o CONVENTO
DAS TRINAS
INSTITUTO
HIDROORA.FICO
LISBOA
MARINHA
~8~
o CONVENTO
DAS TRINAS
o conteudo
desta Separata, da autoria
de Maria Francisca Assis Teixeira,
licenciada em Historia, foi extraido dos Anais
do Instituto Hidrografico de 1988
LISBOA -
PORTUGAL
1990
o CONVENTO
DAS TRINAS
Maria Francisca Assis Teixeira
Licenciada
em Histaria
RESUMO - Relata-se neste artigo a hist6ria do Convento das Trinas do
Mocarnbo.
do ediffcio,
Depois de urn enquadrarnento
espacial, faz-se urna descric;ao
da sua fundac;ao, das religiosas
que
0
habitararn e do seu
quotidiano.
ABSTRACT - The history of the Convent of Trinas of Mocarnbo is
presented. The origin of the Convent and the building are described as well
as the life of the nuns that lived there.
Longe de urn estudo hist6rico aprofundado e sistematico,
este artigo pretende antes de mais, dar a conhecer aqueles
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A freguesia de Santos-o-Velho conheceu nos ultimos
seculos uma profunda evolw;:ao. De zona essencialmente
rural no seculo XVI, passou no seculo XIX a ser urn dos
bairros mais frequentados da cidade. I
No seculo XVI desenvolveu-se nesta freguesia urn bairro,
cuja popula<;:ao,predominantemente negra, era proveniente
das entao descobertas terras de Africa. 0 local pas sou a ser
conhecido por Bairro do Mocambo, talvez por influencia
dos seus habitantes.2
No seculo XVII, a esta popula<;:aonegra foi-se juntando
gente ligada ao mar. 3 A proximidade do rio foi tomando
habitual 0 espectaculo pr6prio das fainas pesqueiras: as
varinas encheram as estreitas ruas com as suas vozes e os
seus preg6es, e aos poucos, a popula<;:aonegra foi cedendo
espa<;:oa esta gente do mar que, lentamente tambem, foi
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que hoje habitam estas seculares paredes, como come<;:ou,
quem 0 ocupou e para que serviu este imponente ediffcio.
Muitas fontes ficaram par descobrir, muitos arquivos par
remexer, muitas coisas por dizer. Talvez urn dia, com mais
tempo, valha a pena deitar maos a esta obra, diffcil mas tao
aliciante.
substituindo 0 nome de Mocambo pelo de Madragoa.
Muita polemica tern levantado a origem do nome Madragoa. Varias hip6teses tern sido aventadas para explicar
aquela origem, mas a que parece ter obtido maior consenso, foi a que defendia que 0 vocabulo derivara da existencia de uma casa religiosa para senhoras da India, conhecida
por Casa das Madres de Goa. A rua onde se situava essa
casa ou convento passou a ser conhecida por Madragoa,
(hoje Rua Vicente Borga), e mais tarde 0 termo alastrou-se
a toda a zona"
Alias, urn olhar de relance a toponfmia da zona, rapidamente nos conduz aos nomes dos antigos conventos ou ao
das Ordens suas ocupantes. Citando somente os exemplos
mais evidentes, temos a Rua das Trinas devido a existencl.~
do Convento das Trinas; Rua das Francesinhas com 0 Convento de Cristo das Francesas; Travessa das Inglesinhas por
influencia das Freiras do Convento das Brfgidas Inglesas;
Rua da Esperan9a pel a proximidade com 0 Convento da
Esperan9a, etc.
o Mocambo era uma zona de grande beleza, e por isso
ja em 1655 era apontado «(... ) como urn dos melhores suburbios lisbonenses, se bem que longe do cora9ao da
cidade».'
Foi este lugar, privilegiado pela natureza, que viu nascer
o majestoso Convento das Trinas Recoletas do Mocambo,
tendo sido Cornelio Vandali e Martha de Boz os responsaveis
pel a sua funda9ao.
Pouco se conhece deste casal. Sabe-se que eram nobres
de origem flamenga, que viveram no seculo XVII, e que
nao tinham filhos legftimos a quem pudessem deixar os seus
bens.
