LEITURA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: COGNIÇÃO E RELEVÂNCIA1 Isabel Cristina Tedesco Selistre2 Abstract Sperber and Wilson’s (1986/1995) Relevance Theory (RT) presents a new approach to the study of verbal communication based on a general view of human cognition: our attention turns toward information that seems relevant; that is, capable of yielding cognitive effects – the lesser the processing effort the greater the relevance. This paper outlines the major tenets of RT, specially the notion of ‘context’ as a psychological construct, and discusses some of their contributions to the field of language teaching and learning. Leitura e interpretação de textos são atividades intrínsecas ao aprendizado de uma língua estrangeira (LE). Sendo assim, é crucial considerar o contexto ao se pensar em ensino de línguas, pois, interpretação prescinde compreensão e, compreensão supõe contexto: […]a maioria dos estudos parece sugerir que a compreensão de um enunciado envolve interpretá-lo em relação a algum contexto […] nosso aparato de compreensão lingüística está basicamente projetado para estabelecer o significado do que é dito ou escrito, e isto implica que o contexto de um enunciado tem que ser levado em conta em todos os estágios de compreensão (GARROD, 1986:227). Dentro dessa perspectiva, uma das questões mais centrais para o ensino de LE, então, seria: que contextos devem ser considerados a fim de promover a aprendizagem de forma mais efetiva? Quando interpretamos um enunciado, seja ele oral ou escrito, dois tipos de contexto são claramente perceptíveis: o contexto lingüístico e o situacional. O primeiro, 1 Este artigo é um resumo de minha dissertação de mestrado em Lingüística Aplicada na UNISINOS, defendida em 2002. 2 Professora da Universidade de Santa Cruz do Sul - UNISC refere-se à informação obtida por enunciados precedentes e o último, refere-se a toda informação derivada da percepção da situação na qual o enunciado ocorre. Talvez em função de sua evidência sejam, ainda por muitos professores, os únicos levados em conta quando do planejamento das atividades em sala de aula. No entanto, a suposição de que a comunicação é possível levando-se em conta somente o contexto lingüístico e o situacional, implica a noção de ‘conhecimento mútuo’, isto é, o ouvinte/leitor somente recupera a interpretação correta do enunciado, aquela pretendida pelo falante/autor, se todo item de informação contextual usado na interpretação do enunciado for mutuamente conhecido. Sperber e Wilson (1986/1995) argumentam que se realmente houvesse uma demanda de conhecimento compartilhado como pré-requisito para o sucesso da comunicação sua existência somente poderia ser estabelecida se o falante e o ouvinte realizassem uma série infinita de verificações ( ficando presos ao regresso infinito de “ eu sei que ele sabe que eu sei que ele sabe…”), o que claramente não pode ser feito no tempo em que se leva para produzir e interpretar um enunciado. Partindo do princípio de que o contexto para interpretação de enunciados não é fixado antecipadamente, mas construído juntamente com o processo de interpretação, Sperber e Wilson propõem uma teoria pragmática de base cognitiva com o objetivo de explicar como os indivíduos fazem uso de suas crenças e atitudes e escolhem algumas suposições em lugar de outras quando interpretam enunciados: a Teoria da Relevância. • PROCESSOS INFERENCIAIS E CONTEXTO NA TEORIA DA RELEVÂNCIA Sperber e Wilson (S-W) (1986/1995), em sua Teoria da Relevância (TR) delineiam uma abordagem nova em relação ao estudo da comunicação humana para explicar como os ouvintes reconhecem a interpretação pretendida de um enunciado,isto é, aquela interpretação que o falante quer que o ouvinte recupere. A explicação dos autores está baseada numa suposição fundamental sobre a cognição humana: nossa atenção volta-se sempre para o que nos parece mais relevante. S-W argumentam que além da recuperação pelo ouvinte da informação codificada pelo falante, geralmente em palavras, a comunicação também envolve processos inferenciais. Esses processos ocorrem porque há uma “lacuna crucial entre as representações semânticas da sentença e os pensamentos realmente