Universidade Federal de Juiz de Fora
André Desiderio Maldonado
Integral de Lebesgue, Espaços de Sobolev
e Aplicações
Juiz de Fora
2013
André Desiderio Maldonado
Integral de Lebesgue, Espaços de Sobolev
e Aplicações
Trabalho de Conclusão de Curso apresentada
ao Departamento de Matemática da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial para a obtenção do Grau Bacharel em Matemática
Orientador: Luiz Fernando de Oliveira Faria
Juiz de Fora
2013
Maldonado, André Desiderio
Integral de Lebesgue, Espaços de Sobolev e Aplicações / André
Desiderio Maldonado. -2013.
76 f. : il.
Trabalho de Conclusão de Curso (Bacharelado em Matemática) - Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora, 2013.
1. Matemática. 2. Equações Diferenciais. 3. Integral de
Lebesgue. 4. Espaços de Sobolev. 5. Métodos Variacionais. I.
Título.
À minha mãe, que sempre me apoiou e me incentivou nos estudos.
Até mesmo a maior das caminhadas começa com um primeiro Passo.
Gandhi
AGRADECIMENTOS
Ao meu orientador Luiz Fernando por todo suporte, apoio e principalmente paciência. Gostaria de agradecer também ao professor Wilson Oliveira, meu orientador dos
tempos em que cursava Física.
Aos meus professores acadêmicos tanto da graduação como do mestrado com atenção especial para Bernhard, Jens e José Luiz do Departamento de Física da UFJF;
Fabio, Flaviana, Sergio e Olimpio do Departamento de Matemática da UFJF e André
da Faculdade de Engenharia Elétrica. Me ensinaram lições importantes, que não se
encontram em livros e que vou levar para o resto da vida.
À Aline, minha namorada e companheira, pela paciência e compreensão e principalmente por todo o amor que recebi.
À minha família como um todo, com atenção especial para os meus avós Marco e
Célia por todo o amor que me dedicam, e ao meu Tio Marco pela atenção.
Aos meus amigos Paulo, Wilker, Raony, Alcides e Daniel, companheiros de república; à Rodrigo, Sebastião, Pedrosa, Alexandre e Tassio, companheiros de curso; Felipe,
Nicolai, Gadelha e Raul, amigos de escola; juntamente com todos os outros colegas de
mestrado.
A todos que me apoiaram nos últimos tempos com atenção especial para meus
colegas de trabalho Nelson, Roney, Sandra, Lonardo, Vitor, Laércio, Lucy e Tatiana.
À Universidade Federal de Juiz de Fora e ao Departamento de Matemática.
À FAPEMIG pelo suporte financeiro.
RESUMO
Neste trabalho fazemos uma introdução da Teoria da Integração de Lebesgue na reta
real. Após uma exposição sistemática dos principais fatos da teoria, fazemos uma
aplicação no estudo das equações diferenciais utilizando os espaços de Sobolev.
Palavras-chave: Integral de Lebesgue, Equações Diferenciais, Métodos Variacionais,
Espaços de Sobolev
ABSTRACT
In this work we present an introduction to the Lebesgue Theory of Integration on
real line. After systematic exposition of the main results, we show an application in
the study of the Differencial Equations using the Sobolev Spaces.
Keywords: Lebesgue Integral, Differential Equations, Sobolev Spaces, Variational
Techniques
LISTA DE SÍMBOLOS
𝐸*
espaço dual de 𝐸
𝜎(𝐸,𝐸 * )
topologia fraca definida em 𝐸
β†’
convergência forte
⇀
convergência fraca
q.t.p.
quase todo ponto
R
Conjunto dos Números Reais
πΌβŠ‚R
intervalo aberto
𝐡(π‘₯; π‘Ÿ)
Bola aberta de raio π‘Ÿ e centro π‘₯ no espaço normado 𝐸
dada por {𝑧 ∈ 𝐸; ‖𝑧 βˆ’ π‘₯‖𝐸 < π‘Ÿ}
𝑆(π‘₯; π‘Ÿ)
Esfera de raio π‘Ÿ e centro π‘₯ no espaço normado 𝐸
dada por {𝑧 ∈ 𝐸; ‖𝑧 βˆ’ π‘₯‖𝐸 = π‘Ÿ}
supp𝑓
indica o suporte da função 𝑓
𝐿𝑝 (𝐼)
espaço das funções Lebesgue-mensuráveis 𝑒 : 𝐼 β†’ R
(οΈ€βˆ«οΈ€
)οΈ€ 1
com norma-𝐿𝑝 finita |𝑒|𝑝 = 𝐼 |𝑒|𝑝 𝑑π‘₯ 𝑝 ,1 ≀ 𝑝 < ∞
𝐿∞ (𝐼)
espaço das funções Lebesgue-mensuráveis e essencialmente
limitadas 𝑒 : 𝐼 β†’ R com norma-𝐿∞ β€–π‘’β€–πΏβˆž = supπ‘₯∈𝐼 |𝑒(π‘₯)|
𝐢 π‘˜ (𝐼)
funções π‘˜ vezes continuamente diferenciáveis em𝐼
𝐢0π‘˜ (𝐼)
𝐢 ∞ (𝐼)
conjunto das funções 𝐢 π‘˜ (𝐼) com 𝑒 = 0 em πœ•πΌ, (π‘˜ β‰₯ 0)
β‹‚οΈ€
π‘˜
π‘˜β‰₯0 𝐢 (𝐼)
π‘Š 1,𝑝 (𝐼)
Espaço de Sobolev com norma
1
β€–π‘’β€–π‘Š 1,𝑝 = (‖𝑒‖𝐿𝑝 + ‖𝑒′ ‖𝐿𝑝 ) 𝑝
π‘Š π‘š,𝑝 (𝐼)
Espaço de Sobolev definido indutivamente como
π‘Š π‘š+1,𝑝 (𝐼) = {𝑒 ∈ 𝐿𝑝 (𝐼); 𝑒′ ∈ π‘Š π‘š,𝑝 (𝐼)}
𝐻 π‘š (𝐼; R)
Espaço de Sobolev π‘Š π‘š,2 (𝐼) com produto interno
βˆ«οΈ€
βˆ«οΈ€
βˆ«οΈ€
βˆ«οΈ€
< 𝑒; 𝑣 >𝐻 π‘š = 𝐼 𝑒𝑣𝑑π‘₯ + 𝐼 𝑒′ 𝑣 β€² 𝑑π‘₯ + 𝐼 𝑒′′ 𝑣 β€²β€² 𝑑π‘₯ + · · · + 𝐼 𝑒(π‘š) 𝑣 (π‘š) 𝑑π‘₯
|π‘₯|
Valor absoluto de π‘₯ ou medida de Lebesgue do conjunto π‘₯
Sumário
1 Integral de Lebesgue
14
1.1
𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
14
1.2
Funções Mensuráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
17
1.3
Medida
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
21
1.4
A Integral . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
25
1.5
Funções Integráveis . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
33
2 Espaços 𝐿𝑝
2.1
Os espaços L𝑝 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
3 Aplicação: Um problema de contorno linear
3.1
Um Problema de Contorno Linear . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
A Elementos de Análise Funcional
39
43
49
49
62
A.1 Espaços Normados . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
62
A.2 Espaços com Produto Interno . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
63
A.3 Espaços Topológicos . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
64
A.4 Compacidade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
65
A.5 Funções Contínuas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
66
B Espaços de Sobolev
69
B.1 Espaços de Sobolev π‘Š 1,𝑝 (𝐼) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
69
B.2 Propriedades . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
70
B.3 O espaço H10 [π‘Ž,𝑏] . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
70
C Funcionais Diferenciáveis
C.1 Definições Básicas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
D Propriedades da Topologia Fraca
D.1 Propriedades básicas da convergência fraca . . . . . . . . . . . . . . . . .
Referências Bibliográficas
72
72
74
74
76
Introdução
A teoria da integração teve suas raizes no "método de exaustão", inventado por Eudoxos
e posteriormente desenvolvido por Arquimedes para calcular áreas e volumes de figuras
geométricas.
Nos Séculos XVII e XVIII, os trabalhos de Newton e Leibniz permitiram que este
método se transformasse em uma ferramenta sistemática para calcular áreas, volumes
e resolver problemas elementares de mecânica. Com o desenvolvimento da teoria do
integral, a aplicação em geometria e à mecânica perdeu sua importância, dando lugar a
questões mais analíticas para as quais a chamada "Teoria Clássica"não era suficiente.
Nos dias atuais matemáticos estão interessados no estudo da Teoria da Integracão
aplicada em convergência de séries, equações diferenciais ou probabilidade. Para tal
estudo, a Teoria Clássica da Integral, que culminou com a Integral de Riemann, foi
substituida pelos trabalhos pioneiros de Henri Lebesgue, publicados no início do século
XX. A razão desta mudança é simples: Os teoremas de convergência da Teoria da
Integral de Lebesgue são mais gerais, mais completos e mais elegantes que os da Teoria
da Integral de Riemann.
Neste trabalho fazemos uma exposicão básica da Teoria da Integral de Lebesgue na
reta real. Ao final apresentamos uma aplicação da teoria demonstrando a existência de
solução para um problema envolvendo equações diferenciais.
Capítulo 1
Integral de Lebesgue
Neste capítulo vamos fazer a construção da Integral de Lebesgue de funções reais definidas em subconjuntos da reta real. Para isto nós vamos definir uma estrutura chamada
de 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž em um conjunto arbitrário 𝑋 e, através dessa estrutura, nós vamos
definir o que seriam os espaços mensuráveis e, sobre estes espaços, vamos definir o que
seriam as funções mensuráveis. Após isso, vamos definir um tipo especial de função
chamado de medida e, a partir daí, iremos construir o conceito de Integral de Lebesgue.
1.1
𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž
No desenvolvimento da integral de Lebesgue a nossa atenção está voltada para uma
classe de funções reais definidas em um conjunto 𝑋 não vazio. Como o desenvolvimento
da teoria não depende do conjunto em questão, nós não iremos fazer qualquer hipótese
adicional sobre este conjunto.
Dado um conjunto 𝑋 ΜΈ= βˆ…, nós vamos considerar um subconjunto πœ’ de P(𝑋) que é
"bem comportado"num sentido técnico, isto é, vamos assumir que πœ’ é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž.
Definição 1 (𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž). Uma família πœ’ de subconjuntos de um conjunto 𝑋 é chamada de 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž se satisfaz as seguintes condições:
1.1. 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž
15
i. βˆ…, 𝑋 ∈ πœ’.
ii. 𝐴 ∈ πœ’ β‡’ 𝐴𝑐 = 𝑋 βˆ– 𝐴 ∈ πœ’.
iii. Se (𝐴𝑛 )π‘›βˆˆN é uma sequência de conjuntos em πœ’ então
⋃︁
𝐴𝑛 ∈ πœ’.
π‘›βˆˆN
Observação 1. É imediato que dado um conjunto 𝑋, o conjunto de suas partes P(𝑋),
assim como o conjunto {βˆ…, 𝑋} são 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Žπ‘  de 𝑋, sendo respectivamente a maior
e a menor das 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Žπ‘  de 𝑋.
Observação 2. Utilizando as relações de De Morgan, obtemos que
(οΈƒ
)︃𝑐
⋃︁
⋂︁
i.
𝐴𝛼 =
𝐴𝑐𝛼
π›ΌβˆˆπΏ
π›ΌβˆˆπΏ
)︃𝑐
(οΈƒ
ii.
⋂︁
𝐴𝛼
π›ΌβˆˆπΏ
=
⋃︁
𝐴𝑐𝛼
π›ΌβˆˆπΏ
Assim, dada uma(οΈƒsequência
)︃𝑐(𝐴𝑛 )π‘›βˆˆN em uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž πœ’ de um conjunto 𝑋, a
⋂︁
⋃︁
interseção
𝐴𝑛 =
𝐴𝑐𝑛
também é um elemento de πœ’
π‘›βˆˆN
π‘›βˆˆN
Exemplo 1. Sejam πœ’1 e πœ’2 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Žπ‘  de um conjunto 𝑋. Então πœ’3 = πœ’1 ∩ πœ’2
também é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž. Com efeito, vamos verificar cada uma das condições.
i. Como πœ’1 é 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž temos que βˆ…, 𝑋 ∈ πœ’1 . Analogamente temos que βˆ…, 𝑋 ∈ πœ’2 .
Logo, temos que βˆ…, 𝑋 ∈ πœ’3 .
ii. Seja 𝐴 ∈ πœ’3 . Temos então que 𝐴 ∈ πœ’1 e como πœ’1 é 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž temos que 𝐴𝑐 ∈ πœ’1 .
Analogamente obtemos que 𝐴𝑐 ∈ πœ’2 e portanto 𝐴𝑐 ∈ πœ’3 .
iii. Seja (𝐴𝑛 )π‘›βˆˆN uma sequência de conjuntos em πœ’3 . Temos que (𝐴𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ πœ’1 e como
⋃︁
⋃︁
este é 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž segue que
𝐴𝑛 ∈ πœ’1 . Analogamente temos que
𝐴𝑛 ∈ πœ’2 e
π‘›βˆˆN
consequentemente
⋃︁
π‘›βˆˆN
𝐴𝑛 ∈ πœ’3 .
π‘›βˆˆN
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
16
Mostramos portando que πœ’3 é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž.
Observação 3. Fizemos a demontração do Exemplo 1 utilizando a interseção de dois
conjuntos para exibir a ideia chave. Obviamente o resultado continua sendo válido para
uma coleção qualquer de 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Žπ‘ , isto é, se (πœ’π›Ό )π›ΌβˆˆπΏ são 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Žπ‘  de um
⋂︁
conjunto 𝑋 então
πœ’π›Ό é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž do conjunto 𝑋.
π›ΌβˆˆπΏ
Exemplo 2. Dada uma colecão não vazia 𝐴 de subconjuntos de um conjunto 𝑋, existe
a menor 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de 𝑋 que contém 𝐴, denotada por πœ’(𝐴) e chamada de 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž
gerada por 𝐴, no seguinte sentido:
β€’ Se πœ’ é alguma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž que contém 𝐴, então πœ’(𝐴) βŠ‚ πœ’.
Com efeito, defina
πœ’(𝐴) =
⋂︁
πœ’π›Ό
π›ΌβˆˆπΏ
onde (πœ’π›Ό )π›ΌβˆˆπΏ são todas as 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Žπ‘  de 𝑋 que contém A. Observe que como P(𝑋)
é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de 𝑋 que contém 𝐴 então πœ’(𝐴) está bem definida e além disso,
utilizando a Observação 3 concluímos que πœ’(𝐴) é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž. Segue da definição
de πœ’(𝐴) que se πœ’ é alguma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž que contém 𝐴 então πœ’(𝐴) βŠ‚ πœ’.
Exemplo 3. Considere que 𝑋 = R. A 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de Borel B é a 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de R
gerada pelos intervalos abertos. Neste caso, um elemento 𝐴 ∈ B é chamado de conjunto
de Borel ou boreliano.
Observação 4. Note que a 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de Borel B também pode ser definida como
sendo a 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž gerada pelos intervalos fechados de R.
Definição 2. Um espaço mensurável é um par (𝑋, πœ’) onde 𝑋 é um conjunto qualquer e
πœ’ é uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de 𝑋. Além disso, os elementos de πœ’ serão chamados de conjuntos
πœ’βˆ’mensuráveis, ou, quando a 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž estiver implícita, serão chamados apenas de
mensuráveis.
1.2. Funções Mensuráveis
1.2
17
Funções Mensuráveis
No que segue, 𝑋 = (𝑋,πœ’) denota um espaço mensurável.
Definição 3. Uma função 𝑓 : 𝑋 βˆ’β†’ R é πœ’βˆ’ mensurável se, para cada 𝛼 ∈ R, o
conjunto
{π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 𝛼}
está em πœ’, ou seja , é mensurável.
Observação 5. Quando não houver risco de confusão a função será chamada apenas
de mensurável.
Observação 6. Se 𝐴 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 𝛼} ∈ πœ’ então 𝐡 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) ≀ 𝛼} ∈ πœ’
pois πœ’ é 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž. Além disso, segue imediatamente das propriedades de 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž
que 𝐢 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) < 𝛼} ∈ πœ’ e 𝐷 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) β‰₯ 𝛼} ∈ πœ’. Por outro lado, se
supomos que 𝐢 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) < 𝛼} ∈ πœ’, concluímos que 𝐴,𝐡,𝐷 ∈ πœ’. Portanto, na
definição de função mensurável poderíamos utilizar qualquer um dos conjuntos 𝐴,𝐡,𝐢
e 𝐷.
Exemplo 4. Toda função 𝑓 : 𝑋 βˆ’β†’ R constante é mensurável. Com efeito,
se 𝑓 (π‘₯) = 𝑐 βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 temos que
{π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 𝛼} =
⎧
βŽͺ
⎨ 𝑋 se 𝛼 < 𝑐;
βŽͺ
⎩ βˆ… se 𝛼 β‰₯ 𝑐;
sendo que estes sempre são conjuntos de qualquer 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de 𝑋.
Exemplo 5. Seja 𝐸 ∈ πœ’ um conjunto mensurável. A função característica
πœ’πΈ : 𝑋 βˆ’β†’ R definida por
πœ’πΈ (π‘₯) =
⎧
βŽͺ
⎨ 1 se π‘₯ ∈ 𝐸
βŽͺ
⎩ 0 se π‘₯ ∈
/𝐸
(1.1)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
18
é mensurável.
Com efeito, temos que
β€’ {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 𝛼} = βˆ… se 𝛼 β‰₯ 1 e βˆ… ∈ πœ’.
β€’ {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 𝛼} = 𝐸 se 0 ≀ 𝛼 < 1 e 𝐸 ∈ πœ’.
β€’ {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 𝛼} = 𝑋 se 𝛼 < 0 e 𝑋 ∈ πœ’.
Segue que πœ’πΈ é mensurável.
É possível mostrar que o conjunto 𝑀 (𝑋, πœ’) das funções reais πœ’βˆ’ mensuráveis formam um espaço vetorial com as operações usuais de soma e produto por escalar. Na
verdade é possível mostrar ainda mais, que é o que o próximo lema nos diz.
