GESTÃO E MONITORAMENTO AMBIENTAL DO AR AMBIENTE
– O PROBLEMA DOS LABORATÓRIOS DE ANATOMIA: O FORMOL
Resumo: O estilo de vida da sociedade influencia a qualidade do ar interior e, nas últimas décadas, a
poluição “indoor” tem chamado a atenção. Vive-se, transita-se e trabalha-se a maior parte do tempo
em espaços confinados, onde a baixa troca de ar gera o acúmulo de poluentes que podem ser
prejudiciais à saúde. Qualquer pessoa pode estar exposta ao formaldeído no ar, derivado de processos
industriais ou naturais. Entre sua aplicação sobressai o uso do formaldeído nos laboratórios de
anatomia, onde a exposição a este produto pelos docentes, pesquisadores e técnicos é constante
chegando a alcançar níveis acima de dez partes por milhão. Seu uso, portanto, coloca em questão a
exposição ocupacional a essa substancia química, que pode causar desde irritações momentâneas à
perda da consciência ou mesmo induzir ao câncer. Por essas razões o objetivo desse estudo foi
realizar uma revisão sobre os riscos oferecidos pela utilização do formol.
Palavras-chave: Formol, poluição do ar, ambiente interno.
INSTRUCTIONS FOR THE PREPARATION AND SUBMISSION OF
PAPERS TO BE PUBLISHED IN THE PROCEEDINGS OF THE VIII
SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE QUALIDADE AMBIENTAL
Abstract: The lifestyle of society influences the quality of indoor air and, in recent decades, pollution
"indoor" has drawn attention. Lives, if carried over and works himself most of the time in confined
spaces, where low air exchange generates the accumulation of pollutants that can be harmful to
health. Anyone can be exposed to formaldehyde in the air, derived from natural or industrial
processes. Between your application stands out the use of formaldehyde in anatomy, where exposure
to this product by teachers, researchers and technicians are constantly coming laboratories to levels
above ten parts per million. Its use, therefore, calls into question the occupational exposure to this
chemical substance, which can cause momentary since the loss of consciousness or even lead to
cancer irritations. For these reasons the aim of this study was to conduct a review of the risks posed
by the use of formaldehyde.
Keywords: Formaldehyde, air pollution, pollution indoor.
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1. INTRODUÇÃO
Com o despertar da consciência ambiental, problemas ambientais até então ignorados,
como a qualidade do ar interno e odores ambientais, ganharam atenção mundial. O estilo de vida da
sociedade influencia a qualidade do ar interior e, nas últimas décadas, a poluição “indoor” tem
chamado a atenção. Vive-se, transita-se e trabalha-se a maior parte do tempo em espaços confinados,
onde a baixa troca de ar gera o acúmulo de poluentes que podem ser prejudiciais à saúde.
Diferentemente do que ocorre com os poluentes exteriores, que geralmente sofrem processos de
dispersão ao longo do dia, em ambientes confinados o indivíduo pode estar exposto a concentrações
constantes de poluentes, por períodos longos (SODRÉ, 2008).
Onde há um ser humano, há interferência no ambiente natural que está diretamente
associada ao estado de desenvolvimento de uma região causando, entre outras consequências,
poluição do solo, águas e do ar. Estes fatores influem negativamente nas condições de saúde e
qualidade de vida. A conscientização e implementação de ações que possibilitem a mitigação de
diversos impactos ambientais, deve concretizar-se em um saber emergente que perpassa todas as
disciplinas e todos os níveis do saber educativo (LEFF, 1995).
Conhecendo-se a aplicação do formaldeído nos laboratórios de anatomia, onde a
exposição a este produto pelos docentes, pesquisadores e técnicos é constante, deseja-se colocar em
questão a exposição ocupacional a essa substancia química e sua poluição indoor.
2. DESENVOLVIMENTO
É consenso que qualidade de ar interno deficiente pode afetar a saúde e o desempenho e
produtividade dos trabalhadores (WHO, 2001). A legislação específica para ambientes tem dois
enfoques: ocupacional e ambiental. Se o enfoque é a saúde ocupacional, as Normas Regulamentadoras
do Ministério do Trabalho são aplicadas; quando o enfoque é ambiental, é a Portaria n°3.523 do
Ministério da Saúde que determina medidas específicas referentes a padrões de qualidade do ar
ambientes, no que diz respeito à definição de parâmetros físicos e composição química do ar de
interiores, à identificação dos poluentes, suas tolerâncias e métodos de controle, pré-requisitos de
instalações e de execução de sistemas de climatização.
