A Objetividade do Conhecimento Científico à
Luz do Pensamento de Max Weber e Karl Popper
Autoria: Ana Luiza Almeida do Monte, Rafael Fernandes de Mesquita
Resumo
As contribuições de Weber e Popper acerca da objetividade na ciência permanecem atuais.
Por isto, neste ensaio, realiza-se um diálogo entre o tipo ideal do primeiro e a tese do
falseamento do segundo, visando resgatar o valor e discussão sobre o método científico, para
uso dos estudos organizacionais, que ainda precisa de uma base epistemológica mais
consistente. Deste estudo depreende-se que, embora a objetividade não seja factível, continua
desejável, notadamente no campo da literatura administrativa de mercado, cuja ausência de
uma análise mais acurada dos fatos e de uma interpretação mais imparcial de dados tem ido
de encontro aos métodos científicos.
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A Objetividade do Conhecimento Científico à
Luz do Pensamento de Max Weber e Karl Popper
Introdução
O compromisso com a metodologia e o desenvolvimento científico fez com que
muitos filósofos das ciências sociais questionassem no decorrer da história a validade de
teorias estabelecidas, provando que dentre tantos enunciados encontrados, poucos são os que
resistem a testes e refutações. E os que resistem, conforme Kuhn (2005), podem creditar o
mérito à robustez do seu pensamento (paradigma vigente) ou à falibilidade do método
adotado (que gera experiências exemplares). Isso por que nas ciências sociais, o investigador
está inserido no mesmo contexto do objeto de estudo e pode, portanto, ter interesse na defesa
consciente ou inconscientemente, deste ou daquele pressuposto enquanto participante de uma
comunidade científica específica (Kuhn, 2005, p.29), comprometendo assim a sua pesquisa
com vieses subjetivos.
Não raro, vimos cair por terra paradigmas estabelecidos como verdadeiros em
determinados contextos históricos, assim como também observamos ressurgir crenças
secundarizadas ou ignoradas à época em que foram defendidas por seus idealizadores. Tal
movimento é natural em se tratando do pensamento humano, capaz de racionalizar a
realidade, mas também, ao mesmo tempo, de criticar suas próprias convicções. Por todas estas
razões destacam-se, neste campo de estudo, as contribuições decisivas de Max Weber (18641920) e Karl Raimund Popper (1902-1994).
Ambos, em épocas distintas, decididos a colaborar para a resolução da questão da
objetividade nas ciências, realizaram uma profunda análise dos paradigmas vigentes
provocando uma verdadeira crise ou revolução. Weber (2001) ao propor a concepção do tipo
ideal e utilizá-lo para construir as bases epistemológicas da sociologia, praticamente
determinou o destino que o conhecimento tomaria nesta área. Suas teorias ainda resistem a
testes e refutações, embora, o filósofo nascido na Prússia e autor de obras como “A Ética
Protestante e o Espírito do Capitalismo”, “Ciência e Política: Duas Vocações”, “Economia e
Sociedade”, dentre outras, negasse a possibilidade de se fazer ciências sociais com base em
experimentações e reproduções de hipóteses.
A posição epistemológica de Max Weber vai-se delineando a partir de
duas condições fundamentais, a saber: a erradicação dos juízos de
valor do discurso científico, por implicarem um posicionamento
valorativo que para Weber era inaceitável na ciência, e a exigência de
verificação empírica dos enunciados científicos por meio da
explicação causal. (SAINT-PIERRE, 2004, p.19-20)
A tese da experimentação de hipóteses foi defendida por Karl Raimund Popper
(1993), filósofo nascido em Viena em pleno século XX, que se destacou tanto quanto Max
Weber nas ciências sociais graças a sua tese da falseabilidade do conhecimento científico
exposta em “A Lógica da Pesquisa Científica”, “Conhecimento Objetivo” e outros livros e
artigos. Sendo citado com mais frequência que o antecessor Max Weber por autores modernos
como G. Bachelard (1996), E. Morin (1990), F. Gewandsznajder (2001), dentre outros, Karl
Popper, tornou-se célebre após sustentar que embora não exista uma verdade científica
universal, é preciso que a ciência descubra as teorias que mais se aproximem deste ideal
refutando metodologicamente as falsas hipóteses. “ Depois de Popper, houve uma viragem
epistemológica pela qual, de alguma forma, surgiram todos os problemas que o positivismo
lógico julgava ter resolvido” (MORIN, 1990, p.33).
