680 MODERNIDADE E TRADIÇÃO: A HISTÓRIA DA ESCOLA ESTADUAL MELO VIANA Antonia Simone Coelho Gomes Universidade Estadual de Minas Gerais RESUMO Compreender o processo de consagração da Escola Estadual Melo Viana, na cidade de Carangola, e como a escola foi construindo a imagem da escola pública de qualidade é o objetivo desta pesquisa. Para examinar o lugar de destaque que a escola assumiu no cenário educacional, privilegiou-se a análise do projeto arquitetônico enquanto espaço de relações políticas e sociais, os sentidos conferidos aos objetos escolares expostos no salão nobre como troféus, mobiliário, quadros e galeria de fotos que traduzem práticas pedagógicas que ultrapassavam as fronteiras da sala de aula, bem como as múltiplas apropriações e transmissões de saberes que se expressam na escrita escolar. Esses objetos permitiram uma leitura de seus significados na história escolar traduzindo valores que permeavam práticas pedagógicas que iam muito além do cotidiano da sala de aula: festas, competições esportivas, eventos cívicos, celebrações religiosas que contribuíram apara a fabricação da imagem da escola de tradição. O período da pesquisa concentra-se em 1925, ano da inauguração do grupo escolar a 1987, quando a diretora Djanira Pereira se aposenta. O Grupo Escolar veio para atualizar os princípios e práticas educativas da década de vinte promovendo uma ruptura com a forma de ensino decadente que vigorava. A instalação desta escola veio carregada de pressupostos pedagógicos, com objetivo de imprimir uma nova ordem no cenário educacional e com a função de preparar os filhos dos fazendeiros da elite local e dos comerciantes em ascensão para serem cidadãos. Neste período emergia uma concepção de modernidade ligada à educação, que propunha condensar as escolas isoladas em um lugar que pudesse instaurar uma identidade escolar. A construção deste espaço educacional estava presente no momento de difusão dos grupos escolares em Minas Gerais no início do século XX e que Luciano Faria Filho (2000) examinou chamando a atenção para uma nova cultura escolar que estava sendo produzida, simbólica e materialmente, tendo uma organização que a distinguia de outras instituições. Nesse momento, os grupos escolares começavam a ocupar não apenas “os melhores prédios” (Faria Filho,2000,p.42), mas também aqueles mais centrais, que se diferenciavam na composição urbana, além de demonstrarem a centralização que o lugar da educação escolar deveria representar no interior da cidade .Examinar a importância da escola no cenário urbano envolveu ainda compreender as implicações pedagógicas do projeto arquitetônico escolar, entendendo o espaço arquitetônico como educador, onde a reconstrução dos sentidos dados às atividades escolares desenvolvidas foram tomando sentido e dando sentido à realidade. A importância da escola na cidade foi sendo construída ao longo da história e pode ser constatada em documentos reunidos no Acervo Histórico-Geográfico que contempla a história deste estabelecimento no livro de edição de centenário da cidade, Gazeta de Carangola Edição Histórica 1892-1992, mostrando a atuação do Dr. Fernando de Melo Viana no período em que foi juiz de direito nesta cidade. Documentos oficiais e jornais de época são tomados como fontes históricas, além dos documentos escritos existentes no arquivo da escola: Sinopse Histórica, Regimento Escolar, Livros de Atas das Reuniões Pedagógicas, Livros de Matrículas e fotografias. Recorreu-se ao arquivo-memória de uma diretora destacando os documentos que enfocavam a trajetória da escola, outros materiais produzidos pro professoras como Cadernos de planejamento, registros de atividades extra-classe e álbum painel também foram analisados. A produção escrita dos alunos foi examinada o que possibilitou a compreensão da cultura escolar através de cadernos escolares, provas e relicários, que permitiram observar os sentidos impostos às práticas escolares e as múltiplas apropriações que foram feitas destes no cotidiano escolar. O escrito de uma época revela as condições sociais em que foi produzido, dá voz a quem escreve ou revela os canais que regem esta escrita em qualquer dos níveis, seja uma escrita profissional, escolar ou privada. Para tanto, observar o suporte em que apareceram os registros escritos de professoras, analisar a disposição desta escrita, as imagens a ela associadas, o processo de elaboração, a quem foi dirigida, em que contexto se deu a produção e transmissão; possibilita