ESTUDO TEÓRICO DE NOVOS INIBIDORES DA ENZIMA DIIDROOROTATO DESIDROGENASE HUMANA. Saulo Cardoso CARVALHO – Estudante da Faculdade de Farmácia – UFPA; [email protected] Roseane Maria Ribeiro COSTA - Pesquisadora do Laboratório Controle de Qualidade – UFPA; [email protected] José Otávio Costa SILVA Júnior – Pesquisador do Laboratório P & D Farmacêutico e Cosméticos – UFPA; [email protected] Natália Farias SILVA – Pesquisadora do Laboratório Controle de Qualidade – UFPA. [email protected] RESUMO: a artrite reumatoide é uma inflamação crônica caracterizando-se por dores nas articulações e progressão para irreversíveis lesões articulares. a enzima diidroorotato desidrogenase de homo sapiens vem sendo estudada como alvo promissor por apresentar ação antiproliferativa e atividade imunomoduladora. recentemente, foram sintetizados inibidores a base de hidroxifurazanas, que apresentaram atividade inibitória bastante satisfatória frente a esta enzima, o que demonstrou ser uma alternativa potencial para tratamento da artrite reumatoide. desta forma, este trabalho buscou avaliar os parâmetros físico-químicos de doze inibidores sintetizados e o agente inibidor (metabólito ativo) antiproliferativo a771726 (a26). inicialmente as estruturas dos inibidores foram desenhadas bidimensionalmente no programa chemdraw ultra e posteriormente desenhadas tridimensionalmente e minimizadas através da mecânica clássica mm++ no programa chem 3d ultra. a partir desses resultados, foram realizados cálculos para a estabilização e otimização da energia usando programa gaussian 03. a otimização das estruturas foram baseadas no método da teoria do funcional de densidade (tfd). a visualização das estruturas otimizadas foi realizada com o programa visual molecular dimanycs (vmd). os resultados teóricos mostraram que a molécula 12 apesar de ser a estrutura mais estável apresentou atividade inibitória (ic50) considerada moderada. no entanto, as moléculas 10 e 11 quando comparadas em nível de energia e ic50 ao inibidor natural a26 da enzima apresentou resultados satisfatórios. portanto, dentre os 12 inibidores sintetizados a molécula 10 apresenta um alto potencial para a pesquisa e desenvolvimento de fármacos antirreumáticos com amenização dos efeitos adversos dos tratamentos convencionais. Palavras-chave: DHODH, Artrite Reumatoide, B3LYP. INTRODUÇÃO: A enzima Diidroorotato Desidrogenase (DHODH) participa do mecanismo da biossíntese de nucleotídeos de pirimidinas, a qual se trata de uma importante via metabólica em organismos eucarióticos e procarióticos (ROWLAND et al., 1998). Sua atuação se dá no quarto passo desta via, onde esta enzima é responsável pela conversão da molécula Diidroorotato (DHO) em Orotato (ORO), que ocorre em apenas uma única etapa de oxidação-redução utilizando a Flavina Mononucleotídeo (FMN) como coenzima (BJORNBERG., 1998).A primeira parte da reação o substrato DHO é oxidado, enquanto que a flavina é reduzida. Já na segunda parte reacional, a FMN é reoxidada com o auxílio de um segundo substrato, que desempenha a função de agente oxidante, que pode variar de acordo com a origem biológica da enzima. Este tipo de mecanismo apresentado nesta classe é conhecido como ping-pong bi-bi no qual ocorre quebra e formação de ligação de forma simultânea (TAKASHIMA et al, 2002). 736 As enzimas DHODH por apresentarem origem de organismo diferentes, tal como localização celular, características estruturais e propriedades estruturais são divididas em duas famílias, 1 e 2. A família 1 ainda apresenta uma subdivisão em dois grupos: A e B. A classe 1 A bastante estudada no tratamento de Doença de Chagas (PINHEIRO et al., 2008). Neste trabalho a classe da enzima estudada será da classe 2. A estrutura cristalográfica da enzima DHODH classe 2 de Homo sapiens (HsDHOD) foi definida por Liu e colaboradores, sendo depositada no Protein Data Bank (PBD) com o código 1D3H (LIU et al., 2000).O modelo é monomérico, no qual é constituído por 364 resíduos de aminoácidos e 298 moléculas de águas de cristalização. O cristal do complexo enzimático da 1D3H inclui as estruturas, assim como outras enzimas da classe DHODH, o substrato DHO, o cofator FMN e um agente inibidor antiproliferativo A771726 (A26), apresentando uma atividade contra artrite reumatoide (LIU et al., 2000). A Artrite Reumatoide (AR) é uma doença crônica, inflamatória, cuja principal característica é a inflamação das articulações. A AR é caracterizada como uma patologia autoimune, ou seja, é uma condição em que o sistema imunológico, que