Titulo do Simpósio Temático:
Arquitetura e Saúde: história e patrimônio. Experiências em rede.
Titulo do Trabalho:
A influência do Districtal Hospital (EUA) nos Hospitais do
Açúcar no Brasil: uma arquitetura singular em Alagoas nos
anos 1950
Autora: Profª Dra Marcia Rocha Monteiro
Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Alagoas
RESUMO
Do amparo social à saúde do trabalhador açucareiro, no período do Estado
Novo, surgiram inúmeros estabelecimentos de saúde de pequeno e médio porte
para a assistência básica na maior parte dos estados produtores de cana de açúcar.
Surgindo também hospitais centrais grandiosos em Pernambuco e Alagoas. Todas
essas ações foram coordenadas pela Secção de Assistência à Produção, SAP, no
IAA, que orientava os segmentos sobre organização dos serviços e os projetos
arquitetônicos, disponibilizando protótipos para estabelecimentos de assistência
médico-hospitalar e estudos para a lotação de pessoal.
Esse texto, extraído da tese Saúde & Açúcar: história, economia e
arquitetura do Hospital do Açúcar de Alagoas, 1950-2000, defendida na FFLCH/USP
em 2001, apresenta histórico breve da infraestrutura constituída nos anos 1940-50
para a assistência ao trabalhador da agroindústria do açúcar e álcool como
conquista social, iniciada no início do século XX com as reivindicações dos
segmentos da agroindústria açucareira no Brasil por melhores condições de vida,
remuneração, alimentação, moradia, escola, amparo social e assistência à saúde,
que originaram o processo de organização das relações sócio-econômicas entre
usineiros, fornecedores e lavradores de cana, que se consolidou, sob a égide do
Instituto do Açúcar e do Álcool – IAA no Estado Novo, com a organização sindical
cujas reivindicações integraram projetos e ações governamentais.
Mostra a concepção sobre a assistência ao trabalhador da equipe técnica
do IAA que orientava os segmentos canavieiros de cada estado, emitia pareceres
sobre as propostas, planos de assistência à saúde, por eles encaminhados, e
aprovava recursos do Instituto, previstos na lei para concretizá-los. As soluções
eram mais individualizadas, em cada município, e noticiadas apenas na ocasião de
suas inaugurações. Os estados de Pernambuco e Alagoas que se diferenciaram
pelas opções de seus segmentos canavieiros (usineiros e fornecedores) de hospitais
centrais nas capitais, divergindo das concepções da coordenação do IAA, estiveram
em evidência em matérias publicadas na Revista Brasil Açucareiro do IAA.
Apresenta protótipos e explica a influência de modelos americanos nos
projetos dos estabelecimentos de saúde que constituíram essa infraestrutura,
especialmente do Districtal Hospital, um dos hospitais da hierarquia inerente ao
Coordinated Hospital System, sistema hospitalar coordenado, proposto pela Division
of Hospital and Medical Facilities, Public Health Service, Department of Health
Education
and
Welfare,
abreviadamente
USPHS
(Divisão
de
Instalações
Hospitalares e Médicas, Serviço de Saúde Pública do Ministério de Saúde,
Educação e Bem Estar, E.U.A).
Compreender os hospitais do açúcar para além de sua materialidade, a
arquitetura, implica abranger sua origem e eventos subseqüentes relacionados aos
fatos sociais, políticos e econômicos, que a seu tempo, explicam não só o próprio
modelo arquitetônico, como as mudanças ocorridas. Neste sentido, observam-se
duas questões inerentes à sua história, distintas em suas abrangências e
especificidades, porém, imbricadas no mesmo campo do saber: os hospitais
enquanto instituições históricas resultante da política de assistência à saúde do
trabalhador da indústria canavieira no Brasil nas décadas de 1940 e 50 e seu
modelo arquitetônico, extraído do Districtal Hospital (EUA), refletindo no sistema
tipológico a assistência, organização e tecnologia médico-hospitalar de seu tempo.