comunicados pelos enunciado” (S-W, 1995, p.9). Isto acontece, em parte, porque não há uma correspondência exata entre enunciados e pensamento, mas, principalmente, por causa do output do sistema lingüístico que é, geralmente, um conjunto de indicações de mensagem um tanto vago, com muito ainda para ser preenchido. Por exemplo, o enunciado ‘ele está aqui’ não pode ser interpretado sem ser considerado o preenchimento do referente, do tempo e do lugar, nenhum dos quais está codificado lingüisticamente. São processos inferenciais que agem sobre as expressões lingüísticas em contexto e resultam numa provável interpretação. Baseados nessa constatação, S-W propõem ser necessária a noção de compartilhamento de contextos para explicar a interpretação de enunciados. Aqui, a definição de contexto não se refere a elementos pré-determinados (enunciados precedentes e contexto situacional), mas a ‘um constructo psicológico, um subconjunto de suposições do ouvinte sobre o mundo’ (S-W, 1995, p.15). Esse constructo psicológico pode certamente envolver contexto percebido de lugar, tempo e outros indivíduos, etc, mas somente visto pelo ‘lado de dentro’ do indivíduo, o que não quer dizer ‘somente mentalmente representado’ no indivíduo. Na verdade, é exatamente neste ponto que S-W fazem uma importante contribuição para a noção de contexto psicológico, porque eles pretendem uma noção muito mais abrangente do que a representação mental: a noção de manifestabilidade ( ou virtualidade). O que você ‘sabe’ é mentalmente representado com uma garantia de verdade; o que você ‘supõe’ também é mentalmente representado, porém não há nenhuma garantia de verdade; o que é ‘manifesto’ a você, entretanto, é o que você é capaz de inferir ou é capaz de perceber, mesmo que ainda não o tenha feito. Por exemplo, é manifesto a você que a rainha Cleópatra nunca presenteou nenhum presidente do Brasil, mesmo que nunca tenha pensado sobre isto antes. Esta noção de manifestabilidade, por sua vez está presente na noção de ambientes cognitivos. O ambiente cognitivo total de um indivíduo é o conjunto de todos os fatos que ele pode perceber ou inferir, é uma função de seu ambiente físico e de suas habilidades cognitivas (S-W, 1995,p.39); ou seja, o conjunto de todos os fatos que são manifestos a ele. Um fenômeno afeta o ambiente cognitivo ao tornar certos fatos manifestos ou mais manifestos. Como resultado, o indivíduo pode mentalmente representar estes fatos como suposições fortes, e talvez os use para derivar mais suposições que não correspondem aos fatos reais, mas que são, no entanto, manifestos a ele também. Mas como se formam essas suposições? S-W sugerem haver um armazenamento básico da memória com a propriedade de que qualquer representação conceitual nela estocada é tratada pela mente como uma descrição verdadeira do mundo real, como um fato, podendo ser mantida como uma suposição, mesmo que não seja explicitamente expressa. Tais suposições básicas são chamadas por S-W de suposições factuais. Nas inferências espontâneas todos os fatos que entram no raciocínio são aceitos como verdadeiros ou como supostamente verdadeiros conforme a força da informação; tal força está relacionada às evidências disponíveis para os indivíduos. Desse modo, as suposições podem revelar-se mais ou menos fortes, dependendo do modo como são obtidas durante a compreensão e do contexto onde são processadas. Dois fatores concorrem para a força das suposições : (1) acessibilidade – quanto mais acessível é uma suposição, mais fácil de ser lembrada e quanto mais freqüentemente uma suposição é acessada, maior é a acessibilidade; (2) forma de aquisição – suposições baseadas numa experiência perceptual tendem a ser muito fortes; suposições baseadas na aceitação da palavra de alguém tem sua força ligada à confiança que se tem do falante; a força das suposições adquiridas pela dedução depende da força das premissas das quais elas são derivadas. Portanto, a força das suposições é aumentada cada vez que a suposição ajuda no processamento de uma nova informação e é reduzida cada vez que torna o processamento de alguma nova informação mais difícil. As suposições derivam efeitos cognitivos, ou conforme S-W, efeitos contextuais. Tais