IDEOLOGIA E LINGUAGEM
A ideologia é antes uma questão de “discursos” que de
“linguagem” – mais uma questão de certos efeitos discursivos
que de significação com tal. Representa os pontos em que o
poder tem impacto sobre certas enunciações e inscreve-se
tacitamente dentro delas (Eagleton, 1997: 194).
O conceito de ideologia tem com objetivo revelar algo da
relação entre uma enunciação e suas condições materiais de
possibilidade (Eagleton, 1997: 195).
A ideologia funciona pelo equívoco e se estrutura sob o modo
da contradição. Não seria diferente para os efeitos que
constituem a subjetividade (...) Quanto mais certezas, menos
possibilidade de falha: não é no conteúdo que a ideologia afeta
a sujeito é na estrutura mesma pela qual o sujeito (e o sentido)
funciona (Orlandi, 2001: 104).
A ideologia não é ocultação, ela é produção de evidências
(Orlandi, 2001: 104).
Marlon Leal RODRIGUES
NEAD/UEMS/UFMS/UNICAMP
Paulo Cezar TAFARELLO
UNEMAT/UNICAMP
Falar da relação entre “linguagem” (Saussure, 1995), “discurso” (Orlandi, 2001, Pêcheux,
1997) e “ideologia” (Althusser, 1985, Orlandi, 2001, Pêcheux, 1997) não é muito fácil.
Linguagem é todo o tipo de sistema e recursos que o homem desenvolveu e utiliza
historicamente para se comunicar, entre eles o “sistema verbal” (Saussure, 1995). Também se
considerar que a “realidade” (Pêcheux, 2002) não é clara e nem objetiva porque sempre pode sofrer
interpretações ou leituras diferentes em relação ao lugar social de quem se enuncia, interpreta ou lê.
Já a palavra “discurso” dependendo da linha teórica em que for utilizada pode significar
coisas diferentes. Se inscrita na pragmática, discurso significa atos de fala (Austin, 1990), se na
lingüística textual (Koch, 1993), aquilo que o homem produz verbalmente. Mas a palavra discurso
pode significar diversamente um espaço de investimentos sociais, políticos e ideológicos
materializados na língua enquanto sistema verbal e ainda que constitui os sujeitos, isto na
perspectiva da Análise do Discurso de linha francesa, AD.
Talvez o termo mais difícil de conceituar seja ideologia em relação à linguagem, no
entanto, para a AD, a ideologia (Orlandi, 2001, Pêcheux, 1997) se materializa no discurso enquanto
conjuntos de valores, crenças que constituem as práticas sociais dos sujeitos. Ou seja, são as
ideologias que constituem os “sujeitos” (Orlandi, 2001, Pêcheux, 1997), pois, a ideologia
circunscreve um espaço social de práticas e condutas a partir das relações sócias concretas.
Outro aspecto da ideologia é que ela também opera no sujeito pelo inconsciente (Althusser,
1985, Orlandi, 2001, Pêcheux, 1997) uma vez que o sujeito não é origem de seu discurso e de suas
práticas e ainda não domina o sentido do seu dizer. Quando o indivíduo nasce, já há uma cultura,
uma língua e uma história repleta de valores, crença e práticas sociais (Orlandi, 1999) em que ele se
inscreve passando de indivíduo para sujeito, isto pelo processo de simbolização (Orlandi, 1999). É
importante ressaltar que não há prática social sem ideologia, desde um “bom dia” ou um “aperto de
mão”; e não há discurso que não seja ideológico, mesmo a mais simples e palavra enunciada: “oi”.
Para exemplificar o foi dito e o que se seguirá adiante, veja a seguinte proposta de análise
do seguinte enunciado:
(01) “A casa de João é bonita”.