Karl Popper teve suas obras traduzidas para diversos idiomas, assim como Max
Weber, mas as suas posições polêmicas a respeito do desenvolvimento científico lhe
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renderam tanto notoriedade quanto críticas. Por outro lado, ele também chegou a ser
considerado por alguns de seus contemporâneos, sucessor de Immanuel Kant (1724 – 1804).
Eu conheci Popper em Alpbach, em 1948. Admirava a liberdade de
suas maneiras, seu atrevimento, sua atitude desrespeitosa para com os
filósofos alemães que davam peso à conduta em mais de um sentido,
seu senso de humor (pois é, o Karl Popper relativamente desconhecido
de 1948 era muito diferente daquele Sir Karl Popper estabelecido nos
anos posteriores) e também sua capacidade de expressar problemas
sérios em uma linguagem simples e jornalística. (FEYERABEND,
2011, p.143)
Max Weber utilizou uma revista bastante influente em sua época, para divulgar seus
pensamentos. Chamada Archiv für Sozialwissenschaff und Sozialpolitik (Arquivo de
Sociologia e de Política Social), a revista foi um excelente canal para Weber defender a
necessidade de um novo método, mais coerente com uma nova ciência que surgia em pleno
século XIX: a sociologia. Weber (1991) foi o primeiro filósofo a propor um método
sociológico de investigação científica, defendendo a necessidade de separar a ciência da
crença, com base na convicção de que “a crença no valor da verdade científica é produto de
determinadas culturas, e não um dado da natureza” (WEBER, 1991, p.101). Ou seja, embora
o cientista jamais encontre a verdade, ele tem o papel de colocar ordem no caos do
conhecimento para que o conhecimento possa, de fato, servir à humanidade, facilitando ou
mostrando o melhor caminho para a sua evolução.
Dessa forma, este trabalho visa a analisar a objetividade como condição do
desenvolvimento científico, mediante a realização de um diálogo entre o tipo ideal de Max
Weber e o falseamento de Karl Popper. Espera-se com tal ensaio teórico resgatar o
inesgotável valor das ideias de Weber, aparentemente secundarizadas após a obra de Popper,
além de contribuir para a evolução do conhecimento das ciências sociais aplicadas, em
especial, a ciência administrativa, que ainda dá os primeiros passos de uma longa jornada.
É preciso resgatar o valor e discussões sobre o método científico, aproximando-o dos
estudos organizacionais. Como o mercado está saturado de guias e manuais considerados
literatura não-científica, cabe a nós, cientistas, mostrar o quão profícuo e consistente também
pode ser o processo de reflexão e investigação metodologicamente orientados, para que ao
invés de receitas práticas, todos possam apreciar as obras clássicas não só por serem clássicas,
mas principalmente por serem vivas.
A Questão da Objetividade Científica
Os homens preferem ter uma opinião formada sobre tudo a admitirem o que não
sabem. Foi Sócrates (462 – 399 a.C.) quem constatou isto ao investigar a razão pela qual o
Oráculo de Delfos anunciou que ele seria o homem mais sábio da Grécia. Saindo às ruas, o
filósofo pôs-se a questionar as pessoas sobre seus conhecimentos, para concluir que os
homens dificilmente admitiam ser ignorantes em determinados assuntos. Como Sócrates só
costumava falar do que conhecia, deduziu que a sua sabedoria residia justamente no fato de
admitir o que sabia e também o que não sabia, sendo esta segunda categoria a mais comum
em sua vida, uma vez que lhe interessavam muito mais os porquês que os para quês, tão
prezados pelos homens comuns. Daí a máxima “só sei que nada sei” atribuída a ele, sobre o
reconhecimento da ignorância humana (PLATÃO, 2010, p.15).
Os positivistas clássicos acreditavam ser possível separar a sabedoria do homem sábio.
Ou seja, para eles o homem seria capaz de explicar a realidade objetiva sem a interferência do
seu pensamento subjetivo (GEWANDSZNAJDER, 2001). Era como se acreditassem que
todos os pesquisadores tivessem a mesma capacidade de Sócrates de discernir entre o que
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sabiam e o que não sabiam, e portanto, o que podiam e o que não podiam fazer em uma
“pesquisa científica”, pois, conforme Feyerabend (2011, p.122), “cada projeto, cada teoria,
cada procedimento precisa ser avaliado por seus próprios méritos e pelos padrões adaptados
aos processos com os quais lida”. Contudo, “a maioria das regras hoje defendidas por
cientistas e filósofos da ciência como sendo um ‘método científico’ uniforme ou são inúteis –
não produzem os resultados que deveriam supostamente produzir – ou debilitantes”
(FEYERABEND, 2011, p.123).