efeitos, decorrentes da interação entre a informação nova, derivada do sistema de input (decodificação lingüística e percepção) e da informação antiga ( conjunto de suposições já existentes) geram modificações no ambiente cognitivo do indivíduo. Essas modificações podem ser de três tipos: acréscimo de novas suposições; reforço das suposições já existentes; e eliminação de suposições ( quando suposições mais fortes contradizem as suposições já existentes). Desse modo, uma informação será relevante em qualquer contexto onde houver efeitos cognitivos e quanto mais efeitos, mais relevante a informação será. Embora essencial para a definição de relevância, a noção de efeitos contextuais modificando o ambiente cognitivo do indivíduo (o conjunto de conhecimento sobre o mundo armazenado em sua memória) por si só, não é suficiente para sua caracterização; há um segundo fator – o esforço de processamento. Todo processamento de informação exige algum esforço, algum dispêndio de energia mental em nível de atenção memória e raciocínio. O esforço está numa relação comparativa com os benefícios que são alcançados, os quais, nesse caso, são os efeitos cognitivos. De uma maneira geral, a mente opera de modo produtivo ou econômico, no sentido de alcançar o máximo de efeitos com um mínimo de esforço. Conseqüentemente, o esforço de processamento exigido ao acessar um contexto para a interpretação do enunciado – como a força e a quantidade de efeitos contextuais – também afeta a avaliação dos graus de relevância. Partindo, então, dessas duas noções – efeito contextual e esforço de processamento - S-W caracterizam a relevância para um indivíduo. De acordo com os autores, um fenômeno será mais relevante para o indivíduo quanto mais amplos forem os efeitos contextuais alcançados e menor for o esforço cognitivo requerido para processálo. Para demonstrar que as pessoas tendem a prestar atenção a fenômenos relevantes e a processá-los de forma a maximizar a relevância, S-W descrevem a relevância não apenas como uma propriedade de suposições da mente, mas também como uma propriedade de fenômenos (estímulos, como, por exemplo, enunciados) no ambiente os quais levam à construção de suposições. Para um estímulo ser relevante, além de atrair a atenção para as intenções do comunicador ele precisa revelá-las. É crucial, nesse aspecto, o fato de um enunciado vir com uma garantia de relevância. Um fenômeno não tem expectativa de relevância a priori, mas estímulos ostensivos têm, pois, ao produzir um enunciado, o falante chama a atenção do ouvinte e ao solicitar sua atenção o falante sugere que seu enunciado é suficientemente relevante para valer essa atenção. O nível de relevância que se presume existir leva em conta os interesses tanto do comunicador como da audiência. S-W o chamam de nível de relevância ‘ótima’ e, a partir da noção de relevância ótima, definem o Princípio da Relevância (PR): “Toda ato de comunicação ostensiva comunica a presunção de sua própria relevância ótima” (S-W, 1995, p.158). Conforme a TR, as duas intenções que um comunicador pretende satisfazer ao produzir um estímulo ostensivo são a intenção informativa (tornar manifesto à audiência um conjunto de suposições I) e a intenção comunicativa ( tornar a intenção informativa mutuamente manifesta). Não é difícil ver como a satisfação da intenção comunicativa pode levar à satisfação da intenção informativa, pois dar-se conta de que um comunicador confiável pretende levar-nos a crer em algo já é uma boa razão para acreditarmos. Mas, mesmo que essa afirmação explique por que as pessoas se engajam em comunicação ostensiva, não explica como a comunicação é realizada. No início do processo de compreensão, o destinatário só possui a evidência indireta quanto à relevância do enunciado (a intenção mutuamente manifesta do comunicador de que seu enunciado deve ser aceito como relevante; a garantia de que um estímulo ostensivo é relevante), mas, no decorrer do processo, o destinatário passa a obter evidências mais diretas contra ou a favor da suposição de que o enunciado é otimamente relevante. Por isso, é crucial que o comunicador forneça evidências diretas para que sua intenção informativa seja identificada. A