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Prêmio Sigmund Freud
Interpretação psicanalítica: uma composição
dodecafônica
Cintia Buschinelli
Expressionismo Schõnberg/ Freud
psicanálise/dodecafonismo
Este trabalho, longe de se aventurar na seara da composição, musical pretende apenas,
e tão só, apresentar um paralelo entre a interpretação psicanalítica e a música atonal,
principalmente no que se refere ao efeito que tanto uma quanto a outra podem provocar em
quem que as ouve.
Neste sentido, as composições musicais aqui empregadas possuem a função exclusiva
de se exercer como um ponto de apoio para uma das funções que lhe são próprias, qual seja,
de eliciar emoções no ouvinte. E é também a emoção veiculada na interpretação psicanalítica
que será o alvo das considerações que se seguirão.
E foi como ouvinte que me perguntei por que a música atonal construída por
Schõnberg, no lugar de se oferecer como um bálsamo das inquietações se presta a
incomodar o ouvinte, a molestá-lo de modo que o impulsiona a evitá-la?..
A música dodecafônica, diferente das tendências composicionais dos períodos
anteriores à sua criação, se apresenta como uma seqüência de motivos fragmentados. Em
geral, o efeito por ela produzido se constitui em um inequívoco desconforto1A capacidade desta composição de induzir inquietação se encontra na essência de sua
conformação musical, qual seja, não possuir uma estrutura formal reconhecível pelo ouvinte.
Falta-lhe um tema que a organize, uma estrutura que a defina.
Tal qual toda composição musical, a dodecafônica, ou atonal, revela uma disposição
afetiva em quem a ouve, apenas que neste caso em particular, ela configura uma sorte de
angústia no ouvinte.
Na verdade, a capacidade das composições musicais produzirem intensas emoções
(claro que toda emoção é encontrada em maior ou menor grau em quase todo o tipo de
música) surge no final do século XVIII com a introdução do movimento romântico na edificação musical. Até este período, os compositores denominados clássicos buscavam o equilíbrio entre a estrutura formal da música e sua expressividade.de modo que sua intenção
última era passar ao largo do espírito do ouvinte. A música era preparada para agradar2
Beethoven, um romântico por excelência, ofereceu composições que abrangiam todos
os possíveis estados d'alma. E é a angustia que está vigorosamente manifestada em suas
sonatas tardias aquelas compostas já no período onde perdera totalmente a audição3'
A pergunta que nos fazemos então é: por que motivo falamos da angústia no
dodecafonismo quando este sentido afetivo já fora tão bem representado nas composições
beethovianas?
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Angustia: representação em Beethoven e Schõnberg
E certo que nossos ouvidos não rejeitam a música de Beethoven, muito ao contrário ela
é sempre bem-vinda. Cabe sublinhar que este efeito não é casual. Mesmo quando os acordes
de Beethoven induzem sentimentos avassaladores estes são,de imediato, aplacados. Um
conflito é apresentado, o estado de tensão se configura. Segue-se fatalmente um afrouxamento
da tensão e a conseqüente sensação de repouso. O conflito é então solucionado.
O ouvinte das sonatas de Beethoven, ou mesmo de suas sinfonias, jamais é abandonado com a sensação de que algo ficou sem sentido, ou sem representação. A angustia
oferecida nestas composições, se é que esta é a melhor denominação à emoção presente, tem
conteúdo.4
A questão que estamos oferecendo à reflexão, portanto, não está na natureza do
sentimento proposto pela música, mas sim na solução que a composição musical oferece para
aquela emoção proposta. Em outras palavras não se fica no vazio,em Beethoven.
A música de Beethoven, levando-se em conta as diferenças de estilos de criação das
diversas épocas,.segue a tradição dos compositores que o antecederam. Caso ofereçam um
conflito ao ouvinte, apresentam também sua solução.
Se dirigirmos nosso olhar, superficialmente apenas, à estrutura destas composições,
será possível perceber que esta sensação de resolução que acompanha o ouvinte quando a
música termina não é casual. Ela está figurada em sua concepção musical, que até Schõnberg
seguia a estrutura tonal.