Lema 1. Sejam 𝑓,𝑔 ∈ 𝑀 (𝑋,πœ’) e 𝑐 ∈ R. Então as funções
i. 𝑐𝑓
ii. 𝑓 + 𝑔
iii. 𝑓 𝑔
iv. |𝑓 |
são mensuráveis.
Para demonstração veja [1] página 9.
Exemplo 6. Seja 𝑓 : 𝑋 βˆ’β†’ R uma função. Defina as funções
β€’ 𝑓 + : 𝑋 βˆ’β†’ R dada por 𝑓 + (π‘₯) = max(𝑓 (π‘₯),0).
β€’ 𝑓 βˆ’ : 𝑋 βˆ’β†’ R dada por 𝑓 βˆ’ (π‘₯) = max(βˆ’π‘“ (π‘₯),0).
As funções acima são chamadas respectivamente de parte positiva e parte negativa
de 𝑓 e valem as seguintes igualdades:
1.2. Funções Mensuráveis
19
i. 𝑓 = 𝑓 + βˆ’ 𝑓 βˆ’
ii. |𝑓 | = 𝑓 + + 𝑓 βˆ’
Além disso, 𝑓 é mensurável se e somente se 𝑓 + e 𝑓 βˆ’ são mensuráveis. Mais ainda: 𝑓
é mensurável se e somente se |𝑓 | é mensurável. Com efeito, se 𝑓 + e 𝑓 βˆ’ são mensuráveis
o resultado segue utilizando o Lema 1. Por outro lado, se 𝑓 é mensurável então os
conjuntos 𝐸 + = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 0} e 𝐸 βˆ’ = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) < 0} são mensuráveis e além
disso, 𝑓 + (π‘₯) = 𝑓 (π‘₯)πœ’πΈ + (π‘₯) e 𝑓 βˆ’ (π‘₯) = 𝑓 (π‘₯)πœ’πΈ βˆ’ (π‘₯). Logo, 𝑓 + e 𝑓 βˆ’ são mensuráveis.
A última afirmação é imediata.
O próximo lema trata da convergência pontual de funções mensuráveis.
Lema 2. Seja (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN uma sequência em 𝑀 (𝑋,πœ’) e defina as funções
i. 𝑓 (π‘₯) = inf 𝑓𝑛 (π‘₯).
π‘›βˆˆN
ii. 𝐹 (π‘₯) = sup 𝑓𝑛 (π‘₯).
π‘›βˆˆN
iii. 𝑓 * (π‘₯) = lim inf 𝑓𝑛 (π‘₯).
π‘›βˆˆN
iv. 𝐹 * (π‘₯) = lim sup 𝑓𝑛 (π‘₯).
π‘›βˆˆN
Então as funções definidas acima são mensuráveis e se 𝑓 * = 𝐹 * então lim 𝑓𝑛 (π‘₯) é uma
π‘›βˆˆN
função mensurável.
Para demonstração veja [1] página 12.
Nós já vimos que se uma sequência de funções mensuráveis converge pontualmente
para uma função 𝑓 , então f é mensurável. O próximo lema nos garante que dada uma
função mensurável não negativa 𝑓 ∈ 𝑀 (𝑋,πœ’), é possível obter uma sequência monótona
de funções mensuráveis não negativas e com imagem finita πœ™π‘› tais que 𝑓 (π‘₯) = lim πœ™π‘› (π‘₯).
π‘›βˆˆN
É a partir destas funções que definiremos a Integral de Lebesgue.
Lema 3. Se 𝑓 é uma função não negativa em 𝑀 (𝑋,πœ’), então existe uma sequência
(πœ™π‘› )π‘›βˆˆN em 𝑀 (𝑋,πœ’) tal que
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
20
i. 0 ≀ πœ™π‘› (π‘₯) ≀ πœ™π‘›+1 (π‘₯) βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 , βˆ€π‘› ∈ N .
ii. 𝑓 (π‘₯) = lim πœ™π‘› (π‘₯) para cada π‘₯ ∈ 𝑋.
π‘›βˆˆN
iii. Cada πœ™π‘› tem um número finito de elementos na sua imagem.
Demonstração. Seja 𝑛 ∈ N fixado. A ideia da demonstração é dividir a imagem da
função 𝑓 em 𝑛2𝑛 conjuntos e a partir de suas pré-imagens definir a função πœ™π‘› .
Com efeito, se π‘˜ = 0, 1, ..., π‘˜2𝑛 βˆ’ 1 defina o conjunto
πΈπ‘˜π‘› = {π‘₯ ∈ 𝑋; π‘˜2βˆ’π‘› ≀ 𝑓 (π‘₯) < (π‘˜ + 1)2βˆ’π‘› },
e se π‘˜ = 𝑛2𝑛 defina πΈπ‘˜π‘› = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) β‰₯ 𝑛}.
É imediato que os conjuntos πΈπ‘˜π‘› são disjuntos e
𝑛
𝑛2
⋃︁
πΈπ‘˜π‘› = 𝑋. Sendo assim, defina
π‘˜=0
a função πœ™π‘› da seguinte maneira:
𝑛
πœ™π‘› (π‘₯) =
𝑛2
βˆ‘οΈ
π‘˜2βˆ’π‘› πœ’πΈπ‘˜π‘› .
(1.2)
π‘˜=0
Segue diretamente de sua definição que πœ™π‘› (π‘₯) β‰₯ 0 βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 e, pelo Lema 1, temos
que a função πœ™π‘› é mensurável.
Vamos mostrar agora que a sequência de funções (πœ™π‘› )π‘›βˆˆN satisfaz as propriedades
enunciadas:
i. Claramente temos que πœ™π‘› (π‘₯) β‰₯ 0 βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋. Seja então π‘₯ ∈ 𝑋 arbitrário. Temos
que π‘₯ ∈ πΈπ‘˜1 𝑛 para algum π‘˜1 e π‘₯ ∈ πΈπ‘˜2 (𝑛+1) para algum π‘˜2 com 2π‘˜1 ≀ π‘˜2 .
Temos assim que
πœ™π‘› (π‘₯) = π‘˜1 2βˆ’π‘› ≀
isto é, πœ™π‘› (π‘₯) ≀ πœ™π‘›+1 (π‘₯).
π‘˜2 βˆ’π‘›
2 = π‘˜2 2βˆ’(𝑛+1) = πœ™π‘›+1 (π‘₯),
2
1.3. Medida
21
ii. Seja π‘₯ ∈ 𝑋 e πœ– > 0. Temos que existe 𝑛0 ∈ N tal que 2βˆ’π‘›0 < πœ–. Como
πœ™π‘›0 (π‘₯) = π‘˜2βˆ’π‘›0 ≀ 𝑓 (π‘₯) < (π‘˜ + 1)2βˆ’π‘›0
para algum k, segue que |𝑓 (π‘₯) βˆ’ πœ™π‘›0 (π‘₯)| ≀ 2βˆ’π‘›0 < πœ–.
iii. Segue imediatamente da definição de πœ™π‘› .
O lema está, portanto, demonstrado.
1.3
Medida
Nós já introduzimos a noção de espaço mensurável (𝑋, πœ’), que consiste em um conjunto 𝑋 e uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž πœ’. Vamos agora considerar funções, chamadas de medidas,
definidas em πœ’ e tomando valores em R βˆͺ {+∞} = RΜ„. Estas funções podem ser intuitivamente interpretadas como a área, comprimento e massa. Portanto, é natural que
o seu valor seja nulo no conjunto βˆ… e que esta seja aditiva para a união de conjuntos
disjuntos.
Definição 4 (Medida). Uma medida é uma função πœ‡ definida em uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž πœ’
de um conjunto 𝑋 e tomando valores em R βˆͺ {+∞} = RΜ„ tal que :
i. πœ‡(βˆ…) = 0.
ii. πœ‡(𝐸) β‰₯ 0 βˆ€πΈ ∈ πœ’.
iii. Se (𝐸𝑖 )π‘–βˆˆN βŠ‚ πœ’ é uma sequência de conjuntos disjuntos entre si, então
(οΈƒ
πœ‡
)οΈƒ
⋃︁
π‘–βˆˆN
𝐸𝑖
=
βˆ‘οΈ
πœ‡(𝐸𝑖 )
(1.3)
π‘–βˆˆN
Observação 7. Como nós permitimos que uma medida assuma o valor +∞, é possível
que o lado direito da equação (1.3) seja uma série divergente. Por outro lado, se
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
22
πœ‡(𝐸) ΜΈ= +∞ βˆ€πΈ ∈ πœ’ dizemos que πœ‡ é finita.
Mais geralmente, se existe uma sequência (𝐸𝑖 )π‘–βˆˆN βŠ‚ πœ’ tal que πœ‡(𝐸𝑖 ) ΜΈ= +∞, βˆ€π‘– ∈ N
⋃︁
e𝑋=
𝐸𝑖 , dizemos que a medida πœ‡ é 𝜎 βˆ’ 𝑓 π‘–π‘›π‘–π‘‘π‘Ž .
π‘–βˆˆN
Exemplo 7. Seja 𝑋 = R e πœ’ = 𝐡 a 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de Borel. É possível mostrar que
existe uma única medida πœ†, chamada de medida de Lebesgue, definida em 𝐡 tal que se
𝐸 = (π‘Ž,𝑏) ∈ 𝐡 então πœ†(𝐸) = 𝑏 βˆ’ π‘Ž. Esta medida não é finita mas é 𝜎 βˆ’ 𝑓 π‘–π‘›π‘–π‘‘π‘Ž.
Vamos agora enunciar e provar alguns resultados que serão utilizados futuramente.
Lema 4. Seja πœ‡ uma medida definida em uma 𝜎 βˆ’π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž πœ’. Se 𝐸 e 𝐹 pertencem a πœ’ e
𝐸 βŠ‚ 𝐹 , então πœ‡(𝐸) ≀ πœ‡(𝐹 ). Além disso, se πœ‡(𝐸) < +∞ então πœ‡(𝐹 βˆ–πΈ) = πœ‡(𝐹 )βˆ’πœ‡(𝐸).
Demonstração. Basta notar que 𝐹 = 𝐸 βˆͺ (𝐹 βˆ– 𝐸). Assim, πœ‡(𝐹 ) = πœ‡(𝐸) + πœ‡(𝐹 βˆ– 𝐸) pois
𝐸 e 𝐹 βˆ– 𝐸 são disjuntos.
Lema 5. Seja πœ‡ uma medida definida em uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž πœ’.
a. Se (𝐸𝑖 )π‘–βˆˆN é uma sequência crescente de πœ’, isto é, se 𝐸𝑖 βŠ‚ 𝐸𝑖+1 βˆ€π‘– ∈ N então
(οΈƒ
)οΈƒ
⋃︁
πœ‡
𝐸𝑖
= lim πœ‡(𝐸𝑖 ).
π‘–β†’βˆž
π‘–βˆˆN
(1.4)
b. Se (𝐹𝑖 )π‘–βˆˆN é uma sequência decrescente de πœ’, isto é, se 𝐹𝑖+1 βŠ‚ 𝐹𝑖 βˆ€π‘– ∈ N
e πœ‡(𝐹1 ) ΜΈ= +∞ então
(οΈƒ
πœ‡
)οΈƒ
⋂︁
π‘–βˆˆN
𝐹𝑖
= lim πœ‡(𝐹𝑖 ).
π‘–β†’βˆž
(1.5)
Demonstração. Vamos fazer a demonstração de cada item.
a. Se πœ‡(𝐸𝑖 ) = +∞ para algum 𝑖 ∈ N então ambos os lados da equação (1.4) são
infinitos. Podemos, portanto, assumir que πœ‡(𝐸𝑖 ) ΜΈ= ∞ βˆ€π‘– ∈ N. Defina a sequência
(𝐴𝑖 )π‘–βˆˆN de conjuntos onde 𝐴1 = 𝐸1 e 𝐴𝑖+1 = 𝐸𝑖+1 βˆ– 𝐸𝑖 . Temos que 𝐴𝑖 ∩ 𝐴𝑗 = βˆ… se
1.3. Medida
23
⋃︁
𝑖 ΜΈ= 𝑗 e
𝐴𝑖 =
π‘–βˆˆN
⋃︁
𝐸𝑖 . Logo,
π‘–βˆˆN
(οΈƒ
πœ‡
)οΈƒ
⋃︁
(οΈƒ
=
𝐸𝑖
π‘–βˆˆN
𝑖
βˆ‘οΈ
)οΈƒ
⋃︁
=
𝐴𝑖
βˆ‘οΈ
πœ‡(𝐴𝑖 ) = lim
π‘–β†’βˆž
π‘–βˆˆN
π‘–βˆˆN
πœ‡(π΄π‘š )
(1.6)
π‘š=1
ou seja,
(οΈƒ
)οΈƒ
⋃︁
πœ‡
(οΈƒ
= lim πœ‡
𝐸𝑖
π‘–β†’βˆž
π‘–βˆˆN
𝑖
⋃︁
)οΈƒ
= lim πœ‡(𝐸𝑖 )
π΄π‘š
(1.7)
π‘–β†’βˆž
π‘š=1
b. Defina 𝐡𝑖 = 𝐹1 βˆ– 𝐹𝑖 . Temos que a sequência (𝐡𝑖 )π‘–βˆˆN é crescente e
⋂︁
𝐹𝑖 =
π‘–βˆˆN
⋃︁
𝐡𝑖 .
π‘–βˆˆN
Aplicando a parte (π‘Ž) do lema, obtemos
(οΈƒ
)οΈƒ
⋂︁
πœ‡
(οΈƒ
)οΈƒ
⋃︁
=πœ‡
𝐹𝑖
π‘–βˆˆN
𝐡𝑖
= lim πœ‡(𝐡𝑖 ).
(1.8)
π‘–β†’βˆž
π‘–βˆˆN
Como πœ‡(𝐡𝑖 ) ΜΈ= ∞ βˆ€π‘– ∈ N, segue pelo Lema 4 que πœ‡(𝐡𝑖 ) = πœ‡(𝐹1 ) βˆ’ πœ‡(𝐹𝑖 ). Assim,
temos que
(οΈƒ
lim πœ‡(𝐹𝑖 ) = πœ‡(𝐹1 ) βˆ’ lim πœ‡(𝐡𝑖 ) = πœ‡(𝐹1 ) βˆ’ πœ‡
π‘–β†’βˆž
Como
⋃︁
π‘–βˆˆN
𝐡𝑖 = 𝐹1 βˆ–
π‘–β†’βˆž
⋂︁
)οΈƒ
⋃︁
𝐡𝑖
.
(1.9)
π‘–βˆˆN
𝐹𝑖 , segue que
π‘–βˆˆN
(οΈƒ
πœ‡
)οΈƒ
⋃︁
𝐡𝑖
(οΈƒ
= πœ‡(𝐹1 ) βˆ’ πœ‡
π‘–βˆˆN
)οΈƒ
⋂︁
𝐹𝑖
,
(1.10)
π‘–βˆˆN
ou seja,
(οΈƒ
lim πœ‡(𝐹𝑖 ) = πœ‡(𝐹1 ) βˆ’
π‘–β†’βˆž
(οΈƒ
πœ‡(𝐹1 ) βˆ’ lim πœ‡
π‘–β†’βˆž
)οΈƒ)οΈƒ
⋂︁
π‘–βˆˆN
𝐹𝑖
(οΈƒ
= lim πœ‡
π‘–β†’βˆž
)οΈƒ
⋂︁
π‘–βˆˆN
𝐹𝑖
(1.11)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
24
Definição 5 (Espaço de Medida). Um espaço de media é uma tripla (𝑋,πœ’, πœ‡) consistindo de um conjunto 𝑋, uma 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž πœ’ e uma medida πœ‡ definida em πœ’.
Exemplo 8. Considere o espaço de medida 𝑋 = (R,𝐡, πœ†) onde 𝐡 é a 𝜎 βˆ’ π‘Žπ‘™π‘”π‘’π‘π‘Ÿπ‘Ž de
Borel e πœ† é a medida de Lebesgue.
1. Se π‘Ž ∈ R, temos que o conjunto {π‘Ž} ∈ 𝐡 pois
)οΈ‚
⋂︁ (οΈ‚
1
1
π‘Ž βˆ’ ,π‘Ž +
{π‘Ž} =
𝑛
𝑛
(1.12)
(οΈ‚
)οΈ‚
1
1
2
πœ†({π‘Ž}) = lim πœ†( π‘Ž βˆ’ , π‘Ž +
) = lim
= 0.
π‘›β†’βˆž
π‘›β†’βˆž 𝑛
𝑛
𝑛
(1.13)
π‘›βˆˆN
e, pelo mesmo motivo,
2. Concluímos a partir do ítem (1) que se 𝐸 βŠ‚ R é um conjunto enumerável, então
𝐸 ∈ 𝐡 e πœ†(𝐸) = 0. Em particular, o conjunto Q dos números racionais é
mensurável e tem medida nula.
3. Temos claramente que
)οΈ‚
)οΈ‚
)οΈ‚
⋂︁ (οΈ‚
⋂︁ (οΈ‚
⋂︁ (οΈ‚
1
1
1
1
[π‘Ž,𝑏) =
π‘Ž βˆ’ , 𝑏 , (π‘Ž,𝑏] =
e [π‘Ž,𝑏] =
.
π‘Ž, 𝑏 +
π‘Ž βˆ’ ,𝑏 +
𝑛
𝑛
𝑛
𝑛
π‘›βˆˆN
π‘›βˆˆN
π‘›βˆˆN
(1.14)
Logo, πœ† ((π‘Ž,𝑏)) = πœ† ([π‘Ž,𝑏)) = πœ† ((π‘Ž,𝑏]) = πœ† ([π‘Ž,𝑏]).
4. Se 𝐴 βŠ‚ R é um conjunto aberto, então πœ†(𝐴) = 0 se, e somente se, 𝐴 = βˆ…. Com
efeito, se π‘₯ ∈ 𝐴 e 𝐴 é aberto, então existe 𝛿 > 0 tal que (π‘Ž βˆ’ 𝛿, π‘Ž + 𝛿) βŠ‚ 𝐴 e
consequentemente πœ†(𝐴) β‰₯ 2𝛿 pelo Lema 4. Por outro lado, se 𝐴 = βˆ… temos por
definição de medida que πœ†(𝐴) = 0.
