GLOBALIZAÇÃO: perspectivas sobre questões ideológicas e conceituais
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Claudia Maria da Costa Archer
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Maria da Glória Costa Gonçalves de Sousa Aquino
Resumo: O processo de globalização da economia, ocorrido no
século XX estabeleceu o desenvolvimento de uma nova ordem
mundial, calcada, mormente, pela expansão do capitalismo. Análise
das profundas transformações ideológicas, operadas com o
movimento da globalização e a internacionalização do capital, que
vem provocando mutações na natureza e nas funções dos Estados
nacionais.
Palavras-chave: Globalização, Mundialização, Neoliberalismo,
Estado.
Abstract: The process of economic globalization, which occurred in
the twentieth century established the development of a new world
order, based, inter alia, the expansion of capitalism. Analysis of deep
ideological transformation, operated with the movement of
globalization and internationalization of capital, which is causing
changes in the nature and functions of national states.
Key-words: Globalization, Mondialisation, Neoliberalism, State.
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Mestre. Universidade Federal do Maranhão. E-mail: [email protected]
Advogada. Universidade Federal do Maranhão. E-mail: [email protected]
I – INTRODUÇÃO
O Estado contemporâneo passa atualmente por um momento de grandes
transformações. Os fenômenos da globalização (GOWAN, 2003: 23) e da mundialização do
capital (CHESNAIS, 1996:24/32) têm produzido o surgimento de grandes conglomerados no
setor privado, detentores de um capital cada vez mais centralizado, tornando mais difícil de
ser executado pelos Estados soberanos isoladamente.
Nesse sentido, o presente trabalho tem como escopo específico a identificação
das profundas transformações de cunho econômico, político e ideológico, operadas a partir
da década de 80 e decorrentes do movimento da globalização e a internacionalização do
capital que vem provocando mutações na natureza e nas funções dos Estados nacionais.
Por esse aspecto, a globalização atual teria o condão de intensificar os
processos de interdependência recíprocos entre Estados-nação e economia. No fundo, a
globalização seria entendida como um movimento empreendido pela humanidade, surgido
na Europa para fomentar o processo de industrialização – amadurecendo o denominado
capitalismo empresarial – que marcou o século XX e, em particular o contexto europeu no
pós-guerra. Entretanto, o processo de interdependência vem sofrendo alterações sob o
aspecto
estrutural;
observando-se,
portanto,
a
denominada,
“segunda
onda
de
globalização”, esta contraposta à globalização histórica evidente a partir do século XV. No
último sentido, o processo de globalização está atualmente potencializado pela rapidez de
circulação de informação e pelo desenvolvimento técnico (FROUFE, 2007: 214-215); com o
fito de identificar fluxos de comércio, capital e pessoas em todo o globo (HELD & MC
GREW, 2001: 12).
Para isso se impõe o estudo dos diversos conceitos à “globalização” e
“mundialização”, posto estarem eivados de significações implícitas. Segundo Chesnais
(1996: 21) a presente tarefa consiste na decifração de “palavras carregadas de ideologia”,
sendo necessário o mapeamento das principais teorias da globalização – esclarecendo-se a
sua gênese na sociedade global e, também, os desafios que criam para as sociedades
nacionais (IANNI, 1997: 11).
Assim, o foco teórico desse projeto pretende pela análise e construção do
diversos conceitos imputados à “globalização”, sem a pretensão de exaurir todos os seus
sentidos e interpretações.
II – GLOBALIZAÇÃO NA NOVA ORDEM MUNDIAL: uma análise ideológica.
