Heitor MEGALE
(USP)
Joao Antonio de SANTANA NETO
(UCSaVUNEB)
Opazia Chain PERES
(Doutoranda-USP)
Silvio de Almeida TOLEDO NETO
(Mestrando-USP)
Teresa Leal GON<;AL VES PEREIRA
(UFBA)
ABSTRACT: This paper concerns on five teXIs of the fifteenth and sixteenth centuries,
each one with different interest for the study of the history of portuguese. Two of them
allow the comparison between testimonies, while the others are unique. They were
firstly examined in the microfilm and in paper copy, and then the codicological results
were compared with specific bibliography; in two cases, we had access to the codex
itself.
KEY WORDS: Codicology, Philology, Paleography, Textual criticism.
Em sequencia ao estudo paleografico apresentado em Estudos Lingii(sticos, XXV
Anais de Semintirios do GEL, p. 539-547, 0 Grupo de Trabalho Leitura do Texto Antigo
traz hoje materia codicologica. A Codicologia e considerada a arqueologia do livro. 0
pesquisador examina detidamente 0 suporte do texto, os cadernos, sua disposiCao, os
f6lios, a paginacao, as chancelas de arquivo, a tinta, a letra, os punhos, a cosedura e a
encadernacao, com 0 objetivo de colher dados que permitam reconstituir a hist6ria da
elaboracao do c6dice, seu percurso e sua utilizaciio. Para alem do interesse hist6rico e
material do c6dice, esta a necessidade de fazer falar 0 testemunho, por vezes, tinico de
urn texto.
Em descri~oes anteriores a Martins, aponta-se no C6dice BNL, ALC. 199, alim
276, a exist!ncia de apenas duas obras: Castelo Perigoso, f.- I-ISO, e comentarios de
Exposi~om de Origenes sobre este Evangelho: Maria stabal ad monumentu", loras
plorans, f.- 150-2. Entretanto, sob 0 titulo generico de Castelo Perigoso, ha sete
tratados, ao longo de 199 capftulos. Sao 160 f6lios membranAceos 285 x 200m.m, em
vinte cadernos de oito f6lios cada urn. HA duas folhas de guarda em pergaminbo
seguidas de duas outras em papeLAquelas contem urn texto em latim, em duas colonas,
de teor religioso, nao identificado. A primeira folba de guarda em papel tein escrito, a
lApis, a pagina~io "02" e, a lapis azul, as cotas "XlV" e "199"; a segunda. alm da
pagin~io ''03'', contem urn texto sobre a data~io e autoria dos tratados. No C 1 da
"TAbua dos Capftulos", em nota de rodape, ha dat~ao diferente.
Os cadernos enconfram-se em born estado de conserv~ao, a encaderna~ao, que
parece ser original, oferece alguns problemas. 0 priineiro cademo, que contem a
"TAbua dos Capftulos", apresenta no canto superior direito uma numer~io arabe, em
preto. A partir do segundo, com~a outra roman a em vermelbo, no centro da margem
superior. Uma terceira numer~ao a lApis faz diferen~a de oito f6lios com a numer~ao
original. Lan~a (1994) faz 0 seguinte esquema de composi~ao do codice: 2 guardas em
pergaminho, 2 guardas em pape!, 8 folbas com fudice, I - CUI texto e 1 guarda.
Os f6lios distribuem-se regularmente nos vinte cadernos, obedecendo a seguinte
ordem: cad. I, f.-1-8: "TAbua dos Capitulos (nio possui numera~ao original); 2, 9 (I) 16 (cap.VIII) 3,17 (IX) - 24 (XVI); 4, 25 (XVII) - 32 (XXIV); 5, 33 (XXV) - 40
(XXXII); 6, 41 (XXXDI) - 48 (XL); 7,49 (XLI) - (XL vnI); 8, 57 (XLIX) - 64 (LVI);
9,65 (LVII) -72 (LXIV); 10,73 (LXV) - 80 (LXXII); 11, 81 (LXXIII) - 88 (LXXX);
12,89 (LXXXI) - 96 (LXXXVill); 13, 97 (LXXXIX)- 104 (XCVI); 14, 105 (XCVII) 112 (CIY); IS, 113 (CV) • 120 (CXD); 16, 121 (CXIII) - 128 (CXX); 17, 129 (CXXI)·
136 (CXXVill); 18, 137 (CXXlX) - 144 CXXXVI); 19, 145 (CXXXVII) - 152
(CXLIV); 20, 153 (CXL V) - 160 (CLII). Os textos: Castelo Perigoso, cad. 2, C 9r, cap.
