revista portuguesa de psicologia trimestral dezembro 2010 nº6 www.revistaperitia.org Peritia 2010, 6, 1-8 Espiritualidade, Religião e Percepção de Doença: Implicações na adesão terapêutica – Artigo de Revisão1 Ana Cartaxo2 Resumo Os conceitos de religião e espiritualidade assentam sobre alguma dificuldade de consenso entre os autores, contudo conceptualizamo-los segundo uma procura de proximidade com o sagrado ou o transcendente. Especificamente, a religião caracteriza-se como sendo um sistema organizado de crenças, práticas, rituais e símbolos, de acordo com um dogma institucional específico, enquanto que a espiritualidade assenta sobre a busca pessoal de experiências e respostas como fonte de sentido e significado para a vida. Desta forma, as práticas religiosas/espirituais poderão ter influência na forma como as pessoas interpretam eventos traumáticos e lidam com eles, influenciando a procura e a adesão a tratamentos consoante o tipo de locus de controlo que percepcionam. Deste modo, é importante que os profissionais de saúde tenham em conta as crenças implícitas dos seus pacientes, de modo a melhorarem não só a satisfação dos mesmos, mas também os resultados obtidos pelos serviços prestados. Palavras-Chave: Religião; Espiritualidade; Adesão Terapêutica; Locus de Controlo. Abstract Religion and spirituality concepts are based on consensus difficulties among the authors, however we define them as a search for proximity between sacred and profane. Particularly, religion is categorized by an organized system of beliefs, practices, rituals and symbols, according to a specific institutional dogma, whereas spirituality is about a personal search for answers and experiences as a source of meaning and direction in life. Therefore, religious/spiritual practices might have an influence on the way as people live and cope with traumatic events, influencing the therapeutical help-seeking according to the locus of control type which they perceive. So, it’s important that health-care professionals keep in mind their patients beliefs, in way to improve the satisfaction and good results of their services. Keywords: Religion, Spirituality; Therapeutic Adherence; Locus of Control. 1 Trabalho realizado no âmbito da cadeira de Intervenção Psicológica em Contextos de Saúde, do Mestrado de Psicologia Clínica e da Saúde da Universidade de Évora. Ano lectivo 2009/2010. 2 Licenciada em Psicologia pela Universidade de Évora. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 1 Peritia 2010, 6, 1-8 1. Introdução Abordar um tema que englobe uma perspectiva científica, e ao mesmo tempo dar ênfase às idiossincrasias que constituem o senso comum, parece contraditório. Contudo, apesar destas diferentes perspectivas darem destaque a diferentes olhares sobre um mesmo objecto, parece-nos importante salientar a importância de sermos integradores, de modo a vislumbrar, de forma cada vez mais holística, o objecto em questão. Quando se trata das noções de saúde e doença, a sua complexidade exige a conjugação de factores biológicos, sociológicos, económicos, ambientais e culturais, na medida em que estes conceitos estão amplamente relacionados com o modo de vida e o universo sociocultural de cada paciente (Uchôa et al., 1994). Se tivermos em conta a realidade portuguesa, esta questão complexifica-se na medida em que, principalmente nas últimas décadas, Portugal tem vindo a desenvolver uma acentuada mudança no tecido social (Feliciano, s.d.), já que actualmente recolhe cidadãos de vários locais do globo, intensificando a diversidade étnica, cultural e religiosa, o que envolve a necessidade de uma amplitude do espectro das necessidades e do prisma com que essas mesmas necessidades são encaradas. 2. Religião e Espiritualidade A associação entre factores relativos à religiosidade/espiritualidade e a saúde possui raízes histórico-culturais muito antigas, presentes em mitos gregos, em rituais indígenas e nas inscrições bíblicas, que influenciaram e têm vindo a influenciar a cultura ocidental actual (Botelho, 1991, cit. in Williams & Sternthal, 2007). Não existem definições consensuais entre os vários autores no que diz respeito aos conceitos de religião e espiritualidade. Contudo, optaremos por considerá-los constructos distintos. Nesta linha, religião, do latim religio, significa uma ligação entre a humanidade e uma entidade superior, podendo ser identificadas pelo menos três designações históricas para este termo: um poder sobrenatural para com o qual cada indivíduo está motivado ou comprometido; um sentimento presente no indivíduo que concebe tal poder superior; e os rituais carregados de respeito por esse poder (Wulff, 1997, cit. in Hill et al., 2000). Por outro lado, a espiritualidade, do latim spiritus, significa respiração ou vida, termo frequentemente citado em diferentes culturas, como no caso do antigo testamento hebraico (ruah) e do novo testamento grego (pneuma) (Hill et al., 2000). Apesar de a espiritualidade ter vindo a ser historicamente referida no contexto da religião, nem todas as concepções correntes mantêm esta ligação. Segundo Spilka (1993, cit. in Hill et al., 2000) a compreensão contemporânea da espiritualidade depreende uma de três categorias: 1) uma espiritualidade orien- www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 2 Peritia 2010, 6, 1-8 tada por Deus onde pensamentos e práticas são, em geral, permitidas pela teologia; 2) uma espiritualidade orientada para o mundo realçando uma relação com a ecologia ou a natureza; ou 3) uma espiritualidade humanista ou, orientada para as pessoas, que realça as aquisições e o potencial humano. Deste modo, a religiosidade compreende a adesão a crenças e práticas, que podem incluir a espiritualidade (Williams & Sternthal, 2007), relativas a uma determinada igreja ou instituição religiosa organizada, enquanto que a espiritualidade pode ser vista como uma relação estabelecida por uma pessoa com um ser ou uma força superior, na qual acredita, sem ter necessariamente uma ligação a uma instituição organizada específica. Assim, e segundo a perspectiva de Siegel, Anderson e Schrimshaw (2001, cit. in Faria & Seidl, 2005, pp. 381), “a conceituação de religiosidade inclui aspectos individuais e institucionais, enquanto espiritualidade é um fenómeno apenas individual, identificado com aspectos como a transcendência pessoal, sensibilidade extra-consciente e fonte de sentidos para eventos da vida”. A pertinência do estudo destas variáveis pode ser fundamentada pela inclusão da categoria Problemas Religiosos ou Espirituais como uma categoria diagnóstica inserida no DSM-IV (American Psychiatric Association, 2000), no sentido de diferenciar entre perturbação mental e expressões da religiosidade (Faria & Seidl, 2005), reconhecendo que os temas religiosos e espirituais podem ser o foco da consulta e do tratamento psiquiátrico/psicológico (Lukoff et al., 1995, cit. in Peres, Simão & Nasello, 2007). De ressaltar ainda a importância dada à religião como promotora de suporte emocional, instrumental e informativo (Faria & Seidl, 2005), e das investigações recentes que sugerem que nos Estados Unidos, 94% da população acredita em Deus, 90% reza, 88% acredita que a religião é importante nas suas vidas, 75% declara que o envolvimento religioso proporciona experiências positivas e enriquecedoras (Gallup, 1994; Shorto, 1997, cit. in Hill, 2000), 66% é membro de uma igreja ou sinagoga e 40% participa regularmente nas práticas religiosas (Williams & Sternthal, 2007). Também é importante referir que a maioria dos pacientes americanos declarou que gostaria que os seus médicos tivessem discutido os aspectos espirituais da sua doença (Miller, Thoresen, 2003, cit. in Williams & Sternthal, 2007), estando este facto de acordo com os estudos que indicam que 79% dos adultos americanos acreditam que a fé espiritual pode ajudar as pessoas a recuperarem da doença (McNicol T., 1996, cit. in Williams & Sternthal, 2007). 3. Percepção de Doença: implicações da Religiosidade/Espiritualidade Todo o indivíduo está inserido num contexto social e cultural específico que tem influência na construção de si mesmo e do meio que o rodeia. Assim, a sua base explicativa dos acontecimentos, internos e externos, está dependente da sua base sócio-cultural. De facto, diversos autores (Nyamwaya, 1987; Green, 1992; Hielscher & Sommerfield, 1985; Corin et al., 1992, cit. in Uchôa & Vidal, 1994) salientaram a forte in- www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 3 Peritia 2010, 6, 1-8 fluência que a semiologia popular e as concepções culturais de causalidade exercem sobre os comportamentos que cada indivíduo adopta face à saúde e à doença. De acordo com Faria e Seidl (2005), existe suporte empírico para diversas funções da religião e da espiritualidade, tais como alívio, conforto e consolo, busca de significado para problemas relevantes da existência, busca de compreensão de si mesmo e busca pelo sagrado, podendo ainda contribuir para um aumento de uma benéfica rede de suporte social (Faria & Seidl, 2005; Maton & Wells, 1995, cit. in Hill et al., 2000). Contudo, as relações sociais também podem ser uma fonte de stress (Chatters, 2000, cit. in Williams & Sternthal, 2007), se se caracterizarem pelo julgamento, alienação ou exclusão. Existem indivíduos que atribuem exclusivamente o aparecimento e resolução de problemas de saúde a Deus, utilizando-O como recurso cognitivo, emocional ou comportamental (Pargament, 1990, cit. in Faria & Seidl, 2005). Desta forma, a religião/espiritualidade adoptam diferentes funções, dependendo da atribuição de locus de responsabilidade e do nível de participação da pessoa na resolução do seu problema (Williams & Sternthal, 2007; Pargament et al., 1988, cit. in Faria & Seidl, 2005). Segundo Abdala e Rodrigues (2009), ao longo do século XX, mais de 850 artigos foram publicados referindo, a sua maioria, uma associação positiva entre maiores níveis de envolvimento religioso e um aumento do bem-estar físico e psicológico, promovendo ainda estilos de vida mais saudáveis e um aumento da qualidade de vida (Koenig, McCollough & Larson, 2001; Moreira, Lotufo, Neto & Koenig, 2006; Vasconcelos, 2006, cit. in Abdala & Rodrigues, 2009; Townsend, Kladder, Ayele & Mulligan, 2002, cit. in Feliciano). Estes resultados parecem ter sido a pedra basilar para a criação de centros de estudos sobre a religião e a saúde, como o Center for the Study of Religion/Spirituality and Health da Universidade de Duke, e o surgimento de jornais especializados, como o Journal of Religion and Health. Uma breve revisão da literatura mostrou-nos que existe uma relação entre a espiritualidade, o nível de envolvimento religioso e a saúde, na medida em que se parece verificar uma melhoria do bem-estar psicológico (Abdala & Rodrigues, 2009; Moreira-Almeida, Neto & Koenig, 2006, cit. in Williams & Sternthal, 2007; Hill et al., 2000), assim como uma diminuição da depressão e da ansiedade (Abdala & Rodrigues, 2009; Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano, s.d.; Razali et al., 1995, cit. in Williams & Sternthal, 2007). Parece também haver uma diminuição dos pensamentos e comportamentos suicidas (Abdala & Rodrigues, 2009; Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano; Moreira-Almeida, Neto & Koenig, 2006, cit. in Williams & Sternthal, 2007). Segundo Townsend, Kladder, Ayele e Mulligan (2002, cit. in Feliciano, s.d.), parece haver evidências de que existe relação entre as práticas espirituais e religiosas, como o rezar, na melhoria da saúde em doentes com doença coronária, pressão arterial, e na melhoria da funcionalidade do sistema imunitário. Em www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 4 Peritia 2010, 6, 1-8 relação a esta última, os resultados são contudo mais ambivalentes, principalmente nos doentes com cancro. Resultados mais estáveis parecem ser os relativos aos doentes com HIV, onde a espiritualidade/religiosidade parece estar positivamente associada a sentimentos de melhoria de vida (Szaflarski et al., 2005). De salientar ainda que estas crenças e práticas parecem estar relacionadas com um menor abuso de drogas e álcool (Abdala & Rodrigues, 2009; Moreira-Almeida, Neto, Koenig, 2006, cit. in Williams & Sternthal, 2007). Townsend, Kladder, Ayele e Mulligan (2002, cit. in Feliciano, s.d.) referem-se ainda a uma relação inversa entre práticas religiosas e mortalidade, verificando uma redução de cerca de 25%, conclusões estas que estão de acordo com os estudos relativos à relação entre religião/espiritualidade com melhores prognósticos na recuperação da doença (Koenig, McCollough & Larson, 2001, cit. in Abdala & Rodrigues, 2009; Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano), e de maior longevidade com manutenção de capacidades (Mueller, Plevak & Rummans, 2001, cit. in Feliciano, s.d.). De referir ainda uma tendência para as mulheres valorizarem mais a espiritualidade que os homens (McCullough, Hoyt, Larson, et al., 2000, cit. in Feliciano, s.d.; Williams & Sternthal, 2007), e para que mais educação esteja positivamente relacionada com uma maior valorização da espiritualidade (Williams & Sternthal, 2007). Parece-nos, no entanto, pertinente salientar que pode ser difícil perceber quando a religiosidade constitui uma ajuda ou, por outro lado um obstáculo, para o alcançar de resultados adaptativos no processo terapêutico. Assim sendo, faz-se necessário examinar as implicações para a saúde de cada indivíduo, segundo a identificação de padrões positivos de confronto religioso, associados a um locus de controlo interno e que se pode caracterizar pela procura de apoio espiritual, perdão religioso e ligação espiritual; ou a existência de padrões negativos de confronto religioso, associados, por sua vez, a um locus de controlo externo e caracterizado por descontentamento religioso, conflitos interpessoais com outros elementos do grupo religioso, ou a atribuição da causa do problema a um castigo de Deus ou ao “demónio”. 