Trilhas Campesinas: Integrando Vidas e Saberes
do Educador no Campo
ARLETE T. BUCHARDT¹, JOSÉ ALDAIR PINHEIRO², KETHELEY L. FREIRE¹, LUIZ
GARCIA JUNIOR¹, MÁRCIA WEBER³
¹CENTRO DE FORMAÇÃO E ATUALIZAÇÃO DOS PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO BÁSICA (CEFAPRO) DO
ESTADO DE MATO GROSSO NA ESPECIFICIDADE DA EDUCAÇÃO DO CAMPO E NA ÁREA DE
LINGUAGENS/LÍNGUA PORTUGUESA/ARTE/EDUCAÇÃO FÍSICA
²CEFAPRO - ÁREA DE CIÊNCIAS HUMANAS/HISTÓRIA E UNIVERSIDADE DE CUIABÁ – UNIC/CAMPUS
AEROPORTO.
³ EDUCAÇÃO BÁSICA DO ESTADO DE MATO GROSSO - EE CLEUFA HUBNER.
.
[email protected], [email protected], [email protected],
[email protected], [email protected]
Resumo. Neste artigo socializamos os resultados parciais da formação
continuada digital realizada com os educadores das Escolas do Campo do norte
do estado de Mato Grosso. Adotamos a abordagem metodológica qualitativa
característica do estudo de caso e observação participante, realizamos a
análise dos dados a partir da teoria das representações sociais, pautando-nos
em (Nóvoa, 2011) para argumentar sobre formação continuada de professores,
sobre Educação do Campo (Molina e Sá, 2012, Silva, 2007) e na teoria geral
das representações sociais (Moscovici, 2004; Jodelet, 1989; Guareschi (1996).
Os resultados apontam para contextualizações significativas na utilização de
ferramentas tecnológicas, as quais possibilitaram a inclusão digital.
Trilhas Campesinas: o despertar
A formação continuada visa suprir as fragilidades da formação inicial e contemplar a
vivência do processo de prática reflexiva sobre a ação diária, buscando alternativas que
deem suporte teórico e metodológico ao profissional. Num constante rever da práxis busca
o profissional seu aperfeiçoamento a fim de melhor atender ao aluno e a seu processo de
construção e apreensão de conhecimentos. Partindo dessa perspectiva a política de
formação dos profissionais da educação do estado de Mato Grosso aponta que esse
processo deve ocorrer num continuum de desenvolvimento ao longo da vida, buscando a
valorização profissional e destacando compromisso de ambas as partes (estado e
profissionais da educação)
será possível incorporar a formação em todos os aspectos da profissão:
profissionais sempre em formação, teoria e prática sempre aliadas ao fazer
cotidiano, profissionais formadores e em formação em interação constante,
formação continuada concebida em todas as fases da carreira. Auxiliados por
Antônio Nóvoa, os princípios dessa política estão alicerçados na articulação da
formação inicial com a prática escola, na formação em serviço vinculada a uma
prática de aprendizagem ao longo da vida e na formação do profissional
reflexivo, investigativo, colaborativo e capaz de ações educativas em equipe.
(SEDUC/MT, 2010, p. 14-15)
A formação continuada na forma interativo-reflexiva, segundo Romanowski é a
que acontece “através da pesquisa-ação, reflexão na ação e da ação” (2010, p. 135),
promove e fortalece ações que levam a atitudes investigativas, criativas, de maneira
contínua, tanto individual como coletiva. Essa formação não se fecha em si mesma, já que
acontece concomitantemente às ações e às necessidades encontradas no desenvolvimento
dos trabalhos educativos.
Ao considerarmos a formação continuada num todo e sua especificidade para a
Educação do Campo necessitamos pontuar as fragilidades da mesma, e não somente desta,
mas também da formação inicial, pois ambas, normalmente ocorrem descontextualizadas e
distantes do contexto campesino, mas centradas no contexto educacional e de vivência
urbanos. Portanto, torna-se impossível abordar a formação inicial e continuada nas escolas
do campo sem a devida reflexão sobre o contexto social, histórico e cultural que permeia a
realidade das escolas fixadas nesse espaço.
