informações de acordo com as necessidades do sistema. Vejamos: “Um sistema aberto em determinado ambiente permanece no tempo se apresentar três capacidades: - deve possuir sensibilidade, no sentido de reagir adequadamente e à tempo às variações ou diferenças que ocorrem nele mesmo ou no ambiente. Essas cadeias de eventos, geradoras de processos se manifestam para o sistema como sinais ou simplesmente fluxos de informação; - o sistema deve ser capaz de reter parte desse fluxo, sob a forma de um colapso relacional, a partir da progressiva internalização de relações nascidas de sua atividade interna e do contato com o ambiente... O sistema passa a adquirir não só a capacidade de perceber a informação, mas também de percebê-la de uma certa maneira. Construída ao longo do tempo, essa função é na verdade uma função memória, que ganha uma grande flexibilidade na medida em que o sistema evolui para níveis mais altos de complexidade. É a partir da memória, aqui generalizada, que um sistema consegue conectar seu passado, na forma de uma história, com o presente transiente e com possíveis futuros. Os três parâmetros fundamentais da Teoria Geral de Sistemas, ou seja, Permanência, Autonomia e Meio Ambiente, manifestam-se assim com coerência. - finalmente, o sistema deve ser capaz de elaborar este estoque de informação, na medida de suas necessidades. Uma elaboração eficiente não só em flexibilidade, mas também em temporalidade. Sistemas tendem a permanecer; como abertos, necessitam de um ambiente; para permanecer, evoluem elaborando informação a partir de uma história. Esta última é a capacidade mais nobre, típica dos sistemas cognitivos. Podemos encontrar sistemas de todos os tipos, em todos os níveis de complexidade da natureza, satisfazendo o exigido até a segunda capacidade. Já citamos aqui o conceito de função de transferência, aplicado a sistemas ditos não vivos. É a capacidade de elaboração eficiente que garante as formas mais elevadas de complexidade em nossa realidade sistêmica.” (VIEIRA 2008b: 21,22) 94 Ora, mais uma vez aqui, encontramos uma ponte com os conceitos peirceanos, já que essas três habilidades, ontologicamente atribuídas aos sistemas abertos, e, portanto, a qualquer componente da realidade, somente podem ser atributos de uma mente, tal qual compreendida por Peirce. Embora não se trate aqui de postular que a linguagem verbal se consubstancie num tipo de mente, o que estaria além dos limites do presente estudo (mas que bem poderia ser feito em outra ocasião, já que Peirce comparou por diversas vezes o símbolo a um ente vivo), é preciso frisar que ela, a linguagem verbal, está em constante intercâmbio com as mentes de seus usuários, nas quais essas três habilidades operam incessantemente, o que tem conseqüências inegáveis para qualquer sistema. 1.3. Evolução da linguagem verbal Uma das principais conseqüências das três capacidades dos sistemas abertos necessárias à manutenção de sua autonomia (sensibilidade aos fluxos de informação, função memória e elaboração eficiente) é a sua constante evolução. Dessa forma, os sistemas não se mantêm fixos ou estáticos, passando por mudanças mais ou menos perceptíveis, porém inevitáveis, no curso do tempo. Peirce, como poucos, tinha consciência dessa inexorabilidade evolutiva, sendo que, para ele, também as leis (requisito básico de todo sistema) modificam-se e evoluem, adaptando-se, transformando-se e regenerando-se em função da interação com fatores externos ao sistema. É nesse sentido que todo sistema lingüístico pode ser considerado aberto. “Nessa medida, não apenas a vida é uma espécie de linguagem, mas também todos os sistemas e formas de linguagem tendem a se comportar como sistemas vivos, ou seja, eles se reproduzem, se readaptam, se transformam e se regeneram como as coisas vivas.” (SANTAELLA 1983:14) Além de abertos, os sistemas lingüísticos são sistemas de signos, predominantemente do tipo simbólico, em função de sua natureza conceitual: 95 “O que define basicamente a natureza da linguagem verbal é o seu poder conceitual, a ponto de podermos afirmar que o verbal é o reino da abstração. Isso corresponde com exatidão às características daquilo que Peirce definiu como signo simbólico, o universo da mediação das leis.” (SANTAELLA 2001: 190) A própria essência sígnica do símbolo também é de natureza evolutiva; Peirce chega a afirmar que se trata mesmo de uma “coisa viva” (CP 2.222), por pertencer primordialmente à categoria da terceiridade, aquela da continuidade, do pensamento e da evolução (CP 6.32), e assim permanecer em contínuo estado de transformação. Por outro lado, pela lógica recursiva das categorias, a terceiridade não pode prescindir da secundidade e esta da primeiridade, fazendo com que o símbolo incorpore elementos de ambas. Dessa forma, entender esses processos evolutivos complexos depende, então, da compreensão do funcionamento semiótico dos elementos envolvidos nos diversos sistemas que compõem o todo da linguagem verbal, para a qual as classificações sígnicas de Peirce abrem possibilidades de análise sem precedentes. Jakobson nos dá a entrever esse novo cenário, com um exemplo: “É assim que a idéia sugestiva e luminosa de Peirce, de que ‘um símbolo pode comportar um ícone ou um índice [acrescentemos, de nossa parte, ‘ou os dois ao mesmo tempo’] a ele incorporados’, propõe à ciência da linguagem tarefas novas e urgentes e abre-lhe vastas perspectivas. Os preceitos formulados por esse ‘desbravador’ da Semiótica estão repletos de conseqüências vitais para a teoria e a prática lingüísticas. Os constituintes icônico e indicial dos símbolos verbais foram muito freqüentemente subestimados ou mesmo ignorados; por sua vez, o caráter primordialmente simbólico da linguagem, e a diferença radical que, por conseguinte, a separa dos outros conjuntos de símbolos, principalmente indicativos ou icônicos, esperam igualmente encontrar seu exato lugar na metodologia lingüística moderna.” (JAKOBSON 1963: 116) Parte dessa análise já foi feita no capítulo II, em que a palavra, considerada como o signo lingüístico por excelência, recebeu uma abordagem à parte, em função da importância com que aparece 96 reconfigurada em ambientes hipermidiáticos, o que será analisado com exemplos práticos no capítulo V. No entanto, não só a palavra considerada como uma unidade deve ser abordada, mas também outros signos da linguagem verbal merecem análise pormenorizada. Eles aparecem compondo as próprias palavras, substituindo-as, ou mesmo de forma independente, ajudando a compor a riqueza sígnica da linguagem verbal que se manifesta através de um conjunto de sistemas que a integram, e cujos potenciais encontram-se evidenciados nos ambientes hipermidiáticos. 2. UM CONJUNTO SISTÊMICO VERBIVOCOVISUAL Como vimos, sistema define-se em função do conjunto de relações entre seus elementos, e de determinadas propriedades por eles partilhadas. O conceito de sistema implica a idéia de um todo ordenado, sendo as relações entre esses elementos as responsáveis pela composição da estrutura do sistema, o que significa dizer que o caráter sistêmico só aparece na função que os elementos desempenham no interior do sistema (NÖTH apud SANTAELLA 2001: 256). Dessa forma, língua é sistema, bem como seu correspondente sistema de escrita também o é. No entanto, são sistemas diferentes, inter-relacionados no todo da linguagem verbal, como veremos melhor a seguir. Podemos dizer que se trata de um conjunto de sistemas verbivocovisual, para utilizarmos a terminologia dos poetas concretos, já que a capacidade de representação humana se expressa através da língua, da fala e de seu correspondente sistema de escrita. Analisemos cada conceito separadamente. A linguagem verbal, como prerrogativa humana que é, nasce de sua capacidade de representação, que ao perceber os diferentes estímulos do existente, os converte em signos a fim de designar o que o pensamento 97 elocubra, e que “encarnam-se” nas mais diversas línguas, que nascem, assim, como “produtos da consciência” (SANTAELLA 1983:13). Linguagem precisa ser entendida, então, num sentido amplo, como mediação através de sistemas codificados de signos destinados à transmissão de um determinado tipo de informação. A língua, por sua vez, é essa faculdade humana de representação (ou linguagem) cristalizada num determinado código ou sistema de signos, num dado espaço históricotemporal e associada a um determinado grupo de indivíduos, tampouco se confundindo com a fala, que é a manifestação individual e concreta da linguagem humana através de uma língua. Cada uma se insere dentro da outra, como no esquema34 a seguir: Um sistema de escrita, por sua vez, consegue captar somente uma parte, tanto da linguagem verbal oral (fala), rica em gestos cuja significação total é intransponível para qualquer tipo de escrita, como da própria língua, que possui funções e dimensões diferentes da escrita, que, por outro lado, é capaz de exprimir idéias que a fala não exprime. Como conseqüência, temos que língua e escrita, apesar de inter-relacionadas, apresentarão características e desempenharão funções próprias no todo da linguagem verbal. “Sistemas de escrita são sistemas que têm propriedades não encontradas na fala. No entanto não se pode negar que os sistemas de escrita são sistemas para a materialização da língua (language). Que eles são filogeneticamente 34 Esquema elaborado com base nos esclarecimentos do Professor Winfried Nöth sobre a escrita durante a qualificação da presente dissertação, e no esquema de BASTOS e CANDIOTTO 2007:16, que inclui somente linguagem, língua e fala. 98 mais jovens que a fala e que esta é natural e universal, enquanto a escrita é artificial e está presente em somente algumas comunidades falantes, são dificilmente boas razões para ignorá-los na pesquisa lingüística. A língua escrita (written language) é uma forma de linguagem, e se é uma forma que está presente somente em algumas línguas (languages), mas não em outras, ela é contudo, um potencial para todas as línguas (languages). Ela é uma forma de linguagem que não é nem mais nem menos perfeita que a língua falada (spoken language), mas que dela difere em alguns importantes aspectos porque, naturalmente a escrita serve a funções que são diferentes daquelas da fala. Se esse não fosse o caso, não haveria nenhuma boa razão para a escrita ter chegado a existir. A invenção da escrita é a resposta às limitações da fala em relação ao aqui e agora. Como conseqüência ao adquirir uma forma escrita, o poder expressivo da língua (language) é ampliado em relação à fala.” (COULMAS 1989: 272)35 A importância dessa distinção e reconhecimento da língua e da escrita como sistemas diferentes nem sempre foi clara, de um lado porque o princípio da escrita deveu-se, em parte, à necessidade de documentar as línguas faladas, e, por outro, porque o próprio Saussure, apesar de reconhecer a diferença entre os dois sistemas, acreditava que a imagem gráfica se comportava como a imagem fonética, julgando “imerecida” (CLG 35) qualquer importância dada à escrita, uma vez que seu estudo, a seu ver, não fazia parte da lingüística36. Nöth nos esclarece: “É um paradoxo da história da semiótica que a teoria dos signos e de seus sistemas, desenvolvida desde a escolástica medieval em uma longa tradição escrita, tenha descoberto só tardiamente o sistema sígnico da escrita propriamente dita como objeto de reflexão semiótica (cf. Harris 1995: 1). Sob a influência da lingüística estrutural, a semiótica, desde Saussure, foi por muitas décadas orientada por uma visão fonocêntrica até que, finalmente, Derrida (1967a) exigiu o abandono do fonocentrismo dessa tradição e a instituição de uma autêntica semiótica da escrita sob a designação de gramatologia. Exceto pela dimensão histórica e tipológica dos sistemas de 35 Note‐se que no original, somente a palavra language é usada, uma vez que no inglês ela possui tanto a acepção de “língua” quanto de “linguagem”. 36 “Língua e escrita são dois tipos distintos de signos; a única razão de ser do segundo é representar o primeiro; o objeto lingüístico não se define pela combinação da palavra escrita e da palavra falada; esta última, por si só, constitui tal objeto.” (SAUSSURE 1916:34) 99 escrita, o sistema sígnico da escrita havia recebido, até então, pouca atenção dos estudos de linguagem.” (NÖTH 2010: 1) Afortunadamente, hoje assistimos à valorização do estudo da escrita como um sistema de peculiaridades sígnicas independente do sistema da língua e da fala, sob os mais variados ângulos: “Sistemas de escrita relacionam-se a estruturas lingüísticas, e onde eles são adotados para uma dada língua, eles se desenvolvem como subsistemas lingüísticos... Qual posição esse subsistema e essa forma ocupam dentro do todo complexo da língua, e qual papel eles têm no seu funcionamento e desenvolvimento, o lingüísta pode somente esperar compreender estudando a escrita, e não ignorando-a.” (COULMAS 1989: 273) Essa distinção da escrita como um sistema semiótico peculiar, relacionado à fala, porém não submisso a ela, com características e possibilidades de mudanças e evolução próprias, e em constante interação com o meio em que se materializa, é um dos principais passos rumo a uma compreensão criticamente fundada dos processos evolutivos da escrita. Seu estudo sob esse enfoque aliado a uma teoria semiótica de envergadura, permite captar as variações prismáticas dos signos usados para exprimir o pensamento e a sensibilidade humanas. “Vinculado à semiótica, o estudo da escrita é destituído não apenas da perspectiva fonocêntrica, em que entende-se a escrita como registro ao invés de linguagem, como da perspectiva logocêntrica, em que desconsidera-se que a linguagem tem qualidades não-verbais que são indissociáveis de sua mediação. A primeira das duas perspectivas é comum nos estudos de linguagem com metodologias derivados dos estruturalismos e formalismos pioneiros na lingüística e na semiologia, tendo sido objeto de críticas contundentes durante todo o período pós-estruturalista. A segunda aparece na maioria dos estudos de linguagem do século XX, tendo em Derrida e Peirce duas importantes vozes dissonantes. A semiótica é mais ampla que a desconstrução no desmonte do logocentrismo, na medida em que mais abrangente quanto aos tipos de manifestações que inclui o conjunto de fenômenos possíveis de serem entendidos como linguagem.” (BASTOS 2008: 274,275) 100 2.1. Sistemas sígnicos: as três matrizes Segundo a hipótese das três matrizes (SANTAELLA 2001:20), alicerçada na fenomenologia e semiótica de Peirce, os três tipos de linguagem, sonora, visual e verbal, constituem-se nas três grandes matrizes lógicas da linguagem e pensamento, a partir das quais se originam todos os tipos de linguagens e processos sígnicos produzidos pelos seres humanos. Embora a natureza da linguagem verbal pertença predominantemente ao domínio do simbólico, ela engloba tanto a matriz sonora (fonética), quanto a matriz visual (escrita). “A lógica implícita nas categorias também prescreve que, sendo a mais primordial, a categoria da primeiridade está na base, servindo de alicerce à secundidade, assim como esta alicerça a terceiridade. Então, a matriz sonora, em nível de primeiro, alicerça a matriz visual, do mesmo modo que esta alicerça a matriz verbal. Isso também significa dizer que a matriz sonora prescinde da matriz visual-secundidade, do mesmo modo que esta prescinde da matriz verbal-terceiridade. Disso ainda decorre que a secundidade, matriz visual, engloba a primeiridade, matriz sonora, enquanto a terceiridade, matriz verbal, engloba tanto a secundidade, a matriz visual, quanto engloba, naturalmente, a primeiridade, matriz sonora.” (SANTAELLA 2001:79) Um sistema verbal, que como todo sistema se define como um agregado de elementos, entre os quais existe um conjunto de relações de forma a que eles partilhem determinadas propriedades, permite considerá-lo como uma “rede conceitual logicamente estruturada”, pertencente, portanto, ao domínio da terceiridade (SANTAELLA 2001:15). Por essa definição, a linguagem verbal é o exemplo mais evidente de sistema de legissignos. As palavras ou signos lingüísticos são interpretados de determinada forma, em função das leis estabelecidas no sistema de uma língua. No entanto, somente terão existência concreta através de um tipo especial de sinsigno chamado réplica, que ocorrem em um tempo e espaço determinados. 101 “A linguagem verbal é o exemplo mais evidente de legi-signo ou sistema de legi-signos. Por pertencerem ao sistema de uma língua, as palavras são interpretadas como representando aquilo que representam por força das leis desse sistema. Como quaisquer outros exemplares de legi-signo, no seu estatuto de leis, as palavras só tomam parte na experiência ou têm existência concreta por meio de suas manifestações. Peirce chama de ‘réplicas’ essas instâncias de manifestação. Trata-se de sin-signos de tipo especial. São sin-signos porque são existentes individuais que ocorrem em um tempo e espaço determinados, mas são réplicas porque atualizam, corporificam legi-signos.” (SANTAELLA 2001:262) Dessa maneira, a linguagem verbal, conceitual, pertencente ao domínio da terceiridade, cujo signo lingüístico (legissigno por excelência) tem como função unir um representamen, um objeto externo (dinâmico), e um interpertante, se materializa em outros canais37, que por sua vez se constituem também em linguagens próprias, a saber, a sonora e a visual, pertencentes, predominantemente, aos domínios da primeiridade e da secundidade, respectivamente, e que contam também com suas próprias características. “Quanto à linguagem visual, sua característica primordial está na insistência com que imagens singulares, aqui e agora, se apresentam à percepção. Ver é estar diante de algo, (...), pois o que caracteriza a imagem é sua presença, estar presente, tomando conta da nossa apreensão. Aliada ao seu caráter perceptivo, que corresponde tipicamente ao universo da secundidade, a linguagem visual, quase sempre figurativa, tem uma vocação referencial, o que a categoriza como signo indicial. Essa vocação mimética das imagens transcende as determinações históricas, pois desde as primeiras inscrições nas grutas, a humanidade esteve guiada pelo desejo complexo e provavelmente eterno de duplicar o mundo (...). A linguagem sonora, por outro lado, tem um poder referencial fragilíssimo. O som não tem poder para representar algo que está fora dele. Pode, no máximo, indicar sua própria proveniência, mas não tem capacidade de substituir algo, de estar no lugar de uma outra coisa que não seja ele 37 Interessante neste ponto, notar que para cada sentido humano, há sistemas de signos específicos e que a mesma linguagem verbal pode encarnar‐se em outros canais. Exemplos são a escrita braile, que contempla especialmente o tato, embora também possa ser vista, e a linguagem gestual dos surdos‐ mudos, que prescinde totalmente do canal auditivo. 