No domínio da saúde, a hipersensibilidade química associada aos edifícios é uma das
preocupações da atualidade. A exposição repetida a baixas concentrações de substâncias presentes no
ar interno pode levar à “sensibilização múltipla”, na qual o indivíduo afetado passa a reagir a
concentrações cada vez mais baixas. A OMS contabilizou a contribuição de vários fatores de riscos a
doenças e determinou que a poluição do ar interno é o 8º fator de risco mais importante, responsável
por 2,7% de casos de doenças no mundo (WHO, 2001).
As carbonilas são compostos que possui uma extensa variedade de membros entre
aldeídos e acetonas e, por esse motivo, têm um lugar de destaque na poluição. Possui relevância na
química atmosférica por resultarem da primeira foto-oxidação dos hidrocarbonetos, por se
configurarem na maior fonte de radicais livres e como precursores de aerossol orgânico em áreas
urbanas, sendo emitidos para a atmosfera a partir de uma grande variedade de fontes naturais e
antropogênicas (Andrade et al.,2002 apud SODRÉ, 2008). Sendo destes os mais abundantes na
atmosfera o formaldeído e o acetaldeído, afetando a química atmosférica de áreas poluídas por uma
série de rotas complexas (EPA, 1993).
O Inventário de Emissões Tóxicas da EPA, para 45 produtos químicos, estabeleceu a
concentração resultante no ar e na água, para cada produto, utilizando modelo de fugacidade
comparando com dados de toxicidade, sendo a razão usada como indicador do impacto ambiental,
classificando o formaldeído em primeiro lugar.
O formaldeído é um composto utilizado mundialmente, em áreas diversas, desde a saúde
até a produção de materiais, sendo formado na natureza e no organismo humano. É emitido por
veículos, fábricas, incineradoras, cigarros, madeiras, incêndios florestais e outros processos de
combustão naturais. Outras fontes de exposição incluem materiais de construção, tapetes, tintas e
vernizes e processamento de alimentos (WHO, 2001).
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Verifica-se, contudo, nos últimos anos, uma maior atenção para o estudo das suas ações,
pesando-se o risco-benefício das suas aplicações para o meio ambiente e saúde. Gasoso à temperatura
ambiente, incolor, irritante com odor sufocante detectável a baixas concentrações. Este composto,
cuja molécula possui um átomo de carbono, um de oxigênio (ligação dupla grupo carbonilo) e dois
hidrogênios ligados ao carbono (CH2O), é inflamável, reativo e polimeriza facilmente à temperatura e
pressão ambiente normais. (COELHO, 2009).
O formaldeído gasoso, não está comercialmente disponível, devido à sua reatividade e
instabilidade, sendo estável somente na ausência de água. Na forma gasosa 1 ppm de formaldeído
equivale a 1,2 mg/m3, ou seja 1 mg/m3 é igual a 0,8 ppm a uma temperatura de 20ºC e uma pressão
de 1013 hPa (MARTINEZ, 2004; COELHO, 2009). A concentração média no ambiente natural é 0,5
µg/m3 (0,0004 ppm). Em ambientes urbanos, as concentrações são mais variáveis e dependem das
condições locais, com picos de 100 µg/m3 (0,08 ppm), durante períodos de maior tráfego. Os níveis
de formaldeído no ar interior são muitas vezes superiores aos do ar exterior (WHO, 2001).
Em solução aquosa, é chamado de formol ou formalina, comercializada na porcentagem
de 37 a 40% de formol e de 8 a 15% de metanol, que é adicionado para estabilizar a solução, uma vez
que aldeídos tendem a se polimerizar e formar um precipitado branco (paraformol) (MARTINEZ,
2004; COELHO, 2009).
O formol é ainda considerado como carcinógeno humano pela Agência Internacional de
Pesquisa em Câncer (IARC, 2006), pela Agência de Proteção Ambiental (EPA, 1993), e pela
Associação de Saúde e Segurança Ocupacional (OSHA, 1987).
Quadro 1 - Concentração de formaldeído em ambientes interiores.
Fonte: EPA, 2006
Como este composto reage com tecidos e previne a sua degradação, é o mais empregado
na conservação de peças de anatomia e cadáveres. A nocividade ambiental dos laboratórios de
anatomia é uma das mais acentuadas dentre os diversos setores de uma universidade. Apesar da
toxicidade do formaldeído para os seres humanos, bem como sua agressividade ao meio ambiente e
alto custo, grande parte dos laboratórios de anatomia utilizam-no por ter resultados satisfatórios
(OLIVEIRA & ZAITA, 2005; MACHADO, 2005).
