José Carlos Lima AVALIAÇÃO EXPERIMENTAL DA INFLUÊNCIA DO REVESTIMENTO DE ASSENTOS AUTOMOTIVOS NO CONFORTO TÉRMICO Trabalho de final de curso apresentado à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Engenharia Automotiva (Mestrado Profissionalizante) São Paulo 2006 ii José Carlos Lima AVALIAÇÃO EXPERIMENTAL DA INFLUÊNCIA DO REVESTIMENTO DE ASSENTOS AUTOMOTIVOS NO CONFORTO TÉRMICO Trabalho de final de curso apresentado à Escola Politécnica da Universidade de São Paulo para obtenção do título de Mestre em Engenharia Área de Concentração: Engenharia Automotiva (Mestrado Profissionalizante) Orientador: Arlindo Tribess São Paulo 2006 iii À Fátima, Vinícius e Matheus pela participação e estímulo em todos os momentos Aos meus pais Nelson (póstuma) e Emília, pelo apoio em toda minha formação acadêmica. . iv AGRADECIMENTOS Ao meu orientador Prof. Dr. Arlindo Tribess, pelo suporte, confiança, paciência e cooperação na realização deste trabalho. Ao colega do Mestrado em Engenharia Mecânica da EPUSP, Victor Barbosa Felix, pela imensa ajuda prestada durante os ensaios em laboratório e em campo. Aos professores da Escola Politécnica da USP e colegas, pelos momentos de troca de conhecimento em muitos momentos do curso. Aos colegas de trabalho e profissionais da área por cada contribuição ao longo desta jornada. A todos que, direta ou indiretamente, colaboraram na execução deste trabalho. A todos vocês, muito obrigado! v SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO 1 1.1 Objeto do trabalho e objeto de estudo 5 1.2 Estrutura do trabalho 6 2. CONFORTO TÉRMICO 7 2.1 Fisiologia do corpo humano 7 2.2 Conforto térmico 8 2.2.1 Condições de conforto de Fanger 9 2.2.2 Desconforto térmico local 13 2.3 Avaliação de conforto térmico em veículos automotivos 13 3. UTILIZAÇÃO DE TEMPERATURAS EQUIVALENTES NA AVALIAÇÃO 15 DE CONFORTO TÉRMICO EM AUTOMÓVEIS 3.1 Temperatura equivalente 15 3.2 Determinação da tempeteratura equivalente 15 3.3 Manequins 19 3.3.1 Tipos de Manequim quanto à forma 21 3.3.2 Manequim com temperatura superficial constante 21 3.3.3 Manequim com fluxo de calor constante 23 3.3.4 Manequim NREL 24 3.4 Procedimento de calibração do Manequim 25 4. TECNOLOGIA DE ASSENTOS AUTOMOTIVOS 27 4.1 Revestimentos 27 4.1.1 Couro sintético ou laminado vinílico 27 4.1.2 Tecidos 31 4 .1.3 Couro bovino 37 vi 4.2 Almofadas 42 4.2.1 Espumas 42 4.2.2 Fibra de coco 45 4.3 Tecnologias de assentos para melhorar condições de conforto térmico 48 4.3.1 Assentos ventilados e com resfriamento forçado 49 5. PROCEDIMENTOS DE ENSAIO E TESTES REALIZADOS 52 5.1 Assentos avaliados 52 5.1.1 Recobrimento final 52 5.1.2 Acoplamento 53 5.1.3 Amofadas 54 5.1.4 Testes 55 5.2 Veículo de teste 56 5.3 Local e período de testes 57 5.4. Procedimentos de ensaio utilizando manequim 57 5.4.1 Descrição do manequim 57 5.4.2 Calibração do manequim 60 5.5 Procedimento de ensaio em campo 61 5.5.1 Detalhamento do procedimento de ensaio 61 6. RESULTADOS DOS ENSAIOS E ANÁLISE DOS RESULTADOS 65 6.1 Condições de ensaio 65 6.11 Características do ambiente interrno do veículo 65 6.1.2 Características do ambiente externo 69 6.2 Resultados dos testes 70 6.3 Condições de conforto térmico 72 6.4 Análise de resultados 74 vii 6.4.1 Condições de ensaio 74 6.4.2 Ensaios realizados 76 7. CONCLUSÕES 78 8. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 80 viii LISTA DE FIGURAS Figura 1.1 Condições não homogêneas e assimétricas em um veículo 1 automotivo Figura 1.2 Gradientes de temperatura em superfície de contato de assento 2 automotivo Figura 1.3 Campo típico de velocidades do ar em veículo dotado de sistema 3 HVAC Figura 1.4 Distribuição de temperatura do ar no habitáculo de veiculo com 3 sistema HVAC em dia de verão sem incidência solar direta Figura 1.5 Percntual de veículos com HVAC em diferentes mercado 4 Figura 2.1 Esquema simplificado do sistema termoregulador do corpo 8 humano Figura 2.2 Diagram psicromérico com a indicaçaõ da zona de conorto 12 segundo a norma ASHRAE 55: 2005 Figura 3.1 Diagrama de sensação térmica em condições de verão, com 18 roupas adequadas , 0,6 clo, para avaliação de condiçoes de conforto térmico utilizando temperaturas equivalentes (ISO 14 505:2 2004) Figura 3,2 Diagrama de sensação térmica em condições de inverno 19 (aquecimento), com roupas adequadas 1.0 clo, para avaliação de condições de conforto térmico utilizando temperaturas equivalentes (ISSO 14505:2 -2004) Figura3.3 Correlação entre a temperatura equivalente calculada e avaliação 20 subjetiva conforme ISO 14505:3 – 2004 (Han e Huang, 2004) Figura 3.4 Tipos de manequins: (a) flatman, (b) Eva (feminino) com 16 22 segmento, (c) Aiman (masculino) com 32 segmentos Figura 3.5 Manequim com temeperatura superficial constante (manequim 23 ix térmico) Figura 3.6 Manequim com 16 sensores aquecidos 24 Figura 3.7 Manequim NREL com suas principais fumções 25 Figura 4.1 Processos de fabricação dos laminado vinilicos 27 Figura 4.2 Composto “Plastisol” antes e no processo de homogeneizaçãono 28 “dissolver” Fifura 4.3 Representação esquemática do processo de espalmagem 29 Figura 4.4 Detalhes das camdas depositadas para composição do laminado 29 vinílico Figura 4.5 Detalhe da garvação mecânica (textura) no laminado Vinílico 30 Figura 4.6 Laminado vinílico acabado 30 Figura 4.7 Fluxograma do procsso de produção de tecidos 31 Figura 4.8 Equipamento de produção e tear plano 32 Figura 4.9 Equipamento de produção e tear jaquards 32 Figura 4.10 Equipamento e produção e tecido de malharia circular aveludado 33 Figura 4.11 Operação de abertura de rolos de malharia 33 Figura 4.12 Tecidos raschel amtes e depois da abertura 34 Figura 4.13 Operação de navalhagem em duas etapas 35 Figura 4.14 Descarga das peles após operações de remolho, encalagem e 37 depilação Figura 4.15 Operação de descarne da pele para remoção de restos de carnes e 38 gorduras Figura 4.16 Operação de curtimento em “fulões” 38 Figura 4.17 Operação de remolho em equipamento cntínuo chamado charuro 39 Figura 4.18 Oeração de rebaixamento do couro e controle dimensional 39 Figura 4.19 Oepração de tingimento em “fulão” 40 Figura 4.20 Operação de secagem em couro em câmaras climatizadas 40 x Figura 4.21 Operação de amaciamento mecânico 40 Figura 4.22 Gravação mecânica da Textura no couro 41 Figura 4.23 Produto couro acabado 41 Figura 4.24 Comparação entre o efeito mol e histerese 42 Figura4.25 Ilustração das reações polimerização de isoscianto e poliol 43 Figura 4.26 Operação de vazamento ou “pouring” executada por robô 44 Figura 4.27 Sistems de moldes aquecidos em carrossel com movimento 44 contínuo Figura 4.28 Recebimento de fardos de fibra de coco 45 Figura 4.29 Transformação da fibra de coco em cordas 46 Figura 4.30 Picotagem e dispersão das fibras com posterior aplicação de látex 46 Figura 4.31 Corte em prensa e facas das placas de fibra de coco 47 Figura 4.32 Fira de coco / látex sobre o molde antes e após operação de 47 prensgem a quente Figura 4.33 Operações de rebarbação, vulcanização e estoque de produto 47 acabado Figura 4.34 Dispersão térmica causada pelo contato com passageiro 48 Figura 4.35 Dispersão térmica causada pelo contato com passageiro otimizada 48 pela presença de canais, furos e exaustão de ar Figura 4.36 Formas superficiais de espumas privilegiando a troca de calor 49 com o passageiro Figura 4.37 Sistema de aquecimento e exaustão nos assentos 49 Figura 4.38 Sistema de insuflamento de ar em assentos automotivos 50 Figura 4.39 Diferentes sistemas de insuflamento/ exaustão e distribuição de ar 50 Figura 5.1 Assentos confeccionados com revestimentos em vinil, couro e 53 tecido Figura 5.2 Tecidos com acoplagem de espumas com diferentes espessuras 54 xi Figura 5.3 Assentos confeccionados com revstimento em tecidos com 54 acoplagem de 10 e 5 mm Figura 5.4 Assentos com almofadas de fibra de coco e espumas de 55 poliuretano Figura 5.5 Manequim com sensores aquecidos utilizados nos ensaios 58 Figura 5.6 Modelo “B” de controle de potência e conexão des sensores para 58 levantamento de dados ambientais Figura 5.7 Modelo “A” de aquisição de sinais 58 Figura 5.8 Software de aquisição do sistema SimTer 59 Figura 5.9 Posicionamento do manequim sentado em assento automotivo na 60 câmara de calibração Figura 5.10 Disposição do manequim dentro do veículo na coleta de dados 62 Figura 5.11 Disposição do sensor de temperatura na altura dos pés 63 Figura 5.12 Disposição do sensor de temperatura na altura dos peito 63 Figura 5.13 Disposição do sensor de temperatura na altura do teto 64 Figura 5.14 Disposição do sensor de temperatura no painel 64 Figura 5.15 Posicionamento do sistema de aquisição de dados no veículo 64 Figura 6.1 Temperatura do ar para o ensaio com assento de espuma/ vinil 65 Figura 6.2 Temperatura do ar para o ensaio com assento de espuma/ couro 66 Figura 6.3 Temperatura do ar para o ensaio com assento de espuma sem 66 revestimento Figura 6.4 Temperatura do ar para o ensaio com assento de espuma/ tecido 5 67 mm Figura 6.5 Temperatura do ar para o ensaio com assento de fibra de coco 67 sem revestimento Figura 6.6 Temperatura do ar para o ensaio com assento de fibra de coco/ 68 tecido 5 mm Figura 6.7 Temperatura do ar para o ensaio com assento de espuma/ tecido 68 xii 10 mm Figura 6.8 Valores da temperatura do ar no interior do veículo 70 Figura 6.9 Valores da temperatura do ar no interior do veículo na altura do 70 peito Figura 6.10 Valores de temperaturas superficiais de assentos após exposição 71 de 1 hora ao sol e na sombra Figura 6.11 Valores de temperatura superficiais do manequim nas regiões em 72 contato com o assento Figura 6.12 Temperaturas equivalente dos segmentos das superficies de 73 contato entreo manequim e o assento para as diferentes amostras em diagrama de sensação térmica (ISO 14505:2 -2004) Figura 6.13 Temperaturas Equivalentes dos assentos das superfícies de contato entre manequim e assento para diferentes amostras (idem a figura 6.12 sem coloração) 74 xiii LISTA DE TABELAS Tabela 2.1 Metabolismos para diferentes atividades 10 Tabela 2.2 Escala de sensação térmica da ASHRAE 10 Tabela 2.3 Determinação do voto médio estimado – PMV 11 Tabela 3.1 Escala de sensação térmica da norma ISO 14505-2. 19 Tabela 4.1 Quadro comparativo: vantagens e desvantagens dos tecidos do 36 tear e malharia Tabela 5.1 Comparação entre materiais de revestimentopara assentos 52 automotivos Tabela 5.2 Tabela com descrição das amostras para realização dos testes 56 Tabela 5.3 Comparação dos instrumentos de medição do sistema SimTer 60 Tabela 5.4 Valores de coeficiente calibrado de hcal obtidos nos ensaios em 61 câmara climatizada Tabela 6.1 Parâmtros coltados no interior do veículo 69 Tabela 6.2 Parâmtros coltados no exterior do veículo 71 Tabela 6.3 Classe para distribuição de notas para as temperaturas coletadas 75 Tabela 6.4 Matriz de causa/efeito na Classificação ambientais de cada teste 75 xiv LISTA DE SÍMBOLOS C Calor Perdido pela Pele por Convecção CR Calor Convectivo Perdido pela Respiração CFD Computacional Fluid Dynamics Edif Calor Perdido pela Pele por Difusão de Vapor D’água Ees Calor Perdido por Evaporação de Suor ER Calor Evaporativo Perdido pela Respiração EHT Equivalent Homogeneous Temperature ELT Equivalent Living-room Temperature h Coeficiente de troca de calor combinado, convecção e radiação hcal Coeficiente de troca de calor calibrado hc Coeficiente de Transferência de Calor por Condução hr Coeficiente de Transferência de Calor por Radiação IR Resistência Térmica da Roupa M Metabolismo pvar Pressão Parcial do Vapor D’água no Ambiente PD Percentage os Dissatisfied PMV Predicted Mean Vote PPD Predicted Percentage of Dissatisfied Q Perda de Calor por Radiação e Convecção Qpele Calor Total Perdido pela Pele xv Qrespirção Calor Total Perdido pela Respiração R Calor Perdido pela Pele por Radiação Tar Temperatura do Ar teq Temperatura Equivalente To Temperatura Operativa Tp Temperatura de Pele Tr Temperatura Radiante Média Ts Temperatura de Superfície do Manequim & U Taxa de Variação de energia Interna Var Velocidade do Ar ω Umidade Absoluta W Trabalho Externo Φ Umidade Relativa do Ar xvi RESUMO A utilização de veículos passou a ser uma necessidade básica para quem reside nos grandes centros urbanos. Por outro lado, as condições ambientais tais como a poluição sonora, poluição do ar e os aspectos de segurança, também levam as pessoas a cada vez mais desejarem um ambiente termicamente confortável dentro de seus veículos quando estão conduzindo. Para a obtenção de condições de conforto térmico em climas tropicais há a necessidade de sistema de ar condicionado no veículo para melhorar as condições de troca de calor do corpo da pessoa com o ar. Ao se ligar o sistema de ar condicionado ocorre uma rápida troca de calor na parte frontal do corpo, enquanto a superfície de contato dos assentos atua como isolamento térmico, causando um retardamento do processo de resfriamento da parte posterior do corpo, podendo levar o ocupante ao desconforto térmico. No presente trabalho foi realizada avaliação experimental da influência de diferentes tipos de materiais de revestimento de assentos automotivos no conforto térmico em veículo com ar condicionado. Foi utilizada metodologia recomendada na norma ISO 14505-2:2004, de análise de condições de conforto térmico por meio da utilização de manequim com sensores aquecidos. Os testes foram realizados em veículo modelo station wagon, na cidade de Salvador-BA, com temperaturas médias de outono atingindo 31 ºC durante o dia. Mesmo com a dificuldade de se conseguir condições internas iguais nos diferentes dias de ensaio (função de variações nas temperaturas externas), os resultados dos ensaios realizados em condições de insolação ao redor de 800 W/m2 permitiram uma análise qualitativa da influência dos materiais no conforto térmico. Verificou-se que o couro e o vinil promovem desconforto (temperatura equivalente na zona muito quente no digrama de sensação térmica) na maior parte das regiões de contato com o corpo, independentemente das condições do ambiente. Também verificou-se que os tecidos propiciaram as melhores condições de conforto, independentemente da espessura de acoplagem e da utilização de espuma ou fibra de coco. xvii ABSTRACT The use of vehicles became a basic need for those who live in great urban centers. On the other hand, environmental conditions such as noise and air pollution and safety aspects, also lead people more and more to look for thermal comfortable environments