I; Dos beneficios de Deus, 9, 65v, LVII; Livro da Consciencia e do Conhecimento·
pr6prio, 9, 69v, LXI; Da Amizade e das Qualidades do Amigo, II, 87r, LXXIX; Das
Penas do Inferno, 12, 93r, LXXXV; Das Alegrias do Para(so, 14, 112r, CIV; Livro dos
Tres Caminhos e dos Sete Sinais do Amor Embebedado, 17, 131r, CXXill; Exposi~i1o
de Origens sobre este Evangelho: Maria stabat ad monumentum loras plorans, 17,
158v, CL.
o primeiro f6lio do tratado Castelo Perigoso e 0 mais omamentado. Logo no
inicio, urn grande E ftJigranado, em vermelho e azul, tern, noseu interior, 0 desenho de
urn castelo. Banda decorativa nas mesmas cores contorna 0 texto. Em todos os f6lios, M
ornament~ao nas letras capitais: ora fondo azul adornado em vermelho; ora nindo
vermelho adornado em azul. Algumas capitais sac menos trabalhadas, em dimensiio
menor, numa s6 cor. As maiUsculas do corpo do texto sao em preto com refor~o
vermelho. As rubricas, os tftulos dos capftulos, os excertos b1blicos em latim e a
numer~ao roman a, confirmada pela arabe, em vermelho. Motivos em vermelho
separando capltulos preencbem
0
esp~o ou formam uma linha com extensao id~ntica
as do texto. A "Tabua dos Capltulos", e em vermeIbo e preto. A mancba ocupa cerca de
195 x 130 mm. 0 numero de linbas por pagina oscila entre 20 e 24. A escrita e a g6tica
semicursiva da primeira metade do seculo XV.
o c6dice BNL, ALC. 214, oUm 275, e constitmdo por 100 folbas em papel, com
dimensoes aproximadas de 292 x 207mm. A segunda folba de guarda traz a lapis, a
seguinte nota: "A fol. 55 tern a mao com estrella, marca d' agua que aparece em obras
do fim do sec. XV". Ocorre a marca d'agua nO11410 (uma mao de cinco dedos com a
flor de cinco petalas na vertical do dedo medio), segundo Briquet (1923), da segunda
rnetade do seculo XV. Ha outras duas foIbas de guarda ern papel no final. Nao traz a
''Tabua dos Capltulos" e faltam foIbas no final, nao figurando 0 comentario de
encerramento, apontado no IDS. 199. E este seu esquema de composicao: 2 guardas em
branco, 1 guarda corn inscricao, lr - loov texto e 2 guardas.
Ha tr~s numeracOes: uma arabe ern preto, original, no canto superior direito; e
duas a lapis, posteriores, uma no canto inferior direito e outra no canto superior
esquerdo. Nao apresenta ornamentacoes, todo 0 texto ern preto, sem capitais decoradas,
rnbricas em cores ou quaisquer ilustracoes. Na primeira folha do tratado Castelo
Perigoso, figuram vanos desenbos e rabiscos, tanto em tinta preta quanto a lapis,
posteriores ao texto, que e assim distribuldo: Castelo Perigoso lr, 1 - 66, Dos
Beneficios de Deus 42v, 67 • 82, Uvro da Consciencia e do Conhecimento Pr6prio 48v,
83 - 106, Da Amizade e das Qualidades do Amigo 6Or,107 - 114, Das Penas do Inferno
63v, 115 - 139, Das Alegrias do Para(so 78r, 140 - 174, Uvro dos Tres Caminhos e dos
Sete Sinais do Amor Embebedado 83v, 175 - 199.
A letra e a g6tica cursiva da segunda metade do steulo XV, ou mesmo do inlcio
do XVI, a cinco maos. 0 c6dice esta em mau estado de conservacao, contem f6lios
ilegfveis devido ~ exislancia de mancbas de umidade, faltando partes por rasgoes e
corrosao. Sao ileglveis os t.- lOr-12v, 15r-17v e apresentam problemas os f.- 9r-9v,
13r-14v, 18r-19v, 22r-22v, 32r-34v.
o c6dice 211 da Biblioteca Nacional de Lisboa e volume encadernado, composto
de 104 folios, manuscrito em pergarninbo. Cada f6lio mede 270 por 210 rom e vem
escrito em coluna Unicade 200 por 170 rom. A letra, g6tica, parece do seenlo XV. Os
f.- 90v a 104v, com 28linbas cada um, t~m a escrita diferente da dos t.- lr a 9Or,com
26linbas cada uma em mema.