A música tonal, que se constitui em toda e qualquer composição musical do ocidente
até as construções do dodecafonismo, possui uma espécie de polo imantado, marcado no
início da composição, e que a atrairá para ele quando soarem seus acordes finais. Este polo, o
tom, oferece aos nossos ouvidos um destino sólido de reconhecimento. Aos primeiros
acordes, indica-se um caminho que tem um ponto de chegada já previsto em seu ponto de
partida. Os vôos sonoros que transportarão o ouvinte às mais diversas emoções estão sempre
amarrados por um fio condutor. A música ocidental até Schõnberg não submete o ouvinte a
um vôo livre.
Expressionismo
A compreensão da revolução introduzida por Schõnberg na música ocidental requer
um olhar sobre o movimento artístico no qual ela estava inserida. Estamos nos referindo ao
expressionismo.
O movimento expressionista surge no final do Sec. XIX e se constitui em uma
manifestação artística em que o conteúdo emocional e as reações subjetivas exercem forte
domínio sobre o convencionalismo e a razão.
São muitos os artistas dos mais diversos segmentos da expressão artística daquele
período, cujas obras se inserem neste contexto. Entre estes poderíamos lembrar nas artes
plásticas Münch, Schiele, Kandinsky, na literatura Kafka, e na música, que nos interessa
particularmente, Schõnberg.
O expressionista possuía o desejo explícito de que sua obra transmitisse predominantemente sentimentos. A disposição afetiva do artista deveria se expressar em, suas
pinceladas vigorosas sobre a tela, nas palavras que compunham seus poemas, nos açor-
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des que estruturavam sua sinfonia. O público ao qual se dirigia a obra é convidado a
participar da emoção do artista, emoção esta produzida no âmago da ser. A arte expressionista
oferecia com eficácia um grande suprimento de emoções.
Van Gogh considerado como um pré-expressionista declara sobre sua intenção como
artista:
"Eu quero que meus desejos atinjam as pessoas a fim de que elas digam a respeito do meu trabalho: este
homem sente profundamente"5.
A emoção do artista esta representada na obra e exatamente por esse motivo, pretende
comover seu público. Esta intenção veementemente declarada por Van Gogh, um artista cujo
movimento do pincel acompanhava a turbulência de seus movimentos afetivos, revela o
sentido último da obra na qual a função expressiva é ressaltada de modo que as ressonâncias
emocionais surjam sob formas excepcionalmente vigorosas.
A arte expressionista tende ao retorno aquilo que se considerava as verdadeiras fontes
de sentimentos, alinhavando criatividade com impulsos emocionais e instintivos, sem a
mediação e interferência provável da racionalidade.
Emoções intensas expressadas intensamente, pode ser o lema expressionista6.
Ao se referir ao sentido da produção artística,Schõnberg declara:
"Uma obra de arte não pode atingir efeito superior senão o de transmitir ao espectador as emoções que
assaltaram o criador, de forma a fazer com que ele seja tomado, invadido por essas mesmas emoções".7
A música de Schõnberg se assenta confortavelmente no terreno fertilizado pelos
ingredientes expressionistas. Seu desejo é que sua música tome o ouvinte "de assalto", que o
invada. Ele não propõe que seus acordes aplaquem a inquietação que provocam, que
restituam a serenidade abalada.
Todas essas considerações sobre o sentido do movimento expressionista ambicionam
suscitar uma interrogação a respeito de um outro movimento, muito caro para nós, que se
fundava também neste mesmo período.
Não é preciso lembrar que ao se avizinhar o século.XX, Freud se aventurou em
direção ao território psíquico, abrindo caminho para a compreensão da vida que pulsava sob a
ordem da consciência. A pergunta que se coloca então é: seria Freud um expressionista?
Freud, um expressionista?
