Ana Beatriz Freire e Rosane Z. Lustoza A psicanálise entre a razão e a causa* Ao buscar estabelecer qual o domínio próprio de validade dos enunciados freudianos, os intérpretes de sua obra depararam-se com o problema de definir qual o modo de explicação efetivamente utilizado pela psicanálise. Foi assim que as interpretações se distribuíram segundo dois grandes eixos: segundo uma corrente, a psicanálise empregaria um modo de explicação causal; segundo outra, o que estaria em jogo na clínica seria um modo de explicação racional. O presente trabalho, adotando a orientação lacaniana de leitura, inscreve-se em um esforço de colocar a questão de outra maneira, evitando formulá-la sob a forma de um dilema entre as alternativas razão e causa. Na verdade, faz-se necessário o emprego de ambos os termos, o que evidentemente impõe uma redefinição do sentido dos mesmos. pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 artigos > p. 28-39 > Palavras-chave: Psicanálise, epistemologia, explicação causal, explicação racional >28 By trying to establish the realm of the validity of the Freudian enunciations, the interpreters of his works face the problem of defining what is the way of explanation effectively used by psychoanalysis. That’s how the interpretations have been distributed according to two main axes: according to a trend, psychoanalysis would employ a form of causal explanation; according to the other, what would be at stake in the clinic would be a form of rational explanation. On adopting the Lacanian orientation of reading, the present work is part of an effort to place the question in a different way, thus avoiding questioning it in the form of a dilemma between the alternatives: reason or cause. In fact, it is necessary to employ both terms that clearly require a redefinition of their senses. > Key words: Psychoanalysis, epistemology, causal explanation, rational explanation *> O presente artigo é baseado na dissertação de mestrado realizada por Rosane Zétola Lustoza, cujo título é “A solidão teórica de Freud e as psicanálises contemporâneas”. A dissertação, orientada pela profa. dra. Ana Beatriz Freire, foi apresentada em fevereiro de 2002, no Programa de Pós-Graduação em Teoria Psicanalítica (PPGTP) do Instituto de Psicologia da UFRJ. O trabalho foi financiado pelo CNPq e realizado no grupo de pesquisa resultante de acordo entre o PPGTP e o Instituto P. Pinel, coordenado pela Profa. Ana Beatriz Freire. produz um sentido que é desconhecido para o próprio sujeito. A aparente coexistência de princípios divergentes na obra freudiana gerou entre os estudiosos o problema de averiguar qual o domínio de inteligibilidade efetivamente apropriado aos fenômenos psicanalíticos. Assim, o debate epistemológico acerca do verdadeiro estatuto da psicanálise esteve durante anos atrelado à célebre distinção entre dois tipos de ciência (natureza x espírito) elaborada por Wilhelm Dilthey (1989), a questão central sendo a de decidir em qual dos pólos da alternativa a pesquisa freudiana ingressaria. Segundo uma escola como a psicologia do ego, por exemplo, a psicanálise seria uma ciência natural, cujo objeto seriam fatos observáveis (mentais ou comportamentais), passíveis portanto de serem estudados em termos de relações causais. Já segundo autores como Jean Hyppolite, Paul Ricoeur e Jurgen Habermas, o domínio próprio de validade das proposições psicanalíticas seria o registro da significação. No interior do campo do sentido, o que particularizaria a investigação psicanalítica é a descoberta de que a consciência não constitui a fonte e origem da significação, isto é, de que a produção de significação pelo espírito ultrapassa aquilo que a consciência pode apreender num momento dado. Confrontados a estes dois esforços para tornar inteligível o pensamento psicanalítico, observamos que ambas as posições afirmam ser Freud um descendente de linhagens de pensamento previamente vigentes. Tais posições, mesmo quando admitem que Freud teria posto em cena fenômenos novos, não podem admitir que ele inventou também uma nova maneira de torná-los inteligíveis. pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 Introdução A construção teórica psicanalítica parecia, àqueles que primeiro se dedicaram à tarefa de interpretar a obra freudiana, abrigar em seu interior uma intolerável miscelânea de conceitos oriundos de campos semânticos heterogêneos. Isto porque Freud teria adotado simultaneamente dois modos inteiramente distintos, e mesmo conflitantes, de conferir inteligibilidade: tornar inteligível dando as causas, ou tornar inteligível dando as razões. Assim, por um lado, há passagens em que Freud afirma explicitamente seu projeto de integrar a psicanálise às ciências da natureza – o que implicaria uma explicação do psiquismo em termos causais. De fato, a