UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES LICENCIATURA PLENA EM LETRAS HABILITAÇÃO EM LÍNGUA PORTUGUESA AMANDA GOMES SILVA O USO DE NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO MÉDIO: UM ESTUDO DE CASO Orientadora: Profª. Drª. Maria Ester Vieira de Sousa JOÃO PESSOA AGOSTO 2014. AMANDA GOMES SILVA O USO DE NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO MÉDIO: UM ESTUDO DE CASO Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Orientador: Profª. Drª. Maria Ester Vieira de Sousa JOÃO PESSOA AGOSTO DE 2014. S586u Silva, Amanda Gomes. O uso de novas tecnologias no ensino médio: um estudo de caso. – João Pessoa: [s.n.], 2014. 35 f.: il.– Orientadora: Maria Ester Vieira de Sousa. Monografia (Graduação) – UFPB/CCHLA. 1. Estudo de caso. 2. Novas tecnologias. 3. Ensino médio. CDU: 37:004(043.2) O USO DE NOVAS TECNOLOGIAS NO ENSINO MÉDIO: UM ESTUDO DE CASO Trabalho apresentado ao Curso de Licenciatura em Letras da Universidade Federal da Paraíba como requisito para obtenção do grau de Licenciado em Letras, habilitação em Língua Portuguesa. Data de aprovação: ____/____/____ Banca examinadora ________________________________________________________ Profª. Drª. Maria Ester Vieira de Sousa. DLCV/UFPB Orientadora ___________________________________________________________ Profª. Drª. Laurênia Souto Sales – UFPB Examinadora ____________________________________________________________ Profª. Drª. Eliana Vasconcelos da Silva Esvael - DLCV/UFPB Examinadora Ao Autor e Consumador da minha vida e fé, Jesus Cristo, pela Graça de servi-lo e tê-lo como senhorio de tudo que tenho e sou. DEDICO AGRADECIMENTOS Agradeço, em primeiro lugar, ao meu Deus, pois a cada manhã tem demonstrado quanto é fiel e infinito em misericórdia. Aos meus pais, Valter Santos e Valdilene Gomes, e ao meu irmão Lucas Rafael vocês sempre foram inspiração para continuar acreditando em cada um dos meus sonhos. A minha avó Edite, minhas tias, e aos meus primos Ramon e Winnie, irmãos que a vida me deu, cada um de vocês são indispensáveis na minha vida. Aos meus irmãos em Cristo, quanto mais eu os conheço mais eu vejo Deus em vocês. Mas especialmente a Ricardo e Cecília é maravilhoso servir ao Senhor com vocês. As minhas amigas Joseane, Sayonara e Ana Beatriz foi um privilegio ter concluído esse curso com vocês. A minha orientadora Maria Ester Vieira de Sousa pelo amor e dedicação aplicada para a construção e conclusão desse trabalho. RESUMO: O presente trabalho, intitulado O Uso De Novas Tecnologias No Ensino Médio: um estudo de caso, objetiva apresentar dados acerca do letramento digital na sala de aula do Ensino Médio em escolas estaduais da Paraíba, especificamente em algumas escolas da Capital paraibana. Temos como objetivo específico verificar se está ocorrendo ou não o uso das novas tecnologias no ensino. Para isso, realizamos uma pesquisa de campo com a participação de professores e alunos, do segundo ano do Ensino Médio de quatro escolas públicas de João Pessoa, visto que só essa turma havia sido beneficiada no ano de 2013 com o Tablet quando ainda eram alunos do primeiro ano do ensino médio. Ao todo, responderam ao questionário 6 (seis) professores e 40 (quarenta) alunos. Com o questionário, buscamos compreender a opinião tanto de professores quanto dos alunos a respeito das novas ferramentas tecnológicas em sala de aula e do acesso ao laboratório de informática, entre outras questões. Por fim, os dados coletados demonstram que as novas ferramentas tecnológicas disponibilizadas pelo Governo Estadual em convênio com o Governo Federal já estão em posse de todos os professores entrevistados e de 65% dos alunos. Porém, embora tenha alcançado a maioria dos alunos e todos os professores, essas ferramentas ainda não estão proporcionando aos alunos o letramento digital esperado, aquele que contribuiria para a inclusão social desses alunos. Palavras-chave: Letramento Digital, Ensino Médio, Tablet. SUMÁRIO INTRODUÇÃO ........................................................................................................................... 9 1. LETRAMENTO ................................................................................................................ 13 1.1. LETRAMENTO DIGITAL ...................................................................................... 15 2. O USO DAS NOVAS TECNOLOGIAS EM SALA DE AULA NA PERSPECTIVA DE PROFESSORES E ALUNOS. ........................................................................................... 18 CONCLUSÃO ........................................................................................................................... 30 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: ................................................................................... 32 ANEXOS .................................................................................................................................... 33 INTRODUÇÃO A ideia para esse trabalho de conclusão de curso surgiu há tempos quando ainda no início do curso, dentro da sala de aula, em meio a vários debates, professores traziam a importância de buscar sempre estarmos atualizados, a fim de sempre sermos profissionais sincronizados com o nosso tempo e espaço. Hoje em dia, dificilmente olharemos para os lados e não nos encontraremos cercados por recursos tecnológicos, desde um relógio de pulso digital até GPS, encontrados em carros e até mesmo em celulares. Isto tudo porque, para o ser humano, não existem fronteiras para a expansão do seu conhecimento. Muitos concordam que a primeira invenção do homem, realmente significativa, foi a descoberta do fogo, mas nem um de nós pode imaginar, por mais que tentemos limitar ou descrever, qual será sua última grande descoberta, visto que o conceito de novo chega a ser superficial, pois, em meio a tanta parafernália tecnológica, o novo de hoje logo irá sucumbir às novas criações do amanhã. Mas, o que tem nos chamado realmente atenção é que o homem sempre buscou deixar registrado, desde a pré-história, todas as suas conquistas e o seu cotidiano na sociedade, como encontramos descritos em rochas, a saber, a escrita rupestre que é considerada a mais antiga forma de expressão humana. Como nos informa Sampaio (2009, p. 32): “Simples sinais gravados ou célebres pinturas, como representações humanas ou animais, cenas de caça, representações fantásticas, religiosas, sexuais – a arte