A Vislio de Tundalo ocupa os f.- 91r a l04v. No princlpio do c6dice, ha uma folba
de papel nao numerada com a cota antiga que, em letra do seculo passado, da notfcia do
conte6do do c6dice, nos seguintes termos: "Cod. 244. Cathecismo do Pe. Fr. Zacharias
de Payopelle antigo Monge Cisterciense do Real MOSleiro de Alcoba~a; corn outras
obras asceticas do mesmo Author, a saber: 1. 0 Livro intitulado - Vergeu (alias) Vergel
de prazer, e consola~lio, - dividido em 5 partes, e subdividido ern 78 Capltulos. 2.
Medita~i5esde S. Bernardo traduzidas no idioma Portuguez. 3. Hystoria de hum
Cavaleiro chamado TUngala (alias) Tundalo, ao qual foram mostradas as penas do
Inferno, e do Purgatorio, e os gozos do Paraizo.
A J. J. Nunes deve-se a Heao da Visao de Tundalo do c6dice 2274 do Arquivo
Nacional da Torre do Tombo. Trata-se de urn volume encadernado, manuscrito em
pergaminho, composto de 171 folios. Cada f6lio mede 266 por 178 mm e a parte escrita
em cada folio ocupa uma unica coluna de 198 por 124 mm. A letra, g6tica, de diferentes
maos, parece do seculo XV.
A Historia do Cavaleiro Tungullo ocupa os f." 124r a 137r e, nesta parte, cada
face tern 30 linhas com 40 letras cada uma, em media. No principio do codice, M uma
folha de papel nao numerada, como 0 indice das obras contidas no codice, as quais sao
atribufdas a Fr. Hilano da Lourinha, monge cisterciense do Real Mosteiro de Alcobaca.
A linguagem dessas duas versoes da Visao de Tundalo nao e anterior ao seculo
XIII nem posterior ao seculo XV. A epoca mais provavel das duas versoes portuguesas
e 0 final do seculo XIV para 0 comeeo do seculo XV.
Anteriormente a cota 2594, com que e atualmente identificado, 0 codice tern
passado obscuro. Um antigo catilogo dos manuscritos, em seguida a cota Hist. Prof.
532, traz 0 seguinte registro: "rns. XV, 199 f. A ~istoria dos cavalleiros da mesa
redonda e da demanda do santo Graall. Continet partem tertiam translationis in
linguam lusitanam historiae Lanceloti, quae est pars quarta operis gallici La Queste de
S. Graal et pars quinta operis La mort d'Artus". 0 romano XV significa a dataeao do
seculo XV, 199 indica 0 mimero de folios. Fanni Bogdanow (1991) faz meneao de
outra cota: 348 inscrita, segundo informa, no seculo XVII, entre 1663 e 1680, na gestao
de Peter Lambeck.
Associando observacoes nossas com as de Ivo Castro (1993), encontramos 0
titulo: A historia dos cavalleiros da mesa redonda e da demanda do Santo Graall
somente na lombada da encadernaeao de couro, com ferros e brasao imperial dour ado,
internamente, a capa traz douraeao de cerca de 1 em fazendo 0 quadro ate 0 dorso.
o codice esti refilado e dourado no corte e seu mimero exato de folios e 4 + 199 +
5, assim distribuidos: 2 folhas de guarda em papel, 1 f6lio de pergaminho com as cotas
antigas acima mencionadas, 1 f6lio de pergaminho em branco, a que se segue a primeira
folha de texto, sem incipit, encimada apenas pela abreviaturajhs. 0 texto comeea, pois,
sem titulo, e, com exceeao do C 112r, em que a coluna b interrompe-se pouco antes da
metade e 0 verso fica inteiramente em branco, segue regularmente em duas colunas ate
o C 199d, que ocupa ate a ultima linha, terminando sem explicit. Ha depois urn folio,
que seria 0 de numero 200, empaginado a ponta seca, como os anteriores, mas sem
texto. Segue-se-lhe a guarda constitufda, como no infcio, por dois folios de pergaminho
e duas folhas de papel.