Pertenceu-lhes uma propriedade com varias casas e uma
Ermida dedicada a Nossa Senhora da Soledade, situada no
bairro do Mocambo, que foi utilizada pelo casal como retiro
de descanso e fuga ao «labyrintho da Corte». 6
Tambem por essa altura e por interven9ao de Frei
Antonio da Concei9ao, tinham tornado 0 habito da Ordem
da Santfssima Trindade nove raparigas, que se encontravam
sem casa onde se recolher. Como agravante, Frei Antonio
da Concei9ao morre, deixando.estas suas «filhas espirituais»
sem saber onde e a quem recorrer. A notfcia da difkil
situa9ao em que se encontravam chegou aos ouvidos dos
nobres flamengos, que se predispuseram a ceder a sua
propriedade, as respectivas constru90es e terreno circundante
para a futura instala9ao das religiosas.
No entanto, somente em 1657 com a morte de Cornelio
Vandali e com a leitura do seu testamento, tiveram as irmas
a notfcia de que iam finalmente ter 0 seu convento. Para
alem dos ediffcios, Cornelio Vandali deixava-lhes ainda parte
dos seus bens para as necessarias obras de adapta9ao e para
o seu sustento.
Entretanto cumpriam-se as formalidades necessarias a
funda9ao do Convento: foram pedidas licen9as ao Papa
Alexandre VII e a Regente do Reino, a Rainha D. Maria
Lufsa de Gusmao, viuva do rei D. Joao IV. Ao primeiro
nao so foi proposto que 0 regime do convento fosse 0 de
clausura, como a possibilidade de ir buscar as fundadoras
ao Convento do Calvario.7 A segunda foi pedida licen9a
para a funda9ao de mais urn convento de religiosas. A Bula
Papal, datada de 29 de Outubro de 1660, veio deferir os
dois pedidos atras mencionados e 0 alvara de 24 de Mar90
de 1660 autorizou a funda9ao mas limitou 0 numero de
religiosas a 13.8
As obras come9aram logo em 1657, tendo ficado determinado que a 21 de Agosto de 1661 0 edifkio seria entregue as irmas para que 0 pudessem habitar. Posto isto, vieram
do Convento do Calvario como fundadoras, a Madre Soror
Catharina de Santo Antoni09, sobrinha de Martha de Boz,
Padroeira do Convento das Trinas, e Soror Ana de
S. Francisco.
Logo apos a instala9ao, a Madre fundadora tratoude
arranjar uma licen9a papal de modo a poder receber
educandas nas suas instala90es.
Esta licen9a foi concedida por meio de urn Breve em
1661, que dizia: «(... ) E dispensamos, e damos licen9a; para
que no dito Mosteiro de N. Senhora da Soledade; se possao
tomar meninas Educandas, para nelle se criarem ate a idade de vinte e sinco annos, em bons costumes, sendo menores dos ditos vinte e sinco annos, e maio res de sete, e
virgens, e de honestos costumes, e quando entrarem, que
entrem sos, sem nenhum acompanhamento, e andem vestidas
de vestidos honestos, e modestos, e guard em as Leis, e
Clausura do dito Mosteiro, e locutorio; (oo.) Lisboa vinte
e nove de Man;o, de mil seiscentos secenta e dous.
o Bispo».'o Muitas destas educandas tomaram 0 habito da
Ordem e algumas delas chegaram aos mais importantes cargos dentro do Convento.
As religiosas com 0 correr dos anos foram-se apercebendo de que 0 seu mimero era diminuto para atender a todas
as exigencias da comunidade (assistencia ao coro, oficinas,
cozinha, etc.), de tal modo que em 1683 tiveram que pedir
ao Papa Inocencio XI uma licenc;a especial para aumentar
o seu mimero para trinta e tres: vinte e cinco do coro e oito
novic;as." Governava ainda a fundadora, Madre Soror
Catharina de Santo Antonio, sobrinha da Padroeira do
Convento.
Sucederam-se as madres abadessas, e a vida do Convento
foi passando sem grandes perturbac;6es ate meados do seculo
XVIII.