The influence of the Districtal Hospital (USA) on the Hospitais
do Açúcar in Brazil: a particular architecture in Alagoas in the
l950´s.
Abstract
From welfare do health care of the sugarcane workers, in the period of the Estado
Novo, several small and medium sized clinics were settled, for basic assistance in
most sugar producing states. Large hospitals, also, appeared in Pernambuco and
Alagoas.
All these actions were coordinated by the Secção de Assistência à
Produção, SAP, in the IAA, which guided these segments concerning services
organization and architectural design, making prototypes available for these medicalhospital institutions and, also, providing studies for personnel hiring.
This text, compiled from the thesis Saúde & Açúcar: história, economia e arquitetura
do Hospital do Açúcar de Alagoas, 1950-2000, presented at FFLCH/USP in 2001,
shows a brief historic survey of the infrastructure constituted in the 1940-50´s, for
sugar and alcohol agro-industry workers assistance, as a social conquer. This fact
had started in the XX century, with the claims from sugar agro-industry segments in
Brazil, for better life conditions, salaries, food, housing, school, welfare and health
care, giving origin to social-economic relations among producers, suppliers and cane
workers, under the rules of the Instituto do Açúcar e do Álcool– IAA in the Estado
Novo, with the creation of a union organization for the sugarcane workers, whose
claims were part of governmental projects and actions.
The work shows the IAA technical team conception for the worker assistance, giving
guidance to the cane segments in each state, defining proposals, planning the
worker health assistance,
and approving the Institute financial resources, made
available by law for the targets
accomplishment.
The solutions were found
particularly, in each municipality, and made public only on the occasion of
inaugurations. The states of Pernambuco and Alagoas, which were apart from the
options chosen by the cane segments (producers and suppliers), as to central
hospitals in the capitals, diverged from the IAA coordination guidance and were focus
of features published in the Revista Brasil Açucareiro of the IAA.
Prototypes are, also, presented and the influence of American models in the projects
of the health institutions that comprised this infrastructure is explained, especially
that from the Districtal Hospital, one of the hospitals from the particular hierarchy of
the Coordinated Hospital System, a coordinated hospital system. This type of
administration had been proposed by the Division of Hospital and Medical Facilities,
Public Health Service, Department of Health Education and Welfare, with the
acronym USPHS (Divisão de Instalações Hospitalares e Médicas, Serviço de Saúde
Pública do Ministério de Saúde, Educação e Bem Estar, E.U.A).
To understand the hospitais do açúcar beyond the materiality, the architecture,
implies to cover their origin and subsequent events related to social, political and
economic facts, which explain not only the architectural design itself but the changes
that occurred as well. Under this approach, two issues inherent to their history are
observed concerning scope and specific applications, although belonging to the
same scientific exploitation: hospitals as historic institutions, resulting from the
sugarcane worker health assistance policies in Brazil, in the 1940´s and 50´s and
their architectural design, taken from the Districtal Hospital (EUA), reflecting in the
type of medical- hospital assistance, organization and technology of their time.
Palavras-chave: Hospitalais no Brasil; Arquitetura hospitalar; Hospital Distrital
Key words: Brazilian hospitals; hospital architecture; Districtal Hospital.