102 mesmo. Essa falta de capacidade referencial do som é compensada por seu alto poder de sugestão, o que fundamentalmente o coloca no universo icônico, onde operam as mais puras associações por similaridade...” (SANTAELLA 2001: 190) Os signos lingüísticos contam, então, com dois sistemas em que podem se materializar, isto é, dois sistemas que compreendem suas réplicas, um no nível sonoro, fonético, constituído de imagens acústicas, que surgiu concomitantemente com a própria linguagem verbal, à medida que esta se desenvolvia, e outro visual, que se desenvolveu muito tempo após o surgimento da linguagem verbal, e cuja capacidade referencial sempre foi explorada por poetas e artistas como forma de aproximar o verbal de seu objeto. Dessa forma, o signo lingüístico possui dois códigos distintos, chegando Pignatari a sugerir que é “bilíngüe” quem domina e utiliza ambos os códigos, tamanha a diferença entre eles em determinados aspectos. “a palavra... possui dois códigos distintos, com peculiaridades diversas - um falado e outro escrito. Ora, a Lingüística estuda a palavra falada e não a palavra escrita, mas não pode deixar de sofrer a influência desta (na verdade, não poderia sequer existir sem a palavra escrita). Talvez seja por isso que um amigo, durante um debate, tenha sugerido a interessante hipótese de que toda pessoa que saiba ler e escrever é uma pessoa bilíngüe...” (PIGNATARI 1979: 9) A linguagem verbal, definida basicamente pelo seu poder conceitual, de abstração (SANTAELLA 2001: 190), corporifica-se então em um sistema de imagens acústicas e noutro de imagens visuais, e que, portanto, se dirigem a dois diferentes sentidos humanos: audição e visão. Embora, essa mídia acústica (oral) tenha existido durante muito tempo sem a grafia, necessidades as mais variadas levaram o homem a grafar a língua, sendo a função primária de um sistema de escrita, porém não única, captar a língua, ou linguagem verbal oral nas redes da linguagem escrita. “Historicamente, a escrita é perante a língua falada um sistema sígnico secundário. Na evolução da cultura, o homo loquens inventou a escrita só relativamente mais tarde. A mídia acústica da língua falada precedeu historicamente a mídia visual da escrita.” (NÖTH 2010: 1) 103 Daí surgirem os sistemas de escrita, visíveis, criados pelas mãos para apelar aos olhos através de signos gráficos relativamente duráveis que se apoiaram em toda a experiência pictórica que o ser humano possuía. “A escrita é visível. Ela é uma forma de comunicação criada pela mão e que apela aos olhos. Estudiosos da escrita concordam nesses dois pontos acima de todas as diferenças teóricas... Outra característica de grande importância é que a escrita consiste de signos, isto é, marcas relativamente duráveis que têm um referente externo. Os seres humanos produziram signos gráficos por muitos milênios antes que a escrita fosse inventada.” (COULMAS 2003: 19) Dessa maneira, a linguagem verbal, que inicialmente tomou corpo nos signos acústicos, encarna-se também em outro sistema mais apto a permanecer no tempo, o da escrita alfabética, no caso das línguas ocidentais. Os sistemas de escrita são, dessa forma, ferramentas para serem utilizadas pelos indivíduos com a finalidade primeira, mas não única, de registrar uma determinada língua, e que, por serem grafados, adquirem uma gramática interna na medida em que amadurecem: “Um sistema de escrita consiste em um conjunto de símbolos, um grupo de definições para os símbolos (isto é, um léxico gráfico) e regras para sua utilização (uma sintaxe gráfica). Na maior parte do tempo, os símbolos são entendidos como glifos, isto é, sinais e formas visíveis e repetitivas, constritas pelas propensões e limites das mãos e dos olhos humanos.” (BRINGHURST 2006: 27) Por isso, a escrita alfabética, inserida na matriz visual, é um sistema de formas representativas que assim se apresentam e funcionam por convenção (SANTAELLA 2001:256), convenção essa que não se confunde com aquela que rege a interpretação das palavras, nem tampouco com aquelas que regem a emissão vocal da linguagem. Disso decorre ser a linguagem verbal um conjunto de sistemas, que embora intimamente relacionados, têm cada qual suas peculiaridades e funções específicas, contando cada um com uma sintaxe própria aplicável igualmente a signos específicos de cada um deles. 104 2.2. Funções dos signos nos sistemas de escrita As funções de um sistema de escrita não se confundem com as funções dos signos que compõem um sistema de escrita, isto é, os signos usados para grafar a linguagem verbal. Embora não seja o foco principal neste estudo analisar as funções dos sistemas de escrita, é relevante lembrar que elas permeiam todas as realizações da escrita, e se refletem, por conseqüência, em todos os seus signos e na forma como eles são usados. Sinteticamente, conforme Nöth (2010:14) com base em Coulmas (1989: 11-14) e Glück (apud Nöth), pode-se resumir as funções semióticas da escrita da seguinte forma: (1) a função mnemônica, que possibilita lembrar conteúdos; (2) a função de superação de distância, que amplia o alcance da mensagem no tempo e no espaço; (3) a função de amadurecimento (reyfing function), ou “função materializadora”, que permite que um objeto material surja a partir de uma efêmera língua falada; (4) a função de controle social, segundo a qual compete à palavra escrita uma autoridade e uma legitimidade social; (5) a função interativa, de acordo com a qual informações escritas podem instruir e ordenar; (6) a função estética, ou poética, segundo Jakobson; (7) a função mágica da escrita, destacada por Glück, função relevante em muitas culturas. Em função das diferentes soluções que cada cultura encontrou para dar conta dessas funções, a diversidade dos sistemas de escrita é gigantesca, haja vista o trabalho de Daniels e Bright, intitulado The world’s writing systems (1996), um compêndio de sistemas de escrita dos mais diversos pontos do planeta. Maior ainda a diversidade de signos que as compõem, sendo que não há uma terminologia única para designá-los, nem 105 tampouco uma tipologia única que os classifique, o que dificulta qualquer trabalho de análise. Quanto a essa diversidade, Pauluk concluiu que: “Dada a variedade dos critérios utilizados e as idiossincrasias de seus autores, as tipologias dos sistemas de escrita divergem muito mais do que concordam quando se trata de classificar uma determinada escrita.” (PAULUK 2003: 113) Por todos esses fatores, optamos por utilizar, para os presentes propósitos, uma tipologia simplificada e graficamente representada proposta por Robert Bringhurst (2006), cuja atividade como renomado tipógrafo, além de escritor, tradutor, poeta e professor universitário, certamente aguçou sua sensibilidade em relação a características gráficas da escrita que não se encontram desenvolvidas e expostas por outros autores de outras áreas (lingüistas, historiadores, arqueólogos, entre outros) com a mesma clareza. Dessa forma, com o surgimento de novas grafias na hipermídia, é interessante focar os tipos de signos em relação à sua função dentro dos sistemas de escrita. Nesse sentido, a primeira constatação é a de que todos os sistemas de escrita podem ser interpretados semântica ou foneticamente, o que equivale a dizer que seus signos destinam-se a representar sons ou significados. “A diversidade dos sistemas de escrita do mundo é enorme, mas todos eles podem ser interpretados semanticamente e foneticamente. A comunicação do significado é o propósito primário da maior parte das escritas, e de uma forma ou de outra, as relações convencionais entre unidades gráficas e fonéticas são estabelecidas para consecução desse fim. Significado e som são as duas dimensões referenciais utilizadas por todos os sistemas de escrita.” (COULMAS 2003: 18) Essas duas dimensões podem mesmo servir como critério de classificação dos sistemas de escrita, e Nöth esclarece que não há superioridade de uma em relação à outra. “Para a transcrição da língua falada existem duas opções básicas: a transcrição fonética e a transcrição semântica. Na história da escrita, os sistemas semânticos de transcrição são mais antigos que as escritas 106 fonéticas. Entretanto, a hipótese de que os sistemas fonéticos são basicamente superiores aos sistemas semânticos, e de que a evolução da escrita, em geral, caminha em direção a uma escrita fonética baseia-se, sem dúvida, em um preconceito fonocêntrico.” (NÖTH 2010: 1) Para a transcrição fonética, chamada escrita cenêmica38, há também outras duas opções: as sílabas, quando estas são representadas sem a possibilidade de serem decompostas ou representadas em unidades menores; e os sons isolados das consoantes e vogais, como na escrita alfabética, em que a sílaba é geralmente representada por uma combinação de signos. “Um número de sistemas de escrita são geralmente descritos como silabários. Suas unidades gráficas operacionais básicas são interpretadas como sílabas da fala (speech syllables).” (COULMAS 2003: 62) “É um fato reconhecível, e tem sido por milênios, que há duas classes complementares de sons da fala (speech sounds), consoantes e vogais.” (COULMAS 2003: 109) Para a transcrição semântica, também chamada de escrita plerêmica, há várias opções de signos, tais como pictogramas, ideogramas e logogramas, embora a terminologia não “seja de modo algum homogênea” (NÖTH 2010: 4). Pictogramas são signos icônicos, imagéticos, sendo um exemplo os signos pictóricos da escrita egípcia, embora nenhuma língua possa ser representada somente por signos desse tipo. Esses signos também representam seus objetos por uma via metonímica, indexical. “A iconicidade dos signos pictográficos hieroglíficos é, além disso, freqüentemente enfraquecida através de abstrações. Com freqüência, o signo icônico também representa seu objeto somente pela via indireta, indexical (metonímica). Este é, por ex., a estratégia semiótica da 38 Lembrando, mais uma vez, a heterogeneidade das terminologias existentes, e mesmo a pouca definição de alguns conceitos, um estudo bastante abrangente e esclarecedor sobre as tipologias e classificações dos sistemas de escrita é o de PAULUK 2003, intitulado: “Sistemas de escrita: abordagens, tipologias, perspectivas em semiótica”. 107 apresentação pictográfica de processos. Assim, os caracteres hieroglíficos representando ‘duas pernas’ significam ‘andar’, um ‘olho com lágrimas’ representa ‘chorar’ e um ‘pássaro com asas abertas’ significa ‘voar’...” (NÖTH 2010: 4) Já os ideogramas, podem ser descritos como signos que representam idéias, mas sua diferenciação dos pictogramas é bastante problemática, já que ambos têm um forte componente icônico. Como exemplo, temos “determinados caracteres chineses” que são “muitas vezes, ícones diagramáticos” de seus objetos (NÖTH 2010: 5). O princípio de rébus é um interessante uso de um signo pictográfico ou ideográfico, que originalmente definido para a designação de determinado conceito, passa a ser utilizado para outro que é idiomaticamente homófono a ele. Um exemplo do inglês é o pictograma de um “olho” (‘eye’), que por homofonia pode representar a palavra “eu” (‘I’). No português poderíamos ter a imagem de nós (numa corda, por ex.), representando o pronome “nós”. “Um exemplo adaptado da língua alemã: o pictograma de um braço (‘Arm’) poderia também ser usado como signo rébus para representar o adjetivo ‘pobre’ (‘arm’), ou o pictograma de um banco poderia também servir como signo rébus para representar o conceito de ‘instituto monetário’. Tanto no sistema de escrita hieroglífica egípcia quanto na escrita chinesa existem caracteres segundo o principio do rébus.” (NÖTH 2010: 5) Já logógrafos ou logogramas, ou ainda signos semográficos, são caracteres39 ou combinações de caracteres que representam palavras, ou ainda, significados, embora sua definição possa confundir-se com os ideogramas ou ideógrafos. 39 A palavra caractere ou caráter, do grego kharaktêr, ‘o que grava, sinal gravado, marca, traço, sinal’ pode ser entendida como letra, número, símbolo (no sentido corrente da palavra) ou sinal de pontuação, etc., i.e., como figura usada na escrita. Na terminologia informática, pode designar: letra do alfabeto, algarismo, sinal de pontuação ou símbolo de qualquer natureza que pode ser introduzido em um computador pelo teclado ou por outro dispositivo de entrada, assim como exibido na tela ou em outro dispositivo de saída. (Cf. Dicionário eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa). 108 “Logógrafos encontram-se também associados a nossa própria tradição de escrita alfabética. Logógrafos são, por ex., caracteres como $, £, §, &, % ,+ ou –, e todos os algarismos arábicos de um dígito (de 0 a 9) são da mesma forma logógrafos (e ao mesmo tempo ideógrafos) que representam palavras inteiras.” (NÖTH 2010: 5) Como dissemos, Bringhurst apresenta uma classificação dos sistemas de escrita em virtude dos tipos de signos que cada sistema utiliza, que ele chama de matizes de significado, e que bem poderiam ser chamados de matizes de representação, já que se trata de estabelecer a relação entre os signos da escrita e o respectivos objetos que eles representam. Mas ele adverte que nenhuma taxonomia pode ser completa, e que todo sistema de escrita utiliza vários desses tipos de signos em maior ou menor grau: “A taxonomia que resumirei abaixo deve muito ao trabalho de Gelb e Daniels, embora apresente algumas discrepâncias em relação a ambos os estudos. Achei-a prática e útil, mas não há nenhuma garantia de que esta, ou qualquer outra taxonomia, seja efetivamente completa - uma vez que novos sistemas sempre podem ser criados, e várias escritas permanecem indecifradas (e, portanto, não classificadas). Os sistemas de escrita podem ser caracterizados como semográficos, silábicos, alfabéticos ou prosódicos. Estes quatro termos ou matizes de significado formam um círculo taxonômico simples. Distinções mais detalhadas são certamente possíveis, até mesmo úteis, em certas instâncias. O silábico, por exemplo, pode ser subdividido em logossilábico e alfassilábico. O prosódico pode ser dividido em semoprosódico e alfaprosódico. Mas nenhum termo - não importa quanto significado tenha - é, por si só, uma classificação satisfatória. A razão é que os sistemas de escrita são, à sua maneira, como liquens: entidades mutualísticas. Todo sistema desenvolvido pertence a mais de uma categoria, entre as quatro categorias primárias existentes.” (BRINGHURST 2006: 61,63) O interessante dessa classificação é a inclusão de caracteres semográficos, que também podem ser chamados logográficos, como vimos, e que podem ser considerados supra-lingüísticos. 109 “Em certo sentido, claro, uma escrita semográfica é supralingüística. Não faz nenhuma diferença (para alguns propósitos) se o símbolo 2 é pronunciado como dois, dos, deux, zwei, ni, (...). Embora muitas expressões possam ser grafadas em escritas semográficas com grande precisão, podem ser igualmente representadas em linguagem falada. (A expressão 1+1=2, por exemplo, será pronunciada de forma diferente nos idiomas inglês, grego e hebreu ...” (BRINGHURST 2006: 67) Outro ponto a destacar dessa classificação é a prosódia, que se constitui de características de entonação, como tom, duração, ênfase e pausa, mas que também é essencial à leitura silenciosa. Interessante notar a importância da prosódia, já que, não raro, a entonação com que uma palavra é proferida pode alterar totalmente seu sentido, como nos casos de ironias, sendo essa nuance passível de ser representada na escrita pelo uso de aspas. Ou seja, nesse caso, elas são usadas como um sinal semoprosódico, i.e., que transmite um significado por meio de uma modulação do som. “A vírgula, os dois-pontos, o ponto-e-vírgula, os parênteses, os colchetes, a interrogação, a exclamação e as aspas são sobreviventes de um grande rebanho de símbolos usados como sinais de prosódia por muitas gerações de escribas europeus.” (BRINGHURST 2006: 74,75) Bringhurst (2006: 64-70) apresenta sua classificação num diagrama que ele chama de círculo taxonômico simples das “capacidades dos sistemas de escrita”, que são representadas por meio dos quadrantes, cada qual se referindo a um dos quatro principais “tipos de informação lingüística tipicamente transmitida pelos sistemas de escrita”. O centro do círculo (num tom mais escuro) indicaria um tipo de informação completa em cada quadrante, sendo que o autor ressalta que “não há nenhuma escrita humana conhecida que transmita um nível completo de informações” em qualquer um dos quadrantes, embora toda escrita forneça algum tipo de informação em algum grau em um ou mais quadrantes. 110 A utilidade desse diagrama é incontestável. Nele encontra-se a possibilidade de visualizar a transcrição fonética dividida em letras (alfabética) e sílabas; e a transcrição semântica dividida em semografia e prosódia. Isso facilita muito a análise de alguns caracteres cuja definição é bastante imprecisa, como no caso de pictogramas, ideogramas e logogramas, entre os quais muitas vezes não há como estabelecer limites definidos e que podem ser todos considerados signos semográficos. Por outro lado, também é possível visualizar a existência de signos entre os quadrantes, como de fato acontece, já que existem sinais semoprosódicos na língua, tal qual exclamação e interrogação40, além de signos que ficam entre o alfabeto e a sílaba, o que não está previsto atualmente em muitas gramáticas ocidentais, mas que se constitui em uma das mudanças das novas grafias (ver capítulo V). Outros signos da escrita bastante difíceis de classificar, simplesmente por serem invisíveis, são os espaços interliterais e interlexicais, que além de essenciais à leitura, têm 40 Um exemplo interessante é o caso do português (e de outras línguas românicas), em que, diferentemente do inglês (e também outras línguas anglo‐saxônicas), não existe uma construção sintática que especifique se uma frase escrita se trata de uma ou pergunta ou não. A sentença: “Você vai à escola.” é uma afirmação com ponto final; diferentemente de “Você vai à escola?”, uma pergunta. A mesma sentença poderia ainda expressar dúvida ou insinuação com reticências “Você vai à escola...”; ou mesmo uma ordem, ou ainda, espanto e surpresa, com o uso de ponto de exclamação “Você vai à escola!”. 