Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 A Escola como quarto pé da formação analítica1 Lêda Guimarães2 Para que Lacan criou a Escola? Por que fundou e refundou sua Escola? Para trabalhar essa questão, abro uma pergunta preliminar: por que Lacan enunciou, na fundação da Escola Francesa de Psicanálise, “fundo tão sozinho como sempre estive na minha relação com a psicanálise”?3 Que solidão é essa a qual ele se refere? A solidão intrínseca do humano separado do Outro? Ou a solidão intrínseca a sua posição de desejo? Enquanto um desejo radicalmente inumano, com qual ele emprestava o seu próprio ‘ser’, sua fantasia, seu sintoma, e sua própria vida, como Miller formalizou tão bem em seu curso A vida de Lacan (2010)4. Minha resposta, que é também minha hipótese acerca da Escola como quarto pé da formação analítica, é: Lacan fundou a Escola assentado na solidão intrínseca da existência humana separada do Outro, e também porque, nessa solidão, o grande sentido para sua existência foi ofertar seu ’ser’ à psicanálise. Ofertar o uso fantasmático e sintomático de seu ‘ser’, como também ofertar o próprio destino de sua vida à psicanálise. Para efetivar esse intento, sua mola propulsora foi seu desejo, melhor dizendo, sua posição de desejo decidido e inabalável. Posição de desejo que é, por excelência, um instrumento revolucionário, distinto da pura e simples alienação à fantasia – na qual um sujeito é conduzido a se deixar levar cegamente por suas impulsões gozosas –, do mesmo modo que sua posição de desejo é distinta da satisfação gozosa decorrente da identificação ao sintoma. Posição de desejo inflexível que só é possível ser sustentada no pós-analítico, no pós-travessia 1 Este texto foi apresentado no Colóquio Sem pé nem cabeça: como ler o sintoma, EBP-Rio. 05/11/2011, e no Seminário de Política lacaniana, coordenado por Lêda Guimarães, Fernando Coutinho e Romildo do Rêgo Barros, EBP-Rio, 14/11/2011. 2 Psicanalista, membro da Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) e da Associação Mundial de Psicanálise (AMP). 3 Lacan, J. “Ata de Fundação”. Em: Outros Escritos. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2003. p. 235. 4 Miller. J-A. Vida de Lacan. Curso de Orientação lacaniana. 2010.inédito. Uma versão resumida com os sete primeiros capítulos foi editada em português: Miller, J-A. Vida de Lacan: escrita para a opinião esclarecida. São Paulo: Lituraterra Editora, 2011. p. 25. A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 da fantasia, na pós-identificação ao sintoma. Sabemos também que a posição de desejo é possível de ser mantida desde a entrada em análise, ainda que de forma capenga, devido à intromissão gozosa da compulsão à repetição. Mas, mesmo assim, a posição de desejo poderá ser sustentada se conectada à responsabilidade ética de um sujeito que questiona seu desejo capenga, como também seu gozo diante do Real como impossível. Sustentar essa posição de desejo é a condição fundamental para vir a sustentar uma posição analítica, que é essencialmente solitária, pois é uma posição do sujeito diante do ‘si mesmo’. Desse modo, considero que Lacan criou a Escola fundamentalmente para pôr em ato sua posição de desejo, permanente e incansavelmente, na direção de duas metas indissociáveis: 1) sustentar a existência da psicanálise no mundo, 2) sustentar a formação psicanalítica permanente dos analistas. Mas, antes de tudo, devemos considerar que Lacan também criou a Escola para a formação psicanalítica permanente dele mesmo, com as produções incansáveis de suas formalizações teóricas através do seu Ensino, que ele sustentava não apenas assentado na posição do Mestre que captura seguidores. Isso não bastaria para ele, pois creio que ele necessitava da Escola como um meio de verificação daquilo que formulava no seu Ensino acerca da formação analítica. Seu Ensino testemunha um esforço contínuo para trazer para a palavra e para a escrita o que seu Passe Clínico lhe produzia como mudanças contínuas no modo como ele lia e relia a estrutura