0
UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO
RIO GRANDE DO SUL
DHE – DEPARTAMENTO DE HUMANIDADES E EDUCAÇÃO
CURSO DE PSICOLOGIA
A ESCOLHA DE OBJETO NA HOMOSSEXUALIDADE
JOSÉ ANTONIO STONA
Ijuí – RS
2014
1
JOSÉ ANTONIO STONA
A ESCOLHA DE OBJETO NA HOMOSSEXUALIDADE
Trabalho de pesquisa supervisionado
apresentado como requisito parcial para
conclusão do curso de formação de
Psicólogo na UNIJUÍ – Universidade
Regional do Noroeste do Estado do Rio
Grande do Sul.
Orientador: Daniel Ruwer
Ijuí – RS
2014
2
Dedico este trabalho a minha mãe Odete Stona
por todo seu apoio hoje e sempre.
3
RESUMO
Este trabalho é estruturado através de pesquisa bibliográfica a respeito do tema: a
escolha de objeto homossexual e suas repercussões contemporâneas. Está dividido
em dois capítulos: o primeiro capítulo aborda a conceituação história do termo
homossexual e seus efeitos através da história. O estudo demonstra como que
historicamente as relações de pessoas com o mesmo sexo são marcadas por uma
dualidade, sendo estimadas e abominadas; aborda, ainda, as lutas dos
homossexuais por direitos civis através de diversos movimentos. O segundo capítulo
é uma revisão da teoria Freudiana sobre a escolha de objeto, especificando a
escolha de objeto homossexual. Freud apresenta que existem apenas dois modelos
cujo qual todo o sujeito está propenso para escolher seu par amoroso, o modelo das
figuras parentais e o modelo narcísico. Sendo o primeiro modelo referente a
cuidados maternos e virilidade paterna isto é, ser amado e tratado como o foi pela
mãe/pai. E o segundo sendo mais complexo, entra no campo de uma escolha ligada
ao próprio eu; o objeto é escolhido conforme quem o escolheu. Neste campo
debate-se o processo de escolha característico da homossexualidade.
Palavras-chaves: Escolha de Objeto. Homossexualidade. Movimentos LGBTT.
Narcisismo. Pulsão.
4
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO ............................................................................................................. 5
1 A HOMOSSEXUALIDADE NA HISTÓRIA OCIDENTAL.......................................... 7
1.1 MOVIMENTOS LGBTT ........................................................................................ 13
2 A ESCOLHA DE OBJETO HOMOSSEXUAL NA TEORIA FREUDIANA .............. 19
CONSIDERAÇÕES FINAIS ....................................................................................... 36
REFERÊNCIAS .......................................................................................................... 39
5
INTRODUÇÃO
No decorrer da história ocidental, a homossexualidade sofreu diversas
modificações termológicas, de patologia a rito de passagem, sempre sendo uma das
sexualidades mais discutidas nas culturas. Minha pergunta central baseia-se em
onde essa escolha de um parceiro do mesmo sexo se efetiva e se isso é algo
patológico ou não. Conforme a homossexualidade ficou cada vez mais sendo
tomada de forma intempestiva, médicos, filósofos, psicólogos e até pessoas de
senso comum, buscaram uma reposta que defina a etiologia da homossexualidade.
Freud então inicia seu trabalho teorizando sobre o tema da homossexualidade, não
apresentada nessa nomenclatura, porém de mesmo significado. Ele interpreta essa
e outras formas da sexualidade tentando teorizar através da psicanálise a resposta
para a questão.
As diversas formas de interpretação e enunciação da homossexualidade
variaram muito conforme sua época, no presente trabalho, discorro sobre como cada
uma delas: Grega, Romana, Vitoriana, Chinesa e Babilônica lidaram com essa
manifestação da sexualidade e como suas repercussões influenciam nossa
interpretação atual da mesma.
A
presente
pesquisa
aborda
as
diversas
modificações
que
a
homossexualidade sofreu através da historia e a resposta sobre a teoria Freudiana
frente à escolha de objeto homossexual. O primeiro capítulo aborda desde a
sodomia
a
homoafetividade,
fazendo
um
percurso
do
conceito
de
homossexualidade, seus movimentos recorrentes contrariando a necessidade de
indivíduos da época em etiquetá-la enquanto patológica. E as diversas novas formas
classificatórias da sexualidade que se unem a homossexualidade na busca por uma
melhor qualidade de vida e de direitos, dando origem aos movimentos gay no mundo
6
e sua repercussão no Brasil. O segundo capítulo busca desenvolver a questão
levantada sobre a etiologia da homossexualidade, se seu caráter é apenas biológico,
se a escolha do sujeito é apenas consciente, se é uma doença e assim fazendo um
percurso na obra Freudiana sobre a teoria da sexualidade, suas repercussões na
vida do sujeito até sua escolha de um parceiro amoroso.
A relevância do trabalho encontra-se na evidência que o tema abordado
possui na contemporaneidade. O debate político, religioso e científico tem adquirido
destaque nos diversos segmentos sociais e ocupam a pauta cotidiana de interesse,
fazendo
sociedade
inquietar-se
para
buscar
respostas
homossexualidade é uma doença? Tem cura? É uma escolha?
às
questões:
A
7
1 A HOMOSSEXUALIDADE NA HISTÓRIA OCIDENTAL
Fome, um poeta disse uma vez, é a coisa mais importante que
conhecemos, a primeira lição que aprendemos. Mas a fome pode ser
facilmente acalmada, facilmente saciada. Há uma outra força, um tipo
diferente de fome, uma sede insaciável que não pode ser extinta. A sua
própria existência é o que nos define, nos torna humanos. Essa força é o
amor. Amor, você vê, é a única força que não pode ser explicada, não pode
ser dividida em um processo químico. É o farol que nos guia de volta para
casa, quando ninguém está lá, uma luz que ilumina a nossa perda. Sua
ausência nos priva de todo o prazer, da nossa capacidade de alegria. Faz
as nossas noites mais escuras e os nossos dias mais sombrios. Mas
quando encontramos o amor, não importa o quão errado, quão triste, ou
quão terrível, nos agarramos a ele. Dá-nos a nossa força. Ele nos mantém
de pé. Alimenta-se de nós e nos alimentamos dele. O amor é a nossa graça.
O amor é a nossa ruína (The Strain).
Muito se tem estudado sobre a escolha de um parceiro amoroso. Diversas
são as áreas de estudo que, com diferentes respostas tentam buscar uma
explicação para essa escolha. De poetas a filósofos, o caminho a ser percorrido é
cheio de mistérios e traços que perpassam por várias partes da nossa mente e
corpo.
Com pluralidade de exibições de objetos na contemporaneidade fica cada
vez mais difícil definir um padrão para cada sujeito, mas uma coisa podemos nos
perguntar: essa escolha é apenas consciente? E é realmente uma escolha? Tentarei
abordar tais perguntas no caminho deste ensaio monográfico.
Quando falamos em parceiro amoroso automaticamente nos remetemos ao
campo da sexualidade. As manifestações sexuais sempre foram um tema tabu para
a sociedade, mas, a ciência busca explicar alguns fenômenos para que possamos
entender os contextos classificados como “normais” ou “patológicos”. A psicologia
tem um grande percurso no campo da sexualidade, mas utilizarei o recurso teórico
psicanalítico para sustentar o debate proposto sobre o que define a escolha de
objeto na homossexualidade.
Inicialmente proponho buscarmos uma conceituação histórica do termo
homossexual, considerando as maneiras como as civilizações se organizavam frente
a sexualidade. Tal organização variou muito conforme a cultura e a história de cada
uma delas. Seguimos, assim, na perspectiva em que “a história, (...), reflete as
opiniões e emoções do tempo em que foi escrita; é altamente subjetiva, já que cada
época lança uma diferente luz sobre o passado” (SPENCER, 1996, p. 60).
8
A Homossexualidade foi sempre um tabu e passou por momentos de grande
repressão sexual1. O termo homossexualidade surgiu em 1969, termo de origem
grega (homos = semelhante) criado pelo médico húngaro Karoli Maria Kertbeny
designando como termologia clínica, uma forma de amor carnal entre pessoas do
mesmo sexo. Inicialmente considerada como um impulso sexual anormal, um horror
ao sexo oposto. Opondo-se ao termo da heterossexualidade.
Segundo Farias e Maia (2012) antes da dominação católica, poucas culturas
haviam demonstrado preocupação moral frente à sexualidade, a maior preocupação
eram as posições exercidas socialmente e não ao “sexo do parceiro”. As relações
entre pessoas do mesmo sexo eram vistas como normais e o que se tornava
importante era quem exercia o papel ativo na relação, pois no caso dos homens o
passivo era considerado menos homem frente ao seu papel e status social.
Registros arqueológicos antigos apresentam que já existiam conotações
homoeróticas “em épocas como 12000 a.C. Civilizações antigas da China, Egito,
Grécia, Babilônia têm registros de períodos onde a homossexualidade era retratada
em cerâmica, escultura e pinturas”2. Entende-se que em diversos períodos da
história a homossexualidade era concedida em várias civilizações.
Diferentes civilizações trataram a homossexualidade de forma bastante
peculiar:
Entre os babilônios, por exemplo, ocorria a prostituição masculina na qual
aqueles que desempenhavam tal profissão assumiam sempre uma postura
passiva [...] Assim não se pode dizer que na Babilônia as relações
homossexuais tenham sido reprovadas desde que fossem respeitadas as
posições ativa/passiva (FARIAS; MAIA, 2012, p. 24).
No Egito antigo (2º milênio a.C.) as relações homossexuais eram pouco
toleradas pela sociedade, não era um ato moralmente aprovado, e foi condenada
legalmente em determinados períodos da história egípcia. Violar outro homem era
considerado um ato de agressão, era visto como um meio de obter poder sobre um
adversário.
1
Segundo Chauí (1984, p. 9) defini-se repressão sexual como um “conjunto de interdições,
permissões, normas, valores e regras estabelecidos histórica e culturalmente para controlar o
exercício da sexualidade” Segundo a autora é por meio da repressão que se diz o que é considerado
certo ou errado socialmente em relação aos comportamentos sexuais em uma determinada cultura. A
repressão sexual faz com que elementos que eram exteriores ao indivíduo, as regras, sejam
internalizadas em culpa e vergonha quando são transgredidas.
2
Cornelli e Costa (2013).
9
Na China (256 a.C.) as relações eram voltadas para o aumento econômico e
de status entre duas famílias. O amor romântico era permitido fora desse sistema de
matrimônio, ou seja, “não havia nada que condenasse um homem que quisesse
vivenciar uma relação homossexual fora do casamento” (FARIAS; MAIA, 2012, p.
25).