Tendo a Educação do Campo/Rural sido relegada ao quase completo
esquecimento por décadas, ainda hoje deixada ao descaso de governantes que poderiam
suprir suas necessidades e amenizar suas dificuldades, o que desejamos ressaltar é o
descaso para com a formação do profissional que atenderá aos alunos do campo. Como
esses profissionais cursam universidades urbanas, com teorias urbanizadas, ao irem para o
campo carregam consigo sua história de vida e construção pessoal e profissional desfocada
do contexto campesino. Torna-se imprescindível aos educadores das escolas do campo em
seu processo formativo apropriar-se de conhecimentos diversos a fim de atender ao
processo educativo e pedagógico considerando o contexto em que está inserida a unidade
escolar, como nos diz Molina e Sá
O futuro docente precisa ter garantido em sua formação o domínio das bases
as ciências a que correspondem às disciplinas que compõem a sua área de
habilitação. Mas sua formação não pode ficar restrita às disciplinas
convencionais da lógica segmentada predominante nos currículos tanto da
educação básica quanto da educação superior. Ela deve incluir a apropriação
de conhecimentos que já são fruto de esforços interdisciplinares de criação de
novas disciplinas, para que esses sujeitos possam se apropriar de processos
de transformação da produção do conhecimento historicamente já
conquistados. (Dicionário de Educação do Campo, p.469)
Somente a partir da década de 1990 é que houve avanços significativos na
Educação do Campo no que concerne a um currículo contextualizado. Um dos de maior
importância foi a publicação da Resolução 1/2002 CNE/CEE que definiu as Diretrizes
Operacionais para a Educação Básica nas Escolas do Campo, cujo texto prima pelo
respeito à diversidade e à identidade do campesinato. Estas vitórias, juntamente com a
gestão democrática das escolas públicas oportunizaram às escolas do campo a
possibilidade de haver em cada unidade a construção de um currículo que contemplasse
suas peculiaridades, um Projeto Político Pedagógico que atendesse suas especificidades
culturais e sociais, conforme estabelecido pelo artigo 5º da Resolução 1.
Art. 5º As propostas pedagógicas das escolas do campo, respeitadas as
diferenças e o direito à igualdade e cumprindo imediata e plenamente o
estabelecido nos artigos 2 3, 2 6 e 2 8 da Lei 9.394, de 1996, contemplarão a
diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos,
econômicos, de gênero, geração e etnia.
Conforme ressalta Silva o currículo da Escola do Campo precisa considerar os
valores e as práticas sociais dos educandos, de acordo com o grupo social ao qual eles
pertencem, necessita considerar o espaço geográfico, a origem social, as relações
estabelecidas entre os povos (Silva, 2007).
Essas conquistas não foram, entretanto, suficientes para que os educadores das
escolas do campo passassem a atuar de acordo com o contexto, para que se construísse
um currículo que integrasse o núcleo comum à diversidade cultural de cada região
camponesa. A legislação assegura, mas o profissional não recebeu formação inicial para
atender a essa demanda: integração curricular dos conhecimentos do núcleo comum
com os do campo.
O Governo do Estado de Mato Grosso, por meio dos profissionais dos Centros
de formação, responsáveis pela formação continuada, na perspectiva do Projeto Sala de
Educador1, procuram suprir a demanda de integração curricular. Com esse objetivo em
mente promoveu-se a construção coletiva das Orientações Curriculares da Educação
Básica das Áreas do Conhecimento e das Diversidades Educacionais, entre estas, a da
Educação do Campo, além da sugestão de uma matriz que contemplasse as Ciências
Agrárias, sendo Agricultura Familiar, Agroecologia e Socioeconomia Solidária do
ponto de vista da sustentabilidade ambiental, social e cultural.