rupestre é a mais antiga expressão da Humanidade”. Com esse registro, as suas conquistas e aprendizagens têm perpassado de uma geração a outra, o que significa que ninguém necessita iniciar novamente cada descoberta. Ao invés disso, cada geração poderá continuar do ponto em que a outra parou. O resultado disso é que nós evoluímos ao ponto de hoje não termos como contabilizar a quantidade de invenções criadas a partir da nossa capacidade de transformar o mundo ao nosso redor. Percebemos que, nos dias atuais, ter o domínio da leitura e da escrita dá ao ser humano a oportunidade de também descrever e entender a transformação social do seu período na história, sendo assim capaz de se relacionar de uma forma mais abrangente com o seu espaço e tempo. Dessa forma, a junção de escrita e leitura é perfeita, pois esta tem servido para perpetuar as descobertas da raça humana, considerando que, cada vez 9 que fazemos uma leitura, damos vida ao que já passou e, melhor, compreendemos o presente. Agora, na era digital, temos que nos adequar a esse novo tipo de leitura, que já não está presa a um papel, mas que é feita, refeita e remodelada na tela de um computador ou de um celular. Isso significa que, agora, o leitor pode ter acesso a uma gama de livros sem precisar sair da sua casa. Conforme Chartier (1999, p. 119), “A biblioteca eletrônica permite, por sua vez, compartilhar aquilo que até agora era oferecido apenas em espaços onde o leitor e o livro deveriam necessariamente estar juntos.”. Estamos na era da leitura compartilhada, dos textos independentes que, ao mesmo tempo em que não estão na mão de ninguém, da forma convencional, estão na tela de todo mundo, rompendo a barreira do espaço e, muitas vezes, rompendo também as diversas barreiras do tempo. A escola, que tem papel fundamental na formação do indivíduo, necessita estabelecer uma conexão entre o aluno e o mundo da tecnologia, hoje em dia tão acessível a todos nós, pois, dessa forma, ela estará contribuindo para formar um cidadão senhor do seu tempo. Fazemos parte de uma sociedade dinâmica. Hoje cada um de nós tem “Visto Universal”, pois entramos e saímos de vários países e conhecemos sua cultura, seus principais pontos turísticos e todo território, sem sequer sairmos da frente de uma tela de um computador. Não há como negar que jamais antes na história da humanidade estivemos tão conectados com o mundo. Pensando nessa nova realidade que nos cerca, voltamos nossos olhos para o sistema educacional, pois esse é o principal agente formador dos cidadãos do nosso País. As novas ferramentas tecnológicas desse novo momento da nossa história mudaram até a forma do ensinar. Agora a escola atende a um novo público, com novas inquietações, mais subjetivo, que possui uma nova maneira de ver o seu meio social. Freire (1989, p. 39-40) já apontava para os desafios que a pluralidades das relações sociais impunham ao homem moderno: Há uma pluralidade nas relações do homem com o mundo, na medida em que responde à ampla variedade dos seus desafios. Em que não se esgota num tipo padronizado de resposta. A sua pluralidade não é só em face dos diferentes desafios que partem do seu contexto, mas em face de um mesmo desafio. No jogo constante de suas respostas, 10 altera-se no próprio ato de responder. Acreditamos que seja função da escola modelar o seu aluno, ajudá-lo a adentrar em um mundo repleto de tecnologia, auxiliá-lo a vivenciar esse novo contexto, único e singular. Foi pensando nessa inserção do aluno nesse mundo das novas tecnologias que, conforme dados disponibilizados pelo portal oficial do MEC, na internet, o Ministério da Educação tem disponibilizado Tablets para professores da rede educacional pública e tem organizado cursos de formação, a fim de que os profissionais da educação adquiram cada vez mais contatos com as Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC). O Estado da Paraíba especificamente disponibilizou, para os alunos da escola pública estadual, 26.400 Tablets. Os mesmos provêm de investimentos do Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de Valorização dos Profissionais da Educação (FUNDEB), a fim de garantir ao alunado a oportunidade viver uma inclusão digital. Todo esse material certamente aproximará o aluno dessa nova realidade digital, porém o letramento digital, como forma de inclusão social, vai além de ensinar o aluno a utilizar o computador, um Tablet ou qualquer outra ferramenta de forma superficial. É preciso garantir que ele possa usufruir desses objetos de maneira que estes possam leválos além das quatro paredes de uma sala de aula e inseri-los numa sociedade altamente dinâmica e competitiva, que só abre as portas para os mais bem preparados. Já existem vários artigos e pesquisas sendo realizadas sobre o uso dessas ferramentas na sala de aula e como elas podem auxiliar os alunos na aprendizagem. Esses trabalhos trazem uma reflexão, inclusive, sobre como usar até mesmo o celular como mecanismo de aprendizagem. Entre muitas pesquisas, destacamos O uso de tecnologias em sala de aula, de Márcio Roberto Vieira Ramos (2012), que, possui um conteúdo riquíssimo, e pode ser facilmente encontrada na Internet. Considerando essas novas medidas do poder público, teremos como objetivo geral, nesse trabalho, verificar como estão sendo utilizadas, na sala de aula, as ferramentas tecnológicas disponibilizadas para alunos do segundo ano do ensino médio da rede pública estadual, enquanto ferramenta de letramento para a inserção social desses alunos. Para tanto, desejando obter um resultado com maior fidedignidade da realidade que cerca o letramento digital e como esse tem sido trabalhado na escola, entrevistamos alunos e professores de escolas públicas do Estado da Paraíba, especificamente, do município de João Pessoa. 