Contudo 0 terramoto de 1755 veio interferir na vida
destas religiosas. Apesar da catastrofe nao ter afectado
grandemente 0 ediffcio, os estragos causados foram suficientes para obrigar a comunidade a deslocar-se para uma
quinta, que para 0 efeito foi emprestada por Francisco da
Silva. A 10 de Novembro (dez dias depois do terramoto)
fizeram as religiosas a mudanc;a em carruagens fechadas
«cada uma com a Imagem da sua maior devoc;aO».'2
Acomodaram-se, e apesar da exiguidade das instalac;6es ai
Painel de azul~jos sobre a porta do (Urio interior, figurando
Libertador dos Cativos.
0
Anjo
viveram sem grandes contrariedades. Entretanto as obras
de restauro do Convento avanc;aram rapidamente e a 8 de
Janeiro de 1757, catorze meses depois do terramoto,
puderam as irmas Trinas voltar a sua cas a mae, na rua com
o seu nome.
Parece, apesar de tudo, que a historia deste Convento
foi estavel ate meados do sec. XIX. Mas, nesta altura, os
acontecimentos politicos do pais vieram perturbar a pacatez
conventual.
Com a revoluc;ao liberal de 1820 0 pais entrou num
momenta conturbado, que acabou por degenerar anos mais
tarde na guerra civil onde se confrontaram liberais e
miguelistas.
Painel de azulejos de finais do seculo XVll, representando
de Assis -
S. Francisco
atrio interior.
A facc;ao liberal saiu vencedora, e a luta que encetou
contra a Igreja e respectivas Instituic;6es foi de tal modo
aguerrida que houve quem os acusasse de confundir «a Igreja
com 0 odio por muitos votado ao antigo regime»" e aos
miguelistas.'J
Em Agosto de 1833 tinha sido publicado urn decreto que
mandava fechar os noviciados dos conventos, proibindo a
entrada de novas vocac;6es. Ora esta medida veio provocar
a morte lenta de muitas congregac;6es que se viram doravante privadas de receber sangue novo.
Em 1834 Joaquim Antonio de Aguiar, conhecido pelo
«mata-frades», publicou uma lei onde mandava que se
fechassem os Mosteiros e conventos masculinos e se expulsassem os respectivos frades. Neste mesmo ano, 0 Convento
das Trinas do Mocambo passou a casa de reco1himento'·,
em bora esta medida pouco tenha afectado 0 seu quotidiano.
Vo1vidos 30 anos saiu urn decreto estipulando 0 encerramento do Convento das Trinas. No entanto as freiras nao
o abandonaram e af ficaram ate 1878, mas merce do decreto
que proibia a entrada de novic;as, a comunidade Trina foi
diminuindo de tal modo que em 1876 ja so restava uma,
que veio a falecer em 1878.
Entretanto, as hostilidades entre Estado e Igreja foram-se atenuando, e talvez por isso, «Houve em muitos aspectos uma renovac;ao da vida espiritual, que se traduziu na
entrega a v~hias congregac;6es de ediffcios dos extintos
conventos».15
Por iniciativa do capelao Raimundo dos Anjos Beirao'6
e facilitado por este premincio de aproximac;ao do Estado
it Igreja, 0 Convento des de 1876 tinha passado a ser
partilhado com as irmas Hospitaleiras da Ordem de S. Francisco de Assis que, por coincidencia, tinham 0 mesmo orago
que as Trinas, Nossa Senhora da Soledade. Com a morte
da ultima religiosa Trina, 0 ediffcio passou a ser total mente
ocupado pelas Franciscanas. Estas por aqui se mantiveram
ate 1910, data ern que se reacenderam os antigos 6dios e,
como con sequencia das exaltac;6es republicanas, foram
expulsas todas as ordens religiosas e encerrados todos os
mosteiros e conventos do pafs.
Ate it sua expulsao, a vida das Franciscanas deste
convento ficou marcada por alguns incidentes directamente
relacionados com 0 momenta instavel que se viveu no final
da monarquia. E nesse contexte que se insere a hist6ria, a
qual 0 jornal «0 Seculo» tanto relevo deu, da irma Colette
e da educanda Sara de Matos. A irma Colette foi acusada
de ter assassinado Sara de Matos ao dar-Ihe urn <<lachante
de sat amargo,,17 (sulfato de s6dio) para tratamento de uma
doenc;a contrafda pel a rapariga. Foi presa tendo deambulado de prisao em prisao mas por fim foi considerada inocen-
te pelo Iurisconsulto Dr. Carlos Zeferino Pinto Coelho,
tendo podido voltar em paz a sua vida conventual.