normalmente defende o nosso corpo de infecções, passa a atacar o próprio organismo (GOELDNER et al., 2011). A inflamação persistente das articulações, se não tratada de forma adequada, pode levar à destruição das juntas, o que ocasiona deformidades e limitações para o trabalho e para as atividades da vida diária. O tratamento adequado e precoce pode prevenir a ocorrência de deformidades e melhorar a qualidade de vida de quem tem a doença (LAURINDO et al., 2004). A HsDHODH vem sendo estudada como alvo promissor para o tratamento da AR por apresentar ação antiproliferativa e atividade imunomoduladora (LIU et al., 2000). Recentemente, foram sintetizados inibidores a base de hidroxifurazanas, que apresentaram atividade inibitória frente a esta enzima bastante satisfatória, o que demonstrou benefício potencial para tratamento da AR (LOLLI et al., 2012). Estes inibidores são utilizados quando a patologia está com efeitos tóxicos irregulares devido a toxicidade do tratamento convencional, que utiliza a combinação de drogas antiinflamatórios e antirreumáticas. Embora essas drogas proporcionem alívio sintomático, eles não modificam o curso da doença, causando efeitos colaterais como toxicidade gástrica (SILVEIRA DWS et al., 2006). 737 OBJETIVO GERAL: Realizar o estudo teórico de parâmetros físico-químicos de inibidores derivados do hidroxifurazanil com potente atividade antiproliferativa para a enzima HsDHODH. OBJETIVOS ESPECÍFICOS: Otimizar a estrutura do inibidor complexado da enzima HsDHODH, A26, a nível B3LYP/6-31G (d,p). Otimizar as estruturas de 12 inibidores derivadas do hidroxifurazanil a nível B3LYP/6-31G (d,p). Obter as carga das estruturas otimizadas aqui estudadas Obter o mapa do potencial eletrostático (MPE) dos inibidores de menor energia. Analisar os inibidores mais estáveis e com atividade inibitória satisfatória para realizar o processo de Docagem Molecular. 738 METODOLOGIA: Inicialmente as estruturas dos inibidores foram desenhadas bidimensionalmente no programa CHEMDRAW ULTRA 9 e posteriormente desenhadas tridimensionalmente e minimizadas através da mecânica clássica MM++ no programa CHEM 3D ULTRA 9 (Cambridge Soft Corporation, Cambridge, MA). A partir desses resultados, foram realizados cálculos para a estabilização e otimização da energia usando o funcional híbrido B3LYP e o conjunto de funções de base 6-31G (d,p) no programa Gaussian 03 (FRISCH, 2003). A otimização das estruturas foram baseadas no método da Teoria do Funcional de Densidade (TFD), o qual considera a densidade eletrônica como variável chave para descrever a distribuição de cargas em átomos, moléculas e sólidos. Este método é útil no estudo de grandes sistemas moleculares descrevendo realisticamente (Morgon, 1995). A visualização das estruturas otimizadas foi realizada com o programa Visual Molecular Dimanycs (VMD) (XU; MARTIN; SCHULTEN, 1996). A partir dos resultados de minimização dos inibidores,os quais apresentaram significativos resultados referentes a energia de otimização (Ha) e atividade inibitória (IC50) de acordo com a literatura foram realizados o Mapa do Potencial Eletrostático (MPE). O MPE é uma ferramenta altamente informativa para a distribuição de cargas nuclear e eletrônica de uma dada molécula. O MPE tem sido aplicado no estudo de interações biológicas e na definição de padrões de reatividade molecular (CUBERO; LUQUE; OROZCO, 1998, VAN DUYNE et al., 1991), bem como já foram demonstradas e comprovadas através do MEP regiões de reatividade molecular responsáveis pelo mecanismo catalítico de várias enzimas (LAMEIRA et al., 2010, ARAUJO SILVA; LAMEIRA; ALVES, 2012; CARNEIRO; LAMEIRA; ALVES, 2012). As superfícies de MPE foram descritas como ponto de carga, e derivadas do método B3LYP/6-31G (d,p) calculados no programa Gaussian 03 (FRISCH, 2003) e geradas pelo programa Molekel Visualization (VARETTO, 2009).Essas superfícies correspondem a um valor de isodensidade igual a 0,05 a.u. RESULTADOS E DISCUSSÃO: As estruturas dos inibidores sintetizados por Lolli e colaboradores partem de uma estrutura básica, o hidroxifurazanil (Figura 1). A síntese basicamente se resume a adição e/ou substituição de Hidrogênio, Flúor e grupos funcionais em R1, R2 e R3 do anel bifenilo. A seguir está a molécula de hidroxifurazanil e a tabela com os 12 inibidores aqui estudados com seus respectivos substituintes. Figura 1. Estrutura base da hidroxifurazanil. 