Porém, as representações também se davam no viés ativo/passivo onde
uma família mais pobre correspondia à passiva e a família rica a ativa.
Os homens sentiam-se atraídos sexualmente por ambos os sexos e o afeto
romântico podia também envolver tanto dois homens como um homem e
uma mulher [...] o casamento era esperado e habitual, mas quase sempre
desligado de sentimento, do amor, do afeto. [...] os casamentos eram uniões
socioeconômicas e políticas entre famílias (FARIAS; MAIA, 2012, p. 25).
Na Grécia a homossexualidade era vista como uma coisa comum, atos
sexuais com características próprias.
O tipo de relação que incluía o sexo entre dois homens na Grécia antiga era
chamado de pederastia e consistia em um ritual realizado por um homem
mais velho que, por meio de sua experiência, visava iniciar um rapaz jovem
na sociedade de maneira que ele se tornasse um cidadão (FARIAS; MAIA,
2012, p. 26).
As relações através desse ritual de passagem eram situadas também no
campo da atividade com o homem mais velho e passiva com o jovem, essa
transmissão do saber e preparação para guerra era dada através do coito e era um
ritual de extrema importância para os gregos. As relações entre homens adultos
eram pouco vistas, a importância se dava apenas na postura ativa que o homem
assumia.
Para o homem, o desejo sexual, desde que seja ativo, pode voltar-se tanto
para o sexo oposto quanto para seu próprio sexo. A separação entre o
aspecto privado e o público é nítido. Como pessoa privada, o homem grego
tem uma relação sexual com sua mulher, suas concubinas... Mas, na
qualidade de homem público, ele gosta dos rapazes. Esta relação pederasta
é valorizada, pois constitui um processo integrador à cidade, pela
aprendizagem de um papel social e político, ele próprio valorizado.
Nenhuma contradição é sentida entre a vida da casa e a do espaço aberto
da ágora. Em particular, as esposas não concorrem com os rapazes, os
paides. Estes e aqueles pertencem a dois campos heterogêneos [...] Neste
‘clube de homens’ que constitui a cidade grega, as funções são bem
delimitadas. À heterossexualidade cabe a formação do indivíduo físico. A
homofilia encarrega-se do indivíduo social e cultural. O adulto jovem e ativo,
10
após seu casamento, pode buscar o prazer com as mulheres ou com os
rapazes, ou ainda com ambos. É uma questão de escolha, guiada por um
gosto pessoal (CATONNÉ, 1996, p. 38).
O período grego é o mais famoso perante as relações homo, pois, eram
relações tidas como extremamente naturais para a cultura da época “considerava-se
que os indivíduos tinham apetite sexual e que este era satisfeito indistintamente por
meio dos dois sexos, homem ou mulher, ou seja, independia de identidade ou
diferença de sexos” (FARIAS; MAIA, 2012, p. 28). O mais interessante dessa época
é que segundo Brandão (2002, p. 46):
A bissexualidade era vista sem depreciações ou interdições na esfera
social, sendo que a heterossexualidade era vista, inclusive, como uma
preferência inferior e destinada à procriação. Já a homofilia era tida como
uma necessidade natural, que se limitava a um ambiente culto, não
havendo a concepção de doença, vício ou degradação moral que ocorrerá
depois, por influência das concepções cristã e científica.
Nessa época, o jovem para entrar na vida adulta e aprender sobre o amor e
a guerra era necessário passar por um ritual de passagem, onde era entregue a um
homem mais velho que o penetraria lançando seu sêmen e seu saber para o jovem.
“[...] as mães e o restante das mulheres aceitam o papel que os jovenzinhos estão
prestes a desempenhar, já que foram ensinadas que é dessa maneira que eles se
tornam homens” (SPENCER, 1996, p. 29).
Já na Roma antiga (século II a.C.) as manifestações sexuais possuíam um
teor mais agressivo frente aquele que assumia o papel passivo, o mesmo era
sinônimo de fragilidade, sendo então tomado única e exclusivamente como escravo.
Como quem desempenhava o papel passivo eram rapazes, mulheres e
escravos – todos excluídos da estrutura do poder – clara a relação entre
masculinidade – poder político e passividade – feminilidade – carência de
poder (DIAS, 2006, p. 27).
As relações entre pessoas do mesmo sexo eram de dominação frente ao
jovem ou escravo, que era submisso aos prazeres do homem livre.
Na Grécia e em Roma, a homofilia (o termo homossexualismo é recente)
masculina era tolerada e, em certos casos, estimulada, havendo muitos que
julgavam o amor verdadeiro ser possível apenas entre pessoas do mesmo
sexo, o casamento implicando outros sentimentos (respeito, amizade, dever,
11
responsabilidade social) que não o amor [...] O pederasta e o homofílico
(homo = o mesmo; filia = amizade) não eram monstros, nem doentes nem
criminosos (como viriam a ser tratados depois), mas nem por isso deixavam
de existir códigos, normas, regras e valores regulamentando a homofilia e,
portanto, formas de repressão [...] (CHAUÍ, 1984, p. 22-23).
No decorrer da história romana, a decadência das grandes cidades e o
aumento do absolutismo com a influência do cristianismo, foi então entrando num
viés de penalização, como um ato ilegal e com justificativa a ser queimado vivo.
[...] o mundo antigo parecia ter aceitado a sexualidade de maneira
descontraída [...] nenhuma crença ética tinha selecionado e favorecido uma
expressão da sexualidade em relação à outra. Nem havia um conceito do
que é “natural” ou “antinatural” em formulação (SPENCER, 1996, p. 49).
Na maioria das civilizações a bissexualidade do homem era representada
positivamente, como um costume social. Tendo em vista que “metade do mundo
civilizado [...] não tinha naquela época medidas repressivas contra o comportamento
homossexual; pelo contrário, algumas sociedades o celebravam positivamente”
(SPENCER, 1996, p. 80).
A homossexualidade sempre fez parte da história, porém, é no domínio do
cristianismo que se encontra o cerne para o qual a sexualidade seria reprimida e as
relações do mesmo sexo abominadas. A delimitação do sexo apenas para
procriação fez com que a homossexualidade fosse totalmente banida e etiquetada
numa condição patológica, devendo ser erradicada. A necessidade de controle
sexual da igreja fez com que o cristianismo estipulasse a obrigatoriedade do sexo
somente no âmbito do casamento, considerando a fidelidade um dever absoluto
para aqueles que buscam a salvação e associando a ideia de pecado ao sexo.
Os preceitos do cristianismo sempre basearam-se nas mensagens bíblicas
no sentido de valorizar a restrição dos prazeres ao casamento, com o objetivo de
aprimorar a relação sexual apenas para o seguimento das gerações.
Além da orientação para a procriação, a moral sexual cristã recebeu do
estoicismo o ascetismo e a rigorosidade. Da filosofia platônica, recebeu a
visão dualista do homem – alma/corpo – onde o corpo é visto como inimigo
da alma. Embora sejam filosóficas as raízes da tradição judaico-cristã, são
os precursores do Cristianismo que implantaram a ideia de sexo como
pecado (FIGUEIRÓ apud FARIAS; MAIA, 2012, p. 42).
12
Com a necessidade de regulação sexual a homossexualidade representava
o puro prazer, então um pecado contra a natureza e por isso a heterossexualidade
passa a ser a sexualidade padrão.
O paganismo opunha atividade e passividade; o Cristianismo introduz outro
par de opostos, feito de uma homofilia interdita e de uma
heterossexualidade autorizada como única. Mas a nova religião faz ainda
mais: ela codifica rigorosamente a prática heterossexual; acima de tudo, ela
identifica o próprio sexo ao mal (CATONNÉ, 1996, p. 43).
O cristianismo teve forças por diversas décadas com essa moral frente a
homossexualidade. Farias e Maia (2012) elucidam que até meados de 1700 “a
relação de pessoas do mesmo sexo era compreendida como um pecado contra
Deus, ou seja, uma falha moral” (p. 43). Com a influência do racionalismo, as
explicações religiosas para os fenômenos da vida foram perdendo lugar para a
ciência.
Esta reformulação de atitudes frente ao comportamento moral e físico dos
indivíduos e a inserção da família como coadjutora na execução de
propostas médicas normatizadoras irão perdurar até a metade do século XX
(RIBEIRO apud FARIAS; MAIA, 2012, p.13).
Na era vitoriana3, a sexualidade teve seu momento ápice de repressão.
Consolida-se a diferença entre o que era sexualidade dita normal (exclusiva para
reprodução) ou perversa (outras formas de prazer sexual que não visassem á
procriação). Apesar da repressão sexual, diversas ideias que colocaram a
sexualidade (um tema conflituoso da época) de forma consequentemente visível,
acabaram por colocar o sexo no centro de uma atenção pública e privada. Assim
surge uma necessidade de classificação médica detalhada de todos os desvios
conhecidos,
entre
os
quais
se
contavam
a
histeria,
a
ninfomania,
a
homossexualidade e até a masturbação. O objetivo era que todas essas
manifestações poderiam ser ajustadas e sujeitas a uma terapia médica adequada.
Assim
em
conflito
com
a
medicina
e
com
os
delineamentos
cristãos
contemporâneos, surgem movimentos que visam resistir a ideia de que a
sexualidade deveria ser reprimida ou encaixada num contexto patológico.
3
Movimento que surgiu na Inglaterra no século XIX como resposta ao liberalismo advindo com o
Iluminismo (FARIAS; MAIA, 2012, p. 43).
13
1.1 MOVIMENTOS LGBTT
O tema da homossexualidade vem cada vez mais fazendo parte da agenda
pública da sociedade brasileira, ainda que muitos tentem impor silêncio sobre o
assunto. A homossexualidade, como vimos, é estabelecida enquanto aspecto
cultural resultante de processos sociais característicos de cada sociedade em
determinada
circunscrição
temporal.
O pungente
interesse pelo
tema
na
contemporaneidade se deve ao fato de que a cultura homossexual tem sofrido mais
mudanças neste período do que em qualquer outro momento histórico, gerando
assim uma grande visibilidade e questionamentos.
Quando Foucault (2005) fala da intensa repressão sexual gerada na era
vitoriana, podemos perceber uma repetição da mesma em nosso período atual;
estamos vivendo novamente uma transgressão deliberada das expressões da
sexualidade. Ele elucida na história da sexualidade os diversos momentos em que a
mesma era tabu social, até conseguir sua forma de expressão subjetiva. Porém
diversos momentos de uma história passada se encontram em destaque em nossa
contemporaneidade.