A pergunta tem seus motivos. A Viena dos expressionistas é a mesma Viena de Freud,
tanto no que diz respeito ao território geográfico quanto cultural. Cabe lembrar que o ano de
1900 assistiu a maior parte da composição da primeira obra maior de Schõnberg os GurreLider8 (que se constituem como uma síntese final da tradição musical do Séc. XIX e o início
de um novo mundo sonoro).
O ano de 1900 também recebeu de "olhos arregalados" a publicação da "Interpretação
dos Sonhos", a obra que instaura a abertura para uma revolucionária compreensão do mundo
psíquico. A interpretação dos sonhos, um livro cujo autor é simultaneamente o sonhador, o
interprete dos sonhos, o teórico e o narrador.
Pode-se a partir daí supor aproximações entre estes dois renovadores.
No que diz respeito a Freud não há dados que sustentem que ele fizera contato direto
com os expressionistas e edificado os alicerces psicanalíticos sob a influencia
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deste movimento cultural. Sobre este fato, Renato Mezan, em seu livro Freud o pensador da
cultura é peremptório:
"A possibilidade de uma influencia qualquer da Viena dos talentos', em sua expressão madura, sobre a
constituição desta disciplina, é imediatamente afastada pelo fato de que em 1886, quando Freud regressa de
Paris e começa a se interessar pelas neuroses, nenhum dos movimentos que, para nós tornam tão significativa a
Viena em que ele viveu havia sequer se iniciado."
Deste ponto de vista, não se pode falar em influência dos expressionistas na construção
da psicanálise.
Para reforçar este argumento pode-se voltar aos escritos de Freud sobre arte. Nestes,
não se encontrará referência à vanguarda artística de seu tempo. O olhar freudiano está
direcionado à arte desenvolvida pelos consagrados da Vinci, Michelangelo, Ghoete. A arte
clássica, portanto.
Para reiterar um terceiro.não, a pergunta que reúne a construção da psicanálise ao
expressionismo basta voltarmos nosso olhar à intenção de Freud ao construir a psicanálise.
Afinal, estaríamos diante de um cientista não de um artista.
Agora, pode-se responder esta pergunta não mais do ponto de vista de um observador
externo que tem acesso aos contornos do fenômeno que observa, mas sim impregnado pelo
próprio fenômeno. Quem sabe chegaremos a uma outra resposta a essa interrogação.
Voltemos então ao dogma básico do movimento expressionista: Ele afirma que" os
impulsos criativos verdadeiros brotam das profundezas do indivíduo, a um nível primitivo da vida emocional
ainda não atingido pela arte acadêmica. O desejo de criar é identificado a um impulso atemporal que,a princípio, pode manifestar-se a qualquer momento, em qualquer cultura e em qualquer parte do mundo.9
Impossível não reconhecer neste enunciado o parentesco com enunciados de Freud
sobre o inconsciente e sua expressão. Por exemplo: "o desejo inconsciente escapa a qualquer
influência, é independente das tendências contrárias ao passo que o consciente é atalhado.por tudo quando,
igualmente consciente se lhe opuser.' °
Outro princípio exemplar do expressionismo.e a confiança irrestrita na expressão direta
dos sentimentos que se originam na própria vida do criador, sem a mediação direta e a interferência provável da
racionalidade.'1
Aqui podemos reconhecer mais um parentesco com a psicanálise. Sabe-se que o
método de investigação do inconsciente foi apurado através do mergulho de Freud em seus
próprios sonhos. O caldo da psicanálise foi extraído do psiquismo de Freud.
Ainda mais um passo a diante. A arte expressionista faz com que o fator de expressão
seja dramático e visível. É um trabalho em que a função expressiva é tão ressaltada, que as
ressonâncias emocionais se apresentam sob formas excepcionalmente vigorosas. O
expressionista tende a conduzir seus sentimentos a formas extremas de modo a introduzir o
maior conteúdo possível na forma mais intensa.:
Tomemos a obra de Egon Schiele12." Podemos detectar em seu trabalho uma aura inquietante
de sentimentos expostos de modo pungente, centrados em uma sexualidade frenética, que é a impressão geral
causada pelos desenhos e pinturas daquele jovem artista. Os torsos macilentos e os membros retorcidos de alguns
nus de Schiele sugerem uma preocupação em revelar impulsos libidinosos, mas seu propósito é, sobretudo, designar o corpo como expressão de sofrimento."13
Caso fosse possível transformar em pinceladas vigorosas sobre tela a descrição que
Freud nos apresenta de suas primeiras pacientes histéricas é bem possível que as
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confundíssemos com uma das pinturas de Egon Schiele, tal a expressão dramática que havia
em sua personificação. As pacientes histéricas de Freud emergem sob uma disposição
expressionista.