subjetiva humana. Considero, inclusive, que o avanço do seu Ensino só pode ser operado a partir da sua leitura incansável das mudanças que continuavam sendo operadas em sua própria estrutura subjetiva, como ele testemunhou um dia: “vivo passando”. Parece-me, portanto, que Lacan criou a Escola como um instrumento para que pudesse continuar passando, para que pudesse continuar a sustentar sua posição analítica, conforme a orientação política que propunha também para os analistas – como Romildo do Rêgo Barros tão bem fundamentou, no nosso encontro passado5, ao 5 Encontro do Seminário de Política lacaniana, na EBP-Rio. A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 dizer que a política lacaniana só é sustentável a partir de uma posição analítica. Nesse sentido, considero que, para Lacan, a sustentação da sua posição analítica não estava dissociada da função da Escola que ele criou, já que sua Escola foi concebida para promover, por meio de uma formação psicanalítica permanente, a emergência e a sustentação da posição analítica, não só dele mesmo, como também dos analistas no mundo. Isso porque a existência da psicanálise, mais além do seu saber textual, depende essencial e indispensavelmente da sustentação da posição analítica em alguns humanos. Bem, toda a questão que aqui levanto a partir desta introdução é: por que a Escola de Lacan é essencial para a formação analítica permanente dos analistas? Por que essa Escola e não outra? O que distingue essa Escola das outras, onde vários colegas nossos, inclusive colegas muito queridos, e também apaixonados pela psicanálise, continuam realizando seus estudos e oferecendo também um ensino da psicanálise? Respondo, antecipando alguns comentários acerca do tema que Fernando Coutinho irá se ocupar no nosso próximo encontro: o estudo e o ensino da psicanálise não são um objetivo em si mesmo na formação analítica. Assim como o estudo e o ensino da psicanálise jamais poderá ser restrito a uma aquisição de saber ao estilo do discurso universitário e ao estilo do discurso do mestre. O estudo e o ensino da psicanálise só contribuem efetivamente para a formação psicanalítica permanente do analista, e logicamente também para a existência da psicanálise no mundo, quando esse estudo e esse ensino, apenas e tão somente, têm por função a formalização teórica do avanço permanente da posição subjetiva analítica dos psicanalistas. Assim, levanto uma pergunta, que vou responder imediatamente: de que modo a Escola de Lacan é um instrumento por excelência para o avanço permanente da posição subjetiva analítica dos psicanalistas? Respondo, então, dizendo que a Escola é esse instrumento porque foi concebida por Lacan para funcionar como uma instituição Não-Toda humana. Sabemos, aliás, sabemos bem em nossas vísceras, que não há Instituição possível A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 que possa funcionar sem a invasão própria do gozo humano. Quer dizer, sem as rivalidades imaginárias de seus membros e participantes, com seus sonhos narcísicos e inibições neuróticas, disputas de poder, anseios de reconhecimento do Outro etc. O que resulta inevitavelmente em efeitos de mal-estar entre seus membros e participantes devido à alienação, ou desafio, às normas do Outro. Mas, a Escola de Lacan, do nosso querido Lacan, foi concebida por ele como uma Instituição, não digo “inumana”, mas como uma Instituição Não-Toda humana. Isso porque uma Instituição entre humanos jamais poderá estar limpa, vacinada, da dimensão alienante e gozosa do humano, nem mesmo uma Instituição analítica. Nesse sentido, Lacan inventou um contraponto institucional para que sua Escola não fosse Toda humana, para fazer valer a posição analítica que é radicalmente uma posição inumana. Como Lacan fez da sua Escola uma Instituição Não-Toda humana? Ele inventou seus dispositivos estranhos e tão difíceis de serem sustentados por nós, sem a inevitável impregnação da nossa leitura humana. Inventou: - o Cartel, em disjunção à alienação imaginária própria aos grupos