Com o passar do tempo, alguns cientistas começaram a duvidar do poder dos métodos
científicos, admitindo que o maior problema numa investigação não seriam as crenças
inerentes à condição humana de existir e interpretar a realidade a seu modo, mas, separar a
crença da ciência. “O conhecimento vulgar necessita de um modo, mas a ciência, de um
método, isto é, de um procedimento segundo princípios da razão, mediante os quais apenas o
múltiplo de um conhecimento pode chegar a ser um sistema” (KANT, 2012, p.167).
Como Kant (2012), muitos filósofos discutiram o papel do juízo de valor e do senso
comum para a evolução científica. Dentre eles Durkheim (1998, p.29), que afirmou ser o
senso comum algo realmente impossível de controlar, pois “no momento preciso em que nos
cremos livres da sua influência, ele nos impõe os seus juízos sem que o percebamos”.
Bachelard (1996, p.295) investigou os obstáculos à objetividade na ciência, sob a
justificativa de que “não é à clara luz, e a à beira da sombra que o raio, ao difratar-se, entreganos seus segredos”. Também Bacon (1979, p.23), atestou que “o intelecto humano, quando
assente em uma convicção (ou por já bem aceita e acreditada ou porque o agrada), tudo
arrasta para seu apoio e acordo”.
Morin (1990, p.48) foi mais um que abraçou a causa da impossibilidade de se
demarcar o território da ciência pura, de se “fazer uma decantação, digamos, do científico e
do não científico”. Para ele a ciência ao defender a objetividade, dissimula justamente o que a
anima e impulsiona, por isso o autor propõe que o importante é o pesquisador tomar
consciência de seus móbiles. “A objetividade é o resultado de um processo crítico
desenvolvido por uma comunidade/sociedade científica a jogar um jogo cuja regra ela assume
plenamente. Ela é produzida por um consenso” (MORIN, 1990, p.35).
Os juízos de valor não são “objetivos” nem podem ser usados para
empurrar para o lado as opiniões “subjetivas” que emergem das
diferentes tradições. [...] A aparência de objetividade associada com
alguns juízos de valor vem do fato de uma tradição específica ser
usada, mas não reconhecida: a ausência ou impressão de subjetividade
não é prova de “objetividade”, mas de um descuido”.
(FEYERABEND, 2011, p.101)
Se, como defendia Aristóteles (2009, p.133), “o conhecimento científico nada mais é
que um juízo acerca de coisas universais e necessárias”, então não vale a pena discutir a
questão da objetividade na ciência? Para Gewandsznajder (2001, p.09), “afirmar que a ciência
é objetiva não significa dizer que as suas teorias são verdadeiras”. E, segundo Popper (1993),
há algumas verdades mais verdadeiras que outras. “Toda ciência e toda filosofia são senso
comum esclarecido” (POPPER, 1975, p. 42). “Há verdades provisórias que se sucedem, em
que a única verdade é a aceitação desta regra e desta busca” (MORIN, 1990, p. 45).
Por conseguinte, embora não se possa falar em uma verdade absoluta nas ciências,
pensemos como Aristóteles (2009, p. 28) que “com uma opinião verdadeira todos os fatos se
harmonizam, mas com uma opinião falsa os fatos não tardam a colidir”. Portanto, cabe ao
homem das ciências colocar ordem nesse caos do conhecimento, como dizia Weber (1991),
defensor de que apenas uma mente metodologicamente orientada seria capaz de fazer o
conhecimento científico progredir. “Por que só é uma verdade científica aquilo que pretende
ser válido para todos os que querem a verdade” (WEBER, 1991, p.100).
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Não há um caminho livre de juízos de valor, mas há um caminho certo e um errado
para se fazer ciência. “Apenas as ideias de valor que dominam o investigador e uma época
podem determinar o objeto de estudo e os limites deste estudo” (WEBER, 1991, p.100). “Só o
conhecimento objetivo é criticável”, diz Popper (1975, p. 35).
