INSTITUTO PACKTER INSTITUTO INTERSEÇÃO – SÃO PAULO CURSO BASICO DE FORMAÇÃO EM FILOSOFIA CLÍNICA Zuleide Pereira Mendes MARTIN BUBER E A RELAÇÃO EU/TU Inversão e Recíproca de Inversão nas Relações Monografia apresentada como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Especialista em Filosofia Clínica, Orientada pelo profº Carlos Copelli Neto SÃO PAULO 2012 2 Agradeço do fundo de minha alma... A minha querida irmã e amiga Zuleme que, antes de mim, conseguiu enxergar minhas potencialidades para um aprendizado filosófico e o dom terapêutico. Meu abraço de amor A minha mestra e terapeuta Monica Aiub, que com a singeleza de sua vibração, me tirou da desorientação para o esplendor de um novo caminho. Meus agradecimentos profundos. Ao meu orientador e colega Carlos Copelli Neto, que com carinho e paciência esteve ao meu lado nesta construção, me orientando e incentivando. Ao meu saudoso pai (em memória) e a minha amada mãe, que me receberam em suas vidas neste estágio de minha evolução. Meu mais profundo amor e agradecimento. A todos os meus irmãos que, cada um a seu modo, sempre estiveram a meu lado amortecendo minhas quedas e me dando parâmetro para existir. Rosa Branca Flor do Campo Rei da Casa Pingo D´agua Botão de Rosa Duninho Dida 3 “Ich werde am Du” “Torno-me Eu na relação com o Tu” Martin Buber 4 RESUMO A Filosofia Clínica, cuja metodologia de trabalho está fundamentada no diálogo que o homem estabelece com seu ambiente e com seu semelhante, tem como suporte, dentre outras, a Fenomenologia, propondo uma terapia voltada para a singularidade e subjetividade do partilhante com foco na valoração representacional dos fenômenos que compõem o seu mundo existencial. Essa corrente terapêutica defende que na particularidade de cada ser existe um mundo próprio que se processa a partir de sua vivência e da dimensão que ele estabelece com as circunstâncias de sua vida cujas nuances são “bordadas” a partir de sua percepção do mundo. Esta plasticidade do ser humano e sua inter-subjetividade foram estudadas por muitos pensadores, alguns dos quais também compõem esta monografia que, a partir do contexto da modernidade, aborda o tema das relações Eu e Tu, principalmente pelo olhar de Martin Buber. Esse pensador considera outra possibilidade de relação entre dois indivíduos, cujas singularidades e diferenças não interferem no espaço da relação plena, por ele chamada de momento do “face-aface”. Contrapõem-se a essa possibilidade de integração, a pessoalidade de cada ser e a efemeridade do mundo moderno. Dessa forma, nosso objetivo é apontar as contribuições de Martim Buber para a fundamentação da Filosofia Clínica, abordando, além do tema das relações, também o tema da alteridade, percorrendo algumas teorias para tratar da viabilidade ou não de se vivenciar um momento de tão profunda complementaridade, investigando um possível alcance da reciprocidade nas relações que compõem o mundo moderno. Esse encontro na generosidade possibilitaria ao homem uma compreensão de si mesmo, tendo no outro uma presença para identificação de sua própria humanidade vivenciada pela relação mútua e plena. Palavras-chave: Fenomenologia; Subjetividade; Filosofia Clínica 5 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................ 06 2 AUTORES DE FUNDAMENTAÇÃO ............................................................... 09 2.1 EDMUND HUSSERL – FENOMENOLOGIA,,,,,,......................................... 09 2.2 MARTIN BUBER – EU E TU....................................................................... 12 2.3 MARTIN HEIDEGGER – SER E TEMPO .................................................. 17 2.3.1 A Alteridade em Heidegger .............................................................. 21 2.3.2 A compreensão ................................................................................ 22 2.3.3 O tempo ................................................................................... ......... 22 2.4 EMANUEL LEVINÀS – TOTALIDADE E INFINITO / ENTRE NÓS............... 23 3 PARALELOS ENTRE AS TEORIAS ............................................................... 28 3.1 HUSSERL/BUBER/HEIDEGGER/LEVINÀS............................................... 28 3.2 O SONHO DE BUBER .............................................................................. 30 3.3 COMO PODERIA A PLASTICIDADE PERCEPTIVA SE ADEQUAR AO FACE A FACE BUBERIANDO? ........................................................................33 4 FILOSOFIA CLÍNICA (Inversão ou Recíproca de Inversão?).......................... 34 4.1 TÓPICO 1 – COMO O MUNDO LHE PARECE .................................... 35 4.2 TÓPICO 2 – O QUE ACHA DE SI MESMO .......................................... 36 4.3 SUBMODO – INVERSÃO E RECÍPROCA DE INVERSÃO ................ 37 4.4 RELAÇÕES .............................................................................................. 38 5 INTERSEÇÃO ENTRE O PENSAMENTO DOS FILÓSOFOS .........................42 6 CONCLUSÃO ................................................................................................. 45 7 BIBLIOGRAFIA ............................................................................................... 48 6 1 INTRODUÇÃO A Filosofia Clínica é uma prática terapêutica com base filosófica que, diferentemente da psicologia, elabora a sua teoria de abordagem a partir da singularidade do ser humano, no sentido de abrir os horizontes do partilhante1 para o seu próprio modo de ser, sem determinismos e sem as especificidades dos aspectos tipológicos, tendo como objetivo propiciar a compreensão de seu caminho, com as possíveis decorrências, sem interferências interpretativas. Essa prática terapêutica prima, antes de tudo, pela relação entre o filósofo clínico e o partilhante, e, a partir daí, através de instrumentos metodológicos que se flexibilizam de acordo com a observação das necessidades do partilhante, elaborando a compreensão do mundo vivencial da pessoa que procura a clínica. Assim, sua abordagem está vincada à fenomenologia, cujo conteúdo principal é a singularidade e a subjetividade do indivíduo. Sendo assim, a apresentação dessa proposta torna pertinente retomar a colocação de Elise Nogueira: “Temos que tomar a mesma cor do Outro, como faz o camaleão, e ciceronear sua singularidade sem interferência, até que ele abra a sua estrutura de pensamento”. (NOGUEIRA, E, s/d) Nossa escolha pelo tema “Relação”, que é trabalhado especialmente com base na obra Eu e Tu de Martin Buber, deveu-se, antes de tudo, a uma necessidade pessoal de compreender a relevância ou não da alteridade para a formação interna do ser. Também procuramos levantar a hipótese de uma relação plena, qual seja, aquela que propicia a integração máxima entre dois seres e que se faz pela generosidade e pela mutualidade, afetar a singularidade do sujeito que a vivencia, procurando esclarecer de que maneira um ser dotado de subjetividade pode se harmonizar ao outro com tamanha inteireza, e nele se integrar através da efetivação de um momento de relação plena sem perder-se de si mesmo ou subjugar o outro ao seu domínio. A presente investigação também nos pareceu pertinente a partir da observação das novas formas do mundo moderno e sua agilidade, dos novos 1 Denomina-se partilhante a pessoa que procura a Filosofia Clinica para acompanhamento terapêutico. Essa nomenclatura deve-se ao fato de o processo terapêutico se dá a partir do partilhamento da historicidade do indivíduo, que procura essa prática como caminho para compreensão de seus conflitos. 7 hábitos que substituíram a antiga segurança dos laços afetivos e singulares, em favor de um olhar objetivo que tem contaminado as forma de relação entre as pessoas, inclusive no âmbito das ciências humanas. Ao fazer um resgate do mundo buberiano, essa pesquisa pretende chamar a atenção para a profundidade das relações de reciprocidade e generosidade, bem como desenhar o quanto esses temas podem contribuir para acalmar as angústias do mundo competitivo dos tempos atuais, que têm aparecido de forma avassaladora, incapacitando o indivíduo para um olhar solidário. É nosso objetivo nesse trabalho investigar e desenvolver a participação desse tema na estrutura da Filosofia Clínica. Para tanto, dentro do eixo Estrutura de Pensamento focaremos as aproximações com os Tópicos Recíproca e Recíproca de Inversão, O que acha de si mesmo, Como o mundo lhe parece e Relação. Para tanto, o trabalho percorre o seguinte caminho, após esse capítulo de introdução: o capitulo 1 aborda os fundamentos da própria Fenomenologia, retomando as obras de seus principais atores.Considerando a visão de Buber, que entende como possível a proximidade, ou relação máxima entre dois seres, vamos pesquisar alternativas com outros focos, por exemplo, a visão de Heidegger na obra Ser e Tempo, e também Entre Nós e Totalidade e Infinito de Levinàs, que trabalham com a representação pessoal que cada ser faz de si e do mundo. Nos capítulos 2 e 3 propomos uma leitura, primeiramente individual e posteriormente, relacional das obras apresentas. A questão central que se quer analisar é exatamente a viabilidade ou não da integração buberiana, considerando que, segundo Heidegger, para o evento da compreensão da alteridade seria necessário que antes o homem passasse por um ritual de interiorização, processo que não se faz sem profunda dor – o que não ocorre na visão buberiana. Também Husserl e Levinàs trazem um parecer diferente de Buber. Esses pensadores trabalham com a subjetividade do ser e com um mundo interno singular. É nesse capítulo que se pretende abordar as questões surgidas das diferenças de pensamento entre esses fenomenólogos, pois, enquanto Buber trabalha com a plenitude da relação, os demais trabalham com a subjetividade do ser e, portanto, com um mundo interno absolutamente singular. Algumas delas: é possível, a partir da singularidade do sujeito, dar-se a relação face-a-face buberiana? Poderia o Eu suportar a presença tão intensa do Tu sem perder-se em 8 sua singularidade? Esclarecer a viabilidade ou não desse processo pelo viés dos pensadores citados compõe a totalidade dos objetivos dessa Monografia. A fim de tornar claro o paralelo entre essas teorias e a profunda relação Eu e Tu buberiana, bem como a pertinência, ou não, dessa relação de reciprocidade para a Filosofia Clínica, o capítulo 4 apresenta, entre outros, o Tópico “Espacialidade” da Estrutura de Pensamento, com suas subdivisões: inversão e recíproca de inversão, além dos Submodos com os mesmos nomes. 9 2 AUTORES DE FUNDAMENTAÇÃO 2.1 Edmund Husserl – Fenomenologia Este filósofo, precursor da fenomenologia2 como a conhecemos atualmente, ao avançar em seus estudos sobre esse tema, trouxe à luz nova visão sobre o entendimento da captação do mundo com a chamada fenomenologia transcendental, pela qual os objetos, anteriormente tratados como reais, objetivos e independentes de qualquer captação interior, podem ser compreendidos por novas significações, dependendo da singularidade de cada indivíduo. O homem passou então, através da fenomenologia husserliana, a vivenciar e descrever o seu próprio mundo, aquele ao qual ele dá vida por sua própria consciência, libertando-se da concretude do mundo real e dando vazão ao seu poder reflexivo. Em seus estudos, Husserl enveredou-se pelo caminho do ser subjetivo, aquele que é capaz de realizar sua intencionalidade ou sua consciência, onde a percepção se transforma no grande instrumento de sua singularidade, bordando os objetos exteriores com o matiz composto por cada indivíduo, que tece nessa nova visão, um mundo particular construído pelo poder representacional que lhe é conferido pela singularidade de sua percepção. A consciência, como foi tratada por Husserl, é a um só tempo receptora e doadora do mundo. Isto significa dizer que ela lança ao mundo a sua _______________________ 2 Fenomenologia: do grego phainesthai - aquilo que se apresenta ou que se mostra - e logos explicação, estudo. Afirma a importância dos fenômenos da consciência, os quais devem ser estudados em si mesmos – tudo que podemos saber do mundo resume-se a esses fenômenos, a esses objetos ideais que existem na mente, cada um designado por uma palavra que representa a sua essência, sua "significação". Os objetos da Fenomenologia são dados absolutos apreendidos em intuição pura, com o propósito de descobrir estruturas essenciais dos atos (noesis) e as entidades objetivas que correspondem a elas (noema). 