UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL MESTRADO EM EDUCAÇÃO EMERSOM CIOCHETA ROBALLO GEOGRAFIA NA INTEGRAÇÃO CURRICULAR: Vivências Reflexivas no curso Técnico em Eventos – IF Farroupilha – São Borja RS Ijuí (RS) 2014 EMERSOM CIOCHETA ROBALLO GEOGRAFIA NA INTEGRAÇÃO CURRICULAR: Vivências Reflexivas no curso Técnico em Eventos – IF Farroupilha – São Borja RS Dissertação apresentada à Banca de Final do Curso de Pós-graduação Stricto Sensu em Educação nas Ciências, do Departamento de Humanidades e Educação (DHE), da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí),como requisito para a obtenção do título de Mestre em Educação nas Ciências. Orientadora: Drª Maria Cristina Panserade Araújo Ijuí (RS) 2014 A comissão abaixo-assinada aprova a presente dissertação GEOGRAFIA NA INTEGRAÇÃO CURRICULAR: Vivências Reflexivas no curso Técnico em Eventos – IF Farroupilha – São Borja RS Elaborada pelo mestrando EMERSOM CIOCHETA ROBALLO Como requisito para a obtenção do grau de MESTRE EM EDUCAÇÃO NAS CIÊNCIAS COMISSÃO EXAMINADORA Profª. Drª. Maria Cristina Panserade Araújo (Orientadora) ProfªDrª Adriana Maria Andreis ProfªDrª Helena CopettiCallai À minha esposa, Jacinta, eao nosso filho Jorge Antonio, pelo carinho, apoio e cumplicidade afetuosa. AGRADECIMENTOS Em especial,aos meus Pais e meus irmãos, sempre presentes em minha vida. À Jacinta e ao Jorge Antonio, meus grandes amores. À nossafamília Zimmermann e Roballo pelo apoio. À minha orientadora, ProfªDrª. Maria Cristina Panserade Araújo, pela orientação, desde os primeiros passos na pesquisa científica, incentivo, confiança e ensinamento para toda a vida (Sentante, Pensante e Escrevente). Aos colegas do IF Farroupilha, pelo incentivo e leituras indicadas, pelos livros emprestados e conversas de apoio. Ao Leocir e ao Denis, minha sincera gratidão. Aos membros da banca,Profª. Drª. Adriana Maria Andreis, Profª eDrª. Helena CopettiCallai por aceitarem convite para avaliação deste trabalho e pelas valiosas sugestões. Aos Professores Lenir Zanon, Paulo Fensterseifer, Pedro Boufler, Maria Simone, Cátia Nehring e Otávio Maldaner, pessoas admiráveis, pelo grande aprendizado e prazer em tê-los como professores. Aos colegas do Mestrado, pela acolhida carinhosa e pela parceria em tantos momentos de trabalho, de dúvidas e de descontração. Aos educandos da primeira turma do curso Técnico em Nível Médio em Eventos – Campus São Borja - RS. “Ninguém facilita o desenvolvimento daquilo que não teve oportunidade de aprimorar em si mesmo. Ninguém promove a aprendizagem de conteúdos que não domina, a constituição de significados que não compreende nem a autonomia que não pôde construir.” (Guiomar Namo Mello) RESUMO Esta dissertação apresenta uma análise das vivências reflexivas no contexto acerca da constituição do Curso Técnico em Eventos – IF Farroupilha - São Borja/RS e o desenvolvimento da Geografia na integração curricularproposta pela legislação e pelos professores, durante os três anos de curso. Objetivou-se compreender a constituição do ensino profissional, dos fundamentos do currículo integrado e as possibilidades de integração curricular, a partir de uma disciplina - Geografia. O estudo foi desenvolvido em três etapas. Na primeira, uma breve análise bibliográfica e documental das políticas públicas para a educação profissional no Brasil, de 1809 a 2013, fundamentado em Manfredi (2002), Kuenzer (2007), Santos (2007) e documentos oficiais sobre o tema. A segunda, refere-se ao estudo dos pressupostos da integração curricular e do currículo pretendido para romper o paradigma da dualidade da educação profissional. Por último, as Memórias da Experiência Profissional no IF Farroupilha, consistem numa abordagem qualitativa de uma narrativa das práticas curriculares e análise do Projeto Pedagógico do Curso e do Plano de Ensino das disciplinas de cada ano letivo, visando identificar limites, possibilidades e potencialidades de integração curricular.Estas análises foram sistematizadas no diálogo com Beane (2002), Bernstein (1996), Callai (2009), Fazenda (1994), Freire (1987),Frigotto (1998), Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005), Gramsci (1991), Japiassu (2006),Lopes e Macedo (2011),Lerina e Castrogiovanni (2013), Marques (1993 e 2006), Marx (2004), Nosella (2001), Sacristán (2000), Santomé (1998), Savater (1998), Saviani (2005 e 2006), Suertegaray (2004),Silva (2009), Ramos (2001),Tardiff (2002), Vasconcellos (2000), Vigotski (2007 e 2008), Vásquez (2007), Young (2007 e 2011). Palavras-chave: Currículo. Currículo Integrado. Integração Curricular. Práticas Pedagógicas ABSTRACT This work presents a reflexive analysis of the experiences about the constitution of the Events Technician Course – IF Farroupilha – São Borja/RS and the development of Geography as a subject in the curricular integration proposed by the law and by the teachers, during the three years of this course. The main objective was to understand the constitution of the professional education, the premises of the integrated curriculum and the possibilities for curricular integration having as basis one subject: Geography. This study is divided into three parts: First, there is a brief bibliographic and documental analysis of the public policies for professional education in Brazil from 1809 to 2013, based on Manfredi (2002), Kuenzer (2007), Santos (2007), as well as official documents about this theme. The second part refers to the study of the premises of curricular integration and the intended curriculum in order to break up with the paradigm of the duality in the professional education. Last, the Memories from the Professional Experience in IF Farroupilha, consist of a qualitative approach of a narrative of curricular practices and an analysis of the Pedagogical Project of the Course and the Teaching Plans of the subjects for each of the three years, in order to identify limitations, possibilities and potentialities for curricular integration. TheseanalyzeswerebasedonBeane (2002), Bernstein (1996), Callai (2009), Fazenda (1994), Freire (1987),Frigotto (1998), Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005), Gramsci (1991), Japiassu (2006),Lopes e Macedo (2011),Lerina e Castrogiovanni (2013), Marques (1993 e 2006), Marx (2004), Nosella (2001), Sacristán (2000), Santomé (1998), Savater (1998), Saviani (2005 e 2006), Suertegaray (2004),Silva (2009), Ramos (2001),Tardiff (2002), Vasconcellos (2000), Vigotski (2007 e 2008), Vásquez (2007), Young (2007 e 2011). Key words: Curriculum. Integrated Curriculum, Curricular Integration.PedagogicalPractices. LISTA DE FIGURAS FIGURA 1: Integração Curricular por Tema Proposto ........................................................... 67 FIGURA 2: Saberes: via de dois sentidos................................................................................ 69 FIGURA 3: Significação através da Representação ............................................................... 72 FIGURA 4: Quem e para quem Formamos ............................................................................ 75 LISTA DE MAPAS MAPA 1: Campi Instituto Federal Farroupilha ...................................................................... 32 MAPA 2: Campus São Borja .................................................................................................. 36 LISTA DE QUADROS QUADRO 1: Aspectos da Organização e Evolução da Educação Profissional no Brasil (1809 a 2008)........................................................................................................................... 19 QUADRO 2: Eixos Tecnológicos do IF Farroupilha .............................................................. 33 QUADRO 3: Cursos Técnicos do IF Farroupilha ................................................................... 34 QUADRO 4: Cursos Técnicos ofertados no Campus São Borja ............................................ 37 QUADRO 5: Fases do Currículo ............................................................................................ 52 QUADRO 6: Formação Técnica e Objetivo............................................................................ 93 LISTA DE TABELAS TABELA 1: Alunos Matriculados no IF Farroupilha Campus São Borja – RS ..................... 39 TABELA 2: Docentes de acordo com seu Eixo ou Área de Atuação ..................................... 40 TABELA 3: Estrutura Curricular do Curso Técnico em Eventos Integrado .......................... 42 LISTA DE ABREVIATURAS Cefets - Centros Federais de Educação Tecnológica CNE/CEB – Conselho Nacional de Educação / Conselho de Educação Básica EaD - Educação a Distância EJA - Educação de Jovens e Adultos ETFs- Escolas Técnicas Federais ENEM - Exame Nacional do Ensino Médio EPT – Educação Profissional e Tecnológico GPS - Global Positioning System IFs – Institutos Federais IF Farroupilha - Instituto Federal Farroupilha LDB - Lei de Diretrizes e Bases LDBEN - Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação PROEP – Programa de Expansão da Educação Profissional PCNs - Parâmetros Curriculares Nacionais PDI - Plano de Desenvolvimento Institucional PPC – Projeto Político-Pedagógico PE – Plano de Ensino (Trabalho) PI – Projeto Integrador PPI – Práticas Profissionais Integradas PMSB - Prefeitura Municipal de São Borja PROEJA - Programa de Educação para Jovens e Adultos PROEN - Pró-Reitoria de Ensino PRONATEC – Programa Nacional ao Ensino Técnico RFEPCT - Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica SEMTEC - Secretaria de Educação Média e Tecnológica SENAC - Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial SENAI - Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial SENAR - Serviço Nacional de Aprendizagem Rural SETEC - Secretária Tecnológica de Educação SESCOOP - Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo TI - Tecnologia e Informação URCAMP - Universidade da Região da Campanha SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................................16 1ESBOÇO DA TRAJETÓRIA DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL............... 19 1.1 Instituto Federal Farroupilha ............................................................................................. 32 1.2 Instituto Federal Farroupilha – Campus São Borja ........................................................... 36 1.2.1 Curso Técnico em Eventos Integrado ............................................................................ 41 2 DO QUE O CURRÍCULO TRATA? ................................................................................... 46 2.1 Teorizações sobre o currículo ........................................................................................... 46 2.2 A Concepção do Currículo ................................................................................................ 50 2.3 Currículo Integrado entendido .......................................................................................... 53 2.4 Currículo Integrado: apráxis e aintencionalidade ............................................................. 56 2.5 Currículo pretendido.......................................................................................................... 58 2.5.1 Saberes docentes para a integração curricular ............................................................... 59 3. MEMÓRIAS DA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL NO IF FARROUPILHA ................ 62 3.1. Ano 2011 .......................................................................................................................... 65 3.2 Ano 2012 .......................................................................................................................... 70 3.3 Ano 2013 .......................................................................................................................... 73 3.4 Limites, possibilidades e potencialidades de integração curricular pelos diálogos conceituaisintercomplementares e inter-relacionais ............................................................... 78 3.4.1 Muito além de temas e conteúdos .................................................................................. 79 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................................. 98 REFERÊNCIAS .................................................................................................................... 106 INTRODUÇÃO A constante tensão entre um mundo contemporâneo que prima pelo desenvolvimento tecnológico e científico e a necessidade de proporcionar uma formação integral tem trazido profícuos debates em torno desta temática. Essa discussão brota do seio de uma sociedade cada vez mais tecnicista, mas que não pode deixar de lado os aspectos sociais e humanos. Por conta disso, a questão em torno do currículo integrado tem-se constituído num dos grandes temas das reflexões pedagógicas curriculares. Herdeiros de uma sociedade moderna de onde remontam os primeiros resquícios de uma fragmentação científico-tecnológica, sobretudo no campo da educação, somos conclamados a reagrupar campos do saber, áreas do conhecimento, modalidades de ensino e níveis de formação com a incumbência de estabelecer um diálogo entre essas diferentes esferas. Guardadas as devidas especificidades, temos um exemplo muito claro desta experiência quando remontamos às origens da civilização ocidental, em que se pode dizer que havia maior unidade de conhecimento representada pelas reflexões filosóficas, que englobavam as mais diversas áreas do conhecimento, desde a investigação em torno da natureza até a reflexão ética e humana. Passados muitos séculos, a assim denominada modernidade rompe gradativamente com essa unidade do conhecimento e privilegia, sempre mais, a especialização com a consequente fragmentação sempre maior do conhecimento em questão. O primado do especialista, marca característica da modernidade, por um lado, conduziu aos avanços mais profundos em termos de conhecimento, mas, por outro, nos legou um isolamento cognitivo que, por vezes, nos faz perder o sentido de unidade epistemológica (FENTERSEIFER, 2001 e MARQUES, 1993). O campo da educação certamente não permaneceu isento a essa marca fundamental da modernidade ocidental, da qual um aspecto que pode ser destacado é a fragmentação curricular com o predomínio gradativo dos aspectos técnicos sobre os humanos. Neste 17 sentido, a dicotomia criada numa sociedade cujo papel do mundo do trabalho desempenha, cada vez mais, importância central na vida das pessoas. Mas, ao mesmo tempo, a constituição cidadã deve fazer parte de uma formação integral do indivíduo, instaurando o desafio de apresentar-se como campos complementares e não meramente justapostos entre si. E, certamente, no campo da educação formal, o currículo é o lugar onde essa discussão permeia as indagações de Como sair do campo teórico para o campo prático da atuação do currículo integrado? De que forma a disciplina de Geografia pode contribuir para que o sujeito se torne um profissional da área de eventos, e mais, para um movimento contra-hegemônico da estrutura, que relega os estudantes de cursos técnicos à mera operacionalização para o trabalho? Eis o grande desafio: estabelecer a interlocução entre essas diferentes áreas. Por isso, a questão desta pesquisa está em identificar quais os limites, as possibilidades e as potencialidades de integração curricular no Curso Técnico de Nível Médio em Eventos, considerando o papel e as metodologias adotadas no componente Geografia. Para o desenvolvimento dessa proposta, estabelecemos como objetivos: - Descrever a criação do curso Técnico em Eventos no Instituto Federal Farroupilha, considerando a história do ensino profissional no país; - Reconhecer a origem e a organização da proposta do Currículo Integrado que permeia a constituição dos cursos nos Institutos Federais; - Analisar os limites e as possibilidades de integração curricular no curso Técnico emEventos a partir da Geografia; - Propor possibilidades de Currículo Integrado que abordem as dimensões técnico-científicas e socioculturais. A escolha do curso Técnico de Nível Médio em Eventos como objeto de pesquisa desta dissertação ocorreu pelos seguintes fatores: 1) o Eixo Tecnológico: Turismo, Hospitalidade e Lazer, no qual esta o Curso de Eventos, apresenta diversas possibilidades de integração; 2) no Plano de Curso Técnico em Eventos Integrado a disciplina de Geografia estava presente ao longo dos três anos de duração do curso; e, 3) por ser o campus São Borja o único, entre todos os Campi do Instituto Federal Farroupilha, a possuir o Curso de Técnico em Eventos. Além disso, o Curso Técnico em Eventos simboliza uma etapa de consolidação do 18 Instituto Federal Farroupilha em São Borja, por ter iniciado na sua sede própria no ano de 2011. E, particularmente, porque a sua primeira turma representou a minha consolidação como docente da Rede Pública Federal de Educação, Técnica e Tecnológica, atuando como docente por toda a duração do curso e buscando caminhos pedagógicos para identificar possibilidades de integração curricular que conseguissem avançar na concretização do discurso sobre o tema. Essa discussão parte de uma breve reconstrução histórica da Educação Profissional no Brasil com o intuito de situar a implantação da Rede Federal de Educação Profissional. Essa incumbência pretende ser constituída no primeiro capítulo, a partir da análise dos documentos oficiais, que orientam as definições das Políticas Educacionais no Brasil. Essa análise foi prospectada a partir da contextualização dos fatos históricos, que influenciaram o processo de implementação. Tal contextualização também foi pensada tendo em vista as discussões, que poderiam conduzir à questão do currículo integrado. Como aporte para nossas análises retrospectivas da Educação Profissional no Brasil, dialogamos com três autores fundamentais: Silvia Maria Manfredi(2002), Acácia Kuenzer(2007) e Jailson Santos(2007). No segundo capítulo, se constituem a apresentação e análise das referências, que sustentam a prática e os novos diálogos possíveis apresentados no terceiro capítulo. Identificando na teoria crítica uma importante vertente articulada aos ideais norteadores da proposta do currículo integrado, procura-se delinear alguns princípios fundamentais desta pesquisa. O objetivo foi compreender e referendar, nos autores pesquisados, o potencial encontrado na proposta do Currículo Integrado no sentido de proporcionar uma educação integral ao educando. Já no terceiro e último capítulo, procuramos catalisar a discussão em torno do Currículo Integrado, partindo de algumas reflexões sobre a minha prática docente nas aulas do curso. Nesse sentido, acena para a possibilidade de romper a dualidade entre o Ensino Técnico e o Básico com a construção de um Currículo Integrado, sobretudo tendo como suporte as práticas desenvolvidas nas aulas de Geografia e o resultado da análise dos PPC e PE, a partir de um objetivo em comum descrito no próprio PPC, nos componentes curriculares e no perfil do egresso do curso e da Instituição. 1 ESBOÇO DA TRAJETÓRIA DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL NO BRASIL Neste capítulo, fundamentados em Kuenzer (2007), Manfredi (2002), Santos (2007) e documentos oficiais sobre o tema, apresentamos uma retrospectiva das políticas educacionais relativos a trajetória e aos fatos históricos que influenciaram e nortearam a constituição da dualidade estrutural da Educação Profissional Técnica (EPT) no Brasil. Uma situação que culminou com a criação da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (RFEPCT) e dos Institutos Federais (IFs). Outro aspecto relevante refere-se às discussões em torno do Currículo Integrado, que é constitutivo da formação proposta nos IFs. Obviamente, não esgotaremos a abordagem histórica de tema tão complexo, porém, esboçaremos um rápido balanço dos acontecimentos, finalidades, implicações, concepções pedagógicas e interesses, ao longo da trajetória da EPT no país, até o estabelecimento do nosso lócus de pesquisa - Campus de São Borja do Instituto Federal Farroupilha, RS. Por isso, organizamos o abaixo o Quadro1, que resume o período entre 1809 a 2008, ano de criação da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica. QUADRO 1: Aspectos da Organização e Evolução da Educação Profissional no Brasil (1809 a 2008). FATOS DOCUMENTOS Decreto Imperial CONTEXTO 1809 Após a suspensão da proibição de funcionamento das indústrias manufatureiras no Brasil por Portugal, é criado, por Dom João VI,o Colégio das Fábricas, que objetivava ensinar práticas de ofícios à população para desempenhar atividades nas fábricas manufatureiras. Colégio Fábricas. 1850 Construídos pelas sociedades civis de amparo a crianças órfãs, os liceus visavam estimular um estudo intermediário entre o bacharelado e o analfabetismo, que permitisse o desenvolvimento profícuo e digno de uma profissão. Criação de Liceus de Artes e Ofícios. 1909 Institui oficialmente a educação profissional brasileira como instrumento de capacitação para atender ao desenvolvimento industrial e ao ciclo de urbanização. Com um caráter assistencialista, o principal objetivo era o de criar hábitos profícuos de trabalho aos desafortunados da sorte. Escolas Aprendizes Artífices. Cria os Colégios de Fábricas. Atas Liceus de Artes e Ofícios. Decretonº 7.566 Cria as Escolas de Aprendizes Artífices. EDUCAÇÃO PROFISSIONAL ANO de de 20 Lei: nº 378Transforma as Escolas de Aprendizes Artífices em Liceus Profissionais. 1937 O início da política educacional do Governo Vargas é marcado pela criação do Ministério da Educação e Saúde Pública e por um período de grande expansão do ensino industrial por conta da política econômica de substituição de importações adotada pelo governo,que necessitava de mão de obra especializada. Liceus Profissionais. Decretos nº 4.048 1942 Neste período ocorria a 2ª Guerra Mundial, que impactou profundamente na importação de produtos industrializados, fortaleceu a fabricação de produtos da indústria nacional e desencadeou uma demanda de mão de obra especializada. Visto que o sistema de ensino não atendia essa demanda para a formação de profissionais, foi criado o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Pioneiro no Sistema S, representou medidas governamentais de transferir a EPT para o mercado, pois o financiamento do Sistema é feito pelos empresários, que contribuem com um percentual do total da folha de pagamento. Liceus Profissionais e Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). 1942 As medidas promovidas por Gustavo Capanema,na política econômica e EPT, sustentavama intensificavama divisão de classes ao concentrar os filhos dos pobres nas escolas técnicas e os demais nas escolas regulares, o que resultou na ampliação da dualidade estrutural da Educação no Brasil. Escolas Industriais e Técnicas e SENAI. 1946 Utilizando-se da experiência do SENAI, o governo lança o SENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial), visando qualificar o serviço ofertado por este setor tendo em vista a crescente urbanização que ocorria no país. Escolas Industriais e Técnicas, SENAI e SENAC. 1961 Apesar de a lei garantir maior flexibilidade na passagem entre o ensino profissionalizante e o secundário com a chamada plena equivalência, persiste dualidade estrutural da educação no Brasil. A LDB carregava os interesses do modelo econômico agrárioexportador e urbano-industrial que perpetuava um ideário de formação profissional e efetuava a adaptação do ensino às demandas da produção industrial. Neste período, os estabelecimentos de ensino industrial recebem a denominação de Escolas Técnicas Federais (ETFs) Escolas Técnicas Federais (ETFs), SENAI e SENAC. 1971 Para suprir as necessidades de mão de obra promovidas pelo período conhecido como “Milagre Econômico”, ocorre a generalização do ensino com a implantação do segundo grau profissionalizante. Sustentada pela teoria de capital humano, esta medidaintensificou a tendência de modelo taylorista-fordista na educação e priorizou o viés tecnicista daEPT. ETFs, SENAI, SENAC e todo o Ensino de segundo grau. 1978 Neste ano é visível o enfraquecimento da Ditadura Militar no Brasil e o lento processo de transição rumo à democracia. Contudo, a educação refletia as políticas econômicas do país. Por isso, a necessidade de qualificar ou até mesmo especializar os profissionais de acordo com os avanços técnico-industriais, nos serviços e até mesmo nas pesquisas.Tudo isso, mais a tentativa de atenuar a demanda reprimida e crescente do ensino superior e o aproveitamento da estrutura já ETFs, SENAI, SENAC, todo o Ensino de segundo grau e os Centros Federais de Educação Tecnológica (Cefets). Cria o SENAI (Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial). Decreto nº 4.127 Cria Industriais Técnicas. Escolas e Decreto nº 8.621 CriaoSENAC (Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial). Lei nº 4.024 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 5.692 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 6.545 Dispõe sobre a transformação das Escolas Técnicas Federais de Minas Gerais, do Paraná e Celso Suckow da Fonseca em Centros 21 Federais de Educação Tecnológica. Lei nº 7.044 existente nas ETFs contribuiu para a criação dos Cefets. Mesmo com os interesses do desenvolvimento do capital humano, inegavelmente a criação dos Cefets representou um reconhecimento à capacidade das ETFs de promoverem uma formação qualificada e uma possibilidade de verticalização do ensino profissional. 1982 No “fechar das cortinas” do período da Ditadura Militar ocorre a chamada reforma da reforma ao simplesmente alterar o termo qualificação pelo termo preparação na LDB retira a profissionalização do ensino secundário evidenciando que nem sempre a determinação da lei se reflete na prática. As ausências de investimentos físicos e pedagógicos contribuíram para que a generalização do ensino não ocorresse efetivamente. ETFs, SENAC Cefets. 1991 A década de oitenta,reconhecida como o período da redemocratização do Brasil, mas também como a “Década Perdida”, registrou intensas críticas àsETFs,como uma estrutura de altos custos para os cofres públicos e destinada a servir ao capital.Por conta disso e aliando políticas públicas de perspectiva neoliberal na década de noventa ocorreram profundas mudanças na educação profissional do país. Assim, vinculados à mecanização agrícola do país e para conter a êxodo rural é ampliado o Sistema S com a criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR) como objetivo da formação profissional de jovens e adultos que exerçam atividades no meio rural. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets e o Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (SENAR). 1994 Entre as mudanças da EPT na década de noventa está a criação do Sistema Nacional de Educação Tecnológica e o Conselho Nacional de Educação Tecnológica. As ETFsvão se transformando em Cefets, mediante o preenchimento dos critérios pré-estabelecidos pelo MEC. Mas a grande mudança da lei estava em seu art. 5º,ao determinar que somente poderiam ser criadas novas unidades de ensino federal em parceria com outros poderes públicos, setores produtivos e/ou órgãos governamentais ficando estes últimos responsáveis pela gestão e manutenção do novo estabelecimento. Essa medida simbolizou o período de desmantelamento e abandono por parte do governo das EPTs, em especial as ainda vinculadas apenas à formação do Ensino Médio Profissional. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets e o SENAR. 1996 A LDBEN estruturou a educação brasileira em dois níveis: educação básica e superior; duas modalidades: educação especial e de jovens e adultos e uma modalidade complementar: a educação profissional.Além de dispor sobre a Educação Profissional num Capítulo separado da Educação Básica, configurou a identidade educação profissional como um tipo de educação integrada às diferentes formas de educação, e também ao trabalho, à ciência e à tecnologia. Ainda em relação à EPT, a LDBEN sofreu forte influência dos inúmeros pactos internacionais firmados pelo Brasil entre os anos de 1990 até 1996, evidenciando a tendência de educar a favor do capital. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets e o SENAR. Termina com a profissionalização do ensino de 2⁰ graus. Lei nº 8.315 Cria o SENAR (Serviço Nacional de Aprendizagem Rural). Lei nº 8.948 Cria a instituição do Sistema Nacional de Educação Tecnológica. Lei nº 9.394 Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. SENAI, e os 22 Decreto nº 2.208 1997 Este decreto intensificou a separação entre a educação profissional e o ensino médio ao criar matrizes curriculares e matrículas distintas. Ou seja, ao estudante do Ensino Técnico Profissional de Nível Médio era disponibilizada na forma de concomitância, que poderia ser interna ou externa. Para isso o aluno deveria ter duas matriculas distintas, inclusive na mesma instituição de ensino, uma para o ensino médio e outra para o ensino técnico. Essas medidas referendadas pela noção de competência e do permanente desenvolvimento das aptidões produtivas, intensificaram a dualidade da estrutura educacional brasileira. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets e o SENAR. 1998 Com esta lei, sob a justificativa de ausência de verba para investimentos, no seu art 47º, parágrafo quinto, sujeitou a criação de novas unidades de educação somente através de parcerias e isentando a União da responsabilidade de gestão e manutenção (a nova escola não seria federal, mas estadual, municipal ou privada), o governo simbolicamente jogou uma “pá de cal” no enterro dasEPTs do país. O descaso foi tamanho que entre o período de 1995 a 1998, não foi autorizado a contração nem docente nem técnica pela SEMTEC. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets e o SENAR. 1999 O SESCOOP (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo) faz parte do Sistema S.Criado pela Medida Provisória nº 1.715 e regulamentadopelo decreto 3.017, o principal objetivo deste sistema é qualificar para trabalhar no sistema de cooperativa, apresentado como alternativa para o desenvolvimento econômico. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets, SENAR e o SESCOOP (Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo). 2004 2003:A Semtec/MEC, hoje Setec, propôs um processo de debates com a sociedade visando aperfeiçoar a legislação dasEPTs, resultando num documento intitulado Proposta da Educação Profissional e Tecnológica, que serviu como base para a criação do decreto.O novo decreto contemplou, em parte, todos os envolvidos nas discussões ao possibilitar o desenvolvimento das EPTspor meio de cursos e programas de formação inicial e continuada de trabalhadores, educação profissional técnica de nível médio (integrado, concomitante ou subsequente) ede graduação e pós-graduação. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets, SENAR e o SESCOOP. 2005 Esta lei despertou asEPTs do longo período de “sono” a que foi submetido na década de noventa que, ao substituir o termo somente previsto nas leis anteriores pelo termo preferencialmente, resgatou a possibilidade de sua expansão. Isso resultou no lançamento da primeira fase do Plano de Expansão da Rede Federal com a construção de novas unidades e no surgimento da primeira Universidade Tecnológica do Brasil. ETFs, SENAI, SENAC, Cefets, SENAR, as SESCOOPe Universidades Tecnológicas (UTs). 2008 Foi possível criar a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica e, por conseguinte, os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia. Essas mudanças representaram uma grande, se não a maior, mudança em termos de abrangência geográfica dasEPTs na história do país. SENAI, SENAC, Cefets, SENAR, SESCOOP,UTs e Institutos Federais (IFs). Regulamenta a Educação Profissional, cria o PROEP e institucionaliza a dualidade estrutural da Educação Profissional. Lei nº 9.649 Dispõe sobre a organização da Presidência da República e desmantela a Educação Profissional. Decreto nº 3.017 Cria o SESCOOP: Serviço Nacional de Aprendizagem do Cooperativismo. Decreto nº 5.154 Regulamenta a Educação Profissional, acrescentando o ensino integrado como modalidade de Ensino Técnico de Nível Médio. Lei nº 11.195 Possibilitou o lançamento do Plano de Expansão da Rede Federal e criou a Universidade Tecnológica (UT). Lei nº 11.892 Institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e 23 Tecnológica e cria os Institutos Federais. Criação, pela Resolução 03 do Catálogo Nacional de Cursos, que, posteriormente, irá regular a criação dos cursos técnicos no Brasil. Fonte: Síntese das obras de Kuenzer (2007), Manfredi (2002), Santos (2007) e Leis, Decretos, Portarias e Resoluções Federais (BRASIL, 1909, 1937, 1942a, 1942c, 1946, 1961, 1971, 1978, 1982a, 1991, 1994, 1996, 1997b, 1998, 1999, 2004, 2005b, 2008a). De acordo com Kuenzer (2007), Manfredi (2002) e Santos (2007), desde o tempo em que o Brasil era colônia de Portugal, prevalecia uma distinção entre os trabalhos escravo,considerados apenas de cunho manual, e o dos homens livres, considerados mais intelectuais. Por conta dessa distinção e com a intenção de organizar a sociedade no início do século XIX, foram criados os Colégios de Fábricas para acolher os marginalizados da sociedade, como os órfãos vindos com a Família Real de Portugal, os escravos e os jovens abandonados. Posteriormente, para ofertar uma possibilidade de ensino e formação, foram criadas as Casas de Educandos e os Liceus, que poderiam ser mantidos tanto pelo governo quanto pela sociedade civil. Porém, a criação das Escolas de Aprendizes Artífices, em cada uma das capitais dos Estados Brasileiros, foi o marco oficial daEPT. Essas Escolas mantiveram o caráter assistencialista dos Liceus, ao defender a formação da moral pelo trabalho e ao ofertar um ensino profissional primário gratuito aos sujeitos “desafortunados”, para que aprendessem um trabalho operacional, que os afastasse da ociosidade, do vício e do crime,servindo também, através de uma política assistencialista, como instrumento de capacitação de cidadãos úteis à Nação (BRASIL, 1909). No Estado Novo (1930), foi criado o Ministério da Educação e Saúde Pública 1 que representou uma importante mudança nesse período em relação à educação. Contudo, a vontade política de transformar o Brasil, de um país agrícola e rural emindustrial e urbano, foi marcada pela decisão das classes dominantes de compor a ideia de desenvolvimento do país de modo dependente e associado ao grande capital (FRIGOTTO, CIAVATTA, 2006), conforme a política econômica nacionalista de substituição das importações 2 do Governo Vargas. Por isso, o decreto 4.073/1942 determinou um ensino industrial apoiado num sólido ensino prático e teórico sem especialização prematura ou excessiva dos alunos, para evitar a 1 O que, de certa forma, representou um avanço em relação às medidas anteriores, que vinculavam as Escolas de Aprendizes Artificesao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio e exigiam dos candidatos à vaga não possuir qualquer moléstia grave. 2 A política de substituição de importação do Governo Vargas, pós-crise de 1929, consistia em priorizar a produção industrial no país em detrimento da importação com o objetivo de controlar a balança comercial do país e a balança de pagamento. 24 evasão percebida na implantação do decreto 7.566/1909, e propor a formação de uma mãodeobra qualificada e capaz de executar funções demandadas pelas novas tecnologias da época (BRASIL, 1909 e 1942b). Para Saviani (2007), a política educacional adotada nesse período objetivava, também, o atendimento das demandas surgidas com a intensificação da urbanização resultante do aumento da industrialização do país, demonstrando a lógica de hiper-valorização do saber fazer. Isso deflagrado de forma mais precisa pela obrigatoriedade de alunos egressos dos cursos técnicos prestarem exame vestibular no nível superior somente para cursos da mesma área já cursada ou ainda não ser permitido aos alunos dos cursos profissionalizantes migrarem para outros não técnicos, evidenciando uma formação geral era pouco acentuada no ensino profissional. Essa dualidade educacional representava a divisão técnica do trabalho: de um lado, os trabalhadores de funções operativas e, do outro, aqueles de gerência dos processos. Isso mostra a existência de duas formas de ensino: uma propedêutica e academicista, destinada aos jovens de origem econômica elevada, e, outra, instrumental e básica (profissional ou não), destinada aos jovens filhos de trabalhadores, que serviriam de mãodeobra para o capital. Esses indícios permitem inferir a dualidade estrutural do ensino. Como as iniciativas de formação de mãodeobra profissional não alcançaram êxito e, com a crescente necessidade de técnicos profissionais por causa do período do “milagre econômico 3 ”, houve uma profunda reformulação do ensino no Brasil com a criação do segundo grau profissionalizante (BRASIL, 1971). Segundo Davies (2004), as mudanças provocadas com a publicação da lei 5.692/1971 foram uma tentativa formal de acabar com o dualismo estrutural no ensino; porém, o viés tecnicista prevalecia ao determinar que a formação técnica devesse predominar sobre a geral. Ao negar necessidades específicas de grupos sociais distintos, juntamente com a falta de investimento de ordem estrutural, pedagógica e do pouco preparo por parte dos docentes que atuavam nesse novo segundo grau, o governo ampliou as desigualdades já existentes, pois, [...] se, por um lado, a crítica à dualidade estrutural no país mostra seu caráter perverso, por outro, simplesmente [mostra que] estabelecer um modelo único não 3 Período entre 1968 a 1973, em que houve um intenso investimento, por parte do Poder Público Federal, em infraestrutura no país. Nesse período, o país chegou a alcançar a oitava colocação como maior economia do planeta; contudo, ao passo que a economia crescia, aumentava o fosso entre os mais ricos e os mais pobres. 25 resolve a questão, posto que submeter os desiguais a igual tratamento só faz aumentar a desigualdade (KUENZER, 2007. p. 36). Além disso, a educação profissional nesse período não conseguiu formar mãodeobra para a industrialização e intensificouainda mais o fosso que separava o trabalho manual do intelectual.E mais: ampliando a dualidade estrutural do ensino e mostrando a intenção, por parte dos dirigentes nacionais, de submeter a educação aos ditames do mercado, fez do processo de ensino um espaço apenas paraformar trabalhadores. Já a década de oitenta foi marcada pelo fim do Regime Militar no Brasil 4 e a transição para o governo civil resultou na elaboração da Constituição de 1988. Antes disso, foi publicada a lei 7.044/1982, alterando a lei 5.962/1971. Essa lei representou a reforma da reforma, pois, ao substituir o termo qualificação pelo termo preparação,acabou com a generalização do ensino regular e profissional e incluiu o trabalho como parte da formação do estudante (BRASIL, 1982a). Essa redemocratização do Brasil registrou intensas críticas quanto à finalidade da Rede de Educação Federal, considerada por alguns como uma estrutura de ensino de alto custo para os cofres públicos e, por outros, como elitista, pois destinava-se a servir ao capital. Inegavelmente, uma educação de qualidade para todos exige boa provisão financeira, independente de sua esfera pública ou privada. Por conta disso, um dos fatores que impediram a profissionalização do ensino de segundo grau na década de setenta foi exatamente a falta de investimentos. Essas discussões, em torno do custo da educação pública federal, começaram a ganhar força no seio da política nacional, principalmente nos governos neoliberais da década de noventa, provocando profundas mudanças na EPT no país. Segundo Frigotto (2000), termos como empregabilidade, trabalhidadeoulaboralidade,expressos nos diversos documentos oficiais da década de noventa, representavam a tendência neoliberal das decisões políticas, o que, além de intensificar a exclusão social, enfraquecia o poder público e incentivava o individualismo. Para Bernstein (1996), esses discursos explecitavam um controle simbólico “construído e conduzido por agentes humanos atuando com discursos especializados, tornados disponíveis através dos campos recontextualizados da educação, o qual dará àquele controle de suas modalidades ideológicas” (1996. p.222). Essas mudanças refletiam os acordos internacionais, como o determinado no 4 O Regime Militar no Brasil durou vinte e um anos, de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985. 26 Consenso de Washington 5, que condicionava a tomada de empréstimos por parte do governo a medidas que regulavam as metas inflacionárias e o controle dos gastos públicos, E, como a EPT era considerada de altos custos, esses gastos deveriam ser controlados e reduzidos. Ao encontro disso, foi publicado o Decreto 2.208/1997 e, posteriormente, a lei 9.649/1998, ambos desvalorizando a EPT de nível médio e impedindo a criação de novas escolas técnicas federais no país (BRASIL, 1997b, 1998). ODecreto 2.208/1997,ao apresentar uma proposta de articular o ensino regular e o profissional através de reforma curricular em módulos e de cunho tecnicista referendada, na competência,reforçava a desarticulação estrutural do ensino,principalmente, ao prescrever que a educação profissional deveria conduzir ao permanente desenvolvimento das aptidões para a vida produtiva. Na visão de Bernstein (1996), a permanente busca por aptidões para a vida produtiva através da visão instrumental por competências acaba alijando o ensino de formação técnica das dimensões culturais, sociais, políticas e históricas. Já para Lopes e Macedo (2011), um currículo estruturado na pedagogia das competências remete o saber a um valor utilitarista e mecanicista, relegando a compreensão dialética das relações históricas. Segundo a autora, “a importância do saber passa a ser sua capacidade de gerar uma ação, a medida do conhecimento é sua utilidade” (LOPES e MACEDO, 2011, p.58). Outra importante mudança provocada pelo decreto 2.208/1997 foi a regulamentação do Capítulo III e do parágrafo 2º do art. 36 da LEDBN 9.394/1996, criando, para a educação profissional, três níveis. Art 3ºA educação profissional compreende os seguintes níveis: I - básico: destinado à qualificação, requalificação e reprofissionalização de trabalhadores, independente de escolaridade prévia; II - técnico: destinado a proporcionar habilitação profissional a alunos matriculados ou egressos do ensino médio, devendo ser ministrado na forma estabelecida por este Decreto; III - tecnológico: correspondente a cursos de nível superior na área tecnológica, destinados a egressos do ensino médio e técnico (BRASIL, 1997b). Esses níveis, juntamente com a definição de novas formas de ofertar a educação profissional (pós-médio e concomitância), estabeleceram a separação entre o ensino médio e o ensino profissional, pois, em relação à concomitância, que poderia ser interna ou externa, o 5 Conjunto de medidas,comoRedução dos gastos públicos, Reforma tributária, Juros de mercado, Câmbio de mercado, Abertura comercial, Investimento estrangeiro direto, com eliminação de restrições, Privatização das estatais, Desregulamentação das leis econômicas e trabalhistas, Direito à propriedade intelectual, formuladas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e o Banco Mundial para a promoção do desenvolvimento econômico dos países em desenvolvimento que estavam em dificuldade no início da década de noventa. 27 aluno, da mesma instituição, deveria possuir duas matrículas: uma para o ensino médio e outra para o técnico, ou seja, dois ensinos paralelos. Ainda sobre os níveis, a Educação Profissional de Nível Básico tinha como objetivo uma educação nãoformal com o intuito de oferecer uma possibilidade de “reprofissionalizarse, qualificar-se e atualizar-se para o exercício de funções demandadas pelo mundo do trabalho, [...] não estando sujeita à regulamentação curricular,” (BRASIL, 1997b). Isso representou o direcionamento da educação profissional para o viés da década de setenta do capital humano, destacado por Frigotto (2000) ao se referir a ideia de empregabilidade. No que se refere à organização do currículo, o Decreto 2.208/1997 destacava no art. 5ºque: A educação profissional de nível técnico terá organização curricular própria e independente do ensino médio, podendo ser oferecida de forma concomitante ou seqüencial a este. Parágrafo único. As disciplinas de caráter profissionalizante, cursadas na parte diversificada do ensino médio, até o limite de 25% do total da carga horária mínima deste nível de ensino, poderão ser aproveitadas no currículo de habilitação profissional, que eventualmente venha a ser cursada, independente de exames específicos (BRASIL, 1997b). Os artigos 5º e 6⁰ estabeleceram critérios para a elaboração de um currículo pleno, no qual se destacaum percentual de, no máximo, setenta e cinco da carga horária para o currículo Básico. Ou seja, o estudante sofria a redução de vinte e cinco por cento em relação à formação do aluno do ensino regular. Issosignificou um aprofundamento da dualidade do ensino da década de setenta com o agravante de que se estudava de forma propedêutica dentro da própria modalidade de ensino (BRASIL, 1997b). Além disso, o Decreto 2.208/1997, no seu art. 8⁰, determinava que o ensino técnico deveria ser estruturado em módulos e, ainda, previa a terminalidadepara efeito de qualificação. Isso remontava às políticas assistencialistas do início do século XX, pois assim que o aluno adquirisse determinada habilitação que lhe conferisse um emprego, não mais precisaria abandonar os estudos e sim solicitar sua certificação de qualificação profissional (BRASIL, 1997b). Desta forma, a década de noventa representou a desintegração entre o ensino médio e o Ensino Profissional Tecnológico, que passou por diversas mudanças em sua estrutura tais como a redução da oferta do ensino de nível médio nas ETFs e nos Cefets em detrimento à modalidade concomitante e pós-médio, conforme a Portaria 646 de 14/05/1997: 28 Art. 3º - As instituições federais de educação tecnológica ficam autorizadas a manter ensino médio, com matrícula independente da educação profissional, oferecendo o máximo de 50% do total de vagas oferecidas para os cursos regulares em 1997, observando o disposto na Lei nº 9394/96. Art. 4º - O plano de implantação a que se refere o Art. 1º deverá prever um incremento de vagas em relação às vagas oferecidas em 1997 no ensino regular de, no mínimo, 50% no período de até 05 anos (BRASIL, 1997a). Isso representou, de forma bastante intensiva, a institucionalização da dualidade da estrutura educacional brasileira, pois reduziu e desarticulou os currículos ao propor sua estruturação por módulos e simplificou os conhecimentos ao permitir a certificação de qualificação. Em 2003, a Secretaria de Educação Média e Tecnológica (SEMTEC/MEC), hoje intitulada SETEC (Secretaria Tecnológica de Educação), promoveu no Seminário Nacional Ensino Médio: Construção Política e Seminário de Educação Profissional: Concepções, Experiências, Problemas e Propostas,intensos debates sobra e a EPT no país. Entre osprincipais pontos de discussão,estavama certificação profissional, as fontes de financiamento, a institucionalização de um subsistema nacional da Educação Profissional e Tecnológica e a implantação do ensino técnico articulado ao ensino médio. Dessas discussões surgiram três teses: um grupo defendia manter o decreto 2.208/1997; outro, a revogação integral; e, ainda,um terceiro, pretendia a revogação com mudanças que garantissem a integração do ensino médio ao profissional e o fim da histórica dualidade estrutural da educação profissional (BRASIL, 2007). Por conta disso, foi elaborado, no segundo encontro, o documento Proposta da Educação Profissional e Tecnológica,que resultou na publicação do Decreto Federal 5.154 /2004 e revogação do Decreto nº 2.208/97, dando início a mudanças que possibilitaram aperfeiçoar a legislação do Ensino Profissional e Tecnológico no Brasil. A educação profissional técnica de nível médio, nos termos dispostos no § 2o do art. 36, art. 40 e parágrafo único do art. 41 da Lei no 9.394, de 1996, será desenvolvida de forma articulada com o ensino médio, observados: I - os objetivos contidos nas diretrizes curriculares nacionais definidas pelo Conselho Nacional de Educação; II - as normas complementares dos respectivos sistemas de ensino; e III - as exigências de cada instituição de ensino, nos termos de seu projeto pedagógico. § 1o A articulação entre a educação profissional técnica de nível médio e o ensino médio dar-se-á de forma: I - integrada, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino fundamental, sendo o curso planejado de modo a conduzir o aluno à habilitação profissional 29 técnica de nível médio, na mesma instituição de ensino, contando com matrícula única para cada aluno; II - concomitante, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino fundamental ou esteja cursando o ensino médio, na qual a complementaridade entre a educação profissional técnica de nível médio e o ensino médio pressupõe a existência de matrículas distintas para cada curso, podendo ocorrer: a) na mesma instituição de ensino, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; b) em instituições de ensino educacionais disponíveis; ou distintas, aproveitando-se as oportunidades c) em instituições de ensino distintas, mediante convênios de intercomplementaridade, visando o planejamento e o desenvolvimento de projetos pedagógicos unificados; III - subseqüente, oferecida somente a quem já tenha concluído o ensino médio (BRASIL, 2004). Ao contrário do decreto 2.208/1997, que impedia o ensino médio de oferecer a formação técnica, o Decreto 5.154/2004 procurou contemplar, em parte, todos os envolvidos nas discussões, possibilitando a ampliação da oferta do ensino profissional integrado, concomitante ou subsequente, demonstrando vontade de estabelecer a consolidação de formação politécnica, capaz de contemplar o trabalho manual e intelectual. Em relação ao currículo, o Decreto 5.154/2004 alterou o criticado art. 5º do antigo Decreto 2.208/97, que determinava uma organização curricular independente do ensino médio no qual essa poderia ser ofertada de forma concomitante sequencial, o que, para muitos, como Frigotto, Ciavatta e Ramos (2005), mantinha a dicotomia entre o ensino médio propedêutico e o médio profissional. Acompanhando essa onda de mudanças, é publicada a Lei 11.195, em 18 de novembro de 2005, revogando o parágrafo 5⁰ da Lei 8.948/1994 (incluído pela Lei 9.649/1998).Em sua nova redação, esse parágrafo alterou o antigo texto, que determinava que somente pudessem ser criadas novas unidades de ensino federal em parceria com os outros poderes públicos ou setores produtivos e/ou órgãos governamentais, ficando estes últimos responsáveis pela gestão e manutenção do novo estabelecimento (BRASIL, 1998 e 2005b). Essa determinação impediu na década de noventa, a expansão da EPT federal no Brasil. Em 29 de dezembro de 2008, a Lei Federal nº 11.892institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica,com a criação dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, mediante a unificação dos Cefets, das Escolas Agrotécnicas, das Escolas Técnicas Federais e parte das escolas técnicas vinculadas às universidades(BRASIL, 2008a). A publicação dessa lei, juntamente com o Decreto 5.154/2004, rompe as decisões da política educacional da década de noventa ao propor a 30 criação dos Institutos pelo governo e, segundo seu art. 8⁰, resguardar 50% das vagas ofertadas a alunos egressos do ensino fundamental. A oferta de licenciaturas e formação pedagógica contemplando o Inciso III do art. 6⁰ prevê, como finalidade dos Institutos, a promoção, a integração e a verticalização da educação básica à educação profissional e superior, além da otimização da infraestrutura e do quadro de pessoal representada pela utilização dos professores das áreas básicas na atuação desses níveis de ensino. Assim como os Institutos Federais, que representam uma proposta com base na verticalização e transversalidade dos currículos, em que inovação e tecnologia constituem os alicerces organizadores. A transversalidade reside na intenção de promover um ensino integrado entre a educação básica, a técnica (profissional) e a verticalização da inserção do ensino profissional integrado ao médio, com a oferta de cursos superiores de aperfeiçoamento, especialização e pós-graduação. Essa concepção de ensino profissional e tecnológico integrado ao ensino médio deve ocorrer segundo ações do tripé educacional ensino, pesquisa e extensão, e, dessa forma, permitir a integração entre ciência, tecnologia e cultura como condições de formação omnilateral do ser humano. De certa forma, resgatando o pretendido com o Decreto 87.310, de 21 de junho de 1982, que, ao mesmo tempo, regulamentou a Lei 6.545/78, que criou os Centros Federais de Educação Tecnológica e atribuiu-lhes a verticalização do ensino através da integração do ensino técnico de segundo grau ao superior. A verticalização, na época, representou uma tentativa de possibilitar aos alunos egressos do ensino profissional a continuidade nos estudos reconhecendo a capacidade de os Cefets não formarem apenas técnicos e tecnólogos, mas profissionais aptos a atuarem no mercado e continuarem os estudos na busca de uma formação de nível superior (BRASIL, 1978 e 1982b). A publicação da Resolução nº 06 propõe definições quanto às diretrizes curriculares para o ensino técnico de nível médio. No que se refere às formas a serem desenvolvidas, a articulação da educação profissional pode ocorrer de forma integrada ou concomitante. No que se refere à forma concomitante em que o aluno possui duas matrículas (uma na instituição técnica e outra no ensino médio), deve ocorrer entre elas, por meio de convênio, um projeto pedagógico unificado, que vise aos objetivos da Educação Básica (Ensino Médio e Educação Profissional e Tecnológica). Além disso, atender as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio, assim como as gerais para a Educação Básica e as Complementares, definidas 31 pelos respectivos sistemas de ensino. Diferentemente do que previa o Decreto 2.208/1997,de que os alunos deveriam possuir duas matrículas na mesma instituição de ensino, e a Lei 5.692/1971, que priorizava o ensino técnico ao ensino básico (BRASIL, 1971, 1997b, 2008a e 2012). As modalidades de cursos ofertados pelos Institutos devem estar pautadas nos doze eixos, quais sejam: Ambiente, Saúde e Segurança; Apoio Escolar; Controle e Processos Industriais; Gestão e Negócios; Hospitalidade e Lazer; Informação e Comunicação; Militar; Infraestrutura; Produção Alimentícia; Produção Cultural e Design; Produção Industrial e Recursos Naturais, tudo isso conforme o Parecer CNE/CEB nº 277/2006 (BRASIL, 2006a), com núcleo politécnico comum, o que torna o processo educativo sintonizado com a integração curricular. A partir desses eixos, pelo Parecer do CNE/CEB 11/2008, foi instituído o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio, como importante mecanismo de organização, de orientação da oferta nacional de cursos técnicos de nível médio e parte da política de desenvolvimento e valorização da educação profissional e tecnológica de nível médio (BRASIL, 2008c). Nesse ponto,o que fundamenta a questão desta pesquisa é refletir acerca dos limites, possibilidades e potencialidades de integração curricular da educação profissional articulada ao ensino médio, considerando o papel e as metodologias adotadas na disciplina de Geografia do curso Técnico em Eventos para uma formação humanística e de cultura geral integrada à formação técnica, tecnológica e científica (BRASIL, 2011). Toda essa caminhada foi empreendida para compreender as importantes mudanças ocorridas na história e historicidade da EPT, no Brasil, não apenas para chegarmos à criação do Instituto Federal Farroupilha Campus São Borja, mas para delinearmos uma forma de compreender como ocorreu e ainda ocorre a EPT e o currículo integrado,pois, como afirma Lopes, “não acredito em mudanças das organizações curriculares por decretos; para mudá-las, penso ser necessário conhecê-las e entender as razões de sua existência” (LOPES, 2008. p.12). A seguir, descreveremos a criação do Instituto Federal Farroupilha e a implantação do Campus de São Borja com o intuito de explicitar as características do local da pesquisa. 32 1.1 Instituto Federal Farroupilha O Instituto Federal Farroupilha (IF Farroupilha) foi criado pela Lei 11.892/2008, mediante a integração do Centro Federal de Educação Tecnológica de São Vicente do Sul, com sua Unidade Descentralizada de Júlio de Castilhos, e da Escola Agrotécnica Federal de Alegrete, além da Unidade Descentralizada de Ensino que pertencia ao Centro Federal de Educação Tecnológica de Bento Gonçalves, situada no município de Santo Augusto. Na sua origem, o Instituto Federal Farroupilha constituiu-secom quatro Campi, sendo eles: São Vicente do Sul, Júlio de Castilhos, Alegrete e Santo Augusto. No ano de 2010, o IF Farroupilha expandiu-se com a criação dos Campi Panambi, Santa Rosa e São Borja. No ano de 2012, o Núcleo Avançado de Jaguari,que pertencia ao Campus de São Vicente do Sul, foi transformado em Campus do IF Farroupilha e, para 2014, se constituirá oCampus na cidade de Santo Ângelo e as Unidades Avançadas de Uruguaiana e Santa Cruz do Sul, conforme destacado no Mapa 1: MAPA 1: Campi Instituto Federal Farroupilha Fonte: Instituto Federal Farroupilha –PROEN:Pró-Reitoria de Ensino, 2014 33 Até o início de 2011, o IF Farroupilhaera composto por nove campi com oferta de cursos de formação inicial e continuada, cursos técnicos de nível médio, cursos superiores e cursos de pós-graduação, além de outros Programas Educacionais fomentados pela Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (SETEC). Além desses campi, o IF Farroupilha atua em mais de trinta e oito cidades do Estado a partir da oferta de cursos técnicos na modalidade de ensino a distância. A sede da Reitoria do IF Farroupilha, por força da Lei 11.892/2008, está localizada na cidade de Santa Maria. O motivo que justifica a escolha dessa cidade reside na sua localização geográfica na Mesorregião Centro Ocidental do Rio Grande do Sul, interpretado como fator facilitador, a fim de garantir condições adequadas para a gestão institucional, a comunicação e a integração interCampi. Com essa abrangência, o IF Farroupilha visa àinteriorização da oferta de educação pública e de qualidade, atuando no desenvolvimento local a partir de cursos voltados para os arranjos produtivos, culturais, sociais e educacionais das regiões. Essa visão fundamenta-se na sua Missão Institucional de buscar a “promoção de uma educação profissional, científica e tecnológica por meio do ensino, pesquisa e extensão, com foco na formação de cidadãos críticos, autônomos e empreendedores, comprometidos com o desenvolvimento sustentável” (BRASIL, 2013a). O IF Farroupilha possui dez eixos tecnológicos, conforme o Catálogo Nacional de Cursos 6 e a Resolução n⁰ 03/2008 do Conselho Nacional de Educação, destacados no Quadro2. QUADRO2: Eixos Tecnológicos IF Farroupilha EIXOS TECNOLÓGICOS Produção Alimentícia Alegrete; Júlio de Castilhos; Panambi; Santa Rosa; Santo Augusto; São Vicente do Sul e Jaguari. Recursos Naturais Alegrete; Júlio de Castilhos; Panambi; Santo Augusto; São Vicente do Sul e Jaguari. Informação e Comunicação Controle e Processos Industriais Gestão e Negócios 6 CAMPUS 7 Alegrete; Júlio de Castilhos; Panambi; Santa Rosa; São Borja; Santo Augusto; São Vicente do Sul e Jaguari. Panambi. Júlio de Castilhos; Panambi; Santa Rosa; Santo Augusto; São Vicente do Sul e Jaguari. Cada eixo representa as condições e os critérios que devem ser seguidos para a criação de um curso técnico de nível médio no país, como a definição, a nomenclatura do curso, a carga horária e o perfil descritivo (BRASIL, 2008b). 7 O Campus de Santo Ângelo não foi apresentado, pois os cursos serão ofertados a partir de 2014. 