A influência do Districtal Hospital (EUA) nos Hospitais do
Açúcar no Brasil
Profª Dra Marcia Rocha Monteiro1
Observava Puerch em 1936:
“O hospital moderno não tem nacionalidade. Ele não é mais, como ainda
hontem se dizia, do typo francez, allemão, ou americano. Sua finalidade
elevou-se de tal modo que, sendo universal pelos seus anseios de protecção e
conservação da vida humana, não poderia senão congregar esforços
unânimes dos povos civilizados, que nesse campo, ora trabalham em
benefício comum. Foi este esforço que inspirou, há seis anos passados, a
creação da Sociedade Internacional dos Hospitaes, hoje prestigiosa na
construcção hospitalar, que orienta consoante os ensinamentos dos factos, e
as necessidades impostas pelo progresso realizado, aplicáveis portanto, por
egual, a todos os pontos povoados da terra civilizada.” (PUERCH,1936,p.233)
Compreender a implantação dos hospitais do açúcar para além de sua
materialidade, a arquitetura, implica abranger sua origem e eventos subseqüentes
relacionados aos fatos sociais, políticos e econômicos, que a seu tempo, explicam
não só o próprio modelo arquitetônico, como as mudanças ocorridas. Neste sentido,
observam-se
duas
questões
inerentes
à
sua
história, distintas
em
suas
abrangências e especificidades, porém, imbricadas no mesmo campo do saber: os
hospitais enquanto instituições históricas resultante da política de assistência à
saúde do trabalhador da indústria canavieira no Brasil nas décadas de 1940 e 50 e
seu modelo arquitetônico, extraído do Districtal Hospital (EUA), refletindo no sistema
tipológico a organização da assistência e a tecnologia médico-hospitalar de seu
tempo.
Desde as origens da economia canavieira do Brasil, as relações entre os
segmentos foram marcadas por contrastes sociais e de interesses, discutidos em
vasta literatura principalmente sobre a estrutura sócio-econômica escravagista,
focalizando meios de produção e o processo de modernização tecnológica, a
paisagem, o homem e a sociedade, seus arranjos e os conflitos entre trabalhadores,
1 Professora Associada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, UFAL. [email protected].
oligarquias e o Estado. Das mudanças advindas da modernização do processo de
produção
açucareira, culminadas
no
aparecimento
das
usinas, emergiram
poderosos usineiros que, visando grandes lucros, compraram e ampliaram suas
terras, controlaram a produção da cana e do açúcar, absorveram ou fecharam
engenhos, expulsando os antigos Senhores.
A gradual transformação das relações e dos contratos de trabalho na
lavoura no Brasil fez emergir os trabalhadores livres e assalariados, juntamente com
os agregados - denominação coletiva para os grileiros, arrendatários e meeiros
cujas condições de vida e de trabalho eram muito precárias e o operário do açúcar,
oriundo do sistema de trabalho industrial das usinas. Esse último conquistou
hegemonia em relação aos trabalhadores agrícolas da cana na luta pelos seus
direitos. Desses eventos resultaram no início dos anos 1920 acordos coletivos de
trabalho e aumento de salário.
A organização das relações sócio-econômicas entre usineiros, fornecedores
e lavradores de cana ocorreu no período do Estado Novo com a legalização da
organização sindical do trabalhador da cana. Processo amadurecido a partir das
reivindicações dos respectivos segmentos, no início do século XX, por melhores
condições de vida, remuneração, alimentação, moradia, escola, amparo social e
assistência à saúde, que possibilitaram a organização das relações sócioeconômicas, consolidada sob a égide do IAA, onde as reivindicações integraram as
preocupações, os projetos e as ações governamentais.
Do conjunto de leis promulgadas para estatuir o setor, baseadas no
Estatuto da Lavoura Canavieira, 1941, ressalta-se o impacto das relacionadas ao
amparo social, especialmente à assistência à saúde dos trabalhadores da
agroindústria do açúcar, pesquisadas na Revista Brasil Açucareiro do Instituto do
Açúcar e do Alcool, IAA, dos anos 1940-50, que tratou o assunto não apenas como
um problema brasileiro, mas de âmbito internacional. Em vários países produtores
de açúcar, a precariedade das condições de vida e assistência médico-social para
os lavradores de cana era igual ou pior, com raras exceções. Nas zonas rurais
quase não havia médicos e hospitais e os trabalhadores eram assistidos por
curandeiros e curiosos. O homem do campo no Brasil valia-se das poucas Santas
Casas de Misericórdia na cidade mais próxima.