4. Adesão Terapêutica Segundo a Organização Mundial de Saúde, “a adesão é a medida em que o comportamento da pessoa corresponde às recomendações do profissional de saúde” (WHO, 2003, cit. in Fernandes, 2009). Relativamente aos comportamentos de não adesão é importante referir que estes podem ser de dois tipos: intencionais e não intencionais. A não adesão de tipo intencional refere-se ao não seguimento deliberado, por parte do paciente, de forma a boicotar as instruções do tratamento, enquanto a não adesão de tipo não intencional, se verifica quando o paciente se esquece ou quando não tem as capacidade de seguir as instruções (Weintraub, 1990, cit. in Fernandes, 2009). www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 5 Peritia 2010, 6, 1-8 De acordo com o modelo de auto-regulação de Leventhal e colaboradores (1980, 1984, 1991, cit. in Fernandes, 2009), a decisão de seguir as recomendações de tratamento será influenciada pelas representações que o paciente tem da sua doença e subsequentemente da visão que tem acerca da adequação do tratamento. Deste modo, sendo que a adesão pode ser encarada como uma forma de coping, este modelo permite conceptualizar as decisões de saúde de uma forma dinâmica, em que as representações e os comportamentos interagem de forma activa. Uma vez que vários estudos demonstram que o conhecimento e a valorização dos sistemas de crenças dos pacientes facilitam uma melhor adesão, assim como uma melhoria dos resultados do tratamento (Giglio, 1993; Razali et al., 1998; Sperry & Sharfranske, 2004, cit. in Peres, Simão & Nasello, 2007), parecenos importante perceber como se relacionam estas variáveis em relação às crenças religiosas/espirituais. Deste modo, é importante perceber que a chave para compreender a espiritualidade de um indivíduo pressupõe a capacidade para ouvir e compreender, estando muito consciente da sua própria espiritualidade, essência e valores (Merchant, Gilbert & Moss, 2008). Tanto que a compreensão espiritual de cada indivíduo deve ser introduzida nos cuidados de saúde, de forma a assegurar que determinadas áreas da vida dos sujeitos não são ignoradas ou mal interpretadas, reconhecendo os direitos humanos de cada paciente, qualquer que seja o seu background religioso (McInroy, A., 2005, cit. in Merchant, Gilbert & Moss, 2008). Na medida em que diferentes comunidades podem ter diferentes abordagens espirituais e religiosas, é também relevante perceber qual a sua influência nos estilos de coping e nas atitudes em relação ao tratamento, sendo de extrema importância que os profissionais de saúde saibam discernir as interferências que ocorrem entre expectativas culturais conflituais e as diferenças entre problemas de saúde psicossocial, espiritual e física com a comunicação (Hussain et al., 2002, cit. in Merchant, Gilbert & Moss, 2008). Esta questão levanta uma exigência adicional, no sentido em que quanto maior for a diversidade do tecido social, mais amplo será o espectro das necessidades e das expectativas de quem a compõe, o que complexifica a capacidade de responder eficazmente às necessidades de todos (Feliciano, s.d.). Relativamente ao sistema de cuidados de saúde defendemos que é cada vez mais importante que os médicos encarem o paciente segundo uma visão holística, em que a visão da saúde/doença é feita através da integração da mente, corpo e da espiritualidade, no seu contexto familiar e comunitário (Graham, Bagley, Kilo, Spann & Bogdewic, 2004, cit. in Daaleman, 2004), tendo em conta a definição que o paciente formula sobre o seu problema e pela compreensão contextualizada do seu estilo de vida (Brody, 1992, cit. in Daaleman, 2004). www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 6 Peritia 2010, 6, 1-8 No que se refere à integração de questões religiosas/espirituais na adesão à psicoterapia, esta deve ter subjacente um conjunto de competências éticas e morais por parte do profissional, sendo implícito o profissionalismo ético e a alta qualidade de conhecimentos e habilidades para alinhar as informações reunidas ao benefício do processo terapêutico. A Associação Psiquiátrica Americana (2006, cit. in Peres, Simão & Nasello, 2007) considera, então, pertinente identificar se variáveis religiosas e espirituais são características clínicas relevantes às queixas e aos sintomas apresentados; pesquisar o papel da religião e da espiritualidade no sistema de crenças; identificar se idealizações religiosas e representações de Deus são relevantes e abordar clinicamente essa idealização; demonstrar o uso de recursos religiosos e espirituais no tratamento psicológico; utilizar procedimento de entrevista para aceder ao histórico e envolvimento com a religião e a espiritualidade; treinar intervenções apropriadas a assuntos religiosos e espirituais e estar actualizado eticamente sobre temas religiosos e espirituais na prática clínica. Consideramos ainda pertinente salientar questões directamente relacionadas com a qualidade da relação como a familiaridade, a confiança, a colaboração e ainda o respeito e a neutralidade, que fomentem uma partilha de significados, que facilite a troca de informação e o respeito pelo outro. 6. Bibliografia 1. Abdala, G. A., Rodrigues, W. G; Brasil, M. S. & Torres, A. (2009). A Religiosidade/Espiritualidade como Influência Positiva na Abstinência, Redução e/ou Abandono do Uso de Drogas. Revista das Faculdades Adventistas da Bahia, 2(3). 2. APA (2002). DSM-IV-TR: Manual de Diagnóstico e Estatística das Perturbações Mentais. Lisboa: Climepsi. 3. Azevedo, C. (1995). Historiografia Religiosa Portuguesa Contemporânea (Séc. IX-XX). Apontamentos para um guião da Bibliografia posterior a 1980. 4. Conceição, J. (1996). Espiritualidade e Religiosidade no Portugal Moderno - o agiologio lusitano do padre Jorge Cardoso. Dissertação de Mestrado em História Moderna e Contemporânea apresentada à Faculdade de Letras da Universidade do Porto. 5. Daaleman, T. (2004). Religion, Spirituality, and the Practice of Medicine. JABFP, 17(5). 6. Faria, J. & Seidl, E. (2005). Religiosidade e Enfrentamento em Contextos de Saúde e Doença. Psicologia: Reflexão e Crítica, 18(3), 381-389. 7. Feliciano, S. (s.d.). Qualidade na Saúde: Dificuldades inerentes à diversidade étnica, cultural e religiosa. Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia Sociedades Contemporâneas. 8. Fernandes, S. (2009). Preditores Psicossociais do Ajustamento à Doença e Tratamento em Mulheres com Cancro na Mama: O Papel do Estado Emocional, das Representações de Doença, do Optimismo e dos Benefícios Percebidos. Instituto de Educação e Psicologia da Universidade do Minho. 9. Hill, P.; Pargament, K.; Hood Jr., R.; Mccullough, M.; Swyers, J.; Larson, D. & Zinnbauer, B. (2000). Conceptualizing Religion and Spirituality: Points of Commonality, Points of Departure. Journal for the Theory of Social Behavior, 30(1), 0021-8308. 10. Merchant, R.; Gilbert, P. & Moss, B. (2008). Spirituality, Religion and Mental Health: A brief evidence resource. 11. Peres, J.; Simão, M. & Nasello, A. (2007). Espiritualidade, Religiosidade e Psicoterapia. Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo. Revista de Psiquiatria Clínica, 34(1), 136-145. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 7 Peritia 2010, 6, 1-8 12. Szaflarski, M.; Ritchey, P.; Leonard, A.; Mrus, J.; Peterman, A.; Ellison, C.; McCullough, M.; Tsevat, J. (2005). Modeling the Effects of Spirituality/Religion on Patients’ Perceptions of Living with HIV/AIDS. Annual Meeting of the American Sociological Association in Philadelphia, PA, USA. 13. Uchôa, E. & Vidal, J. (1994). Antropologia Médica: Elementos Conceituais e Metodológicos para uma Abordagem da Saúde e da Doença. Caderno de Saúde Pública, 10(4), 497-504. 14. Williams, D. & Sternthal, M. (2007). Spirituality, Religion and Health: evidence and research directions. Spirituality and Health, 186(10). www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 8 Peritia 2010, 6, 9-18 Relação entre o nível de leitura e o nível de inteligência geral Relationship between reading level and the level of general intelligence Catarina Lucas1, Clémence Freitas2 , Cristina Oliveira3, Manuela Machado4, Mª Isabel Monteiro5 Resumo A aquisição da linguagem é um processo complexo, nomeadamente quanto às competências de leitura e da escrita. A leitura consiste na acção de ler e conseguir perceber o significado do que está escrito, o que exige um amplo domínio do vocabulário, quer ao nível da descodificação quer ao nível da compreensão. Além disso, a leitura é um processo maturativo, na medida em que envolve a passagem por diversas etapas, enquanto que a inteligência é um conceito abstracto que tem sido alvo de uma contínua evolução. Contrariamente ao vulgarmente defendido pelo senso comum, a inteligência não está associada nem é um factor crucial na aquisição das capacidades de leitura. O presente estudo permitiu constatar, numa amostra de 26 crianças com idades compreendidas entre os 8 e os 9 anos, que não existe uma relação significativa entre o nível de inteligência e o nível de leitura, tendo sido utilizados como instrumentos as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven e o Teste de Idade de Leitura, respectivamente. No que respeita ao nível de inteligência verificaram-se valores superiores no sexo feminino comparativamente ao masculino, enquanto que, por sua vez, os rapazes apresentaram um nível de leitura superior ao das raparigas. Palavras-Chave: Leitura; Inteligência; Género. Abstract Language acquisition is a complex process, particularly in concern to the skills of reading and writing. The reading consists of the reading and to understand the meaning of what is written, which requires a broad knowledge of vocabulary, both in terms of decoding as the level of understanding. 1 Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro 3 Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro 4 Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro 5 Licenciada em Psicologia na Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro 2 www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 9 Peritia 2010, 6, 9-18 Furthermore, reading is a maturation process which involves passing through several stages, while intelligence is an abstract concept that has been the target of an ongoing evolution. Contrary to commonly advocated by common sense, intelligence is not linked to reading and is not a crucial factor in the acquisition of reading skills. In a sample of 26 children aged 8 to 9 years, this study it is said that there is no significant relationship between level of intelligence and reading level. We used as instruments the Raven's Coloured Progressive Matrices and the Test of Reading Age, respectively. Regarding the level of intelligence, we found higher values in females compared to males. On the other hand the boys had a reading level higher than girls. Keywords: Reading; Intelligence; Gender. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 10 Peritia 2010, 6, 9-18 1. Introdução A investigação tem-se frequentemente debruçado sobre a capacidade de inteligência. Contudo, a capacidade de leitura também tem merecido a atenção dos investigadores. Porém, a existência de poucos estudos que relacionem os tópicos da inteligência com o da capacidade de leitura, levou-nos à escolha deste tema para a actual investigação. A palavra “leitura” deriva do latim lexia, a qual também deriva do grego, e significa linguagem. Segundo Viana (2006), a leitura e a escrita são aprendizagens consideradas básicas e ferramentas imprescindíveis para o acesso ao conhecimento. O processo de leitura distingue-se da função da leitura, na medida em que a função da leitura é geralmente a compreensão. Neste sentido, exige processos específicos de reconhecimento e de conversão dos sinais gráficos em representações mentais, que por sua vez vão permitir a compreensão (Castro & Gomes, 2000). Morais & Kolinsky (s.d.) defendem que a aprendizagem da linguagem escrita, isto é, das aptidões de leitura e de escrita, é possível em qualquer idade. A aprendizagem da leitura envolve a passagem por diversas etapas, ligadas aos estádios do desenvolvimento, utilizando para cada uma delas diversas estratégias para gerar os dados fornecidos pelo ambiente (Oliveira, 1998). Deste modo, no sistema alfabético, a aprendizagem da leitura depende, de forma crucial, da aquisição de um processo de descodificação fonológica baseado no conhecimento explícito das correspondências entre os grafemas e os fonemas (Morais & Kolinsky, s.d.). Segundo Leffa & Lopes (2004), a definição de leitura como descodificação restringe-se a uma simples transposição do código escrito para o código oral, sendo que o que distingue o sujeito letrado do analfabeto é a capacidade do primeiro em transformar o código escrito em código oral. Na Nova Enciclopédia Portuguesa, a leitura é definida como acção de ler e conseguir perceber o significado do que está escrito. Não basta decifrar palavras para que a leitura aconteça, mais do que isso a leitura consiste na capacidade de entender um texto escrito (Leffa & Lopes, 2004). A leitura é a compreensão e apreensão de símbolos ou letras que formam uma imagem que o leitor capta. No entanto, muitas crianças experimentam dificuldades consideráveis na aprendizagem da leitura e da escrita, apesar dos esforços desenvolvidos para o contrário. Para que possamos aprender a ler e a escrever no sistema alfabético temos que primeiramente aprender que as letras correspondem aos elementos abstractos da cadeia falada e esta aprendizagem pode ser difícil, dada a co-articulação dos fonemas (Morais & Kolinsky, s.d.). A leitura exige um amplo domínio do vocabulário, quer ao nível da descodificação (que permite que a criança encontre rapidamente a forma fonológica de uma palavra escrita), quer ao nível da compreensão. Quando ocorre o desconhecimento de uma palavra que é chave ou que não é inferida a partir do contexto, a compreensão do texto pode deste modo ser comprometida. Daí que o vocabulário, www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 11 Peritia 2010, 6, 9-18 apesar de fundamental, não é suficiente visto que a criança necessita de saber as combinações possíveis e permitidas pela sua língua. Apesar de ainda não referida, a memória é também uma competência fundamental para a leitura, devido à necessidade implícita de reter informação veiculada nas frases pelo tempo necessário ao seu processamento, de modo a retirar sentido do que se está a ler (Viana, 2006). Por sua vez, a palavra inteligência derivada do latim intelligentia, é frequentemente traduzida como a faculdade de conceber, compreender e raciocinar. As definições mais antigas de inteligência definem-na como sendo a capacidade que os sujeitos têm de se adaptar às circunstâncias (Binet & Simon 1915; Paiva & Mendes, 1998); a capacidade dos indivíduos agirem premeditadamente, pensarem racionalmente e lidarem competentemente com o meio ambiente (Wechsler, 1944; Paiva & Mendes, 1998); a rapidez na transmissão da informação ao cérebro, através do sistema nervoso (Lynn 1988, cit. in Paiva & Mendes, 1998); ou ainda como a capacidade de pensar e resolver problemas (Nickersom, Perkins & Smith, 1994). Neste contexto, Byrne (1995), ao verificar que todos os organismos vivos estão adaptados aos seus ambientes particulares, considerou que se a inteligência para as espécies animais significar uma "boa adaptação ao meio" então, presumivelmente, todas as espécies são inteligentes à sua maneira. Consequentemente, o autor defende que o uso do termo inteligência deve ser restringido à qualidade da flexibilidade, que permite aos indivíduos encontrar soluções para os seus problemas. Os estudos no âmbito da inteligência foram iniciados por dois autores que, no seio da Psicologia, a definiram como “força ou poder mental” (Galton, 1869, cit. in Almeida, 1994) ou como “capacidade de apreender relações” (Spearman, 1904, cit. in Almeida, 1994). Neisser e colaboradores (1994) definiram a inteligência como uma capacidade mental bastante geral que, entre outras coisas, envolve a habilidade de raciocinar, planear, resolver problemas, pensar de forma abstracta, compreender ideias complexas, aprender rapidamente e com a experiência. Assim, não é uma mera aprendizagem literária, ou uma habilidade estritamente académica que se resume a bons resultados escolares. Muito pelo contrário, o conceito refere-se a uma capacidade mais ampla e mais profunda de compreensão do mundo à nossa volta. Os indivíduos diferem uns dos outros na capacidade de entender ideias complexas, de se adaptar com eficácia ao ambiente, de aprender com a experiência, de utilizar as várias formas de raciocínio, e de superar obstáculos através do pensamento. Embora tais diferenças individuais possam ser importantes, nunca são completamente consistentes: o desempenho intelectual de uma dada pessoa varia consoante as distintas ocasiões. Os conceitos de inteligência são tentativas de aclarar e organizar este conjunto complexo de fenómenos (Neisser et. al., 1995). www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 12 Peritia 2010, 6, 9-18 Segundo a definição da Nova Enciclopédia Larousse (Oliveira, 1998), inteligência designa a dimensão psicológica associada às capacidades e habilidades cognitivas do indivíduo. Basicamente, engloba os recursos cognitivos de percepção, de memória, de raciocínio ou de criatividade que asseguram ao indivíduo a adaptação às situações, a aprendizagem, a resolução de problemas ou ainda, a invenção de alternativas. Quanto às suas manifestações, estas podem ser avaliadas de modo qualitativo ou quantitativo, respectivamente, os estilos e os níveis de desempenho dos indivíduos em tarefas do seu quotidiano pessoal e interpessoal, nas situações escolares de aprendizagem e noutras situações, tais como nas situações formais de avaliação psicológica através de testes de inteligência. Sperman, apresentou uma teoria da inteligência conhecida como a Teoria dos Dois Factores que postula que o desempenho em qualquer medida de inteligência está relacionado com o nível de inteligência geral do indivíduo e as habilidades específicas exigidas em cada teste (Aiken, 2000; McGrew & Flanagan, 1998; Thorndike, 1997; cit. in Schelini, 2006). Deste modo, durante a resolução de um problema, dois tipos de factores estão presentes: um factor de inteligência geral (factor g) e outros factores específicos (factor s). O factor de inteligência geral está subjacente a todas as actividades intelectuais (Gardner, Kornhaber, & Wake, 1998; Sattler, 1992; cit. in Schelini, 2006) enquanto os factores específicos são relativos a uma tarefa específica (Jensen, 1994; cit. in Schelini, 2006). Assim, a inteligência é um conceito abstracto que tem sido alvo de uma contínua evolução e que depende tanto de valores sociais actuais como de ideias científicas. As definições mais recentes referem uma variedade de potencialidades mentais, que incluem a habilidade de raciocinar, planear, resolver problemas, pensar de forma abstracta, compreender ideias complexas, e aprender rapidamente com base na experiência (Strickland, 2001, cit. in Becker, s.d.). Numa definição mais completa do termo inteligência, Sternberg (2005) define-a como a habilidade de atingir objectivos na vida, dado um contexto sociocultural; acumular as forças e corrigir ou compensar as fraquezas; adaptar, formar e escolher ambientes; combinar habilidades analíticas, criativas e práticas. De facto, as definições de inteligência abundam, porém, tal como afirmou Sternberg (2000, cit. in Becker s.d.; Sabbatini, 2001), todos sabem o que é, mas poucas conseguem defini-la com alguma exactidão. Segundo Nunes, Buarque e Bryant (1992; cit. in Maia e Fonseca, 2002), certas crianças apresentam menos dificuldades ao longo do seu processo de alfabetização, o qual é muito melhor do que o esperado a partir da sua inteligência. Contudo, noutras crianças o progresso na aprendizagem da leitura é muito pior do que o esperado. Fonseca e Maia (2002), partindo de um estudo realizado, concluíram que certos alunos, por apresentarem dificuldades de aprendizagem, inabilidade motora ou défice intelectual são rotulados no sistema www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 13 Peritia 2010, 6, 9-18 educacional como deficientes mentais. Assim, as autoras propuseram-se a investigar a relação entre as capacidades cognitivas e as capacidades académicas, mais concretamente a leitura, tendo verificado que a inteligência não interfere na previsão de sucesso ou insucesso na leitura (Almeida, 1992; Machado, 1996; Patto, 1992 cit. in Fonseca & Maia, 2002). Tendo por base a revisão bibliográfica realizada, define-se como objectivo central desta investigação verificar se a inteligência influencia a leitura. Como objectivos mais concretos, pretende-se verificar se existe ou não uma relação entre o nível de inteligência e o nível de leitura, e verificar se o nível de inteligência e leitura difere entre os sexos. Neste sentido podem formular-se as seguintes hipóteses: H01: não existe relação entre o nível de inteligência e o nível de leitura. H02: não existe diferença entre os sexos quanto ao nível de leitura. H03: não existe diferença entre os sexos quanto ao nível de inteligência. 2. Método O presente estudo caracteriza-se por ser um estudo de carácter transversal, dado que os dados foram recolhidos num só momento e a nível quantitativo. 2.1. Amostra Na realização deste estudo, contou-se com a colaboração de 26 crianças do distrito de Vila Real, sendo que a amostra se divide em 11 elementos do sexo masculino e 15 do sexo feminino, estando as idades compreendidas entre os 8 e os 9 anos, apresentando uma média de idades de 8 anos e 10 meses. Os referidos elementos da amostra encontram-se a frequentar o 3º ano de ensino básico. Os participantes foram escolhidos mediante critérios previamente definidos, nomeadamente a idade. Esta amostra não é representativa da população, sendo por isso a generalização dos resultados pouco viável. 