10 intencionalidade, enquanto recebe dele os instrumentos que a faz processar-se como consciência. O mundo e a consciência, ou seja, o objeto e o sujeito estabelecem mutuamente o significado do existir, uma vez que um (mundo) fornece a materialidade e o outro (sujeito) lhe dá sentido. Husserl expôs ao homem o realizar-se de seu mundo, fazendo um hiato entre a consciência de um ser e a consciência do outro, colocando como verdade a manifestação da percepção de cada um, não o sentido do fenômeno exposto, objetivo, mas a manifestação de como se constitui cada consciência a partir desse fenômeno. Para que essa percepção da individualidade ou singularidade se revele ao homem, é necessário que este tome distanciamento das coisas externas , momento esse que Husserl chamou “redução fenomenológica”, onde os fenômenos exteriores, denominados por ele de fenômenos transcendentes, perdem sua relevância em relação ao entendimento da riqueza e plasticidade do seu mundo interior. Colocar em suspenso não significa dizer que os registros feitos perderam-se, tornaram-se inexistentes. Depois de estabelecida a relação entre consciência e mundo, onde a realidade está para a consciência e esta está para a realidade, essa relação não mais se perderá. Ela estará constituída no sujeito, que a colocará em suspenso no sentido de abertura de um novo espaço para maior captação do mundo interno, sendo este um dos momentos mais ricos da relação, quando o sujeito promove uma abertura para o alargamento da consciência em relação ao mundo e em relação a outro sujeito, fazendo-se mais consciente do “eu” em relação com o “aquilo” como duas realidades que se inter-dependem na construção de uma nova consciência de seu mundo interno. Assim, como diz Thomas Hanson Giles (GILES, 1975: 175) “a verdadeira significação da redução fenomenológica consiste em forçar o olhar da consciência em si própria, em converter a direção desse olhar e tirar, através da suspensão do mundo, o véu que mascarava o eu e a sua própria verdade”. Ao elaborar estudos fenomenológicos baseados na subjetividade do ser, Husserl tratou também da intersubjetividade, ou seja, da alteridade, da relação entre dois seres subjetivos, portanto entre duas consciências. Visualizou que para que fosse possível o entendimento de um ser por outro, seria necessário que o olhar do homem saísse de si mesmo e tomasse distanciamento daquilo que considerasse 11 sua percepção, e se voltasse para a significação do mundo que o outro concebe . A esse momento chamou “empatia”, onde a intencionalidade de um indivíduo se harmoniza com a consciência do outro e nesse processo a visão do mundo de um se desloca para a visão do mundo do outro estabelecendo-se, assim, o entendimento da subjetividade de cada um . É também através dessa empatia e pelo reflexo da comunhão com o outro que se dá a formação dos nossos juízos, ou seja, reflexionados pela percepção da significação do outro ser, constituímos a nós mesmos. Ao adentrar o espaço interno do outro e ao se deixar penetrar, o homem apreende a similaridade entre ambos, o que lhe permite ajuizar que pertencemos todos à mesma totalidade universal e é dessa forma que a compreensão se constitui na vida do homem. Isto posto, podemos dizer que através da consciência, da intersubjetividade e da empatia, forma-se um mundo comum, de mesmas perspectivas, onde cada indivíduo compreende a similaridade de suas significações e passa a ter um olhar compartilhado em relação ao mundo e essa compreensão o leva a compreender-se a si mesmo e também ao entendimento de que pertencemos ao mesmo gênero, ao mesmo momento existencial e que experimentamos, todos, o mesmo potencial de consciência pessoal e de consciência de pensar o outro. Esse entroncamento se dá, segundo posição de Husserl, exatamente pela subjetividade, onde cada ser possui o seu próprio “mundo da vida” (Lebenswelt). Isto significa dizer que todo ser humano cria através de sua consciência, um mundo que não é determinado pela objetividade, apesar de ser dela que tira o conteúdo para a formação do seu mundo subjetivo; que o mundo onde vivemos é o mundo captado por nossa percepção, por nosso mundo pessoal. Essa multiplicidade de troca entre o sujeito e o mundo real é o que produz o enriquecimento da consciência e é também o que promove a unidade entre ambos. Para Husserl a intersubjetividade não anula o entendimento de que cada ser seja consciente de seu ser subjetivo; ela permite que ele entenda sua existência exterior e a existência exterior do outro, ou seja, compreenda que existem dois sujeitos e que sua empatia e intersubjetividade não eliminam essas perspectivas, que são compreendidas através da reflexão, e esta por sua vez, tanto o expõe a si mesmo quanto lhe revela o outro como sendo, ambos, duas consciências individuais. 12 Ainda segundo Giles (1975: 176) “sabemos que a alteridade “eu-objeto” é uma idéia fundamental na fenomenologia de Husserl. Encontramos, em todos os atos, uma maravilhosa polaridade: por um lado, o “eu-polo”; por outro, o objeto como contrapolo. Porém, há uma unidade indissolúvel entre o “eu” e o objeto. Ao constituir-se o objeto, constitui-se simultaneamente o “eu como consciência”.. Para explicar essa compreensão da existência do outro como a alteridade que vem à consciência como reflexo de si mesma, Husserl usou a percepção do corpo como ponto de referência. Olhar para outro corpo e ver a similaridade com seu corpo, com aquilo que ele é capaz de fazer, dá ao homem, por associação, a noção do que se lhe depara e que lhe é igual. Daí advém a compreensão da intersubjetividade que permite ao sujeito ver a alteridade como outro eu, tão igual a si enquanto materialidade e tão diferente enquanto subjetividade. Por essa consciência da subjetividade de cada um, pela consciência da alteridade que me constitui, pela consciência de mim como alteridade que constitui o outro, e ainda mais, pela pluralidade das consciências que fazem parte da constituição do mundo e pela compreensão da harmonia que todo esse conjunto processa, pode-se elevar o homem a uma categoria superior no que se refere à consciência da composição do mundo enquanto espaço coletivo. Nesse cenário universal e coletivo, onde todos os objetos e todas as subjetividades se encontram, forma-se a grande corrente do “nós”, da humanidade enquanto grupo de consciências capazes de promover a relação entre todos os seres. 2.2 Martin Buber – Eu e Tu Complementarmente à fenomenologia como foi pensada por Hurssel, é abordado também nesta monografia o tema Eu e Tu, que poderia ser tratado sob a visão de muitos outros filósofos, mas que para esta construção é trabalhado pelo olhar de Martin Buber, um dos pensadores que abriram os horizontes das ciências humanas, fazendo um passeio pela inteireza do ser para demonstrar que as relações de reciprocidade entre os homens podem atingir um grau máximo de 13 generosidade, pensamento esse que deu origem ao conteúdo deste trabalho no sentido de questionar essa possibilidade vivencial no mundo moderno. O cerne desta sua obra está voltado ao aspecto da relação, do diálogo e da reciprocidade, onde olhar o outro é ver a si mesmo para além das singularidades e abrir o brilho do espelho da alma, onde o homem é capaz de compreender-se, não somente enquanto Eu, mas também como parte do Tu que o compõe. Sem ignorar o entendimento fenomenológico das representações subjetivas do mundo, mas não se atendo a esse momento das caracterizações dos seres, Buber trabalha na perspectiva de adentrar e compreender a inter-humanidade em seu significado maior, mais profundo, com uma percepção singular de como se processam as relações. O aspecto abordado em Eu e Tu é a perspectiva da reciprocidade nas relações entre os seres e os entes que compõem o mundo. Entretanto, apesar de as relações Eu-Tu e Eu-Isso estarem sendo abordadas mais propriamente pelo viés das relações humanas, esta não é a única lateral tomada por Buber, que tratou o tema também sob outros aspectos, num trabalho muito mais abrangente e intenso, por exemplo, Eu-Tu Eterno (Deus) que não será aqui abordado, pois seria necessário um alargamento ainda maior dos estudos e fugiria ao objetivo desta monografia, que vai tratar das relações humanas. As relações não se restringem aos homens, mas também as coisas podem ser assumidas pelo ser como se fosse um Tu, ou seja, as coisas também podem formar uma relação inteira com o Eu. Isso poderá se processar através da entrega de alma, que acontece involuntariamente no homem quando, por exemplo, se observa uma obra de arte, quando se ouve uma música, quando se está em contato com a natureza ou em outro momento onde o homem se desvincula de seu ego e se transporta para o mundo daquilo que o preenche como ser. É nesse enternecimento e entrega que acontece o momento culminante da relação, que foi denominado por Buber de momento do face-a-face3 Nas relações o Eu não possui independência com o Tu, esse é pré- condição para a constituição de sua existência , sem, entretanto, lhe tirar a sua condição primordial de Eu. Esse intercâmbio de sensibilidades, essa absorção do Tu para compor meu Eu não significa que haja um eclipsar do Tu pelo Eu. Nesse ______________________ 3 Face-a-face – Diz-se do momento de plenitude da relação como é tratada por Buber, onde o Eu é capaz de entregar a sua humanidade para receber a dádiva de viver o outro. 14 processo o que existe é a consciência da existência do outro em mim sem que isso simbolize a prisão do Eu do outro. Ele está em mim como a alteridade que me faz compreender quem eu sou e eu estou nele como a alteridade que o faz compreender quem ele é, sem que nos percamos de nossa pessoalidade nessa relação que se faz completa pela reciprocidade plena nesse momento face-a-face Essa troca, essa relação do face-a-face não traz em si nenhuma carga da razão cartesiana4, ou seja, não cabe ao homem o acesso a esse momento através da razão e não lhe é facultado estar ou não em relação com o Tu, já que esse estado quase sacral lhe é oferendado graciosamente pela magia universal, ou seja, segundo Buber o homem já traz consigo a possibilidade de participar dessa troca plena com seu semelhante por uma potencialidade que o universo lhe confere. Segundo o entendimento de Buber, a causa primária da palavra-princípio Eu-Tu advém do momento da concepção, onde dois corpos interagem e se circundam num vínculo que vai muito além do horizonte dos entes. A concepção seria o momento humano de captação da força universal, que é perdida durante o crescimento, pela absorção das coisas do mundo e pela formação dos estados psicológicos da vida pessoal. No entanto, o vínculo que se processou no momento conceptivo é eterno e a busca torna-se infindável. Esse anseio também chamado por Buber de “nostalgia da busca do vínculo”, fica na consciência intuitiva como nostalgia por algo que se intui existir e que cotidianamente não se consegue reviver, exceto no momento do face-a-face, quando se é atingido pela força universal. Para reencontrar essa magia do mundo cósmico, o ser irá interpondo em sua vida o mundo espiritual, o mundo da essência da criação na forma do encontro do Eu com o Tu. Esse instinto de existência do Tu constitui a priori a relação facea-face e só posteriormente constitui-se a relação Eu-Isso, ou seja, ao nascer estamos prontos para o Eu-Tu e as vivências mundanas vão acrescentando o Isso em nossas vidas e a compondo. Nas palavras do próprio Buber: “No princípio é a relação como categoria do ente, como disposição, como forma a ser realizada, modelo da alma; o a priori da relação : o Tu inato“(31). _____________________________ 4 Razão Cartesiana – Diz-se do pensamento do filósofo René Descartes, onde a razão é a única via segura pela qual o conhecimento do mundo pode ser obtido. Particularmente, a visão racionalista de Descartes defende a possibilidade de alcance de uma verdade absoluta, incontestável através do uso da razão. 