Vejamos então a Sra. Emmy Von N.com quem Freud inicia o tratamento em 1889:
" Esta senhora, quando a vi a primeira vez, estava deitada num sofá com a cabeça repousando numa
almofada de couro. Parecia ainda jovem e as feições eram delicadas e marcantes. 0 rosto tinha uma expressão
tensa e penosa, as pálpebras estavam cerradas e os olhos, baixos; a testa apresentava profundas rugas e as dobras
nasolabiais eram acentuadas.Falava em voz baixa, como se tivesse dificuldade, e a fala ficava de tempos em tempos sujeita a interrupções espasticas, a ponto de ela gaguejar. Conservava os dedos firmemente entrelaçados, e eles
exibiam uma agitação incessante. Havia freqüentes movimentos convulsivos semelhantes a tiques.no rosto e músculos do pescoço, durante os quais alguns destes, se tornavam muito salientes. Além disso, ela interrompia com
freqüência suas observações emitindo um curioso estalido com a boca, um som impossível de imitar..."
O que a paciente me dizia era perfeitamente coerente e revelava um grau inusitado de instrução e inteligência. Isso fazia com que parecesse ainda mais estranho que, a cada dois ou três minutos, ela de súbito se calasse, contorcesse o rosto numa expressão de horror e nojo, estendesse a mão em minha direção abrindo e entortando
os dedos e exclamasse numa voz alterada e carregada de angustia: Fique quieto. Não diga nada. Não me toque!14
Sra. Emmy Von N. é uma pintura expressionista de Sigmund Freud.
Bem, a algumas linhas atrás observamos que Freud era um cientista, não um artista.
Retificamos agora nossa observação, reivindicando-lhe ambas designações: enquanto edifica
o saber psicanalítico concebe o movimento dos fenômenos psíquicos, reconhecendo-lhes os
sentidos, estamos diante de um rigoroso cientista. Ao solicitar que seu paciente se acomode
no diva e diga tudo que lhe vem à cabeça, toma nas mãos o cinzel e a argila. O artista se
configurou. A interpretação, o instrumento de trabalho do psicanalista é matéria de um artista.
No artigo " O método psicanalítico de Freud" - 1904- (aquele em que Freud escreve na
terceira pessoa,lemos o seguinte:
"Freud desenvolveu uma arte da interpretação 'qual compete a tarefa, por assim dizer, de extrair do
minério bruto das associações não intencionais o metal puro dos pensamentos recalcados".15
A arte não exclui a exigência do rigor no manejo da técnica psicanalítica. Quanto a
isto, Freud nos adverte no artigo escrito em 1911- O manejo da Interpretação dos Sonhos na
Psicanálise:
"Afirmo que a interpretação dos sonhos não deve ser praticada ao longo do tratamento
como uma arte em si, mas que seu manejo está sujeito às regras técnicas a que deve obedecer
a totalidade do tratamento".
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Revista FEPAL - Setembro de 2002 - Mudanças e permanências
Quem se dedica a esta matéria e amplia o sentido da interpretação como arte é Fábio
Herrmann. Em seu livro "Clínica Psicanalítica- a arte da interpretação".
Depois de esclarecer os caminhos da construção da interpretação na sessão de análise
ele nos diz:
"Isto é a arte da interpretação. Mais um dedilhar da alma alheia do que uma formulação
pseudocientífica sobre o discurso do paciente".16
A seu favor, Freud nos diz que ela é " o Método mais conveniente de obter uma compreensão
interna(insight) da vida psíquica inconsciente."