interpretar o contexto das práticas escolares, revelando a importância atribuída aos conhecimentos disseminados, suas relações e as diferentes formas de apropriação que determinaram as bases de formação da criança. Assim, a cultura escolar foi sendo produzida não apenas pelo conjunto de normas que definem conhecimentos mas em um conjunto de práticas que transmitem conhecimentos e desenvolvem interações. Inscrevendo-se na perspectiva dos estudos que se voltam para examinar a implantação dos grupos escolares mineiros e nos estudos sobre cultura escrita, pretende-se contribuir para ampliar a compreensão sobre a cultura escolar apontando para a importância da preservação da memória escrita escolar produzida por alunos e professoras como fonte privilegiada para a História da Educação. TRABALHO COMPLETO 681 A escola é um “lugar de memória”1, partindo desta premissa, se desenvolveu o presente estudo sobre a Escola Estadual Melo Viana, que pretende dar visibilidade a um conjunto de elementos que retrata esta instituição e nos faz crer que a relação entre memória e escola é intrínseca, e não se apóia simplesmente nos objetos, na estrutura física dos prédios, nos álbuns de retratos ou nos livros de registros. O passado preservado pela escola através dos objetos, documentos, livros, cadernos, fotografias, móveis e produções escritas de alunos e professores, abriu-se como uma perspectiva para esta pesquisa, que objetivava trilhar um percurso sócio-histórico sobre esta instituição, levantando problemas e discussões que pudessem ampliar as múltiplas formas de se perceber o ensino público primário em Minas Gerais. Este texto aponta para a arquitetura escolar em seu papel educador, que traz nos traços e na organização, elementos simbólicos que desempenham funções do currículo invisível, além do estudo dos objetos expostos reunidos no salão nobre da escola, objetos-memória, que estão a serviço da preservação da memória institucional. A cultura escolar foi sendo produzida não apenas pelo “conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, mas em um conjunto de práticas que permitem a transmissão destes conhecimentos e a incorporação desses comportamentos” (Juliá,2001,p.10). A Escola Estadual Melo Viana, situada em Carangola, interior de Minas Gerais, traz consigo a imagem emblemática da tradição, projetada para ser o primeiro Grupo Escolar, assumiu neste cenário um lugar de prestígio e destaque, não só enquanto projeto educacional que edificou uma nova forma de ensino, mas enquanto projeto urbanístico que anunciou modernização na cidade. Um edifício-escola de grande porte, revelava, na época, invariantes arquitetônicas que apontavam aos postulados do higienismo, da estética, da grandiosidade em favor da graduação pedagógica. A localização da escola em um bairro central, em uma rua calma, residencial, tendo um prédio que se distinguia, também conferia uma certa identidade. Este Grupo Escolar além das características físicas que o fez singular, também veio assumir a educação dos filhos dos fazendeiros do café2 e da elite local, classe média da época. O primeiro grupo escolar, inaugurado em 1925, veio para atualizar os princípios e práticas educativas da década de vinte promovendo uma ruptura com a forma de ensino que vigorava. Neste período emergia uma concepção de modernidade ligada à educação que propunha condensar as escolas isoladas em um lugar que pudesse instaurar uma identidade escolar. Os primeiros esforços em legitimar o modelo dos grupos escolares enquanto modelo educacional, reforçavam suas vantagens a partir do momento no qual reuniam as professoras sob uma direção, atendiam a uma divisão dos alunos, propiciava a fiscalização do trabalho dos professores, exigindo melhoria dos prédios que favorecessem os cuidados com a higiene escolar. O Grupo Escolar Melo Viana em Carangola, inaugurou uma fase em que ser aluno desta instituição significava ter acesso a um estabelecimento de ensino organizado sob a forma de museu escolar, do clube agrícola, da caixa escolar que beneficiava os menos favorecidos, a biblioteca e a enfermaria. Estas realizações demonstravam uma preocupação não só com os aspectos educacionais, mas com a formação integral da criança. O grupo escolar não só organizou o ensino em Carangola como também representou um espaço 1 NORA,Pierre.1984 Na re-constituição da história da cidade, encontra-se nos registros dos documentos oficiais e na Gazeta de Carangola Edição Histórica 1882-1982. (Carangola, 1982, p.9, 10, 27), que até 1830, o espaço onde se instalou a cidade, era uma imensa floresta tropical habitada pelos índios puris, época em que os primeiros colonizadores vieram desmatar e plantar café, riqueza que por muito tempo impulsionou essa região.Esse fato é determinante na configuração do perfil de uma cidade do leste de Minas Gerais, que teve como mola propulsora da economia não a mineração, constatando-se que esta riqueza foi fator definidor para a urbanização e “base da economia do estado, até os meados do séc XIX, quando a expansão da cafeicultura inverteu a situação” (Pitanguy, 1999, p.77). 