111 grande valor semântico na poesia. Podem ser considerados semográficos, pois embora não sejam propriamente grafados, estão presentes na forma de se grafar as línguas41. Outras possibilidades de signos mistos são os usos alfaprosódicos das letras, como por exemplo, o uso de letras maiúsculas para se expressar um grito ou ênfase, e a grafia em itálico, usada, por exemplo, para dar ênfase ou grafar palavras estrangeiras. Há ainda os logossilábicos, tão comuns às escritas orientais, em que um mesmo signo pode representar uma sílaba e/ou um significado. Mais uma característica semiótica do círculo taxonômico de Bringhurst é sua cor, que representa radialmente o nível de informação de cada signo em cada quadrante, o que permitiria, por exemplo, visualizar o uso da letra ‘h’ 41 Duas passagens não podem deixar de ser citadas neste estudo. A primeira porque mostra que nem sempre a escrita fez uso de espaços entre seus caracteres; e a segunda porque é altamente esclarecedora sobre o assunto. “O advento da escrita alfabética entre os gregos, com sua notação de vogais, reduziu o nível de ambigüidade intrínseca aos sistemas consonantais e possibilitou o abandono dos separadores interlexicais; esta modalidade de escrita sem qualquer pontuação ou espaçamento ficou conhecida como scriptura continua e ganhou uso generalizado entre aqueles que faziam uso dos alfabetos grego, romano e cirílico,e até mesmo do sânscrito ... A reintrodução da separação entre palavras se deu no início da Idade Média, com copistas irlandeses e anglo‐saxões trabalhando com textos gregos arcaicos, tornando‐se uma prática comum também na Itália e França renascentistas... Apesar de figurar claramente como um elemento complexo e de grande importância no estudo do funcionamento semiótico de diversos sistemas de escrita, a maior parte dos lingüistas que estudam a escrita parece simplesmente não notar a existência deste grafema.” (PAULUK 2003: 209) “Como é habitual no mundo dos sistemas de escrita, a diferença não reside nos signos, mas em como eles são usados. Aquele símbolo onipresente, embora invisível, conhecido hoje em dia como hard return, é um símbolo alfaprosódico em versos métricos, mas semoprosódico em listas de supermercado, alguns versos não métricos e, normalmente, em prosa literária. Os colchetes e os parênteses normalmente são semoprosódicos em textos literários, como também o são em notações matemáticas. Mas o mais importante símbolo de semoprosódia em uso geral é o wordspace. Ele é desnecessário em chinês clássico, no qual quase toda sílaba e símbolo escrito são palavras. Entretanto, pode ser útil no chinês moderno, no qual frases semânticas de duas e três sílabas excedem em número as palavras monossilábicas. Por outro lado, em matemática, o wordspace (ou algum signo equivalente que representa conjunção prosódica) é essencial. Muitos alfabetos passaram sem a semoprosódia, mas os que a absorveram a mantiveram. Ela é crucial à leitura silenciosa (que é, em essência, leitura semoprosódica) e, por esta razão, também é crucial para a velocidade da leitura. No fluxo normal de um texto em inglês, os símbolos alfabéticos excederão o número de símbolos semográficos e de prosódia em cerca de cinco para um (cerca de 75% a 80% dos signos não alfabéticos serão os espaços entre as palavras). Contudo, em um teclado normal, existem mais signos semográficos e de prosódia que letras alfabéticas.” (BRINGHURST 2006: 76,77) 112 na palavra ‘hospital’ em português, como um signo alfabético que não transmite nenhuma informação sonora, pois não é pronunciado. Todas essas vantagens se apresentam na tipologia que Bringhurst estabelece em função de seu correspondente diagrama estar baseado num continuum representativo, tanto entre os quadrantes como radialmente, diferente de outros diagramas e tipologias que pretendem estabelecer classes estanques, claramente delimitadas, onde fatalmente certos atributos híbridos são excluídos. Uma classificação bastante simplificada, adaptando-se o diagrama de Bringhurst e sem considerar signos ou usos de signos que ficassem entre dois quadrantes, mostraria que no caso do inglês e do português, seus correspondentes sistemas de escrita podem ser atualmente representados como no diagrama à esquerda, em que o tamanho de elipses pretas mostra a freqüência com que signos de cada tipo são utilizados. Tendências desses sistemas podem ser visualizadas à direita, como veremos em detalhes mais adiante, em que o uso silábico aparece, o alfabético diminui por conseqüência, e o semográfico e o prosódico são expandidos. 113 No capítulo V sobre as novas grafias, trataremos de como essas técnicas de transcrição da linguagem verbal estão sendo exploradas e reconfiguradas na hipermídia. Por outro lado, podemos observar semioticamente que, embora essas técnicas se constituam em signos que representam seus objetos segundo normas e convenções próprias dentro de cada sistema de escrita, na world wide web estão ganhando cada dia mais força expressiva (icônica) em função das possibilidades que o suporte eletrônico abre para sua utilização, contrariando teorias que consideram a transcrição fonética da linguagem verbal, i.e., simbólica, como o ápice do desenvolvimento de um sistema de escrita (cf. NÖTH 2010: 10). Ao termos uma visão sistêmica de suas transformações poderemos perceber como essa evolução é muito mais um produto de necessidades de adaptação e permanência, e que a iconicidade, indexicalidade e simbolicidade dos seus signos pode reinventar-se, simplificar-se ou complexificar-se para atendê-las. 114 Capítulo 4 - ESCRITA E HIPERMÍDIA “Vivemos em um mundo submerso e infuso na palavra escrita.” Steven Fischer (2006:291) 1. TECNOLOGIA E HIPERMÍDIA O século XX foi considerado a era das imagens e da proeminência dos meios audiovisuais. Nesse contexto, a escrita estava restrita aos meios impressos, nos quais se encontrava cada vez mais assolada por imagens em função da crescente facilidade em reproduzi-las. No entanto, às portas no século XXI, o texto escrito migrou para a tela dos computadores, absorvido pelos seus recursos e processos tecnológicodigitais que permitiram tratar todos os tipos de informação sob um mesmo princípio, a digitalização, que se constituiu, assim, em uma linguagem técnológica “universal” (SANTAELLA 2007: 300) que refuncionalizou o papel da escrita nos novos meios. “Na realidade, quando surge um novo meio de comunicação, ele não substitui o anterior ou os anteriores, mas provoca uma refuncionalização no papel cultural que era desempenhado pelos meios precedentes. Via de regra, um período inicial de impacto é seguido por uma readaptação gradativa até que um novo desenho de funções se instale.” (SANTAELLA 2007: 288) A partir de então, transformações profundas se iniciaram desde que essas tecnologias digitais entraram em uso, especialmente pelo surgimento de uma nova linguagem híbrida, mista, complexa, chamada hipermídia, em cuja base está a tecnologia digital, na qual quaisquer fontes de informação podem ser transmitidas em cadeias de bits, unidades binárias (0 e 1) de codificação de informação, e que se materializa pela integração de textos, imagens e sons de diversos tipos. Deve-se distinguir, assim, o advento de um novo canal, as tecnologias digitais, da linguagem que lhes é própria, a hipermídia, a fim de tornar possível uma visão clara das potencialidades 115 intersemióticas entre os mais diversos processos sígnicos que para ela confluem. Outro fator que costuma impedir uma visão dialógica, interativa e intersemiótica das linguagens decorre do hábito de se confundir uma linguagem com o canal que a veicula. As linguagens são estudadas de acordo com o suporte, meio ou canal que lhes dão corpo e em que elas transitam. (...) é evidente que o meio através do qual uma linguagem é veiculada tem importância soberana para se compreender a maneira como suas mensagens são produzidas, transmitidas e recebidas. (...) Contudo, a atenção ao canal veiculador das linguagens não deveria ser tão proeminente a ponto de nos cegar para as similaridades e as trocas de recursos entre os mais diversos sistemas e processos sígnicos.” (SANTAELLA 2001: 27) Nesse ambiente digital, o texto escrito se constituiu, de modo privilegiado, em uma das “marcas registradas da hipermídia” (SANTAELLA 2007: 292), uma vez que, apesar da mistura de linguagens, a maior parte da informação transmitida via rede se apresenta em forma de texto, e portanto, por meio da escrita. “... o texto escrito saltou do papel impresso para o sistema alfanumérico das telas eletrônicas. E aqui começa uma nova história do texto, a de sua absorção na hipermídia e sua conseqüente transmutação de sólido em líquido, de fixo em escorregadio, instável, volátil.” (SANTAELLA 2007: 293) Nesse sentido, o advento da hipermídia nesse novo suporte eletrônicodigital, significou uma mudança de natureza original, ímpar, na escrita, cujas proporções ainda não vislumbramos com clareza, mas que revelam novas práticas semióticas que este estudo busca investigar: “não se pode negar também a originalidade que diferencia as transformações que hoje se processam das ocorridas em outros períodos. Enquanto no passado elas eram desconjuntadas, hoje ocorrem de forma integrada, implicando, a um só tempo, novas técnicas de produção de textos, novos suportes de escrita e novas práticas de escrita. Essa revolução não se processa sem que se modifiquem também as práticas políticas, semióticas e jurídicas que interpõem e se associam à leitura e à escritura.” (BEIGUELMAN 2003:17) 116 2. HIPERMÍDIA: SISTEMA AMBIENTE DA ESCRITA Uma definição de hipermídia nos mostra como ela se constitui num ambiente de informação digital, pois ela pode ser considerada “a integração sem suturas de dados, textos, imagens de todas as espécies e sons dentro de um único ambiente de informação digital” (FELDMAN apud SANTAELLA 2007:317). Dessa forma, a hipermídia, encarada como um sistema ambiente, bem como a escrita que nela se processa, podem ser consideradas sistemas abertos e dinâmicos, não-lineares em função de sua complexidade, onde as relações entre seus elementos transformam-se com o tempo, e onde o todo é mais do que a simples soma das partes, já que resulta das constantes trocas, permutações e relações de mútua determinação entre elas, a exemplo da própria mente humana e da rede de conexões neurais de que ela se serve. “Já vimos que a hipermídia é uma tecnologia que permite escrita e leitura não-linear, o que favorece o desenvolvimento de um pensamento complexo. (...) Considera-se sistema, segundo Hirsch (1985:189-192), qualquer objeto de estudo composto por mais de uma parte, e que respeite a condição de que haja interação entre essas partes. Em outras palavras, a princípio, o estudo dos sistemas é uma tentativa de se tentar compreender o relacionamento entre elementos interativos. Sistemas dinâmicos, por sua vez, são aqueles que têm seu estado alterado com o tempo. Considera-se que o que muda e se transforma nos sistemas dinâmicos é o seu estado, ou seja, o relacionamento entre as partes do sistema. (...) O pensamento nãolinear compreende as questões dentro do conceito de sistemas, isto é, dentro de relações de troca e mútua determinação. (...) O conceito de nãolinearidade deriva da matemática e tem sido empregado de uma forma bastante freqüente, quando se fala de sistemas complexos dinâmicos. Hoje está totalmente fora de contexto alguém pensar que o todo é uma simples soma de suas partes. A ecologia e várias outras ciências já provaram que esse tipo de raciocínio linear não coaduna com a complexidade das relações dos sistemas envolvidos. Mesmo no caso da nossa mente, sabe-se que ela é governada por dinâmicas não-lineares de um complexo sistema que forma a rede neuronal e que percorre o nosso cérebro e o corpo como um todo.” (LEÃO 1999: 55-57) 117 Esse enfoque sistêmico da hipermídia traz consigo todas as características ontológicas próprias dos sistemas abertos (ver capítulo III), bem como todas as capacidades a elas ligadas. Isso significa que todos os fluxos de informação que se processam nesse ambiente são captados, elaborados e apreendidos resultando em mudanças constantes no próprio sistema ambiente, a hipermídia, e em todos os outros sistemas que com ele interagem, a exemplo da escrita. Outro aspecto a considerar é que esse ambiente não é linear, a exemplo do próprio pensamento humano, que nele encontra a possibilidade de expressar-se numa linguagem isomórfica, acrescida de recursos poderosos, que oferecem o meio propício para sua expansão, criatividade e desenvolvimento. 3. HIPERMÍDIA E HIPERTEXTO A codificação de informação em unidades binárias, base da hipermídia, possibilita a convergência de todas as mídias que a antecederam, além de garantir a manutenção da qualidade de sua reprodução em qualquer tempo e em quantos suportes se desejar, sejam eles eletrônicos ou não. “Essa mistura de áudio, vídeo e dados é que recebeu o nome de ‘hipermídia’, pois nasce da junção do hipertexto com a multimídia. Hipermídia se refere, portanto, ao tratamento digital de todas as informações (som, imagem, texto, programas informáticos) com a mesma linguagem universal, uma espécie de esperanto das máquinas. Tendo sua base na digitalização, foram dois os fatores que levaram à emergência da hipermídia: a hibridização das tecnologias e a convergência das mídias.” (SANTAELLA 2007: 318) Dessa forma, a hipermídia inaugura um novo tipo de linguagem, ou ainda, se constitui, ela mesma, num tipo inédito de linguagem, numa rede mundial, a Internet, para onde confluem informações das mais distintas naturezas, de suportes os mais variados (que antes se encontravam separados), e de todas as partes do globo. 118 “Um dos aspectos evolutivos mais significativo dessa conjuntura revolucionária está no aparecimento e rápido desenvolvimento de uma nova linguagem: a hipermídia. Antes da era digital, os suportes estavam separados por serem incompatíveis: o desenho, a pintura e a gravura nas telas, o texto e as imagens gráficas no papel, a fotografia e o filme na película química, o som e o vídeo na fita magnética. Depois de passarem pela digitalização, todos esses campos tradicionais de produção de linguagem e processos de comunicação humanos juntaram-se na constituição da hipermídia. Para ela convergem o texto escrito (livros, periódicos científicos, jornais, revistas), o audiovisual (televisão, vídeo, cinema) e a informática (computadores e programas informáticos). Aliada às telecomunicações (telefone, satélites, cabo) das redes eletrônicas, a tecnologia da informação digital conduziu à disseminação da internet que resultou da associação de dois conceitos básicos, o de servidores de informação com o de hipertexto. (...) O universo virtual das redes tem se alastrado tão exponencialmente por todo o planeta a ponto de produzir a emergência de uma nova forma de cultura, a cultura do ciberespaço ou cibercultura. (...) Trata-se, de fato, de uma linguagem inaugural em um novo tipo de meio ou ambiente de informação no qual ler, perceber, escrever, pensar e sentir adquirem características inéditas...“ (SANTAELLA 2001: 390) Tudo isso se integra por meio do sistema hipertextual, uma estrutura fluida, cartográfica. A hipermídia pode ser considerada então, uma “junção do hipertexto com a multimídia, esta formada pela justaposição de textos, sons e imagens das mais variadas ordens” (SANTAELLA 2007: 305) que configuram os ambientes de hipermídia, o que traz à tona duas principais características hipermidiáticas: coexistência de mídias e linguagens, como já vimos, e o hipertexto, “que permite ligações cruzadas entre diversas partes de um mesmo documento ou através de documentos diferentes. As ligações são realizadas a partir de elos (links) entre os diferentes pontos do sistema hipertextual.” (LEÃO 1999: 140) A partir de um documento presente em um servidor de informação, o usuário tem a possibilidade de navegar para outro texto em outro servidor, através de elos, verdadeiras encruzilhadas de informação que, de forma 119 ilimitada estão interconectadas em redes de computação interativa capazes de trocar informação entre os pontos mais distantes do globo, ligando pessoas e instituições em todo o mundo. Nesse ambiente, o texto digitalizado é reconfigurável livremente, organizado de forma não linear, reticular. “A hipermídia é uma extensão do hipertexto, pois não se limita à informação escrita, mas permite acrescentar aos textos não apenas os mais diversos grafismos (símbolos matemáticos, notações, diagramas, figuras), mas também todas as espécies de elementos audiovisuais (voz, música, sons imagens fixas e animadas). Em ambos os casos, o termo hiper se reporta à estrutura complexa alinear da informação.” (SANTAELLA 2001: 24) O hipertexto, com sua estrutura de elos (links) em rede, tem seus precursores nas conexões literárias (citações, referências, índices, etc.) que há muito vem sendo utilizadas. “Como o próprio Nelson42 assinalou, ‘o hipertexto, ou a escrita nãoseqüencial com liberdade de movimentação entre os links, é uma idéia simples e óbvia. É apenas a versão eletrônica das conexões literárias tal como já as conhecemos’.” (BEIGUELMAN 2003: 66) O link, geralmente representado por uma hotword, é a unidade básica do sistema hipertextual, pois é através dele que os diferentes pontos da world wide web estão interconectados, formando, por isso mesmo, uma rede entre as várias partes de um mesmo documento, ou entre diferentes pontos da internet, ou entre ambos concomitantemente. Dessa maneira, o texto tradicional foi absorvido por esse sistema de vínculos associativos não lineares entre diversos pontos do sistema, interligados por conexões conceituais, indicativas e visuais entre os mais diversos tipos de conteúdo. “Ao ser absorvido por esse novo suporte, o texto passou por transformações, por verdadeira mudança de natureza na forma de hipertexto, isto é, de vínculos não lineares entre fragmentos textuais associativos, interligados por 42 Theodor Holm Nelson, criador do termo hipertexto em 1965 (BEIGUELMAN 2003: 66). 120 conexões conceituais (campos), indicativas (chaves), ou por metáforas visuais (ícones) que remetem, ao clicar de um botão, de um percurso de leitura a outro, em qualquer ponto da informação ou para diversas mensagens, em cascatas simultâneas e interconectadas.” (SANTAELLA 2007: 299, 300) Essas transformações representam desafios para a escrita tradicional, que como é possível observar, já começa a responder a essas dimensões multilineares do sistema hipertextual. Bolter (apud LEÃO 2005: 112) chamou “escrita topográfica” a essa escrita que se processa nos sistemas hipertextuais, em que o conteúdo esta usualmente distribuído em tópicos, blocos de texto interconectados pelos elos da rede. Topos, do grego, significa “lugar”. Assim, a escrita topográfica, embora não se limite ao meio digital, já que é comum dividir-se um texto em tópicos e organizar essas unidades numa estrutura interconectada, apresenta essa característica de ser concebida como um “diagrama no espaço” de forma potencializada no sistema hipertextual. Nesse sentido, parece ter sido o advento do hipertexto que nos fez atentar para todas essas interfaces visuais dos textos em geral. “É curioso notar que deve ter sido o advento do hipertexto que nos tornou mais atentos à existência das interfaces visuais em quaisquer textos impressos. Conforme nos alerta Chartier (1996), depois de várias décadas de teorias puramente semânticas que tratavam o texto independentemente de seu suporte físico, os estudiosos das práticas culturais começaram a considerar os efeitos de sentido gerados pelas formas materiais inerentes aos textos.” (SANTAELLA 2007: 312) Se na escrita tradicional, sua estrutura topográfica pode ser indicada através da divisão em parágrafos, capítulos, sumários, índice analítico, bem como por meio das interconexões entre os tópicos que são encontradas nos índices remissivos, é a maximização dessa potencialidade da escrita que salta aos olhos em contexto digital, que oferece um “espaço de escritura” privilegiado para a exploração visual e espacial da escrita. 121 “o hipertexto é uma ‘rede de elementos simbólicos interconectados interativamente’. A ‘escrita topográfica’, por sua vez, é aquela na qual se divide o texto em unidades, os tópicos, de tal forma que se possa, num outro momento, organizar essas unidades numa estrutura coerente. (...) Bolter (1990) defende a idéia de que escrever sempre foi algo espacial. Isso porque ‘nós só podemos ver e compreender os signos se eles estiverem dispostos num espaço de pelo menos duas dimensões’. O hipertexto, por sua vez, nos oferece um método de exploração visual e conceitual do espaço de escritura (writing space) apresentado para nós pela tecnologia do computador (Bolter, 1990:105). A ‘escrita topográfica’ problematiza a questão da hierarquia (...) Em lugar de hierarquias, nós temos uma escrita que não é apenas tópica: nós podemos chamá-la também de ‘topográfica’. A palavra ‘topografia’ originariamente significava uma descrição escrita de um lugar, tal como um antigo topógrafo poderia fornecer. Mais tarde, a palavra começou a se referir ao ato de desenhar ou fazer um mapa - isto é, a uma descrição visual e verbal. Não é a escrita de um lugar, mas, mais propriamente, uma escrita com lugares, com tópicos concebidos espacialmente.” (LEÃO 1999: 111,112) O sistema hipertextual oferece, assim, todas as condições para que as caracterísiticas topográficas da escrita sejam exploradas, evidenciando suas qualidades espaciais e diagramáticas como nunca antes. 