A constituição nos anos 1940-50 da infraestrutura para a assistência dos
trabalhadores do setor açucareiro no Brasil foi uma conquista social, o Estatuto
consolidou o direito ao amparo social à saúde do trabalhador, no âmbito a política do
Estado Novo, possibilitando o surgimento de inúmeros estabelecimentos de saúde
de pequeno e médio porte para a assistência básica na maior parte das regiões
canavieiras. E também o surgimento dos hospitais centrais grandiosos como os
“hospitais do açúcar” de Pernambuco e Alagoas.
Fig. 1 - Ambulatórios construídos em municípios canavieiros de Pernambuco,
Bahia, Paraíba e Minas Gerais entre 1956-1958.
Fonte: Revista Brasil Açucareiro.
Fig. 2 - Hospital Barão de Lucena Recife-PE 1958.
Fonte: Revista Brasil Açucareiro.
Fig. 3 - Hospital do Açúcar de Alagoas-Maceió 1957
Fonte: Elevações reconstituídas. Acervo Pessoal.
Essas ações foram coordenadas pela Secção de Assistência à Produção,
SAP-IAA, que orientava sobre os segmentos sobre a organização da assistência
médico-hospitalar, os projetos arquitetônicos dos estabelecimentos, disponibilizando
protótipos para ambulatórios-padrão, tipo I, II e III (não localizadas) e estudos de
lotação de pessoal.
Os técnicos do IAA, responsáveis pelos estudos sobre as condições de
vida, produção e coordenação das ações sociais e assistenciais visavam fazer
chegar ao maior número de trabalhadores do açúcar, benefícios do progresso
científico, nunca ao alcance do bolso do povo, ao menos, os benefícios básicos da
assistência à saúde. Sabiam que era preciso acelerar a disseminação das unidades
médicas, pois, a cada dia, a situação ficava pior com as endemias e precariedade ou
ausência de infraestrutura, equipamentos e profissionais de saúde. Entendiam que a
solução seria a construção de ambulatórios, em locais diversos, racionalizando os
custos das construções com soluções padronizadas que suplantasse os problemas
de escassez de mão-de-obra qualificada, e custo reduzido nas obras e,
posteriormente, manutenção.2
A equipe orientava os segmentos canavieiros de cada estado, emitia
pareceres sobre as propostas, planos de assistência à saúde do trabalhador, por
eles encaminhados, e sobre as verbas solicitadas do Instituto, previstas na lei para
concretizá-los. Defendia a organização de serviços coordenados e hierarquizados e
a adoção de modelos arquitetônicos, seguindo padrões por eles apropriados para
atender a grande demanda, racionalizar os custos e ampliar a assistência à saúde
nas regiões canavieiras do país.
As soluções foram mais individualizadas, de acordo com o potencial de
produção e riqueza de cada estado canavieiro e os arranjos coletivos entre os
segmentos (usineiros, fornecedores e colonos posteriormente entre outros) de cada
município ou de forma individualizada por usina, sendo noticiadas apenas na
ocasião de suas inaugurações. Pernambuco e Alagoas estiveram em evidência nas
matérias publicadas na Revista Brasil Açucareiro IAA, por suas opções de hospitais
centrais nas capitais divergindo das concepções da coordenação do IAA.
2 LEITE, J. O. Idéias em torno duma assistência médico-hospitalar ao trabalhador do açúcar. Revista Brasil
Açucareiro. setembro-outubro, 1948. p. 158.
Fig. 4 - Hospital Barão de Lucena Recife-PE 1958. Planta do Pav. Do Centro Cirúrgico.
Fonte: Acervo do Hospital Barão de Lucena Recife-PE
Além da descoberta de uma infraestrutura significativa gerada no Brasil
nesse período para a assistência à saúde dos trabalhadores canavieiros chamou
nossa atenção, na pesquisa da tese Saúde & Açúcar: história, economia e
arquitetura do Hospital do Açúcar de Alagoas, 1950-2000, defendida na FFLCH/USP
em 2001, a solução e tipologia da arquitetura hospitalar vigentes, seguindo os
pressupostos dos modelos americanos. Essa observação começou com a busca
das origens arquitetônicas do Hospital, estudo de caso da tese, cujo modelo
arquitetônico, segundo o médico fundador IB Gatto Falcão, foi extraído do Districtal
Hospital (EUA) e influência, apresentada com breve histórico, constitui a segunda
questão a ser tratada no texto.