2 682 político-social. A escola era ponto de encontro onde se realizavam reuniões de grupos institucionais, de políticos e da elite local, que ali dançavam, discutiam e tomavam decisões. Em 1946, foi inaugurado o segundo grupo escolar, o Grupo Escolar Interventor Benedito Valadares que se faz seguir por mais quatro instituições públicas que hoje integram a educação na cidade, a Escola Estadual Jonas de Faria Castro, Escola Estadual Augusto Amarantes, Escola Estadual Antônio Marques e Escola Estadual do Bairro Santo Onofre. A chegada destes grupos ocasionou rivalidades no campo pedagógico que culminaram em grandes disputas durante as olimpíadas inter-colegiais, nas festas juninas, nos desfiles cívicos e nas festas religiosas de coroação da Virgem Maria. Essas festividades culminaram na década de 70 quando estes eventos escolares eram aguardados por toda comunidade. As festas escolares ganhavam forma de projeto pedagógico, passaram a ser acontecimentos sociais de integração e de consagração de valores, culto à pátria, à escola, à ordem social. Dentre as várias estratégias constituídas para dar visibilidade à escola esteve a difusão de uma educação que desenvolve o belo, a estética, a organização e a ordem. Ao mesmo tempo, espaços internos escolares foram se construindo e se constituindo enquanto história, não só pelas dimensões físicas mas especialmente pelas suas representações. Nas salas de aulas, a disposição dos móveis e objetos, são regidos por leis que lhes são próprias, obedeciam e ainda hoje obedecem, a um princípio fundamentalmente disciplinador, levam à uma conformidade tanto dos professores quanto dos alunos. A localização próxima à diretoria, evidenciava o que se constituiu em estratégia de autoridade e disciplina. O pátio nos grupos escolares funcionava também como potencializador da função educativa, pois demarcava a clara distinção da sala de aula. Podia-se apreender as diferentes formas de apropriação deste espaço segundo a natureza do evento podendo ser de caráter pedagógico, social, cultural ou cívico. O museu escolar se transformou na Biblioteca Pedagógica Dom Bosco e na Biblioteca Infantil Vicente Guimarães no ano de 1944. A biblioteca sempre se constituiu como um espaço cuidadosamente organizado com finalidade da plena realização do programa educacional que estimula, guia e conduz o aluno à leitura. No ano de 1947 foi inaugurada a cantina da escola, revelando, assim, que haviam alunos que provinham dos extratos sociais mais baixos da sociedade. Outras dependências foram criadas: a sala para as professoras, o gabinete dentário , a enfermaria São Vicente de Paula. Esses novos espaços não vieram determinados apenas pelas inovações pedagógicas, mas também pelas exigências das transformações associadas ao industrialismo, ao positivismo científico, ao movimento higienista e ao taylorismo, e revelam que o papel da escola não deveria se restringir a ensinar a ler, escrever e contar. À escola cabia alimentar a alma e o corpo. O Salão nobre, local de referência assume entre outros sentidos, o de lugar de dar visibilidade à escola, principalmente durante a programação festiva ocasião em que o ensino era evidenciado através do recital de poesias, dramatizações, danças, canto orfeônico tendo como professoras responsáveis Orita Pinheiro nos anos 40 e 50 e Fátima Silva nas décadas de 60 e 70. Cenários, figurinos, passos, ritmos, ensaios. A escola se transformava nestas ocasiões quando os espaços e os tempos tinham que ser reorganizados. As festas escolares se constituíram na concretização dessa cultura própria que atribuiu sentido para os atores que dela participaram. Assim, a imagem da escola de tradição foi se produzindo pelo ensino, pelas realizações, pelos eventos, pelos alunos e professores atores desta história que também era compartilhada com a população. O salão nobre