Universidade Federal de Juiz de Fora
André Desiderio Maldonado
Integral de Lebesgue, Espaços de Sobolev
e Aplicações
Juiz de Fora
2013
André Desiderio Maldonado
Integral de Lebesgue, Espaços de Sobolev
e Aplicações
Trabalho de Conclusão de Curso apresentada
ao Departamento de Matemática da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para a obtenção do Grau Bacharel em Matemática
Orientador: Luiz Fernando de Oliveira Faria
Juiz de Fora
2013
Maldonado, André Desiderio
Integral de Lebesgue, Espaços de Sobolev e Aplicações / André
Desiderio Maldonado. -2013.
76 f. : il.
Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Matemática) - Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2013.
1. Matemática. 2. Equações Diferenciais. 3. Integral de
Lebesgue. 4. Espaços de Sobolev. 5. Métodos Variacionais. I.
Título.
À minha mãe, que sempre me apoiou e me incentivou nos estudos.
Até mesmo a maior das caminhadas começa com um primeiro Passo.
Gandhi
AGRADECIMENTOS
Ao meu orientador Luiz Fernando por todo suporte, apoio e principalmente paciência. Gostaria de agradecer também ao professor Wilson Oliveira, meu orientador dos
tempos em que cursava Física.
Aos meus professores acadêmicos tanto da graduação como do mestrado com atenção especial para Bernhard, Jens e José Luiz do Departamento de Física da UFJF;
Fabio, Flaviana, Sergio e Olimpio do Departamento de Matemática da UFJF e André
da Faculdade de Engenharia Elétrica. Me ensinaram lições importantes, que não se
encontram em livros e que vou levar para o resto da vida.
À Aline, minha namorada e companheira, pela paciência e compreensão e principalmente por todo o amor que recebi.
À minha família como um todo, com atenção especial para os meus avós Marco e
Célia por todo o amor que me dedicam, e ao meu Tio Marco pela atenção.
Aos meus amigos Paulo, Wilker, Raony, Alcides e Daniel, companheiros de república; à Rodrigo, Sebastião, Pedrosa, Alexandre e Tassio, companheiros de curso; Felipe,
Nicolai, Gadelha e Raul, amigos de escola; juntamente com todos os outros colegas de
mestrado.
A todos que me apoiaram nos últimos tempos com atenção especial para meus
colegas de trabalho Nelson, Roney, Sandra, Lonardo, Vitor, Laércio, Lucy e Tatiana.
À Universidade Federal de Juiz de Fora e ao Departamento de Matemática.
À FAPEMIG pelo suporte financeiro.
RESUMO
Neste trabalho fazemos uma introdução da Teoria da Integração de Lebesgue na reta
real. Após uma exposição sistemática dos principais fatos da teoria, fazemos uma
aplicação no estudo das equações diferenciais utilizando os espaços de Sobolev.
Palavras-chave: Integral de Lebesgue, Equações Diferenciais, Métodos Variacionais,
Espaços de Sobolev
ABSTRACT
In this work we present an introduction to the Lebesgue Theory of Integration on
real line. After systematic exposition of the main results, we show an application in
the study of the Differencial Equations using the Sobolev Spaces.
Keywords: Lebesgue Integral, Differential Equations, Sobolev Spaces, Variational
Techniques
LISTA DE SÍMBOLOS
πΈ*
espaço dual de πΈ
π(πΈ,πΈ * )
topologia fraca definida em πΈ
β
convergência forte
β
convergência fraca
q.t.p.
quase todo ponto
R
Conjunto dos Números Reais
πΌβR
intervalo aberto
π΅(π₯; π)
Bola aberta de raio π e centro π₯ no espaço normado πΈ
dada por {π§ β πΈ; βπ§ β π₯βπΈ < π}
π(π₯; π)
Esfera de raio π e centro π₯ no espaço normado πΈ
dada por {π§ β πΈ; βπ§ β π₯βπΈ = π}
suppπ
indica o suporte da função π
πΏπ (πΌ)
espaço das funções Lebesgue-mensuráveis π’ : πΌ β R
(οΈβ«οΈ
)οΈ 1
com norma-πΏπ finita |π’|π = πΌ |π’|π ππ₯ π ,1 β€ π < β
πΏβ (πΌ)
espaço das funções Lebesgue-mensuráveis e essencialmente
limitadas π’ : πΌ β R com norma-πΏβ βπ’βπΏβ = supπ₯βπΌ |π’(π₯)|
πΆ π (πΌ)
funções π vezes continuamente diferenciáveis emπΌ
πΆ0π (πΌ)
πΆ β (πΌ)
conjunto das funções πΆ π (πΌ) com π’ = 0 em ππΌ, (π β₯ 0)
βοΈ
π
πβ₯0 πΆ (πΌ)
π 1,π (πΌ)
Espaço de Sobolev com norma
1
βπ’βπ 1,π = (βπ’βπΏπ + βπ’β² βπΏπ ) π
π π,π (πΌ)
Espaço de Sobolev definido indutivamente como
π π+1,π (πΌ) = {π’ β πΏπ (πΌ); π’β² β π π,π (πΌ)}
π» π (πΌ; R)
Espaço de Sobolev π π,2 (πΌ) com produto interno
β«οΈ
β«οΈ
β«οΈ
β«οΈ
< π’; π£ >π» π = πΌ π’π£ππ₯ + πΌ π’β² π£ β² ππ₯ + πΌ π’β²β² π£ β²β² ππ₯ + · · · + πΌ π’(π) π£ (π) ππ₯
|π₯|
Valor absoluto de π₯ ou medida de Lebesgue do conjunto π₯
Sumário
1 Integral de Lebesgue
14
1.1
π β πππππππ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
14
1.2
Funções Mensuráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
17
1.3
Medida
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
21
1.4
A Integral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
25
1.5
Funções Integráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
33
2 Espaços πΏπ
2.1
Os espaços Lπ . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
3 Aplicação: Um problema de contorno linear
3.1
Um Problema de Contorno Linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Elementos de Análise Funcional
39
43
49
49
62
A.1 Espaços Normados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
62
A.2 Espaços com Produto Interno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
63
A.3 Espaços Topológicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
64
A.4 Compacidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
65
A.5 Funções Contínuas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
66
B Espaços de Sobolev
69
B.1 Espaços de Sobolev π 1,π (πΌ) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
69
B.2 Propriedades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
70
B.3 O espaço H10 [π,π] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
70
C Funcionais Diferenciáveis
C.1 Definições Básicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
D Propriedades da Topologia Fraca
D.1 Propriedades básicas da convergência fraca . . . . . . . . . . . . . . . . .
Referências Bibliográficas
72
72
74
74
76
Introdução
A teoria da integração teve suas raizes no "método de exaustão", inventado por Eudoxos
e posteriormente desenvolvido por Arquimedes para calcular áreas e volumes de figuras
geométricas.
Nos Séculos XVII e XVIII, os trabalhos de Newton e Leibniz permitiram que este
método se transformasse em uma ferramenta sistemática para calcular áreas, volumes
e resolver problemas elementares de mecânica. Com o desenvolvimento da teoria do
integral, a aplicação em geometria e à mecânica perdeu sua importância, dando lugar a
questões mais analíticas para as quais a chamada "Teoria Clássica"não era suficiente.
Nos dias atuais matemáticos estão interessados no estudo da Teoria da Integracão
aplicada em convergência de séries, equações diferenciais ou probabilidade. Para tal
estudo, a Teoria Clássica da Integral, que culminou com a Integral de Riemann, foi
substituida pelos trabalhos pioneiros de Henri Lebesgue, publicados no início do século
XX. A razão desta mudança é simples: Os teoremas de convergência da Teoria da
Integral de Lebesgue são mais gerais, mais completos e mais elegantes que os da Teoria
da Integral de Riemann.
Neste trabalho fazemos uma exposicão básica da Teoria da Integral de Lebesgue na
reta real. Ao final apresentamos uma aplicação da teoria demonstrando a existência de
solução para um problema envolvendo equações diferenciais.
Capítulo 1
Integral de Lebesgue
Neste capítulo vamos fazer a construção da Integral de Lebesgue de funções reais definidas em subconjuntos da reta real. Para isto nós vamos definir uma estrutura chamada
de π β πππππππ em um conjunto arbitrário π e, através dessa estrutura, nós vamos
definir o que seriam os espaços mensuráveis e, sobre estes espaços, vamos definir o que
seriam as funções mensuráveis. Após isso, vamos definir um tipo especial de função
chamado de medida e, a partir daí, iremos construir o conceito de Integral de Lebesgue.
1.1
π β πππππππ
No desenvolvimento da integral de Lebesgue a nossa atenção está voltada para uma
classe de funções reais definidas em um conjunto π não vazio. Como o desenvolvimento
da teoria não depende do conjunto em questão, nós não iremos fazer qualquer hipótese
adicional sobre este conjunto.
Dado um conjunto π ΜΈ= β
, nós vamos considerar um subconjunto π de P(π) que é
"bem comportado"num sentido técnico, isto é, vamos assumir que π é uma π β πππππππ.
Definição 1 (π β πππππππ). Uma família π de subconjuntos de um conjunto π é chamada de π β πππππππ se satisfaz as seguintes condições:
1.1. π β πππππππ
15
i. β
, π β π.
ii. π΄ β π β π΄π = π β π΄ β π.
iii. Se (π΄π )πβN é uma sequência de conjuntos em π então
βοΈ
π΄π β π.
πβN
Observação 1. É imediato que dado um conjunto π, o conjunto de suas partes P(π),
assim como o conjunto {β
, π} são π β ππππππππ de π, sendo respectivamente a maior
e a menor das π β ππππππππ de π.
Observação 2. Utilizando as relações de De Morgan, obtemos que
(οΈ
)οΈπ
βοΈ
βοΈ
i.
π΄πΌ =
π΄ππΌ
πΌβπΏ
πΌβπΏ
)οΈπ
(οΈ
ii.
βοΈ
π΄πΌ
πΌβπΏ
=
βοΈ
π΄ππΌ
πΌβπΏ
Assim, dada uma(οΈsequência
)οΈπ(π΄π )πβN em uma π β πππππππ π de um conjunto π, a
βοΈ
βοΈ
interseção
π΄π =
π΄ππ
também é um elemento de π
πβN
πβN
Exemplo 1. Sejam π1 e π2 π β ππππππππ de um conjunto π. Então π3 = π1 β© π2
também é uma π β πππππππ. Com efeito, vamos verificar cada uma das condições.
i. Como π1 é π β πππππππ temos que β
, π β π1 . Analogamente temos que β
, π β π2 .
Logo, temos que β
, π β π3 .
ii. Seja π΄ β π3 . Temos então que π΄ β π1 e como π1 é π β πππππππ temos que π΄π β π1 .
Analogamente obtemos que π΄π β π2 e portanto π΄π β π3 .
iii. Seja (π΄π )πβN uma sequência de conjuntos em π3 . Temos que (π΄π )πβN β π1 e como
βοΈ
βοΈ
este é π β πππππππ segue que
π΄π β π1 . Analogamente temos que
π΄π β π2 e
πβN
consequentemente
βοΈ
πβN
π΄π β π3 .
πβN
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
16
Mostramos portando que π3 é uma π β πππππππ.
Observação 3. Fizemos a demontração do Exemplo 1 utilizando a interseção de dois
conjuntos para exibir a ideia chave. Obviamente o resultado continua sendo válido para
uma coleção qualquer de π β ππππππππ , isto é, se (ππΌ )πΌβπΏ são π β ππππππππ de um
βοΈ
conjunto π então
ππΌ é uma π β πππππππ do conjunto π.
πΌβπΏ
Exemplo 2. Dada uma colecão não vazia π΄ de subconjuntos de um conjunto π, existe
a menor π β πππππππ de π que contém π΄, denotada por π(π΄) e chamada de π β πππππππ
gerada por π΄, no seguinte sentido:
β’ Se π é alguma π β πππππππ que contém π΄, então π(π΄) β π.
Com efeito, defina
π(π΄) =
βοΈ
ππΌ
πΌβπΏ
onde (ππΌ )πΌβπΏ são todas as π β ππππππππ de π que contém A. Observe que como P(π)
é uma π β πππππππ de π que contém π΄ então π(π΄) está bem definida e além disso,
utilizando a Observação 3 concluímos que π(π΄) é uma π β πππππππ. Segue da definição
de π(π΄) que se π é alguma π β πππππππ que contém π΄ então π(π΄) β π.
Exemplo 3. Considere que π = R. A π β πππππππ de Borel B é a π β πππππππ de R
gerada pelos intervalos abertos. Neste caso, um elemento π΄ β B é chamado de conjunto
de Borel ou boreliano.
Observação 4. Note que a π β πππππππ de Borel B também pode ser definida como
sendo a π β πππππππ gerada pelos intervalos fechados de R.
Definição 2. Um espaço mensurável é um par (π, π) onde π é um conjunto qualquer e
π é uma π β πππππππ de π. Além disso, os elementos de π serão chamados de conjuntos
πβmensuráveis, ou, quando a π β πππππππ estiver implícita, serão chamados apenas de
mensuráveis.
1.2. Funções Mensuráveis
1.2
17
Funções Mensuráveis
No que segue, π = (π,π) denota um espaço mensurável.
Definição 3. Uma função π : π ββ R é πβ mensurável se, para cada πΌ β R, o
conjunto
{π₯ β π; π (π₯) > πΌ}
está em π, ou seja , é mensurável.
