revista portuguesa de psicologia
trimestral
dezembro 2010
nº6
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2010, 6, 1-8
Espiritualidade, Religião e Percepção de Doença:
Implicações na adesão terapêutica – Artigo de Revisão1
Ana Cartaxo2
Resumo
Os conceitos de religião e espiritualidade assentam sobre alguma dificuldade de consenso entre os
autores, contudo conceptualizamo-los segundo uma procura de proximidade com o sagrado ou o transcendente. Especificamente, a religião caracteriza-se como sendo um sistema organizado de crenças, práticas,
rituais e símbolos, de acordo com um dogma institucional específico, enquanto que a espiritualidade assenta sobre a busca pessoal de experiências e respostas como fonte de sentido e significado para a vida. Desta
forma, as práticas religiosas/espirituais poderão ter influência na forma como as pessoas interpretam eventos traumáticos e lidam com eles, influenciando a procura e a adesão a tratamentos consoante o tipo de locus de controlo que percepcionam. Deste modo, é importante que os profissionais de saúde tenham em
conta as crenças implícitas dos seus pacientes, de modo a melhorarem não só a satisfação dos mesmos,
mas também os resultados obtidos pelos serviços prestados.
Palavras-Chave: Religião; Espiritualidade; Adesão Terapêutica; Locus de Controlo.
Abstract
Religion and spirituality concepts are based on consensus difficulties among the authors, however
we define them as a search for proximity between sacred and profane. Particularly, religion is categorized
by an organized system of beliefs, practices, rituals and symbols, according to a specific institutional dogma,
whereas spirituality is about a personal search for answers and experiences as a source of meaning and direction in life. Therefore, religious/spiritual practices might have an influence on the way as people live and
cope with traumatic events, influencing the therapeutical help-seeking according to the locus of control type which they perceive. So, it’s important that health-care professionals keep in mind their patients beliefs,
in way to improve the satisfaction and good results of their services.
Keywords: Religion, Spirituality; Therapeutic Adherence; Locus of Control.
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Trabalho realizado no âmbito da cadeira de Intervenção Psicológica em Contextos de Saúde, do Mestrado de
Psicologia Clínica e da Saúde da Universidade de Évora. Ano lectivo 2009/2010.
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Licenciada em Psicologia pela Universidade de Évora.
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1. Introdução
Abordar um tema que englobe uma perspectiva científica, e ao mesmo tempo dar ênfase às idiossincrasias que constituem o senso comum, parece contraditório. Contudo, apesar destas diferentes perspectivas darem destaque a diferentes olhares sobre um mesmo objecto, parece-nos importante salientar a
importância de sermos integradores, de modo a vislumbrar, de forma cada vez mais holística, o objecto em
questão.
Quando se trata das noções de saúde e doença, a sua complexidade exige a conjugação de factores
biológicos, sociológicos, económicos, ambientais e culturais, na medida em que estes conceitos estão amplamente relacionados com o modo de vida e o universo sociocultural de cada paciente (Uchôa et al.,
1994).
Se tivermos em conta a realidade portuguesa, esta questão complexifica-se na medida em que,
principalmente nas últimas décadas, Portugal tem vindo a desenvolver uma acentuada mudança no tecido
social (Feliciano, s.d.), já que actualmente recolhe cidadãos de vários locais do globo, intensificando a diversidade étnica, cultural e religiosa, o que envolve a necessidade de uma amplitude do espectro das necessidades e do prisma com que essas mesmas necessidades são encaradas.
2. Religião e Espiritualidade
A associação entre factores relativos à religiosidade/espiritualidade e a saúde possui raízes histórico-culturais muito antigas, presentes em mitos gregos, em rituais indígenas e nas inscrições bíblicas, que influenciaram e têm vindo a influenciar a cultura ocidental actual (Botelho, 1991, cit. in Williams & Sternthal,
2007).
Não existem definições consensuais entre os vários autores no que diz respeito aos conceitos de religião e espiritualidade. Contudo, optaremos por considerá-los constructos distintos. Nesta linha, religião,
do latim religio, significa uma ligação entre a humanidade e uma entidade superior, podendo ser identificadas pelo menos três designações históricas para este termo: um poder sobrenatural para com o qual cada
indivíduo está motivado ou comprometido; um sentimento presente no indivíduo que concebe tal poder
superior; e os rituais carregados de respeito por esse poder (Wulff, 1997, cit. in Hill et al., 2000). Por outro
lado, a espiritualidade, do latim spiritus, significa respiração ou vida, termo frequentemente citado em diferentes culturas, como no caso do antigo testamento hebraico (ruah) e do novo testamento grego (pneuma)
(Hill et al., 2000).
Apesar de a espiritualidade ter vindo a ser historicamente referida no contexto da religião, nem todas as concepções correntes mantêm esta ligação. Segundo Spilka (1993, cit. in Hill et al., 2000) a compreensão contemporânea da espiritualidade depreende uma de três categorias: 1) uma espiritualidade orien-
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tada por Deus onde pensamentos e práticas são, em geral, permitidas pela teologia; 2) uma espiritualidade
orientada para o mundo realçando uma relação com a ecologia ou a natureza; ou 3) uma espiritualidade
humanista ou, orientada para as pessoas, que realça as aquisições e o potencial humano.
Deste modo, a religiosidade compreende a adesão a crenças e práticas, que podem incluir a espiritualidade (Williams & Sternthal, 2007), relativas a uma determinada igreja ou instituição religiosa organizada, enquanto que a espiritualidade pode ser vista como uma relação estabelecida por uma pessoa com um
ser ou uma força superior, na qual acredita, sem ter necessariamente uma ligação a uma instituição organizada específica. Assim, e segundo a perspectiva de Siegel, Anderson e Schrimshaw (2001, cit. in Faria & Seidl, 2005, pp. 381), “a conceituação de religiosidade inclui aspectos individuais e institucionais, enquanto espiritualidade é um fenómeno apenas individual, identificado com aspectos como a transcendência pessoal,
sensibilidade extra-consciente e fonte de sentidos para eventos da vida”.
A pertinência do estudo destas variáveis pode ser fundamentada pela inclusão da categoria Problemas Religiosos ou Espirituais como uma categoria diagnóstica inserida no DSM-IV (American Psychiatric Association, 2000), no sentido de diferenciar entre perturbação mental e expressões da religiosidade (Faria &
Seidl, 2005), reconhecendo que os temas religiosos e espirituais podem ser o foco da consulta e do tratamento psiquiátrico/psicológico (Lukoff et al., 1995, cit. in Peres, Simão & Nasello, 2007). De ressaltar ainda
a importância dada à religião como promotora de suporte emocional, instrumental e informativo (Faria &
Seidl, 2005), e das investigações recentes que sugerem que nos Estados Unidos, 94% da população acredita
em Deus, 90% reza, 88% acredita que a religião é importante nas suas vidas, 75% declara que o envolvimento religioso proporciona experiências positivas e enriquecedoras (Gallup, 1994; Shorto, 1997, cit. in Hill,
2000), 66% é membro de uma igreja ou sinagoga e 40% participa regularmente nas práticas religiosas
(Williams & Sternthal, 2007). Também é importante referir que a maioria dos pacientes americanos declarou que gostaria que os seus médicos tivessem discutido os aspectos espirituais da sua doença (Miller, Thoresen, 2003, cit. in Williams & Sternthal, 2007), estando este facto de acordo com os estudos que indicam
que 79% dos adultos americanos acreditam que a fé espiritual pode ajudar as pessoas a recuperarem da
doença (McNicol T., 1996, cit. in Williams & Sternthal, 2007).
3. Percepção de Doença: implicações da Religiosidade/Espiritualidade
Todo o indivíduo está inserido num contexto social e cultural específico que tem influência na construção de si mesmo e do meio que o rodeia. Assim, a sua base explicativa dos acontecimentos, internos e
externos, está dependente da sua base sócio-cultural. De facto, diversos autores (Nyamwaya, 1987; Green,
1992; Hielscher & Sommerfield, 1985; Corin et al., 1992, cit. in Uchôa & Vidal, 1994) salientaram a forte in-
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fluência que a semiologia popular e as concepções culturais de causalidade exercem sobre os comportamentos que cada indivíduo adopta face à saúde e à doença.
De acordo com Faria e Seidl (2005), existe suporte empírico para diversas funções da religião e da
espiritualidade, tais como alívio, conforto e consolo, busca de significado para problemas relevantes da
existência, busca de compreensão de si mesmo e busca pelo sagrado, podendo ainda contribuir para um
aumento de uma benéfica rede de suporte social (Faria & Seidl, 2005; Maton & Wells, 1995, cit. in Hill et
al., 2000). Contudo, as relações sociais também podem ser uma fonte de stress (Chatters, 2000, cit. in Williams & Sternthal, 2007), se se caracterizarem pelo julgamento, alienação ou exclusão. Existem indivíduos
que atribuem exclusivamente o aparecimento e resolução de problemas de saúde a Deus, utilizando-O como recurso cognitivo, emocional ou comportamental (Pargament, 1990, cit. in Faria & Seidl, 2005).
Desta forma, a religião/espiritualidade adoptam diferentes funções, dependendo da atribuição de
locus de responsabilidade e do nível de participação da pessoa na resolução do seu problema (Williams &
Sternthal, 2007; Pargament et al., 1988, cit. in Faria & Seidl, 2005).
Segundo Abdala e Rodrigues (2009), ao longo do século XX, mais de 850 artigos foram publicados
referindo, a sua maioria, uma associação positiva entre maiores níveis de envolvimento religioso e um aumento do bem-estar físico e psicológico, promovendo ainda estilos de vida mais saudáveis e um aumento
da qualidade de vida (Koenig, McCollough & Larson, 2001; Moreira, Lotufo, Neto & Koenig, 2006; Vasconcelos, 2006, cit. in Abdala & Rodrigues, 2009; Townsend, Kladder, Ayele & Mulligan, 2002, cit. in Feliciano). Estes resultados parecem ter sido a pedra basilar para a criação de centros de estudos sobre a religião e a
saúde, como o Center for the Study of Religion/Spirituality and Health da Universidade de Duke, e o surgimento de jornais especializados, como o Journal of Religion and Health.
Uma breve revisão da literatura mostrou-nos que existe uma relação entre a espiritualidade, o nível
de envolvimento religioso e a saúde, na medida em que se parece verificar uma melhoria do bem-estar psicológico (Abdala & Rodrigues, 2009; Moreira-Almeida, Neto & Koenig, 2006, cit. in Williams & Sternthal,
2007; Hill et al., 2000), assim como uma diminuição da depressão e da ansiedade (Abdala & Rodrigues,
2009; Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano, s.d.; Razali et al., 1995, cit. in Williams & Sternthal, 2007). Parece também haver uma diminuição dos pensamentos e comportamentos suicidas (Abdala &
Rodrigues, 2009; Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano; Moreira-Almeida, Neto & Koenig,
2006, cit. in Williams & Sternthal, 2007).
Segundo Townsend, Kladder, Ayele e Mulligan (2002, cit. in Feliciano, s.d.), parece haver evidências
de que existe relação entre as práticas espirituais e religiosas, como o rezar, na melhoria da saúde em doentes com doença coronária, pressão arterial, e na melhoria da funcionalidade do sistema imunitário. Em
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relação a esta última, os resultados são contudo mais ambivalentes, principalmente nos doentes com cancro. Resultados mais estáveis parecem ser os relativos aos doentes com HIV, onde a espiritualidade/religiosidade parece estar positivamente associada a sentimentos de melhoria de vida (Szaflarski et al., 2005).