As ideias preconcebidas por parte do cientista não são um problema em si. O
problema surge quando ele se propõe a fazer uma mera descrição acrítica de seu entorno
atestando não a sua competência, mas a sua ignorância. Um trabalho metodologicamente
orientado pode ajudar a interpretar a experiência pessoal de vida e a realidade, extraindo do
senso comum o que é universalmente válido sem pretender que essa universalidade seja
infalível ou confundida com a verdade.
O destino de uma época cultural que “provou da árvore do
conhecimento” é ter de saber que podemos falar a respeito do devir do
mundo, não a partir do resultado de uma investigação, por mais
perfeita e acabada que seja, mas a partir de nós próprios que temos de
ser capazes de criar este sentido (WEBER, 2001, p.88).
Conforme Popper (1993, p.48), “uma experiência subjetiva, ou um sentimento de
convicção, jamais pode justificar um enunciado científico”. “Não se pode basear nada na
opinião: antes de tudo é preciso destruí-la.” (BACHELARD, 1996, p.18)
O controle de nós mesmos e de nossas ações pelas nossas teorias e
propósitos é um controle plástico. Não somos forçados a nos
submetermos ao controle de nossas teorias, porque podemos discutilas criticamente e podemos rejeitá-las livremente se pensarmos que
não atingem nossos padrões reguladores. Assim, o controle está longe
de mostrar parcialidade. (POPPER, 1975, p. 220).
Não é o senso comum que corrompe o método. Antes, é dele que deriva a fecundidade
criadora do progresso nas ciências sociais, segundo Weber (2001), para quem a realidade
irracional da vida e o seu conteúdo de significações possíveis são inesgotáveis. Hipótese
sustentada por “Polanyi, Kuhn e outros”, segundo Feyerabend (2011, p.124): “Os cientistas só
terão sucesso se estiverem orientados totalmente pela pesquisa, se lhes permitirem buscar
apenas aqueles problemas que consideram importantes e usar somente procedimentos que
lhes pareçam eficientes”. “Forçoso é concluir que caminhamos para uma nova relação entre a
ciência e o senso comum, uma relação em que qualquer deles é feito do outro e ambos fazem
algo de novo” (SANTOS, 1989, p.40).
Não existe qualquer análise científica puramente “objetiva” da vida
cultural, ou – o que pode significar algo mais limitado, mas
seguramente não essencialmente diverso, para nossos propósitos – dos
“fenômenos sociais”, que seja independente de determinadas
perspectivas especiais e parciais, graças às quais estas manifestações
possam ser, explícita ou implicitamente, consciente ou
inconscientemente, selecionadas, analisadas e organizadas na
exposição, enquanto objeto de pesquisa. Deve-se isto ao caráter
particular do alvo do conhecimento de qualquer trabalho das ciências
sociais que se proponha ir além de um estudo meramente formal das
normas – legais ou convencionais – da convivência social. (WEBER,
1991, p.87).
Considerando portanto que o “nosso ponto de partida é o senso comum e o nosso
grande instrumento para progredir é a crítica” (POPPER, 1975, p.43), não há como ignorar a
capacidade do pesquisador de emitir juízo de valor. “A luz propagada por essas ideias de
valor supremas ilumina, de cada vez, uma parte finita e continuamente modificada do caótico
curso de eventos que flui, através do tempo” (WEBER, 1991, p.126). “Todo o indivíduo
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histórico está arraigado, de modo logicamente necessário, em ideais de valor” (POPPER,
1975, p.96).
A teoria de senso comum é simples. Se você ou eu quisermos
conhecer alguma coisa ainda não conhecida a respeito do mundo,
temos de abrir os olhos e olhar em redor. E temos de aguçar nossos
ouvidos e ouvir ruídos, especialmente os feitos por outras pessoas.
Assim nossos vários sentidos são nossas fontes de conhecimento – as
fontes ou acesso para nossas mentes. (POPPER, 1975, p. 66)
Negar a bagagem ou pressupostos do pesquisador não significa dizer que eles não
existam. Aliás, significa ser inapto para lidar com fato reais. “Todo o conhecimento da
realidade cultural é sempre um conhecimento subordinado a pontos de vista especialmente
particulares” (POPPER, 1975, p.97). “Todo o conhecimento reflexivo da realidade infinita
realizado pelo espírito humano finito baseia-se na premissa tácita de que apenas um
fragmento limitado dessa realidade poderá constituir de cada vez o objeto da compreensão
científica” (WEBER, 1991, p.88).