34 Infraestrutura Panambi e Santa Rosa. Ambiente, Saúde e Segurança Panambi, Santa Rosa e São Borja. Produção Industrial Santa Rosa. Turismo, Hospitalidade e Lazer São Borja Desenvolvimento Educacional e Social São Vicente do Sul. FONTE: Brasil (2013a). De acordo com o Catálogo Nacional de Cursos Técnicos de Nível Médio, excetuando-se os Eixos Tecnológicos Militar e Produção Cultural e Design, podemos afirmar que os cursos técnicos e tecnológicos ofertados pelo IF Farroupilha possuem ampla área de abrangência, fomentando o desenvolvimento da EPT de forma socialmente plena e a favor dos arranjos produtivos, sociais, culturais e locais (BRASIL, 2008a, 2008b e 2008c). Abaixo, no Quadro3 estão distribuídos os Cursos Técnicos ofertados pelo Instituto Federal Farroupilha 8 em 2013, de acordo com seu eixo tecnológico e Campus 9. QUADRO3: Cursos Técnicos do IF Farroupilha Eixo: Produção Alimentícia Curso(Técnico) Campus Em Agroindústria Alegrete; Santa Rosa. Em Alimentos Júlio de Castilhos; Panambi; Santo Augusto e São Vicente do Sul. Eixo: Recursos Naturais Curso(Técnico) Campus Em Agropecuária Alegrete; Júlio de Castilhos; Santo Augusto; São Vicente do Sul. Em Agroecologia Alegrete. Em Agricultura Alegrete; São Vicente do Sul. Em Agricultura de Precisão Panambi. Pós-Colheita de Grãos Panambi. Em Zootecnia São Vicente do Sul. Eixo: Informação e Comunicação 8 Curso(Técnico) Campus Em Informática Alegrete; Júlio de Castilhos; Santo Augusto; São Borja; São Vicente. Em Manutenção e Suporte em Informática Alegrete; Panambi; São Borja; São Vicente do Sul. Em Rede de Computadores Júlio de Castilhos. Optamos em apresentar os cursos independentes de suas Formas de ensino (Integrado ou Subsequente), modalidade presencial ou EaD (Educação a Distância) ou ainda seu nível (Médio integrado, pós médio ou Proeja), pois o objetivo desse quadro é demonstrar campo de atuação do Instituto Federal Farroupilha na oferta de cursos técnicos. 9 De acordo com o Relatório de Oferta de Cursos do Instituto Federal Farroupilha, documento elaborado pela Pró-Reitoria de Ensino (PROEN). 35 Informática para Internet São Borja. Eixo: Controle e Processos Industriais Curso(Técnico) Campus Em Química Panambi. Eixo: Gestão e Negócios Curso(Técnico) Campus Em Comércio Júlio de Castilhos e Santo Augusto. Em Secretariado Júlio de Castilhos; Panambi; São Vicente do Sul. Em Vendas Santa Rosa; São Vicente do Sul. Em Administração Santo Augusto. Eixo: Infraestrutura Curso(Técnico) Campus Em Edificações Panambi e Santa Rosa. Eixo: Ambiente, Saúde e Segurança Curso(Técnico) Campus Controle Ambiental Panambi. Em Meio Ambiente Santa Rosa. Nutrição e Dietética São Borja. Eixo: Turismo, Hospitalidade e Lazer Curso(Técnico) Campus Em Cozinha São Borja. Em Eventos São Borja. Em Hospedagem São Borja. Guia de Turismo São Borja. Eixo: Produção Industrial Curso(Técnico) Campus Em Móveis Santa Rosa. Eixo: Desenvolvimento Educacional e Social Curso(Técnico) Campus Em Secretária Escolar São Vicente do Sul. FONTE: Brasil (2013a). De acordo com o Quadro3, o IF Farroupilha possui quarenta e sete cursos técnicos distribuídos em dez Eixos Tecnológicos, com destaque para os Eixos Informação e Comunicação com onze cursos e Recursos Naturais com dez. O Campus do IF Farroupilha em São Borja é o único que oferece cursos no Eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer, por conta do potencial turístico e gastronômico da região,o que justifica a escolha do Curso de Eventos como objeto na pesquisa desta dissertação. 36 Para ofertar os cursos descritos (Quadro3), o Instituto possui em torno de oitocentos e oitenta e três servidores, dos quais quatrocentos e vinte e quatro docentes e quatrocentos e cinquenta e nove técnicos-administrativos nos Campi e na Reitoria. Destes, quarenta e um docentes e trinta e cinco servidores estão lotados no Campus de São Borja. Com toda essa estrutura, o Instituto Federal Farroupilha, em sua recente trajetória,visaconstituir uma referência na oferta de educação profissional e tecnológica, comprometida com as realidades locais e, de acordo com sua Visão Institucional “ser referência em educação profissional, científica e tecnológica como instituição promotora do desenvolvimento regional sustentável” (BRASIL, 2013a). 1.2 Instituto Federal Farroupilha – Campus São Borja OCampus São Borja (Mapa2) foi criado por meio do Plano de Expansão da Rede Federal deEducação Profissional e Tecnológica – Fase II e através do convênio entre o Instituto Federal Farroupilha (IF Farroupilha) e a Prefeitura Municipal de São Borja (PMSB) de acordo com a Lei Orgânica Municipal n⁰ 3.848, de 22 de novembro de 2007, que destinava valores e infraestrutura para a implantação de um Campus na cidade de São Borja, incluindo, entre outras benfeitorias, o terreno para a construção da sede própria (BRASIL, 2009; SÃO BORJA, 2007). MAPA 2: Campus São Borja FONTE: Elaborado por RodrigoSeivaldBestetti. 37 Como resultados desses esforços, no ano de 2010, iniciaram-se as aulas do Campus em oito salas do quarto piso do Colégio Sagrado Coração de Jesus, na rua Gen. Marques, 1264, espaço locado pela PMSB. Somente no final de 2010, o IF Farroupilha transfere-se para a sede própria situada narua Otaviano Castilho Mendes, 355, Bairro Betim. Atualmente, nas instalações do Campus, as salas devidamente identificadas com placas, estão distribuídas ao longo de seis prédios: um de dois andares abrigando os setores administrativo, pedagógico, sala dos servidores e uma extensa biblioteca; um de quatro andares com quatorze salas de aula, uma como auditório, bar e área de recreação e convívio, além de sala das Coordenações de cursos, Coordenações de Extensão e de Pesquisa, Departamento de TI (Tecnologia e Informação), Tutoria deEaD (Educação a Distância), Estúdio deEaD, além dos laboratórios de Informática, Línguas, Hardware, Física, Matemática, Eventos, Hotel-Escola já concluídos, dos laboratórios de Biologia, Química e Turismo em construção, da Assistência Estudantil e do Setor de Saúde, composto pelas salas de Psicologia, enfermagem e do consultório odontológico. Além dos prédios citados, o Campus possui quadra coberta poliesportiva com sala para equipamentos e academia de musculação, além do vestiário. O setor administrativo possui, também, amplo Almoxarifado com garagem coberta para a frota de veículos institucionais; o refeitório em fase de conclusão e a Casa de moradia para os estudantes em início de obra. Ainda, um prédio com estrutura para o curso de Gastronomia e Cozinha com sala de aula e cozinhas-oficinas com equipamentos, instalações e almoxarifado próprio para armazenar os alimentos (com refrigeradores industriais). Em toda essa estrutura nova, com menos de três anos, o Campus oferta cursos Técnicos nos eixos Turismo, Hospitalidade e Lazer e Informação e Comunicação, Ambiente, Saúde e Segurança (Quadro2), além de cursos superiores e de pós-graduação (Quadro 4). QUADRO 4: Cursos Técnicos Ofertados no Campus São Borja EIXO: TURISMO, HOSPITALIDADE E LAZER Curso Técnico em Eventos Modalidade/Forma Integrado/Manhã e tarde(integral) e Subsequente/Noturno Técnico em Hospedagem Técnico em Cozinha Guia de Turismo Proeja/Noturno e Subsequente/Noturno Proeja/Noturno e Subsequente/Vespertino Subsequente/EaD EIXO: INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO Curso Téc. em Inf. p/Internet Modalidade/Forma Subsequente/EaD 38 Técnico em Informática Integrado/Manhã e tarde(integral) e Subsequente/Noturno EIXO: AMBIENTE, SAÚDE E SEGURANÇA Curso Modalidade/Forma Nutrição e Dietética Subsequente /EaD CURSOS SUPERIORES Curso Tecnologia em Gestão de Turismo Bacharelado em Sistema de Informação Licenciatura em Física e Matemática ESPECIALIZAÇÃO Curso Em Docência e Em Proeja. FONTE: Brasil (2013a). Além dos cursos descritos no Quadro4 são disponibilizados cursos do PRONATEC – Programa Nacional ao Ensino Técnico através do Programa Mulheres Mil 10,de acordo com o art 3⁰ do Decreto 5.154/2004. Os cursos e programas de formação inicial e continuada de trabalhadores, referidos no inciso I do art. 1o, incluídos a capacitação, o aperfeiçoamento, a especialização e a atualização, em todos os níveis de escolaridade, poderão ser ofertados segundo itinerários formativos, objetivando o desenvolvimento de aptidões para a vida produtiva e social (BRASIL, 2004). Quanto aos cursos EaD (Educação a Distância), o Campus São Borja possui polos nas cidades de São Borja, Santana do Livramento, Faxinal do Soturno, São Pedro do Sul, Santiago, Cruz Alta, Quaraí, Maçambará e Cachoeira do Sul, de acordo com o plano de expansão da oferta de educação pública de qualidade e em consonância ao Decreto 5.622, de 19 de dezembro de 2005, que regulamentou o art. 80 da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional n⁰ 9.394/1996: “O Poder Público incentivará o desenvolvimento e a veiculação de programas de ensino a distância, em todos os níveis e modalidades de ensino, e de educação continuada” (BRASIL, 2005a e 1996). No que se refere aos cursos presenciais, são ofertados quatorze cursos, sendo dois de Especialização e quatro de nível superior. Nas modalidades integradas e subsequentes, são dois e quatro cursos, respectivamente, e dois na modalidade Proeja (Quadro4). 10 O Programa Mulheres Mil tem como objetivo oferecer as bases de uma política social de inclusão e gênero, no qual mulheres em situação de vulnerabilidade social têm acesso à educação profissional, ao emprego e à renda. Os projetos locais são ordenados de acordo com as necessidades da comunidade e segundo a vocação econômica Disponível em: regional. http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=12299:programa-mulheres-mil&catid=267:programa-mulheres-mil-&Itemid=602 Acesso em: 16 de outubro de 2013. 39 No campus de São Borja do IF Farroupilha são atendidos em torno de mil quatrocentos e vinte e sete alunos (TABELA 1). TABELA 1: Alunos Matriculados IF Farroupilha Campus São Borja – RS CURSO / MODALIDADE Nº ALUNOS Técnico em Eventos/ Integrado 128 Técnico em Informática/ Integrado 171 SUBTOTAL 299 Técnico em Cozinha / Proeja 66 Técnico em Hospedagem / Proeja 63 SUBTOTAL 129 Técnico em Cozinha/ Subsequente 61 Técnico em Eventos / Subsequente 68 Técnico em Hospedagem / Subsequente 32 Técnico em Informática / Subsequente 74 SUBTOTAL Técnico em Guia de Turismo / EaD Subsequente (Santana do Livramento, Faxinal do Soturno e São Borja) 235 88 Técnico em Informática para Internet / EaD Subsequente (Cruz Alta, Quaraí, São Borja, Maçambará, Santiago) 201 Técnico em Nutrição e Dietética / EaD Subsequente (Cachoeira do Sul, Quaraí, Faxinal do Soturno, Santiago e São Borja ) 212 SUBTOTAL 501 Licenciatura em Física 49 Licenciatura em Matemática 41 Sistemas de Informação 30 Tecnologia em Gestão de Turismo 34 SUBTOTAL 154 Especialização em Educação Profissional Integrada à Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos 30 Especialização Técnica em Docência Profissional Técnica e Tecnológica 38 SUBTOTAL Mulheres Mil/ Profissionalizante Nível Fundamental (Pronatec) 68 41 SUBTOTAL 41 TOTAL: 1.427 ALUNOS FONTE: SRA – Setor de Registros Acadêmicos de 11 de setembro de 2013. 40 Considerando a necessidade de ofertar uma educação pública de qualidade e uma administração que possibilite ao IF Farroupilha – São Borja se tornar uma referência em Educação Profissional, Científica e Tecnológica, o Campus dispõe de um qualificado quadro de servidores todos prontos a atuarem numa gestão democrática de ensino. O quadro de pessoal em exercício no IF Farroupilha Campus São Borja possui aproximadamente cento e três servidores, sendo sessenta e um docentes, trinta técnicosadministrativos e doze estagiários. Desses,quatro docentes e três técnicos administrativos estão cedidos à Reitoria ou a outro Instituto, dois servidores em licença maternidade e três em afastamento total para qualificação (doutorado). Nesse ambiente, encontra-se o lócus da pesquisa realizada em torno das experiências alcançadas em torno de possibilidades de integração curricular, além disso, os sessenta docentes entre os eixos e cursos(Quadro2e Quadro 3) estão distribuídos em diversas áreas de atuação (Tabela 2). Mais especificamente, vinte e nove docentes na área técnica e trinta e um docentes na área básica (Tabela 2). Contudo, deve-se considerar que os docentes das áreas básicas atuam nos diferentes eixos de modalidade integrado, além dos cursos superiores e de especialização atendendo, aproximadamente, quinhentos alunos matriculados no IF Farroupilha Campus São Borja. TABELA 2: Docentes de acordo com seu Eixo ou Área de Atuação TOTAL 9 7 1 1 1 Biologia 1 1 Química 1 1 Arte Reitoria* 1 2 Física 1 1 Educação Física 1 2 Espanhol 1 1 História 1 1 Matemática 1 1 Sociologia 3 Filosofia Temporário Geografia 1 Português 1 Inglês 2 Zootecnia Pedagogia 1 Educação Especial Nutrição 5 Direito Gastronomia 5 Turismo Efetivos DOCENTES Informática Administração ÁREA DE ATUAÇÃO/FORMAÇÃO 3 1 1 1 3 1 2 1 2 1 1 1 1 1 1 2 3 2 2 1 2 1 2 4 1 2 2 1 5 2 2 2 3 2 2 3 FONTE: Setor Pedagógico em 17 de setembro de 2013. * Docentes cedidos à Reitoria. Destacamos, também, o fato de o Instituto possuir, em menos de três anos de existência, um expressivo número de docentes, vinte e um de sessenta e um, com vínculo 41 temporário ou substituto por conta da distribuição de cargos de coordenações e direções entre os docentes efetivos. Além disso, o Eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer possui doze docentes específicos das suas áreas técnicas, porém, se considerarmos apenas o curso de Técnico em Eventos, o número cai para seis em efetivo exercício, sendo que nenhum entre estes possui formação pedagógica ou experiência com educação de nível médio. Isso constitui um ponto fraco para o desenvolvimento de uma política pedagógica com o viés de integração curricular. Na sequência, abordaremos a criação, em 2011, do Curso de Técnico em Eventos de Nível Médio no campus de São Borja com o intuito de identificar os objetivos do mesmo e sua área de atuação a partir da leitura do Plano de Curso e do perfil do egresso. O curso, criado após as modificações sofridas pela EPT, no Brasil, carrega a vontade política e pedagógica de rompercom a histórica dualidade estrutural de ensino, numa educação técnica de nível médio que se propõe a desenvolver as aptidões técnicas da sua formação, sem se afastar da formação científica humana e cultural e, ainda possibilitando a verticalização do ensino. 1.2.1Curso Técnico em Eventos Integrado O Curso de Técnico em Eventos está classificado, de acordo com o Catálogo Nacional de Cursos, no Eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer, estando diretamente relacionado à qualidade de vida das pessoas por se tratar de um curso apto a formar profissionais para lidar com o lazer,o entretenimento e o desenvolvimento socioeconômico por conta do investimento e logística necessários à sua execução. Por isso, é de extrema importância a matriz curricular para o desenvolvimento de capacidades que atinjam esses objetivos. O curso de Técnico em Eventos abrange a área de eventos, mais especificamente vinculadas ao lazer. Para tanto, são necessários conhecimentos técnicos que possibilitem a atuação na prospecção, planejamento, organização, coordenação e execução dos serviços de apoio técnico e logístico de eventos e cerimônias, utilizando o protocolo e a etiqueta formal quando preciso. Além dos procedimentos administrativos e operacionais, o técnico deve estar apto a recepcionar e promover serviços de eventos, planejar e participar da confecção de ornamentos decorativos e coordenar o armazenamento e manuseio de gêneros alimentícios e bebidas servidas em eventos. Por tudo isso, possui um amplo campo de atuação como 42 autônomo, prestando consultoria ou serviços a agências de eventos, meios de hospedagens, instituições públicas ou privadas, restaurantes, bufês, empresas de marketing ou de comunicação para atuarem na organização de eventos empresariais, esportivos, culturais, sociais e técnico-científicos (BRASIL, 2011 e 2013b). O Curso de Técnico em Eventos visa capacitar os alunos a realizarem eventos de forma profissional, tanto nas esferaspúblicas como privadas. Na modalidade Ensino Médio Integrado,deve contribuir naarticulação entre diferentes saberes, permitindo que o aluno tenha a integração nãoapenas entre as disciplinas, mas também de sua formação humana com a profissional, na busca de promover uma formação humanística e de cultura geral integrada à formação técnica, tecnológica e científica, alcançando o sentido de currículo integrado(BRASIL, 2011 e 2012). Com o objetivo de assegurar a formação geral e as condições de preparação para o exercício de profissões técnicas,o curso está distribuído em 3.560 horas-aula, sendo 2.360 horas-aula para disciplinas das áreas básicas e 1.200 horas-aula para as áreas técnicas (Tabela 3). Toda essa distribuição visa otimizar o trabalho interdisciplinar, a organização edinamização dos processos de ensino-aprendizagem e a formação integral do cidadão, a partir da construção coletiva (BRASIL, 2004 e 2011). TABELA 3: Estrutura Curricular Curso Técnico em Eventos Integrado 2º Ano 1⁰ ANO 3ºAno Disciplina Horas Aula Disciplina Horas Aula Disciplina Horas Aula Português 120 Português 120 Português 120 Educação Física 120 Educação Física 80 Educação Física 80 Arte 40 Música 40 Inglês 40 Inglês 80 Espanhol 80 Espanhol 40 Biologia 80 Biologia 40 Biologia 40 Física 40 Física 40 Física 80 Química 80 Química 40 Química 40 Matemática 120 Matemática 120 Matemática 120 Geografia 80 Geografia 40 Geografia 40 História 40 História 40 História 80 Sociologia 40 Sociologia 40 Sociologia 40 Filosofia 40 Filosofia 40 Filosofia 40 Subtotal 880 Soma Parcial 720 Subtotal 760 43 Linguagem e Comunicação 40 Comunicação Oral e Escrita 40 Tecnologia da Informação 40 Introdução ao Turismo de Eventos 40 Saúde e Segurança no Trabalho 40 Gestão Financeira e Custos 40 Elaboração de Projetos e Logística Aplicada a Eventos 80 Organização de Buffets e Banquetes 40 Introdução ao Vídeo para Eventos 40 Cerimonial, Protocolo e Etiqueta I 80 Cerimonial e Protocolo II 40 Métodos e Técnicas de Pesquisa 80 Acessibilidade em Eventos 40 Gestão Ambiental 40 Legislação para Eventos 40 Empreendedorismo e Plano de Negócios 40 Introdução a Fotografia para Eventos 40 Eletiva II 40 Marketing para Eventos 40 Gestão de Pessoas 40 Ética Profissional 40 Eletiva I 40 Decoração de Ambientes e Interiores para Eventos 40 Trabalho de Conclusão de Curso 80 Organização de Eventos Esportivos 40 Subtotal 400 Subtotal 400 Subtotal 400 Total 1⁰ Ano 1280 Total 2⁰ Ano 1.120 Total 3⁰ Ano 1.160 FONTE: Brasil (2011). A estrutura curricular do Curso prevê um total de 3.560 horas-aula o que representa um regime de 3.116 horas-relógio 11, das quais 2.966 horas-relógio destinadas às aulas teóricas das disciplinas e 150 horas-relógio para atividades complementares, nos três anos em turno integral (Tabela 3). O curso Técnico em Eventos prevê, ainda, 10% da carga horária das disciplinas da área técnica, ou seja, 120 horas-aula, para Práticas Profissionais Integradas 12 (BRASIL, 2011). Estas práticas profissionais devem ser elaboradas semestralmente e obrigatoriamente registradas nos Planosde Trabalho dos professores. O PPI procuraefetuar uma articulação entre as disciplinas dos períodos letivoscorrespondentes. A adoção de tais práticas visa possibilitara efetivação de práticas interdisciplinares, além do planejamento integrado entre os elementos do currículo, sendo possível integrar os conhecimentos desenvolvidos entre as disciplinas da área técnica e, também, da área básica. As disciplinas eletivas, ofertadas nos primeiros e segundos anospelo colegiado e publicadas via edital, totalizam 80 horas-aula, e são escolhidas pelos discentes de acordo com 11 Para melhor compreender, as disciplinas são distribuídas em hora-aula, que correspondem a 50 minutos, já o curso é previsto em horas-relógio de 60 min, por isso, 3.560 horas-aula correspondem a 3.116 horas-relógio. 12 Importante destacar que essas práticas não correspondem ao Estágio Obrigatório que, aliás, não é previsto para esse curso. 44 seu interesse. Doravante são ofertadas seis disciplinas, todas de 40 horas-aula, sendo elas: Libras, Estratégias de Negociação em Eventos, Criatividade em Eventos, Cerimonial Universitário, Cerimoniais Sociais e Cerimoniais esportivos. Quanto ao corpo docente (Tabela 3), é relevante destacar que três professores da Turma 2011 do Técnico em Eventos Integrado entraram em afastamento total para qualificação profissional (doutoramento), sendo dois da área técnica e um da área básica, o que provocou a contratação de professores temporários para substituí-los. Ressalta-se que apenas dois professores da área técnica são efetivos. Isso dificulta a continuidade de uma proposta de integração curricular e impediu o desenvolvimento das PPIs nos dois primeiros anos da turma. O currículo proposto no Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Eventos destaca duas possibilidades de Integração curricular obrigatórias: 1) Práticas Profissionais Integradas e 2) Projetos Integradores,ambas condicionadas ao desenvolvimento por meio de projetos, o que não foi objeto desta pesquisa. Entre os fatores que contribuíram para isso citam-se a interpretação do setor pedagógico de que existe uma obrigatoriedade da PPI envolver apenas as disciplinas da área técnica e de que a PI seria desenvolvida só no último ano do curso. Na prática, esses fatos resultaram em cada disciplina trabalhar fragmentos de modo individual e não numa integração curricular efetiva. Destacamos isso para ressaltar a importância de continuidade do processo e das ações pedagógicas para romper a dicotomia 13 entre a educação técnica e o ensino regular, o que justifica a maior proximidade para a integração curricular com outras disciplinas da área básica, que sofreram menos alterações no seu quadro docente. E mais: isso tudo representa a nossa intenção de construir um projeto pedagógico que integre os conceitos estruturais de cada disciplina, para que o discente encontre na intencionalidade do processo de ensino mecanismos que permitam reconhecer a totalidade do conhecimento, pois acreditamos que as ciências se fragmentam para serem melhor entendidas e não divididas em compartimentos fechados. Segundo Suertegaray (2004), somente no trabalho coletivo interdisciplinarmente é possível entender as diferentes formas de compreensão de um problema, o que exige a sua 13 De um lado, uma educação voltada para o saber-fazer e, de outro, uma educação voltada para o saber-pensar (Saviani, 2007). 45 delimitação. Porém, o problema não se dissocia da sua totalidade, já que nas suas múltiplas determinações constitui-se como conhecimento. Daí acreditarmos que, para a promoção da integração curricular, seja necessário articular os conhecimentos no processo de ensino e aprendizagem, pois, como afirma Freire, “ninguém educa ninguém, ninguém se educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (1987, p.79). 2 DO QUE O CURRÍCULO TRATA? Após apresentarmos um recorte dos elementos que contribuíram para compor a histórica dualidade da Educação Profissional no Brasil até o momento da criação e construção dos Institutos Federais,iniciamos o debate em torno da temática do Currículo Integrado. Destacamos algumas teorizações sobre currículo para compreendermos as práticas pedagógicas na EPT no Brasil e, principalmente, para demonstrarmos o entendimento sobre Currículo Integrado para, com isso, delinearmos o pretendido e sustentar nossas análises e ações pedagógicas, visando identificar alguns limites e possibilidades de integração curricular. 2.1 Teorizações sobre o currículo Silva (2009) classifica as teorias de currículo a partir de alguns princípios,como poder, classe, raça e gênero. Considerando a definição de poder como critério, as teorias de currículo são demarcadas em tradicionais, críticas e pós-críticas. Dessa definição, ligamos as ideias tecnicistas às teorias tradicionais eas ideias progressistas às teorias críticas do currículo. A teoria tradicional, profundamente influenciada por pensamentos tayloristas, segue de forma similar à organização de uma empresa, além de contemplar uma necessidade imediatista de formação para o mercado de trabalho. Os principais representantes dessa teoria, Bobbit e Tyler, identificaram no currículo uma função organizativa, na construção de habilidades e na avaliação de metas a serem atendidas (SILVA, 2009;LOPES e MACEDO, 2011). Esse modelo, com sua perspectiva conservadora voltada para a economia,é identificado, na construção da dualidade educacional do Brasil, através de processos oficiais, demarcados por decisões políticas em torno de medidas educacionais como a profissionalização do segundo grau na década de setenta e as reformas educacionais na década de noventa (BRASIL, 1971 e 1997). Os conhecimentos nessa perspectiva disseminam práticas educacionais com vistas a qualificar o sujeito para o trabalho e organizar a escola com metas para tanto. Para Saviani 47 (2007), no Brasil essa perspectiva ampliou a separação entre os saberes: de um lado, com uma educação voltada para o saber-fazer e, de outro, para o saber-pensar, promovendo uma hierarquização do conhecimento refletida na estratificação das classes sociais. Já as teorias críticas, na perspectiva de Silva (2009), representam uma inversão à proposta tradicional, oferecendo uma nova perspectiva para transformar a realidade, pois evidenciam o componente ideológico de naturalização das desigualdades, através da crítica aos mecanismos utilizados de convencimento, adaptação e repressão do pensamento e da cultura hegemônica. Ainda, tal crítica se efetiva através da oposição ao pragmatismo, à racionalidade técnica e ao rompimento do status quo das classes dominantes expressos no currículo e que acabam sendo internalizados e difundidos como verdadeiros e únicos. Entre os principais autores, cujas obras são destacadas como fundamentais para a teoria crítica sobre o currículo,estão: Paulo Freire (A pedagogia do oprimido, 1970), Louis Althusser (A ideologia e os aparelhos ideológicos de estado, 1970), Pierre Bourdieu e JeanClaude Passeron (A reprodução, 1970), Baudelot e Establet (L'écolecapitalisteen France, 1971), Michel Young (Knowledgeandcontrol: new directions for thesociologyofeducation, 1971), Basil Bernstein (Class, codesandcontrol, V. 1, 1971), Samuel Bowles e HebertGintis (Schooling in capitalistAmerica, 1976), William Pinar e Madeleine Grumet (Toward a poor curriculum, 1976), Michel Apple (Ideologia e currículo, 1979) (SILVA, 2009. p. 30 a 32 ;LOPES e MACEDO, 2011. p. 29 a 33). A teoria crítica é fundada por pensadores de distintas escolas, como a Francesa, que se sustenta com base na teoria da reprodução cultural (capital cultural), e a Escola de Frankfurt, com uma crítica à racionalidade técnica da escola. Contudo, todos compartilham o mesmo pensamento no que se refere à oposição à educação como meio de reprodução das classes que controlam o capital. Assim, desenvolvem pensamentoscontra-hegemônicos de caráter marxista, que sustentam a ideia da construção e desenvolvimento do Currículo Integrado. Segundo Lopes e Macedo (2011. P. 31), a ideologia corresponde a “uma espécie de falsa consciência que obriga toda a sociedade a enxergar o mundo sob a ótica de um grupo determinado”; já a hegemonia corresponde a “algo que satura todo o espaço social e mesmo nossas consciências”.Para o filósofo francês Louis Althusser (1970), a ideologia é bem mais forte que o poder material, por isso o aparelho ideológico do Estado é utilizado pelas classes dominantes para a manutenção do status quo de uma cultura hegemônica, estabelecendo a chamada teoria de correspondência ou de reprodução(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; 48 LOPES e MACEDO, 2011). De acordo com isso, Pierre Bourdieu e Jean-Claude Passeron (1970) destacam que o currículo é influenciado, senão definido, pela cultura dominante, o que dificulta a aprendizagem por aqueles excluídos dessa cultura. Assim, a escola mantém o status quo centrada na cultura que ela veicula. E como efeito vincula o sucesso escolar àqueles com situações sociais privilegiados e o fracasso àqueles em situações sociais desfavorecidas. Com isso, a escola confirma e reforça a cultura de classes privilegiadas dissimulando a seleção social ao legitimar eperpetuar desigualdades de oportunidades(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Nessa mesma linha, estão os pensamentos difundidos por Baudelot e Establet (1971), as quais identificaram duas redes escolares: uma para formar operários e outra para formar dirigentes; ou seja, a divisão do trabalho em intelectual e manual. Assim, ao passo que qualifica um, desqualifica outro, de acordo com o interesse de manutenção da estrutura capitalista e garantindo a diferenciação social(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Por isso, Samuel Bowles e HebertGintis (1976) advertiam que as escolas eram responsáveis pela socialização necessária para a boa adaptação às exigências do trabalho capitalista. Em outras palavras, as relações sociais na escola reproduziam as estruturasexistentes com suas desigualdades e contradições(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). De acordo com isso, Basil Bernstein (1971), em seus estudos, discutiu o papel da educação na reprodução cultural das relações de classe através da pedagogia, do currículo e da avaliação como forma de controle social(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Por sua vez, Michael Young (1971) contesta o peso atribuído à família, à cultura e à linguagem em relação ao insucesso escolar, atribuindo grande parcela da culpa à organização do currículo ao escolher um conhecimento em detrimento a outro. Isso, segundo o autor, representa a relação de poder na organização curricular (viés tecnicista) (PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Por conta disto, se torna relevante reconhecermos e identificarmos o que se pretende: ensinar o quê e para quem? Por que ensinar o que se ensina, deixando de lado muitas outras coisas? Quem tem melhor acesso às formas legítimas de conhecimento? Esses conhecimentos servem a quais interesses? Assim, inegavelmente reconhecemos o pensamento 49 de Michel Apple (1979),para quem os currículos escolares reproduzem a hegemonia ideológica das classes dominantes da sociedade(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Já Paulo Freire defende a educação como um ato político, portanto uma ação cultural que deve estar vinculada ao processo de conscientização crítica, uma vez que a vocação ontológica do ser humano é agir sobre o mundo para transformá-lo(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Sua teoria é claramente pedagógica, não se limitando a analisar como é a educação existente, mas como deveria ser. Sua crítica ao currículo está sintetizada no conceito de educação bancária. Não menos importantes William Pinar e Madeleine Grumet (1976), manifestaram insatisfação quanto ao currículo com parâmetros tecnocráticos, estabelecidos pelos modelos de Bobbitt e Tyler, voltados para o emprego, a serviço do capitalismo e da reprodução das desigualdades de classe(PACHECO, 2005; SILVA, 2009; LOPES e MACEDO, 2011). Por isso, o movimento de reconceptualização que, do ponto de vista marxista, rompe com esta reprodução e incentiva, dentro do currículo, as ciências humanas, os valores espirituais e estéticos, a criatividade e a arte, ou seja, um currículo muito mais identificado com a índole pessoal e a intersubjetividade. A última concepção de currículo, proposta por Silva (2009), é o campo das teorias pós-críticas, que refletem não apenas as condições socioeconômicas, mas também as questões multiculturais. Deste modo, o estabelecimento de um currículo comum reflete o pensamento hegemônico, o currículo oculto, que muitas vezes naturaliza diversos preconceitos. Para os teóricos pós-críticos, tão importante quanto apresentar a diferença é colocá-la em discussão. Diante de tudo isso, podemos resumir o currículo de acordo com o seu interesse e essa tomada de decisão corresponde ao poder. Assim, a perspectiva de articular saberes no desenvolvimento do currículo possibilita mudanças nas práticas pedagógicas para romper a dicotomia entre a educação técnica e o ensino regular e, principalmente, para desenvolver um movimento contra-hegemônico das relações sociais. Além disso, é relevante, para compreendermos a proposta de integração curricular pela articulação, contextualização, interdisciplinaridade e significação dos saberes, reconhecer a capacidade de síntese de cada componente curricular e, ao mesmo tempo, condenar o currículo disciplinar fragmentado, chamado por Bernstein (1996) de currículo de coleção. Entendemos que o problema não reside na distribuição das disciplinas e sim em determinadas 50 práticas,que acabam levando ao isolamento dessas. Cada disciplina disposta no currículo corresponde a um conhecimento e nenhum conhecimento por si só é capaz de responder a determinado fenômeno ou problema (YOUNG, 2011). 