Observação 5. Quando não houver risco de confusão a função será chamada apenas
de mensurável.
Observação 6. Se π΄ = {π₯ β π; π (π₯) > πΌ} β π então π΅ = {π₯ β π; π (π₯) β€ πΌ} β π
pois π é π β πππππππ. Além disso, segue imediatamente das propriedades de π β πππππππ
que πΆ = {π₯ β π; π (π₯) < πΌ} β π e π· = {π₯ β π; π (π₯) β₯ πΌ} β π. Por outro lado, se
supomos que πΆ = {π₯ β π; π (π₯) < πΌ} β π, concluímos que π΄,π΅,π· β π. Portanto, na
definição de função mensurável poderíamos utilizar qualquer um dos conjuntos π΄,π΅,πΆ
e π·.
Exemplo 4. Toda função π : π ββ R constante é mensurável. Com efeito,
se π (π₯) = π βπ₯ β π temos que
{π₯ β π; π (π₯) > πΌ} =
β§
βͺ
β¨ π se πΌ < π;
βͺ
β© β
se πΌ β₯ π;
sendo que estes sempre são conjuntos de qualquer π β πππππππ de π.
Exemplo 5. Seja πΈ β π um conjunto mensurável. A função característica
ππΈ : π ββ R definida por
ππΈ (π₯) =
β§
βͺ
β¨ 1 se π₯ β πΈ
βͺ
β© 0 se π₯ β
/πΈ
(1.1)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
18
é mensurável.
Com efeito, temos que
β’ {π₯ β π; π (π₯) > πΌ} = β
se πΌ β₯ 1 e β
β π.
β’ {π₯ β π; π (π₯) > πΌ} = πΈ se 0 β€ πΌ < 1 e πΈ β π.
β’ {π₯ β π; π (π₯) > πΌ} = π se πΌ < 0 e π β π.
Segue que ππΈ é mensurável.
É possível mostrar que o conjunto π (π, π) das funções reais πβ mensuráveis formam um espaço vetorial com as operações usuais de soma e produto por escalar. Na
verdade é possível mostrar ainda mais, que é o que o próximo lema nos diz.
Lema 1. Sejam π,π β π (π,π) e π β R. Então as funções
i. ππ
ii. π + π
iii. π π
iv. |π |
são mensuráveis.
Para demonstração veja [1] página 9.
Exemplo 6. Seja π : π ββ R uma função. Defina as funções
β’ π + : π ββ R dada por π + (π₯) = max(π (π₯),0).
β’ π β : π ββ R dada por π β (π₯) = max(βπ (π₯),0).
As funções acima são chamadas respectivamente de parte positiva e parte negativa
de π e valem as seguintes igualdades:
1.2. Funções Mensuráveis
19
i. π = π + β π β
ii. |π | = π + + π β
Além disso, π é mensurável se e somente se π + e π β são mensuráveis. Mais ainda: π
é mensurável se e somente se |π | é mensurável. Com efeito, se π + e π β são mensuráveis
o resultado segue utilizando o Lema 1. Por outro lado, se π é mensurável então os
conjuntos πΈ + = {π₯ β π; π (π₯) > 0} e πΈ β = {π₯ β π; π (π₯) < 0} são mensuráveis e além
disso, π + (π₯) = π (π₯)ππΈ + (π₯) e π β (π₯) = π (π₯)ππΈ β (π₯). Logo, π + e π β são mensuráveis.
A última afirmação é imediata.
O próximo lema trata da convergência pontual de funções mensuráveis.
Lema 2. Seja (ππ )πβN uma sequência em π (π,π) e defina as funções
i. π (π₯) = inf ππ (π₯).
πβN
ii. πΉ (π₯) = sup ππ (π₯).
πβN
iii. π * (π₯) = lim inf ππ (π₯).
πβN
iv. πΉ * (π₯) = lim sup ππ (π₯).
πβN
Então as funções definidas acima são mensuráveis e se π * = πΉ * então lim ππ (π₯) é uma
πβN
função mensurável.
Para demonstração veja [1] página 12.
Nós já vimos que se uma sequência de funções mensuráveis converge pontualmente
para uma função π , então f é mensurável. O próximo lema nos garante que dada uma
função mensurável não negativa π β π (π,π), é possível obter uma sequência monótona
de funções mensuráveis não negativas e com imagem finita ππ tais que π (π₯) = lim ππ (π₯).
πβN
É a partir destas funções que definiremos a Integral de Lebesgue.
Lema 3. Se π é uma função não negativa em π (π,π), então existe uma sequência
(ππ )πβN em π (π,π) tal que
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
20
i. 0 β€ ππ (π₯) β€ ππ+1 (π₯) βπ₯ β π , βπ β N .
ii. π (π₯) = lim ππ (π₯) para cada π₯ β π.
πβN
iii. Cada ππ tem um número finito de elementos na sua imagem.
Demonstração. Seja π β N fixado. A ideia da demonstração é dividir a imagem da
função π em π2π conjuntos e a partir de suas pré-imagens definir a função ππ .
Com efeito, se π = 0, 1, ..., π2π β 1 defina o conjunto
πΈππ = {π₯ β π; π2βπ β€ π (π₯) < (π + 1)2βπ },
e se π = π2π defina πΈππ = {π₯ β π; π (π₯) β₯ π}.
É imediato que os conjuntos πΈππ são disjuntos e
π
π2
βοΈ
πΈππ = π. Sendo assim, defina
π=0
a função ππ da seguinte maneira:
π
ππ (π₯) =
π2
βοΈ
π2βπ ππΈππ .
(1.2)
π=0
Segue diretamente de sua definição que ππ (π₯) β₯ 0 βπ₯ β π e, pelo Lema 1, temos
que a função ππ é mensurável.
Vamos mostrar agora que a sequência de funções (ππ )πβN satisfaz as propriedades
enunciadas:
i. Claramente temos que ππ (π₯) β₯ 0 βπ₯ β π. Seja então π₯ β π arbitrário. Temos
que π₯ β πΈπ1 π para algum π1 e π₯ β πΈπ2 (π+1) para algum π2 com 2π1 β€ π2 .
Temos assim que
ππ (π₯) = π1 2βπ β€
isto é, ππ (π₯) β€ ππ+1 (π₯).
π2 βπ
2 = π2 2β(π+1) = ππ+1 (π₯),
2
1.3. Medida
21
ii. Seja π₯ β π e π > 0. Temos que existe π0 β N tal que 2βπ0 < π. Como
ππ0 (π₯) = π2βπ0 β€ π (π₯) < (π + 1)2βπ0
para algum k, segue que |π (π₯) β ππ0 (π₯)| β€ 2βπ0 < π.
iii. Segue imediatamente da definição de ππ .
O lema está, portanto, demonstrado.
1.3
Medida
Nós já introduzimos a noção de espaço mensurável (π, π), que consiste em um conjunto π e uma π β πππππππ π. Vamos agora considerar funções, chamadas de medidas,
definidas em π e tomando valores em R βͺ {+β} = RΜ. Estas funções podem ser intuitivamente interpretadas como a área, comprimento e massa. Portanto, é natural que
o seu valor seja nulo no conjunto β
e que esta seja aditiva para a união de conjuntos
disjuntos.
Definição 4 (Medida). Uma medida é uma função π definida em uma π β πππππππ π
de um conjunto π e tomando valores em R βͺ {+β} = RΜ tal que :
i. π(β
) = 0.
ii. π(πΈ) β₯ 0 βπΈ β π.
iii. Se (πΈπ )πβN β π é uma sequência de conjuntos disjuntos entre si, então
(οΈ
π
)οΈ
βοΈ
πβN
πΈπ
=
βοΈ
π(πΈπ )
(1.3)
πβN
Observação 7. Como nós permitimos que uma medida assuma o valor +β, é possível
que o lado direito da equação (1.3) seja uma série divergente. Por outro lado, se
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
22
π(πΈ) ΜΈ= +β βπΈ β π dizemos que π é finita.
Mais geralmente, se existe uma sequência (πΈπ )πβN β π tal que π(πΈπ ) ΜΈ= +β, βπ β N
βοΈ
eπ=
πΈπ , dizemos que a medida π é π β π ππππ‘π .
πβN
Exemplo 7. Seja π = R e π = π΅ a π β πππππππ de Borel. É possível mostrar que
existe uma única medida π, chamada de medida de Lebesgue, definida em π΅ tal que se
πΈ = (π,π) β π΅ então π(πΈ) = π β π. Esta medida não é finita mas é π β π ππππ‘π.
Vamos agora enunciar e provar alguns resultados que serão utilizados futuramente.
Lema 4. Seja π uma medida definida em uma π βπππππππ π. Se πΈ e πΉ pertencem a π e
πΈ β πΉ , então π(πΈ) β€ π(πΉ ). Além disso, se π(πΈ) < +β então π(πΉ βπΈ) = π(πΉ )βπ(πΈ).
Demonstração. Basta notar que πΉ = πΈ βͺ (πΉ β πΈ). Assim, π(πΉ ) = π(πΈ) + π(πΉ β πΈ) pois
πΈ e πΉ β πΈ são disjuntos.
Lema 5. Seja π uma medida definida em uma π β πππππππ π.
a. Se (πΈπ )πβN é uma sequência crescente de π, isto é, se πΈπ β πΈπ+1 βπ β N então
(οΈ
)οΈ
βοΈ
π
πΈπ
= lim π(πΈπ ).
πββ
πβN
(1.4)
b. Se (πΉπ )πβN é uma sequência decrescente de π, isto é, se πΉπ+1 β πΉπ βπ β N
e π(πΉ1 ) ΜΈ= +β então
(οΈ
π
)οΈ
βοΈ
πβN
πΉπ
= lim π(πΉπ ).
πββ
(1.5)
Demonstração. Vamos fazer a demonstração de cada item.
a. Se π(πΈπ ) = +β para algum π β N então ambos os lados da equação (1.4) são
infinitos. Podemos, portanto, assumir que π(πΈπ ) ΜΈ= β βπ β N. Defina a sequência
(π΄π )πβN de conjuntos onde π΄1 = πΈ1 e π΄π+1 = πΈπ+1 β πΈπ . Temos que π΄π β© π΄π = β
se
1.3. Medida
23
βοΈ
π ΜΈ= π e
π΄π =
πβN
βοΈ
πΈπ . Logo,
πβN
(οΈ
π
)οΈ
βοΈ
(οΈ
=
πΈπ
πβN
π
βοΈ
)οΈ
βοΈ
=
π΄π
βοΈ
π(π΄π ) = lim
πββ
πβN
πβN
π(π΄π )
(1.6)
π=1
ou seja,
(οΈ
)οΈ
βοΈ
π
(οΈ
= lim π
πΈπ
πββ
πβN
π
βοΈ
)οΈ
= lim π(πΈπ )
π΄π
(1.7)
πββ
π=1
b. Defina π΅π = πΉ1 β πΉπ . Temos que a sequência (π΅π )πβN é crescente e
βοΈ
πΉπ =
πβN
βοΈ
π΅π .
πβN
Aplicando a parte (π) do lema, obtemos
(οΈ
)οΈ
βοΈ
π
(οΈ
)οΈ
βοΈ
=π
πΉπ
πβN
π΅π
= lim π(π΅π ).
(1.8)
πββ
πβN
Como π(π΅π ) ΜΈ= β βπ β N, segue pelo Lema 4 que π(π΅π ) = π(πΉ1 ) β π(πΉπ ). Assim,
temos que
(οΈ
lim π(πΉπ ) = π(πΉ1 ) β lim π(π΅π ) = π(πΉ1 ) β π
πββ
Como
βοΈ
πβN
π΅π = πΉ1 β
πββ
βοΈ
)οΈ
βοΈ
π΅π
.
(1.9)
πβN
πΉπ , segue que
πβN
(οΈ
π
)οΈ
βοΈ
π΅π
(οΈ
= π(πΉ1 ) β π
πβN
)οΈ
βοΈ
πΉπ
,
(1.10)
πβN
ou seja,
(οΈ
lim π(πΉπ ) = π(πΉ1 ) β
πββ
(οΈ
π(πΉ1 ) β lim π
πββ
)οΈ)οΈ
βοΈ
πβN
πΉπ
(οΈ
= lim π
πββ
)οΈ
βοΈ
πβN
πΉπ
(1.11)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
24
Definição 5 (Espaço de Medida). Um espaço de media é uma tripla (π,π, π) consistindo de um conjunto π, uma π β πππππππ π e uma medida π definida em π.
Exemplo 8. Considere o espaço de medida π = (R,π΅, π) onde π΅ é a π β πππππππ de
Borel e π é a medida de Lebesgue.
1. Se π β R, temos que o conjunto {π} β π΅ pois
)οΈ
βοΈ (οΈ
1
1
π β ,π +
{π} =
π
π
(1.12)
(οΈ
)οΈ
1
1
2
π({π}) = lim π( π β , π +
) = lim
= 0.
πββ
πββ π
π
π
(1.13)
πβN
e, pelo mesmo motivo,
2. Concluímos a partir do ítem (1) que se πΈ β R é um conjunto enumerável, então
πΈ β π΅ e π(πΈ) = 0. Em particular, o conjunto Q dos números racionais é
mensurável e tem medida nula.
3. Temos claramente que
)οΈ
)οΈ
)οΈ
βοΈ (οΈ
βοΈ (οΈ
βοΈ (οΈ
1
1
1
1
[π,π) =
π β , π , (π,π] =
e [π,π] =
.