descrição de um aparelho psíquico no interior do qual deslocamentos de energia determinariam a aparição/desaparição de determinadas representações na consciência, esta concebida meramente como “órgão receptor”, assemelham-se a explicações em termos de causa e efeito. Por outro lado, há teóricos que afirmam que, em vez de haver levado a explicação causal até as regiões aparentemente mais livres do espírito humano, Freud teria feito exatamente o contrário, ou seja, estendido os tentáculos da Razão em direção a regiões até então consideradas submetidas ao determinismo da natureza. Sonhos, sintomas e atos falhos – que antes do surgimento da psicanálise eram tomados como simples produtos de perturbações fisiológicas – acabaram trazidos para o interior da esfera do sentido. Fenômenos outrora concebidos como destituídos de sentido, revelaram-se portadores de uma mensagem. A psicanálise colocaria em cena exatamente este lugar onde se >29 pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 >30 Contudo, a tese que orienta nosso trabalho é a de que Freud inaugurou um nível de análise novo, um registro original de tratamento dos problemas, que fica necessariamente ocultado quando se pretende encerrar seu pensamento na limitada alternativa razões x causas. O presente trabalho visa mostrar de que maneira a interpretação lacaniana teria empreendido uma revisão nos termos em que o debate acerca do estatuto da psicanálise vinha sendo colocado. Por isso, partindo do retorno a Freud, empreendido pelo psicanalista Jacques Lacan, nossa preocupação será justamente a de salientar a irredutibilidade da descoberta freudiana. Isto porque, se é verdade que a clínica psicanalítica implica uma estranheza, Lacan teria contribuído para deixar surgir o Unheimlich freudiano, a despeito de qualquer familiaridade à qual se pretendesse reduzir seu discurso. Se é verdade que o pensamento psicanalítico não se deixa classificar nos modelos de explicação tradicionais, qual seria o terceiro termo que permite identificar a pesquisa freudiana, distinguindo-a das investigações por razões ou por causas? O ponto que pretenderemos enfatizar é que, embora o discurso analítico não se deixe encerrar na alternativa razão ou causa, não há terceiro termo . Não há termo opcional a substituir o par razão e causa. Não há terceiro termo, mas um manejo conjugado dos termos em pauta. Não se trata de escolher entre um e outro, mas de usar um e outro, um com o outro. Evidentemente, a utilização simultânea dos dois acarreta uma transformação no seu sentido. Ou seja, ao serem importados para o campo psicanalítico tais termos sofrem necessariamente uma redefinição. O trabalho será então estruturado da seguinte maneira: primeiramente, definiremos os termos causa e razão; posteriormente, procuraremos circunscrever as modificações de sentido exigidas quando estes termos são transpostos para o campo psicanalítico. Os dois tipos de explicação: por causas e por razões As noções de causa (que faz economia do sentido) e de razão (que não a faz) caracterizam, como se sabe, duas formas radicalmente diferentes de conceber ligações: • A explicação por causas é o tipo de inteligibilidade que se caracteriza por estabelecer ligações entre fatos, portanto entre entidades correspondendo a algum tipo de observação. O alvo da explicação causal consistirá em, partindo de uma realidade dada, constituir ligações com outras realidades, segundo laços necessários a que se chamará leis da natureza. Quando nos referimos a “laços necessários”, o que caracteriza a necessidade aqui em jogo? Quando se diz que, uma vez atuante uma causa x, o efeito y ocorre de maneira “necessária”, qual a noção de necessidade aqui em pauta? O que se quer dizer é que, uma vez atuante a causa x, o efeito y vai se dar inevitavelmente. Caso sejam reunidas determinadas condições, um determinado efeito inexoravelmente acontecerá. Quando dizemos, por exemplo, que um movimento de uma bola acarretará necessariamente o movimento de uma outra contra a qual ela se choca, queremos dizer que inelutavelmente o movimento ocorrerá. Há necessidade causal, portanto, quando um evento não pode não ocorrer se tais outros eventos ocorrem. Se é permitido conservar em razão de sua comodidade de uso a palavra causa, deve-se reduzi-la a significar o conjunto das condições de que nós fazemos depender, segundo a afirmação de uma lei, a aparição de um fenômeno: a lei sendo escolhida precisamente de maneira a tornar possível o estabelecimento dessa dependência. (p. 129) • A explicação por razões é o tipo de inteligibilidade que despreza o registro dos fatos, por considerá-lo irrelevante para entender o mundo humano. Os fatos que ocorreram ao longo da história de um indivíduo ou de uma sociedade não teriam qualquer importância se tomados em si mesmos, esta só