De salientar ainda que estas crenças e práticas parecem estar relacionadas com um menor abuso
de drogas e álcool (Abdala & Rodrigues, 2009; Moreira-Almeida, Neto, Koenig, 2006, cit. in Williams &
Sternthal, 2007).
Townsend, Kladder, Ayele e Mulligan (2002, cit. in Feliciano, s.d.) referem-se ainda a uma relação
inversa entre práticas religiosas e mortalidade, verificando uma redução de cerca de 25%, conclusões estas
que estão de acordo com os estudos relativos à relação entre religião/espiritualidade com melhores prognósticos na recuperação da doença (Koenig, McCollough & Larson, 2001, cit. in Abdala & Rodrigues, 2009;
Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano), e de maior longevidade com manutenção de capacidades (Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano, s.d.).
De referir ainda uma tendência para as mulheres valorizarem mais a espiritualidade que os homens
(McCullough, Hoyt, Larson, et al., 2000, cit. in Feliciano, s.d.; Williams & Sternthal, 2007), e para que mais
educação esteja positivamente relacionada com uma maior valorização da espiritualidade (Williams &
Sternthal, 2007).
Parece-nos, no entanto, pertinente salientar que pode ser difícil perceber quando a religiosidade
constitui uma ajuda ou, por outro lado um obstáculo, para o alcançar de resultados adaptativos no processo terapêutico. Assim sendo, faz-se necessário examinar as implicações para a saúde de cada indivíduo, segundo a identificação de padrões positivos de confronto religioso, associados a um locus de controlo interno e que se pode caracterizar pela procura de apoio espiritual, perdão religioso e ligação espiritual; ou a
existência de padrões negativos de confronto religioso, associados, por sua vez, a um locus de controlo externo e caracterizado por descontentamento religioso, conflitos interpessoais com outros elementos do
grupo religioso, ou a atribuição da causa do problema a um castigo de Deus ou ao “demónio”.
4. Adesão Terapêutica
Segundo a Organização Mundial de Saúde, “a adesão é a medida em que o comportamento da pessoa corresponde às recomendações do profissional de saúde” (WHO, 2003, cit. in Fernandes, 2009).
Relativamente aos comportamentos de não adesão é importante referir que estes podem ser de
dois tipos: intencionais e não intencionais. A não adesão de tipo intencional refere-se ao não seguimento
deliberado, por parte do paciente, de forma a boicotar as instruções do tratamento, enquanto a não adesão de tipo não intencional, se verifica quando o paciente se esquece ou quando não tem as capacidade de
seguir as instruções (Weintraub, 1990, cit. in Fernandes, 2009).
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De acordo com o modelo de auto-regulação de Leventhal e colaboradores (1980, 1984, 1991, cit. in
Fernandes, 2009), a decisão de seguir as recomendações de tratamento será influenciada pelas representações que o paciente tem da sua doença e subsequentemente da visão que tem acerca da adequação do tratamento. Deste modo, sendo que a adesão pode ser encarada como uma forma de coping, este modelo
permite conceptualizar as decisões de saúde de uma forma dinâmica, em que as representações e os comportamentos interagem de forma activa.
Uma vez que vários estudos demonstram que o conhecimento e a valorização dos sistemas de crenças dos pacientes facilitam uma melhor adesão, assim como uma melhoria dos resultados do tratamento
(Giglio, 1993; Razali et al., 1998; Sperry & Sharfranske, 2004, cit. in Peres, Simão & Nasello, 2007), parecenos importante perceber como se relacionam estas variáveis em relação às crenças religiosas/espirituais.
Deste modo, é importante perceber que a chave para compreender a espiritualidade de um indivíduo pressupõe a capacidade para ouvir e compreender, estando muito consciente da sua própria espiritualidade, essência e valores (Merchant, Gilbert & Moss, 2008). Tanto que a compreensão espiritual de cada
indivíduo deve ser introduzida nos cuidados de saúde, de forma a assegurar que determinadas áreas da vida dos sujeitos não são ignoradas ou mal interpretadas, reconhecendo os direitos humanos de cada paciente, qualquer que seja o seu background religioso (McInroy, A., 2005, cit. in Merchant, Gilbert & Moss,
2008).
Na medida em que diferentes comunidades podem ter diferentes abordagens espirituais e religiosas, é também relevante perceber qual a sua influência nos estilos de coping e nas atitudes em relação ao
tratamento, sendo de extrema importância que os profissionais de saúde saibam discernir as interferências
que ocorrem entre expectativas culturais conflituais e as diferenças entre problemas de saúde psicossocial,
espiritual e física com a comunicação (Hussain et al., 2002, cit. in Merchant, Gilbert & Moss, 2008).
Esta questão levanta uma exigência adicional, no sentido em que quanto maior for a diversidade do
tecido social, mais amplo será o espectro das necessidades e das expectativas de quem a compõe, o que
complexifica a capacidade de responder eficazmente às necessidades de todos (Feliciano, s.d.).
Relativamente ao sistema de cuidados de saúde defendemos que é cada vez mais importante que
os médicos encarem o paciente segundo uma visão holística, em que a visão da saúde/doença é feita através da integração da mente, corpo e da espiritualidade, no seu contexto familiar e comunitário (Graham,
Bagley, Kilo, Spann & Bogdewic, 2004, cit. in Daaleman, 2004), tendo em conta a definição que o paciente
formula sobre o seu problema e pela compreensão contextualizada do seu estilo de vida (Brody, 1992, cit.
in Daaleman, 2004).
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No que se refere à integração de questões religiosas/espirituais na adesão à psicoterapia, esta deve
ter subjacente um conjunto de competências éticas e morais por parte do profissional, sendo implícito o
profissionalismo ético e a alta qualidade de conhecimentos e habilidades para alinhar as informações reunidas ao benefício do processo terapêutico. A Associação Psiquiátrica Americana (2006, cit. in Peres, Simão &
Nasello, 2007) considera, então, pertinente identificar se variáveis religiosas e espirituais são características
clínicas relevantes às queixas e aos sintomas apresentados; pesquisar o papel da religião e da espiritualidade no sistema de crenças; identificar se idealizações religiosas e representações de Deus são relevantes e
abordar clinicamente essa idealização; demonstrar o uso de recursos religiosos e espirituais no tratamento
psicológico; utilizar procedimento de entrevista para aceder ao histórico e envolvimento com a religião e a
espiritualidade; treinar intervenções apropriadas a assuntos religiosos e espirituais e estar actualizado eticamente sobre temas religiosos e espirituais na prática clínica.
Consideramos ainda pertinente salientar questões directamente relacionadas com a qualidade da
relação como a familiaridade, a confiança, a colaboração e ainda o respeito e a neutralidade, que fomentem uma partilha de significados, que facilite a troca de informação e o respeito pelo outro.
6. Bibliografia
1.
Abdala, G. A., Rodrigues, W. G; Brasil, M. S. & Torres, A. (2009). A Religiosidade/Espiritualidade como Influência Positiva na
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2.
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3.
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Bibliografia posterior a 1980.
4.
Conceição, J. (1996). Espiritualidade e Religiosidade no Portugal Moderno - o agiologio lusitano do padre Jorge Cardoso.
Dissertação de Mestrado em História Moderna e Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do
Porto.
5.
Daaleman, T. (2004). Religion, Spirituality, and the Practice of Medicine. JABFP, 17(5).
6.
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7.
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Vº Congresso Português de Sociologia Sociedades Contemporâneas.
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Papel do Estado Emocional, das Representações de Doença, do Optimismo e dos Benefícios Percebidos. Instituto de Educação
e Psicologia da Universidade do Minho.
9.
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Spirituality: Points of Commonality, Points of Departure. Journal for the Theory of Social Behavior, 30(1), 0021-8308.
10.
Merchant, R.; Gilbert, P. & Moss, B. (2008). Spirituality, Religion and Mental Health: A brief evidence resource.
11.
Peres, J.; Simão, M. & Nasello, A. (2007). Espiritualidade, Religiosidade e Psicoterapia. Faculdade de Ciências Médicas da
Santa Casa de São Paulo. Revista de Psiquiatria Clínica, 34(1), 136-145.
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12.
Szaflarski, M.; Ritchey, P.; Leonard, A.; Mrus, J.; Peterman, A.; Ellison, C.; McCullough, M.; Tsevat, J. (2005). Modeling the
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13.
Uchôa, E. & Vidal, J. (1994). Antropologia Médica: Elementos Conceituais e Metodológicos para uma Abordagem da Saúde e
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Relação entre o nível de leitura e o nível de inteligência geral
Relationship between reading level and the level of general intelligence
Catarina Lucas1, Clémence Freitas2 , Cristina Oliveira3, Manuela Machado4, Mª Isabel Monteiro5
Resumo
A aquisição da linguagem é um processo complexo, nomeadamente quanto às competências de leitura e da escrita. A leitura consiste na acção de ler e conseguir perceber o significado do que está escrito, o
que exige um amplo domínio do vocabulário, quer ao nível da descodificação quer ao nível da compreensão.
Além disso, a leitura é um processo maturativo, na medida em que envolve a passagem por diversas etapas, enquanto que a inteligência é um conceito abstracto que tem sido alvo de uma contínua evolução. Contrariamente ao vulgarmente defendido pelo senso comum, a inteligência não está associada nem é
um factor crucial na aquisição das capacidades de leitura.
O presente estudo permitiu constatar, numa amostra de 26 crianças com idades compreendidas
entre os 8 e os 9 anos, que não existe uma relação significativa entre o nível de inteligência e o nível de leitura, tendo sido utilizados como instrumentos as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e o Teste de Idade de Leitura, respectivamente. No que respeita ao nível de inteligência verificaram-se valores superiores
no sexo feminino comparativamente ao masculino, enquanto que, por sua vez, os rapazes apresentaram
um nível de leitura superior ao das raparigas.
Palavras-Chave: Leitura; Inteligência; Género.
Abstract
Language acquisition is a complex process, particularly in concern to the skills of reading and writing. The reading consists of the reading and to understand the meaning of what is written, which requires
a broad knowledge of vocabulary, both in terms of decoding as the level of understanding.
1
Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
3
Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
4
Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
5
Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro
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Furthermore, reading is a maturation process which involves passing through several stages, while
intelligence is an abstract concept that has been the target of an ongoing evolution. Contrary to commonly
advocated by common sense, intelligence is not linked to reading and is not a crucial factor in the acquisition of reading skills.
In a sample of 26 children aged 8 to 9 years, this study it is said that there is no significant relationship between level of intelligence and reading level. We used as instruments the Raven's Coloured Progressive Matrices and the Test of Reading Age, respectively. Regarding the level of intelligence, we found higher
values in females compared to males. On the other hand the boys had a reading level higher than girls.
Keywords: Reading; Intelligence; Gender.
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1. Introdução
A investigação tem-se frequentemente debruçado sobre a capacidade de inteligência. Contudo, a
capacidade de leitura também tem merecido a atenção dos investigadores. Porém, a existência de poucos
estudos que relacionem os tópicos da inteligência com o da capacidade de leitura, levou-nos à escolha deste tema para a actual investigação.
A palavra “leitura” deriva do latim lexia, a qual também deriva do grego, e significa linguagem. Segundo Viana (2006), a leitura e a escrita são aprendizagens consideradas básicas e ferramentas imprescindíveis para o acesso ao conhecimento. O processo de leitura distingue-se da função da leitura, na medida em
que a função da leitura é geralmente a compreensão. Neste sentido, exige processos específicos de reconhecimento e de conversão dos sinais gráficos em representações mentais, que por sua vez vão permitir a
compreensão (Castro & Gomes, 2000).