π, π +
π β ,π +
π
π
π
π
πβN
πβN
πβN
(1.14)
Logo, π ((π,π)) = π ([π,π)) = π ((π,π]) = π ([π,π]).
4. Se π΄ β R é um conjunto aberto, então π(π΄) = 0 se, e somente se, π΄ = β
. Com
efeito, se π₯ β π΄ e π΄ é aberto, então existe πΏ > 0 tal que (π β πΏ, π + πΏ) β π΄ e
consequentemente π(π΄) β₯ 2πΏ pelo Lema 4. Por outro lado, se π΄ = β
temos por
definição de medida que π(π΄) = 0.
Para finalizar esta seção, vamos introduzir uma terminologia muito útil e que será
utilizada posteriormente. Dizemos que determinada proposição é válida πβπ.π‘.π. (quase
1.4. A Integral
25
todo ponto) se existe um conjunto de medida nula π β π tal que a proposição em
questão é válida em π β π . Quando a medida π estiver subentendida diremos apenas
que a proposição é válida π.π‘.π.
1.4
A Integral
Nesta seção nós vamos definir o conceito de integral primeiramente para funções mensuráveis simples não negativas e, posteriormente, para funções reais mensuráveis arbitrárias. O resultado principal é o Teorema da Convergência Monótona que é uma
ferramenta básica para o desenvolvimento posterior da teoria. Sendo assim, no que
segue π = (π,π,π) como espaço de medida fixo e vamos denotar o conjunto de todas as funções πβmensuráveis por π = π (π, π) e o conjunto de todas as funções
πβmensuráveis não negativas por π + = π + (π, π).
Definição 6. Uma função π : π β R é simples quando seu conjunto imagem é finito.
Temos que uma função simples π pode ser representada da seguinte forma
π=
π
βοΈ
ππ ππΈπ ,
(1.15)
π=1
onde ππ β R e πΈπ β π, para todo π β {1,2,...,π}. Mais ainda: se exigimos que os ππ
sejam distintos entre si, e que os πΈπ sejam disjuntos entre si, esta representação é única
e chamada de Representação Padrão da função simples π.
Definição 7 (Integral de uma função simples). Seja π β π + uma função simples com
representação padrão dada por
π=
π
βοΈ
π=1
ππ ππΈπ .
(1.16)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
26
Então a integral de π com respeito a medida π é definida como
β«οΈ
πππ =
π
βοΈ
ππ π (πΈπ ) .
(1.17)
π=1
Observação 8. Na definição acima e no que segue estamos convencionando que
0 · β = 0.
Exemplo 9. Considerando π = (R, B, π), temos que a integral da função identicamente
nula é igual a zero, enquanto que a integral de qualquer outra função constante não
negativa é +β.
Enunciamos a seguir algumas propriedades elementares da integral.
Lema 6.
i. Se π e π são funções simples em π + e π β₯ 0, então:
a.
β«οΈ
β«οΈ
(π + π)ππ =
β«οΈ
πππ +
πππ
(1.18)
b.
β«οΈ
β«οΈ
ππππ = π
πππ
(1.19)
ii. Se π é definida em π como sendo
β«οΈ
π(πΈ) =
πππΈ ππ
(1.20)
então π é uma medida sobre π.
Para demonstração veja [1] página 29.
Definição 8 (Integral de uma função mensurável não negativa). Seja π β π + e
Ξ¦ o conjunto de todas as funções simples de π + tais que π(π₯) β€ π (π₯), βπ₯ β π.
1.4. A Integral
27
i. Definimos a integral de π com respeito a medida π como sendo
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = sup
πππ
(1.21)
πβΞ¦
ii. Se π β π + e πΈ β π então π ππΈ β π + e a integral de π sobre πΈ é definida como
sendo
β«οΈ
β«οΈ
π ππ =
π ππΈ ππ.
(1.22)
πΈ
O lema a seguir é consequência imediata da definição acima e nos garante que a
integral é monótona com respeito ao integrando e com respeito ao conjunto sobre o qual
se está integrando.
Lema 7.
1. Se π e π pertencem a π + e π (π₯) β€ π(π₯), βπ₯ β π, então
β«οΈ
β«οΈ
π ππ β€
πππ.
(1.23)
π ππ
(1.24)
2. Se π β π + e πΈ, πΉ β π com πΈ β πΉ então
β«οΈ
β«οΈ
π ππ β€
πΈ
πΉ
Agora estamos preparados para enunciar e provar o resultado mais importante desta
seção . O Teorema da Convergência Monótona, devido a B. Levi nos dá a ferramenta
chave para as obter propriedades fundamentais de convergência da Integral de Lebesgue.
Teorema 1 (Convergência Monótona). Se (ππ )πβN β π + é uma sequência monótona
crescente, isto é, ππ (π₯) β€ ππ+1 (π₯), βπ₯ β π e (ππ )πβN converge pontualmente para uma
função π , então π β π + e vale que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = lim
πββ
ππ ππ.
(1.25)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
28
Demonstração. Pelo Lema 2 temos que a função π é mensurável.
Como ππ (π₯) β€ ππ+1 (π₯) β€ π (π₯), segue, pelo Lema 7 que
β«οΈ
β«οΈ
β«οΈ
ππ ππ β€
ππ+1 ππ β€
π ππ, βπ β N.
(1.26)
Portanto, temos que
β«οΈ
lim
πββ
β«οΈ
ππ ππ β€
π ππ.
(1.27)
Para mostrar a desigualdade oposta, seja πΌ β R com 0 < πΌ < 1, π uma função simples
em π + satisfazendo π(π₯) β€ π (π₯), βπ₯ β π e defina para cada π β N o conjunto
π΄π = {π₯ β π; ππ (π₯) > πΌπ(π₯)}.
(1.28)
Afirmação 1. Temos que π΄π β π, βπ β N. Com efeito, se π =
βοΈπ
π=1 ππ ππΈπ
é a
representação padrão da função π, temos que
π΄π = ({π₯ β π; ππ (π₯) β₯ πΌπ1 } β© πΈ1 ) βͺ ... βͺ ({π₯ β π; ππ (π₯) β₯ πΌππ } β© πΈπ )
(1.29)
e portanto π΄π β π.
Afirmação 2. Temos que π΄π β π΄π+1 pois se π₯ β π΄π , temos que ππ+1 β₯ ππ (π₯) >
πΌπ(π₯).
Afirmação 3. Temos que π =
βοΈ
π΄π . Com efeito, se π₯ β π, então existe π0 β N tal
πβN
que π(π₯) β€ ππ0 (π₯) β€ π (π₯) pois π (π₯) = limπβN ππ (π₯) e, consequentemente, π₯ β π΄π0 .
Aplicando o Lema 7 obtemos que
β«οΈ
β«οΈ
πΌπππ β€
π΄π
β«οΈ
ππ ππ β€
π΄π
β«οΈ
ππ ππ =
π
ππ ππ.
(1.30)
1.4. A Integral
29
Afirmação 4. Temos que
β«οΈ
β«οΈ
πππ = lim
πββ π΄
π
πππ.
(1.31)
Com efeito, pelo Lema 6 temos que a função π definida em π por
β«οΈ
π(πΈ) =
πππΈ ππ
(1.32)
é uma medida e, utilizando o Lema 5 obtemos que
β«οΈ
β«οΈ
πππ = π(π) = lim π(π΄π ) = lim
πββ
πββ π΄
π
πππ.
(1.33)
Sendo assim, passando o limite em (1.30) obtemos que
β«οΈ
πΌ
β«οΈ
πππ β€ lim
πββ
ππ ππ.
(1.34)
Como a desigualdade acima vale para qualquer πΌ β R com 0 < πΌ < 1, temos que
β«οΈ
β«οΈ
πππ β€ lim
ππ ππ,
πββ
(1.35)
e como π é uma função simples arbitrária em π + com π(π₯) β€ π (π₯) βπ₯ β π, segue que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = sup
β«οΈ
πππ β€ lim
πββ
πβΞ¦
ππ ππ,
(1.36)
onde Ξ¦ é o conjunto de todas as funções simples π em π + com π(π₯) β€ π (π₯), βπ₯ β π.
Utilizando as desigualdades (1.27) e (1.36) concluímos que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = lim
πββ
ππ ππ.
(1.37)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
30
Observação 9. Note que não estamos assumindo que ambos os lados da equação (1.51)
(οΈβ«οΈ
)οΈ
são finitos. Com efeito, a sequência
ππ ππ πβN é monótona crescente de números
reais estendidos tendo um limite em RΜ mas talvez não em R.
Vamos agora expor alguns resultados imediatos do Teorema da Convergência Monótona.
Corolário 1.
i. Se π β π + e π β₯ 0, então ππ β π + e
β«οΈ
β«οΈ
ππ ππ = π
π ππ.
(1.38)
ii. Se π,π β π + , então π + π β π + e
β«οΈ
β«οΈ
(π + π)ππ =
β«οΈ
π ππ +
πππ.
(1.39)
Demonstração. Vamos provar cada um dos ítens.
i. Se π = 0 o resultado é imediato. Se π > 0, seja (ππ )πβN uma sequência monótona
crescente de funções simples convergindo para a função ππ (vide Lema 3). Aplicando
o Lema 6 e o Teorema da Convergência Monótona obtemos que
β«οΈ
β«οΈ
ππ ππ = lim
πββ
β«οΈ
πππ ππ = π lim
πββ
β«οΈ
ππ ππ = π
π ππ.
(1.40)
ii. Demonstração análoga a feita no item anterior.
O próximo resultado também é uma consequência do Teorema da Convergência
Monótona. Ele é muito importante uma vez que nos permite lidar com sequências de
funções que não sejam monótonas.
1.4. A Integral
31
Corolário 2 (Lema de Fatou). Se (ππ )πβN β π + então
β«οΈ (οΈ
β«οΈ
)οΈ
lim inf ππ ππ β€ lim inf
πββ
πββ
ππ ππ.
(1.41)
Demonstração. Para cada π β N, defina ππ (π₯) = πππ {ππ (π₯), ππ+1 (π₯), ...}, βπ₯ β π.
Assim, temos que se π β€ π, então ππ (π₯) β€ ππ (π₯) βπ₯ β π e, consequentemente,
β«οΈ
β«οΈ
ππ ππ β€
ππ ππ,
(1.42)
ou seja,
β«οΈ
β«οΈ
ππ ππ β€ lim inf
πββ
ππ ππ.
(1.43)
Como a sequência (ππ )πβN é monótona crescente, isto é, ππ (π₯) β€ ππ+1 (π₯), βπ₯ β π e
o seu limite é lim inf ππ , segue, pelo Teorema da Convergência Monótona, que
πββ
β«οΈ (οΈ
β«οΈ
β«οΈ
)οΈ
lim inf ππ ππ = lim
ππ ππ β€ lim inf ππ ππ.
πββ
πββ
πββ
(1.44)
Corolário 3. Se π β π + e π é definida em π por
β«οΈ
π ππ, βπΈ β π,
π(πΈ) =
(1.45)
πΈ
então π é uma medida.
Demonstração imediata a partir do Teorema da Convergência Monótona. Para maiores detalhes veja [1] página 34.
Corolário 4. Suponha que π β π + . Então π (π₯) = 0 π β π.π‘.π. se, e somente se,
β«οΈ
π ππ = 0
(1.46)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
32
Demonstração. Se a equação (1.46) é valida, defina, para cada π β N, o conjunto
{οΈ
}οΈ
1
πΈπ = π₯ β π; π (π₯) >
.
π
Temos assim que π (π₯) β₯
1
ππΈ (π₯), βπ₯ β π e então
π π
β«οΈ
0=
(1.47)
β«οΈ
π ππ β₯
1
1
ππΈπ ππ = π(πΈπ ) β₯ 0,
π
π
(1.48)
ou seja, π(πΈπ ) = 0. Se π = {π₯ β π; π (π₯) > 0} temos então que
π=
βοΈ
πΈπ ,
(1.49)
πβN
e como πΈπ β πΈπ+1 segue, pelo Lema 7, que π(π ) = 0, ou seja, que
π (π₯) = 0, βπ₯ β π β π
com π(π ) = 0.
Reciprocamente, se π (π₯) = 0 π β π.π‘.π. e πΈ = {π₯ β π; π (π₯) > 0}, então π(πΈ) = 0 e
definindo para cada π β N, ππ (π₯) = πππΈ , obtemos que π β₯ lim inf ππ e, pelo Lema de
πββ
Fatou, segue que
β«οΈ
0β€
β«οΈ
π ππ β€ lim inf
πββ
ππ ππ = 0.
(1.50)
Abaixo, apresentamos uma versão do Teorema da Convergência Monótona substituindo a convergência pontual em π pela convergência π β π.π‘.π..
Corolário 5 (Teorema da Convergência Monótona com convergência π β π.π‘.π.). Se
(ππ )πβN β π + é uma sequência monótona crescente, isto é, ππ (π₯) β€ ππ+1 (π₯), βπ₯ β π
1.5. Funções Integráveis
33
e (ππ )πβN converge π β π.π‘.π. para uma função π , então π β π + e vale que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = lim
ππ ππ.
πββ
(1.51)
Demonstração. Seja π o conjunto de medida nula tal que
π (π₯) = lim ππ (π₯), βπ₯ β π = π β π.
πββ
Temos que ππ ππ converge pontualmente para π ππ em π e pelo Teorema da Convergência Monótona segue que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ ππ = lim
πββ
ππ ππ ππ.