advém da significação que foi conferida a eles. Ao contrário dos fatos, entidades correspondendo a algum tipo de observação, as significações seriam relativas ao que não é abordável por nenhum tipo de observação. O alvo da explicação racional consistirá em estabelecer ligações necessárias entre as significações. Qual a noção de necessidade aqui em jogo? A necessidade aqui em questão não quer dizer, como no caso da necessidade causal, que uma significação acarretaria outra de uma maneira inevitável, no sentido de uma consecução temporal de eventos, mas que encontram-se ligadas segundo um constrangimento lógico, de tal maneira que uma significação esteja ligada à outra de maneira legítima. Quando dizemos que temos razões para pensar de tal maneira, não significa que pensamos as- sim de fato, mas que esta é uma maneira legítima de se pensar. Ou seja, trata-se de uma necessidade que se situa num plano normativo (é assim que “deve-se pensar”, se quisermos pensar de maneira verdadeira), e de maneira nenhuma no plano fatual. Por exemplo, quando em um silogismo certas premissas acarretam necessariamente tal conclusão, não significa que esta conclusão segue-se inevitavelmente das premissas, tal como o seria se a relação considerada fosse causal – tanto é que graças a um erro de raciocínio pode-se extrair uma outra conclusão. Significa, antes, que essa conclusão é a única conseqüência legítima daqueles princípios. Há necessidade racional quando um pensamento não pode deixar de ser válido, se determinados outros forem válidos. Afirmar que o domínio das significações exige um tipo de inteligibilidade próprio, distinto daquele empregado nas investigações relativas ao domínio dos fatos, significa recusarse a considerar o homem apenas como um setor determinado do mundo natural. Embora não negue a existência de um denominador comum aproximando o homem dos outros seres vivos, tal perspectiva visa desenvolver um modo de investigação apropriado a tudo que, no homem, escapa às determinações da natureza, isolando dessa forma as características que o especificam. Segundo esta corrente, tal especificidade residiria na possibilidade de a ação humana obedecer, não a leis, mas a regras. Conseqüentemente, trata-se de uma posição que rejeita o emprego do princípio de causalidade para entender eventos históricos e culturais, já que neste caso a aplicação de tal princípio ocultaria a singularidade do humano. pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 Como a palavra “causa” encontra-se comprometida com acepções contraídas ao longo de seu extenso passado filosófico, faz-se necessário elucidar que neste trabalho tomaremos como guia a noção científica de causa. Como define Robert Blanché (1935): >31 Uma vez que se detectou no texto freudiano esta aparente coexistência de princípios teóricos divergentes, o resultado foi que muitos simplesmente desqualificaram-no como impostura intelectual. Reconhecer à psicanálise algum valor acarretava como conseqüência o problema de responder qual o domínio próprio de validade dos enunciados psicanalíticos. A solução encontrada foi invariavelmente a de assimilar a psicanálise a uma dessas duas grades de leitura (causalidade ou racionalidade). pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 artigos Uma outra orientação de leitura da obra freudiana Conforme advertimos na introdução, o encaminhamento do nosso trabalho será o de valorizar como a inteligibilidade da psicanálise exigiria não uma escolha entre os termos razão x causa, mas a utilização de ambos – o que evidentemente só poderia ser feito através de uma redefinição dos mesmos. Iniciemos então investigando a peculiaridade da concepção psicanalítica de explicação por razões. >32 Uma razão barrada Eu lhes soletrei, ponto por ponto, o funcionamento do que nos foi produzido primeiro por Freud como fenômeno do inconsciente. No sonho, no ato falho, no chiste – o que é que chama atenção primeiro? É o modo de tropeço pelo qual eles aparecem. (Lacan, 1985, p. 29) De fato, esquecimentos, distúrbios de fala e escrita, falhas motoras, pensamentos bizarros, ou mesmo formações psíquicas de conteúdo absurdo, como os sonhos, apresentam-se como uma interrupção imposta ao encadeamento normal dos pensamentos conscientes, escapando à vigilância e ao controle do sujeito e permanecendo aparentemente sem integração com o restante do seu psiquismo. Todos esses atos psíquicos permaneciam sem qualquer conexão com o restante dos pensamentos conscientes, sem qualquer razão que os explicasse, até que o dispositivo inventado por Freud permitisse aos pacientes elaborar um saber sobre tais atos. Como diz Freud (1913): Todos esses atos permanecerão desligados e ininteligíveis, se insistirmos em sustentar que todo ato psíquico que ocorre conosco, necessariamente deve também ser