Ou como nos esclarece Herrmann propondo um alargamento de sua função: O processo de
decifração de sentidos fora da rotina e as intervenções nele baseadas, que ajudam o paciente a romper o limite dos
assuntos que pensava poder tratar em separado, chama-se interpretação psicanalítica."17
A interpretação psicanalítica: uma composição dodecafônica
A interpretação está no âmago da doutrina e da técnica freudiana. Freud a ela reservou
um lugar de destaque uma vez que por meio dela o ato psicanalítico se constitui.
A interpretação cabe revelar o sentido latente de qualquer modalidade das manifestações psíquicas. Através da interpretação se traz à luz o desejo formulado em qualquer
produção do inconsciente.
Mas o que se passa quando o desejo é posto a nu, sem o disfarce com que o veste a
repressão? Qual é a emoção que aflora sob o impacto de uma interpretação?
Herrmann ao expandir a noção de inconsciente e esmiuçar a função da interpretação
descreve o acontecimento psíquico dela resultante. Ele chama de Vórtice o efeito que a
interpretação ocasiona sobre o paciente.
" Vórtice é o mesmo que redemoinho .........acompanham-no sentimentos de perder o pé, afundar-se em
si mesmo, de despersonalização, de estranheza.18
Em outro ponto reitera;" .. .a consciência em condição de análise experimenta uma séria angustia, uma impressão de se desagregar, de não saber quem é, ou de não ser nada.
Vórtice, a intensa e breve reação emocional desencadeada pela interpretação tem suas
razões de ser. Afinal, um campo representacional ao qual estava assentado o paciente, se
desfez. Ele então se encontra como que solto no espaço, neste lugar que nada contém, neste
hiato entre alguma coisa que deixou de ser e outra que ainda será.
O paciente submetido à interpretação está na lacuna entre o campo abandonado e o
próximo no qual vai se escorar. Sem lugar, imerso no hiato entre a representação desfeita e
outra que surgirá, irrompe a angustia.
Este momento profundamente perturbador da análise é também a "fonte de maior
conhecimento"19 que dela advém.
Caso fosse possível expressar a interpretação através de uma forma musical, ela seria,
sem dúvida uma composição dodecafônica.
A interpretação está sob o regime da música atonal, que tal qual "a música do
inconsciente" não apresenta uma estrutura formal reconhecível pela consciência.
A interpretação desobedece o tom do discurso consciente. Sua estrutura
composicional, se assim podemos chamá-la, não está sujeita as regras básicas da harmonia do
pensamento. Não é por acaso que o efeito da interpretação, o vórtice, se traduz pela impressão
de fragmentação, perda de si mesmo, sensação esta que afinal corresponde
Interpretação psicanalítica: uma composição dodecafônica Cintia Buschinelli
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aquilo que é efetivamente experiência a qual está submetido o paciente.20 Afinal
a angustia é necessária?
A angustia desencadeada pela interpretação poderia ser evitada ? é a pergunta que
poderia ser feita. Afinal, o paciente que procura a análise busca algo que aplaque a angustia,
este ruído de fundo que o acompanha. Pode 'parecer paradoxal, que o remédio para essa dor
mental, provoque a mesma dor que se deseja aliviar.
É aparente tal contra senso. Não porque a angustia inerente ao vórtice fora quem sabe
menos intensa, mais discreta e assim pedagogicamente suportável. Não, a sensação de
desagregação é a mesma, mas o que sobrevém depois dela é o que a diferencia de
experiências semelhantes que ocorrem fora da sessão de análise.
O efeito de vórtice, esta sensação de estar na brecha vem imediatamente acompanhada
por uma nova representação de si mesmo.. É esta experiência propiciada pela interpretação e
por todos os efeitos emocionais que a acompanham que a distingue da angustia vivida fora da
analise. Esta se configura como um permanente não estar em lugar algum, acompanhado por
não ter para onde ir.