inside their vehicles when driving. In order to obtain thermal comfort conditions, in tropical climates, air conditioning systems in vehicles are required to improve heat exchange conditions of the body of a person with the air. When the Heating Ventilating and Air Conditioning (HVAC) is on, it occurs a rapid heat exchange in the frontal part of the body, while the seat contact surfaces act as thermal insulation. It causes delay in the cooling process of the back parts of the body, what could cause thermal discomfort to the occupant. The present work paper comprises the experimental analysis that was carried out to understand the influence of seat covers and pads raw material on thermal comfort conditions, considering a vehicle with HVAC system. It was applied the methodology recommended by ISO 14505-2:2004 standard, regarding the analysis of thermal comfort conditions by using sensor-heated-mannequin. The tests were carried out in a station wagon model, in the city of Salvador, state of Bahia, with fall average temperatures reaching 31ºC during the day. Although it was difficult to have similar internal conditions throughout the different test days (due to external temperature variations), the results of tests carried out under insulation conditions around 800 W/m2, allowed the qualitative analysis of influence of raw materials in thermal comfort conditions. It was noticed that leather and vinyl materials promote discomfort (equivalent temperature in very hot area in the diagram of thermal sensation) in the majority of areas of contact with the body, regardless the environmental conditions. It was also verified that fabrics granted the best comfort conditions, regardless the coupling thickness or even the usage of foam or coconut fiber pads. Key-words: Heating ventilating and Air conditioning, Automotive Seats, Thermal comfort INTRODUÇÃO As pessoas passam cada vez mais tempo dentro de veículos automotivos e seja qual for a razão e a utilização destes, transcendeu a do lazer, passando a ser uma necessidade básica de quem reside nos grandes centros urbanos. Por outro lado, as condições ambientais tais como a poluição sonora, poluição do ar e os aspectos de segurança, também levam as pessoas a cada vez mais desejarem um ambiente confortável dentro de seus veículos quando estão conduzindo. Assim, os critérios de seleção para a compra de veículos têm incluído de forma crescente o conforto geral e os aspectos de segurança que estes podem oferecer. A busca por melhoria de conforto dos passageiros tem sido uma constante na indústria automobilística, juntamente com a busca de uma metodologia de avaliação objetiva e adequada. As condições térmicas nos veículos automotivos (figura 1.1) são muito frequentemente diferentes das condições em edifícios, devido à assimetria de radiação, à não uniformidade nos campos de temperatura e de velocidade do ar, o comportamento extremamente dinâmico na variação das condições externas, o pequeno espaço confinado e o isolamento térmico dos assentos. Estes fatos aumentam bastante a complexidade da avaliação do conforto térmico em veículos quando comparado às metodologias bastante difundidas para aplicações em edificações. text= 35 0C tar= 22 0C tr= 26 0C tar= 15 0C Var= 0,2 m/s Isolamento térmico Figura 1.1 – Condições não homogêneas e assimétricas em um veículo automotivo. Numa situação rotineira em cidades de países tropicais o usuário é exposto frequentemente a condições de desconforto térmico, seja ao estacionar seu veículo ao sol ou por trafegar 2 em condições de baixas velocidades em dias com condições de insolação muito elevada, estando sujeito a grandes transientes térmicos. Estudos mostram que 85% da utilização de veículos de passeio envolvem um percurso médio menor que 18 km e com uma duração de 15 a 30 minutos (Cisternino, 1999). O usuário que estaciona seu veículo por algum tempo ao sol ao retornar gostaria de encontrar um ambiente interno confortável. Para se obter o conforto térmico nestas condições há a necessidade de se ajustar os fatores dentro de padrões pré-determinados, adotando-se sistemas de climatização (HVAC - Heating, Ventilating and Air Conditioning). Então este usuário liga o sistema de ar condicionado na condição de máxima refrigeração e maior fluxo de ar possível ocorrendo uma rápida troca de calor na parte frontal do corpo, enquanto a superfície de contato dos assentos (figura 1.1) atua como isolamento térmico, causando um retardamento do processo de resfriamento da parte posterior do corpo, podendo levar o ocupante ao desconforto térmico. Para exemplificar a absorção de calor em assentos, na Figura 1.2 são apresentados resultados de distribuição de temperaturas logo após a retirada de objetos aquecidos que foram colocados sobre o assento durante 15 minutos, em um laboratório a 22 ºC. Figura 1.2 – Gradientes de temperatura em superfície de contato de assento automotivo. Também a posição das janelas no veículo, por exemplo, resulta em insolação elevada na cabeça e no nível da caixa toráxica, enquanto os pés e as pernas ficam protegidos na sombra, ao mesmo tempo em que as áreas pequenas de passagem de ar nos difusores do sistema de HVAC geram velocidades e flutuações elevadas do ar no habitáculo (figura 1.3). Um campo típico de temperaturas do ar no habitáculo pode ser observado em uma 3 condição de verão (sem radiação solar), onde se pode atingir mais de 10 °C de diferença entre as temperaturas mais elevadas e as mais baixas (figura 1.4), principalmente nos assentos traseiros. A assimetria horizontal é frequentemente um problema para táxis na condição do verão quando o teto do carro é aquecido pelo sol (Cisternino, 1999). Figura 1.3 – Campo típico de velocidades do ar em veículo dotado de sistema HVAC Figura 1.4 – Distribuição de temperaturas do ar no habitáculo de veículo com sistema HVAC em dia de verão sem incidência solar direta Uma outra situação típica é representada pela fonte altamente radiante do painel de instrumentos quando aquecido pelo sol através do pára-brisa, podendo alcançar temperaturas de superfície da ordem de 80°-100°C, especialmente durante a condição do estacionamento (Cisternino, 1999). 4 A produção de veículos com sistemas de HVAC apresenta crescimento com uma tendência exponencial no Brasil e na Europa e com mercado já consolidado no Japão e USA (figura 1.5). 100 80 Brasil Europa Japão USA 60 40 20 0 1965 1975 1985 1995 2005 Figura 1.5 – Percentual de veículos com HVAC em diferentes mercados O fato do veículo ser dotado de sistema HVAC, em muitos casos, também reduz o stress do motorista e evita o embaçamento de vidros, contribuindo com os aspectos de segurança veicular. De fato o objetivo do sistema HVAC de um veículo automotivo é criar condições de conforto térmico para os ocupantes, independentemente das condições climáticas exteriores, e de manter as condições de conforto térmico durante todo o período de utilização do sistema (Gomes, 2005). A demanda crescente do mercado por sistemas eficazes de climatização para aplicações automotivas determinou um grande impulso na pesquisa e no desenvolvimento de métodos inovadores de avaliação, assim como de ferramentas capazes de predizerem a sensação térmica dos passageiros já na fase inicial do projeto. Outro fato a ser considerado é a freqüência de lançamentos de veículos automotivos, exigindo diminuição no tempo de projeto do veículo. Para tanto se utilizam sistemas CAE (Computer Aided Engineering) capazes de prever o conforto térmico dentro de um veículo. (Brown e, Jones, 1997). Na implementação de sistemas CAE com o objetivo de se alcançar o conforto térmico no interior de veículos são necessárias três condições básicas (Hosni et al., 2003b): 5 a) Modelos para simulação e previsão dos ambientes térmicos em veículos e a resposta do ser humano a estas condições: modelos de conforto térmico. b) Normas para os métodos de avaliação do conforto térmico em veículos automotivos. c) Sistemas de controle de HVAC para atingir condições de conforto térmico no interior de veículos. A indústria automobilística tem buscado na melhoria de conforto dos passageiros o seu grande apelo de marketing e para isso a pesquisa de satisfação de seus consumidores no período pós-vendas tem se tornado uma importante ferramenta de análise, permitindo ações corretivas a serem aplicadas nas modificações anuais da série. Várias melhorias em projeto têm sido alcançadas neste segmento de mercado, principalmente em quesitos de segurança e de motorização. Nos critérios de conforto térmico, contudo, ainda se destacam avaliações subjetivas que nem sempre conseguem traduzir as condições normais de uso, causando grandes transtornos aos usuários e imensos desperdícios em correção ou em projetos muito robustos (Nilsson, 2004). A indústria automobilística tem executado as suas avaliações em ambientes com condições controladas utilizando protótipos e túneis de vento e os resultados são validados posteriormente por diferentes metodologias: a) Montadoras norte-americanas utilizam critérios subjetivos, regulamentados por meio da norma ISO 14505:2004 - Parte 3, que trata da avaliação do veículo em condições reais de uso por uma equipe independente. b) Montadoras européias tendem a utilizar a temperatura equivalente regulamentada na ISO 14505:2004 - Parte 2, por meio de ensaios em veículos com manequim com sensores aquecidos e de manequim aquecido. 1.1 OBJETIVO DO TRABALHO E OBJETO DE ESTUDO Pretende-se com o desenvolvimento deste trabalho analisar a influência de diferentes materiais utilizados na confecção de assentos automotivos, submetidos a condições de insolação em dias tipicamente de verão, no conforto térmico dos usuários de veículos de passeio. Para o estudo foram consideradas condições de conforto do passageiro no assento dianteiro direito de um veículo de passeio de médio porte, com sistema de HVAC ligado na condição de máxima refrigeração e ventilação. 6 Para avaliar as condições de conforto térmico foram realizadas medições de temperaturas em superfícies de contato entre os assentos e os sensores aquecidos de um manequim instrumentado, na obtenção de temperaturas direcionais segmentadas, e posterior análise de condições de conforto térmico em diagrama de sensação térmica (ISO 14505:2004 – Parte 2). Espera-se com o desenvolvimento deste trabalho fornecer às principais montadoras uma abordagem técnica e científica a ser utilizada na seleção de materiais, principalmente no revestimento dos assentos, assim como uma metodologia de ensaio com aplicação direta e simples. 1.2 ESTRUTURA DO TRABALHO No capítulo 2 é apresentada uma revisão teórica do conforto térmico e os métodos de avaliação em ambientes homogêneos e não homogêneos. O método de avaliação de condições de conforto térmico utilizando temperaturas equivalentes é apresentado. No capítulo 3 é discutida a avaliação de conforto térmico em automóveis utilizando manequins térmicos e manequins com sensores aquecidos e o procedimento para determinação de temperaturas equivalentes utilizando manequins, previsto na norma ISO 14505:2004 - Parte 2. No capitulo 4 são apresentadas as diversas tecnologias utilizadas na fabricação de assentos, principalmente de capas e de almofadas, e as soluções recentemente adotadas na indústria automobilística de resfriamento de assentos, com a utilização de sistemas de exaustão para auxiliar na troca de calor do assento. No capítulo 5 são apresentados os procedimentos de ensaio utilizando manequim com sensores aquecidos. Inicialmente é feita a descrição do manequim utilizado nos ensaios. Em seguida são apresentados os procedimentos de calibração do manequim e os procedimentos de ensaio na avaliação de condições de conforto térmico. No capítulo 6 são apresentados os resultados dos ensaios e a análise dos resultados e, finalmente, no capítulo 7 são apresentadas as conclusões do trabalho. 7 CAPÍTULO 2 CONFORTO TÉRMICO 2.1 FISIOLOGIA DO CORPO HUMANO Os seres humanos têm que enfrentar o clima diariamente buscando, freqüentemente, proteção nas condições micro climáticas: sombra no verão e radiação solar direta durante dias frios de inverno. Assim como os movimentos produzem calor no frio, as reduções de atividades físicas são observadas nos períodos mais quentes do dia. Enquanto a temperatura interna do corpo humano (retal, esofágica ou do tímpano) é geralmente perto de 37°C, podendo variar entre 36°C durante a noite a 39°C quando em atividades físicas pesadas, a temperatura da pele humana é mais suscetível às condições externas; por exemplo, a temperatura do pé pode ser de 30°C quando a temperatura da testa for de 34°C. Milhões de sensores cutâneos mantêm informado o sistema nervoso central (SNC), do estado térmico de todas as partes do corpo. Estes sensores são sensíveis tanto ao nível da temperatura (condição estática) quanto às mudanças térmicas (condições dinâmicas) (HENSEL, 1952). O sistema nervoso central (SNC) possui duas funções básicas: ! A de estimar o estado térmico global do corpo executada pelo hipotálamo, funcionando como um termostato (Hammel et al., 1963) , com set point de 37°C para a temperatura interna e 33°C para a pele, ! A de desencadear as sensações térmicas conhecidas executadas pelo córtex. Quando o SNC é informado de variações em comparação com estes valores de referência, reações são desencadeadas: ! Reações comportamentais: mudanças repentinas de temperatura de pele implicam respostas rápidas (afastar-se de superfícies quentes, colocar roupa no caso de frio, etc...) visando preservar a integridade. ! Reações fisiológicas: as variações de temperatura podem induzir à hipotermia (queda da temperatura) ou à hipertermia (aumento da temperatura). O sistema termo- regulador reage então contra o desequilíbrio do balanço térmico atuando na dilatação ou contração dos vasos sanguíneos para aumentar ou diminuir o fluxo de calor através da superfície da pele, atividades musculares que ao contraírem os músculos produzem 8 calor (tiritar) ou ainda as glândulas sudoríparas são estimuladas para secreção do suor. resfriando a pele através da evaporação. Em atividade sedentária a atividade metabólica resulta em cerca de 100W de calor a ser dissipado ao ambiente por condução, convecção, radiação e evaporação. Se a vestimenta e as condições do ambiente estiverem adequadas, a mesma quantidade de calor será perdida ao ambiente. Ocorrerá um balanço de calor adequado para o corpo como um todo e a pessoa se sentirá termicamente neutra. Nesta