Fechadas as portas em 1910, 0 ediffcio passou depois
pelas maos de varias instituic;6es publicas das quais se destaca
o Arquivo Central de Identificac;ao e Estatfstica Criminal
CArquivo de Identificac;ao).
Em 1969, ap6s a deflagrac;ao do incendio que devastou
as instalac;6es do Instituto Hidrografico na Rua do Arsenal,
o ediffcio do antigo Convento foi entregue a Marinha que
o cedeu ao Instituto Hidrografico. Foram feitas importantes obras de restauro no ediffcio, que se encontra hoje em
born estado de conservac;ao.
Como ja atras foi referido, na genese do con vento
estiveram algumas casas e uma ermida pertencentes a
Cornelio Vandali e sua mulher Martha de B6z.
As obras de adaptac;ao do casario inicial comec;aram em
1657, (data do testamento de Cornelio Vandali), tendo ficado
estabelecido que em 1661 as religiosas poderiam tomar posse
do seu ediffcio.
o conjunto que actualmente podemos apreciar foi alvo,
ao longo dos tempos, de varias obras de ampliac;ao e restauro que the conferiram 0 aspecto imponente e majestoso
que hoje 0 caracteriza.
Conta-nos 0 autor da Hist6ria Cronol6gica da Ordem da
Santfssima Trindade, que 0 Convento no infcio era pequeno,
talvez devido it falta de dinheiro dos seus fundadores para
erguer urn de maior porte: «C... ) suposto que seus Fundadores fossem ricos, e abundantes de bens, nao seriao bastantes para a fabrica de maior Edificio, e sufficiente
patrimonio».18
Mas 0 passar dos anos trouxe novas necessidades, e no
dealbar do seculo XVIII encetou-se a construc;ao de nova
Igreja, que ficou conclufda em 1713.
Parte das obras de ampliac;ao, nao s6 da nova Igreja mas
tambem dos restantes aposentos, ficaram a dever-se it
Condessa do Redondo, D. Maria Magdalena de Tavora.
Segundo 0 cronista, esta senhora escolheu 0 Con vento das
Trinas para acabar os seus dias, mas como nao encontrou
«(... ) neUe commodos sufficientes, fez varias casas para a
sua habita<;ao, que depois servirao de dormitorio, com cuja
obra ficou mais avultado, ainda que com pouca regular idade».19 Mas talvez devido a falta de planeamento das obras
ate entao executadas, em 1745 0 edificio amea<;ava rufna.
Era Priore sa do convento a Madre Soror Maria Josefa de
Jesus e coube-Ihe a diffcil tarefa de organizar as obras de
restauro.
Do Convento e das suas divis6es, a descri<;ao mais
pormenorizada
que chegou ate nos foi a da Igreja.20
Ocupava uma area muito razmivel do ediffcio: tinha de
comprimento cerca de 40 metros por 20 de largura.21 Com
tectos de abobada, apainelados com ricas pinturas de molduras douradas. A Capela-mor era muito espa<;osa. Tinha
urn retabuld2 com quatro colunas salomonicas, capiteis e
ornatos dourados, e com urn painel de Nossa Senhora da
Soledade com cerca de 5 metros e meio de altura por cerca
de 3 metros de largura. Estava tambem decorada com esculturas dos Santos Patriarcas pintadas a ouro. Nas paredes
estavam quatro quadros da vida de Nossa Senhora cada urn
com cerca de 1.8 por 2.2 metros.
Tinha cinco altares: 0 Altar-mor ladeado por quatro
outros altares. 0 primeiro, 0 Altar-mor, situado na Capela-mor atras descrita, foi mandado executar por Madre Soror
Vicencia Michaela de Santa Maria. 0 segundo, conhecido
pelo altar do Born Pastor, que tinha ao centro 0 Sacrario,
era todo de talha dourada tendo no meio urn Cristo crucificado de seis palmos, ou seja urn metro e trinta e cinco cen-
tfmetros. Foi mandado executar pela Madre Soror Ursula
dos Santos.
Mandado de Roma pelo «Eminentfssimo Cardeal Gusmao»23 a sua sobrinha, Madre Soror Maria da Soledade,
veio urn cofre contendo as ossadas do Santo Martir S. Ciro.
