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1- IDENTIFICAÇÃO
Título do Plano de Trabalho : O vivenciar a morte como uma possibilidade no cotidiano em
Enfermagem: visão de docentes.
Nome do Bolsista: Luana Rocha Santana
Nome do orientador: Lícia Maria Oliveira Pinho
Local de execução: Departamento de Enfermagem da Universidade Católica de Goiás
Vigência do Plano de trabalho : agosto de 2003 a julho de 2004.
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2 - INTRODUÇÃO
A morte é um fenômeno único, individual e inevitável. Assim como o nascimento, a
morte é um processo natural da vida que desperta as mais diferentes reações emocionais nos
seres humanos.
O processo da morte e do morrer tem todo um contexto histórico e cultural que vem
sendo estudado desde a antigüidade. A morte vem sofrendo modificações a cada época, pois é
interpretada de acordo com os momentos históricos.
A morte, antigamente um evento familiar, vem se tornando cada vez mais
individualizada e particularizada. A medicalização, a evolução da tecnologia médica faz com
que o doente permaneça um tempo maior no hospital com os profissionais de saúde do que
em casa com a família. Esta mudança gera um clima de desconforto, desespero e ansiedade
por parte do paciente, que se encontra num momento doloroso e angustiante em um lugar
estranho com pessoas desconhecidas. Justamente no momento em que a pessoa mais precisa
de atenção, apoio e carinho para enfrentar o seu imenso medo, ela se sente só, longe dos
familiares e amigos.
Segundo Penna, Nova, Barbosa (1999), “a tecnologia disponível na saúde induz os
profissionais a pensarem sobre a possibilidade de se evitar a morte do outro e,
conseqüentemente a sua, ao prolongar a vida da espécie, afastando-a cada vez mais do viver
humano, colocando-a como um processo à parte da vida... daí a angustia perante a mo rte,
porque geralmente não conseguimos conviver com a alteridade, e a morte é a própria
alteridade da vida”.
O medo da morte faz com que familiares ocultem o diagnóstico de doenças tidas como
fatais do doente, freqüentemente querendo poupá- lo do sofrimento. Porém, não percebem que
esta conduta aumenta a angustia e a ansiedade de todos, deixando-os ainda mais isolados do
ente querido.
Hennezel, citado por Rezende (2000) diz que: “As famílias sempre imaginam que o
enfermo não suportaria a verdade. Não se dão conta de que ele já sabe e a suporta só [...]”.
(acho que falta algo)
Os familiares tentam esconder a morte não apenas do doente, mas deles próprios,
numa tentativa infrutífera de afastá- la e, conseqüentemente, prolongar a vida de quem se ama.
Muitas vezes eles carregam todo o fardo da morte, enfrentando angustia, revolta e negação
sempre no intuito de proteger o paciente.
De acordo com Viscott (1982), “As perdas mais difíceis de suportar são as que não
podem ser substituídas, e sim, somente podem ser aceitas. A morte de alguém que amamos
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terrivelmente. As palavras conciliatórias que poderíamos ter dito antes, agora jamais poderão
ser ditas. As restaurações que poderíamos ter feito em nosso amor nunca mais poderão ser
efetuadas". Heidegger, citado por Rezende (2000) coloca que, “ninguém pode sentir por mim
a minha dor, nem ninguém pode morrer por mim a minha morte”.
O processo de morte e do morrer nos desperta sentimentos que não estamos
acostumados a expressar e nos cobra ações que não estamos preparados para exercer como:
ouvir, tocar, olhar, chorar, acalentar e acariciar. Ações estas mais simples que a maioria dos
procedimentos realizados rotineiramente nos hospitais. Porém, estes procedimentos por serem
na maioria mecânicos e não exigirem sentimentalismo, tornam-os mais fáceis de ser
executados.
Segundo Alves (2000), “as rotinas do trabalho ocultam a nossa verdade. Mas elas não
podem impedir nem que a tarde chegue, com suas cores de adeus, e nem que o outono chegue
[...]. Se prestarmos atenção e ouvirmos o que nos dizem, ficaremos sábios. Porque sabedoria é
isto: contemplar o abismo, sem ser destruído por ele”.
A hospitalização afasta o doente da família e dos amigos, tornando-o mais sensível,
solitário e deprimido, temendo ainda mais o processo de morte- morrer. A pessoa que está
morrendo, na solidão de um quarto de hospital, perde sua identidade e o controle de suas
ações, entregando nas mãos da equipe de saúde o que lhe resta de vida.
Diante disso surgem algumas indagações: Que tipo de ajuda o doente necessita no
momento da morte? Será que os profissionais da saúde estão preparados para ajudar neste
momento? Onde, quando e de que modo é discutido sobre a morte e o morrer com os
acadêmicos da graduação da área da saúde? Será que os docentes destes cursos sentem-se
preparados para discutir com profundidade e tranqüilidade sobre a morte e o morrer com seus
alunos? Será que as universidades formam profissionais preparados para lidar com morte e o
morrer? É possível ensinar a morte e o morrer?
Convivendo com esse processo e observando o cotidiano dos professores do
Departamento de Enfermagem e Fisioterapia da Universidade Católica de Goiás, nasceu a
motivação para a realização do presente estudo.
A maioria dos professores do curso de Enfermagem já passou por momentos difíceis
de angustia, medo e insegurança diante da morte, seja na vida pessoal ou profissional. Deste
modo, iremos buscar as respostas às nossas inquietações através do discurso de Enfermeiros
(as) docentes do curso de Enfermagem da Universidade Católica de Goiás.
Os profissionais de saúde, incluindo Enfermeiros, vêem a morte como um fracasso,
um ato de covardia. É necessário entender que o papel do Enfermeiro, assim como de outros
profissionais da saúde, vai além da cura e da manutenção da vida a qualquer custo.
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Acreditamos que quando a morte chega, o importante é ficar ao lado do paciente e da
família, apoiando, ouvindo, amenizando e facilitando a chegada e a aceitação do fim. Talvez
assim, poderemos minimizar os sentimentos de fraqueza, insegurança e impotência, sempre
presentes no momento da morte. Realizamos esta pesquisa com o objetivo de compreender a
morte e o morrer através do olhar, das lembranças e dos sentimentos vivenciados por
Enfermeiros docentes do curso de Enfermagem da UCG no seu cotidiano profissional e/ou
pessoal.
