Prática da produção textual no ensino de geografia para alunos do Ensino Médio Nathalia Mariano Gonçalves Universidade Federal do Rio de Janeiro Financiamento Capes/ PIBID [email protected] Introdução O presente trabalho apresenta resultados parciais de uma pesquisa – em andamento – que problematiza os procedimentos didáticos voltados para avaliação da aprendizagem dos conteúdos referentes à disciplina de geografia. Essa avaliação é adotada por Docentes de Geografia do CIEP Brizolão 303 Ayrton Senna da Silva que está localizado na comunidade da Rocinha, cidade do Rio de Janeiro/RJ. Essa pesquisa faz parte do projeto PIBID , intitulado “Pesquisar e agir no cotidiano escolar: Ensino de Geografia do grupo de pesquisa” que é realizado na escola citada. Nesse texto, será apresentada, primeiramente, a produção textual como procedimento didático voltado para o aprendizado dos conteúdos geográficos. Somado a esse objetivo, pretende-se relatar a memória desse procedimento de avaliação continuada, já empregado pelos professores de Geografia. Para tanto, as observações aqui expostas se fundamentarão nas análises de entrevistas com um dos professores regentes da escola, que desenvolve esse procedimento didático a mais de 20 anos, e também na análise da produção textual feita pelos alunos. O professor entrevistado se pauta na realidade dos alunos para poder explicar conteúdos geográficos. Após as explicações, ele pede produções textuais como forma de fixação do conteúdo. Não é uma regra, porém é um recurso bastante utilizado nas aulas. Segundo o docente, esse método surgiu da necessidade em fazer avaliações contínuas e de ajudar os alunos a aprenderem mais sobre o conteúdo. O próprio professor diz que escrevendo os alunos organizam melhor suas idéias e colocam no papel o que aprenderam. No caso específico desses alunos, que em sua grande maioria é morador da Rocinha, existem grandes dificuldades de realização do “prazer de casa”. Tal termo é utilizado pelo professor regente da turma para denominar os deveres extra classe. Essa dificuldade é decorrente dos problemas que eles enfrentam em seu dia-a-dia. O tema avaliação é um assunto muito importante para docentes e discentes, uma vez que passamos, à vida toda, por vários tipos de avaliação. Ser avaliado, assim como avaliar são tarefas complicadas para ambas as partes. Existem várias formas de se avaliar como uma prova escrita, prova oral, trabalhos, seminários, avaliações formais e informais, sempre com o objetivo de inventariar as aprendizagens dos alunos. Assim esse trabalho relata especificamente a avaliação continuada e tem como recurso a produção textual, como procedimento didático voltado para o aprendizado dos conteúdos geográficos. A avaliação estudada nesse texto é a avaliação da aprendizagem em sala de aula, sob responsabilidade do professor. PROCEDIMENTOS METODOLÓGICOS E ANÁLISE EMPÍRICA Nesse trabalho, caracterizado como pesquisa qualitativa, adotaram-se instrumentos metodológicos para análise da entrevista com um dos professores participantes do projeto. O objetivo dessa entrevista era entender melhor esse método avaliativo, já empregado pelos professores de Geografia, e conhecer a sua memória. Ademais, foram observados também os trabalhos realizados pelos alunos em sala de aula. A entrevista foi realizada em uma tarde do dia 27 de março de 2012 em que foram feitas algumas perguntas para um melhor esclarecimento sobre esse procedimento avaliativo. Já as produções textuais foram observadas durante o momento de acompanhamento da turma que durou alguns meses. Entrevista com o professor A seguir serão expostas as perguntas feitas ao professor entrevistado e suas respectivas respostas. Em negrito estão as perguntas realizadas por mim e adiante as respostas dadas. 1- “O que motivou o uso desse método de avaliação?” “Percebi que utilizando a produção textual, os alunos aprendiam mais”. 