Conforme Popper (1975) e Weber (1991), a ciência nunca pode ser descrita como livre
de suposições.
A tentativa de um conhecimento da realidade “livre de pressupostos”
apenas conseguiria produzir um caos de “juízos existenciais” acerca
de inúmeras percepções particulares. E mesmo este resultado só na
aparência seria possível, já que a realidade de cada uma das
percepções, expostas a uma análise detalhada, oferece um semnúmero de elementos particulares, que nunca poderão ser expressos de
modo exaustivo nos juízos de percepção. (WEBER, 1991, p.95)
Tanto Popper (1975) quanto Weber (1991) concordam que não é possível a ciência
progredir com base no mero registro de fatos calcados em valorações e contingências
individuais, por isto propuseram, cada qual a seu modo, uma solução para este problema.
O Método de Weber
Se há algo que traduza bem o espírito weberiano, sem dúvida, está contido nesta frase:
“aquele que põe todo o coração em sua obra, e tão-somente nela, eleva-se à altura e à
dignidade da causa que deseja servir” (WEBER, 2004, p.35). Max Weber foi acima de tudo
um defensor da ciência que se reinventa, modifica e cresce para acompanhar os pensadores e
pensamentos que movem a humanidade. Ele dizia que toda obra científica “acabada” tinha
como sentido último fazer surgir novas indagações (WEBER, 2004, p.36): “No campo da
ciência, não apenas nosso destino, mas também nosso objetivo é o de nos vermos, um dia,
ultrapassados”. “Na obra da ciência só se pode amar o que se destrói, pode-se continuar o
passado negando-o, pode-se venerar o mestre contradizendo-o” (BACHELARD, 1996).
Afinal,
[...] a finalidade e alvo último de qualquer ciência consiste em ordenar
toda a suma matéria de estudo num sistema de conceitos, cujo
conteúdo deveria ser estabelecido e progressivamente aperfeiçoado
mediante a observação de regularidades empíricas, a construção de
hipóteses e a verificação das mesmas, até que um dia daqui nascesse
uma ciência “perfeita” e, consequentemente, dedutiva. (WEBER,
1991, p.121).
Todavia, Weber (2004, p.47) jamais admitiu subjetivações, pois para ele “sempre que
um homem de ciência permite que se manifestem seus próprios juízos de valor, ele perde a
compreensão integral dos fatos”. Por isto o pesquisador deve fazer uso dos métodos de
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pensamento, dos instrumentos e de uma disciplina fornecidos pela ciência. “O domínio do
trabalho científico não tem por base as conexões ‘objetivas’ entre as ‘coisas’ mas as conexões
conceituais entre os problemas” (WEBER, 1991, p.83-84).
Poder e querer compreender a atividade humana sempre foi legítimo e necessário, mas
isto jamais pode justificar a ausência de espírito crítico ou o predomínio das ideias de valor
em relação ao conhecimento objetivo. É preciso conceituar o que se quer investigar para criar
barreiras à subjetividade, onde um só aspecto particular pode ser suficiente para limitar o
conhecimento, sempre maior e mais amplo que o apreendido por nossos sentidos. Sem
embargo, quanto mais abstrato e “quanto mais vastas forem as relações que se devem expor”
(WEBER, 1991, p.113), mais será preciso trabalhar com conceitos claros, inseridos em um
sistema conceitual e mental obtido através da “abstração de determinadas manifestações
sociais característicos de uma época” (WEBER, 1991, p.110). Foi a este processo ou método,
que Weber (1991) chamou de tipo ideal.
Intencionalmente, Weber (1991, p.115) encarou o tipo ideal como “uma construção
intelectual destinada à mediação e à caracterização sistemática das relações individuais”. Para
ele, seriam bons exemplos de tipo ideal os conceitos de cristianismo e capitalismo, cujas
palavras não encerram uma única ideia, mas um vasto campo de concepções. E isto é possível
porque, conforme o método sociológico weberiano, um tipo ideal não encerra um fim. Ele
deve ser trabalhado “única e exclusivamente como meio do conhecimento [...]”, pois “quanto
mais clara consciência se pretende ter do caráter significativo de um fenômeno cultural, tanto
mais imperiosa se torna a necessidade de trabalhar com conceitos claros” (WEBER, 1991,
p.108).