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3 - REVISÃO DA LITERATURA
A morte é um processo inevitável e ao longo da história vem despertando o interesse
de vários pesquisadores resultando na publicação de importantes e relevantes reflexões, livros
e artigos sobre o assunto.
Hoje, falar sobre a morte desperta temor e medo entre os seres humanos, pois está
associado à tristeza, a perda, ao silêncio e ao desaparecimento, o que parece explicar nossas
dificuldades em lidar com esse tema. Entretanto, por muito tempo a morte foi considerada e
encarada como parte da vida.
A visão da morte e do morrer pode variar de acordo com o período histórico da vida,
resultando então em uma complexa conceituação do processo de morte. A discussão sobre o
processo de morte não é recente, vem inserida em um contexto histórico e cultural. Vários
autores descrevem as mudanças que esse processo sofreu desde os tempos primitivos até hoje.
Áries, em seu livro História da morte no ocidente, nos mostra como o processo de
morte sofreu transformações adquirindo assim em cada época características distintas.
Segundo Ariès (2003), "antigamente a morte era esperada no leito. (...) uma cerimônia publica
e organizada. Organizada pelo próprio moribundo (...) era importante que os parentes, amigos
e vizinhos estivessem presentes. Levavam-se as crianças. (...) a simplicidade com que os ritos
da morte eram aceitos e cumpridos, de modo cerimonial, evidentemente, mas sem caráter
dramático ou gestos de emoção excessivos”. Época em que o autor chama de "morte
domada”.
Corroborando com o autor supra citado, Matos citado por Paduan (1984) diz que
“nas culturas primitivas, (...) havia sentimentos de aceitação [o que transformava] o evento
morte num processo universal de vida, tanto que dos rituais, participavam a família e a
comunidade, quando, então, os parentes e amigos permaneciam ao lado do moribundo,
transformando aquela experiência individual num acontecimento tribal coletivo”.
A morte e morrer, com o passar dos séculos foi sendo alterado. O que antigamente
era aceito, esperado e compreendido, hoje é negado, não esperado e incompreensível.
Ariès (2003) diz que: “O homem na antigüidade parecia saber mais e encarar melhor
a morte, conhecendo bem os sinais que a antecediam, e tomavam todas as providências em
relação à sua vida e a de sua família. Considerava a morte um evento público, do qual todos
os familiares e amigos participavam”.
Para Airès, a partir do Século XVIII, a morte vai se tornando selvagem. O
movimento da morte passa a perder a importância, não se observando mais os avisos que
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antecedem a morte. A morte ainda é esperada no leito, mas agora com dor e sofrimento da
separação. A morte perde também seu glamour e passa a ser mais discreta.
O século XIX foi marcado por fortes mudanças na maneira de encarar a morte. Ela
passa a ser desejada, o que Aires denomina de "doçura narcótica". Essa é a morte dos jovens
de rostos corados pela febre da tuberculose. "Morrendo jovem, escapa-se dos sofrimentos que
virão com a idade, a degeneração e decadência. A morte é uma possibilidade de fuga, para o
Além, por isso é desejada e traz alegria." (Kovács, 2003).
A caminho do século XX, a imagem da morte passa a ser invertida. Ela não é vista
nem como horrível, nem com agradável, deve passar simplesmente despercebida, que nada
mais anuncie sua presença.
O medo e a tentativa de fuga da morte criam uma barreira afastando a família, o
doente e a equipe de saúde. Todos ficam sem saber o que fazer, como agir. Parecem não
querer se envolver na tentativa de não experienciarem sentimentos como a culpa, a angustia, o
medo e a sensação de fracasso, freqüentemente relacionados à morte.
Segundo Lunardi Filho, Sulzbach, Nunes, Lunardi, (2001), “a morte é um evento
biológico que encerra uma vida. Nenhum outro evento vital é capaz de suscitar, nos seres
humanos, mais pensamentos dirigidos pela emoção e reações emocionais do que ela seja no
indivíduo que está morrendo, seja naqueles à sua volta”.
Para Paduan (1984) “a morte e o morrer são fenômenos dinâmicos dentro do
contexto de vida, e que por serem percebidos predominantemente como fatos finalistas
constituem-se num desafio para os vários ramos das ciências (...).” De acordo com Weil,
citado por Paduan (1984) “A morte esta presente em todos os momentos da vida, como um
processo de mudança, de transformação”.
Nessa visão, julgamos importante assinalar Koseki (2000) quando diz que: “Os
níveis de ansiedade, tensão e emoção tornam-se elevados nos pacientes, familiares e
cuidadores. É importante que a equipe de profissionais desenvolva uma conduta irrepreensível
e estruturada, a fim de controlar os sintomas e apoiar os familiares”.
Ainda nesse sentido, Rezende (2000) revela que: “quando o paciente se encontra em
fase terminal, o maior desafio da equipe é ter sensibilidade para ajudar o paciente em suas
diferentes dimensões: corpo, mente e espírito. (...) os familiares ficam muito confusos e
inseguros para conversarem com o paciente (...) angustiam-se e tentam dissimular,
desconversando sempre que aparece o tema da morte achando que estão protegendo o
paciente. Não se dão conta que isso só aumenta o isolamento.(...) a família tem um papel
fundamental durante todo o processo da doença, principalmente no fim. É o momento em que
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a união ou as ausências afloram com toda a intensidade, numa última tentativa de
reconhecimento e resolução.”
Segundo revelam os autores supracitados, o paciente no hospital sente-se inseguro e
amedrontado por não saber o que lhe espera. Essa insegurança também atinge os familiares,
pois a morte virá e se desesperam por não saberem o que fazer para afastá-la. Por isso,
devemos trabalhar o emocional não só do paciente, mas também dos seus familiares, que
inseguros e fragilizados, sofrem por não saber como ajudar o doente.
Torna-se imprescindíve l também assinalar a contribuição efetiva da médica
psiquiatra Drª Kübler-Ross, que muito tem colaborado com os estudos sobre a morte,
buscando a visão do paciente em fase terminal. Essa autora entende que “a morte constitui
ainda um acontecimento medonho, pavoroso, um medo universal, mesmo sabendo que
podemos domina- lo em vários níveis. (...) o que mudou foi nosso modo de conviver e lidar
com a morte, com o morrer e com os pacientes moribundos. [ ] Há muitas razões para fugir de
encarar a morte calmamente. Uma das mais importantes é que, hoje em dia, morrer é triste
demais sob vários aspectos, sobretudo é muito solitário, muito mecânico e desumano”.