4. SUPORTE MULTIDIMENSIONAL DA ESCRITA A evolução da escrita está intimamente relacionada à mudança dos seus suportes materiais, sendo possível constatar, ao longo da história da escrita, como essas mudanças alteraram e reconfiguraram o modo de escrever. Pedra, argila, madeira, couro, entre outros, já foram os suportes principais da escrita. O papel, veículo da cultura impressa, tem suas origens nos antigos papiros. Apesar de que, a partir do surgimento de cada um desses suportes, mudanças e impactos específicos puderam ser observados, é imperioso notar que todos têm uma característica comum: sua bidimensionalidade. “Como mídia da escrita Gelb define também objetos tridimensionais. Signosobjetos encontram-se entre os precursores da escrita..., e hoje, 122 oportunamente, também em forma de objetos de design gráfico constituídos como letras. Todavia, a tridimensionalidade não é prototípica para todos os sistemas de escrita, mas sim a superfície de escrita bidimensional, em geral, branca... Apenas a bidimensionalidade é, com isso, valida para muitos teóricos também como traço distintivo da mídia escrita.” (NÖTH 2010: 11,12) Embora seja possível argumentar que pedra, madeira, por ex., são tridimensionais (e de fato são), a escrita que neles se processa fica limitada à bidimensionalidade. O mesmo ocorre com o papel, cujo advento, sem dúvida, permitiu um sem número de aprimoramentos bem como de explorações espaciais da escrita, mas que de igual maneira, só timidamente romperam com sua bidimensionalidade. Já a hipermídia funciona como um suporte multidimensional sem precedentes para a escrita, nascida da criação de hipersintaxes. “Longe de ser apenas uma nova técnica, um novo meio para a transmissão de conteúdos preexistentes, a hipermídia é, na realidade, uma nova linguagem que nasce da criação de hipersintaxes capazes de refuncionalizar linguagens (textuais, sonoras, visuais) que antes só muito canhestramente poderiam estar juntas, combinando-as e retecendo-as em uma malha multidimensional.” (SANTAELLA 2007: 320) As inovações introduzidas pela hipermídia não se refletem, apenas, na forma como a escrita é produzida e reproduzida. Ela se constitui numa forma inovadora de se produzir o texto escrito devido à sua fusão com as outras linguagens, o que transforma a escrita de forma inédita, “colocando em questão a natureza mesma da escritura e de seus potenciais” (SANTAELLA 2007: 294) já que o princípio da hipermídia instala-se no “âmago da linguagem”. “De fato, a linguagem digital realiza a proeza de transcodificar quaisquer códigos, linguagens e sinais, sejam estes textos, imagens de todos os tipos, gráficos, sons e ruídos, processando-os computacionalmente e devolvendoos aos nossos sentidos na sua forma original, o som como som, a escrita como escrita, a imagem como imagem. Entretanto, por ter a capacidade de colocar todas as linguagens dentro de uma raiz comum, a linguagem digital permite - sua proeza maior - que essas linguagens se misturem no ato mesmo de sua formação. Criam-se assim, sintaxes híbridas, miscigenadas. 123 Sons, palavras e imagens que antes, só podiam coexistir passam a se coengendrar em estruturas fluidas, cartografias líquidas para a navegação com as quais os usuários aprendem a interagir, por meio de ações participativas, como num jogo. Esse é o princípio da hipermídia, um princípio que se instala no âmago da linguagem.” (SANTAELLA 2007: 293, 294) Os suportes eletrônicos caracterizam-se, então, pela hibridização permitida pela digitalização e pela linguagem hipermidiática por ela introduzida “com seus processos de comunicação inteiramente novos, interativos e dialógicos” (SANTAELLA 2007: 293), o que revela sua natureza intersemiótica, já que seus sentidos se materializam somente na mistura e complementaridade entre esses diversos processos sígnicos que nele estão incorporados, consubstanciando-se, por isso mesmo, num suporte multidimensional para a escrita que nele se processa. Dessa forma, um dos elementos mais inovadores da hipermídia é o suporte, maleável, rápido, multidimensional, rico em possibilidades expressivas para o complexo pensamento humano, que não é linear nem seqüencial, e muito menos, fixo, o que tem conseqüências diretas sobre a escrita. “Os sistemas hipermidiáticos oferecem o suporte maleável e multidimensional mais adequado para exprimir o pensamento em sua complexidade do que os meios que dispúnhamos anteriormente, a oralidade e a escrita. Sabe-se que a mente humana não segue uma linha de raciocínio linear, tal qual o suporte impresso nos exige assumir. Mesmo a oralidade nos limita a uma só voz que, também, obrigatoriamente, segue no seu narrar. A complexidade dos processos mentais e corporais... tem agora a possibilidade de ser expressa em um espaço multidimensional. Um dos limites impostos pela escrita (quer seja ela em barro, papiro ou papel) é que ela promove uma fixação estável do pensamento. Com os computadores, estamos vivendo um outro tipo de experiência, a da ilimitada mutabilidade.” (LEÃO 1999: 65) 124 5. LINGUAGEM VERBAL E ESCRITA HIPERMIDIÁTICA As línguas e os sistemas de escrita estão em constante mudança. A passagem das escritas icônicas (pictogramas, ideogramas, hieróglifos, entre outros) às fonéticas ou simbólicas (p.ex., alfabetos, COULMAS 1989: 29) nos conta que a invenção das línguas foi lenta e gradual, passando por inúmeras transformações, tanto no léxico como no registro escrito, até chegar ao que conhecemos em nossos dias. Devido ao hibridismo da hipermídia, e sua síntese de recursos sonoros, visuais e verbais, a linguagem verbal assume características cada vez mais dinâmicas, híbrida também de propriedades de som e imagem, evidenciando-se sua capacidade de potencializar e maximizar as manifestações sígnicas da palavra (signo lingüístico por excelência) e de suas grafias. São essas três fontes básicas, a verbal, a visual e a sonora que se hibridizam e se reconfiguram mutuamente, dotando a escrita hipermidiática de características inéditas. “O que vale ainda acentuar é o fato de que toda mistura de linguagens da multi e hipermídia está inegavelmente fundada sobre três fontes básicas: a verbal, a visual e a sonora. Tanto é assim que os programas multimídia (softwares) literalmente programam as misturas de linguagem a partir dessas três fontes primordiais: os signos audíveis (sons, músicas, ruídos), os signos imagéticos (todas as espécies sígnicas de imagens fixas e animadas) e os signos verbais (orais e escritos).” (SANTAELLA 2007: 319, 320) Esse universo eletrônico-digital é um universo substancialmente de escritura, tanto no sentido do que nele escrevemos como no sentido do código escrito que lhe é subjacente. Essas formas da textualidade eletrônica são multimidiáticas, semioticamente híbridas, pois exploram as potencialidades que se abrem para a escrita, sua performatividade, fazendo dela uma atividade semiótica que usa as várias espécies de mídia que nela se manifestam. “Com a Internet, qualquer pessoa pode fazer uma tela eletrônica, seja o conteúdo em áudio, gráfico, textual, animado, em vídeo ou na mistura entre 125 eles. Isso tem um impacto direto não apenas sobre a escrita, mas sobre o que é a escritura.” (SANTAELLA 2004a: 164)43 Dessa forma, a e-escrita, aí incluída a e-poesia, ou poesia nas redes, já que os artistas são sempre aqueles a explorar de forma intensiva o potencial das novas tecnologias, não é linear, fixa, nem tampouco um arranjo de símbolos estáticos em uma página estável; pela primeira vez, um suporte lhe possibilita que ela se manifeste dinamicamente, através de “signos digitais”, permitindo novas codificações. Como na poesia de Cummings, “o modo como o corpo das palavras se comporta entra em perfeita isomorfia com o significado que se quer sensivelmente comunicar” (SANTAELLA 2004a:170). “a natureza híbrida dos signos digitais não pode ser separada dos signos visuais, verbais e auditivos. Programas especiais foram até desenvolvidos para a tradução de um signo escrito em tom e imagem, como por exemplo o Verbarium. As hipermídias permitem novas codificações, pois uma única superfície parece ser adequada para todos os sistemas sígnicos... Na web os signos escritos transformam-se em complexas cópias sígnicas. A integração de diversos sistemas sígnicos anteriormente separados é acelerada pelo computador.” (WENZ 2008: 259,260) E nessas espessas hibridizações hipermidiáticas entre o sonoro, o visual e o verbal, a fala, por sua vez, aparece como um “fluxo audível”, uma 43 A palavra escritura deriva do francês écriture, e para o filósofo contemporâneo Derrida (1930‐ 2004), se “constitui no jogo de diferenças que gera os processos de significação em qualquer forma de discurso, inclusive o falado, ao contrário do que concebe uma tradição lingüística e filosófica que considera a voz articulada ‐ em íntima conexão com a verdade da alma ‐ a origem da linguagem” (cf. Dicionário eletrônico Houaiss da língua portuguesa). Sobre essa concepção de escritura, Derrida postula o surgimento de uma nova ciência, a gramatologia, que substituiria a semiologia proposta por Saussure. Nesse sentido, vale ressaltar que a Semiótica de Peirce cuida e vai muito além de todas as questões levantadas por Saussure e que escritura, num sentido amplo, pode ser considerada a capacidade humana de grafar linguagens, de quaisquer tipos, em quaisquer suportes, não se restringindo à linguagem verbal. No Dicionário Larousse Illustré (100º.ed), encontramos: écriture, do lat. scriptura: representação da palavra e do pensamento por signos gráficos convencionais; sistema de signos gráficos que permitem essa representação. Ainda nesse sentido, pode‐se citar Coulmas: “Ao invés de dar uma definição formal de escrita, discutamos três de suas características fundamentais: 1) ela consiste de marcas gráficas artificiais numa superfície durável; 2) seu propósito é comunicar algo; 3) esse propósito é alcançado em virtude da relação convencional entre as marcas e a língua (language).” (COULMAS 1989: viii) 126 camada intermediária entre a língua e os meios em que é transmitida, fenômeno devido, em grande parte, ao aparecimento de diversos gadgets (celulares, pagers, etc.) em que a Internet se tornou uma rede móvel, no sentido de acompanhar seus usuários onde quer que eles estejam. Nesse estreitamento entre fala e escrita, é a escrita que se enriquece de atributos dinâmicos antes considerados propriedade exclusiva da fala. “Pode-se concluir, a partir disso, que a fala nos aparece hoje como uma camada intermediária, fluxo audível entre duas formas de escritura, a língua à qual está prescrita..., de um lado, e, de outro, na superfície material dos meios, oferecendo-se ao olhar, aparece a escritura fonética. Assiste-se, assim, em ambos os lados, a uma formidável sublevação da escrita contra qualquer exclusivismo e sobrevalorização da fala. Enquanto a lingüística e a psicanálise adensam a exploração do traço e da letra nos interstícios da fala, o surpreendente desenvolvimento dos meios de impressão e o advento de novos suportes para a escritura alfabética vêm também, a seu modo, reduzindo a pó as tradicionais oposições da riqueza vitalista da fala contra a uniformidade tediosa da escrita.” (SANTAELLA e NÖTH 1999: 68,69) Outra peculiaridade da linguagem verbal na hipermídia é aquela concernente à liberação da escrita de sua função de suplemento da fala, numa “corrupção da fonética”, temática de muitos trabalhos e experimentações digitais44, na tentativa de expandir os limites tradicionais do texto e da escrita: “Uma zona de fricção entre a letra e a locução é estabelecida aí, indicando um atributo radical da escrita eletrônica: a corrupção da fonética. Corrupção esta que ocupa o centro do trabalho da australiana Marie-Anee Breeze ... Definido pela autora como ‘network language system’, desenvolve uma textualidade única, que mescla símbolos matemáticos, códigos de programação e a iconografia da Web, cujo objetivo poético é criar, via Rede, uma escritura em camadas...” (BEIGUELMAN 2003: 46) 44 “O premiadíssimo I/O/D é não só referencia obrigatória nessa discussão, mas um marco histórico. Programa de visualização das informações da Web, lançado em 1997, e que já está em sua quarta versão, transforma as palavras em diagramas dinâmicos.” (BEIGUELMAN 2003: 69) 127 Depreende-se dessas experimentações a constatação de que os meios eletrônicos são mais do que receptáculos de conteúdos textuais e hipertextuais, “esses suportes são contextos de leitura nos quais as significações se constroem” (BEIGUELMAN 2003: 35), onde “implode-se” a horizontalidade da linha e a fixidez da diagramação numa rede mundial “fundada numa tecnologia da escrita que se rebela contra sua função de inscrever”, simplesmente (BEIGUELMAN 2003: 36). Como nos diz Leão (2005: 111), os meios eletrônicos oferecem “um espaço dilatado para a escritura, que se propaga em diversos sentidos, ‘multidimensional’, sem limites predefinidos”. Apesar de todas essas inovações, críticas45 têm sido feitas a respeito da estrutura da Internet ainda simular o aspecto hierárquico organizacional do códex, além da aparência do papel que ainda subsiste em muitas de suas interfaces, resultando num formato ainda bastante linear se consideradas as possibilidades que as novas tecnologias disponibilizam. “É o não-reconhecimento dessas especificidades [das novas tecnologias] o que explicaria a preponderância do formato linear da Internet, podendo-se dizer que a grande parte do conteúdo hipertextual disponível não passe ainda de uma massa de textos e imagens clicáveis que reitera as convenções formais de organização do volume impresso, trocando, na velha divisão do índice em capítulos, a referência ao número da página pelo link.” (BEIGUELMAN 2003: 68) Fica claro, desse modo, que a hipermídia ainda é uma tecnologia em desenvolvimento, passível de grandes mudanças tanto estruturais quanto em sua aparência, e que no futuro, será imperioso pensar modelos de 45 “Os paradigmas fundamentais do mundo da computação são simplesmente tradições. Os princípios básicos do computador, tal qual os ensinamos, dizem respeito a convenções e não à realidade. Os computadores hoje, basicamente, simulam duas coisas: hierarquia e papel. A hierarquia foi cuidadosamente colocada na estrutura dos arquivos do computador porque os que assim o fizeram consideraram‐na correta, natural e a única forma. O papel foi também simulado na estrutura dos computadores porque parecia correto, natural e a única forma. Acredito que ambas são formas de aprisionamento que constrangem e distorcem o nosso trabalho e nosso pensamento. (...) Desse modo, esses dois formatos glorificam a aparência em detrimento da administração do fluxo de conteúdo ...(NELSON apud BEIGUELMAN 2003: 67) 128 hipertextualidade para além dos paradigmas da cultura impressa (BEIGUELMAN 2003: 66) em estruturas não-hierárquicas e em um ambiente que não simule o papel, de forma a dar conta do rompimento das noções de página e volume (Idem 2003: 77). Seria, dessa forma, ingenuidade pensar que o advento dessas novas formas midiáticas da escrita permitem, por si só, novos exercícios de autoria (BEIGUELMAN 2003: 54), sendo necessário levar suas conseqüências para além da mera utilização dos diversos tipos de mídias embutidas em seus códigos, iniciando a reflexão sobre como “criar sentido” ao invés de simplesmente “distribuir conteúdo” nessas novas tecnologias da escrita. No entanto, por tudo que ela já possibilitou à exploração do potencial da escrita, a escrita hipermidiática já é chamada de e-escrita, ou escrita em meios eletrônicos, em função de características singulares que se diferenciam de todas as modalidades que a precederam. “Brotando da convergência fenomenológica de todas as linguagens, a hipermídia significa uma síntese inaudita das matrizes da linguagem e pensamento sonoro, visual e verbal com todos os seus desdobramentos e misturas possíveis. Nela estão germinando formas de pensamento heterogêneas, mas, ao mesmo tempo, semioticamente convergentes e não lineares, cujas implicações mentais e existenciais, tanto para o indivíduo quanto para a sociedade, estamos apenas começando a apalpar.” (SANTAELLA 2001: 392) 6. ICONICIDADE DA ESCRITA EM AMBIENTES HIPERMIDIÁTICOS Uma das grandes mudanças que se apresentam na reconfiguração da escrita é sua crescente iconicidade, daí acreditarmos que a investigação da escrita hipermidiática como sistema em constante intercâmbio com seus suportes (sistema ambiente) abre novos caminhos na compreensão dos seus processos evolutivos. Assim, embora este tópico sobre iconicidade também pertença à discussão da natureza semiótica da escrita, é sua conexão com as funções sistêmicas e o sistema ambiente que abordaremos aqui. 129 Os sistemas de escrita contam com regras mais ou menos flexíveis que determinam sua utilização. Mas para que se mantenham eficientes, face às constantes mudanças por que passam as condições em que são utilizados, eles devem se adaptar ao ambiente e às suas transformações. Isso significa que todo sistema de escrita é aberto, dinâmico, passível de modificações a despeito de todos aqueles que tentam “cristalizá-lo” em gramáticas e dicionários dos mais variados tipos. Dito de outro modo, um sistema de escrita, como qualquer outro sistema, precisa evoluir para permanecer, adaptando-se ao meio ambiente que o envolve e aos diferentes usos e necessidades dos seus usuários. No caso da escrita, parece-nos evidente como a mudança na natureza dos seus suportes geraram a necessidade de sua evolução adaptativa. O próprio Saussure destaca as constantes mudanças a que o todo da linguagem verbal está submetido: “A língua - e esta consideração sobreleva todas as demais - é, a cada momento, tarefa de toda a gente; difundida por u’a massa e manejada por ela, é algo de que todos os indivíduos se servem o dia inteiro. (...) da língua... cada qual participa a todo instante e é por isso que ela sofre sem cessar a influência de todos.” (CLG 88) Interessante notar, nesse esforço adaptativo da linguagem verbal na hipermídia, a quantidade de conteúdo imagético que se infiltra nos textos, nas mais diversas modalidades, o uso de caracteres de natureza icônica cada vez maior, bem como a diagramaticidade da escrita que se processa nesses meios hipertextuais. Segundo aponta Michael Shapiro, autor da teoria semiótica das mudanças lingüísticas, a evolução da linguagem verbal caminharia para uma maior iconicidade diagramática. “Na teoria semiótica das mudanças lingüísticas (language change), a evolução da língua em direção a uma maior adequação entre forma e conteúdo e rumo a paradigmas mais coerentes e completos tem sido interpretada como um