(1.52)
Como π(π ) = 0, segue que π ππ = ππ ππ = 0 π β π.π‘.π e pelo Corolário 4 obtemos que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ ππ =
ππ ππ ππ = 0 βπ β N.
(1.53)
Como π = π ππ + π ππ e ππ = ππ ππ + ππ ππ o resultado segue.
Corolário 6. Suponha que (ππ )πβN seja uma sequência em π + . Então
β«οΈ (οΈ βοΈ
)οΈ
ππ
πβN
ππ =
βοΈ (οΈβ«οΈ
)οΈ
ππ ππ .
(1.54)
πβN
Demonstração. Basta aplicar o Teorema da Convergência Monótona à sequência
ππ = π1 + π2 + π3 + ... + ππ .
1.5
Funções Integráveis
Na seção anterior nós definimos a Integral de Lebesgue de uma função arbitrária
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
34
π β π + . Nesta seção vamos estender este conceito para funções em π , isto é, funções mensuráveis podendo tomar valores positivos ou negativos. Para isto, chamamos
a atenção ao fato de que se π β π , então sua parte positiva π + e sua parte negativa π
são elementos de π + , estando, portanto, bem definidos os números ( em RΜ)
β«οΈ
π + ππ e
β«οΈ
π β ππ.
(1.55)
Definição 9. A conjunto πΏ = πΏ(π,π, π) das funções integráveis a Lebesgue com respeito
a medida π consiste no conjunto de todas as funções mensuráveis π β π , tais que a
suas partes positiva e negativa possuem integral finita, ou seja,
{οΈ
πΏ = πΏ(π,π, π) =
β«οΈ
π β π (π,π);
β«οΈ
+
π ππ < +β π
}οΈ
π ππ < +β .
β
(1.56)
Neste caso, se π β πΏ então sua integral com respeito a medida π é definida por
β«οΈ
β«οΈ
π ππ =
β«οΈ
+
π ππ β
π β ππ,
(1.57)
e, se πΈ β π, definimos a integral de π sobre πΈ com respeito a medida π por
β«οΈ
β«οΈ
π ππ =
β«οΈ
π ππΈ ππ =
+
π ππΈ ππ β
β«οΈ
π β ππΈ ππ.
(1.58)
πΈ
O objetivo principal desta seção é o Teorema da Convergência Dominada de Lebesgue, que segundo o próprio Lebesgue, é o o teorema mais importante de sua teoria.
Para isto, vamos enunciar e provar alguns resultados.
O resultado a seguir é comumente chamado de "propriedade da integrabilidade
absoluta"da integral de Lebesgue.
Lema 8. Seja π β π . Então π β πΏ, ou seja, π é integrável se, e somente se, |π | é
1.5. Funções Integráveis
35
integrável. Nesse caso, temos que
ββ«οΈ
β β«οΈ
β
β
β π ππβ β€ |π |ππ.
β
β
(1.59)
Demonstração. Por definição temos que π β πΏ se, e somente se, π + e π β pertencem a
π + e têm integral finita. Como |π | = π + + π β , segue que π é integrável se, e somente
se, |f| é integrável. Além disso, temos que
β ββ«οΈ
β ββ«οΈ
β β«οΈ
β ββ«οΈ
ββ«οΈ
β«οΈ
β β
β β
β
β β
β
β π ππβ = β π + ππ β π β ππβ β€ β π + ππβ + β π β ππβ = |π |ππ.
β β
β β
β
β β
β
(1.60)
Corolário 7. Se π β π , π é integrável e |π | β€ |π|, então π é integrável e
β«οΈ
β«οΈ
|π |ππ β€
|π|ππ.
(1.61)
Demonstração. Basta aplicar o lema anterior para concluir que |π | é integrável e, consequentemente, π é integrável. Utilizando o Lema 7 obtém se a desigualdade desejada.
É possível mostrar que o conjunto πΏ = πΏ(π, π,π), munido com as operações usuais
de soma e produto por escalar utilizadas para funções, é um espaço vetorial. A demonstração é canônica e pode ser encontrada em [1], página 43. Sendo assim, vamos apenas
enunciar o resultado.
Lema 9. Se π,π β πΏ e πΌ β R, então π + π β πΏ assim como πΌπ β πΏ e além disso vale
que
i.
β«οΈ
β«οΈ
(π + π) ππ =
β«οΈ
π ππ +
πππ
(1.62)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
36
ii.
β«οΈ
β«οΈ
(πΌπ ) ππ = πΌ
π ππ,
(1.63)
ou seja, πΏ é um espaço vetorial real quando munido com as operações usuais de soma
e produto por escalar das funções.
Vamos agora mostrar o resultado principal desta seção.
Teorema 2 (Convergência Dominada de Lebesgue). Seja (ππ )πβN β πΏ uma sequência
de funções integráveis que converge π β π.π‘.π. para uma função mensurável π . Suponha
que existe uma função integrável π β πΏ tal que |ππ (π₯)| β€ π(π₯), βπ₯ β π , βπ β N. Então
π é integrável e vale que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = lim
ππ ππ.
πββ
(1.64)
Demonstração. Seja π o conjunto de medida nula tal que
π (π₯) = lim ππ (π₯), βπ₯ β π = π β π.
πββ
(1.65)
Redefinindo as funções ππ e π em π como sendo identicamente nulas, obtemos que a
convergência pontual se dá em todo o conjunto X e isso não altera o valor das integrais
pois o conjunto π tem medida nula. Assim, como |π | β€ π em π, segue pelo Lema 8 e
Corolário 7 que π é integrável.
Vamos mostrar agora que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = lim
πββ
ππ ππ.
(1.66)
1.5. Funções Integráveis
37
Com efeito, como π + ππ β₯ 0, podemos aplicar o Lema de Fatou e concluir que
β«οΈ
β«οΈ
πππ +
β«οΈ
β«οΈ
π ππ =
(π + π ) ππ
β€ lim inf (π + ππ ) ππ
πβN
(οΈβ«οΈ
)οΈ
β«οΈ
πππ + ππ ππ
= lim inf
πβN
β«οΈ
β«οΈ
= πππ + lim inf ππ ππ,
(1.67)
πβN
ou seja,
β«οΈ
β«οΈ
π ππ β€ lim inf
ππ ππ.
πβN
(1.68)
Por outro lado, temos também que π β ππ β₯ 0 e, de maneira análoga, concluímos
que
β«οΈ
β«οΈ
πππ β
β«οΈ
π ππ β€
β«οΈ
πππ β lim sup
(ππ )ππ,
(1.69)
πβN
ou seja,
β«οΈ
lim sup
β«οΈ
ππ ππ β€
π ππ.
(1.70)
πβN
Combinando as duas desigualdades concluímos que
β«οΈ
β«οΈ
π ππ = lim
πββ
e o teorema está demonstrado.
ππ ππ.
(1.71)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
38
Capítulo 2
Espaços πΏπ
No capítulo anterior nós definimos a Integral de Lebesgue de uma função mensurável
arbitrária. Como vimos no Lema 9, o conjunto πΏ = πΏ(π, π, π) de todas as funções
integráveis se torna um espaço vetorial real com as operações usuais de soma e produto
escalar definidas para as funções. Neste capítulo nós iremos colocar uma estrutura de
espaço de Banach no conjunto das funções integráveis e veremos que para fazer isto,
é necessário identificar duas funções que são iguais π β π.π‘.π. O conjunto formado por
essas classe de equivalências são os chamados espaços de Lebesgue πΏπ . O resultado
principal deste capítulo é o Teorema de Riez-Fischer, segundo o qual, se 1 β€ π < β
então o espaço πΏπ é um espaço de Banach com a norma
βοΈβ«οΈ
βπ’βπΏπ =
π
|π’|π ππ.
Definição 10. Se π é um espaço vetorial real, então uma função β · β : π β R é
chamada de norma se satisfaz as seguintes condições:
i. βπ’β β₯ 0, βπ’ β π .
ii. βπ’β = 0 se, e somente se π’ = 0.
Capítulo 2. Espaços πΏπ
40
iii. βπΌπ’β = |πΌ|βπ’β, βπΌ β R; βπ’ β π .
iv. βπ’ + π£β β€ βπ’β + βπ£β, βπ’,π£ β π .
Exemplo 10. A função módulo | · | : R β R define uma norma em R.
Exemplo 11. Se π = Rπ , então as funções a seguir definem uma norma no espaço
euclidiano Rπ :
1. βπ’βπ = |π’1 | + |π’2 | + ... + |π’π |, βπ’ = (π’1 ,π’2 ,...,π’π ) β Rπ .
2. βπ’βπ = max{|π’1 |,|π’2 |,...,|π’π |}, βπ’ = (π’1 ,π’2 ,...,π’π ) β Rπ .
3. βπ’β =
βοΈ
π
|π’1 |2 + |π’2 |2 + ... + |π’π |2 , βπ’ = (π’1 ,π’2 ,...,π’π ) β Rπ .
Exemplo 12. O espaço π1 das sequências reais π₯ = (π₯π )πβN cujas séries são absolutaβοΈ
mente convergentes, isto é, tais que π(π₯) = |π₯π | < β, é um espaço vetorial normado
com a norma definida por π.
Exemplo 13. Se consideramos em π = πΆ 1 [π,π] a função definida por
π (π’) = sup |π β² (π₯)| ; βπ’ β πΆ 1 [π,π]
(2.1)
π₯β[π,π]
temos que π não define uma norma em πΆ 1 [π,π]. Com efeito, temos que a função π
satisfaz as condições π, πππ, e ππ£ da Definição 10, porém qualquer função constante π
satisfaz π (π) = 0. Logo a condição ππ não é satisfeita e consequentemente π não define
uma norma em πΆ 1 [π,π].
Observação 10. Quando uma função definida em um espaço vetorial π satisfaz as
condições π, πππ, e ππ£ da Definição 10, dizemos que esta função é uma semi-norma.
Definição 11. Seja π = (π, π, π) espaço de medida. Se π β πΏ = πΏ(π,π,π) então
definimos a função ππ : πΏ β R como sendo
β«οΈ
ππ (π ) =
|π |π ππ βπ β πΏ.
(2.2)
41
O lema a seguir nos diz que a função definida acima é uma semi-norma no espaço
πΏ.
Lema 10. O espaço πΏ = πΏ(π, π,π) é um espaço vetorial e a função
β«οΈ
ππ (π ) =
|π |π ππ βπ β πΏ
define uma semi-norma em πΏ. Além disso, se ππ (π ) = 0, então π = 0 π β π.π‘.π.
Demonstração. Pelo Lema 9 temos que L é um espaço vetorial. Vamos mostrar que a
função ππ satisfaz cada uma das condições da Definição 10. Com efeito, é imediato
que ππ (π ) β₯ 0 e que ππ (πΌπ ) = |πΌ|ππ (π ), para toda π β πΏ. Além disso, temos que se
π,π β πΏ, então |π + π| β πΏ e vale que |π + π| β€ |π | + |π|. Logo, pelo Lema 7, temos que
β«οΈ
β«οΈ
|π + π|ππ β€
β«οΈ
(|π | + |π|)ππ =
β«οΈ
|π |ππ +
|π|ππ.
(2.3)
Isso mostra que a função ππ define uma semi-norma em πΏ e, pelo Corolário 4, temos
que ππ (π ) = 0 se, e somente se, π = 0 π β π.π‘.π.
A fim de tornarmos o espaço πΏ em um espaço vetorial normado, introduzimos em
π = (π, π,π) a seguinte relação:
Definição 12. Sejam π,π β π. Dizemos que π βΌ π se π = π π β π.π‘.π.
Claramente a relação acima define uma relação de equivalência em π. Note que ao
passarmos o quociente pela relação 12 no espaço πΏ, estamos identificando duas funções
que são iguais π β π.π‘.π. Assim, se π,π β πΏ e π βΌ π, então
β«οΈ
β«οΈ
π ππ =
πππ.
(2.4)
Capítulo 2. Espaços πΏπ
42
Em particular, se π β πΏ é tal que π = 0 π β π.π‘.π, então |π | = 0 π β π.π‘.π, e assim,
β«οΈ
|π |ππ = 0.
(2.5)
Desta forma, o conjunto πΏ1 = πΏ1 (π, π,π) de todas as classes de equivalência de [π ]
com π β πΏ se torna um espaço normado com a norma
β«οΈ
β[π ]β1 =
|π |ππ.
Com efeito, πΏ1 claramente se torna um espaço vetorial com as operações de soma e
produto por escalar usuais: [π + π] = [π ] + [π] e πΌ[π ] = [πΌπ ] para quaisquer [π ],[π] β πΏ1
e πΌ β R. Além disso, temos que a norma β · β1 está bem definida, pois se [π ],[π] β πΏ1
com [π ] = [π], então |π | = |π| π β π.π‘.π. e
β«οΈ
β[π ]β1 =
β«οΈ
|π |ππ =
|π|ππ = β[π]β1 .
(2.6)
As condições (π), (πππ) e (ππ£) da definição de norma claramente são satisfeitas. Finalmente, se β[π ]β1 = 0, então
β«οΈ
|π |ππ = 0,
(2.7)
ou seja, π = 0 π β π.π‘.π. e portanto [π ] = [0].
Observação 11. Note que os elementos do conjunto πΏ1 são classes de equivalências de
funções. Porém, é costumeiro tratá-los como funções uma vez que seu comportamento
algébrico é o mesmo. Sendo assim, no que segue, denotaremos as classes de equivalência
[π ] β πΏ1 apenas por π e escreveremos βπ β1 ao invés de β[π ]β1 .