Historicamente, o conceito de globalização surgiu na década de 90, sendo
propagada por jornalistas e políticos anglo-americanos, que foram seus principais portavozes, haja vista que para eles a globalização é portadora de uma nova civilização
planetária, um mercado único, uma sociedade de risco, um mundo além da segurança das
nações, uma força irrefreável e quase natural de transformação global (GOWAN, 2003: 23)
ou que a mundialização já se tornou “irreversível” e que não há alternativas a não ser
adaptar-se a ela, para o bem e para o mal. (CHESNAIS, 1996: 20). Porém, Ianni em “a
teoria da globalização” diz que:
Desde que o capitalismo se desenvolveu na Europa, apresentou sempre conotações
internacionais, multinacionais, transnacionais e mundiais, desenvolvidas no interior da
acumulação originária, do mercantilismo, do colonialismo, do imperialismo, da
dependência e da interdependência. E isso está evidente nos pensamentos de Adam
Smith, David Ricardo, Herber Spencer, Karl Marx, Max Weber e muitos outros. Mas é
inegável que a descoberta de que o globo terrestre, como já disse, não é mais apenas
uma figura astronômica, e sim histórica, abala modos de ser, pensar, fabular. (IANNI,
1997: 14)
Por outro lado, Chesnais adota o conceito “mundialização do capital” posto se
assemelhar ao termo inglês “globalização”. Segundo Chesnais, ambos os termos traduzem
a capacidade estratégica de todo grande grupo oligopolista, voltado para a produção
manufatureira ou para as principais atividades de serviços, de adotar, por conta própria, um
enfoque e conduta “globais” (CHESNAIS, 1996: 17). O que gera várias implicações, tanto
econômica quanto política, mas de modo a influenciar as relações de internacionais entre as
nações, assim:
Por pouco que se saia do campo da ideologia pura e se entre no campo de um
enfoque científico, a palavra “globalização” ou “mundialização” representa um convite
imediato a escolher ou criar instrumentos analíticos que permitam captar uma
totalidade sistêmica. Isto não apenas no tocante ao conceito de capital, que deve ser
pensado como unidade diferenciada e hierarquiza, hoje cada vez mais nitidamente
comandada pelo capital financeiro. Aplica-se também à economia mundial, entendida
como relações políticas de rivalidade, de dominação e dependência entre Estados. A
mundialização do capital e a pretensão do capital financeiro de dominar o movimento
do capital em sua totalidade não apagam a existência dos Estados nacionais.
(CHESNAIS, 1996: 18)
Para Chesnais:
estimular o “globalismo” significa, para eles, fazer o seguinte chamado aos dirigentes
industriais e políticos americanos e europeus: vamos parar de brigar por questões
menores e bobas, como quotas de importação e de que modo nós manejamos a
política industrial, vamos tomar consciência de nossos interesses comuns e cooperar!
De fato, as publicações que fazem a mais extremada apologia da “globalização” e do
“tecno-globalismo” apresentam esse mundo que está nascendo “sem fronteiras”
(bordeeless, título do livro de 1990 de Ohmae) e as grandes empresas, como “sem
nacionalidade” (stateless, expressão empregada pela influente revista Business Week,
1990) (CHESNAIS, 1996: 23)
Assim, se observa que o ponto característico da globalização ou mundialização
já está implementado há muito tempo. Ou seja, a globalização, cuja denominação foi instada
a justificar o novo modelo econômico capitalista, se efetivou juntamente com a consolidação
da ideologia neoliberal, que propagava a unificação político-econômica, mas na prática,
ressaltou uma sociedade extremamente seccionada, provocando diferenciações e
hierarquizações em todos os níveis dos Estados nacionais.
Destaque-se, porém, que uso do termo “global” iniciou-se nos Estados Unidos
nos anos 80, nas grandes escolas americanas de administração de empresas, as célebres
“business management schools” (CHESNAIS, 1996. p.23), usado na imprensa econômica e
financeira, incorporando-se depois ao discurso neoliberal. Gowan, (2003), diz:
Tanto a globalização quanto o neoliberalismo estavam se espalhando pelo mundo
ocidental antes do colapso do Bloco Soviético, mas foi durante a década de 1990 que
as administrações americanas procuraram ativamente radicalizar e generalizar essas
tendências, articulando-as de modo a ancorarem outras políticas econômicas aos
interesses políticos e econômicos americanos. (GOWAN, 2003: 10)
Já Ianni, aprofunda as diversas derivações decorrentes do adjetivo global, tais
como: “aldeia global”, “fabrica global”, “nave espacial”, “sistema-mundo”, todos em metáfora
aos termos largamente denominados globalização ou, então, mundialização. Assim, para
Ianni a aldeia-global representa a existência das mercadorias convencionais, além da venda
de informações, fabricadas como mercadorias e comercializadas mundialmente. É o novo
comércio, das informações, dos entretenimentos onde as idéias são produzidas,
comercializadas e consumidas como uma mercadoria. Com efeito, Ianni completa:
A metáfora torna-se mais autêntica e viva quando se reconhece que ela
praticamente prescinde da palavra, tornando a imagem predominante, como
forma de comunicação, informação e fabulação. A eletrônica propicia não só
a fabricação de imagens, do mundo como um caleidoscópio de imagens, mas
também permite jogar com as palavras como imagens. A máquina impressora
é substituída pelo aparelho de televisão e outras tecnologias eletrônicas, tais
como ddd, telefone celular, fax, computador, rede de computadores, todos
atravessando fronteiras, sempre on line everywhere worldwide all time.