O vórtice é um estar entre dois campos representacionais. Os estados de vórtice
desencadeados no decorrer da análise são portanto inerentes ao processo analítico, caso
fossem evitados, a análise estaria comprometida. O fenômeno vórtice é o indicador de que o
ato analítico esta sendo levado a efeito.
É claro que este estado afetivo produzido pela perda de uma representação a qual o
paciente estava aderido, este átimo de "não sei quem sou" é imediatamente aplacado pelo
reconhecimento de" agora sou assim".
Esta mobilidade entre representações de si custa ao paciente lapsos de vazios, o que
não é pouco, mas oferece a oportunidade da recuperação da plasticidade psíquica uma das
particularidades da vida mental enfraquecida pela persistência da neurose.
Para concluir é certo que a musica dodecafônica raramente é escolhida para deleite do
ouvinte, mas é certo também que após a revolução composicional introduzida por Schõnberg
a música ocidental não foi mais a mesma.
Toda a criação musical, após a introdução do dodecafonismo foi aprimorada. O excesso de maneirismos exacerbados das composições foi abandonado, a gordura que encobria as
formas musicais foi derretida deixando ressurgir a leveza e delicadeza de sua estrutura.
O dodecafonismo se embrenhou em toda e qualquer composição de modo a
possibilitar a criação de uma sonoridade original até então desconhecida.
Do mesmo modo a interpretação psicanalítica irrompe as representações que o paciente
tem de si abre o campo para novas representações criando possibilidades até então
desconhecidas proporcionando novas aberturas de sentido ao desatar as amarras aprisionantes
da neurose que imobilizavam a vida mental.
Notas
1. recomendo ao leitor a audição da peça de Schömberg- Pierrot Lunaire regida por Pierre Boulez, grava da em CD pela
Deutsche Grammophon.
2. recomendo ao leitor a audição de: sinfonia n. 32 de Mozart, executada pela"Academy of Ancient Music"
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Revista FEPAL - Setembro de 2002 - Mudanças e permanências
regida por Jaap Schrõder- gravação de 1981 Decca Record Co. Ltd. London primeiro movimento( 2:49min).
3. sonata n.30 em fá maior.opus 106 de Beethoven com Charles Rosen ao piano – Il Prestissimo gravação Sony (2:19
min).
4. Quinta sinfonia Beethoven.
5. Citado em Graetz.H.R. The symbolic language of Vincent Van Gogh(Londres: Thames and Hudson, 1963)
6. Cardinal R. 0 expressionismo, pg26, Zahar R. J. 1984.
7. idem, pg.28.
8. canções de gurra; composição com um narrador e cinco solistas sobre o poema do poeta dinamarquês Jacobson. Gurra
é o castelo onde vive a heroína do sec.XII.
9. Cardinal, R. 0 expressionismo, pg 9 Zahar, RJ. 1984.
10. Freud, S. - Quinta lição de psicanálise .Vol.XI Ed. Standard Imago.RJ. 1969.
11. Cardinal, R. - O Expressionismo, pg 25 Zahar RJ. 1984.
12 Artista nascido nos arredores de Viena em 1890 em cuja obra o corpo é o suporte da expressividade.
13. Cardinal, R. - O Expressionismo, pg41- Zahar RJ. 1989.
14. Freud, S. - Estudos sobre a Histeria, pg 80 vol.II Edição Standard- Imago RJ. 1969.
15. Freud. S. - O método psicanalítico de Freud, pg 235-,vol.VIII- Ed. Standard RJ. 1969.
16. Herrmann, F. - Clínica psicanalítica -a arte da interpretação- pg 90 Ed. Brasiliense. 1991.
17. Herrmann, F. - O que é psicanálise- pg.30 edit-psique 1999
18. Herrmann, F. - Clinica psicanalítica- a arte da interpretação, pg.72 Edit. Brasiliense, S.P., 1991.
19. Herrmann, F. - O que é psicanálise- para iniciantes ou não pg.37 Psique S.P 1999.
20. recomendo a audição da valsa opus 23 n.5 de Schõnberg tocada ao piano por Caio Pagano.
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