Morais & Kolinsky (s.d.) defendem que a aprendizagem da linguagem escrita, isto é, das aptidões de
leitura e de escrita, é possível em qualquer idade. A aprendizagem da leitura envolve a passagem por diversas etapas, ligadas aos estádios do desenvolvimento, utilizando para cada uma delas diversas estratégias
para gerar os dados fornecidos pelo ambiente (Oliveira, 1998). Deste modo, no sistema alfabético, a aprendizagem da leitura depende, de forma crucial, da aquisição de um processo de descodificação fonológica
baseado no conhecimento explícito das correspondências entre os grafemas e os fonemas (Morais & Kolinsky, s.d.). Segundo Leffa & Lopes (2004), a definição de leitura como descodificação restringe-se a uma simples transposição do código escrito para o código oral, sendo que o que distingue o sujeito letrado do analfabeto é a capacidade do primeiro em transformar o código escrito em código oral.
Na Nova Enciclopédia Portuguesa, a leitura é definida como acção de ler e conseguir perceber o significado do que está escrito. Não basta decifrar palavras para que a leitura aconteça, mais do que isso a leitura consiste na capacidade de entender um texto escrito (Leffa & Lopes, 2004). A leitura é a compreensão
e apreensão de símbolos ou letras que formam uma imagem que o leitor capta.
No entanto, muitas crianças experimentam dificuldades consideráveis na aprendizagem da leitura e
da escrita, apesar dos esforços desenvolvidos para o contrário. Para que possamos aprender a ler e a escrever no sistema alfabético temos que primeiramente aprender que as letras correspondem aos elementos abstractos da cadeia falada e esta aprendizagem pode ser difícil, dada a co-articulação dos fonemas
(Morais & Kolinsky, s.d.). A leitura exige um amplo domínio do vocabulário, quer ao nível da descodificação
(que permite que a criança encontre rapidamente a forma fonológica de uma palavra escrita), quer ao nível
da compreensão. Quando ocorre o desconhecimento de uma palavra que é chave ou que não é inferida a
partir do contexto, a compreensão do texto pode deste modo ser comprometida. Daí que o vocabulário,
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apesar de fundamental, não é suficiente visto que a criança necessita de saber as combinações possíveis e
permitidas pela sua língua.
Apesar de ainda não referida, a memória é também uma competência fundamental para a leitura,
devido à necessidade implícita de reter informação veiculada nas frases pelo tempo necessário ao seu processamento, de modo a retirar sentido do que se está a ler (Viana, 2006).
Por sua vez, a palavra inteligência derivada do latim intelligentia, é frequentemente traduzida como
a faculdade de conceber, compreender e raciocinar. As definições mais antigas de inteligência definem-na
como sendo a capacidade que os sujeitos têm de se adaptar às circunstâncias (Binet & Simon 1915; Paiva &
Mendes, 1998); a capacidade dos indivíduos agirem premeditadamente, pensarem racionalmente e lidarem competentemente com o meio ambiente (Wechsler, 1944; Paiva & Mendes, 1998); a rapidez na transmissão da informação ao cérebro, através do sistema nervoso (Lynn 1988, cit. in Paiva & Mendes, 1998); ou
ainda como a capacidade de pensar e resolver problemas (Nickersom, Perkins & Smith, 1994).
Neste contexto, Byrne (1995), ao verificar que todos os organismos vivos estão adaptados aos seus
ambientes particulares, considerou que se a inteligência para as espécies animais significar uma "boa adaptação ao meio" então, presumivelmente, todas as espécies são inteligentes à sua maneira. Consequentemente, o autor defende que o uso do termo inteligência deve ser restringido à qualidade da flexibilidade,
que permite aos indivíduos encontrar soluções para os seus problemas.
Os estudos no âmbito da inteligência foram iniciados por dois autores que, no seio da Psicologia, a
definiram como “força ou poder mental” (Galton, 1869, cit. in Almeida, 1994) ou como “capacidade de
apreender relações” (Spearman, 1904, cit. in Almeida, 1994). Neisser e colaboradores (1994) definiram a
inteligência como uma capacidade mental bastante geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de
raciocinar, planear, resolver problemas, pensar de forma abstracta, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e com a experiência. Assim, não é uma mera aprendizagem literária, ou uma habilidade
estritamente académica que se resume a bons resultados escolares. Muito pelo contrário, o conceito refere-se a uma capacidade mais ampla e mais profunda de compreensão do mundo à nossa volta.
Os indivíduos diferem uns dos outros na capacidade de entender ideias complexas, de se adaptar
com eficácia ao ambiente, de aprender com a experiência, de utilizar as várias formas de raciocínio, e de
superar obstáculos através do pensamento. Embora tais diferenças individuais possam ser importantes,
nunca são completamente consistentes: o desempenho intelectual de uma dada pessoa varia consoante as
distintas ocasiões. Os conceitos de inteligência são tentativas de aclarar e organizar este conjunto complexo de fenómenos (Neisser et. al., 1995).
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Segundo a definição da Nova Enciclopédia Larousse (Oliveira, 1998), inteligência designa a dimensão psicológica associada às capacidades e habilidades cognitivas do indivíduo. Basicamente, engloba os recursos cognitivos de percepção, de memória, de raciocínio ou de criatividade que asseguram ao indivíduo a
adaptação às situações, a aprendizagem, a resolução de problemas ou ainda, a invenção de alternativas.
Quanto às suas manifestações, estas podem ser avaliadas de modo qualitativo ou quantitativo, respectivamente, os estilos e os níveis de desempenho dos indivíduos em tarefas do seu quotidiano pessoal e interpessoal, nas situações escolares de aprendizagem e noutras situações, tais como nas situações formais de
avaliação psicológica através de testes de inteligência.
Sperman, apresentou uma teoria da inteligência conhecida como a Teoria dos Dois Factores que
postula que o desempenho em qualquer medida de inteligência está relacionado com o nível de inteligência geral do indivíduo e as habilidades específicas exigidas em cada teste (Aiken, 2000; McGrew & Flanagan,
1998; Thorndike, 1997; cit. in Schelini, 2006). Deste modo, durante a resolução de um problema, dois tipos
de factores estão presentes: um factor de inteligência geral (factor g) e outros factores específicos (factor
s). O factor de inteligência geral está subjacente a todas as actividades intelectuais (Gardner, Kornhaber, &
Wake, 1998; Sattler, 1992; cit. in Schelini, 2006) enquanto os factores específicos são relativos a uma tarefa
específica (Jensen, 1994; cit. in Schelini, 2006).
Assim, a inteligência é um conceito abstracto que tem sido alvo de uma contínua evolução e que
depende tanto de valores sociais actuais como de ideias científicas. As definições mais recentes referem
uma variedade de potencialidades mentais, que incluem a habilidade de raciocinar, planear, resolver problemas, pensar de forma abstracta, compreender ideias complexas, e aprender rapidamente com base na
experiência (Strickland, 2001, cit. in Becker, s.d.). Numa definição mais completa do termo inteligência,
Sternberg (2005) define-a como a habilidade de atingir objectivos na vida, dado um contexto sociocultural;
acumular as forças e corrigir ou compensar as fraquezas; adaptar, formar e escolher ambientes; combinar
habilidades analíticas, criativas e práticas.
De facto, as definições de inteligência abundam, porém, tal como afirmou Sternberg (2000, cit. in
Becker s.d.; Sabbatini, 2001), todos sabem o que é, mas poucas conseguem defini-la com alguma exactidão.
Segundo Nunes, Buarque e Bryant (1992; cit. in Maia e Fonseca, 2002), certas crianças apresentam
menos dificuldades ao longo do seu processo de alfabetização, o qual é muito melhor do que o esperado a
partir da sua inteligência. Contudo, noutras crianças o progresso na aprendizagem da leitura é muito pior
do que o esperado.
Fonseca e Maia (2002), partindo de um estudo realizado, concluíram que certos alunos, por apresentarem dificuldades de aprendizagem, inabilidade motora ou défice intelectual são rotulados no sistema
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educacional como deficientes mentais. Assim, as autoras propuseram-se a investigar a relação entre as capacidades cognitivas e as capacidades académicas, mais concretamente a leitura, tendo verificado que a inteligência não interfere na previsão de sucesso ou insucesso na leitura (Almeida, 1992; Machado, 1996;
Patto, 1992 cit. in Fonseca & Maia, 2002).
Tendo por base a revisão bibliográfica realizada, define-se como objectivo central desta investigação verificar se a inteligência influencia a leitura. Como objectivos mais concretos, pretende-se verificar se
existe ou não uma relação entre o nível de inteligência e o nível de leitura, e verificar se o nível de inteligência e leitura difere entre os sexos.
Neste sentido podem formular-se as seguintes hipóteses:
H01: não existe relação entre o nível de inteligência e o nível de leitura.
H02: não existe diferença entre os sexos quanto ao nível de leitura.
H03: não existe diferença entre os sexos quanto ao nível de inteligência.
2. Método
O presente estudo caracteriza-se por ser um estudo de carácter transversal, dado que os dados foram
recolhidos num só momento e a nível quantitativo.
2.1. Amostra
Na realização deste estudo, contou-se com a colaboração de 26 crianças do distrito de Vila Real,
sendo que a amostra se divide em 11 elementos do sexo masculino e 15 do sexo feminino, estando as idades compreendidas entre os 8 e os 9 anos, apresentando uma média de idades de 8 anos e 10 meses. Os
referidos elementos da amostra encontram-se a frequentar o 3º ano de ensino básico. Os participantes foram escolhidos mediante critérios previamente definidos, nomeadamente a idade. Esta amostra não é representativa da população, sendo por isso a generalização dos resultados pouco viável.
2.2. Instrumentos
A operacionalização das variáveis foi realizada através da utilização de um teste que avalia o nível
de leitura do participante e outro que avalia a inteligência. Mais concretamente, o Teste de Idade de Leitura (TIL) para a avaliação do nível de leitura e as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven para a avaliação
do nível de inteligência.
Teste de Idade de Leitura
O Teste de Idade de Leitura (TIL) foi desenvolvido por Sucena (2005), que no âmbito da investigação
para o seu doutoramento, encontrou uma ausência, em Portugal, de um teste estandardizado para deter-
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minar a idade de leitura, criando deste modo o TIL através da adaptação do sub-teste Lobrot L3 (1973). O
referido teste, podendo ser utilizado na actividade terapêutica junto de crianças com dificuldades de aprendizagem, é um teste de leitura que envolve a avaliação de dois processos cognitivos: a descodificação e a
compreensão. Relativamente à sua constituição, o TIL é composto por quatro frases de ensaio e trinta e
seis frases experimentais, incompletas, sendo que para cada frase há a possibilidade de cinco palavras, mas
apenas uma é verdadeira e completa adequadamente a frase. A criança lê para si, ao longo de cinco minutos, frases isoladas e incompletas, devendo completar cada frase com a palavra correcta das cinco hipóteses apresentadas (Santos & Castro, 2008).
Matrizes Progressivas Coloridas de Raven
As Matrizes Progressivas Coloridas de Raven consistem num conjunto de tarefas não verbais destinadas a avaliar a aptidão para aprender relações entre figuras a fim de seleccionar, entre várias alternativas, a correspondente à parte da figura que falta de forma a completar correctamente cada padrão. É um
teste que procura avaliar a capacidade intelectual não verbal, uma vez que não fornece uma apreciação
global do comportamento intelectual mas apenas do seu aspecto lógico e não verbal (Simões, M., s.d).