Ressalta ainda que “custaria tão pouco se lembrar de que o doente também tem sentimentos,
desejos, opiniões e, acima de tudo, o direito de ser ouvido”. (2000)
Diante de uma notícia de morte, o indivíduo pode manifestar diferentes sentimentos
e atitudes. Kübler-Ross dividiu essas atitudes em cinco estágios, sendo eles a negação e
isolamento, raiva, barganha, depressão e aceitação.
A negação é uma fase pela qual há uma rejeição do fato, ocorre uma intolerância em
conceber a idéia de morte. Em qualquer circunstância, o indivíduo desvia o seu pensamento
da compreensão evitando assim o sofrimento.
Na segunda fase que é a revolta, ao perceber que mesmo vagando seus pensamentos
em busca da razão de viver, a idéia de morte ainda persiste e nesse momento percebe-se a
instalação da revolta, onde a pessoa sente a finitude do seu mundo. Sua vida, família, projetos
e sonhos estão se acabando e não tem como reverter este quadro. Diante de tudo isso, sente-se
enganada, impotente e derrotada, entra então em uma terceira fase que é a depressão.
Na depressão, a introspecção se torna num castigo onde o sentimento de culpa toma
conta do seu ser. A morte é percebida, passa a ser real.
Ao perceber a certeza da morte, a quarta fase passa a fazer parte da sua vida, a
negociação. Nessa fase, a pessoa encontra-se repleta de justificativas na tentativa de conseguir
a prorrogação da vida. A ne gociação não se efetivando, a pessoa tende a aceitar a morte.
Na última fase, a aceitação, a pessoa tem a sensação de plenitude total de paz onde,
aceitando a morte, a relutância deixa de existir.
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Um dos primeiros sentimentos a aflorar é o medo. Para Atché, citado por Paduan,
(1984) diz que ”o medo da morte é subjetivo uma vez que ele representa o medo do
desconhecido. O estado de estar morto constitui para as pessoas a mais desconhecida das
experiências. (...) o medo de morrer se faz notar nos medos de perda do corpo, da auto
identidade e do auto controle, solidão, abandono, dependência, regressão”.
Kastembaum, Arsenberg (1983), em seu livro psicologia da morte, escreveu que o
“medo é o estado psicológico mais comum, é a mais típica ou mais importante resposta
psicológica à morte”.
Diante de tantos sentimentos ruins a aceitação da morte torna-se algo difícil e até
impossível para alguns. Na tentativa de incentivar a aceitação da morte Pavani (2000) diz que
“pensar a morte deve nos ensinar a amar a vida sem nos apegarmos a ela, vivendo-a em
plenitude, de forma autentica e alegre. Temos que aprender a não negar a existência da morte
e a aceitá- la com naturalidade. Procurar viver em acordo com esta concreta realidade,
admitindo a própria morte, aceitando-a quando e como vier, vivendo bem, com amor e de
maneira desinteressada”.
Silva (2001) relata que: “(...) viver plenamente a vida implica também em aceitar a
morte, conviver com ela a cada instante, fazer dela uma fiel companheira. Implica na
consciência de que morro a cada instante, e renasço a cada instante”.
Já para Ariès (2003), “(...) a familiaridade com a morte era uma forma de aceitação
da ordem da natureza, aceitação ao mesmo tempo ingênua, na vida cotidiana e sabia nas
especulações astrológicas. Com a morte, o homem se sujeitava a uma das grandes leis da
espécie e não cogitava em evita- la, nem em exalta-la. Simplesmente a aceitava, apenas com a
solenidade necessária para marcar a importância das grandes etapas que cada vida devia
sempre transpor”. Ao finalizar seu livro História da morte no ocidente, Aires também afirma
que ”não é fácil lidar com a morte, mas ela espera por todos nós... deixar de pensar na morte
não a retarda ou evita. Pensar na morte pode nos ajudar a aceitá-la e a perceber que ela é uma
experiência tão importante e valiosa quanto qualquer outra”.
Também não podíamos deixar de citar a Enfermeira Drª. Magali Boemer, que se
tornou uma das maiores difusoras sobre o estudo da morte e o morrer nas universidades
brasileiras. Boemer (1998) considera que “o paciente traz consigo todo um potencial de vida,
de seu mundo, de sua existência, continua a existir no seu morrer e passa a existir na sua
morte (...) somente quando os seres que atuam na área da saúde entenderem a morte como
parte da existência é que poderão estar-com-o-paciente na sua terminalidade, não se
antepondo a morte como um desafio à vida, mas como parte integrante e inalienável
dela”.Boemer (1998) acredita que agindo modo desse modo, sentimentos como medo e
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insegurança desaparecerão, podendo o paciente então, ser visto em todo o seu nível físico,
psicológico e espiritual, não perdendo sua identidade e sua individualidade como ser humano.
Boemer (1998) afirma que “o paciente terminal, por ser pessoa, por existir, forma com seu
mundo um todo unitário e estrutural: é um ser no mundo (...)”.
A aceitação da morte pode levar o profissional de saúde a um melhor
relacionamento com o doente e sua família, o que seria muito importante, já que hoje o doente
terminal passa a maior parte do tempo confinado a um leito de hospital. Para Kubler-Ross
(2000), “hoje, morrem muito mais pessoas na solidão hospitalar, que no aconchego de suas
casas, junto dos seus familiares”. Ziegler (1975) citado por Paduan (1984), também afirma
que; “os moribundos foram levados para os hospitais para morrerem sozinhos .... morrer se
torna solitário e impessoal porque o paciente não raro é removido de seu ambiente familiar e
levado às pressas para uma sala de emergência”.
Tudo isso se deve à rotina e ao mecanicismo dos profissionais, como diz Fidelis
(2001) “percebe-se que o ato de cuidar torna-se mais difícil. Quase toda a atenção profissional
volta-se para o controle das máquinas, números... distanciando o paciente cada vez mais dos
familiares e das pessoas que tem grande importância no seu processo de viver”.