2.2. Instrumentos A operacionalização das variáveis foi realizada através da utilização de um teste que avalia o nível de leitura do participante e outro que avalia a inteligência. Mais concretamente, o Teste de Idade de Leitura (TIL) para a avaliação do nível de leitura e as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven para a avaliação do nível de inteligência. Teste de Idade de Leitura O Teste de Idade de Leitura (TIL) foi desenvolvido por Sucena (2005), que no âmbito da investigação para o seu doutoramento, encontrou uma ausência, em Portugal, de um teste estandardizado para deter- www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 14 Peritia 2010, 6, 9-18 minar a idade de leitura, criando deste modo o TIL através da adaptação do sub-teste Lobrot L3 (1973). O referido teste, podendo ser utilizado na actividade terapêutica junto de crianças com dificuldades de aprendizagem, é um teste de leitura que envolve a avaliação de dois processos cognitivos: a descodificação e a compreensão. Relativamente à sua constituição, o TIL é composto por quatro frases de ensaio e trinta e seis frases experimentais, incompletas, sendo que para cada frase há a possibilidade de cinco palavras, mas apenas uma é verdadeira e completa adequadamente a frase. A criança lê para si, ao longo de cinco minutos, frases isoladas e incompletas, devendo completar cada frase com a palavra correcta das cinco hipóteses apresentadas (Santos & Castro, 2008). Matrizes Progressivas Coloridas de Raven As Matrizes Progressivas Coloridas de Raven consistem num conjunto de tarefas não verbais destinadas a avaliar a aptidão para aprender relações entre figuras a fim de seleccionar, entre várias alternativas, a correspondente à parte da figura que falta de forma a completar correctamente cada padrão. É um teste que procura avaliar a capacidade intelectual não verbal, uma vez que não fornece uma apreciação global do comportamento intelectual mas apenas do seu aspecto lógico e não verbal (Simões, M., s.d). Os testes das Matrizes Progressivas de Raven (1938-1963) encontram-se disponíveis sobre 3 formas ou versões: Forma Geral (Standard Progressive Matrices, SPM); Forma Especial (Coloured Progressive Matrices, CPM), a qual é indicada para crianças; e a Forma Avançada (Advanced Progressive Matrices, APM). As matrizes apresentam índices de dificuldade e de discriminação, na medida em que existe uma sequência de dificuldade crescente, não devido à complexidade das figuras, mas sim às relações entre figuras as quais se tornam progressivamente mais complexas. Quanto à sua aplicação, esta pode ser de natureza individual ou colectiva sendo relativamente independente dos efeitos de aprendizagens específicas ou de determinados aspectos de natureza cultural. Concretamente, as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven, são constituídas por três séries A, Ab e B, cada uma sendo composta por 12 itens. 2.3. Procedimentos Primeiramente, estabeleceu-se contacto com a direcção da escola E.B.1 de Mateus nº1 (Vila Real), de modo a permitir a deslocação à instituição. Foram apresentados os objectivos da investigação, sendo assegurado o anonimato e a confidencialidade dos dados dos alunos. Posteriormente e após consentimento da escola para a realização da investigação, aguardou-se o consentimento dos pais quanto à aplicação dos testes aos filhos, através do preenchimento de um formulário. Foram explicados às crianças os objectivos e condições da investigação, esclarecendo eventuais dúvidas quanto ao propósito e metodologias utilizadas. Além disto, garantiu-se aos participantes o total www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 15 Peritia 2010, 6, 9-18 anonimato e a confidencialidade dos dados recolhidos, bem como a sua utilização exclusiva para fins de investigação. A aplicação do TIL foi feita distribuindo-se o instrumento pelos alunos, em simultâneo, numa duração máxima de 5 minutos. Por seu lado, as Matrizes Progressivas Coloridas de Raven foram aplicadas individualmente e os resultados registados pelas investigadoras. Para a análise estatística dos dados obtidos foi utilizada a versão 17.0 do Statistical Package for the Social Sciences (SPSS). Assim, realizou-se uma correlação entre os resultados obtidos no teste TIL com os resultados obtidos nas Matrizes Progressivas Coloridas de Raven, com a finalidade de verificar se existe relação entre as duas variáveis. Além disso, utilizaram-se dois t-test para a comparação entre o nível de leitura e o sexo e a comparação entre o nível de inteligência e o sexo. 3. Resultados A correlação realizada entre o nível de inteligência e o nível de leitura, indica que apesar de existir uma correlação positiva entre o nível de inteligência e o nível de leitura, esta não é significativa. Para se verificar a existência ou inexistência de diferenças de género procedeu-se à comparação, através de um t-test, do nível de inteligência nos rapazes e raparigas da amostra. Os resultados permitiram verificar que existe uma ligeira diferença entre os sexos, não sifnificativa, em relação ao nível de inteligência dos alunos estudados (c.f. Tabela 1). Tabela 1: Comparação do nível de inteligência entre rapazes e raparigas Raven Masculino Feminino M ±DP M±DP 30 30,8 T P -0,54 0,60 Relativamente à existência de diferenças de género ao nível de leitura (tabela 3) registou-se um nível de leitura mais elevado no sexo masculino. Porém, e apesar de bastante relevante, esta comparação também não é significativa (cf. Tabela 2). Os elementos da amostra obtiveram uma média de 30,5 pontos no teste de Raven, situando-se assim acima da média (23,96) entre os percentis 19 e 22, segundo o quadro 12.2 das normas em percentis por níveis etários (Simões, s.d., p.398). Do mesmo modo, apurou-se que os rapazes alcançaram uma média de 59,9% no teste TIL, sendo este valor acima da média e encontrando-se no 1º quartil percentual. As raparigas apresentaram uma méwww.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 16 Peritia 2010, 6, 9-18 dia de 56,4%, sendo este valor igualmente acima da média e situando-se também no 1º quartil, segundo os quadros 4 e 5 dos resultados representados em quartis percentuais (Santos & Castro, 2007, p. 94). Tabela 2: Comparação do nível de leitura entre rapazes e raparigas Til Masculino Feminino M ±DP M±DP 59,9 56,4 t P 0,47 0,64 4. Discussão/Conclusão Após a obtenção e apresentação dos resultados, conclui-se que os mesmos estão em conformidade com o estudo de Fonseca e Maia (2002) mencionado na revisão bibliográfica, o qual refere que não existe uma relação significativa entre o nível de inteligência e o nível de leitura. Pode assim dizer-se que os objectivos iniciais foram alcançados e que a Hipótese 1 foi corroborada, uma vez que os resultados obtidos não mostram uma elevada correlação entre os dois factores, concluindo-se assim que o nível de inteligência não é suficiente para predizer as aptidões de leitura. Quanto às diferenças no nível de inteligência consoante o género, verificou-se uma ligeira diferença que aponta para um nível mais elevado no sexo feminino. Enquanto que a nível das diferenças entre os sexos no TIL, apesar de não serem significativas, vão ao encontro do estudo já mencionado em que os rapazes apresentam um nível de leitura mais elevado que as raparigas. Por fim, apontámos como limitação principal deste estudo a pouca literatura existente acerca da temática, o que dificulta a comparação e discussão de resultados. Assim, na medida em que a inteligência por si só não é um factor crucial na determinação das capacidades de leitura, então estas podem dever-se a outros factores que não os abordados no estudo. É portanto necessário um estudo mais aprofundado acerca desta temática e dos factores que influenciam o nível de leitura. 5. Bibliografia 1. Almeida, L. (1994). Inteligência: definição e medida. Aveiro: Centro de Investigação, Difusão e Intervenção Educacional. 2. Becker, V. (s.d.). A problemática da definição de inteligência e a representação de fenómenos mentais em máquinas. Acedido em 12/05/2008 a partir de http://cognitio.incubadora.fapesp.br/portal/atividades/cursos/posgrad/ciencia_cognitiva/20062/trabalho-1/ValdecirBecker_T01-V1.pdf. 3. Castro, S. & Gomes, I. (2000). Dificuldades de aprendizagem da língua materna. Universidade Aberta. 4. Correia, M. (1991). Nova Enciclopédia Portuguesa (vol. 15). Lisboa: Ediclube. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 17 Peritia 2010, 6, 9-18 5. Leffa, V. & Lopes, R. (1994). Evolução do conceito de leitura em alunos da 2ª à 8ª série. Anais do IX Encontro Nacional da ANPOLL (Caxambu), 113-115. 6. Maia, A. & Fonseca, M. (2002). Quociente de Inteligência e Aquisição de Leitura: Um Estudo Correlacional. Psicologia Reflexão e Crítica, 15(2), 261-270. 7. Morais, J., & Kolinsky, R. (s.d.). As limitações cognitivas da Aprendizagem ao Longo da Vida. Revista Europeia de Formação Profissional, 8/9, 85-92. 8. Neisser, U., et al. (1996). Intelligence: Knowns and unknowns. American Psychologist, 51, 77-101. 9. Neisser, U., et al. (1995). Intelligence: Knowns and unknowns. Washington, DC: American Psychological Association. Acedido em 09/05/2008 a partir de http://www.lrainc.com/swtaboo/taboos/apa_01.html. 10. Oliveira, L. (1998). Nova Enciclopédia Larousse (vol. 13). Lisboa: Círculo de Leitores. 11. Paiva, M. & Mendes, S. (1998). Genética, Inteligência e Homossexualidade. Tese de Mestrado não publicada, Coimbra: Universidade de Coimbra. 12. Sabbatini, R. (2001). A evolução da Inteligência humana. Revista Cérebro e Mente. Acedido em 08/05/2008 a partir de http://www.cerebromente.org.br/n12/mente/evoluition/evolution.htm. 13. Santos, A., & Castro, S. (2008). Aprender a Ler e Avaliar a Leitura - O TIL: Teste de Idade de Leitura. Coimbra: Almedina. 14. Schelini, P. (2006). Teorias da inteligência fluida e cristalizada: início e evolução. Estudos de Psicologia, 11(3), 323-332. 15. Simões, M. (s.d.). Investigações no âmbito da aferição nacional do Teste das Matrizes Progressivas Coloridas de Raven (M.P.C.R). Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian. 16. Sternberg, R. (2005). The theory of successful Intelligence. Interamerican Journal of Psychology, 39(2), 189-202. 17. Sucena, A., & Castro, S. (2008). Aprender a Ler e Avaliar a Leitura. O TIL: Teste de Idade de Leitura. Coimbra: Almedina. 18. Viana, F. (2006). As Rimas e Consciência Fonológica. Conferência proferida no Encontro de Professores Intervenientes em Bibliotecas Escolares e Centros de Recursos, organizado pelo Centro de Formação Maria Borges de Medeiros (Lisboa), nos dias 4, 5 e 6 de Dezembro, subordinado ao tema “Promovendo a competência leitora”, 1-11. 19. Wober, M. (1974). Towards an understanding of the Kiganda concept of intelligence. In J. Berry & P. Dasen (Eds.), Culture andcognition: Readings in cross-cultural psychology (pp. 26 l-280). London: Methuen. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 18 Peritia 2010, 6, 19-32 A relação entre a preocupação e o perfeccionismo Inês Martins1,2 Resumo A comorbilidade entre as perturbações da personalidade com os distúrbios do eixo I é frequente. No entanto, certos aspectos característicos de cada eixo encontram-se ainda mais relacionados, como é o caso entre perfeccionismo e a preocupação, tornando-se num tema desafiante. Este artigo constitui uma revisão da literatura acerca da relação entre estes dois conceitos. No presente artigo, será feita uma análise separada da preocupação e do perfeccionismo. De seguida, será feita uma breve alusão à comorbilidade existente entre a psicopatologia do Eixo I e as Perturbações da Personalidade. De seguida, será aprofundada a relação que existe entre os constructos preocupação e perfeccionismo, salientando características comuns que permitem perceber e sustentar esta relação. Palavras-Chave: Preocupação; Perfeccionismo; Perturbação Obsessivo-Compulsiva; Perturbação da Personalidade. 1 Estagiária Voluntária do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Coimbra 2 Mestre em Psicologia Clinica e da Saúde, subespecialização em Intervenções Cognitivo-Comportamentais nas Perturbações Psicológicas e da Saúde. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 19 Peritia 2010, 6, 19-32 1. Introdução Actualmente, sabemos à partida que a comorbilidade entre as perturbações da personalidade com os distúrbios do eixo I é frequente, no entanto, certos aspectos característicos de cada eixo encontram-se ainda mais relacionados, como é o caso entre perfeccionismo e a preocupação, tornando-se num tema interessante e desafiante. Este artigo constitui uma revisão da literatura acerca da relação entre estes dois conceitos. Deste modo, incidirá, numa primeira parte, na análise da preocupação e do perfeccionismo separadamente, focando conceitos e características que se lhe encontram associados e analisando respectivamente a Perturbação da Ansiedade Generealizada (PAG) e a Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade (POCP). De seguida, será feita uma breve alusão à comorbilidade existente entre a psicopatologia do Eixo I e as Perturbações da Personalidade. Por último, será aprofundada a relação existente entre os constructos preocupação e perfeccionismo, salientando características comuns que permitem perceber e sustentar esta relação. 