2.1. Os espaços Lπ
2.1
43
Os espaços Lπ
Nesta seção vamos estudar uma família de espaços normados formados por classes de
equivalências de funções mensuráveis.
Definição 13. Seja 1 β€ π < β. O espaço πΏπ = πΏπ (π, π, π) consiste em todas as
classes de equivalência das funções mensuráveis π β π (π,π) tais que
β«οΈ
|π |π ππ < β.
(2.8)
π
Já vimos que se π = 1, então o espaço πΏ1 se torna um espaço normado com a
β«οΈ
norma
|π’|ππ βπ’ β πΏπ . A proposição a seguir generaliza este resultado para o caso
de 1 < π < β.
Proposicão 1. Seja 1 < π < β. O espaço πΏπ é um espaço vetorial real. Além disso,
a seguinte função define uma norma em πΏπ :
(οΈβ«οΈ
βπ’βπΏπ =
|π’|
π
)οΈ 1
π
(2.9)
π
Para provar a proposição acima, vamos enunciar e provar algumas desigualdades
importantes válidas para os espaços πΏπ .
Lema 11 (Desigualdade de Young). Sejam π΄,π΅ β R posititivos. Se π,π β [1,β) são
1 1
tais que + = 1, então
π π
π΄π π΅ π
+
.
(2.10)
π΄π΅ β€
π
π
Demonstração. Temos que se 0 < πΌ < 1 a função π definida em (0, β) por π (π‘) = πΌπ‘βπ‘πΌ
é derivável e π β² (π‘) = πΌ(1 β π‘1π½ ), onde π½ = 1 β πΌ. Logo, temos que π β² (π‘) < 0 se 0 < π‘ < 1
e π β² (π‘) > 0 se π‘ > 1. Sendo assim, temos que π (1) β€ π (π‘), βπ‘ β (0,β), ou seja,
π‘πΌ β€ πΌπ‘ + (1 β πΌ), βπ‘ β (0,β).
(2.11)
Capítulo 2. Espaços πΏπ
Tomando π‘ =
π
π
44
na inequação acima, onde π,π β (0,β), e multiplicando por π obtemos
que
ππΌ ππ½ β€ πΌπ + π½π,
(2.12)
onde a igualdade vale se, e somente se, π = π.
Tomando πΌ = π1 , π΄ = ππ e π΅ = ππ , concluímos que
π΄π΅ β€
π΄π π΅ π
+
, βπ΄,π΅, β (π,β),
π
π
(2.13)
onde a igualdade vale se, e somente se, π΄ = π΅.
Lema 12 (Desigualdade de Hölder ). Sejam π β πΏπ e π β πΏπ , onde
1 1
+ = 1. Então
π π
π π β πΏ1 e vale que
βπ πβ1 β€ βπ βπ βπβπ
(2.14)
Demonstração. Se π = 0 ou π = 0 o resultado é imediato. Sendo assim, suponha que
βπ βπ ΜΈ= 0 e βπβπ ΜΈ= 0. Temos que o produto π π é mensurável e utilizando a desigualdade
π
π
de Young com π΄ =
eπ΅=
obtemos que
βπ βπ
βπβπ
|π π|
|π |π
|π|π
β€
+
,
βπ βπ βπβπ
πβπ βπ πβπβπ
(2.15)
e integrando obtemos
β«οΈ
|π π|ππ
,
βπ βπ βπβπ β€ 1
(2.16)
βπ πβ1 β€ βπ βπ βπβπ .
(2.17)
ou seja,
2.1. Os espaços Lπ
45
Lema 13 (Desigualdade de Minkowsky). Seja 1 < π < β e π,π β πΏπ . Então
βπ + πβπ β€ βπ βπ + βπβπ .
(2.18)
|π + π|π β€ 2π (|π |π + |π|π ) ,
(2.19)
Demonstração. Temos que
pois a função π‘ β π‘π é convexa para π‘ > 0. Isto nos mostra que π + π β πΏπ . Observe
agora que
|π + π|π = |π + π| · |π + π|πβ1 β€ |π ||π + π|πβ1 + |π||π + π|πβ1 .
Note agora que como π + π β πΏπ , segue que |π + π|π β πΏ1 . Além disso, se
(2.20)
1 1
+ =1
π π
então π = (π β 1)π e segue que
β«οΈ
(οΈ
|π + π|πβ1
)οΈπ
β«οΈ
ππ =
|π + π|π ππ,
(2.21)
ou seja, |π + π|πβ1 β πΏπ .
Aplicando a desigualdade de Hölder obtemos que
β«οΈ
π
|π ||π + π|πβ1 ππ β€ βπ βπ β|π + πβππ ,
(2.22)
e que
β«οΈ
π
|π||π + π|πβ1 ππ β€ βπβπ β|π + πβππ ,
(2.23)
Integrando em (2.20) e utilizando as desigualdades acima obtemos que
π
π
π
βπ + πβππ β€ βπ βπ βπ + πβ π + βπβπ βπ + πβ π β€ βπ + πβππ (βπ βπ + βπβπ ) .
(2.24)
Capítulo 2. Espaços πΏπ
46
π
Se βπ +πβπ = 0 o resultado é imediato. Caso contrário, dividimos (2.24) por βπ +πβππ
e utilizando o fato de que π β
π
π
= 1 obtemos que
βπ + πβπ β€ βπ βπ + βπβπ .
(2.25)
Note que a demonstração da Proposição 1 é imediata a partir da desigualdade de
Minkowsky. Com efeito, se π,π β πΏπ e πΌ, π½ β R então πΌπ + π½π β πΏπ pois
(οΈβ«οΈ
)οΈ
|πΌπ + π½π|ππ
1
= βπΌπ + π½πβπ β€ |πΌ|βπ βπ + |π½|βπβπ .
π
(2.26)
Além disso, a função definida em (2.9) óbviamente define uma norma em πΏπ .
Sendo assim, resta saber se o espaço πΏπ é completo nesta norma, o que é verdade e
será provado no próximo resultado.
Teorema 3 (Riesz-Fischer). Seja 1 β€ π < β. Então o espaço πΏπ munido com a norma
(οΈβ«οΈ
βπ’βπ =
π
)οΈ 1
|π’| ππ
π
, βπ’ β πΏπ ,
(2.27)
é completo, isto é, πΏπ é um espaço de Banach.
Demonstração. Seja (π’π )πβN β πΏπ uma sequência de Cauchy. Dado π > 0, existe
π0 = π0 (π) tal que se π,π > π0 então
βππ β ππ βπ < π,
(2.28)
|ππ β ππ |ππ ππ < ππ .
(2.29)
ou seja
β«οΈ
Fixe π1 > π. É possível obter π2 > π1 tal que βππ2 β ππ1 βπ < 12 , pois a sequência é de
2.1. Os espaços Lπ
47
Cauchy. Prosseguindo desta maneira obtemos uma subsequência (πππ )πβN tal que
βπππ+1 β πππ βπ <
1
.
2π
(2.30)
Para não carregar a notação denotemos ππ = πππ . Seja então
π(π₯) = |π1 (π₯)| +
βοΈ
|ππ+1 (π₯) β ππ (π₯)|.
(2.31)
πβN
Temos que π é mensurável e não negativa. Sendo assim, aplicando o Lema de Fatou
concluímos que
β«οΈ
]οΈπ
β«οΈ [οΈ
π
βοΈ
|π1 | +
|π| ππ β€ lim inf
|ππ+1 β ππ | ππ,
π
πβN
(2.32)
π=1
ou seja,
(οΈβ«οΈ
|π|π ππ
)οΈ 1
[οΈ
π
β€ lim inf βπ1 βπ +
πβN
π
βοΈ
]οΈ
βππ+1 β ππ βπ β€ βπ1 βπ + 1.
(2.33)
π=1
Defina πΈ = {π₯ β π; π(π₯) < β}. Temos que πΈ β π e π(π β πΈ) = 0. Logo, a série
definida em (2.31) é absolutamente convergente π β π.π‘.π. Desta forma, defina π em π
da seguinte maneira:
π (π₯) =
β§
β
βοΈ
βͺ
βͺ
β¨ π1 (π₯) +
(ππ+1 (π₯) β ππ (π₯)) se π₯ β πΈ;
π=1
βͺ
βͺ
β©
(2.34)
0 se π₯ ΜΈ= πΈ.
Temos que ππ β π π β π.π‘.π. e |ππ | < π, βπ β N. Pelo Teorema da Convergência
Dominada concluímos que
β«οΈ
β«οΈ [οΈ
π
|π | ππ = lim
πββ
|π1 +
π
βοΈ
π=1
]οΈπ
(ππ+1 β ππ )|
ππ β€ 2π βπβππ < β
(2.35)
Capítulo 2. Espaços πΏπ
48
e portanto π β πΏπ . Como |π β ππ |π β€ 2π π π , segue pelo Teorema da Convergência
Dominada, que
0 = lim βπ β ππ βπ ,
πβ
(2.36)
e portanto ππ β π em πΏπ .
Resta mostrar que ππ β π em πΏπ . Para isto, note que tomando π > π0 e π β N
suficientemente grande temos que
β«οΈ
|ππ β ππ |π ππ < ππ .
(2.37)
Aplicando o Lema de Fatou, obtemos que
β«οΈ
β«οΈ
π
|ππ β π | β€ lim inf
πββ
|ππ β ππ |π ππ β€ ππ ,
sempre que π > π0 . Isto prova que ππ β π em πΏπ .
(2.38)
Capítulo 3
Aplicação: Um problema de
contorno linear
Neste capítulo, faremos um exemplo de aplicação da teoria da integração de Lebesgue
no estudo de equações diferenciais. Como veremos a seguir, os métodos variacionais
são uma das principais ferramentas utilizadas para resolver problemas na teoria das
equações diferenciais. A idéia central é a formulação de um problema variacional equivalente, em um certo sentido, que consiste na obtenção de pontos críticos para um
funcional associado ao problema diferencial. O termo funcional é usado para designar
uma função real cujo domínio é um espaço vetorial.
3.1
Um Problema de Contorno Linear
Considere o seguinte problema de contorno
πΏπ’ = π, em [π,π], π’(π) = π’(π) = 0,
(3.1)
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
50
onde
(οΈ
)οΈβ²
πΏπ’ = β π(π‘)π’β² + π(π‘)π’
(3.2)
é um operador diferencial atuando em funções πΆ 2 [π,π] e as funções π,π e π , definidas no
intervalo [π,π] satisfazem as seguintes hipóteses:
i. π β πΆ 1 [π,π] e π(π‘) > 0, βπ‘ β [π,π].
ii. π β πΆ[π,π] e π(π‘) β₯ 0, βπ‘ β [π,π].
iii. π β πΆ[π,π].
Definição 14 (Solução Clássica). Uma solução clássica do problema (3.1) é uma função
π’ β πΆ 2 [π,π] que satisfaz a equação (3.1) e se anula nos extremos do intervalo [π,π], ou
seja, π’(π) = π’(π) = 0.
A definição acima nos motiva a questionarmos o seguinte:
Para responder a pergunta acima, vamos buscar algumas condições necessárias.
Para isto, seja π£ β πΆ 1 [π,π] com π£(π) = π£(π) = 0 e suponha que π’0 β πΆ 2 [π,π] seja uma
solução clássica de (3.1). Multiplicando a equação (3.1) por π£ e integrando obtemos
β
β«οΈ π [οΈ
(οΈ
]οΈ
)οΈβ²
π(π‘)π’ (π‘) π£(π‘) + π(π‘)π’(π‘)π£(π‘) ππ‘ =
β²
β«οΈ
π
π (π‘)π£(π‘)ππ‘
π
(3.3)
π
Utilizando integração por partes obtemos que
π
β«οΈ
β²
β«οΈ
β²
π(π‘)π’ (π‘)π£ (π‘)ππ‘ = β
π
π (οΈ
)οΈβ²
π(π‘)π’β² π£(π‘)ππ‘
(3.4)
π
e, substituindo (3.4) em (3.3), obtemos que
β«οΈ
π
β²
β²
β«οΈ
π(π‘)π’ (π‘)π£ (π‘)ππ‘ +
π
π
β«οΈ
π(π‘)π’(π‘)π£(π‘)ππ‘ =
π
π
π (π‘)π£(π‘)ππ‘.
π
(3.5)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
51
Concluímos então que toda solução clássica π’ β πΆ 2 [π,π] do problema (3.1), se existir,
deve satisfazer a equação (3.5) para qualquer π£ β πΆ 1 [π,π] com π£(π) = π£(π) = 0. Por
outro lado, não é óbvio que a recíproca seja verdadeira. Na verdade, a função π’ não
precisa nem ser de classe πΆ 2 , bastando por exemplo que π’ β πΆ01 [π,π]. Isto nos motiva à
seguinte definição.
Definição 15. Uma função π’ β πΆ01 é uma solução fraca de (3.1) se satisfaz a equação
(3.5) para todo π£ β πΆ01 [π,π], isto é, se
β«οΈ
π
β²
β«οΈ
β²
π
β«οΈ
π (π‘)π£(π‘)ππ‘, βπ£ β πΆ01 [π,π]
(3.6)
π
π
π
π
π(π‘)π’(π‘)π£(π‘)ππ‘ =
π(π‘)π’ (π‘)π£ (π‘)ππ‘ +
Observação 12. Para não deixar a notação excessivamente carregada, iremos suprimir
o intervalo e a variável de integração uma vez que estes são os mesmo sempre. Sendo
β«οΈ
β«οΈ π
assim, utilizaremos a notação
π ππ‘ para designar
π (π‘)ππ‘.