Chauí, citado por Paduan (1984), explica que “o profissional da saúde desempenha os
mais diversos papéis enquanto trabalha com o paciente. Nesse desempenhar de papéis, entram
em jogo muitos dos seus aspectos pessoais, ou sejam, os valores morais, religiosos, culturais,
filosóficos e ideológicos, que o levam a assumir posturas as mais diversas, diante das
diferentes situações que enfrenta”.
Por enquanto só sabemos que devemos lutar pela vida, com toda a tecnologia
hospitalar disponível, pois inúmeras vidas também foram salvas graças à evolução da
medicina. Precisamos também nos apropriar de conhecimentos para afrontarmos a morte
como enfrentamos a vida.
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4 - TRAJETO METODOLÓGICO
Buscando compreender a morte através do olhar, de lembranças e sentimentos
envolvidos de cada professor em seu cotidiano profissional e pessoal que vivenciaram
instantes incertos e banais de seu mundo-vida, procuramos desenvolver este estudo, na
expectativa de que o fenômeno fosse desvelado. Para tanto, fizemos opção pela abordagem
qualitativa, uma vez que atende nosso objeto de interesse e segundo Martins e Bicudo (1994),
“... a pesquisa qualitativa busca uma compreensão particular daquilo que estuda... não se
preocupa com generalizações, princípios e leis... o foco de sua atenção é centralizado no
específico, no peculiar, na individualidade, almejando sempre a compreensão e não a
explicação dos fenômenos estudados”.
Em tal abordagem com inspiração fenomenológica, espera-se que o fenômeno se
mostre por si mesmo, na sua essência, uma vez que não depende a priori de teorias
explicativas, estando seu maior enfoque centrado na compreensão do que se deseja conhecer.
Pois, “... não se fazem análises prematuras ou construções explicativas a priori nas descrições
dos fenômenos... as descrições se referem às experiências que os sujeitos viveram. Nelas estão
a essência do que se busca conhecer e a intencionalidade do sujeito”. (Martins e Bicudo,
1994).
Demo, citado por Minayo (1996), foi muito oportuno ao comparar o desvelar dos
fenômenos sociais com a pintura, afirmando: "o que se pode ter dos fenômenos sociais, é
menos um retrato e mais uma pintura..." Fato que nos leva a concordar com a autora acima
citada quando relata que: “... pintura nos inspira a idéia de uma projeção em que a realidade é
captada em cores e matizes particulares, onde os objetos e as pessoas são reinterpretados e
criados num processo de produção artística... Nesta obra entra tanto o que é visível como as
emoções e tudo se une para projetar a visão da realidade”.
Na tentativa de compreender o fenômeno vivido e de captá-lo como "pintura" que
projeta a construção do ser social, descobrimos a importância de buscar essa realidade no dia
a dia das pessoas, observando seu quotidiano. Assim nos deparamos com as idéias de
Maffesoli e a sociologia compreensiva.
O cotidiano envolve tudo que se manifesta no florescer da vida. Maffesoli (1984)
considera que “... a teatralidade de todos os dias, o trivial, o diário, a própria banalidade
remetem... à essência de todo projeto artístico que consiste em exprimir e viver a totalidade”.
Na verdade, falar em quotidiano significa tentar entender toda a importância e riqueza que
constitui o mundo vivido de cada um. Como diz Maffesoli, o cotidiano compõe esses "nadas"
que perfazem toda existência.
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Numa pesquisa qualitativa é essencial que se estabeleça uma boa relação entre o
sujeito e o pesquisador. Nesse estudo, a fonte principal de informações foram seis enfermeiros
docentes do curso de Enfermagem da Universidade Católica de Goiás (UCG), que se
dispuseram a colaborar voluntariamente com a pesquisa.
Para a coleta das informações, utilizamos de entrevista semi-estrutura. As entrevistas
foram gravadas em fitas-cassete, com a prévia autorização do entrevistado.
As entrevistas tiveram início após a aprovação do projeto pelo Comitê de Ética e
pesquisa da UCG e assinatura do termo de consentimento e esclarecimento pelo entrevistado.
Para manter o sigilo e o anonimato dos participantes e atender a Resolução 196/96 do
Conselho Nacional de Saúde (Brasil 1996), os entrevistados foram rebatizados com nomes de
flores do cerrado.
Para que o entrevistado revelasse seu pensar, formulamos as seguintes questões
norteadoras:
•
Fale para mim sobre a morte.
•
Como o tema morte e morrer é abordado em sua sala de aula?
•
Sente-se preparado(a) para ensinar e falar sobre morte com seus alunos?
•
Sente-se preparado(a) para falar sobre a morte com pacientes e seus familiares?
O encerramento da coleta das informações ocorreu quando percebemos a saturação das
informações, ou seja, quando os conceitos pesquisados se repetiram.
Para analisar a descrição, seguimos os passos propostos por Martins e Bicudo (1994),
que consistem em:
•
Ler a descrição com a finalidade de apoderar-se da experiência vivida pelo sujeito.
Aqui, o pesquisador deverá entrar no mundo vivido do sujeito, com o objetivo de
familiarizar-se com sua linguagem.
•
Colocar em evidência as unidades de significado, ou seja, delimitar as respostas às
interrogações.
•
Transformar as falas dos sujeitos em linguagem psicológica. Essas transformações
têm o propósito de chegar a categorias, que por sua vez devem surgir das
descrições feitas pelos sujeitos.
•
Reagrupar as unidades de significados para descrição consciente de estrutura do
fenômeno.
Fizemos a análise dos relatos sobre o olhar da sociologia compreensiva de Michell
Maffesoli e de estudiosos sobre o assunto. Assim, desvelamos o que é para o Enfermeiro
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docente do curso de graduação em Enfermagem da UCG lidar com a morte e o morrer no seu
cotidiano.