Foi-Ihe mandado fazer urn altar, contendo urn riqufssimo
cofre onde se depositaram as ossadas do Santo. 0 altar estava ainda ornamentado com uma escultura do Santo, toda
Lava-moos
encimado
por painel
de azulejos figurando
do Lava-pes na Ultima Ceia de Cristo -
a cenmoma
atrio do refeit6rio.
estofada a aura com urn metro e vinte cinco centfmetros de
altura.
Havia ainda urn altar dedicado a S. Joao Baptista, todo
em talha dourada, e outro dedicado a Nossa Senhora dos
Prazeres ornamentado com uma pequena escultura ricamente'
dourada. Os altares do Born Pastor e de S. Joao Baptista
foram mandados dourar pelo provedor da Casa da Moeda
e benfeitor deste Convento, Jose Ramos da Silva.
Das numerosas pinturas que cobriam 0 tecto sobressafam
duas: a representa<;ao do Anjo com os cativos (visao do Papa Inocencio III), e a representa<;ao da Assun<;ao de Nossa
Senhora.24 Estes dois paineis assim como os quadros que
revestiam as paredes da Igreja foram mandados fazer por
Salvador Franco Rainha, urn benemerito do Convento, tio
de uma das religiosas. 0 coro tinha ainda urn quadro em
toda a largura, onde estava representada uma apari<;ao de
Nossa Senhora a urn con vento da Ordem. Oito janelas iluminavam 0 local. 0 coro baixo da Igreja era bastante largo, com boas cadeiras, todo apainelado, decorado com boas
pinturas da vida de Nossa Senhora.
Enquanto que da Igreja, Frei Jeronimo de S. Jose nos
da descri<;6es pormenorizadas (como que adivinhando que
o tempo e a cobi<;a humana nao iriam permitir que outros
a admirassem), dos outros aposentos ou nao os referiu ou
fe-Io superficialmente.
Quanto as acomoda<;6es das religiosas, diz-nos que estavam situadas no lado virado a Sui, gozando de uma
encantadora vista. Havia urn grande dormitorio e urn born
noviciado. A casa do capftulo e a casa do lavor ficavam no
lado poente. Em ambos os aposentos existiam altares: 0
primeiro tinha uma bonita imagem de Nossa Senhora da Luz
eo segundo uma pintura de Cristo no pas so do Ecce Homo.
Numa fase posterior a funda<;ao, foram construidas uma
enfermaria e uma casa de banhos.
A cozinha'5 guardou ate aos nossos dias toda a beleza
e grandiosidade de outrora. Revestida na totalidade com
azulejos'6,
foi enriquecida
com alguns elementos
decorativos como documenta a belissima representa<;ao do
Anjo libertador dos cativos colocada no tecto. 0 aposento
contiguo era 0 refeit6rio.17 Nas suas paredes podem ainda
hoje ser observados bonitos silhares de azulejos.18 Tinha
uma fiada de bancos em volta e num dos cantos existia urn
pulpito de madeira onde eram feitas leituras espirituais que
acompanhavam as refei<;6es.
o edificio dava para uma cerca cujo19terreno fora doado pelo Duque de Cadaval as religiosas do Mocambo. Diz-nos Julio de Castilho que « ••• no sitio pegado com 0 que
veio a ser esse Mosteiro das Trinas, alastrava-se urn casal,
por excelencia denominado da Boavista, e pertencente ao
Duque de Cadaval, que em Junho de 1662 doou as Freiras». De razO<lvel extensao, a cerca tinha ruas, pomares,
vinhas e hortas e existia ainda uma Ermida dedicada a Santa Marta e a S. Benedicto.
Com os anos 0 edificio foi-se degradando, e a conturba-
da hist6ria do fim do seculo passado e infcio do nosso, muito
contribuiu para 0 estado de abandono a que foi votado.
Em meados do seculo XX, sobre 0 extinto convento
escreve-nos Norberto de Araujo nas suas Peregrina<;6es em
Lisboa, «(... ). Tern urn aspecto de 'ruina conservada', e em
parte do edificio acusa abandono.
Aqui temos este triste atrio, com silhares de azulejos
muito mutilados, bancadas de pedra, tecto de madeira, com
tosca pintura simb6lica religiosa; era a portaria.