2.2 A Concepção do Currículo O currículo deve integrar a ciência, a cultura e o trabalho (BRASIL, 2008 e 2011), por isso pretendemos representar no currículo integrado a construção de uma proposta pedagógica que articule os conceitos estruturantes das disciplinas e áreas de conhecimento, para que o estudante identifique a totalidade do conhecimento. Dessa forma, o currículo não deve ser inocente ou sem intenções; ao contrário, o professor, em sala de aula, na sua prática pedagógica, deve traduzir as metas e pretensões deste, pois representam as definições de um conjunto de interesses, que expressam o pretendido com o processo de ensino. Para compreender a proposta de Currículo Integrado defendida, estabelecemos uma concepção preliminar, que pressupõe diversos significados: Currículo é um termo muitas vezes utilizado para se referir a programas de conteúdos de cada disciplina. Mas, currículo pode significar também a expressão, princípios e metas do projeto educativo, que precisam ser flexíveis para promover discussões e reelaborações quando realizado em sala de aula, pois é o professor que traduz os princípios elencados em prática didática (Brasil, 1997). De acordo com o descrito nos PCNs, o currículo representa não somente as disciplinas de um curso, mas também os seus objetivos, ou seja, a real pretensão ao se privilegiar o estudo de determinados componentes curriculares num curso como Técnico em Eventos, por exemplo. Se pretendemos, com este curso, formar sujeitos aptos a realizar quaisquer tipos de eventos, com acesso a uma educação humanístico-cultural integrada à sua formação Técnica, Tecnológica e Científica (BRASIL, 2011), não podemos abandonar as especificidades de cada disciplina independente da área Técnica (específica) ou Básica (Geral), pois, segundo Young (2011), elas representam fontes de conhecimentos poderosos desenvolvidos por uma comunidade de especialistas e os alunos têm direito a eles. Por isso, somente alcançaremos a formação integral do sujeito com o abandono da disciplinarização fragmentada, uma vez que o currículo deve ser concebido como um modo de acesso e posterior produção de novos conhecimentos. Segundo Santomé, “cada disciplina oferece uma imagem da realidade, isto é, daquela parte que entra no seu ângulo de seu objeto” (1998, p. 55), mas para que isso ocorra deve haver, de forma intencional, a articulação entre os conhecimentos das disciplinas e não de 51 forma acidental, como num passe de mágica ou de iluminação. Generalizando, o currículo é uma tentativa de organização escolar que, nos Institutos Federais em geral, e no Farroupilha, em especial, se estabelece com a participação da comunidade escolar, representada pelos docentes, técnicos administrativos, discentes, egressos da instituição, membros da sociedade civil participante do conselho escolar. Essa coletividade, segundo Marques (2006), constituída por diferentes níveis institucionais, como o âmbito familiar, grupos de iguais, poder público e sociedade civil, representa os mais diversos interesses e ideologias, o que coloca a escola como instituída e instituinte num processo de aprendizagem. Por isso, é necessário um currículo organizado dentro de um contexto configurado por diversos fatores que expressem a função social e cultural da escola, o que implica conhecer a vida escolar e todos os atores escolares envolvidos. O currículo configura uma forma de representar a cultura produzida pela humanidade (SAVIANI, 2006), numa escolha e seleção do que e do para quem se pretende ensinar inserida num projeto político e pedagógico que envolva a tensão entre os atores sociais abarcados. Um currículo desvinculado da realidade social certamente não servirá como instrumento de emancip0ação coletivo; ao contrário, refletirá o pensamento da cultura dominante ao naturalizar a exclusão. No campo específico da educação profissional, a ideia de formação do sujeito para a vida carrega consigo, também, a vontade de atender ao interesse da educação para o trabalho como integrante do processo. Para que aconteça, voltamos para a organização da prática docente e a proposta pedagógica da instituição. Essa proposta de educação somente se institui pelo planejamento e contempla as pretensões a serem realizadas, partindo do que se tem para alcançar o ambicionado, visando a melhor qualidade de ensino para os que frequentam a escola pública. Desta forma, o currículo representa o projeto pedagógico e institucional, que orienta e direciona o fazer pedagógico. Portanto, o currículo se configura pelo conjunto de conhecimentos e práticas adotados pela educação formal, o que deve ocorrer, segundo Silva (2009), com a seleção do que ensinar, para que e para quem serve o que está sendo ensinado. Assim, qualquer movimento de transformação exige para sua aplicação uma eleição de prioridades, não no sentido de 52 urgência, mas de reflexão e problematização, como atividade humana da práxis 14 para não vulgarizar e estagnar o processo educativo. Neste sentido, pensar o currículo como instrumento de libertação e emancipação cidadã significa não impor limites à sua democratização,mas viabilizar um conhecimento útil a todos, ou ao menos, à grande maioria, para reduzir a desigualdade social e não acentuá-la. Esse pensamento, no campo da educação profissional, mais especificamente na ideia de currículo, permite compreender que a prática docente deve estar sempre caminhando para romper o paradigma da dualidade educacional, tendo em vista que se educa para um mundo criado pelas ações humanas. E, em sua complexidade histórica desenvolvem-se os conhecimentos apresentados nos conteúdos de cada disciplina, na escola (YOUNG, 2011). Para Sacristán (2000), o desenvolvimento do currículo distingue-se em seis fases (QUADRO 5) interligadas como: I. Prescrito; II. Apresentado aos professores; III. Moldado pelos professores; IV. Em ação; V. Realizado e VI. Avaliado. O currículo prescrito é regulado por instâncias políticas e representa a forma do Estado influenciar na ordenação social e constituir um discurso hegemônico, em que são estabelecidos critérios e normas para objetivar o processo pedagógico. Como exemplo, citamos a definição da carga horária mínima de oitocentas horas e um mínimo de duzentos dias letivos (BRASIL, 1996); a definição de práticas curriculares integradas entre o ensino médio e o profissional (BRASIL, 2004, 2011, 2012) ou ainda a generalização do segundo grau (BRASIL, 1971). QUADRO 5: Fases do Currículo CURRÍCULO I. Prescrito Resulta das regulamentações e orientações dos sistemas de ensino. II. Apresentado aos Professores São os meios que traduzem os conteúdos e os significados do currículo prescrito. III. Moldado pelos Professores Corresponde à interpretação do docente em relação aos currículos prescritos e apresentados que constituem os seus planos de ensino. IV. Em Ação Representa a prática pedagógica determinada pelos padrões institucionais, metodologia, meio e estrutura existente. V. Realizado Representa o planejamento curricular efetivado. VI. Avaliado São os procedimentos de avaliação. Fonte: Sacristán (2000). 14 A práxis de acordo com a ideia de Marx(2004) e Vasquez (2007), compreende o trabalho como resultante de uma idealização por parte de quem a executa e, também, como compreensão de que a soma das partes podem contribuir para a construção do todo. 53 Contudo, são orientações que, muitas vezes, não determinam a ação pedagógica dos professores em sala de aula. Por isso, procuramos apresentar possibilidades para o desenvolvimento do currículo integrado naquele prescrito e em ação, pois refletem diretamente a práxis no processo e nas relações pedagógicas. Porém, independente da forma de compreender o currículo, há sempre um mesmo princípio: o de produzir na escola saberes necessários ao convívio em sociedade. Desta forma, a definição de currículo é multifacetada, desde o conhecimento produzido pela humanidade, passando em especial as amplas camadas da população, pelo representado pelas ciências, mas também chegando àquele comprometido com a sociedade, pois reflete a cultura ao longo da história e, no caso específico da EPT, introduz o trabalho como pressuposto no processo de ensino e aprendizagem. 2.3 O Currículo Integrado entendido Destacamos a necessidade de uma formação no Ensino Técnico Profissional de Nível Médio como algo além da justaposição de conhecimentos da educação básica e da formação técnica através de práticas pedagógicas e, principalmente, a ideia de romper a dualidade da educação profissional. Para isso, apresentaremos algumas ideias-chave de Frigotto, Ciavatta e Ramos entre outros estudiosos do tema. Para melhor identificar o pensamento, contextualizaremos o tema, já que estamos numa sociedade com inúmeras exigências em relação ao mercado de trabalho, no qual a globalização e a inserção das novas tecnologias da informação e comunicação no processo de produção e construção de conhecimentos modificam as atividades humanas. Todas essas exigências fazem com que um grande número de informações sejam adquiridas, transformadas e interpretadas em conhecimentos novos e significativos, pois, [...] o comportamento humano passa a depender de operações baseadas em significados, em que as motivações que iniciam o comportamento estão nitidamente separadas da realização. Assim como operar com o significado de coisas leva ao pensamento abstrato, observamos que o desenvolvimento da vontade, a capacidade de fazer escolhas conscientes, ocorre quando a criança opera com significado de ações (VIGOTSKY, 2007, p. 120). De acordo com Ramos (2001) e Delors (1996), a formação não mais tem como objetivo um conhecimento específico para um determinado emprego ou ação imediata, e sim condições que facultem e ensinem a aprender, conhecer, fazer, relacionar-se com outros, viver em comunidade e exercer a cidadania. Esse intento apresenta algumas possibilidades e 54 potencialidades de implantação de um currículo 15 capaz de satisfazer as necessidades de formação destacadas acima no contexto do mundo do trabalho, a relação entre teoria (fundamentos científicos e tecnológicos) e prática (processo produtivo) e os processos culturais (SAVATER, 1998). Ainda, Frigoto (1998) e Frigoto, Ciavatta e Ramos (2005) propõem o Currículo Integrado como integração de diferentes dimensões (trabalho, ensino, teoria e prática), apreciadas no interior do processo de ensino-aprendizagem e constitutivos do processo formativo do cidadão. Dessa forma, Currículo Integrado é uma concepção humana que tensiona o enfrentamento à dualidade da educação técnica e humanística e, conforme Nosella (1992), abrange as atividades formativo-culturais e o desenvolvimento das capacidades intelectuais e de trabalho, que, de acordo com Santomé (1998), preenchem algumas lacunas decorrentes da maior especialização da sociedade contemporânea. A especialização refletida na disciplinarização leva ao risco de se construir um saber fragmentado em ilhas epistemológicas (JAPIASSU, 1996), que representam uma visão de mundo compartimentada. Segundo Beane (2002), essa abordagem do currículo por disciplinas carrega o legado do humanismo clássico ao estilo ocidental, que percebe o mundo em compartimentos, não somente no campo da educação formal como de resto em todo o domínio do conhecimento em geral. Ao propormos uma organização curricular comprometida com o rompimento das barreiras entre escola e sociedade dinamiza-se a relação entre ensino, trabalho e comunidade, o que, segundo Saviani (1998), resguarda as peculiaridades socioculturais com a efetiva participação. Essas questões tornam-se muito mais paradigmáticas que epistemológicas, pois representam pressupostos gnoseológicos 16 e ontológicos 17. Por isso, ao propormos que o conhecimento se realiza de forma hierárquica num contexto de transformação da sociedade, ouvimos Bernstein (1996) defender que a integração curricular contribuiria para compreender o mundo do trabalho por intermédio de uma socialização de saberes e mudanças da sociedade pós-moderna ou pós-estruturalista. A integração curricular no contexto do mundo do trabalho reside na perspectiva de formação de pessoas potencialmente aptas e hábeis às mudanças. Assim, a essência desse 15 Currículo pode significar também a expressão de princípios e metas do projeto educativo, que precisam ser flexíveis para promover discussões e reelaborações quando realizado em sala de aula, pois é o professor que traduz os princípios elencados em prática didática (BRASIL, 1997). 16 Representa o pensamento da realidade. 17 Representa a natureza da realidade. 55 currículo é a integração entre o trabalho intelectual e o produtivo (GRAMSCI 1991 e 1995), no qual a prática e a teoria possuam uma separação apenas analítica. Desta forma, não mais se tornam fonte ou antecipação, mas sim uma atividade única, objetiva e subjetivamente transformada, fazendo com que os conhecimentos interajam para potencializar uma totalização. Bernstein (1996) ainda esclarece que a integração proposta nesse currículo recoloca de forma relacional disciplinas, que diferem por abordagens variadas, mas, em geral, tematizam um mesmo objeto pedagógico. Além disso, reconhecer o conjunto de conceitos estruturantes dos conhecimentos a serem apreendidos facilita a organização do currículo. Os conceitos estruturantes são: origem e evolução; sistema; interação; invariantes; regularidades; conservação e transformação; modelos explicativos e representativos; simetrias, na constituição da aprendizagem, e não podem estar desconectados entre si, mas sim em sintonia. Por isso, defendemos uma proposta de integração curricular que articule os saberes das áreas Básicas e Técnicas e uma ação pedagógica que contextualize o ensino para possibilitar ao aluno uma formação omnilateral, pois “a capacidade de contextualizar constitui uma das condições de êxito no desenvolvimento das capacidades de compreender, relacionar, utilizar e praticar alguma mediação teórica ou técnica na implementação de qualquer atividade humana” (MACHADO, 2009, p. 08). A partir dessa configuração, discute-se um currículo que articule as fronteiras epistemológicas e, segundoYoung (2007), contemple os diferentes momentos e dimensões da formação do cidadão contemporâneo, que compreenda o Mundo da Vida e colabore para colocar as bases técnicas a serviço de outros fundamentos sociais e políticos (SANTOS, 2001). Para alcançarmos esses pressupostos, devemos superar a lógica linear e fragmentada de determinadas práticas curriculares, que hipertrofiam a divisão dos conhecimentos. E, para que aconteça, devemos articular as diversas áreas do conhecimento de forma interdisciplinar, multidisciplinar ou transdisciplinar, através da contextualização e significação. A partir das práticas realizadas ao longo dos três anos, na turma de Técnico em Eventos Integrado, a que mais logrou resultados originou-se de práticas integradas interdisciplinares articuladoras, por meio da contextualização e significação, dos conhecimentos de cada componente curricular. Destarte e com o intuito de uma formação omnilateral, o currículo integrado contempla “a concepção de uma política, cujo objetivo de formação está fundamentado na integração de trabalho, ciência, técnica, tecnologia, humanismo, cultura, política e 56 profissional das populações” (BRASIL, 2006, p.32). Trata-se de um currículo que prima pela inter-relação e intercomplementaridade entre diferentes disciplinas e um projeto pedagógico que não ponha obstáculos entre ensino, trabalho, escola, comunidade, teoria e prática. Tudo isso, para conduzir a uma formação mais integral dos cidadãos, possibilitando a construção de indivíduos capazes de interagir em uma sociedade sempre mais exigente e em constante transformação, que compreendam as mudanças relacionadas ao mundo do trabalho e da vida. Segundo Saviani, isso se efetiva “pela tomada de consciência teórica e prática do trabalho como constituinte da essência humana para todos e cada um dos homens” (SAVIANI, 2005. p. 234). 2.4 Currículo Integrado: a práxis e a intencionalidade O currículo, como já apresentado, representa um norteador das práticas docentes, muito mais que um conjunto de disciplinas e carga horária, pois carrega a real finalidade do processo educacional expresso nas questões “Como ensinamos?” e “Para que(m) ensinamos?”. Esse pensamento, instigado pela ideia de que ensinamos ou pretendemos ensinar num mundo pronto ou em processo, no qual a escola muda e é modificada pelos sujeitos constituintes, exige uma formação diferenciada. Nessa complexidade, encontra-se o professor, confrontado com uma profissão que busca mediar o desenvolvimento do conhecimento e dos princípios organizativos e constitutivos da escola e da sociedade, fundados a partir de hábitos e costumes referendados pelo docente na sua formação, no cotidiano e na ação pedagógica. De acordo com isso, não se pode perceber o currículo como uma variante limitadora da pedagogia, mas como ponto de partida para uma grande diversidade de possibilidades de criação e ressignificação do processo ensino-aprendizagem. Neste contexto, o papel do professor reveste-se de extrema relevância, pois “nossa tarefa é ensinar e aprender; levar nossas indagações tão a sério quanto o tema requer” (APPLE, 2011, p.67). Na concepção filosófica da práxis, existe uma tênue relação entre o trabalho e a educação, residindo nessa relação concepções de homem, sociedade, conhecimento, trabalho, tecnologia e princípios éticos e políticos. Esses pressupostos devem ser elaborados como proposta de educação integradora e possibilidade de formação técnica e omnilateral do sujeito, no que diz respeito à cultura, ciência e tecnologia. 57 O pensamento de Vázquez (2007) compreende o trabalho humano como condição de diferenciação entre o homem e natureza. Para ele, o sujeito se constitui como ser humano na sociedade pelo trabalho, que é resultante de uma elaboração cognitiva. Para Marx (2004), essa capacidade não é percebida nos animais, [...] mas o que distingue, de antemão, o pior arquiteto da melhor abelha é que ele construiu o favo em sua cabeça, antes de construí-lo em cera. No fim do processo de trabalho, obtém-se um resultado que já no início deste existiu na imaginação do trabalhador e, portanto, idealmente (MARX, 2004,p. 36). Por sua vez, a ciência representa uma forma de conhecimento que somente existe pela capacidade de desenvolver critérios de reconhecimento e comprovação. Esta ciência é apresentada ao aluno, pela transposição didática, através das disciplinas, que constituem a base conceitual do conhecimento (YOUNG, 2011). No campo específico da educação profissional, a ideia de formação do sujeito para a vida carrega consigo a vontade de atender o interesse da educação para o trabalho. Podemos até concordar com essa premissa, contudo, não podemos abrir mão da possibilidade de inserir no currículo uma proposta de educação comprometida com mudanças estruturais da sociedade, que não reflita na escola a lógica hegemônica do capitalismo. No entanto, uma das principais dificuldades do processo de ensino encontra-se na aparente legitimação do discurso educacional tradicional sustentado pela cientificidade da modernidade e pela promessa de vida melhor para a humanidade que, até o presente momento, podemos afirmar não solucionou os problemas sociais. O incontestável progresso da ciência não é acúmulo de verdades, segundo o critério da validação; nem é simples eliminação de erros, na crivagem da falsicabilidade. Rompem-se as ilusões do caráter empiricamente unificado do conhecimento da realidade. Desfazem-se as categorias indiscutíveis e unívocas, de identidade, de substância, de causalidade, que se expressavam numa linguagem matemática de poder ilimitado. Ampliando-se os espaços do conhecimento, ampliam-se também as fronteiras do desconhecido na direção do infinitamente grande e do infinitamente pequeno, para além do alcance dos homens e para o interior dos arcanos da subjetividade (MARQUES, 1993, p. 56-57). Por conta disso, no Currículo Integrado insurge uma possibilidade de se organizar o Ensino Técnico Profissional Integrado ao Médio como algo além da justaposição de conhecimentos da educação básica e da formação técnica. De se atingir uma forma de aprendizagem que contemple os conhecimentos produzidos ao longo da humanidade e aborde a realidade como uma totalidade, permitindo perceber o mundo em seus aspectos positivos e negativos. Assim, definimos que o currículo deve constituir uma intencionalidade realizada na proposta de formação do sujeito omnilateral. A seguir, apresentaremos as definições do 58 currículo de acordo com a perspectiva da práxis e do trabalho como princípio educativo para sustentar uma ação pedagógica, que, ao articular os conhecimentos de cada disciplina, promova o desenvolvimento intelectual, cultural e humanístico. De acordo com Lottermann, “[...] significa dizer que uma pedagogia não é necessariamente transformadora por recomendar um currículo de ensino integral ou por condenar a transmissão pura e simples de conteúdos” (2012, p. 46). 2.5 O Currículo pretendido Como o currículo integrado prescrito determina a articulação entre o Ensino Médio e o Profissional através de suas diretrizes curriculares, cabe às Instituições a tarefa de entender essa proposta e organizá-la de acordo com a sua realidade: [...] a política curricular é tida como toda aquela decisão ou condicionamento dos conteúdos e da prática do desenvolvimento do currículo, a partir das instâncias de decisão política e administrativa, estabelecendo regras do jogo do sistema curricular (SACRISTÁN, 2000, p. 109). Assim, para o desenvolvimento do currículo integrado iniciado pela proposta oficial sancionada pelo governo, mais importante que o realizado, representado pelo planejamento pedagógico ou real (PACHECO, 2005), o currículo em ação (SACRISTÁN, 2000) denota as práticas pedagógicas, que refletem e de fato constituem a proposta de currículo integrado. A proposta de integração curricular constitui “oportunidades de superar tendências excessivamente acadêmicas, livrescas, discursivas e reprodutivas das práticas educativas” (MACHADO, 2009, p. 04). Além disso, institui uma importante possibilidade para superar as fragilidades do processo do Ensino Técnico de Nível Médio: o “de superar o viés, às vezes, excessivamente técnico-operacional” (MACHADO, 2009, p. 04) e, assim, romper o paradigma dialético entre no ensino científico e o tecnicista. Para isso, exige-se da atuação docente uma postura pedagógica mais coletiva, para romper com a disciplinarização, comprometida com um ensino que não se identifique com o modelo tradicional e práticas de ensino sem significação para o aluno. Os princípios que norteiam a Educação Profissional Técnica de Nível Médio defendem a interdisciplinaridade como proposta de superação da fragmentação do conhecimento e de uma segmentação curricular (BRASIL, 2011 e 2012). Contudo, não se compreenda a disciplinarização como uma patologia, pois, na articulação através da ação interdisciplinar, os componentes curriculares envolvidos devem 59 subordinar-se a um objetivo geral, superior ao de sua disciplina. Por isso, Machado (2009) destaca a postura investigativa do educador como um atributo essencial à prática do Currículo Integrado. Segundo a autora, é indispensável ações pedagógicas planejadas e ordenadas para transformar o processo de ensino investigativo e para que o aluno reconheça e compreenda as relações entre os princípios científicos e técnicos. Por isso, o desenvolvimento de um currículo é complexo, pois envolve tanto o prescrito (documentos oficiais) quanto a prática em sala de aula (currículo em ação). E tudo isso para que se desenvolva um ensino que potencialize os conhecimentos e as capacidades cognitivas e comportamentais utilizando o trabalho com princípio educativo e a práxis na atividade docente. Portanto, o currículo pretendido deve potencializar, no Ensino Técnico de Nível Médio, um trabalhar intelectual e um pensar praticante de maneira a formar um trabalhador operacional e teórico conectado com a realidade. Para tanto, é necessário romper a histórica dualidade estrutural da educação profissional, através do entendimento e reconhecimento da intencionalidade do Currículo Integrado prescrito através de uma mudança da ação pedagógica na sala de aula. Essa atitude, porém, exige alguns saberes essenciais aos docentes, pois é de extrema importância o envolvimento desses sujeitos como protagonistas do processo. 2.5.1 Saberes docentes para a integração curricular A principal função da ação pedagógica é mediar a construção do conhecimento cognitivo através de atividades teóricas e práticas, o que exige determinados atributos ao docente. Para Vásquez (2007), a relação entre a teoria e a prática consiste na práxis, dado que toda atividade refletida representa a “ação do homem sobre a matéria” (ibidem, p. 265). Por isso, além da compreensão do Currículo Integrado proposto no Decreto 5.154/2004 e Resolução nº 06/2012, que defendem a articulação entre o ensino profissional técnico e o ensino médio e, ainda, com as dimensões do trabalho, da tecnologia, da ciência e da cultura (BRASIL, 2004 e 2012), deve-se promover mudanças nas práticas pedagógicas. Isso porque, frisamos, somente a teoria não produz mudança na ação humana, sendo necessária uma atividade prática que represente a transformação concreta e real do mundo. Neste sentido, para alcançar esses objetivos é preciso reconhecer a necessidade de determinados saberes docentes na execução de um currículo em ação. Segundo Tardiff(2002), 60 o saber docente é plural, pois resulta da formação profissional e saberes disciplinares, curriculares e da experiência. Assim, para o docente alcançar práticas pedagógicas de integração curricular é fundamental a capacidade de dominar e mobilizar esses saberes. Desses saberes, o docente assume o papel de mediador da construção do conhecimento ou, como afirma Sacristán (2000), torna-se um agente ativo do desenvolvimento curricular, pois, apesar de ser constituído por várias mãos, é o professor o responsável pela execução do plano (PACHECO, 2005). Por essa razão, a crítica aos currículos tradicionais, que modelaram a dualidade estrutural da Educação no Brasil ao condicionar as práticas docentes ao utilitarismo educacional e ao não reconhecimento da realidade das instituições ou daqueles que recebiam tal currículo. Para Sacristán (2000), o docente tem o poder de modelar o currículo para romper com essa prática histórica ao reconhecer que as regras propostas não são incontestáveis e reagir de forma a ressignificara realidade. Ainda, segundo o autor, o professor reflete o conhecimento sobre o currículo e sobre sua disciplina na capacidade de contextualizar pedagogicamente o saber proposto. Desta forma, a prática de significar o conhecimento deve ter um caráter não apenas prático, mas também dialético e isso é influenciado e modificado pelas apropriações e introjeções ligadas a experiência docente. Assim, para desenvolver o Currículo Integrado, o docente deve articular seus saberes de forma interdisciplinar, para fugir da disciplinarização e fragmentação do conhecimento. De acordo com Alarcão (2001), o conhecimento docente é muito mais que experiência, fatos e teorias, pois conhecimento do professor se constitui num saber agir para cada situação, numa habilidade de gerir informações disponíveis e adequá-las de acordo com o contexto. A partir disso, podemos afirmar que os docentes necessitam, além de dominar os aportes teóricos de sua área, atentar para a constante vigilância nas suas práticas no intuito de conceber novas formas e estratégias de ensino. Ou seja: em pôr em ação uma práxis docente com o compromisso de transformar os conhecimentos, pois os saberes docentes resultam de um processo ininterrupto, uma vez que ensinar é aprender pressupondo lidar sempre com desafios e mudanças contínuas (LIBÂNEO, 2001). O domínio desses saberes contribui para a implantação do Currículo Integrado, pois auxilia a prática pedagógica na busca de possibilitar ao aluno o acesso ao conhecimento, 61 preparando-o para a vida, para o trabalho e para a pesquisa, qualificando a cidadania e valorizando a aprendizagem e a descoberta do mundo das ciências, da cultura e da tecnologia. 