condição a temperatura do núcleo do corpo humano será de aproximadamente 37°C e a temperatura da pele será de 34,1 ºC (Fanger, 1972). Fora desta condição o organismo atua para manter a temperatura no caso das perdas de calor serem maiores do que a produção de calor ou para reduzir o aumento de temperatura provocado por estresse de calor. Para simplificar, uma representação esquemática dos mecanismos fisiológicos do corpo humano é apresentada na figura 2.1, (Vitor, 1999). Uma revisão muito boa do assunto pode ser encontrada em Ferreira (1997) e Ferreira (2001). Figura 2.1 Esquema simplificado do sistema termorregulador do corpo humano 2.2 CONFORTO TÉRMICO Admite-se que o conforto térmico corresponde ao estado de espírito em que os indivíduos expressam satisfação com o ambiente (ASHRAE 55:2004). Em muitas situações as pessoas são expostas a ambientes térmicos criados artificialmente (climatizados) para que se sintam em conforto e possam produzir melhor as suas tarefas. Se o objetivo é atingido, a pessoa tem uma sensação de bem estar, expressa 9 pela sua satisfação com aquele ambiente térmico. Sabe-se que o estado térmico geral e as sensações locais estão intimamente ligadas com o grau de conforto ou desconforto. A exposição excessiva a um ambiente quente ou frio pode levar ao estresse térmico (ISO 7243:1989; ISO 7933:1989), proveniente de condições micro-climáticas desfavoráveis que requerem a intervenção excessiva do sistema termorregulador. Na segurança veicular o conforto térmico é um aspecto importante, pois motoristas sonolentos devido ao calor, ou com sinais de hipotermia devido ao frio, estão mais sujeitos a sofrerem ou causarem acidentes. Conforme apresentado em Ávila (2001), pesquisa realizada pelo Departamento de Psicologia da Universidade de Amsterdam, mostra que as melhores temperaturas do ar para quem está dirigindo um automóvel vestido “normalmente” se situam entre 18,5ºC ≤ Ta ≤ 21,5ºC. Nesta faixa de temperaturas, abaixo da condição de conforto, o motorista fica mais atento por estar sentindo um pouco de frio. 2.2.1 Condições de conforto de Fanger A partir do balanço térmico do corpo humano, Fanger (1972) mostra que o conforto térmico depende de: a) parâmetros pessoais: a taxa de metabolismo, função do nível de atividade física da pessoa, (MET)1, e o tipo de vestimenta (CLO)1, b) parâmetros ambientais: a temperatura do ar, Ta, a temperatura média radiante, T r , a velocidade do ar, Va, e a umidade relativa do ar, φ. Na Tabela 2.1 são apresentados valores de metabolismo para diferentes atividades. Por meio de medições dos parâmetros de conforto térmico e de ensaios realizados com estudantes norte-americanos, Fanger (1972) concebeu um modelo de conforto térmico baseado no voto médio estimado (PMV- Predicted Mean Vote), que varia de muito frio (-3) a muito quente (+3). Além disto, Fanger (1972) estabeleceu uma relação entre o PMV e o percentual de pessoas insatisfeitas PPD – Predicted Percentage of Dissatisfied, apresentada no tabela 2.2. 1 1 clo = 0,155 m2 C/W (vestimenta típica de inverno, pesada) 10 Tabela 2.1 – Metabolismos para diferentes atividades (www.hku.hk/bse/bbse3004/) Atividade Taxa metabólica 46 W/m2 0,8 met 2 1,0 met 2 1,1 met 2 1,2 met Dirigindo automóvel 2 80 W/m 1,4 met Em pé, atividade leve 93 W/m2 1,6 met Sentado reclinado Sentado relaxado 58 W/m Reparador de relógios 65 W/m Em pé relaxado 70 W/m Caminhando horizontalmente (2 km/h) 2 110 W/m 1,9 met Em pé, atividades moderadas (trabalho doméstico) 116 W/m2 2,0 met 2 3,4 met 2 275 W/m 4,7 met 2 9,5 met Caminhando horizontalmente, 5 km/h 200 W/m Trabalhadores da construção civil Esportes – correndo a 15 km/h 550W/m Tabela 2.2 – Escala de sensação térmica Escala de sensação térmica –3 –2 PMV muito frio frio PPD 100% 78% –1 0 leve sensação neutro de frio 26% 5% 1 2 3 muito leve quent quente sensação de e calor 26% 78% 100% Observa-se na tabela 2.2 que, mesmo na condição de neutralidade térmica (PMV igual a zero), existem 5% de insatisfeitos. O trabalho de Fanger (1972) é a base da norma ISO 7730:1994 de conforto térmico. O cálculo do voto médio estimado é relativamente trabalhoso, razão pela qual Fanger (1972) e a ISO 7730:1994 apresentam uma rotina para utilização em microcomputador e tabelas, como aquela apresentada na tabela. 2.3, que permitem determinar o PMV para diferentes atividades, tipos de vestimenta e condições ambientais. A ASHRAE 55:2004 também apresenta gráficos para a determinação das condições de conforto térmico em ambientes condicionados - as Cartas de Conforto da ASHRAE. A figura 2.3 mostra uma carta psicrométrica com a zona de conforto representada pela 11 área hachurada. Tabela 2.3 Determinação do voto médio estimado - PMV (ISO 7730, 1994) Atividade sedentária (MET=1.0) e umidade relativa do ar de 50% Vestimenta CLO Temperatu ra m2ºC Operativa < 0.10 W ºC Velocidade Relativa do ar – m/s 0.10 0.15 0.20 0.30 0.40 0.50 1.00 0 0 26 27 28 29 30 31 32 33 – 1.62 – 1.00 – 0.39 0.21 0.80 1.39 1.96 2.50 – 1.62 – 1.00 – 0.42 0.13 0.68 1.25 1.83 2.41 – 1.96 – 1.36 – 0.76 – 0.15 0.45 1.08 1.71 2.34 – 2.34 – 1.69 – 1.05 – 0.39 0.26 0.94 1.61 2.29 0.25 0.039 24 25 26 27 28 29 30 31 – 1.52 – 1.05 – 0.58 – 0.12 0.34 0.80 1.25 1.71 – 1.52 – 1.05 – 0.61 – 0.17 0.27 0.71 1.15 1.61 – 1.80 – 1.33 – 0.87 – 0.40 0.07 0.54 1.02 1.51 – 2.06 – 1.57 – 1.08 – 0.58 – 0.09 0.41 0.91 1.43 – 2.47 – 1.94 – 1.41 – 0.87 – 0.34 0.20 0.74 1.30 – 2.24 – 1.67 – 1.10 – 0.53 0.04 0.61 1.20 – 2.48 – 1.89 – 1.29 – 0.70 – 0.10 0.50 1.12 – 2.66 – 1.97 – 1.28 – 0.58 0.11 0.83 23 24 25 26 27 28 29 30 – 1.10 – 0.72 – 0.34 0.04 0.42 0.80 1.17 1.54 – 1.10 – 0.74 – 0.38 – 0.01 0.35 0.72 1.08 1.45 – 1.33 – 0.95 – 0.56 – 0.18 0.20 0.59 0.98 1.37 – 1.51 – 1.11 – 0.71 – 0.31 0.09 0.49 0.90 1.30 – 1.78 – 1.36 – 0.94 – 0.51 – 0.08 0.34 0.77 1.20 – 1.99 – 1.55 – 1.11 – 0.66 – 0.22 0.23 0.68 1.13 – 2.16 – 1.70 – 1.25 – 0.79 – 0.33 0.14 0.60 1.06 – 2.22 – 1.71 – 1.19 – 0.68 – 0.17 0.34 0.86 0.50 0.078 0.75 0.118 21 22 23 24 25 26 27 28 – 1.11 – 0.79 – 0.47 – 0.15 0.17 0.49 0.81 1.12 – 1.11 – 0.81 – 0.50 – 0.19 0.12 0.43 0.74 1.05 – 1.30 – 0.96 – 0.66 – 0.33 – 0.01 0.31 0.64 0.96 – 1.44 – 1.11 – 0.78 – 0.44 – 0.11 0.23 0.56 0.90 – 1.66 – 1.31 – 0.96 – 0.61 – 0.28 0.09 0.45 0.80 – 1.82 – 1.46 – 1.09 – 0.73 – 0.37 0.00 0.36 0.73 – 1.95 – 1.58 – 1.20 – 0.83 – 0.46 – 0.08 0.29 0.67 – 2.36 – 1.95 – 1.55 – 1.14 – 0.74 – 0.33 0.08 0.48 1.00 0.155 20 21 22 23 24 25 26 27 – 0.85 – 0.57 – 0.30 – 0.02 0.26 0.53 0.81 1.08 – 0.87 – 0.60 – 0.33 – 0.07 0.20 0.48 0.75 1.02 – 1.02 – 0.74 – 0.46 – 0.18 0.10 0.38 0.66 0.95 – 1.13 – 0.84 – 0.55 – 0.27 0.02 0.31 0.60 0.89 – 1.29 – 0.99 – 0.69 – 0.39 – 0.09 0.21 0.51 0.81 – 1.41 – 1.11 – 0.80 – 0.49 – 0.18 0.13 0.44 0.75 – 1.51 – 1.19 – 0.88 – 0.56 – 0.25 0.07 0.39 0.71 – 1.81 – 1.47 – 1.13 – 0.79 – 0.46 – 0.12 0.22 0.56 1.50 0.233 14 16 18 20 22 24 26 28 – 1.36 – 0.94 – 0.52 – 0.09 0.35 0.79 1.23 1.67 – 1.36 – 0.95 – 0.54 – 0.13 0.30 0.74 1.18 1.62 – 1.48 – 1.07 – 0.64 – 0.22 0.23 0.68 1.13 1.56 – 1.58 – 1.15 – 0.72 – 0.28 0.18 0.63 1.09 1.56 – 1.72 – 1.27 – 0.82 – 0.37 0.10 0.57 1.04 1.52 – 1.82 – 1.36 – 0.90 – 0.44 0.04 0.52 1.01 1.48 – 1.89 – 1.43 – 0.96 – 0.49 0.00 0.49 0.98 1.47 – 2.12 – 1.63 – 1.14 – 0.65 – 0.14 0.37 0.89 1.40 2.00 0.310 10 12 14 16 18 20 22 24 – 1.38 – 1.03 – 0.68 – 0.32 0.03 0.40 0.76 1.13 – 1.39 – 1.05 – 0.70 – 0.35 – 0.00 0.36 0.72 1.09 – 1.49 – 1.14 – 0.79 – 0.43 – 0.07 0.30 0.67 1.05 – 1.56 – 1.21 – 0.85 – 0.48 – 0.11 0.26 0.54 1.02 – 1.67 – 1.30 – 0.93 – 0.56 – 0.18 0.20 0.59 0.98 – 1.74 – 1.37 – 0.99 – 0.61 – 0.23 0.16 0.55 0.95 – 1.80 – 1.42 – 1.04 – 0.65 – 0.26 0.13 0.53 0.93 – 1.96 – 1.57 – 1.17 – 0.77 – 0.37 0.04 0.45 0.87 OBS: 1) Valores de PMV em torno de zero indicam condições de conforto térmico. 2) Valores de CLO igual a 0,5 representam uma vestimenta leve de verão (calça comprida com camisa de mangas curtas), enquanto valores de CLO igual a 1,0 12 representam uma vestimenta pesada de inverno. Bulbo úmido g Bulbo úmido Figura 2.2 Diagrama psicrométrico com a indicação da zona de conforto segundo a norma ASHRAE 55:2004. Verifica-se na tabela 2.2 e na figura 2.2 que os resultados são apresentados em função da temperatura operativa, To2, que é uma função da temperatura média radiante, T r , e da temperatura do ar, Ta , dado pela equação3: To = a ⋅ Ta + (1 − a ) ⋅ T r (2.1) onde a constante a varia de acordo com a velocidade do ar (Va): Va (m/s) a 0 – 0,2 0,5 0,2 – 0,6 0,6 0,6 – 1,0 0,7 A norma ISO 7726:1998 apresenta procedimentos de medição e métodos para a obtenção das variáveis ambientais: velocidade média do ar, Va, temperatura média radiante, T r , da temperatura do ar, Ta e umidade do ar: umidade absoluta, ω, e 2 To = temperatura operativa (ºC): a temperatura de um meio imaginário (envolvendo ar e superfícies) com o qual a pessoa troca a mesma quantidade de calor por convecção e radiação que aquela trocada com o meio real. 13 umidade relativa, φ. 2.2.2 Desconforto térmico local O método de Fanger (1972) determina condições de conforto térmico para o corpo como um todo. Assim, uma pessoa pode estar em neutralidade térmica para o corpo como um todo (PMV = 0), mas pode não estar confortável se existirem variações em partes do corpo. Portanto, o conforto também requer que não haja desconforto local (quente ou frio) para qualquer parte do corpo. Este desconforto local pode ser causado por: ! Assimetria de radiação; ! Diferença de temperatura do ar vertical entre os pés e a cabeça; ! Correntes de ar (“draft” ou “draught”). ! Diferença de temperatura entre os pés e o piso. Nas normas ASHRAE 55:2004 e ISO 7730:2004 são previstos limites máximos para cada uma das causas de desconforto acima. A exemplo do trabalho de Fanger (1972), os limites de desconforto local foram obtidos em ensaios realizados em câmaras climatizadas para condições de trocas de calor em edificações, isto é, para ambientes que podem ser considerados homogêneos ou próximos de homogêneos. 2.3 AVALIAÇÃO DE CONFORTO TÉRMICO EM VEÍCULOS AUTOMOTIVOS Para ambientes não homogêneos, onde diferentes partes do corpo experimentam diferentes condições térmicas, o conceito mais amplamente utilizado (Nilsson, 2004) é o de temperatura equivalente (teq), definida como sendo a temperatura uniforme de um ambiente imaginário com velocidade do ar igual a zero, no qual a pessoa troca a mesma quantidade de calor sensível, por radiação e convecção, que no ambiente real. A aplicação do conceito de temperatura equivalente é particularmente útil no espaço confinado de compartimentos de passageiros de veículos, devido à interação complexa dos fluxos de calor por radiação e convecção, insolação direta, grandes assimetrias de temperatura e velocidade do ar mesmo em condições de regime permanente. O uso dos índices PMV (ISO 7730:1994) ou das cartas da ASHRAE (ASHRAE 55:2004) nestas condições não são os mais apropriados (Madsen et al, 1986; Gameiro da Silva, 2002; 3 ANSI/ASHRAE 55:2004 e ISO 7730:1994 14 Hosni et al, 2003; Nilsson, 2004). A norma ISO 14505-2:2004 trata da determinação de temperaturas equivalentes, teq, na avaliação de conforto térmico em automóveis. Esta norma prevê a utilização dos métodos de medição da temperatura equivalente usando manequins térmicos ou sensores aquecidos, conforme será visto no Capítulo 3. 15 CAPÍTULO 3 UTILIZAÇÃO DE TEMPERATURAS EQUIVALENTES NA AVALIAÇÃO DE CONFORTO TÉRMICO EM AUTOMÓVEIS O conforto térmico em ambiente veicular tem se tornado crítico principalmente com a tendência de maior utilização de vidros, assim como devido à restrição de economia de combustível e de utilização de fluídos refrigerantes ambientalmente seguros. A busca pela redução dos ganhos de calor tornou-se fator importante no desenvolvimento de veículos, pois não se pode aumentar a capacidade do sistema de HVAC na mesma proporção que a área envidraçada está aumentando. Assim, tornou-se necessário desenvolver ferramentas que possam prever e avaliar o impacto de diferentes opções de projeto no conforto térmico do usuário. 3.1 TEMPERATURA EQUIVALENTE Conforme visto no Capítulo 2, para ambientes não homogêneos como aqueles que ocorrem em veículos automotivos, onde diferentes partes do corpo experimentam diferentes condições térmicas, o conceito mais amplamente utilizado para a avaliação de condições de conforto térmico é o de temperatura equivalente (Cisternino, 1999; Nilsson, 2004). A utilização deste conceito na avaliação de condições de conforto térmico em automóveis é prevista na norma ISO 14505-2:2004. Nesta norma é apresentada metodologia para determinação da temperatura equivalente (equivalent homogeneous temperature - EHT), utilizando manequins com temperatura constante ou com fluxo de calor constante e avaliação de condições de conforto térmico utilizando diagramas de sensação térmica; conforme será visto a seguir. 3.2 DETERMINAÇÃO DA TEMPERATURA EQUIVALENTE A determinação de temperaturas equivalentes, EHT ou teq, é baseada na transferência de calor por condução, convecção e radiação para manequins com vestimentas padrão para cada tipo de ensaio: vestidos com roupas leves para ensaios em condições de verão, 0.6 clo, e com roupas pesadas para condições de inverno, 1.0 clo. Nos ensaios para verificação das condições de troca de calor com o ambiente utilizando 16 manequins adequadamente vestidos (roupas leves ou pesadas), as trocas de calor se limitam às trocas de calor por radiação R e por convecção C , desprezando as trocas de calor por condução e por evaporação pela pele, são dadas pelas equações 3.1 e 3.2: R = hr (t s − t r ) [W/m2] (3.1) C = hc (t s − t ar ) [W/m2] (3.2) onde: C = troca de calor por convecção [W/m2] R = troca de calor por radiação [W/m2] hr = coeficiente de transferência de calor por radiação [W/m2ºC] hc = coeficiente de transferência de calor por convecção [W/m2ºC] ts = temperatura da superfície [ºC] t r = temperatura radiante média [ºC] tar = temperatura do ar ambiente [ºC] Como as trocas de calor por convecção e radiação ocorrem simultaneamente, a temperatura equivalente, teq, é dada pela equação 3.3: t eq = t s − Q& h [ºC] (3.3) onde: Q& = R + C = troca de calor por radiação e convecção [W/m2] teq = temperatura equivalente [ºC] ts = temperatura da superfície [ºC] h = coeficiente de transferência de calor combinado (hc + hr) [W/m2ºC] É importante frisar que o mesmo equacionamento pode ser utilizado para avaliação de temperaturas equivalentes nas partes do corpo em contato com superfícies, como por exemplo, as de assentos automotivos. Embora nestes casos não ocorra transferência de calor por convecção e radiação, e sim somente por condução, a Eq. (3.3) também se aplica. Neste caso Q& é a troca de calor por condução e o coeficiente h será a condutância à troca de calor por condução. 