15 Assim como o Isso pode se transformar em Tu pela entrega à arte, como a música, a poesia, etc,, como especificado acima, o Tu pode se tornar Isso. Essa perda do Tu ocorre quando a consciência é consumida pelo ego e pela cotidianidade sem limites, onde os homens se coisificam diante dos convites mundanos. Para desenvolver o tema Eu e Tu, Buber também tratou da linguagem que, segundo seu entendimento, é a responsável pelo transporte do homem de seu mundo para o mundo de outro ser. Esse percurso coloca-o frente, não somente a sua própria existência, mas também frente à existência do outro e faz o entremeio entre ambos, unindo-os em sua similaridade enquanto ser dialogal. Para que aconteça a relação dialógica entre o Eu e o Tu é necessário que ambos estejam presentes um na vida do outro, o que não ocorre no relacionamento egóico do Eu com o Isso enquanto objeto do mundo e por isso a alteridade se faz presente somente nas relações Eu-Tu Entretanto, ainda que o Eu não esteja presente na vida do Isso, esse mundo coordenado pelo espaço e pelo tempo é essencial para que o Tu possa se revelar e estabelecer a relação, num mundo que Buber denomina “reino dos verbos transitivos” ou seja, o reino onde os objetos são necessários para consolidar a existência humana. Apesar de o Eu-Isso não representar o momento mais importante das relações, ele estabelece o confronto do homem com o mundo e assim constitui a história da humanidade, que nem sempre é vivida dentro das capacidades da relação Eu-Tu. O Isso fornece ao homem elementos para que paute sua vida por valores que o afastam de sua condição primeira de inter-humanidade e o lança às fatalidades das buscas fora da relação Eu-Tu . Buber trata das palavras-princípio Eu-Tu (relação entre os homens) e Euisso (relação entre o homem e os entes que se lhe apresentam) como sendo dois dos momentos de vivência relacional do homem no mundo. Para esclarecer melhor o significado desses momentos, pode-se dizer que o momento primeiro é onde se dá o diálogo, onde o homem se coloca como ser relacional; o segundo momento é onde se dá o monólogo, com o homem se colocando frente a sua relação com as coisas, ambos os momento evidenciando a diversidade de encontros que se abrem no mundo pela utilização das palavras-princípio Eu-Tu e Eu-Isso. Antes que a relação Eu-Isso se processe, a existência do Eu-Tu se dá como forma original das relações, ou seja, para Buber primeiro existe o encontro de duas 16 pessoas (Eu-Tu) e posteriormente a abordagem experiencial (o homem com o mundo). Quanto à realização interior do homem, esta se dá, segundo Buber, através do momento que chamou de “sopro do espírito” onde ele toma consciência da presença do Tu como parte da formação de seu Eu, num momento de doação e aceitação mútua onde vivencia a reciprocidade plena do diálogo e da relação interhumana do face-a-face. Para esse filósofo existe uma dualidade na forma de o homem se relacionar no mundo. Isso não significa dizer que o homem não seja coerente com seu Eu, ou que ele seja dúbio naquilo que expressa, mas sim que se relaciona ou que existe de duas formas diferente no mundo. Para esse autor existem também duas atitudes que podem ser assumidas pelo Eu. Uma delas é a do ser em sua totalidade, não a totalidade das coisas adquiridas no mundo, “como a reunião de estruturas formadoras dos sentimentos que geram os estados psicológicos”, mas totalidade no sentido de inteireza do ser em ação na direção da relação recíproca com o Tu. A outra atitude é egóica, onde o outro é um objeto a ser utilizado para deleite do Eu. A afirmação de Buber - “Ich werde am Du” – “Torno-me Eu na relação com o Tu” mostra o Tu como agente formador do Eu enquanto este se completa nessa aceitação, já que não há constituição solitária do Eu. Este caminha em relação dialógica com o Tu e ambos exercem ação mútua um sobre o outro, porém, sem que nenhum deles perca sua potencialidade e sua condição existencial. Para Buber, “toda relação se processa no “entre”, que é o espaço que permeia o dar-se e o receber; é nessa reciprocidade como ato humano que está o fundamento do face-aface buberiano. Note-se que entrar em relação com o Tu não significa adentrar o seu universo, uma vez que esse experimento o transformaria em Isso, mas sim deve-se perceber o simbolismo existente no momento que Buber chamou de “Santuário da palavra-princípio Eu-Tu”, onde a sutileza e profundidade quase sagrados do encontro se processa em um momento cósmico, até mesmo sem que o Tu o perceba em sua experiência. Nesse espaço de vida onde o momento do Eu-Tu acontece, uma forma (Tu) atua no Eu com a mesma potencialidade que o Eu nela age; e é nesse momento, onde a atuação cósmica acontece, que o face-a-face buberiano alcança o seu lugar de relação autêntica, onde o Tu não pode estar 17 fragmentado, pois se assim estiver, não atinge o instante em que a presença potencializada se torna ato constituinte do ser. No entendimento desse filósofo não existe um caminho a seguir para que o Eu alcance o Tu; todos eles resultariam em distanciamento, já que esse encontro sublime se dá pela aparente passividade da ação e na quietude do pensamento, contrariamente ao que ocorre no Eu-Isso onde o mundo da experiência leva o homem ao desencontro da relação autêntica e o coloca à margem da existência. Para Buber relação é amor, não da maneira como o conhecemos e vivemos hoje, não amor de cultuar, não amor de prazer, mas amor da reciprocidade emanada pela totalidade do ser potencialmente cósmico. E nas palavras do próprio Buber: ““Nós vivemos no fluxo torrencial da reciprocidade universal, irremediavelmente encerrados nela” (Buber, 1974, 18). 2.3 Martin Heidegger - Ser e Tempo Contrariamente à posição de Buber, Heidegger não acredita na essência pré-existente, mas sim, defende que o homem é fruto de sua história, da temporalidade de onde emerge. Levou sua busca em direção ao ser do homem, à valorização da existência pessoal, independentemente do contexto social a que pertence, dando prioridade a sua história pregressa como responsável por seu conteúdo interno. Além disso, trouxe o seu questionamento sobre a primazia da razão como detentora dos caminhos que levariam o homem a uma vida mais feliz, cujo bastão era carregado pela ciência com suas técnicas, onde o homem se fazia objeto de si mesmo para dar vazão ao pensamento de que tudo era manipulável. Também dissociou a completude do homem das descobertas do saber experiencial e, portanto, manipulatório, trazendo uma vertente totalmente nova, a chamada filosofia da existência, onde coloca o homem como indivíduo no mundo, vivendo sua própria compreensão inata; não a compreensão adquirida através do conhecimento, mas aquela onde as coisas se nos revelam a si mesmas e o nosso ser-aí (Dasein) é pré-reflexivo, ou seja, onde o nosso saber está previamente 18 constituído em nós pela nossa própria história pregressa e não depende de nenhum entendimento racional para consolidar-se. Heidegger tratou do homem como portador de dois momentos da existência, dois estados de sua natureza, sendo um deles o homem enquanto ente e o outro o homem enquanto ser. Os estudos e cuidados que até então se levavam a efeito era sobre o ente, enquanto Heidegger cunhou o tema de forma diferente ao preconizar a compreensão do homem através de uma abertura interior onde o ser se manifesta na vida do ente. Fez a leitura de que as coisas, os objetos, estão aí postos no mundo, mas somente o ser existe como essencialmente humano, um ser que é inesgotavelmente interrogativo, que não tem ponto de partida e não tem ponto de chegada; um ser existencialmente inacabado, cujas potencialidades são infinitas e estão sempre latentes, prontas a tornarem-se atos e a abrirem-se novamente em novas possibilidades. Um dos momentos predominantes em Heidegger é o sentido dado à compreensão de que o ser é diferente do ente e constitui-se à parte desse, ainda que sua co-presença enquanto alteridade seja a base formadora da sua existência. Para encontrar essa compreensão, que reside no mais recôndito da constituição do ser-homem, este projeta essa busca ao âmbito mais profundo do ente, ao âmbito do ser-aí do ente e é esse caminhar que o transporta a um estado de suspensão de si mesmo como consciência participante do mundo objetivo. Esse momento de suspensão é gerador de profunda angústia, pois trata-se do luto da perda do ente que se é. Esse movimento reflexivo-transcendental, onde o homem se lança na busca de si mesmo, numa incursão profunda por sua própria vida interna, é condição prévia ao desabrochar da captação da compreensão genuína do seu seraí, de sua existência. Para exemplificar este momento heideggeriano,que ocorre no interior do homem, está citado abaixo o poeta Fernando Pessoa, que traz uma demonstração de seu estado de busca, como segue: Tudo se me evapora. A minha vida inteira, as minhas recordações, a minha imaginação e o que contém a minha personalidade, tudo se me evapora. Continuamente sinto que fui outro, que senti outro, que pensei outro. Aquilo que assisto é um espetáculo com outro cenário. E aquilo a que assisto sou eu. Meu Deus, meu Deus, a quem assisto? Quantos sou? Quem é eu? O que é este intervalo que há entre mim e mim? 19 Ainda que o ser esteja internalizado no homem, para encontrá-lo não há que se dissecar o seu corpo, como procede a ciência, mas deixá-lo jorrar pela abertura inerente ao processo de busca, pela abrangência da existência. Entretanto, esse Ser não entra de forma profunda em nossa vida sem que antes passemos pelos doloridos momentos de busca, cuja trilha passa pela angústia, tão mais profunda quanto mais nos aproximamos do encontro com o nosso ser. Esse encontro acontece de forma individualizada, onde cada ser que esteja em busca de si mesmo “viaja por terras sombrias” em direção ao “nada” heideggeriano, onde na verdade está escondido o seu grande tesouro, diamante cristalino, cujo brilho o remete a si mesmo. Nesse caminhar o ser se desloca de seu mundo externo para uma interiorização sofrida e solitária e entra na mais profunda dor até alcançar o seu Ser, o sentido de sua existência. Diferentemente de Descartes, que preconizava o cogito, ergo 5 sum ,,Heidegger inverteu esse processo ao entender que antes de qualquer pensamento, o homem existe. Não há necessidade de nenhum conhecimento, de nenhum pensamento para que a existência se revele, ela “é”, a priori, e é ela que permite a participação do homem no mundo, ou seja, somente após a existência emerge o pensar. Recapitulando o pensamento acima dizemos que: primeiro existe a existência, o meu Ser-aí, este se materializa como ente e ambos, juntos, se complementam como totalidade do Ser. A existência (Ser-aí) promove o espaço, o tempo e o canal para a realização do Ser do ente. É exatamente aí, na manifestação do Ser-aí como ente, quando o homem deixa-se guiar pelos chamamentos do cotidiano, cujas teias o enredam no mundo dos objetos, que o Ser se perde. A esse embotamento da luz do Ser pelo ente Heidegger chamou de “véu do ser”, ou seja, aquilo que cobre e, portanto, tira do homem a possibilidade de vivenciar o Ser em sua plenitude. Para resgatá-lo faz – se necessário um redimensionamento daquilo que foi apropriado como história, uma lucidez nova, um ouvido novo para aquilo que é inspiração para o Ser. O Dasein (ser-aí) acontece como um saber intrínseco a nossa existência, num espaço interno onde nossa inteligibilidade capta quem verdadeiramente somos ___________________________ 5 Cogito, ergo sum significa “penso, logo, existo, ou ainda, dubito, ergo cogito, ergo sum – “Eu divido, logo penso, logo existo”. A frase é uma conclusão do filósofo e matemático francês René Descartes após duvidar da sua própria existência, mas que foi comprovada ao ver que pode pensar e desta forma, conquanto sujeito, ou seja, conquanto ser pensante, existe indubitavelmente. 