2- “E como surgiu esse projeto?” “Surgiu durante as aulas, pela necessidade de fazer com que os alunos aprendessem melhor. Sempre utilizando o cotidiano do aluno para explicar os conceitos geográficos e assim facilitar na aprendizagem dos alunos, usando a simplicidade deles. O projeto é baseado nos ensinamentos de Freinet, que observa para poder construir. Eu observo os alunos para depois propor atividades que ajudem no aprendizado do aluno, como uma forma de fixação do conteúdo estudado”. 3- “Há quanto tempo tem sido realizado esse método?” “Esse projeto está sendo desenvolvido desde o início de minha carreira docente. Eu desenvolvo esse procedimento didático a mais de 20 anos. No caso específico dos alunos moradores da Rocinha – que são a grande maioria – eles possuem muitas dificuldades na realização do “prazer de casa”, pois enfrentam dificuldades com a família, com os vizinhos e muito barulho na comunidade; por isso, o melhor momento de se fazer exercício de fixação é na própria sala de aula”. 4- “Quais os resultados já visto pelo professor?” “Os resultados são vistos na hora de realizar as avaliações, os alunos se lembram dos exercícios em sala de aula e conseguem realizar com facilidade as questões propostas. Os resultados também estão na realização de provas de concurso e provas de vestibulares. Alguns alunos voltam no colégio para contar que passaram em concursos e isso é muito gratificante”. Percebe-se nessas falas que o professor mostra preocupação em ajudar aos alunos a compreenderem melhor os conceitos geográficos. Além disso, é perceptível que o professor conhece tanto a comunidade e os seus problemas como também conhece a realidade de seus alunos e, por isso, considera esse procedimento como o mais eficaz para o aprendizado deles. Parece que a relação entre professor e aluno atravessa as salas de aula. PRODUÇÃO TEXTUAL COM A TURMA Além da entrevista semi-estruturada, a produção do material didático com o fim de avaliação continuada é objeto de nossas análises. Em 2012, no conteúdo geográfico voltado para o primeiro ano do ensino médio, empregou-se o procedimento didático da produção textual. A proposta avaliativa apresentava representação cartográfica da aonde a maioria dos alunos reside (comunidade da rocinha) e a área estudada em relação ao centro da cidade do Rio de Janeiro. Segue abaixo o mapa utilizado. (Fonte: Produção Pessoal) Como forma de entender melhor como são feitas as avaliações em sala de aula, no dia 22 de maio de 2012, foi dada uma aula sobre “Processo de urbanização do Centro do Rio de Janeiro”. Foi uma aula expositiva, na qual foi utilizado slides com fotografias, mostrando as transformações ocorridas no Centro do Rio e um vídeo que mostra as transformações que irão ocorrer futuramente no Centro do Rio de Janeiro, com um foco maior na zona Portuário. Após essa aula, foi realizada uma atividade para avaliar o que os alunos aprenderam e o que eles pensavam sobre o tema abordado.Assim como o professor, buscou-se partir do cotidiano do aluno para que eles entendessem o conceito geográfico, de modo que a compreensão ficasse mais fácil de ser compreendida. A atividade aconteceu na sala de vídeo do colégio, assim como toda a aula dada. A proposta do exercício foi a seguinte: “De acordo com os seus conhecimentos, e com o conteúdo abordado. Escreva de 10 a 15 linhas sobre o processo de urbanização no centro do Rio de Janeiro.” Dessa maneira, os alunos tiveram o tempo de meia hora para realizar a atividade proposta. Havia vinte e dois alunos em sala de aula. Todos fizeram o trabalho. Porém, dois alunos resistiram um pouco, após conversarem com o professor sobre o assunto da atividade, acabaram realizando a tarefa proposta. Assim, pode-se dizer que 50% da turma teve facilidade de desenvolver a proposta, a outra metade demorou um pouco mais, mas todos produziram. Com a realização da produção textual em sala de aula, o aluno se sente mais livre para expor as suas opiniões e idéias. Um dos trechos da produção de uma aluna acerca do processo de urbanização da cidade do Rio que chamou a atenção, pois mostra essa liberdade. A aluna começa a falar sobre