2. A preocupação: o caso específico da PAG A preocupação é fundamental à experiência humana, sendo comum aos indivíduos clínicos e nãoclínicos (Dugas, Gosselin & Ladoucer, 2001). Borkovec, Robinson, Pruzinsky e DePree (1983, cit. in Borkovec, 1994) procuraram definir o conceito de preocupação, tendo-a caracterizado como “uma cadeia de pensamentos e imagens carregados de afecto negativo e relativamente incontroláveis, representando uma tentativa de resolução mental de problemas acerca de um tema cujo resultado é incerto, mas que contém a possibilidade de uma ou mais consequências negativas. Por conseguinte, a preocupação relaciona-se intimamente com o processo de medo” (p.10). Mais tarde, os mesmos autores constataram que a preocupação pode ser usada como uma estratégia de coping e consiste essencialmente numa actividade verbal/conceptual, iniciada numa tentativa de controlar e evitar, não só os acontecimentos futuros, mas também a activação emocional que ocorre em resposta ao perigo percebido. Deste modo, ao impedir o processamento emocional das imagens temidas e reduzir momentaneamente a ansiedade, é reforçada como uma forma útil de lidar com os problemas (Brown, O´Leary & Barlow, 1993; Dugas & Ladoucer, 1997). Borkovec (1985, cit. in Dugas & Ladoucer, 1997) acrescentou ainda que a preocupação pode ser descrita como um diálogo interno (caracterizado por expressões distorcidas acerca da probabilidade de ocorrência de vários resultados negativos) que desencadeia uma activação emocional e leva os indivíduos a equacionar potenciais problemas quando confrontados com uma dificuldade. Assim, a preocupação constitui-se também como uma actividade disfuncional e mal-adaptativa, associada a enviesamentos nos processos cognitivos de detecção do perigo. Consequentemente, mantém activas as crenças disfuncionais, exacer- www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 20 Peritia 2010, 6, 19-32 ba a ansiedade e leva a outro tipo de pensamentos intrusivos (Brown et al., 1993). Neste contexto, Brown e colaboradores (1993) também definiram a preocupação como um “humor voltado para o futuro em que se está disposto a tentar lidar com eventos negativos” (p.139). A apreensão ansiosa está associada a um estado de afecto negativo elevado e uma sensação de incontrolabilidade, centrando-se a atenção nos estímulos relacionados com a ameaça percebida. A preocupação implica, então, uma corrente de pensamentos negativos e perda do controlo mental (Brown et al., 1993; Dugas & Ladoucer, 1997). De acordo com as definições acima mencionadas, a preocupação encontra-se associada a pensamentos sobre o risco futuro de experienciar situações aversivas e relativamente incontroláveis. Consequentemente, a preocupação patológica começou a ser encarada como um fenómeno que possivelmente contribui para a manutenção da ansiedade nas Perturbações de Ansiedade e que se estabelece como um factor central na Perturbação da Ansiedade Generalizada - PAG (Borkovec, 1994; Dugas et al., 2001). Nos indivíduos com PAG ressalta-se a preocupação ou apreensão constante em relação ao futuro que ainda não aconteceu e a tendência a interpretar as situações ambíguas como ameaçadoras e negativas (Vassey & Borkovec, 1992, cit. in Kapczinski & Margis, 2004). Para além disto, a pessoa com PAG sobrestima de forma elevada o perigo ou ameaça e tem a percepção de baixa capacidade de lidar com esse risco. Ou seja, o fenómeno de preocupação é considerado a partir de processos cognitivos envolvidos na ansiedade, que servem para manter níveis elevados de vigilância para o perigo pessoal (Mathews, 1990), pelo que os indivíduos com PAG podem viver em estados de ansiedade crónica (Millon & Davis, 1996). Assim, a ansiedade intensa e a preocupação incontrolável, além de aspectos essenciais da PAG (Kapczinski & Margis, 2004), revelam-se um factor de manutenção da mesma (Wells & Papageorgiou, 1998). Indivíduos que estão muito preocupados são peritos em descobrir problemas, mas geralmente são incapazes de encontrar soluções eficazes para os resolver (Dugas & Ladoucer, 1997). Para estes indivíduos, a preocupação serve como estratégia que os ajuda a encontrar soluções ou uma melhor maneira de resolver as situações, aumentando por isso a sua sensação de controlo. Contudo, o sujeito estará especialmente atento à informação ameaçadora, detectará um maior risco subjectivo, ou seja, sobrestimará a probabilidade de resultados negativos. Deste modo, embora o sujeito considere que a preocupação o ajuda a evitar consequências negativas improváveis, este tratamento tendencioso da informação ambiental aumentará os níveis de ansiedade e preocupação (Dugas & Ladoucer, 1997). Como vimos, os indivíduos com PAG têm frequentemente medo de eventos negativos que possam ocorrer no futuro, e a sua preocupação constante é provocada, muitas vezes por vários sinais internos e externos de acontecimentos futuros. A preocupação é, então, vista como um método de resolução de problemas, a fim de determinar acções que poderiam prevenir a ocorrência do evento (Borkovec, 1994). Porém, a www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 21 Peritia 2010, 6, 19-32 preocupação patológica revela-se o oposto de uma forma eficaz de resolver os problemas, pois acaba por impedir o encontro de soluções adaptativas. Como acontece na PAG, a preocupação patológica refere-se a cognições intrusivas que estão associadas a eventos potencialmente stressantes e que se faz acompanhar por estados de humor, como a ansiedade angustiante (Borkovec, 1994). Estudos anteriores mostram que a intolerância à incerteza também se encontra significativamente relacionada com a preocupação, e tem sido desenvolvida nos últimos modelos conceptuais da PAG (Dugas et al., 2001; Ladoucer, Talbot & Dugas, 1997). A intolerância à incerteza diz respeito à forma como o indivíduo percebe a informação em situações incertas e responde à mesma com um conjunto de reacções cognitivas, emocionais e comportamentais (Freeston, Rhéaume, Letarte, Dugas, & Ladoucer, 1994, cit. in Dugas et al., 2001). Esta intolerância à incerteza tem sido evidenciada em situações de desempenho como a realização de um exame, em que vários processos fisiológicos e cognitivos têm sido postulados como sendo fundamentais para o estado de ansiedade que interfere e dificulta o desempenho no mesmo. Aqui, a preocupação refere-se à preocupação cognitiva do desempenho e às suas consequências, concentrada na avaliação de um eventual fracasso (Deffenbacher, 1986). De facto, os estudos (Deffenbacher, 1986; Morris et al., 1981 cit. por Deffenbacher, 1986) sugerem que a preocupação contribui para níveis elevados de ansiedade em situações de desempenho. Deste modo, sujeitos altamente ansiosos parecem menos capazes cognitivamente de encontrar soluções para responder à situação e daí apresentam uma diminuição do desempenho (Deffenbacher, 1986). Neste contexto, tem sido demonstrado que nos estudantes que se preocupam excessivamente, há uma interferência na qualidade da tarefa, e portanto a preocupação relaciona-se negativamente com o desempenho alcançado (Deffenbacher, 1986). Neste sentido, verifica-se que sujeitos preocupados tendem a relatar mais pensamentos negativos que se encontram associados a condições que evidenciam perturbações comportamentais, e subsequente desempenho inferior (Metzger, Miller, Cohen, Sofka & Borkovec, 1990). Com efeito, os indivíduos com PAG frequentemente apresentam uma história de ansiedade ao longo da sua vida. Contudo, diferentes estudos demonstram que uma grande percentagem destes indivíduos não sabe informar a idade de início dos sintomas, remetendo o mesmo para a infância (Kapczinski & Margis, 2004). Segundo o DSM-IV-TR, apesar dos sujeitos com PAG nem sempre poderem classificar as suas preocupações como «excessivas», descrevem um mal-estar subjectivo devido às constantes dificuldades em controlar essas mesmas preocupações (APA, 2002). www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 22 Peritia 2010, 6, 19-32 3. O Perfeccionismo: o caso específico da POCP Ironicamente, as definições que procuram esclarecer este constructo estão longe da perfeição, descrevendo o perfeccionismo redundantemente como um traço ou característica de personalidade encontrado em pessoas perfeccionistas (Slaney & Ashby, 1996, cit. in Fedewa, Burns & Gomez, 2005). As primeiras conceptualizações descrevem o perfeccionismo como um constructo unidimensional (Burns, 1980, cit. in Shafran, Cooper & Fairburn, 2002), focado exclusivamente nas cognições auto-orientadas (factores intrapessoais), tais como as convicções irracionais ou as atitudes disfuncionais, e como tal tinham somente referências implícitas a outras dimensões (Hollender, 1965, cit. in Hewit & Flett, 1991). Em contraste, perspectivas mais recentes defendem uma natureza multidimensional (Frost, Marten, Lahart & Rosenblate, 1990; Hewitt & Flett, 1991; Stöber e Joorman, 2001), na qual contemplam componentes intra e interpessoais. Hollender (1965, cit. in Shafran & Mansell, 2001; Shafran et al., 2002) fornece uma das primeiras definições de perfeccionismo, enquanto “estratégia na qual o sujeito exige de si próprio e dos outros uma qualidade no desempenho superior àquela que é exigida pela situação” (p.94). Este autor chama a atenção para os processos cognitivos que mantêm o perfeccionismo, como a atenção selectiva, manifesta no facto do sujeito estar “constantemente atento ao que está mal e raramente reparar no que está bem; procurar tão desesperadamente pôr defeitos, que vive como se fosse um inspector colocado no fim da linha de produção; a pessoa perfeccionista vê-se julgada pelo que faz e não pelo que é” (p.95). O medo do fracasso pode motivar os componentes comportamentais do perfeccionismo que visam ajudar a pessoa a encontrar o seu padrão desproporcionado (Shafran & Mansell, 2001). Em consequência da necessidade que os indivíduos sentem de actuarem de acordo com estes mesmos padrões, o perfeccionismo acaba por ter efeitos negativos no desempenho, e por conseguinte, afastá-los dos seus objectivos. Segundo Frost e colaboradores (1990), o termo perfeccionismo refere-se ao “desejo de atingir os mais altos padrões de desempenho, em combinação com avaliações excessivamente críticas desse desempenho” (p.450). Indivíduos perfeccionistas são pessoas que acreditam que podem e devem atingir um desempenho perfeito e que por isso tendem a permanecer insatisfeitas com o seu desempenho, que consistentemente são incapazes de cumprir (Antony, Purdon, Huta & Swinson, 1998). Frost e colaboradores (1990), através de uma revisão da literatura relativa ao perfeccionismo, salientam a hipótese do perfeccionismo ser composto por seis dimensões: (a) tendência para os sujeitos se preocuparem e reagirem negativamente a erros, dado que errar corresponde ao fracasso; (b) tendência em duvidar da qualidade de um desempenho, ou seja, dúvidas sobre as acções; (c) tendência para definir padrões muito elevados e dar uma importância excessiva a estes na auto-avaliação; (d) tendência para perceber os seus pais como tendo www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 23 Peritia 2010, 6, 19-32 grandes expectativas; (e) tendência para perceber os pais como sendo excessivamente críticos; (f) tendência para enfatizar a importância da ordem e da organização. Também, Hewitt e Flett (1991) definem o perfeccionismo como um conceito multidimensional, desenvolvendo um modelo que distingue três dimensões primárias, cuja diferença principal reside não no padrão de comportamento em si, mas no objecto para o qual é dirigido ou a quem é atribuído o comportamento perfeccionista. As três dimensões consideradas pelos autores dizem respeito ao perfeccionismo auto-orientado, perfeccionismo orientado para os outros e o perfeccionismo socialmente prescrito. O perfeccionismo auto-orientado diz respeito à tendência para estabelecer para si próprio normas rigorosas e padrões de desempenho excessivos e exigentes, irrealistamente elevados e, muitas vezes, impossíveis de cumprir. Estes padrões são auto-impostos e tendem a estar associados a um marcado auto-criticismo e a uma incapacidade para aceitar os seus próprios erros. É ainda característico destes indivíduos as auto-avaliações pautadas pela tendência para uma atenção selectiva aos erros e para a sobregeneralização dos mesmos. O pensamento dicotómico, no qual só existem dois resultados possíveis para a acção – êxito total ou completo fracasso – tem um papel central na auto-avaliação negativa característica neste estilo de pensamento. Os autores referem ainda que este tipo de perfeccionismo inclui um componente motivacional que se traduz pela procura de perfeição