11 Nossa pesquisa de campo para coleta de dados ocorreu a partir de um questionário (anexo) aplicado tanto para alunos quanto para professores, entre os dias 19 de maio de 2014 a 06 de junho de 2014, e contemplou as seguintes escolas da Capital paraibana: Lyceu Paraibano, Escola Estadual de Ensino Fundamental e Médio (EEEFM) Papa Paulo VI, EEEFM Professor Pedro Augusto Porto Caminha (EPAC), EEEFM Professor Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity. No total, foram 46 participantes, sendo distribuídos da seguinte forma: seis (6) professores e quarenta (40) alunos. É importante ressaltar que todos os professores e os alunos entrevistados fazem parte do segundo ano do Ensino Médio. Com o questionário, buscamos entender qual era o posicionamento tanto dos professores, quanto dos alunos sobre à iniciativa do governo em disponibilizar Tablet para o uso escolar, quanto ao uso desses materiais e de outras ferramentas tecnológicas na sala de aula, qual a frequência que era normalmente utilizado esse material e o laboratório de informática. Esse trabalho está organizado em dois capítulos principais: no primeiro capítulo, abordaremos o conceito de letramento, de forma mais ampla, até adentrarmos na noção de letramento digital. No segundo capítulo, a partir dos dados coletados nos questionários, faremos um levantamento quantitativo desses dados e, em seguida, apresentaremos uma análise, traçando a realidade do letramento nas escolas pesquisadas. Por fim, apresentaremos a conclusão. . 12 1. LETRAMENTO Narrar acontecimentos, planejar, projetar e descrever fatos ocorridos é uma condição puramente humana, nem um outro ser vivente possui tal característica, e essa particularidade vem acompanhando a raça humana desde antes da escrita. Para tratarmos desse fato, basta nós lembrarmos das figuras rupestres, que possuíam a finalidade de narrar os acontecimentos do cotidiano. Assim relata Sampaio (2009, p. 76): Há mais de 30000 anos que o homem, levado por sua inerente e incoercível necessidade de comunicação e de expressão, começou a gravar e a pintar, em pedras, em lajes, em paredões de falésias e em paredes de cavernas, sinais e símbolos [...] quaisquer que sejam os lugares e os tipos de sociedades, os homens sempre procuraram vencer o efêmero, fixando na pedra sua vida cotidiana. A arte de se comunicar de forma que possa transmitir para gerações futuras acontecimentos do presente e do passado é uma peculiaridade nossa. Com o surgimento da escrita, essas narrativas vêm se proliferando cada vez mais e de formas diferenciadas no decorrer dos anos e vêm se afirmando como mais uma prática social. Porém, atualmente, quando falamos em escrita, outro conceito também surge, o de letramento, que vai além da aquisição do código da escrita, passando a referir-se ao uso tanto da leitura quanto da escrita como ferramentas para o favorecimento das práticas sociais. Segundo Soares (2003, p. 44): [...] um indivíduo alfabetizado não é necessariamente um indivíduo letrado; alfabetizado é aquele indivíduo que sabe ler e escrever; já o indivíduo letrado é não só aquele que sabe ler e escrever, mas aquele que usa socialmente a leitura e a escrita. Logo, percebemos que o domínio apenas do código escrito nos torna simplesmente pessoas alfabetizadas, pois já temos condições de ler e escrever sem o auxílio de outro indivíduo, mas, para sermos, socialmente, considerados letrados, é necessário saber fazer o uso dessas ferramentas, a leitura e a escrita, como instrumentos de práticas sociais. Tomamos como exemplos dessas práticas sociais de letramento a 13 capacidade dos sujeitos para ler e/ou escrever bilhetes, cartas, e-mails, diferentes textos que circulam em diferentes suportes (revistas, jornais, etc.) e em diferentes meios de comunicações. Essas práticas de leituras são vivas e dinâmicas: sofrem mudanças e transformações conforme cada período da civilização humana. Conforme Chartier (1999), à medida que a sociedade muda, novas formas de leitura surgem e outras formas mudam, desaparecem ou perdem seu valor social. Essas mudanças não apenas atingem os textos, mas também refletem no autor e no leitor, ou seja, esses dois personagens também mudam e se remodelam. Chartier nos remete à idade média quando, nesse momento da história, mostra-nos que a figura do autor era considerada, apenas receptor de uma mensagem divina ou uma pessoa que retransmitia uma mensagem dentro da tradição em que estava inserido: [...] da Idade Média à época moderna, frequentemente se definiu a obra pelo contrário da originalidade. Seja porque era inspirada por Deus: o escritor não era senão o escriba de uma Palavra que vinha de outro lugar. Seja porque era inscrita numa tradição, e não tinha valor a não ser de desenvolver, comentar, glosar aquilo que já estava ali. (CHARTHIER, 1999, p. 31) Como mencionado anteriormente, o leitor tem o seu processo de leitura totalmente influenciado pelo momento histórico em que se encontra. Assim, nos esclarece Chartier (1999, p. 78 e 79) acerca das práticas de leituras em diferentes épocas: A história das práticas de leitura, a partir do século XVIII, é também uma história da liberdade na leitura. É no século XVIII que as imagens representam o leitor na natureza, o leitor que lê andando, que lê na cama [...] os leitores anteriores ao século XVIII liam no interior do seu gabinete, de um espaço retirado e privado, sentado e imóvel. Chartier também aponta como era a relação entre o leitor e o livro, afirmando que, durante muito tempo, foi negado ao leitor o direito de se posicionar frente aos mais diversos tipos de texto fora de locais considerados apropriados. Entretanto, nos dias atuais, a liberdade do leitor para se posicionar frente ao texto é incentivada e trabalhada no próprio interior de instituições como a escola. Devido às grandes mudanças históricas e sociais, o letramento vem se afirmando cada vez mais como uma prática 14 social que nos dá condição de, através do domínio da leitura, sermos verdadeiramente atuantes dentro do nosso contexto histórico social. 1.1. LETRAMENTO DIGITAL No presente século, encontramo-nos cercados por um momento ímpar, dado que estamos integrados em um mundo repleto de novos conceitos, novos modelos e inovações tecnológicas. Nunca antes em nossa história passamos por esse processo de transformações tão rapidamente. Essa gama de transformação e informação que nos cerca é capaz de alterar até mesmo as práticas sociais costumeiras em nossa sociedade. Conforme relata Hall (2006, p. 37-38), “[...] as práticas sociais são constantemente examinadas e reformadas à luz das informações recebidas sobre aquelas próprias práticas, alterando, assim, constitutivamente, seu caráter.” Logo percebemos que não possuímos modelos, conceitos ou inovações estáticas e congeladas pelo tempo, mas diferentes, por isso, estamos sempre em constante renovação e essas renovações são diretamente percebidas no nosso dia a dia. Uma das práticas que sofreu e sofre rápidas mudanças com o tempo foi a do letramento. Em função disso, Danet (1997, apud MARCUSCHI, 2002) no final da década de 90, alertava: Num período de talvez 50 anos, nossa compreensão da natureza do letramento e da função social dos textos escritos terá mudado tão radicalmente que poucos de nós estarão ainda vivos para atestar ‘como as coisas eram’ no final do século XX. Por isso é vital produzir agora investigações sobre as atitudes e as práticas de letramento na cultura impressa enquanto ainda é possível fazê-lo [...] É importante destacar que, conforme relata Soares em seu artigo denominado O que é letramento e alfabetização de 1999, um dos primeiros registros sobre o que é letramento é encontrado em 1986 em um livro de Mary Kato, intitulado: “No mundo da escrita: uma perspectiva psicolingüística.” Atualmente, ao refletimos a respeito do letramento, encontramos uma nova ramificação sobre esse tema, a saber, o letramento digital. De acordo com Bagno (2002 p. 55-56). 