(IANNI, 1997: 17)
Em continuidade, Ianni demonstra que a expressão “fábrica global” nos remete a
uma transformação quantitativa e qualitativa do capitalismo além de todas as
fronteiras, subsumindo formal ou realmente todas as outras formas de
organização social e técnica do trabalho, da produção e reprodução ampliada
do capital. Toda a economia nacional, seja qual for, torna-se província da
economia global. O modo capitalista de produção entra em uma época
propriamente global, e não apenas internacional ou multinacional. Assim, o
mercado, as forças produtivas, a nova divisão internacional do trabalho, a
reprodução ampliada do capital, desenvolvem-se em escala mundial. Uma
globalização que progressiva e contraditoriamente, subsume real ou
formalmente outra e diversas formas de organização da forças produtivas,
envolvendo a produção material e espiritual. (IANNI, 1997: 17-18)
Já a expressão “nave espacial” nos leva a uma viagem de travessia, ao lugar e à
duração, ao conhecido e ao incógnito, é o destino incerto do que há por vir. Essa metáfora
da nave espacial serve como o símbolo da modernidade desenvolvida no século XX,
anunciando o século XXI. Pois:
Ocorre que a tecnificação das relações sociais, em todos os níveis,
universaliza-se. Na mesma proporção em que se dá o desenvolvimento
extensivo e intensivo do capitalismo no mundo, generaliza-se racionalidade
formal e real inerente ao modo de operação do mercado da empresa, do
aparelho estatal, do capital, da administração das coisas, de gente e idéias,
tudo isso codificado nos princípios do direito. Juntam-se aí o direito a
contabilidade, a lógica formal e a calculabilidade a racionalidade e
produtividade, de tal maneira que em todos os grupos sociais, instituições,
em todas as ações e relações sociais, tendem predominar os fins e os
valores constituídos no âmbito do mercado, da sociedade vista como um
vasto e complexo espaço de trocas. Esse é o reino da racionalidade
instrumental, em que também o indivíduo se revela adjetivo, subalterno.
(IANNI, 1997: 20)
Para arrematar, acerca do conceito de economia-mundo Ianni informa que:
está presente em estudos de Braudel e Wallerstein, precisamente
pesquisadores que combinam muito bem o olhar do historiador com o
geógrafo. É verdade que Wallerstein prefere a noção de “sistema-mundo”, ao
passo que Braudel a de “economia-mundo”, mas ambos mapeiam a geografia
e a história com base na primazia do econômico, na idéia de que a história se
constitui em um conjunto, ou sucessão, de sistemas econômicos mundiais.
Mundiais no sentido de que transcendem a localidade e a província, o feudo
e a cidade, a nação e a nacionalidade, criando e recriando fronteiras, assim
como fragmentando-as ou dissolvendo-as. Eles lêem as configurações da
história e da geografia como uma sucessão, ou coleção, de economiasmundo. Descrevem atenta e minuciosamente os fatos, as atividades, os
intercâmbios, os mercados, as produções, as inovações, as tecnificações, as
diversidades, as desigualdades, as tensões e conflitos. Apanham a
ascensão e o declínio das economias-mundo. (...) Permitem reler o
mercantilismo, o colonialismo, o imperialismo, o bloco econômico, a
geopolítica em termos de economias-mundo. (IANNI, 1997: 27)
III - CONCLUSÃO
Podemos concluir que o conceito de globalização – denominada por Balibar
(1997: 377) como mundialização do mundo - tem como característica a tentativa de utilizar o
sistema internacional dos Estados soberanos como mecanismo do predomínio global. Por
sua vez, Zygmunt Bauman (1999: 66-67) salienta que no discurso atual, o termo refere-se
primordialmente aos efeitos globais, notoriamente não pretendidos e imprevistos.