experimentado por nós através da consciência; por outro lado, esses atos se enquadrarão numa ligação demonstrável, se interpolarmos entre eles os atos inconscientes sobre os quais estamos conjeturando. (p. 172) Assim, no decorrer do tratamento analítico, atos outrora ininteligíveis puderam ser ligados a outros atos, estabelecendo-se entre eles uma vinculação. Ou seja, o paciente pôde oferecer razões para suas ações. Ao enunciarem as antes desconhecidas razões de seus atos, os pacientes não podem furtar-se a reconhecê-las como suas, o que é atestado por falas tais como “na verdade, sempre soube disso, mas não queria pensar”. Dessa forma, a interpretação é um gesto que produz um efeito de verdade a propósito de uma determinada formação do inconsciente: o sujeito reconhece a si próprio ao enunciar as razões para tais atos, ele subjetiva tais significações, assumindo-as como concernindo a ele mesmo (“Sim, eu realmente queria isso!”). Parte dos efeitos terapêuticos do tratamento devemse justamente a que o sujeito passa a ocupar uma posição mais ativa, na medida artigos ao indagar o porquê das regras, isto é, as razões para se agir de uma determinada maneira, as crianças jamais se satisfazem com as razões dadas, de tal maneira que, para pôr fim a seu embaraço, os adultos respondem com um tautológico: “É assim porque é assim!”, testemunhando com isso não uma pretensa evidência da regra, mas tão-somente a ausência de uma justificação última de seus preceitos. Assim, as razões alegadas para justificar um ato jamais o justificam inteiramente. A hiância entre as razões e os atos constituem para qualquer sujeito uma questão, somente variando as maneiras de respondê-la. No caso da histérica, ao se confrontar com a ausência de uma garantia última para suas ações, e ainda assim agir, ela tenderá a se culpar pela precipitação. Na neurose obsessiva, dialeto da histeria, o sujeito protela a ação, adiando-a para um futuro no qual deterá a justificação integral da mesma. Resumindo o que dissemos, não há como encontrar uma necessidade lógica ligando as razões invocadas para justificar o ato e o ato propriamente dito. Só que não é possível deixar de agir, de escolher alguma posição. O sujeito pode escolher qualquer coisa, menos não escolher. Conseqüentemente, toda escolha será precária, já que amparada em um saber insuficiente. Assim, qualquer que seja a posição eleita, a falta de uma razão suficiente insistirá, o sujeito não fará uma unidade com ela. Consideremos, a título de exemplo, a escolha de uma determinada posição teórica. Se a condição da escolha fosse um conhecimento completo do menu de opções teóricas, conhecimento tanto em extensão quanto em pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 em que é responsável por seu sintoma. No entanto, cabe indagar: a dita subjetivação das razões inconscientes pode ser tão completa, que possibilite ao sujeito a chance de reconhecer-se integralmente no sentido que enuncia? O tratamento analítico daria acesso a uma palavra mais autêntica, à verdadeira significação das formações do inconsciente? O percurso de um tratamento analítico dirige-se em sentido contrário a esse, pois o discurso sempre prossegue colocando entre aspas o dito anterior: “eu disse isso antes, mas agora vejo que não é bem assim...” Qualquer enunciado proferido pelo sujeito em análise é passível de ter continuamente colocado em questão o seu valor, de sofrer uma incessante reavaliação de sua verdade. Ou seja, a qualquer momento o sujeito pode acrescentar ao dito anterior algo que o ratifique, que o negue, que o ponha em dúvida, que o relativize etc. Lançando-se na busca de uma fala verdadeira, decepciona-se ao encontrar não um ponto certo e indubitável, mas somente esta infinita modalização em relação às falas anteriores. Se, conforme definido anteriormente, a explicação por razões consiste na afirmação de um nexo logicamente necessário entre as significações, é precisamente a impotência em encontrar uma necessidade desse tipo que o discurso do sujeito que ingressou numa análise vem testemunhar. O sujeito quer encontrar uma necessidade lógica ligando as razões para agir e a ação, contudo somente encontra um incômodo gap entre as razões e as ações, a ausência de uma necessidade lógica vinculando-as. Para ilustrar este ponto, basta lembrarmos o quanto as perguntas infantis embaraçam os adultos: >33 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 >34 compreensão, demoraria um tempo infinito até que a escolha pudesse ser efetuada. Caso fosse preciso tudo saber, para só então decidir, esta decisão apenas se daria em um longo prazo. Só que a escolha acaba se fazendo, mesmo que amparada em razões insuficientes. Há um caráter de precipitação inerente a qualquer escolha, já que esta se faz mesmo que ainda não detenhamos sua justificação