3. MEMÓRIAS DA EXPERIÊNCIA PROFISSIONAL NO IF FARROUPILHA Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão (FREIRE, 1987, p.78) Iniciamos este capítulo com Paulo Freire por dois motivos: o primeiro reside no fato de identificar nele uma proximidade com a proposta do Currículo Integrado, uma vez que sugere um compromisso docente com as ideias de (trans)formação social e constituição do sujeito. Interpretamos que palavra e trabalho, encontrados nessa citação, operam como o processo do discurso e da prática educativa, que rompem com a histórica discriminação no processo de ensino profissional no Brasil. O segundo motivo refere-se ao fato de compreendermos que, agir com vistas a romper com a dualidade estrutural da educação profissional e concretizar uma proposta pedagógica integradora dos conhecimentos da área técnica e básica de forma a reconhecer a complementaridade delas, constitui um movimento de duas vias e nisso está aação reflexiva. Como destacado no primeiro capítulo, desde o século XIX as definições sobre a EPT sempre estiveram atreladas a políticas pragmáticas voltadas para as necessidades do mercado e a formação para o trabalho, sem a elevação dos níveis formais de escolaridade, ceifando da EPT o caráter de ensino que pudesse provocar a transformação do sujeito e da sociedade, suscitando o surgimento de uma consciência solidária. Em outras palavras, para organizar um currículo que proporcione sentido e entendimento da cultura construída ao longo das gerações pelas ciências (área básica) e potencialize a educação técnica como forma de aplicação do conhecimento constituído no desenvolvimento de uma determinada atividade, é necessário superar o silêncio da prática pedagógica isolada e enfrentar momentos de erros e acertos, certezas e angústias, conforme abordaremos neste capítulo. Apresentarei o meu envolvimento como ator social desde a criação, construção e implantação do Campus do IF Farroupilha em São Borja e do Curso Técnico em Eventos, vinculado ao desenvolvimento da região, não apenas privilegiando os arranjos produtivos locais como potencializando-lhes alternativas (BRASIL, 2008a). De fato, a instalação do 63 Campus do IF Farroupilha em São Borja ampliou a perspectiva de ofertar uma educação pública de qualidade à comunidade local, diretamente relacionada ao desenvolvimento da região. E é exatamente no campo educacional, através da ação docente comprometida e engajada com a proposta do Instituto, que buscamos atender às perspectivas e anseios da comunidade são-borjense. Doravante, serão apresentadas as memórias, sentimentos (angústias, medos e empolgação) da minha trajetória acadêmica e profissional, desde a formação técnica secundária até a constituição profissional e, ainda, às práticas docentes no IF Farroupilha campus São Borja, na disciplina de Geografia, junto à turma de 2011 do Curso Técnico em Eventos Integrado, baseado nas recordações, registros em diários de classe e anotações espontâneas. A minha relação com o ensino técnico iniciou em 1994 quando ingressei no curso Técnico em Contabilidade em uma escola estadual de São Borja. A estrutura curricular previa uma redução de 25% das disciplinas a serem ofertadas pelo ensino médio para poderem ser desenvolvidas as disciplinas da área técnica, conforme a lei 5.692/1971, mas na prática não continha qualquer dimensão integrada, pois o objetivo era formar o estudante para o mercado de trabalho. No ano de 1997, ingressei no curso de Licenciatura em Geografia na Universidade da Região da Campanha (URCAMP), iniciando uma trajetória na vida docente. Após a conclusão do curso, realizei um curso de especialização em Metodologia do Ensino de Geografia, o que permitiu maiores estudos dos pressupostos pedagógicos de educação. Em seguida, comecei a atuar como professor da rede pública estadual de educação no Rio Grande do Sul. Profissionalmente sempre atuei, tanto na minha área de formação de técnico em contabilidade (secundário), quanto na de professor de geografia (superior) (AUTOR, 2013). Os fatos acima evidenciam a minha estreita relação com a educação profissional e contextualizam o ano de 2007, quando exercia o cargo administrativo de prestação e auditoria de contas públicas junto à Secretaria Municipal de Educação. Nessa época, começou a ser aventada, de forma interna na Secretaria, a possibilidade de ser implantada em São Borja uma Escola Técnica Federal. Essa possibilidade gerou bastante empolgação por parte dos envolvidos no processo, que representava uma decisão política em que o Poder Executivo do Município construiu uma proposta de contrapartida ao desejo da comunidade são-borjense, para sensibilizar o Governo Federal a instalar na cidade a Escola Técnica (SÃO BORJA, 2007). Isso foi concretizado com a promulgação da Lei nº 11.892, em 28 de dezembro de 2008, que criou os Institutos Federais (BRASIL, 2008a). 64 No ano de 2009, atuava como professor de Geografia 18 junto à Rede Pública Estadual de Educação no turno da noite com alunos do Ensino Médio e Fundamental na modalidade EJA (Educação de Jovens e Adultos), quando houve a definição da instalação do Campus do IF Farroupilha em São Borja. Por conta disso, foram realizadas diversas Audiências Públicas para definir os cursos com o suporte técnico e administrativo do Campus de Alegrete do IF Farroupilha (BRASIL, 2009). Ao participar das audiências na Câmara de Vereadores do Município, não somente como professor acompanhando os alunos nessas discussões, mas também como sãoborjense, iniciei a minha atuação, como ator social, na construção do Campus do IF Farroupilha em São Borja, fato histórico para o município. Nessas discussões foram definidos os cursos a serem ofertados no município, nos eixos das áreas de Informática, Turismo e Edificações, pactuados no Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI) 2009-2014 (BRASIL, 2009). Após algumas definições sobre a criação do Instituto Federal e dos cursos, ocorreu o primeiro concurso público para formação do quadro de servidores permanentes no cargo de Professor de Ensino Básico, Técnico e Tecnológico e de TécnicoAdministrativo em Educação do Quadro Permanente de Servidores do Instituto Federal Farroupilha (BRASIL, 2008d e 2008e), realizado em 13 de setembro de 2009, no Município de São Borja. A realização do concurso ocorreu num domingo de sol, pela parte da manhã, tendo, como resultado da minha participação, a quarta colocação na classificação geral da prova objetiva. Isso me habilitou a participar na segunda etapa, que correspondia à prova didática, tendo obtido o primeiro lugar entre os cinco remanescentes. A terceira e última etapa do processo de avaliação do concurso consistia em prova de títulos, que garantiu-me na terceira colocação no resultado final. Diante disso e satisfeito com a classificação final, assim como grande maioria dos cidadãos sãoborjenses, acompanhei o surgimento de uma Instituição Federal de educação, resultado de forças políticas e da comunidade na cidade de São Borja. De fato e de direito, a instituição iniciou as atividades no Município em janeiro de 2010, com a nomeação dos servidores aprovados no concurso público e instalação das primeiras turmas em prédio locado pela Prefeitura. Neste mesmo ano, iniciaramse as obras de construção da sede própria do Instituto. Em julho de 2010, por meio de uma correspondência eletrônica, começou a delinearse uma nova fase do meu envolvimento na construção do Campus de São Borja do Instituto Federal Farroupilha. A referida correspondência indagava sobre o interesse ou não de assumir o cargo de professor efetivo de educação básica, técnica e tecnológica de geografia no campus de São Borja. Ao retornar o “chamado” que, inicialmente, levou-me a pensar numa brincadeira, aceitei o convite e a nomeação para o cargo de acordo com o registro na Seção 2, página 23 do Diário Oficial da União de 19 de julho de 2010. A opção por prorrogar a data da inserção ao quadro efetivo se deu por conta da necessidade de concluir o semestre letivo na escola estadual em que trabalhava com alunos da Educação de Jovens e Adultos (EJA). No segundo semestre de 2010, as aulas ocorriam nas instalações locadas do prédio de uma Escola particular, por conta da construção da sede própria, junto às turmas do primeiro ano do curso Técnico em Informática e primeiro ano do curso PROEJA manutenção em informática. Nesse ano, ocorreu o primeiro contato com a temática 18 A atuação no Magistério ocorria nas redes Pública e privada desde 2004. 65 do Currículo Integrado, através de seminários realizados junto à Reitoria, localizada em Santa Maria, e nas reuniões pedagógicas ocorridas no campus. O principal objetivo era construir uma prática, que rompesse com a experiência de ensino médio propedêutico, para os que já atuavam nessa modalidade de ensino, e não refletisse as práticas duais da EPT desenvolvidas no passado. Por se tratar de um tema relativamente novo e as turmas já possuírem uma identificação com o professor anterior, tudo isso, num primeiro momento, dificultou a nossa relação professor-aluno. Além disso, por se tratarem de cursos novos, a ausência de um registro formal das atividades já realizadas contribuiu para essa aparente dificuldade. Contudo, no decorrer das aulas e com o auxílio do Setor Pedagógico do campus foi possível estabelecer uma boa relação pedagógica entre professor-aluno. Mesmo assim, por conta da inexperiência sobre a atuação num curso técnico profissional, que visava à integração dos conhecimentos desenvolvidos entre as disciplinas das áreas técnicas e da área básica e, ainda, a falta de definição de procedimentos para essa integração, não foi possível realizar qualquer prática de integração curricular. Após muitas leituras, trocas de experiências e discussões sobre Currículo Integrado no ano de 2011, idealizei formas de promover essa integração curricular. Esse ano ficou marcado pelo início do curso Técnico em Eventos Integrado e pelas primeiras experiências com práticas integradoras. Esse curso representou nova etapa no processo de ensino e atuação profissional no Instituto Federal Farroupilha, pois a primeira turma iniciava em sede própria e apresentava um Projeto Pedagógico com práticas curriculares integradoras. Além disso, observamos uma aparente boa receptividade e disponibilidade dos professores do Eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer. (AUTOR, 2013). A seguir são descritas e analisadas algumas práticas na sala de aula da Turma 2011 do Curso Técnico em Eventos, que buscavam a integração curricular. Essas tentativas, ao longo dos três anos do curso, demonstram limites e possibilidades de integração curricular “[...] que, por sua vez, integre os argumentos que justificam a globalização e os que procedem da análise e defesa de maiores parcelas de interdisciplinaridade no conhecimento e da mundialização das inter-relações sociais, econômicas e políticas” (SANTOMÉ, 1998, p.122). Além disso, de uma integração curricular que articule o ensino médio e o técnico, instituindo uma diferenciação nas propostas de ensino e aprendizado, ao colaborar, não apenas com a inserção social e sobrevivência econômica defendidas em outros momentos da história da educação profissional, no Brasil, mas também isso constitui um processo de contextualização do ensino que intenta mobilizar os conhecimentos disciplinares numa via de dois sentidos, permitindo a significação de conceitos e integração dos campos de saber, a partir de novos olhares para outras possibilidades. 3.1. Ano 2011 Na primeira aula, foi apresentado o Plano de Ensino (PE) da disciplina, com a ementa, conteúdo programático para o ano e o objetivo da disciplina e do próprio 66 curso. Em relação a isso, ficou evidenciado que o conhecimento dos alunos sobre a formação técnica se resumia em afirmar que se tratava de organizar qualquer tipo de evento, ou “não sei, vim porque minha mãe quis que eu fizesse o curso”. Então as razões para realizar o mesmo foram registradas em dois níveis: decisão própria ou dos pais por ser de Instituição Federal, mais porque lembravam as Escolas Técnicas Federais caracterizadas por ensino de qualidade, do que motivados pelo curso ofertado, já que toda a comunidade gostaria de adentrar no prédio novo do campus (AUTOR, 2013). O objetivo do componente curricular de Geografia para o primeiro ano era: Conhecer a geografia como ciência que representa o seu espaço de vivência, obtendo noções dos aspectos físicos, humanos, ecológicos, preparando-se para as grandes transformações que ocorrem no mundo atual. Analisar as principais características do planeta terra; Compreender as noções de orientação, localização e espacialização; relacionar as modificações ocorridas no tempo e no clima do planeta; Identificar os acontecimentos dos últimos anos que levaram o mundo a uma nova ordem econômica e social (BRASIL, 2013b). As aulas centraram-se, inicialmente, no resgate ou reconhecimento dos conceitos estruturantes da Geografia, como Espaço e Tempo, Sociedade, Lugar, Paisagem, Região e Território, e na interpretação de fenômenos nas suas dimensões (local, regional, nacional e mundial), no desenvolvimento do domínio da linguagem cartográfica e do reconhecimento dos conjuntos espaciais, a partir de uma compreensão do mundo articulada ao lugar de vivência (BRASIL, 2006). Para isso, desenvolvemos uma atividade em sala de aula em que cada aluno deveria elaborar um mapa do trajeto de sua casa até o campus. Nesse trajeto, os alunos destacaram os principais pontos de referência para a localização. Nessa atividade muitos apresentaram aspectos espaciais que consideravam relevantes como o antigo bolicho do Seu Moleza ou denominações populares como do antigo bairro Saravá e vila Marrocos 19, demonstrando que os espaços são móveis e sofrem transformações. Naquele momento, começamos a estudar as mudanças da paisagem com imagens do cais do porto da cidade no passado, quando servia para o antigo comércio “formiga” (denominação atribuída à movimentação de pessoas em ambos os lados dos rios) com a entrada de produtos da Argentina ao país via tráfego de balsas e a ocupação atual do porto como área de lazer e entretenimento, considerando a construção da ponte internacional como fator que motivou a mudança desse espaço geográfico. Após motivarmos os alunos a observarem e destacarem mudanças espaciais na cidade foi possível perceber algumas lacunas de conhecimentos básicos de Geografia como domínio da leitura espacial cartográfica e orientação espacial. Isso ficou mais evidente ao constatar a admiração e espanto por parte de um aluno ao identificar, no mapa, países como a Jamaica como sendo americano e não africano, pois reconheciam o país pela figura de um cantor afrodescendente (Bob Marley). Ao propor o estudo do espaço geográfico a partir da leitura de mapas, evidenciou-se a necessidade do estudo das representações cartográficas, o que motivou o desenvolvimento de um projeto que articulasse o conhecimento geográfico em questão, destacado como importante pelos professores da área técnica do Eixo Turismo Hospitalidade e Lazer, aproveitando a possibilidade de realização de uma festa junina nas dependências do campus (AUTOR, 2013). 19 Para efeito de contextualização, a denominação de vila Marrocos foi atribuída a um conjunto de construções resultantes de ocupações irregulares em terrenos no Bairro Paraboi na zona sul da cidade. Essa denominação foi retirada da semelhança atribuída às imagens de cenas da novela O Clone, exibida pela Rede Globo entre 2001 e 2002. Já o Bairro Saravá, hoje Bairro São João Batista, é uma antiga denominação atribuída a um bairro da zona leste da cidade por conta da concentração de terreiros de umbanda. 67 Esse projeto teve como principal objetivo contextualizar os conhecimentos cartográficos abordados na Geografia aos conhecimentos veiculados na disciplina de Matemática através dos conceitos de proporcionalidade (BRASIL, 2011) e da Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada a Eventos, que, de acordo com sua ementa: [...] tem como objetivo curricular deixar o aluno apto a elaborar projetos de eventos, compreendendo as fases que envolvem o planejamento, a execução e o controle de um projeto para evento, visando o reconhecimento das melhores estratégias na organização dos mais diferentes tipos de eventos, levando em consideração os recursos físicos,humanos, materiais e financeiros (BRASIL, 2011). Ainda, o projeto da festa junina deveria ser devidamente classificado de acordo com os estudos na disciplina de Introdução ao Turismo de Eventos, que previa no seu plano de trabalho conteúdos a serem abordados, tais como conceito, tipologias, história e categorização de eventos através do estudo do meio (Figura 1). A metodologia do estudo do meio aplicada nesta disciplina, segundo Callai (2009), possibilita, para a Geografia, uma aprendizagem presente no cotidiano tornando-o mais significativo. Para executar a atividade do projeto, os alunos reduziram e representaram o espaço de convívio do Campus numa escala de 1:100 (1 cm no papel é igual a 1 metro da realidade representada) aproveitando os conceitos de grandeza e escala da matemática, de cartografia, das convenções cartográficas e de orientação espacial da Geografia. Após isso, os alunos, em grupos de três componentes, distribuíram estandes na representação gráfica de forma a melhor utilizar o espaço, considerando os critérios da disciplina de Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada a Eventos. Com o auxílio do obtido desenvolvido na disciplina Introdução Turismo de Eventos, os alunos justificaram toda a logística do evento de acordo com a origem do mesmo, a finalidade de determinados estandes e total de público-alvo (AUTOR, 2013). Geografia: Convenções cartográticas, Escala e Representação Espacial. Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada a Eventos EVENTO: Festa Junina Matemática: Grandezas , escalas e proporcionalidade Introdução ao Turismo de Eventos: Tipologia e História do Evento FIGURA1: Integração Curricular por Tema Proposto 68 Nessa proposta, a integração curricular ocorreu devido à capacidade de os alunos articularem os conhecimentos dos diversos componentes curriculares para a execução da atividade de organização de um evento. E mais este: evento utilizado como recurso de um trabalho pedagógico na busca intencional de contextualizar os conhecimentos das disciplinas e, ainda, reconhecer o objetivo final do curso, que consiste em potencializar o sujeito a organizar qualquer evento (BRASIL, 2011). Segundo Callai, é “fundamental que se considere que a aprendizagem é um processo do aluno, e as ações que se sucedem devem necessariamente ser dirigidas à construção do conhecimento por esse sujeito ativo” (2009, p. 92). Na prática, os alunos tiveram algumas dificuldades de cunho teórico, principalmente das disciplinas técnicas como Logística e Turismo de Evento, por se tratar de início de curso, mesmo assim o resultado final foi satisfatório quanto à representação do espaço em mapas e maquetes. A apresentação e o acompanhamento dos critérios para determinação da distribuição do evento sofreu uma carência, o que demonstrou que a disposição para realização de uma atividade de integração curricular apresentada no início do ano letivo foi apenas aparente. Mesmo assim, o projeto foi desenvolvido buscando uma forma dos alunos reconhecerem nas outras disciplinas o que havia sido solicitado para essa atividade. Outra atividade, bastante lembrada pelos alunos ocorreu ao estudarmos a localização geográfica proposta a cada aluno para identificar o lugar na sala de aula dos colegas, que estavam no seu entorno. Após essa etapa e tendo verificado a posição geográfica do campus com o auxílio de um aparelho de GPS (Global Positioning System), os alunos fizeram uma mapa da sala de aula identificando cada colega de acordo com sua posição geográfica. Depois disso, realizamos um mapeamento do prédio do Campus representando cada sala com um signo de acordo com os critérios da convenção cartográfica. Essa atividade, além de promover a integração dos alunos, potencializou a uma aluna realizar como Trabalho de Conclusão de Curso, um projeto que consiste em desenvolver, apresentar e aplicar a proposta de um evento: a promoção de um torneio de orientação no Instituto Federal Farroupilha, no ano de 2013. A atividade desenvolvida no Trabalho de Conclusão consistiu na organização de um evento, uma atividade esportiva, em que os alunos compreendessem as noções de orientação, localização e espacialização de acordo com objetivos propostos no Plano de Trabalho e, assim, juntamente com a disciplina de Educação Física e Eventos Esportivos, integramos os conceitos cartográficos com a atividade esportiva, além de potencializarmos o trabalho de conclusão (AUTOR, 2013). Para Santomé, “a aprendizagem significativa ocorre quando as novas informações e conhecimentos podem relacionar-se de uma maneira não arbitrária com aquilo que a pessoa já sabe” (SANTOMÉ, 1998, p.100). 69 Ainda, no primeiro ano da Turma 2011 do curso Técnico em Eventos Integrado ao estudarmos o conteúdo relacionado à estrutura física da Terra, estudado pela Geomorfologia, em acordo com a disciplina de Química, apresentamos alguns elementos químicos que constituem produtos e bens utilizados no cotidiano dos alunos e nos setores da economia. Por conseguinte, identificamos algumas rochas que potencialmente teriam esse elemento na sua composição mineralógica. Ao reconhecer que as rochas continham os elementos estudados, os alunos primeiramente, na disciplina de Geografia, classificaram-nos como minerais metálicos, não metálicos e energéticos e, num segundo momento, pesquisaram as estruturas geológicas, em que fosse possível encontrar as rochas correspondentes ao primeiro momento e suas possíveis localizações geográficas. Essa atividade foi realizada em aula e no laboratório de informática e visava à significação, por parte dos alunos, do conhecimento produzido pela Química ao identificar elementos da tabela periódica no seu cotidiano e compreender a ação humana de utilizar elementos da natureza, para descrever o espaço geográfico (AUTOR, 2013). De acordo com Suertegaray, “pensar o ambiente em geografia é considerar a relação natureza/sociedade, uma conjunção complexa e conflituosa que resulta do longo processo de socialização da natureza pelo homem” (2004, p.196). Com isso, visamos desenvolver o estudo com base num contexto em que os alunos pudessem reconhecer o conteúdo trabalhado na sua vivência e o percebessem “através do trabalho e da técnica enquanto instrumentos de produção, acumulação e, por consequência, de produção de uma nova natureza” ( 2002, p.52). A Figura 2 representa atividade de integração do conhecimento químico e geográfico ou uma pretensão de estabelecer uma articulação interdisciplinar entre os componentes curriculares envolvidos, numa via de dois sentidos. Essa articulação busca significações do conteúdo estudado na contextualização através da vivência e do mundo da vida, para que os alunos compreendam as atividades, os conceitos e os objetivos que envolvem essas disciplinas e produzam saberes na sua integralidade (AUTOR, 2013). Conhecimentos da Geografia Conhecimentos da Química Situação Contextual Saberes contextualizados. FIGURA 2: Saberes: via de dois sentidos 70 O homem utiliza-se de diversos conhecimentos produzidos pela humanidade e a visão apresentada pela química sobre a atividade proposta na realidade se integra e se complementa à visão proposta pela geografia na produção de saberes. Conforme Pansera de Araujo, Auth e Maldaner: [...] a proposta curricular, com base numa situação contextual, tende a proporcionar aos estudantes a produção de entendimentos, que não se restringem aos conceitos disciplinares, e transitar com autonomia em vários campos disciplinares (2007, p. 168). Segundo Tardiff, o saber docente constitui-se “como um saber plural, formado pelo amálgama, mais ou menos coerente, de saberes oriundos da formação profissional e de saberes disciplinares, curriculares e experienciais” (2002, p. 36). Isso é relevante no sentido de reconhecermos que todas as iniciativas que ocorreram no primeiro ano da Turma 2011 foram intensamente influenciadas pela experiência no ensino regular e na Educação de Jovens e Adultos, motivo pelo qual, as práticas educacionais voltaram-se à integração através da interdisciplinaridade 20. As leituras desenvolvidas em relação ao Currículo Integrado21 demonstravam que a dualidade estrutural do ensino Técnico Profissional persistia, pois não se percebia efetivamente uma integração do conhecimento abordado na disciplina de Geografia com os conhecimentos técnicos trabalhados nas disciplinas específicas do curso (AUTOR, 2013). A seguir, destacamos as práticas pedagógicas efetuadas durante o segundo ano da turma e, de certa forma, algumas mudanças e ressignificações sobre a proposta de efetivar o currículo integrado para além do discurso. 3.2. Ano 2012 No ano letivo de 2012, houve uma redução da carga horária da disciplina de Geografia de oitenta para quarenta aulas/horas anuais, o que na prática corresponde a apenas um período por semana 22 , condicionado ao desenvolvimento de práticas pedagógicas diferenciadas que maximizassem os encontros. Por conta disso, estabelecemos como meta aprofundar os estudos sobre o Currículo Integrado para desenvolver ações que refletissem o objetivo da disciplina de Geografia e rompessem com a dualidade do ensino profissional. Para a realização dessa meta, empreendemos novas leituras sobre Currículo Integrado, além da participação em palestras com estudiosos do tema, como Maria Ciavatta e Gaudêncio Frigotto, promovidos pela reitoria do Instituto Federal Farroupilha. O ingresso no programa de Mestrado da Unijuí proporcionou a participação num grupo de estudos coordenado pela Profª. Drª. Maria Cristina 20 “Interdisciplinaridade não é categoria de conhecimento, mas de ação” (FAZENDA, 1994, p. 89). Nesse ano foi desenvolvido o projeto de dissertação buscando demonstrar as possibilidades e potencialidades de promover a integração curricular para seleção no Programa de Pós-Graduação da Unijuí. 22 Redução prevista no Plano de Curso (BRASIL, 2011). 21 71 Pansera de Araújo sobre Currículo Integrado. Isso influenciou a ressignificação das práticas docentes, bem como a estruturação de uma nova proposta de trabalho, destacada nos próximos parágrafos. Antes disso, a Turma 2011 do Curso de Eventos Integrado sofreu poucas mudanças estruturais no segundo ano. Considerando as reprovações, desistências e abandonos, iniciou o ano letivo com vinte e oito alunos, ampliado para vinte e nove com a chegada de uma aluna intercambista do Canadá. A mudança mais significativa foi de ordem comportamental, representada pela maior compreensão por parte dos alunos e dos próprios docentes, que atuavam na turma, da proposta de formação técnica profissional do curso de eventos (AUTOR, 2013). O Instituto Federal Farroupilha defende que os egressos de seus cursos “sejam capazes de se inserir no mundo do trabalho de modo compromissado com o desenvolvimento regional sustentável” (BRASIL, 2011, p.8). Destarte as práticas pedagógicas desenvolvidas, no segundo ano foram organizadas de forma a possibilitar aos estudantes reconhecerem o reflexo da atuação global nas condições locais. Segundo Callai (2009), muitas vezes os alunos sabem sobre ou estudam diversos lugares ou o mundo todo, mas não conseguem reconhecer o que está acontecendo em seu entorno. Por isso, a Geografia deve possibilitar a compreensão de que “cada lugar é, ao mesmo tempo, objeto de uma razão global e de uma razão local, convivendo dialeticamente” (SANTOS, 2006, p.339). Por isso, as ações pedagógicas visavam motivar os alunos a reconhecerem-se como sujeitos ativos no seu processo de ensino, procurando contextualizações que significassem o conteúdo proposto, como, por exemplo, ao estudar a globalização utilizou-se a experiência da aluna intercambista canadense, que apresentou um trabalho destacando os aspectos naturais, econômicos e socioculturais do seu país. Depois, organizamos um estudo dirigido com visitações a áreas marginalizadas da cidade, para desenvolvermos contrapontos às formas de globalização. Após a visitação, realizamos uma exposição de fotos que destacavam as diversas formas de globalização, tanto no seu sentido perverso de exclusão, quanto no seu espectro cultural, informacional, social, ambiental e econômico; demonstrando que: Neste mundo globalizado, a competitividade, o consumo, a confusão dos espíritos constituem baluartes do presente estado de coisas. A competitividade comanda nossas formas de ação. O consumo comanda nossas formas de inação. E a confusão dos espíritos impede o nosso entendimento do mundo, do país, do lugar, da sociedade e de cada um de nós mesmos (SANTOS, 2001, p.46). Com a ciência de que existem os excluídos e os incluídos no processo de globalização, é necessário o entendimento de outros conceitos para a compreensão deste processo de diferenciação. Por isso, foram estudadas as fases do capitalismo, sendo este ilustrado com o filme 23 Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme. Os alunos foram motivados a identificar temas teóricos, como globalização, marketing, capitalismo, capital especulativo, capital produtivo, revolução técnicocientífica e setores da economia, nas passagens do filme. Com a representação 23 Wall Street 2: o dinheiro nunca dorme (Wall Street: Money NeverSleeps), filme de 2010, dirigido por Oliver Stone. 