e pelo evitamento do insucesso (O’Connor, Rasmussen & Hawton, 2009). O perfeccionismo orientado para os outros envolve as crenças e expectativas relativas às capacidades das outras pessoas, para as quais o indivíduo estabelece normas irrealistas, exigindo que cumpram os padrões elevados que o próprio sustenta. O perfeccionismo orientado para os outros consiste numa tendência interpessoal estável para exigir a perfeição dos outros e para agir para com eles de modo punitivo e hostil. Consequentemente, a relevância desta dimensão para as relações interpessoais é óbvia na medida em que pode estar na base de stress e conflitos interpessoais, associando-se a uma tendência passiva de deteriorar as relações (Flett, Hewitt, Shapiro & Rayman, 2002). O perfeccionismo socialmente prescrito relaciona-se com a crença de que os outros têm expectativas relativamente ao próprio que são impossíveis de concretizar, que o avaliam de forma demasiado exigente e exercem pressão para que seja perfeito. Por sua vez, o sujeito acredita que estas expectativas e padrões impostos pelos outros devem impreterivelmente ser cumpridos sob pena de não obter aprovação daqueles. Desta forma, o indivíduo percepciona uma necessidade de se conformar às normas e expectativas prescritas por outros significativos. Contudo, é também característico o uso de mecanismos de coping maladaptativos, os quais reflectem um sentimento geral de desânimo e abandono que deriva da percepção de www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 24 Peritia 2010, 6, 19-32 que é demasiado difícil obter a aprovação dos outros, uma vez que é impossível ser-se perfeito (Hewitt & Flett, 1991). Segundo Hamachek (1978, cit. in Shafran et al., 2002) os sujeitos perfeccionistas impõem para si próprios níveis tão elevados de performance que acabam por não os conseguir atingir, levando a que não se sintam bem consigo mesmos. A sua motivação para essa imposição de níveis de desempenho elevados encontra-se relacionada com um enorme medo de falhar. Neste sentido, Shafran e colaboradores (2002) concluem que "a psicopatologia do núcleo de perfeccionismo é expressa como um medo mórbido de fracasso e incansável busca do sucesso" (p.779). Assim, o medo de falhar é frequentemente citado como a principal motivação subjacente ao perfeccionismo, sendo visto como uma tendência para avaliar a ameaça e sentir-se ansioso em situações que envolvem a possibilidade de fracassar (Conroy, Kaye & Fifer, 2007). No que diz respeito à natureza do perfeccionismo são vários os autores que afirmam estar relacionada com um padrão familiar pautado pela rigidez, em que os pais se caracterizam por serem excessivamente controladores, conformados, perfeccionistas e exigentes, não empáticos e desaprovadores de expressões de afecto, transmitindo um elevado sentido de responsabilidade (Millon, 1981; Adams, 1973, cit. in Beck, Freeman & Cols, 1990; Frost, Lahart, & Rosenable 1991, cit. in Shafran & Mansell, 2001). No futuro, os sujeitos criados neste ambiente tendem a invocar regras familiares e comportamentos passados em situações semelhantes para estabelecer o que é o “dever” em determinada situação, agindo em conformidade (Beck et al., 1990). A literatura é consistente em afirmar que o perfeccionismo parece desempenhar um papel importante na etiologia, manutenção e evolução de certos estados psicopatológicos (Shafran et al., 2002; Sherry, Hewitt, Flett, Lee-Baggley & Hall, 2007; Frost, et al., 1990). De facto, tem sido sobretudo associado à Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade (POCP), onde os padrões elevados de perfeccionismo podem causar uma disfunção significativa na performance e subsequente sofrimento (Shafran & Mansell, 2001; Sherry, et al., 2007). A necessidade de perfeição destes indivíduos leva a uma indisponibilidade para correr riscos, indecisões, procrastinação (de modo a não cometer erros), rigidez e desconforto com a sua vida emocional, que é vivenciada como estando fora do seu controlo consciente. Muitos obsessivos preocupam-se continuamente e ruminam acerca do seu desempenho e da possibilidade de falhar no futuro e a ideia de serem imperfeitos gera ansiedade. Se estes indivíduos não conseguem fazer o que, de acordo com os seus estritos padrões internalizados e um pensamento absolutista e moralista, seria o seu dever, sentem culpa e auto-criticismo (Beck, et al., 1990). Consequentemente, o indivíduo pode optar por aumentar ainda mais o seu padrão o que pode também levar a outras consequências negativas tais como fadiga, falta de concentração, irritabilidade e tensão muscular (Shafran & Mansell, 2001). www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 25 Peritia 2010, 6, 19-32 4. Comorbilidade entre Perturbações da Personalidade e psicopatologia do Eixo I: a relação entre a Preocupação e o Perfeccionismo É vasta a literatura que considera a elevada comorbilidade entre as Perturbações da Personalidade constituintes do Eixo II e a psicopatologia pertencente ao Eixo I, segundo os critérios de diagnóstico definidos pelo DSM-IV-TR (Widiger & Shea, 1991, cit. in Rijo, 2000; Tyrer, 1995, cit. in Rijo, 2000; Millon et al., 1996, cit. in Rijo, 2000). No entanto, apesar desta elevada taxa de comorbilidade, a questão da causalidade (patologias do Eixo I conduzindo a distúrbios da personalidade ou vice-versa) está ainda por averiguar (Rijo, 2000). Neste contexto, Millon e Davis (1996) sintetizam em quatro os vários modelos explicativos das possíveis relações entre as perturbações da personalidade e os distúrbios do Eixo I, sendo eles: o modelo da vulnerabilidade, o modelo da complicação, o modelo patoplástico e o modelo do espectro. De acordo com o modelo da vulnerabilidade, as Perturbações da Personalidade contribuem para tornar o indivíduo mais predisposto para o desenvolvimento de um distúrbio do Eixo I. Isto acontece sobretudo quando os recursos de coping estão limitados ou empobrecidos devido à presença da perturbação da personalidade, podendo aumentar grandemente a probabilidade do indivíduo desenvolver um distúrbio do Eixo I, como, por exemplo, uma perturbação depressiva ou ansiosa. No modelo da complicação, inverte-se a relação de causalidade anterior, ou seja, será o distúrbio do Eixo I que gera uma predisposição para mudanças na personalidade. O facto de um sujeito ter conhecimento do seu problema emocional, por exemplo, pode levar a alterações do seu auto-conceito, expectativas de auto-eficácia, e consequentemente, proporcionar uma mudança ao nível da personalidade (Millon & Davis, 1996). O modelo do espectro, contrariamente aos dois anteriores, conceptualiza as Perturbações da Personalidade e os distúrbios do Eixo I como diferentes pontos de um continuum, emergindo ambos de uma terceira variável e, portanto, possuindo uma natureza comum (Millon & Davis, 1996). Em contraste com os três modelos anteriores, o modelo patoplástico defende que a personalidade influencia o curso dos distúrbios do Eixo I porém, por si só, não predispõe para o desenvolvimento dos mesmos, ou seja, o início de um qualquer distúrbio do Eixo I é independente da personalidade do indivíduo (Millon & Davis, 1996). Também Young (1990, 1999 cit. in Young, Klosko & Weishaar, 2003), considera a relação entre a patologia da personalidade e a psicopatologia do Eixo I, acrescentando que os Esquemas Precoces Mal-adaptativos (EMP) e as formas desadaptativas com que os indivíduos aprendem a enfrentá-los estão, inúmeras vezes, por detrás de sintomas crónicos do Eixo I. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 26 Peritia 2010, 6, 19-32 Perante a elevada comorbilidade entre as Perturbações da Personalidade e os distúrbios do Eixo I, considera-se também a comorbilidade entre a Perturbação Obsessivo-compulsiva da Personalidade e os distúrbios ansiosos, como a PAG. Neste contexto, evidências preliminares sugerem que a PAG tem uma apresentação mais desenvolvimental e, portanto, começa a ser concebida no contexto de um transtorno de personalidade (Sanderson & Wetzler, 1991, cit. in Brown et al., 1993). O perfeccionismo tem sido frequentemente associado com a psicopatologia, sendo tipicamente visto em conjunto com um transtorno do Eixo I ou Eixo II e raramente apresentado como um problema clínico isolado (Shafran et al., 2002). No entanto, os pacientes com POCP raramente procuram ajuda pela sua perturbação da personalidade, embora por vezes tenham consciência de que certos aspectos da sua personalidade, tais como serem muito perfeccionistas, contribuem para os seus problemas psicológicos. De facto, o problema mais comummente apresentado pelas pessoas com esta perturbação é de alguma forma a ansiedade. O seu perfeccionismo, o sentido de responsabilidade, a rigidez, e o contínuo basear-se no “dever” para agir predispõem-nos a experimentar a crónica e leve ansiedade características de uma PAG (Beck et al., 1990). MacLeod, Williams & Bekerian (1991, cit. in Borckovec, 1994) definem a preocupação como “um fenómeno cognitivo, onde o sujeito está preocupado com os eventos futuros, onde há incerteza sobre o resultado futuro, sendo acompanhada de pensamentos negativos e sentimentos de ansiedade” (p. 478). Por outro lado, os perfeccionistas frequentemente estão preocupados com falhas no seu próprio desempenho, preocupando-se com acontecimentos futuros onde possa existir a possibilidade de falhar (Hollender, 1965, cit. in Onwuegbuzie & Daley, 1999), o que parece expressar, de alguma forma, a relação entre a preocupação e o perfeccionismo. De facto, tem-se verificado que o perfeccionismo está muito relacionado com as perturbações da ansiedade, principalmente com Perturbação de Pânico, Fobia Social e Perturbação Obsessivo-Compulsiva, encontrando-se associado ao desenvolvimento e manutenção destas perturbações (Antony et al., 1998; Shafran & Mansell, 2001; Onwuegbuzie & Daley, 1999; Mor, Day, Flett & Hewitt, 1995). Por outro lado, também os sujeitos com Perturbações da Ansiedade, incluindo a PAG, têm maior probabilidade de preencherem critérios para a Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade (APA, 2002). Segundo o DSMIV-TR, os doentes com PAG, nomeadamente as crianças, podem ser excessivamente conformistas e perfeccionistas, tendendo a executar a mesma tarefa várias vezes devido à insatisfação excessiva com o seu desempenho que não consideram perfeito, características estas centrais na POCP. Deste modo, verificamos que a causalidade entre a PAG e a POCP não é clara, sendo que a primeira pode levar ao surgimento da POCP, ou vice-versa. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 27 Peritia 2010, 6, 19-32 Ainda neste contexto, Young et al., (2003) afirmam que os doentes com POCP caracterizam-se por uma preocupação e apreensão elevadas, sobretudo ao nível do seu desempenho e controlo de situações futuras ameaçadoras, fazendo muitos esforços para evitar qualquer resultado negativo possível, como seja cometer erros. Por outro lado, como vimos, os sujeitos com PAG caracterizam-se por apresentarem sintomas de ansiedade e preocupação crónicos, experimentando uma falta de controlo sobre os mesmos. Para além disso, o falhanço inevitável ao sujeito perfeccionista leva-o a considerá-lo como um fracasso pessoal, diminuindo a sua auto-estima e deixando-o bastante ansioso, uma vez que se sente responsável pelas consequências negativas (Shafran & Mansell, 2001; Flett, Hewitt, Endler & Tassone, 1995). Note-se que, em alguns sujeitos perfeccionistas, as suas preocupações centram-se no medo do fracasso pessoal e interpessoal, preocupando-se com as possibilidades negativas, erros e equívocos potenciais e fracassos, antecipando, frequentemente, acontecimentos negativos futuros (Dugas & Ladoucer, 1997). Assim, os sujeitos perfeccionistas mantêm elevadas preocupações baseadas no medo de falhar, uma vez que o erro é observado como catastrófico e como significado de fracasso pessoal. Neste sentido, ao considerar que fracassou, o sujeito sente responsabilidade e culpa sobre o acontecimento, ficando ansioso, e existindo, subsequentemente, uma diminuição da auto-estima, bem como a diminuição da sensação de controlo sobre as situações que considera ameaçadoras (Dugas & Ladoucer, 1997). Dito de outro modo, os sujeitos perfeccionistas colocam para si mesmos objectivos bastante elevados e exigentes, e mantêm uma atitude crítica face a si mesmos, que diminui a probabilidade de concretizarem