739 Tabela 1. Inibidores estudados e seus respectivos substituintes R1, R2 e R3. Moléculas R1 R2 R3 H Mol 01 H CF3 Mol 02 H H Ph 4-CF3Ph Mol 03 H H Mol 04 H H 3-CF3Ph Mol 05 F H Ph Mol 06 F F Ph Mol 07 F H 3-CF3Ph 4-CF3Ph Mol 08 F H 4-CF3Ph Mol 09 F F Mol 10 F F 3-CF3Ph Mol 11 F F 3-OCF3Ph Mol 12 Ph H H De acordo com os resultados de energia, a molécula 12 obteve um valor de -968,1408 Ha (Tabela 2), quando comparada com os demais inibidores, esta apresentou o menor valor de energia, ou seja, maior estabilidade. Este resultado se deve basicamente a dois fatores: a sua menor quantidade de átomos; e pela ausência do elemento o Flúor em sua constituição, o que a torna menos eletronegativa que as demais moléculas aqui estudadas. Entretanto, esta apresentou atividade inibitória moderada (LOLLI et al, 2012). A estrutura tridimensional otimizada da molécula 12 pode ser visualizada na Figura 2. Figura 2. Estrutura tridimensional derivada dos cálculos com o método B3LYP/6-31 G(d,p) para a molécula12. Na Tabela 2 estão listadas atividade inibitória (IC50) de cada estrutura otimizada com seus respectivos valores de energias (HF) e o desvio padrão (DP). Incluiu-se também para fins de comparação, o metabólito ativo A26 complexado na enzima HsDHODH. 740 Tabela 2. Resultados após otimizações. INIBIDORES HF (Ha) IC50±DP (µM) A26 -1022,2381 0,02±0,002 Mol 01 -1074,1337 4,3±0,7 Mol 02 -968,1436 11±1 Mol 03 -1305,2045 49±4 Mol 04 -1305,2044 25±2 Mol 05 -1067,3763 0,88±0,08 Mol 06 -1166,6089 0,066±0,006 Mol 07 -1404,4367 0,87±0,11 Mol 08 -1404,4367 2,3±0,1 Mol 09 -1503,6692 0,49±0,04 Mol 10 -1503,3669 0,12±0,02 Mol 11 -1578,8929 0,05±0,05 Mol 12 -968,1408 45±3 Legenda: HF – Energia de otimização (Hatree). DP – Desvio Padrão. IC50 – Atividade Inibitória (Micro Molar). A análise dos resultados mostram que as moléculas 10 e 11 apresentaram os maiores valores de energia, onde para a molécula 10 o valor observado foi de -1503,6693 Ha e para a molécula 11 foi de -1578,8929 Ha. Esses resultados quando comparados com a energia do metabolito ativo A26 -1022,2369 Ha são elevados, porém suas atividade inibitória foram satisfatórias.Segundo Lolli e colaboradores, as estruturas que apresentam maior número de átomos de Flúor em sua constituição apresentaram atividade inibitória satisfatória na enzima HsDHODH, com os valores de IC50 de 0,12±0,02 e0,05±0,05 para as moléculas 10 e 11, respectivamente (Tabela 2). As estruturas tridimensionais das moléculas 10 e 11 após a otimização são observadas na Figura 3. (a) (b) Figura 3. Estrutura tridimensional derivada dos cálculos com o método B3LYP/6-31 G(d,p) para as moléculas (a) 10 e (b)11. Os resultados do mapa do potencial eletrostático (MEP) demonstram as regiões nucleofílicas (potencial eletrostático negativo), são mostrados em vermelho, enquanto que as regiões eletrofílicas (potencial eletrotático positivo), são mostrados em azul. A Figura 4 mostra as superfícies do MPE para as moléculas 10 e 11, onde destacam-se grandes regiões com potencial eletrostático negativo ao redor dos átomos de Oxigênio 741 dos grupos hidroxílicos em ambas moléculas. Enquanto que os potenciais eletrostáticos positivos podem ser encontrados emtorno dos átomos de hidrogênio. (a) (b) Figuras 4. Mapa de Potencial Eletrostático derivados dos cálculos com o método B3LYP/6-31 G(d,p) para as moléculas (a)10 e (11). A importância do estudo de MPE se dá para saber em qual região o correrá interações com os resíduos de aminoácidos do sítio catalítico da enzima, tais interações são de suma importância, pois são elas que determinam o grau de atividade inibitória de cada estrutura otimizada. CONCLUSÃO: De acordo com os resultados obtidos, dentre os 12 inibidores sintetizados, as moléculas 10 e 11 apesar de apresentar energia de otimização elevada, suas atividade inibitórias foram consideradas satisfatórias. Este mecanismo de inibição pode ser utilizado quando a patologia está com efeitos tóxicos irregulares devido a toxicidade do tratamento convencional, que utiliza a combinação de drogas antiinflamatórias e antirreumáticas. Embora esses fármacos proporcionem alívio sintomático, eles não modificam o curso da doença, causando efeitos colaterais. Portanto, as moléculas 10 e 11 podem ser alvo promissor para pesquisas e desenvolvimento de um novo fármaco substituindo o tratamento convencional para amenização destes efeitos indesejáveis do tratamento, os quais dificultam a adesão do paciente. 742 REFERÊNCIAS: 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. 14. 15. ROWLAND, P.; BJORNBERG, O.; NIELSEN, F. S.; JENSEN, K. F.; LARSEN, S. 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