72 factual, buscamos uma representação contextual que possibilitou a significação e compreensão dos conceitos estudados (Figura 3)(AUTOR, 2013). Globalização Capital produtivo e especulativo Capitalismo Filme: Wall Street 2 Revolução TécnicoCientífica Marketing Setores da Economia FIGURA 3: Significação através da Representação Outra prática que realizamos para viabilizar a integração curricular da disciplina ao objetivo de formação do curso foi a organização de grupos de debates sobre temas de relevância social, como Revolução Agrícola, Revolução Verde, Agricultura Orgânica, Biotecnologia e Reforma Agrária, em que determinado grupo deveria apresentar e defender pontos positivos e negativos sobre o assunto para possibilitar a “formação humanística e cultura geral integrada à formação técnica, tecnológica e científica e, ainda, sejam cidadãos críticos, propositivos e dinâmicos na busca de novos conhecimentos” (BRASIL, 2011, p.8-9). Ao todo foram organizados seis grupos, sendo cinco com cinco componentes e um grupo com quatro componentes, totalizando os vinte e nove alunos do segundo ano da turma Técnico em Eventos. O debate consistia em promover uma discussão entre dois grupos sobre um tema previamente definido por sorteio. Para mediar o debate, era sorteado um terceiro grupo, que organizava e direcionava os temas discutidos. Com o intuito de envolver toda a turma e possibilitar a dinamicidade e autonomia, somente no dia do debate eram definidos os grupos que iriam apresentar os pontos positivos e negativos sobre a temática discutida. Essa atividade tinha a finalidade de explorar a capacidade dos alunos a organizarem um evento, além de possibilitar uma ação pedagógica que promovesse o interesse e a criticidade. Num primeiro momento, os grupos envolvidos manifestaram-se entusiasmados com a proposta; contudo, na prática muitos não conseguiram articular de forma precisa o papel do seu grupo quanto à representação dos aspectos positivos ou negativos sobre os temas propostos. O despreparo foi constatado nos argumentos apresentados, que demonstrava incipiente leitura sobre o tema. Já o desinteresse em relação à atividade é atribuído ao fato da mesma ocorrer em apenas um período de cinquenta minutos por semana, o que, para os alunos contribuiu para “esfriar” o interesse nos debates. Contudo, os alunos que se identificaram com a proposta e com o tema monopolizaram as discussões, sendo necessárias intervenções pedagógicas para que o debate transcorresse de forma amistosa. Entre as situações de maior empolgação e atrito, destacamos trechos como “tu achas que está sempre certa?” ou “tu não me deixa falar” presente nos discursos e na solicitação de mais atividades que promovessem as discussões na sala de aula. Essa atividade acabou motivando a criação de um sistema de monitoria das ciências humanas, no ano de 2013, para a promoção de aulas de reforço e organização de oficinas de debate para os alunos (AUTOR, 2013). 73 No ano de 2012, as práticas docentes na disciplina de Geografia buscaram menos incorporar ações interdisciplinares ocorridas no primeiro ano e mais práticas que refletissem o entendimento e o cumprimento dos objetivos do curso, da disciplina de Geografia e do perfil do egresso proposto no PPP do Curso de Eventos. Com isso, espera-se colaborar com a construção de um novo mundo, pois “a Geografia tem enorme contribuição para dar no sentido de ampliar a leitura do mundo e de instrumentalizar a sociedade para a transformação do cotidiano vivido” (AIGNER, 2003, p.46). 3.3. Ano 2013 Com o intuito de sair do discurso e promover ações pedagógicas, consideramos o Currículo Integrado como tentativa de romper a dicotomia entre trabalho manual e conhecimento científico, bem como a histórica dualidade estrutural da educação profissional do Brasil. Neste sentido, as práticas propostas possibilitam articulação, contextualização e significação entre conhecimentos dos diversos componentes curriculares do curso. Ademais, acreditamos que a finalidade do currículo é alcançar o desenvolvimento intelectual do estudante, através de um processo baseado em conceitos (teóricos ou cotidianos), pois esses nos capacitam a fazer generalizações confiáveis (YOUNG, 2011). Mas, enquanto os conceitos do cotidiano resultam da vivência e da experiência, os conceitos teóricos originam-se de comunidades especialistas de pesquisa, sendo identificados no conteúdo das disciplinas a que o aluno tem acesso na escola: As disciplinas, então, têm duas características como uma base de plano curricular. Primeiramente, consistem de conjuntos de conceitos relativamente coerentes que se relacionam distinta e explicitamente entre si. Disciplinas têm regras para definir as fronteiras entre elas e outras disciplinas e para estabelecer o modo como seus conceitos se relacionam (YOUNG, 2011, p. 616). Para Vigotski (2007 e 2008), a formação de conceitos requer funções psicológicas complexas, como atenção voluntária, memória lógica, abstração, síntese, comparação e discriminação. Essas funções psíquicas superiores são alcançadas por intermédio de processos mediados, isto é, “o processo de aprendizado está completa e inseparavelmente misturado com o processo de desenvolvimento” (VIGOSKI, 2007, p.89), no qual os signos constituem o meio básico para dominá-las e dirigi-las. Desta forma, é necessário que o aluno perceba no conteúdo um meio de interação com a realidade através da significação da aprendizagem a partir de problemas e temas comuns, que perpassem as disciplinas e promovam a sua 74 articulação. Quanto a isso, Lopes e Macedo propõem três possibilidades de integração curricular: Integração por competências e habilidades a serem formadas nos alunos; integração de conceitos das disciplinas mantendo a lógica dos saberes disciplinares de referência; integração via interesses dos alunos e buscando referência nas demandas sociais e, eventualmente, nas questões políticas mais amplas (2011, p.123). Essas autoras influenciaram a estruturação do Plano de Trabalho na disciplina de Geografia, no ano de 2013, através da organização pedagógica de aulas contextualizadas para o desenvolvimento do objetivo da disciplina, pois, segundo Lerina e Castrogiovanni: A Geografia, sendo a ciência que busca a compreensão do Espaço produzido pela sociedade, estudando as suas desigualdades e contradições, as relações de produção que nele se desenvolvem, bem como a apropriação que essa sociedade faz da natureza, tem por objetivo levar o aluno a entender a estruturação e a organização do espaço, para que, mesmo temporariamente, ele compreenda, problematize e opere sobre a sua realidade (2013, p. 35). Se, na prática pedagógica, alcançarmos o objetivo pretendido na disciplina de Geografia, estaremos potencializando o aluno a se tornar um profissional da área de eventos, de acordo com estes atributos destacados pelo perfil do egresso do curso e do IF Farroupilha: • tenham competência técnica e tecnológica em sua área de atuação; • sejam capazes de se inserir no mundo do trabalho de modo compromissado com o desenvolvimento regional sustentável; • tenham formação humanística e cultura geral integrada à formação técnica, tecnológica e científica; • atuem com base em princípios éticos e de maneira sustentável; • saibam interagir e aprimorar continuamente seus aprendizados a partir da convivência democrática com culturas, modos de ser e pontos de vista divergentes; • sejam cidadãos críticos, propositivos e dinâmicos na busca de novos conhecimentos (BRASIL, 2011, pág. 8-9). Segundo Kuenzer (2007, p.68), “consensuar critérios, conteúdos, suas formas de organização e estratégias pedagógicas que expressem a concepção predominante, fruto de um equilíbrio provisório e em constante negociação”, pode auxiliar na elaboração de iniciativas em torno da estruturação das práticas pedagógicas propostas no ano de 2013. Assim, se atingiria um equilíbrio provisório que apresenta constatações diante das incertezas e indagações em promover uma proposta de integração curricular, que rompa o discurso por intermédio da articulação dos conhecimentos e do entendimento, sobre quem e para que(m) estamos formando, dos objetivos e perfil do egresso do Curso e do IF Farroupilha (Figura 4). 75 Perfil do Egresso Integração Curricular Técnico em Eventos FIGURA 4: Quem e para quem Formamos No terceiro e último ano do curso, os alunos da turma de Técnicos em Eventos propuseram outro objetivo, além dos apresentados anteriormente, através de um grupo que solicitou aulas com os conteúdos exigidos pelo ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Quanto à solicitação, os artigos 22 e 36 da LDBN definem que o objetivo da educação é “[...] desenvolver o educando, assegurar-lhe a formação comum indispensável para o exercício da cidadania e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos posteriores”. No caso do curso técnico, a “formação geral do educando, poderá prepará-lo para o exercício de profissões técnicas” (BRASIL, 1996); portanto, simplesmente direcionar as aulas para o Enem ou vestibulares, apesar de representar o interesse de parte da comunidade escolar, num primeiro momento, remeteria o ensino técnico integrado a um caráter meramente utilitarista. Isso tudo reforçou a necessidade de ampliar os estudos em torno dos conceitos estruturantes da Geografia, para que os alunos reconheçam na disciplina possibilidades de desenvolver percepções generalizadas através desses conceitos. No que se refere a repensar o currículo, o ENEM, no seu critério de avaliação, evita conteúdos mnemônicos e valoriza processos gerais de cognição através de situações-problema em contextos nos quais o conhecimento é utilizado como um instrumento para a sua resolução. Nisso encontramos um aliado para a promoção da articulação entre os saberes de cada disciplina, pois: Essa proposta parece apontar para a necessidade de criarmos práticas pedagógicas que promovam o desenvolvimento de inteligência e a consciência crítica de todos os 76 envolvidos no processo educativo, tendo na interação social e no diálogo o mais importante instrumento da construção de conhecimento (LERINA E CASTROGIOVANNI, 2013, p. 29). Além disso, as preocupações dos alunos demonstraram um rompimento com a dualidade estrutural, pois ter uma turma de vinte oito alunos no último ano do curso Técnico em Eventos Integrado, salvo a aluna em licença-gestante que prestará vestibular no IF Farroupilha São Borja, realizou o Enem com vistas à continuidade dos estudos. Isso representa um avanço alcançado pela Lei 11.892/2008 e pela Resolução nº 06/2012, que atribuem como finalidade dos Institutos Federais a verticalização do ensino, além de promover o desenvolvimento dos arranjos produtivos locais ao possibilitar uma educação pública de qualidade (BRASIL, 2008a, 2011). Considerando Lerina e Castrogiovanni (2013) e para suprir as solicitações dos alunos, foi organizado um grupo de monitores para desenvolver atividades extracurriculares de reforço e debates sobre as temáticas relacionadas não somente à Geografia, mas a todas as disciplinas que compõem as Ciências Humanas, para proporcionar o domínio de linguagens específicas, compreender fenômenos, enfrentar situações-problema, construir argumentações e elaborar propostas. As atividades de monitoria das Ciências Humanas buscaram integrar os conhecimentos dessa área, por meio do estímulo de práticas cooperativas dentro da escola, garantindo a socialização de saberes entre os educandos e não apenas na educação receptiva centrada no professor. Nessa perspectiva, o projeto de monitoria na escola, centrado na área de ciências humanas, atende ao proposto. Um grupo de alunos que auxiliava seus colegas não como simples espaço em que o aluno mais forte ajuda o mais fraco, mas em que o ensinar está indissociavelmente ligado ao aprender mútuo e social pela troca de experiência e busca de possíveis soluções. Nesse ano, todas as atividades desenvolvidas foram focadas na realidade nacional e estadual, possibilitando representar questões agrárias e a leitura espacial do Brasil para comparar o significado histórico-geográfico das organizações políticas e socioeconômicas em escala local, regional ou mundial (AUTOR, 2013). De acordo com Nuñez, “um primeiro momento no processo de formação da atividade é criar nos alunos disposição para o estudo” (2009, p. 98-99). Por isso, as práticas pedagógicas foram organizadas objetivando a autonomia e a motivação dos alunos através de uma estrutura organizacional que priorizava a contextualização a partir de situaçõesproblemas. Por exemplo, ao estudarmos as fronteiras agrícolas do Brasil realizamos uma pesquisa sobre famílias que migraram do município para outros estados, sendo estudados os principais fatores de repulsão e atração populacional. Com isso, ampliamos a discussão para compreender os fatores que determinam o valor da terra nas diversas regiões do país, o que nos levou ao estudo da reforma agrária e das lutas por terras. Da mesma forma, o estudo da regionalização do Brasil, exigiu que os alunos desenvolvessem um trabalho identificando os diferentes ritmos musicais de cada região brasileira de acordo com o que já haviam estudado na disciplina de Música, do segundo ano. 77 Essa atividade tinha como objetivo compreender que para regionalizar é necessário desenvolver critérios de inclusão e exclusão que aproximem e caracterizem determinados locais geográficos. A prática da promoção de debates procurou suscitar a formação de “[...] cidadãos críticos, propositivos e dinâmicos na busca de novos conhecimentos” (BRASIL, 2011, p.9). Ao realizarmos o estudo na visão geográfica de construção do espaço produzido, interligamos com outros componentes. Por exemplo, antes de debatermos sobre as principais fontes de energia do Brasil e do mundo, os alunos recorreram ao professor de Física para o entendimento do conceito de energia e força no laboratório desta disciplina e, com isso, compreenderem como esses conceitos permitiram o desenvolvimento da sociedade moderna. A interdisciplinaridade deve ser mais que uma integração acidental entre as disciplinas. Ao contrário, elas devem ocorrer de forma intencional e essa finalidade é fundamental para que os alunos as reconheçam e tudo isso possibilite “corrigir possíveis erros e a esterilidade acarretada por uma ciência excessivamente compartimentada e sem comunicação interdisciplinar” (SANTOMÉ, 1998. p. 62). Ademais, nenhuma disciplina que estuda determinado problema é uma ilha que se desenvolve isolada, pois consideramos que mesmo uma ilha, para de fato ser classificada como tal necessita no seu entorno de um conjunto de águas. Essa metáfora tem o objetivo de ilustrar a necessidade de encontrar nas fronteiras das disciplinas o ponto, para qual convergem ou de que se afastam e que isso seja apresentado ao aluno para que ele compreenda as ciências, o mundo passado sob determinado prisma e a própria vida, pois “cada disciplina nos oferece uma imagem da realidade, isto é, daquela parte que entra no ângulo de seu objeto” (SANTOMÉ, 1998, p. 55). Ao longo desses três anos, apresentamos, através de práticas pedagógicas, possibilidades e potencialidades, a intenção de desenvolver um Currículo Integrado capaz de ao menos tentar romper com a dualidade estrutural da educação profissional. Nesse percurso, constatamos que para ocorrer a integração curricular, é fundamental um movimento pedagógico no modo de pensar, postura e atitude investigativa e com docentes comprometidos com uma mudança no seu componente disciplinar e na sua metodologia de trabalho. Isso tudo, além de uma estrutura física e administrativa organizacional que possibilite a integração entre a teoria e as práticas e de um apoio pedagógico com possibilidades de integração curricular. Essas constatações resultam da observação e de experiências como professor de Geografia ao longo dos três anos do curso Técnico em Eventos na modalidade integrado. A 78 familiarização com a turma permitiu diversas atividades que visavam a integração curricular, além de possibilitar o desenvolvimento cognitivo da turma no que diz respeito à capacidade de concentração e organização nas práticas em sala de aula, constatando que se tornaram bastante responsáveis e autônomos. A seguir, destacamos outras possibilidades de integração curricular, identificadas a partir dos diversos focos de “contaminação” em que estive submetido ao longo desses três anos. Iniciamos com a experiência em sala de aula, mais particularmente das leituras e discussões promovidas sobre a temática nos grupos de estudo, nas orientações e aprendizagens no decorrer das aulas do Programa de Mestrado, que possibilitaram mudanças estruturais na prática pedagógica. 3.4 Limites, possibilidades e potencialidades de integração curricular pelos diálogos conceituais intercomplementares e inter-relacionais Para discutir os limites, possibilidades e potencialidades de integração curricular, a partir de diálogos conceituais intercomplementares e inter-relacionais, tendo como caminho de análise a disciplina de Geografia no curso Técnico em Eventos, procuramos os documentos (PPC e PE) e as narrativas das práticas desenvolvidas pelas outras disciplinas para elucidar a questão de pesquisa. Mesmo concordando que “a educação pela pesquisa consagra o questionamento (re)construtivo com qualidade formal e política” (DEMO, 1997, p. 10), observamos que nem todas as disciplinas se articularam em torno de uma atividade, nem participam do planejamento coletivo, conforme o estabelecido no PPC (BRASIL, 2011). Mas tanto a PPI quanto o PI tornam-se importantes ferramentas para potencializar a integração curricular. Ainda, se o projeto problematizar e contextualizar o ensino e aprendizagem da prática pedagógica, independente da proposta (projeto, temas, movimentos interdisciplinares ou integração de conceitos), para que se desenvolva a integração curricular é essencial que “sejam alcançadas as finalidades não alcançadas pelas disciplinas escolares, uma vez que estas são consideradas como tendendo a se afastar do cotidiano do aluno e de seus interesses em virtude de se aproximarem de enfoques acadêmicos” (LOPES e MACEDO, 2011, p.128). Para tanto, é necessário um compromisso didático dos professores, alunos, equipe diretiva, técnicos administrativos e comunidade escolar. 79 Por isso mesmo identificamos nas propostas (PPI e PIs), possibilidades de integração curricular, reconhecemos que podem constituir limites quando não articulam os saberes da Educação Básica com a Profissional e Tecnológica. Isso porque entendemos que o currículo integrado deva promover o desenvolvimento dos conhecimentos técnicos, sem abrir mão da capacidade de intervenção social para o rompimento da dualidade educacional. Inegavelmente, não existe uma única forma, mais ou menos correta, de desenvolver o Currículo Integrado; mesmo assim, o nosso interesse é direcionado à identificação de mecanismos de integração curricular através dos componentes curriculares. E os limites, possibilidades e potencialidades de integração, resultantes desse reconhecimento, devem estar presentes na ação pedagógica, pois acreditamos que no currículo em ação se estabelece o currículo integrado. Deste modo, acreditamos, também, que a Educação Profissional de Nível Médio possa ir além do cotidiano acadêmico, da pedagogia das competências e das séries metódicas de oficio, preconizadas pelo ensino pragmático e reconhecimento, por parte dos estudantes, dos saberes geográficos e suas possíveis aplicações nas mais diversas situações do curso ou como técnicos em eventos. 3.4.1 Muito além detemas e conteúdos Da análise realizada, observamos, num primeiro momento, que algumas disciplinas 24 não apresentavam elementos em comum, porém, de acordo com Machado (2009): É a concepção e a experimentação de hipóteses de trabalho e de propostas de ação didática que tenham, como eixo, a abordagem relacional de conteúdos tipificados estruturalmente como diferentes, considerando que esta diferenciação não pode, a rigor, ser tomada como absoluta ainda que haja especificidades que devem ser reconhecidas (MACHADO, 2009, p. 02). A autora, ao mesmo tempo que identifica os limites encontrados no reconhecimento da especificidade de cada disciplina, contribui para o nosso entendimento, em relação às possibilidades e potencialidades de integração curricular, ao notar sua intolerância em aceitar disciplinas como saberes petrificados em si. Ainda, segundo a autora, se as disciplinas foram didaticamente separadas para explicar uma parte do fenômeno, tema ou clarear para, através de sua especialização, facilitar o seu estudo, poderiam se articuladas para contribuir na compreensão do todo e contextualizar o seu estudo num melhor entendimento do ensinoaprendizagem (MACHADO, 2009), principalmente se reconhecermos a capacidade de cada 24 Das 61 disciplinas dispostas na Tabela 5, 25 são da área técnica (específicas) e 36 da área básica (geral). 80 disciplina representar um conhecimento sobre determinado fenômeno ou simplesmente o ponto de vista sobre um fato (YOUNG, 2011). Com esse pensamento, prospectamos algumas possibilidades de vinculações entre as disciplinas para a promoção da integração curricular, pois acreditamos que, na maioria das vezes, um conteúdo, restrito a um tema, incorpora um conceito que, por sua vez, corresponde a uma generalização. Segundo Vigotski, a generalização está presente na tomada de consciência humana, pois a “percepção humana é feita de percepções generalizadas e não isoladas”(2007, p. 116), resultantes da articulação entre o conhecimento cotidiano, científico e, por que não, tecnológico, através da mediação pedagógica no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem. Assim, para o desenvolvimento cognitivo do aluno, através da integração curricular, é necessário estabelecer pressupostos que funcionem como base dessa generalização. Nesta pesquisa, reconhecemos a capacidade científica e tecnológica dos componentes curriculares e estabelecemos, “forçosamente 25”, os objetivos e finalidades encontrados no perfil do egresso do IF Farroupilha, no PPC, nos Princípios Norteadores da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, nos componentes curriculares do curso (BRASIL, 2009, 2011, 2012, 2013b),a possibilidade de integração curricular. Em quaisquer circunstâncias em que se vise construir currículos integrados, para que haja possibilidades de êxito, o percurso formativo precisa ser trabalhado como um processo desenvolvido em comum, mediante aproximações sucessivas cada vez mais amplas, que concorram para que cada ação didática se torne parte de um conjunto organizado e articulado (MACHADO, 2009, p. 02). Em outras palavras, confrontamos os conteúdos de estudo da Geografia com os conteúdos de estudo de outros componentes curriculares do curso com vistas a reconhecer ou estabelecer elementosque possibilitem ou potencializem a integração curricular na práxis docente. Odesenvolvimento dessa proposta exigiu que revisitássemos os conceitos estruturantes da Geografia: Espaço, Tempo, Sociedade, Lugar, Paisagem, Região e Território (BRASIL, 2006), pois, segundo Rego (2002), auxiliam o entendimento dos fatos nas suas escalas através da interligação dos mesmos sobre uma determina ótica, promovendo uma aprendizagem significativa em que os alunos consigam compreender a relação partetotalidade apresentada pelos recortes de cada disciplina (SANTOMÉ, 1998). Ao analisarmos o PPC e o PE de algumas disciplinas, identificamos os 25 Por conta de inúmeras razões, entre elas a própria dificuldade inerente ao trabalho, alguns docentes buscam praticar atitudes mais conservadoras na sua rotina profissional o que acaba influenciando na decisão de não experimentar caminhos novos. 81 conhecimentos dispostos nos conteúdos repetidos, como, por exemplo, aqueles descritos no currículo de Geografia, no primeiro ano, e Gestão Ambiental e Biologia, no segundo ano do curso. Porém, o que aparentemente se apresentou como duplicidade na organização da grade curricular, na realidadedirecionou ao reconhecimento da capacidade de cada disciplina representar um ponto de vista sobre o mesmo fenômeno, ampliando a compreensão conceitual. Desta forma, para fugir da aparente duplicidade e desenvolvermos, no currículo em ação, a integração curricular, é importante reconhecermos a contribuição de cada componente no estudo e na compreensão deste fenômeno. Machado (2009) considerou a especificidade de cada disciplina como um limite da integração curricular, que pode ser rompido pela promoção do diálogo entre elas e seus conhecimentos. A Biologia e a Gestão Ambiental propõem conceitos de classificações e organizações relacionadas à ecologia (BRASIL, 2011 e 2013b), que facilmente são integrados à Geografia. Tanto o estudo dos ciclos da matéria nos ecossistemas quanto dos principais ecossistemas utilizam-se de conhecimentos geográficos, como clima, tempo, vegetação e relevo. Assim comoo equilíbrio e os impactos ambientais resultam da transformação provocada pela ação humana na construção da sociedade ou por interesses econômicos que correspondem ao estudo do Espaço Geográfico. Além disso, através da articulação ou contextualização dos conhecimentos, as possibilidades e potencialidades de integração estão presentes nos objetivos das disciplinas. Como em Biologia, ao propor conhecimentos úteis, que possam responder perguntas básicas vivenciadas pelo estudante no seu cotidiano ou do estudo dos conceitos e classificações ecológicas, também Gestão Ambiental, os conteúdos contribuem para levar os alunos a compreenderem as grandes transformações do mundo, propostas na Geografia (BRASIL, 2013b). Por isso, é necessário reconhecer as possibilidades de integração curricular através do diálogo com o outro, incorporando as temáticas físico-naturais e a consciência da educação ambiental como forma de potencializar a “promoção de relações de equilíbrio homem/meio ambiente, por meio do ensino, visando a formar profissionais capazes de colaborar para o planejamento e desenvolvimento do turismo de forma sustentável, preservando e valorizando as características ambientais e locais”, respeitando princípios socioambientais, socioculturais e sociopolíticos (BRASIL, 2011, p. 5). 82 A leitura e a interpretação das fronteiras epistemológicas identificadas nos conhecimentos dispostos nos conteúdos de cada disciplina (YOUNG, 2007) permitiram o reconhecimento de outras possibilidades de integração curricular, além da concordância e repetição de conteúdos entre as partes. Na visão de Pistrak (2009), diversos fenômenos estudados por determinada disciplina estão claramente ligados aos sistemas conceituais de outras matérias. Todo conhecimento desenvolvido em relação às questões ambientais, tanto pela Gestão Ambiental, quanto pela Biologia e Geografia, contribui para contextualizar estudos da disciplina de Saúde e Segurança no Trabalho, na abordagem do desenvolvimento do PPRA/NR9 26 e Gestão de Pessoas, que visa disponibilizar conhecimentos essenciais da administração de recursos humanos. Assim, todas as disciplinas envolvidas possibilitam a formação de sujeitos capazes de se inserir no mundo do trabalho, compromissados com o desenvolvimento regional sustentável (BRASIL, 2011 e 2013b). Desta forma, os elementos químicos na disciplina de Química e o conceito de força na Física possibilitam uma articulação junto com os estudos das rochas, componentes orgânicos e inorgânicos, minerais metálicos, não metálicos e energéticos, que podem ser conhecidos nos conteúdos sobre a hidrografia, fontes de energia e estruturas geológicas na Geografia (BRASIL, 2013b). Além disso, identificamos outros conhecimentos ou conteúdos contemplados pela Física que podem ser encontrados em outros componentes curriculares, como, por exemplo,grandezas e unidades de medida. Esses conhecimentos, estudados no primeiro ano do Curso deEventos, são essenciaisà Geografia, nos estudos das Noções de Cartografia. O estudo dos conceitos de Termodinâmica, Temperatura, Dilatação, Comportamento dos Gases e Termologia (Calor) possibilitaarticulação aos conteúdos, como conhecimentos úteis, que compreendem a atmosfera e os fenômenos climáticos, como a troposfera, o tempo e o clima, que na Geografia são fundamentais para a compreensão do Espaço Natural e do conceito de Paisagem (BRASIL, 2011, 2013b). Por isso, seria pretensioso afirmar que a Química, a Física, a Biologia e até mesmo a Geografia carregam conceitos estruturantes necessários para o entendimento e a compreensão da Natureza na sua totalidade. No desenvolvimento dessa capacidade, identificamos a principal possibilidade de integração curricular até pelo motivo de que não há compreensão 26 A NR 9 (Norma Regulamentadora) do PPRA (Programa de Prevenção de Riscos Ambientais) estabelece os principais conhecimentos visando à preservação da saúde e integridade dos trabalhadores e à prevenção de riscos ambientais (BRASIL, 2013b). 