movimento em direção a uma maior iconicidade diagramática.” (NÖTH 1999:615) 130 Esse aumento de iconicidade que pode ser observado e que não se restringe somente à sua forma diagramática, parece estar ligado à demanda por uma maior eficiência do sistema de escrita nesses suportes, que tenderá a complexificar-se para atender às diversas novas necessidades que as características também cada vez mais complexas dos ambientes hipermidiáticos impõem. Nesse sentido podemos observar uma ativação da “função memória” do sistema, através da qual todo sistema se vale de sua “experiência” passada, para garantir sua autonomia face a transformações nos demais sistemas com os quais mantém intercâmbios, e dessa forma, assegurar sua permanência (sobrevivência) no futuro. Como vimos no capítulo III, a função memória de um sistema tem um caráter histórico, conectando o presente do sistema ao seu passado. A escrita surgiu embasada por todos os desenvolvimentos pictográficos prévios da humanidade, que fala há mais ou menos 50.000 anos, desenha há pelo menos 35.000, e escreve somente há cerca de 5.000. É nesse sentido que vislumbramos um estoque sígnico de natureza icônica na escrita, que tendo sido separada de seu caráter imagético com o advento do alfabeto, agora ressurge, novamente híbrida de propriedades de imagem, som e texto, ressaltando aspectos importantes de sua trajetória que talvez tenham sido negligenciados na Era de Gutemberg. “De fato, se considerarmos o vasto papel que a imagem desempenhou na escrita em geral (pinturas rupestres, escrita chinesa, hieroglífica etc.) a era do códex pode ser considerada como um período aberrante quando o texto e a imagem foram temporariamente isolados um do outro.” (SANTAELLA 2004a:166) Mudam os suportes, as necessidades, e como qualquer sistema, a escrita precisa evoluir para continuar a cumprir suas funções dentro de novos contextos. A iconicidade do sistema de escrita, ou seja sua semelhança com os objetos representados por seus signos (segundo o conceito peirceano de 131 ícone, ver capítulo I), foi o ponto de partida de seu surgimento e agora parece ser a característica que mais está se complexificando para que o sistema consiga manter a ponte com o real necessária à sua permanência. A escrita deve captar em sua malha sígnica características das três entidades: fala, língua e linguagem, além de ser adaptável ao meio ambiente que a envolve, sensível às variações externas, sejam elas de que natureza forem, culturais, científicas, históricas, geográficas, políticas, entre tantas outras, garantindo, assim como um sistema vivo, o grau de coerência com o real necessário à sua eficiência, e portanto, à sua permanência, à sua continuidade. Nesse sentido, a escrita parece estar se complexificando para corresponder a uma nova visão do real: “Contudo, no pensamento científico contemporâneo, começa a emergir a noção de um multiverso, a ‘n’dimensões, suportado por uma teoria de mundos paralelos. Como exprimir lingüisticamente uma tal visão multifacetada do Real? O cibertexto, na sua multiplicidde variacional intrínseca, parece constituir de certo modo uma estrutura textual homóloga do modelo de um multiverso.” (BARBOSA 2009: 357) Interressante notar, neste ponto, a quantidade de “línguas mortas” que existem, sistemas que deixaram de exercer um intercâmbio dinâmico com o ambiente em que eram utilizados. É nesse sentido que um sistema de escrita deve estar pronto para adaptar-se às imposições do real, do existente, daqueles fatores que insistem e persistem a despeito do que possamos deles pensar. Todo sistema precisa entrar em certa isomorfia semiótica com o real, utilizando-se dessa informação para nele subsistir. É essa a reconfiguração pela qual, hoje, a escrita passa, nos mais diferentes níveis. “Parece inegável, principalmente através do conceito de Umwelt [ambiente], que o semioticamente real tem suas raízes em aspectos do real: nossa percepção e, de maneira geral, nossa cognição, contêm mapas iso ou homomórficos com a realidade, pois se assim não fosse os sistemas vivos não sobreviveriam, não conseguiriam atingir os graus de coerência com o real necessários para a permanência.” (VIEIRA 1999: 155) 132 Tanto a iconicidade imagética, diagramática e metafórica, quanto a mutidimensionalidade da escrita hipermidiática, que nada mais é que uma iconicidade (isomorfia) em relação ao real, cumprem a função de adaptar o sistema de escrita ao sistema ambiente, seja ele o suporte em que ela se desenvolve ou ainda a própria concepção do real, que vai se aprimorando para refleti-lo com crescente acuidade. É esse real, peirceanamente definido, e que Saussure chama de tempo, que se impõe, fruto da conjunção das mais diversas variáveis, tanto aquelas que não apreendemos totalmente, como daquelas que percebemos e de tantas outras sobre as quais não temos como intervir. Saussure, apesar de distante dos conceitos de legissigno, evolução e continuidade, tão bem definidos por Peirce, bem como dos conceitos de sistema e ambiente tão presentes na ciência contemporânea, percebeu todas essas nuances ao observar a imutabilidade e mutabilidade do signo nesta passagem memorável: “O tempo, que assegura a continuidade da língua, tem um outro efeito, em aparência contraditório com o primeiro: o de alterar mais ou menos rapidamente os signos lingüísticos e, em certo sentido, pode-se falar, ao mesmo tempo, da imutabilidade e mutabilidade do signo. Em última análise, os dois fatos são solidários: o signo está em condições de alterar-se porque se continua. O que domina, em toda alteração, é a persistência da matéria velha; a infidelidade ao passado é apenas relativa. Eis porque o princípio de alteração se baseia no princípio de continuidade. (...) Isso se vê bem pela maneira por que a língua evolui; nada mais complexo: situada, simultaneamente, na massa social e no tempo, ninguém lhe pode alterar nada e, de outro lado, a arbitrariedade de seus signos implica, teoricamente, a liberdade de estabelecer não importa que relação entre a matéria fônica e as idéias. Disso resulta que esses dois elementos unidos nos signos guardam sua vida, numa proporção desconhecida em qualquer outra parte, e que a língua se altera, ou melhor, evolui, sob a influência de todos os agentes que possam atingir quer os sons, quer os significados. Essa evolução é fatal; não há exemplo de uma língua que lhe resista. (...) 133 A continuidade do signo no tempo, ligada à alteração no tempo, é um princípio de Semiologia geral; sua confirmação se encontra nos sistemas de escrita ... As causas da continuidade estão a priori ao alcance do observador; não ocorre o mesmo com as causas de alteração através do tempo. ... o tempo altera todas as coisas; não existe razão para que a língua escape a essa lei universal.” (CLG 89-91, grifos nossos) Suassure afirma ainda, não ser ele próprio bastante claro em relação à necessidade das mudanças (CLG 91) em função de não distinguir “os diferentes fatores de alteração”. Essa tarefa a teoria sistêmica parece cumprir com clareza. Quanto à natureza das transformações, é a teoria peirceana que nos dá o norte. Além disso, é impressionante a similitude entre o vocabulário de Saussure e o de Peirce, especialmente se observarmos que suas teorias vêm de fontes tão distintas. Mais uma vez aqui, confirmamos o que Peirce postulou sobre o real que se impõe, num caminho assintótico, rumo à verdade (ver capítulo I). 134 Capítulo 5 - RECONFIGURAÇÃO DA ESCRITA: NOVAS GRAFIAS “Ninguém pode se tornar um homem de letras, como se diz, sem reconhecer sua aparência, bem como seu som e suas várias notações.” Jonathan Williams (1967 in Solt 1969: 85) 1. CONSIDERAÇÕES INICIAIS Esta parte final do presente trabalho, e que se constitui também em um dos objetivos principais desta pesquisa, visa a analisar teoricamente as transformações pelas quais passa a escrita no ambiente hipermidiático. Todas as transformações a que hoje assistimos foram sendo gestadas lentamente, no decorrer da história da humanidade, que aprendeu a desenhar antes de escrever, desenvolveu sua sensibilidade e capacidade representativa nos mais diversos suportes, técnicas e linguagens, culminando, no século XX, com a criação uma avalanche de novas mídias que se sucederam incessantemente até o advento da hipermídia, às vésperas do século XXI. O código alfabético, portanto, recebeu e processou todos esses fluxos de informação. “Com o crescimento e sofisticação da imprensa e da publicidade, a partir do início do século, novos campos de possibilidades, no tamanho e variação dos tipos gráficos e no uso substantivo do espaço, foram se abrindo rumo à exploração da natureza plástica, imagética, do código alfabético. Mais revolucionária, no entanto, seria a recente introdução desse código nos meios eletrônicos. Desde o videotexto, com a lenta varredura das letras em luz-cor, até a chegada dos computadores pessoais e domésticos, ‘recursos antes restritos aos profissionais do design gráfico, técnicos em tipografia ou em fotocomposição, complicados de usar ou com alto custo de produção se ampliaram e deixaram de ser obscuros para qualquer usuário...’ Além disso, já nos meios gráficos, impressos, também se assistia ao desabrochar de uma nova linguagem híbrida, entretecida nas misturas entre a palavra e a imagem diagramática e fotográfica. Agora, com a nova geração de designers gráficos que se deliciam na manipulação das letras, palavras, configurações 135 e desenhos nas telas informatizadas movidas a luz e cores que se multiplicam ao infinito, esse código híbrido já preenche todas as condições para se tornar dominante.” (SANTAELLA e NÖTH 1999: 68,69) Para as análises que se pretendem neste estudo, deve ficar claro, no entanto, que identificar um signo classificando-o dentro de uma tipologia não demonstra, automaticamente, o modo ou o motivo pelo qual ele assumiu essa configuração dentro de um determinado contexto, nem tampouco determina, necessariamente, quais mudanças se seguirão na continuidade do processo de semiose. Serão utilizadas, primeiramente, as classes de signos elaboradas por Peirce que foram explicitadas no capítulo I. Embora essa abrangente classificação de signos possa ser considerada suficiente para dar conta da maior parte dos desafios que a escrita apresenta atualmente, como já dissemos, elas se constituem em conceitos altamente abstratos e cujo instrumental teórico pode e será complementado pelos tipos de signos dos sistemas de escrita apresentados no capitulo III, que enfocam atributos sígnicos específicos da escrita, e cuja compreensão, acreditamos, pode apontar possíveis caminhos pelos quais a escrita venha a se desenvolver. Os exemplos a serem analisados foram selecionados pelo critério da freqüência com que são utilizados, ou seja, foram escolhidos os tipos mais representativos das transformações mais usualmente observadas, por acreditarmos que esse critério adéqua os exemplos aos objetivos que guiam a pesquisa, e por acreditarmos, igualmente, que sua seleção e análise poderão contribuir para a compreensão teoricamente fundada das transformações da escrita na hipermídia. Ao longo da pesquisa de casos práticos, tanto na Internet como no livro de David Crystal, “Txtng the gr8 db8” 46 , que lista exemplos de mais de dez línguas diferentes, inclusive orientais, como o chinês, foi possível 46 O livro de Crystal lista exemplos em inglês, chinês, tcheco, holandês, finlandês, francês, alemão, italiano, português, espanhol, sueco e galês (2008: 189‐229, apêndices A e B), além de fornecer endereços na web para busca de exemplos em outras línguas. 136 observar que a escrita hipermidiática, em todos os países e culturas onde é usada, sofre grande influência do inglês, que como nos diz Chartier, foi transformado numa espécie de língua franca eletrônica, cujos procedimentos de simplificação da gramática, de invenção de palavras e de multiplicação de abreviaturas são usados de forma semelhante por outras línguas, embora isso não signifique o desaparecimento das características próprias de cada uma delas. “De uma forma mais encoberta do que no caso das línguas inventadas no século XIX, o inglês, transformado em “língua franca” eletrônica, é uma espécie de língua nova que reduz o léxico, simplifica a gramática, inventa palavras e multiplica abreviaturas (do tipo I you).” (CHARTIER 2002: 17) Outra característica observável, e que se deve, por um lado, ao forte conteúdo icônico dessas novas grafias, e por outro, ao crescente uso de signos semográficos, é a de que essas novas formas têm algo de língua universal, que procura expressar o pensamento humano de maneira nãoverbal, supra-lingüística. Como bem ressalta Chartier, “Por um lado, o texto eletrônico reintroduz na escrita alguma coisa das línguas formais que buscavam uma linguagem simbólica capaz de representar adequadamente os procedimentos do pensamento. (...) É o caso da invenção dos símbolos, os emoticons, como se diz em inglês, que utilizam de maneira pictográfica alguns caracteres do teclado (parênteses, vírgula, ponto e vírgula, dois pontos) para indicar o registro de significado das palavras: alegria:-) tristeza :-( ironia ;-) ira :-@... ilustram a procura de uma linguagem não-verbal e que, por essa mesma razão, possa permitir a comunicação universal das emoções e o sentido do discurso.” (CHARTIER 2002: 16,17) Se no início, o computador cumpria muitas das funções que eram realizadas em papel, com o desenvolvimento de toda uma geração de gadgets para a comunicação interpessoal, a e-escrita assumiu uma forma de oralidade que até então pertencia exclusivamente à fala. Até o advento desses aparelhos, fala e escrita estavam separadas por limites mais ou 137 menos definidos, ao passo que hoje se encontram lado a lado em chats, emails, messagers, etc. Em conseqüência, o conceito de economia no que diz respeito ao código alfabético também passa por transformações. O alfabeto romano tem sido considerado uma ferramenta extremamente econômica em função de seu número limitado de caracteres possibilitar uma quantidade quase infinita de combinações. Essa economia sígnica foi sem dúvida de grande valia em diversos aspectos, entre os quais, a divulgação do alfabeto nos seus primórdios e a aprendizagem da escrita por um maior número de pessoas e culturas. No entanto, na hipermídia, já não é a economia da quantidade de caracteres que conta, mas sim a economia de tempo, a velocidade e a facilidade de digitar o texto escrito, necessidades que se impõem mais a cada dia. 2. PRECURSORES Na poesia encontramos a linguagem verbal elevada à sua potência máxima, pela tentativa de expressar a miríade de sentimentos, emoções, sonhos e desejos humanos. Por esse motivo, nela encontram-se os precursores na exploração das potencialidades sígnicas da palavra. Tanto ao longo da história, como agora, com o advento da hipermídia, são os artistas e poetas os responsáveis pela exploração estético-vanguardista dos novos suportes da escrita. “Ao longo da história humana, todas as vezes que houve mudanças no suporte da escrita, foram os artistas e poetas que tomaram a dianteira na exploração de seus potenciais para a criação. Na continuidade dessa tradição, hoje são os artistas e poetas que estão extraindo das novas mídias características inéditas da escritura, tanto no nível da aparência da escrita quanto no nível de seu sistema de codificação interno.“ (SANTAELLA, 2007a: 333) Os artistas, verdadeiros faróis da humanidade, sempre demonstraram essa capacidade de expandir nossos horizontes sígnicos em movimentos artísticos que propunham investigar as potencialidades latentes dos mais 138 diferentes tipos de linguagens. No que tange à palavra escrita, Pignatari nos diz que uma verdadeira “ideografia ocidental” foi inaugurada no século XX, expressão que traduz com clareza muitas das transmutações que se processam atualmente na sua codificação: “Nos fins do século passado e começos do presente, a palavra escrita impressa havia atingido o ponto máximo de sua curva ascendente, enquanto meio hegemônico de comunicação de massa, e algumas de suas manifestações (como o cartaz publicitário e o Un coup de dés) já eram índices de que ela estava inaugurando um novo mundo da codificação - o moderno mundo da ideografia ocidental.” (PIGNATARI 1979: 84) Dessa forma, os séculos XIX e XX foram férteis em explorações espaciais, gráficas e tipográficas inovadoras, e muitos artistas e poetas poderiam ser citados como precursores ou, melhor ainda, como exploradores de vanguarda das potencialidades sígnicas do conjunto de sistemas verbivocovisual de que se vale a linguagem verbal para expressar-se. Na impossibilidade de citá-los todos, alguns deles são: Edgar A. Poe (18091849), Stéphane Mallarmé (1842-1898), Machado de Assis (1839 - 1908), Guillaume Apollinaire (1880-1918), James Joyce (1882-1941), Vicente Huidobro (1893-1948), e.e.cummings (1894-1962) e Ezra Pound (18851972), e o movimento da poesia concreta. A seguir examinaremos alguns exemplos mais detalhadamente. 2.1. Edgar Allan Poe A obra de Poe (1809-1849) inspirou três dos maiores poetas franceses: Baudelaire, Mallarmé e Valéry. Escritor, jornalista e tipógrafo, utilizou em seus contos procedimentos de linguagem que operam sobre a própria materialidade dos signos verbais. Uma grande obsessão de Poe foram os processos de espelhamento e reversão dos signos. No famoso poema The raven, a estrofe que diz: “Quoth the raven, "Nevermore!"”, se repete diversas vezes no poema. Raven, que significa corvo em inglês, é um anagrama de never (nunca), a palavra que o 139 corvo repete insistentemente. Em O escaravelho de ouro, o personagem William Legrand vai morar sozinho numa ilha chamada Sullivan Island, que possui quase todos os fonemas do nome do personagem. “Trata-se de uma espécie de manuseio que se processa na medula da maquinaria combinatória dos fonemas e estruturas lingüísticos, produzindo jogos fônicos e sintáticos os mais diversos (figuras de som e sentido ou de forma e sentido) que, em Poe, vão apresentar como constante aquilo que poderia ser chamado de obsessão pelos processos de inversão ou reversão do signo sobre si mesmo. (...) E, em termos sonoros, trata-se... [de] interações, junturas e revérberos de som e sentido, onde a poesia continuamente instala os seus parentescos e afinidades eletivas entre significante e significado, contestando, pelo menos em seu domínio específico, o postulado saussuriano da arbitrariedade do signo lingüístico. É infinito o número desses procedimentos em Poe...” (SANTAELLA 1986: 179,180) Sob a luz da semiótica, acreditamos que a influência de Poe foi tão grande devido ao fato dele saber tão bem que o verbal pode se expressar também de formas icônicas e indiciais, que se encontram encapsuladas no simbólico, e que ao serem evidenciadas, tecem “malhas pluralistas de linguagem” em operações intersemióticas. “... consideramos, ao contrário (para sermos mais fiéis às operações intersemióticas), que o próprio E. A. Poe sabia muito bem que o verbal não precisa sair de si mesmo para encontrar outros códigos, pois os níveis icônicos e indiciais (formas, imagens, desenhos, diagramas, pegadas, bússolas de orientação...) já se encontram encapsulados, embutidos no próprio verbal. Poe vira, na realidade, o verbal pelo avesso, desentranha-o, desnuda-o, fazendo aflorar as camadas não-verbais em igualdade de direitos e numa convivência democrática com o verbal, criando tecidos híbridos e espessos, malhas pluralistas de linguagem.” (SANTAELLA 1986: 183) Um fato inusitado merece destaque: Poe chegou mesmo a inspirar Peirce (1839-1914), que ensaiou criativamente experimentos no campo da “arte quirográfica” (MS 1.539), “enriquecendo de novas dimensões a palavra escrita e sugerindo novas correspondências aos níveis falado e sonoro”, que 140 como bem comenta Pignatari, mostram que “na mente e sensibilidade de Peirce, coerem teoria e prática”: “trata-se de algo assim como iluminuras expressionistas, que vão tecendo comentários não-verbais ao poema O corvo, de Poe... e a um texto que me parece a abertura de um salmo (“Estranhas coisas se murmuram de ti, Sião, cidade de nossa rainha”)... As aparentes garatujas introduzem no poema, ou melhor, extraem dele ícones interpretativos, transcodificando-o em outro nível semiótico por meio de acidentes e ligaduras que conferem ao todo estranhas vibrações. As palavras e versos se ligam mediante uma sintaxe visual direta sobreposta à sintaxe verbal e à sintaxe analógica (correspondências sonoras e grafotipográficas) inerentes ao poema. Certos traços, como que interrogativos, ficam suspensos no vazio, pensamento não-verbal; palavras e grupos de palavras se associam iconicamente em relações visuais novas. Ícones de terror vibram, além do verbal: novos significantes icônicos para os significantes verbais.” (PIGNATARI 1979: 52) À esquerda, o poema de Poe em que Peirce fez as intervenções quirográficas (in BRENT 1998: 330). À direita, o salmo submetido ao mesmo experimento, publicado em negativo (in PIGNATARI 1979: 51). 