15 [...] o computador se tornou um novo portador de textos (hipertextos), suscitando novos gêneros, novos comportamentos sociais referente às práticas de uso da linguagem oral e escrita, e cobrando de nós, novas teorizações e novos modelos de interpretação dos fenômenos da linguagem. As novas tecnologias que criam novos suportes para o texto também produzem novas práticas de leitura, ou seja, os novos suportes também determinam novas formas de o leitor se relacionar com o texto. Para Charthier (1999, p. 12-13): A inscrição do texto na tela cria uma distribuição, uma organização, uma estruturação do texto que não é de modo algum a mesma com a qual se defrontava o leitor do livro em rolo da Antigüidade ou o leitor medieval, moderno e contemporâneo do livro manuscrito ou impresso, onde o texto é organizado a partir de sua estrutura de cadernos, folha e páginas. O fluxo seqüencial do texto na tela, a continuidade que lhe é dada, o fato de que suas fronteiras não são mais tão radicalmente visíveis, como no livro que encerra no interior da sua encadernação ou de sua capa, o texto que ele carrega, a possibilidade para o leitor de embaralhar, de entrecruzar, de reunir textos que são inscritos na mesma memória eletrônica: todos esses traços indicam que a revolução do livro eletrônico é uma revolução nas estruturas do suporte material do escrito assim como nas maneiras de ler. O texto em tela possui uma estrutura livre, pois seu suporte permite tal liberdade, é diferente de tudo já vivenciado na prática da leitura, pois se organiza já não preso a estrutura de um livro, ou seja, o suporte tecnológico dá ao texto mais liberdade estrutural: “O novo suporte do texto permite usos, manuseios e intervenções do leitor infinitivamente mais numerosas e mais livres do que qualquer uma das formas antigas do livro.” (CHARTIER, 1999, p. 88). E essa liberdade dada ao texto também é experimentada pelo leitor, como afirma Chartier (1999, p. 91), “O leitor não é mais constrangido a intervir na margem, no sentido literal ou no sentido figurado. Ele pode intervir no coração no centro”. Essa talvez seja a maior revolução a respeito do letramento digital, qual seja, essa condição de tornar cada leitor uma pessoa mais atuante em um processo mais dinâmico de interação tanto com o texto, quanto com o autor do mesmo. Esse novo tipo de letramento dá condições ao leitor de ampliar o seu campo de leitura, pois ele não precisa mais ir a uma biblioteca ou comprar um livro em uma loja para ter condições de realizar sua leitura. Hoje em dia, basta um click e uma gama de opções de leituras abre-se diante de uma tela, seja ela um computador, Tablet, celular 16 entre outros mecanismos tecnológicos. A leitura tornou-se mais acessível e compartilhada como nunca foi antes. Diante dessa nova realidade que estamos vivenciando, percebemos que a leitura anda junto, entrelaçada com as práticas sociais, visto que, cada vez mais, o leitor ganha voz e condição de interagir socialmente por meio da leitura e da escrita, desde a uma troca de e-mail, a participação em enquetes, chats, entre outras formas de comunicação proporcionadas pela Internet. Com esses modos de interação online, o leitor pode ganhar maior liberdade de criticidade. Considerando essa nova realidade, defendemos a importância de uma educação escolar, de um sistema educacional, que prepare os indivíduos, desde os seus primeiros anos escolares, para viverem em uma sociedade que está em constante transformação e que exige dos nossos alunos que eles acompanhem todo esse novo progresso tecnológico, que está mudando a nossa forma de interagir com o mundo através da leitura e da escrita. 17 2. O USO DAS NOVAS TECNOLOGIAS EM SALA DE AULA NA PERSPECTIVA DE PROFESSORES E ALUNOS. Com os dados obtidos pela pesquisa, buscamos entender um pouco mais como a escola tem visto e trabalhado a inclusão social através do letramento digital com os alunos do Ensino Médio da rede pública estadual. Conforme mencionamos na introdução desse trabalho, ao todo nossa pesquisa contou com a participação de 46 voluntários, entre alunos e professores. Ao analisamos os dados, um fato que nos chamou atenção foi que dos 06 (seis) professores entrevistados, 04 (quatro) afirmaram ter recebido do governo curso de capacitação para o uso de nova tecnologia em sala de aula. Já dos 02 que não haviam participado de nenhum curso, um justifica-se pelo fato de ter entrado na escola neste ano de 2014 e o curso ter sido realizado no ano de 2013. Percebemos que os docentes têm tido a oportunidade de participar de curso que os preparam para trabalhar com as novas tecnologias na sala de aula. Os recursos tecnológicos são garantidos pelo Governo Federal, através do programa denominado ProInfo (Programa Nacional de Tecnologia Educacional ). No site do MEC, encontramos a finalidade desse programa, como descrito: É um programa educacional com o objetivo de promover o uso pedagógico da informática na rede pública de educação básica. O programa leva às escolas computadores, recursos digitais e conteúdos educacionais. Em contrapartida, estados, Distrito Federal e municípios devem garantir a estrutura adequada para receber os laboratórios e capacitar os educadores para uso das máquinas e tecnologias. Mesmo que os profissionais, em sua maioria, tenham recebido essa capacitação e também afirmem disponibilizarem de Tablets doados pelo Governo, dos 06 (seis) que participaram da pesquisa apenas 02 (dois) fazem uso desse aparelho como ferramenta educacional em sala de aula. Vejamos os dados distribuídos no quadro a seguir, representados por escolas e por número de professores: 18 TABELA 1 – FREQUÊNCIA DO USO DO TABLET EM SALA DE AULA PELO PROFESSOR Escola EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFMProfº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Com qual frequência você utiliza o Tablet, disponibilizado pelo governo, na sala de aula? Raramente: Frequentemente: Regulamente: Nunca: 01 Total de Professores Entrevistados: 01 Raramente: Frequentemente: Regulamente: 01 Nunca: 02 Total de Professores Entrevistados: 03 Raramente: Frequentemente: Regulamente: Nunca: 01 Total de Professores Entrevistados: 01 Raramente: 01 Frequentemente: Regulamente:Nunca:Total de Professores Entrevistados: 01 Fonte: Questionário aplicado aos professores Resultado Geral: Total de Entrevistados: 06 Professores. 