esses mesmos objectivos. Por outro lado, preservam igualmente uma pressão constante para atingirem a perfeição, conduzindo a atitudes autocríticas e a sentimentos de responsabilidade elevados, o que resulta numa baixa auto-estima. Este comportamento pode, ainda, conduzir à ansiedade, surgindo a preocupação como mecanismo de coping baseado na crença de um maior controlo sob as falhas (Shafran & Mansell, 2001). Deste modo, o perfeccionismo encontra-se associado ao aumento dos níveis de ansiedadeestado, sendo que a preocupação surge como um componente cognitivo que facilita o controlo das situações futuras encaradas como possíveis falhas. No seguimento, muitos estudos têm então demonstrado a relação entre o perfeccionismo e a preocupação (Flett et al., 1995; Mor et al., 1995; Onwuegbuzie & Daley, 1999; Shafran & Mansell, 2001). A associação obtida entre o perfeccionismo e a preocupação é consistente com observações recentes em que o perfeccionismo tem uma componente cognitiva baseada na tendência a reflectir sobre as falhas reais ou possíveis, envolvendo o cumprimento das normas. Por sua vez, estas reflexões sobre as possíveis falhas para atingir os padrões de desempenho podem ser especialmente importantes por aumentarem a relevância dessas normas. Por outro lado, os resultados indicam que os perfeccionistas são caracterizados não só por www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 28 Peritia 2010, 6, 19-32 se preocuparem com a possibilidade de fracasso, mas também podem sofrer consequências negativas ao nível somático face à exposição prolongada a elevados níveis de ansiedade e preocupação (Flett et al., 1995). Embora as preocupações sobre ser imperfeito em apenas um domínio de vida possa ser muito angustiante para os indivíduos, acredita-se que a disfunção é ainda maior entre as pessoas que procuram a perfeição em vários domínios (Hewitt, Flett, Besser, Sherry & McGee, 2003). Em particular, os indivíduos com níveis elevados de perfeccionismo tendem a sofrer uma série de dificuldades relacionadas a uma maior preocupação com a possibilidade de fracasso (Flett et al., 1995). De facto, qualquer falha percebida nos seus resultados relevantes leva à auto-crítica e mantém uma visão negativa de si mesmos. Porém na tentativa de evitar isso mesmo, preocupam-se excessivamente com os erros futuros, considerando que desta forma o seu controlo sob as situações consideradas ameaçadoras aumenta (Shafran et al., 2002). Neste sentido, a relação entre o perfeccionismo e a preocupação tem sido bem marcada ao nível dos exames, uma vez que os indivíduos perfeccionistas preocupam-se com as manifestações ostensivas de imperfeição, e, portanto, em não falhar, fracassar (Hewitt et al., 2003). Assim, verificou-se que pessoas perfeccionistas apresentam taxas de preocupação e ansiedade elevadas perante situações de desempenho, o que interfere com a própria tarefa, aumentando a probabilidade de falhar, gerando cada vez mais ansiedade e preocupação. Consequentemente, os seus padrões perfeccionistas, levam cada vez mais a auto-críticas e a previsões catastróficas de fracasso pessoal (Deffenbacher, 1986). Ainda neste contexto, outros autores têm verificado que os perfeccionistas, perante uma situação de teste, têm baixos níveis de confiança no seu desempenho, apresentam preocupação e medo de falhar e antecipam o fracasso considerando as consequências das suas falhas. Perante isto, a sua preocupação e ansiedade leva a uma diminuição do desempenho, dada a interferência cognitiva induzida por altos níveis de auto-consciência (Morris et al., 1981 cit. in Cassady, & Johnson, 2002; Deffenbacher & Hazaleus, 1985). De facto, verificou-se que a preocupação é a principal fonte de interferência no desempenho de um teste levando, por sua vez, à auto-crítica nos sujeitos perfeccionistas (Deffenbacher & Hazaleus, 1985). A intolerância à incerteza também se destaca como uma característica comum ao perfeccionismo e à preocupação. Num estudo efectuado por Dugas e colaboradores (2001), ficou comprovado que a intolerância à incerteza está especificamente associada com a preocupação excessiva e incontrolável. Por outro lado, a intolerância à incerteza foi também investigada nos sujeitos perfeccionistas, concluindo-se que estes acabam por considerar que, ao preocuparem-se, conseguirão uma sensação de controlo dos acontecimentos futuros, como um sucesso bastante maior (Moulding & Kyrios, 2005). Tem-se igualmente verificado que o perfeccionismo tem interferência nas relações amorosas, levando a uma ansiedade no que diz respeito ao namoro (Fedewa et al., 2005). Esta ansiedade passa por uma www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 29 Peritia 2010, 6, 19-32 preocupação obsessiva em relação ao/à companheiro/a, vincada no medo de poder falhar com ele/a. Os resultados de actuais investigações indicam, então, que as cognições características do perfeccionismo estão associadas a uma preocupação cognitiva com o/a parceiro/a que, juntamente com uma insegurança em relação aos sentimentos do/a companheiro/a, conduz a um estado de auto-fócus, mais preocupação e ansiedade (Feeney, 1998 cit. in Flett et al., 2002; Flett et al., 2002). Como averiguámos, a investigação propõe uma relação entre a preocupação e o perfeccionismo (O’Connor et al., 2009; Ströber & Joormann, 2001), assim como a preocupação associada a traços obsessivos da personalidade (Wells & Papageorgiou, 1998). A base desta relação encontra-se na preocupação com os erros e nas dúvidas sobre a acção, preocupação com as situações onde possa falhar, preocupação com o insucesso, preocupação relacionada com o não mostrar a imperfeição para não serem criticados, preocupação com o estabelecimento de padrões elevados, e preocupação com ameaça sobre possíveis eventos futuros negativos (Ströber & Joormann, 2001). Em suma, verificámos uma relação elevada entre o perfeccionismo e a preocupação, analisando a um nível mais breve a relação entre a Perturbação Obsessivo-Compulsiva da Personalidade com a Perturbação da Ansiedade Generalizada. Neste contexto, evidenciou-se que a preocupação excessiva característica da PAG poderá estar relacionada com o perfeccionismo característico da POCP. Desta forma, concluímos que, de facto, a comorbilidade entre estas duas perturbações mentais parece existir, embora não tão fortemente como entre outras perturbações. Contudo, há autores que consideram que, apesar de todos os estudos realizados nesta temática e de todas as conclusões acima referidas, o papel de perfeccionismo na PAG, PTSD (Perturbação do Pós-Stress Traumático) e distúrbios psicóticos está ainda a ser investigado (Shafran & Mansell, 2001). 5. Referências Bibliográficas 1. American Psychiatric Association (2002). Manual de diagnóstico e estatística das perturbações mentais. Lisboa: Climepsi. 2. Antony, M.; Purdon, C.; Huta, V. & Swinson, R. (1998). Dimensions of perfectionism across the anxiety disorders. Behaviour Research and Therapy, 36, 1143-1154. 3. Beck, A.; Freeman, A. et al. (1990). Cognitive therapy of personality disorders (pp.239-256). New York: Guilford Press. 4. Borkovec, T. (1994). The nature, functions and origins of worry. In G. Davey & F. Tallis (Eds.), Worrying: Perspectives on Theory, Assessment and Treatment (pp.5-33). New York: Wiley. 5. Brown, T. A., O’Leary, T. A., & Barlow, D. H. (1993). 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Vera Raposo por todo o apoio, incentivo e oportunidade, pelos importantíssimos ensinamentos, e pela disponibilidade e colaboração neste trabalho!”. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 32 1 Testemunho Ricardo Este testemunho faz todo o sentido para mim porque acho que é com a experiência de cada um e com os nossos próprios erros que se aprende, por vezes a muito custo. Falo por mim, pois já são muitos erros e muitas atrocidades cometidos à minha própria vida. Desde muito novo (no ensino secundário), começaram as minhas experiências com o álcool e, logo a seguir, os primeiros charros. E, a partir daqui, foi uma grande avalanche na minha vida, um declínio louco para os lados obscuros e tão recriminados pela sociedade. Antes de entrarmos para as aulas, íamos para um café mesmo ao lado do liceu onde, às oito da manhã, começávamos logo a beber traçadinhos (bagaço com aniz) ou imperiais. Para nós, era o maior orgulho ver quantos copos conseguíamos beber. Desta forma, já íamos de todo para a primeira aula, mas continuávamos a beber ainda mais nos intervalos, de garrafas que trazíamos de casa. Disto ao primeiro charro foi um ápice. Sempre tive orgulho de andar com pessoal mais velho e, de entre os putos, eu sentia que era o melhor porque estava integrado no grupo dos mais velhos. Aos poucos, fui deixando de beber tanto e passei a fumar cada vez mais charros. Reprovei 4 anos no 7º ano, por faltas, tendo sido expulso da escola. Acabei por desistir da mesma, aos 13 anos, ainda com o 7º incompleto, e comecei a trabalhar. Infelizmente, sempre fui aberto a novas experiências e, certo dia, em casa de amigos, lá apareceu o cavalo. Engraçado que nenhum deles me queria deixar experimentar, porque sabiam ao que aquilo levava. Contudo, a muito custo, lá os consegui convencer a deixarem-me dar uns bafos naquilo… Foi uma experiência única! Uma sensação de bem-estar, apesar de durante muito tempo não ter voltado a consumir desta substância. Mas houve um dia em que procurava haxixe, que só conseguia encontrar heroína. Pensei: “bem é só mais uma vez e não será assim tão degradante como dizem”. PURA MENTIRA! Desde aí, tinha eu 15 anos, foram 4 anos de vício, de ressaca e consumo e, inclusivé, de outras drogas como a cocaína e ácidos. Fugi de casa várias vezes e, como sempre, trabalhava (na construção civil) e até ganhava bastante bem, só para comprar coca e heroína às gramas. O meu pai chegou a apanhar-me com o tubo na boca de madrugada e começou a espancar-me. No entanto, não sei bem como, consegui escapar e fui refugiar-me na casa do meu dealer, a quem comprava as doses quando se acabava o que trazia de Lisboa. De facto, acho que ir trabalhar para Lisboa, ainda por cima ao lado do Casal Ventoso e do Intendente, piorou ainda mais a minha situação. Arranjava sempre uma www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 2 desculpa para ir buscar mais, nem que fosse a meio do trabalho e, infelizmente, por lá não faltavam supermercados. Aos 18 anos, comecei a olhar para aqueles amigos, que na verdade tinham tudo (carta, carro e acima de tudo, dignidade), e eu, que ganhava bem mais que eles, tinha apenas o seu desprezo por me ter tornado naquilo que me tornei: um agarrado. Assim, decidi pôr um ponto final naquilo e tive uma conversa com o meu pai (coisa que poucas vezes aconteceu porque eu e o meu pai não conversávamos) e, para minha surpresa, ele ficou do meu lado. Desta forma, o meu pai acompanhou-me ao Sobral Cid, a Coimbra, onde fui a uma consulta e comecei a ser tratado. Fiz o tratamento em casa, à base de medicação e acompanhamento médico e psiquiátrico. Em menos de um ano, ganhei muita coisa. Tirei carta, comprei carro e, o mais importante, conquistei o respeito que tinha perdido da minha família e amigos. Ganhei uma nova vida. Durante muito tempo nem álcool bebi. Contudo, por auto-recriação, deixei de tomar a medicação, pensando que já não precisava, e comecei a beber uns copos. Isto é mais um grandessíssimo erro. De vez em quando, comecei a apanhar umas grandes bebedeiras e, com isto, fui substituindo uma droga por outra. O alcoolismo é uma coisa difícil de se admitir e de se perceber que o é. Mas eu achava que nem bebia muito, até que a minha namorada, com quem namorava há quase 6 anos, me deixou. Custou-me a aceitar e a perceber porque é que agora que estava a recuperar, ela me quis deixar. Consequentemente, passei 3 meses da minha vida a sofrer e a beber todos os dias, pois sentia-me revoltado e frustrado. Entretanto, num dia de Verão e aos 20 anos, conheci um grande amor da minha vida. Foi um ano e meio muito bom para mim e sem consumos. Contudo, e apesar de me sentir bem com ela, eu era o que ela queria que eu fosse, e não quem eu era verdadeiramente. Assim, quando decidi voltar a ser eu em algumas coisas, comecei a ficar mais distante, a beber mais frequentemente e a passar mais tempo com os velhos amigos. Ela começou a desgostar deste meu novo eu, sobretudo devido ao consumo de álcool, e acabámos por decidir interromper a relação. Todavia, em vez de lhe dar espaço e tempo, ligava-lhe com altas bebedeiras, ia ter com ela completamente bêbado (o que quase me causou dois acidentes de carro) e, uma das vezes, dei até um murro num vidro (cortando-me e sangrando bastante). Não nos reconciliámos e o tempo foi passando, com o consumo de álcool sempre presente. Entretanto, também me comecei a envolver com várias mulheres. Isto até ao dia em que em que, aos 22 anos, conheci mais uma mulher que fez mudar a minha vida, apesar de a nossa história ter sido bem mais complicada e ter sido um amor atribulado. O nosso amor não foi bem aceite pelo nosso grupo de amigos e eu deixei o meu trabalho e o sítio onde vivia para ir viver com ela para uma cidade nova. Contudo, com ela, o álcool sempre me acompanhou. Bebia mais ou menos de forma controlada, mas era óbvio que havia dias de grandes bebedeiras. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 3 Entretanto, fiquei sem trabalho e vi-me obrigado voltar para casa dos meus pais. Tornei a ir trabalhar para Lisboa e, mais uma vez, fui para uma zona crítica onde o tráfico de droga era ali feito. Um dos rapazes que trabalhava comigo era consumidor. Consequentemente, a recaída nas drogas foi um ápice e comecei mais uma vez a afastar-me da pessoa que amava. Tornei a viciar-me na heroína e na coca e vinha cada vez menos a casa, para ficar ali a matar o vício. A minha namorada sabia dos meus consumos, aguentou várias ressacas e encobriu-me várias vezes para eu poder comprar a minha dose. Apercebi-me, aos 24 anos, que, mais uma vez, precisava de ajuda para sair daquilo, pelo que me dirigi ao CAT, de São Bernardo, onde fiz tratamento em regime ambulatório e fui a algumas consultas psiquiátricas. Assim, voltei a deixar os consumos. Mas, mais uma vez, também acabei por deixar a medicação por achar novamente que já não precisava de a continuar a tomar. Continuei no mesmo sítio, com os amigos do costume e, aos poucos, fui substituindo a droga por outra droga (o álcool) e o meu relacionamento amoroso foi-se deteriorando. Até que, fruto de uma relação sem sentido e de uma noite basicamente de sexo com uma rapariga ainda menor, nasceu o meu filho. A minha relação amorosa terminou de vez e fui viver com a mãe do meu filho. Apesar de tudo, sentia-me muito feliz por ser pai, algo que sempre quis ser e pensei que este meu novo papel fosse o factor decisivo para eu, aos 25, mudar de vida. Mas a felicidade durou muito pouco tempo. Começámos a discutir por tudo e por nada e eu sentia-me cada vez pior, refugiando-me no álcool. Assim, ficava muito tempo nos cafés para não ir para casa, para que não houvessem discussões, uma vez que por vezes chegavam à agressão física mútua. Nesta altura, o consumo de álcool passou então a ser diário e abusivo. Chegámos mesmo a ter de mudar de casa algumas vezes porque os vizinhos não aguentavam o barulho e, inclusive, tiveram de chamar a polícia. A mãe do meu filho, além de não trabalhar, também não arrumava nem limpava a casa, sendo eu que, muitas vezes depois do trabalho, ainda tinha que ir cozinhar e lavar a louça. Quando o meu filho tinha 6 meses, a minha mãe sugeriu ficar a tomar conta dele, o que foi prontamente aceite e encarado como um alívio pela mãe. Apesar de ser o melhor para o menino, para mim foi uma grande desilusão. Dois anos depois, ainda a viver com a mãe do meu filho, surgiu a oportunidade de ir trabalhar para a Alemanha. Pensei que o dinheiro que ia ganhar lá fora seria determinante para melhorar as nossas vidas. Mais uma vez estava enganado. Os consumos continuaram, uma vez que a bebida era o meu refúgio. Sentia um enorme desespero cá dentro, por tudo e mais alguma coisa, e a angústia era imensa. Por estar longe, por não ter o meu filho, por ter perdido mulheres com as quais poderia ter sido feliz. O álcool, aos poucos e sem eu dar por isso, passou a ser um hábito quotidiano e já não me sentia bem se saísse e não bebesse. Entretanto, regressei a Portugal, terminei a relação com a mãe do meu filho, e este continuou com os meus pais. Fui arranjando trabalho aqui e acolá, mas não me aguentava muito tempo, até porque faltava muito devido às bebedeiras que apanhava e na manhã seguinte não me conseguia levantar. Cheguei a um www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 4 ponto em que já não passava sem o álcool, porque sem beber já não conseguia fazer nada. Já tinha tremores, enjoos e irritava-me muito facilmente. Bebia tudo o que aparecesse e bebia até me sentir alcoolizado, pois para mim esse já era o meu estado normal. Decidi pedir ajuda à minha médica de família e fui a uma consulta de alcoologia no Centro de Saúde de Aveiro. Fiz o tratamento ambulatório e estive 3 meses sem beber. Mas sempre consumi cerveja sem álcool, o que é um enorme erro, porque só nos andamos a enganar a nós mesmos. Portanto, não demorou muito até começar a beber novamente e aí comecei a beber mesmo de tudo e em grandes quantidades. Chegava a beber 6 a 8 copos de vinho do Porto até ir trabalhar. Tive, ainda, o azar de ir trabalhar para uma empresa de distribuição de bebidas o que piorou cada vez mais a minha situação. Ainda por cima, o meu colega de trabalho também era alcoólico. E digo também, porque aqui já me considerava um. Sofria imenso por me ter tornado na pessoa que estava a ser. Conheci uma rapariga com quem ainda namorei um ano e meio e que, não sei como, tanto aguentou. Fazia tudo por só mais um copo. Parava em todos os tascos para beber, comprava às garrafas ou garrafões de vinho para ter em casa e cheguei muitas vezes a ir buscar garrafões de vinho a casa dos meus pais sem eles saberem. Não me sentia bem enquanto não estivesse mesmo embriagado; acordava a meio da noite e bebia fosse o que fosse; saía de casa às 6 da manhã para ir beber no primeiro tasco que abrisse. Até beber o primeiro copo eu tremia imenso e sentia vómitos. Quando não tinha dinheiro, bebia apenas bagaço (por ser o mais barato e o que fazia efeito mais rapidamente). Não conseguia comer nada, só beber. E sentia uma revolta enorme por já não conseguir passar sem o álcool. Sentia-me a morrer aos poucos, até que a minha avó me propôs uma consulta no CARDA (Centro de Alcoólicos Recuperados do Distrito de Aveiro), o que aceitei de bom grado porque já não me suportava e tinha raiva e ódio de mim. Do CARDA fui enviado para o Sobral Cid onde me foi proposto um internamento para deixar de beber. No entanto, fiquei em lista de espera e continuei a beber até ser internado passado 2 semanas, no dia 7 de Setembro de 2009. Embora com grande vontade e determinação em deixar o álcool, também ia com um certo nervosismo por não saber que tipo de tratamento iria fazer. Este tratamento foi, sem dúvida, a melhor coisa que podia ter feito. Na primeira semana pouco ou nada tivemos para fazer, mas com o tempo vieram as terapias ocupacionais, as reuniões de grupo, as idas à médica, as intervenções psiquiátricas. As 3 semanas passaram rapidamente e estava a ganhar força para uma nova vida. Todavia, comecei a ter medo de sair da Unidade. Lá, estávamos refugiados de tudo, não tínhamos acesso a nada e era tudo muito fácil. De facto, cheguei a pedir para ficar mais uma semana porque não me sentia preparado para enfrentar o mundo cá fora. Mas tive que sair e fui recebido num jantar de família onde me senti optimamente apesar dos outros estarem a beber vinho e eu água. Quando vi a garrafa de whisky à minha frente, pensei que a poderia beber até à última gota, mas logo aí pensei que era um disparate, bebi www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 5 um copo de água, respirei fundo e aquele pensamento fugiu. Aos poucos fui ganhando confiança em mim e a confiança da família e dos amigos. Encontrei trabalho perto de casa, o que até foi mesmo bom porque tinha ficado sem carta por conduzir alcoolizado. Ia a jantares, festas e bares e nunca me deu vontade de beber. Foram 10 meses formidáveis. Contudo, cometi o erro de, um dia, não sei porquê, beber uma cerveja sem álcool. Pensei que não me iria fazer mal porque me sentia curado. Agora sei que isto não tem cura, apenas podemos controlar a doença. A partir desse dia, o bichinho dentro de mim acordou e comecei a beber às 7 ou 8 sem álcool mas não me satisfazia. Até que decidi mesmo experimentar uma mini, que afinal foram duas. Toda a gente começou a avisar-me para ter cuidado, mas eu achava que me conseguia controlar. Estava completamente enganado, claro. Rapidamente comecei e beber outra vez em demasia, inclusivé de manhã. Comecei a pôrme de parte, porque senti que tinha falhado com toda a gente e comigo, e fechava-me em casa com garrafas de vinho. Um dia, estava a jantar num café quando apareceu um velho amigo que me desafiou para ir a casa dele consumir branca. Mais uma vez, pensei que só uma vez não faria mal, embora não tenha sido só aquela vez. A revolta e a indignidade cresciam cada vez mais dentro de mim por estar a cair na desgraça e consumia cada vez, mais fosse álcool ou coca. Perdi o amor pela vida e tudo o que tinha conseguido nos últimos 10 meses, e como já não havia nada a fazer só me restava consumir até desaparecer. Vendi algumas das coisas que tinha, pedi emprestado, inventei desculpas só para conseguir dinheiro para consumir álcool ou para a coca. Até que na consulta de rotina no Sobral Cid confessei que andava a consumir outra vez e tentei o tratamento em casa. Perante o falhanço do tratamento tive que ser internado novamente. Durante as três semanas de espera para ser internado fiquei em casa de um tio meu e deixei de consumir cocaína, embora tenha continuado a consumir álcool. Sentia-me frustrado e com raiva por estar a passar por tudo novamente. Ainda hoje sinto isso, de certa forma. Chegou o “dia X” – 3 de Novembro de 2010. Sentia-me mais nervoso e ansioso do que da primeira vez e, apesar de não querer continuar a beber, parecia que não me queria tratar como da outra vez. O procedimento no Sobral Cid foi, no entanto, diferente: desta vez não havia grupos constituídos. Desta vez, perdi mesmo tudo e vi-me como um sem abrigo: não tinha casa para onde pudesse voltar (o meu pai não me queria de volta), não tinha trabalho, não tinha nada. E, basicamente, a minha saída esteve pendente de uma solução para quando saísse. Um colega de internamento arranjou-me trabalho, onde estou actualmente, numa cidade diferente. A minha saída não podia ter começado melhor. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor 6 Já lá vão 20 dias que saí da Unidade e muito tenho ganho. O facto de viver sozinho tem-me proporcionado uma visão diferente da vida e venho aprendendo a lidar com o que antes era problemático para mim, os meus sentimentos e as minhas expectativas. Isto por enquanto é um misto de sentimentos e emoções. Sei que aprendi muito com esta minha recaída e certamente ganhei outra força para continuar sóbrio. Isto é uma doença crónica que não tem cura e que apenas pode ser controlada. Aproveito o meu testemunho para agradecer publicamente a todos aqueles que sempre me ajudaram e a todo o pessoal da Unidade no Sobral Cid, inclusivé aos amigos que lá fiz. NOTA: A equipa da Peritia | Revista Portuguesa de Psicologia agradece ao Ricardo pelo testemunho que nos deixou. www.revistaperitia.org Todos os direitos reservados | Reprodução proibida sem permissão do editor setembro 2009 nº 01 revista portuguesa de psicologia Ficha Técnica Directora: Fátima Almeida Vice-Directora: Diana Balaias Sub-director: Rui Conceição nº6 | dezembro 2010 Relação entre o nível de leitura e o nível de inteligência geral. Catarina Lucas, Clémence Freitas, Cristina Oliveira, Manuela Machado, Mª Isabel Monteiro Comissão Científica Ana Filipa Lourenço de Oliveira Joana Filipa Duarte Martins Nuno de Sá Teixeira Sandra Margarida Heleno Marques dos Santos A relação entre a preocupação e o perfeccionismo. Inês Martins Concepção gráfica: projectone Espiritualidade, Religião e Percepção de Doença: Implicações na adesão terapêutica – Artigo de Revisão. Ana Cartaxo Periodicidade: trimestral Registo na ERC nº 125740 ISSN: 1647-3973 Rua Cândido dos Reis, nº 53, 1º drt. | 3770-209 Oliveira do Bairro | tlm: 910 324 492 | tlf: 234 284 744 | e-mail: [email protected] www.revistaperitia.org Endereço para correspondência: Peritia | Revista Portuguesa de Psicologia Rua Cândido dos Reis, 53, 1ºDto 3770-209 Oliveira do Bairro E-mail: [email protected]