Como ele, Bachelard (1996, p.13) também defendeu a abstração como caminho para
conduzir o pesquisador por entre as sombras projetadas pelo conhecimento: “a abstração é um
dever, o dever científico, a posse enfim do pensamento do mundo!” Isto porque a abstração
eleva a consciência, ou melhor, o uso da imaginação possibilita o domínio do irracional pela
razão. “Libertando-nos do intelectualismo da ciência é que poderemos apreender nossa
própria natureza e, nesse sentido, a natureza em geral” (WEBER, 2004, p.41). “A razão nos
prega muitas peças (e nós a ela)” (SANTOS, 1989, p.39). “É necessário continuar a
considerar a ciência como uma atividade de busca e de investigação” (MORIN, 1990, p.46).
Segundo Weber (2001, p.90) para garantir a imparcialidade científica, é necessário
“indicar aos leitores – e digamos a nós mesmos – em que momento cessa a fala do
pesquisador e começa a fala do homem que está sujeito a intenções e vontades”, por isto o
tipo ideal é um instrumento essencial. O conceito elaborado propõe-se a formar o juízo de
atribuição em substituição ao juízo de valor. O tipo ideal elucida cientificamente criando uma
barreira à reflexão valorativa do investigador. “Não é uma hipótese, mas pretende apontar o
caminho para a formação de hipóteses. Embora não constitua uma exposição da realidade,
pretende conferir a ela meios expressivos unívocos” (WEBER, 2001, p.118).
A receita para a construção de um tipo ideal dada por Weber (2001, p.118) segue a
lógica de abarcar todos os pontos de vista sobre determinada questão, em primeiro lugar, para
depois se encadear o maior número possível dos fenômenos observados, formando assim “um
quadro homogêneo de pensamento”. Com este quadro homogêneo, o pesquisador estaria a
salvo de si mesmo, pois objetivamente o tipo ideal não reflete a sua subjetividade, única e
exclusivamente, mas toda a gama de juízos de valor e de atribuição existentes sobre
determinado fato social em um contexto histórico específico. “É impossível encontrar
empiricamente na realidade este quadro, na sua pureza conceitual, pois trata-se de uma
utopia” (WEBER, 2001, p.118).
Desta lógica resulta a impossibilidade de se reproduzir as condições em que o tipo
ideal foi criado, inviabilizando portanto o seu teste como hipótese, conforme modelo proposto
por Popper (1993). A superação do tipo ideal se daria unicamente com o fluir da história ou
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devir. “Precisamente porque o conteúdo dos conceitos históricos é variável, é preciso
formulá-los de cada vez com maior precisão” (WEBER, 1991, p.122). Embora Weber (2001)
alerte sobre o perigo do uso do tipo ideal por uma mente não formada cientificamente, que
pode vir a cair em um abismo intelectual, ele afirma que este ainda é o melhor caminho para
se fornecer “conceitos e juízos que não constituem a realidade empírica, nem a podem
reproduzir, mas que permitem ordená-la de modo válido por meio do pensamento” (WEBER,
1998, p.136).
O Método de Popper
Os cientistas tentam eliminar suas teorias falsas, tentam deixar que
elas morram em lugar deles. O crente – seja animal ou homem –
perece com suas crenças falsas (POPPER, 1975, p. 123).
Popper (1993) fundamenta seu método no falseamento das teorias, das hipóteses e, a
partir do quão resistente uma ou outra se apresenta, torna-se mais próxima à verdade. Assim,
o filósofo não pretende extinguir teorias, conhecimentos que uma vez se mostraram
suficientes, mas testá-los para identificar quais fundamentos permanecem e podem seguir a
evolução científica associando-se a outros modelos.
Deste modo, a ciência não parte do inexistente, sempre há algo que incite o
pesquisador, ou mesmo que fundamente sua análise. “A ciência, a filosofia, o pensamento
racional, todos devem partir do senso comum.” (POPPER, 1975, p. 42). É no senso comum
que estão as maiores bases de pesquisa para gênese do conhecimento científico.
Parece não haver razão para que não devamos fazer de experiências
observacionais nosso ‘ponto de partida’ provisório – um ponto de
partida como o senso comum, que não envolva compromisso com a
verdade ou a certeza. Enquanto estivermos inclinados criticamente,
não importa muito onde começamos (POPPER, 1975, p. 77).
Não há como encontrar um ponto de partida verdadeiro e certo, mesmo porque a
verdade na ciência não é absoluta, deve ser testada, refutada, e o que há são teorias que se
aproximam mais ou menos desta verdade, um conceito de verossimilitude apontado por
Popper (1975), que simboliza uma maior proximidade da verdade.