Segundo
4
homossexual
Mariusso
(2011),
os
grandes
momentos
do
movimento
de enfrentamento desta forma repressiva de circunscrever a
sexualidade, podem ser classificados em três grandes ondas, conforme o autor as
refere. A primeira, em meados do século XIX onde na Europa houve uma
necessidade de confrontar as ideias da medicina que queria comprovar a
homossexualidade como causa biológica, e assim, possuindo cura. Com isso,
estudos contra a causa biológica foram as primeiras movimentações de libertação.
O segundo momento surge em 1924 nos Estados Unidos. As primeiras
organizações autoproclamadas homófilas visavam “a melhoria da qualidade de vida
e [...] trabalhavam para educar o público a respeito da homossexualidade e para
oferecer apoio aos indivíduos homossexuais, perduraram durante as décadas de 50
e 60” (MARIUSSO, 2011, p. 1).
4
O termo movimento homossexual é aqui entendido como o conjunto das associações e entidades,
mais ou menos institucionalizadas, constituídas com o objetivo de defender e garantir direitos
relacionados à livre orientação sexual e/ou reunir, com finalidades não exclusivamente, mas
necessariamente políticas, indivíduos que se reconheçam a partir de qualquer uma das identidades
sexuais tomadas como sujeito desse movimento (FACHINNI, 2005, p. 4).
14
Porém, foi só aliando-se ao movimento feminista que, entre outros, lutou
pelo direito ao prazer sexual; o grupo desenvolveu de uma forma mais radical. Na
noite de 28 de junho de 1969, surge então o tercerio momento, alegando o
descumprimento da lei sobre a venda de bebida alcoólica, policiais tentaram mais
uma vez fechar o stonewall bar frequentado por homossexuais em Nova York.
Os homossexuais que ali estavam que não se intimidaram, e atacaram os
policiais com garrafas e pedras, forçando-os a chamar reforços. Gritando
frases como “Poder Gay” e “Sou bicha e me orgulho disso” os
homossexuais e demais residentes do bairro acabaram chamando a
atenção da imprensa e a cidade parou para ver o desfecho da situação
(MARIUSSO, 2011, p. 3).
Este foi o marco central na história dos movimentos sexuais. Desde o
respectivo fato5, os movimentos rejeitaram a palavra homossexual aderindo ao
termo gay.
A partir disso, segundo Nunan (2003) no espaço de uma década (19701980), assiste-se ao surgimento, nos Estados Unidos e em diversas partes do
mundo, de uma nova minoria, dotada de uma identidade própria, cultura, expressão
política e reivindicações quanto a sua legitimidade.
Segundo Fry (1993), no Brasil, as primeiras iniciativas do movimento
homossexual surgiram no final da década de 70 com a fundação no Rio de Janeiro
do “Jornal Lampião da Esquina” (1978) e do grupo “SOMOS – Grupo de Afirmação
Homossexual” (1979), coincidindo com a chamada abertura política na época da
Ditadura Militar no país.
“SOMOS” segundo Fachinni (2005) foi “a fundação do primeiro grupo
brasileiro reconhecido na bibliografia como tendo uma proposta de politização da
questão da homossexualidade, o grupo de São Paulo, ocorreu em 1978”. O Brasil
veria então a estreia do evento em São Paulo exatamente 25 anos mais tarde, em
1995. Tal marco do movimento se deu após os duros embates sofridos pela
epidemia da Aids no país, com as perdas ocasionadas pela mesma em todos os
sentidos, inclusive nos quadros ideológicos.
Embora a discriminação ainda se mantenha, a agenda estratégica dos
movimentos gay não está muito preocupada em diferenciar causas congênitas ou
5
Essa data é comemorada em mais de 140 países como dia internacional do orgulho gay sendo que a
primeira parada ocorreu em 1970, nos Estados Unidos.
15
adquiridas da homossexualidade. Discute direitos civis, como o casamento, além de
direitos sociais e políticos. Os movimentos lutam justamente pelo direito à livre
orientação sexual e à identidade de gênero6.
O movimento surge da ideia de mostrar que os homossexuais são seres
humanos, independente de sua orientação afetivo sexual, e identidade de
gênero. Por meio das militâncias, dos movimentos em massa, etc.,
buscavam mostrar que não precisavam ser tratados diferentemente dos
heterossexuais, diferentes sim, desiguais não (MARIUSSO, 2011, p. 11).
Apesar da psicanálise freudiana produzir importantes reflexões sobre a
homossexualidade já no inicio do século XX, foi somente em 1973 que a associação
psiquiátrica americana teve a iniciativa de retirá-la da lista de transtornos mentais e
da qualidade da doença. E em 1985 com a revisão do Código Internacional de
Doenças (CID-10), a homossexualidade perde, no Brasil, o caráter de desvio e
transtorno sexual. E apenas em 1923 a Organização Mundial de Saúde adota o
termo homossexualidade ao invés de homossexualismo (ismo utilizado para
identificar doenças).
Assim aderindo a novas termologias para melhor compreender as diferentes
formas de sexualidade, o movimento cria então o acrônimo GLS7 para poder
destinar significados e espaços referentes à temática gay. Porém, a sigla é
reformulada, pois, deixa de forma excludente algumas outras classificações sexuais
como bissexuais8, travestis9 e transsexuais10. Adotando o novo acrônimo de LGBTT
(lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transsexuais).
6
Cabe aqui uma distinção conceitual: segundo O Manual de Orientação LGBT (2009, p. 12) a
orientação sexual é “a atenção afetiva e sexual que uma pessoa tem por outra do mesmo sexo o do
sexo oposto” e identidade de gênero estando “ligada a forma como a pessoa se vê e como quer ser
vista em relação a sua identidade social”.
7
Sigla que se popularizou por designar, em uma única sigla, não só os “gays” e “lésbicas”, mas
também aqueles que, independentemente de orientação sexual ou identidade de gênero, são
solidários, abertos e “simpatizantes” em relação à diversidade LGBT. GLS também é utilizado para
descrever as atividades culturais e mercadológicas comuns a este grupo de pessoas (ABGLT, 2009,
p. 14).
8
É a pessoa que se relaciona afetiva e sexualmente com pessoas de ambos os sexos/gêneros. Bi é
uma forma reduzida de falar de pessoas Bissexuais (AGLBT, 2009, p. 13).
9
Pessoa que nasce do sexo masculino ou feminino, mas que tem sua identidade de gênero oposta ao
seu sexo biológico, assumindo papéis de gênero diferentes daquele imposto pela sociedade (AGLBT,
2009, p. 20).
10
Pessoa que possui uma identidade de gênero diferente do sexo designado no nascimento. Homens
e mulheres transexuais podem manifestar o desejo de se submeterem a intervenções médicocirúrgicas para realizarem a adequação dos seus atributos físicos de nascença (inclusive genitais) a
sua identidade de gênero constituída.
16
Outro fato marcante para o movimento LGBTT deu-se em 1999, quando o
Conselho Federal de Psicologia (CFP, 1999, p. 2)11 “Estabelece normas de atuação
para os psicólogos em relação à questão da Orientação Sexual” e reitera que “a
homossexualidade não constitui doença, distúrbio ou perversão”.
A partir de 1995 os debates sobre a homossexualidade no Brasil
aumentaram, e então passa a ser criada uma entidade representativa nacional
chamada Associação Brasileira de Gays, Lésbicas e Transgêneros (ABGLT). “Criada
em 31 de janeiro de 1995, com 31 grupos fundadores. Hoje a ABGLT é uma rede
nacional de 308 organizações afiliadas. É a maior rede LGBT na América Latina”
(ABGLT, 1995, p. 1). O que cada vez mais aumentou as organizações associadas e
hoje conta com 308, assim ganhando cada vez mais força política.
Com seus contínuos avanços os movimentos se unem ao governo federal e
criam então o Conselho Nacional de Combate à Discriminação (CNCD, 2004) que
tem por função “acompanhar políticas públicas para defesa dos direitos de
indivíduos e grupos sociais vítimas de descriminalização racial ou outra forma de
intolerância” (NAÇÕES UNIDAS DO BRASIL, 2011, p. 31).
Integrando-se entre si, essas instituições abriram a porta para a criação do
Programa Brasil sem Homofobia12, lançado em maio de 2004, de parceria entre
Governo Federal e a ABGLT. Com os avanços obtidos, o movimento LGBTT parte
para desafios maiores no campo jurídico. Com a interpretação do Supremo Tribunal
Federal da legislação constitucional13, reconhecendo a família monoparental
constituída por vínculos afetivos, abriu-se a possibilidade formarem-se, inclusive,
famílias integradas por indivíduos do mesmo sexo que vinculam-se afetivamente, daí
o surgimento do termo homoafetividade14; Esta decisão foi de grande repercussão e
importância para direito familiar e para a adoção não apenas dos homossexuais
mas, de qualquer individuo que queria constituir uma família.
E no dia 04 de maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal “reconhece a
união estável para casais do mesmo sexo”. Tendo direito à partilha de bens,
11
Resolução nº 001/99, de 22 de março de 1999. Lex: Coletânea de Legislação e Jurisprudência,
Brasília, p. 1-2.
12
Programa de Combate à Violência e à Discriminação contra GLTB e de Promoção da Cidadania
Homossexual (BRASIL, 2004, p. 3).
13
Constituição Federal de 1988 (BRASIL, 1988, art. 226).
14
Cunhado por Maria Berenice Dias na edição da obra: União Homossexual, o preconceito de a
Justiça, no ano de 2000. Não é usado para descrever pessoas, mas sim as relações entre as pessoas
do mesmo sexo/gênero.
17
heranças, à adoção de crianças e ao acesso a alguns tipos de benefícios, como
financiamento da casa própria.
Assim, apesar de em toda sua história a sexualidade sofrer repressão, há
evoluções importantes propiciadas pelas lutas dos movimentos sociais e pelos
diversos avanços científicos no modo de compreendê-la, situando-a num campo de
despatologização. Porém, com toda a repercussão apresentada pelos movimentos,
diversas reações são ouvidas nos mais diferentes segmentos da sociedade.
Determinados militantes vêm novamente em busca da homogeneização das
questões vinculadas à escolha sexual.
Atualmente a homossexualidade tem o que Foucault (2005, p. 11) chama de
“uma crônica de crescente repressão”. Essa prática é comandada por figuras
religiosas e líderes políticos que utilizam seu poder para uma busca de regresso e
patologização dos prazeres que não tem como finalidade a continuidade da geração
e, principalmente da homossexualidade.
Utilizando-se de conceitos morais próprios tentam criar uma sociedade
homogênea. Partem de um pressuposto de uma civilização singular em um
retrocesso secular onde, não se poderia novamente expressar a sexualidade. Eles
elucidam uma nova sociedade regressa a era de interdição, censura e negação.
Através de recursos de repugnância frente ao tema utilizam-se de seu poder
político ou religioso para uma regulação da sexualidade.
