HPE – História, Política e Ética no Ensino de Línguas Síntese das análises e sugestões ao Documento de Consulta Pública do MEC sobre a Base Nacional Comum Curricular no tocante ao Ensino de Línguas no país. Documento produzido conjuntamente pelos pesquisadores docentes: José Carlos Paes de Almeida Filho (PGLA/UnB), Gretel Eres Fernández (FEUSP/USP) e Luiz Eduardo Oliveira (PPGE/UFS). Nesta versão está vazado preponderantemente o parecer do representante da Universidade de Brasília. 1. Informações e considerações preliminares A Base Nacional Comum Curricular (BNC), disponível em <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/inicio>, encontra-se em consulta pública com vistas a discutir o texto preliminar. Podem manifestar-se, mediante cadastro prévio no site, escolas, organizações e pessoas físicas, sendo que todas as contribuições serão identificadas. Nas avaliações devem ser considerados aspectos bem pontuais, quais sejam: a clareza, a pertinência e a relevância dos textos e objetivos de aprendizagem que compõem a Base Nacional Comum. Também receberemos as suas sugestões de modificação, exclusão ou inclusão de objetivos de aprendizagem. Os critérios de avaliação são: a clareza com que ideias, princípios e objetivos são apresentados. a relevância dos conhecimentos e objetivos de aprendizagem em face das exigências sociais e de desenvolvimento pessoal. a pertinência dos conhecimentos e objetivos para o ano e etapa da educação básica em que se encontram assinalados. (<http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/contribuainicio>1) No texto de apresentação da área de Linguagens, afirma-se, em relação às Línguas Estrangeiras (LE): A participação em um mundo ampliado pelo acesso às tecnologias contemporâneas, as características multiculturais do Brasil e os contatos crescentes com pessoas de outras formações socioculturais e nacionalidades requer conhecimento de diferentes idiomas. Cabe à área de Linguagens oferecer oportunidades de vivências significativas com culturas e línguas adicionais e conhecimentos necessários, para que os/as estudantes possam se envolver 1 A indicação corresponde ao local do site em que consta a citação. em interações com textos em outra(s) língua(s) e, gradativamente, integrar-se em realidades marcadas pelo plurilinguismo e pela diversidade. (<http://basenacionalcomum.mec.gov.br/#/site/conhecaDisciplin a?disciplina=AC_LIN&tipoEnsino=TE_EF>) Em relação ao fragmento anterior são necessárias ao menos duas observações. A primeira diz respeito ao fato de que ao usar a expressão “se envolver em interações com textos” e não com pessoas haja um retorno aos princípios propostos pelo ensino de línguas com fins específicos/foco na leitura, como explicitam os PCN-EF (BRASIL,1988). Já a segunda refere-se à presença da caracterização “línguas adicionais”, muito embora na área de Linguagens conste “Componente Curricular Língua Estrangeira Moderna”. Já no detalhamento dos objetivos por ano escolar, tem-se a forma “língua estrangeira”. Embora possa subentender-se que as três expressões são usadas como sinônimas no documento, convém unificar a forma de referir-se a esse componente curricular como Língua Estrangeira, a fim de evitar confusões e também porque consideramos essa a forma mais adequada. No mesmo texto de apresentação da área insiste-se na importância de “garantir o domínio da escrita”, bem como do “domínio progressivo das convenções da escrita, para ler e produzir textos em diferentes situações de comunicação”. Para que isso seja possível, segundo o documento, é necessária “autonomia de leitura nos diversos campos e suportes e preparo para produzir textos em diferentes modalidades e adequados aos propósitos e às situações de comunicação em que os sujeitos se engajam.” Evidentemente, é possível interpretar que a oralidade esteja incluída quando se faz referência às diferentes modalidades e situações comunicativas. Porém, isso não é explicitado nesse momento e as habilidades orais só serão mencionadas claramente na apresentação do componente curricular LEM e no detalhamento dos objetivos para cada ano escolar. Assim sendo, é fundamental que a oralidade seja mais bem contemplada no documento, bem como também é essencial explicitar que seu papel na Educação Básica não deve, em hipótese alguma, restringir-se à mera compreensão superficial ou produção/reprodução de enunciados, mas deve ser encarado como primordial na interação com o outro, na produção de sentidos e na constituição do sujeito. Vale ainda destacar que, apesar do nome do documento ser Base Nacional Comum Curricular, a sigla omite um dos “C”: BNC. Se entendermos que os termos “Base” e “Nacional” sugerem que é “comum”, ela é para todos e, nesse sentido, infere-se que o vocábulo “Comum” é desnecessário. 2. Organização deste texto-síntese A fim de propiciar uma visão geral das considerações que tecemos, estão relacionados aqueles aspectos em que, inicialmente, estamos de acordo, tanto os positivos quanto os negativos (ou dissonantes) e, também, aqueles que merecem mais reflexões. A seguir, encontram-se listados os pontos em que há (ou pode haver) divergência de opinião entre os três professores que apresentaram suas contribuições ou entre um e dois desses docentes2. Numa seção posterior estão incluídas algumas opiniões coletadas por colegas que participaram de diferentes reuniões nas quais o documento foi discutido. O propósito de inserir aqui tais comentários tem o intuito de que o grupo HPE tome conhecimento das opiniões e pontos de vista acerca desse documento que circulam em diferentes ambientes. 