o
e
que nao percebi e Ivo Castro (1993) assinala que nem sempre se observa a
conjuga~ao dos lados carne e pele. Hli no c6dice furos que se revelam naturais das
peles, visto que, em nenhum caso, prejudicam a leitura, nem no recto nem no verso. Rei
f6lios com emendas de pergaminho e, no f.. 162, 0 pergaminho original foi cortado
rente a encadernacao, tendo side aplicada a emenda de outro. Entre os f6lios que
deixam algum espaco em branco, para 141 do esperado para rubricas, alem do referido
112,estaoosf."110v,l18v,
119r,123reI27v.
a capitulo I nao tern titulo. as titulos dos capitulos, onde ocorrem, estiio sempre
em vermelho. Quanto ao esquecimento de capitais, observa-se no r: 116r, a falta da
letra Q maiuscula vermeThaantes das demais letras -uando, estas em formato maior do
que 0 usual do texto, mas percebe-se a letra pequenina marcada no espaco destinado 11
capital. Hi outras ocorrencias similares com as letras F, S, E eO. No f." 37r, coluna b,
as cinco primeiras linhas vem entre dois ganchos, urn de cada lado da coluna, fechandose seus angulos a altura da terceira linha, a esquerda, diante da silaba va-, escrita entre
as colunas e, do outro lado, diante do final da palavra: -rar, 0 infinito do verba varar,
cujo significado e eliminar. desconsiderar. pular. saltar. 0 que faz sentido, visto que a
continuaCaoda Ultimalinha da coluna a repete-se na linha seis da coluna b: span / tada.
A primeira lacuna do c6dice ocorre no f." 112r: a coluna d interrompe-se pouco
acima da metade, fica em branco todo 0 r: l12v; a segunda, no 165v: na sexta linha,
a partir do fim da coluna c, depois da frase: E el Rey partiu se entom de Camaalot com
gram gente e foi se a castel felom, na linha imediata: E pois gram prazer que Boon e
Galaaz eram desv)u fica sem sentido com 0 que segue: Entom pos a carta hu a achara;
a terceira, no f." 167r: a setima linha traz: aquele dia a anoite.aq a dentro acas, frase
que nao termina, para alinha seguinte com~ar com capital 0 capitulo seguinte; a quarta
e ultima lacuna, no f.· 177r, a linha 12 da coluna d, le-se: aquele seer{lao preguntou
Galaaz pola carreyra a qn, frase incompleta, para, na linha seguinte, comecar outro
capitulo.
A partir do C 78v figuram tracos estilizados irregulares de omamenta~ao, com
prolongamento de 1.5 a 2.0 em. das hastes inferiores de letras na Ultimalinha. A partir
do r: 94r, os desenhos passam para 0 topo dos f6lios, como prolongamentos mais
elaborados do que os anteriores, nas hastes de letras da primeira linha.
A questao dos punhos e, certamente, de grande importancia, na medida em que
pode trazer lures para outros pontos de maior interesse, como, por exemplo, a
diversidade de camada lingiifstica que 0 texto comporta. Dois punhos ou tres, a
altemarem-se ou nao, como pretendiam F. Joseph Mone, Reinhardstoettner e Gaston
Paris, sao, hoje, dados que nao satisfazem. Fanni Bogdanow(1991) declara: "Le
volume fut execute dans un atelier ou travaillaient de nombreux scribes. On distingue
au moins cinq mains differentes: Ie premier copiste a ecrit les ff. 1r - 77v; Ie deuxieme,
les ff. 78r - 93v; Ie troisieme, les ff. 94r - 101v; Ie quatrieme, les ff. l02r - 110v, 159r 199v et peut etre aussi les ff. llir - l34v; Ie cinquieme, les ff. l35r - l58v." Para Ivo
Castro (1993), "ha pelo menos seis copistas". Denominando A 0 primeiro punho, os
folios que, em sua opiniao revelam mudanca de punho sac os seguintes: 78r (B), 94r
(C), 102r (D), llir (E), 135r (F) e 159 (D novamente). Tabulando os dados, teriamos:
c:
78
A: 77 f6lios, 38,69%; B:16 f6lios, 8,04%; C: 8 f6lios, 4,02%; D: 9 f6lios, na primeira
vez e 41, na segunda, 50, ao todo, 12%; E e F: cada urn 24 fOlios, 12,06%.