20 antes de qualquer processo racional ou sensorial de captação de dados objetivos ou de qualquer juízo que possamos formar antecipadamente a ele. Nossa compreensão ou interpretação do mundo se dá pela consciência reflexiva, onde a função dos objetos não nos vem pela forma racionalizada, mas pela condição que captamos como intrínseca ao mesmo objeto. Isto significa que a compreensão dá condição de existência às coisas que compõem o mundo e faz com que elas sejam como são. Para Heidegger o ser humano é eternamente preocupado com o seu ambiente, no sentido de que esse interfere em seus interesses, em sua existência. Toda essa preocupação é o que o distingue dos demais entes que compõem o mundo e é também o que o lança na tristeza e na angústia, na consciência da temporalidade que o aproxima da morte e, por fim, ao profundo “nada” que o assola, mas que também o faz emergir como Ser constituído de sua temporalidade. É essa visão que abre o grande diferencial filosófico de Heidegger, com a inclusão do “nada” como ferramenta de resgate do ser perdido. O nada, estado de tédio provocado pela angústia que acomete aqueles que conseguem promover a abertura para compreensão do ser, que conseguem se ensurdecer para os apelos do ente e escutar o sutil chamamento que o ser profere a partir dos fenômenos, transforma-se no movimento que transportará o homem para aquilo que ele é, o Ser. O nada, como foi tratado por Heidegger, traz a morte simbólica do ente, é um estado de intuitivo de busca do Ser; trata-se de um caminho reflexivotranscendental que busca a compreensão como essência do encontro com o simesmo, com o Ser-aí. Essa intuição de existência do Ser tira o indivíduo da condição natural e tranqüila de participante do mundo de acordo com o senso-comum e o lança para fora desse ambiente pelo viés da angústia e suas garras afiadas. Nesse período, onde há uma espécie de hibernação do ente, que perde sua importância diante da força da angústia, o indivíduo deixa-se agarrar pela quase morbidez do nada, flutuando no tempo e no espaço, praticamente morto como participante do mundo externo, e busca na dolorida e indefinida inércia que lhe suspende a vida, o sopro do seu Ser. Entretanto, quando o homem suspende de seu mundo pessoal o farfalhar do cotidiano, é o mesmo que ter o seu mundo submerso ativado, e a angústia causticante da incursão para o nada abre as portas para a revelação do Ser. 21 A inércia que acompanha a angústia é um viver sem vida por um desligamento do cotidiano que se dá sem palavras em direção a um estado onde tudo é tedioso e sem sentido, onde tudo é nada. A angústia do nada é silenciosa e forte, é a trilha de fuga do ente de seu posto mundano para o nada que clarifica o Ser. Estar no nada heideggeriano é simbolicamente voltar ao útero onde submerso na água um ser se forma, cria corpo, cria o ser-aí. Mas nesse novo formar-se extrauterino, agora emergido do nada, o Ser se reencontra no tempo, onde passado, presente e futuro são um só caminhar, berço de sua formação e da compreensão do lugar da alteridade como complementadora do seu Ser-no-mundo, a partir do redimensionamento de sua temporalidade. E, como diz Heidegger: “O profundo tédio, que como névoa silenciosa desliza para cá e para lá nos abismos da existência, nivela todas as coisas, os homens e a gente mesmo como elas, numa estranha indiferença. Esse tédio manifesta o ente em sua totalidade.” (HEIDEGGER, 1969: 29) 2.3.1 A Alteridade em Heidegger Diferentemente da fenomenologia husserliana , que entendeu no estudo da intersubjetividade a existência de uma similaridade entre as consciências, que permite ao homem compreender o mundo perceptivo do outro, Heidegger trilhou o caminho da co-existência, da existência da alteridade em mim, onde sou eu e também sou o outro co-habitando o mesmo espaço que me constitui . O canal que me abre minha consciência de mim é ao mesmo tempo o canal que me dá a consciência da alteridade que mora em mim e que divide comigo o espaço de minha constituição. Entretanto, não se trata somente de um outro “eu” que possui consciência própria, mas também do meu ser-no-mundo, ou seja, da forma como eu compreendo e habito o mundo. Como recebo as verdades dos entes, das coisas enquanto estas se revelam a si em si mesmas. Enfim, trata-se da relação entre o meu ser-aí (Dasein) e a alteridade (Mitsein), seja ela no sentido de outro Dasein, ou no sentido de outros seres co-habitantes do mundo e que formam a base da constituição de minha estrutura a ponto de, mesmo sem sua presença objetiva, eu 22 manter em mim o sentido de alteridade por intuir sua presença ou sua existência compartilhada no mundo como parte dos alicerces que formam meu ser. Segundo o entendimento de Heidegger, o outro é o polo constituinte do ser no mundo, ou seja, o Dasein tem em suas entranhas de ser-aí o outro como parte dessa constituição que por sua vez lhe permite compreender-se a si mesmo. 2.3.2 A compreensão Na relação ser-no-mundo, o ser-aí não vê a alteridade como tu, distante dele, mas sim a capta como sendo também um co-participante de sua vida, que lhe confere uma compreensão mais abrangente do seu ser-no-mundo. A compreensão representa um estado de liberdade difícil de ser alcançado através de qualquer outro caminho, pois compreender significa entrar em contato com o seu ser-aí, com a forma como se é, a forma como o homem se compreendo como ser-no-mundo e a forma como vê a existência do outro. Após passar pela angústia do “nada” heideggeriano , onde compreender num sentido mais amplo significa lançar-se em “queda vertiginosa” ao encontro do si-mesmo, projetar-se rumo ao interior oculto pelo ente, desbravando-o até se chegar ao ser que se é, às possibilidades de ser-aí, forma-se o esqueleto da compreensão e a partir dela à captação da constituição do Ser e do seu encontro com a alteridade. Heidegger entende a compreensão como sendo a essência reflexiva própria de cada ser, isto é, um modo de ser que vem de cada pessoa, que lhe é inato e não recebe qualquer interferência racional ou interpretada para realizar-se. 2.3.3 O tempo Para Heidegger o ser é finito e não transcende a vida, portanto, toda a nossa existência se dá neste momento, onde estamos agora. 23 O tempo heideggeriano não é contado pelo aspecto cronológico, mas pela totalidade de nossa história pregressa, de nossa atualidade e pelo futuro, que formam o conjunto de nossa existência, onde apreendemos o nosso Ser. Nós emergimos dessa totalidade, somos o conjunto de nossa obra histórica e nosso tempo é aquilo que somos, aquilo que nos tornou quem somos. Para essa construção é preciso que tenhamos uma linguagem com o todo, com a natureza, com os fenômenos que nos remetem ao nosso Ser e que o formam. O Ser é constituído pela linguagem que se estabelece com a natureza, onde existe uma dança poética no momento relacional entre o homem e os fenômenos . E é esse entendimento de se viver poeticamente não no nosso mundo, como vivem os demais entes, mas inspirado pela familiaridade que acomete quem está junto no mundo, no universo, e a compreensão do tempo como uma totalidade daquilo que somos, que nos dá como retorno o encontro com nós mesmo, com o nosso Ser. 2.4 Emanuel Levinàs – Totalidade e Infinito / Entre Nós Enquanto Buber trabalha com o Nós e Heidegger com o Eu, Levinas tem o Tu como fonte de estudos. Seu pensamento converge para o lugar ocupado pelo outro na mente e na vida do homem, sem reduzi-lo unicamente à razão egóica, mas enaltecendo o seu lugar de alteridade, cuja importância é primordial em sua vida enquanto semelhante em detrimento do Ser-si mesmo que perde a primazia dada por Heidegger. Levinas é um crítico da razão cartesiana por considerar que essa soberania racional, sem vínculos com as sensibilidades e produtora do conhecimento como foco principal, portanto egóica, faz uma apologia ao Eu, caminho que leva o homem a sujeitar o outro a seus caprichos e objetivos individualistas, como vem se comprovando no pós-modernismo, onde a liberdade, ainda que falseada, está se sobrepondo à igualdade e desfazendo as relações. Assim, com relação a esta postura, é importante apontar outros pensadores, conforme abaixo. Os filósofos contemporâneos Vattimo,G e Lipovetsky, caracterizam o individualismo pós-moderno como a afirmação da diferença, de uma identidade constituída a partir da ruptura ou da distinção. O individualismo constitui, assim, a 24 matriz do estilo de vida do mundo ocidental, com todas as consequências éticas daí resultantes (VATTIMO, G & LIPOVETSKY, 2003). No mesmo texto, é citado um estudo sobre os valores nas sociedades ocidentais, onde o filósofo Harman e o historiador T. Petterson concluem o seguinte: A fragmentação dos valores é assumida teoricamente como um traço importante dos processos de diferenciação e individualização". Este estudo procurou medir a relação estabelecida pelos Europeus entre o valor da liberdade individual e da igualdade, tendo apurado o seguinte: apesar de, entre 1981 e 1990, ter ocorrido uma evolução na importância concedida pelos europeus à igualdade, nomeadamente na Bélgica, França, Inglaterra, Irlanda e Holanda, a liberdade continua a ter mais peso, sendo preferida, em 1990, por 48,1% dos inquiridos na Bélgica, por 47,7% na França, por 59,3% na Alemanha, por 62,6% na Grã-Bretanha, por 55,4% na Holanda e por 43,2% em Espanha. A igualdade é considerada mais importante do que a liberdade apenas na Irlanda (com 52,1%), na Itália (com 43,6%) e em Espanha (com 43,2). (HARMANN L. & PETTERSON, T., 2003) Então, segundo o pensamento de Levinàs, o mundo moderno lançou o Eu para fora de si e o atropelou de forma avassaladora. Longe de seu habitat (vivência interior) o Eu vagueia sem horizonte e acopla-se ao mundo exterior, enquanto este toma as rédeas da vida do sujeito e violenta o seu Eu desnorteando o seu encontro consigo mesmo (Heidegger) e especialmente com o Outro (Buber), lançando sua subjetividade ao relento e dando um rumo de desencontro às relações, que na modernidade perdem seu laço histórico. Assim, “o caráter único, sem gênero, das situações e dos instantes, sua nua existência são o grande tema dos modernos. Por seu lado, o eu, assim entregue ao ser, é lançado para fora de si, para os lugares de um eterno exílio, perdeu seu domínio sobre si, é superado por seu próprio ser. Está a mercê de acontecimentos que já o determinaram” (LEVINAS, 2004: 77). Para Levinàs onde não há igualdade, há predominância de um sujeito sobre o outro, situação corriqueira no capitalismo desenvolvido nos tempos modernos, que ao promover-se a um suposto ideal a ser atingido, transforma as diversidades em massificação onde o homem torna-se “mesmo”, ou seja, não há mais o meu ser reflexivo e o outro reflexivo, com singularidades; todos são uma massa igual, sem força para combater essa violência enquanto desmanche da subjetividade e homogeneização da diversidade. Este pensador trabalha as relações, a pluralidade dos seres e a ética humana, onde o mais importante é a responsabilidade de um ser para com o outro. 25 A subjetividade, o ser intenso, inteiro, vindo de uma quase morte pelo “nada” heideggeriano, segundo Levinàs, tornou-se apenas um Eu consumista e predador do Outro, aquele que é gerido apenas pelo conhecimento, deixando alteridade. desnutrida a Abarcado pelo chamamento da racionalidade levada a efeito na modernidade, o Eu profundo torna-se um eu egóico e dominador, esquecido da sua condição primeira, segundo este filósofo, de homem ético e responsável pela alteridade, esgueirando-se para a objetificação do sujeito, dando lugar a massificação de muitos e a aquisição do poder por alguns, conforme as palavras do próprio Levinas: “A relação com o ser, que se dá como Ontologia, consiste em neutralizar o ente para o compreender ou captar. Não é, portanto, uma relação com o outro como tal, mas redução do Outro ao Mesmo”. (LEVINAS, 2004: 33). Entretanto, Levinàs tira o homem de representante unicamente da razão e o vê como aquele capaz de viver sensivelmente, que concebe ao outro um lugar de destaque, como constituinte do mundo, e como aquele capaz de irradiar-se pela existência do outro como representante da condição humana, da ética. A ética para Levinàs é o que faz a compreensão da humanidade porque trabalha a sensibilidade para se captar a alteridade em cada rosto, este tão infinito que transcende à sacralidade. Esse autor, que tem formação no judaísmo, entende que quando se vive a ética, vive-se a sensibilidade da alteridade e nesse encontro entre alteridades chega-se a Deus. Esse pensador propõe, então, um olhar para a alteridade e consequentemente uma reação à modernidade, que tem em si o individualismo elevado a ponto de subjugar o outro em proveito próprio. Esse novo olhar levaria o homem ao máximo da realização de sua humanidade, onde o outro não é um trampolim para galgar degraus, mas um companheiro de jornada. Em seu trabalho sobre a ética Levinàs traz o face a face, não aos moldes de Buber, mas como o momento em que a riqueza do rosto do outro dá a noção de infinito e sacralidade dos seres. Também, segundo Levinàs, a manifestação própria de cada rosto, que não pode ser mesmificado por ser constituída sem moldes, ocorre como resultado daquilo que cada um vivencia em seu interior e é, portanto, única para cada ser; todos os rostos são distintos e cada um é infinito. Esse invólucro especial e único, com o qual se estabelece a relação que dá sentido ao mundo, também é instrumento pra o desenvolvimento da responsabilidade de um ser para com o outro. 