tarefa do destinatário é, pois, construir hipóteses interpretativas possíveis sobre os conteúdos de I e escolher a correta. Em circunstâncias diferentes e domínios cognitivos diferentes, a tarefa de construir e selecionar uma hipótese pode ser conduzida de diferentes maneiras: listando todas as hipóteses possíveis, comparando-as e escolhendo a melhor; ou procurando uma hipótese inicial, testando-a para ver se satisfaz algum critério, aceitando-a e parando aí, se ela for aceita, ou repetindo o mesmo processo, se ela não o for. Para a construção de hipóteses sobre uma intenção informativa do comunicador, em primeiro lugar, a plausibilidade de algumas hipóteses já pode estar manifesta no ambiente no momento em que o destinatário se dá conta de que um estímulo ostensivo foi produzido e, portanto, que uma suposição de relevância foi comunicada. Uma vez que o conjunto inicial de hipóteses foi recuperado, o destinatário pode acrescentar outras, supondo que o conjunto I inclui outras suposições inferíveis contextualmente daquelas já recuperadas. Além disso, ao estender o contexto, hipóteses radicalmente diferentes podem se tornar acessíveis. O importante é que, dado o ambiente cognitivo, dado o contexto inicial e dado o estímulo, algumas hipóteses são mais acessíveis do que outras, e isso significa que elas exigem menos esforço de processamento. Carston (2000) resume a estratégia de compreensão baseada na relevância em dois passos: (1) o ouvinte considera os efeitos cognitivos possíveis em relação à acessibilidade ( isto é, seguindo o padrão do menor esforço) e (2) o ouvinte cancela a testagem de hipóteses quando o nível esperado de relevância é alcançado ( ou parecer inatingível). Portanto, o PR torna possível o uso da estratégia de compreensão de se testar hipótese por hipótese. Esta estratégia garante a seleção da primeira interpretação acessível coerente com o princípio, se houver uma, e, do contrário, nenhuma interpretação. Ou seja, a TR explica como a comunicação ostensiva é possível e como pode falhar. Essa explicação de como os falantes entendem suas línguas nativas e se comunicam oferecida por S-W tem baseado diversos estudos que podem ser aplicados ao ensino/aprendizagem de LE, uma vez que as pessoas podem comunicar um mesmo significado em mais de uma língua – a diferença está apenas no código lingüístico empregado. • LEITURA EM LÍNGUA ESTRANGEIRA: UMA APLICAÇÃO DA TEORIA DA RELEVÂNCIA A Teoria da Relevância, como vimos, dá conta dos processos cognitivos envolvidos na comunicação inferencial humana, ou em outras palavras, explica como o ouvinte reconhece e recupera a interpretação pretendida de um enunciado. Pensamos que, se os pressupostos da TR se aplicam à comunicação verbal, então, também poderiam ser aplicados à aprendizagem de uma LE, já que ambas implicam compreensão e processos inferenciais. Transpondo o Princípio da Relevância para o âmbito da aprendizagem de LE poderíamos dizer que, quanto mais relevante for o input recebido pelo aprendiz, isto é, quanto mais efeitos contextuais produzirem os enunciados e menor for o esforço para processá-los, mais facilmente ocorrerá a compreensão e maior será a probabilidade de aprendizagem. Para reforçar essa nossa hipótese, aplicamos a noção de relevância à compreensão de Fórmulas Memorizadas (FM) em diálogos situacionais didáticos. • Fórmulas memorizadas As FM são chunks (agrupamentos) imitados de língua não analisada, disponível para o uso do aprendiz sem ser derivado das regras gerativas (MYLES et al,.1998); são estruturas fixas ou semi-fixas cuja compreensão está associada ao contexto específico de uso. A influência das FM pode ser entendida através de um exemplo simples: membros de uma comunidade lingüística norte-americana ficariam um tanto desconcertados se um balconista dissesse a eles: What do you want? ao invés de May I help you/ ou What can I do for you? Ou Can I show you something? Embora os níveis gramaticais e semânticos da primeira sentença sejam impecáveis, ela seria considerada imprópria no nível sociolingüístico por não corresponder à forma esperada – aquela que tornou-se convencionada para aquela ‘situação específica’. Por serem ‘previsíveis’, essas estruturas proporcionam