É porque se afirma essa repressão que se pode ainda fazer coexistir,
discretamente, o que o medo do ridículo ou o amargor da história impedem
a maioria dentre nós de vincular: revolução e felicidade; ou, então,
revolução e um outro corpo, mais novo, mais belo; ou, ainda, revolução e
prazer. Falar contra os poderes, dizer a verdade e prometer o gozo; vincular
a iluminação, a liberação e a multiplicação de volúpias; empregar um
discurso onde confluem o ardor do saber a vontade (FOUCAULT, 2005, p.
12).
A utilização de dois grandes polos de domínio como a política e a religião
retoma toda teorização Foucaultiana da sexualidade diretamente ligada ao poder
pois “os efeitos de poder levam a formular a verdade do sexo ou, ao contrário,
mentiras destinadas a ocultá-lo, mas revelar a ‘vontade de saber’ que lhe serve ao
mesmo tempo de suporte e instrumento” (FOUCAULT, 2005, p. 17).
18
Assim, podemos obter alguma resposta frente à eficácia dessas tentativas.
Foucault fala sobre a necessidade de uma ordenação sexual no século XVIII e
podemos ver que esses líderes atuais pensam na homossexualidade como um
objeto de análise patológica e de intervenção, entrando numa dimensão de
“erotismo discursivo generalizado” (FOUCAULT, 2005, p. 34). Essa tentativa de
retomada ao “puritarismo” na dimensão de interdição, inexistência e mutismo sobre a
homossexualidade só faz com que mais ainda seja discutido. O homossexual está
num lugar em que:
Nada daquilo que ele é, no fim das contas, escapa à sua sexualidade. Ela
está presente nele todo: subjacente a todas as suas condutas, já que ela é
o princípio insidioso e infinitamente ativo das mesmas; inscrita sem pudor na
sua face e no seu corpo já que é um segredo que se trai sempre. É lhe
consubstancial, não tanto como pecado habitual, porém como natureza
singular (FOUCAULT, 2005, p. 43).
Essa caça a homossexualidade diz de um lugar de erotização quase, ou tão
grande quanto à caçada selvagem, um retrocesso que busca novamente aniquilar
aquilo que é diferente, aquilo cuja obtenção de prazer incomoda o outro. Diversos
militantes contra o movimento LGBTT buscam ainda em nosso século XXI evidenciar
que a homossexualidade é uma determinação patológica, e assim possuí diversas
formas de cura.
19
2 A ESCOLHA DE OBJETO HOMOSSEXUAL NA TEORIA FREUDIANA
O debate social acerca do tema homossexualidade tem convocado diversas
áreas do saber a se posicionarem a respeito do tema e de suas origens. No contexto
descrito
no
capítulo
anterior,
a
homossexualidade
situa-se
historicamente
modificando-se de acordo com a compreensão que cada cultura construiu a seu
respeito. Todavia, a indagação sobre suas causas persiste na perspectiva de
enquadrá-la como patológica ou como livre expressão do desejo humano. Mas
afinal, como se dá a escolha de objeto homossexual? Para abordar esta questão
passamos a debater a elaboração de Sigmund Freud sobre esta temática, campo
que nos referencia teoricamente.
Freud (1989) começou a atender pacientes que sofriam de um quadro que
ele denominou histérico15. Através de observações e estudos, juntamente com
colegas começou a interpretar essa forma de manifestação patológica. Teve um
longo percurso de estudo teórico para o reconhecimento de diversas manifestações
da “alma”, anulando diversas enunciações de paradigmas sobre o que é normal e o
que é patológico.
Através de seus estudos comprovou que a existência dos sofrimentos
humanos não provinha apenas do biológico, mas também da psique (mente). Não
abandonando totalmente a importância dos conteúdos biológicos, Freud entra
profundamente em teorizações a cerca de uma ainda nova ciência chamada
psicanálise. Num campo mais linguístico-filosófico ela interpreta as diversas
manifestações da psique de seus pacientes, criando e comprovando a existência do
inconsciente.
Em uma época onde a sexualidade era praticamente exclusiva ao
matrimônio e ainda considerada um tabu social, a construção da teoria Freudiana
segue rumo a um caminho de interpretação da sexualidade. No desenrolar dos anos
de pesquisa, começou a entender que as causas dos sintomas de seus pacientes
provinham de fatores da vida sexual. O que o deixou extremamente intrigado,
porém, a sexualidade era um assunto totalmente intimo e particular, os médicos não
tinham direito de conhecimento tão privado do paciente. Ele reconheceu tal
15
“Um quadro clínico empiricamente descoberto” (FREUD, 1993-1895, p. 117).
20
dificuldade e buscou interpretar de uma forma mais investigativa essas
manifestações sexuais de seus pacientes.
O conhecimento sobre a sexualidade na época era extremamente vago,
então buscou um método em que seus pacientes falassem mais sobre sua
sexualidade chegando à conclusão de que:
Em matéria de sexualidade, somos todos, no momento, doentes ou sãos,
não mais do que hipócritas. Será muito bom se obtivermos, em
consequência dessa franqueza geral, uma certa dose de tolerância quanto
às questões sexuais (FREUD, 1898, p. 79).
Ele relata que os médicos da época tinham pouco interesse nas questões
sexuais de seus pacientes e busca então aprofundar-se nesse campo ainda
desconhecido. Em busca de uma resposta para a sintomatologia de seus pacientes,
ele cada vez mais se aproxima de uma etiologia das neuroses e através do método
catártico ele faz uma ligação entre sexualidade e neurose, dizendo que elas residem
no campo da sexualidade.
Por um singular percurso tortuoso de que falarei mais adiante, é possível
chegar a um conhecimento dessa etiologia e compreender por que o
paciente era incapaz de nos dizer qualquer coisa a esse respeito. Pois os
acontecimentos e influências que estão na raiz de toda psiconeurose
pertencem, não ao momento atual, mas a uma época da vida há muito
passada, que é, por assim dizer, pré-histórica - à época da primeira infância;
e eis por que o paciente também nada sabe deles. Ele os esqueceu embora apenas em determinado sentido (FREUD, 1898, p. 79).
Concluindo que em todo caso de neurose reside algo sexual ele cada vez
mais se aproxima de um evento que se revelaria um marco na história mundial e
também um dos seus trabalhos mais importantes. Buscando cada vez mais em seus
pacientes o teor sexual da causa de seus sintomas, observa que os médicos tentam
apenas acabar com os sintomas e não interpretar sua causa, o que faz com que eles
voltassem ainda mais fortes e distantes de uma cura possível.
Se os médicos soubessem que o paciente estava lutando contra seu hábito
sexual, e que estava em desespero por ter sido mais uma vez obrigado a
ceder a ele, se compreendessem como extrair dele esse segredo, torná-lo
menos grave a seus olhos e apoiá-lo em sua luta contra o hábito, o êxito de
seus esforços terapêuticos bem poderia ser assim assegurado (FREUD,
1898, p. 82).
21
Ele começa a perceber que seus pacientes então sofrem de reminiscências
sexuais onde a necessidade de satisfação barrada é deslocada para outro meio.
Freud busca encontrar a fonte dessa necessidade imperativa onde o paciente
encontra “substitutos da falta de satisfação sexual; e sempre que a vida sexual
normal não pode mais ser restabelecida, podemos contar, com certeza, com uma
recaída do paciente” (FREUD, 1996, p. 83). Com suas teorias cada vez encontrando
mais força, ele tenta compartilhar suas descobertas com outros médicos e passa a
perguntar-se “qual a atitude a ser tomada por um médico que reconheça a etiologia
sexual das neuroses em face desse problema” (p. 83) e responde que a pior coisa a
se fazer é ignorá-lo.
Freud busca demonstrar a seus colegas a importâncias dos conteúdos
sexuais na origem dos sintomas neuróticos e que sua etiologia se coloca no campo
da infância, o que a princípio também é uma surpresa para Freud. Mas, com tantos
casos apresentados a sintomatologia em contextos da infância ele percebe que está
perto de entender essa etiologia, porém encontra uma imensa dificuldade perante
seus colegas, e entende que para um avanço teórico do conhecimento das
neuroses.
É preciso romper a resistência de toda uma geração de médicos que já não
conseguem lembrar-se de sua própria juventude; o orgulho dos pais, que
não se dispõem a descer ao nível da humanidade ante os olhos de seus
filhos, precisa ser superado; e o puritanismo insensato das mães deve ser
combatido - das mães que consideram um golpe incompreensível e
imerecido do destino que “justamente os filhos delas sejam os que se
tornam neuróticos”. Mas, acima de tudo, é necessário criar um espaço na
opinião pública para a discussão dos problemas da vida sexual. Tem que
ser possível falar sobre essas coisas sem que se seja estigmatizado como
um arruaceiro ou uma pessoa que tira proveito dos mais baixos instintos. E
também aqui há trabalho suficiente para se fazer nos próximos cem anos nos quais nossa civilização terá que aprender a conviver com as
reivindicações de nossa sexualidade (FREUD, 1898, p. 264).
Questionando-se sobre os sintomas neuróticos e suas origens na
sexualidade, Freud, juntando as associações livres de seus pacientes com os
conteúdos já estudados ele percebe que não é apenas a maturidade sexual de que
seus pacientes estavam falando. Eles relaram com bastante importância um período
importante de suas vidas e então Freud chega ao ponto nodal para a interpretação
dos sintomas neuróticos “sua verdadeira etiologia e encontrada nas experiências
infantis” (FREUD, 1898, p. 160).
22
Através dessa constatação ele reorganiza suas interpretações e concretiza
suas teorias sobre o fato da sexualidade não começar na puberdade ou na vida
adulta como poderia parecer, mas sim na infância.
Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual que ela está ausente na
infância e só desperta no período da vida designado da puberdade. Mas
esse não é apenas um erro qualquer, e sim um equívoco de graves
consequências, pois é o principal culpado de nossa ignorância de hoje
sobre as condições básicas da vida sexual (FREUD, 1898, p. 163).
Ele entende que a humanidade faz um esforço tremendo para negar
qualquer manifestação sexual nas pequenas crianças, e só apenas na puberdade
possibilitam uma sexualidade ser despertada. Com essas constatações ele entende
a força da sexualidade na infância repercutindo nos sintomas neuróticos, e sabe que
seu efeito não é diretamente no período da mesma, mas sim que:
[...] seu efeito retardado, que só pode ocorrer em períodos posteriores do
crescimento. Esse efeito retardado se origina - como não poderia deixar de
ser - nos traços psíquicos deixados pelas experiências sexuais infantis.
Durante o intervalo entre as experiências dessas impressões e sua
reprodução (ou melhor, o reforço dos impulsos libidinais delas
provenientes), tanto o aparelho sexual somático como o aparelho psíquico
sofrem um importante desenvolvimento; e é assim que a influência dessas
experiências sexuais primitivas leva então a uma reação psíquica anormal e
à existência de estruturas psicopatológicas (FREUD, 1898, p. 164).