26 Um rosto chama o Eu para sua humanidade, abre-lhe o infinito e o impede de entrar na totalidade. É pelo rosto que o homem fica diante do outro, frente a frente, é onde se revela como aquele que não pode ser aprisionado como ser infinito que é pela finitude do Eu. Também, segundo Levinàs, é importante que se compreenda que como Outro não está compreendido somente aquele de quem se pode ver o rosto, mas essa alteridade é expandida por toda a humanidade e a responsabilidade se multiplica pela diversidade de seres, para além da ética social, abrangendo também a solidariedade, que é o bem maior para uma convivência de harmonia entre todos os homens. É também o rosto do outro que me impele às minhas aspirações, aos meus valores e é nele que me responsabilizo pela humanidade, já que apreendo nele a fonte de captação da infinitude da alteridade. Essa responsabilidade, entretanto, não demove o eu de sua necessidade egóica de usurpar o lugar do outro, de tirar-lhe o espaço que lhe seria de direito e de se estabelecer como soberano levando o tu à condição de oprimido. Levinàs trabalha também com a consciência, que nos aproxima do outro e nos permite olhá-lo como um ser com as nossas mesmas possibilidades e não há como deixar de haver uma aproximação que se dá tanto por similaridade quando por compreensão das singularidades. Um olhar consciente do rosto do outro e, portanto, de nós mesmos, nos torna próximos e mutuamente responsáveis. É como se ao olhar o rosto do outro captássemos a nós mesmos e isso nos faz abraçá-lo internamente. Para essas pessoas concedemos a nossa entrega e quanto maior for a familiaridade, maior será o amor que, se não for um amor para engrandecimento do Eu, deixamos que a liberdade se expanda para que o outro se aproxime sempre mais de si mesmo, pois esta compreensão é parte da responsabilidade que temos pelo outro ser. Portanto, “o amor é o eu satisfeito pelo tu, captando em outrem a justificação de seu ser. (LEVINAS, 2004: 43). Segundo o pensamento de Levinàs, é preciso que o outro nos faça face para que saibamos quem somos. A própria existência do outro é o nosso parâmetro para que saibamos quem somos; ele nos reflete a nós mesmos e seu rosto é como uma caverna onde nossas palavras ecoam dentro de nosso eu para tomarmos consciência de quem somos. Sem o outro não temos referencias de nós mesmos e sem elas somos folhas soltas no universo, solitários, perdidos nos próprios 27 pensamentos, que sem o outro ficam sem destino, vagando como qualquer outro animal. O cogito se perde em si mesmo sem os parâmetros que o outro nos faz ler, pesando-nos a solidão da nossa própria existência. . Dessa forma, diz Levinàs: O outro, a exterioridade não significam necessariamente tirania e violência. Uma exterioridade sem violência é a exterioridade do discurso (...) Seu modo de ser e de se manifestar consistem em voltar sua face para mim, em ser rosto (...) Isolar um ser entre outros, isolar-se com ele no equívoco secreto do entre-nós, não assegura a exterioridade radical do Absoluto. Somente o testemunho irrecusável e severo que se insere “entre-nós”, tornando público, por sua palavra, nossa clandestinidade privada, mediador exigente entre o homem e o homem, está de frente, é tu. (LEVINAS, 2004: 45). Diferentemente de Heidegger, para quem a morte (nada) é se chegar ao autêntico de si mesmo e viver é desgarrar-se das relações com outrem, Levinàs trabalha com a morte do corpo do outro como o canal através do qual o homem vive o Tu em profundidade, onde a solidão do que é imutável cai-lhe sem que possa impedir. Entretanto, esse fatalismo escancarado na morte do outro, não o leva à angústia por sua própria morte. Esse vivenciar a morte do outro para Levinàs é mais relevante para a humanidade no sentido da solidificação da responsabilidade da relação com o outro, do que é a morte em vida pelo desabrochar do ser autêntico heideggeriana. Ao criticar o Ser-em-si que se apresenta na modernidade, voltado para seu livre arbítrio, para seus desejos, para seus conceitos, para o seu poder, Levinàs propõe um homem formado pelo respeito, pela responsabilidade, pela ética que geraria um homem melhor, mais próximo de seu semelhante dando um novo sentido ao que é ser humano. Em seu livro intitulado Totalidade e Infinito, Levinàs expõe o homem em dois de seus momentos vivenciais: -Enquanto totalidade, onde o ser se faz absoluto, senhor de si, independente, dono do conhecimento e da razão dominadora (eu penso, eu posso, eu tenho, eu quero, eu faço), consumista, imediatista e egóico. -Enquanto Infinito – onde o homem vive seu momento Outro, solidário, participante da construção da humanidade, responsável por sua existência, voltado para a alteridade, para solidariedade e para a ética, aberto em suas manifestações infinitas e intraduzíveis para o outro. 28 3 PARALELOS ENTRE AS TEORIAS 3.1 Husserl/Buber/Heidegger/Levinàs As teorias desses quatro mestres da filosofia andam em paralelo por tratarem do sujeito humano como aquele capaz de modificar sua existência a partir da existência do outro e também de compreender a existência do outro a partir da sua. Esses pensadores trataram das relações humanas, ainda que por vezes indiretamente, cada um dentro da singularidade do seu olhar, e deram a elas (as relações) um valor de construção, voltado para a compreensão da amplitude vivencial que o homem pode atingir pela mutualidade das relações que vive com seu semelhante. Enquanto Husserl fez uma abertura para um novo entendimento do homem como ser subjetivo, traçando um caminho até a intersubjetividade, onde se processa a conscientização da existência do outro como meu semelhante, Heidegger deslizou pela interiorização como caminho para se atingir essa compreensão. Segundo esse pensador a existência constituída pelo outro, mas individualizada como o espaço onde o Ser agoniza por se manifestar, concebe por si só uma abertura cujo portão é a tristeza que acarreta aqueles que se encontram com possibilidade de realizar o seu verdadeiro Ser. Husserl ampliou a visão das percepções sensoriais para a visão das relações entre os seres, estes individualmente constituídos por suas representações pessoais do mundo. Essa consciência da percepção subjetiva de cada indivíduo levou o homem à compreensão de seu próprio processo relacional, ou seja, que é pela reflexão sobre a importância do outro em sua própria constituição que ele se percebe humano, sendo um igual dentro da totalidade universal. Heidegger, entretanto, ainda que também tenha trabalhado a importância da alteridade, percorreu um caminho solitário para essa compreensão. Defende que para essa realização o homem faz uma suspensão de seus interesses mundanos, das armadilhas do mundo objetivo, do cotidiano e volta-se para seu interior. Nessa incursão que vai da tristeza para a angústia e desta ao 29 estado interno que chamou de “nada”, o homem faz uma dolorosa reavaliação do seu mundo, enquanto vai em vertiginosa queda interna ao encontro do seu Ser, que lhe ascende a uma maior inteireza. Especialmente nesse momento de sua teoria Heidegger se encontra novamente com o pensamento de Husserl quando este colocou o momento de suspensão de valores , conceitos e percepção como fundamental para que o homem processe a ampliação de sua consciência e ressurja renovado. Ainda que Heidegger trate dessa suspensão como caminho para que o homem encontre o seu verdadeiro Ser, esse processo naturalmente o leva a uma nova consciência, uma vez que ao retornar do dolorido estado de “nada”, ele estará mais completo, mais consciente de sua humanidade e existência. Levinàs, entretanto, traça um caminho totalmente voltado para alteridade, onde o homem é responsável não somente por si mesmo, mas por toda a humanidade. Para esse pensador o rosto do outro é como um espelho que nos remete não só a ele como ser infinito em suas manifestações, mas também a nós mesmos como reflexo que nos torna conscientes de nossa responsabilidade perante a humanidade. A diversidade de “outros” e a impossibilidade de tematização de cada rosto é colocado por Levinàs, não só como uma riqueza própria do ser humano, mas também essa impossibilidade de captar as suas manifestações o tornam alvo de cobiça. Isso se explica, segundo Levinàs, devido a um desejo que o homem tem de assimilar o significado do outro, o que tem despertado um eu predador de seu semelhante, no sentido de dominá-lo. Sem descartar a racionalidade como uma das bases da filosofia, esse autor traça uma crítica ao Ser heideggeriano por considerar que o perfil do Eu racional e voltado para si mesmo, como vem se desenhando no mundo moderno, está desenvolvendo uma soberania que leva o homem ao egoísmo da posse e da sede de poder que subjuga outro homem. Apesar dessa sede de domínio, Levinàs trata o homem como aquele responsável e capaz de promover a igualdade, trabalhando a pluralidade, as relações e a ética que permitem que a justiça e o viver sensivelmente irradie-se pela existência dos demais seres, o que elevaria o homem egóico a um lugar quase sacral. 30 Com o homem mais completo, mais voltado para o seu interior e compreendendo a importância da alteridade para sua própria existência e, portanto, mais pronto para compreender-se como ser relacional, chega-se à obra Eu e Tu de Buber. Com a frase “Torno-me eu na relação com o Tu” Buber mostra o teor de seu pensamento, onde é através da profunda compreensão de que o outro está em mim e eu estou nele que o homem torna-se um doador e um receptor do outro, onde as relações se estabelecem como inerentes a ele, sem as quais não poderia viver a sua plenitude como ser humano. Essa recepção/doação ao outro tem sua origem já na concepção do homem, mantendo-se como anseio durante toda a sua trajetória de vida. Esse anseio o leva a procurar eternamente a proximidade com seu semelhante, a ponto de estabelecer com ele um momento pleno de recepção, quando através do face-a-face, vivencia uma profunda compreensão da presença do outro em sua formação existencial. Intercambiando esses quatro momentos filosóficos, é possível, talvez não afirmar, mas questionar se haveria as intensas relações buberianas se não houvesse uma interiorização, uma compreensão do chamamento do Ser interno como aquele que fará o homem mais inteiro, mais completo em sua humanidade, como preconizou Heidegger. O Ser, entretanto, não se faria inteiro sem a compreensão da alteridade responsável de Levinas e sem o alargamento da percepção de que sua consciência é guarnecida pelo entendimento da consciência do outro, de acordo com a intersubjetividade husserliana. Assim, o pensamento desses quatro filósofos se entrelaçam, se complementam, se enredam um no outro como uma rede de fios que formam o desenho da humanidade dos seres, elaborando o descortinamento do homem relacional e abrindo para ele o mundo da consciência (Husserl), o mundo interior (Heidegger), o valor da alteridade (Levinàs) e o mundo da reciprocidade (Buber). 