de estudo humanos; - o Grados, em disjunção à hierarquia da estratificação do poder humano; e - o Passe, que é uma interrogação permanente do que é o psicanalista e do que é a psicanálise, em disjunção a um saber dogmático alienante acerca do que é o psicanalista e a psicanálise. Talvez vocês perguntem: mas, afinal, de que modo a Escola de Lacan poderá nos servir, com esses instrumentos, para nossa formação psicanalítica permanente? Respondo essa questão a partir da minha própria experiência como analistaanalisante permanente. A vida na Escola é uma oportunidade extraordinária para que o analista e analisante permanente se confronte com sua própria dimensão humana, ali onde sua dimensão humana se faz inimiga de sua posição analítica. A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 A análise, a supervisão, o estudo – tripé clássico e essencial da formação analítica – são sustentados a partir de uma escolha transferencial. Além disso, seguem o ritmo próprio das escolhas de cada sujeito, ali onde sua estrutura subjetiva se coloca espontaneamente aberta à divisão subjetiva. Desse modo, a formação realizada unicamente através desse tripé se faz, como bem sabemos, de modo muito duro e difícil, por meio de um confronto com o Real, mas também se faz de modo ‘cômodo’, ‘confortável’, conforme as disponibilidades para uma abertura subjetiva que a estrutura dispõe espontaneamente. Pela via da escolha transferencial, a formação analítica gira em torno do tratamento do desconforto próprio e habitual do funcionamento da estrutura subjetiva, em torno de uma velha e bem conhecida experimentação gozosa da compulsão à repetição. Já a Escola, com seus aparatos Não-Todos humanos, é o choque, é o trauma, é o enigma não buscado, é a angústia inesperada, é a irrupção da inibição que paralisa abruptamente. Desse modo, a Escola, como trauma, incide na subjetividade dos seus membros e participantes de forma muitas vezes devastadora e desestabilizadora. Pelo efeito da transferência à psicanálise, a Escola é inevitavelmente um receptáculo da transferência analítica dos seus membros e participantes. Nesse sentido, o que dela advém – dos seus membros, das suas instâncias, das suas atividades, dos seus conflitos grupais inevitáveis – incide sobre aqueles que nela estão em formação, como atos advindos do Outro, e, muito especialmente, como imperativos puramente superegóicos, portanto, mortificantes. Mas esse efeito de incidência do desejo do Outro, da demanda do Outro, do imperativo do Outro sobre o sujeito – por exemplo, quando um sujeito diz: “A Escola agora está me exigindo tal coisa” –, nada mais é do que o efeito da alienação ao Outro, própria e normal a qualquer sujeito humano, desde sua mais tenra infância. Quer dizer, um efeito da alienação ao seu Outro singular, corporificado no organismo e no funcionamento da Escola. Nesse sentido, pelo efeito da transferência à psicanálise, o que advém da Escola, em seu equilíbrio tosco entre o Todo-humano e o Não-Todo-humano, incide sobre o sujeito, traumaticamente, como uma interpretação selvagem acerca da sua alienação ao Outro. Isso produz efeitos de sintomatização, inibição, angústia, atuação, acting out, passagem ao ato, fenômeno de corpo, exclusão e ejeção da Escola, até mesmo desistência definitiva da própria psicanálise. No melhor dos casos, essa interpretação A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 selvagem resulta numa implicação subjetiva ao trauma experimentado, permitindo que o analista e analisante permanente questione analiticamente sua implicação gozosa nesse trauma. Pelo efeito traumático da Escola, não é sem razão que muitos de nós mantenhamos, de modo contínuo, ou ocasionalmente, um pé recuado diante da Escola. Por exemplo, diante das atividades oficiais das instâncias diretivas da Escola, e busquemos nos recolher nos grupos que nos são mais confortáveis, estabelecendo uma parceria sintomática nesses pequenos redutos, ao estilo de uma extensão, ou mesmo uma substituição mais aconchegante da família que