A crítica é fundamental, a racionalidade. Independentemente de quão falsa possa ser
demonstrada a hipótese original, esta foi formulada por observação, que foi, antes,
impregnada de teorias, uma “pequena reflexão crítica nos convence que todo o nosso
conhecimento é impregnado de teoria” (POPPER, 1975, p. 106), teorias que o antecederam.
“A consciência no-los dá a conhecer até certo ponto, mas da mesma maneira que as sensações
nos fazem conhecer o calor, a luz, o som ou a eletricidade; recebemos impressões confusas,
passageiras, subjetivas, mas não noções claras e distintas, conceitos explicativos”
(DURKHEIM, 1998, p.33).
Esse racionalismo crítico, uma das principais características do método de Popper,
intenta por auxiliar o pesquisador no seu labor de construção do conhecimento científico.
Popper (1975, p.66) afirma que “se você ou eu quisermos conhecer alguma coisa ainda não
conhecida a respeito do mundo, temos de abrir os olhos e olhar em redor”, a fonte é a
observação e os instrumentos são os vários sentidos humanos “as fontes ou acesso para nossas
mentes”. “O conhecimento do real é luz que sempre projeta algumas sombras. Nunca é
imediato e pleno” (BACHELARD, 1996, p.17). “A ciência normal esforça-se (e deve fazê-lo
constantemente) para aproximar sempre mais a teoria e os fatos. Essa atividade pode ser vista
como um teste ou uma busca de confirmação ou falsificação” (KUHN, 2005, p.111).
Popper (1993) utiliza o conceito de conhecimento objetivo aliado ao racionalismo
crítico e diz que “o conhecimento científico deve ser justificável, independentemente de
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capricho pessoal”, para isso, propõe que esta justificação precisa ser objetiva, ser submetida a
testes de validade e compreendida por todos, por meio da razão. Do mesmo modo que não
pode haver, em ciência, “enunciado insuscetível de teste” (POPER, 2007, p. 49).
Para Morin (1990, p.32), deste pensamento extrai-se a relevância de Popper: “Ele
desenvolveu uma espécie de teoria da seleção das teorias científicas”. A objetividade
defendida por Popper (1993) se ramifica às bases empíricas, tanto que o autor afirma ser o
problema da epistemologia questionar “como submeter a testes enunciados científicos,
considerando suas consequências dedutivas”, e não a subjetividade da consciência em
questões que identificam um sujeito questionador, “o que não justifica nem estabelece a
verdade em qualquer enunciado” (POPPER, 1993, p. 104).
A ameaça que às vezes cerca a teoria administrativa e intimida a
credibilidade dos que a promovem no mundo das organizações
provém, talvez, de certo conflito que alimentamos. Que conflito?
Aquele que ocorre entre a provisoriedade das situações e do
conhecimento a elas relativo, de um lado, e, de outro, a voz do
paradigma epistemológico dominante que continua a ecoar a
pretensão de uma correspondência adequada e, por isso, definitiva
entre nosso conhecimento e a realidade. (MATTOS, 2003, p.67)
Cabe então detalhar a expressão terceiro mundo, uma conveniência que Popper (1975)
utiliza para auxiliar na compreensão do que seria o conhecimento objetivo e as relações que
os indivíduos têm na produção deste conhecimento. Para melhor entendimento, o autor
escreve:
Se dizemos “vi uma coisa escrita num papiro”, ou “vi uma coisa
gravada em bronze”, falamos das entidades linguísticas como
pertencentes ao primeiro mundo; não implicamos que podemos ler a
mensagem. Se dizemos “fiquei grandemente impressionado com a
seriedade e a convicção com que o discurso foi proferido”, ou “isto
não é tanto uma afirmação e sim uma explosão colérica”, falamos de
entidade linguísticas como pertencentes ao segundo mundo”. Se
dizemos “mas James disse hoje precisamente o contrário do que John
disse ontem”, ou “do que James diz decorre claramente que John está
enganado”, ou se falamos de platonismo, ou da teoria do quantum,
então falamos de alguma significação objetiva, de algum conteúdo
lógico objetivo; isto é, falamos da significação de terceiro mundo da
informação ou da mensagem transmitida no que foi dito ou escrito
(POPPER, 1975, p. 154).