integral. A partir daí, podemos concluir haver uma certa ignorância estrutural e irredutível, acompanhando irremediavelmente todo ato. O curioso é que o sujeito ignora sua ignorância, desconhecendo que há um ponto cego em suas escolhas. Pelo contrário, o ponto cego, desconhecimento das razões últimas que justificam uma determinada posição, acaba convertendo-se em um ponto de luz, graças ao mecanismo da transferência. O milagre da operação da transferência consiste justamente em transformar a ignorância em um saber suposto ao Outro. A transferência é uma espécie de carta de crédito dada ao significante do Outro, mediante a qual ele é investido de um valor de verdade, antes mesmo de justificar-se. A partir da transferência, algo passa a valer como verdadeiro, antes mesmo de apresentar as credenciais da sua verdade. Dessa forma, em vez das razões antecederem a escolha de uma determinada posição, a escolha é um ato que funda retroativamente suas próprias razões. No elucidativo exemplo de Zizek (1999), ... os teólogos, com a perspicácia que lhes é própria, reconheceram perfeitamente este paradoxo de uma decisão que coloca retroativamente suas próprias razões: há, bem entendido, boas razões para crer em Jesus Cris- to, mas estas razões não são totalmente compreensíveis senão por aqueles que já acreditam Nele. (p.129) A causa barrada Afirmamos que a psicanálise decide manter os dois termos – causa e razão –, mas subvertendo seu sentido. Após termos feito uma breve exposição das modificações impostas pela experiência clínica ao conceito de razão, resta investigar qual pode ser o sentido do conceito psicanalítico de causa. Antes disso devemos advertir que, para manter o uso da causa em psicanálise, devese partir do princípio que jamais se está referindo a uma causa de tipo natural, que, conforme definido anteriormente, seria a condição da aparição de um fenômeno, de tal maneira que uma vez um fenômeno ocorrendo, o outro não poderia deixar de ocorrer, tratando-se de eventos solidários. Uma vez descartada essa possibilidade, cabe indagar a que exigências pode ter respondido um aparelho conceitual como a metapsicologia freudiana, que exibe tamanha afinidade com normas de inteligibilidade do tipo causal. De fato, como não ver como uma descrição de relações de causa a efeito a imagem freudiana do aparelho mental, em que as representações são concebidas como fatos suscetíveis de serem passivamente investidos/desinvestidos por parte de uma energia, considerada um estímulo orgânico, portanto concebida também como um fato? Como não identificar, na busca freudiana das leis que regem o aparato psíquico, a tentativa de encontrar um determinismo causal próprio ao homem? Se recusamos que a psicanálise seja uma ciência natural, mas ao mesmo tempo artigos determinismo que constrange o sujeito. Como o sujeito não consegue furtar-se ao sofrimento através de uma decisão racional, o sintoma assemelha-se a uma fatalidade que não se pode transpor (o que é muitas vezes traduzido em expressões empregadas pelo pacientes, tais como “é mais forte do que eu”, “não consigo me controlar”). Desde o início do tratamento, há um mal-estar que escapa ao alcance do livre-arbítrio, parecendo o efeito indesejável de uma causa que obriga o sujeito a agir. Note-se o quanto o emprego da causa pelo sujeito da psicanálise distancia-se da causalidade científica propriamente dita, aproximando-se antes do campo da ética. Pois, ao contrário da concepção científica de causa, a noção de causa em jogo no discurso do analisando encontra-se indissoluvelmente ligada a um juízo de valor. Basta observar como na queixa histérica a palavra causa remete freqüentemente a uma fatalidade, a algo que constrange o sujeito, a uma imposição. Tais termos sugerem que a suposta “causa” impediu o sujeito de caminhar na direção que deveria, logo supõe a existência de um valor, de uma finalidade julgada superior, que não foi alcançada. Afinal de contas, o sujeito só pode sofrer uma imposição, um constrangimento, uma obstaculização, se sua tendência era dirigir-se a outro rumo, considerado preferível. Alguém só pode ser constrangido e obrigado, quando algo evitou que ele atingisse um fim julgado bom. Ora, sabe-se que a ciência não comporta tais juízos de valor. Por exemplo, quando um planeta desvia o curso de um asteróide, não se pode dizer que o asteróide foi constrangido a mudar de percurso, que sofreu uma imposição a se deslocar para outro lugar, ou pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 descartamos a hipótese de que a (aparente) utilização de esquemas causais por Freud seja um mero preconceito naturalista do autor, cabe-nos investigar qual pode ser o sentido da noção de causa em psicanálise. Não se tratará aqui de negar que Freud promoveu um deslocamento do problema do campo dos