compunha harmonicamente o cultural e o artístico, nele se conjugavam as representatividades das autoridades da escola, simbolizadas nas fotografias dos antigos diretores e os objetos reunidos, troféus, quadros das professoras de 1950, quadro com o artigo 683 de inauguração do prédio emoldurado, o grande crucifixo, o piano, as bandeiras, a mobília antiga, o telefone de parede, um armário vitrine onde foram encontrados tinteiros, uma coleção de chaves, uma balança antiga, um globo pequeno, livros didáticos das primeiras décadas do século XX, cartilhas. A preservação, a organização e a disposição dos objetos expostos no salão nobre da Escola Estadual Melo Viana constituem-se em mecanismos de apropriação de um lugar de memória revelando valores do passado, que buscam a consagração no presente. O mapeamento dos objetos escolares expostos passou a ser foco de análise dos elementos decorativos, ainda hoje presentes no salão nobre. Estes objetosmemória, de certa forma, consagram a escola como instituição de referência. Eles são emblemáticos, contam histórias, constituem-se em marcos da memória, remetem à lembranças ao longo do tempo e ocupam um lugar não como adorno ou decoração, mas de preservação da memória da escola pública. Neste espaço ainda chama atenção o mobiliário escuro, o piano Zeitter & Winkelmann Gegr.Braunsclweig ano 1837, o relógio de parede em uma das saídas junto a um quadro de Mérito de cidadania cultural de 1995 e uma placa de bronze que anuncia a reforma realizada no governo de Juscelino Kubistchek e do prefeito João Bello de Oliveira Filho, gestão 19511955. O estudo antropológico realizado por Regina Abreu (1996), mostra que um conjunto de objetos expostos serve para preservar a memória institucional, mas acima de tudo tem a finalidade de evocar o imaginário a ele associado. Os pormenores da galeria de fotos aparecem nas imagens presentes nas fotos, mas também no que ficou silenciado. O registro fotográfico exposto nas paredes do salão nobre é um indício que pretende dar visibilidade às autoridades gestoras da educação, apontam seus feitos e apresenta-se como parte constituinte da identidade e da cultura escolar. A galeria de fotos desempenha o papel de guardador da memória. A mobília de jacarandá do início do século XX, hoje compondo a arrumação do salão nobre da Escola Estadual Melo Viana reflete o imaginário da tradição. O piano representa, certamente, o investimento na cultura. O canto era matéria obrigatória nos Programas do Ensino Primário na década de vinte. Previa-se a elaboração de um hinário, com hinos patrióticos escolhidos e aprovados pelo Conselho Superior do Estado. A música na escola nesse período tinha um caráter formativo, ela era considerada uma forte aliada na formação moral e cívica dos alunos das escolas públicas.Os 39 troféus, adquiridos em disputas de diferentes modalidades nas olimpíadas estudantis, mostram as vitórias, evidencia a qualidade, prioriza o lugar de destaque da escola pública que se consagra pelos seus feitos. O armário-vitrine serve para guardar algo precioso, sagrado. Ficam ali preservados livros antigos, um globo, uma coleção de chave. São objetos à vista que servem à finalidade de serem apreciados para despertar a curiosidade de quem os olha. O trabalho desenvolvido por Maria Teresa Santos Cunha (1999) com capas e títulos de livros, me fez compreender o sentido dos livros lidos no ínício do século XX e que, certamente, influenciou construção da imagem dos alunos leitores. A presença do símbolo religioso no salão - o enorme crucifixo - serve como forma de identificar o credo manifesto e as cerimônias religiosas aqui professadas. As práticas religiosas eram parte importante na vida escolar, pois as comemorações e celebrações religiosas interferiam no calendário escolar. A bandeira da escola e os seus estandartes representam uma dada organização que tem seus símbolos próprios, conservam ao longo do tempo insígnias que denotam sentimento de patriotismo e amor à escola. Os desfiles cívicos eram um meio de integração da escola com a cidade. O sino do Grupo Escolar Melo Viana introduz como regulador do cotidiano das aulas. As fotografias registram o momento vivido, contam das práticas pedagógicas, do currículo 684 que se desenvolvia a partir da organização, planejamento e ensaios das festividades, especialmente a dos festivais de danças folclóricas. Guardadas em álbuns, emolduradas ou exibidas nas paredes, as fotografias constituemse possivelmente, em uma