Para finalizar esta seção, vamos introduzir uma terminologia muito útil e que será
utilizada posteriormente. Dizemos que determinada proposição é válida πœ‡βˆ’π‘ž.𝑑.𝑝. (quase
1.4. A Integral
25
todo ponto) se existe um conjunto de medida nula 𝑁 ∈ πœ’ tal que a proposição em
questão é válida em 𝑋 βˆ– 𝑁 . Quando a medida πœ‡ estiver subentendida diremos apenas
que a proposição é válida π‘ž.𝑑.𝑝.
1.4
A Integral
Nesta seção nós vamos definir o conceito de integral primeiramente para funções mensuráveis simples não negativas e, posteriormente, para funções reais mensuráveis arbitrárias. O resultado principal é o Teorema da Convergência Monótona que é uma
ferramenta básica para o desenvolvimento posterior da teoria. Sendo assim, no que
segue 𝑋 = (𝑋,πœ’,πœ‡) como espaço de medida fixo e vamos denotar o conjunto de todas as funções πœ’βˆ’mensuráveis por 𝑀 = 𝑀 (𝑋, πœ’) e o conjunto de todas as funções
πœ’βˆ’mensuráveis não negativas por 𝑀 + = 𝑀 + (𝑋, πœ’).
Definição 6. Uma função πœ™ : 𝑋 β†’ R é simples quando seu conjunto imagem é finito.
Temos que uma função simples πœ™ pode ser representada da seguinte forma
πœ™=
𝑛
βˆ‘οΈ
π‘Žπ‘– πœ’πΈπ‘– ,
(1.15)
𝑖=1
onde π‘Žπ‘– ∈ R e 𝐸𝑖 ∈ πœ’, para todo 𝑖 ∈ {1,2,...,𝑛}. Mais ainda: se exigimos que os π‘Žπ‘–
sejam distintos entre si, e que os 𝐸𝑖 sejam disjuntos entre si, esta representação é única
e chamada de Representação Padrão da função simples πœ™.
Definição 7 (Integral de uma função simples). Seja πœ™ ∈ 𝑀 + uma função simples com
representação padrão dada por
πœ™=
𝑛
βˆ‘οΈ
𝑖=1
π‘Žπ‘– πœ’πΈπ‘– .
(1.16)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
26
Então a integral de πœ™ com respeito a medida πœ‡ é definida como
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ =
𝑛
βˆ‘οΈ
π‘Žπ‘– πœ‡ (𝐸𝑖 ) .
(1.17)
𝑖=1
Observação 8. Na definição acima e no que segue estamos convencionando que
0 · ∞ = 0.
Exemplo 9. Considerando 𝑋 = (R, B, πœ†), temos que a integral da função identicamente
nula é igual a zero, enquanto que a integral de qualquer outra função constante não
negativa é +∞.
Enunciamos a seguir algumas propriedades elementares da integral.
Lema 6.
i. Se πœ™ e πœ“ são funções simples em 𝑀 + e 𝑐 β‰₯ 0, então:
a.
∫︁
∫︁
(πœ™ + πœ“)π‘‘πœ‡ =
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ +
πœ“π‘‘πœ‡
(1.18)
b.
∫︁
∫︁
π‘πœ™π‘‘πœ‡ = 𝑐
πœ™π‘‘πœ‡
(1.19)
ii. Se πœ† é definida em πœ’ como sendo
∫︁
πœ†(𝐸) =
πœ™πœ’πΈ π‘‘πœ‡
(1.20)
então πœ† é uma medida sobre πœ’.
Para demonstração veja [1] página 29.
Definição 8 (Integral de uma função mensurável não negativa). Seja 𝑓 ∈ 𝑀 + e
Ξ¦ o conjunto de todas as funções simples de 𝑀 + tais que πœ™(π‘₯) ≀ 𝑓 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋.
1.4. A Integral
27
i. Definimos a integral de 𝑓 com respeito a medida πœ‡ como sendo
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = sup
πœ™π‘‘πœ‡
(1.21)
πœ™βˆˆΞ¦
ii. Se 𝑓 ∈ 𝑀 + e 𝐸 ∈ πœ’ então 𝑓 πœ’πΈ ∈ 𝑀 + e a integral de 𝑓 sobre 𝐸 é definida como
sendo
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ =
𝑓 πœ’πΈ π‘‘πœ‡.
(1.22)
𝐸
O lema a seguir é consequência imediata da definição acima e nos garante que a
integral é monótona com respeito ao integrando e com respeito ao conjunto sobre o qual
se está integrando.
Lema 7.
1. Se 𝑓 e 𝑔 pertencem a 𝑀 + e 𝑓 (π‘₯) ≀ 𝑔(π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋, então
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ ≀
π‘”π‘‘πœ‡.
(1.23)
𝑓 π‘‘πœ‡
(1.24)
2. Se 𝑓 ∈ 𝑀 + e 𝐸, 𝐹 ∈ πœ’ com 𝐸 βŠ‚ 𝐹 então
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ ≀
𝐸
𝐹
Agora estamos preparados para enunciar e provar o resultado mais importante desta
seção . O Teorema da Convergência Monótona, devido a B. Levi nos dá a ferramenta
chave para as obter propriedades fundamentais de convergência da Integral de Lebesgue.
Teorema 1 (Convergência Monótona). Se (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝑀 + é uma sequência monótona
crescente, isto é, 𝑓𝑛 (π‘₯) ≀ 𝑓𝑛+1 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 e (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN converge pontualmente para uma
função 𝑓 , então 𝑓 ∈ 𝑀 + e vale que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.25)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
28
Demonstração. Pelo Lema 2 temos que a função 𝑓 é mensurável.
Como 𝑓𝑛 (π‘₯) ≀ 𝑓𝑛+1 (π‘₯) ≀ 𝑓 (π‘₯), segue, pelo Lema 7 que
∫︁
∫︁
∫︁
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ ≀
𝑓𝑛+1 π‘‘πœ‡ ≀
𝑓 π‘‘πœ‡, βˆ€π‘› ∈ N.
(1.26)
Portanto, temos que
∫︁
lim
π‘›β†’βˆž
∫︁
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ ≀
𝑓 π‘‘πœ‡.
(1.27)
Para mostrar a desigualdade oposta, seja 𝛼 ∈ R com 0 < 𝛼 < 1, πœ™ uma função simples
em 𝑀 + satisfazendo πœ™(π‘₯) ≀ 𝑓 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 e defina para cada 𝑛 ∈ N o conjunto
𝐴𝑛 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓𝑛 (π‘₯) > π›Όπœ™(π‘₯)}.
(1.28)
Afirmação 1. Temos que 𝐴𝑛 ∈ πœ’, βˆ€π‘› ∈ N. Com efeito, se πœ™ =
βˆ‘οΈ€π‘š
𝑖=1 π‘Žπ‘– πœ’πΈπ‘–
é a
representação padrão da função πœ™, temos que
𝐴𝑛 = ({π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓𝑛 (π‘₯) β‰₯ π›Όπ‘Ž1 } ∩ 𝐸1 ) βˆͺ ... βˆͺ ({π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓𝑛 (π‘₯) β‰₯ π›Όπ‘Žπ‘š } ∩ πΈπ‘š )
(1.29)
e portanto 𝐴𝑛 ∈ πœ’.
Afirmação 2. Temos que 𝐴𝑛 βŠ‚ 𝐴𝑛+1 pois se π‘₯ ∈ 𝐴𝑛 , temos que 𝑓𝑛+1 β‰₯ 𝑓𝑛 (π‘₯) >
π›Όπœ™(π‘₯).
Afirmação 3. Temos que 𝑋 =
⋃︁
𝐴𝑛 . Com efeito, se π‘₯ ∈ 𝑋, então existe 𝑛0 ∈ N tal
π‘›βˆˆN
que πœ™(π‘₯) ≀ 𝑓𝑛0 (π‘₯) ≀ 𝑓 (π‘₯) pois 𝑓 (π‘₯) = limπ‘›βˆˆN 𝑓𝑛 (π‘₯) e, consequentemente, π‘₯ ∈ 𝐴𝑛0 .
Aplicando o Lema 7 obtemos que
∫︁
∫︁
π›Όπœ™π‘‘πœ‡ ≀
𝐴𝑛
∫︁
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ ≀
𝐴𝑛
∫︁
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ =
𝑋
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.30)
1.4. A Integral
29
Afirmação 4. Temos que
∫︁
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž 𝐴
𝑛
πœ™π‘‘πœ‡.
(1.31)
Com efeito, pelo Lema 6 temos que a função πœ† definida em πœ’ por
∫︁
πœ†(𝐸) =
πœ™πœ’πΈ π‘‘πœ‡
(1.32)
é uma medida e, utilizando o Lema 5 obtemos que
∫︁
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ = πœ†(𝑋) = lim πœ†(𝐴𝑛 ) = lim
π‘›β†’βˆž
π‘›β†’βˆž 𝐴
𝑛
πœ™π‘‘πœ‡.
(1.33)
Sendo assim, passando o limite em (1.30) obtemos que
∫︁
𝛼
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ ≀ lim
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.34)
Como a desigualdade acima vale para qualquer 𝛼 ∈ R com 0 < 𝛼 < 1, temos que
∫︁
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ ≀ lim
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡,
π‘›β†’βˆž
(1.35)
e como πœ™ é uma função simples arbitrária em 𝑀 + com πœ™(π‘₯) ≀ 𝑓 (π‘₯) βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋, segue que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = sup
∫︁
πœ™π‘‘πœ‡ ≀ lim
π‘›β†’βˆž
πœ™βˆˆΞ¦
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡,
(1.36)
onde Ξ¦ é o conjunto de todas as funções simples πœ™ em 𝑀 + com πœ™(π‘₯) ≀ 𝑓 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋.
Utilizando as desigualdades (1.27) e (1.36) concluímos que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.37)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
30
Observação 9. Note que não estamos assumindo que ambos os lados da equação (1.51)
(οΈ€βˆ«οΈ€
)οΈ€
são finitos. Com efeito, a sequência
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ π‘›βˆˆN é monótona crescente de números
reais estendidos tendo um limite em RΜ„ mas talvez não em R.
Vamos agora expor alguns resultados imediatos do Teorema da Convergência Monótona.
Corolário 1.
i. Se 𝑓 ∈ 𝑀 + e 𝑐 β‰₯ 0, então 𝑐𝑓 ∈ 𝑀 + e
∫︁
∫︁
𝑐𝑓 π‘‘πœ‡ = 𝑐
𝑓 π‘‘πœ‡.
(1.38)
ii. Se 𝑓,𝑔 ∈ 𝑀 + , então 𝑓 + 𝑔 ∈ 𝑀 + e
∫︁
∫︁
(𝑓 + 𝑔)π‘‘πœ‡ =
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ +
π‘”π‘‘πœ‡.
(1.39)
Demonstração. Vamos provar cada um dos ítens.
i. Se 𝑐 = 0 o resultado é imediato. Se 𝑐 > 0, seja (πœ™π‘› )π‘›βˆˆN uma sequência monótona
crescente de funções simples convergindo para a função 𝑐𝑓 (vide Lema 3). Aplicando
o Lema 6 e o Teorema da Convergência Monótona obtemos que
∫︁
∫︁
𝑐𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
∫︁
π‘πœ™π‘› π‘‘πœ‡ = 𝑐 lim
π‘›β†’βˆž
∫︁
πœ™π‘› π‘‘πœ‡ = 𝑐
𝑓 π‘‘πœ‡.
(1.40)
ii. Demonstração análoga a feita no item anterior.
O próximo resultado também é uma consequência do Teorema da Convergência
Monótona. Ele é muito importante uma vez que nos permite lidar com sequências de
funções que não sejam monótonas.
1.4. A Integral
31
Corolário 2 (Lema de Fatou). Se (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝑀 + então
∫︁ (︁
∫︁
)︁
lim inf 𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ ≀ lim inf
π‘›β†’βˆž
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.41)
Demonstração. Para cada π‘š ∈ N, defina π‘”π‘š (π‘₯) = 𝑖𝑛𝑓 {π‘“π‘š (π‘₯), π‘“π‘š+1 (π‘₯), ...}, βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋.
Assim, temos que se π‘š ≀ 𝑛, então π‘”π‘š (π‘₯) ≀ 𝑓𝑛 (π‘₯) βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 e, consequentemente,
∫︁
∫︁
π‘”π‘š π‘‘πœ‡ ≀
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡,
(1.42)
ou seja,
∫︁
∫︁
π‘”π‘š π‘‘πœ‡ ≀ lim inf
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.43)
Como a sequência (π‘”π‘š )π‘šβˆˆN é monótona crescente, isto é, π‘”π‘š (π‘₯) ≀ π‘”π‘š+1 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 e
o seu limite é lim inf 𝑓𝑛 , segue, pelo Teorema da Convergência Monótona, que
π‘›β†’βˆž
∫︁ (︁
∫︁
∫︁
)︁
lim inf 𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ = lim
π‘”π‘š π‘‘πœ‡ ≀ lim inf 𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
π‘›β†’βˆž
π‘šβ†’βˆž
π‘›β†’βˆž
(1.44)
Corolário 3. Se 𝑓 ∈ 𝑀 + e πœ† é definida em πœ’ por
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡, βˆ€πΈ ∈ πœ’,
πœ†(𝐸) =
(1.45)
𝐸
então πœ† é uma medida.
Demonstração imediata a partir do Teorema da Convergência Monótona. Para maiores detalhes veja [1] página 34.
Corolário 4. Suponha que 𝑓 ∈ 𝑀 + . Então 𝑓 (π‘₯) = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. se, e somente se,
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = 0
(1.46)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
32
Demonstração. Se a equação (1.46) é valida, defina, para cada 𝑛 ∈ N, o conjunto
{οΈ‚
}οΈ‚
1
𝐸𝑛 = π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) >
.
𝑛
Temos assim que 𝑓 (π‘₯) β‰₯
1
πœ’πΈ (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 e então
𝑛 𝑛
∫︁
0=
(1.47)
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ β‰₯
1
1
πœ’πΈπ‘› π‘‘πœ‡ = πœ‡(𝐸𝑛 ) β‰₯ 0,
𝑛
𝑛
(1.48)
ou seja, πœ‡(𝐸𝑛 ) = 0. Se 𝑁 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 0} temos então que
𝑁=
⋃︁
𝐸𝑛 ,
(1.49)
π‘›βˆˆN
e como 𝐸𝑛 βŠ‚ 𝐸𝑛+1 segue, pelo Lema 7, que πœ‡(𝑁 ) = 0, ou seja, que
𝑓 (π‘₯) = 0, βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 βŠ‚ 𝑁
com πœ‡(𝑁 ) = 0.
Reciprocamente, se 𝑓 (π‘₯) = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. e 𝐸 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑓 (π‘₯) > 0}, então πœ‡(𝐸) = 0 e
definindo para cada 𝑛 ∈ N, 𝑓𝑛 (π‘₯) = π‘›πœ’πΈ , obtemos que 𝑓 β‰₯ lim inf 𝑓𝑛 e, pelo Lema de
π‘›β†’βˆž
Fatou, segue que
∫︁
0≀
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ ≀ lim inf
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ = 0.
(1.50)
Abaixo, apresentamos uma versão do Teorema da Convergência Monótona substituindo a convergência pontual em 𝑋 pela convergência πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝..
Corolário 5 (Teorema da Convergência Monótona com convergência πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝.). Se
(𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝑀 + é uma sequência monótona crescente, isto é, 𝑓𝑛 (π‘₯) ≀ 𝑓𝑛+1 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋
1.5. Funções Integráveis
33
e (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN converge πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. para uma função 𝑓 , então 𝑓 ∈ 𝑀 + e vale que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
π‘›β†’βˆž
(1.51)
Demonstração. Seja 𝑁 o conjunto de medida nula tal que
𝑓 (π‘₯) = lim 𝑓𝑛 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑀 = 𝑋 βˆ– 𝑁.
π‘›β†’βˆž
Temos que 𝑓𝑛 πœ’π‘€ converge pontualmente para 𝑓 πœ’π‘€ em 𝑋 e pelo Teorema da Convergência Monótona segue que
∫︁
∫︁
𝑓 πœ’π‘€ π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 πœ’π‘€ π‘‘πœ‡.
(1.52)
Como πœ‡(𝑁 ) = 0, segue que 𝑓 πœ’π‘ = 𝑓𝑛 πœ’π‘ = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝 e pelo Corolário 4 obtemos que
∫︁
∫︁
𝑓 πœ’π‘ π‘‘πœ‡ =
𝑓𝑛 πœ’π‘ π‘‘πœ‡ = 0 βˆ€π‘› ∈ N.
(1.53)
Como 𝑓 = 𝑓 πœ’π‘€ + 𝑓 πœ’π‘ e 𝑓𝑛 = 𝑓𝑛 πœ’π‘€ + 𝑓𝑛 πœ’π‘ o resultado segue.
Corolário 6. Suponha que (𝑔𝑛 )π‘›βˆˆN seja uma sequência em 𝑀 + . Então
∫︁ (οΈƒ βˆ‘οΈ
)οΈƒ
𝑔𝑛
π‘›βˆˆN
π‘‘πœ‡ =
βˆ‘οΈ (οΈ‚βˆ«οΈ
)οΈ‚
𝑔𝑛 π‘‘πœ‡ .
(1.54)
π‘›βˆˆN
Demonstração. Basta aplicar o Teorema da Convergência Monótona à sequência
𝑓𝑛 = 𝑔1 + 𝑔2 + 𝑔3 + ... + 𝑔𝑛 .
1.5
Funções Integráveis
Na seção anterior nós definimos a Integral de Lebesgue de uma função arbitrária
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
34
𝑓 ∈ 𝑀 + . Nesta seção vamos estender este conceito para funções em 𝑀 , isto é, funções mensuráveis podendo tomar valores positivos ou negativos. Para isto, chamamos
a atenção ao fato de que se 𝑓 ∈ 𝑀 , então sua parte positiva 𝑓 + e sua parte negativa 𝑓
são elementos de 𝑀 + , estando, portanto, bem definidos os números ( em RΜ„)
∫︁
𝑓 + π‘‘πœ‡ e
∫︁
𝑓 βˆ’ π‘‘πœ‡.