Apesar de toda essa documentação legal e pedagógica construída, ainda não se
alcançou a idealizada integração, pois isso é trabalho de vida, de práxis diária em cada
escola. Os profissionais do CEFAPRO do município de Sinop, sentindo a necessidade e
a urgência dessa questão, após diagnóstico e solicitação das unidades escolares se
reuniram e construíram coletivamente o projeto “Trilhas Campesinas: Integrando Vidas
e Saberes”. Este projeto tem por objetivo promover a formação continuada dos
profissionais das escolas do campo, visando o desenvolvimento de um currículo que
integre as Orientações Curriculares das Áreas do conhecimento (Ciências Humanas,
Ciências da Natureza e Matemática e Linguagens) as Orientações Curriculares do
Campo do Estado de Mato Grosso e a matriz pedagógica (Agricultura Familiar,
Agroecologia e Socioeconomia Solidária). A fim de alcançar este objetivo adotamos a
estrutura de estudos por módulos e atividades os quais denominamos de “Caminhadas e
Passos”, tendo em vista a realização de uma “trilha ecológica e interpretativa” a qual
pressupõe atividades de lazer, físicas e pedagógicas. Por meio do blog socializamos as
caminhadas e os passos, os quais eram realizados pelos cursistas e socializados no
mesmo (cada cursista tinha o seu marcador). Além das atividades básicas da formação,
organizamos algumas atividades adicionais as quais foram denominadas de
“Caminhando a segunda milha”. A fim de promover ainda mais a interação entre os
educadores das várias unidades escolares participantes organizamos o item
“Compartrilhe”, utilizado também para promover atividades de avaliação da formação,
destinadas aos proponentes a fim de que estes pudessem aperfeiçoar os estudos no
decorrer do processo.
Este trabalho objetivou a análise das relações estabelecidas entre as práticas e a
matriz pedagógicas da educação do campo, a formação continuada e o contexto
1
Espaço de formação continuada em serviço para os profissionais da escola pública da rede estadual de Mato
Grosso, com momentos de formação coletiva (gestores, coordenadores pedagógicos, professores, técnicos e apoio
administrativo educacional) e específica (atendendo as especificidades) cujo objetivo é fortalecer a escola como
espaço de formação, construindo um comprometimento coletivo com a qualidade do processo educativo do aluno.
socioeconômico em que essas escolas e educadores estão inseridos, a partir dos estudos
do projeto e análise da estrutura das representações sociais dos educadores do campo. O
universo dos sujeitos analisados são educadores das diversas áreas de formação, cuja
participação no projeto foi livre e espontânea.
A abordagem metodológica está fundamentada na pesquisa qualitativa situada
como um estudo de caso. O estudo envolveu educadores das Escolas do Campo dos
municípios de Cláudia (Escola Estadual Dorothy Stang e Florestan Fernandes), Nova
Ubiratã (Escola Municipal Entre Rios, Vera Lúcia Schimidt e 13 de Maio), Sorriso
(Escola Estadual Cristiano Araújo Pires e Escola Municipal Boa Esperança) e Colíder
(Escola Estadual Palmital).
Os dados foram coletados com base nos relatos dos participantes durante os
encontros de formação continuada realizadas nas escolas e através do blog do projeto
(http://www.trilhascampesinas.blogspot.com.br). Outra fonte de coleta dos dados foi a
observação participante através do acompanhamento presencial e à distância das escolas
na condução da formação continuada.
A análise de dados foi realizada com base na teoria geral das representações
sociais (Moscovici, 2004; Jodelet, 1989; Guareschi (1996), a partir das quais
procuramos descrever os elementos constituintes da representação (ou seu conteúdo)
sob três perspectivas interdependentes: o contexto socioeconômico em que estão
inseridas as escolas, o uso de novas tecnologias na educação e as práticas pedagógicas
da Educação do Campo, ou seja, consideramos os elementos analisados através de seu
contexto histórico, social e cultural.