FIG 5 - Modelo de Districtal Hospital para 150 leitos. Fonte: (U.S.D.P.H.S,
1953)
Embora o terreno para a construção do Hospital do Açúcar de Alagoas
somente tenha sido adquirido em 1949, o engenheiro-arquiteto Manoel Messias de
Gusmão (1910-1982), sobrinho do líder dos fornecedores, formado em 1934 na
Escola de Belas Artes, já havia sido convidado pelos responsáveis pela criação da
Fundação-Hospital para elaborar um projeto para o hospital, em fevereiro de 1948.
O programa de necessidades foi elaborado pelos médicos Ib Gatto Falcão, Mariano
Teixeira e Rodrigo Ramalho (GUSMÃO,1949) e “a concepção partiu uma estrutura
central para depois se pensar em unidades periféricas: foi dada a consultoria
científica, o programa e o layout. O projeto foi do Messias”3.
Falcão afirmou que esteve nos Estados Unidos, não lembra a data, e como
gostava, verificou a evolução dos hospitais americanos; começava com uma linha
reta, crescia em forma de T, U, depois, um H e, assim sucessivamente, podendo
chegar a mais de 1000 leitos. Ao retornar trouxe um livro, segundo ele, um manual
ou catálogo, com todos os tipos de hospitais e especificações: 25, 50, 100, 200 ou
300 leitos, não recorda o título, mas, o emprestou ao arquiteto Messias, indicando-
3 FALCÃO, I. G. Informação pessoal, julho, 1997.
lhe qual seria a fonte de inspiração para o projeto do Hospital do Açúcar, o Districtal
Hospital American. (U.S.D.P.H.S, 1953, p 1-3.)
FIG 6 - Modelo de Districtal Hospital para 200 leitos. Fonte: (U.S.D.P.H.S,
1953)
A solução foi adaptada a realidade local, à falta de recursos suficientes para
fazer um hospital mais completo, reduziu-se o programa, “na época, já previa uma
parte científico-cultural, biblioteca, auditórios, restaurante” que foram cortados com a
idéia de construir depois. Em fevereiro de 1949, o arquiteto Messias de Gusmão
apresentou à Fundação Hospital da Agro-Indústria do Açúcar e do Álcool, o projeto
definitivo com um relatório, no qual, constavam os setores e áreas discriminados e o
valor dos seus honorários, calculados em base à tabela do Instituto de Arquitetos do
Brasil, IAB, de junho de 1939.
A área total de construção do hospital foi de 7.220,40m2 x Cr$ 1.500,00 /m2
= Cr$ 10.830,600,00, o valor do projeto arquitetônico, de acordo com a tabela,
importou em 1,1% do custo da obra ou seja, 1,1 % de Cr$ 10.830,6000,0, portanto
Cr$ 119.136,60 ( cento e dezenove mil, cento de trinta e seis cruzeiros e sessenta
centavos). (GUSMÃO,1949) O assunto não foi resolvido logo, pois, na reunião de
22 de agosto de 1949, o conselho da Fundação considerou alto o valor e aprovou a
contraproposta para o pagamento dos honorários de Cr$ 100.000,00 (cem mil
cruzeiros). (F.H.A.I.A.A.AL, 1949) No documento consta a seguinte observação do
arquiteto:
“Convém notar que a elaboração deste último (do projeto definitivo), obedeceu
inteiramente as observações e estudos que realizei em viagem ao Sul do País
logo após a elaboração do anteprojeto, e onde tive a oportunidade de colher
in-loco ampla documentação técnica que se fazia indispensável ao
planejamento definitivo desse trabalho.