Os testes das Matrizes Progressivas de Raven (1938-1963) encontram-se disponíveis sobre 3 formas
ou versões: Forma Geral (Standard Progressive Matrices, SPM); Forma Especial (Coloured Progressive Matrices, CPM), a qual é indicada para crianças; e a Forma Avançada (Advanced Progressive Matrices, APM).
As matrizes apresentam índices de dificuldade e de discriminação, na medida em que existe uma
sequência de dificuldade crescente, não devido à complexidade das figuras, mas sim às relações entre figuras as quais se tornam progressivamente mais complexas. Quanto à sua aplicação, esta pode ser de natureza individual ou colectiva sendo relativamente independente dos efeitos de aprendizagens específicas ou
de determinados aspectos de natureza cultural. Concretamente, as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven, são constituídas por três séries A, Ab e B, cada uma sendo composta por 12 itens.
2.3. Procedimentos
Primeiramente, estabeleceu-se contacto com a direcção da escola E.B.1 de Mateus nº1 (Vila Real),
de modo a permitir a deslocação à instituição. Foram apresentados os objectivos da investigação, sendo assegurado o anonimato e a confidencialidade dos dados dos alunos. Posteriormente e após consentimento
da escola para a realização da investigação, aguardou-se o consentimento dos pais quanto à aplicação dos
testes aos filhos, através do preenchimento de um formulário.
Foram explicados às crianças os objectivos e condições da investigação, esclarecendo eventuais dúvidas quanto ao propósito e metodologias utilizadas. Além disto, garantiu-se aos participantes o total
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anonimato e a confidencialidade dos dados recolhidos, bem como a sua utilização exclusiva para fins de investigação.
A aplicação do TIL foi feita distribuindo-se o instrumento pelos alunos, em simultâneo, numa duração máxima de 5 minutos. Por seu lado, as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven foram aplicadas individualmente e os resultados registados pelas investigadoras.
Para a análise estatística dos dados obtidos foi utilizada a versão 17.0 do Statistical Package for the
Social Sciences (SPSS).
Assim, realizou-se uma correlação entre os resultados obtidos no teste TIL com os resultados obtidos nas Matrizes Progressivas Coloridas de Raven, com a finalidade de verificar se existe relação entre as
duas variáveis. Além disso, utilizaram-se dois t-test para a comparação entre o nível de leitura e o sexo e a
comparação entre o nível de inteligência e o sexo.
3. Resultados
A correlação realizada entre o nível de inteligência e o nível de leitura, indica que apesar de existir
uma correlação positiva entre o nível de inteligência e o nível de leitura, esta não é significativa.
Para se verificar a existência ou inexistência de diferenças de género procedeu-se à comparação,
através de um t-test, do nível de inteligência nos rapazes e raparigas da amostra. Os resultados permitiram
verificar que existe uma ligeira diferença entre os sexos, não sifnificativa, em relação ao nível de
inteligência dos alunos estudados (c.f. Tabela 1).
Tabela 1: Comparação do nível de inteligência entre rapazes e raparigas
Raven
Masculino
Feminino
M ±DP
M±DP
30
30,8
T
P
-0,54
0,60
Relativamente à existência de diferenças de género ao nível de leitura (tabela 3) registou-se um nível de leitura mais elevado no sexo masculino. Porém, e apesar de bastante relevante, esta comparação
também não é significativa (cf. Tabela 2).
Os elementos da amostra obtiveram uma média de 30,5 pontos no teste de Raven, situando-se assim acima da média (23,96) entre os percentis 19 e 22, segundo o quadro 12.2 das normas em percentis
por níveis etários (Simões, s.d., p.398).
Do mesmo modo, apurou-se que os rapazes alcançaram uma média de 59,9% no teste TIL, sendo
este valor acima da média e encontrando-se no 1º quartil percentual. As raparigas apresentaram uma méwww.revistaperitia.org
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dia de 56,4%, sendo este valor igualmente acima da média e situando-se também no 1º quartil, segundo os
quadros 4 e 5 dos resultados representados em quartis percentuais (Santos & Castro, 2007, p. 94).
Tabela 2: Comparação do nível de leitura entre rapazes e raparigas
Til
Masculino
Feminino
M ±DP
M±DP
59,9
56,4
t
P
0,47
0,64
4. Discussão/Conclusão
Após a obtenção e apresentação dos resultados, conclui-se que os mesmos estão em conformidade
com o estudo de Fonseca e Maia (2002) mencionado na revisão bibliográfica, o qual refere que não existe
uma relação significativa entre o nível de inteligência e o nível de leitura.
Pode assim dizer-se que os objectivos iniciais foram alcançados e que a Hipótese 1 foi corroborada,
uma vez que os resultados obtidos não mostram uma elevada correlação entre os dois factores, concluindo-se assim que o nível de inteligência não é suficiente para predizer as aptidões de leitura.
Quanto às diferenças no nível de inteligência consoante o género, verificou-se uma ligeira diferença
que aponta para um nível mais elevado no sexo feminino. Enquanto que a nível das diferenças entre os sexos no TIL, apesar de não serem significativas, vão ao encontro do estudo já mencionado em que os rapazes
apresentam um nível de leitura mais elevado que as raparigas.
Por fim, apontámos como limitação principal deste estudo a pouca literatura existente acerca da
temática, o que dificulta a comparação e discussão de resultados.
Assim, na medida em que a inteligência por si só não é um factor crucial na determinação das capacidades de leitura, então estas podem dever-se a outros factores que não os abordados no estudo. É portanto necessário um estudo mais aprofundado acerca desta temática e dos factores que influenciam o nível
de leitura.
5. Bibliografia
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5.
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ANPOLL (Caxambu), 113-115.
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11.
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http://www.cerebromente.org.br/n12/mente/evoluition/evolution.htm.
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15.
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Viana, F. (2006). As Rimas e Consciência Fonológica. Conferência proferida no Encontro de Professores Intervenientes em
Bibliotecas Escolares e Centros de Recursos, organizado pelo Centro de Formação Maria Borges de Medeiros (Lisboa), nos
dias 4, 5 e 6 de Dezembro, subordinado ao tema “Promovendo a competência leitora”, 1-11.
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A relação entre a preocupação e o perfeccionismo
Inês Martins1,2
Resumo
A comorbilidade entre as perturbações da personalidade com os distúrbios do eixo I é frequente.
No entanto, certos aspectos característicos de cada eixo encontram-se ainda mais relacionados, como é o
caso entre perfeccionismo e a preocupação, tornando-se num tema desafiante. Este artigo constitui uma
revisão da literatura acerca da relação entre estes dois conceitos. No presente artigo, será feita uma análise
separada da preocupação e do perfeccionismo. De seguida, será feita uma breve alusão à comorbilidade
existente entre a psicopatologia do Eixo I e as Perturbações da Personalidade. De seguida, será aprofundada a relação que existe entre os constructos preocupação e perfeccionismo, salientando características comuns que permitem perceber e sustentar esta relação.
Palavras-Chave: Preocupação; Perfeccionismo; Perturbação Obsessivo-Compulsiva; Perturbação da
Personalidade.
1
Estagiária Voluntária do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra
2
Mestre em Psicologia Clinica e da Saúde, subespecialização em Intervenções Cognitivo-Comportamentais nas Perturbações
Psicológicas e da Saúde.
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1. Introdução
Actualmente, sabemos à partida que a comorbilidade entre as perturbações da personalidade com
os distúrbios do eixo I é frequente, no entanto, certos aspectos característicos de cada eixo encontram-se
ainda mais relacionados, como é o caso entre perfeccionismo e a preocupação, tornando-se num tema interessante e desafiante. Este artigo constitui uma revisão da literatura acerca da relação entre estes dois
conceitos. Deste modo, incidirá, numa primeira parte, na análise da preocupação e do perfeccionismo separadamente, focando conceitos e características que se lhe encontram associados e analisando respectivamente a Perturbação da Ansiedade Generealizada (PAG) e a Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade (POCP). De seguida, será feita uma breve alusão à comorbilidade existente entre a psicopatologia do Eixo I e as Perturbações da Personalidade. Por último, será aprofundada a relação existente entre os
constructos preocupação e perfeccionismo, salientando características comuns que permitem perceber e
sustentar esta relação.
2. A preocupação: o caso específico da PAG
A preocupação é fundamental à experiência humana, sendo comum aos indivíduos clínicos e nãoclínicos (Dugas, Gosselin & Ladoucer, 2001).
Borkovec, Robinson, Pruzinsky e DePree (1983, cit. in Borkovec, 1994) procuraram definir o conceito de preocupação, tendo-a caracterizado como “uma cadeia de pensamentos e imagens carregados de
afecto negativo e relativamente incontroláveis, representando uma tentativa de resolução mental de problemas acerca de um tema cujo resultado é incerto, mas que contém a possibilidade de uma ou mais consequências negativas. Por conseguinte, a preocupação relaciona-se intimamente com o processo de medo”
(p.10). Mais tarde, os mesmos autores constataram que a preocupação pode ser usada como uma estratégia de coping e consiste essencialmente numa actividade verbal/conceptual, iniciada numa tentativa de
controlar e evitar, não só os acontecimentos futuros, mas também a activação emocional que ocorre em
resposta ao perigo percebido. Deste modo, ao impedir o processamento emocional das imagens temidas e
reduzir momentaneamente a ansiedade, é reforçada como uma forma útil de lidar com os problemas
(Brown, O´Leary & Barlow, 1993; Dugas & Ladoucer, 1997).
Borkovec (1985, cit. in Dugas & Ladoucer, 1997) acrescentou ainda que a preocupação pode ser
descrita como um diálogo interno (caracterizado por expressões distorcidas acerca da probabilidade de
ocorrência de vários resultados negativos) que desencadeia uma activação emocional e leva os indivíduos a
equacionar potenciais problemas quando confrontados com uma dificuldade. Assim, a preocupação constitui-se também como uma actividade disfuncional e mal-adaptativa, associada a enviesamentos nos processos cognitivos de detecção do perigo. Consequentemente, mantém activas as crenças disfuncionais, exacer-
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ba a ansiedade e leva a outro tipo de pensamentos intrusivos (Brown et al., 1993). Neste contexto, Brown e
colaboradores (1993) também definiram a preocupação como um “humor voltado para o futuro em que se
está disposto a tentar lidar com eventos negativos” (p.139). A apreensão ansiosa está associada a um estado de afecto negativo elevado e uma sensação de incontrolabilidade, centrando-se a atenção nos estímulos
relacionados com a ameaça percebida. A preocupação implica, então, uma corrente de pensamentos negativos e perda do controlo mental (Brown et al., 1993; Dugas & Ladoucer, 1997).
De acordo com as definições acima mencionadas, a preocupação encontra-se associada a pensamentos sobre o risco futuro de experienciar situações aversivas e relativamente incontroláveis. Consequentemente, a preocupação patológica começou a ser encarada como um fenómeno que possivelmente contribui para a manutenção da ansiedade nas Perturbações de Ansiedade e que se estabelece como um factor
central na Perturbação da Ansiedade Generalizada - PAG (Borkovec, 1994; Dugas et al., 2001). Nos indivíduos com PAG ressalta-se a preocupação ou apreensão constante em relação ao futuro que ainda não
aconteceu e a tendência a interpretar as situações ambíguas como ameaçadoras e negativas (Vassey & Borkovec, 1992, cit. in Kapczinski & Margis, 2004). Para além disto, a pessoa com PAG sobrestima de forma elevada o perigo ou ameaça e tem a percepção de baixa capacidade de lidar com esse risco. Ou seja, o fenómeno de preocupação é considerado a partir de processos cognitivos envolvidos na ansiedade, que servem
para manter níveis elevados de vigilância para o perigo pessoal (Mathews, 1990), pelo que os indivíduos
com PAG podem viver em estados de ansiedade crónica (Millon & Davis, 1996).