6 4 2 0 Raramente Regulamente Frequentemente Nunca É preciso ressaltar que apenas um professor disse usar regularmente esse instrumento. Diante desse resultado, torna-se relevante observar as justificativas apresentadas pelos professores para o não uso. Como veremos a seguir, no geral, os professores apontaram a falta de estrutura da escola e a má qualidade do equipamento como barreiras para fazerem uso do Tablet em sala: Professor J. P1: O Tablet doado pelo governo é muito frágil. Muitos quando foram entregues já estavam danificados, outros são deixados para conserto e demoram até 06 meses para serem devolvidos. 1 É importante ressaltar que, para manter o sigilo em relação a identidade dos participantes da pesquisa, nos referiremos a eles com as inicias dos seus nomes. 19 Professor B. Q: Não foi utilizado devido à falta da estrutura da escola, não dispõem de internet e a má qualidade do equipamento. Os dados apresentados pelos professores quanto ao não uso do Tablet são confirmados pelos alunos. Observemos a tabela resultante dos questionários respondidos por eles: TABELA 2 – FREQUÊNCIA DO USO DO TABLET EM SALA DE AULA PELO PROFESSOR DO PONTO DE VISTA DOS ALUNOS Escola EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFM Profº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Com qual frequência seu professor faz uso do Tablet, entregue pelo governo, na sala de aula? Raramente: - Frequentemente:Regulamente: 02 Nunca: 06 Ainda não recebeu o Tablet: 02 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: - Frequentemente: Regulamente: Nunca: 05 Ainda não recebeu o Tablet: 05 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: Frequentemente: - Regulamente: Nunca: 08 Ainda não recebeu o Tablet: 2 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: 01 Frequentemente: -Regulamente: Nunca: 04 Ainda não recebeu o Tablet: 05 Total de Alunos Entrevistados: 10 Fonte: Questionário aplicado aos alunos Resultado Geral: Total de Entrevistados: 40 Alunos 40 20 0 Raramente Regulamente Freqüentemente Nunca: Ainda não recebemos o Tablet Dos 40 Alunos entrevistados, 65%, equivalente a 26 (vinte e seis) entrevistados, afirmaram que seus professores possuem Tablet, mas desses 26 (vinte e seis) alunos somente 3 ( três) relatam que o professor faz uso dessa ferramenta em sala de aula, dados, portanto, condizentes com as respostas dos professores anteriormente apresentadas. Quando questionamos os alunos sobre com qual frequência eles fazem 20 uso do Tablet na sala de aula, os dados novamente refletem a realidade escolar em que estão inseridos, visto que, como poucos professores fazem uso do Tablet em sala de aula, também os alunos não o usam. Observemos: TABELA 3 – FREQUÊNCIA NO USO DO TABLET EM SALA DE AULA PELO ALUNO. Escola EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFMProfº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Com qual frequência você faz uso do Tablet, entregue pelo governo, na sala de aula? Raramente: - Frequentemente: - Regulamente: 01 Nunca: 07 Ainda não recebemos o Tablet: 02 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: Frequentemente: - Regulamente: Nunca: 6 Ainda não recebemos o Tablet: 04 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: 01 Frequentemente: - Regulamente: Nunca: 06 Ainda não recebemos o Tablet: 03 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: 02 Nunca: 03 Frequentemente: - Regulamente: Ainda não recebemos o Tablet: 05 Total de Alunos Entrevistados: 10 Fonte: Questionário aplicado aos alunos Resultado Geral: Total de Entrevistados: 40 Alunos 40 20 0 Raramente Regulamente Freqüentemente Nunca: Ainda não recebemos o Tablet Dos 40 entrevistados, o número de alunos que possuem o Tablet é de 26, totalizando 65% do total geral. Desses entrevistados, 84,6% nunca fizeram uso do Tablet na sala de aula, aproximadamente 11,5 raramente utilizaram, aproximadamente 3,9 fazem uso regular e 35% ainda não possuem o parelho. Essa porcentagem de alunos que não possui o Tablet justifica-se, geralmente, por serem alunos novatos na escola, visto que ainda não foram distribuídos novos aparelhos nesse ano de 2014. Infelizmente, percebe-se que, embora muito se discuta sobre importância da inclusão social via novos recursos tecnológicos, essa ainda tem sido negada para muitos 21 alunos da rede pública, não por falta dos aparelhos em si, pois a maioria afirmou e reafirmou ter acesso ao Tablet disponibilizado pelo governo, mas por outros problemas que são de outra natureza, como falta de capacitação e reciclagem para os professores. Segundo Paulino e Cossson (2009, p. 71), uma das causas que pode levar ao não favorecimento desse novo tipo de letramento é esse fechamento para o novo que normalmente acontece nas escolas: [...] priorizar o letramento no singular, ou seja, apenas funcional e básico, a escola muitas vezes assume um caráter de agente de um letramento serviçal, em nome de uma sociedade já pronta, já organizada, com funções predefinidas para os sujeitos. Dessa forma, privilegia-se apenas um tipo de letramento, aqui chamado de serviçal, aquele que não tem como objetivo formar um ser independente e crítico da sociedade em que vive. Não pretendemos aqui encontrar um culpado, ou nomear culpados, ao contrário, desejamos entender como o sistema educacional como um todo tem favorecido ou não essa acessibilidade para a realização do letramento digital. Como podemos observar, os recursos já chegaram às escolas, a maioria dos alunos já possuem os Tablet´s e todos os professores também já foram contemplados. É necessário nos perguntarmos por que o letramento digital ainda é tão