17 No presente trabalho será realizado um estudo comparativo entre diferentes materiais utilizados na confecção de assentos automotivos no conforto térmico de passageiros nas regiões de contato (costas, nádegas, coxas) com os assentos, em dias tipicamente de verão, utilizando a temperatura equivalente direcional segmentada, isto é, pequenas placas aquecidas com temperatura conhecida fixadas em um manequim A norma ISO 14505:2 define diferentes temperaturas equivalentes (EHT) em função da metodologia utilizada no ensaio: ! Temperatura equivalente global: é a temperatura de um ambiente imaginário com a mesma temperatura do ar e das superfícies vizinhas com velocidade do ar menor que 0,1 m/s, onde um manequim térmico (ou com inúmeros sensores planos aquecidos) de mesmo porte do ser humano trocará a mesma quantidade de calor por radiação ou convecção que em um ambiente real e não uniforme. Neste cálculo a temperatura da pele e a troca de calor são obtidas através da média ponderada pela área das respectivas medidas de cada segmento. ! Temperatura equivalente segmentada: é a temperatura de um ambiente imaginário com a mesma temperatura do ar e das superfícies vizinhas com velocidade de ar menor que 0,1 m/s, onde segmentos selecionados de um manequim térmico (ou sensores aquecidos fixados nos segmentos selecionados) de mesmo porte do ser humano trocarão a mesma quantidade de calor por radiação ou convecção que um ambiente real e não uniforme. Neste cálculo considera-se a temperatura da pele e a troca de calor dos segmentos selecionados. ! Temperatura equivalente direcional: é a temperatura de um ambiente imaginário com a mesma temperatura do ar e das superfícies vizinhas com velocidade de ar menor que 0,1 m/s, onde pequenas superfícies planas aquecidas com temperatura conhecida, trocarão a mesma quantidade de calor por radiação ou convecção que um ambiente real e não uniforme. Neste caso, estas superfícies planas podem ser fixadas em um manequim não aquecido ou em suportes. Pode ser interpretada como um vetor normal ao plano estudado. ! Temperatura equivalente omnidirecional: é a temperatura de um ambiente imaginário com a mesma temperatura do ar e das superfícies vizinhas com velocidade de ar menor que 0,1 m/s, onde superfícies elípticas planas aquecidas e com temperatura conhecida, trocarão a mesma quantidade de calor por radiação ou convecção que um ambiente real e não uniforme. Neste caso, estas superfícies planas podem ser fixadas em um 18 manequim não aquecido ou em suportes. Pode ser interpretada como um vetor normal ao plano estudado. A interpretação da temperatura equivalente é um indicador que mostra o quão perto ou longe as condições térmicas do ambiente real e não uniforme encontram-se da situação de termoneutralidade. As condições de assimetria térmica em um compartimento veicular promovem diferenças na expectativa da situação de termoneutralidade representadas pelas temperaturas equivalentes segmentadas, conforme pode ser verificado nas Figuras 3.1 e 3.2. Os diagramas das Figuras 3.1 e 3.2, apresentados na norma ISO 14505-2:2004, foram obtidos a partir de resultados de avaliações subjetivas de um conjunto de pessoas e são utilizados para avaliação de condições de conforto térmico utilizando temperaturas equivalentes. Figura 3.1- Diagrama de sensação térmica em condições de verão, com roupas adequadas 0.6 clo, para avaliação de condições de conforto térmico utilizando temperaturas equivalentes (ISO 14505-2:2004). Os valores das abcissas nas Figuras 3.1 e 3.2 correspondem às temperaturas equivalentes, teq, e os valores das ordenadas aos segmentos do corpo (manequim). O segmento 17 corresponde à teq para o corpo como um todo. Os números 1 a 5 representam as faixas de sensação térmica, conforme apresentado na Tabela 3.1. 19 Figura 3.2- Diagrama de sensação térmica em condições de inverno (aquecimento), com roupas adequadas 1.0 clo, para avaliação de condições de conforto térmico utilizando temperaturas equivalentes (ISO 14505-2:2004). Tabela 3.1 Escala de sensação térmica da norma ISO 14505:2, 2004 Escala de sensação térmica 1 2 Muito frio 3 4 5 Frio/confortável Confortável Quente/confortável Muito quente A temperatura equivalente (EHT) é um indicador capaz de avaliar preventivamente o desempenho e impacto do sistema de climatizaçào sobre o conforto térmico do ocupante e mostra ter uma forte correlação com os padrões de análise subjetiva utilizados pelas OEMs norte-americanas, conforme apresentado na Figura 3.3 (Han e Huang, 2004). 3.3 MANEQUINS A utilização de manequins tem aumentado a precisão dos estudos quando são avaliados simultaneamente os efeitos da temperatura do ar local, trocas de calor por radiação do corpo, velocidades do ar e a radiação solar em um veículo, principalmente pelas alterações provocadas no ambiente do veículo simplesmente pela sua presença, que é bastante similar ao do corpo humano. 20 Figura 3.3 – Correlação entre a temperatura equivalente calculada e a avaliação subjetiva conforme ISO 14505:3- 2004 (Han e Huang, 2004). Uma vez que os manequins atuais só permitem determinar a perda de calor sensível, em condições ambientais onde o ser humano começaria a suar para perder calor por evaporação haverá uma subestimação do calor total perdido. Contudo, no desenvolvimento de atividades leves e em condições próximas à neutralidade térmica a perda de calor por evaporação representa uma parte mínima da perda de calor total e, portanto, não haverá um desvio muito grande (Nilsson, 2004). Desde 1932, quando Duffon (1932) Gameiro da Silva (2002) propôs medir temperatura equivalente utilizando manequim, modernos e sofisticados métodos de medir temperatura equivalente têm sido propostos: Madsen (1976); Wyon et al (1985); Madsen et al (1986) e Olesen (1988) Gameiro da Silva ( 2004). As melhorias construtivas dos manequins ao longo dos anos buscam aproximá-los cada vez mais da forma e condições fisiológicas do corpo humano. Atenção especial tem sido dada aos seguintes fatores (Bohm et al. (2004)): ! Forma e postura – O volume do manequim, assim como do corpo humano, impactam no ambiente do veículo e nos fluxos de ar e flexibilidade é esperada para realização de testes em condições reais. 21 ! Metodologia de controle – Destacam-se dois tipos de controle: os manequins de temperatura constante e os de fluxo de calor constante. ! Geometria e direção dos sensores – O posicionamento e forma dos sensores afetam diretamente a razão entre o coeficiente de troca de calor de radiação e convecção. Manequins com vários sensores podem detectar assimetrias térmicas em várias direções. ! Número de segmentos - A quantidade de segmentos ou zonas impactam nos resultados de duas maneiras: a primeira é a resolução da temperatura equivalente global, já que esta é uma média ponderada das áreas de cada segmento, e a segunda é que grandes superfícies expostas a diferentes condições térmicas apresentaram desvios na temperatura superficial. O número de segmentos normalmente aceito hoje para uma boa resolução é de, no mínimo, de 16 zonas. O manequim requer um determinado tempo para responder a uma alteração no equilíbrio de troca de calor. Dependendo da construção do manequim e do sistema de regulação utilizado, este tempo pode variar entre 20 e 30 minutos. 3.3.1 Tipos de manequim quanto à forma Basicamente a evolução pode ser notada desde os primeiros modelos, que não apresentam nenhuma semelhança com o corpo humano, até a utilização de manequins com porte masculino e feminino, conforme apresentado na Figura 3.4. 3.3.2 Manequim com temperatura superficial constante Também conhecido como manequim térmico, possui temperatura constante na superfície e os resultados dos ensaios consistirão na medição dos fluxos de calor, ou seja, da potência dissipada para manter a temperatura constante, previsto na norma ISO 14505-2:2004. 22 (a) (b) (c) Figura 3.4 – Tipos de manequins: (a) flatman, (b) Eva (feminino) com 16 segmentos eb (c) AIMAN (masculino) com 32 segmentos. 23 As temperaturas das zonas podem ser as mesmas ou poderão ser controladas para diferentes valores, assim como o número de segmentos, que normalmente é de 16 ou maior (Figura 3.5) A maior vantagem do manequim térmico é a qualidade das respostas, isto é, permite a determinação das trocas térmicas com o ambiente para o segmento como um todo. As principais desvantagens são a instabilidade em função da temperatura escolhida e do equipamento usado. Se a temperatura do ambiente estiver maior que a do manequim, normalmente regulado para 34°C, o fluxo de calor será 0 W/ m2 ou a superfície do manequim será aquecida (Hosni et al., 2003a; 2003b). Figura 3.5 - Manequim com temperatura superficial constante (manequim térmico). 3.3.3 Manequim com fluxo de calor constante Também conhecido como manequim de sensores aquecidos, trabalha com fluxo de calor constante obtido por meio de uma fonte de aquecimento regulável para reproduzir o metabolismo do corpo humano correspondente a uma certa atividade que se deseja ensaiar. O resultado do ensaio consistirá na medição da temperatura de superfície ou de pele, previsto na norma ISO 14505-2:2004. Em vez de se fazer a avaliação das trocas de calor em diversos segmentos do corpo aquecido, são colocados sensores aquecidos nestes segmentos do corpo, normalmente 16 ou 32 segmentos (Figura 3.6) . 24 As principais vantagens do método são a ilimitada faixa de fluxos de calor, bem como a estabilidade e a possibilidade de medir transientes térmicos sem distúrbios do sistema de regulagem. As desvantagens estão na possibilidade de se ter temperaturas não reais, tempo de reação mais lento e não captar o fluxo de calor entre o corpo do manequim e o ambiente (Bohm et al. (2004)). No presente estudo foi utilizado um manequim com sensores aquecidos com 16 zonas e os sensores regulados para 90 W/m2. (Figura 3.6) Figura 3.6 - Manequim com 16 sensores aquecidos 3.3.4 Manequim NREL A NREL (National Renewable Energy Laboratory) recentemente desenvolveu ferramentas numéricas e experimentais que incluem um modelo de elementos finitos da fisiologia térmica humana, um modelo psicológico de previsão de condições de conforto térmico e desconforto local e um manequim do conforto térmico para testes reais no veículo (McGuffinn e Burke, 2001). O manequim, apresentado na Figura 3.7, foi projetado para possuir as seguintes capacidades gerais: ! Elevado controle espacial (150 zonas) e rápido controle temporal da superfície de troca de calor e índices de suor; ! Tempo de resposta da temperatura de superfície constante, que imita a pele humana; 25 ! Geometria e peso como a do ser humano, com junções protéticas para simular movimento; ! Auto-restrição completa do manequim, incluindo bateria, transferência de dados sem fio, e reservatório interno de suor por pelo menos 2 horas de uso sem conexões externas; ! Respiração com fluxo interno do ar ambiente e fluxo externo do ar aquecido úmido, em taxas de respiração humana realísticas; ! Combinação da capacidade de absorção das trocas de calor por radiação da pele do manequim com a capacidade de absorção da pele humana; As vantagens principais são a reprodução muito próxima do sistema termorregulador do ser humano, bateria e reprodução do fluxo de calor por evaporação através do suor e da respiração permitindo ensaios em condições adversas. Em contrapartida, a sua maior desvantagem está relacionada ao custo. Figura 3.7 - Manequim NREL com suas principais funções 3.4 Procedimento de calibração do manequim Antes de ser utilizado, qualquer manequim deve ser calibrado em um ambiente com condições térmicas padronizadas, cujo procedimento também é definido na norma ISO 14505-2: 2004. Durante o processo de calibração as condições do manequim no ambiente padrão devem reproduzir ao máximo as condições no ambiente real, tais como: ! Estar vestido com as mesmas vestimentas (adequadas às condições de verão ou 26 inverno) ! Permanecer na posição sentada ( semelhante à do motorista ou passageiro) ! Fluxo de calor de todos os sensores aquecidos ajustados para condição da atividade física do passageiro ou motorista (a norma estabelece fluxo de calor de 70 W/m2 (1,2 met) ou 90 W/m2 (1,6 met)). O ambiente padrão homogêneo (câmara climatizada) deve ser mantido com a mesma temperatura do ar e das superfícies , t r = tar , em 24 ºC e velocidade do ar V < 0,1 m/s, isto é, com teq = 24 ºC Uma vez colocado o manequim dentro da câmara climatizada, e obtidas condições de regime permanente nas trocas de calor do manequim com o ambiente, são realizadas leituras de temperaturas superficiais, ts, e de fluxo de calor para cada segmento do corpo e calculados valores de coeficientes de troca de calor, hcal, que são os coeficientes de troca de calor calibrados, dados pela equação: hcal = Q& ts − teq [W/m2 ºC] (3.4) Os valores de coeficientes de transferência de calor calibrados, hcal, serão os valores de coeficientes de troca de calor, h, da Equação 3.3 no cálculo das temperaturas equivalentes no ambiente real. Uma vez calibrado, o manequim será posicionado no ambiente em que se deseja realizar os ensaios, aguarda-se atingir o regime permanente nas trocas de calor entre o manequim e o ambiente e realiza-se a medição dos fluxos de calor e das temperaturas de superfície de cada segmento. Por meio da Equação 3.3 são determinadas as temperaturas equivalentes de cada segmento ou zona e, conseqüentemente, a temperatura equivalente global pela média ponderada dos valores de cada segmento. 27 CAPÍTULO 4 TECNOLOGIA DE ASSENTOS AUTOMOTIVOS Diversos materiais são utilizados na indústria automobilística buscando conferir durabilidade e beleza aos diversos componentes, que além de sua função principal devem obedecer aos requisitos dos designers. Os assentos automotivos fazem parte deste universo e o requisito de aparência é tão importante quanto as propriedades físico-químicas exigidas por cada montadora ou por regulamentações específicas. Neste capítulo são descritos alguns produtos utilizados nos revestimentos de assentos automotivos, produtos utilizados na confecção das almofadas e uma breve apresentação de soluções encontradas pelas montadoras na melhoria do conforto térmico, tais como assentos com ventilação/resfriamento. 