(1.55)
Definição 9. A conjunto 𝐿 = 𝐿(𝑋,πœ’, πœ‡) das funções integráveis a Lebesgue com respeito
a medida πœ‡ consiste no conjunto de todas as funções mensuráveis 𝑓 ∈ 𝑀 , tais que a
suas partes positiva e negativa possuem integral finita, ou seja,
{οΈ‚
𝐿 = 𝐿(𝑋,πœ’, πœ‡) =
∫︁
𝑓 ∈ 𝑀 (𝑋,πœ’);
∫︁
+
𝑓 π‘‘πœ‡ < +∞ 𝑒
}οΈ‚
𝑓 π‘‘πœ‡ < +∞ .
βˆ’
(1.56)
Neste caso, se 𝑓 ∈ 𝐿 então sua integral com respeito a medida πœ‡ é definida por
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ =
∫︁
+
𝑓 π‘‘πœ‡ βˆ’
𝑓 βˆ’ π‘‘πœ‡,
(1.57)
e, se 𝐸 ∈ πœ’, definimos a integral de 𝑓 sobre 𝐸 com respeito a medida πœ‡ por
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ =
∫︁
𝑓 πœ’πΈ π‘‘πœ‡ =
+
𝑓 πœ’πΈ π‘‘πœ‡ βˆ’
∫︁
𝑓 βˆ’ πœ’πΈ π‘‘πœ‡.
(1.58)
𝐸
O objetivo principal desta seção é o Teorema da Convergência Dominada de Lebesgue, que segundo o próprio Lebesgue, é o o teorema mais importante de sua teoria.
Para isto, vamos enunciar e provar alguns resultados.
O resultado a seguir é comumente chamado de "propriedade da integrabilidade
absoluta"da integral de Lebesgue.
Lema 8. Seja 𝑓 ∈ 𝑀 . Então 𝑓 ∈ 𝐿, ou seja, 𝑓 é integrável se, e somente se, |𝑓 | é
1.5. Funções Integráveis
35
integrável. Nesse caso, temos que
βƒ’βˆ«οΈ
βƒ’ ∫︁
βƒ’
βƒ’
βƒ’ 𝑓 π‘‘πœ‡βƒ’ ≀ |𝑓 |π‘‘πœ‡.
βƒ’
βƒ’
(1.59)
Demonstração. Por definição temos que 𝑓 ∈ 𝐿 se, e somente se, 𝑓 + e 𝑓 βˆ’ pertencem a
𝑀 + e têm integral finita. Como |𝑓 | = 𝑓 + + 𝑓 βˆ’ , segue que 𝑓 é integrável se, e somente
se, |f| é integrável. Além disso, temos que
βƒ’ βƒ’βˆ«οΈ
βƒ’ βƒ’βˆ«οΈ
βƒ’ ∫︁
βƒ’ βƒ’βˆ«οΈ
βƒ’βˆ«οΈ
∫︁
βƒ’ βƒ’
βƒ’ βƒ’
βƒ’
βƒ’ βƒ’
βƒ’
βƒ’ 𝑓 π‘‘πœ‡βƒ’ = βƒ’ 𝑓 + π‘‘πœ‡ βˆ’ 𝑓 βˆ’ π‘‘πœ‡βƒ’ ≀ βƒ’ 𝑓 + π‘‘πœ‡βƒ’ + βƒ’ 𝑓 βˆ’ π‘‘πœ‡βƒ’ = |𝑓 |π‘‘πœ‡.
βƒ’ βƒ’
βƒ’ βƒ’
βƒ’
βƒ’ βƒ’
βƒ’
(1.60)
Corolário 7. Se 𝑓 ∈ 𝑀 , 𝑔 é integrável e |𝑓 | ≀ |𝑔|, então 𝑓 é integrável e
∫︁
∫︁
|𝑓 |π‘‘πœ‡ ≀
|𝑔|π‘‘πœ‡.
(1.61)
Demonstração. Basta aplicar o lema anterior para concluir que |𝑓 | é integrável e, consequentemente, 𝑓 é integrável. Utilizando o Lema 7 obtém se a desigualdade desejada.
É possível mostrar que o conjunto 𝐿 = 𝐿(𝑋, πœ’,πœ‡), munido com as operações usuais
de soma e produto por escalar utilizadas para funções, é um espaço vetorial. A demonstração é canônica e pode ser encontrada em [1], página 43. Sendo assim, vamos apenas
enunciar o resultado.
Lema 9. Se 𝑓,𝑔 ∈ 𝐿 e 𝛼 ∈ R, então 𝑓 + 𝑔 ∈ 𝐿 assim como 𝛼𝑓 ∈ 𝐿 e além disso vale
que
i.
∫︁
∫︁
(𝑓 + 𝑔) π‘‘πœ‡ =
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ +
π‘”π‘‘πœ‡
(1.62)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
36
ii.
∫︁
∫︁
(𝛼𝑓 ) π‘‘πœ‡ = 𝛼
𝑓 π‘‘πœ‡,
(1.63)
ou seja, 𝐿 é um espaço vetorial real quando munido com as operações usuais de soma
e produto por escalar das funções.
Vamos agora mostrar o resultado principal desta seção.
Teorema 2 (Convergência Dominada de Lebesgue). Seja (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝐿 uma sequência
de funções integráveis que converge πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. para uma função mensurável 𝑓 . Suponha
que existe uma função integrável 𝑔 ∈ 𝐿 tal que |𝑓𝑛 (π‘₯)| ≀ 𝑔(π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋 , βˆ€π‘› ∈ N. Então
𝑓 é integrável e vale que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
π‘›β†’βˆž
(1.64)
Demonstração. Seja 𝑁 o conjunto de medida nula tal que
𝑓 (π‘₯) = lim 𝑓𝑛 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑀 = 𝑋 βˆ– 𝑁.
π‘›β†’βˆž
(1.65)
Redefinindo as funções 𝑓𝑛 e 𝑓 em 𝑁 como sendo identicamente nulas, obtemos que a
convergência pontual se dá em todo o conjunto X e isso não altera o valor das integrais
pois o conjunto 𝑁 tem medida nula. Assim, como |𝑓 | ≀ 𝑔 em 𝑋, segue pelo Lema 8 e
Corolário 7 que 𝑓 é integrável.
Vamos mostrar agora que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.66)
1.5. Funções Integráveis
37
Com efeito, como 𝑔 + 𝑓𝑛 β‰₯ 0, podemos aplicar o Lema de Fatou e concluir que
∫︁
∫︁
π‘”π‘‘πœ‡ +
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ =
(𝑔 + 𝑓 ) π‘‘πœ‡
≀ lim inf (𝑔 + 𝑓𝑛 ) π‘‘πœ‡
π‘›βˆˆN
(οΈ‚βˆ«οΈ
)οΈ‚
∫︁
π‘”π‘‘πœ‡ + 𝑓𝑛 π‘‘πœ‡
= lim inf
π‘›βˆˆN
∫︁
∫︁
= π‘”π‘‘πœ‡ + lim inf 𝑓𝑛 π‘‘πœ‡,
(1.67)
π‘›βˆˆN
ou seja,
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ ≀ lim inf
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
π‘›βˆˆN
(1.68)
Por outro lado, temos também que 𝑔 βˆ’ 𝑓𝑛 β‰₯ 0 e, de maneira análoga, concluímos
que
∫︁
∫︁
π‘”π‘‘πœ‡ βˆ’
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ ≀
∫︁
π‘”π‘‘πœ‡ βˆ’ lim sup
(𝑓𝑛 )π‘‘πœ‡,
(1.69)
π‘›βˆˆN
ou seja,
∫︁
lim sup
∫︁
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡ ≀
𝑓 π‘‘πœ‡.
(1.70)
π‘›βˆˆN
Combinando as duas desigualdades concluímos que
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
e o teorema está demonstrado.
𝑓𝑛 π‘‘πœ‡.
(1.71)
Capítulo 1. Integral de Lebesgue
38
Capítulo 2
Espaços 𝐿𝑝
No capítulo anterior nós definimos a Integral de Lebesgue de uma função mensurável
arbitrária. Como vimos no Lema 9, o conjunto 𝐿 = 𝐿(𝑋, πœ’, πœ‡) de todas as funções
integráveis se torna um espaço vetorial real com as operações usuais de soma e produto
escalar definidas para as funções. Neste capítulo nós iremos colocar uma estrutura de
espaço de Banach no conjunto das funções integráveis e veremos que para fazer isto,
é necessário identificar duas funções que são iguais πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. O conjunto formado por
essas classe de equivalências são os chamados espaços de Lebesgue 𝐿𝑝 . O resultado
principal deste capítulo é o Teorema de Riez-Fischer, segundo o qual, se 1 ≀ 𝑝 < ∞
então o espaço 𝐿𝑝 é um espaço de Banach com a norma
βˆšοΈƒβˆ«οΈ
‖𝑒‖𝐿𝑝 =
𝑝
|𝑒|𝑝 π‘‘πœ‡.
Definição 10. Se 𝑉 é um espaço vetorial real, então uma função β€– · β€– : 𝑉 β†’ R é
chamada de norma se satisfaz as seguintes condições:
i. ‖𝑒‖ β‰₯ 0, βˆ€π‘’ ∈ 𝑉 .
ii. ‖𝑒‖ = 0 se, e somente se 𝑒 = 0.
Capítulo 2. Espaços 𝐿𝑝
40
iii. ‖𝛼𝑒‖ = |𝛼|‖𝑒‖, βˆ€π›Ό ∈ R; βˆ€π‘’ ∈ 𝑉 .
iv. ‖𝑒 + 𝑣‖ ≀ ‖𝑒‖ + ‖𝑣‖, βˆ€π‘’,𝑣 ∈ 𝑉 .
Exemplo 10. A função módulo | · | : R β†’ R define uma norma em R.
Exemplo 11. Se 𝑉 = R𝑛 , então as funções a seguir definem uma norma no espaço
euclidiano R𝑛 :
1. ‖𝑒‖𝑠 = |𝑒1 | + |𝑒2 | + ... + |𝑒𝑛 |, βˆ€π‘’ = (𝑒1 ,𝑒2 ,...,𝑒𝑛 ) ∈ R𝑛 .
2. β€–π‘’β€–π‘š = max{|𝑒1 |,|𝑒2 |,...,|𝑒𝑛 |}, βˆ€π‘’ = (𝑒1 ,𝑒2 ,...,𝑒𝑛 ) ∈ R𝑛 .
3. ‖𝑒‖ =
βˆšοΈ€
𝑛
|𝑒1 |2 + |𝑒2 |2 + ... + |𝑒𝑛 |2 , βˆ€π‘’ = (𝑒1 ,𝑒2 ,...,𝑒𝑛 ) ∈ R𝑛 .
Exemplo 12. O espaço 𝑙1 das sequências reais π‘₯ = (π‘₯𝑛 )π‘›βˆˆN cujas séries são absolutaβˆ‘οΈ€
mente convergentes, isto é, tais que 𝑆(π‘₯) = |π‘₯𝑛 | < ∞, é um espaço vetorial normado
com a norma definida por 𝑆.
Exemplo 13. Se consideramos em 𝑉 = 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏] a função definida por
𝑁 (𝑒) = sup |𝑓 β€² (π‘₯)| ; βˆ€π‘’ ∈ 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏]
(2.1)
π‘₯∈[π‘Ž,𝑏]
temos que 𝑁 não define uma norma em 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏]. Com efeito, temos que a função 𝑁
satisfaz as condições 𝑖, 𝑖𝑖𝑖, e 𝑖𝑣 da Definição 10, porém qualquer função constante 𝑐
satisfaz 𝑁 (𝑐) = 0. Logo a condição 𝑖𝑖 não é satisfeita e consequentemente 𝑁 não define
uma norma em 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏].
Observação 10. Quando uma função definida em um espaço vetorial 𝑉 satisfaz as
condições 𝑖, 𝑖𝑖𝑖, e 𝑖𝑣 da Definição 10, dizemos que esta função é uma semi-norma.
Definição 11. Seja 𝑋 = (𝑋, πœ’, πœ‡) espaço de medida. Se 𝑓 ∈ 𝐿 = 𝐿(𝑋,πœ’,πœ‡) então
definimos a função π‘πœ‡ : 𝐿 β†’ R como sendo
∫︁
π‘πœ‡ (𝑓 ) =
|𝑓 |𝑝 π‘‘πœ‡ βˆ€π‘“ ∈ 𝐿.
(2.2)
41
O lema a seguir nos diz que a função definida acima é uma semi-norma no espaço
𝐿.
Lema 10. O espaço 𝐿 = 𝐿(𝑋, πœ’,πœ‡) é um espaço vetorial e a função
∫︁
π‘πœ‡ (𝑓 ) =
|𝑓 |𝑝 π‘‘πœ‡ βˆ€π‘“ ∈ 𝐿
define uma semi-norma em 𝐿. Além disso, se π‘πœ‡ (𝑓 ) = 0, então 𝑓 = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝.
Demonstração. Pelo Lema 9 temos que L é um espaço vetorial. Vamos mostrar que a
função π‘πœ‡ satisfaz cada uma das condições da Definição 10. Com efeito, é imediato
que π‘πœ‡ (𝑓 ) β‰₯ 0 e que π‘πœ‡ (𝛼𝑓 ) = |𝛼|π‘πœ‡ (𝑓 ), para toda 𝑓 ∈ 𝐿. Além disso, temos que se
𝑓,𝑔 ∈ 𝐿, então |𝑓 + 𝑔| ∈ 𝐿 e vale que |𝑓 + 𝑔| ≀ |𝑓 | + |𝑔|. Logo, pelo Lema 7, temos que
∫︁
∫︁
|𝑓 + 𝑔|π‘‘πœ‡ ≀
∫︁
(|𝑓 | + |𝑔|)π‘‘πœ‡ =
∫︁
|𝑓 |π‘‘πœ‡ +
|𝑔|π‘‘πœ‡.
(2.3)
Isso mostra que a função π‘πœ‡ define uma semi-norma em 𝐿 e, pelo Corolário 4, temos
que π‘πœ‡ (𝑓 ) = 0 se, e somente se, 𝑓 = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝.
A fim de tornarmos o espaço 𝐿 em um espaço vetorial normado, introduzimos em
𝑋 = (𝑋, πœ’,πœ‡) a seguinte relação:
Definição 12. Sejam 𝑓,𝑔 ∈ 𝑋. Dizemos que 𝑓 ∼ 𝑔 se 𝑓 = 𝑔 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝.
Claramente a relação acima define uma relação de equivalência em 𝑋. Note que ao
passarmos o quociente pela relação 12 no espaço 𝐿, estamos identificando duas funções
que são iguais πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. Assim, se 𝑓,𝑔 ∈ 𝐿 e 𝑓 ∼ 𝑔, então
∫︁
∫︁
𝑓 π‘‘πœ‡ =
π‘”π‘‘πœ‡.
(2.4)
Capítulo 2. Espaços 𝐿𝑝
42
Em particular, se 𝑓 ∈ 𝐿 é tal que 𝑓 = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝, então |𝑓 | = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝, e assim,
∫︁
|𝑓 |π‘‘πœ‡ = 0.
(2.5)
Desta forma, o conjunto 𝐿1 = 𝐿1 (𝑋, πœ’,πœ‡) de todas as classes de equivalência de [𝑓 ]
com 𝑓 ∈ 𝐿 se torna um espaço normado com a norma
∫︁
β€–[𝑓 ]β€–1 =
|𝑓 |π‘‘πœ‡.
Com efeito, 𝐿1 claramente se torna um espaço vetorial com as operações de soma e
produto por escalar usuais: [𝑓 + 𝑔] = [𝑓 ] + [𝑔] e 𝛼[𝑓 ] = [𝛼𝑓 ] para quaisquer [𝑓 ],[𝑔] ∈ 𝐿1
e 𝛼 ∈ R. Além disso, temos que a norma β€– · β€–1 está bem definida, pois se [𝑓 ],[𝑔] ∈ 𝐿1
com [𝑓 ] = [𝑔], então |𝑓 | = |𝑔| πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. e
∫︁
β€–[𝑓 ]β€–1 =
∫︁
|𝑓 |π‘‘πœ‡ =
|𝑔|π‘‘πœ‡ = β€–[𝑔]β€–1 .
(2.6)
As condições (𝑖), (𝑖𝑖𝑖) e (𝑖𝑣) da definição de norma claramente são satisfeitas. Finalmente, se β€–[𝑓 ]β€–1 = 0, então
∫︁
|𝑓 |π‘‘πœ‡ = 0,
(2.7)
ou seja, 𝑓 = 0 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. e portanto [𝑓 ] = [0].
Observação 11. Note que os elementos do conjunto 𝐿1 são classes de equivalências de
funções. Porém, é costumeiro tratá-los como funções uma vez que seu comportamento
algébrico é o mesmo. Sendo assim, no que segue, denotaremos as classes de equivalência
[𝑓 ] ∈ 𝐿1 apenas por 𝑓 e escreveremos ‖𝑓 β€–1 ao invés de β€–[𝑓 ]β€–1 .
2.1. Os espaços L𝑝
2.1
43
Os espaços L𝑝
Nesta seção vamos estudar uma família de espaços normados formados por classes de
equivalências de funções mensuráveis.
Definição 13. Seja 1 ≀ 𝑝 < ∞. O espaço 𝐿𝑝 = 𝐿𝑝 (𝑋, πœ’, πœ‡) consiste em todas as
classes de equivalência das funções mensuráveis 𝑓 ∈ 𝑀 (𝑋,πœ’) tais que
∫︁
|𝑓 |𝑝 π‘‘πœ‡ < ∞.
(2.8)
𝑋
Já vimos que se 𝑝 = 1, então o espaço 𝐿1 se torna um espaço normado com a
∫︁
norma
|𝑒|π‘‘πœ‡ βˆ€π‘’ ∈ 𝐿𝑝 . A proposição a seguir generaliza este resultado para o caso
de 1 < 𝑝 < ∞.