Assim, Popper (1975) quer indicar que o primeiro mundo é aquele dos objetos físicos,
dos estados materiais; o segundo mundo seria o de estados mentais, de consciência, da
subjetividade, das posições comportamentais; e o terceiro, de conteúdos objetivos,
especialmente, de pensamentos científicos. A partir daí, o conhecimento científico é
apresentado como um conhecimento objetivo, sem um “sujeito conhecedor”, pois este mundo
de sujeitos, pertence ao segundo mundo, àquele dos posicionamentos subjetivos, enquanto a
ciência é o conhecimento por si, pertencente ao terceiro mundo, “ao mundo de teorias
objetivas, problemas objetivos e argumentos objetivos” (POPPER, 1975, p. 110).
É neste mundo que residem as teorias, as hipóteses, o conhecimento objetivo e só este
é criticável: “o conhecimento subjetivo só se torna criticável quando se torna objetivo. E
torna-se objetivo quando dizemos o que pensamos; e mais ainda quando o escrevemos, ou
imprimimos” (POPPER, 1975, p. 35). Neste sentido, o terceiro mundo é pleno.
Considerações finais
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Weber (2001) e Popper (1993) concordam que o conhecimento têm que ser
ultrapassado para garantir o progresso e evolução da ciência. Por isto os enunciados
científicos prescindem de simplicidade e universalidade, conforme Popper (1993), pois tais
características irão garantir maior quantidade de testes e refutações que, por seu turno, irão
aproximar a ciência da verdade. Weber (2004) não acredita na verdade científica ou em leis e
teorias universalmente aceitas, mas em conceitos que possibilitem ordem no caos do
conhecimento e, portanto, clareza no pensamento dos cientistas, impregnados de suas
convicções. Uma vez que a pretensão é compreender um mundo infinito de possibilidades a
partir de uma perspectiva finita, que pelo menos a mente seja metodicamente orientada.
Do diálogo entre Weber (1991) e Popper (1993) depreende-se que os estudos
organizacionais tem crescido justamente com base na lógica de se propor hipóteses e depois
refutações. Sendo que a velocidade com que isto acontece, bem como a profusão em que se
dá, não necessariamente é garantia de eficiência metodológica ou evolução positiva para a
ciência.
Observa-se com bastante frequência as incursões de pseudocientistas na realidade para
extrair “teoria”. Se por um lado, como vimos, para Popper (1975) isto pouco importa (pouca
importa de onde começamos), para Weber (2004), o pesquisador, principalmente iniciante,
corre o risco de esquecer que nem tudo que é real ou empiricamente testado é realmente
válido, assim como nem tudo que é utópico ou idealizado deve ser descartado sem uma
melhor observação. Portanto, cabe às ciências administrativas exercitar a autorreflexão e
abstração, conforme Weber (2004), para que consiga separar melhor os aspectos psicológicos
do problema de seus aspectos lógicos e metodológicos, de acordo com Popper (1993).
Embora a objetividade não seja factível, conclui-se neste ensaio teórico, que ela
continua desejável – perante os absurdos mercadológicos que se observam, notadamente no
campo da literatura administrativa de mercado (MATTOS, 2003), em nome de uma análise
mais acurada de fatos e uma interpretação mais imparcial de dados. Afinal, ainda faltam aos
estudos organizacionais estabelecer uma base mais consistente de conceptualização
epistemológica e este trabalho, por mais que não intente constituí-la, sem dúvida, pode
auxiliar no seu desenvolvimento.
A reflexão aqui exposta, traz como contribuições também:
- o questionamento, no ambiente organizacional, das práticas cotidianas que estão
arraigadas no senso comum;
- o incentivo a reflexão de algumas lideranças que insistem em resolver certos
problemas com base em teorias duvidosas, ignorando sua experiência (observação direta e
capacidade de racionalizar), intuição ou mesmo conhecimento técnico e especializado;
- a influência do juízo de valor no processo de desenvolvimento organizacional.
Com base no que foi apresentado, novos estudos podem ser realizados visando
responder ainda: Que outros métodos podem vir a existir ou ser considerados mais eficazes
para resolver a questão da objetividade na ciência? Como responder aos anseios de uma
ciência que se transforma cada vez mais rápido e com maior intensidade? Quais são os
instrumentos mais eficazes para a evolução do conhecimento nas ciências sociais aplicadas?
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1 A Objetividade do Conhecimento Científico à Luz do