uma economia no esforço de processamento na comunicação em tempo real. Essa economia vai possibilitar a produção de maiores efeitos contextuais, pois, o fato de tanto o falante quanto o ouvinte disporem dessas estruturas em seus ambientes cognitivos vai permitir que o ouvinte/leitor focalize sua atenção no reconhecimento da intenção do falante/autor. Partindo da idéia de S-W de que as suposições baseadas em experiência perceptual tendem a ser muito fortes (e, pensamos, também, mais acessíveis), idéia essa compartilhada por Jackendoff (1992): “[...] podemos falar sobre o que vemos. Isto sugere que deve haver uma ligação – um conjunto de princípios de correspondência – entre o sistema visual e a faculdade da linguagem [..]” (p.14), nos propusemos a analisar o uso do vídeo como elemento facilitador do processo de compreensão de diálogos situacionais didáticos, já que a imagem proporciona uma experiência perceptual ao aprendiz bem maior do que aquela que normalmente ocorre nas aulas de LE que se dá, apenas, através do texto escrito. A idéia de que o vídeo fornece estímulo visual (oferecendo pistas contextuais) semelhante ao do ambiente, gerando previsão, especulação e oportunidade de ativar o esquema do ambiente cognitivo ao rever uma cena representada, pode ser explicada via teoria da relevância. Para S-W (1986/1995), um enunciado é considerado relevante quando produz efeitos contextuais, o que significa dizer que, interagindo com o contexto prévio, ou seja, as suposições já existentes em nossa memória enciclopédica, um enunciado, que é uma informação nova, provoca algum efeito naquele conjunto de suposições antigas. Tal efeito pode ser de três tipos: (1) implicações contextuais, que são novas suposições produzidas através da interação entre informação antiga e informação nova; (2) contradição de uma suposição antiga, o que leva ao abandono da mesma; e (3) fortalecimento de uma suposição já estocada no contexto mental, reforçando a certeza do indivíduo quanto a esta suposição. Desta forma, quanto mais efeitos contextuais um enunciado produzir, mais relevante ele será. Através do uso de vídeos em sala de aula teríamos o primeiro tipo de efeito citado acima, as implicações contextuais, onde a informação antiga seria o conhecimento que o aluno tem dos objetos, gestos, eventos, lugares, e falas correspondentes àquela situação, e a informação nova seria o vocabulário (palavras e expressões) na LE. • Metodologia da pesquisa O experimento constituiu-se de oito horas/aula divididas em quatro encontros. As aulas foram organizadas com base em dois diálogos que fazem parte do vídeo New Interchange l (1997) que integra a coleção New Interchange de autoria de Jack Richards, Jonathan Hull e Susan Proctor. Duas situações/eventos foram abordadas: (1) primeiro dia de aula e (2) em um restaurante. No primeiro evento destacam-se as funções de saudações e apresentações (com perguntas pessoais incluídas: lugar de origem, trabalho, etc.) e as seguintes expressões fixas: I’m sorry; Nice to meet you; That’s right; How about you?; Really/; That’s nice; e Excuse me. No segundo evento, destacam-se a função de fazer pedido em um restaurante e as seguintes estruturas semi-fixas: Would you like? What can I get? May I? What kind of? Para a realização do experimento formamos dois grupos de aprendizes: grupo 1: aulas com diálogos apresentados em vídeo (com transcrição) e grupo 2: aulas baseadas apenas em diálogos escritos. Cada grupo foi formado por cinco alunas na faixa etária entre 14 e 17 anos, todas estudantes da primeira série do curso normal do ensino médio de uma escola particular. Essas alunas são provenientes de escolas públicas e apresentam mais ou menos o mesmo background lingüístico, conforme pudemos constatar no primeiro dia de aula, através de uma conversa informal, onde elas expuseram que sabiam “um pouco” o verbo to be, e algum vocabulário básico. Sendo o nosso objetivo principal testar a compreensão de vocabulário – mais especificamente algumas expressões fixas e semi-fixas, baseamos a escolha dos exercícios a serem realizados pelos aprendizes nas seguintes obras: “Classroom based evaluation in second language education”(GENESEE & UPSHUR, 1999) e “Assessing vocabulary” (READ, 2000). Para realizarmos nossa investigação utilizamos seis tipos de tarefas: (1) Questões de compreensão geral em português: (2) Relacionar colunas (3) Ordenar palavras e diálogos (4) Completar diálogos (5) Análise de situações (6) Substituição lexical: Os dados foram coletados a cada aula. As aulas realizaram-se em quatro dias consecutivos (de segunda a quinta-feira) com duas horas de duração cada. Não foi permitido que os participantes levassem nenhum material para estudos extras para evitar (ou pelo menos diminuir as possibilidades) que as respostas obtidas fossem resultado de outros eventos que não o proporcionado por nossa investigação. • Análise dos dados Para avaliar os resultados dos dois grupos de aprendizes nos valemos de recursos simples, já que nosso objetivo principal era apenas corroborar a hipótese de que o grupo que usasse vídeos apresentaria melhores resultados, por contar com o input visual, assemelhando-se, assim, ao ambiente natural de aquisição, no qual o aprendiz pode contar com uma variedade de pistas extra-lingüísticas. Procedemos à contagem de acertos em cada tipo de tarefa – compreensão geral, identificação da forma, da compreensão semântica e contextualização das expressões – e elaboramos um quadro comparativo para verificar as habilidades específicas. • Resultados gerais Neste quadro, apresentamos os resultados gerais obtidos pelos dois grupos. Calculamos um percentual sobre as questões específicas de identificação, compreensão e contextualização das expressões-alvo e, ao fim, incluímos as questões de compreensão dos textos no total geral. GRUPO 1 : VÍDEO + TEXTO % Total geral % Quadros 01 02 03 04 Total parcial Nº de questões 12 10 12 27 49 S1 10 5 6 25 36 73,4 46 75,4 S2 12 7 6 24 37 75,5 49 80,3 S3 10 6 6 27 39 79,6 49 80,3 S4 8,5 7 8 26 41 83,6 49,5 81,1 S5 10 8 4 27 39 79,6 49 80,3 % Total geral % 61 GRUPO 2 : TEXTO Quadros 01 02 03 04 Total parcial Nº de questões 12 10 12 27 49 61 S1 8,5 2 5 13 20 40,8 28,5 46,7 S2 8,0 1 8 22 31 63,2 39 63,9 S3 7,5 1 2 15 18 36,7 25,5 41,8 S4 11,5 3 5 22 30 61,2 41,5 68,0 S5 10 0 5 17 22 44,9 32 52,4 Quadros: 01: Questões de compreensão geral. 02: Identificação das expressões/forma. 03: Compreensão semântica das expressões. 04: Contextualização das expressões. Total Parcial: pontuação das questões específicas com as expressões fixas e semi-fixas. Total Geral: inclui as questões de compreensão geral. Ao compararmos o número de acertos dos cinco informantes de cada grupo em ordem crescente na soma parcial, constatamos que os integrantes do grupo 01 apresentaram índices maiores do que o grupo 02, variando de 32% (comparando os melhores resultados de cada grupo) até 100% (na comparação do menor número de acertos entre os dois grupos). • Comparação dos totais parciais 1) 2) 3) 4) 5) Grupo 01 36 37 39 39 41 No total geral apuramos os seguintes índices: Grupo 02 18 20 22 30 31 Diferença % 100% 85% 77% 30% 32% • Comparação dos totais gerais 1) 2) 3) 4) 5) Grupo 01 46 49 49 49 49,5 Grupo 02 25,5 28,5 32 39 41,5 Diferença % 80% 71,9% 53,1% 25,6% 19,2% Como se pode perceber, incluindo as questões de compreensão geral dos textos neste quadro comparativo, as diferenças caem. Entretanto, estes resultados se devem mais às pistas de vocabulário encontradas nos textos do que propriamente à forma diferenciada de input recebida pelos aprendizes. Os resultados obtidos em nosso experimento demonstraram que o uso de input visual facilitou ao aprendiz a relação entre a informação nova e seu ambiente cognitivo e a descoberta do significado das fórmulas memorizadas apresentando, posteriormente, maior facilidade para aplicá-las em novos contextos. É claro que os testes realizados com os aprendizes exigiram somente a memória a curto prazo, mas a questão de transferência de conhecimento para a memória a longo prazo necessitaria um outro estudo levando em conta aspectos que não eram a preocupação deste trabalho. • CONSIDERAÇÕES FINAIS Pretendemos, com esse trabalho, demonstrar que os postulados da TR – relevância, contexto e ambiente cognitivo, manifestabilidade, efeitos contextuais, acessibilidade, força das suposições e o Princípio da Relevância – que explicam os processos