A perspectiva de análise que se adota implica em problematizações especificas. Se situar a
análise do enunciado da gramática normativa (NGB – Norma Gramatical Brasileira), é possível
analisar das seguintes perspectivas:
a) morfológica: artigo feminino singular + substantivo comum, concreto, feminino singular +
preposição + substantivo próprio, concreto, singular masculino + verbo ser na terceira pessoa do
singular, presente do indicativo + adjetivo feminino singular.
b) sintaxe: sujeito simples: “a casa de João” + predicado verbo nominal: “é bonita”; núcleo do
sujeito simples: “casa”; adjunto adnominal: “a”; adjunto adnominal restritivo: “de”; núcleo do
adjunto adnominal restritivo: “João”; verbo de ligação: “ser”; predicativo do sujeito: “bonita”.
c) tanto as questões de morfologias quanto de sintaxe estão dentro da norma padrão: S + V + O =
sujeito + verbo + complemento.
d) seria possível ainda colocar questões de fonética e de estilo (Bechara, 2006). Como análise
gramatical é uma produção linguística ideal, pois, ignora outras questões, não faz referência, por
exemplo, ao contexto de produção do enunciado e de tudo que dele decorre.
Se for situar de uma perspectiva da Análise do Discurso, AD, algumas questões são
pertinentes e necessárias:
a) o enunciado é uma produção efetiva de discurso: tempo, espaço e história: contexto;
b) o enunciado parte de um enunciador para um enunciatário: quem enuncia o faz porque tem algo a
dizer ao enunciatário e este porque tem algo a ouvir. É um ritual;
c) o enunciador e o enunciatário estão imbuídos em uma relação concreta de condições de produção
discursiva que marca o espaço social de ambos: quem são eles? Que posição social ocupam?
(professores, engenheiros, deputados, empresário, pobres, pertencentes a algum movimento popular
(sem-teto, sem-terra etc);
d) ao se enunciar, a produção do discurso marca um espaço social, porque quem enuncia o faz
enquanto alguém socialmente constituído na formação social capitalista;
e) para compreender os possíveis sentidos do enunciado outras questões se colocam: quem é João?
Em que estado, cidade, bairro e rua ele mora?
Estas perguntas são pertinentes porque de forma geral sabe-se que o país é organizado em
estados, estes em regiões, cada região possui um conjunto de estados (cada um com um
representação social específica).
Cada estado se organiza em regiões municipais, cada município se organiza de forma geral
entre centro, periferia e área rural. Estes espaços constituem um conjunto de bairros (centro,
intermediário, periferia etc.). Os bairros se organizam em ruas.
É notório que o tipo de bairro (suas classificações que equivalem a sentido) em alguma
medida representa um tipo de poder aquisitivo (miserável, pobre, remediado, classe média etc. ou
como quer incluído ou excluído). Enfim, toda essa forma de organização possui uma história
enquanto luta de classe;
f) que sentido é possível atribuir ao objeto “casa” e ao adjetivo “bonita”?
A “casa” de forma geral significa moradia, mas dependendo do estado, da região, da
cidade, do bairro e da rua, pode significar e marcar a representação discursiva de “João”. Não se
trata de qualquer “casa”, e nem de qualquer “João”, assim também, embora possa se atribuir o
adjetivo “bonita” para qualquer “casa”, mas o sentido não será o mesmo considerando as questões
anteriores. Ambos possuem uma significação histórica: “João e casa”.
g) poderia indagar o que é ser “bonita”? Como, na perspectiva da AD, nenhuma palavra possui
algum sentido que lhe seja próprio (Pêcheux, 1997), então o que venha ser bonita vai depender das
condições materiais de existência que marcam o lugar social em que os sujeitos estão inscritos.
Desta forma, o sentido estético de beleza é definido nas relações das formações discursivas e sociais
que são constituídas ideologicamente.
Assim, para finalizar, mesmo considerando outras questões que poderiam ser levantadas, a
compreensão do enunciado implica em compreender a formação social em que este enunciado foi
possível de ser produzido em termos ideológicos, de relação de poder, ou seja, condições de
produção do discurso.
O enunciado revela não apenas que existe um sujeito chamado “João” (com sua história,
família, classe social, amigos etc.), que ele possui uma “casa” e que esta “casa” é “bonita” porque
foi construída em um determinado espaço físico, com certos tipos e qualidade material de
construção e não outros, e ainda poderia pensar no formato arquitetônico (tamanho e estilo), na
divisão interna de espaços, o que decorre também pensar nos móveis etc. etc.