tentativa de preservar a imagem da escola e a história desses tempos que não devem ser esquecidos. A importância da escola na cidade, construída ao longo da história, pode também ser constatada em documentos reunidos no acervo Histórico – Geográfico que contempla a história deste estabelecimento no livro de edição de centenário da cidade: Gazeta de Carangola Edição histórica 1892-1992, onde se pode encontrar dados sobre a atuação do Dr. Fernando de Melo Viana no período em que foi juiz de direito nesta cidade. Documentos oficiais e jornais de época são tomados como fontes históricas, além dos documentos escritos existentes no arquivo da escola: Sinopse Histórica, Regimento Escolar, Livros de Atas das Reuniões Pedagógicas, Livros de Matrículas e fotografias. Para entender o lugar que a escola assumia na cidade e no cenário educacional foi realizada entrevista com o professor de história Rogério Carelli, que em seus relatos deixou claro a expressividade que o grupo escolar foi assumindo na organização da educação em Carangola. Nas entrevistas de Djanira Vaz Neto Pereira, diretora da escola entre 1968 e 1987 e ex-aluna entre 1936 a 1939, fatos foram se destacando, à medida que eram apresentados cartões, telegramas e mensagens que faziam parte de seu arquivo-memória. As práticas pedagógicas analisadas à partir da escrita de alunos e professores, conferiram o lugar de destaque à escola no cenário educacional carangolense, assim, temos “ a memória enquanto conhecimento do passado que se organiza, ordena o tempo, localiza-o cronologicamente” (Casassanta,2000, p.38). Para compreender as práticas cotidianas recorri como fontes os cadernos escolares, provas, trabalhos e álbuns de pesquisa produzido por alunos, tendo acesso às múltiplas formas de expressão da cultura escolar. O escrito de uma época revela as condições sociais em que foi produzido, dá voz a quem escreve ou revela os canais que regem esta escrita em qualquer dos níveis, seja uma escrita profissional, escolar ou privada. Para tanto, observar o suporte em que apareceram os registros escritos de professoras, analisar a disposição desta escrita, as imagens a ela associadas, o processo de elaboração, a quem foi dirigida, em que contexto se deu a produção e transmissão; possibilitou interpretar o contexto das práticas escolares, revelando a importância atribuída aos conhecimentos disseminados, suas relações e as diferentes formas de apropriação que determinaram as bases de formação da criança. Foi encontrado no fundo do armário da biblioteca da escola, o caderno de festividades da professora Orita Pinheiro produzido na década de 50, constituiu-se como uma prática de preservação da memória da escola e propiciou uma articulação do escrito com as normas e regras que eram transmitidas nas festividades, nas cerimônias de formatura ocasiões em que a escola era exaltada pelos seus feitos, a história da inauguração era recuperada, seus diretores e o patrono eram homenageados. Nas representações a escola apareceu como espaço de realizações, de ordem, de desenvolvimento, a idéia de tradição era reforçada. Como diz Zabalza (1997) sobre os diários de professores e ressignificando-os para o caderno de programação de festas escolares, a atividade escrita arrasta consigo o fato da reflexão do professor e dá visibilidade às práticas pedagógicas extra-classe. Para conseguir este material tive que desenvolver uma rede de comunicação que foi se formando através de anúncio na rádio local, no Jornal da Cidade, em conversa com amigos e professores. Consegui mobilizar algumas pessoas que me cederam cadernos escolares, provas, trabalhos, relicários. Encontrados no fundo do armário da biblioteca estavam Cadernos de planejamento, registros de atividades extra-classe e álbum painel que permitiram percorrer as práticas pedagógicas na perspectiva vivida pelas protagonistas do cotidiano escolar. 