Proposicão 1. Seja 1 < 𝑝 < ∞. O espaço 𝐿𝑝 é um espaço vetorial real. Além disso,
a seguinte função define uma norma em 𝐿𝑝 :
(οΈ‚βˆ«οΈ
‖𝑒‖𝐿𝑝 =
|𝑒|
𝑝
)οΈ‚ 1
𝑝
(2.9)
𝑋
Para provar a proposição acima, vamos enunciar e provar algumas desigualdades
importantes válidas para os espaços 𝐿𝑝 .
Lema 11 (Desigualdade de Young). Sejam 𝐴,𝐡 ∈ R posititivos. Se 𝑝,π‘ž ∈ [1,∞) são
1 1
tais que + = 1, então
𝑝 π‘ž
𝐴𝑝 𝐡 𝑝
+
.
(2.10)
𝐴𝐡 ≀
𝑝
π‘ž
Demonstração. Temos que se 0 < 𝛼 < 1 a função 𝑓 definida em (0, ∞) por 𝑓 (𝑑) = π›Όπ‘‘βˆ’π‘‘π›Ό
é derivável e 𝑓 β€² (𝑑) = 𝛼(1 βˆ’ 𝑑1𝛽 ), onde 𝛽 = 1 βˆ’ 𝛼. Logo, temos que 𝑓 β€² (𝑑) < 0 se 0 < 𝑑 < 1
e 𝑓 β€² (𝑑) > 0 se 𝑑 > 1. Sendo assim, temos que 𝑓 (1) ≀ 𝑓 (𝑑), βˆ€π‘‘ ∈ (0,∞), ou seja,
𝑑𝛼 ≀ 𝛼𝑑 + (1 βˆ’ 𝛼), βˆ€π‘‘ ∈ (0,∞).
(2.11)
Capítulo 2. Espaços 𝐿𝑝
Tomando 𝑑 =
π‘Ž
𝑏
44
na inequação acima, onde π‘Ž,𝑏 ∈ (0,∞), e multiplicando por 𝑏 obtemos
que
π‘Žπ›Ό 𝑏𝛽 ≀ π›Όπ‘Ž + 𝛽𝑏,
(2.12)
onde a igualdade vale se, e somente se, π‘Ž = 𝑏.
Tomando 𝛼 = 𝑝1 , 𝐴 = π‘Žπ‘ e 𝐡 = 𝑏𝑝 , concluímos que
𝐴𝐡 ≀
𝐴𝑝 𝐡 𝑝
+
, βˆ€π΄,𝐡, ∈ (π‘Ž,∞),
𝑝
π‘ž
(2.13)
onde a igualdade vale se, e somente se, 𝐴 = 𝐡.
Lema 12 (Desigualdade de Hölder ). Sejam 𝑓 ∈ 𝐿𝑝 e 𝑔 ∈ πΏπ‘ž , onde
1 1
+ = 1. Então
𝑝 π‘ž
𝑓 𝑔 ∈ 𝐿1 e vale que
‖𝑓 𝑔‖1 ≀ ‖𝑓 ‖𝑝 β€–π‘”β€–π‘ž
(2.14)
Demonstração. Se 𝑓 = 0 ou 𝑔 = 0 o resultado é imediato. Sendo assim, suponha que
‖𝑓 ‖𝑝 ΜΈ= 0 e β€–π‘”β€–π‘ž ΜΈ= 0. Temos que o produto 𝑓 𝑔 é mensurável e utilizando a desigualdade
𝑓
𝑔
de Young com 𝐴 =
e𝐡=
obtemos que
‖𝑓 ‖𝑝
β€–π‘”β€–π‘ž
|𝑓 𝑔|
|𝑓 |𝑝
|𝑔|π‘ž
≀
+
,
‖𝑓 ‖𝑝 β€–π‘”β€–π‘ž
𝑝‖𝑓 ‖𝑝 π‘žβ€–π‘”β€–π‘ž
(2.15)
e integrando obtemos
βˆ«οΈ€
|𝑓 𝑔|π‘‘πœ‡
,
‖𝑓 ‖𝑝 β€–π‘”β€–π‘ž ≀ 1
(2.16)
‖𝑓 𝑔‖1 ≀ ‖𝑓 ‖𝑝 β€–π‘”β€–π‘ž .
(2.17)
ou seja,
2.1. Os espaços L𝑝
45
Lema 13 (Desigualdade de Minkowsky). Seja 1 < 𝑝 < ∞ e 𝑓,𝑔 ∈ 𝐿𝑝 . Então
‖𝑓 + 𝑔‖𝑝 ≀ ‖𝑓 ‖𝑝 + ‖𝑔‖𝑝 .
(2.18)
|𝑓 + 𝑔|𝑝 ≀ 2𝑝 (|𝑓 |𝑝 + |𝑔|𝑝 ) ,
(2.19)
Demonstração. Temos que
pois a função 𝑑 β†’ 𝑑𝑝 é convexa para 𝑑 > 0. Isto nos mostra que 𝑓 + 𝑔 ∈ 𝐿𝑝 . Observe
agora que
|𝑓 + 𝑔|𝑝 = |𝑓 + 𝑔| · |𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1 ≀ |𝑓 ||𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1 + |𝑔||𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1 .
Note agora que como 𝑓 + 𝑔 ∈ 𝐿𝑝 , segue que |𝑓 + 𝑔|𝑝 ∈ 𝐿1 . Além disso, se
(2.20)
1 1
+ =1
𝑝 π‘ž
então 𝑝 = (𝑝 βˆ’ 1)π‘ž e segue que
∫︁
(οΈ€
|𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1
)οΈ€π‘ž
∫︁
π‘‘πœ‡ =
|𝑓 + 𝑔|𝑝 π‘‘πœ‡,
(2.21)
ou seja, |𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1 ∈ πΏπ‘ž .
Aplicando a desigualdade de Hölder obtemos que
∫︁
𝑝
|𝑓 ||𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1 π‘‘πœ‡ ≀ ‖𝑓 ‖𝑝 β€–|𝑓 + π‘”β€–π‘π‘ž ,
(2.22)
e que
∫︁
𝑝
|𝑔||𝑓 + 𝑔|π‘βˆ’1 π‘‘πœ‡ ≀ ‖𝑔‖𝑝 β€–|𝑓 + π‘”β€–π‘π‘ž ,
(2.23)
Integrando em (2.20) e utilizando as desigualdades acima obtemos que
𝑝
𝑝
𝑝
‖𝑓 + 𝑔‖𝑝𝑝 ≀ ‖𝑓 ‖𝑝 ‖𝑓 + 𝑔‖ π‘ž + ‖𝑔‖𝑝 ‖𝑓 + 𝑔‖ π‘ž ≀ ‖𝑓 + π‘”β€–π‘π‘ž (‖𝑓 ‖𝑝 + ‖𝑔‖𝑝 ) .
(2.24)
Capítulo 2. Espaços 𝐿𝑝
46
𝑝
Se ‖𝑓 +𝑔‖𝑝 = 0 o resultado é imediato. Caso contrário, dividimos (2.24) por ‖𝑓 +π‘”β€–π‘π‘ž
e utilizando o fato de que 𝑝 βˆ’
𝑝
π‘ž
= 1 obtemos que
‖𝑓 + 𝑔‖𝑝 ≀ ‖𝑓 ‖𝑝 + ‖𝑔‖𝑝 .
(2.25)
Note que a demonstração da Proposição 1 é imediata a partir da desigualdade de
Minkowsky. Com efeito, se 𝑓,𝑔 ∈ 𝐿𝑝 e 𝛼, 𝛽 ∈ R então 𝛼𝑓 + 𝛽𝑔 ∈ 𝐿𝑝 pois
(οΈ‚βˆ«οΈ
)οΈ‚
|𝛼𝑓 + 𝛽𝑔|π‘‘πœ‡
1
= ‖𝛼𝑓 + 𝛽𝑔‖𝑝 ≀ |𝛼|‖𝑓 ‖𝑝 + |𝛽|‖𝑔‖𝑝 .
𝑝
(2.26)
Além disso, a função definida em (2.9) óbviamente define uma norma em 𝐿𝑝 .
Sendo assim, resta saber se o espaço 𝐿𝑝 é completo nesta norma, o que é verdade e
será provado no próximo resultado.
Teorema 3 (Riesz-Fischer). Seja 1 ≀ 𝑝 < ∞. Então o espaço 𝐿𝑝 munido com a norma
(οΈ‚βˆ«οΈ
‖𝑒‖𝑝 =
𝑝
)οΈ‚ 1
|𝑒| π‘‘πœ‡
𝑝
, βˆ€π‘’ ∈ 𝐿𝑝 ,
(2.27)
é completo, isto é, 𝐿𝑝 é um espaço de Banach.
Demonstração. Seja (𝑒𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝐿𝑝 uma sequência de Cauchy. Dado πœ– > 0, existe
𝑛0 = 𝑛0 (πœ–) tal que se 𝑛,π‘š > 𝑛0 então
‖𝑓𝑛 βˆ’ π‘“π‘š ‖𝑝 < πœ–,
(2.28)
|𝑓𝑛 βˆ’ π‘“π‘š |𝑝𝑝 π‘‘πœ‡ < πœ–π‘ .
(2.29)
ou seja
∫︁
Fixe 𝑛1 > 𝑛. É possível obter 𝑛2 > 𝑛1 tal que ‖𝑓𝑛2 βˆ’ 𝑓𝑛1 ‖𝑝 < 12 , pois a sequência é de
2.1. Os espaços L𝑝
47
Cauchy. Prosseguindo desta maneira obtemos uma subsequência (π‘“π‘›π‘˜ )π‘˜βˆˆN tal que
β€–π‘“π‘›π‘˜+1 βˆ’ π‘“π‘›π‘˜ ‖𝑝 <
1
.
2π‘˜
(2.30)
Para não carregar a notação denotemos π‘”π‘˜ = π‘“π‘›π‘˜ . Seja então
𝑔(π‘₯) = |𝑔1 (π‘₯)| +
βˆ‘οΈ
|π‘”π‘˜+1 (π‘₯) βˆ’ π‘”π‘˜ (π‘₯)|.
(2.31)
π‘˜βˆˆN
Temos que 𝑔 é mensurável e não negativa. Sendo assim, aplicando o Lema de Fatou
concluímos que
∫︁
]︃𝑝
∫︁ [οΈƒ
𝑛
βˆ‘οΈ
|𝑔1 | +
|𝑔| π‘‘πœ‡ ≀ lim inf
|π‘”π‘˜+1 βˆ’ π‘”π‘˜ | π‘‘πœ‡,
𝑝
π‘›βˆˆN
(2.32)
π‘˜=1
ou seja,
(οΈ‚βˆ«οΈ
|𝑔|𝑝 π‘‘πœ‡
)οΈ‚ 1
[οΈƒ
𝑝
≀ lim inf ‖𝑔1 ‖𝑝 +
π‘›βˆˆN
𝑛
βˆ‘οΈ
]οΈƒ
β€–π‘”π‘˜+1 βˆ’ π‘”π‘˜ ‖𝑝 ≀ ‖𝑔1 ‖𝑝 + 1.
(2.33)
π‘˜=1
Defina 𝐸 = {π‘₯ ∈ 𝑋; 𝑔(π‘₯) < ∞}. Temos que 𝐸 ∈ πœ’ e πœ‡(𝑋 βˆ– 𝐸) = 0. Logo, a série
definida em (2.31) é absolutamente convergente πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. Desta forma, defina 𝑓 em 𝑋
da seguinte maneira:
𝑓 (π‘₯) =
⎧
∞
βˆ‘οΈ
βŽͺ
βŽͺ
⎨ 𝑔1 (π‘₯) +
(π‘”π‘˜+1 (π‘₯) βˆ’ π‘”π‘˜ (π‘₯)) se π‘₯ ∈ 𝐸;
π‘˜=1
βŽͺ
βŽͺ
⎩
(2.34)
0 se π‘₯ ΜΈ= 𝐸.
Temos que π‘”π‘˜ β†’ 𝑓 πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. e |π‘”π‘˜ | < 𝑔, βˆ€π‘˜ ∈ N. Pelo Teorema da Convergência
Dominada concluímos que
∫︁
∫︁ [οΈƒ
𝑝
|𝑓 | π‘‘πœ‡ = lim
π‘›β†’βˆž
|𝑔1 +
𝑛
βˆ‘οΈ
π‘˜=1
]︃𝑝
(π‘”π‘˜+1 βˆ’ π‘”π‘˜ )|
π‘‘πœ‡ ≀ 2𝑝 ‖𝑔‖𝑝𝑝 < ∞
(2.35)
Capítulo 2. Espaços 𝐿𝑝
48
e portanto 𝑓 ∈ 𝐿𝑝 . Como |𝑓 βˆ’ π‘”π‘˜ |𝑝 ≀ 2𝑝 𝑔 𝑝 , segue pelo Teorema da Convergência
Dominada, que
0 = lim ‖𝑓 βˆ’ π‘”π‘˜ ‖𝑝 ,
π‘˜β†’
(2.36)
e portanto π‘”π‘˜ β†’ 𝑓 em 𝐿𝑝 .
Resta mostrar que 𝑓𝑛 β†’ 𝑓 em 𝐿𝑝 . Para isto, note que tomando π‘š > 𝑛0 e π‘˜ ∈ N
suficientemente grande temos que
∫︁
|π‘“π‘š βˆ’ π‘”π‘˜ |𝑝 π‘‘πœ‡ < πœ–π‘ .
(2.37)
Aplicando o Lema de Fatou, obtemos que
∫︁
∫︁
𝑝
|π‘“π‘š βˆ’ 𝑓 | ≀ lim inf
π‘˜β†’βˆž
|π‘“π‘š βˆ’ π‘”π‘˜ |𝑝 π‘‘πœ‡ ≀ πœ–π‘ ,
sempre que π‘š > 𝑛0 . Isto prova que π‘“π‘š β†’ 𝑓 em 𝐿𝑝 .
(2.38)
Capítulo 3
Aplicação: Um problema de
contorno linear
Neste capítulo, faremos um exemplo de aplicação da teoria da integração de Lebesgue
no estudo de equações diferenciais. Como veremos a seguir, os métodos variacionais
são uma das principais ferramentas utilizadas para resolver problemas na teoria das
equações diferenciais. A idéia central é a formulação de um problema variacional equivalente, em um certo sentido, que consiste na obtenção de pontos críticos para um
funcional associado ao problema diferencial. O termo funcional é usado para designar
uma função real cujo domínio é um espaço vetorial.
3.1
Um Problema de Contorno Linear
Considere o seguinte problema de contorno
𝐿𝑒 = 𝑓, em [π‘Ž,𝑏], 𝑒(π‘Ž) = 𝑒(𝑏) = 0,
(3.1)
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
50
onde
(οΈ€
)οΈ€β€²
𝐿𝑒 = βˆ’ 𝑝(𝑑)𝑒′ + π‘ž(𝑑)𝑒
(3.2)
é um operador diferencial atuando em funções 𝐢 2 [π‘Ž,𝑏] e as funções 𝑝,π‘ž e 𝑓 , definidas no
intervalo [π‘Ž,𝑏] satisfazem as seguintes hipóteses:
i. 𝑝 ∈ 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏] e 𝑝(𝑑) > 0, βˆ€π‘‘ ∈ [π‘Ž,𝑏].
ii. π‘ž ∈ 𝐢[π‘Ž,𝑏] e π‘ž(𝑑) β‰₯ 0, βˆ€π‘‘ ∈ [π‘Ž,𝑏].
iii. 𝑓 ∈ 𝐢[π‘Ž,𝑏].
Definição 14 (Solução Clássica). Uma solução clássica do problema (3.1) é uma função
𝑒 ∈ 𝐢 2 [π‘Ž,𝑏] que satisfaz a equação (3.1) e se anula nos extremos do intervalo [π‘Ž,𝑏], ou
seja, 𝑒(π‘Ž) = 𝑒(𝑏) = 0.
A definição acima nos motiva a questionarmos o seguinte:
Para responder a pergunta acima, vamos buscar algumas condições necessárias.
Para isto, seja 𝑣 ∈ 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏] com 𝑣(π‘Ž) = 𝑣(𝑏) = 0 e suponha que 𝑒0 ∈ 𝐢 2 [π‘Ž,𝑏] seja uma
solução clássica de (3.1). Multiplicando a equação (3.1) por 𝑣 e integrando obtemos
βˆ’
∫︁ 𝑏 [︁
(οΈ€
]︁
)οΈ€β€²
𝑝(𝑑)𝑒 (𝑑) 𝑣(𝑑) + π‘ž(𝑑)𝑒(𝑑)𝑣(𝑑) 𝑑𝑑 =
β€²
∫︁
𝑏
𝑓 (𝑑)𝑣(𝑑)𝑑𝑑
π‘Ž
(3.3)
π‘Ž
Utilizando integração por partes obtemos que
𝑏
∫︁
β€²
∫︁
β€²
𝑝(𝑑)𝑒 (𝑑)𝑣 (𝑑)𝑑𝑑 = βˆ’
π‘Ž
𝑏 (οΈ€
)οΈ€β€²
𝑝(𝑑)𝑒′ 𝑣(𝑑)𝑑𝑑
(3.4)
π‘Ž
e, substituindo (3.4) em (3.3), obtemos que
∫︁
𝑏
β€²
β€²
∫︁
𝑝(𝑑)𝑒 (𝑑)𝑣 (𝑑)𝑑𝑑 +
π‘Ž
𝑏
∫︁
π‘ž(𝑑)𝑒(𝑑)𝑣(𝑑)𝑑𝑑 =
π‘Ž
𝑏
𝑓 (𝑑)𝑣(𝑑)𝑑𝑑.