Na parede que divide os dois atrios podes ver a abertura
circular, onde girava a 'Roda' dos enjeitados, em tempos
velhos.
A direita urn vestibulo pobre - tudo isto e decrepito e
sujo - que da patim a uma escada de madeira que conduzia ao interior do convento (... ). »30
o ar decrepito desapareceu mas, e infelizmente, desapareceram tambem muitos outros pormenores que levaram
consigo urn pouco da hist6ria do Convento.
A ordem da Santissima Trindade foi fundada em Fran<;a,
no ana de 1198, por S. Joao da Matta e S. Felix de
Valois.31
Os Trinitarios chegaram a Portugal em 1217 e estabeleceram-se em Santarem com grande apoio de D. Sancho I
e de suas filhas.
Em plena cpoca de cruzadas e de reconquista crista, esta Ordem tinha como objectivo a liberta<;ao daqueles que
ficassem cativos nas maos dos «infieis». Para levar a cabo
tao diffcil tarefa, estes frades utilizavam sobretudo urn
metodo que consistia na negocia<;ao da liberdade do cativo,
mediante a oferta de dinheiro ou generos que traziam da
Peninsula. Geralmente os frades obtinham estas riquezas
atraves de dadivas que Ihes eram feitas pelas familias dos
prisioneiros que financiavam a liberta<;ao do respectivo
familiar. Em Portugal foram levantadas muitas dificuldades a ac<;ao desta Ordem.
D. Afonso V criou 0 Tribunal dos Cativos ao qual foi
atribufda a missao que ate ai tinha pertencido aos Trinitarios. Apesar dos veementes protestos junto da Santa Se, os
monges s6 com D. Sebastiao conseguiram ver-Ihes restituidas as prerrogativas.
Ate ao reinado de D. Afonso V, os Trinitarios tinham
resgatado «(... ) muitos milhares de escravos das regi6es da
Penfnsula ainda sujeitas aos Mu<;ulmanos».31 Daf que fosse natural a sua indigna<;ao ao verem ser-Ihes retirada a prerrogativa, mas logo ap6s a batalha de Alcacer Quibir, onde
morreu D. Sebastiao, os Trinitarios volta ram a ser encarregues pelo Cardeal D. Henrique do resgate dos que tinham
ficado em cativeiro.
Por todos estes factos podemos perceber a importfmcia
que esta Ordem teve e 0 papel que desempenhou no decorrer da nos sa hist6ria.
A vertente feminina desta Ordem tinha, no entanto, urn
cariz mais contemplativo.
No Convento que nos propusemos estudar imperava uma
regra rfgida que impunha urn quotidiano austero.
o seu dia-a-dia so ocasionalmente nos e aflorado pelo
cronista mas, gra<;as a Durval Pires de Lima, chegaram ate
nos informa<;6es preciosas para quem pretende conhecer uma
institui<;ao e 0 seu «modus vivendi».
Estas religiosas do Mocambo estavam sujeitas a urn regime de clausura muito rigoroso e exigente. 0 silencio constituia uma regra de ouro e 0 respeito pelo tempo dedicado
a ora<;ao individual e comunitaria era sagrado. Era aconselhado as religiosas dedicarem diariamente duas horas a ora<;aomeditada, uma de manha antes da Prima (primeira das
horas canonicas - 6 horas da manha), outra a tarde depois
das Completas (ultima parte do Offcio Divino). Alem disso
tinham tambem dois quartos de hora de exame de consciencia, 0 primeiro de manha antes de irem para 0 refeitorio,
eo segundo antes das Matinas (que eram rezadas neste Convento as 21 horas). Era ainda costume fazerem outro exame de consciencia, mas este em comunidade. As restantes
horas canonicas eram rezadas tal como estava estipulado no
Offcio Divino.
Era habito neste Convento as religiosas fazerem
periodicamente, durante 10 dias, os «Exercfcios Espirituais»
de Santo Imicio de Loyola. Nesses dias dedicados aos Exercfcios feitos em silencio, as irmas tinham quatro horas de
ora<;ao mental diaria, sendo 0 resto do dia para li<;aoespiritual e ora<;ao vocal. Para fazerem estes Exercfcios com maior
rigor e longe de todas as outras, as religiosas retiravam-se
para uma casinha que tinham na cere a do con vento a qual
chamavam «0 deserto» e onde se mantinham durante 0 tempo que durasse 0 retiro.