4.1 REVESTIMENTOS 4.1.1 Couro sintético ou laminado vinílico O laminado vinílico pode ser obtido por três processos distintos de fabricação: espalmagem, calandragem ou extrusão, apresentados na figura 4.1. Neste estudo será feita descrição do processo de espalmagem utilizado pela empresa York S.A. Figura 4.1 Processos de fabricação dos laminados vinílicos A base deste produto é a resina vinílica (PVC), que para ser utilizada no processo de espalmagem necessita ser misturada a outros produtos químicos formando o composto vinílico chamado de Plastisol. Os componentes usados são: 28 ! Resina de Policloreto de Vinila (PVC), ! Plastificante orgânico (maleabilidade e maciez), ! Estabilizante térmica, ! Pigmentos, ! Agentes anti-chama, ! Filtro ultravioleta e ! Expansores A formulação depende das características desejadas, que uma vez definidas, os componentes são misturadas e homogeneizadas em misturadores chamados de “dissolver”, (figura 4.2). Figura 4.2 Composto “Plastisol” antes e no processo de homogeneização no “dissolver” O processo de espalmagem consiste em depósitos de camadas de Plastisol sucessivamente sobre um papel denominado “release paper” por sistema de faca contra um cilindro (figura 4.3). Normalmente os compostos vinílicos são compostos de 4 camadas chamadas respectivamente de: top, base, adesiva e suporte têxtil (figura 4.4). Cada camada tem uma função especifica descrita a seguir: ! Camada top – 1a camada depositada sobre o papel, confere ao produto suas características visuais, tais como cor, brilho e textura, além da resistência mecânica à costura e abrasão, ! Camada base – 2a. camada depositada sobre a camada top, com uma estrutura mais fechada, confere espessura, maciez e resiliência ao produto, ! Camada adesiva – 3a camada depositada sobre a camada base, tem a função de aderência entre a camada base e o suporte têxtil 29 ! Suporte têxtil – 4a e última camada aplicada com a função de conferir as propriedades mecânicas de tração, rasgamento e deformação plástica. Figura 4.3 Representação esquemática do processo de espalmagem Figura 4.4 Detalhes das camadas depositadas para composição do laminado vinílico Entre cada aplicação de camada o composto passa por um forno, onde sob ação de calor ocorrem reações físico-químicas entre as moléculas do PVC e do plastificante transformando o composto do estado pastoso para plástico em forma de filme. Esta reação é chamada de gelificação do composto vinílico. A próxima etapa do processo é o resfriamento seguido da separação do laminado vinílico e do “release paper”, onde são rebobinados separadamente. Dependendo do produto a textura final do laminado vinílico já foi conformada pelo próprio “release paper” ou necessita de uma operação adicional chamada de gravação mecânica (figura 4.5), a qual consiste em aquecer o produto e passar por um cilindro que já possui a textura a -20 ºC. Após a gravação, o produto está pronto para venda (figura 4.6), sendo então inspecionado e embalado. 30 Figura 4.5 Detalhe da gravação mecânica (textura) no vinil Figura 4.6 Laminado Vinílico acabado O laminado vinílico é produzido segundo os requisitos dos clientes, que podem ser divididos em três grandes grupos: ! Físico- químicos: ! Comportamento sob ação de calor e frio, ! Resistência à luz ultravioleta, abrasão, fadiga por flexão e produtos de limpeza, ! Mecânicos: ! Resistência à tração, rasgamento, adesão do suporte têxtil, costura, rigidez, maciez, ! Dimensional 31 ! Regulamentação e segurança: ! Odor, emissão de carbono, volatilidade e substâncias tóxicas ! Flamabilidade e flogging. 4.1.2 Tecidos Os tecidos são utilizados na grande maioria de veículos e em todos os segmentos, dos populares aos mais luxuosos. Os tecidos permitem um excelente acabamento, são facilmente trabalháveis na manufatura e, com uma vasta gama de tecnologias e cores, facilitam o trabalho dos designers na indústria automotiva. O estilo dos assentos, assim como a escolha da tecnologia é de responsabilidade de cada montadora. O fluxograma do processo de produção de tecidos é mostrado na figura 4.7. Fiação é a primeira operação definida como sendo o conjunto de operações que compreendem o tratamento dos diversos materiais fibrosos, sejam de origem natural ou química (artificiais ou sintéticos) até sua transformação em fios. A partir de um conjunto de fibras randômicas, sofrem paralelização, estiragem e torção até sua perfeita coesão, passando a denominar-se “fio fiado”. A matéria prima utilizada para o tecimento do tear ou malharia é o fio de poliéster, podendo ser “cru” ou “tingido”, com 90% de origem importada. FLUXO DO PROCESSO DE PRODUÇÃO DE TECIDOS MALAHARIA DE URDUME URDIMENTO FIO TEXTURIZAÇÃO TINTURARIA TEARES MÁQUINA MALHARIA CIRCULAR ROLO DE TECIDO INSPEÇÃO ACOPLAGEM (FLEMING) DIVISÃO DOS ROLOS ACABAMENTOS PRÉ - ACABAMENTOS EXPEDIÇÃO Figura 4.7 – Fluxograma do processo de produção de tecidos 32 A tecnologia aplicada ao desenvolvimento de tecimento, basicamente se subdivide em três grupos: tear, malharia circular e malharia urdume. ! Tear O processo de tecimento no tear é relativamente simples, pois é o entrelaçamento entre urdume (fios no sentido longitudinal do tecido) e a trama (fios no sentido transversal do tecido) formando um ângulo de 90º. A trama tem o seu tamanho limitado à largura do tear. Os tecidos produzidos nesta tecnologia são conhecidos como tecidos de cala, devido ao movimento do urdume no tecimento. A tecnologia dos teares se divide em: Plano e Jacquards, conforme o equipamento de produção (figura 4,8). O tear plano tem seus desenhos limitados aos números de quadros, geralmente são utilizados para tecido com design simples, enquanto no tear jacquard é possível introduzir desenhos mais complexos (figura 4.9). Na tecelagem a padronagem é basicamente feita através de ponto cruz, ou seja, em alguns momentos o urdume aparece e em outros a trama aparece, formando assim o desenho. Figura 4.8 – Equipamento de produção e tecido de tear plano Figura 4.9 – Equipamento de produção de tear Jacquards 33 ! Malharia Circular Os tecidos provenientes dessa tecnologia têm como principal característica a sua forma de tecimento, que é a partir de um único fio entrelaçado nele mesmo formando a malha. Neste tipo de tecnologia os tecidos saem em forma tubular devido às máquinas serem circulares (figura 4.10), daí o nome malharia circular, tendo que serem abertos para serem trabalhados. A largura dos tecidos varia conforme o diâmetro das máquinas. É nesta tecnologia que são feitos os tecidos com pêlos conhecidos como plush (aveludado). Assim como no tear, a malharia circular também poder ser plana ou Jacquard. Figura 4.10 - Equipamento e tecido da Malharia Circular Aveludado Após o processo de tecimento, os rolos de malharia são abertos em equipamentos específicos, conforme figura 4.11. Figura 4.11 – Operação de aberturas dos rolos de malharia 34 ! Malharia de Urdume Na malharia de urdume a tecnologia de formação do tecido ocorre no sentido do urdume. Basicamente, distinguem-se o Raschel (figura 4.12), onde os tecidos podem ser duplos (dois desenhos espelhados nas duas faces) e, posteriormente são partidos, ou Kettenstuhl, onde os tecidos possuem apenas um lado. . Figura 4.12 – Tecido Raschel antes e após o corte. ! Beneficiamento têxtil (Acabamento) O beneficiamento têxtil é um conjunto de operações que visam conferir aos artigos têxteis características específicas tais como cor, brilho, toque e caimento; podendo ser aplicados nas várias fases de produção dos artigos desde os fios ao tecidos. O beneficiamento é dividido em duas fases: o beneficiamento primário e secundário ! Beneficiamento primário: Constitui a fase inicial do processamento do material pelo setor de acabamento. São operações realizadas como base para as operações seguintes, como por exemplo, a navalhagem (figura 4.13). ! Beneficiamento secundário: compreende várias etapas, das quais destacm-se: ! Lavagem - para retirar as impurezas dos tecidos (óleo de máquinas e produtos estáticos), ! Pré-fixação – nesta etapa é realizada a preparação para a fixação do corante realizado a 190º, 35 Figura 4.13 – Operação de navalhagem em duas etapas ! Tingimento, realizado em autoclaves (chamadas de “JET”), para fios, rolos ou malha solta. As autoclaves trabalham a uma temperatura de 135º, pressurizadas a 3,5 atm, ! Termofixação (Rama) - é o processo de estabilização dimensional dos tecidos (acerto de alongamento, de largura e de comprimento). As larguras podem ser alteradas de 1,20m para 1,60m ou de 1,60m para 1,80 m, ! Felpagem, - operação realizada por meio de vários cilindros agulhados que fazem o rompimento das fibras/fios, tornando o tecido aveludado. Aplicado em tear e malhas de urdume. ! Flame ou acoplagem de espumas ao tecido (face “A” e “B” e da espuma) – é realizada simultaneamente no processo de acoplagem do tecido por meio de aquecimento (~ 400ºC) da espuma e prensagem contra o tecido por meio de rolos metálicos. O controle de temperatura e queima é realizado por meio da velocidade de passagem da espuma. ! Especificação técnica Os requisitos técnicos para os tecidos seguem as solicitações das principais montadoras Basicamente são requisitos de: ! Desgaste, ! Capacidade de alongamento: tear (2 a 5%) e malharia (acima de 10%), ! Resistência à ruptura dos fios, 36 ! Flamabilidade, ! Solidez à luz (também chamado de Xenon Test) ou envelhecimento, ! Aderência da acoplagem da espuma ao tecido, ! Permeabilidade ao Ar, onde se verifica a passagem de ar no tecido do apoio de cabeça, normalmente com valores em torno 50 a 70 litros/min.. Vantagens / Desvantagens Na tabela 4.1 é apresentado um quadro comparativo de vantagens e desvantagens dos tecidos de tear e malharia. Tabela 4.1 Quadro comparativo: vantagens e desvantagens dos tecidos de tear e malharia Tear Malharia Vantagens Alta cobertura Alta cobertura Estabilidade Dimensional Alongamento bidirecional Uniformidade Uniformidade Durabilidade Durabilidade Conforto Conforto Rigidez Desvantagens Elasticidade bidirecional Estabilidade Dimensional Alongamento bidirecional Restrição de design Custo 37 4.1.3 Couro bovino O couro é um produto utilizado na confecção de revestimentos de assento de veículos de luxo que, além das restrições ambientais no processo de produção, possui custos muito elevados, representando no máximo 5 % da produção total de veículos no Brasil. O lead time de fabricação é bastante longo, exigindo um grande volume de peles durante o processo. Neste estudo o propósito é um breve descritivo do processo de beneficiamento, não chegando ao detalhamento no nível de produtos químicos, ciclos térmicos ou critério de classificação. A primeira grande atenção está na seleção do rebanho, o que pode incorrer em grandes perdas no processo causadas por danos à pele por insetos ou pelas cercas limítrofes dos locais de confinamento. O processo é iniciado logo após o recebimento das peles com mergulhos destas em produtos químicos nos tambores rotativos, chamados de “fulões”, durante 24 horas, onde ocorrem as operações de “remolho”, “encalagem” e “depilação” (figura 4.14). Figura 4.14 – Descarga das peles após operações de remolho, encalagem e depilação. As peles então são aparadas e passam através de rolos com o objetivo de remover restos de carne e gorduras na operação denominada “descarne” (figura 4.15). Em seguida as peles são divididas em partes nobres, chamadas de flor, e raspas de qualidade secundária. As peles voltam ao fulão (tambor rotativo), onde se dá o “curtimento por 18 horas”com a imersão das peles em produtos químicos (figura 4.16). A partir desta etapa do processo de beneficiamento, as peles passam a ser denominadas couro. Após a descarga, o couro é empilhado e embalado para finalização das reações químicas de curtimento. 38 Figura 4.15 Operação de descarne da pele para remoção de restos de carne e gorduras Figura 4.16 Operação de curtimento de couro em fulões Uma vez classificado, o couro passa pelo processo de “remolho” num equipamento chamado charuto (figura 4.17), cujo objetivo é a equalização da umidade, característica importante para operações posteriores. Enxugado em estufas horizontais do tipo esteira, o couro passa por operações mecânicas de rebaixamento com o objetivo de uniformização e definição de espessura (figura 4.18). O couro então, retorna ao “fulão” para tingimento com produtos químicos (figura 4.19), seguido de enxugamento em fornos tipo esteira para remoção do excesso de umidade e por fim, com o couro esticado em suportes, passa-se através de câmaras climatizadas (figura 4.20), obtendo-se a umidade desejada para a operação de amaciamento. 39 Figura 4.17 – Operação de remolho em equipamentos contínuo chamado charuto Figura 4.18 – Operação de rebaixamento do couro e controle dimensional O amaciamento consta de uma operação mecânica que, por meio de lubrificantes incorporados ao couro ao longo do processo, permite conferir ao produto a maciez desejada (figura 4.21). A próxima operação é o processo de lixar o couro para melhorar o acabamento superficial e classificação segundo a cor, maciez, classe do couro e espessura. Em seguida, o couro recebe uma camada superficial de tinta para acabamento final e procede-se posteriormente à gravação mecânica por meio de cilindros que conferem a textura final ao couro (figura 4.22). 40 Figura 4.19 Operação de tingimento de couro em “fulão” Figura 4.20 Operação de secagem do couro em câmaras climatizadas Figura 4.21 Amaciamento mecânico 41 Figura 4.22 Gravação mecânica da textura no couro A última operação é a “pulverização” de cobertura de produto à base de PVC, que define a resistência ao uso. O produto acabado (figura 4.23) deve ser embalado e despachado para os clientes. Figura 4.23 Produto de couro acabado Assim como o laminado vinílico e os produtos têxteis, os requisitos para o couro são exigências das próprias montadoras, além de regulamentações governamentais, assim classificados: ! Resistência mecânica: tração, alongamento, rasgamento, fricção, adesão, flexão a frio, envelhecimento, manchamento, solidez à cor, produtos de limpeza e pilling, ! Regulamentações e segurança: odor, flamabilidade e emissões. 