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5 – O DESVELAR DO FENÔMENO
5.1 - “Morte é algo muito mais profundo do que se possa imaginar”
Os Enfermeiros docentes participantes desse estudo percebem a morte como algo
muito difícil, complicado, sério, sofrido e doloroso. Acreditam também ser uma passagem,
um processo natural, uma interrupção de todos os sinais que designam a vida, um momento
que cessa, finitude e desaparecimento, como podemos ler abaixo:
“Falar sobre a morte é sempre muito difícil (...) tinha um medo
tremendo (...) procurava fugir (...) você tenta fazer uma couraça pra se
proteger contra a dor (...) um casulo pra se esconder, pra proteger os
seus sentimentos (...) é muito doloroso (...) você não consegue ver isso
assim, com naturalidade, você sofre (...) é uma coisa complicada (...) é
complicado (...) é serio demais sofrido demais (...) é uma das passagens
mais terríveis para todos nós (...) é uma passagem, é uma separação (...)
aquela dor às vezes é tão grande, tão forte (...) é difícil demais, doloroso
demais”. Ipê Amarelo
“É difícil definir a morte (...) é um processo natural da vida (...) ela me
impõem um pouco de medo (...) é difícil acostumar com a idéia de morte
(...) porque causa assim uma certa angus tia, um certo medo realmente
(...) falar de morte eu acho que mexe (...)”. Acácia
“É algo muito mais profundo do que se possa imaginar (...) da morte
você tira experiência (...) ela é extremamente dolorosa (...) trabalhar
com isso não é fácil, você acaba tendo que desenvolver alguns
mecanismos de sentimentos ou de barreiras (...) você tem que aprender
a lidar com a morte e ela não é fácil.” Flamboyant
“A morte pra mim até pouco tempo eu pensava assim de maneira
diferente (...) eu não tenho medo de morrer não (...) eu preocupo no
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sentido assim de morrer, só em deixar os meus filhos (...) eu só acho que
não acaba com a morte (...) eu acho que a gente morre aqui, mas
começa uma outra vida”. Umburuçú
“Morte é um estado, uma condição do ciclo de vida onde há a
interrupção de todos os sinais que designam a vida (...) é o momento
que cessa o funcionamento do organismo humano, ou qualquer
organismo vivo (...) falar em morte é falar em finitude, é falar em
perda, falar em desaparecimento e isso gera angustia, ansiedade”.
Cerejeira
“Cada pessoa tem um sentido de ver a morte, eu vejo a morte como
uma coisa mais simples, é o nascer de uma pessoa realmente, afeta
realmente as pessoas (...) a morte é uma passagem natural que o homem
precisa aprender com maior facilidade, como o nascer seria o morrer
também”. Barriguda
Os sujeitos mostram que é muito difícil lidar com o processo de morte e morrer, pois é
um tema que desperta sentimentos variados, nem sempre positivos. Falar de morte é
complicado, é como se houvesse um bloqueio impedindo que a conversa fluísse naturalmente.
As pessoas não se sentem à vontade para falar de morte.
Se pudéssemos aprender com o paciente que morre, se conseguíssemos viver a morte
do outro e falar sobre ela, provavelmente conseguiríamos compreender as limitações dos seres
humanos e quem realmente somos. Como afirma Maffesoli (1984); ”... a morte é essa
realidade vivida e gerida todos os dias, iminente ao dado individual ou social e parte
recebedora de todas as situações. Nem outro registro, pode-se ainda dizer que, pelo limite, a
vida trágica não funciona a partir do ‘deve-ser’, a partir do ‘projetos'(os amanhãs que cantam
ou outras formas de paraíso), ela se encontra totalmente ancorada no presente e nele se esgota
como tal”.
A riqueza de ouvir o outro na hora da morte pode nos proporcionar a compreensão do
presente, dos sentimentos, das angústias e do medo que sentimos da finitude.
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“É complicado (...) as pessoas geralmente se fecham, elas só vão pensar
nisso quando elas estão passando, vivenciando aquela situação de
sofrimento (...)”. E1
É difícil falar de morte sem deixar transparecer algumas emoções, pois é um momento de
sofrimento e dor em que algumas pessoas se desesperam e se entregam acreditando que não
irão suportar a separação do outro. Mas o sofrimento fortalece e as experiências nos tornam
mais fortes e preparados para enfrentar certos momentos da vida. Para nós a morte não
significa o fim, mas somente uma separação, separação apenas física, pois os sentimentos e as
lembranças permanecem guardados, sendo aflorados sempre que a solidão e a saudade se
fizerem presentes.
O medo é um dos sentimentos mais presentes no processo de morte e morrer, está ligado
aos demais sentimentos, como: a angustia, a dor, a saudade e o sofrimento. Segundo ComteSponville (1997), “o medo é uma função vital, e não poderíamos viver muito tempo sem ele
(...) somos fracos no mundo, e mortais na vida. Expostos a todos os ventos, a todos os riscos,
a todos os medos (...)”. De acordo com Penna (1999), “sentimos a perda, a dor, a falta, a
tristeza, porque somos humanos e esses sentimentos são particularmente humanos, tanto
quanto os de alegria, o riso (...) revelando um ser mortal, que tem medo frente à morte (...)”.
Segundo Sponville (1997) “ter medo da morte é ter medo de nada, e isso define bem a
angustia e nossa loucura (...)”.
Os sujeitos também vêem o processo de morte e morrer como o momento em que
desaparecem os sinais que designam a vida. Para Sousa e Gonçalves (2000), “o morrer faz
parte da vida, sendo, na verdade, a evolução final do processo de viver (...) assim como o
nascer, a única certeza que temos é que um dia será preciso morrer (...) quando falamos sobre
e encaramos a morte, encontramos um sentido para a vida, valorizando cada detalhe do nosso
viver, e descobrimos que o valor da vida não se expressa pela quantidade de dias que vivemos
e sim pela qualidade de nossa experiência. ”
“Eu considero isso que é um estado ou um momento no qual
desaparecem os sinais que designam a vida, o organismo vivo, aquele
momento é considerado morte onde acontece um desprendimento ou
uma interrupção desse ciclo de vida”. E5
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“A morte seria a parada de nossas funções vitais que é do nosso corpo, e
a mudança do espírito que nós temos dentro de nós, da nossa energia
para outro campo, para outro local”. E6
Apesar de serem tratados com medo e dificuldade, a morte e o morrer é considerado um
processo natural dos seres vivos em que ocorre a parada dos batimentos cardíacos e,
conseqüentemente, dos demais órgãos, finalizando os sinais que representam vida: respiração,
temperatura, pressão arterial e pulso.
Aceitando a morte como parte da vida é segundo Maffesoli (2003) a melhor forma de
encará- la.”... sobe a perfectibilidade do homem e da sociedade, para além das múltiplas
ilusões de todo gênero que formaram o progressismo ocidental, apela a sua lucidez
fortificante, incitando a viver a vida que nos tocou. Integrar homeopaticamente a morte é o
melhor meio de se proteger ou, ao menos, de se tirar proveito”.