Assim, a ansiedade intensa e a preocupação incontrolável, além de aspectos essenciais da PAG
(Kapczinski & Margis, 2004), revelam-se um factor de manutenção da mesma (Wells & Papageorgiou,
1998). Indivíduos que estão muito preocupados são peritos em descobrir problemas, mas geralmente são
incapazes de encontrar soluções eficazes para os resolver (Dugas & Ladoucer, 1997). Para estes indivíduos,
a preocupação serve como estratégia que os ajuda a encontrar soluções ou uma melhor maneira de resolver as situações, aumentando por isso a sua sensação de controlo. Contudo, o sujeito estará especialmente
atento à informação ameaçadora, detectará um maior risco subjectivo, ou seja, sobrestimará a probabilidade de resultados negativos. Deste modo, embora o sujeito considere que a preocupação o ajuda a evitar
consequências negativas improváveis, este tratamento tendencioso da informação ambiental aumentará os
níveis de ansiedade e preocupação (Dugas & Ladoucer, 1997).
Como vimos, os indivíduos com PAG têm frequentemente medo de eventos negativos que possam
ocorrer no futuro, e a sua preocupação constante é provocada, muitas vezes por vários sinais internos e externos de acontecimentos futuros. A preocupação é, então, vista como um método de resolução de problemas, a fim de determinar acções que poderiam prevenir a ocorrência do evento (Borkovec, 1994). Porém, a
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preocupação patológica revela-se o oposto de uma forma eficaz de resolver os problemas, pois acaba por
impedir o encontro de soluções adaptativas. Como acontece na PAG, a preocupação patológica refere-se a
cognições intrusivas que estão associadas a eventos potencialmente stressantes e que se faz acompanhar
por estados de humor, como a ansiedade angustiante (Borkovec, 1994).
Estudos anteriores mostram que a intolerância à incerteza também se encontra significativamente
relacionada com a preocupação, e tem sido desenvolvida nos últimos modelos conceptuais da PAG (Dugas
et al., 2001; Ladoucer, Talbot & Dugas, 1997). A intolerância à incerteza diz respeito à forma como o indivíduo percebe a informação em situações incertas e responde à mesma com um conjunto de reacções cognitivas, emocionais e comportamentais (Freeston, Rhéaume, Letarte, Dugas, & Ladoucer, 1994, cit. in Dugas
et al., 2001). Esta intolerância à incerteza tem sido evidenciada em situações de desempenho como a realização de um exame, em que vários processos fisiológicos e cognitivos têm sido postulados como sendo fundamentais para o estado de ansiedade que interfere e dificulta o desempenho no mesmo. Aqui, a preocupação refere-se à preocupação cognitiva do desempenho e às suas consequências, concentrada na avaliação de um eventual fracasso (Deffenbacher, 1986).
De facto, os estudos (Deffenbacher, 1986; Morris et al., 1981 cit. por Deffenbacher, 1986) sugerem
que a preocupação contribui para níveis elevados de ansiedade em situações de desempenho. Deste modo,
sujeitos altamente ansiosos parecem menos capazes cognitivamente de encontrar soluções para responder
à situação e daí apresentam uma diminuição do desempenho (Deffenbacher, 1986). Neste contexto, tem sido demonstrado que nos estudantes que se preocupam excessivamente, há uma interferência na qualidade da tarefa, e portanto a preocupação relaciona-se negativamente com o desempenho alcançado (Deffenbacher, 1986). Neste sentido, verifica-se que sujeitos preocupados tendem a relatar mais pensamentos negativos que se encontram associados a condições que evidenciam perturbações comportamentais, e subsequente desempenho inferior (Metzger, Miller, Cohen, Sofka & Borkovec, 1990).
Com efeito, os indivíduos com PAG frequentemente apresentam uma história de ansiedade ao longo da sua vida. Contudo, diferentes estudos demonstram que uma grande percentagem destes indivíduos
não sabe informar a idade de início dos sintomas, remetendo o mesmo para a infância (Kapczinski & Margis, 2004). Segundo o DSM-IV-TR, apesar dos sujeitos com PAG nem sempre poderem classificar as suas
preocupações como «excessivas», descrevem um mal-estar subjectivo devido às constantes dificuldades
em controlar essas mesmas preocupações (APA, 2002).
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3. O Perfeccionismo: o caso específico da POCP
Ironicamente, as definições que procuram esclarecer este constructo estão longe da perfeição, descrevendo o perfeccionismo redundantemente como um traço ou característica de personalidade encontrado em pessoas perfeccionistas (Slaney & Ashby, 1996, cit. in Fedewa, Burns & Gomez, 2005).
As primeiras conceptualizações descrevem o perfeccionismo como um constructo unidimensional
(Burns, 1980, cit. in Shafran, Cooper & Fairburn, 2002), focado exclusivamente nas cognições auto-orientadas (factores intrapessoais), tais como as convicções irracionais ou as atitudes disfuncionais, e como tal tinham somente referências implícitas a outras dimensões (Hollender, 1965, cit. in Hewit & Flett, 1991). Em
contraste, perspectivas mais recentes defendem uma natureza multidimensional (Frost, Marten, Lahart &
Rosenblate, 1990; Hewitt & Flett, 1991; Stöber e Joorman, 2001), na qual contemplam componentes intra e
interpessoais.
Hollender (1965, cit. in Shafran & Mansell, 2001; Shafran et al., 2002) fornece uma das primeiras
definições de perfeccionismo, enquanto “estratégia na qual o sujeito exige de si próprio e dos outros uma
qualidade no desempenho superior àquela que é exigida pela situação” (p.94). Este autor chama a atenção
para os processos cognitivos que mantêm o perfeccionismo, como a atenção selectiva, manifesta no facto
do sujeito estar “constantemente atento ao que está mal e raramente reparar no que está bem; procurar
tão desesperadamente pôr defeitos, que vive como se fosse um inspector colocado no fim da linha de produção; a pessoa perfeccionista vê-se julgada pelo que faz e não pelo que é” (p.95). O medo do fracasso pode motivar os componentes comportamentais do perfeccionismo que visam ajudar a pessoa a encontrar o
seu padrão desproporcionado (Shafran & Mansell, 2001). Em consequência da necessidade que os indivíduos sentem de actuarem de acordo com estes mesmos padrões, o perfeccionismo acaba por ter efeitos negativos no desempenho, e por conseguinte, afastá-los dos seus objectivos.
Segundo Frost e colaboradores (1990), o termo perfeccionismo refere-se ao “desejo de atingir os
mais altos padrões de desempenho, em combinação com avaliações excessivamente críticas desse desempenho” (p.450). Indivíduos perfeccionistas são pessoas que acreditam que podem e devem atingir um desempenho perfeito e que por isso tendem a permanecer insatisfeitas com o seu desempenho, que consistentemente são incapazes de cumprir (Antony, Purdon, Huta & Swinson, 1998). Frost e colaboradores
(1990), através de uma revisão da literatura relativa ao perfeccionismo, salientam a hipótese do perfeccionismo ser composto por seis dimensões: (a) tendência para os sujeitos se preocuparem e reagirem negativamente a erros, dado que errar corresponde ao fracasso; (b) tendência em duvidar da qualidade de um
desempenho, ou seja, dúvidas sobre as acções; (c) tendência para definir padrões muito elevados e dar
uma importância excessiva a estes na auto-avaliação; (d) tendência para perceber os seus pais como tendo
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grandes expectativas; (e) tendência para perceber os pais como sendo excessivamente críticos; (f) tendência para enfatizar a importância da ordem e da organização.
Também, Hewitt e Flett (1991) definem o perfeccionismo como um conceito multidimensional, desenvolvendo um modelo que distingue três dimensões primárias, cuja diferença principal reside não no padrão de comportamento em si, mas no objecto para o qual é dirigido ou a quem é atribuído o comportamento perfeccionista. As três dimensões consideradas pelos autores dizem respeito ao perfeccionismo auto-orientado, perfeccionismo orientado para os outros e o perfeccionismo socialmente prescrito.
O perfeccionismo auto-orientado diz respeito à tendência para estabelecer para si próprio normas
rigorosas e padrões de desempenho excessivos e exigentes, irrealistamente elevados e, muitas vezes, impossíveis de cumprir. Estes padrões são auto-impostos e tendem a estar associados a um marcado auto-criticismo e a uma incapacidade para aceitar os seus próprios erros. É ainda característico destes indivíduos as
auto-avaliações pautadas pela tendência para uma atenção selectiva aos erros e para a sobregeneralização
dos mesmos. O pensamento dicotómico, no qual só existem dois resultados possíveis para a acção – êxito
total ou completo fracasso – tem um papel central na auto-avaliação negativa característica neste estilo de
pensamento. Os autores referem ainda que este tipo de perfeccionismo inclui um componente motivacional que se traduz pela procura de perfeição e pelo evitamento do insucesso (O’Connor, Rasmussen & Hawton, 2009).
O perfeccionismo orientado para os outros envolve as crenças e expectativas relativas às capacidades das outras pessoas, para as quais o indivíduo estabelece normas irrealistas, exigindo que cumpram os
padrões elevados que o próprio sustenta. O perfeccionismo orientado para os outros consiste numa tendência interpessoal estável para exigir a perfeição dos outros e para agir para com eles de modo punitivo e
hostil. Consequentemente, a relevância desta dimensão para as relações interpessoais é óbvia na medida
em que pode estar na base de stress e conflitos interpessoais, associando-se a uma tendência passiva de
deteriorar as relações (Flett, Hewitt, Shapiro & Rayman, 2002).
O perfeccionismo socialmente prescrito relaciona-se com a crença de que os outros têm expectativas relativamente ao próprio que são impossíveis de concretizar, que o avaliam de forma demasiado exigente e exercem pressão para que seja perfeito. Por sua vez, o sujeito acredita que estas expectativas e padrões impostos pelos outros devem impreterivelmente ser cumpridos sob pena de não obter aprovação daqueles. Desta forma, o indivíduo percepciona uma necessidade de se conformar às normas e expectativas
prescritas por outros significativos. Contudo, é também característico o uso de mecanismos de coping maladaptativos, os quais reflectem um sentimento geral de desânimo e abandono que deriva da percepção de
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que é demasiado difícil obter a aprovação dos outros, uma vez que é impossível ser-se perfeito (Hewitt &
Flett, 1991).
Segundo Hamachek (1978, cit. in Shafran et al., 2002) os sujeitos perfeccionistas impõem para si
próprios níveis tão elevados de performance que acabam por não os conseguir atingir, levando a que não
se sintam bem consigo mesmos. A sua motivação para essa imposição de níveis de desempenho elevados
encontra-se relacionada com um enorme medo de falhar. Neste sentido, Shafran e colaboradores (2002)
concluem que "a psicopatologia do núcleo de perfeccionismo é expressa como um medo mórbido de fracasso e incansável busca do sucesso" (p.779). Assim, o medo de falhar é frequentemente citado como a principal motivação subjacente ao perfeccionismo, sendo visto como uma tendência para avaliar a ameaça e sentir-se ansioso em situações que envolvem a possibilidade de fracassar (Conroy, Kaye & Fifer, 2007).