Esta nova e desconfortável percepção das “coisas fugindo ao controle” é que
foi articulada (com pouco benefício para a clareza intelectual) num conceito
atualmente na moda: o de globalização. O significado mais profundo
transmitido pela idéia da globalização é o de caráter indeterminado,
indisciplinado e de autopropulsão dos assuntos mundiais; a ausência de um
centro, de um painel de controle, de uma comissão diretora, de um gabinete
administrativo. A globalização é a “nova desordem mundial” de Jowitt com um
outro nome.
Com toda essa difusão do termo globalização, o termo francês “mundialização”
(mondialisation) não conseguiu se estabelecer, posto que diminuiria os impactos ideológicos
da palavra, “global” e “globalização”, que, por sua vez, possuem maior abrangência, visto
que sua conceituação é mais genérica. Porém a palavra “mundial” permite introduzir, com
mais força do que termo “global”, a idéia de que, se a economia se mundializou, seria
importante construir depressa instituições políticas mundiais capazes de dominar o seu
movimento. (CHESNAIS, 1996: 24). Podemos dizer que:
a mundialização é o resultado de dois movimentos conjuntos, estreitamente
interligados, mas distintos. O primeiro pode ser caracterizado como a mais
longa fase de acumulação ininterrupta do capital que o capitalismo conheceu
desde 1914. O segundo diz respeito às políticas de liberalização, de
privatização, de desregulamentação e de desmantelamento de conquistas
sociais e democráticas, que foram aplicadas desde o início da década de
1980, sob impulso dos governos Thatcher e Reagan. (CHESNAIS, 1996: 34)
Portanto vemos que o que impulsiona a globalização, está além dos processos
comumente associados a ela, ou seja, mais impulsionados por forças tecnológicas e/ou
econômicas do que pelas capacidades políticas e interesses capitalistas políticas e
interesses capitalistas da nação americana e da elite empresariais. A respeito da afirmação,
Gowan mostra:
que o processo de globalização tem sido impulsionado de modo crucial pelo
enorme poder político colocado nas mãos da nação americana e do
empresariado dos Estados Unidos por um meio particular de sistemas
nonetário internacional e do regime financeiro internacional associado que foi
construído – em grande parte pelo governo dos Estados Unidos – sobre as
ruínas do sistema Brentton Woods. (GOWAN, 2003: 11)
Finalmente, concluímos que a globalização está estabelecida enquanto ideologia
e posta em prática na vida mundial; o que podemos fazer é tentar minimizar seus efeitos
hierarquizadores para reduzir a diferenciação, aproveitando o que há de positivo na
homogeneização das facilidades proporcionadas pelo acesso ao que acontece no mundo.
V - REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BALIBAR, Étienne. La crainte des masses. Paris: Galilée, 1997.
BAUMAN, Zygmunt. Globalização: as conseqüências humanas. [tradução Marcus
Penchel]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 1999.
CHESNAIS, François. A Mundialização do Capital [tradução de Silvana Finzi Foá]. São
Paulo: Editora Xanã, 1996.
FROUFE, Pedro Madeira. Globalização e Integração. Doze pistas de reflexão. In:
SILVEIRA, Alessandra (coord.). 50 anos do Tratado de Roma. Lisboa: Quid Juris
Sociedade Editora, 2007.
GOWAN, Peter. A Roleta Global [tradução de Regina Bhering]. Rio de Janeiro: Editora
Record, 2003.
HELD, David; MC GREW, Anthony. Prós e Contras da Globalização. [Tradução de Vera
Ribeiro]. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 2001.
IANNI, Octavio. Teorias da Globalização. 4ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
1997.
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