Em ambientes internos de hospitais, níveis de concentração de até 0,5 ppm de formol têm
sido reportado na literatura, sendo seu uso comum, profissionais da saúde ficam continuamente em
contato com esta substância. Dessa forma é importante salientar que a exposição ao formaldeído em
anatomia ocorre através da inalação do gás liberado e devido à absorção cutânea por contato acidental
com o formaldeído existente no líquido conservante dos cadáveres e peças anatômicas
(SALTHAMMER, 1994). Um grande volume de trabalhos sobre formaldeído concentra-se na
preocupação com a saúde dos alunos, professores e principalmente técnicos de laboratório que
constantemente utilizam peças de anatomia fixadas em formaldeído. (PEREIRA & ZAITA, 2008)
Efeitos adversos à saúde decorrentes da exposição ao formaldeído em casas préfabricadas, especialmente irritação dos olhos e vias aéreas, foram relatados na déc. de 60. Emissões de
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formaldeído de aglomerados com resina de ureia-formaldeído foram logo identificados como a causa
das denúncias. Como conseqüência, um valor de referência de 0,1 ppm foi proposto em 1977 pela
antiga Agência Federal Alemã de Saúde para limitar a exposição humana em habitações (TUNGA et
al, 2010).
O odor do formaldeído é detectável a valores na ordem de 0,5-1 ppm, entre 2-3 ppm
surge irritação, sendo as exposições entre 4-5 ppm intoleráveis para a maioria das pessoas. A
percepção de formaldeído pelo odor ou irritação dos olhos torna-se menos intensa à medida que o
indivíduo se adapta a substância, podendo levar a uma maior exposição. Sua inalação pode causar
irritação da garganta, tosse e falha na respiração. Concentrações de 25 ppm a 30 ppm causam danos
severos no trato respiratório, levando a edema pulmonar e doenças pulmonares. (MSDS, 2000). A
resposta inicial a um irritante aéreo pode envolver queimadura imediata ou sensação de ardor nos
olhos, nariz ou garganta. Exposições crônicas a baixos níveis até 1,6 ppm produzem fadiga, cefaléias
e irritação das membranas mucosas.
Como parâmetros ainda, pode-se observar o descrito nos quadros abaixo, comparando-se
informações pertinentes de autores.
Quadro 2 - Efeitos do formol e respectivas concentrações no ar ambiente.
Fonte: Veronez et al., 2006.
Quadro 3 - Efeitos na saúde por exposição ao formaldeído.
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A manipulação das soluções de formol requer a utilização de EPI’S: óculos, avental,
luvas e botinas, máscara com filtro para gases ácidos. Utiliza-se exaustão no local de manuseio da
substância, com a parte elétrica à prova de explosão (ELEKEIROZ, 2008).
A descarga de material para a atmosfera exige análise cuidadosa. Além de remover riscos
para funcionários é uma forma segura para eliminação de substâncias. Aparatos de ventilação
(exaustor ou capela) podem garantir segurança aos trabalhadores, quando estes forem bem treinados e
a instalação bem planejada. Um sistema de ventilação mecânica, normalmente alcança um mínimo de
quatro renovações de ar por hora, que vão até 16 ou mais para especiais situações, como este tipo de
laboratórios. Máscaras podem ser usadas como precaução, mas não deve ser utilizada como substituto
para a manutenção da qualidade geral do ar do laboratório. O ar de exaustão de câmara de segurança
pode ser filtrado, ou exaustores podem realizar uma diluição respirável. No entanto, se houver um
acidente que danifica o filtro ou grandes concentrações, é necessário providenciar para que todas as
saídas estejam localizadas onde eles têm menos chance de entrar em contato com as pessoas. O lugar
normal para um tubo de saída é o teto de um edifício. O tubo deve ser projeto, pelo menos, 3 metros
acima do telhado. Isso porque fluxos naturais tendem a seguir a forma do edifício, de modo que
descarga a um nível inferior poderia ser arrastado para uma janela e descargas horizontais são
susceptíveis de voltar para dentro do prédio (PITT, 1993).