42 4.2 ALMOFADAS 4.2.1 Espumas Com o advento da II Guerra Mundial e a conseqüente carência de materiais de borracha, incentivou-se o desenvolvimento de produtos à base de uretana, para aplicações como fibras, cerdas, adesivos, revestimentos, elastômeros e espumas. Intensivos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento foram iniciados nos Estados Unidos, Alemanha e Inglaterra, pois a tecnologia das uretanas tornou-se mundialmente conhecida. Em 1957 houve o aparecimento de uma variedade muito grande de polióis poliéteres, tendo não somente vantagens de custo, mas espumas com melhores propriedades físicas, incentivando o rápido crescimento da indústria de espumas de poliuretano. Poliuretano flexível é geralmente utilizado para sustentação, sendo semi-rígido com pele integral (camada superficial com características diferentes) para componentes de assentos automotivos. Uma das grandes vantagens da utilização da espuma de poliuretano é a sua capacidade de combinar os efeitos de mola e histerese, que são de fundamental importância no conforto ergonômico dos assentos em geral. No efeito mola a força exercida para compressão é exatamente a mesma carga que a mola exerce para a descompressão, sendo diretamente proporcional à sua deformação (constante da mola). Quando há diferenças entre a força de compressão e descompressão se diz haver o efeito de histerese (figura 4.24). Figura 4.24 Comparação entre efeito mola e histerese Poliuretanos são obtidos por uma reação de polimerização de dois componentes básicos o isocianato e o poliol. Estas reações, ilustradas na figura 4.25, ocorrem com grande expansão volumétrica. A ordem da reação é: 43 ! Creme: é o primeiro estágio da reação onde se inicia a formação do gás e pode ser medido por meio do tempo a contar do início da mistura até a mudança na coloração, ! Gel: é o período de formação da célula, que pode ser medido pelo tempo a contar do início da mistura até a formação de um fio, quando tocada a superfície da espuma levemente com algum objeto, ! Crescimento: é o final da primeira etapa da formação da poliuretana, que pode ser medida a contar do início da mistura até o final do crescimento, ! Pega: é a etapa em que a espuma pode ser desmoldada, ! Cura: ocorre ao longo de pelo menos por 24 horas em exposição ao ar para finalização das reações, conferindo dureza à espuma. Figura 4.25 Ilustração das reações de polimerização de isocianato e poliol ! Matéria Prima A maioria dos isocianatos usados para fazer poliuretano são compostos aromáticos, distinguindo-se dois tipos mais comuns, o Di-isocianato de Tolueno (TDI) que responde pela maioria da produção e o Di-isocianato Difenil Metileno (MDI), ambos obtidos do óleo crú. Os polióis mais usados são os polióis polieter derivados de óxido de propileno e óxido de etileno (petroquímicos), podendo ser modificados por processos como o 44 grafitamento de outro polímero, cujo objetivo é conferir à espuma capacidade de aumento de dureza, células mais abertas e melhora de rasgo e tensão de ruptura. Agentes de expansão são produtos de baixo ponto de ebulição, que devido à exotermia da reação são volatilizados. Sua função básica é conferir a densidade da espuma. Assim, quanto mais agente de expansão presente menor será a densidade. Alguns produtos, tais como a glicerina, são adicionados à mistura que, ao reagir com o isocianato formando um reticulado, confere à espuma maior estabilidade e dureza. ! Processo de Produção As técnicas de produção mais comuns são sistemas contínuos ou de fase única, envolvendo o bombeamento e medição simultâneos dos ingredientes, que são prépreparados em um número de componentes líquidos ou fluxos ao misturador, onde são totalmente misturados e depois despejados em moldes aquecidos (figura 4.26 e 4.27). Figura 4.26 Operação de vazamento ou “pouring”executada por robô. Figura 4.27 Sistema de moldes aquecidos em carrossel com movimento contínuo 45 4.2.2 Fibra de Coco A fibra de coco é atualmente explorada no Norte/ Nordeste do Brasil em processos muito artesanais, com baixo nível de controle para utilização nos diversos segmentos de mercado. No Brasil a utilização de fibra de coco em assentos automotivos teve larga aplicação até a década de 1970, quando a espuma de poliuretano foi introduzida no mercado. A possibilidade de um melhor controle do processo e a falsa motivação por automação rapidamente levaram à substituição completa da fibra de coco por espuma. No início da década atual o apelo social e o alto custo do petróleo levaram várias montadoras a considerarem o retorno da fibra de coco nos assentos automotivos. Contudo, os altos custos de frete, o equacionado de alguns problemas técnicos, tais como o processo completamente artesanal e a compensação da histerese na espuma, ainda não viabilizaram esta retomada. O processo da fibra de coco é iniciado com o recebimento de fardos de fibra (figura 4.28), que já passaram pelo processo de descascamento da fruta e várias operações de lavagem/ secagem na origem. A fibra segue para o processo de encordoamento, cujo objetivo é o de realinhar as fibras e conferir memória helicoidal por meio da torção das mesmas (figura 4.29). Figura 4.28 Recebimento de fardos de fibra de coco 46 Figura 4.29 Transformação da fibra de coco em cordas Uma vez em corda, a fibra é novamente picotada em tamanhos pré-determinados e dispersada randomicamente sobre uma esteira com movimento contínuo recebendo dispersão de látex dos dois lados. Após a aplicação do látex a placa de fibra passa por uma prensa a quente obtendo-se resistência nas diversas direções, o que permitirá moldagem posterior a quente (figura 4.30). Uma vez prontas, as placas de fibra são cortadas em prensa e faca, de acordo com máscaras definidas (figura 4.31) e levadas para o processo de moldagem a quente. Neste processo, após o depósito da placa de fibra de coco no molde, que já possui o formato da peça final, é adicionado o látex e os insertos necessários de acordo com processo. O aquecimento do molde se dá por vapor de água (figura 4.32). Figura 4.30 Picotagem e dispersão das fibras e posterior aplicação de látex . 47 Figura 4.31 Corte em prensa e com facas das placas de fibra de coco Figura 4.32 Fibra/látex sobre o molde antes e após operação de prensagem a quente As peças sofrem uma operação de rebarbação manual e são vulcanizadas em fornos autoclave (figura 4.33). Terminada a vulcanização são resfriadas e dispostas para embarque. Figura 4.33 Operações de rebarbação, vulcanização e estoque de produto acabado. 48 4.3 TECNOLOGIAS DE ASSENTOS PARA MELHORAR CONDIÇÕES DE CONFORTO TÉRMICO A empresa TWE tem realizado diversas pesquisas na área de conforto térmico buscando alternativas para propiciar uma maior eficiência na troca de calor em assentos por meio de mudanças na forma superficial das espumas, inclusão de furos e até a utilização de exaustão forçada de ar trazendo resultados muito positivos, não só quanto à temperatura atingida pelo contacto com o corpo humano como também na dispersão térmica de contato atingida (figuras 4.34 e 4.35). Figura 4.34 Dispersão térmica causada pelo contato com passageiro Figura 4.35 – Dispersão térmica por contato com passageiro otimizada pela presença de canais, furos e exaustão de ar através do assento. Baseado em estudos da forma superficial com respectivas respostas quanto à troca de 49 calor com o corpo humano (figura 4.36), há uma série de diferentes formas já sendo aplicadas em assentos automotivos em países mais desenvolvidos, que devem ser uma tendência para os próximos anos em nosso país também. Figura 4.36 Formas superficiais de espumas privilegiando a troca de calor com o passageiro. 4.3.1 Assentos ventilados e com resfriamento forçado Os assentos com controle de micro clima são dispositivos anexados que permitem o aquecimento e a exaustão/ventilação forçada. No caso do aquecimento, normalmente se utilizam filmes com resistências elétricas logo abaixo da superfície e a exaustão se dá através de furos na própria espuma (figura 4.37). Figura 4.37 Sistema de aquecimento e exaustão nos assentos Novas tecnologias também consideram o insuflamento de ar aquecido ou frio, por meio de uma bomba que coleta o ar no próprio ambiente interno, por meio de bolsas ou camadas permeáveis logo abaixo da capa (figura 4.38). 50 Figura 4.38 Sistemas de insuflamento de ar em assentos automotivos Existem vários sistemas em produção, com diferenças desde o conceito do projeto até as formas de fixação (figura 4.39). Embora não sejam importantes para o consumidor final, são de extrema importância para os fabricantes de assentos, sendo um dos critérios de escolha do fornecedor. Figura 4.39 Diferentes sistemas de insuflamento/ exaustão e distribuição de ar Os fabricantes destes sistemas indicam que a melhor aplicação dos assentos com ar frio se dá em viagens longas, cidades de tráfego intenso (como São Paulo) e em horários de maior insolação. Enfim, em países tropicais onde os dias de verão intenso ocorrem na maior parte do ano. 51 Os aspectos positivos que podem ser mencionados na utilização destes sistemas são: ! Diminuição do desconforto inicial, ! Manter o motorista mais atento. Os aspectos negativos que podem ser destacados são: ! Custo elevado, ! Exigência de previsão deste acessório desde o inicio do projeto, ! Para uma boa eficiência há a necessidade que o veículo seja ligado alguns minutos antes da utilização. 52 CAPÍTULO 5 PROCEDIMENTOS DE ENSAIO E TESTES REALIZADOS Os procedimentos de ensaio e testes realizados se referem à avaliação comparativa da influência de diferentes tipos de assentos no conforto térmico de uma pessoa em um automóvel sob condições de verão, com sistema de climatização do veículo (resfriamento) ligado. Na avaliação experimental foi utilizado um manequim com sensores aquecidos dispostos ao longo das regiões do corpo, que simulam a troca térmica do corpo humano com o ambiente. 5.1 ASSENTOS AVALIADOS 5.1.1 Recobrimento final Inicialmente foram selecionados os três tipos de revestimentos mais utilizados na indústria automotiva: tecido, couro e vinil, considerando questões de estética, aparência, complexidade na produção (tanto na confecção do revestimento como no processo de montagem do assento), durabilidade e custos, conforme apresentado na Tabela 5.1. Tabela 5.1 – Comparação entre materiais de revestimento para assento automotivo Tecido Couro Vinil Aparência → ↑ ↓ Durabilidade → ↑ ↓ Complexidade na manufatura ↑ ↓ → Custos → ↑ ↓ Aspectos ecológicos ↑ ↓ → NA NA NA Propriedades térmicas ( ↑ ) Melhor e ( ↓ ) Pior (→) intermediário. NA – Não avaliadas As matérias primas escolhidas foram modeladas (corte e costura) e depois montadas nas almofadas, nas estruturas de aço e acabamento com peças plásticas (Figura 5.1). 53 Figura 5.1 – Assentos confeccionados com revestimentos em vinil, couro e tecido. 5.1.2 – Acoplamento Todos os produtos utilizados em recobrimento de assentos recebem uma camada de espuma de poliuretano para melhorar o acabamento estético e facilitar a montagem. Contudo esta espuma diminui a passagem de ar, funciona como isolamento térmico e, conseqüentemente, prejudica o conforto térmico dos passageiros em condições de verão. No presente trabalho foram consideradas acoplagens com duas espessuras (Figuras 5.2 e 5.3). 54 10 mm 5 mm Figura 5.2 – Tecido com acoplagem de espumas de diferentes espessuras. Figura 5.3 – Assentos confeccionados com revestimentos em tecidos com acoplagens de 10 e 5 mm respectivamente. 5.1.3 - Almofadas Durante muitos anos a fibra de coco foi utilizada na confecção de almofadas para assentos automotivos. Mas, devido ao difícil manuseio e processo de fabricação artesanal com elevados desperdícios, este tipo de almofadas foram sendo gradativamente substituídas pelas almofadas de poliuretano obtidas por processos de vazamentos em moldes quentes com cura ao ar livre, com vantagens de custo. Contudo, o aumento descontrolado do custo do petróleo e o apelo ecológico evidenciam a necessidade de pesquisas no desenvolvimento de processos de fabricação de almofadas em fibra de coco a partir do subproduto “corda”. Este subproduto, obtido nas primeiras fases de beneficiamento, pode ser transportado a custos muito menores, eliminado a desvantagem dos custos dos processos artesanais. 55 Neste caso, no projeto do assento, o efeito mola encontrado nas espumas deve ser substituído por molas em aço, reduzindo drasticamente o volume das almofadas melhorando ainda mais os aspectos de custo. Deve-se notar que é extremamente difícil substituir com a mesma eficiência o efeito de histerese da espuma, Verifica-se assim, que o material das almofadas deve ser definido na fase conceitual do projeto, pois não há intercâmbio entre os materiais sem inclusão de novos componentes e sem a oneração do produto. Embora ainda não tenha sido avaliado, sabe-se que a fibra de coco permite uma maior passagem de ar o que deve beneficiar o conforto térmico dos passageiros. Em função disto, no presente trabalho serão comparados assentos com almofadas de poliuretano e de fibra de coco, conforme mostrado na Figura 5.4. Figura 5.4– Assentos com Almofadas de fibras de côco e poliuretano 5.1.4 – Testes Para realização dos testes, as amostras foram montadas combinando algumas variáveis de forma a não prejudicar as análises dos resultados obtidos em campo, conforme apresentado na Tabela 5.2. 56 Tabela 5.2 – Tabela com descrição das amostras para realização dos testes. Teste Almofada Material da capa Espessura de Acoplamento - mm I Espuma Vinil 5 II Espuma Couro 5 III Espuma Não Zero IV Espuma Tecido 5 V Fibra de côco Tecido A 5 VI Fibra de côco Não Zero VII Espuma Tecido 10 5.2 – VEÍCULO DE TESTE O veículo selecionado foi um modelo Station Wagon oriundo de uma plataforma “B” produzido no Brasil, com as seguintes características: a. Veículo com motor 1.8 cc; b. Sistema de climatização de ar tanto para condições de verão (resfriamento) como para condições de inverno (aquecimento). O sistema de controle de temperatura opera através de mistura de ar frio proveniente do sistema de ar condicionado e ar quente proveniente do sistema de aquecimento do veículo. Estas misturas são obtidas por meio das combinações de abertura de válvulas do tipo portinhola. Os sistemas podem ser regulados para frio máximo com ar proveniente apenas do sistema de ar condicionado, quente máximo com ar proveniente apenas do sistema de aquecimento do veículo ou qualquer mistura de ar frio e ar quente entre estes dois pontos. c. O sistema de climatização do veículo possui 4 diferentes velocidades de insuflamento variando da velocidade mais baixa (1) à velocidade mais alta (4). 57 5.3 – LOCAL E PERÍODO DE TESTES Os ensaios foram realizados na cidade de Salvador – BA que, mesmo no outono, apresenta temperaturas próximas de 30 0C e insolação da ordem de 800 W/m2, com ausência de nuvens. 