"... o indivíduo não é só corpo, ele é corpo e alma, ele é corpo e espírito.
O que diferencia o espiritismo, catolicismo e protestantismo, são os
caminhos que acontecem depois da morte. Um acredita que o indivíduo
vai pro céu, pro inferno ou pro purgatório até que melhore e tal pra
poder passar de um pro outro se for o caso de necessidade, o outro, o
protestantismo acredita que o indivíduo, o corpo, o espírito fica
adormecido aguardando a vinda do criador, quando ela vai ressuscitar,
todos aqueles que foram bons, e levar para ele e tal". E1
"... eu só acho que não acaba com a morte, por exemplo eu morri,
enterrou o corpo e acabou, sabe eu acho que assim do mesmo modo que
nós fomos gestados durante nove meses, nós vivemos ali num lugar
desconhecido, nós passamos nessa vida aqui por um tempo também
desconhecido pra gente, nós não sabemos e eu acho que não acaba aqui,
eu acho que a gente morre aqui ,mas começa uma outra vida, agora
como e onde, não sei". E4
Os participantes desse estudo apesar de relatarem o medo da morte, acreditam na
imortalidade da alma. Muitas pessoas preferem acreditar que a morte ocorre somente com o
corpo, sendo a alma imortal. Penna (1999) acredita que “se o tempo passa e a vida se desfaz,
17
pode-se driblar a morte, através da crença na imortalidade, senão do corpo, pelo menos do
espírito ou da alma, que parece ser a essência humana”.
Acredita-se que a morte é uma passagem, uma separação entre o corpo físico e o
espiritual (alma). Esta alma irá para um lindo lugar, em outro tempo, onde começará uma
nova vida e passará a ter novas experiências. Para Penna (1999), a morte seria “um grande
mistério, mas com uma carga de aceitação coletiva muito grande. Morremos para o mundo
físico e possivelmente iremos para um outro lugar. Morre o corpo biológico (...), mas algo
permanece, passa para um outro estagio, outro lugar. (...) a morte é só uma passagem para
uma outra vida, que continuaremos a viver em um outro espaço, em um outro tempo”. Como
podemos perceber nas falas abaixo, os sujeitos desse estudo concordam com a autora
supracitada:
“(...) eu entendo morte como uma separação, entendo morte, muito no
sentido de religião (...) ela é um sofrimento, é uma dor muito grande (...)
é uma separação, e uma separação temporária”. E1
“Eu sei que a morte não é um fim”. E4
Em consonância, Boemer, Zanetti, Elizabeth,(1991) relatam que “a morte não é o fim
da vida humana no sentido de ser o fim de um caminho que pode ser alcançado ao término de
um trajeto. Para Heidegger, a existência não é dada ao homem como caminho bem arranjado
no fim do qual está a morte; mas a morte, como possibilidade, atravessa sua existência e a
qualquer momento pode surpreendê- lo. Desde seu nascimento, diz Heidegger, o homem já á
suficientemente velho para morrer.”
5.2 - Morte e morrer: um compartilhar necessário
Os Enfermeiros docentes participantes desse estudo relatam que abordar o tema morte
em sala de aula é complicado, envolvem preconceito, temor, dificuldades e exige
sensibilidade do professor. O currículo não inclui o tema da morte, deixando as disciplinas
sem tempo suficiente para discutí- la, como podemos ler abaixo:
“é complicado (...) as pessoas geralmente se fecham, elas só vão pensar
nisso quando elas estão passando, vivenciando aquela situação de
18
sofrimento (...) o nosso curriculum tem muita, muita matéria, muito
conteúdo, muita coisa (...) agora que as pessoas estão se preocupando
um pouco mais com esse tipo de formação (...) é preciso que o
curriculum dê uma maior ênfase (...) é importante explicar para os
nossos alunos que eles estejam melhor preparados (...)eu acho que esta
questão de trabalhar a questão da morte dentro das escolas,
principalmente na área da saúde, eu acho que isso precisa ter
continuidade”. E1
“Eu acho que poderia se focalizar mais a respeito da morte (...) a gente
percebe que o aluno, ele vê a morte como uma coisa assim muito
distante (...) eu acho que nós professores aqui do departamento poderia
investir mais nesse sentido de preparar realmente o aluno pra esse
momento da vida (...)”.E2
“Tenho abordado algumas questões sobre a morte (...) eu sempre
abordo essas questões da morte (...) eu tenho tentado passar as minhas
experiências ao lidar com a morte”. E3
“Ele é sempre abordado com um certo preconceito, temor por parte
tanto de professores quanto de alunos não é um tema do qual se fala
abertamente nem livre de sentimentos, conceitos e preconceitos, é
abordado com dificuldade, inicialmente exige uma sensibilização por
parte do professor em relação aos alunos, ao tema que vai ser abordado
(...) normalmente é uma busca, uma tentativa de se esquivar desses
temas mais, que são geradores de sofrimento e dor (...)é uma temática,
um tema que eu tenho trabalhado já em sala de aula com alunos da
disciplina de psicologia, já tenho trabalhado em outros locais com
grupos, com trabalho de grupo”. E5
“Dificilmente a gente tem comentado a respeito disso, de morte e tudo
mais (...)certamente eu já comentei uma vez com os alunos e eu me
expus com eles (...) Então são coisas que a gente ainda precisa muito
aprender ainda, essa relação entre morte e vida e passagem para outro
lado que é muito importante”. E6
19
Percebemos que o assunto é abordado por algumas disciplinas, porém nenhuma delas
é a ‘responsável’ por 'ensinar a morte'. Prepara-se o acadêmico para cuidar do paciente,
preserva- lhe a vida e a saúde e esquecem de prepará-lo para a possibilidade de morte. Como
se comportar diante de um paciente terminal? Como dar apoio à família? Como fazer para
superar a perda? Como encarar a morte fazendo parte do ciclo vital?