fatos para o das significações, mas sim de indagar por que ele teria insistido, até o fim de sua obra, no emprego de um aparelho conceitual impregnado de noções energéticas, caracterizadas justamente por fazer economia da noção de sentido. Um estudioso da obra freudiana, como Luiz R. Monzani (1989), chega até mesmo a afirmar, com razão, que o fator quantitativo – precisamente o que, da metapsicologia, mais se presta à assimilação ao naturalismo –, longe de declinar ao longo da obra freudiana, só fez, pelo contrário, crescer em importância (p. 98). Ora, a suposta passagem da psicanálise ao campo do sentido não se mostra compatível com a insistência de Freud na pesquisa do fator quantitativo, já que a energia pulsional, concebida por Freud segundo o modelo de um estímulo endossomático, impelindo um psiquismo-máquina à atividade, parece pertencer mais ao âmbito das relações desprovidas de sentido. Para entender por que o fator quantitativo exibe tanta afinidade com uma causalidade natural, retornemos à investigação freudiana. A problemática enunciada por termos como “causa” e congêneres partiu da própria experiência clínica, isto é, da escuta do discurso da histérica. Desde o início do tratamento, o sintoma analítico apresentava-se como um sofrimento que faz objeção ao controle da vontade, aparecendo como se fosse uma imposição vinda do exterior, um >35 pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 >36 que foi obrigado a sair de seu rumo. Pois todas estas metáforas supõe um juízo de valor, a saber, “o asteróide possui uma direção correta”. Quando, na verdade, o tal planeta fez apenas com que o asteróide fosse por outra direção, nem pior nem melhor que a primeira, apenas outra. Uma causa pode determinar a direção tomada por um corpo, mas não pode constrangê-lo, pelo simples motivo que o constrangimento supõe um critério de valor, do qual a ciência livrou a natureza. Apesar da causa científica nada ter a ver com a psicanalítica, por que a psicanálise não pode deixar de manter esse termo? É o sujeito que, apreendendo sua própria experiência em termos de causa, acaba por obrigar a psicanálise a introduzir a noção, ainda que empregando-a em um sentido diferente do científico. A operação que leva o sujeito a narrar em termos de causa sua própria experiência se dá em dois tempos. Primeiramente, o sujeito realiza uma leitura antropomórfica da noção de necessidade natural, ao julgar que, como um evento y inexoravelmente ocorrerá uma vez que x ocorrer, o evento y estaria constrangido a ocorrer. Se y não pode deixar de acontecer se x acontecer, conseqüentemente y está obrigado, constrangido a acontecer, pensa o sujeito. Ora, como não ver que tal interpretação adiciona sub-repticiamente um juízo de valor à noção de necessidade natural? Ao utilizar vocábulos como obrigação e constrangimento para descrever fenômenos naturais, supõe-se que os corpos considerados deveriam seguir uma direção determinada, que, lamentavelmente, não foi a que, de fato, ocorreu. Ou seja, estipula-se uma certa direção como mais desejável que outras, introduzin- do uma valorização indevida, da qual a ciência destituiu o mundo físico. Num segundo tempo, uma vez consumada a leitura antropomórfica da causa científica, o sujeito passará a interpretar sua própria experiência a partir desta causa metafórica. Assim, toda vez que agir em desacordo com sua vontade consciente, apreenderá suas ações como efeitos de uma “causa” que o obrigou. (Vemos aqui a noção de causa ser empregada num sentido metafórico, diferente do sentido próprio em que a emprega a ciência). O emprego, pelo sujeito, da noção metafórica de causa, se efetua quando são reunidas duas condições. A primeira é que haja uma satisfação escapando completamente ao controle da vontade, não podendo ser revertida por qualquer decisão consciente do sujeito. É necessário que haja uma satisfação que esteja fora do alcance do nosso arbítrio para que surja, durante o tratamento analítico, a questão da causa. Mas esta condição não é, em geral, suficiente, já que não é qualquer satisfação que levanta problemas para a (suposta) unidade do sujeito. Existem satisfações homeostáticas, que, embora também não sejam controladas por uma deliberação consciente, não interferem com a pretensa primazia do sujeito. Em outras palavras, embora o investimento libidinal jamais obedeça ao controle da vontade (sendo igualmente impossível para o sujeito dominar tanto as condições de seu sucesso, quanto as de seu fracasso), o caráter involuntário da sexualidade somente transforma-se em um problema quando contradiz os princípios em função dos quais o sujeito organizou sua vida. Dessa forma, os analisandos vêm falar apenas das satisfações com tarem repugnância por um ato prazeroso (por exemplo, ficar sexualmente excitado pensando na