π
Veremos agora que é mais fácil procurar por soluções fracas. Para isto, considere o
funcional Ξ¦ : πΆ01 [π,π] β R dado por
Ξ¦(π£) =
1
2
β«οΈ
ππ£ β²2 ππ‘ +
1
2
β«οΈ
ππ£ 2 ππ‘ β
β«οΈ
π π£ππ‘, βπ£ β πΆ01 [π,π].
(3.7)
Sejam π’0 ,π£ β πΆ01 [π,π] e β ΜΈ= 0 β R. Temos que
Ξ¦(π’0 + βπ£) β Ξ¦(π’0 )
=
β
β«οΈ
ππ’β²0 π£ β² ππ‘ +
β«οΈ
β«οΈ
ππ’0 π£ππ‘ β
π π£ππ‘ +
β
2
β«οΈ
ππ£ β²2 + ππ£ 2 ππ‘,
(3.8)
e consequentemente,
Ξ¦(π’0 + βπ£) β Ξ¦(π’0 )
lim
=
ββ0
β
β«οΈ
ππ’β²0 π£ β² ππ‘
β«οΈ
+
β«οΈ
ππ’0 π£ππ‘ β
π π£ππ‘.
(3.9)
Observação 13. O limite acima é chamado no Cálculo das Variações como Primeira
Variação do funcional Ξ¦ e será denotado por Ξ¦β² (π’0 ) · π£.
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
52
Temos então que se π’0 β πΆ01 for um mínimo do funcional Ξ¦, então
Ξ¦(π’0 ) β€ Ξ¦(π’0 + π‘π£), βπ£ β πΆ01 [π,π], βπ‘ β R,
(3.10)
e assim, Ξ¦β² (π’0 ) · π£ = 0, βπ£ β πΆ01 . Com efeito, basta considerar a função ππ£ : R β R
dada por ππ£ (π‘) = Ξ¦(π’0 + π‘π£), βπ‘ β R. Temos que π‘ = 0 é um ponto de mínimo de
ππ£ ; βπ£ β πΆ01 e assim Ξ¦β² (π’0 ) · π£ = πβ²π£ (0) = 0. Sendo assim, concluímos que se π’0 é um
ponto de mínimo do funcional Ξ¦, então π’0 é uma solução fraca do problema (3.1), ou
seja, a existência de uma solução fraca para o problema (3.1) pode ser estabelecida se
provarmos que o funcional Ξ¦ tem um mínimo.
Seguindo nesta direção, mostraremos inicialmente que Ξ¦ é limitado inferiormente.
Para isto, note que se 0 < πΛ = min π(π‘) e, utilizando que π(π‘) β₯ 0, βπ‘ β [π,π], juntaπ‘β[π,π]
mente com a desigualdade de Cauchy-Schwartz, obtemos que
β«οΈ
Ξ¦(π’) β₯ πΛ
(οΈβ«οΈ
π’β²2 ππ‘ β
π2
)οΈ 1 (οΈβ«οΈ
2
π£2
)οΈ 1
2
.
(3.11)
Para prosseguir, vamos utilizar a seguinte desigualdade:
Proposicão 2 (Desigualdade de Wirtinger). Existe π β R positivo e independente de
π’ tal que
β«οΈ
π
π
π’(π‘)2 ππ‘ β€ π2
β«οΈ
π
π’β²2 (π‘)ππ‘, βπ’ β πΆ01 [π,π].
(3.12)
π
Demonstração. Seja π’ β πΆ01 [π,π]. Pelo Teorema Fundamental do Cálculo, temos que
β«οΈ
π’(π‘) =
π
π‘
π’β² (π )ππ .
(3.13)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
53
Note agora que, pela desigualdade de Cauchy-Schwartz, temos
β β«οΈ π‘
ββ«οΈ π‘
(οΈβ«οΈ π‘
)οΈ 12
β
β
1
β²
β²
β²2
|π’(π‘)||π’ (π )|ππ β€ |π’(π‘)|(π‘ β π) 2
|π’(π‘)| = |π’(π‘)| ββ π’ (π )ππ ββ β€
π’ (π )ππ
,
2
π
π
π
(3.14)
ou seja,
|π’(π‘)| β€ (π‘ β π)
1
2
(οΈβ«οΈ
π‘
)οΈ 12
β²2
π’ (π )ππ
.
(3.15)
π
Elevando ambos os lados ao quadrado, obtemos
2
β«οΈ
2
π‘
π’(π‘) = |π’(π‘)| β€ (π‘ β π)
π’β²2 (π )ππ ,
(3.16)
π’β²2 (π )ππ .
(3.17)
π
ou ainda,
2
β«οΈ
2
π’(π‘) = |π’(π‘)| β€ (π‘ β π)
π
π
Tomando π2 =
(π β π)2
e integrando ambos os lados da inequação (3.17), obtemos
2
π
β«οΈ
2
2
π
β«οΈ
π’(π‘) ππ‘ β€ π
π
π’β²2 (π‘)ππ‘
(3.18)
π
Observação 14. A melhor constante π da desigualdade acima pode ser obtida utilizando
séries de Fourier. Além disso, existe uma versão multidimencional da proposição acima
conhecida como Desigualdade de Poincaré. Para maiores detalhes veja [3] página 31 e
[2] página 290.
Utilizando a desigualdade de Wirtinger em (3.11), obtemos
β«οΈ
Ξ¦(π’) β₯ πΛ
β²2
π’ ππ‘ β π
(οΈβ«οΈ
π
2
)οΈ 1 (οΈβ«οΈ
2
π£
β²2
)οΈ 1
2
.
(3.19)
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
Fazendo π =
β«οΈ
54
π’β²2 ππ‘ concluímos que
2
Ξ¦(π’) β₯ πΛπ β π
(οΈβ«οΈ
π
2
)οΈ 1
2
π,
π2
que é um polinômio do segundo grau, cujo valor mínimo é β
4Λ
π
que
β«οΈ
π2
π 2 ππ‘, βπ’ β πΆ01 [π,π].
Ξ¦(π’) β₯ β
4Λ
π
(3.20)
β«οΈ
π 2 ππ‘. Segue portanto
(3.21)
Concluímos assim que o funcional Ξ¦ é limitado inferiormente. Resta então nos
questionar se seu ínfimo é assumido, isto é, se o funcional Ξ¦ possui um mínimo em
πΆ01 [π,π].
O Teorema de Bolzano-Weierstrass da Análise afirma que toda função real definida
em um intervalo fechado e limitado da reta assume seu ínfimo neste intervalo. O
essencial deste resultado são fatos topológicos a respeito da função e de seu domínio e,
de fato, é possível generalizar este resultado da seguinte maneira.
Teorema 4. Seja π um espaço topológico compacto e π : π β R uma função semicontínua inferiormente. Então o seu ínfimo é assumido, isto é, existe π₯0 β π tal que
π (π₯0 ) β€ π (π₯), βπ₯ β π.
Demonstração. Para uma demonstração veja o Apêndice A, Teorema 8.
Para tentar aplicar o Teorema 4 precisamos introduzir alguma topologia no conjunto
πΆ01 [π,π]. Sendo assim, note primeiramente que este é um espaço vetorial sobre o corpo
dos números reais quando múnido com as operações usuais de soma e produto. Além
disso, ele se torna um espaço normado se o munirmos da norma
(οΈβ«οΈ
βπ’β =
)οΈ 1
2
π’ ππ‘
, βπ’ β πΆ01 .
β²2
(3.22)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
55
Designemos, então, por π o espaço normado πΆ01 [π,π] munido com a norma definida
em (3.22).
Proposicão 3. O funcional Ξ¦ é contínuo em π.
Demonstração. Com efeito, se π’π β π’ em X, temos que
ββ«οΈ
β
β«οΈ
β
β
β
β
β π(π£πβ² 2 β π£ β²2 )ππ‘β β€ π^ βπ£πβ² 2 β π£ β²2 β ππ‘ β 0.
β
β
(3.23)
De maneira inteiramente análoga e, utilizando a Desigualdade de Wirtinger, obtemos
ββ«οΈ
β
β«οΈ
β
β
β
β
β π(π£π2 β π£ 2 )ππ‘β β€ π2 π^ βπ£πβ² 2 β π£ β²2 β ππ‘ β 0.
β
β
(3.24)
Utilizando agora a Desigualdade de Cauchy-Schwartz e a Desigualdade de Wirtinger
obtemos
β
ββ«οΈ
(οΈβ«οΈ
)οΈ 1 (οΈβ«οΈ
)οΈ 1
2
2
β
β
2
β²
β² 2
β π (π£π β π£)ππ‘β β€ π
π
ππ‘
|π£
β
π£
|
ππ‘
β 0.
π
β
β
(3.25)
As desigualdades acima nos mostram que Ξ¦(π£) = lim Ξ¦(π£π ), ou seja, que Ξ¦ é
πββ
contínuo em π.
Antes de prosseguir, relembremos que uma função π : π β R definida em um
espaço topológico π é contínua se, e somente se, a imagem inversa π β1 (πΌ) de qualquer
intervalo aberto πΌ β R for um subconjunto aberto de π. Por outro lado, uma função
π : π β R definida em um espaço topológico π é semicontínua inferiormente se, e
somente se, a imagem inversa π β1 (π, + β) é um aberto. Logo, toda função contínua é
semicontínua inferiormente.
Sendo assim, temos que o funcional Ξ¦ é contínuo e consequentemente semicontínuo
inferiormente. Para utilizarmos o Teorema 4 precisamos provar que π é compacto.
Ocorre que isto é falso. Com efeito, o conjunto π não é completo como nos mostra o
exemplo abaixo.
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
56
Exemplo 14. Consideremos no espaço πΆ01 [β1,1] a sequência de funções (ππ )πβN definidas por
ππβ² (π₯) =
β§
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
β¨
se π₯ β [β1, β 12 ]
0
ππ₯
se π₯ β [β 12 , β
1
2
+ π1 ]
1 se π₯ β [β 12 + π1 , 12 β π1 ] .(3.26)
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
βππ₯
se π₯ β [ 12 β π1 , 12 ]
βͺ
βͺ
βͺ
βͺ
β©
0
se π₯ β [ 12 ,1]
Temos que (ππ )πβN é uma sequência de Cauchy em πΆ01 [β1,1] com a norma (3.22), porém
não existe π β πΆ01 [β1,1] tal que βππ β π β β 0.
Para contornar este obstáculo considere o espaço de Lebesgue πΏ2 = πΏ2 [π,π]. Vamos
introduzir em πΏ2 o conceito de derivada fraca.
Definição 16. Seja π’ β πΏ2 . Dizemos que π’ tem derivada fraca em πΏ2 se existir π£ β πΏ2
tal que
β«οΈ
β²
β«οΈ
π’π ππ‘ = β
π£πππ‘, βπ β πΆπ1 [π,π].
(3.27)
Observação 15. A ideia da definição acima surge da integração por partes. Com
efeito, se π’ β πΆ01 [π,π] e π β πΆπ1 [π,π] temos, utilizando integração por partes, que
β«οΈ
β²
π’π ππ‘ =
π’π|ππ
β«οΈ
β
β²
β«οΈ
π’π=β
π’β² π.
(3.28)
Em particular, se π’ β πΏ2 tem derivada no sentido usual π’β² β πΏ2 , então ela também
possui derivada fraca em πΏ2 e estas coincidem. Sendo assim, também denotaremos a
derivada fraca de π’ por π’β² .
Observação 16. Sabemos que se uma função é derivável no sentido usual, então ela é
contínua. Isto também vale para a derivada fraca, ou seja, se π β πΏ2 admite derivada
fraca em πΏ2 então π admite um representante contínuo, isto é, existe π¯ β πΆ[π,π] tal que
π = π¯ π β π.π‘.π. Para demonstração veja [2] página 284.
3.1. Um Problema de Contorno Linear
57
Considere agora o subconjunto π»01 [π,π] β πΏ2 das funções π’ β πΏ2 que possuem
derivada fraca em πΏ2 e que se anulam nos extremos do intervalo [π,π], isto é, π’(π) =
π’(π) = 0. Temos que este é um subespaço vetorial de πΏ2 . Na verdade, é possível mostrar
que ele se torna um espaço de Banach com a norma
(οΈβ«οΈ
βπ’β =
β²2
)οΈ 1
2
π’ ππ‘
, βπ’ β π»01 [π,π].
(3.29)
É possível mostrar(veja [2] página 204) que se considerarmos a imersão πΆ01 [π,π] β
π»01 [π,π], isto é, se identificarmos cada função de πΆ01 [π,π] com a sua classe de equivalência
em π»01 [π,π], então πΆ01 [π,π] fica denso em π»01 [π,π].
O espaço π»01 [π,π] é um exemplo de espaço de Sobolev. Veremos a seguir que ele
resolve parcialmente o nosso problema. Com efeito, o funcional Ξ¦ definido em (3.7)
pode ser definido em π»01 [π,π] e como πΆ01 [π,π] é denso em π»01 [π,π] segue que o funcional
Ξ¦ é contínuo em π»01 [π,π]. Além disso, continua sendo verdade que
Ξ¦(π’0 + βπ£) β Ξ¦(π’0 )
=
lim
ββ0
β
β«οΈ
ππ’β²0 π£ β² ππ‘
β«οΈ
+
β«οΈ
ππ’0 π£ππ‘ β
π π£ππ‘.