Então, em 1905, ele produz um dos seus trabalhos mais significativos para a
psicanálise: Os três ensaios sobre a teoria da sexualidade. No presente trabalho
Freud faz uma construção a cerca do caráter normal ou patológico da sexualidade16.
Seu principal objetivo é colocar em questão o comportamento sexual, trazendo
também em debate a sexualidade infantil que até então era encarada como nada
além de um fator latente. Rompe, assim, com a colagem do conceito sexualidade
apenas para reprodução e demonstra que a mesma não deve ser definida apenas
com um caráter biológico, mas sim pela sua meta de prazer. E que “a sexualidade
dos psiconeuróticos preserva o estado infantil ou é reconduzida a ele” (FREUD,
1898, p. 163).
16
Lembrando que para a psicanálise a sexualidade não é apenas vinda da genitalidade, ela está
muito mais ligada a investimento afetivo.
23
Freud (1905) apresenta vários conceitos fundamentais para a psicanálise
nesse ensaio; inicia questionando-se sobre o caráter então patológico e o caráter
normal sexual da época, introduzindo dois termos importantes para podermos
ordenar o percurso de abordagem de nosso ensaio monográfico: objeto sexual e
alvo sexual. O primeiro como ele diz é “a pessoa de quem provém à atração sexual”
e o segundo corresponde “a ação para a qual a pulsão impele”. Ele nos alerta que a
ligação entre eles com uma suposta “norma” exige uma investigação minuciosa (p.
128).
A divisão do ser humano em duas metades – homem e mulher – que
aspiram a unir-se de novo no amor. Por isso, causa grande surpresa tomar
conhecimento de que há homens cujo objeto sexual não é a mulher, mas o
homem, e mulheres para quem não o homem, e sim a mulher, representa o
objeto sexual. Diz-se dessas pessoas que são “de sexo contrário”, ou
melhor, “invertidas”, e chama-se o fato de inversão. O numero de tais
pessoas é bastante considerável, embora haja dificuldades em apurá-lo com
precisão (FREUD, 1905, p. 128).
Freud então, em 1905, cria conceitos referentes à homossexualidade
chamando-a de inversão; sujeitos cuja a sexualidade ainda se detém um pouco
questionável, elas sendo classificadas em: invertidos absolutos “seu objeto sexual só
pode ser o mesmo”; os anfígenos onde ele relata “ seu objeto sexual tanto pode
pertencer ao mesmo sexo quanto a outro” e os ocasionais “ou seja, em certas
condições de inacessibilidade do objeto sexual normal, elas podem encontrar
satisfação sexual em uma pessoa do mesmo sexo” (p. 129). E, ao contrário dos
proclames médicos e religiosos da época, para ele nada mais são do que outras
formas da expressão da sexualidade.
Em
geral,
essas
diferentes
séries
de
variações
coexistem
independentemente umas das outras. Freud pontua que a inversão foi inicialmente
vista como patológica num contexto de “degeneração nervosa” pelos médicos da
época. Ele tenta construir pontos para refletir a condição da inversão não se
encaixando num contexto patológico, elucidando em sua teoria dois pontos: o
caráter inato e a degeneração.
Sobre degeneração ele comenta que vários fatores permitem ver que os
invertidos não se encaixam no contexto de degenerados, no sentido legítimo da
palavra, tendo em vista que degeneração tornou-se ligada a manifestações
patológicas e ele encontrava casos de inversão em “pessoas que não tem nenhum
24
outro desvio grave” e “encontramos pessoas cuja eficiência não está prejudicada e
inclusive se destacam por um desenvolvimento intelectual” (FREUD, 1905, p. 131).
Pontua que “é preciso considerar que nos povos antigos, no auge de sua cultura, a
inversão era considerada fenômeno frequente, quase que uma instituição dotada de
importantes funções” (p. 132).
Sobre o caráter inato enuncia vários pontos para pensarmos sobre uma
concepção da “inversão” em sua época, ele fala que os médicos tinham uma
interpretação que apenas os invertidos absolutos (aqueles cujo objeto é apenas do
mesmo sexo) teriam um caráter inato onde” em nenhum momento de sua vida
mostrou-se a elas outra orientação de sua pulsão sexual” (FREUD, 1905, p. 132), os
outros grupos (anfígenos e ocasionais) teriam uma concepção alternativa de um
“caráter adquirido”.
Nesse contexto, se teria então formas que levam a acepção dessa inversão;
o autor as refere como sendo: “[...] uma impressão sexual prematura para uma
inclinação homossexual [...] influências externas favorecedoras e inibidoras que
levaram, em época mais prematura ou mais tardia, à fixação da inversão” (1905,
p.132). Freud repudia totalmente esses fatos e contesta a existência de uma
inversão inata, ele entra num contexto, afirmando, em prol “da inversão [...] traria a
luz uma vivência da primeira infância que foi determinante para a orientação da
libido”. “Ela só poderia ser qualificada como uma variação frequente da pulsão
sexual, passível de ser determinada por uma quantidade de circunstâncias externas
de vida” (p. 133).
Finalizando essa concepção ele coloca que:
Muitas pessoas ficam sujeitas ás mesmas influências sexuais (inclusive na
meninice: sedução, masturbação mútua), sem por isso se tornarem
invertidas ou assim continuarem permanentemente. Somos, portanto
impelidos á suposição de que a alternativa inato/adquirido é incompleta, ou
então não abarca todas as situações presentes na inversão (FREUD, 1905,
p. 133).
Vemos então Freud (1905) ainda confuso adquirindo conhecimento sobre o
que determinaria a “inversão”. Uma coisa ele tem certeza “nem a hipótese de que a
inversão é inata trazendo consigo desde o nascimento o “vínculo da pulsão sexual
com determinado objeto sexual”, nem tampouco a “conjectura alternativa de que é
25
adquirida” através das “múltiplas influências acidentais [...] para explicar a aquisição
da inversão explicam sua natureza” (p. 133).
Freud (1905) reforça a forte influência da medicina sobre o entendimento da
inversão, os médicos enfatizavam a admissão de ou o ser humano é homem ou
mulher enquanto ele acreditava que “em nenhum indivíduo masculino ou feminino de
conformação normal faltam vestígios do aparelho do sexo oposto, que persistiram
sem nenhuma função como órgãos rudimentares, ou que se modificaram para tomar
a seu encargo outras funções” (p. 135). Através disso Freud então tem um ponto
nodal para pensar no caráter bissexual que todo sujeito passa no curso de seu
desenvolvimento psicossexual até se transformar na monossexualidade (uma
escolha de objeto definida).
Diversas são as possibilidades da interpretação da inversão, mas Freud
(1905) descarta o que ele chama de “hermafroditismo psíquico”, como fator
determinante para a escolha de objeto. O sujeito não se fixa no órgão como
definição para o feminino ou masculino ou “um cérebro feminino num corpo
masculino” (p. 135). Freud fala que se o hermafroditismo psíquico fosse à
determinação da escolha invertida se “com a inversão do objeto sexual, houvesse
em paralelo ao menos uma mudança das demais qualidades anímicas, pulsões e
traços de caráter para a variante típica do sexo oposto” (p. 134). O homem
sucumbiria como mulher e a mulher como homem, mas não se trata diretamente
disso como uma característica universal, pois, existem homens que gostam da sua
virilidade e mulheres que gostam da sua feminilidade, como ele relata “Não há
dúvida alguma de que uma grande parcela de invertidos [...] preserva o caráter
psíquico da virilidade, trazendo poucos caracteres secundários do sexo oposto”
buscando então em seu objeto traços psíquicos femininos (p. 134).
Para pensarmos essas questões existem pontos ao qual Freud vai fazendo
uma ligação da busca de caracteres sexuais (do sexo oposto) em parceiros dos
invertidos, uma interpretação frente a manifestações apresentadas através de traços
que são buscados no objeto, onde em um breve relato, relembra traços da história
da antiguidade grega.
26
17
O amor do homem não era o caráter masculino do efebo , mas sua
semelhança física coma mulher, bem como seus atributos anímicos
femininos: a timidez, o recato e a necessidade de ensinamentos e
assistência. [...] o efebo deixava de ser um objeto sexual para o homem, e
talvez ele próprio se transformasse num amante de efebos. Nesses casos,
portanto, como em muitos outros, o objeto sexual não é do mesmo sexo,
mas uma conjugação dos caracteres de ambos os sexos, como que um
compromisso entre uma moção que anseia pelo homem e outra que anseia
pela mulher (FREUD, 1905, p. 134).
Assim, ele ainda não tem uma teoria consistente para a origem da inversão,
pois para Freud ela não tem uma meta sexual uniforme; existem diversas
manifestações da mesma. E então se mantém impossibilitado de esclarecer sua
origem, mas entende que é “demasiadamente intima a ligação entre a pulsão sexual
e o objeto sexual” (FREUD, 1905, p. 135) e tenta tirar a noção de uma existência de
um sexo normal apropriado, que para os médicos essa normalidade era
representada por “a união dos genitais no ato designado como coito, que leva á
descarga da tensão sexual e a extinção temporária da pulsão sexual” (p. 135).
Na vida anímica de todos os neuróticos (sem exceção) encontram-se
moções de inversão, de fixação da libido em pessoas do mesmo sexo. Sem
uma discussão a fundo é impossível apreciar adequadamente a importância
desse fator para a configuração do quadro patológico; só posso asseverar
que a tendência inconsciente para a inversão nunca está ausente e, em
particular, presta os maiores serviços ao esclarecimento da histeria
masculina (FREUD, 1905, p. 157).
Freud (1905) então apresenta o conceito de pulsão18 e esclarece que
diversos são os investimentos da pulsão e o que distingue as pulsões entre si e as
dota de propriedades específicas é sua relação com suas fontes somáticas e seus
alvos. A fonte da pulsão é um processo excitatório num órgão, e seu alvo imediato
consiste na supressão desse estímulo orgânico (p. 159).
Não apenas sendo de uma sexualidade normal reprimida que sofrem os
neuróticos, mas também e certas manifestações perversas reprimidas. Ele constata
que existe uma força que mantém:
17
Significa jovem, rapaz, moço, púbere (CASTRO; BULAWSKI, 2011).
O representante psíquico de uma fonte endossomática de estimulação que flui continuamente, para
diferenciá-la do “estímulo”, que é produzido por excitações isoladas vindas de fora. Pulsão, portanto,
é um dos conceitos da delimitação entre o anímico e o físico (FREUD, 1905, p. 159).