baixo no sistema educacional estadual do nosso Estado. Evidentemente, não podemos negligenciar as justificativas apresentadas pelos professores, antes referidas, como a baixa qualidade do material e a falta de condições físicas das escolas. Mas, talvez seja necessário mais incentivo e uma maior conscientização quanto à importância desse novo tipo de letramento. Talvez essas medidas possam ampliar a visão dos gestores e dos professores a darem mais importância para prepararem seus alunos a utilizarem essa ferramenta de forma que seja porta de acesso para adentrarem em um mercado tão exigente quanto excludente e a se tornarem agentes reflexivos sobre a realidade que os cerca. Em nossa pesquisa, também buscamos entender se os alunos possuíam acesso ao laboratório de informática para realizar suas atividades fora do horário de aula e se os professores levavam os alunos a esse espaço. É importante ressaltar que todas as escolas 22 possuem laboratórios de informática. Segue abaixo o quadro da realidade vivenciada por esses alunos. TABELA 4 – FREQUÊNCIA DO USO DO LABORATÓRIO DE INFORMÁTICA Escola EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFMProfº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Com qual frequência você utiliza o Laboratório de informática da sua escola ? Raramente: 05 Frequentemente: Regulamente: 03 Nunca: 02 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: 01 Frequentemente: Regulamente: Nunca: 09 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: 01 Regulamente:- Frequentemente: Nunca: 09 Total de Alunos Entrevistados: 10 Raramente: Regulamente: - Frequentemente: Nunca: 10 Total de Alunos Entrevistados: 10 PELO ALUNO Fonte: Questionário aplicado aos alunos Resultado Geral: Total de Entrevistados: 40 Alunos 40 30 20 10 0 Raramente Regulamente Frequentemente Nunca Raramente: 17,5% Regulamentem: 7,5% Frequentemente: 0% Nunca: 75% Embora não tenhamos dados que permitam levantar os reais motivos desse baixo uso desse espaço escolar, é provável que a maior parte dos professores não faça uso do laboratório de informática por não conseguirem desenvolver planejamento adequado para utilizar esse espaço, a fim de alcançar a finalidade desejada pelos menos de suas aulas. Como afirma Coscarelli (1999, s/n), “Usar o computador em sala de aula não 23 significa que o aluno vai fazer o que quer na hora que bem entende, e para que isso não aconteça o professor deve ter, mais que nunca, clareza dos seus objetivos”. Se não há clareza nos objetivos das novas tecnologias, dificilmente elas passaram a ser usadas em sala de aula e, principalmente, ser usadas de forma significativa. Quanto ao acesso do laboratório de informática fora do horário de aula, o resultado é visto a seguir: TABELA 5 – FREQUÊNCIA DO USO DO LABORATÓRIO DE INFORMÁTICA FORA DO HORÁRIO DE AULA PELO ALUNO. Escola É permitido o uso do laboratório de informática fora do horário de aula? EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI Sim: 01 Não: 09 Total de Alunos Entrevistados: 10 EEEFMProfº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Sim: Não: 10 Total de Alunos Entrevistados: 10 Sim: 10% Não: 90% Sim: Não: 10 Total de Alunos Entrevistados: 10 Sim: 0% Não: 100% Sim: 0% Não: 100% Sim: Não: 10 Total de Alunos Entrevistados: 10 Sim: 0% Não: 100% Fonte: Questionário aplicado aos alunos Resultado Geral: Total de Entrevistados: 40 Alunos Sim: 97,5% Não: 2,5% Quando comparamos esse resultado com o dos professores ao serem questionados quantas vezes utilizam o laboratório de informática, percebemos que os alunos foram condizentes com a realidade escolar em que estão inseridos. A seguir, apresentamos o resultado obtido a partir dos questionários com os professores: TABELA 6 – FREQUÊNCIA DO USO DO LABORATÓRIO DE INFORMÁTICA PELO PROFESSOR 24 Escola EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFMProfº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Com qual frequência você leva os seus alunos para o laboratório de informática? Raramente: Frequentemente: Regulamente: 01 Nunca: Total de Professores Entrevistados: 01 Raramente: 01 Frequentemente: Regulamente: Nunca: 02 Total de Professores entrevistados: 03 Raramente: Frequentemente: Regulamente: Nunca: 01 Total de Professores Entrevistados: 01 Raramente: Frequentemente: Regulamente: 01 Nunca: Total de Professores entrevistados: 01 Fonte: Questionário aplicado aos professores Resultado Geral: Total de Entrevistados: 06 Professores 4 3 2 1 0 É nescessário procuramos entender o porquê de, em pleno século XXI, ainda persistir esse distanciamento entre o professor e as novas ferramentas educacionais. Embora afirmem terem recebido cursos de capacitação, eles ainda não têm trabalhado com esses materias de forma apropriada com seus alunos. Certamente esse trabalho seria relevante para o conhecimento da turma. Como afirma Moran, em um debate produzido pelo TVEscola [...] no mundo atual conectado em rede, trabalhar os conteúdos sem trazer tudo o que está acontecendo no mundo, sem essa mediação das tecnologias da forma como as usamos no cotidiano, é deixar de fora parte importante da formação dos alunos. Utilizar essas ferramentas hoje em dia é importante para possibilitar ao aluno ter acesso ao conhecimento de forma mais abrangente. Além disso, é preciso perceber que as novas tecnologias são cada vez mais acessíveis. Esse é um fato que também 25 verificamos em nossa pesquisa em relação à internet: ao serem questionados sobre o acesso à internet em seus domicílios 33 alunos, o que corresponde a 82,5% dos que participaram da pesquisa, afirmaram ter acesso. Logo, o professor pode cada vez mais buscar usufruir desses dados para um planejamento de aula que conduza seus alunos a serem indivíduos mais integrados com esse novo contexto social, desenvolvendo cada vez mais suas habilidades. E essa tarefa não está restrita apenas ao professor de língua portuguesa, mas é algo interdisciplinar. Segundo Grégoire (1996, p. 1-2): A aprendizagem que está sendo examinada à luz das novas tecnologias refere-se a línguas, matemática, ciências humanas e naturais, artes [...] assim como habilidades intelectuais que estão associadas com essas várias matérias: habilidade de construir para si mesmo uma imagem mental da realidade, de raciocinar, de fazer julgamentos, de solucionar vários tipos de problemas, de inventar etc. Essa aprendizagem é também, por exemplo, o desenvolvimento de independência pessoal