83 sem totalidade. A disciplina de Física visa potencializar os estudantes a compreenderem os fenômenos da natureza, de forma a contribuir para que possam melhorar suas visões de mundo, relacionando-a interdisciplinarmente a outras ciências (BRASIL, 2013b). Assim como a Química, que oferece condições para o entendimento do mundo físico e tecnológico no qual vivemos (BRASIL, 2013b). No caso específico da Geografia, o estudo da natureza contribui, entre outras coisas, para o estudo da Paisagem, que corresponde ao conjunto de formas naturais e culturais associadas a um determinado espaço (CORRÊA e ROZENDHAL, 1998).Assim, reconhecemos a necessidade de outros conhecimentos para o desenvolvimento dessa capacidade de compreensão, pois os estudos de fenômenos da natureza e de elementos físicos, por esta ou aquela disciplina, contribuem para o desenvolvimento da parcialidade desse conhecimento. No mais, para a Geografia o estudo da Paisagem potencializa o entendimento do espaço geográfico que, por sua vez, não passa da natureza socializada (SANTOS, 2006), visto que muitos fenômenos, ditos naturais, são na realidade fatos sociais. Dessa maneira, os domínios dessas categorias proporcionam um olhar diferenciado sobre o mundo, nas suas diferentes escalas, assim como intencionam a Física e a Química de melhorar o entendimento do mundo em que se vive e com isso promover uma relação de equilíbrio homem/meio ambiente pelo estudo (BRASIL, 2011). O papel da Geografia, ao utilizar ferramentas de representações através de mapas, é contribuir para a formação de sujeitos capazes de desenvolver uma leitura espacial da realidade. O domínio dessa capacidade exige Noções Cartográficas que, por sua vez, oferecem excelentes possibilidades de integração curricular, pois carregam importantes elementos interpretativos com distintos significados. Esses elementos de linguagem visual, como pontos, linhas, texturas, cores, formas, figuras e espaços, objetos de estudo da disciplina de Arte, são, também, elementos fundamentais para a alfabetização cartográfica (BRASIL, 2013b). Da mesma forma, a Matemática, na sua ementa, propõe estudos de conceitos essenciais a todas as áreas científicas e do cotidiano da sociedade (BRASIL, 2013b). Por exemplo, proporcionalidade, projeções e geometria são amplamente utilizadas ao se estudar as escalas e convenções cartográficas, pirâmides etárias, mapas estilizados e suas projeções anamorfose, climogramas, indicadores econômicos ou populacionais. E também, qualquer tipo de gráfico que auxilie na contextualização e explicação de fenômenos geográficos e para 84 a superação da fragmentação de conhecimentos e visando o desenvolvimento de sujeitos críticos, propositivos e dinâmicos (BRASIL, 2011, 2012, 2013b). As representações gráficas e cartográficas são objetos culturais que buscam explicar e refletir a realidademediante diferentes modos de interpretar a realidade. Por isso, para interpretá-las e compreende-las é necessário um processo de alfabetização cartográfica, ou seja, a aprendizagem de uma nova forma de linguagem composta de códigos, símbolos e signos que, por sua vez, mobilizam distintos conhecimentos, como escala, linha, proporção, área, ponto de referência, legenda, visão oblíqua, vertical, imagem bidimensional, tridimensional e orientação. Para o desenvolvimento da linguagem cartográfica, são necessários os saberes de Matemática, Arte e da própria Geografia. Esses saberes proporcionam a compreensão das noções cartográficas que potencializam a construção e desenvolvimento de um “olhar espacial da realidade” (CALLAI, 2009, p. 94) e de uma totalidade concreta (RAMOS, 2005), possibilitada pela integração curricular contextualizada, flexível e interdisciplinar na utilização de estratégias favoráveis à compreensão de significados (BRASIL, 2012). A disciplina Organização de Buffets e Banquetes, ao visar a análise e interpretação de plantas arquitetônicas e de medidas espaciais, assim como a de Decoração de Ambiente e Interiores para Eventos, ao propor o desenvolvimento de layouts representativos de um cerimonial (BRASIL, 2011 e 2013b), utilizam e contextualizam os conceitos da Geografia. Ao se comprometerem em potencializar os alunos a acompanharem, assessorarem, planejarem, organizarem e executarem projetos (BRASIL, 2011 e 2013b), as disciplinas contextualizam e significam conhecimentos cartográficos, tanto para o planejamento quanto para a análise dos layouts e projetos arquitetônicos. Assim, constituem excelente possibilidade de integração curricular entre os conhecimentos geográficos e a área técnica. Ainda, o componente curricular de Arte, que propõe o estudo da História da Arte através da análise visual, estética ou até mesmo de ordem cênica, oferece outras possibilidades de integração curricular no que tange ao reconhecimento da pluralidade e diversidade cultural numa perspectiva experiencial. O desenvolvimento do “Olhar Espacial” corresponde à capacidade de perceber que a ação humana, em seu tempo histórico, construiu, destruiu e reconstruiu paisagens que, por sua vez, carregam marcas sociais, políticas econômicas e físico-naturais. Essas marcas são elementos significativos para o entendimento do estudo da Globalização e das novas tecnologias dispostos no PE do segundo ano da disciplina 85 deGeografia (BRASIL, 2013b). Mesmo com o tratamento homogeneizante das Nações 27 , desrespeitando as particularidades e esfacelandoas culturas locais e regionais, provocado pelos interesses econômicos, é possível, através da Arte, com sua experiência subjetiva e o simbolismo presente em seus estudos, reconhecer uma “Outra Globalização”, uma (re)significação espacial, um movimento contra-hegemônico que contempla as diferenças e os diferentes e, nessa diferença, a sua identidade (SANTOS, 2001). Neste sentido, a singularidade na relação local-global, também analisada pela tríade habitante-lugar-identidade (CARLOS, 2007, p.17), constrói um sentimento de pertencimento e de afetividade traduzidos na Geografia como Lugar. Esse Lugar, por sua vez, representa a base da vida local onde se é percebido e também conhecido como espaço vivido, pois “o lugar se produz na articulação contraditória entre o mundial que se anuncia e a especificidade histórica do particular” (CARLOS, 2007, p. 14). Com isso, elementos dos conteúdos dos distintos componentes curriculares encontram-se potencialmente aptos à integração curricular. Para tanto, deve-se buscar a articulação e significação desses conhecimentos desenvolvidos, o que exige um movimento pedagógico consciente. Ao desenvolver o currículo integrado, devemos contextualizar os saberes de Arte e Geografia não apenas como um processo introdutório para a motivação de uma aula, mas como elementos constitutivos do ensino-aprendizagem, para que os conhecimentos se façam presentes na prática pedagógica e sejam reconhecidos pelos alunos. Novamente, deparamos com a necessidade do diálogo com o outro não apenas para o desenvolvimento coletivo de propostas pedagógicas, mas, também, dos saberes e conhecimentos no currículo em ação. Para isso, o “especialista” de Geografia, de Arte ou qualquer outra disciplina deve dominar o mínimo de outros conhecimentos de outros campos do saber e não apenas da sua área de atuação, para, com isso, provocar a integração curricular e contribuir para uma formação humanística e de cultura geral integrada à formação técnica, tecnológica e científica (BRASIL, 2011). Por isso, ao estudar uma língua estrangeira (Espanhol ou Inglês), muito mais que desenvolver habilidades linguísticas e competência comunicativa necessárias às situações do profissional de eventos (BRASIL, 2013b), essa disciplina proporciona uma experiência de comunicação humana, pelo uso de outra linguagem, que reflete costumes, maneiras de agir e 27 Por nação entende-se um conjunto de pessoas ou a organização de uma sociedade com traços culturais comuns, ou seja, que partilham os mesmos costumes, características e idiomas e já possuem uma determinada tradição histórica. 86 interagir. Com isso, contribui para um maior entendimento de um mundo plural e de seu próprio papel como cidadão deste mundo. Essa vivência, para a Geografia se relaciona diretamente ao entendimento do Lugar e da construção do Espaço Geográficoao propor a formação de um sujeito capaz de compreender e interpretar as mudanças da sociedade, provocadas e intensificadas pelos avanços técnicos e científicos. A globalização “permitirá caminhar da escala da reprodução do lugar – que se manifesta no plano do vivido – para aquela da produção de um espaço mundial” (CARLOS, 2007, p.11). Por isso, ao observar, tanto as disciplinas de Língua Estrangeira (Inglês ou Espanhol), quanto de Português e de Comunicação Oral, percebemos as funções sociocomunicativas de um texto ao desenvolver nos alunos as quatro experiências básicas na aprendizagem da língua (ouvir, falar, ler e escrever) com autonomia e competência (BRASIL, 2013b). Os docentes devem incorporar situações pedagógicas que articulem e signifiquem os seus objetos de estudo, relacionando e incluindo, na mediação didática, temas que sejam pertinentes à vida e ao cotidiano dos estudantes, comogênero, etnia, raça, migração e conflitos territoriais, que pontuam como referências nos debates e na mídia, pois, reconhecidamente, os alunos são sujeitos do mundo. Ao mesmo tempo em que compreendemos a linguagem, especificamente a palavra, como um agente de abstração e generalização que contribui para a compreensão e interpretação de conhecimentos e conceitos por parte dos sujeitos (VIGOTSKI, 2008), acreditamos que,com a incorporação de outras formas de linguagem e gêneros textuais, além dos didáticos, tais como jornais, charges, revistas, mídias e jogos, ao cotidiano da sala de aula, talvez seja possível fugir ao academicismo, ao formalismo e a abordagens excessivamente teóricas. E, talvez com isso se possibilite não somente que os alunos ouçam sobre o mundo, mas.Também, aprendam a ler sobre ele e reconheçam os interessem que permeiam essas leituras. Uma vez que, de acordo com o Catálogo Nacional de Cursos, o Eixo Tecnológico Turismo, Hospitalidade e Lazer, do qual faz parte o Curso de Técnico em Eventos, todas as atividades compreendidas nesse eixo (eventos, lazer, relações sociais, turismo e gastronomia) devem ser integradas ao contexto das relações humanas em diferentes espaços geográficos e dimensões socioculturais, econômicas e ambientais (BRASIL, 2009). Assim, as disciplinas dispostas na grade curricular, em especial as das Ciências 87 Humanas, comprometem-se em contribuir para a formação ética e intelectual como produção da condição humana nos diferentes espaços: naturais, sociais, culturais e políticos,de maneira que os sujeitos se tornem capazes de situar-se num mundo em constante mudança, além de oportunizar ações nos espaços de sua vivência de forma mais crítica às demandas de naturalização dos processos sociais. Segundo Sacristán (2000), as áreas do conhecimento se organizam de acordo com disciplinas afins, nas quais seja possível reconhecer estruturas epistemológicas parecidas, distribuídas em: Linguagem (Línguas, Informática, Educação Física e Artes), Humanas (História, Geografia, Sociologia e Filosofia), Ciências da Natureza (Ciências, Biologia, Física, Química) e Matemática. Desse modo, inegavelmente as Ciências Humanas apresentam possibilidades de integração curricular. A Filosofia oferece subsídios para que os educandos sejam capazes de ler, compreender e construir textos filosóficos de forma crítica, bem como obter uma noção geral das principais concepções filosóficas que compõem a humanidade. E a Geografia, por sua vez, propõe desconstruir a percepção de naturalidade da construção da sociedade ao representar elementos que reflitam as diferenças e desigualdades sociais e os sujeitos como autores do espaço (BRASIL, 2011 e 2013b). Logo, a Filosofia sustenta e baliza o objetivo da Geografia, principalmente ao discutir as principais concepções que compõem o pensamento da humanidade no estudo de pensadores pré-socráticos, socráticos,pós socráticos, da Modernidade e da Pós-Modernidade. Da mesma forma, contribui para uma formação humanística e de cultura geral, de sujeitos críticos e dinâmicos na busca de novos conhecimentos, que saibam interagir e aprimorar continuamente seus aprendizados (BRASIL, 2011 e 2013b). Ainda, com esse propósito de uma formação humanística, a Sociologia propõe o desenvolvimento de conhecimentos referentes à nossa sociedade e suas transformações, primando pela consciência crítica das formas de pensamento por meio dos estudos de raça, sociedade, classe social, cultura, desigualdades sociais, relação de trabalho, globalização e religião (BRASIL, 2011 e 2013b). Todos esses fenômenos, reconhecidamente, fazem parte do estudo da Geografia, por isso é possível afirmar que grande parte dos estudos do pensamento geográfico se sustenta em procedimentos da própria Sociologia. A Sociologia, ao mesmo tempo em que reivindica como objeto de estudo a sociedade, também investiga os processos que interligam o indivíduo a grupos e sua 88 organização social. Além disso, preocupa-se com eventos como o surgimento do Capitalismo, do Neoliberalismo, da Globalização ou do Estado Moderno. Reconhecidamente, estes acontecimentos são utilizados e contextualizados nos estudos geográficos, uma vez que a Geografia contribui para a formação social e política dos alunos através de uma visão integradora entre sociedade e natureza para a produção de saberes socialmente significativos, pois se desenvolvem num espaço construído e modificado pelas ações humanas. Por isso, tanto a Geografia, quanto a Sociologia, apresentam elementos para a compreensão das desigualdades sociais, diversidade e entendimento de que a sociedade e o ser humano se constituem nas condições de vida, perversas ou não, resultantes de um processo natural, assim como a disposição espacial e os fenômenos sócio-espaço-territoriais. O território é produzido espaço-temporalmente pelas relações de poder engendradas por um determinado grupo social. Dessa forma, pode ser temporário ou permanente e se efetiva em diferentes escalas, portanto, não apenas naquela convencionalmente conhecida como “território nacional” sob gestão do Estado-Nação (SAQUET, 2004. p.81). Da mesma forma, a História, que visa entender, explicar e questionar as organizações sociais, políticas, econômicas e culturais, articula-se com a Geografia como ciência que representa seu espaço de vivência, obtendo noções dos aspectos físicos, humanos e ecológicos, preparando-se para as grandes transformações que ocorrem no mundo atual (BRASIL, 2011 e 2013b). As Ciências Humanas compreendem que as mudanças ocorridas e a própria organização e apresentação do mundo resultam da ação humana, o que é reconhecido ao serem estudados;no primeiro ano, em História, a consolidação dos Estados Modernos, a Revolução Industrial, a Expansão Marítima, a colonização resultante na sociedade moderna, os espaços urbanos, a globalização e os impactos ambientais contidos na Geografia (BRASIL, 2011 e 2013b). Daí a questão: O que representam na realidade os reflexos das ações humanas na construção do espaço e da sociedade ao longo do tempo? Segundo Santos: O tempo só existe em relação a uma subjetividade concreta e, por isso, é o tempo da vida de cada um e da vida de todos e o espaço é aquilo que reúne a todos, em suas múltiplas possibilidades: diferentes de uso de espaço (território) relacionado com possibilidade de uso de tempo. É o viver comum, que se realiza no espaço. Esse espaço seria então o lócus onde são construídos os significados sociais, culturais, a partir dos processos de interlocução, de compartilhamento, de diálogo, de troca entre sujeitos relacionados, situados historicamente (1997, p.97). Portanto, somente compreendemos o tempo pelo constante processo de mudança que pode ser percebida na transformação da paisagem. Essas transformações, intensificadas pelas tecnologias, mostram as diferentes formas e possibilidades de se utilizar, construir e reconstruir o espaço, que, por sua vez, carregam elementos das disparidades percebidas nos 89 espaços de vivência da sociedade: “o espaço foi formado e moldado a partir de elementos históricos e naturais, mas esse foi um processo político.O espaço é político e ideológico.” (LEFEBVRE apud SOJA, 1993. p. 102). Assim, acreditamos que, por meio da integração curricular, seja possível estabelecer pontes que permitam uma compreensão geral e aprofundada dos fenômenos sociais. Para tanto, a prática pedagógica deve propiciar ao estudante reconhecer esse desenvolvimento, pois estará compreendendo as modificações ocorridas na sociedade para se tornar um sujeitocidadão capaz de situar-se num mundo em constante mudança, além de agir nos espaços de sua vivência de forma mais crítica. Tudo isso, para contribuir na formação ética e intelectual comprometida com a produção da condição humana nos diferentes espaços: naturais, sociais, culturais e políticos,ou, como diria Callai (2009), compreender o “eu” no mundo. Por tanto, a experiência com os monitores durante 2013, na promoção de debates e discussões em grupos, em torno de temáticas relacionadas ao homem e sua ações, subsidiou a aproximação do objeto de estudo da Geografia e das Ciências Humanas para integrar o sistema conceitual de distintas áreas do saber. Se pretendemos formar Técnicos de Nível Médio com competência técnica e tecnológica para atuarem como profissionais (BRASIL, 2011), é necessário reconhecer que toda atividade humana requer não apenas uma habilidade ou uma disposição para fazer, mas também recurso intelectual para pensar e refletir sobre. Somente assim estaremos capacitando profissionais para o desenvolvimento de uma atividade, que exige capacidade de tomar decisões, planejar, organizar e coordenar um serviço de eventos com uma formação cultural e humanística (BRASIL, 2009). A disciplina de Educação Física, por seu turno, compromete-se com o desenvolvimento corporal significativo e de forma lúdica, para que os alunos possam se tornar indivíduos capazes de enfrentar e resolver situações da vida presente (BRASIL, 2013b). Para alcançar esse objetivo, utilizam-se diversas atividades como oficinas de jogos (xadrez, futebol, handebol, basquetebol) e outras classificadas de acordo com sua abordagem esportiva, podendo ser de interação com o adversário ou sem interação com o adversário 28(BRASIL, 2013b). 28 Toda atividade de abordagem esportiva sem interação privilegia o desempenho individual, não havendo colaboração do colega ou nem ação direta de oponentes, como atletismo, arremesso e levantamento de peso 90 Considerando-se, independente da abordagem, as atividades relacionadas à capacidade motora de aproximar um alvo, alcançar um ponto, executar um movimento corporal e localizar objetos exigem diversas coordenações psicomotoras, como espaço temporal, lateralidade e óculos manuais,contribuem para o entendimento da relação do sujeito no espaço e do modelo de pontos cardeais. Assim, reconhecemos que a Educação Física desenvolve com eficiência a percepção espacial, possibilitando a integração curricular com a Geografia no aprofundamento de conhecimentos comonoções de orientação, localização e espacialização. Da mesma forma, ao desenvolver as oficinas de jogos comohandebol, basquetebol, futsal, tênis de mesa ou xadrez (BRASIL, 2013b), a Educação Física possibilita a integração curricular com a Geografia, pois utiliza a perspectiva espacial e a linguagem cartográfica no reconhecimento da área de atuação da atividade esportiva, independente se em quadra, campo ou tabuleiro. É possível, também, articular-se ao conhecimento das representações da superfície terrestre, que auxiliam na construção de mapas mentais, pois necessitam reconhecer o espaço de atuação de forma a não comprometer a realidade da atividade ao prever, antecipar ou executar uma jogada e isso acontece pela apropriação cognitiva desse espaço. As representações das imagens mentais não existem dissociadas do processo de leitura que se faz do mundo. E nesse aspecto mapas mentais são considerados uma representação do mundo real visto através do olhar particular de um ser humano passando pelo aporte cognitivo, pela visão de mundo e intencionalidade (KOZEL apud RITCHER, 2007, p.121). As atividades esportivas com interação, por exigirem defesa, exclusão e invasão de um determinado espaço (BRASIL, 2013b), podem configurar uma gestão, mesmo que simbólica, do território e, com isso, permitir, guardadas as suas proporções, contextualizar a noção de território, compreendido como espaço delimitado por e a partir de relações de poder (SOUZA, 1995). E, assim, de forma criativa é possível a integração curricular entre a Geografia e a Educação Física ao promover o reconhecimento do “aluno-sim” e o “ligamento” do sujeitoaluno para o ensino e aaprendizagem,contrapondo-seà ideia do “aluno-não” e ao “apagamento do sujeito-aluno”, expressão utilizada por Kaecher (2004) ao se referir a práticas pedagógicas pouco criativas e reprodutivas de conhecimentos em que o professor expressa abandono e desinteresse pelo processo. Segundo Freire (1996): corrida, ginástica e natação. Já as atividades de abordagem esportiva com interação são aquelas em que ocorre o enfrentamento direto com adversários, como lutas, tênis, tênis de mesa (BRASIL, 2013b). 91 O educador que, ensinando Geografia, ‘castra’ a curiosidade do educando em nome da eficácia da memorização mecânica do ensino dos conteúdos tolhe a liberdade do educando e sua capacidade de aventurar-se. Não forma o indivíduo, apenas o domestica. Tal qual quem assume a ideologia fatalista embutida no discurso neoliberal (1996, p. 56). Além disso, o Curso visa formar profissionais aptos a organizar e promover eventos e projetos socioculturais ou de lazer ligados às artes, ciências ou esportes, que compreendam um setor rentável para o desenvolvimento regional (BRASIL, 2011). Por isso, distintos conhecimentos e experiências das áreas que compõem a grade curricular do curso devem contribuir para mobilizar aspectos histórico-geográficos e culturais para a formação técnica e tecnológica de sua área de atuação, pois esses saberes se farão presentes na sua vida. Da mesma forma, os conhecimentos desenvolvidos na área técnica do curso podem colaborar para a significação e contextualização de saberes básicos e, por meio dessa articulação, alcançar a formação integral do aluno (BRASIL, 2011 e 2012), pois os conhecimentos gerais são a base para sustentar os específicos, assim como os específicos são, reconhecidamente, aplicações de saberes científicossobre determinadas técnicas. Nessa perspectiva, os alunos de cursos Técnicos de Nível Médio, em geral, e no curso Técnico em Eventos, em particular, sob a perspectiva do currículo integrado, devem vivenciar experiências acadêmicas não apenas profissionais, mas constitutivas do sujeito que, dependendo da proposta pedagógica, não sejamdesenvolvidas em outras situações de ensino. Por exemplo, a disciplina de Acessibilidade em Eventos, ao mesmo tempo em que visa capacitar os alunos para a organização de eventos acessíveis a todas as pessoas com necessidades especiais, estuda as diversas formas de acessibilidade,o que exige a compreensão dos tipos de necessidades especiais, motoras, visuais, auditivas ou de outra ordem (BRASIL, 2011 e 2013b). Essa experiência educativa associada à prática contribui, inegavelmente, para que o estudante de eventos não apenas se sensibilize, mas reconheça e respeite as diferenças. O reconhecimento das diferenças, independente da suas origens, é fundamental para a construção da cidadania, a justiça social e o mundo da vida. E, nesse ponto, possibilita a integração com a disciplina de Geografia, pois, “se o homem é formado pelas circunstâncias, será necessário formar as circunstâncias humanamente” (MARX e ENGELS, 1974. p. 196). Considerando que o egresso do curso Técnico em Nível Médio de Eventos deve possuir diversas capacidades técnicas para cumprir suas atividades, como, por exemplo: 92 • Auxiliar e atuar na prospecção, no planejamento, na organização, na coordenação e na execução dos serviços de apoio técnico e logístico de eventos e cerimoniais, utilizando o protocolo e etiqueta formal; • Realizar procedimentos administrativos e operacionais relativos a eventos; • Recepcionar e promover serviços de eventos; • Planejar e participar da confecção de ornamentos decorativos; • Coordenar o armazenamento e manuseio de gêneros alimentícios servidos em eventos; • Desenvolver atividades como organizadores de eventos, pautados em uma conduta ética e norteada pelos valores morais; • Organizar projetos de eventos atrelados à sustentabilidade; • Criar eventos que venham corroborar com o desenvolvimento da economia local(BRASIL, 2011. p. 9). Destacamos, no Quadro6 algumas disciplinas específicas da área técnica, com sua ementa e objetivo, para desenvolver as capacidades específicas do Professional de eventos e identificarmos algumas possibilidades e potencialidades de integração curricular com a Geografia dentro dessa formação. A disciplina de Cerimonial, Protocolo e Etiqueta,por exemplo, utiliza diversos conhecimentos geográficos para o seu desenvolvimento, possibilitando a integração curricular com a Geografia, pois, inegavelmente, para desenvolver a competência técnica proposta pela disciplina é necessário compreender que a sociedade é organizada em grupos sociais distintos e de diferentes culturas refletidas nos critérios, normas e condutas desenvolvidas pela própria sociedade, incluindo o estudo dos poderes representados pelo Executivo, Legislativo e Judiciário como os seus símbolos constitutivos do Estado-Nação. Além dos conhecimentos das representações cartográficas e no uso de mapas mentais, que possibilitam a transposição, para a linguagem cartográfica, das análises espaciais (RICHTER, 2011), exigidos na organização dos Planos de Mesa, que correspondem à disposição dos convidados dentro de um espaço específico (BRASIL, 2011 e 2013b). Na disciplina de Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada, é possível identificar diversas possibilidades de integração curricular com a Geografia, principalmente no estudo sobre as representações cartográficas, os setores da economia, a transformação do espaço, a dinâmica da paisagem, as estruturas do relevo, o clima, a temperatura e a orientação espacial (BRASIL, 2011 e 2013b). A representação cartográfica facilita a definição dos principais pontos de montagem de um evento (temática, escolha do local, tipo de som, iluminação), da mesma forma que o conhecimento da dinâmica da paisagem, do clima e da estrutura do relevo auxilia na disposição do palco, para que todos os presentes possam observá-lo de forma a não serem prejudicados pela iluminação natural quando se tratar de um 93 evento ao ar livre. Esses conhecimentos geográficos ampliam a discussão da logística de acesso e de suprimentos, que é fundamental para o planejamento do projeto. QUADRO 6 : Formação Técnica e Objetivo COMPONENTE CURRICULAR EMENTA Cerimonial, Protocolo e Etiqueta Fundamentação histórica do cerimonial e do protocolo; ritos e importância na formação cultural das civilizações. Ordem geral de precedência e as particularidades nos poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, níveis federal, estadual e municipal. Ética no cerimonial e no protocolo oficial. Símbolos Nacionais. Etiqueta social: definição e origem. Normas de conduta e comportamento social. Etiqueta profissional, à mesa e no tratamento a estrangeiros. Vestuário. Normas de cerimonial e protocolo: hino, bandeiras, precedência, pronunciamentos. Projeto para realização de eventos utilizando as técnicas estudadas. Conhecer as exigências inerentes ao cerimonial, protocolo e etiqueta social, e sua aplicação nos diferentes tipos de eventos sociais, facilitando a convivência entre os povos, entre as empresas e as pessoas Elaborar cerimoniais, utilizando o protocolo e etiqueta formal; Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada Etapas do planejamento de eventos. Fases específicas do planejamento de eventos. Pré-evento, transevento, pós-evento. Importância do planejamento na organização de eventos. Requisitos para a estruturação de um bom projeto de eventos. Conceito de logística. Componentes da logística de eventos. Suprimento de instalações. Logística no local do evento. Logística de Transportes. Técnicas de gerenciamento de logística. Controle de logística dos eventos. Avaliação da logística de eventos. Montagem de eventos. A disciplina tem como objetivo deixar o aluno apto a elaborar projetos de eventos, compreendendo as fases que envolvem o planejamento, a execução e o controle de um projeto para evento, visando o reconhecimento das melhores estratégias na organização dos mais diferentes tipos de eventos, levando em consideração os recursos físicos, humanos, materiais e financeiros. As abordagens gerenciais quanto aos papéis, habilidades e competências. O gerente como tomador de decisões. O gerente como agente de mudança. O gerente e a cultura organizacional. Alianças estratégicas entre equipes. Disponibilizar ao aluno os conhecimentos essenciais em administração bem como o conhecimento de eventos, como tomar decisões certas sem prejudicar a organização bem como os colaboradores. Empreendedorismo e espírito empreendedor. Habilidades, atitudes e características dos empreendedores. Início e ciclo de vida de uma empresa. Oportunidades de negócios; identificação, seleção e definição do negócio. Elementos essenciais para iniciar um novo negócio: o plano de negócio. Disponibilizar ao aluno os conhecimentos essenciais do empreendedorismo, características do empreendedor e tipos de empreendedor. Introdução ao Turismo. Aplicação do Turismo de eventos. Conceitos de Eventos. Tipologia de eventos. A disciplina de Introdução ao Turismo de Eventos vem, complementando o objetivo geral do curso, possibilitar ao aluno o conhecimento sobre os conceitos de Turismo, Eventos e Turismo de Eventos, estimulando, por conseguinte, reflexões sobre a realidade do turismo de eventos nas dimensões locais, regionais e globais. Introdução propaganda Estratégias Marketing exposições. serviços e Disponibilizar ao aluno os conhecimentos essenciais do marketing, bem como o conhecimento de introdução ao marketing de eventos. Estratégias de Organização de Eventos Empreendedorismo e Plano de Negócios Introdução ao Turismo de Eventos Marketing para Eventos ao marketing de eventos. Promoção, e relações públicas de eventos. de marketing de eventos eletrônicos. de reuniões, conferências, eventos e Marketing de reuniões, produtos, eventos corporativos. Marketing de OBJETIVO 94 festivais, feiras e eventos especiais. Tendências em marketing de eventos. Fonte: PPC e PE (BRASIL, 2011 e 2013b). Para que o curso Técnico em Eventos proporcione o desenvolvimento econômicoprodutivo da região, através da união da teoria e prática nos diferentes ambientes e para a formação de sujeitos autônomos, é ofertada, dentro da grade curricular, a disciplina de Empreendedorismo e Plano de Negócios visando a preparar o aluno para o mundo do trabalho e da vida (BRASIL, 2011, 2012 e 2013b). Considerando que os conhecimentos necessários para o empreendedor estão em todas as áreas, a capacidade de articular esses saberes e aplicá-los num projeto específico de plano de negócio mostra a possibilidade de integração curricular, uma vez que: A Geografia é feita no dia a dia, seja através das construções de uma casa, da plantação de uma lavoura ou através das decisões governamentais ou dos grandes grupos econômicos (empresas transnacionais). Ou, ainda, em nossas andanças/ações individuais pela cidade (pegar um ônibus, fazer compras, etc) (KAERCHER, 1999. p. 58). Por isso, acreditamos que, com o desenvolvimento do “Olhar Espacial”, a Geografia articula e proporciona uma significação ao objetivo proposto pela disciplina de Empreendedorismo, pois expressa o modo como as pessoas dominam e entendem o espaço, pois: O olhar espacial supõe desencadear o estudo de determinada realidade social verificando as marcas inscritas nesse espaço. O modo como se distribuem os fenômenos e a disposição espacial que assumem representam muitas questões, que por não serem visíveis têm que ser descortinadas, analisadas através daquilo que a organização espacial está mostrando (CALLAI, 2009, p. 94). A necessidade desse “Olhar Espacial” também está presente na disciplina de Estratégias de Organização de Eventos, criando um novo diálogo de integração curricular da Geografia com essa disciplina. Tanto a capacidade técnica quanto a percepção geográfica são fundamentais para desenvolver sujeitos capazes de se inserir no mundo da vida e do trabalho, onde estão nossos sonhos, utopias, desejos e limites, pois: A educação não tem como objetivo real armar o cidadão para uma guerra, a da competição com os demais. Sua finalidade, cada vez menos buscada e menos atingida, é a de formar gente capaz de se situar corretamente no mundo e de influir para que se aperfeiçoe a sociedade humana como um todo. A educação feita mercadoria reproduz e amplia as desigualdades sociais, sem extirpar as mazelas da ignorância. Educação apenas para a produção setorial, educação apenas consumista, cria, afinal, gente deseducada para a vida (SANTOS, 1998, p. 126). A educação que concebemos deve ser capaz de situar os sujeitos no mundo para que estes possam melhorar a sociedade, contribuindo para extirpar mazelas sociais e não só qualificar para a competição e a concorrência de mercado. 