Anais do VIII Seminário de Iniciação Científica SóLetras – CLCA – UENP/CJ - ISSN 18089216
CONSIDERAÇÕES SOBRE A PERSONAGEM MARIAZINHA TIRO A ESMO, DO
ESCRITOR JOÃO ANTONIO
Luana Monteiro
(G – CLCA – UENP/CJ)
Nerynei Meira Carneiro Bellini
(Orientadora – CLCA – UENP/CJ)
Introdução
Através deste artigo propomos uma análise da personagem Mariazinha Tiro
a Esmo do escritor contemporâneo brasileiro João Antonio Ferreira Filho, presente no conto
que leva o nome da personagem, que apesar de ser ficcional, tem uma elaboração de forma
muito semelhante à realidade. A propósito, ao transportar a realidade para a literatura o
escritor ganhou reconhecimento como “Intérprete do Submundo”.
Assim como a personagem Mariazinha Tiro a Esmo, seus personagens
malandros e marginalizados não são postos ao leitor sob uma ótica de piedade perante a cruel
situação de uma massa desassistida, encurralada nos subúrbios das grandes cidades
brasileiras. Contrariamente a isso, João Antonio cria seus personagens de forma que as suas
artimanhas, malandragens e malabarismos são apenas alguns recursos utilizados para garantir
sobrevivência, como descreve Diogo Braga Norte em seu artigo A volta de João Antonio: “Ao
contrário de muitos narradores que falam da pobreza às vezes do alto da torre, o narrador de
João Antonio a assume e, com isso, dá voz ao objeto representado.” (Norte, Braga Norte,
2005, p.13)
Nesta perspectiva, Mariazinha Tiro a Esmo é uma jovem adolescente, de 14
anos, que pouco teve afeto e convivência familiar. Desde muito jovem sem lar, sem família, a
menina se tornou vendedora de balas em faróis e também olheira – comandava outras
meninas menores na venda nos faróis – , e logo passou a se prostituir e praticar pequenos
delitos entre outras artimanhas pela cidade grande para garantir seu sustento.
A obra de João Antonio, por meio da ficção, apresenta a vida de “típicos”
cidadãos brasileiros, por isso consideramos importante ressaltar a propriedade da ficção
literária, especialmente a formulação da personagem dentro da ficção, que é feita de modo
que o leitor possa visualizar, montar, formular a personagem em sua imaginação e, assim,
transformá-la em um ser quase real.
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Na formulação de suas personagens ficcionais de modo que essas se
identifiquem com seres reais, o escritor utiliza de suas lembranças e observações para criar
uma nova personagem ficcional. Além desses recursos utilizados pelo escritor, existem
também elementos como aspectos esquemáticos e contextos objectuais que proporcionam a
verossimilhança ao texto. Através dos críticos Antonio Candido e Anatol Rosenfeld,
poderemos compreender melhor essas propriedades ficcionais presentes na criação das
personagens de João Antonio.
João Antonio, uma literatura que transborda vida.
Nascido em 27 de janeiro de 1937, de origem em uma família de pequenos
comerciantes que moravam no subúrbio de São Paulo, João Antonio, antes de iniciar sua
carreira de escritor, trabalhou como office boy, almoxarife, operário de fábrica e também deu
aulas numa escola para formação de policiais. Dessa vivência, já pode conhecer pessoas e
situações que viria a retratar em suas obras.
Em 1963 lança seu primeiro livro de contos, Malagueta Perus e Bacanaço
com grande aceitação pelo público e a crítica.
Em todos os seus contos, os personagens são figuras típicas que vivem nas
periferias e subúrbios dos grandes centros, sendo mulheres, homens, senhores, operários,
vendedores ambulante, jovens, crianças abandonadas, prostitutas, cafetinas, homossexuais,
pedintes, desempregados, jogadores de sinuca, entre outros personagens da “arraia miúda”
que perambulam pelas ruas dos grandes centros urbanos como o próprio autor descreve:
Meu personagem é desdentado ou tem mau hálito, é feio, sujo, mora em muquinfos,
mocambos, favelas. A maioria não tem carteira de trabalho assinada e sequer votou
uma única vez na vida. Não faz três refeições por dia, não viaja de avião e só tem
voz para gritar nos estádios de futebol, onde é surrado pela polícia quando protesta,
como nas outras áreas. Vive fora da moda, não sabe usar talheres e jamais é assunto
nos jornais da grande imprensa. Mas e mais da metade do povo brasileiro. (Papéis
do Escritor: Leituras sobre João Antônio. SILVA, 2008, p. 203. Apud Antonio apud
ANTONIO AGNONI sd.)