3.2 O Sonho de Buber Entretanto, ainda que a reciprocidade buberiana seja o grande ideal para a existência humana, onde o homem é totalmente capaz de receber a magia cósmica 31 em sua vida terrena, há que se questionar a real possibilidade de se viver o outro com tal intensidade no mundo pós-moderno. Caberia a dúvida sobre a possibilidade nesta era onde tudo é efêmero, de uma relação Eu e Tu constituir-se plenamente sem que se obscureça o outro enquanto alteridade. Buber traçou talvez a condição que levaria o homem ao grande descobrimento de sua humanidade, mas diante da carga egóica, da crescente retomada da valorização empírica e, como bem disse Buber, dos efeitos psicossociais tão alargados atualmente, quantos homens estariam prontos para a gratuidade universal? Existem homens perdidos no significado da relação Eu e Tu, dando a ela um cunho de domínio no sentido de subtrair do outro a liberdade de Ser, sem compreender que o Tu é um acréscimo para aquele que o consegue captar e vivenciar sem a necessidade do eclipsar do seu Eu. Alteridade é aquela que completa, que torna o homem mais humanizado e não aquela que o torna algoz e tampouco escravo. Segundo Husserl a singularidade da consciência é o grande diferencial humano, uma vez que a partir dela o mundo pode ser compreendido não somente como aquilo que me vem a partir de mim mesmo, mas também é onde lanço minha intencionalidade e de onde retiro as ferramentas que me tornam melhor e maior. Essa singularidade é o que me difere do meu igual, é o que me faz rico e único. Assim, o encontro relacional pleno que, segundo Buber, é quando me torno inteiro para receber o Tu e dele me constituir, não ofereceria nenhum risco de perda da singularidade. Entretanto, não se pode deixar de mencionar que o homem é também um ser fragilizado pelas carências e, portanto, dominador e também dominável. Na ânsia de participar de um momento de entrega, poderá se equivocar com o sentido desse momento e assim perder-se como ser pleno e singular. Ainda que Buber não esteja tratando dos sentimentos do homem, que são difusos por força de suas circunstâncias, mas de sua condição de receptor da graça cósmica, não se pode negar que este momento é sutil e, portanto, em sua fraqueza psicológica, os indivíduos fazem em entendimento errôneo da reciprocidade plena, muitas vezes deixando-se arrebatar pelo sentimento de amor, de entrega cega e se oferece em holocausto, levando o seu Eu à condição de escravidão, assim a sua singularidade perdendo 32 Por exemplo: Na obra Servidão Humana de W. Somerset Maugham há a triste condição do jovem Philip Carey, que vivendo um processo de destruição do seu Eu, portanto, perdendo o seu Ser, oferta-se à mulher que ama, sem compreender a inversão que fez do sentido de relação plena. Em lugar de abrir-se para receber o Tu que complementaria o seu ser tornando-o mais inteiro e mais livre, ofereceu o seu Eu enfraquecido pelas carências psicológicas ao Eu egóico do outro, esquecendo-se de sua singularidade e destruindo suas possibilidades como recebedor da gratuidade universal. Voltando a Heidegger, a compreensão da alteridade está ligada à abertura que se faria a partir de profunda introspecção, de um estado de dolorosa quietude em relação ao mundo material e aos prazeres mundanos, onde a audição se faria surda aos seus apelos ao mesmo tempo em que se refinaria para captar o nascimento do Ser-aí, da existência. Assim, aquietar o espírito, segundo Heidegger a partir da angústia, poderia ser um caminho para se chegar ao ser-aí e, portanto, ao face-a-face buberiano, uma vez que para se estar nessa relação tão completa seria necessário que o homem a desenvolvesse um novo olhar para o mundo e para a alteridade. Porém, até mesmo essa dor está de certa forma mascarada pelos holofotes dos chamamentos da modernidade. As luzes acenadas pelos novos valores como, por exemplo, as relações efêmeras, famílias fragmentadas, são fatores considerados como inerentes aos tempos modernos, e por isso distorcem as verdadeiras razões da angústia, o que inviabiliza o aprofundamento interior necessário à plenitude das relações Eu e Tu. Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman existe uma fragilidade nas relações pós-modernas, onde desfazer uma relação está muito mais fácil, considerando que não há mais os laços que faziam a durabilidade do contato inter-humano. Partindo dessa posição, pode-se dizer que o efêmero tomou o lugar dessa construção duradoura, o lugar onde a história de cada um estava atrelada à história do outro, num espaço interno provavelmente mais seguro, ainda que de menor liberdade (BAUMAN, Z.: 2011) 33 3.3 Como poderia a plasticidade perceptiva se adequar ao face-a-face buberiano? Devido à grande riqueza perceptiva do homem, existem muitos canais abertos, todos recebendo e dando comandos, uns intencionais e outros inconscientes, num movimento ímpar no que se refere a sua plasticidade perceptiva. Essa percepção, entretanto, ainda que plástica, perde no pós-moderno a sutileza aguda que a tornaria enriquecedora e escorrega para uma plasticidade caótica e superficial. No entanto, para estar-se apto a vivenciar o pensamento de Buber, seria necessário um recolhimento psico-social, uma sutileza no viver, um desabrochar interior natural em detrimento da relação superficial que vem se processando no mundo objetivo. Com o grande desnivelamento entre as potencialidades descritas em Buber e os atos do homem moderno, não seria estranho duvidar da possibilidade buberiana de se viver o face-a-face. Lembrando Levinàs, a multiplicidade dos rostos representam o diversificado mundo interno do homem como infinito e impossível de ser captado pelo outro. Seria possível então o Eu estar pleno com o Tu que é infinito? 34 4 FILOSOFIA CLÍNICA (Inversão ou Recíproca de Inversão?) Antes de entrar nos itens “Inversão” e “Recíproca de Inversão”, que compõem esta monografia, faço uma referência à Filosofia Clínica no sentido de oferecer um panorama daquilo que a compõe enquanto terapia. Como bem escreveu José Maurício de Carvalho, há séculos o homem se dedica à investigação de como se processa sua existência, de como se constitui como pessoa, mas somente a partir do surgimento da psicologia ele aproximou-se, não da co-habitação como participante do universo, nem de como se processa essa participação, pois essas áreas já vinham sendo estudadas pela filosofia, mas adentrou nos estudos de seu comportamento, das personalidades, dos distúrbios emocionais, enfim versou por caminhos que explicariam aspectos de sua existência. (CARVALHO, J. M: 2005) A filosofia clínica, entretanto, trabalha por um caminho diverso da psicologia, no que se refere ao método, pois não se atém às tipificações ou as especificidades de aspectos, mas sim adota como uma de suas bases de trabalho a fenomenologia existencial, ou seja, a singularidade de cada existência, observando o mundo da pessoa como é vivenciado por ela. Seu embasamento está vinculado aos caminhos da filosofia, que se constitui pelo pensar a vida humana, e é na utilização dessa visão, porém, atualizada pela fenomenologia contemporânea, onde cada pessoa tece o seu significado de mundo, que a filosofia clínica se presentifica na relação com o partilhante no sentido de auxiliar na minimização dos choques entre sua estrutura de pensamento (EP) e o seu mundo vivencial, abrindo ao partilhante um novo horizonte que lhe permita melhor sustentação para enfrentar os conflitos que se lhe apresentam. Através da historicidade, que trará o mundo vivencial do partilhante, das 6 (seis) categorias, que permitirão sua localização existencial , dos 30 (trinta) tópicos de estrutura de pensamento (EP) que comporão seu modo de ser e de 32 submodos que darão a direção de como a pessoa age diante das situações de sua vida, a filosofia clínica estabelece sua metodologia de trabalho, ainda que esses 35 parâmetros não sejam levados a efeito como um guia permanente, aplicáveis linearmente a todos os partilhantes. Trata-se de um recolhimento de dados que permite a concretização de uma ”investigação” da vida do partilhante, que se reverterá na ajuda para a sua compreensão dos próprios conflitos e visualização de novas formas de ele se colocar no mundo a partir de si mesmo. Na elaboração desta monografia, além dos itens inversão e recíproca de inversão, que são a sua base de construção, estão sendo tratados também os tópicos “como o mundo lhe parece” e “o que acha de si mesmo”, uma vez que essa constituição interfere grandemente nas relações e compõem a forma como as pessoas se movem no mundo a partir de si mesmas e das interseções. Assim, para melhor esclarecer o andamento desse capítulo, será seguido o roteiro descrito abaixo, lembrando, porém, que uma pessoa é composta pelo entrelaçamento de diversos tópicos da Estrutura de Pensamento, bem como age sob vários itens da Tábua de Sub-modos e os itens abaixo discriminados são apenas aqueles que estão mais diretamente relacionados ao tema deste trabalho, que são as relações. Roteiro: 4.1 Tópico 01 da Estrutura de Pensamento: “Como o mundo lhe parece”. 4.2 Tópico 02 da Estrutura de Pensamento: “O que acha de si mesmo”. 4.3 Tábua de Submodos: “Inversão e Recíproca de Inversão” 4.4 As relações 4.1 Tópico 1 - Como o mundo lhe parece (pela visão fenomenológica) Esse tópico não trata do mundo objetivo, comum a todos, mas do mundo existencial da pessoa, de como ela o representa para si mesma, como coloca aquilo que percebe. Não há uma análise no sentido de saber a veracidade daquilo que o partilhante traz, inclusive porque seria necessário um estudo sobre o que é a verdade, mas cabe ao filósofo clínico captar o olhar do partilhante para o mundo, qual o desenho que se formou para ele a partir de sua história, inclusive verificando 36 se esse tópico tem relevância para a pessoa, se ele está ou não representado de maneira a interferir em seus conflitos, ou seja, até que ponto há uma valoração desse tópico para sua estrutura de pensamento (EP). Lembrando que o mundo do partilhante é absolutamente singular e pertence exclusivamente a ele no sentido da formação de sua singularidade. Portanto, sendo o mundo suas representações, e levando-se em conta os ensinamentos de Protágoras onde “o homem é a medida de todas as coisas”, cabe ao filósofo clínico ter em primeiro plano o conhecimento de que há tantas diversidades de mundo quanto houver de pessoas e que cada uma, dentro de sua estrutura de pensamento, tecerá um bordado diverso, dentro de lógica própria. Esta singularidade, por sua vez, nos remete ao tópico 2 (dois) da Estrutura de Pensamento, que descreve qual a visão da pessoa sobre si mesma, conforme abaixo: 4.2 Tópico 2 – O que acha de si mesmo Este tópico demonstra como a pessoa se vê no mundo, o que pensa, o que sente, como sente, enfim como entende a si mesma, quais as percepções de faz de si, como se vê enquanto pessoa. Ao filósofo clínico, consciente que estará da subjetividade do mundo interno de cada partilhante, caberá compreender que o pensamento do partilhante sobre si mesmo está construído a partir de suas representações, e a forma como interage com as pessoas está diretamente ligada a elas, que por sua vez são constituídas daquilo que a pessoa viveu, daquilo que abstraiu do mundo e das relações e que formaram sua historicidade, sua pessoa enquanto ser subjetivo. Cada homem está na vida de maneira peculiar, tem o seu jeito de lidar com as contradições do mundo e com suas próprias contradições, se modificam ou se preservam de acordo com seu próprio entendimento do que seja viver o mundo. Por exemplo, algumas pessoas se desestruturam e até mesmo se submetem ao outro quando se relacionam enquanto outros se fortalecem ou mesmo se tornam opressores; enfim cada ser é único e é com essa consciência que o clínico faz o seu trabalho terapêutico. 