141 2.2. Stéphane Mallarmé Poeta francês, Mallarmé (1842-1898) participou do movimento simbolista, e promoveu uma renovação da poesia na segunda metade do século XIX, sendo que sua obra caracteriza-se pela experimentação gramatical e espacial da língua. Un coup de dés (1897), um de seus poemas mais conhecidos, é composto de versos livres e tipografia revolucionária, tendo sido de importância seminal para o movimento da poesia concreta, pelo caráter diagramático da linguagem verbal que buscou evidenciar: “os poetas concretos compreenderam como poucos que o Lance de dados transpôs o limiar da escrita ocidental como mero desenho do som para uma indagação aberta no seio do possível e impossível da escritura. Em virtude disso, o aspecto visual do poema de Mallarmé é apenas uma conseqüência superficial de uma revolução mais visceral que aquilo que os olhos podem perceber. A questão mallarmeana diz respeito a outro tipo de visualidade, a visualidade estrutural ou diagramática. Toda grande poesia, mesmo oral, e principalmente a música (não por acaso foram as sinfonias que inspiraram Mallarmé), é portadora dessa visualidade que só pode ser sentida na sincronicidade dos sentidos. Trata-se dos diagramas internos, fluxos e refluxos das analogias, força de atração e repulsão das semelhanças e diferenças, energias do tempo e do espaço, tudo isso configurado nas malhas da linguagem, o que tem muito pouco que ver com o visual meramente ótico.” (SANTAELLA 2007: 341) 2.3. Poesia concreta A poesia concreta impôs-se como a expressão mais viva e atuante da vanguarda estética brasileira a partir dos anos 50. O grupo formado por Décio Pignatari e os irmãos Augusto e Haroldo de Campos, foi quem deu o pontapé inicial na exploração da sintaxe espacial e verbivocovisual da palavra, que teve representantes em muitos outros países. Os trabalhos são regidos pela idéia de extrema condensação, ocupando a página com uma diagramação calculada que procura, para além da sintaxe tradicional das palavras, outras articulações e um ritmo mais propriamente plástico. Os textos são compostos especialmente pela 142 fragmentação e/ou fusão de palavras, com exploração da tipografia e das diferentes cores em que são impressas as palavras de um mesmo poema. Os poemas caracterizam-se pela sua natureza experimental, fruto da procura constante de novas soluções de linguagem. Precisamente neste aspecto, é que a poesia concreta pode ser considerada como precursora das transmutações da escrita que hoje se processam, já que seus procedimentos buscam atingir e explorar as camadas materiais do signo: o som, a letra, a linha, a superfície da página, a cor, a tipografia, e, por isso, levam a comunicação dos sentidos a se perfazer no nível da própria estrutura verbo visual. “A poesia Concreta posicionou-se como uma poética da objetividade, tentando, simplesmente, posicionar suas premissas nas raízes da linguagem, com a intenção de criar novas condições operacionais para a elaboração de um poema na esfera da revolução tecnológica. Tecnicamente, os poetas concretos podem ser distinguidos de seus antecessores pela radicalização e condensação dos meios de estruturar um poema, no horizonte dos meios de comunicação da segunda metade do século. Isso implica, entre outras características, no seguinte... explicitar a materialidade da linguagem nas suas dimensões visual e sonora; passagem entre os níveis verbal e nãoverbal.” (AUGUSTO DE CAMPOS apud FRANK 2004: 155, grifos nossos) Em função da poesia concreta ter se desenvolvido no seio da revolução tecnológica do século XX, muitos de seus poemas serviriam de exemplo no presente estudo. Três deles, no entanto, merecem destaque pela forma como antecipam usos que hoje se desenvolvem na hipermídia. O primeiro é um poema que explora a iconicidade de alguns sinais que estão presentes nos teclados dos computadores, e que igualmente se encontravam nas máquinas de escrever. Ele aparece citado por Solt (1969:85) e pode ser considerado um precursor, um verdadeiro “avô” dos emoticons, pois a cada estrofe, sinais e letras vão formando a expressão facial de um sorriso. Seu autor, o poeta concreto norte-americano Robert Creeley, enviou-o numa carta a Jonathan Williams, outro poeta concreto, em 143 1954, e após mencionar seu título “Hi There!” acrescentou uma nota desconfiada: “Talvez eu esteja ficando louco?”. Williams comenta que o poema é um dos menos conhecidos do autor, e que recebê-lo foi um deleite, abrindo um novo mundo de possibilidades para ele. O segundo são os Poemóbiles (1968, 1974) de Augusto de Campos e Julio Plaza, um livro com doze poemas em folhas soltas que rompem a bidimensionalidade da escrita, tornando-se tridimensionais por meio de cortes, dobraduras e montagens no papel. “Poemóbiles são coreografias de formas e cores que se atualizam à medida que o leitor movimenta as páginas duplas de um livro desamarrado. Ao abrir cada uma das páginas soltas, as cores-formas vão surgindo como palavras, combináveis, recombináveis, livres no ar, entre os brancos, vazios do espaço. Sem deixar de ser palavra, a palavra salta de leito plano sobre o papel e passa a existir como corpo volumétrico que se mexe como coisa viva.” (SANTAELLA 2007: 344) 144 Fotos: página de abertura de Poemóbiles e alguns poemóbiles abertos 47. Outro poema que merece destaque é o de Philadelpho Menezes (1991), que de forma original descobre, no negativo da foto do número 612309 em uma calculadora, a palavra POESIa. Nas análises do capítulo V veremos como números e letras se aproximam na hipermídia de formas antes inimagináveis. 47 Fotos disponíveis em http://www2.uol.com.br/augustodecampos/poemobiles.html (março/2011). 145 2.4. E-poetry Na e-poetry ou e-poesia, também chamada de ciberpoesia e infopoética, os autores se valem das possibilidades do hipertexto para reconfigurar completamente a linguagem, fugindo de sua dimensão linear. Todas as possibilidades que foram exploradas até então, parecem simples ensaios se comparadas aos recursos tecnológicos disponibilizados pela confluência das mídias. Antônio Risério, antropólogo, poeta e ensaísta mostra como essas novas formas escriturais se insubordinam perante a escrita alfabética, recorrendo a toda uma gama de dispositivos extralineares para festejar a liberdade dimensional da linguagem: “Os textos produzidos a partir dessas formas escriturais - trazendo-nos à lembrança, aqui e ali, antigas inscrições chinesas, egípcias e astecas escapam ou destoam, como já disse, de uma tradição milenar, desenho histórico que vem dos embriões mesopotâmicos da escrita ou, se preferirem passar ao largo dos sinais sumero-acadianos, dos primeiros alfabetos consonantais e vogais da Fenícia e da Grécia, respectivamente. Tal insubordinação gráfica diante da fonetização da escrita e da imposição cultural da Ordem Alfabética - recorrendo a toda uma gama de dispositivos extralineares de inscrição textual, quando figura e letra se co-ordenam numa configuração sígnica peculiar, ou a própria letra vem a ser submetida a operações pansemióticas -, engendra assim uma poesia que quer, procura, afirma e festeja a liberdade dimensional da linguagem. Graças a essa irrupção contra a rigidez foneticista, contamos hoje com uma produção textual criativa que reflete, expressa e critica a realidade sígnica global da sociedade contemporânea.” (RISÉRIO 1998: 163) Risério, ao examinar o impacto do uso das tecnologias computacionais sobre a poética em contextos digitais, ou ainda, “na práxis escritural contemporânea” como ele a chama, enumera três principais características: 1º) A possibilidade de articulação conjunta na composição textual das representações icônicas e simbólicas, no sentido peirceano dos termos. 146 Essa é uma característica que na escrita, se apresenta com bastante freqüência nos links e hiperlinks, onde ao clicar-se numa palavra, temos as imagens e sons a elas associadas: “De saída, a possibilidade da articulação, numa composição textual, do conjunto ícone/símbolo, no sentido semiótico desses termos. Vale dizer, ícone=representação analógica do objeto, como um desenho realista ou uma fotografia; símbolo=representação arbitrária, socialmente instituída, como no caso da palavra.” (RISÉRIO 1998: 159) 2º) A possibilidade de iconização da própria escrita, através da adaptação de elementos infra-vocabulares ao significado (semantização) que se quer transmitir: “Em segundo lugar, a possibilidade de iconização da própria escrita e de semantização de elementos infra-vocabulares, graças ao bombardeio, icônico ou não, da letra. No caso, as próprias relações óticas dos signos entre si, numa determinada mensagem poética, podem propiciar tal semantização.” (RISÉRIO 1998: 159) 3º) E por último, a quebra da linearidade da escrita, que está baseada em sua função de reprodução da fala, e de sua respectiva linearidade no tempo. “Por fim, o fato desses e de outros processos escriturais concorrerem para uma superação do modelo (ou da norma) linear da escrita fonética, que durante séculos dominou, de modo incontestável, a paisagem textual do Ocidente.” (RISÉRIO 1998: 159) A natureza semiótica desses procedimentos foi em grande parte analisada no capítulo II, sendo que no contexto poético, digital ou não, Risério nos esclarece como eles são levados a efeito, levando à conseqüência última da quebra de linearidade da escrita alfabética. A passagem a seguir é inspiradora, seminal, e merece ser transcrita para a compreensão de como os processos artísticos estiveram envolvidos na exploração do que hoje se tornam usos cada vez mais comuns da escrita: “Com a caligrafia, a letraset ou o computador, pode-se investir a própria letra, elemento básico do símbolo, de uma função icônica - criar uma relação 147 fundamental, um nexo semiótico, entre a fisionomia da escrita e a dimensão referencial do símbolo. Nesse particular, a escrita terá sido investida de um duplo valor, ao mesmo tempo fonético e icônico, escrita fono-ideogramática. Teremos assim, em todos esses casos, e em muitos outros mais, criações que podem ser definidas, semioticamente, como textos icônico-simbólicos, nos quais é possível fazer, ainda, intervenções indiciais (um signo é indicial sempre que há, entre ele e o que ele representa, contigüidade física) - uma impressão digital numa foto montagem, por exemplo. Como se insistirá adiante, esses textos icônico-simbólicos remetem para a mesma questão escritural - são textos que não se contentam, expressivamente, com a linearização alfabética. Quando me referi acima à iconização do próprio símbolo, ao valor ‘fisionômico’ que a letra pode adquirir em determinado conjunto textual, compondo assim uma escrita picto-fonética, eu já estava entrando, na verdade, no campo antes mencionado da semantização de elementos infravocabulares. Uma letra é uma letra é uma letra. Aqui, o poeta não apenas cria estruturas em que o símbolo é colocado em relação direta com outros espécimes sígnicos. Ele atua no espaço da própria inscrição simbólica. Sobre a forma material da palavra, ou sobre a fisicalidade da letra. E consegue, assim, carregar de sentido um elemento de uma palavra. Por exemplo: se gravo uma palavra num determinado tipo e numa determinada cor, posso, adiante, usar metonimicamente, sua letra inicial por ela - a grafia e o colorido irão garantir a eficácia de funcionamento do mecanismo pars pro toto, fazendo com que o receptor da mensagem reenvie a letra à palavra, assim como é capaz de identificar um barco por sua vela inflada. Ou, também, se trabalho uma letra específica de forma distinta, na arquitetura do texto, posso fazer com que ela venha a veicular uma outra mensagem, que não a da palavra (ou das palavras) em que se acha incluída. Ainda aqui, a linearidade range - ou mesmo racha.” (RISÉRIO 1998: 159-160) Giselle Beiguelman, artista e escritora, em O livro depois do livro, indica e comenta mais de 50 obras e projetos hipermidiáticos, em cujos endereços na web é possível verificar como a palavra pode ficar “entre a escrita e a fala, entre a música e o desenho, entre a letra e o dígito” (Idem 2003: 25). O próprio trabalho artístico da autora busca refletir e explorar 148 essas transformações, expandindo, de forma poética, os limites do código alfabético pelo seu uso concomitante com outros sistemas de escrita. “Sua obra Poetrica, em quaisquer de suas diferentes versões, é uma exploração lúcida e imaginativa da escrita poética em um espaço cíbrido, entrópico e nômade, um espaço digital que tornou possível a qualquer mídia conectar-se a qualquer outra mídia em qualquer ponto do espaço ao mesmo tempo. Em uma de suas versões, Poetrica se constitui de poemas digitais cujo processo de composição envolve o uso de fontes não fonéticas (dings e system fonts) e operações algébricas. O título de cada poema apresenta a equação que descreve suas seqüências de operações (adições, superposições, divisões, etc.). O resultado são formas animadas de escrita que reverberam em nossa memória real ou imaginária como uma arqueologia de imagens de escrituras.” (SANTAELLA 2007: 350) Todos esses usos inovadores do código alfabético, que também podem ser largamente encontrados na publicidade e no design gráfico, prepararam nossa sensibilidade para as inovações semióticas que hoje se processam a olhos vistos. Essas formas de expansão dos limites da escrita tradicional são precursoras da atual reconfiguração da escrita na hipermídia, na qual o enorme salto dos suportes bidimensionais para a tela eletrônica marca, certamente, um novo ciclo de mudanças para a escrita e sua natureza semiótica. 3. NOVAS GRAFIAS A reconfiguração da palavra escrita na hipermídia é caracterizada, igualmente, pelas novas formas em que ela aparece grafada nos meios eletrônicos. As palavras do léxico, legissignos do sistema da língua e também do sistema de escrita que determina suas réplicas, corporificam-se em sinsignos nos quais aparecem abreviadas, representadas ou escritas de forma inédita, híbridas de letras, sinais e números, isto é, híbridas de formas 149 convencionais e não convencionais. Como aponta Crystal (2008: 17), a razão para isso é que a inteligibilidade da mensagem precisa ser mantida. Como vimos, há duas formas básicas de transcrição da linguagem verbal, a fonética e a semântica. Para a transcrição fonética temos a possibilidade de grafar unidades silábicas, ou usar consoantes e vogais separadamente. Já para a transcrição semântica, pictogramas, ideogramas e logogramas são algumas opções. Importante frisar que a hipermídia não é uma linguagem sedimentada, que ela ainda se encontra em estado de experimentação e exploração de todos os seus recursos e potenciais. Por isso, é possível encontrar diferentes grafias para uma mesma palavra, e impossível fazer um inventário exaustivo delas. Como afirma Crystal (2008: 21), diversidade é a “e-norm”. Na world wide web é possível encontrar listas com dezenas, mesmo centenas de exemplos. No entanto, certas maneiras de grafar as palavras já são bastante usuais, o que permite elencá-las e analisá-las em conjuntos mais ou menos definidos. Na maioria dos casos, é um e o mesmo legissigno do léxico que se corporifica de diversas maneiras, em diferentes sinsignos. Como exemplifica Peirce, no caso da conjunção e (and em inglês): “&, e (and), e o som são todos uma mesma palavra” (CP 8.334). Por razões de economia de tempo, muitas das novas grafias podem ser consideradas formas diferentes de abreviação das palavras. As maiores razões pelas quais palavras e expressões aparecem abreviadas são a necessidade de uma maior velocidade na digitação de textos e os meios muitas vezes exíguos onde isso é feito, como por exemplo, os botões de aparelhos celulares, que não foram originalmente pensados para tal função, e nos quais é preciso dar de um a quatro toques para conseguir grafar o caracter desejado. Isso não impede que essas grafias migrem para outros meios onde elas poderiam ser grafadas tradicionalmente, como o e-mail. Essas abreviações e grafias podem ser agrupadas em diferentes tipos: 150 3.1. Economia de caracteres As palavras aparecem grafadas com menos caracteres e/ou caracteres diferentes do que seria esperado, como filings para feelings, em inglês, ou mesmo vamu para vamos, em português, caso em que a grafia também expressa uma pronúncia local, como em wiv, para with, e wassup para what’s up, em inglês (CRYSTAL 2008: 49). É preciso lembrar que suprimir letras em palavras é um procedimento lingüístico que pode ser claramente observado na evolução do léxico de qualquer língua aglutinante, e que também se encontra na utilização do apóstrofo, pouco usado em português (como por ex. em d’água), porém largamente empregado em francês e inglês, como em I’m (I am), you’re (you are), para citar alguns exemplos. A grande parte das abreviações usadas não é convencional, e muitas surgem de coloquialismos da língua. É o caso de bro para brother, e hols para holidays, coloquialismos comuns em inglês (CRYSTAL 2008: 25), e cel (celular) e finde (fim de semana) em português. Outras surgem ad hoc, sendo que, nestes casos, o contexto da mensagem em que se encontram proporcionará a possibilidade para sua decodificação. Isso ocorre tanto em palavras inseridas no texto como em assinaturas ao final das mensagens, onde somente a inicial ou iniciais do remetente são usadas. O uso de iniciais, também conhecido como acrônimos, serve igualmente para abreviar nomes e expressões completas, como em ‘omg’ (Oh my God!) e ‘ily’ (I Love you) em inglês, e ‘dn’ (de nada) e ‘tdb’ (tudo de bom) em português. 