(3.30)
A única diferença é que as derivadas são no sentido fraco. Desta forma, conseguimos
contornar a não completude do espaço πΆ01 [π,π].
Se tentarmos utilizar novamente o Teorema 4, vamos continuar esbarrando na não
compacidade. Com efeito, o espaço π»01 [π,π] não é compacto uma vez que é ilimitado.
Na verdade, nem as bolas fechadas de π»01 [π,π] são compactas, uma vez que o espaço
π»01 [π,π] tem dimensão infinita e um famoso resultado de Análise Funcional conhecido
como Teorema de Riez, nos diz que as bolas fechadas de um espaço vetorial normado
são compactas (na topologia da norma) se, e somente se, a dimensão do espaço é finita.
Para contornar este obstáculo vamos introduzir o conceito de topologia fraca.
Primeiramente, relembremos que dado um conjunto π, uma topologia de π é uma
coleção de subconjuntos π de suas partes P(π) tais que:
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
58
i. β
, π β π .
ii. Se (π΄π )πβπΏ é uma família de subconjuntos de π , então
βοΈ
π΄π β π .
πβπΏ
iii. Se π΄1 ,π΄2 ,...,π΄π β π então
π
βοΈ
π΄π β π .
π=1
Quando munimos π de uma topologia, este se torna um espaço topológico.
A topologia fraca de um espaço de Banach π é definida como sendo a menor topologia de π que faz os funcionais lineares definidos em π serem contínuos. Esta definição
é bastante abstrata, mas no nosso caso particular, isto é, no espaço π»01 [π,π], ela fica
bem intuitiva uma vez que este é um espaço de Hilbert com o produto interno
β«οΈ
< π’; π£ >π» =
π’β² π£ β² ππ‘, βπ’,π£ β π»01 [π,π].
(3.31)
Por este motivo, o espaço dual de π»01 [π,π] pode ser identificado com si próprio, e utilizando o Teorema da Representação de Riez concluímos que se π’π converge fracamente,
isto é, na topologia fraca, para π’ β π»01 [π,π], então
< π£; π’π >β< π ; π’ > , βπ£ β π»01 [π,π].
(3.32)
O motivo de introduzirmos a topologia fraca em π»01 [π,π] é que as bolas fechadas são
fracamente compactas em espaços de Hilbert (veja Apêndice D, Teorema 16). Desta
forma podemos tentar utilizar o Teorema 4 para concluir que o funcional assume seu
ínfimo em alguma bola fechada π΅[0,π
]. O único detalhe é que não há garantias de
que o funcional Ξ¦ seja contínuo na topologia fraca. Para isto, utilizaremos o seguinte
teorema:
Teorema 5. Seja πΈ um espaço de Banach e Ξ¦ um funcional semicontínuo inferiormente e convexo definido em πΈ. Então Ξ¦ é semicontínuo inferiormente na topologia
fraca de πΈ.
3.1. Um Problema de Contorno Linear
59
Demonstração. Para demonstração veja [3] página 34.
Para utilizar o teorema acima precisamos mostrar que o funcional Ξ¦ é convexo. Isto
é feito no lema a seguir.
Lema 14. Considere o funcional Ξ¦ definido em π»01 [π,π] como
1
Ξ¦(π£) =
2
β«οΈ
1
ππ£ ππ‘ +
2
β²2
β«οΈ
2
β«οΈ
ππ£ ππ‘ β
π π£ππ‘.
(3.33)
Então Ξ¦ é convexo, isto é, se π‘ β [0,1], então
Ξ¦(π‘π’ + (1 β π‘)π£) β€ π‘Ξ¦(π’) + (1 β π‘)Ξ¦(π£), βπ’,π£ β π»01 [π,π].
(3.34)
Demonstração. Temos que a função real dada por π₯ β π₯2 é convexa, ou seja,
(π‘π₯ + (1 β π‘)π¦)2 β€ π‘π₯2 + (1 β π‘)π¦ 2 . Sendo assim, temos que
1
2
β«οΈ
1
2
β«οΈ
π‘
π(π‘π’ + (1 β π‘)π£ ) ππ‘ β€
2
β«οΈ
π‘
2
β«οΈ
β²
β² 2
π(π‘π’ + (1 β π‘)π£)2 ππ‘ β€
(1 β π‘)
ππ’ ππ‘ +
2
β«οΈ
(1 β π‘)
2
β«οΈ
β²2
ππ’2 ππ‘ +
ππ£ β²2 ππ‘;
(3.35)
ππ£ 2 ππ‘.
(3.36)
Logo, concluímos que
Ξ¦(π‘π’ + (1 β π‘)π£) β€ π‘Ξ¦(π’) + (1 β π‘)Ξ¦(π£).
(3.37)
Utilizando o teorema acima concluímos que o funcional assume, de fato, o seu ínfimo
em algum ponto π’0 β π»01 [π,π].
Observe agora que o funcional Ξ¦ é Gateaux diferenciável(veja Apêndice C) em
π»01 [π,π] e suas derivadas de Gateaux são contínuas. Com efeito, se π£π β π£ em π»01 [π,π]
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
60
e utilizando as desigualdades de Wirtinger e Cauchy-Schwartz, obtemos que
β«οΈ
β²
Ξ¦ (π’)(π£π β π£) =
ππ’
β² βπ£ β²
π£π
β«οΈ
ππ‘ +
β«οΈ
ππ’(π£π β π£)ππ‘ =
π (π£π β π£) β 0.
(3.38)
Segue então que o funcional Ξ¦ é diferenciável a Fréchet e como π’0 é um ponto de
mínimo, segue que Ξ¦β² (π’0 ) = 0 e consequentemente
< β(π’0 ); π£ >= Ξ¦β² (π’0 )π£ = 0, βπ£ β π»01 [π,π],
(3.39)
isto é,
β«οΈ
ππ’β²0 π£ β² ππ‘
β«οΈ
+
β«οΈ
ππ’0 π£ππ‘ =
π π£ππ‘, βπ£ β π»01 [π,π].
(3.40)
Observação 17. A expressão acima é o que, de fato, chamamos de solução fraca para o
problema (3.1). É, essencialmente, a mesma definição dada em (15). A única diferença
é que a derivada é tomada no sentido fraco.
Antes de passarmos a parte de regularização da solução, vamos provar a unicidade
da solução fraca. Com efeito, sejam π’1 , π’2 β π»01 [π,π] soluções fracas do problema (3.1).
Temos assim que
β«οΈ
ππ£ β² (π’β²1 β π’β²2 )ππ‘ +
β«οΈ
ππ£(π’1 β π’2 ) = 0, βπ£ β π»01 [π,π].
(3.41)
Em particular, tomando π£ = π’1 β π’2 obtemos que
β«οΈ
π(π’β²1 β π’β²2 )2 ππ‘ +
β«οΈ
π(π’1 β π’2 )2 ππ‘ = 0,
(3.42)
o que implica em
β«οΈ
π(π’β²1 β π’β²2 )2 ππ‘ = 0.
(3.43)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
61
Como π(π‘) > 0, βπ‘ β [π,π] segue que π’β²1 = π’β²2 . Isto por sua vez implica que π’1 β π’2 = 0,
pois π’1 (π) = π’1 (π) = π’2 (π) = π’2 (π) = 0. Segue portanto que a solução fraca é única.
Vamos agora mostrar que a solução fraca π’0 encontrada é de fato uma solução
clássica. Para ver isto, note que
β«οΈ
ππ’β²0 π£ β² ππ‘ = β
β«οΈ
[ππ’0 β π ]π£ππ‘, βπ£ β π»01 [π,π].
(3.44)
Isto nos mostra que ππ’β²0 possui derivada fraca em πΏ2 e esta vale (ππ’β²0 )β² = ππ’0 β π .
Temos assim que ππ’β²0 é contínua e, consequentemente, π’β²0 existe no sentido usual e
esta é contínua (veja Apêndice B, Observação 24). Utilizando a regra do produto para
derivadas em ππ’β²0 concluímos que
ππ’β²β²0 = βπβ² π’β²0 + ππ’0 β π
e consequentemente π’0 β πΆ02 [π,π] e o problema 3.1 possui única solução clássica.
(3.45)
Apêndice A
Elementos de Análise Funcional
A.1
Espaços Normados
Definição 17. Seja πΈ um espaço vetorial real. Suponha que esteja definida em πΈ uma
função β · β : πΈ β R tal que
1. βπ’β β₯ 0, βπ’ β πΈ e βπ’β = 0 se, e somente se π’ = 0.
2. βπΌπ’β = |πΌ|βπ’β, βπ’ β πΈ, βπΌ β R.
3. βπ’ + π£β β€ βπ’β + βπ£β, βπ’,π£ β πΈ.
Nestas condições a função β · β é chamada de norma e vamos dizer que (πΈ,β · β) é um
espaço normado.
Em espaços normados é possível definir o conceito de limite.
Definição 18. Seja πΈ um espaço normado e (π’π ) β πΈ uma sequência. Diremos que
(π’π ) converge fortemente a π’ β πΈ quando para cada π > 0 for possível obter π0 β N tal
que se π > π0 então βπ’π β π’β < π.
Há também para espaços normados a noção de sequência de Cauchy.
A.2. Espaços com Produto Interno
63
Definição 19. Seja πΈ um espaço normado e (π’π ) β πΈ uma sequência. Vamos dizer
que a sequência (π’π ) é uma sequência de Cauchy quando para cada π > 0 for possível
obter π0 tal que se π, π β N com π, π > π0 então βπ’π β π’π β < π.
Observação 18. É imediato que toda sequência que converge fortemente é uma sequência de Cauchy. A recíproca, porém, não é verdadeira. Basta considerar o espaço (Q, |·|)
onde |π₯| = πππ₯(π₯, βπ₯). Os espaços normados onde vale a recíproca são chamados de
Espaços de Banach.
A.2
Espaços com Produto Interno
Definição 20. Seja πΈ um espaço vetorial real. Dizemos que uma função < ·; · >:
πΈ × πΈ β R define um produto interno em πΈ se
1. < ·; · > é bilinear.
2. < ·; · > é simétrica.
3. < π’; π’ > β₯ 0,
βπ’ β πΈ e < π’; π’ >= 0 se, e somente se, π’ = 0. Neste caso
dizemos que (πΈ, < ·; · >) é um espaço com produto interno.
Observação 19. Se (πΈ, < ·; · >) é um espaço com produto interno, então é possível
mostrar a seguinte desigualdade, conhecida como Desigualdade de Cauchy-Schwartz
| < π’; π£ > |2 β€ < π’; π’ > < π£; π£ > .
1
A partir disto, é imediato ver que a função β· β : πΈ β R definida por βπ’β = (< π’; π’ >) 2
define uma norma em E. Logo, em todo espaço com produto interno é possível definir
uma norma induzida pelo produto interno. Consequentemente surge em espaços com
produto interno a noção de limite. Finalmente, se num espaço com produto interno
Apêndice A. Elementos de Análise Funcional
64
toda sequência de Cauchy for fortemente convergente a algum elemento deste espaço
com a norma induzida, então este espaço será chamado de Espaço de Hilbert.
A.3
Espaços Topológicos
Definição 21. Seja π um conjunto não vazio. Uma topologia em π é uma coleção π
de subconjuntos de π tal que
1. β
, π β π.
βοΈ
2. Se {π΄π }πβπΏ β π então
π΄π β π.
πβπΏ
3. Se π΄1 , π΄2 , ..., π΄π β π então
π
βοΈ
π΄π β π.
π=1
Os elementos de π são chamados de abertos e dizemos que (π, π) é um espaço topológico.
Quando a topologia estiver subentendida vamos denotar apenas por π para não carregar
a notação.
Em espaços topológicos é possível introduzir o conceito de limite.
Definição 22. Seja (π’π )πβN uma sequência no espaço topológico π e π’ β π. Dizemos
que lim π’π = π’ se para todo aberto π΄ de π que contém π’, for possível obter π0 β N tal
que se π > π0 então π’π β π΄.
Observação 20. Se πΈ é um espaço normado, é possível induzir em πΈ uma topologia
através de sua norma (a saber, a topologia gerada pelas bolas abertas). Neste caso, as
definições de limite que introduzimos para espaços normados e espaços topológicos são
equivalentes. Por outro lado, nem toda topologia provém de uma norma. Ver [5] .
Definição 23. Seja π um conjunto não vazio. Uma métrica (ou distância) em π é
uma função π : π × π β R tal que
1. π(π’,π£) β₯ 0, β π’,π£ β π e π(π’,π£) = 0 se, e somente se, π’ = π£.
A.4. Compacidade
65
2. π(π’,π£) = π(π£,π’), β π’,π£ β π.
3. π(π’,π£) β€ π(π’,π€) + π(π€,π£), β π’,π£,π€, β π.
Neste caso dizemos que (π,π) é um espaço métrico.
Em espaços métricos é possível introduzir o conceito de limite.
Definição 24. Seja (π,π) um espaço métrico, (π’π )πβN β π e π’ β π. Dizemos que
lim π’π = π’ se para cada π > 0, for possível obter π0 β N tal que se π > π0 então
π(π’π ,π’) < π.
Observação 21. Se (π,β β) é um espaço normado a função π(π’,π£) = βπ’ β π£β define
uma métrica em π, ou seja, em todo espaço normado é possível induzir uma métrica.