mãe). Esta satisfação problemática para o sujeito – denominada gozo por Lacan – é o que os textos freudianos buscam figurar com a imagem de uma força natural invadindo o aparelho psíquico. Para afastarmos de vez a hipótese de que a psicanálise cuide da causa no sentido da ciência, nossa exposição exige um complemento importante, pois a novidade da psicanálise é justamente a de indicar que, aí onde o sujeito parece submetido a um determinismo, compelido a agir por uma força natural, justamente aí há lugar para um consentimento. Diferentemente de uma determinação verdadeira, em que o sujeito não poderia ser responsabilizado por seus atos, o gozo é aquilo mesmo que permite falar num sujeito responsável. Pois, ainda que o sujeito queira desculpar-se por seus atos, alegando que seu comportamento foi determinado por fatores genéticos, sociais, históricos etc.; conquanto possa querer, invocando a força das circunstâncias, eximir-se de toda responsabilidade; resta que, da satisfação que obteve com tais atos, ele não poderá deixar de se responsabilizar. Dessa forma, se é verdade que o gozo, por não obedecer a qualquer deliberação consciente, parece ser o efeito de uma causa, não é menos verdade que o gozo é aquilo mesmo que permite falar em consentimento. Trata-se, em psicanálise, de uma causa cuja eficácia depende de um consentimento. A partir do que foi dito, podemos supor que, se a psicanálise não pôde deixar de mostrarse sensível à questão da causa, já que esta lhe havia sido colocada pelo próprio discurso da histérica, o tratamento analítico não pulsional > revista de psicanálise > artigos ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 as quais têm uma relação problemática, queixando-se de que se sentem constrangidos, de que são compelidos, obrigados a fazer algo... Daí Lacan (1985) afirmar que “só há causa do que manca” (p. 27). Só há pergunta sobre a causa quando as coisas não caminham bem. O que a psicanálise pretende com o fator quantitativo é pensar algo que, ainda que correlativo ao campo do valor e da significação, não resulta de uma decisão voluntária, assemelhando-se por isso mesmo a uma causalidade natural (lida antropomorficamente, conforme advertimos). Algo que, embora ligado ao registro da significação, é uma metáfora da causalidade natural por não poder ser suspenso através de um mero ato da vontade. Ora, nada pode ilustrar mais adequadamente este ponto do que a satisfação sexual! Onde mais, senão na esfera da sexualidade, pode aparecer mais vivamente a incapacidade de a consciência deliberar sobre seus próprios fins? Como o sujeito não é livre para decidir os destinos da libido, esta se apresenta como escapando a seu arbítrio, guardando por isso mesmo afinidades com um “determinismo causal”. De fato, o sujeito psicanalítico é aquele que tem problemas em relação à própria satisfação, já que esta muitas vezes vai numa direção contrária à que se esperava. A clínica analítica trata justamente de uma satisfação paradoxal, cuja característica é a conversão das sensações de prazer ou de desprazer em seu oposto. Assim, os sujeitos vêm se queixar por inexplicavelmente haverem encontrado satisfação num ato que tinha tudo para ser doloroso (buscar ser humilhado, deleitar-se com o sofrimento de uma pessoa amada etc.), ou ainda manifes- >37 artigos pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 >38 pode ter como objetivo corroborar a versão da causa como constrangimento. Embora a aproximação com a causalidade científica seja pertinente num certo nível, não é menos verdadeiro que devemos recusar peremptoriamente qualquer tentativa de equivaler o gozo a um fenômeno natural, pois tal equivalência proibiria a responsabilização do sujeito. Na verdade, a estratégia da psicanálise é justamente oposta a qualquer desresponsabilização, pois se há algo do qual o sujeito não pode se eximir, alegando ter sido vitimado por uma fatalidade que o atingiu, como se fosse algo exterior a ele, é justamente a satisfação. Como explica Zizek (1996), ainda que o sujeito pretenda se desencarregar de sua responsabilidade, alegando existir uma rede simbólica que sobredetermina seu discurso (por exemplo, o autor de uma injúria racista pode evocar o conjunto das camadas de sedimentação históricas na qual se banha seu discurso), nem por isso ele deixa de ser plenamente responsável pelo gozo que encontra em seu racismo. Do mesmo modo, o sujeito que foi vítima de certas circunstâncias nem por isso está isento de responsabilidade, pois ... a armadilha consiste em que minha narrativa banha-se sempre numa constelação presente onde ela me traz um mais-de-gozar (o relato que eu faço dos eventos de que eu fui vítima e pelo qual imputo a culpa aos outros, apresentando-me como uma vítima inocente e passiva das circunstâncias, está sempre manchado de uma