5.4 PROCEDIMENTOS DE ENSAIO UTILIZANDO MANEQUIM Os procedimentos de ensaio consistiram em: a) Medição de temperaturas superficiais do manequim em condições controladas no Laboratório de Conforto Térmico da Escola Politécnica da USP, para determinação de coeficientes de troca de calor em ambiente padrão (calibração do manequim). b) Medição de temperaturas superficiais do manequim e condições ambientais (atmosféricas e no interior do veículo), em ensaios de campo, para determinação de temperaturas equivalentes e caracterização das condições de ensaio. c) Apresentação da variação da temperatura superficial do manequim em função das diversas partes do corpo em contato com o assento. d) Avaliação de condições de conforto térmico em diagrama de sensação térmica. 5.4.1. Descrição do manequim Os ensaios foram realizados utilizando um manequim dotado de 16 sensores aquecidos com potência de aquecimento regulável, de 40 a 120 W/m², distribuídos ao longo do corpo do manequim (Fig. 5.5). Os sensores estão assim dispostos: um na testa, um no peito, dois nos antebraços, dois nas mãos, dois nas coxas na parte frontal, dois nas coxas na parte posterior, dois nas costas, dois nas nádegas, dois nos pés. Cada sensor aquecido é dotado também de um sensor para medição de temperaturas superficiais. O sistema de controle e aquisição de dados é composto por dois módulos que são conectados com o manequim e sensores adicionais. O manequim é conectado a um módulo B de controle de potência (Fig. 5.6), no qual ainda podem ser conectados 6 termoanemômetros omnidirecionais, 1 termômetro de globo e 1 sensor de temperatura. 58 Figura 5.5 -Manequim com sensores aquecidos utilizado nos ensaios Figura 5.6 - Módulo B de controle de potência e conexão de sensores para levantamento de dados ambientais. O Módulo B é conectado a um módulo A de aquisição de dados (Fig. 5.7.), que por sua vez é conectado ao microcomputador através da porta serial. O software de aquisição (SimTer.exe) roda em sistema Windows, onde podem ser visualizados os valores de potência dissipada em cada segmento e as respectivas temperaturas superficiais, bem como a velocidade, temperatura do ar e a temperatura de globo do ambiente analisado. 59 Figura 5.7 - Módulo A de aquisição de sinais Os dados podem ser registrados no disco rígido em intervalo definido pelo usuário, sendo que os valores registrados representam as médias do período. O ambiente do software de aquisição de dados é apresentado na Figura 5.8. Figura 5.8 - Software de aquisição do sistema SimTer As faixas de medição e precisão nas medições de temperaturas, velocidades e potências são apresentadas na Tabela 53. 60 Tabela 5.3 - Características dos instrumentos de medição do sistema SimTer. Variáveis Faixa de medição Precisão Temperatura superficial 0-50 0C ± 0,3 ºC Temperatura do ar 0-50 0C ± 0,3 ºC Velocidade do ar 0 – 3 m/s ± 0,04 + 3% m/s 40 - 120 W/m2 3% Potência 5.4.2 Calibração do manequim O manequim foi vestido com roupas que simulam condições reais de uso para um país tropical, camisa de manga comprida, calças compridas e gravata com um isolamento térmico da ordem 0.6 “clo”, conforme tabela ASHRAE (2001). Uma vez vestido, foi feita calibração do manequim SimTer de acordo com procedimento previsto na norma ISO 14505-2:2004. A calibração foi realizada em uma câmara de teste, com área de 34,8 m², climatizada sob condições controladas utilizada na avaliação de condições de conforto térmico em ambientes (Leite, 2003). O manequim foi colocado no ambiente climatizado em posição similar àquela em que seria posteriormente colocado no veículo para teste (Figura 5.9). A calibração foi feita individualmente para cada amostra. Figura 5.9 Posicionamento do manequim sentado em assentos na câmara para calibração A temperatura da câmara e das superfícies foram monitoradas durante os ensaios, bem como a velocidade, que permaneceram nos valores previstos na norma: em torno de 24 ºC, com V < 0,1 m/s (em torno de 0,03 m/s), com temperatura equivalente, Teq, correspondente de 24 ºC. 61 Uma vez atingidas condições de regime permanente (tanto do ambiente, quanto da troca de calor no manequim), foram realizadas as medições de temperatura superficial Ts e de fluxo de calor em cada segmento do corpo Q, correspondente à potência dissipada em cada sensor de aproximadamente 90 W/m2 (que reproduz atividade metabólica similar a de uma pessoa dirigindo um veículo). Com base nestes dados foram obtidos os valores de coeficientes de troca de calor calibrados, hcal, aplicando a Eq. (5.1), tabela 5.4. hcal = Q/(Ts-Teq) Tabela 5.4 [W/m2 ºC] (5.1) Valores de coeficiente calibrado de hcal, obtidos no ensaio em câmara climatizada. hcal(W/m²ºC) Espuma/ Espuma/ Tecido10mm Couro Testa Peito Costas D Costas E A Braço D A Braço E Mão D Mão E Nádega D Nadega E Coxa Traseira D Coxa Traseira E Coxa Frontal D Coxa Frontal E Pé D Pé E 15,8 11,1 13,4 13,4 17,3 15,8 20,1 20,1 14,8 15,5 13,6 14,8 15,7 15,3 15,2 15,7 15,8 11,1 12,2 12,2 17,3 15,8 20,1 20,1 15,3 15,3 14,2 14,4 15,7 15,3 15,2 15,7 Espuma / Vinil 15,8 11,1 13,4 13,4 17,3 15,8 20,1 20,1 16,7 16,4 15,3 15,5 15,7 15,3 15,2 15,7 Espuma / Espuma Tecido 5 mm s/Tecido 15,8 11,1 12,5 12,5 17,3 15,8 20,1 20,1 15,3 14,3 14,1 13,6 15,7 15,3 15,2 15,7 15,8 11,1 12,5 12,5 17,3 15,8 20,1 20,1 15,3 14,8 14,1 14,1 15,7 15,3 15,2 15,7 Fibra Côco / Fibra Côcos Tecido 5 mm s Tecido 15,8 11,1 15,3 15,3 17,3 15,8 20,1 20,1 16,4 17,3 15,4 16,5 15,7 15,3 15,2 15,7 15,8 11,1 13,4 13,4 17,3 15,8 20,1 20,1 15,8 15,5 14,5 14,8 15,7 15,3 15,2 15,7 5.5. PROCEDIMENTO DE ENSAIO EM CAMPO Conforme citado anteriormente, os ensaios em campo foram realizados com o intuito de se realizar estudo comparativo de sete tipos de assentos sob condições de verão com sistema de ar condicionado ligado. 5.5.1 – Detalhamento do procedimento de ensaio Os ensaios foram realizados em sete dias, sendo que em cada dia foi feito o teste para um tipo de assento. Para todos os sete ensaios foram seguidos os seguintes procedimentos: 62 a) No período da manhã o veículo foi deixado sob o sol por volta de duas horas com os vidros fechados. Sensores de temperatura eram previamente instalados no interior do veículo e as medidas de temperatura do ar eram monitoradas. Nesse intervalo de tempo também eram feitas medidas de temperatura externa do ar (sensor PTC), umidade externa do ar (sensor capacitivo), temperatura da superfície externa do veículo. Ao final desse tempo o manequim era colocado dentro do veículo na posição do passageiro ao lado do motorista (Fig. 5.10). Em seguida o sistema de ar condicionado do veículo era ligado e iniciava-se a aquisição de dados com os vidros fechados e o veículo sob o sol. b) A aquisição de dados era iniciada por volta das 12h00min e encerrada após 90 minutos de aquisição às 13h30min. Figura 510 Disposição do manequim dentro do veículo c) Neste intervalo eram feitas medições das condições externas ao veículo. Os parâmetros medidos foram: Temperatura do ar (Tar), Umidade Relativa do Ar (UR), Temperatura de Bulbo Úmido (TBU), Umidade absoluta do ar (ω) e Temperatura superficial do veículo (Tsup) em três locais: na lateral do veículo, no teto do veículo e nos vidros laterais do veículo. d) Posteriormente, foram medidos alguns parâmetros do ambiente interno do veículo: Umidade Relativa do Ar (UR), Temperatura de Bulbo Úmido (TBU), Umidade absoluta do ar (ω), Temperatura de insuflação do ar (Tin) e Velocidade de insuflação do ar (Vin). 63 Os sensores utilizados para a aquisição de dados referentes à temperatura interna do veículo foram colocados em quatro níveis: (1) na altura dos pés do manequim (Fig 5.11), (2) na altura do peito do manequim (Fig 5.12), (3) na altura do teto do veículo (Fig 5.13), (4) no painel do veículo (Fig. 5.14). Figura 5.11 Disposição do sensor de temperatura na altura dos pés. Figura 5.12 Disposição do sensor de temperatura na altura do peito. 64 Figura 5.13 Disposição do sensor de temperatura na altura do teto. Figura 5.14 Disposição do sensor de temperatura no painel. O sistema de aquisição de dados foi colocado no banco de trás do veículo (Fig. 5.15) e foi alimentado utilizando a bateria do automóvel. Figura 5.15 Posicionamento do sistema de aquisição de dados no veículo. 65 CAPÍTULO 6 RESULTADOS DOS ENSAIOS E ANÁLISE DOS RESULTADOS Neste capítulo são apresentados os resultados dos ensaios para os sete tipos de assentos avaliados. Inicialmente, são apresentados os resultados de medição dos parâmetros que caracterizam o ambiente tanto interno como externo e os valores medidos de temperatura superficial do veículo em cada ensaio. Posteriormente, são apresentados os resultados de temperaturas superficiais do manequim e dos assentos e das temperaturas equivalentes para cada segmento de interesse de cada ensaio realizado. 6.1 CONDIÇÕES DE ENSAIO 6.1.1 Características do ambiente interno do veículo A regulagem do sistema de controle de temperatura foi colocada no frio máximo com recirculação de ar, o ventilador na velocidade 2 com o fluxo de ar dirigido para os difusores do painel e pés. Uma vez regulado o sistema de controle do sistema de climatização do veículo este não era mais alterado durante todo o ensaio. As temperaturas do ar no interior do veículo para todos os testes são apresentadas nas figuras 6.1 a 6.7, sendo que cada figura representa a temperatura interna do respectivo ensaio. Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 Temperatura (ºC) 55,0 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.1 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento de espuma/vinil. 66 Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 Temperatura (ºC) 55,0 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.2 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento de espuma/couro. Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 55,0 Temperatura (ºC) 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.3 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento de espuma sem revestimento. 67 Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 Temperatura (ºC) 55,0 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.4 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento de espuma/tecido 5mm. Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 55,0 Temperatura (ºC) 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.5 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento de fibra de côco sem revestimento. 68 Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 55,0 Temperatura (ºC) 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.6 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento de fibra de côco/tecido 5 mm Temperaturas do ar no interior do veiculo Altura do pés Altura do peito Altura da cabeça Painel 60,0 55,0 Temperatura (ºC) 50,0 45,0 40,0 35,0 30,0 25,0 20,0 0 5 10 15 20 25 30 35 40 45 50 55 60 65 70 75 80 85 Tempo (min) Figura 6.7 Temperaturas do ar para o ensaio com o assento espuma/tecido 10 mm. Na tabela 6.1 é apresentado um quadro resumo com as principais características monitoradas do ar no interior do veículo, tais como: temperatura de bulbo seco – TBS (0 C), umidade relativa- UR (%),umidade absoluta – ω(gvapor d’água/kgar seco), velocidade de insuflamento do ar frio - Vin (m/s) e temperatura do ar insuflado- Tin (0 C) de cada ensaio. 69 Tabela 6.1 Parâmetros medidos no interior do veículo. ω (gvapor d’água/kgar seco) Vin (m/s) UR (%) TBS (ºC) Espuma/vinil 30,0 32,0 10,4 2,3 13,0 Espuma/couro 40,0 28,0 10,5 2,3 13,0 42,0 27,0 10,8 2,3 13,0 36,0 29,0 10,4 2,3 13,0 35,0 29,0 10,3 2,3 13,0 38,0 28,0 10,3 2,3 13,0 45,0 25,5 10,2 2,3 13,0 Tipo de Tin (ºC) Assento Espuma sem revestimento Espuma com tecido 5 mm Fibra de côco s/ revestimento Fibra de côco tecido 5 mm Espuma com tecido 10 mm Na figura 6.8 são apresentados os valores das temperaturas do ar no interior do veículo para todos os ensaios em diferentes alturas: testa, peito, painel e pés. Esses valores são representativos do período em que as condições internas do veículo se tornaram mais próximas do “regime permanente”, isto é, após o manequim atingir o equilíbrio térmico com o ambiente, condição de ensaio conforme norma ISO 14505-2:2004. Os valores apresentados para cada ensaio são aqueles da média aritmética dos valores coletados ao longo desse período. Estes valores serão utilizados como referências comparativas das condições entre os ensaios. Na figura 6.9 são apresentadas as temperaturas do ar no interior do veículo na altura do peito, que é a região de maior interesse no estudo devido a sua maior influência na zona de contato do manequim com os assentos. 6.1.2 Características do ambiente externo Na tabela 6.2 são apresentadas algumas características do ar no ambiente externo e valores medidos para temperatura superficial do veículo em três locais: na lateral, no teto e nos vidros laterais do veículo. 70 44 42 40 38 36 Espuma /Tecido 10 Espuma / Couro Espuma / Vinil Espuma / Tecido 5 T (ºC) 34 32 30 28 26 24 Espuma sem Tecido Fibra Côco / Tecido 5 Altura dos Pés Altura do Peito Painel Altura da Cabeça Fibra Côco semTecido Figura 6.8 Valores das temperaturas do ar no interior do veículo. Temperatura do Ar - Região Peito T (0C) 35,0 33,0 31,0 29,0 27,0 25,0 23,0 21,0 19,0 17,0 ecid o ido 5 Fibra Côco sem T / Te c Côco Fibra Espu ma s em T ecid o Espu ma / Tecid o5 inil a/V Espu m ouro Espu ma / C Espu ma /T ecid o 10 15,0 Figura 6.9 Valores das temperaturas do ar na altura do peito. 6.2 RESULTADOS DOS TESTES Sabendo-se que a radiação solar é uma das mais importantes fontes de calor no compartimento do veículo, o procedimento de ensaio incluiu, inicialmente, exposição ao sol do veículo por uma hora antes da inclusão do manequim. Para analisar o comportamento de cada amostra relativo ao calor absorvido após uma hora de exposição no período do dia de maior insolação, testes preliminares foram executados com os assentos sob radiação solar direta e também na sombra. Os resultados de temperatura superficial, medida com termômetro de mira laser, são apresentados na figura 6.10. 