e responsabilidade, assim como várias habilidades sociais e de conduta. Outro ponto favorável para a inserção do uso do Tablet e de outros recursos tecnológicos na sala é a boa aceitação desse material como ferramenta educacional pelos alunos. Isso é percebível ao analisarmos suas respostas. Iniciemos observando algumas respostas positivas à pergunta “Qual sua opinião quanto à iniciativa do governo de disponibilizar Tablet e outros recursos tecnológicos como ferramentas educacionais?”: Aluno W.B: Muito boa, faz com que as aulas se tornem mais interessantes. Aluno R.E: Uma boa ideia, pois evita o peso dos livros e nos da mais acesso a internet. Aluno L.M: A entrega do Tablet foi muito positiva ajudou bastante. Aluno G.K: A iniciativa é bastante interessante, pois o aluno ficará interessado em aprender com recursos diferentes. Notemos que todos os alunos avaliam como positiva a iniciativa do governo, ou seja, a distribuição de Tablet é considerada uma iniciativa que pode contribuir para o ensino em sala de aula, principalmente por tornar as aulas mais interessantes, mais dinâmicas. 26 Os alunos que se colocaram contrários à iniciativa do governo apontaram como justificativa a falta do acesso à internet na escola e o pouco uso realizado pelos professores como fatores negativos. Vejamos as respostas a seguir: Aluno A.E: Achei algo desnecessário, pois muitas das salas não tem wi-fi para utilizar. Aluno T.S: O Tablet nunca foi usado na sala de aula. E ainda assim deu problema em suas funções. Aluno R. K: A iniciativa é boa, porém não utilizam. Aluno Y.K: Acho uma iniciativa legal, desde que os professores e os alunos usassem o Tablet, mas desde então, ainda não fizemos nenhuma atividade utilizando o Tablet. Podemos observar que aqueles que se posicionaram contrários não agiram assim por não concordarem com o uso desses recursos tecnológicos na sala de aula, mas pelo fato de não possuírem acesso à internet na sala de aula ou pelo fato de o professor fazer pouco uso dessas ferramentas. Por fim, buscamos entender se os alunos já haviam utilizado o celular para realizar pesquisas escolares. O resultado foi surpreendente, como podemos observar no quadro a seguir: TABELA 7 – O USO DA INTERNET VIA CELULAR COMO FERRAMENTA DE PESQUISA ESCOLAR PELOS ALUNOS. Escola Você já utilizou a internet do celular para fazer pesquisa escolar? EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFMProfº Luiz Gonzaga De Albuquerque Burity Lyceu Paraibano Sim: 09 Não: 01 Total de Alunos Entrevistados: 10 Sim: 09 Não: 01 Total de Alunos Entrevistados: 10 Sim: 08 Não: 02 Total de Alunos Entrevistados: 10 Sim: 08 Não: 02 Total de Alunos Entrevistados: 10 Fonte: Questionário aplicado aos alunos. 27 Resultado Geral: Total de Entrevistados: 40 Alunos 40 30 20 10 0 Sim Não Sim: 85% Não: 15% O número de alunos que utilizam o celular como ferramenta para pesquisa escolar é elevadíssimo. Desse modo, não temos como negar que esse aparelho facilita o acesso dos alunos ao conhecimento e contribui para a realização de suas pesquisas escolares. Assim, a melhor forma de tratar o uso do celular em sala de aula não é proibindo o uso do aparelho, mas criando meios para que eles sejam utilizados de forma cada vez mais proveitosa para as aulas, pois sua contribuição já é inegavelmente importante como ferramenta de pesquisa para os alunos. Também buscamos saber qual era o parecer dos professores quanto ao uso do celular em sala de aula. O resultado foi o seguinte: TABELA 8 – PARECER DOS PROFESSORES QUANTO AO USO DO CELULAR NA SALA DE AULA PELOS ALUNOS. Escola EEEFM Profº Pedro Augusto Porto Caminha EEEFM Papa Paulo VI EEEFMProfº Luiz Gonzaga Qual seu parecer quanto ao uso do celular pelos alunos na sala de aula? Inaceitável, a sala de aula não é lugar para utilizar o celular: Ruim, pois os deixa dispersos: Bom, pois eles poderão utilizar o celular como ferramenta de pesquisa - 01 Total de Professores Entrevistados: 1 Inaceitável, a sala de aula não é lugar para utilizar o celular: Ruim, pois os deixa dispersos: 01 Bom, pois eles poderão utilizar o celular como ferramenta de pesquisa - 02 Total de Professores Entrevistados: 3 Inaceitável, a sala de aula não é lugar para utilizar o celular: 28 De Albuquerque Burity Ruim, pois os deixa dispersos: 01 Bom, pois eles poderão utilizar o celular como ferramenta de pesquisa Total de Professores Entrevistados: 01 Lyceu Paraibano Inaceitável, a sala de aula não é lugar para utilizar o celular: Ruim, pois os deixa dispersos: 01 Bom, pois eles poderão utilizar o celular como ferramenta de pesquisa Total de Professores Entrevistados:01 Fonte: Questionário aplicado aos professores. Resultado Geral: Total de Entrevistados: 06 Professores 4 3 2 1 0 Inaceitável Ruim Bom É importante ressaltar que os professores não tiveram acesso a nenhum questionário respondido por sua turma. O que nos chamou a atenção no parecer dos professores foi que nenhum achou que o uso do celular na sala de aula fosse algo inaceitável, ocorreu um empate. O uso do celular pode sim ser uma ferramenta que auxiliam os alunos e também os professores na sala de aula, como podemos observar nem alunos nem tão poucos professores se mostram fechados a esse tipo de debate e a essa nova forma de intervenção na sala de aula, a saber, o uso do celular, visto que nenhum professor considerou o uso do aparelho celular como algo inaceitável na sala de aula, mas até mesmo os que optaram por responder como sendo ruim o uso desse aparelho justificam se pelo fato de que o celular normalmente deixa o aluno disperso. Se a escola buscar trabalhar com planejamento e com conscientização sobre o uso do celular na sala de aula esse instrumento poderá ser usado de forma a acrescenta conhecimento nas aulas, já que a maioria dos alunos em algum momento já utilizou essa ferramenta para fazer pesquisa escolar. 