1420 Trabalho 357 - 1/4 VIVER SAUDÁVEL PARA OS MORADORES DE RUA DO MUNICÍPIO DE SANTA MARIA PORTO, Leandra Oliveira1 VARGAS, Daíse dos Santos2 BACKES, Dirce Stein 3 FERREIRA, Carla Lizandra de Lima 4 ERDMANN, Alacoque Lorenzini5 PRÊMIO: GLETE DE ALCÂNTARA - Tema Central do CBEn do ano em curso. PALAVRAS CHAVE: Enfermagem; Processo saúde-doença; Promoção da Saúde. INTRODUÇÃO: Para compreender a saúde a partir de uma concepção ampla e multidimensional, é preciso considerar as singularidades e os diferentes cenários que integram o viver saudável dos indivíduos em seu contexto real e concreto. Historicamente, o modelo de saúde predominante tem privilegiado intervenções curativistas e assistencialistas, com pouco estímulo às ações e políticas que potencializam o viver saudável de cada ser humano, sujeito e protagonista de sua própria história, especialmente dos indivíduos que vivem à margem da sociedade, expostos às contínuas desordens e contradições do meio1. Potencializar o processo de viver saudável significa sob este enfoque, promover políticas públicas comprometidas com emancipação social, possibilitadas pela inclusão e participação dos diferentes sujeitos sociais nas discussões que dizem respeito à saúde como um fenômeno complexo e singular. Significa apropriar-se dos significados singulares que envolvem o processo saúde-doença e desenvolver 1 Acadêmica do terceiro semestre do curso de enfermagem do Centro Universitário Franciscano (UNIFRA). Bolsista de Iniciação Científica do Grupo de Estudos e Pesquisa em Empreendedorismo Social da Enfermagem e Saúde (GEPESES). E-mail: [email protected] 2 Acadêmica do terceiro semestre do curso de enfermagem da UNIFRA. Bolsista voluntária do GEPESES. 3 Enfermeira. Doutora em enfermagem. Professora do curso de enfermagem da UNIFRA. Líder do GEPESES. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisa em Administração de Enfermagem e Saúde (GEPADES). 4 Enfermeira. Mestre em Enfermagem. Professora do curso de enfermagem da UNIFRA. Membro do GEPESES. 5 Enfermeira. Doutora em Filosofia da Enfermagem. Professora Titular do Departamento de Enfermagem da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Líder do GEPADES. Membro GEPESES. 1421 Trabalho 357 - 2/4 ações de acordo com os interesses e necessidades de cada indivíduo e/ou comunidade. Enquanto que, para alguns viver saudável significa estar em perfeito estado de saúde, para outros, significa estar sem doença, e para outros ainda significa manter o equilíbrio harmônico entre as contradições da vida2,3,4. Estas diferentes concepções nos motivaram, enquanto pesquisadoras, a querer compreender o significado do cotidiano dos moradores de rua, suas peculiaridades, suas condições de vida, bem como o seu processo de viver saudável. Tendo em vista que os moradores de rua crescem a cada dia no município de Santa Maria, rompendo limites geográficos, isto é, deixando vilas e favelas para estarem nas ruas e praças, impulsionamos a compreender tal fenômeno e possibilitar novos olhares pela ampliação do conceito de saúde com vistas à transformação social. OBJETIVO: Compreender o significado do “viver saudável” para os moradores de rua do Município de Santa Maria, RS. METODOLOGIA: Trata-se de uma pesquisa qualitativo-exploratória. A população do estudo foi composta por sete indivíduos em situação de rua, do sexo masculino, com idade entre 22 e 55 anos. Os dados foram coletados por meio da técnica de entrevista, a seguir, transcritos, e analisados à luz da hermenêutica 5. As entrevistas foram realizadas pelos pesquisadores no período de fevereiro a junho de 2009. Visando assegurar o anonimato, os participantes serão identificados ao longo do texto com a letra “M”, seguida de um algarismo que corresponde à fala. O projeto de pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro Universitário Franciscano - UNIFRA, sob o número 028.2009.2. RESULTADOS E DISCUSSÃO: Evidenciou-se, que os participantes se encontram num contínuo processo de organização e reorganização de suas identidades, possibilitadas pelas relações e interações do ser e estar nas ruas da cidade. Na fala a seguir, um dos moradores se identifica