37 4.3 Submodos: Inversão” e “Recíproca de Inversão” Esses itens podem ser tratados tanto na Estrutura de Pensamento, que compõe o modo de pensar da pessoa, quanto na Tábua de submodos, que descreve como a pessoa age em sua vida. Como EP está relacionado à espacialidade, ou seja, a possibilidade que o homem tem de se transportar mentalmente, de ocupar lugares imaginários onde não necessariamente ele esteja fisicamente. Como disse José Maurício, através da mente ele pode viver situações que atendam aos seus desejos ou fugir daquelas que não deseja, tudo imaginariamente (CARVALHO, J. M.: 2005).Diferentemente de todos os demais seres, o homem é capaz de se deslocar para aquele espaço psicológico onde esteja o outro, inclusive para complementar a sua visão de mundo a partir da visão de mundo do outro. Essa riqueza de potencialidade permite a ele uma flexibilidade no espaço de sua existência. Como submodos caracterizam se o partilhante está fazendo uso real, se está levando a efeito essa alternativa para construir a sua vida, se ele de fato está indo ao mundo do outro ou se está trazendo o outro ao seu mundo para constituirse. Diferentemente do que poderia parecer, não cabe ao profissional da clínica modificar esse caminho encontrado pelo partilhante, cabe a ele somente auxiliá-lo a compreender se esse caminho escolhido é aquele que o levará a solucionar os seus possíveis conflitos, sem fazer para isso nenhuma interferência direta ou indireta no sentido de modificar esse mundo. Ambos os itens, Inversão e Recíproca de Inversão, estão atrelados às relações, seja pelo fato de o partilhante ter a sua mente voltada para si mesmo como acontece na Inversão, seja por sua mente está voltada para o outro como se dá na Recíproca de Inversão. Em qualquer desses momentos o outro está presente, seja pelo distanciamento, seja pela proximidade. São também caminhos para que o filósofo clínico trabalhe no sentido de trazer o partilhante às suas próprias coisas ou a levá-lo a um redimensionamento de suas perspectivas, a partir da percepção do mundo do outro. Para relacionar o significado de cada item acima exposto – Como o Mundo lhe Parece, O Que Acha de Si Mesmo, Inversão e Recíproca de Inversão – dentro da visão da Filosofia Clínica, utilizamos como base a leitura principal desta 38 monografia, Eu e Tu de Buber, além de Ser e Tempo de Heidegger, Fenomenologia de Husserl, Entre Nós e Totalidade e Infinito de Levinàs. 4.4 As Relações De acordo com Martin Buber as relações se dão pela reciprocidade plena entre dois seres, seja ele outro sujeito, Deus, ou mesmo um objeto. Entretanto, aqui levamos a efeito mais propriamente as relações entre dois sujeitos, já que são as relações humanas enquanto Inversão e Recíproca de Inversão o foco desta monografia, para atender seu elo com a Filosofia Clínica. O questionamento que temos a respeito do elo entre o Eu e o Tu buberiano é sobre a viabilidade de se viver um momento tão profundo (face-a-face) no mundo como está construído hoje. Apesar de não se poder afirmar sua inviabilidade, e ser este um grande potencial da humanidade, segundo posição de Buber, não é o que vem ocorrendo neste momento de pós-modernidade, onde os valores que até então constituíram o mundo escoam para fora da vida das novas gerações com tamanha velocidade que não permitem que a tradição calque seu ensinamento histórico que lançaria o homem para um crescimento não só tecnológico e cientifico, mas também metafísico, para que pudesse alcançar também aquilo que, apesar de não ser comprovado, poderia ser um caminho crescente em direção à relação plena buberiana. Essa efemeridade do mundo moderno, segundo pensamento de Levinàs, não tem permitido que o homem olhe para o Outro vendo-o como o Tu que o constitui e isso o tem enfraquecido para a vida, já que seu mais forte sentido de humanidade está na relação com seu semelhante. Também pela inter-subjetividade husserliana, é na suspensão de sua própria percepção que se abre o olhar à percepção que o outro faz do mundo e que o fortalece enquanto ser relacional. De acordo com Levinàs, ao passearmos pelo mundo do outro, dividindo com ele nosso mundo e recebendo o seu mundo no nosso, teremos uma experiência de aproximação muito profunda que nos trará grande modificação enquanto homens. 39 Entretanto, a filosofia clínica não trabalha com essa possibilidade, entendendo não haver necessidade de se adentrar o mundo o outro para que se dê a compreensão do seu mundo e para se estabelecer com ele uma interseção. Segundo Lucio Packter6 para que essa compreensão se faça presente, qualquer elemento sensorial, ou ainda qualquer outro caminho poderá nos levar ao outro sem que seja necessário adentrarmos o seu mundo (Caderno C). Não podemos deixar de perceber a mudança que está ocorrendo nas relações do mundo contemporâneo onde, apesar do grande número de casamentos, por exemplo que, salvo alguma particularidade, significa a procura pelo amor do outro, está paralelamente ocorrendo grande numero de divórcios, como pode ser observado no artigo a seguir, o que faz supor estar havendo uma incompatibilidade nos afetos e nas relações, de acordo com Levinnas. Para tanto, cabe o exemplo abaixo, conforme dados divulgados pelo IBGE e divulgados por O Globo: O número de divórcios no Brasil é o maior desde 1984. Taxa de divórcio atingiu seu maior valor, de 1,8 por mil habitantes em 2010. Segundo IBGE, mudança na legislação contribuiu para elevação. O fim da exigência de prazos para dissolução dos casamentos fez com que a taxa geral de divórcios atingisse, em 2010,o seu maior patamar desde 1984, quando foi iniciada a série histórica das Estatísticas do Registro Civil, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) (2011). O artigo acima, que é atual, já havia sido preconizado por Levinàs quando esse defende que , ao contrário do respeito, que é uma relação entre iguais, o amor se estabelece entre desiguais, e pode ser concluído, com base no encontro do homem consigo mesmo heideggeriano e na mutualidade buberiano, que o ser humano está procurando no outro aquilo que lhe falta internamente. Está se formando um equívoco entre o amor pelo Tu advindo do respeito ao outro que nos justifica, e a nossa necessidade do Tu advinda de carências psicológicas. No lugar de buscar-se na perspectiva própria, conforme Heidegger, para, mais inteiro, sensibilizar-se com o outro, o homem busca completar-se pela perspectiva do outro, não da alteridade por quem é responsável (Levinàs) ou da alteridade que completa sua existência (Buber), mas pela submissão ou pelo domínio do outro, submergindo no caos e no aparente determinismo do cotidiano. ___________________ 6 Lucio Packter – Criador da metodologia terapêutica denominada Filosofia Clínica. 40 Como disse Levinàs : ” ... o eu, assim entregue ao ser, é lançado para fora de si, para os lugares de um eterno exílio, perdeu seu domínio sobre si... Está a mercê de acontecimentos que já o determinaram” (LEVINAS, 2004: 77) ...Esses pensadores trouxeram um nova perspectiva para que o homem se conheça como um ser potencialmente humano e capaz de compreender não só a si mesmo, mas também ao outro como seu complemento, não no sentido da superficialidade, mas no sentido de similaridade existencial. Entretanto, a modernidade o tem distanciado dessa perspectiva de alteridade complementadora, o que o lança para um lugar cada vez mais distante da generosidade de Buber, conforme estatísticas, por exemplo, de divórcios (IBGE acima). Em lugar de interiorizar-se no sentido de tornar-se mais completo, de acordo com Heidegger, o homem volta-se para si mesmo no sentido egóico, individualista, opressor, de acordo com a percepção de Levinàs, para quem a responsabilidade que cada um tem por todos está cedendo lugar ao cada um por si, onde as manifestações dos rostos já nem são percebidas como infinito quase sacral. A relação profunda tratada por Buber, onde o Eu assimila o Tu como parte de si, numa compreensão plena do outro como aquele que realiza a sua humanidade , tem se tornado alvo mais distante de ser atingido. O que tem ocorrido na modernidade é o ser voltado para si mesmo – “inversão”, o que, paradoxalmente, lhe tem causado grandes aflições já que, distantes de sua condição primeira como ser humano, que é estar em relação com seu par humano, transmuta a busca de compreender-se através do outro para uma busca em tirar do outro o que lhe falta, impossibilitando sua condição de viver a paz buberiana. Não conseguir assimilar o outro, conforme Levinàs, torna o homem seu próprio algoz e calçado pelo mundo moderno, onde o capitalismo incentiva a lei do domínio, oprime aquele que o elevaria à plenitude buberinana. A filosofia clínica tem por função, através dos caminhos traçados pelo próprio partilhante, aproximá-lo daquilo que perturba sua alma e o impede de chegar a uma boa convivência consigo mesmo. Ao adentrar os tópicos “como o mundo lhe parece” e “o que acha de si mesmo” em clínica, o partilhante estará descrevendo sua subjetividade e também o que captou de suas circunstâncias de vida. Como os tópicos são móveis, enquanto descreve a si mesmo (o que acha de si mesmo) e enquanto descreve o seu mundo 41 representacional (como o mundo lhe parece), o partilhante irá se descobrindo, se percebendo e refazendo por si só o seu caminho para uma vivência mais tranqüila. Nem mesmo na recíproca de inversão, na qual o partilhante sai do seu mundo e trabalha a si mesmo a partir do que capta do mundo do outro, tendo com ele um intercurso que por vezes é solitário, não implica na relação Eu Tu buberiana. Salvo casos raros, o partilhante quando procura a clínica encontra-se em processo de sofrimento, grande parte das vezes, para viver as relações, já que o homem é um ser gregário, que está sempre vendo a si em relação com o outro. Assim, dentro da abrangência das circunstâncias do mundo moderno, estáse revelando cada vez mais difícil a generosidade e reciprocidade buberianas e, quem sabe, seja um dos motivos que tem levado o homem aos conflitos em relação a sua existência. Voltando à questão inicial – inversão ou recíproca de inversão? – nos baseamos em Heidegger e em Buber para afirmar que os dois caminhos poderiam se complementar para as relações. Como seria possível ao homem estar em recíproca de inversão, no contexto de Buber, se antes ele não vivenciou a inversão? Ou seja, como o homem poderia estar plenamente voltado para o outro sem que tenha se voltado antes para dentro de si mesmo no sentido de interiorizar-se, crescer, compreender a si e a alteridade e então emergir dessa compreensão com a clareza de que o diálogo silencioso é o caminho para a paz de Buber. Sem separar-se do cotidiano, sem voltar-se para si mesmo, sem assenhorarse de seu próprio universo interno talvez o homem não se dê conta de que o outro, além de possuir um universo individual, também é o seu complemento. Esse olhar para o outro como aquele que lhe é igual, para além das singularidades, poderá trazer como provável conseqüência a consciência do valor do diálogo, da generosidade, da mutualidade e da humanidade como aquilo que iguala a todos em uma mesma categoria ou gênero e lhe dá unidade. A partir dessa ideia de similaridade, seria viável ao ser humano compartilhar a relação plena, como preconiza Buber. Entretanto, o mundo moderno tem se distanciado desse momento, considerando que o cotidiano atual tem se desenvolvido em direção ao Eu Isso, perdendo o mundo reflexivo o seu lugar como caminho para o encontro dialogal, deixando à deriva o projeto de tornar-se pleno na unidade com o outro. 