3. Opiniões pautadas nas análises de integrantes do grupo HPE 3.1. Aspectos positivos a) Proposição de um documento geral e nacional norteador para a educação básica e que contemple as LE. b) Apresentam-se, pela primeira vez, os objetivos da Educação Básica, cujas principais características são: formação humanista para o convívio social; tolerância com relação às diferenças; história e identidade nacional; ênfase em elementos estéticos, políticos e culturais, além de jurídicos, identitários, éticos e interdisciplinares. Parece que estão tratando das disciplinas de conteúdo, mas as línguas têm outra natureza 2 Alguns trechos são transcritos literalmente (ou adaptados) dos textos enviados pelos colegas. Não é feita a indicação da autoria nem figuram entre aspas apenas porque neste texto pretendeu-se refletir as opiniões do grupo e, além disso, destina-se apenas a uso interno. Se for considerado necessário, essas identificações serão feitas posteriormente. c) d) e) f) g) h) i) j) k) – elas são meio para tratar os conteúdos. Convém enfatizar tal aspecto, pois a ideia do estudo da língua em si mesma, e não como meio para tratar de outros conteúdos, recai facilmente na gramática. No caso da literatura, no formalismo descontextualizado. Prevalece uma noção semiótica de linguagem (e as noções de funcional, comunicativa, pragmática não fazem falta?). Vê-se o uso da expressão, ou conceito, de “línguas adicionais”. Os objetivos da área são inovadores. Fala-se das novas tecnologias e dos “novos letramentos”, mas não se tem o panfletarismo teórico das OCEM. Um elemento novo aparece no texto: a questão das culturas de outras línguas, o que abre espaço para a entrada do componente de línguas estrangeiras de modo interdisciplinar, ou “integrador”, como diz o documento, em substituição a “transversal”. A questão do direito à aprendizagem e a ênfase no uso logo se sobressaem, bem como a importância dos meios digitais. Os temas devem ser de interesse dos alunos. A perspectiva discursiva – produção de sentidos independente do nível dos alunos – também parece inovadora, embora o documento não dê nenhuma pista acerca do seu modus operandi. O documento trata também da importância da heterogeneidade e da interdisciplinaridade. A BNC parece não priorizar nenhuma língua em favor do plurilinguismo, embora afirme que é preciso que os estudantes tenham continuidade na aprendizagem de suas línguas. Defende-se a dimensão educativa da LE: a inserção social dos estudantes aparece como pedra de toque. Como é isso traduzido? Aprender línguas para se inserir socialmente? Parece que sim. A aprendizagem de uma LE aparece como um passaporte possível para a inserção social do aluno, ou pelo menos para inseri-lo num contexto mais amplo – sendo internacional – do que o da sua comunidade. Para enfrentar condições adversas sugere-se proceder à análise de cada situação de ensino para descobrir práticas de linguagem significativas e relevantes que nela se impõem. Todas as habilidades linguísticas devem ser exploradas. Admitir que temos de trabalhar a oralidade no ensino de línguas é um avanço. Contudo, a oralidade tem pouco destaque na BNC: assim, é preciso insistir mais nesse ponto. Há uma relativa liberdade das escolas e dos professores, pois, de acordo com cada contexto, pode haver alterações curriculares. O texto trata ainda de um conjunto de posturas bem aceitas no ideário pedagógico atual: valorizar a pluralidade sociocultural, romper estereótipos, desenvolver modos saudáveis de relacionamento com o outro, fazer crescer o autoconhecimento e constituir-se pela língua como sujeito. Contudo, não há indicações de como integrar tais princípios aos planos de cursos que contam, muitas vezes, com apenas uma aula semanal de 45 minutos de duração e 40 alunos em sala de aula. Refletir sobre a própria aprendizagem com crescente autonomia é uma direção acertada e não podia ser mais afinada com a nossa época nos estudos sobre aquisição. 3.2 Aspectos negativos a) Mescla de designações para o componente curricular que nos afeta: língua adicional, língua estrangeira moderna, língua estrangeira. Opinamos que “língua estrangeira” é a forma mais adequada. b) Não se indica o modo como devem ser trabalhadas todas as habilidades linguísticas. c) Embora haja um avanço ao incluir a importância da oralidade, não se explicita como ela deverá/poderá ser abordada em salas numerosas (e/ou em qualquer contexto). Não dizer como será feito pode ser argumento para os que são contra a oralidade – e há muitos no país. d) O documento não menciona a formação (inicial e continuada) de professores. e) Não há menção da questão da competência comunicativa e pedagógica dos professores brasileiros não-nativos e nem uma discussão de como seria saudável progredir na oralidade esses profissionais que vão abrir um caminho escalonado de progressos nos níveis começando por falar com os alunos na língua. f) A carga ideológica é bem marcada e, dependendo de como for