Estas considerações, embora elementares, procuram demonstrar o quanto as estruturas
sociais está atravessado/constituídas pelos sistemas lingüísticos e vice-versa.
É nesta perspectiva que se fará algumas considerações a respeito da ideologia considerando
as suas implicações filosóficas, lingüísticas e política a partir Eagleton (1997).
Falar de ideologia para o Eagleton é considerar os seus reflexos preponderantemente
concretos no cotidiano mesmo que ela seja vista como algo abstrato, sem muito sentido e ainda
como uma palavra negativa como que somente alguns discursos e práticas fossem ideológicas ao
passo que outras não. Contudo, este aparente sentido abstrato é um projeto permanente de
dominação social engendrado historicamente pelas elites dominantes com o intuito de evitar o
debate amplo das questões políticas. O que também evita um tipo de participação efetiva nas
decisões políticas gerais que pode ser um país, de um grupo, de uma comunidade etc..
Se considerarmos que é no debate que pode ocorrer o processo de “politização” e
esclarecimento do funcionamento social de forma que o sujeito possa intervir e sempre propor
outros rumos a partir de interesses locais e de grupos. O debate para quem está poder é um
problema muito sério. Um exemplo peculiar: o debate é uma das práticas dos partidos de esquerda,
com grupos, facções etc. Já na direita, o debate é sempre as portas fechadas e longe da participação
dos filiados e da população.
Eagleton afirma que “o termo “ideologia” é apenas uma maneira conveniente de classificar
em uma única categoria uma porção de coisas que fazemos com signos.” Signo este saussureano
que revolucionou a Lingüística do século XX quando possibilitou a representação das coisas e
termos em conceitos de palavras. Outra revolução, para o autor, foi a concepção de ideologia de
Voloshinov colocando o signo como “arena da luta de classes.”
A Análise do Discurso francesa teve o caminho aberto para a linguagem a partir de
Voloshinov e Pêcheux, quando se pode analisar a “inscrição do poder social na linguagem”, para
Pêcheux, o sujeito esquece “a formação discursiva” que o assujeita, desta forma assumindo o
discurso como se fosse autor, contudo, o sujeito pode “fugir” deste assujeitamento porque se trata
de uma “arena” aberta onde as relações se alternam sucessivamente de acordo com as posições
assumidas pelas relações de força e poder.
Eagleton percorre o caminho articulando “discurso” e “ideologia” criticando alguns autores
e enfatizando algumas concepções de outros. O que permite, entretanto, tal agudeza de senso crítico
é o posicionamento marxista, uma vez que Eagleton inicia as observações sobre o signo, do ponto
de vista da relação significado e significante (Saussere), e as diversas implicações ideológicas e
sociais. Ainda questiona a quem tais implicações possam interessar em termos de classe social.
Com isto o autor procura “desmontar”, “desmascarar” ou desconstruir diversas teorias para
demonstrar o uso do termo ideologia materializadas na linguagem constituindo os discursos e assim
as práticas sociais. A tentativa é propor uma clarificação do fenômeno social chamado linguagem
sobre a ótica da ideologia.
Para ele, alguns filósofos contribuem para a homogeneização social dos termos ideologia,
camuflando todos os confrontos nas instâncias da linguagem uma vez que as ideologias percorrem
na heterogeneidade dos conflitos sociais advindo, primeiro no nível do signo para a realidade fatual,
já que nada é aleatório e casual.
O autor em suas análises não priva nem os próprios marxistas, pelas atitudes, criticando o
ponto nevrálgico ao mudar a orientação revolucionária para uma posição reformista.
Desta forma dando um desvio de conduta, retrocedendo face ao avanço de capitalismo
temporário ao se retirarem do cenário dos embates políticos que possuem como núcleo central o
signo como objeto de desejo e disputa não naquilo que é pode significar por si só enquanto
conceito. Mas naquilo que o signo pode representar em termos de dominação na luta de classe. Isto
não é pouca coisa.