685 Ao passar para a análise dos escritos de ex-alunos da Escola Estadual Melo Viana, foi sendo decifrado uma rede de conhecimentos, que se nos colocou de frente a uma versão dos fatos e de uma visão provisória e parcial dos acontecimentos, que consistiu em perceber a escrita como um instrumento de modificações na cultura escolar produzida. A escrita dos alunos possibilitou a compreensão dos sentidos impostos às práticas escolares, ao mesmo tempo que foi observada ações, mesmo que estanques, criadas para se oporem ou resistirem à essas imposições. A análise dos cadernos, álbuns e relicários foram tomados à luz dos estudos de Marilena Camargo (2000) que reconhece nesses pequenos objetos ordenados na escola, livros, revistas, fotografias, diários, jornais, cadernos, registros institucionais que se constituem lugares-memória de histórias pessoais e vão constituindo a história da instituição. Na concepção da autora, a interpretação da cultura escolar vai sendo construída apoiada nos fragmentos que se apresentam no espaço escolar ora sob a forma de objetos, artigos escritos na imprensa, ora pelos desfiles, festejos, momentos cívicos, celebrações. Nos cadernos, provas, álbuns de Pesquisa estavam presentes indícios que indicaram os padrões determinados de ensino, baseados na ordem e organização estrutural, embora se percebesse um movimento da escola em promover esse conhecimento em consonância com o bem estar do aluno. No material escrito produzido por alunos, suportes materiais de discursos múltiplos, configuram dispositivos de constituição de práticas escolares. Estava posto o desafio estabelecer um diálogo entre o material escolar representado por sua materialidade, os conteúdos e com as práticas ali estabelecidas no sentido de buscar pistas importantes relacionadas ao cotidiano escolar. Durante o tempo de reflexão sobre o material recolhido, questões brotaram: Como se comunicavam as culturas docente e discente através dos trabalhos escolares? Qual o significado dos conteúdos disciplinares inseridos na prática pedagógica? Como esta relação de produção híbrida afetava na construção de valores sociais e morais de alunos e professores? Até que ponto o material escolar recolhido fornece uma visão do ensino público que circulava na época? Que valores estavam sendo apreendidos partindo-se da análise destes suportes de escrita escolares? Os dezoito cadernos relativos ao período de 1976 a 1983 são testemunhos das práticas de ensino e dos modelos pedagógicos dos anos 70 e 80. Mostraram a o programa oficial e o vivido na escola. As marcas apareceram nas lições, exercícios, ditados, redações que configuraram o perfil do ensino mineiro da época, em particular desta escola. Os exercícios realizados em sala de aula mostraram um fazer didático e retrataram o ensino que se prepôs a reproduzir o que o programa oficial determinava, de maneira que os próprios enunciados encaminhavam para uma ordenação e organização da tarefa proposta. As reflexões de Silvina Gvirtz (1997), ao abordar o caderno enquanto dispositivo escolar, mostra que neles se constitui um campo significativo para observar os processos históricos e pedagógicos da vida cotidiana da escola que apontam para as relações de poder interpessoal e a produção de saberes. Estas marcas apareceram nos exercícios e lições, nos ditados, nas produções das redações, na escolha dos textos de leitura e interpretação, nos conteúdos das diferentes disciplinas que se articulavam e foram configurando o perfil do ensino mineiro da época, em particular, desta escola. Os cadernos serviam também como veículo informal entre os acontecimentos da sala de aula e o contato, quando necessário, com os pais ou responsáveis. Perrenoud (1995) argumenta que estes contatos têm grande importância na comunicação e interdependência entre pais e a escola, seja para informar sobre a evolução da criança, sua aprendizagem. A circulação do recado no caderno faz deste, um instrumento de poder. As provas mostraram os saberes impostos e como eram avaliados na forma de exercícios. Exibia o que era privilegiado na escolarização. As questões obedeciam aos modelos tecnicistas da década de 70. Os álbuns de pesquisa encontrados, retratavam 686 produções coletivas entre as décadas de 30 a 70. Esse material também se constituiu como fonte rica de leitura e escrita incentivadas pela escola e que trazem a reconstituição da história da inauguração da escola e como ela se projetou na cidade. A confecção dos álbuns de pesquisa e de poesias demandava um investimento coletivo. Em sala de aula, orientados pelas professoras, confeccionado pelo grupo de alunos, serviam para dar visibilidade ao conhecimento produzido. Alunos traziam figuras, a professora selecionava as poesias e assuntos que seriam reproduzidos. O Clube de Leitura, se configurou como sendo um dos mais representativos espaços da cultura escrita escolar, propiciando o estabelecimento de redes de sociabilidades em torno da leitura e da escrita. Esse material escrito, reunido nos álbuns de poesias, se constituía em uma fonte rica para se