o Livro de Jose de Arimateia (=UA) eo MS. 643 do Arquivo Nacional da Torre
do Tombo, c6dice elaborado entre 1543 e infcio de 1544, em Lisboa, a man do do
corregedor Manuel Alvares e oferecido ao rei D. Joao III. Foi copiado de urn exemplar
em pergaminho datado de 1314 e proveniente de Riba d'Ancora, 0 qual descende da
tradu~ao peninsular de urn manuscrito frances da Estoire del Saint Graal, primeira parte
daPost-Vulgata francesa (1230-1240).
o c6dice, que mede 250 por 190 mm, e encadernado com pele, gravada com
ornatos renascentistas, tendo restauro na lombada (Castro 1993), e compoe-se de 315
f6lios de papel. 0 texto nao apresenta colunas e foi redigido por dez punhos (Castro
1993), que utilizam predominantemente a letra g6tica cursiva manuelina do seculo XVI.
A folha de rosto nao e numerada e con tern uma dedicat6ria do corregedor Manuel
Alvares ao rei D. Joao III. No Clr, inicia-se urnajustifica~ao e, no f."2v, encontra-se 0
incipit do romance, que termina no f." 311v com urn explicit, sucedido pelo c610fon
copiado do manuscrito de Riba d'Ancora.
Os papeis utilizados para a confec'rao do ms. 643 sao de vcirias procedencias,
como demons tram as diversas marcas de agua encontradas, varia'roes da "mao de dedos
abertos, sob estrela de cinco pontas", dentre as quais apenas duas assemelham-se a
marc as catalogadas por Briquet como pertencentes a papeis fabricados no sudoeste da
Fran'ra entre 1537 e 1550. As foIbas de guarda, contemporaneas da encaderna'rao,
contem marcas de agua variantes do "jarro com faixa, sob coroa e flor de quatro
p&alas", catalogadas por Briquet e Atafde e Melo como de papeis fabricados em
Lunebourg, em 1545, e em Antuerpia, em 1544 (Castro 1979).
Os cadernos do c6dice apresentam estrutura peculiar, pois organizam-se em
sucessoes de bif6lios, posteriormente reunidos por fio de cosedura e por colagem de
dorso, 0 que constitui procedimento comum entre os tabeliaes quinhentistas. Esse dado
e outros, como a diagrama'rao do f6lio e 0 tipo de letra, permitem supor que a execu'rao
do c6dice ficou a cargo dos tabeliaes a servi'ro de Manuel Alvares (Nascimento 1984).
A numera'rao esta no lado direito da cabe'ra do f6lio, sempre no recto, em numeros
arabic os antecedidos da abreviatura fol. A dimensao da mancha de texto varia de urn
minimo de 21 linhas a um maximo de 33 linhas por f6lio, variando tambem 0 espa'ro
interlinear segundo 0 punho. As margens podem ser respeitadas com regularidade
(f."'lv, 2r) ou podem ser ultrapassadas por grafismos (f." 141) e podem variar tambem
quanto ao modo de marca'rao (tra'ro de justificar;ao com ponta seca ou com dlamo, ou
vinco de justificacao). Ha, de fato, relacao entre 0 modo de marca~ao da margem e 0
tratamento desta, ja que ocorre maior mlmero de grafismos quando a justificar;ao e feita
por vinco (Nascimento 1984: 127).
Segundo se observa na edi~ao de Carter (1967), 0 codice e decorado somente na
caligrafia da folha de rosto, nas capitais que iniciam capitulo ou folio e nas capitais ou
linhas iniciais das epigrafes. A dimensao e 0 apuro dos ornamentos e, porem, muito
variavel. Quanto
tinta usada para as capitais e para a decora~ao, parece ser a mesma
usada no texto.