No que diz respeito à natureza do perfeccionismo são vários os autores que afirmam estar relacionada com um padrão familiar pautado pela rigidez, em que os pais se caracterizam por serem excessivamente controladores, conformados, perfeccionistas e exigentes, não empáticos e desaprovadores de expressões de afecto, transmitindo um elevado sentido de responsabilidade (Millon, 1981; Adams, 1973, cit.
in Beck, Freeman & Cols, 1990; Frost, Lahart, & Rosenable 1991, cit. in Shafran & Mansell, 2001). No futuro,
os sujeitos criados neste ambiente tendem a invocar regras familiares e comportamentos passados em situações semelhantes para estabelecer o que é o “dever” em determinada situação, agindo em conformidade (Beck et al., 1990).
A literatura é consistente em afirmar que o perfeccionismo parece desempenhar um papel importante na etiologia, manutenção e evolução de certos estados psicopatológicos (Shafran et al., 2002; Sherry,
Hewitt, Flett, Lee-Baggley & Hall, 2007; Frost, et al., 1990). De facto, tem sido sobretudo associado à Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade (POCP), onde os padrões elevados de perfeccionismo podem causar uma disfunção significativa na performance e subsequente sofrimento (Shafran & Mansell,
2001; Sherry, et al., 2007). A necessidade de perfeição destes indivíduos leva a uma indisponibilidade para
correr riscos, indecisões, procrastinação (de modo a não cometer erros), rigidez e desconforto com a sua vida emocional, que é vivenciada como estando fora do seu controlo consciente. Muitos obsessivos preocupam-se continuamente e ruminam acerca do seu desempenho e da possibilidade de falhar no futuro e a
ideia de serem imperfeitos gera ansiedade. Se estes indivíduos não conseguem fazer o que, de acordo com
os seus estritos padrões internalizados e um pensamento absolutista e moralista, seria o seu dever, sentem
culpa e auto-criticismo (Beck, et al., 1990). Consequentemente, o indivíduo pode optar por aumentar ainda
mais o seu padrão o que pode também levar a outras consequências negativas tais como fadiga, falta de
concentração, irritabilidade e tensão muscular (Shafran & Mansell, 2001).
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4. Comorbilidade entre Perturbações da Personalidade e psicopatologia do Eixo I: a relação entre a Preocupação e o Perfeccionismo
É vasta a literatura que considera a elevada comorbilidade entre as Perturbações da Personalidade
constituintes do Eixo II e a psicopatologia pertencente ao Eixo I, segundo os critérios de diagnóstico
definidos pelo DSM-IV-TR (Widiger & Shea, 1991, cit. in Rijo, 2000; Tyrer, 1995, cit. in Rijo, 2000; Millon et
al., 1996, cit. in Rijo, 2000).
No entanto, apesar desta elevada taxa de comorbilidade, a questão da causalidade (patologias do
Eixo I conduzindo a distúrbios da personalidade ou vice-versa) está ainda por averiguar (Rijo, 2000). Neste
contexto, Millon e Davis (1996) sintetizam em quatro os vários modelos explicativos das possíveis relações
entre as perturbações da personalidade e os distúrbios do Eixo I, sendo eles: o modelo da vulnerabilidade,
o modelo da complicação, o modelo patoplástico e o modelo do espectro.
De acordo com o modelo da vulnerabilidade, as Perturbações da Personalidade contribuem para
tornar o indivíduo mais predisposto para o desenvolvimento de um distúrbio do Eixo I. Isto acontece sobretudo quando os recursos de coping estão limitados ou empobrecidos devido à presença da perturbação da
personalidade, podendo aumentar grandemente a probabilidade do indivíduo desenvolver um distúrbio do
Eixo I, como, por exemplo, uma perturbação depressiva ou ansiosa. No modelo da complicação, inverte-se
a relação de causalidade anterior, ou seja, será o distúrbio do Eixo I que gera uma predisposição para mudanças na personalidade. O facto de um sujeito ter conhecimento do seu problema emocional, por exemplo, pode levar a alterações do seu auto-conceito, expectativas de auto-eficácia, e consequentemente, proporcionar uma mudança ao nível da personalidade (Millon & Davis, 1996).
O modelo do espectro, contrariamente aos dois anteriores, conceptualiza as Perturbações da Personalidade e os distúrbios do Eixo I como diferentes pontos de um continuum, emergindo ambos de uma
terceira variável e, portanto, possuindo uma natureza comum (Millon & Davis, 1996).
Em contraste com os três modelos anteriores, o modelo patoplástico defende que a personalidade
influencia o curso dos distúrbios do Eixo I porém, por si só, não predispõe para o desenvolvimento dos mesmos, ou seja, o início de um qualquer distúrbio do Eixo I é independente da personalidade do indivíduo
(Millon & Davis, 1996).
Também Young (1990, 1999 cit. in Young, Klosko & Weishaar, 2003), considera a relação entre a patologia da personalidade e a psicopatologia do Eixo I, acrescentando que os Esquemas Precoces Mal-adaptativos (EMP) e as formas desadaptativas com que os indivíduos aprendem a enfrentá-los estão, inúmeras
vezes, por detrás de sintomas crónicos do Eixo I.
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Perante a elevada comorbilidade entre as Perturbações da Personalidade e os distúrbios do Eixo I,
considera-se também a comorbilidade entre a Perturbação Obsessivo-compulsiva da Personalidade e os
distúrbios ansiosos, como a PAG. Neste contexto, evidências preliminares sugerem que a PAG tem uma
apresentação mais desenvolvimental e, portanto, começa a ser concebida no contexto de um transtorno de
personalidade (Sanderson & Wetzler, 1991, cit. in Brown et al., 1993).
O perfeccionismo tem sido frequentemente associado com a psicopatologia, sendo tipicamente visto em conjunto com um transtorno do Eixo I ou Eixo II e raramente apresentado como um problema clínico
isolado (Shafran et al., 2002). No entanto, os pacientes com POCP raramente procuram ajuda pela sua perturbação da personalidade, embora por vezes tenham consciência de que certos aspectos da sua personalidade, tais como serem muito perfeccionistas, contribuem para os seus problemas psicológicos. De facto, o
problema mais comummente apresentado pelas pessoas com esta perturbação é de alguma forma a ansiedade. O seu perfeccionismo, o sentido de responsabilidade, a rigidez, e o contínuo basear-se no “dever” para agir predispõem-nos a experimentar a crónica e leve ansiedade características de uma PAG (Beck et al.,
1990).
MacLeod, Williams & Bekerian (1991, cit. in Borckovec, 1994) definem a preocupação como “um fenómeno cognitivo, onde o sujeito está preocupado com os eventos futuros, onde há incerteza sobre o
resultado futuro, sendo acompanhada de pensamentos negativos e sentimentos de ansiedade” (p. 478). Por
outro lado, os perfeccionistas frequentemente estão preocupados com falhas no seu próprio desempenho,
preocupando-se com acontecimentos futuros onde possa existir a possibilidade de falhar (Hollender, 1965,
cit. in Onwuegbuzie & Daley, 1999), o que parece expressar, de alguma forma, a relação entre a preocupação e o perfeccionismo.
De facto, tem-se verificado que o perfeccionismo está muito relacionado com as perturbações da
ansiedade, principalmente com Perturbação de Pânico, Fobia Social e Perturbação Obsessivo-Compulsiva,
encontrando-se associado ao desenvolvimento e manutenção destas perturbações (Antony et al., 1998;
Shafran & Mansell, 2001; Onwuegbuzie & Daley, 1999; Mor, Day, Flett & Hewitt, 1995). Por outro lado,
também os sujeitos com Perturbações da Ansiedade, incluindo a PAG, têm maior probabilidade de preencherem critérios para a Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade (APA, 2002). Segundo o DSMIV-TR, os doentes com PAG, nomeadamente as crianças, podem ser excessivamente conformistas e perfeccionistas, tendendo a executar a mesma tarefa várias vezes devido à insatisfação excessiva com o seu desempenho que não consideram perfeito, características estas centrais na POCP. Deste modo, verificamos
que a causalidade entre a PAG e a POCP não é clara, sendo que a primeira pode levar ao surgimento da
POCP, ou vice-versa.
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Ainda neste contexto, Young et al., (2003) afirmam que os doentes com POCP caracterizam-se por
uma preocupação e apreensão elevadas, sobretudo ao nível do seu desempenho e controlo de situações
futuras ameaçadoras, fazendo muitos esforços para evitar qualquer resultado negativo possível, como seja
cometer erros. Por outro lado, como vimos, os sujeitos com PAG caracterizam-se por apresentarem sintomas de ansiedade e preocupação crónicos, experimentando uma falta de controlo sobre os mesmos.
Para além disso, o falhanço inevitável ao sujeito perfeccionista leva-o a considerá-lo como um fracasso pessoal, diminuindo a sua auto-estima e deixando-o bastante ansioso, uma vez que se sente responsável pelas
consequências negativas (Shafran & Mansell, 2001; Flett, Hewitt, Endler & Tassone, 1995). Note-se que, em
alguns sujeitos perfeccionistas, as suas preocupações centram-se no medo do fracasso pessoal e interpessoal, preocupando-se com as possibilidades negativas, erros e equívocos potenciais e fracassos, antecipando, frequentemente, acontecimentos negativos futuros (Dugas & Ladoucer, 1997). Assim, os sujeitos perfeccionistas mantêm elevadas preocupações baseadas no medo de falhar, uma vez que o erro é observado
como catastrófico e como significado de fracasso pessoal. Neste sentido, ao considerar que fracassou, o sujeito sente responsabilidade e culpa sobre o acontecimento, ficando ansioso, e existindo, subsequentemente, uma diminuição da auto-estima, bem como a diminuição da sensação de controlo sobre as situações
que considera ameaçadoras (Dugas & Ladoucer, 1997).
Dito de outro modo, os sujeitos perfeccionistas colocam para si mesmos objectivos bastante elevados e exigentes, e mantêm uma atitude crítica face a si mesmos, que diminui a probabilidade de concretizarem esses mesmos objectivos. Por outro lado, preservam igualmente uma pressão constante para atingirem a perfeição, conduzindo a atitudes autocríticas e a sentimentos de responsabilidade elevados, o que
resulta numa baixa auto-estima. Este comportamento pode, ainda, conduzir à ansiedade, surgindo a preocupação como mecanismo de coping baseado na crença de um maior controlo sob as falhas (Shafran &
Mansell, 2001). Deste modo, o perfeccionismo encontra-se associado ao aumento dos níveis de ansiedadeestado, sendo que a preocupação surge como um componente cognitivo que facilita o controlo das situações futuras encaradas como possíveis falhas.
No seguimento, muitos estudos têm então demonstrado a relação entre o perfeccionismo e a preocupação (Flett et al., 1995; Mor et al., 1995; Onwuegbuzie & Daley, 1999; Shafran & Mansell, 2001). A associação obtida entre o perfeccionismo e a preocupação é consistente com observações recentes em que o
perfeccionismo tem uma componente cognitiva baseada na tendência a reflectir sobre as falhas reais ou
possíveis, envolvendo o cumprimento das normas. Por sua vez, estas reflexões sobre as possíveis falhas para atingir os padrões de desempenho podem ser especialmente importantes por aumentarem a relevância
dessas normas. Por outro lado, os resultados indicam que os perfeccionistas são caracterizados não só por
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se preocuparem com a possibilidade de fracasso, mas também podem sofrer consequências negativas ao
nível somático face à exposição prolongada a elevados níveis de ansiedade e preocupação (Flett et al.,
1995). Embora as preocupações sobre ser imperfeito em apenas um domínio de vida possa ser muito angustiante para os indivíduos, acredita-se que a disfunção é ainda maior entre as pessoas que procuram a
perfeição em vários domínios (Hewitt, Flett, Besser, Sherry & McGee, 2003). Em particular, os indivíduos
com níveis elevados de perfeccionismo tendem a sofrer uma série de dificuldades relacionadas a uma maior preocupação com a possibilidade de fracasso (Flett et al., 1995). De facto, qualquer falha percebida nos
seus resultados relevantes leva à auto-crítica e mantém uma visão negativa de si mesmos. Porém na tentativa de evitar isso mesmo, preocupam-se excessivamente com os erros futuros, considerando que desta
forma o seu controlo sob as situações consideradas ameaçadoras aumenta (Shafran et al., 2002).