No decorrer da pesquisa os educadores construíram considerações sobre sua
história de vida, o espaço histórico, social e cultural em que vivem, pensaram
possibilidades de integrar este contexto ao contexto educacional dos alunos, visando à
construção de um currículo escolar que proporcionasse a integração das áreas do
conhecimento Linguagens, Ciências da Natureza, Matemática e ciências Humanas à
área do Campo e das Ciências Agrárias.
A fim de possibilitar essa integração desenvolveram um planejamento a ser
executado na realização de uma trilha ecológica e interpretativa. Consideramos que os
instrumentos de coleta de dados foram pertinentes e nos apresentaram contribuições
essenciais à pesquisa. Visando alcançar os objetivos propostos para esta pesquisa
consideramos também a observação do fazer pedagógico nas Escolas do Campo, sendo
que estas nos possibilitaram perceber o contexto da escola campesina como um espaço
rico de possibilidades curriculares integradas, no entanto, pouco visualizado pelos
educadores, pois estes tem formação inicial voltada para a escola urbana. Constatamos
ainda que, percebendo uma estrutura que pudesse proporcionar integração, os
educadores participaram ativamente e se envolveram nos estudos e produziram
planejamentos que oportunizaram integração curricular.
Trilhas Campesinas: resultados prévios
Os conteúdos consensuais e comuns das representações sociais analisados são
compostos por três eixos temáticos: o contexto socioeconômico, que influenciam na
configuração das relações e seus significados; o uso de tecnologia da comunicação na
educação; e as práticas pedagógicas na Educação do Campo.
O contexto socioeconômico em que as escolas estão inseridas é
predominantemente formado pelo agronegócio (lavoura mecanizada, pecuária leiteira e
de corte) ou pequenos assentamentos com agricultura familiar que são ilhas no meio do
agronegócio, cuja formação social segue a égide do modelo urbano industrial.
Esse processo de formação e organização do território ambiente no norte de
Mato Grosso, onde estão localizadas as escolas, teve seu início na década de 1960,
motivada pela colonização oficial e privada do governo federal, que valeu-se de
contingente populacional excedente e de conflitos agrários, por meio da migração das
regiões sul e sudeste do país. Essa região, localizada no espaço amazônico, encontra-se
em constante transformação desde seu início da colonização contemporânea.
Atualmente, com a pressão internacional acerca da problemática da degradação
socioambiental consequentes dos processos produtivos em prol da preservação e
conservação dos recursos naturais, as escolas convivem com as duas forças
internacionais antagônicas: agronegócio e os movimentos ambientalistas.
Aos poucos muitos desses migrantes vão se tornando professores e
posteriormente vão para a Educação do Campo. Isso revela outro dado importante no
que tange à formação, pois não possuem formação acadêmica para a Educação do
Campo conforme expressam algumas falas:
Cursista 01: Sou X, filha de agricultores vim da região Sul país da cidade de Ponte
Serrada no Oeste de Santa Catarina me crie no campo com meus pais. Casei e fiquei
morando no campo três anos depois mudei para cidade de onde vim. Lá tive a
oportunidade de estudar e então comecei o Magistério e no fim de semana fazia
Técnico em Contabilidade. Hoje sou Graduada em Pedagogia e Educação Especial
com especialização em Psicopedagogia.
Cursista 01: “Optei pela escola no campo porque é com ela que eu me identifico e por
ter conhecimento desse ambiente, possuo facilidade em interagir com a clientela da
Educação no Campo.”
Cursista 02: “Escolhi o campo como opção de qualidade de vida.”
Esse contexto socioeconômico exige novos conhecimentos e práticas
pedagógicas ansiadas nas falas dos educadores. No mesmo sentido, se impõe a segunda
temática analisada, o uso das tecnologias da informação na Educação do Campo.