18
27
A pulsão sexual tem de lutar contra certas forças anímicas que funcionam
como resistências, destacando-se entre elas com máxima clareza a
vergonha e o asco. É lícito conjecturar que essas forças contribuam para
circunscrever a pulsão dentro dos limites considerados normais, e que, caso
se desenvolvam precocemente no indivíduo, antes que a pulsão sexual
alcance a plenitude de sua força, sem dúvida serão elas que irão apontar o
rumo de seu desenvolvimento (FREUD, 1905, p. 153).
Nesta perspectiva, conceitua a base da constituição do sintoma19 e que “os
sintomas são a atividade sexual dos doentes” e certas manifestações da
sexualidade são perversas (patológicas).
Em sua teoria ele caracteriza que um grande período da sexualidade na
infância é esquecido, o que ele chama de amnésia infantil, um esquecimento que
encobre os primeiros anos da infância até segundo ele os seis a oito anos de idade.
Esse esquecimento é uma forma de prevenir o sujeito das intensas manifestações
sexuais da infância. A partir disso passa a apresentar a sexualidade infantil e suas
diversas manifestações.
A primeira forma de manifestação sexual que a criança exibe segundo Freud
é advinda de uma necessidade biológica, perpassando pela amamentação como
sobrevivência da criança ela entra num estágio posterior a saciação chamado
chunchar20 uma:
repetição rítmica de um contato de sucção com a boca (os lábios), do qual
está excluído qualquer propósito de nutrição. Uma parte dos próprios lábios,
a língua ou qualquer outro ponto da pele que esteja ao alcance - até mesmo
o dedão do pé - são tomados como objeto sobre o qual se exerce essa
sucção (FREUD, 1905, p. 169).
Nessa fase a criança entra em uma espécie de orgasmo após a saciação,
uma manifestação enorme de prazer advinda do uso do corpo de seu cuidador (na
maior parte dos casos a mãe). Um segundo momento da manifestação sexual é
quando a criança então não utiliza mais do corpo do outro para satisfação, pois já o
reconhece como externo a seu corpo e então passa a procurar outras fontes de
saciação, passando para uma fase auto-erótica21.
19
São um substituto - uma transcrição, por assim dizer - de uma série de processos, desejos e
aspirações investidos de afeto, aos quais, mediante um processo psíquico especial (o recalcamento),
nega-se a descarga através de uma atividade psíquica passível de consciência” (FREUD, 1905, p.
155).
20
Sugar com deleite (FREUD, 1905, p. 169).
21
A pulsão não está dirigida para outra pessoa; satisfaz-se no próprio corpo (FREUD, 1905, p. 170).
28
A criança não se serve de um objeto externo para sugar, mas prefere uma
parte de sua própria pele, porque isso lhe é mais cômodo, porque a torna
independente do mundo externo, que ela ainda não consegue dominar, e
porque desse modo ela se proporciona como que uma segunda zona
erógena, se bem que de nível inferior (FREUD, 1905, p. 170).
A partir dessas etapas a criança passa por um período onde todo seu corpo
incide a poder ser estimulado, essas marcas vão erotizando sua pele, e ela passam
pelas chamadas zonas erógenas22 “onde a qualidade do estímulo, mais do que a
natureza das partes do corpo, é que tem a ver com a produção da sensação
prazerosa, qualquer outra parte do corpo” (FREUD, 1905, p. 173) essas zonas do
corpo da criança são estimuladas e deixam marcas que vão organizando sua vida
sexual e seus estímulos prazerosos. Cada vez mais a criança busca repetir esse
prazer provindo dessas zonas, inicialmente auto-eróticas, pois:
o estado de necessidade de repetir uma satisfação transparece de duas
maneiras: por um sentimento peculiar de tensão, que tem, antes, o caráter
de desprazer, e por uma sensação de prurido ou estimulação centralmente
condicionada e projetada para a zona erógena periférica. Por isso, pode-se
também formular o alvo sexual de outra maneira: ele viria substituir a
sensação de estimulação projetada na zona erógena (FREUD, 1905, p.
174).
Por consequência Freud define essas fases também como uma forma de
masturbação da criança, onde ela sente muito prazer nessas marcas que são
deixadas pelo outro, ele define que existem três momentos dessa masturbação
infantil, “A primeira é própria do período de lactância, a segunda pertence à breve
florescência da atividade sexual por volta do quarto ano de vida, e somente a
terceira corresponde ao onanismo da puberdade, amiúde o único a ser levado em
conta” (FREUD, 1905, p. 177).
Aqui encontramos um primeiro momento da escolha de objeto, onde
obrigatoriamente a criança precisa passar por um outro, que ela o toma como objeto
inicialmente pela sobrevivência e depois pela pura e simples satisfação.
De alguma forma essas zonas posteriormente entram em relações estreitas
com a vida genital. Todas essas manifestações na criança surgem de uma forma
espontânea, cada sujeito passa por elas de uma forma única e subjetiva, e aqui
22
Trata-se de uma parte da pele ou da mucosa em que certos tipos de estimulação provocam uma
sensação prazerosa de determinada qualidade (FREUD, 1905, p. 172).
29
temos um ponto importante, tanto pessoas sadias quanto doentes passam por essas
fases sexuais infantis.
Para completar o quadro da vida sexual infantil, é preciso acrescentar que,
com frequência ou regularmente, já na infância se efetua uma escolha
objetal como a que mostramos ser característica da fase de
desenvolvimento da puberdade, ou seja, o conjunto das aspirações sexuais
orienta-se para uma única pessoa, na qual elas pretendem alcançar seus
objetivos. Na infância, portanto, essa é a maior aproximação possível da
forma definitiva assumida pela vida sexual depois da puberdade. A
diferença desta última reside apenas em que a concentração das pulsões
parciais e sua subordinação ao primado da genitália não são conseguidas
na infância, ou só o são de maneira muito incompleta. Assim, o
estabelecimento desse primado a serviço da reprodução é a última fase por
que passa a organização sexual (FREUD, 1905, p. 180).
Freud então constata que na escolha de objeto existem dois momentos
fundamentais no caminho da vida sexual do adulto.
A primeira delas começa entre os dois e os cinco anos e retrocede ou é
detida pelo período de latência; caracteriza-se pela natureza infantil de seus
alvos sexuais. A segunda sobrevém com a puberdade e determina a
configuração definitiva da vida sexual (FREUD, 1905, p. 188).
Todos esses momentos de marcações sexuais na infância são os pilares da
vida sexual do adulto, seja ele qual for seu objeto de amor ou suas práticas sexuais,
alias, são esses momentos que demarcam todo o percurso da sexualidade do adulto
pois:
(a) Assim como antes vimos ser possível [...] basear uma multiplicidade de
constituições sexuais inatas na formação diferenciada das zonas erógenas,
podemos agora experimentar a mesma coisa com a inclusão das fontes
indiretas de excitação sexual. Podemos presumir que essas fontes façam
contribuições em todos os indivíduos, mas não tenham em todas as
pessoas a mesma intensidade, e que na conformação privilegiada de cada
fonte da excitação sexual situe-se outra contribuição para diferenciar as
diversas constituições sexuais (FREUD, 1905, p. 194).
Nesse sentido a organização sexual para a escolha de objeto perpassa por
um momento de extrema tensão sexual, até um período de latência, onde a libido
sexual é desviada para outros fins, porém esse período de latência não é um
apagamento desse sexual, ele continua presente prolongando-se até um período da
onde há uma reedição desses momentos que marcaram a sexualidade da criança na
30
infância. Porém cabe aqui retomarmos a teoria da pulsão que é melhor desenvolvida
em 1915 em seu texto “A pulsão e seus destinos” onde nos apresenta pontos
importantes para pensarmos a escolha de objeto homossexual.
A pulsão seria um estímulo da psique, inicialmente provindo do interior do
próprio organismo. Nunca é, segundo o autor, apenas momentânea é sempre uma
força constante. A pulsão organiza a psique do sujeito, estando sempre em atividade
e o movimentando seu progresso frente suas satisfações.
A principal diferença entre um estímulo externo e um estímulo pulsional
segundo se delimita que, o primeiro tem sua substração em movimentos musculares
alcançando seu fim de forma breve e o segundo “não pode ser liquidado por esse
mecanismo. “[...] coloca exigências bem mais elevadas ao aparelho nervoso,
induzem-no a atividades mais complexas” (FREUD, 1915, p. 41) sendo elas seus
termos de impulso, meta, objeto e fonte.
É essencial situarmos cada um desses momentos pulsionais para que
possamos prosseguir com a compreensão da escolha de objeto. Por impulso situa
ele “compreende-se o seu elemento motor, a soma de força ou a medida de trabalho
que ela representa” (FREUD, 1915, p. 42), sua meta é “sempre a satisfação, que
pode ser alcançada apenas pela supressão do estado de estimulação na fonte da
pulsão” (p. 43). Seu objeto “é aquele com o qual ou pelo qual o instinto pode
alcançar meta. É o que mais varia na pulsão, não estando originalmente ligado a ela,
mas lhe dando subordinado apenas devido á sua propriedade de tornar possível a
satisfação” (p. 43) e por final temos sua fonte que “compreende o processo somático
num órgão ou parte do corpo, cujo estímulo é representado na psique” (p. 43). Assim
com a chegada da puberdade esses momentos pulsionais infantis são reeditados e
“introduzem-se as mudanças que levam a vida sexual infantil a sua configuração
normal definitiva. Até esse momento, a pulsão sexual era predominantemente autoerótica; agora, encontra o objeto sexual” (FREUD, 1905, p. 196).
Freud descobre que o elemento mais variável da pulsão é o objeto e que
não tem como domesticar a pulsão. Nesse artigo ele vai discutir a bissexualidade
inerente a todo ser humano. Todo o ser humano em sua origem é bissexual e o
investimento que ele faz em relação a um objeto, pode ser tanto de um objeto do
mesmo sexo, como de sexo oposto.
31
Assim quebrando o paradigma de que a homossexualidade seria uma
degenerescência ele segue entendendo que as pulsões estão independentes umas
das outras, buscando a efetividade do alvo sexual exclusivo, porém agora existe o
primado da zona genital em efetividade e a partir de agora o avanço sexual passa a
se tornar diferente no homem e na mulher.
O do homem é o mais consequente e também o mais facilmente acessível a
nossa compreensão, enquanto o da mulher representa até mesmo uma
espécie de involução. A normalidade da vida sexual só é assegurada pela
exata convergência das duas correntes dirigidas ao objeto sexual e à meta
sexual: a de ternura e a sensual. A primeira destas comporta em si o que
resta da primitiva eflorescência infantil da sexualidade. É como a travessia
de um túnel perfurado desde ambas as extremidades (FREUD, 1915, p.
196).