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Os principais cenários de seus contos são as cidades de São Paulo e Rio de
Janeiro. Ao escrever situações cotidianas de seus personagens acaba por contrariar as
“enaltecidas referências” desses grandes centros como cidade do progresso e cidade
maravilhosa, denunciando os contrastes sociais existentes nelas.
Por sua grande preocupação em produzir uma literatura mais realista,
humana, palpável e também por ter o olhar atento à formação intelectual e cultural de seus
leitores, como relata em seu projeto literário “De Corpo a Corpo com a Vida,” publicado em
1975, o autor ganha reconhecimento sendo chamado de “intérprete do submundo.”
Destacando-se, assim, pela iniciativa de dar voz e espaço a uma massa discriminada em seus
contos, sendo uma de suas principais marcas o uso da linguagem que parece ser transportada
das ruas, fábricas, becos, favelas e bares para dentro do conto tal como encontramos na fala da
personagem analisada:
Meu neguinho, foi mais ou menos assim. O assassino, até que era legal, um cara
que vendia coisas nos becos, Manja? Atendia legas às pampas. O paca arranjava
cada piadinha gozada. Todo mundo gostava dele, sabe? Uma cara, um dia, apareceu
na porta da birosca, grudado numa mulher [...] (ANTONIO, 1996, p. 27)
E assim como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo
Neto e outros escritores que trouxeram para literatura as mazelas do sertão brasileiro, João
Antonio trouxe para literatura a face desigual e oculta dos grandes centros urbanos até então
“escondidas embaixo do tapete.”
Sob este aspecto, João Antonio faz para as esferas malditas da sociedade urbana o
que Guimarães Rosa fez para o mundo do sertão, isto é, elabora uma linguagem que
parece brotar espontaneamente do meio em que é usada, mas na verdade se torna a
língua geral dos homens, por ser fruto e uma estilização eficiente. (CANDIDO,
1999, p. 12)
Não podemos também deixar de falar sobre o escritor Afonso Henrique de
Lima Barreto, grande mestre de João Antonio, que é digno de constar nas dedicatórias dos
livros do escritor. O intérprete do submundo deu continuidade à obra de Lima Barreto que em
sua época também contribuiu para apresentar o submundo à literatura através de suas
crônicas. Há de se notar também que ambos os escritores mesmo sendo de épocas diferentes,
tiveram a mesma vivência de uma vida humilde e um grande compromisso e envolvimento
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com a cultura e literatura do País e pouco deram espaço para a fama em suas vidas. Portanto,
é grande a influência de Lima Barreto nas obras de João Antonio.
Mariazinha Tiro a Esmo, uma personalidade típica do cenário brasileiro
Dura, vivida, batida, já usada. Falando é crua, desencarnada. Mas inflexível com as
leis e com a ética das malandragem. Mulher já, apesar de meio aturdida.
João Antônio
O conto compreendido em poucas páginas, narrado em terceira pessoa e
com falas do próprio personagem, apresenta a história de uma jovem abandonada pelos pais,
que vive pelas ruas nas diversas formas de prover seu sustento.
O autor, logo nos primeiros parágrafos, descreve a personagem como
branca, dissimulada, alta, magra, atenta e viva e também a chama de criança. Por essas
características compreendemos que embora a personagem seja jovem e do sexo feminino,
convive e disputa seu espaço em meio a malandros, favelas, becos e outros perigos que a
cidade oferece. Quem observa a menina pode lhe atribuir diversos pensamentos sobre sua
personalidade, contudo somente “os amalandrados” reconhecem sua picardia.
Ao desenvolver o conto o autor narra a vida da personagem. Nesse espaço o
escritor coloca o cotidiano da personagem que se assemelha a de muitos jovens desassistidos
por seus familiares e pela sociedade.