Esse ponto é bastante carente nas escolas e consequentemente na vida
pedagógica dos educadores. Notadamente, as tecnologias da informação e comunicação
digital chegaram primeiro, através de diversos meios, nos setores do comércio, nas
lavouras e outros lugares para então, timidamente chegar às escolas com qualidade e
quantidade insuficientes às necessidades dos educadores.
Ianni (2008) analisa que a globalização do conhecimento se tornou possível e foi
grandemente facilitada pela presença das tecnologias da informação e da comunicação
na sociedade contemporânea, tal fato se deu não apenas na zona urbana, mas também no
campo, onde a tecnologia adentrou com força total por meio da reforma agrária e do
agronegócio.
A Educação do Campo precisa estar inserida nesse contexto, bem como os
educadores. É necessário propor uma educação básica do campo que possa atender ou
contemplar os interesses sociais, históricos, econômicos e culturais dos povos do
campo.
O mundo globalizado exige mudanças na postura educacional sendo
importante adotar métodos diferenciados de ensino e novas atitudes frente ao
conhecimento e à aprendizagem. Estas exigências pressupõem papeis diferenciados
também para os educadores, em especial para o professor, é necessária uma nova
formação que contribua para que o educador possa fazer uso pedagógico do
computador. Diante de tantas possibilidades tecnológicas e de tantas transformações é
importante pensar, refletir sobre o papel da inclusão digital no campo, a qual
proporcionará realizar coisas novas de modo inovador. Portanto é preciso criar
possibilidades, oferecer oportunidades de acesso a ferramentas tecnológicas aos
educadores e educandos das escolas do campo a fim de que estes possam ter acesso ao
conhecimento historicamente construído e socializar sua aprendizagem.
O Governo Federal por meio do Ministério da Educação MEC tem atentado
para essa situação e propiciado aos educadores formação tecnológica por meio do
programa Nacional de Informática na Educação (ProInfo), além de, junto com os
governantes estaduais e municipais instrumentalizar as redes de ensino mediante a
instalação de laboratórios de informática ligados ao mundo globalizado por meio da
rede tecnológica conectada à internet.
Todo esse contexto em relação às tecnologias da informação e da comunicação
e aos educadores das escolas do campo possibilitaram o surgimento de várias formações
pedagógicas que pudessem capacitar o educador para atuar junto aos alunos de forma
inovadora, além de utilizar a tecnologia como instrumento de construção do próprio
processo de aprendizagem. A formação “Trilhas Campesinas: Integrando vidas e
saberes” foi uma destas formações que se efetivou mediante o uso das tecnologias para
socialização das atividades, integração entre os participantes e avaliação das ações, tudo
isso mediante a utilização do blog como ferramenta pedagógica. Nesse processo,
algumas dificuldades se tornaram manifestas como a ausência de capacitação dos
educadores das escolas do campo para o domínio das capacidades tecnológicas
necessárias para executarem login, postarem atividades, interagirem entre si. Outra
dificuldade bastante acentuada foi a ineficácia da rede tecnológica conectada à internet
na escola do campo, pois a potência da mesma não atende à demanda, gerando o
inconveniente de não se ter acesso ao blog, não se conseguir baixar o material
necessário aos estudos ou postar as atividades desenvolvidas e socializar saberes entre
as diversas unidades escolares e educadores participantes.
Através do perfil e das atividades práticas do projeto, manifestadas nos
depoimentos no blog e percebidas nos momentos presenciais por meio da observação
participante, percebemos que os educadores estão em busca de conhecimento que
atendam às exigências da realidade, conforme expressam os depoimentos:
Cursista 03: “Acredito que a formação trilhas campesinas veio de encontro para
melhorar e adquirir novos conhecimentos, abrir caminhos, envolver o educando de
acordo com a realidade, nós profissionais dessa escola que abraçamos essa causa
estamos anciosos com esse trabalho. Esperamos que esse seja o momento de mostrar os
trabalhos realizados nessa escola e conhecer outras de outras realidades do campo.