profunda satisfação libidinal), e deste gozo que comporta minha posição de enunciação quando conto o que me aconteceu, eu sou plenamente responsável. (Zizek, 1996, p.121; grifos do autor) Assim, longe da irresponsabilidade que acar- retaria uma posição que abordasse a satisfação como efeito de uma causalidade orgânica, a interpretação da satisfação pulsional como gozo vem justamente assinalar algo do qual o sujeito não pode se eximir. A partir daí, podemos concluir que o tratamento analítico deve promover a passagem da causa como constrangimento à causa como consentimento. O gozo como correlato da ausência de uma razão última Isto posto, resta-nos mostrar como a afirmação de que há satisfação sexual é exigida pela idéia da impossibilidade de um sentido total, da ausência de uma razão última. Tentaremos mostrar que a função do fator quantitativo na obra freudiana é justamente a de vir responder à hiância que separa razões e atos. Retornando aos textos freudianos, pode-se de fato observar que, à medida que Freud foi desistindo de seu projeto inicial de uma reconstituição total das razões, e aceitando a insuficiência das razões para explicar as formações do inconsciente, não à toa o fator quantitativo ganha correlativamente um peso maior ao longo do percurso freudiano. Senão, vejamos. No início de sua obra, consagrando sua pesquisa à elucidação do sintoma neurótico, Freud acreditava na possibilidade de fornecer ao homem em sofrimento o sentido último de seu sintoma. Tal parecia ser o projeto freudiano, a tal ponto que ele pôde declarar, em um texto de 1914, ser o objetivo da técnica analítica “preencher lacunas de memória” (p. 194). A despeito de algumas indicações restritivas a esse projeto (tal como a afirmação do umbigo dos sonhos, que Referências BLANCHÉ, Robert. La notion de fait psychique. Paris: Librairie Felix Alcan, 1935. DILTHEY, Wilhelm (1993). Introduction to human sciences. Princeton: Princeton University Press, 1989. FREUD, Sigmund (1914). Recordar, repetir e elaborar. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro; Imago, 1969. v. XII, p. 193-203. _____ (1915). O inconsciente. In: Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud . Rio de Janeiro: Imago, 1996. v. XIV, p. 171-222. LACAN, Jacques (1964). O seminário. Livro XI. Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985. MONZANI, Luiz Roberto. Freud: o movimento de um pensamento. Campinas: Ed. Unicamp, 1989. REY -FLAUD, Henri. L’éloge du rien. Paris: Éditions du Seuil, 1996. ZIZEK, S. Essai sur Schelling: le reste que n’êclot jamais. Paris: L’Harmattan, 1996. _____ Suversions du sujet : psychanalyse, philosophie, politique. Rennes: Presses Universitaires de Rennes, 1999. Artigo recebido em março de 2005 Aprovado para publicação em setembro de 2005 artigos cessário admitir no trabalho analítico uma resistência radical, irredutível às operações defensivas, uma resistência oriunda do próprio Isso. Em outras palavras, se o sintoma não cede à decifração, pode-se supor que o sujeito encontra nele satisfação, que não pode, em última instância, ser explicada por razões. pulsional > revista de psicanálise > ano XVIII, n. 184, dezembro/2005 tornaria inalcançável uma interpretação definitiva dos mesmos), a direção do tratamento era voltada para a rememoração total. Contudo, observa-se uma dificuldade que progressivamente se impõe: ao colocar como horizonte o encontro de um sentido último, que forneceria a peça que faltava ao “quebra-cabeças” da neurose, a psicanálise se deparará com a inconveniente infinitização do tratamento, sem que o sintoma se desfaça. A vaidade desse projeto acaba por levar Freud a circunscrever no coração do discurso do paciente um furo, nomeado por ele recalcamento originário. Quanto às razões a que chega a cura analítica, não passariam de representações subsidiárias deste recalcado originário (Rey-Flaud, 1996, p. 17-8). Se aceitarmos a impossibilidade de fornecer razões últimas capazes de explicar suficientemente o que quer que seja (formações do inconsciente, posições políticas, filiações teóricas etc.), cabe indagar: se qualquer posição não possui um fundamento último, por que a aderência do sujeito a uma posição particular, em detrimento de infinitas outras? A resposta de Lacan é: justamente porque falta a razão última para justificar o que quer que seja, e ainda assim o sujeito privilegia uma posição, e não qualquer outra, é de supor que há satisfação n’Isso. É por isso que, se um autor como Monzani está correto, os pontos de vista econômico e dinâmico ganham cada vez mais peso ao longo do percurso teórico freudiano: esta importância progressiva é exigida na medida em que, mesmo que os tratamentos avancem e o sentido último dos sintomas jamais compareça, o paciente mesmo assim não se livra inteiramente dele. Faz-se ne- >39