Neste sentido, a relação entre o perfeccionismo e a preocupação tem sido bem marcada ao nível
dos exames, uma vez que os indivíduos perfeccionistas preocupam-se com as manifestações ostensivas de
imperfeição, e, portanto, em não falhar, fracassar (Hewitt et al., 2003). Assim, verificou-se que pessoas perfeccionistas apresentam taxas de preocupação e ansiedade elevadas perante situações de desempenho, o
que interfere com a própria tarefa, aumentando a probabilidade de falhar, gerando cada vez mais ansiedade e preocupação. Consequentemente, os seus padrões perfeccionistas, levam cada vez mais a auto-críticas
e a previsões catastróficas de fracasso pessoal (Deffenbacher, 1986). Ainda neste contexto, outros autores
têm verificado que os perfeccionistas, perante uma situação de teste, têm baixos níveis de confiança no seu
desempenho, apresentam preocupação e medo de falhar e antecipam o fracasso considerando as consequências das suas falhas. Perante isto, a sua preocupação e ansiedade leva a uma diminuição do desempenho, dada a interferência cognitiva induzida por altos níveis de auto-consciência (Morris et al., 1981 cit. in
Cassady, & Johnson, 2002; Deffenbacher & Hazaleus, 1985). De facto, verificou-se que a preocupação é a
principal fonte de interferência no desempenho de um teste levando, por sua vez, à auto-crítica nos
sujeitos perfeccionistas (Deffenbacher & Hazaleus, 1985).
A intolerância à incerteza também se destaca como uma característica comum ao perfeccionismo e
à preocupação. Num estudo efectuado por Dugas e colaboradores (2001), ficou comprovado que a intolerância à incerteza está especificamente associada com a preocupação excessiva e incontrolável. Por outro
lado, a intolerância à incerteza foi também investigada nos sujeitos perfeccionistas, concluindo-se que estes acabam por considerar que, ao preocuparem-se, conseguirão uma sensação de controlo dos acontecimentos futuros, como um sucesso bastante maior (Moulding & Kyrios, 2005).
Tem-se igualmente verificado que o perfeccionismo tem interferência nas relações amorosas, levando a uma ansiedade no que diz respeito ao namoro (Fedewa et al., 2005). Esta ansiedade passa por uma
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preocupação obsessiva em relação ao/à companheiro/a, vincada no medo de poder falhar com ele/a. Os
resultados de actuais investigações indicam, então, que as cognições características do perfeccionismo estão associadas a uma preocupação cognitiva com o/a parceiro/a que, juntamente com uma insegurança em
relação aos sentimentos do/a companheiro/a, conduz a um estado de auto-fócus, mais preocupação e ansiedade (Feeney, 1998 cit. in Flett et al., 2002; Flett et al., 2002).
Como averiguámos, a investigação propõe uma relação entre a preocupação e o perfeccionismo
(O’Connor et al., 2009; Ströber & Joormann, 2001), assim como a preocupação associada a traços obsessivos da personalidade (Wells & Papageorgiou, 1998). A base desta relação encontra-se na preocupação com
os erros e nas dúvidas sobre a acção, preocupação com as situações onde possa falhar, preocupação com o
insucesso, preocupação relacionada com o não mostrar a imperfeição para não serem criticados, preocupação com o estabelecimento de padrões elevados, e preocupação com ameaça sobre possíveis eventos futuros negativos (Ströber & Joormann, 2001).
Em suma, verificámos uma relação elevada entre o perfeccionismo e a preocupação, analisando a
um nível mais breve a relação entre a Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade com a Perturbação da Ansiedade Generalizada. Neste contexto, evidenciou-se que a preocupação excessiva característica
da PAG poderá estar relacionada com o perfeccionismo característico da POCP. Desta forma, concluímos
que, de facto, a comorbilidade entre estas duas perturbações mentais parece existir, embora não tão fortemente como entre outras perturbações. Contudo, há autores que consideram que, apesar de todos os estudos realizados nesta temática e de todas as conclusões acima referidas, o papel de perfeccionismo na PAG,
PTSD (Perturbação do Pós-Stress Traumático) e distúrbios psicóticos está ainda a ser investigado (Shafran &
Mansell, 2001).
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34. Young, J.; Klosko, J. & Weishaar, M. (2003). Schema therapy: a practitioner’s guide. New York: Guilford Press.
Nota da Autora: “Agradeço à Dra. Vera Raposo por todo o apoio, incentivo e oportunidade, pelos
importantíssimos ensinamentos, e pela disponibilidade e colaboração neste trabalho!”.
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Testemunho
Ricardo
Este testemunho faz todo o sentido para mim porque acho que é com a experiência de cada um e
com os nossos próprios erros que se aprende, por vezes a muito custo. Falo por mim, pois já são muitos
erros e muitas atrocidades cometidos à minha própria vida. Desde muito novo (no ensino secundário),
começaram as minhas experiências com o álcool e, logo a seguir, os primeiros charros. E, a partir daqui, foi
uma grande avalanche na minha vida, um declínio louco para os lados obscuros e tão recriminados pela
sociedade.
Antes de entrarmos para as aulas, íamos para um café mesmo ao lado do liceu onde, às oito da
manhã, começávamos logo a beber traçadinhos (bagaço com aniz) ou imperiais. Para nós, era o maior
orgulho ver quantos copos conseguíamos beber. Desta forma, já íamos de todo para a primeira aula, mas
continuávamos a beber ainda mais nos intervalos, de garrafas que trazíamos de casa.
Disto ao primeiro charro foi um ápice. Sempre tive orgulho de andar com pessoal mais velho e, de
entre os putos, eu sentia que era o melhor porque estava integrado no grupo dos mais velhos. Aos poucos,
fui deixando de beber tanto e passei a fumar cada vez mais charros.
Reprovei 4 anos no 7º ano, por faltas, tendo sido expulso da escola. Acabei por desistir da mesma,
aos 13 anos, ainda com o 7º incompleto, e comecei a trabalhar.
Infelizmente, sempre fui aberto a novas experiências e, certo dia, em casa de amigos, lá apareceu o
cavalo. Engraçado que nenhum deles me queria deixar experimentar, porque sabiam ao que aquilo levava.
Contudo, a muito custo, lá os consegui convencer a deixarem-me dar uns bafos naquilo… Foi uma
experiência única! Uma sensação de bem-estar, apesar de durante muito tempo não ter voltado a
consumir desta substância. Mas houve um dia em que procurava haxixe, que só conseguia encontrar
heroína. Pensei: “bem é só mais uma vez e não será assim tão degradante como dizem”. PURA MENTIRA!
Desde aí, tinha eu 15 anos, foram 4 anos de vício, de ressaca e consumo e, inclusivé, de outras drogas como
a cocaína e ácidos. Fugi de casa várias vezes e, como sempre, trabalhava (na construção civil) e até ganhava
bastante bem, só para comprar coca e heroína às gramas.
O meu pai chegou a apanhar-me com o tubo na boca de madrugada e começou a espancar-me. No
entanto, não sei bem como, consegui escapar e fui refugiar-me na casa do meu dealer, a quem comprava
as doses quando se acabava o que trazia de Lisboa. De facto, acho que ir trabalhar para Lisboa, ainda por
cima ao lado do Casal Ventoso e do Intendente, piorou ainda mais a minha situação. Arranjava sempre uma
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desculpa para ir buscar mais, nem que fosse a meio do trabalho e, infelizmente, por lá não faltavam
supermercados.
Aos 18 anos, comecei a olhar para aqueles amigos, que na verdade tinham tudo (carta, carro e
acima de tudo, dignidade), e eu, que ganhava bem mais que eles, tinha apenas o seu desprezo por me ter
tornado naquilo que me tornei: um agarrado. Assim, decidi pôr um ponto final naquilo e tive uma conversa
com o meu pai (coisa que poucas vezes aconteceu porque eu e o meu pai não conversávamos) e, para
minha surpresa, ele ficou do meu lado. Desta forma, o meu pai acompanhou-me ao Sobral Cid, a Coimbra,
onde fui a uma consulta e comecei a ser tratado. Fiz o tratamento em casa, à base de medicação e
acompanhamento médico e psiquiátrico. Em menos de um ano, ganhei muita coisa. Tirei carta, comprei
carro e, o mais importante, conquistei o respeito que tinha perdido da minha família e amigos. Ganhei uma
nova vida. Durante muito tempo nem álcool bebi.
Contudo, por auto-recriação, deixei de tomar a medicação, pensando que já não precisava, e
comecei a beber uns copos. Isto é mais um grandessíssimo erro. De vez em quando, comecei a apanhar
umas grandes bebedeiras e, com isto, fui substituindo uma droga por outra. O alcoolismo é uma coisa difícil
de se admitir e de se perceber que o é. Mas eu achava que nem bebia muito, até que a minha namorada,
com quem namorava há quase 6 anos, me deixou. Custou-me a aceitar e a perceber porque é que agora
que estava a recuperar, ela me quis deixar. Consequentemente, passei 3 meses da minha vida a sofrer e a
beber todos os dias, pois sentia-me revoltado e frustrado.
Entretanto, num dia de Verão e aos 20 anos, conheci um grande amor da minha vida. Foi um ano e
meio muito bom para mim e sem consumos. Contudo, e apesar de me sentir bem com ela, eu era o que ela
queria que eu fosse, e não quem eu era verdadeiramente. Assim, quando decidi voltar a ser eu em algumas
coisas, comecei a ficar mais distante, a beber mais frequentemente e a passar mais tempo com os velhos
amigos. Ela começou a desgostar deste meu novo eu, sobretudo devido ao consumo de álcool, e acabámos
por decidir interromper a relação. Todavia, em vez de lhe dar espaço e tempo, ligava-lhe com altas
bebedeiras, ia ter com ela completamente bêbado (o que quase me causou dois acidentes de carro) e, uma
das vezes, dei até um murro num vidro (cortando-me e sangrando bastante). Não nos reconciliámos e o
tempo foi passando, com o consumo de álcool sempre presente. Entretanto, também me comecei a
envolver com várias mulheres.
Isto até ao dia em que em que, aos 22 anos, conheci mais uma mulher que fez mudar a minha vida,
apesar de a nossa história ter sido bem mais complicada e ter sido um amor atribulado. O nosso amor não
foi bem aceite pelo nosso grupo de amigos e eu deixei o meu trabalho e o sítio onde vivia para ir viver com
ela para uma cidade nova. Contudo, com ela, o álcool sempre me acompanhou. Bebia mais ou menos de
forma controlada, mas era óbvio que havia dias de grandes bebedeiras.