As refei<;6es eram sempre no refeitorio e em comunidade. 0 alimento era modesto, somente «aquele que bastava
pera sustentar a vida sem sobra nem regalo». 33 Os jejuns
consagrados pela Ordem eram to~o 0 ana as sextas-feiras
e sabados. No Advento faziam tambem as quartas-feiras e
na Quaresma as segundas, quartas e sextas-feiras.
Nos aposentos reinava a simplicidade: as celas eram
pequenas, divididas entre si por urn encerado e na frente
com uma cortina de estopa. Tinham uma cama rente ao chao
com urn enxergao de palha, len<;ois de tecido grosseiro e
urn cobertor de la. Havia ainda urn banco tosco, urn crucifixo, alguns livros espirituais e instrumentos de penitencia.
A roupa interior era de estopa e somente na enfermaria se
usavam colch6es e roupa de linho.
o habito era constitufdo por uma tunica sem corte ate
aos pes, com manga estreita e sem talhe. 0 escapulario tinha
a cruz da Santfssima Trindade, tudo de serguilha branca.
o toucado era de linho tapado, sem qualquer «artiffcio». 34
Para as ocasi6es em que necessitavam aparecer em publico, por exemplo a comunhao, tinham uma capa ou manto
com urn veu no rosto que as cobria quase ate ao chao. Nos
pes usavam umas alpercatas de linho-canhamo.
Na cerca do Convento existia uma Ermida dedicada a
Santa Marta e a S. Benedicto e, nos dias em que se festejayam estes Santos, costumavam as religiosas organizar uma
procissao no fim da qual serviam uma refei<;ao melhorada.
Nos dias normais, ou seja, nos dias em que nao havia
preceito especial, toda a comunidade tinha uma hora de
lavores, durante a qual uma delas lia em voz alta uma passagem das Escrituras ou qualquer outro livro espiritual.
Nada nesta comunidade era deixado ao acaso. Preten-
diam ser uma comunidade modelo onde reinasse urn verdadeiro espfrito cristiio. Daf que, fomentando a entreajuda,
niio era permitido as religiosas terem criadas, e ninguem
era dispensado dos servi<;os quotidianos mesmo dos mais
arduos, excepto em caso de doen<;a.
A pobreza era tambem levada muito a serio: nenhuma
religiosa tinha nada de seu, as coisas de usa pessoal esta-
yam nas miios de uma das oficiais do Mosteiro. Se se dava
o caso de chegar urn presente do exterior, ele tinha que ser
fraternamente repartido por todas.
As rela<;oes com pessoas estranhas ao Convento eram
igualmente legisladas. Aos familiares proximos, pais e
irmiios, podiam aparecer com a cara descoberta; para
aparecerem a todos os outros tinham que usar uma lamina
de cobre crivada, com uma cortina por dentro. Assim como
todas as cartas escritas ou recebidas tinham obrigatoriamente
1
Julio de Castilho, A Ribeira de Lisboa, p. 46.
2
Mocambo era urn vocabulo de origem brasileira,
cho<;a em que os negros
se abrigavam
) Esta gente era oriunda sobretudo
de passar pela miio da Prelada que, se 0 entendesse, as podia
ler. Evitava-se assim que as irmiis sofressem pressoes do
exterior, ou fossem procurar consola<;oes fora do Convento.
Urn dos grandes problemas da comunidade era a sua subsistencia. Os rendimentos do Convento provinham das
esmolas de pessoas ilustres e devotas, e de rendas das terras que lhes tinham sido doadas. Tudo isto representava uma
soma muito parca que mal chegava para 0 sustento das irmiis.
Niio foi, no entanto, por falta de sustento que estas religiosas desapareceram. A conjuntura polftica de finais do
seculo XIX niio lhes era favoravel, obrigando-as mesmo a
urn destino que definitivamente niio escolheram e niio
queriam.
A historia deste Convento das Trinas e das suas habitantes niio foi uma daquelas sagas empolgantes que comovem cora<;oes e exaltam os espfritos. As religiosas passaram
discretas pel a historia sem grande brilhantismo, sem grande alarde. Deram vida ao majestoso ediffcio durante cerca
de dois seculos, de ram 0 seu nome a rua, e pouco mais nos
ficou delas.