A partir dos momentos da organização sexual infantil apresentados por
Freud, chegamos ao momento de desfecho onde é definida a escolha de objeto de
amor. Um caminho para o qual estamos sendo preparados desde a infância.
Após a separação primordial com a mãe, a criança aprende a amar outras
pessoas que lhe dão suporte momentâneo e vão suprindo a falta da mãe aos
poucos. Essa satisfação para com a pessoa que a cuida é puramente sexual,
provinda das zonas erógenas. Freud (1915, p. 210) afirma que quem “a acaricia,
beija e embala, e é perfeitamente claro que a trata como o substituto de um objeto
sexual plenamente legítimo”. A mãe dotada de conhecimento apenas do senso
comum jamais imagina o conteúdo sexual ao qual está organizando na vida de seu
filho, acreditando que seus atos são apenas de puro amor não sabe que está o
preparando para a intensidade sexual de escolha de objeto posterior.
Quando ensina seu filho a amar, está apenas cumprindo sua tarefa; afinal,
ele deve transformar-se num ser humano capaz, dotado de uma vigorosa
necessidade sexual, e que possa realizar em sua vida tudo aquilo a que os
seres humanos são impelidos pela pulsão. É verdade que o excesso de
ternura por parte dos pais torna-se pernicioso, na medida em que acelera a
maturidade sexual e também, “mimando” a criança, torna-a incapaz de
renunciar temporariamente ao amor em épocas posteriores da vida, ou de
se contentar com menor dose dele. Um dos melhores prenúncios de
neurose posterior é quando a criança se mostra insaciável em sua demanda
de ternura dos pais; por outro lado, são justamente os pais neuropáticos,
que em geral tendem a exibir uma ternura desmedida, os que mais
contribuem, com suas carícias, para despertar a disposição da criança para
o adoecimento neurótico. Deduz-se desse exemplo, aliás, que os pais
neuróticos têm caminhos mais diretos que o da herança para transferir sua
perturbação para seus filhos (FREUD, 1915, p. 210).
32
Toda essa cadeia de organizações sexuais e marcas deixadas pelo cuidador
são representantes que vão se ressignificar posteriormente para uma escolha de
objeto adulta. Porém, toda essa organização.
Na [esfera da] representação que se consuma inicialmente a escolha do
objeto, e a vida sexual do jovem em processo de amadurecimento não
dispõe de outro espaço que não o das fantasias, ou seja, o das
representações não destinadas a concretizar-se. Nessas fantasias, as
inclinações infantis voltam a emergir em todos os seres humanos, agora
reforçadas pela premência somática, e entre elas, com frequência uniforme
e em primeiro lugar, o impulso sexual da criança em direção aos pais, quase
sempre já diferenciado através da atração pelo sexo oposto: a do filho pela
mãe e a da filha pelo pai. Contemporaneamente à subjugação e ao repúdio
dessas fantasias claramente incestuosas consuma-se uma das realizações
psíquicas mais significativas, porém também mais dolorosas, do período da
puberdade: o desligamento da autoridade dos pais (FREUD, 1915, p. 213).
Um dos pontos importantes deste processo é essa renúncia da escolha de
objeto incestuosa, que tem repercussão futura na escolha de objeto adulta. É na
renúncia à mãe que se escolhe o pai e na identificação com o pai que se escolhe a
mãe. E a partir disso são reinscritas as imagens de pai e mãe, um apoio a esses
modelos.
O homem, sobretudo, busca a imagem mnêmica da mãe, tal como essa
imagem o dominou desde os primórdios da infância; e está em perfeita
harmonia com isso que a mãe, ainda viva, oponha-se a essa reedição dela
mesma e a trate com hostilidade. Em vista dessa importância do
relacionamento infantil com os pais para a escolha posterior do objeto
sexual, é fácil compreender que qualquer perturbação desse
relacionamento terá as mais graves consequências para a vida sexual na
maturidade (FREUD, 1915, p. 215).
Nesses aspectos Freud (1915) sempre parte do pressuposto para uma
escolha de objeto adulta no modelo universal homem/mulher, porém nunca descarta
as outras manifestações de escolha de objeto e até enuncia alguns pontos para
pensarmos essas outras escolhas. Ele diz que uma das tarefas da “escolha do
objeto consiste em não se desencontrar do sexo oposto. Isso, como é sabido, não
se soluciona sem um certo tratamento” (p. 216) Qualquer perturbação do
relacionamento entre os cuidadores terá consequências para a vida sexual futura da
criança.
33
[...] a grande força que repele a inversão permanente do objeto sexual é,
sem dúvida, a atração que os caracteres sexuais opostos exercem entre si;
no contexto desta discussão, nada podemos dizer para esclarecê-la. Mas
esse fator não basta, por si só, para excluir a inversão; diversos outros
fatores auxiliares vêm juntar-se a ele. Acima de tudo, há o entrave
autoritário da sociedade; quando a inversão não é considerada um crime,
vê-se que ela responde plenamente às inclinações sexuais de um número
nada pequeno de indivíduos (FREUD, 1915, p. 216).
Para o menino os cuidado da mãe e outras pessoas do sexo feminino
segundo Freud seriam um caminho norteador, juntamente com a experiência de
intimidação frente ao pai na atitude competitiva para tomar como escolha de objeto a
mulher, desde uma posição masculina, desviando a criança da escolha no próprio
sexo. Na menina os fatores são bastante parecidos, pois sua relação de guarda com
a mãe resulta uma relação hostil para com a mesma, influenciando-a para o tomar
homem como objeto.
Freud (1915) quer enunciar para os leigos a importância das relações de
cuidado parentais e sua influência na vida sexual da criança. Esse relacionamento
infantil cria uma representação que se busca na escolha de objeto da vida sexual
adulta. A relação hostil do incesto é um fator determinante para a escolha de objeto
inversa. O que devemos saber é que “o encontro com o objeto é na verdade um
reencontro” (p. 210).
Esse termo “escolha” utilizado por Freud é pela via inconsciente do sujeito e
não uma escolha possível ao sujeito do consciente. A escolha de objeto na vida do
sujeito perpassa pelos momentos suprarreferidos, seu período de destaque é na
tenra infância, onde, as primeiras marcas pulsionais investem na criança sua carga
de prazer e a partir delas que a mesma fará uma transposição para a vida sexual
adulta. Havendo diferenciações entre o homem e a mulher.
Como vimos, o sujeito passa num primeiro momento tomando o objeto como
necessidade biológica de autoconservação e depois para um momento de pura
satisfação pulsional do Eu. Assim, só mais tarde a pulsão passará a tornar-se
independente. Esse momento marca o primeiro objeto sexual do sujeito, sendo ele,
quem exerce o papel da mãe, uma escolha segundo o modelo de cuidados dela.
Mas o que nos interessa em maior importância é uma descoberta que Freud
não esperava encontrar, um modo especial de desenvolvimento libidinal onde os
sujeitos “não escolhem seu posterior objeto de amor segundo o modelo da mãe, mas
conforme o de sua própria pessoa. Claramente buscam a si mesmas como objeto
34
amoroso, evidenciando um tipo de escolha de objeto que chamamos narcísico”
(FREUD, 1914, p. 22).
Quando nos referimos à psicanálise temos claro que Freud não conclui
modelos padrões de escolha de objeto onde o sujeito inserido em determinadas
situações ou erotizações se posicionaria sempre da mesma forma. Ele elucida
momentos determinantes para a escolha e deixa claro que “para cada pessoa ficam
abertos ambos os caminhos da escolha de objeto, sendo que um ou outro pode ter a
preferência” (FREUD, 1914, p. 22).
Freud (1914) situa que o ser humano tem originalmente dois objetos
sexuais: ele próprio e a mulher que o cria e assim pressupõem-se o narcisismo
primário de todo indivíduo, que eventualmente pode se expressar de maneira
dominante em sua escolha de objeto. Os caminhos perpassam conforme o tipo
narcísico: o que ela mesma é (a si mesma), o que ela mesma foi, o que ela mesma
gostaria de ser, e a pessoa que foi parte dela mesma; ou conforme o tipo “de apoio”,
ou seja, a mulher nutriz ou o homem protetor.
Na escolha de objeto supostamente normal “o garoto revela um interesse
especial por seu pai, gostaria de crescer e ser como ele, tomar o lugar dele em todas
as situações. [...] ele toma o pai como seu ideal” (FREUD, 1921, p. 46). Já na
particularidade da homossexualidade o garoto tem uma inversão no complexo de
Édipo, onde o pai é tomado como objeto e ao invés de ideal. O pai numa postura
feminina acaba sendo tomado como objeto de uma “identificação precursora da
ligação objetal ao pai” (FREUD, 1921, p. 47). Para Freud é de fácil simplificação
essa determinação do garoto, pois existe “diferença entre essa identificação com o
pai e a escolha do pai como objeto. No primeiro caso o pai é aquilo que se gostaria
de ser, no segundo, o que se gostaria de ter. Depende, portanto, de que a ligação
recaia no sujeito ou no objeto do Eu” (FREUD, 1921, p. 48).
A psicanálise não incorpora o conceito de normalidade e interpreta a
homossexualidade como um dos destinos da pulsão humana, que não tem um
objeto hereditariamente determinado, sendo muito plástica quanto às formas de
satisfação e de escolha. Para Freud (1921, p. 50-51):
A gênese da homossexualidade masculina é, em grande parte dos casos, a
seguinte. O jovem esteve fixado de modo excepcionalmente longo e intenso
em sua mãe, no sentido do complexo de Édipo. Mas por fim, após a
puberdade, chega o tempo de trocar a mãe por um outro objeto sexual.
Então, repentinamente, algo sucede; ele não abandona sua mãe, mas se
35
identifica com ela, transforma-se nela e procura objetos que possam
substituir o seu Eu, que ele possa amar e cuidar assim como havia
aprendido com a mãe. Este é um processo frequente, que pode ser
confirmado à vontade, e que naturalmente independe de qualquer
suposição acerca do motor orgânico instintual e dos motivos dessa
repentina mudança. O que salta aos olhos, nessa identificação, é a sua
amplitude; ela muda o Eu num ponto extremamente importante, no caráter
sexual, segundo o modelo do que até então fora o objeto. Nisto se renuncia
ao próprio objeto — se inteiramente, ou apenas no sentido de que é
preservado no inconsciente, é algo que escapa à presente discussão. A
identificação com o objeto renunciado ou perdido, como substituição para o
mesmo, a introjeção desse objeto no Eu, isto já não constitui de fato uma
novidade para nós.
A homossexualidade é uma escolha narcísica de objeto, inicialmente a
fixação materna dificulta a passagem para outro objeto assim o sujeito identifica-se
com ela. A tendência a escolha narcísica fica mais facilmente realizável do que
lançar sua escolha a outro sexo. Então em sua etiologia, o sujeito ao escolher um
objeto faz uma escolha do mesmo e não de algo diferente.