tratada, pode se converter num problema (a mais), pois, entre outros desdobramentos desfavoráveis, pode desembocar em aulas na própria língua dos alunos. g) Questões relativas ao nosso grupo (história, políticas e ética no ensino de línguas) não são exploradas pelo documento. Essas áreas têm a ver com formação, aspecto pobre no Documento. h) Não são indicados os níveis de possível chegada para que se tenha um parâmetro do que começar a desenvolver nos professores como capacidade de uso da língua e do que avaliar em exames nacionais de massa na língua no futuro. Esses são fortes desafios a superar que não mereceram citação no Documento. Contudo, a BNC prevê que “diferentes níveis de conhecimento” da LE ou a descrição de níveis de desempenho estejam descritos para que as escolas possam adotá-los como meta num período de tantos anos. i) O documento não traz, como tem ocorrido nas últimas décadas, um texto eivado de citações de autores prestigiosos na academia em linguagem restrita a ela mesma (ausência de linguagem e viés academicista, que tanto incomoda muitos professores da educação básica), mas tampouco se apresenta como um texto reto e acessível para que professores, pais e alunos possam compreender, discutir e se formar no âmbito da aquisição de novos idiomas na escola brasileira. j) O documento não faz qualquer referência às LE nos anos iniciais do ensino fundamental, apesar de a Resolução CEB 7/2010 mencionar, em seu Artigo 31, § 1º, essa possibilidade, o que revela um atraso considerável em relação às visões e concepções mais atuais. k) Ao tratar das culturas digitais desconsidera-se a realidade presente em grande parte das escolas (principalmente públicas) nas quais podem ser detectadas ao menos 4 situações: a) inexistência de equipamentos (computadores, laboratórios etc.), equipamentos obsoletos ou insuficientes; b) falta de acesso ou acesso precário à internet; c) pouca ou escassa capacitação dos docentes para trabalhar com as TIC; d) falta l) m) n) o) p) q) de tempo (na carga horária) para incorporar as TIC aos programas de aula de LE. É preciso ter cuidado com a ênfase no letramento para que não se torne o eixo condutor dos programas dos cursos. Mesmo porque, no nosso caso (LE), trata-se de um outro tipo de letramento. Não se fala em disciplinas, mas em componentes curriculares, o que dá uma ideia de integração. Contudo, a BNC é extremamente disciplinar; daí que em diferentes momentos se insista na necessidade de contar com temas integradores (o que eles significam?). Assim sendo, parece que continua prevalecendo o caráter disciplinar e não a efetiva articulação da área. Esta questão precisa de um debate sério. Pode mesmo tornar-se uma pauta para o nosso próximo encontro. Vale lembrar uma fala do Prof. José Carlos na UFS sobre um modo bastante integrador de se trabalhar com LE. Os objetivos de aprendizagem estão estabelecidos ano a ano, mas podem ser definidos por ciclos (Arte e Ed. Física). Parece haver uma ideia de progressão que convém evitar. Temas como gênero e sexualidade desapareceram e estudos religiosos ganharam grande espaço, o que é preocupante. Os referenciais teóricos não estão explicitados e isso tem o seu aspecto negativo, pois a impregnação teórica (daquele tipo que às vezes faz com que a pessoa esqueça de citar) não raro se confunde com radicalismo ideológico. O livro didático parece se configurar como instrumento principal de implementação dos currículos nas escolas. 3.3. Posição do representante da UnB Quando condições de trabalho adversas que fazem parte dos fracassos escolares e, principalmente no Ensino de Línguas, são mencionadas uma única vez no Documento, elas são logo minimizadas com a sugestão de “engajamento discursivo”, em alusão a um recurso da Análise do Discurso que poderia querer dizer “envolvimento com tarefas, temas e projetos fazendo uso intenso, sustentado e com crescente capacidade de uso da língua”. O texto que pretende vir a ser o documento guia das escolas acerta em seguida quando sugere que uma boa solução para enfrentar condições adversas é proceder à análise de cada situação de ensino para descobrir práticas de linguagem significativas e relevantes que nela se impõem. Esse parece ser o bom e familiar estudo dos objetivos mediante consulta ao público na tradição pós-estruturalista. 4. Outras ideias / opiniões e perguntas que circulam 4.1. Os exames nacionais deixaram de ter caráter avaliativo e passaram a determinar os conteúdos a serem abordados nos livros didáticos e nas aulas. Todo exame nacional ou regional de massa vai ter sempre um efeito retroativo sobre os planos de curso. Se os exames tiverem o bom guia de objetivos plausíveis levantados entre os interesses e eventuais necessidades dos alunos e pais, a influência dos exames será produtiva e não perniciosa. 4.2. De que forma se dará a implementação da BNC? Através de uma política específica para o ensino de línguas no país orientada por um cronograma de ações de curto, médio e longo prazos. 4.3. Os PCN e as OCEM serão desconsiderados após a publicação da BNC? Esses documentos poderão ser sempre considerados por seu papel na história, mas os determinantes serão, obviamente, o que estiver consolidado na nova política de ensino de línguas orientada por Diretrizes e pela BNC.