“Nós não colocamos isso com ênfase (...) não tem esse preparo, na
minha disciplina não tem especificamente uma aula pra falar disso,
então sempre nós discutimos isso em campo de estágio e quando
acontece (...) é aquela discussão voltada pro lado cientifico (...) a gente
vai ver patologias, não sentimentos em relação à mãe e essas coisas (...)
eu acho assim que é de suma importância esse assunto ser estudado (...)
eu acho muito importante trazer isso para o aluno (...) nós vivenciamos,
mas só no sentido de presença, nós vivenciamos a morte todos os dias
em campo de estagio, grandes hospitais, em maternidades (...) a gente
busca o lado cientifico pra analisar a morte e deixamos de lado, eu acho,
o sentido dela”. E4
Diante de tudo isso nasce uma dúvida a respeito da formação escolar e a preparação do
profissional em relação à morte. Paduan (1984) ao escrever sua dissertação sobre a educação
dos alunos de graduação em Enfermagem em relação à morte e ao morrer afirma que, “não
raro, na escola o enfermeiro aprende a ser extremamente obsessivo, comportamento imposto
pela necessidade da habilidade técnica. É orientado a dar quase que excessivo sentido à vida,
esquecendo-se que a morte é a única certeza do viver e, conseqüentemente, também
merecedora de importância”.
O ser humano tem uma dificuldade em falar sobre morte, ignoram esse assunto como
se o simples fato de pensar ou falar sobre ela pudesse desencadeá- la. Falar sobre morte
desperta também sentimentos desagradáveis.
Mesmo conhecedores da anatomia, fisiologia do corpo humano e ciclos da vida
(nascer, crescer, envelhecer e morrer), os profissionais de saúde não se desvinculam de sua
cultura, de seus costumes, mesmo que sejam considerados do senso-comum, trazem consigo
as frustrações, os sentimentos de dor e medo diante da morte.
Os médicos e enfermeiros são preparados para preservar a vida, ter o controle sobre
ela e com o avanço tecnológico da medicina, adiar a morte para bem longe da vida.
20
Os sujeitos dessa pesquisa afirmam que na maioria das vezes discutem a morte
somente no momento em que acontece o óbito, abordando questões éticas ou causas mortis do
paciente.
O despreparo dos profissionais de saúde em relação ao processo de morte e morrer
vem desde a faculdade. A maioria dos professores não está preparada para falar de morte e
por isso não preparam também seu aluno, que sai da universidade acreditando que o seu papel
é apenas curar, salvar vidas e retardar a morte. Esquecem do mais importante que é o cuidar.
O cuidar não se resume apenas em atender às necessidades básicas do paciente, mas
algo que não é ensinado nas universidades como: o olhar, o ouvir, o tocar, respeitar os limites
do outro e ficar ao lado do paciente mesmo que ele não tenha mais possibilidades
terapêuticas, garantindo-lhe uma morte digna e tranqüila. Para Kubler-Ross (1997) “a
medicina tem os seus limites, o que não é ensinado nas escolas médicas. Outra coisa que não é
ensinado nas escolas é a compaixão, que pode curar qualquer coisa... a principal ajuda que um
médico pode dar ao paciente é ser bom, cuidadoso, sensível, amoroso – um ser humano”.
Segundo Oliveira e Minayo (2001) “no âmbito da medicina, menos que aceitar, o lema
é estabelecer com a morte um duelo de poder, onde, quando ela é vencida, a onipotência
medica se reproduz e se reafirma em seu objetivo essencial. Prova disso são todos os feitos
mitológicos do setor que, não só atribuem ao medico o poder quase divino, mas levam a
sociedade a reconhece-lo apenas abaixo de Deus... o sonho da imortalidade nunca foi tão
vivido e revivido pela medicina”.
Faz-se necessário compreendermos e pararmos de tentar provar a "inexistência" da
morte. Os profissionais de saúde convivem cotidianamente com a morte e precisam parar de
encará- la como inimiga. A morte é um processo natural do ser vivo e pode nos surpreender a
qualquer hora em qualquer situação ou circunstância.
Viver a morte é permitir-se chorar, arrepender-se, alegrar-se, sentir saudades,
despedir-se, relatar seus desejos, cantar ou ouvir a música que mais gosta, não fazer planos,
não ter que pensar no futuro, "o passado, o presente, e o futuro estão fundados numa
intemporalidade que, em nossa opinião, remete a intensidade do ato, da situação. O que conta
é o instante cuja finitude conhecemos amargamente”. (Maffesoli, 1984)
5.3 - A escola tem que preparar melhor o aluno
Alguns dos Enfermeiros docentes participantes do estudo acreditam que não estão
preparados para ensinar sobre o processo de morte e morrer aos alunos, mas que mesmo se
21
estivessem preparados não poderiam se aprofundar no assunto pelo fato de não terem
oportunidade.
“Eu acho que não (...) a gente nunca está preparada pra ela (...) a escola
tem que preparar o aluno melhor”. E1
“Acredito que se eu buscar mais leituras, discussões e..., eu acredito que
eu possa me preparar melhor (...) eu preciso estar forte e encarar a
morte como um processo natural, até para passar isso pro aluno e pra
que ele perceba também que isso faz parte da vida e que ali foi um
rompimento”. Eu acredito que a gente poderia investir mais nisso, aqui
no departamento, os professores e, sei lá de repente preparar momentos
de discussões e de oficinas, eu acho que as oficinas vão ser
extremamente importantes, porque mexe com esse sentimento que fica
escondido que é o medo da morte”. E2
Porém, outros participantes afirmam que estão preparados, talvez apenas necessitariam
de mais leitura, de estudar e aprofundar mais sobre o assunto.
“Sim, penso que sim (...) você tem que tentar dividir essa experiência
com o aluno”. E3
“Preparada sim, eu acho que não tem oportunidade (...) lógico que vou
ter que ler mais coisas (...) pra dar em sala de aula eu tenho que me
preparar, eu sinto à vontade, tenho interesse, mas não tenho como
encaixar isso aí e tenho que ler e estudar muito pra eu poder falar sobre
isso (...) eu tenho disposição e sei que vou dar conta de falar, mas vou
precisar de estudar, vou ter que ter um preparo”. E4
“Olha preparada teoricamente, eu considero que eu estou, agora cada
turma ela reage de uma maneira diferente a essa questão, então a cada
turma a gente aprende um pouco mais a respeito do tema, de como tá
abordando, de como tá falando, então a gente se prepara a cada
semestre, eu tenho primeiro que conhecer, pra poder me ajustar, me
adequar pra estar falando com a turma, isso do ponto de vista mais
22
afetivo, psicológico né, agora do ponto de vista teórico eu acho que
sim”. E5
“Eu acho que tem que ser quase que individual, porque cada um ele
tem um pensamento, uma maneira de ver e etc. Então isso aí quase que
a gente tem que trabalhar quase que a individualidade de cada um, dar
no geral, essa explicação no geral, mas depois teria que trabalhar a
individualidade de cada um”. E6
Educar para a morte não é fácil, pois envolve questões polêmicas como sentimentos,
costumes, religiões, crenças e culturas. Cada indivíduo parece perceber e encarar a morte de
uma maneira.