UA foi redigido por dez punhos diferentes que trabalharam simultaneamente na
confeccao do codice, com variado grau de interven~ao. Utilizam-se quatro tipos de letra
(Nascimento 1984:127), que SaD as seguintes (Castro 1993), em escala decrescente de
freqiH~nciade uso: g6tica rotunda caligrafica (0,3%), gotica manuelina (2,9%), gotica
rotunda (5,1%) e gotica cursiva manuelina (91,7%). Tra~ando um paralelo entre os
cadernos redigidos pelos punhos e 0 tipo de letra utilizado, pode-se constatar a seguinte
rela~ao: punho n.l, caderno A, gotica rotunda caligra.fica e gotica manuelina; punho
n.2, cadernos B, C, D, SeX; punho n.3, cadernos E, F (parte) e V; outro punho n.3,
cadernos F (parte), G e H. Desde 0 caderno Bate 0 H, a letra e cursiva manuelina.
Punho nA, caderno I, gotica manuelina; punho n.S, caderno K; punho n.6, cadernos L e
M; punho n.7, cadernos N, 0, P; punho n.8, cadernos Q e R; punho n.9, caderno T.
Desde 0 caderno Kate 0 T, a letra e cursiva manuelina (Nascimento 1984: 127).
a
o
o codice 44340 da Biblioteca Nacional de Paris contem 0 manuscrito Fonds
Portugais 40 (atual 61), Trata-se de urn ap6grafo quinhentista anonimo, conhecido
como "0 livro de marinharia de Andre Pires", titulo atribufdo por Luis Mendon~a de
Albuquerque, em sua edi~ao de 1963, em vista de 0 nome desse piloto portugues que
viveu no seculo XVI constar do f." 19r. E bem provavel, no entanto, que apenas a parte
relativa as instru~oes para 0 uso das tabelas (f." ISr - 16r) e a que consta do folio citado
sejam da sua autoria. Podemos verificar atraves do microfilme do manuscrito que ele e
bem conservado. 0 texto antecedido por algumas tabelas e encontra-se distribuido em
urna coluna, sobre pautas bem tra~adas, com margens de dimensao regular.
A numera~ao e feita na margem superior a direita, sempre no f6lio recto, de 1 a
37. Certas letrinas e capitais SaD desenhadas com muito esmero. Algumas tabelas sao
caprichosamente ornadas (especialmente as dos f." 8r a 14v); nos [OS lr e 7v, os nomes
dos meses estiio escritos com letras de tra~ado regular, apresentando, as vezes,
ornamentos rudimentares.
letras cursivas que se tornam a maioria, ao serem
grafados os nomes dos meses, como nos f," 3r a 6v. Encontram-se letrinas enquadradas,
contudo, sem iluminuras e, as vezes, elas altern am com letrinas nao-enquadradas, como
nos f." 16v, 17r e 18v. Do f.· 22r em diante, essas ultimas predominam, porem, a partir
do f." 21v, tornam-se mais simplificadas. Em uma reprodu~ao dos f." lOve l1r,
percebemos que os nomes dos meses das tabelas sao coloridos. No f." 10v, Setembro
esta em vermelho, Outubro, em verde, Novembro, em azul e Dezembro, em verde. No
f." 11 r, Janeiro e Fevereiro sao transcritos em tinta verde,' Mar~o, em azul e Abril, em
vermelho.
e
Ha
Os ti'tulos dos diversos tratados e regimentos, assim como as rubricas, sac
destacados, quer pela posicao centralizada, quer pelo desenho mais cuidado das letras.
Estas se apresentam distribuidas em 3 a 5 pautas, realcadas, assim, pelo tamanho bem
maior do que as demais. No final das "reparticoes" (C 18v) hci, como arremate, tres
linhas em destaque, com letras de maior porte do que as demais. Esse mesmo processo,
tambem, e observado na primeira linha com que se indica a maior parte das divisoes em
paragrafos.
Os f6lios sac de urn formate regular, porem, em cada urn deles 0 mlmero de linhas
e variavel, sete tern 33 linhas; os demais, em ordem decrescente, sac: quatro com 28 e
com 26; tres com 35,31,25 e 20, dois com 34, 32,30 e 29; uma s6 vez encontram-se
f6lios com 39linhas, 36, 27, 23, 21, 19 e urn com 8linhas. Ha tres f6lios em que nada
foi grafado. A letra e muito regular ate 0 C 21r; os f." 22r e 22v apresentam as capitais
em tamanho reduzido. Em toda a margem direita do f." 22r, assim como no canto
inferior direito do f." 22v, ha manchas de tinta provenientes das marcas deixadas pelas
letrinas de urn e outro f6lio; esse e urn indicio de que elas foram desenhadas,
posteriormente, com certeza, por outro copista.