Nesse sentido, o controle do ar interno é de suma importância também para a saúde,
especialmente, no caso, em locais de trabalho inóspito, devendo-se forçar a presença de uma
ventilação adequada nos laboratórios de técnicas anatômicas e aulas práticas, sendo essa o meio
essencial de manutenção da qualidade do ar indoor, por meios naturais e mecânicos, por mistura ou
por deslocamento de ar, buscando-se a opção ecologicamente correta.
3. CONSIDERAÇÕES FINAIS
O monitoramento contínuo de poluentes do ar em ambientes interiores deve ser
incorporado à cultura da sociedade moderna. Os países desenvolvidos esforçam-se para reduzir os
níveis de exposição das populações a poluentes perigosos, e isso certamente se reflete nos custos de
tratamento de saúde e na qualidade de vida. No Brasil, esforços têm sido feitos no intuito de melhorar
a qualidade do ar de ambientes confinados, tais como a criação da Portaria n° 3.523/1998 do
Ministério da Saúde, que regulamenta as normas para avaliação e controle de ambientes climatizados
de uso coletivo, e a Resolução n°9/2003 da ANVISA.
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Para a realidade brasileira, estudos mais aprofundados são necessários, principalmente
para se avaliar-se valores destes poluentes no ar e observar aspectos como sazonalidade, antes do
estabelecimento de limites nacionais, já que limites como 20 μg m-3 estabelecido pela NIOSH para o
formaldeído, são impossíveis em certos locais.
Cabe à Universidade, como promotora e socializadora do conhecimento, assumir
compromisso social através de ações que venham desencadear mobilidade e mudanças
comportamentais, capazes de identificar problemas ambientais, construindo possibilidades de
superação dos mesmos. As melhorias ambientais exigem tempo, motivação, persistência, educação,
conscientização e mudanças de comportamento.Pe las condições expostas, salienta-se a importância
do ar indoor livre de poluentes. Destacando-se que providências perante o uso indiscriminado do
formaldeído nas universidades, devem ser tomadas para que minimize-se o contato geral com esta
substância.
4. REFERÊNCIAS
COELHO, M. O formaldeído em ambiente laboral. Dissertação de Mestrado. Universidade
do Porto, Portugal, 2009.
ELEKEIROZ. Manual técnico de produtos, 2005.
IARC. Formaldehyde. Lyon: International Agency For Research on Cancer, 2006.
LEFF H. As universidades e a formação ambiental na américa latina, 2005.
MACHADO, E.L. Gerenciamento de efluentes de laboratórios de Anatomia. 24º Congr.
Bras. de Eng. Sanit. e Amb., 2005.
MARTINEZ, M. et al. Estudo da ação do fenton no tratamento de resíduos contendo
formol. Congr. Bras. de Eng. Sanit. e Amb. Ribeirão Preto, São Paulo, 2004.
NATIONAL ACADEMIES PRESS (NAP). Formaldehyde and Other Aldehydes.
Committee on Aldehydes Board on Toxicology and Environmental Health Hazards. Assembly
of Life Sciences. Washington, DC. 1981.
OLIVEIRA, S. & ZAITA, M. Gerenciamento de solução de formol em laboratórios de
anatomia. Rev. Bras. de Ciências Ambientais, São Paulo, 2005.
OSHA. Sampling strategy and analytical methods for formaldehyde. 1987.
PEREIRA, N.S. & ZAITA, M. Degradation of formaldehyde in anaerobic sequencing
batch biofilm reactor (ASBBR). Journal of Hazardous Materials, 2008.
PITT, M. Eva. Handbook of laboratory waste disposal. England: Ellis, 1993.
SALTHAMMER, T. Effect of the air exchange on formaldeyde concentrations indoor air,
Indoor air international. ULM. Minnesota, 1994.
SODRÉ, E.D. Principais carbonilas no ar de locais públicos no Rio de Janeiro. Quim.
Nova, Vol. 31, 2008.
World Health Organization (WHO). Formaldehyde. Copenhagen: Regional Office for
Europe; 2001. Disponível em http://www.euro.who.int/document/aiq/5_8formaldehyde.pdf
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U.S. EPA: Code of Federal Regulations. Ambient Air Quality World Surveillance, Final
Rule Federal Register, Vol. 58, 1993.
VERONEZ, D.A. et al. Potencial de risco para a saúde ocupacional de docentes,
pesquisadores e técnicos de anatomia expostos ao formaldeído. Senac, São Paulo, 2006.
TUNGA, S. et al. O formaldeído no ambiente interno. Wilhelm Fraunhofer-Institut
Klauditz. American Chemical Society, 2010.
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