Inicialmente Mariazinha Tiro a Esmo trabalha como vendedora em faróis e
também comanda outras meninas memores na venda. A jovem, embora possua “catorze anos
e pouquinho,” aparenta ter dezenove anos, sua aparência é sofrida, carregada e agressiva. Para
garantir sua alimentação recolhia restos de alimentos dos restaurantes do centro e levava a
uma senhora que criava porcos e em troca ganhava um prato de comida por dia. Entre muitas
características da personagem o autor destaca seus dentes podres, mais uma transposição da
precariedade em que a jovem vivia.
Em relação a sua família a jovem tinha um pai descrito como português,
ferroviário e bêbado e a mãe, como uma “marafona” com quem teve pouca convivência. Sua
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casa era um barraco em uma favela. Já tendo convivido pouco com a mãe, sua relação com o
pai tão pouco foi afetuosa, já que ele só lhe dava safanões, e quando a menina completara
doze anos o pai tentou seduzi-la o que forçou sua saída da casa.
Após sua saída da casa a jovem entrou de vez no mundo da malandragem,
passou a viver entre prostitutas, camelôs e malandros. A jovem vivia através de pequenos
roubos e prostituições, havia dias em que ganhava muito e outros em que passava fome e
dormia na rua.
A mesma forma de vida da personagem: uma jovem sem família, sem lar,
desassistida em meio a marginais, sem educação, saúde, tendo que se prostituir, roubar para
garantir seu sustento reflete a vida de muitos jovens que vivem em subúrbios, favelas e
periferias.
A personagem apresentada é mais uma entre outras em que João Antonio
cria para denunciar uma realidade do País.
A Criação dos Personagens Ficcionais de João Antonio
O conto de João Antonio compõe-se por personagens ficcionais criados
através de lembranças e observações de suas vivências entre a “arraia miúda”, já que o
romance, como uma categoria ficcional, tem como base um ser vivo para criar um ser fictício.
Entretanto, vale esclarecer que a ficção, por mais que deseje produzir uma
estreita diferença entre o real e o não real, nunca poderá ir além de uma verossimilhança, pois
se assim for ela perderá suas propriedades. A personagem fictícia não poderá ser como o ser
real, de modo que o ser real é misterioso, guarda segredos e convicções e age de modo
inesperado, contrariamente a uma personagem de ficção que tem seu interior revelado pelo
escritor no decorrer do romance. Antonio Candido utiliza algumas palavras de Foster para
exemplificar melhor essa relação entre o ser real e o ser fictício:
O Homo fictus é e não é equivalente ao Homo sapiens, pois vive segundo as
mesmas linhas de ação e sensibilidade, mas numa proporção diferente e conforme
avaliação também diferente. Come e dorme pouco, por exemplo; mas vive muito
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mais intensamente certas relações humanas, sobretudo as amorosas. Do ponto de
vista do leitor, a importância está na possibilidade de ser ele conhecido muito mais
cabalmente, pois enquanto só conhecemos o nosso próprio exterior, o romance nos
leva para dentro da personagem, porque seu criador e narrador são a mesma pessoa.
(CANDIDO, 1976, p. 63- 64)
A criação da personagem verossimilhante é fruto de um trabalho interno
com todos os componentes da obra, um trabalho regido com contextos objectuais, aspectos
esquemáticos, palavras, imagens, descrição de fisionomias, gestos elementos que darão
coerência ao ser fictício determinando seu caráter, suas possíveis escolhas e seu destino:
Cada traço adquire em função de outro, de tal modo que a verossimilhança, o
sentimento de realidade, depende sob este aspecto, da unificação do fragmentário
pela organização do contexto. Essa organização é o elemento decisivo da verdade
dos seres fictícios, o princípio que lhes infunde a vida, calor e os que faz parecer
mais coesos, mais apreensíveis e atuantes do que os próprios seres vivos.
(CANDIDO, 1976, p. 79-80)
Ainda se faz necessário atentarmos para alguns aspectos que também fazem
dessas situações e desses personagens fictícios ganhar realidade e consistência, levando o
leitor a encontrar na ficção uma identificação e aproximação. Esses elementos são os
contextos objectuais e os aspectos esquemáticos, que por sua vez, contribuem para se alcançar
a verossimilhança na obra ficcional.