3.2. Omissão vocálica Também é bastante usual a grafia das palavras sem vogais, tais como msg (mensagem), msm (mesmo), mt (muito), ñ (não), obg (obrigado), txt (texto), entre outras. Crystal comenta essa variante com tranqüilidade: 151 “As pessoas, evidentemente, intuíram um princípio básico da teoria da informação: que consoantes carregam muito mais informação que as vogais. Embora não estejamos acostumados a escrever sem vogais em inglês, esse é um sistema perfeitamente normal em muitas línguas, tais como o árabe e o hebreu. E mesmo em inglês, já houve muitas demonstrações de que um texto sem vogais é inteligível, enquanto um sem consoantes não é...” (CRYSTAL 2008: 26) Ele apresenta ainda um exemplo desse uso ao comentar o texto de um aluno adolescente no qual algumas palavras apareciam grafadas sem vogais. Apesar da inovação, ler o texto não apresenta maiores dificuldades: “A maioria de nós não teria problemas em ler sem as vogais a palavra summer [smmr], embora precisaríamos parar por um momento para ler palavras como wr, thr, e plc [were, their, place, respectivamente].” (CRYSTAL 2008: 25) Eventualmente, algumas omissões consonantais também podem ser encontradas juntamente com a omissão vocálica, sempre que isso não prejudique a inteligibilidade da leitura. 3.3. Grafia silábica Embora existam línguas onde a sílaba é grafada como um todo indecomponível, chamados sistemas silábicos ou logossilábicos (quando à sílaba também está atrelado um significado), encontráveis especialmente entre as línguas orientais, nas línguas românicas e anglo-saxônicas é a escrita alfabética que prevalece, com suas consoantes e vogais. “Em sistemas silábicos, cada signo representa uma sílaba, que é com freqüência tratada como um todo não analisável. Em sistemas logossilábicos, pode haver muitos signos para uma determinada sílaba, cada um com um significado diferente. Os hieróglifos egípcios e maias são em parte logossilábicos. A escrita chinesa é primariamente logossilábica para o idioma mandarim, porém a mesma escrita é basicamente semográfica quando empregada em japonês. A razão é que, ao ler o idioma japonês, os componentes fonéticos do kanji - originalmente ideogramas chineses - são 152 com freqüência ignorados. Embora cada ideograma signifique um monossílabo chinês, muito são lidos como polissílabos em japonês.” (BRINGHURST 2006: 69) Embora não esteja prevista a possibilidade de uma grafia silábica em todos os sistemas de escrita, a sílaba possui uma saliência intuitiva, como demonstra Coulmas: “A maioria dos sistemas de escrita são interpretados como referindo-se de alguma maneira à composição fonética das formas faladas (speech forms). Nesse processo o contínuo e natural fluir do som é artificialmente quebrado em unidades discretas de vários tamanhos. A sílaba é uma unidade intuitivamente saliente explorada com esse fim por diversos sistemas de escrita, antigos e modernos...” (COULMAS 2003: 131) No alfabeto romano, embora não exista a grafia silábica, cada letra possui um nome mono ou dissílabo, usado geralmente para a soletração de palavras, mas que nas novas grafias encontra-se como substituto de uma ou até duas sílabas completas. “As letras do alfabeto latino..., exceto por alguns casos particulares..., geralmente possuem nomes monossilábicos usados na sonorização do soletramento das palavras. Essas mesmas letras têm, ocasionalmente, sido tratadas como sílabas por escribas não familiarizados com o sistema, tais como os escribas maias que tiveram contato com o alfabeto latino através dos espanhóis... Tudo isso testemunha a saliência intuitiva da sílaba.” (COULMAS 2003: 62) Na hipermídia, a crescente utilização de letras com valor silábico, não somente alfabético tem por fim a economia de caracteres, aumentando a velocidade da escrita. Em inglês, é o caso das letras R, U, B, C, usadas no lugar das palavras are, you, be, see, respectivamente, ou ainda a letra X, lida como ks em Xmas (christmas). Em português, temos a letra K, tanto no lugar da sílaba ‘ca’, como em ksa, e como substituta de ‘qu’, em grafias como aki, 153 bem como C, no lugar de ‘ce’ (você), L, no lugar de ele, D, no lugar de de, e Q no lugar de ‘que’, entre outros exemplos. 3.4. Sinais semográficos A maioria destes signos encontra-se incorporada ao teclado mais usual nos computadores, também chamado teclado “qwerty”, em função de serem essas as primeiras letras que aparecem na sua parte superior. Interessante observar que esses caracteres superam em número as letras do alfabeto, fato que geralmente passa despercebido. Os números são os primeiros e mais óbvios deles. Quando a questão é economia, não é necessário escrever seus nomes, bastando grafá-los no sistema indo-arábico. Outros sinais também vêm da matemática, tais como + (mais), - (menos), = (igual), x (vezes), ½ (para ‘meia’ ou ‘meio’) sendo utilizados para substituir palavras inteiras. Outro sinal bastante usado é o &, conhecido como e comercial, que nasceu da junção das letras E e T, como na palavra latina et, e que significa a conjunção ‘e’ em português. 3.5. Rébus e grafias híbridas A palavra rébus vem de uma expressão latina, non verbis sed rebus, e que significa “não com palavras mas com coisas” (CRYSTAL 2008: 40). Ele é um signo originalmente pictográfico ou ideográfico, cujo uso se desloca para designar outro conceito, diferente daquele que estava iconicamente representado, e que é idiomaticamente homófono a ele. Na escrita hipermidiática, vários caracteres, especialmente os números, que também possuem nomes mono ou dissílabos, são largamente usados com base nesse princípio. O som associado a eles serve, então, para substituir sílabas em palavras, novamente com vistas ao incremento da 154 velocidade de digitação, como por exemplo, a letra X, lida como cross, em Xing (crossing). Assim, novas grafias de palavras e expressões vão sendo criadas, híbridas de letras, sílabas, números e sinais, em composições criativas que estão reconfigurando a escrita como a conhecemos. No português, temos: d+ (demais), +ou- (mais ou menos). Em inglês, os exemplos multiplicam-se: 4u (for you), 2 (to), 2u (to you), 2b (to be), 2c (to see), 2day(today), 2morrow(tomorrow), b4 (before), db8 (debate), gr8 (great), h8 (hate), Cul8er (see you later), @ (que se lê at) e é usado para at, ch@ (chat), th@ (that), @oms (atoms), entre muitos outros. 3.6. Números e letras Assim como Saussure se surpreendeu com a intromissão da tipografia na escrita, movimento semelhante se verifica em relação aos números, que aparecem na e-escrita de forma antes inimaginável na escrita convencional. Isso se dá por diversas razões, como vimos, mas talvez a mais inovadora delas é a correspondência entre números e letras nos reduzidos botões dos gadgets usados para a comunicação pessoal. Nos botões, o número 2 corresponde às letras A,B,C; o 3 às letras D,E,F; o 4 às letras G,H,I; e assim sucessivamente até o 9 que corresponde às letras W,X,Y,Z. Dessa forma, a sequência 288866 pode produzir tanto autumn e como button, dependendo da quantidade de toques que se dê em cada número. Em função disso, uma tecnologia chamada predicting texting (CRYSTAL 2008: 67), ou texto preditivo, disponibiliza na tela, no início da digitação, as versões mais freqüentemente usadas, no intuito de igualmente reduzir o tempo de digitação. Essas palavras tem sido chamadas de textonyms ou homonumeric words, i.e, textônimos ou palavras homonuméricas que formam grupos representáveis pela mesma sequência numérica. Essa inovação tem levado a uma prática inversa, em que as palavras e as sequências numéricas são utilizadas de forma intercambiável, como se fossem sinônimos. Um exemplo: 155 “O fato da sequência 2665 produzir tanto book (livro) quanto cool (legal), tem resultado em uma prática onde alguns usuários deliberadamente usam a primeira palavra em lugar da segunda. ‘u like the movie?’ pergunta A. ‘book’, responde B.” (CRYSTAL 2008: 68) Outra utilização dessas inusitadas grafias pode ser encontrada em números de telefones públicos, como por exemplo, o telefone de uma biblioteca norte-americana que é divulgado mais ou menos assim: “fone: 375book”, o que facilita bastante sua memorização ao relacionar número e palavra ao objeto a que se referem, a biblioteca. 4. SOBRE OS EMOTICONS Os limites entre a escrita e oralidade estão se tornando cada vez mais difusos com uso das novas tecnologias que se servem da linguagem hipermidiática. Antes de seu advento, escrever e falar eram consideradas atividades distintas, sendo que a escrita, via de regra, apresentava uma linguagem mais formal, enquanto que a linguagem coloquial era reservada quase que exclusivamente à fala. Esses limites já não são tão fáceis de definir, pois se é verdade que a escrita, seja em meio eletrônico ou não, ainda serve a situações ditas formais, hoje, pessoas “conversam literalmente”, isto é, no sentido etimológico da palavra literal, pessoas conversam por meio de letras, não mais por meio de sons, maximizando a função de superação da distância que a escrita sempre desempenhou, expandindo o alcance comunicativo das mensagens no tempo e no espaço. “Comunicar-se oralmente requer a presença conjunta do falante e do ouvinte. Escrever, pelo contrário, possibilita a comunicação a qualquer distância no espaço ou no tempo... Essa função será chamada de função de superação da distância (distancing function)... Os três componentes essenciais da comunicação lingüística - o falante, o ouvinte e a mensagem - 156 podem estar espacialmente e temporalmente separados um do outro.” (COULMAS 1989: 12) Atualmente, mensagens escritas são intercambiadas em uma velocidade muitas vezes instantânea (comparável somente àquela disponibilizada pelo telefone para a transmissão de sons), seja por meio de celulares e outros gadgets portáteis ou através das telas dos computadores em chats, e-mails e outros ambientes hipermidiáticos. Nesse contexto inaugural, um dos limites da escrita, aquele pelo qual não lhe é possível transpor para um suporte material a riqueza de gestos, expressões e modulações vocais da fala, foi sentido mais intensamente. “...o controle do tom de voz - ‘não é o que se diz, mas a forma como se diz’ expresso por meio de variações vocais no diapasão (entonação), na altura (ênfase), na velocidade, no ritmo, na pausa e em outros efeitos vocais. Têm havido esforços algo desesperados para substituir o tom de voz na tela, sob forma de um uso exagerado de ortografia, pontuação, letras maiúsculas, espaçamento e símbolos especiais para ênfase. Os exemplos incluem letras repetidas (aaaahhhhh, claaaaro), sinais de pontuação repetidos (quem????, ei!!!) e convenções para expressar ênfase (como a *verdadeira* questão). Essas características são capazes de uma certa expressividade, mas a variedade de significados que elas transmitem é pouca e está restrita a noções grosseiras como excesso de ênfase, surpresa e perplexidade. Nuances menos exageradas não são passíveis de serem usadas dessa forma.” (CRYSTAL 2004: 85) Essa necessidade de transpor os limites expressivos da escrita em relação à oralidade deu origem ao que hoje se chama de emoticons (que vem da junção das palavras emotion e icon) ou smileys (da palavra smile, sorriso). Eles se apresentam como signos eminentemente pictográficos nos quais não só as qualidades materiais das letras bem como a forma de outros signos usados na escrita (especialmente semográficos) são usados para representar expressões faciais na sua maioria, embora seu uso não se restrinja a elas. “Relacionada a isso está a forma como o netspeak carece de expressões faciais, gestos e convenções de postura corporal, que são tão críticos para se externar opiniões e atitudes pessoais e moderar os relacionamentos 157 sociais. Essa limitação foi notada desde o começo do desenvolvimento do netspeak, e levou à introdução de smileys ou emoticons - combinações de caracteres do teclado, planejadas para demonstrar uma expressão facial de emoção. Os dois tipos básicos expressam atitudes positivas e negativas, respectivamente (a omissão do ‘nariz’ parece ser unicamente uma questão de velocidade de digitação ou de gosto pessoal): :-) ou :) :-( ou :( Centenas de formas e seqüências lúdicas têm sido inventadas e reunidas em dicionários de smiley, algumas extremamente engenhosas e artísticas, mas quase nunca usadas em comunicações sérias. Fica claro que elas são uma maneira potencialmente útil, mas muito rudimentar, de capturar algumas das características básicas da expressão facial. Elas podem evitar uma percepção errada das intenções de um falante, mas um smiley individual ainda permite um vasto número de leituras (felicidade, piada, simpatia, bom humor, deleite, diversão etc.) que só podem ser despidas de ambigüidade com uma referência ao contexto verbal.” (CRYSTAL 2004: 85,86) Ao representar expressões faciais, os emoticons se constituem em uma interessante nova forma de prosódia, i.e., adicionam uma entonação vocal dotada de significado às palavras e frases escritas, e assim são capazes de acrescentar uma carga considerável de expressividade à escrita, seja quando ela é usada para dialogar ou mesmo em mensagens que não requerem respostas imediatas por parte do receptor. Outra utilidade interessante dos emoticons é diminuir a ambigüidade de mensagens que, sem o uso desses signos, poderiam ser interpretadas de forma diferente àquela imaginada pelo emissor, como no caso de brincadeiras, piadas e ironias tão comuns em diálogos e mensagens informais. Embora seu uso seja freqüente, não existem regras estabelecidas, ficando sua utilização a critério daquele que escreve a mensagem. Semioticamente, trata-se de sinsignos, já que o hábito e as regras de sua utilização ainda estão em formação. Com o tempo, poderão ser incorporados 158 ao sistema da língua, o que fará deles legissignos, assim como outros signos de prosódia, como a exclamação e a interrogação. Quanto à relação com seus objetos dinâmicos, isto é, com aquilo que representam, sua carga icônica é incontestável, já que eles se assemelham imageticamente às expressões faciais que significam. Interessante notar que os emoticons podem ser considerados signos icônicos de prosódia, e em função dessa iconicidade imagética ostentam uma forte característica supralingüística, já que eles se tornam compreensíveis indistintamente para usuários de diversas línguas e culturas. Vejamos alguns exemplos mais utilizados e seus possíveis significados: :-) sorriso, alegria, consentimento :-)))) muito feliz, rindo muito :-( tristeza, desaprovação ;-) ironia, brincadeira, piscadela :-@ gritos, ira, raiva, indignação Em japonês e outras línguas asiáticas, os emoticons são grafados de forma diferente, em outro sentido espacial, mas com as mesmas finalidades e servindo-se igualmente dos caracteres disponíveis do teclado. São alguns: (*o*) supresa, espanto (^_^) sorriso, elogio É espantoso até onde pode chegar a capacidade representativa humana, em explorações criativas da linguagem que contribuem para seu enriquecimento. Alguns usos menos freqüentes na web e que podem ser encontrados em listas de dezenas e até centenas de variantes, mostram o potencial icônico, expressivo, que se esconde por trás de uma linguagem, com desenhos formados de letras e sinais: 159 @(---‘---‘--- que representa uma rosa, e pode ser usado para mandar “flores” (_8^() que representa Homer Simpson, famoso personagem do desenho animado The Simpsons A influência desse potencial icônico pode também ser sentida em outras áreas, como o design gráfico e a publicidade, que o exploram ao transmitir suas mensagens. Um exemplo é a Propaganda de telefonia AlôClaro, veiculada na Revista Veja em 21/4/2010, onde as mesmas letras da palavra alô formam uma face sorridente, condensando escrita, mensagem e imagem de forma original. 5. CONEXÃO LEXICAL: A PALAVRA PERFEITA De certa forma, é paradoxal que na hipermídia, a talvez mais potente das mídias pela confluência de meios de que se constitui, seja a palavra, esta velha conhecida nossa, quem rouba a cena, intermediando todos os fluxos de informação e navegação, renovando-se e exercendo todas as suas potencialidades, demonstrando e confirmando, mais uma vez, ser ela a “mídia das mídias” (MOTTA 2004:10). 160 Nos ambientes hipermidiáticos, sites, chats, SMS, e-mail, entre outros, essa riqueza de potencialidades e manifestações da palavra escrita pode ser mais facilmente percebida, especialmente porque ela assume a condição de uma conexão lexical, isto é, um vínculo associativo entre ela, palavra, e a miríade de conteúdo informacional que a ela pode ser associada, sem hierarquias, e sem limites predefinidos. Pode-se dizer que na linguagem chamada hipermídia, e no seu sistema hipertextual, a palavra poderá exercer a função de conexão lexical de forma exponenciada, função essa que se soma a todas as outras que ela sempre foi capaz de desempenhar, isoladamente, ou em textos tradicionais. A indicação do uso de uma palavra nessa função conectiva pode ser chamada de hiperlink, hotlink, hotword ou simplesmente link, que vem do verbo ‘to link’ em inglês, e cujo significado é elo, ligação. Essa função de conexão lexical pode ser encontrada, de forma bastante rudimentar, em dicionários, por ex., e em outras formas de armazenamento e busca de informação em diferentes meios, mas que não podem ser comparados à hipermídia, onde as palavras podem ser a conexão que liga um ponto do sistema hipertextual a outro qualquer, sendo que esses pontos podem conter qualquer tipo de informação: sonora, visual, textual, em seus mais variados formatos. Semioticamente, essas palavras são verdadeiros índices do sistema hipertextual, que lhes permite não só que mantenham, mas que sejam em si mesmas, uma conexão de fato com aquilo que representam. Por ex., ao lermos o nome de um site na web, seu próprio nome ou “endereço” poderá ser “clicado” para acessá-lo quase que imediatamente; a notícia de um fato ou evento poderá dar acesso a suas fotos; o título de uma música ou canção poderá ser “clicado” para ouvi-la; o título de um artigo, de um poema, de um livro podem ser o acesso para seu conteúdo, etc. Essa possibilidade de conexão aparece na forma como a palavra é escrita, isto é, através de um sinsigno em que ela se materializa. Por meio de um atributo gráfico, que tanto pode ser uma sublinha, letras em itálico, ou 161 uma cor diferente, ou ainda, dois ou mais deles conjuntamente, a palavra é destacada do texto a fim de mostrar que há conteúdo explorável naquele ponto hipertextual. Devemos considerar o poder representativo que isso confere a uma palavra, ou ainda, a ampliação sem precedentes de seu poder, já que ela pode, na linguagem hipermidiática, entrar em isomorfia com aquilo que se quer significar. Para ficarmos num exemplo bastante simples, ao escrever a palavra mesa, ela se refere a um conceito geral e é capaz de provocar na mente do leitor a idéia de uma mesa, no entanto, como emissor da mensagem, nunca poderei saber se o que ele “visualiza” ao ler essa palavra, se parece com aquilo a que me refiro. Se houver a necessidade de ser muito específico, se quero me referir a um tipo diferente de mesa, a um design inovador, por ex., uma foto da mesa ou qualquer outro conteúdo icônico ligada à palavra (desenhos, diagramas, por ex.), poderá facilmente resolver a questão. Imprescindível retomar Peirce nesta questão, que referindo-se às funções icônicas, indiciais e simbólicas de um signo, afirmou que, embora seja freqüentemente desejável que um representamen apresente um ou dois desses três tipos de relação com seu objeto dinâmico, excluindo os demais, “os signos mais perfeitos são aqueles nos quais as características icônicas, indiciais e simbólicas estão amalgamadas tão eqüitativamente quanto possível” (CP 4.448). Nesse sentido, a palavra, o legissigno lingüístico por excelência, de natureza simbólica na maior parte das vezes, ganha na linguagem hipermidiática a possibilidade de chegar a essa perfeição sígnica, onde sua indicialidade e iconicidade podem ser exploradas em graus exponenciais, sem detrimento de sua simbolicidade, e de forma conjunta, amalgamada, “sem suturas” entre essas três dimensões semióticas. 