os problemas do Rio de Janeiro no início do século XX e que, segundo ela, ainda continuam. Veja: “...não tinha muita água e nem saneamento básico, bom até hoje o problema com o saneamento básico existe.” (Aluno A) A aluna compara uma realidade do início da urbanização do Centro do Rio com um problema enfrentado na Comunidade da Rocinha, atualmente. Essa mesma aluna escreve também sobre o processo de urbanização e a necessidade do aumento de moradias: “Daí tiveram que fazer diversas construções e foram se expandindo casa e mais casa, prédios e barracos.” Talvez um aluno de outro lugar descreveria de outra forma, mas quando se associa o conteúdo de geografia com a realidade do aluno, a partir da produção textual como procedimento didático, nota -se uma correspondência entre aprendizagem e interpretação crítica do espaço habitado. Esse é, sobretudo, o objetivo primordial do professor regente da turma, possibilitando o ensino de conteúdos geográficos, relacionando-os com o cotidiano do aluno e a utilização da produção textual como forma de fixação do conteúdo. De acordo com Luiz Carlos de Freitas (2009, p: 8) o processo avaliativo continuado é “um caminho aberto tanto para o sucesso como para o fracasso do estudante. O fato de ser contínua não garante sucesso”. Através das análises das produções textuais, percebe-se realmente isso, pois alguns alunos não entenderam ou não souberam passar para o papel o conteúdo e escreveram com letras grandes, espaçadas, apenas para completar o mínimo de linhas do exercício proposto. Por exemplo: “Tivemos muitas melhoras, mas também algumas pioras: como por exemplo os tais cortiços, que eu não entendi muito bem o que são, mas compreendi que algumas pessoas ficaram sem moradia.” (Aluna B). Nota-se que a aluna não compreendeu com êxito o conteúdo abordado. O fato de ela ter feito uma produção textual não quer dizer que ela compreendeu o assunto, ou produziu uma interpretação espacial crítica. DISCUSSÃO: ANÁLISE DA AVALIAÇÃO CONTÍNUA. De acordo com Luiz Carlos de Freitas (2009, p: 7) “A avaliação é uma categoria pedagógica polêmica. Diz respeito ao futuro”. É realmente um assunto muito importante na vida dos alunos e professores. Por isso, vários autores procuram entender melhor sobre o assunto e como é a melhor forma de avaliação. Em uma das entrevistas dada por Luckesi (2005, p: 1) o autor diz que: “a escola hoje ainda não avalia a aprendizagem do educando, mas sim o examina, ou seja, denominamos nossa prática de avaliação, mas, de fato, o que praticamos são exames”. A grande maioria das escolas apenas examina os alunos. Em primeiro lugar, a escola se preocupa somente com o desempenho final dos discentes. O processo de exame não é valorizado o que importa é apenas a resposta. O segundo ponto relevante é que alguns educadores consideram os exames como um processo pontual e absoluto, o que significaria que não interessa o que estava acontecendo com o educando antes da prova, nem interessa o que poderá acontecer depois. Tanto é assim que se um aluno, num dia de prova, após entregá-la respondida ao professor e perceber que não respondeu adequadamente alguma questão, por exemplo, e solicitar ao mesmo a possibilidade de refazê-la, nenhum dos nossos professores, hoje atuantes em nossas escolas, permitirá que isso seja feito; mesmo que o aluno nem tenha ainda saído da sala. Em terceiro lugar, os exames são classificatórios, ou seja, eles classificam os educandos em aprovados ou reprovados, ou coisa semelhante, estabelecendo uma escala classificatória com notas que vão de zero a dez. São classificações definitivas sobre a vida deles. De acordo com Luckesi (2004, p:4 ) “avaliar significa subsidiar a construção do melhor resultado possível e não pura e simplesmente aprovar ou reprovar alguma coisa. Os exames, através das provas, engessam a aprendizagem; a avaliação a constrói fluidamente”. Pelo fragmento do autor, nota-se que ele não é a favorável a avaliação tradicional, porém é o meio mais utilizado no sistema educacional