Segundo Freire (1982) “Educar-se para a morte e o morrer, requer um espírito de
estudo, não apenas como simples leitura, mas a assunção se uma atitude séria e curiosa diante
do problema, e requer conscientização dos sentimentos que envolvem este educar-se”.
Manzolli citado por Paduan (1984) defende que “os próprios docentes apresentam suas
limitações e medos para abordar o tema (...) a necessidade, portanto, de mudança de postura
dos docentes, de reformulações nos currículos dos cursos de Enfermagem, da percepção da
importância de estudar a morte e o morrer, de aulas envolvendo professores de várias
ciências, se fazem urgentes a fim de que se possa ajudar os alunos, deixá- los menos tranqüilos
na comodidade do medo da morte e permitir que tenham formação e amadurecimento pessoal
e profissional”.
Costa acredita que o que acontece é que “nem todos os estudantes de enfermagem e os
enfermeiros estão cônscios de seus sentimentos acerca da morte, além de desconhecerem a
importância que têm como profissionais junto ao paciente grave e ou que vem a falecer”.
(Costa citado por Paduan, 1984)
Concordamos com as autoras supracitadas quando dizem que se faz necessário
repensar os currículos de Enfermagem, pois com o processo acelerado da medicalização da
morte está fazendo com que as pessoas faleçam entre estranhos e longe de seus familiares. As
escolas não discutem esse tema como deveriam. A morte é utilizada apenas para extração de
conhecimento científico. Segundo Zaidhaft (1997) “os alunos realizam dissecações para
conhecer a anatomia do corpo humano, fazem necrópsia para descobrir o motivo e o momento
da morte, mas não questionam a situação anterior à morte”.
Hennezel e Leloup (2004) dizem que "os profissionais da saúde são, antes de tudo,
pessoas. Como todo mundo, sofrem com esse menosprezo pelas questões relativas à morte.
23
Cresceram em uma sociedade na qual já não se fala no assunto. Como acontece com todos
nós, eles sentem a ausência de sentido que é o resultado do afastamento das grandes tradições
que nos preparavam para a morte e nos ajudavam a decifrar o sentido de nossas existências.
Por imposição da laicidade, a maioria dos lugares públicos a serviço dos seres humanos- entre
outros, a escola e o hospital- são espaços onde quase nunca são abordadas as questões
essenciais, as questões relativas à morte e ao sentido da vida. Daí, o sentimento tão
disseminado entre os doentes de estarem reduzidos a um 'corpo objeto', entregues nas mãos da
medicina, e não serem reconhecidos como 'pessoas', com uma memória, uma história,
sentimentos, medos e um pensamento que se interroga”.
Estamos vivendo momentos em que a sociedade exige o resgate da humanização e os
profissionais da saúde tentam resgatar o cuidar humanizado e a integralidade do ser humano.
Assim acreditamos que se não é possível ter conhecimento total para ensinar a morte e o
morrer, é possível não encará- la como fracasso, adiá- la por mais tempo que pudermos, porém
oferecendo ao paciente e aos seus familiares uma melhor qualidade de vida, oferecendo amor,
carinho e proporcionando ao paciente a atenção necessária para realização de seus desejos e
vontades.
24
6- CONSIDERAÇÕES FINAIS
A morte é um dos elementos integrantes do ciclo da vida. O indivíduo nasce, cresce
reproduz, envelhece e morre. Esse ciclo, até o envelhecimento, para a maioria das pessoas é
considerado natural e aceitável, sendo o processo de morte e morrer temido e adiado até nos
diálogos. Mas não foi sempre assim. Houve épocas na história em que a morte era aceita sem
temores e o moribundo era respeitado por todos, morria-se em casa junto dos familiares e
amigos sendo cuidado e amado até o último mome nto. Hoje se morre mais nos hospitais do
que em casa.
Nenhum outro profissional convive tão de perto e tão freqüentemente com a morte do
que o Enfermeiro, pois é ele quem passa a maior parte do tempo com o paciente. Diante de tal
observação, sugiram indagações que motivaram a realização deste trabalho. Que tipo de ajuda
o doente necessita no momento da morte? Será que os profissionais da saúde estão preparados
para ajudar neste momento? Onde, quando e de que modo é discutido sobre a morte e o
morrer com os acadêmicos da graduação da área da saúde? Será que os docentes destes cursos
sentem-se preparados para discutir com profundidade e tranqüilidade sobre a morte e o morrer
com seus alunos? Será que a universidade forma profissionais preparados para lidar com
morte e o morrer? É possível ensinar a morte e o morrer?
Na busca por desvelar estes fenômenos tivemos que mergulhar no cotidiano
profissional dos Enfermeiros docentes da UCG e compreender sentimentos ligados ao
processo da morte e do morrer.
Através da análise dos dados colhidos mediante entrevista gravada com os professores,
pudemos perceber que vários sentimentos como medo, angústia e insegurança estão presentes
nas falas dos sujeitos. Afirmam encarar com naturalidade a morte e que estão preparados para
falar sobre morte e morrer com seus alunos, porém alegam que a carga horária é pequena para
um conteúdo complexo e que precisariam ter mais leituras e conhecimento do assunto.
Com esse estudo concluímos que ensinar sobre a morte é exaltar a própria vida. A
Universidade necessita criar oficinas de discussões entre docentes, pois acreditamos ser este
um bom caminho para sanar falhas importantes no que diz respeito ao ensinar o processo de
morte e do morrer. Talvez assim, os professores possam se tornar profissionais habilitados
para ensinar o processo de morte e morrer, compartilhando e discutindo com seus alunos a
melhor forma de lidar com a morte de seus pacientes e de amparar seus familiares no
momento triste, porém inevitável de finitude.
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