Acredita-se que a documentação técnica referida pelo Messias de Gusmão
seja referente Elements of the General Hospital, traduzido pelo Serviço Especial de
Saúde Pública (SESP, sediado na capital federal Rio de Janeiro, cuja publicação
como Padrões Mínimos de Hospitais ocorreu nos primeiros anos a década de 1950.
O projeto arquitetônico do Hospital do Açúcar de Alagoas teve como
premissa o Districtal Hospital que consiste em um dos hospitais da hierarquia
inerente ao Coordinated Hospital System, um sistema hospitalar coordenado, que
resultou de estudos desenvolvidos pela Division of Hospital and Medical Facilities do
U. S. Department of Health, Education and Welfare - Public Health Service,
abreviadamente USPHS (Divisão de Instalações Hospitalares e Médicas, Serviço de
Saúde Pública do Ministério de Saúde, Educação e Bem Estar, E.U.A).
FIG. 7 – Districtal Hospital. Modelo de enfermaria psiquiátrica
Fonte: (U.S.D.P.H.S, 1953)
Districtal Hospital é um dos protótipos criados pelo U.S.P.H.S, trazido do
E.U.A. pelo Dr. Ib Gatto Falcão, primeiro Diretor–Médico da Fundação, época que já
estava divulgado no Brasil (MONTEIRO, 2001, pags. 85 e 125). Este protótipo era
inovador, de construção simples, flexível, ampliável e econômica, refletia um modelo
de assistência e organização dos serviços médico-hospitalares e o conhecimento
médico-científico e tecnológico, considerados dos mais avançados; restaurou em
Alagoas a arquitetura hospitalar com sua arquitetura singular no final dos anos 1940.
No relatório do arquiteto Messias de Gusmão consta que o anteprojeto foi
apresentado em escala 1/200 com as plantas baixas do térreo, 10, 20, 30 pavimentos,
planta de cobertura e casa de máquinas e uma “vista perspectiva rigorosa.” E que o
projeto definitivo constitui-se das plantas acima, detalhadas, e mais, os cortes, dois
longitudinais e um transversal, fachadas principal, nordeste e noroeste, todas na
escala 1/50, além dos cálculos das áreas úteis e construídas.4 A disposição do
edifício com quatro pavimentos, térreo e mais três e em forma de H, foi resumida a
três alas: a ala de serviços, correspondente ao bloco da frente, a ala central ou
intermediária, e a ala de enfermarias, no segundo bloco.
Antes de prosseguir a descrição é importante ressaltar que as únicas
plantas do projeto original do Hospital do Açúcar aprovado em 23 de abril de 1951,
encontradas nos arquivos da prefeitura foram duas cópias, precárias, uma do 10
pavimento e outra de uma fachada. As plantas aqui apresentadas foram todas
reconstituídas com recursos eletrônicos, com base nos levantamentos físicos
efetuados, pessoalmente, e desenhos localizados, de reformas e ampliações de
partes do edifício, não sendo encontrado nenhum desenho do edifício inteiro; muitos
deles foram localizados no almoxarifado, em local úmido e mal acondicionados e,
por isso, deterioraram-se; na maior parte das plantas faltavam dados sobre os
responsáveis técnicos e/ou datas.
O pavimento térreo tinha uma área construída de 1.900,745 m2; no bloco
frontal ou ala de serviços, estavam o Hall de entrada e vestíbulo e telefonista, à
direita, secretária, sala do diretor, sanitários, reuniões, biblioteca, tesouraria, caixa, à
esquerda, recepção, triagem, salas de banhos e passagem, sanitários, farmácia e
manipulação e, almoxarifado; na ala central, estavam a passagem da ambulância,
elevadores, escada, sanitários feminino e masculino, refeitório, frigorífico e
4 A família do arquiteto M. Messias de Gusmão, falecido, foi contatada para conhecer sua obra e ou documentos
que pudessem auxiliar as análises. Infelizmente, o que havia dele fora emprestado, não sendo devolvido aos
familiares.
despensa; no segundo bloco ou ala das enfermarias, constavam uma sala de estar e
um quarto de 3,60 x 6m na extremidade esquerda, seguidos de oito quartos de 5,95
x 3m, com armários, dois sanitários grandes feminino e masculino, uma sala no
centro, e seguindo à direita, copa, cozinha com fogão a vapor, despensa geral,
despensa, depósito, sanitários e uma passagem para veículos separando essa área
da escada de serviços, lavanderia com caldeira e sala de engomar. Do lado externo
estava a sala de caldeiras.