36
CONSIDERAÇÕES FINAIS
As intempestivas formas de conflito frente a qualquer manifestação da
sexualidade do outro sempre foram motivos da curiosidade humana, não apenas em
nossa contemporaneidade, mas como vimos, em diversas fases da história.
A homossexualidade sofreu um processo pungente, nessas fases, as
civilizações se organizavam de forma distinta frente à sexualidade de seu povo, e
com a homossexualidade não foi diferente. Ela foi considerada algo comum na
Grécia, um rito de passagem da adolescência a fase adulta.
Em outras, como China, Egito e Roma ela era aceita, porém a delimitação
do parceiro ativo na relação era mais importante, sendo o passivo tomado de forma
a ser um “menos que” perante o outro parceiro na cultura. Com a ascensão do
cristianismo tudo sofre uma grande revolta e não apenas a homossexualidade, mas
sim, qualquer forma de manifestação sexual fora do princípio da reprodução eé
etiquetado como pecado, ou seja, proibido. A partir desse momento, a
homossexualidade sofre uma perseguição e implicância que persistiria por muitos
séculos, pois seu ato sexual é puro prazer, não sendo na época capaz de se
constituir família ou serem parceiros de direito na cultura. As forças do cristianismo
juntamente
com
o
poder
médico
conduziram
para
classificação
da
homossexualidade como uma doença, algo fora da padronização do normal
vinculada a heterossexualidade.
Com séculos de intolerância, porém nunca inexistência, a homossexualidade
começa a se tornar assunto de discussão para teóricos que então retiram a
homossexualidade vinculada à patologia e assim buscam um maior conhecimento
da mesma. Porém, apesar da despatologização oficial da homossexualidade na
década de 80, ainda existe necessidade de discussão frente ao tema. Pois em
nossa contemporaneidade líderes buscam o retrocesso a uma norma social que
retoma impor a heterossexualidade como única orientação sexual natural,
concluindo que o gênero é algo dado pela natureza, reduzido a ser homem ou
mulher, não reconhecendo uma ampla gama de indivíduos que não estão incluídos
nessa norma.
37
Freud como supracitado expôs que a sexualidade é a manifestação que
perpassa todo ser humano, a organização sexual do sujeito desliza pela
bissexualidade para ser definida na vida adulta. Relata que existem momentos da
organização da libido que definem a fixação da escolha do objeto de amor do
sujeito, e de suma importância, nos apresenta que não existe um sexo normal, mas
organizações da sexualidade, sendo a homossexualidade uma delas.
A homossexualidade ajudou a psicanálise a entender que a sexualidade não
tem uma regra, que a sexualidade não tem um objeto definido. Freud já percebia o
retrocesso da sociedade de sua época e buscou estudar e teorizar o tema não
apenas da homossexualidade, mas das sexualidades, chegando a proximidade do
que seria então patológico e o que poderia se encaixar num padrão comum. Na
inicial nomenclatura de inversão Freud já interpreta a homossexualidade como algo
fora do contexto patológico, e através de sua escuta constata que todos os
indivíduos têm manifestações sexuais reprimidas ao qual seu consciente não aceita,
portando uma grande carga de tensão.
Para Freud, tanto a escolha heterossexual quanto a escolha homossexual
perpassam pelas mesmas fases da constituição psíquica, mas cada sujeito tem sua
forma de se relacionar com seu objeto, mas é na intensidade de prazer diferenciada
e o período de latência e puberdade organizado pela pulsão que se define essa
escolha de objeto, tanto para o heterossexual quanto para o homossexual.
Sendo o objeto o elemento mais variável da pulsão, Freud apresenta a
homossexualidade como uma (das várias) formas da manifestação da sexualidade e
não uma doença ou anomalia. Freud constata que a homossexualidade é
organizada através de uma escolha de objeto narcísica, que as marcas da pulsão e
traços da infância se fixam no sujeito o conduzindo para a definição de sua
sexualidade. Assim toda essa organização sexual leva ao desfecho da escolha de
objeto, sendo ela conforme os moldes do cuidador ou narcísica como na
homossexualidade.
Os homossexuais tentaram esconder seu desejo por diversos séculos, com
vergonha e medo, mas com as constatações de Freud e a despatologização da
homossexualidade, os indivíduos homossexuais começaram a lutar para ter seu
direito a poder exercer sua sexualidade livremente, mobilizam-se para a construção
de movimentos sociais que construiriam seu lugar na cultura, que não os
38
discriminaria frente sua sexualidade, criando assim os movimentos LGBTT. Que, de
suma importância, em nossa contemporaneidade, lutam contra esse retrocesso,
conquistando um lugar de significação e direito no último século, e assim chamando
muito a atenção do senso comum, em divergência com alguns líderes políticos e
religiosos que tentam impor o retrocesso das mais diferentes formas de
manifestação da sexualidade.
Em virtude dos fatos mencionados, percebo a necessidade de continuar as
reflexões sobre o tema da homossexualidade, a mesma vive em um momento de
bastante visibilidade na mídia. A resposta da cultura atual muitas vezes apresenta-se
confusa, justificando o seguimento da necessidade de pesquisa e reflexão aqui
apresentadas.
39
REFERÊNCIAS
ABGLT – ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE LÉSBICAS, GAYS, BISSEXUAIS,
TRAVESTIS E TRANSEXUAIS. Manual de comunicação LGBT. Brasília: Ajir Artes
Gráficas
e
Editora
Ltda.
1995.
Disponível
em:
<http://www.
abglt.org.br/docs/Manualde ComunicacaoLGBT.pdf>. Acesso em: 21 out. 2014.
BRANDÃO, D. V. C. Parcerias homossexuais: aspectos jurídicos. São Paulo:
Revista dos Tribunais, 2002.
BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil.
Brasília: Senado Federal: Centro Gráfico, 1988.
BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. União homoafetiva. Disponível em: <http://
www.stf.jus.br/portal/cms/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=178931>. Acesso em:
22 out. 2014.
CASTRO, J.; BULAWSKI, C. O perfil do pedófilo: uma abordagem da realidade
brasileira. 2011. Disponível em: <http://www.revistaliberdades.org.br/_upload
/pdf/7/artigo3. pdf>. Acesso em: 21 out. 2014.
CATONNÉ, J. P. A sexualidade, ontem e hoje. Trad. Michèle Íris Koralck. São
Paulo: Companhia das Letras, 1996.
CHAUÍ, M. Repressão sexual: essa nossa (des)conhecida. São Paulo: Brasiliense,
1984.
CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução nº 001, de 22 de março de
1999. Estabelece normas de atuação para os psicólogos em relação à questão da
orientação sexual. Brasília: Coletânea de Legislação e Jurisprudência, 1999.
CONSELHO NACIONAL DE COMBATE À DISCRIMINAÇÃO. Brasil sem
homofobia: programa de combate à violência e à discriminação contra GLTB e
promoção da cidadania homossexual. Brasília: Ministério da Saúde, 2004.
Disponível em: <http://bvsms.saude.gov.br/bvs/publicacoes/brasil_sem_homofobia.
pdf>. Acesso em: 01 nov. 2014.
DIAS, M. B. Conversando sobre homoafetividade. Porto Alegre: Livraria do
Advogado, 2004.
DIAS, M. B. União homossexual, o preconceito e a justiça. 3. ed. Porto Alegre:
Livraria do Advogado, 2005.
FACCHINI, R. Sopa de letrinhas? Movimento homossexual e produção de
identidades coletivas nos anos 90. Rio de Janeiro: Garamond Universitária, 2005.
FARIAS, M. O.; MAIA, A. C. B. Adoção por casais homossexuais: a família
homoparental sob o olhar da psicologia jurídica. Curitiba: Juruá, 2012.
40
FIGUEIRÓ, M. N. D. Educação sexual: retomando uma proposta, um desafio.
Londrina: UEL, 1996.
FOUCAULT, M. História da sexualidade I: a vontade de saber. Trad. Maria Thereza
da Costa Albuquerque e J. A. Guilhon Albuquerque. 16. ed. Rio de Janeiro: Edições
Graal, 2005.
FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1893-1895). In: _____. Obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. 2.
FREUD, S. Estudos sobre a histeria (1893-1985). In: _____. Obras psicológicas
completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 1990. v. 2.
FREUD, S. Introdução ao narcisismo, ensaios de metapsicologia e outros textos
(1914-1916). In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. São
Paulo: Companhia das Letras, 2010. 309p. v. 12.
FREUD, S. Psicologia das massas (1921). In: _____. Psicologia das massas e
análise do eu e outros textos (1920-1923). Trad. Paulo César de Souza. São
Paulo: Companhia das Letras, 2011.
FREUD, S. Um caso de histeria e três ensaios sobre a teoria da sexualidade (1905).
In: _____. Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro:
Imago, 1996. v. 7.
FRY, P. O que é homossexualidade. São Paulo: Brasiliense, 1993.
FURASTÉ, P. A. Normas técnicas para o trabalho científico: explicitação das
normas da ABNT. 17. ed. Porto Alegre: Dáctilo-Plus, 2014.
MARIUSSO, V. H. S. G. Movimento LGBT e mídia no Brasil contemporâneo: o
lampião da esquina. 2011. Disponível em: <http://www.congressohistoriajatai.org/
anais2011/link%2058.pdf>. Acesso em: 01 nov. 2014.
NAÇÕES UNIDAS DO BRASIL. Guia de orientação das nações unidas no Brasil
para denúncias de discriminação étnico-racial. Brasília: Ajir Artes Gráficas e
Editora Ltda. 2011. Disponível em: <http://www.unifem.org.br/sites/700/710/
00002100.pdf>. Acesso em: 21 out. 2014.
NUNAN, A. Homossexualidade: do preconceito aos padrões de consumo. Rio de
Janeiro: Caravansarai, 2003.
RIBEIRO, P. R. M. (org.). Sexualidade e educação sexual: apontamentos para
uma reflexão. São Paulo: Cultura Acadêmica, 2002.
SECRETARIA DE DIREITOS HUMANOS. Conselho Nacional de Combate a
Discriminação e Promoção dos Direitos de Lésbicas, Gays, Bissexuais,
Travestis e Transexuais (CNDC). Disponível em: <http://www.sdh.gov.br/
glossario/cncd-lgbt>. Acesso em: 01 nov. 2014.
SPENCER, C. Homossexualidade: uma história. Rio de Janeiro: Record, 1996.
41
TORO, G.; HOGAN'S, C. The Strain: primeira temporada. Canal fox. 2014.
Download

José Antonio Stona - Biblioteca Digital da UNIJUÍ