contemporâneo. Além disso, é uma forma de preparar os alunos para concursos futuros como ENEM. Em uma outra entrevista, Luckesi (2001, p: 2) fala exatamente sobre esse tipo de avaliação, mostrando claramente que não é favorável. Observe o trecho a seguir em que o autor expõe sua opinião. Veja o exame vestibular, ou um exame para um concurso qualquer. A sua função é selecionar, incluindo alguns e excluindo muitos. Um exame não avalia, ele seleciona; consequentemente, não subsidia a tomada de decisão para a reorientação (IDEM). No caso dos alunos do CIEP Brizolão 303 Ayrton Senna da Silva, eles fazem avaliação por bimestre, com questões múltipla escolha e discursiva. Mas o professor da turma também concorda que não se deve avaliar apenas os alunos com provas individuais. É por isso que o professor faz atividades com os alunos, buscando avaliar como estes aprenderam o conteúdo dado. A prática da avaliação continuada tem o objetivo de diagnosticar e reorientar sempre. A avaliação não é um instrumento de disciplinamento do educando, mas sim um recurso de construção dos melhores resultados possíveis para todos. O professor também atribui notas a partir das atividades realizadas em sala de aula sempre incentivando os alunos a não faltarem à aula, pois as atividades são feitas em sala. com isso a nota dos alunos são compostas de 0 a 4 por trabalhos realizados em sala e de 0 a 6 pela prova realizada. De acordo com Luckesi (2004, p: 4) importa perceber que a prática da avaliação funciona tanto com o ensino individualizado como com o ensino coletivo. Avaliação não é sinônimo de ensino individualizado, mas sim de um rigoroso acompanhamento e reorientação das atividades tendo em vista resultados bem-sucedidos. Todavia é um equívoco pensar que avaliação e individualização do ensino, obrigatoriamente, têm que andar junta. Com a utilização da avaliação continuada, é possível notar que a produção textual valoriza hábito de leitura e, apesar das mais variadas dificuldades dos alunos, eles têm praticado e melhorado a escrita. Os resultados podem ser percebidos na hora da realização das avaliações mais pragmáticas, os alunos se lembram dos exercícios em sala de aula e conseguem realizar com êxito as questões propostas. Conclusões parciais. Esse estudo apresenta resultados parciais da pesquisa que problematiza os procedimentos didáticos voltados para avaliação da aprendizagem adotados por Docentes de Geografia, mostrando que a produção textual não é apenas um recurso pedagógico utilizado pela disciplina Língua Portuguesa. Esse procedimento pode ser utilizado como recurso didático para o ensinamento de conceitos geográficos e até de outras disciplinas. Não se pode garantir que usando a avaliação de modo contínuo, os alunos estejam aprendendo em sua totalidade os conteúdos abordados, mas esse projeto com os alunos do Ensino Médio do CIEP Brizolão 303 Ayrton Senna da Silva, de acordo com os docentes, tem dado resultados satisfatórios. Por fim, esta investigação permanece com a pauta da discussão do ensino de geografia, valorizando a interpretação crítica do espaço habitado e as produções de sentidos espaciais, a partir do cotidiano dos estudantes e da comunidade escolar. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS. FREITAS, L. C. ; SORDI, Mara Regina Lemes de ; MALAVAZI, Maria Marcia Sigrist ; FREITAS, Helena Costa Lopes de . Avaliação educacional: caminhando pela contramão. 1. ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2009. v. 1. 86 p. LUCKESI,Cipriano Carlos. Entrevista concedida à Aprender a Fazer, publicada em IP – Impressão Pedagógica, publicação da Editora Gráfica Expoente, Curitiba, PR, nº 36, 2004, p. 4-6 ________ Entrevista concedida ao Jornalista Paulo Camargo, São Paulo, publicado no caderno do Colégio Uirapuru, Sorocaba, estado de São Paulo, por ocasião da Conferência: Avaliação da Aprendizagem na Escola, Colégio Uirapuru, Sorocaba, SP, 8 de outubro de 2005. ________ Entrevista à revista nova escola sobre Avaliação da aprendizagem, 2001, p. 1-7