FIG. 8 - Hospital do Açúcar de Alagoas, Planta reconstituída – Pav. Térreo
(1951)
O primeiro pavimento tinha 1.836,585m2; no bloco frontal, havia uma sala
de espera no meio com um terraço, à direita, sala de coleta, laboratório, sala de
prótese, gabinete dentário, uma espera, sala de pequenas operações e lavabo,
sanitários, sala de curativos, espera, consultório, câmara escura, à esquerda, um
consultório, um quarto, fisioterapia, espera, sanitários, radioterapia, radiologia,
passagem, radiodiagnóstico, câmara escura e sanitários; na ala central, repetia-se a
estrutura de circulação vertical, copa, refeitórios com monta-carga e passagem e
instalações sanitárias e havia um quarto e uma sala de enfermeira; no segundo
bloco ficavam as enfermarias, a de crianças com vestíbulo e sala de banho na
extremidade esquerda, seguida de oito enfermarias de 6,15m x 7,40m, posto de
enfermagem, salas de curativos, rouparias, sanitários, duas enfermarias de 3,40m x
7,40m, três quartos para isolamento com sala de banho, sanitários e rouparia e,
escada de serviços na extremidade direita.
FIG. 9 - Hospital do Açúcar de Alagoas, Planta reconstituída – 1º Pav. (1951)
Falcão mandou construir em extremidade da ala direita, um isolamento com
escada de serviços, evitando também que os doentes vissem a saída de defuntos.”5
A escada de serviço para a saída de material contaminado e/ou cadáveres,
no caso, foi conseqüência de preocupação com o aspecto psicológico do paciente,
uma visão moderna da assistência médica, isto remete às soluções de escadas de
serviços na extremidade das enfermarias em hospitais pavilhonares, quase
duzentos anos antes, mas, com outra preocupação, a do contágio.
O segundo pavimento abrangia 1.836,585 m2; no bloco da frente ficavam à
direita, um hall com terraço, um consultório médico, vestíbulo, informações, centro
cirúrgico com sala dos médicos, duas salas de cirurgia, cada uma com uma sala de
anestesia, lavabos, sala de cirurgia ortopédica e central de esterilização, à
esquerda, sete apartamentos e dois quartos, depósito e recepção; na ala central,
repete o mesmo programa do primeiro pavimento, sendo que ao invés de um quarto
para a enfermagem havia uma sala para medicamentos; no segundo bloco ficavam
as enfermarias e salas de apoio com a mesma disposição do primeiro pavimento,
sendo que na extremidade direita, no lugar de quartos para isolamento, havia a
escada de serviço e, depois desta, um solarium.
5 FALCÃO, I. G. Informação pessoal, julho, 1997.
FIG. 10 - Hospital do Açúcar de Alagoas, Planta reconstituída – 2º Pav.
(1951)
Finalmente, o terceiro pavimento dispunha de 1.509 99m2 de área
construída, mais a casa de máquinas 136, 50m2; no bloco frontal, ficavam a
maternidade à direita, com vestíbulo e terraço, seguido do serviço de ginecologia,
duas salas de parto, lavabo e arsenal, além de dois apartamentos, e no outro lado,
mais três apartamentos e a clausura das irmãs da Ordem de Vicente de Paula cuja
disposição interna era de seis quartos, e instalações sanitárias, uma circulação
privada e uma área central que era ampla, servia para as atividades coletivas da
comunidade religiosa e se comunicava com duas salas menores, interligadas; na
ala central a disposição era igual ao segundo pavimento; e no bloco posterior ou ala
das enfermarias, somente o lado direito foi construído com sala de curativos,
sanitários e rouparia, seguidos de quatro enfermarias de 6,15m x 7,40m e duas de
enfermarias de 3,40m x 7,40m, um hall e escada de serviço na extremidade, onde
constava também um monta-carga.
completado.