π‘Ž
(3.5)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
51
Concluímos então que toda solução clássica 𝑒 ∈ 𝐢 2 [π‘Ž,𝑏] do problema (3.1), se existir,
deve satisfazer a equação (3.5) para qualquer 𝑣 ∈ 𝐢 1 [π‘Ž,𝑏] com 𝑣(π‘Ž) = 𝑣(𝑏) = 0. Por
outro lado, não é óbvio que a recíproca seja verdadeira. Na verdade, a função 𝑒 não
precisa nem ser de classe 𝐢 2 , bastando por exemplo que 𝑒 ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏]. Isto nos motiva à
seguinte definição.
Definição 15. Uma função 𝑒 ∈ 𝐢01 é uma solução fraca de (3.1) se satisfaz a equação
(3.5) para todo 𝑣 ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏], isto é, se
∫︁
𝑏
β€²
∫︁
β€²
𝑏
∫︁
𝑓 (𝑑)𝑣(𝑑)𝑑𝑑, βˆ€π‘£ ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏]
(3.6)
π‘Ž
π‘Ž
π‘Ž
𝑏
π‘ž(𝑑)𝑒(𝑑)𝑣(𝑑)𝑑𝑑 =
𝑝(𝑑)𝑒 (𝑑)𝑣 (𝑑)𝑑𝑑 +
Observação 12. Para não deixar a notação excessivamente carregada, iremos suprimir
o intervalo e a variável de integração uma vez que estes são os mesmo sempre. Sendo
∫︁
∫︁ 𝑏
assim, utilizaremos a notação
𝑓 𝑑𝑑 para designar
𝑓 (𝑑)𝑑𝑑.
π‘Ž
Veremos agora que é mais fácil procurar por soluções fracas. Para isto, considere o
funcional Ξ¦ : 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] β†’ R dado por
Ξ¦(𝑣) =
1
2
∫︁
𝑝𝑣 β€²2 𝑑𝑑 +
1
2
∫︁
π‘žπ‘£ 2 𝑑𝑑 βˆ’
∫︁
𝑓 𝑣𝑑𝑑, βˆ€π‘£ ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏].
(3.7)
Sejam 𝑒0 ,𝑣 ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] e β„Ž ΜΈ= 0 ∈ R. Temos que
Ξ¦(𝑒0 + β„Žπ‘£) βˆ’ Ξ¦(𝑒0 )
=
β„Ž
∫︁
𝑝𝑒′0 𝑣 β€² 𝑑𝑑 +
∫︁
∫︁
π‘žπ‘’0 𝑣𝑑𝑑 βˆ’
𝑓 𝑣𝑑𝑑 +
β„Ž
2
∫︁
𝑝𝑣 β€²2 + π‘žπ‘£ 2 𝑑𝑑,
(3.8)
e consequentemente,
Ξ¦(𝑒0 + β„Žπ‘£) βˆ’ Ξ¦(𝑒0 )
lim
=
β„Žβ†’0
β„Ž
∫︁
𝑝𝑒′0 𝑣 β€² 𝑑𝑑
∫︁
+
∫︁
π‘žπ‘’0 𝑣𝑑𝑑 βˆ’
𝑓 𝑣𝑑𝑑.
(3.9)
Observação 13. O limite acima é chamado no Cálculo das Variações como Primeira
Variação do funcional Ξ¦ e será denotado por Ξ¦β€² (𝑒0 ) · 𝑣.
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
52
Temos então que se 𝑒0 ∈ 𝐢01 for um mínimo do funcional Ξ¦, então
Ξ¦(𝑒0 ) ≀ Ξ¦(𝑒0 + 𝑑𝑣), βˆ€π‘£ ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏], βˆ€π‘‘ ∈ R,
(3.10)
e assim, Ξ¦β€² (𝑒0 ) · 𝑣 = 0, βˆ€π‘£ ∈ 𝐢01 . Com efeito, basta considerar a função πœ™π‘£ : R β†’ R
dada por πœ™π‘£ (𝑑) = Ξ¦(𝑒0 + 𝑑𝑣), βˆ€π‘‘ ∈ R. Temos que 𝑑 = 0 é um ponto de mínimo de
πœ™π‘£ ; βˆ€π‘£ ∈ 𝐢01 e assim Ξ¦β€² (𝑒0 ) · 𝑣 = πœ™β€²π‘£ (0) = 0. Sendo assim, concluímos que se 𝑒0 é um
ponto de mínimo do funcional Ξ¦, então 𝑒0 é uma solução fraca do problema (3.1), ou
seja, a existência de uma solução fraca para o problema (3.1) pode ser estabelecida se
provarmos que o funcional Ξ¦ tem um mínimo.
Seguindo nesta direção, mostraremos inicialmente que Ξ¦ é limitado inferiormente.
Para isto, note que se 0 < 𝑝ˇ = min 𝑝(𝑑) e, utilizando que π‘ž(𝑑) β‰₯ 0, βˆ€π‘‘ ∈ [π‘Ž,𝑏], juntaπ‘‘βˆˆ[π‘Ž,𝑏]
mente com a desigualdade de Cauchy-Schwartz, obtemos que
∫︁
Ξ¦(𝑒) β‰₯ 𝑝ˇ
(οΈ‚βˆ«οΈ
𝑒′2 𝑑𝑑 βˆ’
𝑓2
)οΈ‚ 1 (οΈ‚βˆ«οΈ
2
𝑣2
)οΈ‚ 1
2
.
(3.11)
Para prosseguir, vamos utilizar a seguinte desigualdade:
Proposicão 2 (Desigualdade de Wirtinger). Existe 𝑐 ∈ R positivo e independente de
𝑒 tal que
∫︁
π‘Ž
𝑏
𝑒(𝑑)2 𝑑𝑑 ≀ 𝑐2
∫︁
𝑏
𝑒′2 (𝑑)𝑑𝑑, βˆ€π‘’ ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏].
(3.12)
π‘Ž
Demonstração. Seja 𝑒 ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏]. Pelo Teorema Fundamental do Cálculo, temos que
∫︁
𝑒(𝑑) =
π‘Ž
𝑑
𝑒′ (𝑠)𝑑𝑠.
(3.13)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
53
Note agora que, pela desigualdade de Cauchy-Schwartz, temos
βƒ’ ∫︁ 𝑑
βƒ’βˆ«οΈ 𝑑
(οΈ‚βˆ«οΈ 𝑑
)οΈ‚ 12
βƒ’
βƒ’
1
β€²
β€²
β€²2
|𝑒(𝑑)||𝑒 (𝑠)|𝑑𝑠 ≀ |𝑒(𝑑)|(𝑑 βˆ’ π‘Ž) 2
|𝑒(𝑑)| = |𝑒(𝑑)| βƒ’βƒ’ 𝑒 (𝑠)𝑑𝑠⃒⃒ ≀
𝑒 (𝑠)𝑑𝑠
,
2
π‘Ž
π‘Ž
π‘Ž
(3.14)
ou seja,
|𝑒(𝑑)| ≀ (𝑑 βˆ’ π‘Ž)
1
2
(οΈ‚βˆ«οΈ
𝑑
)οΈ‚ 12
β€²2
𝑒 (𝑠)𝑑𝑠
.
(3.15)
π‘Ž
Elevando ambos os lados ao quadrado, obtemos
2
∫︁
2
𝑑
𝑒(𝑑) = |𝑒(𝑑)| ≀ (𝑑 βˆ’ π‘Ž)
𝑒′2 (𝑠)𝑑𝑠,
(3.16)
𝑒′2 (𝑠)𝑑𝑠.
(3.17)
π‘Ž
ou ainda,
2
∫︁
2
𝑒(𝑑) = |𝑒(𝑑)| ≀ (𝑑 βˆ’ π‘Ž)
𝑏
π‘Ž
Tomando 𝑐2 =
(𝑏 βˆ’ π‘Ž)2
e integrando ambos os lados da inequação (3.17), obtemos
2
𝑏
∫︁
2
2
𝑏
∫︁
𝑒(𝑑) 𝑑𝑑 ≀ 𝑐
π‘Ž
𝑒′2 (𝑑)𝑑𝑑
(3.18)
π‘Ž
Observação 14. A melhor constante 𝑐 da desigualdade acima pode ser obtida utilizando
séries de Fourier. Além disso, existe uma versão multidimencional da proposição acima
conhecida como Desigualdade de Poincaré. Para maiores detalhes veja [3] página 31 e
[2] página 290.
Utilizando a desigualdade de Wirtinger em (3.11), obtemos
∫︁
Ξ¦(𝑒) β‰₯ 𝑝ˇ
β€²2
𝑒 𝑑𝑑 βˆ’ 𝑐
(οΈ‚βˆ«οΈ
𝑓
2
)οΈ‚ 1 (οΈ‚βˆ«οΈ
2
𝑣
β€²2
)οΈ‚ 1
2
.
(3.19)
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
Fazendo 𝑋 =
βˆ«οΈ€
54
𝑒′2 𝑑𝑑 concluímos que
2
Ξ¦(𝑒) β‰₯ 𝑝ˇ𝑋 βˆ’ 𝑐
(οΈ‚βˆ«οΈ
𝑓
2
)οΈ‚ 1
2
𝑋,
𝑐2
que é um polinômio do segundo grau, cujo valor mínimo é βˆ’
4Λ‡
𝑝
que
∫︁
𝑐2
𝑓 2 𝑑𝑑, βˆ€π‘’ ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏].
Ξ¦(𝑒) β‰₯ βˆ’
4Λ‡
𝑝
(3.20)
∫︁
𝑓 2 𝑑𝑑. Segue portanto
(3.21)
Concluímos assim que o funcional Ξ¦ é limitado inferiormente. Resta então nos
questionar se seu ínfimo é assumido, isto é, se o funcional Ξ¦ possui um mínimo em
𝐢01 [π‘Ž,𝑏].
O Teorema de Bolzano-Weierstrass da Análise afirma que toda função real definida
em um intervalo fechado e limitado da reta assume seu ínfimo neste intervalo. O
essencial deste resultado são fatos topológicos a respeito da função e de seu domínio e,
de fato, é possível generalizar este resultado da seguinte maneira.
Teorema 4. Seja 𝑋 um espaço topológico compacto e 𝑓 : 𝑋 β†’ R uma função semicontínua inferiormente. Então o seu ínfimo é assumido, isto é, existe π‘₯0 ∈ 𝑋 tal que
𝑓 (π‘₯0 ) ≀ 𝑓 (π‘₯), βˆ€π‘₯ ∈ 𝑋.
Demonstração. Para uma demonstração veja o Apêndice A, Teorema 8.
Para tentar aplicar o Teorema 4 precisamos introduzir alguma topologia no conjunto
𝐢01 [π‘Ž,𝑏]. Sendo assim, note primeiramente que este é um espaço vetorial sobre o corpo
dos números reais quando múnido com as operações usuais de soma e produto. Além
disso, ele se torna um espaço normado se o munirmos da norma
(οΈ‚βˆ«οΈ
‖𝑒‖ =
)οΈ‚ 1
2
𝑒 𝑑𝑑
, βˆ€π‘’ ∈ 𝐢01 .
β€²2
(3.22)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
55
Designemos, então, por 𝑋 o espaço normado 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] munido com a norma definida
em (3.22).
Proposicão 3. O funcional Ξ¦ é contínuo em 𝑋.
Demonstração. Com efeito, se 𝑒𝑛 β†’ 𝑒 em X, temos que
βƒ’βˆ«οΈ
βƒ’
∫︁
βƒ’
βƒ’
βƒ’
βƒ’
βƒ’ 𝑝(𝑣𝑛′ 2 βˆ’ 𝑣 β€²2 )𝑑𝑑⃒ ≀ 𝑝^ ⃒𝑣𝑛′ 2 βˆ’ 𝑣 β€²2 βƒ’ 𝑑𝑑 β†’ 0.
βƒ’
βƒ’
(3.23)
De maneira inteiramente análoga e, utilizando a Desigualdade de Wirtinger, obtemos
βƒ’βˆ«οΈ
βƒ’
∫︁
βƒ’
βƒ’
βƒ’
βƒ’
βƒ’ π‘ž(𝑣𝑛2 βˆ’ 𝑣 2 )𝑑𝑑⃒ ≀ 𝑐2 π‘ž^ ⃒𝑣𝑛′ 2 βˆ’ 𝑣 β€²2 βƒ’ 𝑑𝑑 β†’ 0.
βƒ’
βƒ’
(3.24)
Utilizando agora a Desigualdade de Cauchy-Schwartz e a Desigualdade de Wirtinger
obtemos
βƒ’
βƒ’βˆ«οΈ
(οΈ‚βˆ«οΈ
)οΈ‚ 1 (οΈ‚βˆ«οΈ
)οΈ‚ 1
2
2
βƒ’
βƒ’
2
β€²
β€² 2
βƒ’ 𝑓 (𝑣𝑛 βˆ’ 𝑣)𝑑𝑑⃒ ≀ 𝑐
𝑓
𝑑𝑑
|𝑣
βˆ’
𝑣
|
𝑑𝑑
β†’ 0.
𝑛
βƒ’
βƒ’
(3.25)
As desigualdades acima nos mostram que Ξ¦(𝑣) = lim Ξ¦(𝑣𝑛 ), ou seja, que Ξ¦ é
π‘›β†’βˆž
contínuo em 𝑋.
Antes de prosseguir, relembremos que uma função 𝑓 : 𝑋 β†’ R definida em um
espaço topológico 𝑋 é contínua se, e somente se, a imagem inversa 𝑓 βˆ’1 (𝐼) de qualquer
intervalo aberto 𝐼 βŠ‚ R for um subconjunto aberto de 𝑋. Por outro lado, uma função
𝑓 : 𝑋 β†’ R definida em um espaço topológico 𝑋 é semicontínua inferiormente se, e
somente se, a imagem inversa 𝑓 βˆ’1 (π‘Ž, + ∞) é um aberto. Logo, toda função contínua é
semicontínua inferiormente.
Sendo assim, temos que o funcional Ξ¦ é contínuo e consequentemente semicontínuo
inferiormente. Para utilizarmos o Teorema 4 precisamos provar que 𝑋 é compacto.
Ocorre que isto é falso. Com efeito, o conjunto 𝑋 não é completo como nos mostra o
exemplo abaixo.
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
56
Exemplo 14. Consideremos no espaço 𝐢01 [βˆ’1,1] a sequência de funções (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN definidas por
𝑓𝑛′ (π‘₯) =
⎧
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
⎨
se π‘₯ ∈ [βˆ’1, βˆ’ 12 ]
0
𝑛π‘₯
se π‘₯ ∈ [βˆ’ 12 , βˆ’
1
2
+ 𝑛1 ]
1 se π‘₯ ∈ [βˆ’ 12 + 𝑛1 , 12 βˆ’ 𝑛1 ] .(3.26)
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βˆ’π‘›π‘₯
se π‘₯ ∈ [ 12 βˆ’ 𝑛1 , 12 ]
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
βŽͺ
⎩
0
se π‘₯ ∈ [ 12 ,1]
Temos que (𝑓𝑛 )π‘›βˆˆN é uma sequência de Cauchy em 𝐢01 [βˆ’1,1] com a norma (3.22), porém
não existe 𝑓 ∈ 𝐢01 [βˆ’1,1] tal que ‖𝑓𝑛 βˆ’ 𝑓 β€– β†’ 0.
Para contornar este obstáculo considere o espaço de Lebesgue 𝐿2 = 𝐿2 [π‘Ž,𝑏]. Vamos
introduzir em 𝐿2 o conceito de derivada fraca.
Definição 16. Seja 𝑒 ∈ 𝐿2 . Dizemos que 𝑒 tem derivada fraca em 𝐿2 se existir 𝑣 ∈ 𝐿2
tal que
∫︁
β€²
∫︁
π‘’πœ™ 𝑑𝑑 = βˆ’
π‘£πœ™π‘‘π‘‘, βˆ€πœ™ ∈ 𝐢𝑐1 [π‘Ž,𝑏].
(3.27)
Observação 15. A ideia da definição acima surge da integração por partes. Com
efeito, se 𝑒 ∈ 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] e πœ™ ∈ 𝐢𝑐1 [π‘Ž,𝑏] temos, utilizando integração por partes, que
∫︁
β€²
π‘’πœ™ 𝑑𝑑 =
π‘’πœ™|π‘π‘Ž
∫︁
βˆ’
β€²
∫︁
π‘’πœ™=βˆ’
𝑒′ πœ™.
(3.28)
Em particular, se 𝑒 ∈ 𝐿2 tem derivada no sentido usual 𝑒′ ∈ 𝐿2 , então ela também
possui derivada fraca em 𝐿2 e estas coincidem. Sendo assim, também denotaremos a
derivada fraca de 𝑒 por 𝑒′ .
Observação 16. Sabemos que se uma função é derivável no sentido usual, então ela é
contínua. Isto também vale para a derivada fraca, ou seja, se 𝑓 ∈ 𝐿2 admite derivada
fraca em 𝐿2 então 𝑓 admite um representante contínuo, isto é, existe 𝑓¯ ∈ 𝐢[π‘Ž,𝑏] tal que
𝑓 = 𝑓¯ πœ‡ βˆ’ π‘ž.𝑑.𝑝. Para demonstração veja [2] página 284.
3.1. Um Problema de Contorno Linear
57
Considere agora o subconjunto 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] βŠ‚ 𝐿2 das funções 𝑒 ∈ 𝐿2 que possuem
derivada fraca em 𝐿2 e que se anulam nos extremos do intervalo [π‘Ž,𝑏], isto é, 𝑒(π‘Ž) =
𝑒(𝑏) = 0. Temos que este é um subespaço vetorial de 𝐿2 . Na verdade, é possível mostrar
que ele se torna um espaço de Banach com a norma
(οΈ‚βˆ«οΈ
‖𝑒‖ =
β€²2
)οΈ‚ 1
2
𝑒 𝑑𝑑
, βˆ€π‘’ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.29)
É possível mostrar(veja [2] página 204) que se considerarmos a imersão 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] βŠ‚
𝐻01 [π‘Ž,𝑏], isto é, se identificarmos cada função de 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] com a sua classe de equivalência
em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏], então 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] fica denso em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
O espaço 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] é um exemplo de espaço de Sobolev. Veremos a seguir que ele
resolve parcialmente o nosso problema. Com efeito, o funcional Ξ¦ definido em (3.7)
pode ser definido em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] e como 𝐢01 [π‘Ž,𝑏] é denso em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] segue que o funcional
Ξ¦ é contínuo em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏]. Além disso, continua sendo verdade que
Ξ¦(𝑒0 + β„Žπ‘£) βˆ’ Ξ¦(𝑒0 )
=
lim
β„Žβ†’0
β„Ž
∫︁
𝑝𝑒′0 𝑣 β€² 𝑑𝑑
∫︁
+
∫︁
π‘žπ‘’0 𝑣𝑑𝑑 βˆ’
𝑓 𝑣𝑑𝑑.