71 Tabela 6.2 Parâmetros medidos no exterior do veículo TBS UR ω (gvapor (ºC) (%) d’água/kgar seco) Espuma/vinil 31,0 51,6 15,8 51,6 52,0 53,9 Espuma/couro 30,0 68,0 18,0 41,2 37,9 49,5 32,0 65,0 19,0 42,6 37,7 53,3 32,4 56,0 15,8 41,7 38,5 51,4 32,3 49,0 15,2 49,5 43,9 56,2 31,0 54,4 15,0 45,8 40,4 51,6 31,5 52,0 15,5 40,7 40,2 52,7 Tipo de Tsup Tsup lateral (ºC) vidro (ºC) Tsup teto (ºC) assento Espuma sem revestimento Espuma com tecido 5 mm Fibra de côco s/ revestimento Fibra de côco tecido 5 mm Espuma com tecido 10 mm Temperatura Superficial do Assento 70 60 50 Temperatura (0 C) ESPUMA SEM TECIDO ESPUMA / TECIDO 5 mm ESPUMA / TECIDO 10 mm ESPUMA + VINIL ESPUMA + COURO FIBRA CÔCO SEM TECIDO FIBRA CÔCO + TECIDO 5 mm 40 30 20 10 0 SOL SOMBRA Encosto SOL SOMBRA Almofada Figura 6.10 Valores das temperaturas superficiais de assentos após exposição de 1 hora ao sol e na sombra. 72 Considerando que o objetivo do presente trabalho é o de se comparar a influência do tipo de material do assento nas condições de conforto térmico (função de suas respectivas características térmicas), o principal parâmetro a ser medido durante o ensaio foi o valor da temperatura superficial do manequim nas regiões em contato com o assento. O manequim utilizado possui seis sensores em contato com o assento, os quais são fixados: dois nas coxas na parte posterior, dois nas costas e dois nas nádegas. A figura 6.11 apresenta os valores encontrados da temperatura superficial para cada uma das seis partes em contato com os assentos ensaiados. 50 T (ºC) 48 46 44 42 Espuma /Tecido 10 Espuma / Couro Espuma / Vinil Espuma / Tecido 5 Fibra Côco / Tecido 5 Coxa Traseira D Nadega E Nádega D Costas E Costas D Fibra Côco semTecido Coxa Traseira E 40 38 36 34 32 30 Espuma sem Tecido Figura 6.11 Valores das temperaturas superficiais do manequim nas regiões em contato com o assento. 6.3 CONDIÇÕES DE CONFORTO TÉRMICO Uma vez obtidas as temperaturas superficiais nas zonas de contato, Tsk (apresentadas na figura 6.11) e os fluxos de calor Q& durante os ensaios, foram determinadas as temperaturas equivalentes, EHT, para análise de condições de conforto térmico através da equação 3.3 modificada (capítulo 3), utilizando os coeficientes de transferência de calor calibrados, hcal, obtidos através da equação 3.4, na equação a seguir: t eq = Ts − Q& hcal (5.1) 73 Os valores dos fluxos de calor foram mantidos o mais próximo possível de 90 W/m2 com variações máximas de 2 W/m2. Estas variações, contudo, não tiveram influência significativa nos resultados, conforme pode ser verificado pela análise da Equação 5.1. Com o propósito de evidenciar a influência de diferentes materiais utilizados na confecção dos assentos no conforto térmico dos usuários de automóveis, foi executado o cálculo das temperaturas equivalentes segmentadas, utilizando os coeficientes calibrados (hcal) obtidos em ensaio em câmara climatizada para o assento sem revestimento (apresentados no capítulo 5). Os resultados de temperaturas equivalentes obtidos são apresentados em diagrama de sensação térmica na figura 6.12. Figura 6.12 Temperaturas equivalentes dos segmentos das superfícies de contato entre o manequim e o assento para as diferentes amostras em diagrama de sensação térmica (ISO 14505-2:2004). O diagrama de sensação térmica (Fig. 6.12) apresenta as temperaturas equivalentes (EHT) para todos os segmentos do manequim que permanecem em contato com o assento. O diagrama apresenta áreas de sensação térmica diferenciadas por coloração, conforme ISO 14505:2 (2004), onde: muito frio (azul escuro), frio moderado (azul claro), neutra (branco), quente moderado (amarelo) e muito quente (vermelho). Para facilitar a visualização, os resultados são reapresentados na Figura 6.13 sem a inclusão das cores relativas às sensações térmicas. 74 EHT (ºC) 50 Espuma/ Tecido10mm Espuma/ Couro Espuma / Vinil 40 Espuma / Tecido 5 mm Espuma s/Tecido 30 Fibra Côco / Tecido 5 mm Fibra Côcos s Tecido 20 Coxa Traseira E Coxa Traseira D Nadega E Nádega D Costas E Costas D 10 Figura 6.13 Temperaturas equivalentes dos segmentos das superfícies de contato entre o manequim e o assento para as diferentes amostras (idem Fig. 6.12 sem coloração). 6.4 ANÁLISE DOS RESULTADOS 6.4.1 Condições de ensaio Verifica-se pela análise dos dados levantados que os resultados finais foram bastante impactados pelas condições ambientais verificadas quando da realização dos ensaios. Embora tivesse havido o cuidado de consultas regulares executadas em diversos sites de previsão metereológica, a precisão das previsões ficou aquém da necessidade deste estudo. Assim, para auxiliar na análise, uma matriz de causa efeito foi utilizada para classificar qualitativamente as condições ambientais de cada ensaio em três categorias: severo, ameno e intermediário. O procedimento usado foi constituir classes para valores de temperaturas externas das superfícies do vidro, do teto, da lateral e do ar, como também para a temperatura interna do ar na altura do peito. Para cada classe foi atribuída uma nota de acordo com a tabela 6.3 e foi atribuído um peso relativo para estas variáveis em função do impacto nos resultados dos ensaios. O produto do peso relativo com a nota, conforme apresentado na tabela 6.4, permitiu classificar as condições de cada ensaio como: ! ! Condições Severas ! Espumas/vinil ! Fibra de coco sem revestimento Condições Intermediárias 75 ! ! Espumas sem revestimento ! Espumas com tecidos de acoplagem 5 mm ! Fibra de coco com tecidos de acoplagem 5 mm Condições Amenas ! Espuma com tecido de acoplagem 10 mm ! Espuma com couro Tabela 6.3 Classes para atribuição de notas para as temperaturas do ensaio 2 4 NOTAS 6 8 10 36,1-----40 40,1-----44 44,1-----48 48,1-----52 52,2-----56 25,0-----26,5 26,6-----28,0 28,1-----29,5 29,6-----31,0 31,1-----32,5 39,1-----42 42,1-----45 45,1-----48 48,1-----51 51,1-----54 48,1-----50 50,1-----52 52,1-----54 54,1-----56 56,1-----58 29,1-----30 30,1-----31 31,1-----32 32,1-----33 33,1-----34 0 Temperatura C Superficial do Vidro Ar na Região do Peito Lateral do Veículo Teto do Veiculo Ar Externo Tabela 6.4 Matriz de causa-efeito – Classificação das condições ambientais de cada teste CONDIÇOES DOS TESTES Superficial do Vidro Ar na Região do Peito Lateral do Veículo Teto do Veiculo Ar Externo Somatória do Efeito X Peso Peso Relativo 10 8 6 6 4 Espuma Espuma sem Tecido Tecido 5 20 48 24 36 24 20 64 12 24 32 152 152 Condições Amenas Espuma Tecido 10 Espuma couro Espuma Vinil PRODUTO DO PESO E NOTA 40 20 80 16 64 80 12 12 60 36 12 36 24 8 16 128 116 Condições Intermediárias 272 Fibra Côco Fibra Côco sem Tecido Tecido 5 40 64 48 60 32 40 64 36 24 16 244 180 Condições Severas 76 6.4.2 Ensaios realizados O assento com tecido e acoplamento de espuma de 10 mm apresenta duas desvantagens em termos de conforto térmico: a primeira é a elevada absorção de calor pela cor cinza escuro (absortância) e a segunda é o isolamento promovido pela espessura da acoplagem, com a temperatura superficial máxima do assento com este revestimento atingindo valores elevados chegando a superar ao couro e vinil, conforme pode ser verificado na figura 6.10. Contudo os revestimentos de couro e vinil apresentam temperaturas máximas superficiais mais severas nas almofadas ao sol e na sombra, figura 6.10, o que intuitivamente é esperado. A explicação para esta diferença de comportamento entre encosto e almofada expostos ao sol é o ângulo de incidência da radiação. Na mesma figura 6.10, pode ser observado o comportamento da espuma sem revestimento que apresenta temperaturas superficiais praticamente iguais, tanto com exposição ao sol quanto na sombra. Este efeito está ligado à absortância (cor branca) apresentando baixo índice de absorção de calor. Em todos os materiais utilizados a temperatura equivalente segmentada da região das coxas traseiras quando plotada no diagrama de sensação térmica, ISO 14505-2:2004, figura 6.12, encontra-se na zona muito quente, fora do conforto térmico ou da neutralidade térmica, causando o stress devido ao calor, gerando transpiração ao usuário. Na figura 6.12, é observado que, com exceção do vinil, praticamente todos os materiais propiciam temperaturas equivalentes dentro ou abaixo da zona de sensação térmica “quente”, nas regiões das costas e nas nádegas do lado direito. Em particular, a utilização de espuma com revestimento de tecido com as duas opções de espessura de acoplamento atinge a zona “neutra” nas costas esquerda e nádegas direita. A zona das costas direita e nádega esquerda estão sendo impactadas por radiação solar através dos vidros lateral e frontal. O couro e o vinil propiciam qualitativamente as piores condições de conforto térmico ao passageiro, uma vez que o vinil foi testado na condição mais severa e o couro na condição mais amena, tabela 6.4, e ambos apresentam temperaturas equivalentes (EHT) em todos os segmentos nos níveis mais elevados, figuras 6.12 e 6.13. Permanecendo na zona de sensação térmica “muito quente” que causará o stress devido ao calor, gerando transpiração ao usuário. Uma comparação entre os mesmos não pode ser executada devido à severa condição ambiental imposta ao vinil. 77 Os assentos confeccionados com espuma e fibra de coco revestidos com tecidos acoplados com espuma de 5 mm apresentam comportamento semelhante quanto a propiciar condições de conforto, pois em condições ambientais equivalentes (ambientes intermediários), tabela 6.4, apresentam temperaturas equivalentes (EHT) em patamares muito próximos na maioria das regiões de contato das coxas e costas, figuras 6.12 e 6.13. A comparação entre estes componentes sem revestimentos fica inviabilizada devido às condições do ambiente do ensaio da fibra de coco ter sido muito mais severa. 78 CAPÍTULO 7 CONCLUSÕES Na avaliação experimental realizada neste trabalho foi utilizada metodologia recomendada na norma ISO 14505-2:2004, de análise de condições de conforto térmico por meio da utilização de manequim com sensores aquecidos, a fim de comparar a influência de diferentes tipos de materiais utilizados na confecção de assentos automotivos no conforto térmico dos passageiros. Os resultados obtidos na determinação de temperaturas equivalentes (EHT) e na utilização de diagrama de sensação térmica permitem concluir que esta metodologia é capaz de captar o impacto de pequenas variações nas condições ambientais, tanto do ambiente interno quanto do externo, no conforto térmico dos passageiros A metodologia de análise prevista na norma ISO 14505-2:2004 prevê condições de regime permanente para a sua utilização, isto é, condições em que o manequim atinge o equilíbrio térmico com o ambiente. No presente trabalho os ensaios não foram realizados em condições controladas (câmaras climatizadas) e, portanto, condições de regime permanente não foram atingidas. Contudo, foi possível obter condições estáveis de troca de calor no ambiente quando da realização das medições (figuras 6.1 a 6.7), o que permitiu utilizar a metodologia na realização de estudo comparativo de interesse no presente trabalho. Ademais, o desenvolvimento de ensaios em condições mais próximas da condição real a que os passageiros estão submetidos em veículos automotivos permite obter resultados em condições em que o desconforto térmico é mais crítico. Acrescente-se que isto ocorre em 85% da utilização de veículos de passeio, que envolvem percurso médio menor que 18 km e com duração de 15 a 30 minutos (Cisternino, 1999). Os ensaios realizados em condições de verão sob insolação ao redor de 800 W/m2 permitiram realizar uma análise qualitativa da influência dos materiais no conforto térmico. Verificou-se que o couro e o vinil promovem desconforto (temperatura equivalente na zona “muito quente” no digrama de sensação térmica) na maior parte das regiões de contato, independentemente das condições do ambiente. Por outro lado, os tecidos propiciaram as melhores condições de conforto, independentemente da espessura de acoplagem e da utilização de espuma ou fibra de coco, sendo que em algumas regiões as temperaturas equivalentes atingiram a zona “neutra” no diagrama de sensação térmica. Deve ser ressaltado que tecidos com maior espessura de acoplagem de espuma elevam 79 demasiadamente a temperatura superficial intensificando o desconforto térmico localizado em percursos curtos (menores que 30 minutos). Uma solução para melhorar as condições de conforto térmico dos assentos seria a utilização de assentos ventilados e/ou com resfriamento. O problema é o custo-benefício deste acessório, pois apesar do tempo de resposta ser muito melhor que o assento simples, exige o cuidado do motorista de ligar o veículo alguns minutos antes de sua utilização (assim como também ocorre nos assentos com aquecimento em condições climáticas extremamente frias). Adicionalmente, tem a questão do custo bastante elevado dos assentos ventilados. É importante ressaltar que existe uma grande dificuldade de se conseguir condições externas iguais ao longo dos ensaios. Foram necessários 15 dias para realização de sete ensaios devido à imprecisão das previsões metereológicas. Assim, deve-se buscar alternativas para minimizar a interferência do ambiente externo/interno nos resultados permitindo uma análise estatística da influência dos materiais no conforto térmico. Considerando que no presente trabalho as “variáveis controláveis” foram monitoradas (uso de um único veículo, sempre o mesmo horário de teste, sempre a mesma posição do veículo em relação ao sol, etc.), sugere-se então, replicar os ensaios em diversos dias ou buscar condições externas semelhantes numa câmara climática que permita simular dias de verão com máxima insolação e em condições as mais próximas possíveis de condições reais de tráfego. Em ambos os casos o fator custo não pode ser desprezado. Uma proposta alternativa poderia ter sido a comparação entre duas amostras somente com 3 replicações, já que não há conhecimento da existência de uma câmara climatizada disponível no Brasil que satisfaça aos requisitos já mencionados. Sugestões para os próximos trabalhos seriam o estudo da influência de materiais dois a dois, com no mínimo três replicações, para inferir estatisticamente sobre a influência destes materiais no conforto térmico e também avaliar quais dos parâmetros causam maior desconforto térmico local utilização. na utilização de veículos nos 30 primeiros minutos de 80 CAPÍTULO 8 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ASHRAE 55 (2004). Thermal Environmental Conditions for Human Occupancy, (ANSI/ASHRAE 55), American Society of Heating, Refrigerating and Air Conditioning Engineers, New York. ÁVILA, J. A. (2002). Ar condicionado automotivo: Caracterização e avanços tecnológicos. Trabalho de conclusão de curso. 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