e assume a sua identidade como morador de rua, ao refletir a sua condição: Sou, sou morador de rua. Eu sou morador de rua... eu vim de Porto Alegre e agora não tenho trabalho... sou morador de rua (M1). Da análise dos dados, resultaram duas categorias que serão discutidas a seguir. O viver saudável associado à liberdade da rua: Mesmo sabendo dos paradoxos e contradições da rua, muitos elegem a rua como espaço para estar e passar o seu dia-a-dia. Este aspecto ficou bastante visível no relato de um dos moradores que se considera “livre”, em outras 1422 Trabalho 357 - 3/4 palavras, saudável, pelo fato de passar os seus dias na rua: [...] vivendo na rua eu me sinto livre, me sinto em paz... quando eu estava lá naquele lugar(instituição assistencial), eu não vivia em paz, eu tinha inimigos [...] na rua eu tenho amigos, olho o movimento, todos me querem bem, me dou bem (M1). O paradoxo da “liberdade” aparente da rua, trás consigo uma série de indagações que merecem ser debatidas ao se pensar e falar em políticas públicas voltadas para a promoção e proteção da saúde. Nessa direção, “as ruas”, além de espaços de convivência, se tornam, também, em espaços de promoção do viver saudável. Desse modo, o viver saudável para alguns está associado à liberdade da rua, na qual um constante movimento do ir e vir, mesmo que duro, estimula a dinamicidade e vitalidade pela sobrevivência do dia-a-dia. O viver saudável associado às regras e normas do albergue: A pesquisa evidenciou que viver saudável para alguns moradores de rua, está associado às normas e regras institucionais, nas quais os mesmos são condicionados a não beberem, fumarem e/ou se drogarem, ou seja, são “obrigados” a seguir as regras da casa. Nesse caso, o albergue se constitui num espaço que auxilia na promoção do viver saudável, pela determinação de regras que confrontam e reorganizam o cotidiano da rua: Olha viver saudável é o cara não poder beber, não usar droga, nada, aí é uma vida saudável. Se usar já não é uma vida saudável, aí se ia dura 20 anos já não dura... no albergue não pode nada(M4). Mas aqui tem bastante (referindo-se ao uso de álcool), claro na rua, aqui dentro não pode, aqui dentro não, só na rua, mas pra quem dorme na rua aqui é melhor (M5). Com base nos argumentos anteriores, percebe-se uma estreita associação entre o estar na rua e o uso das drogas ilícitas. CONSIDERAÇÕES FINAIS: Os resultados evidenciaram que existe um paradoxo entre a “liberdade” do ser e estar na rua e as “normas e regras” preconizadas pelo albergue. Enquanto que para alguns moradores a rua representa liberdade e paz, ter amigos, não ter horários, regras e rotinas, para outros o albergue representa um espaço “facilitador/impulsionador” do processo de viver saudável, pelo fato deste ter como normativa institucional, a não utilização do álcool e/ou outras drogas ilícitas. As noções de viver saudável encontradas permitiram avançar nas discussões acerca da temática no sentido de impulsionar os profissionais da enfermagem/saúde a atuarem de forma pró-ativa no campo das investigações e, principalmente, no delineamento de políticas de intervenção para a melhoria da 1423 Trabalho 357 - 4/4 qualidade de vida, a partir dos significados que os próprios indivíduos e comunidades atribuem ao processo saúde-doença. REFERÊNCIAS 1. Backes DS. Vislumbrando o cuidado de enfermagem como prática social empreendedora [tese]. Programa de Pós-Graduação em Enfermagem, Universidade Federal de Santa Catarina - UFSC, Santa Catarina; 2008. 2. Francioni FF, Silva DMV. O processo de viver saudável de pessoas com Diabetes Mellitus através de um grupo de convivência. Texto Contexto Enferm 2007; 16(1): 105-111. 3. Scherer M, Andrade S, Mello AL, Bonetti A. O viver saudável e o viver não saudável: o significado para mulheres maduras e ativas. Cad. Saúde Colet. 2007 15(1): 131-146. 4. Pelzer MT, Sandri JVA. O viver e ser saudável no envelhecimento humano contextualizado através da história oral. Rev Gaúcha Enferm 2002; 23(2): 108-22. 5. Strauss A, Corbin J. Pesquisa qualitativa: técnicas e procedimentos para o desenvolvimento de 217 teoria fundamentada. 2. ed. Porto Alegre: Artmed; 2008.