162 Capítulo 6 - CONSIDERAÇÕES FINAIS “A escrita muda à medida que a humanidade se transforma. É uma dimensão da condição humana.” Steven Fischer (2007: 10) Os velhos materiais já não podem atender às novas necessidades e os signos também são materiais e instrumentos.” Décio Pignatari (1979: 57) 1. ALGUMAS CONCLUSÕES As transformações pelas quais passa a escrita ocorrem conjuntamente em dimensões tecnológicas, culturais e lingüísticas que transcendem tudo aquilo que para nós significava a palavra escrita. Em uma verdadeira “maré barroca de signos”, em uma rede computacional planetária, acentral, a palavra se assume como elemento de um “dicionário possível”, se é que alguma antiga metáfora ainda pode ser usada. Nesse cenário, Chartier (2002:9) nos avisa que, se quisermos ter uma visão mais aprofundada, não podemos nos apegar a “lamentações nostálgicas” mas nem tampouco nos deixar levar por “entusiasmos ingênuos suscitados pelas novas tecnologias”. Para um olhar ampliado, alguns pontos relevantes merecem ser levantados. Por um lado, a revolução tecnológica deita raízes profundas na sociedade, inaugurando não só um novo tipo de mídia com características e potencialidades inéditas, como igualmente uma nova cultura, numa nova ordem econômica e social mundializada. “Propiciada, entre outros fatores, pelas mídias digitais, a revolução tecnológica que estamos atravessando é psíquica, cultural e socialmente muito mais profunda do que foi a invenção do alfabeto, do que foi também a revolução provocada pela invenção de Gutenberg. É ainda mais profunda do que foi a explosão da cultura de massas, com os seus meios técnicos 163 mecânico-eletrônicos de produção e transmissão de mensagens. Muitos especialistas em cibercultura não têm cessado de alertar para o fato de que a revolução teleinformática, também chamada de revolução digital é tão vasta a ponto de atingir proporções antropológicas importantes, chegando a compará-la com a revolução neolítica. Para se ter uma idéia das conseqüências trazidas por essa revolução, basta dizer que a nova ordem econômica, social e cultural mundializada são seria possível sem ela.” (SANTAELLA 2001: 389) Por outro lado, muito do que se processa hoje não é novo. Essa sensação de dejá vu se dá porque a permanência de qualquer sistema no tempo exige que ele seja coeso o suficiente para sobreviver a crises, mas suficientemente flexível para adaptar-se a elas na medida do possível. Ou seja, entre a flexibilidade necessária à sua adaptação e a fixidez de suas leis, um sistema está sempre em contínua evolução. Baron nos mostra claramente que em outras épocas situações adaptativas semelhantes foram enfrentadas, e superadas: “Como sociedade letrada, continuaremos a escrever, no entanto, a atual atitude geral em relação à grafia e à pontuação convencionais poderá reverter num quadro que lembra a quase anarquia medieval e mesmo renascentista da Inglaterra à época. Em inglês medieval, por exemplo, a palavra nice (que então significava ‘ignorante’ ou ‘tolo’ [e não agradável como atualmente]) podia ser escrita ‘nis’, ‘nys’, ‘nice’ ou ‘nyce’. Mais tarde, William Shakespeare grafou seu próprio nome pelo menos de seis maneiras diferentes. E o uso de vírgulas, dois pontos, e maiúsculas era, por vezes, simplesmente questão de adivinhação." (BARON 2008: 171). Essa explosão de signos faz parte de fases de instabilidade e expansão próprias de todo sistema evolutivo, fases críticas em que há flutuações e um crescimento da diversidade, que visam romper com antigos paradigmas a fim de que o sistema possa se reestruturar em novas bases (cf. VIEIRA 2008b: 60-64). Essa é uma visão poética do real que a teoria sistêmica descortina, sendo “poiesis” a forma adequada de sua autoorganização produtora de signos e significado, destinada a expressar, assintoticamente é claro, a perfeição do pensamento humano 164 “Sendo pensamento, todo real seria evolutivo e destinado a expressar em futuro a perfeição de sua forma. Um universo semiótico é necessariamente auto-organizado - cujos princípios e regras de organização, eles mesmos evoluem... A teoria geral dos sistemas e da auto-organização vem deste modo complementar e colaborar para um entendimento semiótico e matafísico do real... O âmago de nossas representações da realidade é poético, daí decorrendo em constante emulação obras artísticas, produções tecnológicas e representações de natureza científica.” (SILVEIRA in VIEIRA 2008a: 18) Autopoiesis, significa assim, que o sistema é capaz de autonomia em relação ao ambiente, bem como de auto-manutenção e auto-reprodução, elevando seu nível de complexidade a partir da formação de novos signos que se constituem em novos sistemas e subsistemas. É nesse sentido que Pignatari afirma que os signos também são materiais e instrumentos que se reconfiguram para atender a novas necessidades. Do ponto de vista lingüístico, Crystal nos mostra que podemos e devemos ter uma visão enriquecedora desses constantes fluxos e intercâmbios entre sistemas, que proporcionam a renovação do léxico, acrescentam valor semântico às línguas e possibilitam ao pensamento humano expressar-se de forma cada vez mais matizada. “O inglês mudou, sem dúvida, mas isso foi uma coisa ruim? Grande parte do impacto expressivo de Chaucer e Shakespeare - para se tomar apenas dois entre muitos autores - se deveu às suas habilidades de trabalhar com todo aquele vocabulário multilíngüe. E todos se beneficiam com uma língua lexicalmente enriquecida. Em inglês temos muitos “duplos” e “triplos”, como kingly, royal e regal, que se originam na história de empréstimos da língua um germânico, um francês e um latino. Três palavras para o mesmo conceito básico permitem toda uma variação de nuances estilísticas a ser expressa, que não seria possível de outra maneira. Os empréstimos sempre acrescentam valor semântico à língua, oferecendo às pessoas a possibilidade de expressar o pensamento de forma mais matizada.” (CRYSTAL 2004: 55) 165 Coulmas, por sua vez, afirma que é mais do que merecido um estudo de como a natureza e o uso dos sistemas de escrita afetam as línguas, já que, de fato, “as propriedades dos sistemas de escrita podem ter um efeito em como a escrita é concebida, e, inversamente concepções sobre a escrita podem influenciar a maneira com a qual lidamos com certos signos” (COULMAS 2003: 2). “Foi por meio do meu interesse por escritas não-alfabéticas que eu comecei a ver mais claramente que as línguas são afetadas de várias maneiras pelos sistemas de escrita adotados para sua materialização, e que, portanto, não só deveria ser dado um lugar próprio a eles na lingüística, como também deveriam ser reconhecidos como um fator de mudança lingüística. Como exatamente uma escrita influencia a língua é uma questão que os lingüistas deveriam tentar responder... uma resposta correta a essa questão depende da natureza do sistema em questão.” (COULMAS 1989: viii) Mais ainda, é preciso considerar que cada conjunto linguístico, englobando língua e escrita, tem relação direta com a construção e configuração dos padrões de nossa consciência, mediando nossa percepção do existente. “Cada linguagem é um vasto sistema de configuração (pattern-system), diferente dos outros, no qual são culturalmente ordenadas as formas e categorias mediante as quais a personalidade não apenas se comunica, mas analisa a natureza, reconhece ou negligencia certos tipos de relação e de fenômenos, canaliza seu raciocínio e edifica a casa de sua consciência.” (WHORF apud HAROLDO DE CAMPOS 1994: 88) Por tudo isso, visões estanques nunca deram conta dos desafios da escrita, haja vista a heterogeneidade infrutífera das terminologias e tipologias que buscaram compreendê-las. Daí esta tentativa de elucidar os processos de transformação da escrita ao longo do tempo por meio da aplicação da teoria semiótica de Peirce em conjunto com a teoria sistêmica e uma classificação das funções dos signos utilizados na escrita. 166 A escrita sendo linguagem, não deixará nunca de evoluir, de transformar-se a cada revolução humana, num casamento entre meios e signos cujo poder multiplicador e proliferativo agora sentimos nas telas eletrônicas como nunca antes. “As linguagens são muitas. Desde a revolução industrial, e mais recentemente, a revolução eletrônica, seguida da revolução informática e digital, o poder multiplicador e o efeito proliferativo das linguagens estão se ampliando enormemente. (...) Não há quase nada de natureza real, artificial, simulada ou fictícia que o imaginário numérico não dê conta de colocar nas telas dos monitores. (...) Além de crescerem na medida exata em que cada novo veículo é inventado, as linguagens também crescem através do casamento entre meios.” (SANTAELLA 2001:28) A linguagem humana não pode ser controlada (CRYSTAL 2004:54). Ela, em si mesma, pode ser considerada uma tecnologia do pensamento, pois como diz Peirce, nosso pensamento é um diálogo, em constante fluir, e depende em grande parte dos signos lingüísticos para expressar suas idéias, mesmo na sua própria interioridade. Os demais signos de que ele se utiliza, destinam-se a cobrir “os defeitos das palavras”. Por isso, a maior conclusão deste estudo talvez seja a de que é preciso dilatar nosso olhar em relação ao que a linguagem verbal e seu correspondente sistema de escrita representam para o pensamento humano. Não há como criar ou mesmo satisfazer-se com um sistema estático. Peirce mais uma vez, nos prova magistralmente porque isso é impossível: “Quando garoto eu inventei uma língua (language) na qual quase toda letra de toda palavra dava uma contribuição clara para sua significação (signification). Ela envolvia uma classificação de todas as idéias possíveis; e eu não preciso dizer que ela nunca foi completada.” (SS 95, grifos nossos) 167 2. O FUTURO DA ESCRITA Será possível identificar tendências para o futuro da escrita? Nada parece ser mais desafiador. A escrita tem estado conosco por vários milênios, e hoje em dia é mais importante do que nunca. Ela pode também ser considerada uma tecnologia, cuja criação possibilitou o surgimento de uma verdadeira inteligência escrita à qual temos acesso por meio dos suportes eletrônicos, que estão redesenhando a sociedade a cada instante. “Tendo se espalhado gradualmente, através dos séculos, de pedaços de argila a chips de computador, ela [a escrita] está preparada para progressos ainda mais drásticos. Apesar de que centenas de milhões de pessoas ainda são incapazes de ler e escrever, a humanidade depende da escrita numa extensão sem precedentes. É bem provável que, hoje, mais comunicações se dêem de forma escrita do que de forma oral. Não há medidas objetivas, mas se houvesse alguma dúvida, a explosão da internet relegou de uma vez por todas a idéia de que, para a raça humana, a escrita é somente uma forma menor de comunicação. Não é arriscado chamar a escrita da tecnologia de maiores conseqüências já inventada. A imensidade do conhecimento e registro escritos conservados em bibliotecas, bancos de dados e redes multifacetadas de informação tornam difícil imaginar um aspecto da vida moderna que não seja afetado pela escrita. ‘Acesso’, a palavra de ordem da sociedade do conhecimento significa acesso à inteligência escrita. A escrita não somente oferece formas de recobrar o passado, mas é também uma habilidade crítica para dar forma ao futuro.” (COULMAS 2003: 1) Como bem observa Risério, a escrita eletrônica nasceu de uma sociedade fundada nas modalidades do espaço moderno, também chamado ciberespaço, na mobilidade de suas redes, diferentemente dos sistemas anteriores, cuja base foi uma sociedade do ‘chão’, do solo agrícola, do suporte da celulose, e, portanto, fundada num território delimitado. “Interconexões, redes, circuitos, cadeias, fluxos, termos que se apresentam naturalmente à mente, quando se procura analisar as modalidades novas do espaço moderno; traduzem a relação fundamental da mobilidade, da qual procedem as tendências à onipresença e os sistemas ‘fora do chão’, escreve 168 Chesnaux. E é justamente em tal contextura, em meio a hipertextos e “groupwares” cosmopolitas, que se inscreve e se move a palavra eletrônica. A escrita informática é uma escrita “fora do chão”. Enquanto a escrita tradicional e a sociedade agrícola se plantavam, respectivamente, no suporte de celulose e num território delimitado, o que temos agora é uma outra realidade: vida e texto em movimento permanente...” (RISÉRIO 1998: 194) Dessa forma, existe um processo histórico, social e cultural contínuo de transformação da escrita. Mas se em cada época os sistemas de escrita foram moldados de acordo com necessidades “locais”, para usar um termo da contemporaneidade, é preciso lembrar que agora a sociedade e a comunicação são globais, numa comunidade planetária, supranacional, em cuja rede interagem, lado a lado, arte, comércio e ciência, bem como indivíduos, comunidades e línguas, fatores que, se isoladamente já influenciavam a escrita, hoje se encontram amalgamados, exponenciados em uma linguagem hipermidiática que ainda não está sedimentada, mas sim, em ebulição na complexidade de todos esses fatores. “A complexidade adicional dessas questões encontrou-se no fato... de que a hipermídia não é uma linguagem já sedimentada. Trata-se de uma linguagem que ainda está se buscando e, portanto, encontra-se em estado de metabolismo, transformando-se ininterruptamente...” (SANTAELLA e NÖTH 2008: 356) A escrita alfabética solidifica a palavra, paralisa-a no espaço e no tempo, e diferentemente das representações ideográficas e pictográficas, corta radicalmente o nexo com o objeto representado. Mas hoje as palavras são aladas, voam de um ponto a outro do planeta sem fronteiras, renovadas em sua iconicidade, que representa a ligação do próprio ser humano ao real, e cuja presença se faz de luz, brilho e cor. “Seja como for, o fato é que é outra - agora - a presença visual da palavra no mundo. Palavra-mutante, protéica, feita de pontos, de cor e luz - o texto como paisagem virtual articulada pelo cibersigno... A palavra ganha ânimo, brilho, motion.” (RISÉRIO 1998: 195,196) 169 Nossa época se caracteriza, então, por uma profunda mudança de paradigmas em todos os níveis. A ciência nos dota a cada dia de novos modelos epistemológicos. Barbosa (2009) observa como as teorias do texto e do sentido existentes estão baseadas num modelo atomístico e estruturalista, e, portanto redutor e ultrapassado, aplicado ao âmbito das ciências humanas. Atualmente, já vivemos no paradoxo da luz, que é onda e partícula num só movimento, e que é capaz de nos proporcionar um modelo ondulatório de linguagem, não linear, dinâmico e integrador, no qual a palavra é onda, e pode ser compreendida dentro do conceito de sistemas, isto é, dentro de relações de troca e mútua determinação. “Da busca dos elementos mínimos que são os átomos de tudo (elementos químicos ou fonemas, letras, palavras), governados por uma gramática combinatória infinita (tanto na natureza como no texto), talvez seja hoje necessário passar a uma teoria ondulatória mais fluida da linguagem. Reparece-se que é assim que funciona e sempre funcionou o plano do sentido no que chamamos de hermenêutica com a sua semiose ou interpretação perpétua.” (BARBOSA, 2009) Poderia uma tal palavra escrita, híbrida e ondulatória, vir a tornar-se convenção, legissigno? Como nos diz Peirce, “não temos razão para pensar que todos os fenômenos, em seus mínimos detalhes, sejam precisamente determinados pela lei. Vê-se que há um elemento arbitrário no universo, a saber, sua variedade” (CP 6.30). Essa variedade pode e deve ser atribuída a alguma forma de espontaneidade, de vagueza, que nunca poderá ser ignorada. Ela é primeiridade, e está presente em todo e qualquer fenômeno. A arte sempre se insurgiu contra o status quo. A partir de Mallarmé, houve uma reação intensa à norma linear do código alfabético. Em alguns mo(vi)mentos artísticos, a reação foi extrema. Hoje, apesar da ebulição das transformações, vemos, lado a lado, “a escrita ou a norma alfabética e as novas e variáveis formas de escritura, buscando... uma multidirecionalidade high-tech, em meio a desvios, desvãos, distorções, fractais.” (RISÉRIO 1998:163) 170 A palavra escrita parece diluir-se na infinitude de sua própria semiose, fruto de sua condição ontológica de signo. Nesse sentido, Ransdell nos mostra que as progressões e regressões sem fim, implícitas na concepção geral de representação não são viciosas, e que são nossos interesses práticos que fornecerão os limites no momento oportuno. “A infinitude da semiose é uma conseqüência da definição do signo em abstrato, isto é, definido à parte de uma aplicação concreta. Em concreto, contudo, haverá sempre considerações situacionais ad hoc que nos fornecerão razões para tratar um dado interpretante como se fosse o último e um dado objeto como se fosse o primeiro. Assim, as progressões e regressões infinitas, implícitas na concepção geral de representação não são viciosas, mas devem ser vistas como indicadoras de que são nossos interesses práticos, num dado momento, que fornecem limites...” (RANSDELL apud SANTAELLA 1992a: 199) Quando e como esse momento chegará, só podemos conjecturar. Talvez o próprio conceito de norma lingüística precise ser revisto para se tornar mais aberto ao expressivo potencial da língua e da escrita. Talvez, o estabelecimento de limites mais flexíveis na consideração das práticas escriturais seja uma resposta em médio prazo. Sem dúvida, o alargamento do conceito de linguagem verbal, ou mesmo sua concepção renovada, se fará necessária para que estudos teóricos tenham seu alcance ampliado, sem esterilizar as capacidades que a escrita pode desenvolver para representar o pensamento. Sem dúvida, artistas e cientistas, por trabalharem no jogo experimental das linguagens, estarão sempre na dianteira, rasgando fronteiras, prenunciando o futuro, para que a linguagem verbal se aperfeiçoe em direção à verdade de seu ser real. Esse futuro é por definição insondável, faz-se fazendo-se no presente, no continuum da semiose de que o próprio homem faz parte. 171 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BENEDITO, Joviana (2003). Dicionário para chat, SMS, e e-mail. Portugal, Lisboa: Edições Centro Atlântico Ltda. ISBN: 972-8426-65-8. BASTOS, Marcus. (2008) ex-Crever? In Palavra e imagem nas mídias: um estudo intercultural. Ed.Universitária UFPA. Santaella, Nöth (orgs). BASTOS, Cleverson Leite; CANDIOTTO, Kleber B. B. (2007). Filosofia da Linguagem. Petrópolis, RJ: Vozes. BARBOSA, Pedro. (2010) - Entrevista a Ana Paula Ferreira. In: Espaço e poesia na comunicação em meio digital. Doutorado em Comunicação e Semiótica - PUC/SP. ________, (2009) Aspectos quânticos do cibertexto (pgs.11-42). 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