42 5 INTERSEÇÃO ENTRE O PENSAMENTO DOS FILÓSOFOS Podemos dizer que há uma interseção entre os quatro pensamentos, na medida em que todos tratam da relevância da alteridade para a formação existencial do homem. A intersubjetividade husserliana, a compreensão existencial heideggeriana, a alteridade levinasiana e a plenitude das relações buberianas tornam transparente ao homem sua formação a partir do outro, que por sua vez desempenha papel fundamental no desenho existencial de cada ser humano. Podemos concluir que para esses pensadores, não importa por quais caminhos o homem ande, o valor da alteridade o acompanha, ainda que, por algum viés de seu cotidiano não lhe pareça que tal esteja ocorrendo, ou seja, que ao cegarse pelas luzes do mundo material, deixe de aperceber-se da valoração do outro em sua vida interna e externa. Outro momento de interseção entre essas teorias é quando os filósofos tratam, cada um a seu modo, da necessidade de se fazer a chamada “suspensão dos juízos”. Todos eles trabalham com a ideia da necessidade de que o homem se afaste do mundo material, do seu cotidiano, para que possa deixar aflorar a sua humanidade. O processo de Husserl dá-se quando o homem se afasta dos fatos representados por sua própria percepção e volta-se para o significado do mundo concebido por seu semelhante, quando terá oportunidade de dar maior flexibilidade e largueza a sua própria consciência. Já Heidegger coloca o homem em um momento especial de sua vida no qual ele se desconstrói ao entrar em um estado interno que chamou de “nada” onde, consumido pelo tédio da angústia quase mortal, entrega-se à dor afastando-se do mundo objetivo para tornar-se inteiro, de onde traz a compreensão da alteridade em sua constituição, bem como de si mesmo como constituinte do outro. Levinàs, diferentemente de Heidegger, trabalha com o diálogo e foi um ferrenho defensor da alteridade composta por cada rosto com suas infinitas manifestações, pela responsabilidade de um sujeito para com o outro e pela ética que mantém o homem em seu caráter mais próprio, a humanidade. Esse autor também defende que o homem moderno é egóico e possuidor do outro, submetendo 43 a relevância da alteridade a um plano egóico e centralizador, vivendo o momento que a Filosofia Clínica define como inversão, onde o sujeito centra-se no seu próprio mundo e não abre espaço para o outro em sua constituição existencial. A obra denominada “Servidão Humana” acima citada traz os dois exemplos: O aprendiz de artista Philip vive em recíproca de inversão, já que seu mundo se constitui do mundo de sua amada, a ela se submetendo até às últimas instancias da servidão. Ela, em contrapartida, egoisticamente domina aquele que a ama vivendo em inversão, já que tem o seu mundo voltado para si mesma, sem observar o mundo amoroso de Philip. Nessa obra Mildred, uma garçonete que Philip conhece em Londres, ao pressentir o imenso amor que o jovem lhe dedica, aproveita-se para dominá-lo e levá-lo a submissão, momento que o autor descreve como sendo um amor de tormentas do qual Philip se ressentia amargamente pela sujeição em que ela (Mildred) o mantinha. Estava prisioneiro e suspirava pela liberdade sem, entretanto, conseguir voltar-se para si. Enquanto isso, Buber, também dialogal, idealiza a relação Eu e Tu e dá lugar a um homem adornado pela reciprocidade, pela generosidade e, portanto, também voltado para o outro. No interior do homem buberiano não há lugar para os encantamentos do mundo material, defendendo uma suspensão da superficialidade para que se abra espaço para o momento do face-a-face, onde o Eu é capaz de entregar-se a sua humanidade para receber a dádiva de viver o outro. Somente algumas pessoas têm sido capazes de viver o face-a-face buberiano, como por exemplo, Madre Tereza de Calcutá e Mahatma Gandhi, que foram pessoas que compreenderam sua vida a partir do outro e viveram em recíproca de inversão com toda a humanidade, pautando sua vida pela compreensão do que é a harmonia e a paz a partir da generosidade. Assim, especialmente Heidegger e Buber abrem o entendimento para a compreensão dos tópicos Inversão e Recíproca de Inversão, ferramentas da filosofia clínica para entendimento do homem voltado para si e voltado para o outro. No mundo moderno, não se passa muito tempo sem que a mídia dê notícias de um caso ilustrativo de inversão. Há alguns anos um crime passional, executado por um grande artista popular, que após a separação da esposa, uma jornalista também de sucesso, não conseguiu sair da inversão, ou seja, viveu um mundo voltado apenas para si mesmo, desprezando a recíproca de inversão que 44 provavelmente o teria tirado da condição de assassino, se a sua historicidade assim permitisse. Como esse, temos muitos exemplos de pessoas que vivem fundamentalmente em inversão. Mas também não é incomum, pessoas que vivem demasiadamente em recíproca de inversão, como o exemplo do jovem Philip Carey da obra já citada. Esse homem, ao contrário do crime passional, vivia voltado apenas para o mundo do outro, sem aperceber-se de si mesmo. Entretanto, apesar de os exemplos acima servirem para ilustrar os itens Recíproca e Recíproca de Inversão, e também para auxiliar no entendimento da estrutura de pensamento entre Levinàs, Heidegger e Buber, não podemos deixar de comentar que, pelo entendimento de Levinàs, o homem não exerce o pensamento dos grandes filósofos, como eles o descreveram. Segundo esse autor, o mundo chamado moderno tende a modificar os sentidos dados às potencialidades humanas e vive pela cartilha do capitalismo, onde existe a usurpação dos direitos do semelhante alastrando o mundo egóico. Como exemplo, podemos dizer que ao descrever o mundo interior, o homem voltado para si mesmo, Heidegger não traduziu o egoísmo, mas sim fez uma reflexão reavaliativa sobre a validade de se viver a partir do cotidiano em detrimento da busca interna. Tratou inclusive, da necessidade de se fazer uma suspensão no mundo objetivo para que o autoconhecimento pudesse resplandecer a partir de um aprofundamento interno. Quanto a Buber, que tratou das relações da forma mais divinal possível dentro da condição humana, onde um homem se faz a partir do outro, num diálogo sereno e capaz de estabelecer a paz para a humanidade, tão grandioso é o seu momento descrito como face-a-face, onde o homem fica frente ao outro com a mesma integridade e com a mesma integração que tem consigo mesmo, também não é vivido em nossa era como possibilidade a ser alcançada. Contrapondo sua doação serena ao outro, o homem a substitui pela captação do eu do outro, tomando para si sua alma e subjugando o seu semelhante à escravidão pelo domínio, como fez Mildred no exemplo da referida obra Servidão Humana. 45 5 CONCLUSÃO O questionamento que deu origem a esta monografia foi referente ao pensamento de Martin Buber, de que o homem recebe como dádiva do universo a condição de viver uma relação plena com seu semelhante e que essa proximidade máxima não afeta sua singularidade. Diferentemente de Buber, Heidegger defende que o homem percorre um caminho interno para encontrar-se a si mesmo e que é a partir desse encontro consigo que encontra a compreensão do outro em sua vida, enquanto Levinàs trata do homem com possibilidades de relação maiores do que aquela que exerce. Fechando o quadrilátero com a fenomenologia husserliana, onde o homem percebe-se através do outro, cujo caminho dá-se pela suspensão de seu juízo e pela abertura de um olhar para a percepção do outro, temos posições sutilmente diferentes, mas que estão unidas por um elo: O outro. Ainda que tratado de forma diferente, a alteridade e as relações permeiam as obras estudadas para esta monografia. Diante do mundo moderno, como poderíamos fazer um encontro entre a reciprocidade tecida por Buber e a gente de hoje? Na verdade o homem tem se distanciado dessa generosidade, de acordo com o entendimento de Levinàs, que descreve o ser humano com potencialidades infinitas, mas perdido no emaranhado das novas descobertas. Entendo que todos esses caminhos sejam possíveis, tanto a vivência do mundo interior heideggeriano, como a mutualidade de Buber. Entretanto, parafraseando Levinàs, o mundo moderno está usurpando a liberdade do outro em proveito próprio, fazendo em seu rosto uma leitura que seja conveniente a seus propósitos pessoais. Se é possível vivermos a relação plena, conforme idealiza Buber, essa imensa potencialidade não tem sido utilizada de forma generosa, mas sim como mais uma ferramenta de domínio do outro. Após adentrar essas obras, entendo que existiria sim a possibilidade de que essa ideologia fosse exercida. Contudo, penso que anteriormente a esse momento de tão grande entrega para a vida, seja necessário uma passagem pelo caminho do filósofo Heidegger em Ser e Tempo, onde, através de uma incursão interna, 46 repleta de dor e aprendizado, o homem estaria vivendo um momento só seu, de aprofundamento e descoberta de seu ser – chamado pela Filosofia Clínica de Inversão. Após fazer a compreensão da representação do Outro em sua vida, e emergir de seu calabouço mais preparado para viver a Recíproca de Inversão, seria possível ao homem pensar no seu mundo a partir do mundo do outro e assim preparar-se para viver as relações em seu grau maior de proximidade, chamado face-a-face por Buber. Assim, respondendo ao nosso questionamento sobre a possível perda da singularidade no face-a-face, cabe dizer que a grande competitividade dos tempos modernos, o medo da perda para o outro, inclusive medo da perda da singularidade, talvez tenha contribuído para afastar o homem da relação plena e o tornado, ainda que singular, tão “mesmo”, unificado pela perda das relações e não pela diversidade que as tornaria mais enriquecedoras. Portanto, o face-a-face buberiano não levaria o homem a perder sua singularidade, mas sim o faria encontrar um caminho maior para sua existência e quem sabe o faria compreender, através do Outro, quem ele é. O encontro Eu e Tu é um momento da humanidade reservado somente a alguns homens. Isso se dá porque é necessário que o mesmos participem dessa humanidade e não somente que a recebam displicentemente, como se fosse um objeto colocado no mundo para nascer, crescer, dar frutos e morrer como os demais animais ou gêneros, sem participar da construção de sua história. Ao homem cabe uma vivência ímpar; ele é capaz de assenhorar-se de si mesmo, de sua vida e da vida de seus semelhantes, de estar presente no mundo com o peso e as benesses das capacidades que lhe são inerente e ter um olhar intencional para aquilo que significa sua vivência. A esses homens a graça universal se estende sem que necessariamente a procurem conscientemente, uma vez que ao aperceber-se de sua própria natureza, de sua humanidade, e vivenciá-la com a benignidade de um ser inteiro, estaria aberto para receber a benevolência cósmica que lhe proporcionaria o encontro do Eu com o Tu. Esse é um rico momento da vivência humana, no qual sua autonomia e sua sobriedade em relação às vaidades psico-sociais deverão estar excepcionalmente presentes, para que o seu Tu não se desvaneça na luzes mundanas. Entretanto, são momentos especiais e raros, sendo os relacionamentos instantâneos e fugazes aqueles que permeiam nossa vida cotidiana e que nos 47 mantém, não em contato com o Tu, mas com sua coisificação, com a ilusão do tu e, portanto, com a perda da parceria que poderia lhe tirar da melancolia. Inafortunadamente, o homem aprendeu a conceber as relações somente a partir da presença do outro, como se faz com os objetos, que estão aí mas não interferem em nossa vida, a não ser por nossas próprias mãos, para nosso deleite e teimam em não perceber que a riqueza do relacionamento com outro sujeito está justamente no fato de recebermos em nossas vidas a sua interferência . Ao romper nossa circunferência vivencial e redimensionar nossa história o outro nos amplia a consciência e nos forma a partir da relação que se processa entre Eu e Tu, a mutualidade onde cada um compõe e é composto pelo outro que lhe faz ser o que é. Compondo o pensamento de Buber, abaixo transcrevo uma música que lhe embalava o aprendizado sobre o outro, e que, segundo ele, traduzia seu pensamento sobre as relações Eu e Tu. Onde eu ando-Tu! Onde paro-Tu! Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu! Tu, Tu, Tu! Quando estou bem-Tu! E se a dor me vem-Tu! Tu, Tu, Tu! O céu-Tu, a terra-Tu! Em cima-Tu, embaixo-Tu! Em toda parte, onde quer que eu vá, Só Tu, outra vez Tu, sempre Tu! Tu, Tu, Tu! Mas, como levar o homem em direção ao face-a-face buberiano? Como conscientizá-lo de que a generosidade não só ampliaria sua condição de ser humano, mas que esse viver recíproco é tão abundante que poderia redimensionar o planeta como um todo? Estaria Buber dando uma direção para mudar o curso da história? Há que se pensar. 48 6 BIBLIOGRAFIA AIUB, M. Para entender Filosofia Clínica: o apaixonante exercício de filosofar. Rio de Janeiro: Wak Editora Rio , 2008 _________ Sensorial e Abstrato: como Avaliá-lo em Filosofia Clínica. São Paulo: APAFIC, 2000 BAUMAN, Z. Entrevista exclusiva – Iniciativa Fronteiras do Pensamento.Especial. 2011. Disponível em: http://www.youtube.com/watch?v=1miAVUQhdwM&feature=related. Acesso em 18/03/2012. BUBER, M. Eu e Tu. São Paulo: Centauro Editora, 2003 CARVALHO, J.M. Filosofia Clínica-Estudos de Fundamentação. São João Del Rei: UFSJ, 2005 GILES, T.R. História do Existencialismo e da Fenomenologia.V.I. São Paulo: E.P.U. EDUSP, 1975 __________ História do Existencialismo e da Fenomenologia. V. II. São Paulo: E.P.U. EDUSP, 1975 HADDOCK-LOBO, R. A Justiça e o rosto do outro em Levinàs. Depto.Filosofia. do Programa de Pós-Graduação em Filosofia da UFRJ . Disponível em http://www.ifcs.ufrj.br/~sfjp/revista/downloads/a_justica_e_o_rosto_do_outro_em_levi nas.pdf. 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