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Entretanto, fiquei sem trabalho e vi-me obrigado voltar para casa dos meus pais. Tornei a ir
trabalhar para Lisboa e, mais uma vez, fui para uma zona crítica onde o tráfico de droga era ali feito. Um
dos rapazes que trabalhava comigo era consumidor. Consequentemente, a recaída nas drogas foi um ápice
e comecei mais uma vez a afastar-me da pessoa que amava. Tornei a viciar-me na heroína e na coca e vinha
cada vez menos a casa, para ficar ali a matar o vício. A minha namorada sabia dos meus consumos,
aguentou várias ressacas e encobriu-me várias vezes para eu poder comprar a minha dose. Apercebi-me,
aos 24 anos, que, mais uma vez, precisava de ajuda para sair daquilo, pelo que me dirigi ao CAT, de São
Bernardo, onde fiz tratamento em regime ambulatório e fui a algumas consultas psiquiátricas.
Assim, voltei a deixar os consumos. Mas, mais uma vez, também acabei por deixar a medicação por
achar novamente que já não precisava de a continuar a tomar. Continuei no mesmo sítio, com os amigos
do costume e, aos poucos, fui substituindo a droga por outra droga (o álcool) e o meu relacionamento
amoroso foi-se deteriorando. Até que, fruto de uma relação sem sentido e de uma noite basicamente de
sexo com uma rapariga ainda menor, nasceu o meu filho. A minha relação amorosa terminou de vez e fui
viver com a mãe do meu filho. Apesar de tudo, sentia-me muito feliz por ser pai, algo que sempre quis ser e
pensei que este meu novo papel fosse o factor decisivo para eu, aos 25, mudar de vida. Mas a felicidade
durou muito pouco tempo. Começámos a discutir por tudo e por nada e eu sentia-me cada vez pior,
refugiando-me no álcool. Assim, ficava muito tempo nos cafés para não ir para casa, para que não
houvessem discussões, uma vez que por vezes chegavam à agressão física mútua. Nesta altura, o consumo
de álcool passou então a ser diário e abusivo. Chegámos mesmo a ter de mudar de casa algumas vezes
porque os vizinhos não aguentavam o barulho e, inclusive, tiveram de chamar a polícia. A mãe do meu
filho, além de não trabalhar, também não arrumava nem limpava a casa, sendo eu que, muitas vezes
depois do trabalho, ainda tinha que ir cozinhar e lavar a louça. Quando o meu filho tinha 6 meses, a minha
mãe sugeriu ficar a tomar conta dele, o que foi prontamente aceite e encarado como um alívio pela mãe.
Apesar de ser o melhor para o menino, para mim foi uma grande desilusão.
Dois anos depois, ainda a viver com a mãe do meu filho, surgiu a oportunidade de ir trabalhar para
a Alemanha. Pensei que o dinheiro que ia ganhar lá fora seria determinante para melhorar as nossas vidas.
Mais uma vez estava enganado. Os consumos continuaram, uma vez que a bebida era o meu refúgio.
Sentia um enorme desespero cá dentro, por tudo e mais alguma coisa, e a angústia era imensa. Por estar
longe, por não ter o meu filho, por ter perdido mulheres com as quais poderia ter sido feliz. O álcool, aos
poucos e sem eu dar por isso, passou a ser um hábito quotidiano e já não me sentia bem se saísse e não
bebesse.
Entretanto, regressei a Portugal, terminei a relação com a mãe do meu filho, e este continuou com
os meus pais. Fui arranjando trabalho aqui e acolá, mas não me aguentava muito tempo, até porque faltava
muito devido às bebedeiras que apanhava e na manhã seguinte não me conseguia levantar. Cheguei a um
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ponto em que já não passava sem o álcool, porque sem beber já não conseguia fazer nada. Já tinha
tremores, enjoos e irritava-me muito facilmente. Bebia tudo o que aparecesse e bebia até me sentir
alcoolizado, pois para mim esse já era o meu estado normal.
Decidi pedir ajuda à minha médica de família e fui a uma consulta de alcoologia no Centro de Saúde
de Aveiro. Fiz o tratamento ambulatório e estive 3 meses sem beber. Mas sempre consumi cerveja sem
álcool, o que é um enorme erro, porque só nos andamos a enganar a nós mesmos. Portanto, não demorou
muito até começar a beber novamente e aí comecei a beber mesmo de tudo e em grandes quantidades.
Chegava a beber 6 a 8 copos de vinho do Porto até ir trabalhar. Tive, ainda, o azar de ir trabalhar para uma
empresa de distribuição de bebidas o que piorou cada vez mais a minha situação. Ainda por cima, o meu
colega de trabalho também era alcoólico. E digo também, porque aqui já me considerava um. Sofria imenso
por me ter tornado na pessoa que estava a ser.
Conheci uma rapariga com quem ainda namorei um ano e meio e que, não sei como, tanto
aguentou. Fazia tudo por só mais um copo. Parava em todos os tascos para beber, comprava às garrafas ou
garrafões de vinho para ter em casa e cheguei muitas vezes a ir buscar garrafões de vinho a casa dos meus
pais sem eles saberem. Não me sentia bem enquanto não estivesse mesmo embriagado; acordava a meio
da noite e bebia fosse o que fosse; saía de casa às 6 da manhã para ir beber no primeiro tasco que abrisse.
Até beber o primeiro copo eu tremia imenso e sentia vómitos. Quando não tinha dinheiro, bebia apenas
bagaço (por ser o mais barato e o que fazia efeito mais rapidamente). Não conseguia comer nada, só beber.
E sentia uma revolta enorme por já não conseguir passar sem o álcool. Sentia-me a morrer aos poucos, até
que a minha avó me propôs uma consulta no CARDA (Centro de Alcoólicos Recuperados do Distrito de
Aveiro), o que aceitei de bom grado porque já não me suportava e tinha raiva e ódio de mim.
Do CARDA fui enviado para o Sobral Cid onde me foi proposto um internamento para deixar de
beber. No entanto, fiquei em lista de espera e continuei a beber até ser internado passado 2 semanas, no
dia 7 de Setembro de 2009. Embora com grande vontade e determinação em deixar o álcool, também ia
com um certo nervosismo por não saber que tipo de tratamento iria fazer. Este tratamento foi, sem dúvida,
a melhor coisa que podia ter feito. Na primeira semana pouco ou nada tivemos para fazer, mas com o
tempo vieram as terapias ocupacionais, as reuniões de grupo, as idas à médica, as intervenções
psiquiátricas. As 3 semanas passaram rapidamente e estava a ganhar força para uma nova vida. Todavia,
comecei a ter medo de sair da Unidade. Lá, estávamos refugiados de tudo, não tínhamos acesso a nada e
era tudo muito fácil. De facto, cheguei a pedir para ficar mais uma semana porque não me sentia
preparado para enfrentar o mundo cá fora. Mas tive que sair e fui recebido num jantar de família onde me
senti optimamente apesar dos outros estarem a beber vinho e eu água. Quando vi a garrafa de whisky à
minha frente, pensei que a poderia beber até à última gota, mas logo aí pensei que era um disparate, bebi
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um copo de água, respirei fundo e aquele pensamento fugiu. Aos poucos fui ganhando confiança em mim e
a confiança da família e dos amigos.
Encontrei trabalho perto de casa, o que até foi mesmo bom porque tinha ficado sem carta por
conduzir alcoolizado. Ia a jantares, festas e bares e nunca me deu vontade de beber. Foram 10 meses
formidáveis. Contudo, cometi o erro de, um dia, não sei porquê, beber uma cerveja sem álcool. Pensei que
não me iria fazer mal porque me sentia curado. Agora sei que isto não tem cura, apenas podemos controlar
a doença. A partir desse dia, o bichinho dentro de mim acordou e comecei a beber às 7 ou 8 sem álcool mas
não me satisfazia. Até que decidi mesmo experimentar uma mini, que afinal foram duas. Toda a gente
começou a avisar-me para ter cuidado, mas eu achava que me conseguia controlar. Estava completamente
enganado, claro. Rapidamente comecei e beber outra vez em demasia, inclusivé de manhã. Comecei a pôrme de parte, porque senti que tinha falhado com toda a gente e comigo, e fechava-me em casa com
garrafas de vinho.
Um dia, estava a jantar num café quando apareceu um velho amigo que me desafiou para ir a casa
dele consumir branca. Mais uma vez, pensei que só uma vez não faria mal, embora não tenha sido só
aquela vez. A revolta e a indignidade cresciam cada vez mais dentro de mim por estar a cair na desgraça e
consumia cada vez, mais fosse álcool ou coca. Perdi o amor pela vida e tudo o que tinha conseguido nos
últimos 10 meses, e como já não havia nada a fazer só me restava consumir até desaparecer. Vendi
algumas das coisas que tinha, pedi emprestado, inventei desculpas só para conseguir dinheiro para
consumir álcool ou para a coca.
Até que na consulta de rotina no Sobral Cid confessei que andava a consumir outra vez e tentei o
tratamento em casa. Perante o falhanço do tratamento tive que ser internado novamente. Durante as três
semanas de espera para ser internado fiquei em casa de um tio meu e deixei de consumir cocaína, embora
tenha continuado a consumir álcool. Sentia-me frustrado e com raiva por estar a passar por tudo
novamente. Ainda hoje sinto isso, de certa forma.
Chegou o “dia X” – 3 de Novembro de 2010. Sentia-me mais nervoso e ansioso do que da primeira
vez e, apesar de não querer continuar a beber, parecia que não me queria tratar como da outra vez. O
procedimento no Sobral Cid foi, no entanto, diferente: desta vez não havia grupos constituídos.
Desta vez, perdi mesmo tudo e vi-me como um sem abrigo: não tinha casa para onde pudesse
voltar (o meu pai não me queria de volta), não tinha trabalho, não tinha nada. E, basicamente, a minha
saída esteve pendente de uma solução para quando saísse. Um colega de internamento arranjou-me
trabalho, onde estou actualmente, numa cidade diferente. A minha saída não podia ter começado melhor.
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Já lá vão 20 dias que saí da Unidade e muito tenho ganho. O facto de viver sozinho tem-me
proporcionado uma visão diferente da vida e venho aprendendo a lidar com o que antes era problemático
para mim, os meus sentimentos e as minhas expectativas. Isto por enquanto é um misto de sentimentos e
emoções. Sei que aprendi muito com esta minha recaída e certamente ganhei outra força para continuar
sóbrio. Isto é uma doença crónica que não tem cura e que apenas pode ser controlada.
Aproveito o meu testemunho para agradecer publicamente a todos aqueles que sempre me
ajudaram e a todo o pessoal da Unidade no Sobral Cid, inclusivé aos amigos que lá fiz.
NOTA: A equipa da Peritia | Revista Portuguesa de Psicologia agradece ao Ricardo pelo testemunho que
nos deixou.
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setembro 2009
nº 01
revista portuguesa de psicologia
Ficha Técnica
Directora: Fátima Almeida
Vice-Directora: Diana Balaias
Sub-director: Rui Conceição
nº6 | dezembro 2010
Relação entre o nível de leitura e o nível de inteligência geral. Catarina Lucas, Clémence Freitas,
Cristina Oliveira, Manuela Machado, Mª Isabel Monteiro
Comissão Científica
Ana Filipa Lourenço de Oliveira
Joana Filipa Duarte Martins
Nuno de Sá Teixeira
Sandra Margarida Heleno Marques
dos Santos
A relação entre a preocupação e o perfeccionismo. Inês Martins
Concepção gráfica: projectone
Espiritualidade, Religião e Percepção de Doença: Implicações na adesão terapêutica – Artigo de
Revisão. Ana Cartaxo
Periodicidade: trimestral
Registo na ERC nº 125740
ISSN: 1647-3973
Rua Cândido dos Reis, nº 53, 1º drt. | 3770-209 Oliveira do Bairro | tlm: 910 324 492 | tlf: 234 284 744 |
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Endereço para correspondência:
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Psicologia
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