29 CONCLUSÃO Concluímos nosso trabalho observando que o letramento digital ainda não é realidade nas escolas estaduais do ensino médio da Paraíba pesquisadas. Existe ainda um longo caminho a ser percorrido, pois não basta apenas ter os recursos necessários para que isso ocorra se não houver uma maior utilização das ferramentas tecnológicas, proporcionando assim aos alunos uma maior inclusão social. Outro ponto que nos chama atenção é que o governo realmente tem dado condições para que o letramento digital ocorra nas escolas, visto que cerca de 65% dos alunos já possuem os Tablets, e todos os professores também afirmaram terem recebido essa ferramenta. O problema a ser ressaltado, principalmente colocado pelos professores, diz respeito à qualidade dos Tablets, pois alguns, em pouco tempo de uso, já apresentaram problemas técnicos. Como bem foi colocado por um professor, há também à assistência técnica que tem solucionado os defeitos ocorridos nos aparelhos, contudo, verifica-se uma demora considerável nesse atendimento. De qualquer modo, acreditamos que uma maior conscientização sobre a importância do letramento digital e mais oportunidades de curso de qualificação para os professores, enfocando o como utilizar essas ferramentas educacionais em sala de aula, possam certamente ajudar a transformar o quadro que cerca a realidade escolar atual. Dessa forma, não só os professores sairiam beneficiados, mas também os alunos, pois, para estes, o letramento digital já faz parte do seu contexto. Percebemos essa proximidade entre os alunos e as novas tecnologias quando eles, em sua maioria, afirmam terem acesso a internet em casa e a utilizarem para fazer suas pesquisas escolares. Assim, observa-se que o letramento digital já é uma realidade vivenciada por eles antes mesmo de ser trabalhada nas escolas. Portanto, a temática do letramento digital se impõe como uma realidade que precisa ser pensada e pesquisa no interior da escola. Já no final da década de 90 do século passado, afirmava Charthier (1999, p. 94-95), [...] os primeiros leitores eletrônicos verdadeiros não passam mais pelo papel. Nas experiências que foram feitas em torno da Biblioteca Nacional da França, envolvendo uma população de estudiosos ou grandes leitores profissionais, pôde-se observar que alguns dentre eles liam diretamente na tela as informações e os textos armazenados na 30 memória do computador. Nos Estados Unidos, vê-se mesmo desenvolver a prática da leitura de conferências na tela do computador portátil, aberto pelo conferencista como era o caderno ou a pasta de papeis. Isto define uma figura do leitor futuro? Talvez. Essa figura do leitor que lê sem recorrer ao papel exige da escola um novo posicionamento. Esperamos em breve nos deparamos com uma nova realidade de letramento digital como meio para a inclusão social do alunado paraibano, pois cremos que esse seja um desejo de toda a comunidade escolar: levar o aluno a uma maior independência, dessa forma tornando-o senhor de suas escolhas e não um mais um ser alienado em uma sociedade tão dominadora e excludente. 31 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS: BAGNO, Marcos. Língua materna: letramento, variação & ensino. São Paulo. Parábola, 2002. COSCARELLI, Carla V. A nova aula de português. Presença Pedagógica. Belo Horizonte, mar./abr., 1999. ______. O uso da informática como instrumento de ensino-aprendizagem. In: Presença Pedagógica. Belo Horizonte, 1998. CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador, São Paulo, UNESP, 1999. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Edição: Paz e Terra LTDA, 1989 HALL, Stuart. A identidade cultural na pós-modernidade. 11. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2006. MARCUSCHI, Luiz Antônio. Gêneros textuais emergentes no contexto da tecnologia digital. Texto da Conferência pronunciada na 50ª Reunião do GEL – Grupo de Estudos Lingüísticos do Estado de São Paulo, USP. São Paulo, 23-25 de maio de 2002 PAULINO, Graça e COSSON, Rildo. Letramento literário: para viver a leitura dentro e fora da escola. In: ZIBERMAN, Regina &. ROSING, Tânia M. K. (orgs.). Escola e leitura: velhas crises, novas alternativas. São Paulo: Global, 2009. RAMOS, V. Roberto. O uso de tecnologias em sala de aula. Revista Eletrônica: LENPES - PIBID de Ciências Sociais – UEL, Ed. 2, Vol 1, jul-dez.2012. SAMPAIO. Adovaldo Fernandes. 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ANEXOS 33 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS Nome:______________________________________________ Idade:_________ Série:__________ Escola:___________________________________________________________________________ Questionário Com qual freqüência você utiliza o laboratório de informática da sua escola? Raramente Regulamente É permitido o uso do laboratório de informática fora do horário de aula? Sim Não Você possui acesso a internet em sua casa? Sim Freqüentemente Nunca Não Você já utilizou a internet do celular para fazer pesquisa escolar? Sim Não Qual sua opinião quanto à iniciativa do governo de disponibilizar o Tablet e outros recursos tecnológicos para o uso na sala de aula? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Com qual Freqüência você faz uso do Tablet, entregue pelo governo, na sala de aula? Raramente Regulamente Freqüentemente Nunca Ainda não recebemos o Tablet Com qual Freqüência seu professor faz uso do Tablet, entregue pelo governo, na sala de aula? Raramente Regulamente Freqüentemente Nunca Ainda não recebeu o Tablet 34 UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES DEPARTAMENTO DE LETRAS CLÁSSICAS E VERNÁCULAS Nome:______________________________________________ Idade:_________ Série:__________ Escola:___________________________________________________________________________ Questionário Qual a sua opinião quanto ao uso da internet como ferramenta educacional? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ Qual sua opinião quanto à iniciativa do governo de disponibilizar Tablet e outros recursos tecnológicos como ferramentas educacionais? _____________________________________________________________________ _____________________________________________________________________ O governo já ofereceu oportunidade para uma especialização que trata do uso de tecnologias na sala de aula ? Sim Não Se houve uma qualificação e você participou, qual a sua opinião sobre o curso? ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ______________________________________________________________________ ___ Com qual frequência você leva seus alunos para o laboratório de informática? Raramente Regulamente Com qual frequência você utilizar o Tablet,disponibilizado pelo governo , na sala de aula ? Raramente Regulamente Freqüentemente Nunca Freqüentemente Nunca Qual seu parecer quanto ao uso do celular pelos alunos na sala de aula ? Inaceitável, a sala de aula não é lugar para utilizar o celular. Ruim, pois os deixa dispersos. Bom, pois eles poderão utilizar o celular como ferramenta de pesquisa. 35