Posteriormente, o lado esquerdo foi
FIG. 11 - Hospital do Açúcar de Alagoas, Planta reconstituída – 3º Pav. (1951)
Embora Ib Gatto Falcão não lembrasse o título do livro sobre Districtal
Hospital que trouxe dos EUA, suas pistas foram suficientes para a averiguação
do modelo arquitetônico que inspirou o Hospital do Açúcar de Alagoas, a
memória do médico retratou com precisão o esquema de planejamento dos
hospitais americanos. O Coordinated Hospital System estabeleceu uma
distribuição geográfica dos hospitais no território americano e dispôs distintos
protótipos para essas edificações levando em conta a categoria e o nível de
atendimento médico-hospitalar. As plantas-padrões para as respectivas
edificações seguindo um sistema de atendimento hospitalar coordenado, de
forma hierarquizada e progressiva no tripé prevenção-diagnóstico-terapêutica
No centro encontra-se o Base Hospital, a mais completa de todas as
unidades, com três blocos paralelos e um central interligando-os, irradiando-se
hierarquicamente em ordem decrescente de complexidade, em cruz, as demais
unidades, tendo logo abaixo o Districtal Hospital cujo programa diferencia-se do
primeiro por não ter os serviços especializados em câncer e cardiologia e a forma
assemelha-se à descrição do médico. (U.S.D.P.H.S, 1953). Esse esquema
resultou dos Elements of the General Hospital publicados originalmente no
Hospitals Journal, em maio de 1946 e no Architetural Record, em junho de 1946.
FIG. 12 - O documento foi republicado continuamente. Fonte: F.S.AGENCY,
1952.
O Elements of the General Hospital continha um conjunto de plantaspadrões para cada setor do hospital, dimensionadas em função do número de
leitos, ilustradas com o lay-out, no qual, os respectivos equipamentos, fixos e
móveis, e as instalações estavam devidamente identificados. O elenco de
informações, conforme seus autores, orientaria os arquitetos sem impedi-los de
adaptar os protótipos às suas soluções locais de cada projeto de hospital. As
plantas atendiam as exigências programáticas de Hospitais Gerais para 50, 100 e
200 leitos.
FIG. 13 - Capa da publicação nos EUA com o conjunto de plantas-padrão.
Fonte: P.H.S.D.H.F, F.S. Agency, 1952
O Hospital do Açúcar apesar de ter sido previsto, inicialmente, para 300
leitos, foi projetado com capacidade para 200 leitos e cresceu mudando a forma,
de letras, como descreveu um de seus médicos fundadores. Sua disposição não
é igual, mas, segue os esquemas americanos.
Não havia no Brasil um sistema hospitalar organizado, integrado,
hierarquizado, apenas iniciativas com participação significativa dos hospitais das
Santas Casa de Misericórdias e de outras instituições filantrópicas que assistiam
parte da população pobre. Apesar do conhecimento sobre novas formas de
organização dos serviços de saúde, por poucos é claro, e do idealismo da
burocracia ilustrada do Ministério da Saúde e do Setor de Apoio à Produção do
Instituto do Açúcar e do Alcool, IA, as condições, carências, interesses e contexto
não permitiram emplacar nem na pratica em no papel, os avanços pretendidos de
uma rede coordenada de assistência. De qualquer modo o assistência
coordenada, deixou um legado singular de estabelecimentos e funcionando
conforme a realidade de cada lugar serviços ambulatoriais e hospitais de menor
ou maior porte,para onde se dirigiram os trabalhadores do setor canavieiro por
muito tempo e até hoje.
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A influência do Districtal Hospital (EUA) nos Hospitais do