Inhumas, ano 3, n. 14, jan. 2015
ISSN 2316-8102
GLITTER IS A BITCH'S BEST FRIEND 1
Pedro Costa
Assisti, em 2013, ao trabalho Keep it real, do artista Sergiu Matiș, no
SODA2 Research Showings, no Uferstudios em Berlim. Por ter me atraído o
desejo e a curiosidade, e por ter me retirado do meu lugar confortável de público,
escrevi sobre essa obra.
A quebra de uma cena convencional, em que a quarta parede impera, se
instaura na primeira interpelação de Matiș: Welcome, bitchies! Nós, o público,
estávamos claramente num jogo de não passividade perante o espetáculo. O
artista nos transforma em parte da cena. Nos transformou em bitchies. Esse é o
propósito do The Bitch Manifesto, como também se chama a obra: usar da
palavra bitch, carregada de abjeções, para transformar o mundo. Com isso, nos
transforma em sujeitos, não mais de uma ideologia que nos submete
violentamente, mas como um termo político que nos empodera.
Sempre considerei de fundamental importância conhecer a história de
vida dxs3 artistas, pois acredito que crítica e corpo estão conectados. A pessoa
está implicada na cena, mesmo que em seu subtexto. É impossível apagar a
biografia nas escolhas em relação aos elementos cênicos. Nesse caso, é um
trabalho de jogo de poder. Xs subalternxs falam.
Matiș é um artista da Romênia, do Leste Europeu. Pela sua biografia
geopolítica, é um artista pós-socialista. Um artista queer feminista, como ele se
intitula. Utiliza em sua obra o ensaio "Manifesto Ciborgue: Ciência, tecnologia e
feminismo-socialista no final do século XX", de Donna Haraway, para construir
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Paródia política da canção "Diamonds are a girl's best friend” (Jule Styne e Leo Robin). Mantive o título em inglês
porque originalmente foi escrito nessa língua e pela dificuldade de traduzi-lo e manter a mesma potência política. Uso a
palavra Bitch a partir de uma perspectiva queer feminista: “Em um contexto feminista, pode indicar uma mulher forte ou
assertiva, aquela que pode fazer os homens se sentirem ameaçados”. Ver em: <http://reallifeglobal.com/bitch-pleasecomo-usar-a-palavra-bitch-corretamente/>. Acesso em: 30 de maio de 2015.
2
SODA – Solo Dance Authorship é um programa internacional de mestrado na UDK Universität der Künst (Universidade
de Artes) em Berlim.
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Eu uso o “x”, como em matemática, para indicar todas as possibilidades de pronomes nas questões de Gênero.
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sua dramaturgia. Com isso, nos apresenta uma obra político-ficcional, tramada
com ironia, para desestabilizar o sistema capitalista e um mercado de arte
centralizador, fazendo parte dele. Na cena, corpos dançantes empoderados:
mulher, Negro, queer. Corpos ciborgues como uma proposição ao conflito
antropológico (leia-se: colonizador) entre natureza e cultura. Prazerosos e
perturbadores, como a coreografia. Ciborgues no campo metafísico, nas relações
de poder e nas lutas para desconstruir o patriarcalismo. O corpo ciborgue como
fronteira transgredida, de perigosas possibilidades políticas.
Os corpos se mesclaram com o midiático e a dança contemporânea.
Trabalharam a repetição dos movimentos como elemento, uma repetição dos
videoclipes da MTV (Music Television), que contaminaram uma geração. Na
dança, reprodução e repetição a fim de chegar a um movimento tecnicamente
perfeito. Dupla crítica exposta: à dança e à sociedade industrial. Ou a uma dança
a favor de uma sociedade industrial?
A obra é uma ficção e age nessa esfera. Nós somos bitchies, com prazer.
E bitch que se preze necessita de seu momento de glamour. O glamour é o
poder! Ao postarem-se com um foco de luz, e ao jogarem purpurina prata nos
ventiladores ligados, estava feita a paródia que mesclava a cena do vento na
saia de Marilyn Monroe no filme O pecado mora ao lado (Billy Wilder, 1955) e os
diamantes oferecidos à mesma atriz no musical Os homens preferem as loiras
(Howard Hawks, 1953). Eram os diamantes/purpurina que voavam em direção às
garotas/bitchies em cena. Um excesso de purpurina que contaminou a todxs,
incluindo nós e o espaço.
Ao final, na leitura do texto de Matiș, ele revela que a purpurina prata
representava a transformação dos corpos em corpos ciborgues. Para mim, os
corpos já eram ciborgues em suas proposições coreográficas, de acordo com o
texto de Haraway. A purpurina me remeteu diretamente à estética Camp4. A
cultura queer contemporânea herdou as estruturas e estratégias do Camp, de
acordo com Gregory Woods. A parte final da coreografia de Matiș se mostrou
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Camp é interpretado como exagero, uma atitude irônica em relação ao mainstream cultural, e uma forma estética que
celebra o artifício sobre a beleza. Camp é associado à cultura homossexual, à cultura drag queen e a um erotismo
autoconsciente que questiona construções de gênero binárias. Pode ser compreendido também como paródia gay. Uma
de suas características estéticas é o uso e abuso da purpurina.
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também interessante: me remeteu a vermes purpurinados rastejando em
purpurina! Organismos animalescos, vermes glamourosos e necessários:
bitchies!
Para concluir, escolhi o nome do texto “Glitter is a bitch's best friend”
como uma paródia povera, livre e política em relação ao “Diamonds are a girl's
best friend” para demonstrar a crítica ao sistema capitalista que a obra
apresenta. Purpurinas prata brilhando como diamantes. Diamantes como o
glamour capitalista, patriarcal, heteronormativo, classista e racista. Purpurina
como o truque, o glamour pobre, queer e crítico. A obra é boa ao criticar o caráter
glamouroso consumista do sistema e ao usar da ironia, como estratégia que
Haraway utiliza em seu texto, para desestabilizar as cenas clássicas da dança e o
lugar confortável e passivo da plateia. Apesar disso, os corpos em cena são
corpos aparentemente normativos, com uma estrutura de balé clássico. Porém,
em suas subjetividades, biografias e ficções, não! Essas são as vertigens do póshumano. São as miragens das traduções. São os ruídos dos desejos. Afinal, meu
tênis Adidas me colocará em apuros? 5
PARA CITAR ESTE TEXTO
COSTA, Pedro. “Glitter is a Bitch's Best Friend”. eRevista Performatus,
Inhumas, ano 3, n. 14, jan. 2015. ISSN: 2316-8102.
Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy
© 2015 eRevista Performatus e o autor
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“When I am wearing my costume to a protest I wonder if it is not gonna be it that will start suffocating me… Are my
Adidas shoes going to walk me into trouble?”, por Sergiu Matiș.
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