A letra comeca a se tomar menos cuidada, a partir do C 23r, com exceCao das
primeiras linhas de cada paragrafo, que se destacam por serem bem desenhadas e
sobriamente omadas. As ligaduras, a partir desse folio, sac bem mais freqtientes, em
vista do tipo gotico cursivo que a partir dai se instaura. A letra gotica e bem talhada, as
mimlsculas ocupam 0 espaco de duas linhas da pauta, sac mais compridas do que largas
e levemente angulosas. As maiusculas, no corpo do texto, sac urn pOllcOmais altas e
largas. Nas rubricas dos capitulos, ou nas primeiras linhas de alguns paragrafos, as
mail1sculas se destacam, nao s6 pelo tamanho, como tambem pelos tracos com
angulosidade bem marcada, encurvados e ainda com pequenos ornatos, quer na parte
superior, quando se trata de R, A, N, M, H, 0; no meio, quando e M, N, 0, ou, ainda,
na parte inferior, nos tipos de S. A partir do r: 29, elas sao, em sua maioria,
caracterizadas pelo arredondamento dos tracos. Geralmente, nesses folios, as
rninusculas que iniciam a linha tern 0 traco inferior curvo e bem prolongado, voltado
para a esquerda (como 0 g, s, z, y), enquanto as ultimas ou penUltimas letras, proximas
a margem direita, na sua maioria, prolongam os seus tracos para a direita (como 0 r, s,
x,l,m).
Para representar a conjuncao coordenativa copulativa, usa-se com freqtiencia a
nota tironiana, mas essa conjuncao tambem pode estar grafada como he ou e. Existem
letras sobrepostas ou intercaladas, em tamanho menor, nas rubricas, ou em meio ao
texto, parecendo correcoes. Tambem encontramos a letra a inserida na haste direita
encurvada do n. A 1. 22 do f." 15r, ha uma correcao feita pelo copista: uma barra
inclinada corta as duas letras -in- excedentes na palavra erradamente transcrita sinoU
por soU. Oentre as omissoes, causadas por saItos, apontamos: no C 24v, 1. 19 (dois
saltos), 1. 24 (espaco vazio correspondente a quatro letras, destinado ao Dumero de
leguas que seria indicado). Ha que registrar a existencia de alguns borroes que
dificultam a leitura. Apenas no meio do r: 28v, e que 0 texto e iniciado, podendo estar
espaco reservado para uma figura.
°
Encontram-se vinhetas, no final do f." 20v, logo ap6s a rubrica, no r: 3Or, assim
como no r: 35r, com 0 objetivo de preencher 0 espaco vazio da parte inferior, sendo
que, no r: 35r, M tambem urn grupo de riscos. Esse mesmo tipo de riscos esta presente
no final do C 32v, em mimero de dois grupos. Como arremate de pagina, M a linha
horizontal interrompida por barras inclinadas em inumeros f6lios. Na ultima linha do C
34v,
urn espaco em branco, correspondente ao final da ultima frase, que
bruscamente interrompida para completar-se no falio seguinte. Esse espaco
preenchido por dois tracos horizontais, urn dos quais corresponde ao traco direito
prolongado de uma letra m que se acha em fim de palavra, na linha anterior. No r: 37r,
a primerra rubrica tern 0 seu final assinalado por duas barras inclinadas, a I 14, urn
espaco que ficou em aberto
preenchido por tres pares de barras horizontais,
antecedidas por duas pequenas, levemente, inclinadas; a primerra e a ultima de cada
uma delas unern-se as horizontais, formando tres retangulos. A 1.18, essas barras
encontram-se separadas; a segunda rubrica sintetiza-se na palavra "Regra" que esta
centralizada; a terceira rubrica guarda urn espaco bem pronunciado do fim do paragrafo.
final do texto, no cadice,
indicado pela palavra latina finis, seguida de duas barras
inclinadas.
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o
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RESUMO: Apresentam-se cinco textos dos seculos XV e XV/, de interesse diverso para
o estudo da Hist6ria da lingua Portuguesa. Dois deles permitem confronto entre
testemunhos, sendo os outros testemunhos unicos. De in(Cio, observados a partir de
microfilme e reprodu~iio em papel, os dados codico16gicos foram cotejados com a
bibliografia especializada e, em dois casos, con/irmados mediante exame do proprio
c6dice.
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Arimoteia -lisboa,