Hoje ja niio se ouvem ter<;os, ladafnhas nem can<;oes.
o quotidiano do ediffcio e bem diferente.
Talvez esteja reservado ao Instituto Hidrografico escrever uma historia mais marcante, que niio se desvane<;a com
o correr dos anos, com 0 passar dos seculos.
A historia 0 dira.
" Norberto de Araujo, Peregrinar;oes em Lisboa, p. 39.
que significava
quando fugiam para
0
mato.
de Ovar e fIhavo. Capitao-de-
-fragata Gomes Pedrosa: Devor;oes Marinheiras Atraves dos Tempos, in
" Joaquim Verissimo
16
Serrao, ibidem, vol. IX, p. 313.
Tambem capelao da Marinha,
P.' Delmar Barreiros,
Do Conven-
to das Trinas ao Instituto Hidrografieo, in "Revista da Armada», Abr. 1975,
p. 15.
17
P.' Delmar Barreiros,
18
Frei Jeronimo de S. Jose, op. eit., livro II, pp. 212-213.
que nasceu a Severa, a famosa cantora que deu voz ao fado portugues e
19
Frei Jeronimo de S. Jose, op. cit., livro II, p. 213.
euja mae era natural de Ovar.
20
0 autor refere-se certamente
21
As medidas
..Anais do Clube Militar Naval», vol. CXVII, Jan.lMar.
, A titulo de curiosidade
5
.a
parece oportuno referir que foi nesta rua
Julio de Castilho, A Ribeira de Lisboa,
, Frei Jeronimo
Sant{ssima Trindade,
1987, pp. 9-34.
de S. Jose, Hist6ria
livro 2, p. 211.
p. 48.
Cronol6giea
da Ordem da
7
Religiosas
franciseanas
da Ordem Serafica.
8
Fortunato
de Almeida,
Hist6ria da Igreja em Portugal,
e 2.
9
a
Partes,
A Madre
1922, p. 163, Coimbra Imprensa
Soror
Catharina
de Santo
vol. IV,
Aeademiea.
Antonio
este
10
Frei Jeronimo
II
0 numero era de oito mas, por ordem do Nuncio Apostolico,
IJ
p.320.
Joaquim
de S. Jose, ibidem, p. 219.
foi
Serrao,
Hist6ria
de Portugal,
11nova constru<;ao.
em
vol.
VIII,
passos
e em
palmos:
urn
do altar e que encerra, em geral, urn quadro religioso.
21
Frei Jeronimo de S. Jose, op. cit., livro II, p. 214.
Urn pormenor curioso e a existencia de uma pintura igual, embora
mais eompleta,
na Igreja da Madre de Deus.
revestimento
relativamente
0
azulejo eonstituia na altura urn tipo de
barato, dada a grande produ<;ao que mareava
essa epoea (seeulo XVIII).
17 Hoje
Centro de Documenta<;ao
de S. Jose, ibidem, op. cit. p. 277.
Verissimo
dadas
" Hoje sala de leitura.
26 E importante
referir que
convento durante 26 anos.
reduzido para 6.
12
Frei Jeronimo
sao-nos
passo = 82 em, urn palma = 22 em.
22
Constru<;ao de pedra ou madeira com lavores, na parte posterior
21
governou
ibidem, p. 16.
Documenta<;ao,
de Publica<;oes.
Secretaria
e Informa<;ao,
Direc<;ao de
da Direc<;ao de Documenta<;ao
e Servi<;o
28
A maio ria dos aposentos deste piso estao decorados
19
Julio de Castilho, A Ribeira de Lisboa,
JO
Norberto de Araujo, PeregrinGl;:oes em Lisboa,
31
E
curio so reparar
Oeste, tern
o Convento
0
que as ruas paralelas
desta forma.
a
pp. 39-40.
'.J
para
p.455.
a imporillncia que
31
Rua das Trinas,
nome destes dois Santos, demonstrando
J2
Os Trinitdrios,
in «Diciomirio de Hist6ria de Portugal-,
vol. VI,
p.214.
p. 49.
Durval
Pires de Lima,
Histaria
dos Mosteiros
e Conventos,
Ibidem, pp. 455 e 456.
parece ter tido.
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