(3.30)
A única diferença é que as derivadas são no sentido fraco. Desta forma, conseguimos
contornar a não completude do espaço 𝐢01 [π‘Ž,𝑏].
Se tentarmos utilizar novamente o Teorema 4, vamos continuar esbarrando na não
compacidade. Com efeito, o espaço 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] não é compacto uma vez que é ilimitado.
Na verdade, nem as bolas fechadas de 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] são compactas, uma vez que o espaço
𝐻01 [π‘Ž,𝑏] tem dimensão infinita e um famoso resultado de Análise Funcional conhecido
como Teorema de Riez, nos diz que as bolas fechadas de um espaço vetorial normado
são compactas (na topologia da norma) se, e somente se, a dimensão do espaço é finita.
Para contornar este obstáculo vamos introduzir o conceito de topologia fraca.
Primeiramente, relembremos que dado um conjunto 𝑋, uma topologia de 𝑋 é uma
coleção de subconjuntos 𝜏 de suas partes P(𝑋) tais que:
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
58
i. βˆ…, 𝑋 ∈ 𝜏 .
ii. Se (π΄πœ† )πœ†βˆˆπΏ é uma família de subconjuntos de 𝜏 , então
⋃︁
π΄πœ† ∈ 𝜏 .
πœ†βˆˆπΏ
iii. Se 𝐴1 ,𝐴2 ,...,𝐴𝑛 ∈ 𝜏 então
𝑛
⋂︁
𝐴𝑖 ∈ 𝜏 .
𝑖=1
Quando munimos 𝑋 de uma topologia, este se torna um espaço topológico.
A topologia fraca de um espaço de Banach 𝑋 é definida como sendo a menor topologia de 𝑋 que faz os funcionais lineares definidos em 𝑋 serem contínuos. Esta definição
é bastante abstrata, mas no nosso caso particular, isto é, no espaço 𝐻01 [π‘Ž,𝑏], ela fica
bem intuitiva uma vez que este é um espaço de Hilbert com o produto interno
∫︁
< 𝑒; 𝑣 >𝐻 =
𝑒′ 𝑣 β€² 𝑑𝑑, βˆ€π‘’,𝑣 ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.31)
Por este motivo, o espaço dual de 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] pode ser identificado com si próprio, e utilizando o Teorema da Representação de Riez concluímos que se 𝑒𝑛 converge fracamente,
isto é, na topologia fraca, para 𝑒 ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏], então
< 𝑣; 𝑒𝑛 >β†’< 𝑓 ; 𝑒 > , βˆ€π‘£ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.32)
O motivo de introduzirmos a topologia fraca em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] é que as bolas fechadas são
fracamente compactas em espaços de Hilbert (veja Apêndice D, Teorema 16). Desta
forma podemos tentar utilizar o Teorema 4 para concluir que o funcional assume seu
ínfimo em alguma bola fechada 𝐡[0,𝑅]. O único detalhe é que não há garantias de
que o funcional Ξ¦ seja contínuo na topologia fraca. Para isto, utilizaremos o seguinte
teorema:
Teorema 5. Seja 𝐸 um espaço de Banach e Ξ¦ um funcional semicontínuo inferiormente e convexo definido em 𝐸. Então Ξ¦ é semicontínuo inferiormente na topologia
fraca de 𝐸.
3.1. Um Problema de Contorno Linear
59
Demonstração. Para demonstração veja [3] página 34.
Para utilizar o teorema acima precisamos mostrar que o funcional Ξ¦ é convexo. Isto
é feito no lema a seguir.
Lema 14. Considere o funcional Ξ¦ definido em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] como
1
Ξ¦(𝑣) =
2
∫︁
1
𝑝𝑣 𝑑𝑑 +
2
β€²2
∫︁
2
∫︁
π‘žπ‘£ 𝑑𝑑 βˆ’
𝑓 𝑣𝑑𝑑.
(3.33)
Então Ξ¦ é convexo, isto é, se 𝑑 ∈ [0,1], então
Ξ¦(𝑑𝑒 + (1 βˆ’ 𝑑)𝑣) ≀ 𝑑Φ(𝑒) + (1 βˆ’ 𝑑)Ξ¦(𝑣), βˆ€π‘’,𝑣 ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.34)
Demonstração. Temos que a função real dada por π‘₯ β†’ π‘₯2 é convexa, ou seja,
(𝑑π‘₯ + (1 βˆ’ 𝑑)𝑦)2 ≀ 𝑑π‘₯2 + (1 βˆ’ 𝑑)𝑦 2 . Sendo assim, temos que
1
2
∫︁
1
2
∫︁
𝑑
𝑝(𝑑𝑒 + (1 βˆ’ 𝑑)𝑣 ) 𝑑𝑑 ≀
2
∫︁
𝑑
2
∫︁
β€²
β€² 2
π‘ž(𝑑𝑒 + (1 βˆ’ 𝑑)𝑣)2 𝑑𝑑 ≀
(1 βˆ’ 𝑑)
𝑝𝑒 𝑑𝑑 +
2
∫︁
(1 βˆ’ 𝑑)
2
∫︁
β€²2
π‘žπ‘’2 𝑑𝑑 +
𝑝𝑣 β€²2 𝑑𝑑;
(3.35)
π‘žπ‘£ 2 𝑑𝑑.
(3.36)
Logo, concluímos que
Ξ¦(𝑑𝑒 + (1 βˆ’ 𝑑)𝑣) ≀ 𝑑Φ(𝑒) + (1 βˆ’ 𝑑)Ξ¦(𝑣).
(3.37)
Utilizando o teorema acima concluímos que o funcional assume, de fato, o seu ínfimo
em algum ponto 𝑒0 ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
Observe agora que o funcional Ξ¦ é Gateaux diferenciável(veja Apêndice C) em
𝐻01 [π‘Ž,𝑏] e suas derivadas de Gateaux são contínuas. Com efeito, se 𝑣𝑛 β†’ 𝑣 em 𝐻01 [π‘Ž,𝑏]
Capítulo 3. Aplicação: Um problema de contorno linear
60
e utilizando as desigualdades de Wirtinger e Cauchy-Schwartz, obtemos que
∫︁
β€²
Ξ¦ (𝑒)(𝑣𝑛 βˆ’ 𝑣) =
𝑝𝑒
β€² βˆ’π‘£ β€²
𝑣𝑛
∫︁
𝑑𝑑 +
∫︁
π‘žπ‘’(𝑣𝑛 βˆ’ 𝑣)𝑑𝑑 =
𝑓 (𝑣𝑛 βˆ’ 𝑣) β†’ 0.
(3.38)
Segue então que o funcional Ξ¦ é diferenciável a Fréchet e como 𝑒0 é um ponto de
mínimo, segue que Ξ¦β€² (𝑒0 ) = 0 e consequentemente
< βˆ‡(𝑒0 ); 𝑣 >= Ξ¦β€² (𝑒0 )𝑣 = 0, βˆ€π‘£ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏],
(3.39)
isto é,
∫︁
𝑝𝑒′0 𝑣 β€² 𝑑𝑑
∫︁
+
∫︁
π‘žπ‘’0 𝑣𝑑𝑑 =
𝑓 𝑣𝑑𝑑, βˆ€π‘£ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.40)
Observação 17. A expressão acima é o que, de fato, chamamos de solução fraca para o
problema (3.1). É, essencialmente, a mesma definição dada em (15). A única diferença
é que a derivada é tomada no sentido fraco.
Antes de passarmos a parte de regularização da solução, vamos provar a unicidade
da solução fraca. Com efeito, sejam 𝑒1 , 𝑒2 ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] soluções fracas do problema (3.1).
Temos assim que
∫︁
𝑝𝑣 β€² (𝑒′1 βˆ’ 𝑒′2 )𝑑𝑑 +
∫︁
π‘žπ‘£(𝑒1 βˆ’ 𝑒2 ) = 0, βˆ€π‘£ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.41)
Em particular, tomando 𝑣 = 𝑒1 βˆ’ 𝑒2 obtemos que
∫︁
𝑝(𝑒′1 βˆ’ 𝑒′2 )2 𝑑𝑑 +
∫︁
π‘ž(𝑒1 βˆ’ 𝑒2 )2 𝑑𝑑 = 0,
(3.42)
o que implica em
∫︁
𝑝(𝑒′1 βˆ’ 𝑒′2 )2 𝑑𝑑 = 0.
(3.43)
3.1. Um Problema de Contorno Linear
61
Como 𝑝(𝑑) > 0, βˆ€π‘‘ ∈ [π‘Ž,𝑏] segue que 𝑒′1 = 𝑒′2 . Isto por sua vez implica que 𝑒1 βˆ’ 𝑒2 = 0,
pois 𝑒1 (π‘Ž) = 𝑒1 (𝑏) = 𝑒2 (π‘Ž) = 𝑒2 (𝑏) = 0. Segue portanto que a solução fraca é única.
Vamos agora mostrar que a solução fraca 𝑒0 encontrada é de fato uma solução
clássica. Para ver isto, note que
∫︁
𝑝𝑒′0 𝑣 β€² 𝑑𝑑 = βˆ’
∫︁
[π‘žπ‘’0 βˆ’ 𝑓 ]𝑣𝑑𝑑, βˆ€π‘£ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(3.44)
Isto nos mostra que 𝑝𝑒′0 possui derivada fraca em 𝐿2 e esta vale (𝑝𝑒′0 )β€² = π‘žπ‘’0 βˆ’ 𝑓 .
Temos assim que 𝑝𝑒′0 é contínua e, consequentemente, 𝑒′0 existe no sentido usual e
esta é contínua (veja Apêndice B, Observação 24). Utilizando a regra do produto para
derivadas em 𝑝𝑒′0 concluímos que
𝑝𝑒′′0 = βˆ’π‘β€² 𝑒′0 + π‘žπ‘’0 βˆ’ 𝑓
e consequentemente 𝑒0 ∈ 𝐢02 [π‘Ž,𝑏] e o problema 3.1 possui única solução clássica.
(3.45)
Apêndice A
Elementos de Análise Funcional
A.1
Espaços Normados
Definição 17. Seja 𝐸 um espaço vetorial real. Suponha que esteja definida em 𝐸 uma
função β€– · β€– : 𝐸 β†’ R tal que
1. ‖𝑒‖ β‰₯ 0, βˆ€π‘’ ∈ 𝐸 e ‖𝑒‖ = 0 se, e somente se 𝑒 = 0.
2. ‖𝛼𝑒‖ = |𝛼|‖𝑒‖, βˆ€π‘’ ∈ 𝐸, βˆ€π›Ό ∈ R.
3. ‖𝑒 + 𝑣‖ ≀ ‖𝑒‖ + ‖𝑣‖, βˆ€π‘’,𝑣 ∈ 𝐸.
Nestas condições a função β€– · β€– é chamada de norma e vamos dizer que (𝐸,β€– · β€–) é um
espaço normado.
Em espaços normados é possível definir o conceito de limite.
Definição 18. Seja 𝐸 um espaço normado e (𝑒𝑛 ) ∈ 𝐸 uma sequência. Diremos que
(𝑒𝑛 ) converge fortemente a 𝑒 ∈ 𝐸 quando para cada πœ– > 0 for possível obter 𝑁0 ∈ N tal
que se 𝑛 > 𝑁0 então ‖𝑒𝑛 βˆ’ 𝑒‖ < πœ–.
Há também para espaços normados a noção de sequência de Cauchy.
A.2. Espaços com Produto Interno
63
Definição 19. Seja 𝐸 um espaço normado e (𝑒𝑛 ) ∈ 𝐸 uma sequência. Vamos dizer
que a sequência (𝑒𝑛 ) é uma sequência de Cauchy quando para cada πœ– > 0 for possível
obter 𝑁0 tal que se π‘š, 𝑛 ∈ N com 𝑛, π‘š > 𝑁0 então β€–π‘’π‘š βˆ’ 𝑒𝑛 β€– < πœ–.
Observação 18. É imediato que toda sequência que converge fortemente é uma sequência de Cauchy. A recíproca, porém, não é verdadeira. Basta considerar o espaço (Q, |·|)
onde |π‘₯| = π‘šπ‘Žπ‘₯(π‘₯, βˆ’π‘₯). Os espaços normados onde vale a recíproca são chamados de
Espaços de Banach.
A.2
Espaços com Produto Interno
Definição 20. Seja 𝐸 um espaço vetorial real. Dizemos que uma função < ·; · >:
𝐸 × πΈ β†’ R define um produto interno em 𝐸 se
1. < ·; · > é bilinear.
2. < ·; · > é simétrica.
3. < 𝑒; 𝑒 > β‰₯ 0,
βˆ€π‘’ ∈ 𝐸 e < 𝑒; 𝑒 >= 0 se, e somente se, 𝑒 = 0. Neste caso
dizemos que (𝐸, < ·; · >) é um espaço com produto interno.
Observação 19. Se (𝐸, < ·; · >) é um espaço com produto interno, então é possível
mostrar a seguinte desigualdade, conhecida como Desigualdade de Cauchy-Schwartz
| < 𝑒; 𝑣 > |2 ≀ < 𝑒; 𝑒 > < 𝑣; 𝑣 > .
1
A partir disto, é imediato ver que a função β€–· β€– : 𝐸 β†’ R definida por ‖𝑒‖ = (< 𝑒; 𝑒 >) 2
define uma norma em E. Logo, em todo espaço com produto interno é possível definir
uma norma induzida pelo produto interno. Consequentemente surge em espaços com
produto interno a noção de limite. Finalmente, se num espaço com produto interno
Apêndice A. Elementos de Análise Funcional
64
toda sequência de Cauchy for fortemente convergente a algum elemento deste espaço
com a norma induzida, então este espaço será chamado de Espaço de Hilbert.
A.3
Espaços Topológicos
Definição 21. Seja 𝑋 um conjunto não vazio. Uma topologia em 𝑋 é uma coleção πœ’
de subconjuntos de 𝑋 tal que
1. βˆ…, 𝑋 ∈ πœ’.
⋃︁
2. Se {π΄πœ† }πœ†βˆˆπΏ ∈ πœ’ então
π΄πœ† ∈ πœ’.
πœ†βˆˆπΏ
3. Se 𝐴1 , 𝐴2 , ..., 𝐴𝑛 ∈ πœ’ então
𝑛
⋂︁
𝐴𝑖 ∈ πœ’.
𝑖=1
Os elementos de πœ’ são chamados de abertos e dizemos que (𝑋, πœ’) é um espaço topológico.
Quando a topologia estiver subentendida vamos denotar apenas por 𝑋 para não carregar
a notação.
Em espaços topológicos é possível introduzir o conceito de limite.
Definição 22. Seja (𝑒𝑛 )π‘›βˆˆN uma sequência no espaço topológico 𝑋 e 𝑒 ∈ 𝑋. Dizemos
que lim 𝑒𝑛 = 𝑒 se para todo aberto 𝐴 de 𝑋 que contém 𝑒, for possível obter 𝑁0 ∈ N tal
que se 𝑛 > 𝑁0 então 𝑒𝑛 ∈ 𝐴.
Observação 20. Se 𝐸 é um espaço normado, é possível induzir em 𝐸 uma topologia
através de sua norma (a saber, a topologia gerada pelas bolas abertas). Neste caso, as
definições de limite que introduzimos para espaços normados e espaços topológicos são
equivalentes. Por outro lado, nem toda topologia provém de uma norma. Ver [5] .
Definição 23. Seja 𝑋 um conjunto não vazio. Uma métrica (ou distância) em 𝑋 é
uma função 𝑑 : 𝑋 × π‘‹ β†’ R tal que
1. 𝑑(𝑒,𝑣) β‰₯ 0, βˆ€ 𝑒,𝑣 ∈ 𝑋 e 𝑑(𝑒,𝑣) = 0 se, e somente se, 𝑒 = 𝑣.
A.4. Compacidade
65
2. 𝑑(𝑒,𝑣) = 𝑑(𝑣,𝑒), βˆ€ 𝑒,𝑣 ∈ 𝑋.
3. 𝑑(𝑒,𝑣) ≀ 𝑑(𝑒,𝑀) + 𝑑(𝑀,𝑣), βˆ€ 𝑒,𝑣,𝑀, ∈ 𝑋.
Neste caso dizemos que (𝑋,𝑑) é um espaço métrico.
Em espaços métricos é possível introduzir o conceito de limite.
Definição 24. Seja (𝑋,𝑑) um espaço métrico, (𝑒𝑛 )π‘›βˆˆN ∈ 𝑋 e 𝑒 ∈ 𝑋. Dizemos que
lim 𝑒𝑛 = 𝑒 se para cada πœ– > 0, for possível obter 𝑁0 ∈ N tal que se 𝑛 > 𝑁0 então
𝑑(𝑒𝑛 ,𝑒) < πœ–.
Observação 21. Se (𝑋,β€– β€–) é um espaço normado a função 𝑑(𝑒,𝑣) = ‖𝑒 βˆ’ 𝑣‖ define
uma métrica em 𝑋, ou seja, em todo espaço normado é possível induzir uma métrica.
Neste caso as definições de limite são equivalentes. Por outro lado, é possível mostrar
que nem toda métrica provém de uma norma.
Observação 22. Em espaços métricos é possível induzir uma topologia associada à
métrica (a saber a topologia gerada pelas bolas abertas). Neste caso, as definições de
limite que introduzimos são equivalentes. Por outro lado, é possível mostrar que nem
toda topologia provém de uma métrica. Os espaços topológicos em que a topologia provém
de uma métrica são chamados de espaços metrizáveis. Veja [5].
A.4
Compacidade
Nesta seção nos dedicamos aos conjuntos compactos. Tais conjuntos tem importância
fundamental no nosso estudo uma vez que estão intimamente ligados à convergências
de sequências.