cognitivos envolvidos nas situações comunicativas intencionais, podem ajudar a responder uma das questões mais centrais para a área de ensino/aprendizagem de LE : que contextos devem ser considerados a fim de promover o desenvolvimento da habilidade de interpretação de enunciados? Segundo Klein (1997), é perfeitamente possível influenciar, dentro de certos limites, o processo de aprendizagem. A maneira óbvia de fazer isto consiste em tentar controlar com habilidade a influência interativa de vários fatores. É claro que os vários fatores diferem quanto ao grau de receptividade deste controle e, com certeza, o fator mais fácil de controlar é o acesso do aprendiz ao input. Porém, [...] o input lingüístico para o aprendiz é geralmente muito complexo, no sentido de que ele não somente (muito freqüentemente) é lingüisticamente complexo, mas também, no sentido de que o aprendiz tem que usar todos os tipos de conhecimento não-lingüísticos para ser bem sucedido ao lidar com o input (SMITH, 1989, p.242). Por isso, a instrução orientada deve se ocupar não apenas em propiciar o acesso do aprendiz ao input lingüístico, mas também, em facilitar o uso do conhecimento nãolingüístico, ou seja, do contexto no seu sentido mais amplo, como na visão de Sperber e Wilson. A sala de aula é um meio de melhorar o input. Por melhoramento de input, Sharwood Smith (1991) refere-se ao “processo pelo qual o input lingüístico se torna saliente para o aprendiz”(p.118). É claro que nem toda saliência criada externamente resulta em input percebido. Entretanto, o melhoramento do input é uma parte especial e necessária para aprendizagem de uma língua, é um suplemento da evidência natural; e input externamente induzido é a contribuição que a sala de aula pode dar ao processo de aprendizagem. Não é apropriado conceituar o input como um fenômeno monolítico, nem a sala de aula deve ser vista como um lugar onde todos os aprendizes progridem da mesma forma e com necessidades similares, por isso, o input não pode ser de apenas um tipo. Mas, como podemos de fato ajudar o aprendiz? Retornando ao princípio da relevância, levando o aprendiz a conseguir o máximo de efeitos contextuais com o mínimo de esforço cognitivo. Se a atenção do ser humano sempre se dirige para aquilo que lhe parece mais relevante, então, a função da sala de aula é servir como um dispositivo seletivo de atenção. Portanto, quanto mais o ambiente em sala de aula possibilitar que o aprendiz explore seu contexto cognitivo, mais facilmente se dará o processo inferencial e maiores serão as possibilidades de aprendizagem. • REFERÊNCIAS CARSTON, R. (2000). The relationship between generative grammar and (relevancetheoretic) pragmatics. Language & Communication, n. 20, p. 87-103. GARROD, S. (1986). Language comprehension in context: a psychological perspective. Applied Linguistics, Vol. 7, n. 3. GENESEE, F.; UPSHUR, J. A. Classroom Based Evaluation in Second Language Education. New York: Cambridge University, 1996 – 1999. JACKENDOFF, R. Languages of the mind. In: Languages of the Mind: Essays of Mental Representation. Cambridge, Mass: MIT Press, p. 1-20, 1992. KLEIN,W. (1997) Second Language Acquisition. Cambridge: Cambridge University Press. MYLES, F.; HOOPER, J.; MITCHELL, R. Rote or rule? Exploring the role of formulaic language in classroom foreign language learning. Language Learning, n. 48/3, p. 323-63, 1998. READ, J. Assessing Vocabulary. Cambridge: Cambridge University Press, 2000. RICHARD, J.; HULL, J.; PROCTOR, S. New Interchange Video 1: Cambridge: Cambridge University Press, 1997. RUTHERFORD, W.; SHARWOOD SMITH M. ‘Consciousness raising and universal grammar’ Applied Linguistics 6: 274:82, 1985. SHARWOOD SMITH, M. Consciousness raising and the second language learner. Applied Linguistics, n. 2, p. 159-69, 1981. SHARWOOD SMITH, M. Speaking to many minds: on the relevance of different types of language information for the L2 learner. Second Language Research, n. 7, p. 118-32, 1991. SMITH, N. (1989). The twitter machine. Oxford: Blackwell. SPERBER, D.; WILSON, D. (1986). Relevance: communication and cognition. Oxford: Blackwell. _______________________. (1995). 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