95 A Geografia apresenta potencial educativo para superar esse ensino modelado aos interesses socioeconômicos, ao mesmo tempo que contribui para o desenvolvimento do profissional de eventos, visto que se compromete com: [...] um ensino que busque incutir nos alunos uma postura crítica diante da realidade, comprometida com o homem e a sociedade; não com o homem abstrato, mas com o homem concreto, com a sociedade tal qual ela se apresenta, dividida em classes com conflitos e contradições. E contribua para a sua transformação (OLIVEIRA 2003, p. 143). O curso de Técnico em Eventos é regulamentado pelo Eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer, em que a disciplina de Introdução ao Turismo de Eventos contribui fortemente para o desenvolvimento econômico-produtivo regional.Ela apresenta alternativas para o planejamento e fomento da atividade turística no município e região, através dos estudos sobre turismo e eventos nas dimensões local, regional e global (BRASIL, 2009 e 2013b). Os conhecimentos desenvolvidos pela disciplina em questão apresentam possibilidades de integração curricular com a Geografia, ao propor o estudo do turismo, atividade que provoca mudanças no espaço, além de contextualizar o conceito de Região e Lugar, juntamente com a compreensão das escalas de local, regional e global. Da mesma forma, o turismo influencia e é influenciado, no ambiente, por diversos fatores, como economia, política e cultura, pois faz parte das relações da sociedade humana. Por isso, inegavelmente, qualquer pessoa que desenvolva um trabalho com turismo precisa de diversos conhecimentos da Geografia, tanto naturais quanto sociais. Isso inclui conhecimentos das características geográficas, como localização, distribuição regional, clima, relevo, hidrografia, bem como aspectos demográficos e populacionais, que auxiliam na aplicação do conceito de capacidade de carga 29: [...] devemos entender o turismo como um sistema de relações amplo que apresenta interações com os ambientes econômico, jurídico, social, político, ecológico, tecnológico, entre outros, de modo que aqueles que se dedicam ao seu estudo devem assumir uma perspectiva generalista na sua abordagem, utilizando diversos campos do conhecimento, e procurando obter conclusões que demonstrem as implicações decorrentes dessa interação multidisciplinar (DIAS, 2005, p. 25). Segundo Santos (1997), o termo multidisciplinar supõe que, para se estudar um fenômeno, haja colaboração entre as disciplinas, por isso, para haver a integração curricular, deve-se estabelecer um objetivo em comum. Neste caso, os objetivos gerais e específicos do curso devem perpassar cada disciplina. Assim, encontramos nos conceitos uma excelente 29 Refere-se ao limite tolerado, pode ser físico, psicológico, social ou econômico, por um destino turístico, sem que haja danos ao ambiente e à qualidade da experiência do visitante. Ou seja, o conceito de capacidade de carga não se aplica somente em ambientes naturais, mas também em atrativos urbanos (DIAS, 2005). 96 forma de explicar as propriedades essenciais do conhecimento dispostos nas disciplinas. Da mesma forma, pressupomos que a Geografia, como componente curricular, possui um importante papel na articulação com as demais disciplinas das diferentes áreas. Ao estudar estratégias de Marketing, os alunos se utilizam de conhecimentos geográficos relacionados tanto as questões ambientais, espaço a ser abrangido, processos de globalização, reestruturação produtiva e territorial, entendimento de lugar, escalas geográficas: locais e global, quanto relacionados a aspectos de localização, distribuição regional, clima, relevo, hidrografia, demográficos, populacionais e culturais. Marketing e Introdução ao Turismo, por sua vez, ao abordarem aspectos culturais e vivenciais, apesar da influência provocada pelo processo de globalização, de massificação e padronização dos hábitos e da cultura, que visam mercantilizar e converter a cultura num produto, visam desenvolver ou até mesmo construir elementos e identidades que configurem uma proposta ou projeto característico de uma região a ser explorada turisticamente (BRASIL, 2013b). Esse objetivo refere-se diretamente ao conceito de Lugar, que permite a compreensão da apropriação simbólica do território como marca da produção e reprodução das relações sociais, que desenvolvem a identidade territorial ou territorialização ao criar em um significado ao lugar e produzirem uma imagem,capaz de conferir um caráter especifico e único diferenciado de outros lugares (CARLOS, 2007 e CALLAI, 2009).Tudo isso possibilita e potencializa a integração curricular entre os saberes da Geografia com as disciplinas de Introdução ao Turismo de Eventos e Marketing para Eventos, através da contextualização dos conhecimentos tanto da área especifica quanto da básica. A promoção dessa integração exige um professor que, além do domínio dos seus conteúdos de ensino, saiba articular seus conhecimentos com os demais saberes, tornando-os acessíveis para a compreensão do aluno sendo capaz de alcançar uma “formação humanística e cultura geral integrada à formação técnica, tecnológica e científica” (BRASIL, 2011, p. 8).As possibilidades apresentadas visam reconhecer, através de contextualizações, significações ou simbolismos, algumasformas de integração curricular da Geografia com os demais componentes curriculares do curso Técnico em Eventos, pois isoladamente não é possível alcançar mudanças estruturais na sociedade,tampouco formar um profissional na área técnica. 97 Ademais, se “hoje, mais do que nunca, o saber é uma forma de poder, e tudo o que diz respeito à análise espacial deve ser considerado perigoso, pois a Geografia serve,primeiro, para fazer a guerra” (LACOSTE, 1988, p.169),inegavelmente ela contribui para “capacitar profissionais para o desenvolvimento das atividades ligadas à prática de organização e promoção de eventos” (BRASIL, 2011. p. 7). E ainda, para o rompimento da dualidade estrutural da EPT e principalmente para a transformação dos sujeitos e da sociedade, pois não desprezamos o conhecimento produzido pela técnica transformaçãodesse conhecimento em sabedoria para a vida. e, sim, acreditamos na CONSIDERAÇÕES FINAIS Esta pesquisa resultou das inquietações provocadas pelo entendimento, construção e desenvolvimento de um currículo integrado desde o ingresso como docente no Instituto Federal Farroupilha, no ano de 2010. Assim, reflete as aspirações, desejos, aflições e angústias provenientes das experiências realizadas ao longo dos três anos de duração do curso Técnico de Nível Médio em Eventos, que contribuíram para o desenvolvimento pessoal e profissional. Devido à dimensão teórica e metodológica do fenômeno educacional na construção do currículo integrado na EPT, é importante afirmar que as considerações tecidas não têm a pretensão de esgotar a discussão, pois se trata de uma narrativa e análise de possibilidades, em que as afirmações destacadas se referem à especificidade do contexto e do curso. Os resultados discutidos são reflexões que podem apontar para caminhos a serem trilhados e recontextualizados. À medida que se efetivavam as ações pedagógicas, percebia-se a exigência de novas interlocuções, que sustentassem as propostas e, principalmente,possibilitassem um reconhecimento mais profundo do curso e dos conhecimentos abordados. Por isso, entendemos que os procedimentos utilizados colaboraram para alcançar os objetivos desta pesquisa e permitiram discutir alguns limites e possibilidades de integração curricular. Esses limites e possibilidades foram identificados através das reflexões resultantes da análise e da narrativa das atividades executadas, bem como do PPC e dos PE das diferentes disciplinas na busca dos conceitos passíveis de integração. Algumas considerações podem aqui ser delineadas como, por exemplo, o fato de não constituir interesse desta dissertação uma aposta em práticas pedagógicas que reflitam interesses hegemônicos ou promovam a continuidade de uma proposta educacional na qual persista a dualidade da separação entre formação básica e técnica. Com esse pressuposto, constatamos que diversos elementos contribuem para alcançar uma integração curricular, entre os quais a estrutura física para o desenvolvimento do 99 processo de ensino. Neste quesito, o campus possui uma estrutura nova com cinco anos de uso e amplas possibilidades de ocupação do espaço pelos estudantes, professores e comunidade. Além dessa estrutura material, a equipe de professores, alunos, direção e comunidade escolar, envolvida no processo de ensino e aprendizagem, permite outros diálogos e estratégias diversificadas para a integração, devido à convivência entre professores com diferentes tempos de serviço (0 a 20 anos) e formação, desde recém-graduados, especialistas e mestres, até doutores. Em relação a isso, no IF Farroupilha, os docentes possuem formação especifica na sua área de atuação, porém alguns não têm experiência com alunos de ensino médio, nem formação pedagógica, o que acaba provocando situações que comprometem o ensino e aprendizagem num currículo integrado. Isso ficou evidenciado pela dificuldade ou falta de envolvimento de alguns professores para construir uma proposta de articulação curricular, ou, mesmo, defender a necessidade de formação técnica específica em detrimento da formação geral e, principalmente, na dificuldade em compreender a elaboração de propostas pedagógicas e didáticas. Da mesma forma, entendemos que os servidores em geral e os docentes em particular devem reconhecer que os Institutos Federais atuam de modo verticalizado, ou seja, desde a educação técnica, científica e tecnológica, de jovens e adultos, ensino médio, técnicos subsequentes, superior e pós-graduação, além da pesquisa e extensão. Para garantir essa verticalidade, é essencial a flexibilidade e o envolvimento de todo o grupo no processo de ensinar e aprender. E, por se tratar de ensino com formação de nível médio, no que se refere ao curso de Eventos, identificar os limites e as possibilidades dessa integração curricular tornou-se mais complexo. Isso porque é relevante uma formação pedagógica não apenas para conhecer a história da educação profissional, mas também para refletir sobre a estrutura curricular e os saberes docentes fundamentais ao reconhecimento, à compreensão e ao desenvolvimento do currículo integrado. Além disso, para alcançar a integração curricular, o corpo discente também precisa compreender e participar na elaboração e efetivação de uma proposta coerente e factível no local e na região em que se encontra. Porém, é necessário reconhecer que os alunos ingressam numa estrutura diferente com um número de disciplinas além daquelas a que estão habituados, em turno integral, o que para muitos implica uma novidade e desafios. Esse novo ambiente para ingressantes em idade escolar entre catorze e quinze anos acaba desestruturando a imagem que tinham, até então, de escola e de ensino. Por isso, as 100 propostas de integração, que apresentaram melhor êxito ocorreram principalmente no segundo e terceiro anos do curso. Constatamos que o currículo integrado tem como objetivo melhorar a qualidade do ensino e, consequentemente, de aprendizagem dos cursos da EPT, tanto na área especifica quanto na formação humana, e com mudanças nas práticas pedagógicas das disciplinas. Os conhecimentos, de modo articulado e inter-relacional, visam desconsiderar o modelo de ensino com disciplinas da área profissional sob orientação da pedagogia das competências e do saber-fazerisoladas das áreas básicas fundamentadas na fragmentação do conhecimento, com objetivos orientados pelos exames de controle externo. Diante da análise dos documentos oficiais e produções acadêmicas percebemos o dilema da EPT, no Brasil, relacionadaà separação entre a educação para o trabalho e a propedêutica instituída na base das relações sociais. Estas, por sua vez, são mantidas e reforçadas pelas estruturas de poder, que se mantêm quase que intacta ainda hoje. E, não obstante todos os estudos e proposições legais, o curso de Técnico em Eventos obviamente carrega esse legado histórico, assim como outros cursos de formação técnica e profissional. Assim, constatamos que a integração curricular do curso Técnico de Nível Médio em Eventos requer um currículo que supere as práticas pedagógicas tradicionais, ainda associadas estritamente ao processo econômico, voltadas ao lucro e a resultados imediatos. Com isso, a construção e o desenvolvimento de práticas, a partir da pedagogia crítica, despontam como uma possibilidade de integração curricular que não se resume à proposta do Decreto 5.154/2004, responsável em autorizar a articulação do ensino médio com a educação profissional. Por isso, no que se refere ao curso de Técnico em Eventos, muito mais que uma formação para desenvolver qualquer tipo de evento, concluímos que o aluno egresso desse curso precisa de diversos conhecimentos disciplinares, que devem estar integrados, pois a sua atuação individual, social ou profissional exigirá a mobilização desses conhecimentos, que só poderá ser atendida se o estudante estiver preparado para tal. Assim, reconhecemos a urgência em superar a fragmentação do conhecimento, das fronteiras invisíveis das disciplinas e da dualidade entre conhecimentos propedêuticos e técnicos, bem como a utilização de propostas que priorizem o trabalho como princípio constitutivo do humano, que serve como princípio educativo. 101 Porém, é fundamental ultrapassar o individualismo e a fragmentação de conteúdos; refletir e socializar experiências, bem como manter uma relação dialética entre os professores e os estudantes, para conhecer suas dificuldades e anseios. Dessa maneira, o que se espera deste trabalho é contribuir para uma reflexão sobre o currículo integradona instituição pesquisada e, em especial, na EPT com o propósito de superar a dualidade estrutural existente e as marcas do fracionamento do conhecimento, com vistas à construção de uma prática curricular integrada, dialética e capaz de desenvolver o processo educativo como um todo. Da mesma forma, considera possível pensar e construir um currículo no qual o aluno reconheça a importância dos conhecimentos dispostos nas disciplinas para a sua formação não somente técnica, mas também humana. Por isso, nesta dissertação buscamos encontrar possibilidades de integração curricular, que demonstrassem a viabilidade dessa proposta, a partir das vivências narradas e construídas nos três anos de curso, desde a análise do PPC e dos objetivos pretendidos pelo curso. Assim, reconhecemos a elaboração desta dissertação como um processo de amadurecimento do entendimento da proposta do currículo integrado, não obstante o estudo da educação profissional e da dualidade educacional, que permitiram compreender a edição do Decreto 5154/2004 como resultado de um movimento educacional, que vislumbrava muito mais da formação profissional do que um mero fazer-fazer. Apesar de alguns êxitos e frustrações, no primeiro ano do cursoas experiências constituíram tentativas de integração curricular através de práticas interdisciplinares que, por sua vez, proporcionaram o vetor para o desenvolvimento do projeto que originou esta dissertação. Além disso, através das narrativas e das análises percebemos a necessidade do diálogo com outros componentes curriculares, pois cada uma representa um ponto de vista sobre determinado fenômeno ou fato e, com a integração dos conhecimentos dispostos, em cada disciplina, é possível o entendimento destes na sua totalidade. Nossas experiências mostraram, também, que os conhecimentos, tanto das áreas específicas quantodas básicas, sustentam a formação de um sujeito, contudo, ressalvamos que a prática pedagógica adotada pode refletir um currículo tradicional e desarticulado. Por isso, consideramos necessário identificar possibilidades de integração no reconhecimento do limite de cada disciplina, que são flexíveis à medida que definimos o propósito de cada componente curricular. 102 Para melhor compreender esse pensamento, é essencial vincular as ações pedagógicas à perspectiva do currículo integrado, pois, de acordo com nossa experiência, somente poderemos efetivar a integração curricular com mudança da prática pedagógica e este movimento exige sair do isolamento pedagógico de uma disciplina não apenas no planejamento, mas também na ação curricular. É, portanto, instituir um diálogo significativo entre os diferentes atores e autores do processo político-pedagógico do curso expresso na escolha dos componentes e distribuição dos mesmos nos três anos, bem como na organização da grade curricular por ano. Das nossas narrativas e análises, constatamos que, para desenvolver a integração curricular, o docente deveria compreender não apenas a sua área de atuação, mas também, outros saberes das áreas básicas ou técnicas, que permitissem a elaboração inter-relacional, intercomplementar e integrada dos conhecimentos. Isso exige um estudo sobre a estrutura do curso, já que compreender as áreas era essencial para reconhecer as possibilidades de integração. Para tanto, foi observado, quando aplicamos a atividade da Festa Junina, no primeiro ano do curso, que, com o auxílio do conhecimento abordado na disciplina de Turismo de Eventos, se permitiu aos alunos justificarem toda a logística do evento (Festa Junina), de acordo com a origem do mesmo, a finalidade de determinados estandes e o público-alvo. Nesse momento, os alunos articularam e contextualizaram os conhecimentos dos diversos componentes curriculares, ao mesmo tempo em que alcançavam o objetivo do curso, no que se refere à capacidade de organizar um evento e tudo isto contextualizando as representações cartográficas apre(en)didas na Geografia. Da mesma forma, quando propusemos uma articulação dos conhecimentos das disciplinas de Química e Geografia na identificação dos diferentes olhares sobre o mesmo fenômeno, ao propor aos alunos o reconhecimento dos elementos microscópicos dos minerais encontrados em diversos ambientes com substâncias ou materiais constituintes das rochas, no cotidiano, que contribuiu para a significação dos conteúdos trabalhados nas diferentes disciplinas. Nesta mesma perspectiva, estabelecemos a contextualização de conceitos estudados na Geografia, como a utilização do filme Wall Street 2: O Dinheiro Nunca Dorme, pois muito mais que decorar a definição de conceitos, como de globalização, capitalismo e marketing os alunos identificaram estes com passagens do filme, o que representa uma apropriação de fato deste conhecimento por parte dos mesmos. 103 Outro instrumento que possibilitou a integração curricular para a formação geral dos estudantesvincula-seà intenção de constituíram a capacidade de pesquisa e articulação das suas análises sobre temas de relevância social através de debate, pois reconhecidamente a informação encontra-se disponível nos diversos meios de comunicação, contudo, a capacidade de discernir sobre a mesma de forma a compreender os interesses sobre os diversos pontos de vista exige capacidade de articulação e mobilização de saberes. Assim, reconhecemos a necessidade de entendimento de um currículo crítico para o desenvolvimento de técnicas e metodologias apropriadas para a integração, uma vez que o Currículo Integrado, muito mais que uma proposta política de educação, é uma possibilidade de ensino, ou seja, um instrumento pedagógico. A utilização eficiente e eficaz desse instrumento, porém, necessita de aprendizagem, experiência e, principalmente,da definição de uma educação que se proponha a contribuir para a (trans)formação de uma sociedade brutalmente desigual para uma mais justa e com possibilidades para todos, para que desta forma prevaleça o interesse e comprometimento coletivo. Além disso, de acordo com o Catálogo Nacional de Curso é muito importante, para o qualquer profissional do Eixo Turismo, Hospitalidade e Lazer, a aprendizagem dos conhecimentos geográficos. Por isso, a Geografia instituiu-se como um componente essencial à formação do profissional da área, principalmente quanto às capacidades cognitivas para a leitura geográfica e sistêmica. Por isso, inegavelmente, qualquer pessoa que desenvolva um trabalho com turismo precisa de diversos conhecimentos da Geografia como dimensão social, o que coimplica o natural e o social. Isso inclui conhecimentos das características geográficas, como localização, distribuição regional, clima, relevo, hidrografia, aspecto demográficos e populacionais. Com esse sentido, os objetivos gerais e específicos do curso devem perpassar cada disciplina. Assim, encontramos nos conceitos uma excelente forma de explicar as propriedades essenciais do conhecimento dispostos nas disciplinas. Da mesma forma, pressupomos que a Geografia, como componente curricular, desempenha um importante papel na articulação com as demais disciplinas das diferentes áreas, como, por exemplo, ao estudar estratégias de Marketing, quando os alunos se utilizam de conhecimentos geográficos relacionados tanto às questões ambientais, espaço a ser abrangido, processos de globalização, reestruturação produtiva e territorial, entendimento de lugar, escalas geográficas locais e global, quanto de localização, distribuição regional, clima, relevo, hidrografia, aspecto demográficos, populacionais e culturais. 104 Assim, reconhecemos que os conhecimentos geográficos contribuem para a formação técnica dentro do eixo ao contextualizar conhecimentos de distintos saberes, como, por exemplo, as disciplinas das Ciências da Natureza, que se integram aos conhecimentos geográficos, principalmente, no estudo dos (des)equilíbrios e impactos ambientais que resultam da transformação provocada pela ação humana na construção da sociedade, ou por interesses econômicos no estudo do Espaço Geográfico. E tudo isso, por sua vez, contribui para contextualizar o estudo das Normas Regulamentadoras e Programas de Prevenção de Riscos Ambientais visando à preservação da saúde e integridade dos trabalhadores e à prevenção de riscos ambientais nas disciplinas de Saúde e Segurança no Trabalho e, também, de Gestão de Pessoas. Dessa forma, concluímos que, para a promoção de integração curricular, são necessários outros conhecimentos para o desenvolvimento dessa capacidade de compreensão, pois os estudos de fenômenos da natureza e de elementos físicos ampliam as articulações e a constituição da cognição. Além disso, a Geografia, ao utilizar ferramentas de representações, através de mapas, para a formação de sujeitos capazes de desenvolver uma leitura espacial da realidade, exige o domínio de Noções Cartográficas, que, por sua vez, representam excelente possibilidade de integração curricular, pois carregam importantes elementos interpretativos com distintos significados. Como as representações gráficas e cartográficas são objetos culturais, ou seja, modos de explicar e refletir acerca da realidade, para interpretá-la e compreendê-la é necessário um processo de alfabetização cartográfica, ou seja, a aprendizagem de uma nova forma de linguagem que mobiliza distintos saberes de Matemática, da Arte e da própria Geografia. Esses conhecimentos são úteis,tanto pelas disciplinas de Organização de Buffets e Banquetes ao visar a análise e interpretação de plantas arquitetônicas e de medidas espaciais, assim como a de Decoração de Ambiente e Interiores para Eventos, ao propor o desenvolvimento de layouts representativos de um cerimonial; de Cerimonial, Protocolo e Etiqueta no uso de mapas mentais que possibilitam a transposição, para a linguagem cartográfica, das análises espaciais, exigidos na organização dos Planos de Mesa, que correspondem à disposição dos convidados dentro de um espaço específico; na disciplina de Elaboração de Projetos de Eventos e Logística Aplicada, pois a representação cartográfica contribui para a definição dos principais pontos de montagem de um evento (temática, escolha do local, tipo de som, iluminação), da mesma forma que o conhecimento da dinâmica da paisagem, do clima e da estrutura do relevo auxilia na disposição do palco, para que todos os 105 presentes possam observá-lo de forma a não serem prejudicados pela iluminação natural, por exemplo, quando se tratar de um evento ao ar livre. E todos esses conhecimentos geográficos contribuem para o desenvolvimento da logística de acesso e de suprimentos, que são fundamentais para o planejamento de um projeto. Assim, como as disciplinas dispostas na grade curricular, em especial as das Ciências Humanas, comprometem-se em contribuir para a formação ética e intelectual como produção da condição humana nos diferentes espaços: naturais, sociais, culturais e políticos, de maneira que os sujeitos se tornem capazes de situar-se num mundo em constante mudança, além de oportunizar ações nos espaços de sua vivência de forma mais crítica as demandas de naturalização dos processos sociais, é necessário reconhecer que toda atividade humana requer não apenas uma habilidade ou uma disposição para fazer, mas também dispositivos intelectuais para pensar e refletir sobre esse processo. Assim, estaremos capacitando profissionais para o desenvolvimento de uma atividade que exige sujeitos capazes de tomar decisões, planejar, organizar e coordenar um serviço de eventos com uma formação cultural e humanística. Da mesma forma, constatamos que os conhecimentos desenvolvidos na área técnica do curso podem contribuir para a significação e contextualização de saberes dos conhecimentos básicos e, por meio dessa articulação, promover a formação integral do aluno, pois os alunos de cursos Técnicos de Nível Médio, em geral, e Técnico em Eventos, em particular, sob a perspectiva do currículo integrado, vivenciam experiências acadêmicas não apenas profissionais, mas constitutivas do sujeito. Assim, tanto a capacidade técnica quanto a percepção geográfica são fundamentais para desenvolver sujeitos capazes de se inserir no mundo da vida e do trabalho onde estão nossos sonhos, utopias, desejos e limites. Desta forma, concluímos que a educação que concebemos deve ser capaz de situar os sujeitos no mundo para que estes possam melhorar a sociedade, contribuindo para extirpar mazelas sociais, pois acreditamos numa educação cujo objetivo esteja além de apenas qualificar para a competição e a concorrência de mercado. Afinal, a Geografia apresenta esse potencial educativo de superar o ensino modelado aos interesses socioeconômicos, ao mesmo tempo em que promove o desenvolvimento do profissional de eventos, com competência para pensar e transformar as estruturas de injustiças sociais. REFERÊNCIAS AIGNER, Carlos Henrique.Educação Popular em Porto Alegre: Geografia e Cidadania. In: PIRES, Claudia et.al.(org). Um pouco do mundo cabe nas mãos: geografizando o global e o local. Porto Alegre: UFRGS, 2003. ALARCÃO, Isabel. Formação continuada como instrumento de profissionalização docente. In: VEIGA, Ilma Passo Alencastro (org). Caminhos da profissionalização do Magistério. Campinas: Papirus, 2001. 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