Eagleton em seu trabalho articula especialistas de diversas áreas do conhecimento onde
aborda o que é essencial para explanação do termo ideologia e suas implicações com linguagem.
Ele faz o que um crítico faz, vai em busca de “uma grande síntese histórica”.
Em uma de suas reflexões primárias, conclui que o primeiro sentido de ideologia é
completamente pejorativo; o segundo sentido já é neutro, contudo, ambos têm seus empregos. A
ideologia, ainda é um discurso primário, servindo aos vários sentidos e conteúdos, propósitos
discursivos, por isso, as relações entre discurso e ideologia são complexas porque estão imbuídas
das relações dominado/dominador, oprimido/opressor sendo uma disputa histórica socialmente
situada.
Enquanto considerações finais, o leitor que não possuir alguns conhecimentos prévios,
encontrarão certas dificuldades. Com efeito, as suas reflexões possuem como fator facilitador, uma
linguagem clara, dialética, deixando aflorar os pontos contraditórios e consistentes sobre o assunto.
Em suas considerações finais, Eagleton teoriza algo sobre a função da ideologia que de
uma certa forma os movimentos populares e partidos de esquerda já praticam enquanto método e
princípio, pois, “cada processo discursivo, portanto, está inscrito em relações ideológicas e será
internamente moldado pela sua pressão” (p.173) e:
Nenhum radical que examine friamente a tenacidade e a penetração das ideologias
dominantes pode sentir-se esperançoso quanto ao que seria necessário para
afrouxar seu domínio letal. Mas há um lugar, acima de todos, em que tais formas
de consciência podem ser transformadas, quase literalmente, da noite para o dia, e
esse é a luta política. Isso não é carolice de esquerda, mas um fato empírico.
Quando homens e mulheres, engajados em formas locais, inteiramente modestas
de resistência política, vêem-se trazidos, pelo ímpeto interior de tais conflitos,
para o confronto direto com o poder do Estado, é possível que sua consciência
política seja definitiva e irreversivelmente alterada. Se uma teoria da ideologia
tem algum valor, este consiste em auxiliar no esclarecimento dos processos pelos
quais pode ser efetuada praticamente tal libertação diante de crenças letais (1997:
195).
Como todo marxista, o autor não poupa nem as concepções de ideologia de esquerda.
Outro ponto ainda importante a considerar é o posicionamento claro, de certa forma preocupante
diante de um assunto árido e combatido de forma negativa. Pode-se falar, sem dúvida, que é uma
grande síntese histórica neste final de século, talvez uma nova orientação marxista para o próximo
século, dado o avanço de capitalismo e suas implicações sociais, históricas, filosóficas, lingüísticas,
etc.
Referências Bibliográficas
ALTHUSSER, L. Aparelhos Ideológicos do Estado. 9ª Ed. Rio de Janeiro-RJ: Edições
Graal,
1985.
AUSTIN, J. L. Quando dizer é fazer. palavras em ação. Porto Alegre-RS: Artes Médicas: 1990.
BECHARA, E. Moderna Gramática Portuguesa. 37ª Ed. Rio de Janeiro-RJ, Editora Lucerna, 2006.
EAGLETON, T. Ideologia. Uma introdução. São Paulo-SP: Editora da UNESP e Editora
BOITEMPO, 1997.
KOCH, I. G. V. Argumentação e Linguagem. 3ª Ed. São Paulo-SP: Cortez Editora, 1993.
ORLANDI, E. P. Discurso e Texto. Formulações e Circulação dos Sentidos. Campinas-SP: Pontes,
2001.
____. Análise de discurso: princípios e procedimentos. Campinas, SP: Pontes, 1999.
PÊCHEUX, M. Semântica e Discurso. Uma crítica a afirmação do óbvio. 3ª. Ed. Campinas-SP:
Pontes, 1997.
____. O discurso. Estrutura ou Acontecimento. 3ª. ed. Campinas-SP: Pontes, 2002.
SAUSSURES, F. Curso de Lingüística Geral. 20 ed. São Paulo-SP: Editora Cultrix, 1995.
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