Contextos objectuais são, por exemplo, fonemas e orações que são
constituídas por características sonoras que são atribuídas ao objeto que podem, por sua vez,
fornecer uma dinâmica e vivacidade ao texto. Em meio aos contextos objectuais se localizam
os aspectos esquemáticos, ou seja, sequências de idéias postas que determinam concretizações
de cenas, cenários e situações na imaginação do leitor.
A preparação de contextos objectuais, a seleção criteriosa de palavras, a
estrutura da oração, as figuras de linguagem, os recursos lingüísticos, o verbo, a narração de
movimentos semelhantes aos dos seres reais e as conotações propositais são essenciais à
produção do texto ficcional: “Ainda assim, as objectualidades puramente intencionais
projetadas por intermédio de orações têm certa tendência a se constituírem como realidade.”
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Por oportuno, citemos um trecho do conto analisado para exemplificar a
construção:
O sol bate e rebate nos cabelos da criança. Plantada na esquina da travessa
Angrense, às onze da manhã, ela trabalha. Fica justinha na calça cumprida e uma
figura esguia, enrustida e sonsa, nenhuma gordura na barriga lisa, cujo umbigo a
mini-blusa mostra. (ANTÔNIO, 1996, p. 25)
No trecho acima citado, encontramos uma descrição minuciosa da
personagem em um determinado cenário que também é descrito de forma detalhada incluindo
algumas sensações no momento em que diz que o sol bate e rebate no cabelo da criança, o que
facilita para o leitor uma imaginação mais concreta desta “cena”.
Na construção da personagem Mariazinha Tiro a Esmo, além das influências
do próprio escritor ao formular o ser fictício com suas bagagens pessoais (suas lembranças do
contato e de observações de pessoas de quem retira inspiração para escrever), encontramos
também outros recursos como a verossimilhança, aspectos esquemáticos e contextos
objectuais que são, por sua vez, intrínsecos à constituição de uma obra ficcional que
possibilita ao leitor visualizar, montar, formular e adentrar o universo da personagem.
Considerações finais
Após a presente análise, concluímos que mais uma vez o autor pode usar da
literatura para denunciar e dar voz a algumas personalidades “típicas” de uma realidade
brasileira oculta. Por oportuno, além desse viés social da obra, também identificamos dentro
do conto, um gênero ficcional, propriedades como a verossimilhança, contextos objectuais e
aspectos esquemáticos, elementos que são essenciais dentro da obra ficcional para que essa
possa desenvolver seu objetivo, ou seja, o de parecer real, verossímil e de transportar o leitor
para o universo ficcional da obra.
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Referências :
ANTÔNIO, João. Sete vezes rua. São Paulo: Scipione, 1996.
CANDIDO, Antonio; ROSENFELD, Anatol; PRADO, D. de Almeida; GOMES, Paulo E.
Salles. A personagem de ficção. São Paulo: Perspectiva, 1987.
CANDIDO, Antonio. Na noite enxovalhada. Remate dos Males. nº 19: João Antonio,
UNICAMP: Campinas, 1999, p.12.
CANDIDO, Antonio. Iniciação à Literatura Brasileira (Resumo para principiantes). São
Paulo: Humanitas Publicações, 1999.
SILVA, Telma Maciel da. Falso mirante: um olhar sobre a correspondência trocada entre o
escritor João Antonio e o jornalista Jácomo Mandato. (In. OLIVEIRA, Ana Maria Domingues
et. al (org). Papéis do escritor. Assis: FCL – Assis, Unesp Publicações, 2008, p. 195-214)
NORTE, Diego Braga. A volta de João Antônio. Todas as Letras G, 2005.
Para citar este artigo:
MONTEIRO, Luana. Considerações sobre a personagem Mariazinha Tiro a esmo, do
escritor João Antônio. In: VIII SEMINÁRIO DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA SÓLETRAS Estudos Linguísticos e Literários. 2011. Anais... UENP – Universidade Estadual do Norte do
Paraná – Centro de Letras, Comunicação e Artes. Jacarezinho, 2011. ISSN – 18089216. p.
353 – 360.
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Luana Monteiro