Definição 25. Seja 𝑋 um espaço topológico e π‘Œ βŠ‚ 𝑋. Dizemos que a família de
⋃︀
abertos {π‘ˆπœ† }πœ†βˆˆπΏ é uma cobertura aberta de π‘Œ se π‘Œ βŠ‚ πœ†βˆˆπΏ π‘ˆπœ† . Se o conjunto 𝐿 é
finito, dizemos que a cobertura é finita.
Apêndice A. Elementos de Análise Funcional
66
Definição 26. Seja 𝑋 um espaço topológico e π‘Œ βŠ‚ 𝑋. Dada uma cobertura aberta
{π‘ˆπœ† }πœ†βˆˆπΏ do conjunto Y, dizemos que a família {π‘ˆπœ† }πœ†βˆˆπΏβ€² onde 𝐿′ βŠ‚ 𝐿 é uma subcober⋃︀
tura de π‘Œ se π‘Œ βŠ‚ πœ†βˆˆπΏβ€² π‘ˆπœ† .
Podemos agora definir conjuntos compactos.
Definição 27. Seja 𝑋 um espaço topológico. Um subconjunto 𝐾 βŠ‚ 𝑋 é compacto
quando toda cobertura aberta de 𝐾 possuir alguma subcobertura finita.
A.5
Funções Contínuas
Definição 28. Uma função 𝑓 : 𝑋 β†’ π‘Œ entre dois espaços topológicos 𝑋 e π‘Œ é contínua
se a imagem inversa 𝑓 βˆ’1 (𝐴𝑦 ) de um aberto 𝐴𝑦 de π‘Œ sempre for um aberto de 𝑋.
Observação 23. Em espaços métricos a continuidade de uma função se dá através da
métrica. Com efeito, uma função 𝑓 : 𝑀1 β†’ 𝑀2 entre dois espaços métricos 𝑀1 e 𝑀2
é contínua se dado π‘₯ ∈ 𝑀1 e uma sequência (π‘₯𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝑀1 com 𝑑1 (π‘₯𝑛 ,π‘₯) β†’ 0, tem-se
𝑑2 (𝑓 (π‘₯𝑛 ),𝑓 (π‘₯)) β†’ 0.
Vamos considerar agora funções reais 𝑓 : 𝑋 β†’ R definidas em um espaço topológico
𝑋. Para este tipo de funções existe uma noção menor de continuidade chamada de
semicontinuidade.
Definição 29. Dizemos que uma função 𝑓 : 𝑋 β†’ R é semicontínua inferiormente
se a imagem inversa 𝑓 βˆ’1 (π‘Ž,∞) for um aberto de 𝑋. Analogamente, dizemos que uma
função 𝑓 : 𝑋 β†’ R é semicontínua superiormente se a imagem inversa 𝑓 βˆ’1 (βˆ’βˆž,π‘Ž) for
um aberto de 𝑋.
Os teoremas a seguir têm importância fundamental no estudo da análise.
Teorema 6. Weierstrass Seja 𝑓 : 𝑋 β†’ π‘Œ uma função contínua entre espaços topológicos. Se 𝐾 βŠ‚ 𝑋 for um compacto, então 𝑓 (𝐾) é um compacto de π‘Œ .
A.5. Funções Contínuas
67
Demonstração. Seja (π΅πœ† )πœ†βˆˆπΏ uma cobertura aberta de 𝑓 (𝐾). Pela continuidade de 𝑓
segue que (π΄πœ† )πœ†βˆˆπΏ é uma cobertura aberta de K, onde π΄πœ† = 𝑓 βˆ’1 (π΅πœ† ). Como 𝐾 é
compacto, temos que existem uma quantidade finita πœ†1 , πœ†2 ,...,πœ†π‘› ∈ 𝐿 tais que 𝐾 βŠ‚
𝑛
𝑛
𝑛
⋃︁
⋃︁
⋃︁
𝐴𝑖 e , consequentemente, 𝑓 (𝐾) βŠ‚
𝑓 (𝐴𝑖 ) βŠ‚
𝐡𝑖 , ou seja, 𝑓 (𝐾) é compacto.
𝑖=1
𝑖=1
𝑖=1
Teorema 7. Borel-Lebesgue Um subconjunto 𝐾 βŠ‚ R é compacto se, e somente se, é
fechado e limitado.
Para demonstração veja [5]
Utilizando os teoremas de Weierstrass e de Borel-Lebesgue, concluímos que se 𝑓 :
𝑋 β†’ R for uma função contínua definida em um espaço topológico compacto𝑋, então
𝑓 (𝑋) é fechado e limitado e, consequentemente, 𝑓 assume seus máximos e mínimos em
𝑋. É possível concluir algo parecido para funções reais semicontínuas.
Teorema 8. Uma função 𝑓 : 𝑋 β†’ R semicontínua inferiormente definida em um
espaço topológico compacto 𝑋 assume seu mínimo em 𝑋. Analogamente, uma função
f:X β†’ R semicontínua superiormente definida em um espaço topológico compacto 𝑋
assume seu máximo em 𝑋.
Demonstração. Suponha que 𝑓 seja semicontínua inferiormente. Observe primeiramente que 𝑓 (𝑋) é limitada inferiormente .Com efeito, {(𝑛,∞)}π‘›βˆˆZ são abertos de R e
⋃︁
⋃︁
R=
(𝑛,∞). Desta forma 𝑋 =
𝑓 βˆ’1 (𝑛,∞) e pela compacidade de 𝑋 existe uma
π‘›βˆˆZ
π‘›βˆˆZ
quantidade finita 𝑛1 ,...,π‘›π‘˜ ∈ Z tais que 𝑋 =
inferiormente.
π‘˜
⋃︁
𝑓 βˆ’1 (𝑛𝑖 ,∞), ou seja, 𝑓 (𝑋) é limitado
𝑖=1
Seja então 𝑐0 = inf 𝑓 (𝑋) e suponha por absurdo que 𝑐0 ∈
/ 𝑓 (𝑋). Pela definição
de ínfimo, temos que existe uma sequência estritamente decrescente (𝑦𝑛 )π‘›βˆˆN βŠ‚ 𝑓 (𝑋)
⋃︁
tais que 𝑦𝑛 β†’ 𝑐0 . Desta forma, temos que 𝑋 =
𝑓 βˆ’1 (𝑦𝑛 ,∞) e pela compacidade
π‘›βˆˆN
de 𝑋 segue que 𝑋 = 𝑓 βˆ’1 (π‘¦π‘˜0 ,) para algum π‘˜0 , o que é absurdo pois se 𝑛 > π‘˜0 , temos
que 𝑦𝑛 ∈ 𝑓 (𝑋) mas 𝑦𝑛 ∈
/ (𝑦𝑛 ,∞) pois 𝑦𝑛 < π‘¦π‘˜0 . Concluímos assim que 𝑐0 ∈ 𝑓 (𝑋) e
Apêndice A. Elementos de Análise Funcional
68
portanto 𝑓 assume seu mínimo em 𝑋. A demonstração é análoga para o caso de 𝑓 ser
semicontínua superiormente.
Apêndice B
Espaços de Sobolev
Neste capítulo vamos definir os espaços de Sobolev.
B.1
Espaços de Sobolev π‘Š 1,𝑝 (𝐼)
Seja 𝐼 βŠ‚ R um intervalo possivelmente ilimitado e seja 𝑝 ∈ R com 1 ≀ 𝑝 ≀ +∞.
Definição 30. O espaço de Sobolev π‘Š 1,𝑝 (R) é definido como
π‘Š 1,𝑝 (𝐼) = {𝑒 ∈ 𝐿𝑝 (𝐼); βˆƒπ‘” ∈ 𝐿𝑝 (𝐼) tal que
∫︁
π‘’πœ™β€² 𝑑π‘₯ = βˆ’
R
∫︁
π‘”πœ™π‘‘π‘₯ βˆ€πœ™ ∈ 𝐢0∞ (𝐼)}.
R
(B.1)
Se 𝑒 ∈ π‘Š 1,𝑝 (𝐼) então existe 𝑔 ∈ 𝐿𝑝 (𝐼) tal que
∫︁
R
π‘’πœ™β€² 𝑑π‘₯ = βˆ’
∫︁
π‘”πœ™π‘‘π‘₯ βˆ€πœ™ ∈ 𝐢0∞ (𝐼).
(B.2)
R
Neste caso, denotamos 𝑒′ = 𝑔 e dizemos que 𝑒′ é a derivada fraca de 𝑒.
Teorema 9. O espaço π‘Š 1,𝑝 (𝐼) é um espaço de Banach com a norma
β€–π‘’β€–π‘Š1,𝑝 = ‖𝑒‖𝑝 + ‖𝑒′ ‖𝑝 ,
βˆ€π‘’ ∈ π‘Š 1,𝑝 (𝐼),
(B.3)
Apêndice B. Espaços de Sobolev
70
βˆ«οΈ€
1
onde ‖𝑒‖𝐿𝑝 = [ 𝐼 |𝑒|𝑝 ] 𝑝 . Além disso, π‘Š 1,𝑝 (𝐼) é reflexivo se 1 < 𝑝 < +∞ e separável se
1 ≀ 𝑝 < +∞.
Para demonstração veja [2].
B.2
Propriedades
¯ tal que
Teorema 10. Seja 𝑒 ∈ π‘Š 1,𝑝 (𝐼). Existe uma função 𝑒
˜ ∈ 𝐢(𝐼)
𝑒(π‘₯) = 𝑒
˜(π‘₯) π‘ž.𝑑.𝑝.em 𝐼
∫︁
𝑒
˜(π‘₯) βˆ’ 𝑒
˜(𝑦) =
π‘₯
e
𝑒′ (𝑑)𝑑𝑑.
(B.4)
(B.5)
𝑦
Observação 24. Em outras palavras, o teorema acima nos diz que toda função 𝑒 ∈
π‘Š 1,𝑝 (𝐼) possui um representante contínuo. Além disso, se a derivada fraca de 𝑒 for
contínua, isto é, tiver um representante contínuo, então , na notação do teorema, 𝑒
˜∈
𝐢 1 (𝐼) e, consequentemente, possui derivada no sentido usual.
Teorema 11. Seja 𝑒 ∈ π‘Š 1,𝑝 (𝐼) Então existe uma sequência (𝑒𝑛 ) em 𝐢0∞ (R) tal que
(𝑒𝑛 )𝐼 β†’ 𝑒 em π‘Š 1,𝑝 (𝐼).
Para demonstrações veja [2].
B.3
O espaço H10 [π‘Ž,𝑏]
Quando 𝑝 = 2, nós denotamos o espaço de Sobolev π‘Š 1,2 (𝐼) por 𝐻 1 (𝐼). Neste espaço
nós introduzimos o seguinte produto interno:
∫︁
< 𝑓 ; 𝑔 >=
∫︁
𝑓 π‘”π‘‘πœ‡ +
𝑓 β€² 𝑔 β€² π‘‘πœ‡.
(B.6)
O espaço 𝐻 1 (𝐼) com o produto interno definido acima se torna um espaço de Hilbert.
B.3. O espaço H10 [π‘Ž,𝑏]
71
Note agora que a norma induzida em 𝐻 1 (𝐼) é dada por
(οΈ€
)οΈ€
‖𝑒‖𝐻 = ‖𝑒‖22 + ‖𝑒′ β€–22 .
(B.7)
Considere agora a imersão 𝐢01 (𝐼) βŠ‚ 𝐻 1 (𝐼) e suponha que 𝐼 é limitado. Definimos o
espaço 𝐻01 (𝐼) como sendo o fecho de 𝐢01 (𝐼) em 𝐻 1 (𝐼).
Vamos agora enunciar algumas propriedades básicas deste espaço. Para isto, suponha que 𝐼 = [π‘Ž,𝑏].
Teorema 12. Seja 𝑒 ∈ 𝐻 1 [π‘Ž,𝑏]. Então 𝑒 ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] se, e somente se, 𝑒(π‘Ž) = 𝑒(𝑏) = 0.
Para demonstração veja [2] página 217.
Teorema 13 (Desigualdade de Poincaré). Existe uma constante positiva 𝐢 > 0 tal que
‖𝑒‖𝐻 ≀ 𝐢‖𝑒′ β€–2 , βˆ€π‘’ ∈ 𝐻01 [π‘Ž,𝑏].
(B.8)
Para demonstração veja [2] página 218.
Observação 25. O teorema acima nos diz que a norma dada por ‖𝑒‖ = ‖𝑒′ β€–2 em
𝐻01 [π‘Ž,𝑏] é equivalente à norma β€– · ‖𝐻 , pois, obviamente, temos que ‖𝑒′ β€–2 ≀ ‖𝑒‖𝐻 .
Apêndice C
Funcionais Diferenciáveis
C.1
Definições Básicas
Neste capítulo β€– · β€– indicará a norma do espaço de Banach em questão.
Definição 31. Seja πœ™ : π‘ˆ β†’ R onde π‘ˆ é um aberto de um espaço de Banach X. O
funcional é Gateaux diferenciável em 𝑒 ∈ π‘ˆ se existir 𝑓 ∈ 𝑋 * tal que para todo 𝑣 ∈ 𝑋
1
lim [πœ™(𝑒 + 𝑑𝑣) βˆ’ πœ™(𝑒) βˆ’ 𝑑 < 𝑓 ; 𝑣 >] = 0.
𝑑→0 𝑑
Neste caso, o funcional 𝑓 é único e será chamado de derivada de Gateaux em 𝑒 e será
denotado por πœ™β€² (𝑒) dada por
1
< πœ™β€² (𝑒); 𝑣 >= lim (πœ™(𝑒 + 𝑑𝑣) βˆ’ πœ™(𝑒)).
𝑑→0 𝑑
Observação 26. < πœ™β€² (𝑒), 𝑣 > é a derivada direcional de πœ™ em 𝑒 na direção 𝑣.
Definição 32. O funcional πœ™ tem derivada a Fréchet 𝑓 ∈ 𝑋 * em 𝑒 ∈ π‘ˆ se
lim
β€–β„Žβ€–β†’0
1
[πœ™(𝑒 + π‘‘β„Ž) βˆ’ πœ™(𝑒)βˆ’ < 𝑓 ; β„Ž >] = 0.
β€–β„Žβ€–
C.1. Definições Básicas
73
Neste caso, 𝑓 é a derivada a Fréchet de πœ™ em 𝑒 e será denotada por πœ™β€² (𝑒).
Observação 27. O fucional πœ™ é diferenciável a Fréchet (ou a Gateaux) se for diferenciável em todos os pontos de π‘ˆ .
Observação 28. Se πœ™ é diferenciável a Fréchet, então πœ™ é diferenciável a Gateaux
Observação 29. O funcional πœ™ ∈ 𝐢 1 (π‘ˆ ; R) se possuir derivada de Fréchet em todos
os pontos de π‘ˆ e a função 𝑒 ↦→ πœ™β€² (𝑒) for contínua em π‘ˆ .
Teorema 14. Se πœ™ tem derivada de Gateaux contínua em π‘ˆ então πœ™ ∈ 𝐢 1 (π‘ˆ ; R), ou
seja, πœ™ é diferenciável a Fréchet.
Para maiores detalhes veja [4].
Apêndice D
Propriedades da Topologia Fraca
No que segue, faremos uma exposição básica sobre as propriedades básicas da topologia
fraca. Para uma visão mais detalhada veja ([2]).
Definição 33. Seja 𝑋 um espaço de Banach. A topologia fraca 𝜎(𝑋, 𝑋 * ) é a topologia
menos fina que torna todos os funcionais πœ™ ∈ 𝑋 * contínuos.
Observação 30. Quando colocamos em 𝑋 a topologia fraca 𝜎(𝑋, 𝑋 * ) induzimos uma
nova noção de convergência chamada de convergência fraca. Neste caso, diremos que
(𝑒𝑛 ) converge fracamente a 𝑒 ∈ 𝑋 e denotaremos por 𝑒𝑛 ⇀ 𝑒.
D.1
Propriedades básicas da convergência fraca
Teorema 15. Seja (π‘₯𝑛 ) βŠ‚ 𝑋 uma sequência. Então
1. [π‘₯𝑛 ⇀ π‘₯] ⇔ [< 𝑓,π‘₯𝑛 >β†’< 𝑓,π‘₯ >, βˆ€π‘“ ∈ 𝑋 * ].
2. Se π‘₯𝑛 β†’ π‘₯ então π‘₯𝑛 ⇀ π‘₯.
3. Se π‘₯𝑛 ⇀ π‘₯ então (β€–π‘₯𝑛 β€–) é limitada e β€–π‘₯β€– ≀ lim inf β€–π‘₯𝑛 β€–.
4. Se π‘₯𝑛 ⇀ π‘₯ e 𝑓𝑛 β†’ 𝑓 em 𝑋 * então < 𝑓𝑛 , π‘₯𝑛 >β†’< 𝑓,π‘₯ >.
D.1. Propriedades básicas da convergência fraca
75
Teorema 16 (Kakutani). Seja 𝑋 um espaço de Banach. Então 𝑋 é reflexivo se, e
somente se, a bola
𝐡[0,1] = {π‘₯ ∈ 𝑋; β€–π‘₯β€– ≀ 1}
é compacta na topologia fraca 𝜎(𝑋, 𝑋 * ).
Observação 31. O teorema acima tem importância fundamental neste trabalho e no
estudo das equações diferenciais de uma maneira geral.
Observação 32. O espaço 𝐻01 [π‘Ž,𝑏] é reflexivo. Logo suas bolas fechadas são fracamente
compactas .
Referências Bibliográficas
[1] R.G. Bartle. The Elements of Integration. John Wiley Sons, 1966.
[2] H. Brezis. Functional analysis, Sobolev spaces and partial differential equations.
Springer-Verlag New York Inc, 2010.
[3] D.G. de Figueiredo. Métodos variacionais em equações diferenciais. Matemática
Universitária, 7:21–47, 1988.
[4] A.N. Kolmogorov and S.V. Fomin. Introdutory real analysis. Dover, 1975.
[5] E.L. Lima. Espaços Métricos. IMPA, 1993.
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