Ainda mais espero com esta formação é que todos nós nos convençamos de que é
possível sim fazer educação voltada para a realidade campesina, valorizando estas
pessoas, e trazendo esta realidade verdadeiramente para dentro do espaço escolar.”
Cursista 04: “Espero que esse curso de trilhas campesinas venha melhorar a
aprendizagem e o aperfeicoamento da minha prática, bem como auxiliar o
desenvolvimento de trabalhar educação do campo.”
Neste sentido, o currículo escolar reflete o momento histórico vivido pela
sociedade e está diretamente ligado às relações de poder, à forma como se estrutura e se
organiza a sociedade e à visão que os dominantes tem de mundo, por isso o currículo
construído para as escolas do campo carrega consigo a intencionalidade do domínio
sobre o outro. Seguindo esse parâmetro, durante décadas se propagou a necessidade da
saída do meio rural sob o falso argumento de que o mesmo era atrasado, inferior e que a
vida no campo era muito difícil. Romper com tal estrutura social não é tarefa fácil e
exige tempo prolongado. Por décadas, os movimentos sociais tem lutado para
estabelecer a igualdade e a interdependência entre o meio urbano e rural, rompendo com
tais paradigmas, entretanto isso despende esforços contínuos e não produzem os
resultados desejados e nem no tempo almejado.
Os educadores que atuam nas escolas do campo recebem formação inicial em
universidades urbanas, com currículos urbanos e levam estes consigo ao atuarem no
meio campesino. Além disso, os pais das crianças, adolescentes e jovens do campo, os
quais tiveram e tem vidas bastante difíceis no campo devido ao não incentivo financeiro
dos governantes e à dura vida do trabalhador do campo, sem muitos recursos, desejam e
sonham para seus filhos uma vida melhor do que aquela que tiveram. Dessa forma
incentivam os filhos a buscarem nos estudos (urbanos) um futuro melhor. Por isso,
quando se procura estabelecer um currículo centrado no contexto campesino, voltado
para o estudo agroecológico, da agricultura familiar etc, até mesmo os pais, que viveram
situações tão pesadas no campo, questionam esse currículo e essa prática pedagógica
diferenciada. Ainda que nos dias de hoje esteja garantido aos educandos das escolas do
campo possibilidades curriculares contextualizadas, tal fato, muitas vezes não se
concretiza devido a fatores relacionados à formação dos educadores, às estruturas
sociais estabelecidas e às perspectivas de futuro construídas pelas famílias do meio
campesino que ainda veem no currículo urbano uma forma de “mudar” e conquistar
uma vida melhor para si e para os seus.
Considerações finais
Através do projeto “Trilhas Campesinas: Integrando Vidas e Saberes”, embora ainda em
fase inicial, percebemos algumas contradições e conflitos envolvendo a realidade dos
educadores. Uma dessas contradições diz respeito às políticas públicas voltadas ou
ausentes para essa modalidade específica da educação, manifestadas na organização
curricular das escolas e nas práticas pedagógicas decorrentes que segue o modelo
urbano industrial.
Outro ponto a destacar é em relação ao que aqui traduzimos no sentido da
formação para a Educação do Campo. As expectativas mencionadas no blog do projeto
deixam claro essa questão, os educadores sentem profunda necessidade de aportes
teóricos e metodológicos que possibilitem integrar os conhecimentos do núcleo comum
das áreas do conhecimento aos do contexto social, histórico, econômico e cultural
campesino.
Por fim, salientamos a abertura dos educadores à inovação das práticas
pedagógicas que expressem o enfrentamento das contradições e conflitos por eles
vivenciados.
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integrando vidas e saberes do educador no campo