não tivemos ou idealizamos. Da minha parte, acho essa posição de recuo preventivo muito normal, enquanto própria dos mecanismos estabilizadores que mantém o equilíbrio das nossas estruturas subjetivas. Freud mesmo já nos dizia que o sintoma é o melhor arranjo psíquico entre as forças conflitantes do psiquismo, o arranjo mais econômico. Formulação freudiana que Lacan leva bem em conta ao propor sua noção de suplência como movimento espontâneo e natural da estrutura, no sentido de fixar uma estabilização. Mas, nosso problema, como analistas, é que a posição analítica não é nada confortável, não é nada normal, não é nada aconchegante. É uma cadeira assentada no buraco do vazio da estrutura, assentada no apagamento do nosso gozo próprio enquanto humano. Nesse assento sobre o vazio da estrutura, próprio à posição analítica, um sujeito não tem mais nenhum Outro a quem apelar, nenhum Outro que possa avalizar o ato analítico, este que é essencialmente solitário, do qual o analista só terá a prestar contas unicamente a si mesmo, quer dizer, à sua posição ética. Por isso, a posição analítica não tem nada a ver com o conforto subjetivo, nosso lastro é essencialmente um pântano, uma areia movediça, ou mesmo uma linha muito fina na qual nos equilibramos para não despencarmos no campo do gozo próprio do humano. Por essas razões, a posição analítica tende facilmente a desvanecer no berço esplêndido do colo do Outro, conforme a fantasia de cada um. E, até mesmo, tende a desvanecer na lua-de-mel do casamento do sujeito com seu próprio sintoma, no fim de A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 uma análise, já que, conforme o movimento espontâneo e natural da estrutura, sejamos analisantes permanentes e/ou analistas, nossas escolhas tendem, mais naturalmente, ao conforto da estabilidade fantasmática e sintomática da nossa estrutura singular. Mas, isso se contrapõe à posição analítica, e desse modo, o movimento espontâneo da nossa estrutura subjetiva tende diretamente para a morte da psicanálise – em nós mesmos e no mundo. Assim, a Escola de Lacan nos é essencialmente bem-vinda enquanto analistas e analisantes em formação permanente, pois ela é o choque traumático constante que nos convoca a questionar nossa vacilação habitual entre a impulsão, ou imperativo de gozo, e o desejo com sua falta radical. A Escola é trauma porque opera pela via da contingência, quer dizer, pela via dos encontros que não foram escolhidos por nós. Encontros que advém de um Real, que não é outro, a não ser o Real da nossa própria estrutura humana. Mas, é preciso também considerar que a Escola é bem vinda como trauma quando nossa posição de desejo nos permite amar a psicanálise assim como amamos o nosso 'si mesmo'. Quer dizer, quando a psicanálise foi implantada no nosso 'si mesmo' como a própria substância insubstancial do vazio que encontramos em nós mesmos. Com esses argumentos, proponho que a Escola possa ser o quarto pé da formação psicanalítica permanente. Isso se dá quando consentimos e agradecemos à Escola de Lacan pelos efeitos traumáticos que ela opera em nós mesmos, acolhendo as interpretações selvagens que dela advém como atos analíticos bem vindos, atos analíticos não corporificados em nenhum ente como Outro, mas enquanto atos analíticos que advêm do nosso amor à psicanálise, desse amor que nos faz escolher não recuar diante do Real. Assim como poetizou Sthendhal – “o amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem para ir colhê-la à beira do precipício” – considero que o desejo do analista é fundamentalmente essa coragem sempre renovada por meio da Escola como quarto pé da formação analítica. O desejo do analista é a coragem de ir colher a flor do amor A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães Latusa Digital Nº 47 / Ano 8 -‐ Dezembro de 2011 -‐ ISSN 2175-‐1579 mais digno à beira do precipício entre o Simbólico e o Real, para que, com essa flor, venha a sustentar o laço analítico no mundo. A Escola como quarto pé da formação analítica -‐ Lêda Guimarães