Neste caso as definições de limite são equivalentes. Por outro lado, é possível mostrar
que nem toda métrica provém de uma norma.
Observação 22. Em espaços métricos é possível induzir uma topologia associada à
métrica (a saber a topologia gerada pelas bolas abertas). Neste caso, as definições de
limite que introduzimos são equivalentes. Por outro lado, é possível mostrar que nem
toda topologia provém de uma métrica. Os espaços topológicos em que a topologia provém
de uma métrica são chamados de espaços metrizáveis. Veja [5].
A.4
Compacidade
Nesta seção nos dedicamos aos conjuntos compactos. Tais conjuntos tem importância
fundamental no nosso estudo uma vez que estão intimamente ligados à convergências
de sequências.
Definição 25. Seja π um espaço topológico e π β π. Dizemos que a família de
βοΈ
abertos {ππ }πβπΏ é uma cobertura aberta de π se π β πβπΏ ππ . Se o conjunto πΏ é
finito, dizemos que a cobertura é finita.
Apêndice A. Elementos de Análise Funcional
66
Definição 26. Seja π um espaço topológico e π β π. Dada uma cobertura aberta
{ππ }πβπΏ do conjunto Y, dizemos que a família {ππ }πβπΏβ² onde πΏβ² β πΏ é uma subcoberβοΈ
tura de π se π β πβπΏβ² ππ .
Podemos agora definir conjuntos compactos.
Definição 27. Seja π um espaço topológico. Um subconjunto πΎ β π é compacto
quando toda cobertura aberta de πΎ possuir alguma subcobertura finita.
A.5
Funções Contínuas
Definição 28. Uma função π : π β π entre dois espaços topológicos π e π é contínua
se a imagem inversa π β1 (π΄π¦ ) de um aberto π΄π¦ de π sempre for um aberto de π.
Observação 23. Em espaços métricos a continuidade de uma função se dá através da
métrica. Com efeito, uma função π : π1 β π2 entre dois espaços métricos π1 e π2
é contínua se dado π₯ β π1 e uma sequência (π₯π )πβN β π1 com π1 (π₯π ,π₯) β 0, tem-se
π2 (π (π₯π ),π (π₯)) β 0.
Vamos considerar agora funções reais π : π β R definidas em um espaço topológico
π. Para este tipo de funções existe uma noção menor de continuidade chamada de
semicontinuidade.
Definição 29. Dizemos que uma função π : π β R é semicontínua inferiormente
se a imagem inversa π β1 (π,β) for um aberto de π. Analogamente, dizemos que uma
função π : π β R é semicontínua superiormente se a imagem inversa π β1 (ββ,π) for
um aberto de π.
Os teoremas a seguir têm importância fundamental no estudo da análise.
Teorema 6. Weierstrass Seja π : π β π uma função contínua entre espaços topológicos. Se πΎ β π for um compacto, então π (πΎ) é um compacto de π .
A.5. Funções Contínuas
67
Demonstração. Seja (π΅π )πβπΏ uma cobertura aberta de π (πΎ). Pela continuidade de π
segue que (π΄π )πβπΏ é uma cobertura aberta de K, onde π΄π = π β1 (π΅π ). Como πΎ é
compacto, temos que existem uma quantidade finita π1 , π2 ,...,ππ β πΏ tais que πΎ β
π
π
π
βοΈ
βοΈ
βοΈ
π΄π e , consequentemente, π (πΎ) β
π (π΄π ) β
π΅π , ou seja, π (πΎ) é compacto.
π=1
π=1
π=1
Teorema 7. Borel-Lebesgue Um subconjunto πΎ β R é compacto se, e somente se, é
fechado e limitado.
Para demonstração veja [5]
Utilizando os teoremas de Weierstrass e de Borel-Lebesgue, concluímos que se π :
π β R for uma função contínua definida em um espaço topológico compactoπ, então
π (π) é fechado e limitado e, consequentemente, π assume seus máximos e mínimos em
π. É possível concluir algo parecido para funções reais semicontínuas.
Teorema 8. Uma função π : π β R semicontínua inferiormente definida em um
espaço topológico compacto π assume seu mínimo em π. Analogamente, uma função
f:X β R semicontínua superiormente definida em um espaço topológico compacto π
assume seu máximo em π.
Demonstração. Suponha que π seja semicontínua inferiormente. Observe primeiramente que π (π) é limitada inferiormente .Com efeito, {(π,β)}πβZ são abertos de R e
βοΈ
βοΈ
R=
(π,β). Desta forma π =
π β1 (π,β) e pela compacidade de π existe uma
πβZ
πβZ
quantidade finita π1 ,...,ππ β Z tais que π =
inferiormente.
π
βοΈ
π β1 (ππ ,β), ou seja, π (π) é limitado
π=1
Seja então π0 = inf π (π) e suponha por absurdo que π0 β
/ π (π). Pela definição
de ínfimo, temos que existe uma sequência estritamente decrescente (π¦π )πβN β π (π)
βοΈ
tais que π¦π β π0 . Desta forma, temos que π =
π β1 (π¦π ,β) e pela compacidade
πβN
de π segue que π = π β1 (π¦π0 ,) para algum π0 , o que é absurdo pois se π > π0 , temos
que π¦π β π (π) mas π¦π β
/ (π¦π ,β) pois π¦π < π¦π0 . Concluímos assim que π0 β π (π) e
Apêndice A. Elementos de Análise Funcional
68
portanto π assume seu mínimo em π. A demonstração é análoga para o caso de π ser
semicontínua superiormente.
Apêndice B
Espaços de Sobolev
Neste capítulo vamos definir os espaços de Sobolev.
B.1
Espaços de Sobolev π 1,π (πΌ)
Seja πΌ β R um intervalo possivelmente ilimitado e seja π β R com 1 β€ π β€ +β.
Definição 30. O espaço de Sobolev π 1,π (R) é definido como
π 1,π (πΌ) = {π’ β πΏπ (πΌ); βπ β πΏπ (πΌ) tal que
β«οΈ
π’πβ² ππ₯ = β
R
β«οΈ
ππππ₯ βπ β πΆ0β (πΌ)}.
R
(B.1)
Se π’ β π 1,π (πΌ) então existe π β πΏπ (πΌ) tal que
β«οΈ
R
π’πβ² ππ₯ = β
β«οΈ
ππππ₯ βπ β πΆ0β (πΌ).
(B.2)
R
Neste caso, denotamos π’β² = π e dizemos que π’β² é a derivada fraca de π’.
Teorema 9. O espaço π 1,π (πΌ) é um espaço de Banach com a norma
βπ’βπ1,π = βπ’βπ + βπ’β² βπ ,
βπ’ β π 1,π (πΌ),
(B.3)
Apêndice B. Espaços de Sobolev
70
β«οΈ
1
onde βπ’βπΏπ = [ πΌ |π’|π ] π . Além disso, π 1,π (πΌ) é reflexivo se 1 < π < +β e separável se
1 β€ π < +β.
Para demonstração veja [2].
B.2
Propriedades
¯ tal que
Teorema 10. Seja π’ β π 1,π (πΌ). Existe uma função π’
Λ β πΆ(πΌ)
π’(π₯) = π’
Λ(π₯) π.π‘.π.em πΌ
β«οΈ
π’
Λ(π₯) β π’
Λ(π¦) =
π₯
e
π’β² (π‘)ππ‘.
(B.4)
(B.5)
π¦
Observação 24. Em outras palavras, o teorema acima nos diz que toda função π’ β
π 1,π (πΌ) possui um representante contínuo. Além disso, se a derivada fraca de π’ for
contínua, isto é, tiver um representante contínuo, então , na notação do teorema, π’
Λβ
πΆ 1 (πΌ) e, consequentemente, possui derivada no sentido usual.
Teorema 11. Seja π’ β π 1,π (πΌ) Então existe uma sequência (π’π ) em πΆ0β (R) tal que
(π’π )πΌ β π’ em π 1,π (πΌ).
Para demonstrações veja [2].
B.3
O espaço H10 [π,π]
Quando π = 2, nós denotamos o espaço de Sobolev π 1,2 (πΌ) por π» 1 (πΌ). Neste espaço
nós introduzimos o seguinte produto interno:
β«οΈ
< π ; π >=
β«οΈ
π πππ +
π β² π β² ππ.
(B.6)
O espaço π» 1 (πΌ) com o produto interno definido acima se torna um espaço de Hilbert.
B.3. O espaço H10 [π,π]
71
Note agora que a norma induzida em π» 1 (πΌ) é dada por
(οΈ
)οΈ
βπ’βπ» = βπ’β22 + βπ’β² β22 .
(B.7)
Considere agora a imersão πΆ01 (πΌ) β π» 1 (πΌ) e suponha que πΌ é limitado. Definimos o
espaço π»01 (πΌ) como sendo o fecho de πΆ01 (πΌ) em π» 1 (πΌ).
Vamos agora enunciar algumas propriedades básicas deste espaço. Para isto, suponha que πΌ = [π,π].
Teorema 12. Seja π’ β π» 1 [π,π]. Então π’ β π»01 [π,π] se, e somente se, π’(π) = π’(π) = 0.
Para demonstração veja [2] página 217.
Teorema 13 (Desigualdade de Poincaré). Existe uma constante positiva πΆ > 0 tal que
βπ’βπ» β€ πΆβπ’β² β2 , βπ’ β π»01 [π,π].
(B.8)
Para demonstração veja [2] página 218.
Observação 25. O teorema acima nos diz que a norma dada por βπ’β = βπ’β² β2 em
π»01 [π,π] é equivalente à norma β · βπ» , pois, obviamente, temos que βπ’β² β2 β€ βπ’βπ» .
Apêndice C
Funcionais Diferenciáveis
C.1
Definições Básicas
Neste capítulo β · β indicará a norma do espaço de Banach em questão.
Definição 31. Seja π : π β R onde π é um aberto de um espaço de Banach X. O
funcional é Gateaux diferenciável em π’ β π se existir π β π * tal que para todo π£ β π
1
lim [π(π’ + π‘π£) β π(π’) β π‘ < π ; π£ >] = 0.
π‘β0 π‘
Neste caso, o funcional π é único e será chamado de derivada de Gateaux em π’ e será
denotado por πβ² (π’) dada por
1
< πβ² (π’); π£ >= lim (π(π’ + π‘π£) β π(π’)).
π‘β0 π‘
Observação 26. < πβ² (π’), π£ > é a derivada direcional de π em π’ na direção π£.
Definição 32. O funcional π tem derivada a Fréchet π β π * em π’ β π se
lim
ββββ0
1
[π(π’ + π‘β) β π(π’)β < π ; β >] = 0.
βββ
C.1. Definições Básicas
73
Neste caso, π é a derivada a Fréchet de π em π’ e será denotada por πβ² (π’).
Observação 27. O fucional π é diferenciável a Fréchet (ou a Gateaux) se for diferenciável em todos os pontos de π .
Observação 28. Se π é diferenciável a Fréchet, então π é diferenciável a Gateaux
Observação 29. O funcional π β πΆ 1 (π ; R) se possuir derivada de Fréchet em todos
os pontos de π e a função π’ β¦β πβ² (π’) for contínua em π .
Teorema 14. Se π tem derivada de Gateaux contínua em π então π β πΆ 1 (π ; R), ou
seja, π é diferenciável a Fréchet.
Para maiores detalhes veja [4].
Apêndice D
Propriedades da Topologia Fraca
No que segue, faremos uma exposição básica sobre as propriedades básicas da topologia
fraca. Para uma visão mais detalhada veja ([2]).
Definição 33. Seja π um espaço de Banach. A topologia fraca π(π, π * ) é a topologia
menos fina que torna todos os funcionais π β π * contínuos.
Observação 30. Quando colocamos em π a topologia fraca π(π, π * ) induzimos uma
nova noção de convergência chamada de convergência fraca. Neste caso, diremos que
(π’π ) converge fracamente a π’ β π e denotaremos por π’π β π’.
D.1
Propriedades básicas da convergência fraca
Teorema 15. Seja (π₯π ) β π uma sequência. Então
1. [π₯π β π₯] β [< π,π₯π >β< π,π₯ >, βπ β π * ].
2. Se π₯π β π₯ então π₯π β π₯.
3. Se π₯π β π₯ então (βπ₯π β) é limitada e βπ₯β β€ lim inf βπ₯π β.
4. Se π₯π β π₯ e ππ β π em π * então < ππ , π₯π >β< π,π₯ >.
D.1. Propriedades básicas da convergência fraca
75
Teorema 16 (Kakutani). Seja π um espaço de Banach. Então π é reflexivo se, e
somente se, a bola
π΅[0,1] = {π₯ β π; βπ₯β β€ 1}
é compacta na topologia fraca π(π, π * ).
Observação 31. O teorema acima tem importância fundamental neste trabalho e no
estudo das equações diferenciais de uma maneira geral.
Observação 32. O espaço π»01 [π,π] é reflexivo. Logo suas bolas fechadas são fracamente
compactas .
Referências Bibliográficas
[1] R.G. Bartle. The Elements of Integration. John Wiley Sons, 1966.
[2] H. Brezis. Functional analysis, Sobolev spaces and partial differential equations.
Springer-Verlag New York Inc, 2010.
[3] D.G. de Figueiredo. Métodos variacionais em equações diferenciais. Matemática
Universitária, 7:21β47, 1988.
[4] A.N. Kolmogorov and S.V. Fomin. Introdutory real analysis. Dover, 1975.
[5] E.L. Lima. Espaços Métricos. IMPA, 1993.