perceber como, por meio das leituras incentivadas pela escola, foi se construindo o universo social de uma dada geração. Os relicários3, escritos nas décadas de 70 e 80, por alunos e alunas da Escola Estadual Melo Viana, guardavam mensagens do “tempo do primário”, eram mensagens de dezenas de colegas à dona do livro. Os amigos deixaram ali registrados seus afetos usando a palavra como forma de demonstração. Passaram a ser um tributo à amizade. Apareceu nesses escritos a antecipação da saudade dos amigos, da escola, das relações estabelecidas. As representações foram se constituindo entre as relações pessoais, superdimensionando as amizades. Como nas cartas, os relicários apresentavam uma realidade social que se evidenciava nas diversas e criativas formas de tratamento confirmando que, “nessa leitura aparece uma prática de escrita, de afetividade, de amizade, de subjetividade” (Camargo,2000b,p.205) Os relicários, se apresentavam como o locus da amizade, onde as memórias eram compartilhadas e declaravam seus sentimentos em relação à dona do caderno.Estes se constituíam em espaço de registro de mensagens e serviam também como um esboço autobiográfico em potencial. Uma gama de sentimentos mostrados pela escrita mais livre, marcada pelo uso de canetas coloridas, hidrocores, Semelhante à agenda que registra acontecimentos e confissões, o relicário codificava através de pensamentos, versos, poesias, desenhos e ilustrações, relações de afeto entre colegas de escola. Foram encontradas escrita inclinada na folha e termos bem próprios como “beijim procê”, “smack”, além de figuras de corações, estrela, lua, monogramas. Essa escrita que circulava na escola, mostra um espaço de sociabilidade e descompromisso com o rigor da escrita. A história da escola também foi sendo revelada por meio dos documentos do arquivo memória da diretora Djanira Vaz Neto Pereira. As mensagens dedicadas às professoras distribuídas em reuniões pedagógicas ou comemorativas, iam ocupando um espaço como prática social, passaram a fazer parte das práticas relacionais, assumindo um caráter institucional que envolvia o afetivo e o profissional. Os dizeres encontrados nestas mensagens, as imagens a elas associadas, estavam carregadas de uma intenção de organizar o ensino, motivar as professoras, manter a ordem, desenvolver um trabalho que marcasse a diferença no cenário educacional. Assim, tais materiais não foram tomados apenas como fonte documental das práticas que lhes foram exteriores, pois, se articularam como dispositivos de controle e produção da cultura escolar. Pode-se perceber uma preocupação em consolidar a imagem da escola de tradição que mantém o ensino público de qualidade. Esse material escrito se constituiu em um dispositivo de manutenção da memória escolar. Nesta rede de trocas sociais se instalava uma gama de conhecimentos oficiais e do senso comum, em que a escrita assumiu papel fundamental ao estar explicitando os múltiplos saberes que apareceram em diferentes 3 No dicionário Aurélio, relicário aparece como lugar próprio para guardar as relíquias de um santo, osculatório; coisa preciosa de grande valor. Em Carangola o termo é utilizado para referir –se aos livros de trocas de mensagens entre amigos, encontra-se também outros usos para este material como caderno de intimidades e livro de recordaçõe 687 suportes, dando luminosidade aos contextos destas escrituras, mostrando assim, a importância da cultura escrita gerada pela própria escola. Professores e alunos deixaram marcadas a memória escrita que também consagrou esta instituição. Ao cruzar dados coletados através de depoimentos orais com informações dos documentos e material escolar reafirmei a importância de salientar questões que preservavam a memória da escola em sua trajetória construiu a imagem da escola que promove o ensino de qualidade e se consagrou na cidade pelos seus feitos, pelos administradores, mas, principalmente por seus alunos que desenvolveram um sentimento de pertencimento à esta instituição de ensino. 688 Referências Bibliográficas ABREU, Regina. A fabricação do imortal: memória, história e estratégias de consagração no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco,1996. CAMARGO, Marilena A. Jorge Guedes de. Coisas Velhas, Um percurso de investigação sobre cultura escolar (1928-1958). São Paulo: Ed. Unesp, 2000. FARIA FILHO, Luciano Mendes. Dos Pardieiros aos Palácios: Cultura Escolar e urbana em Belo Horizonte na primeira Republica. Passo Fundo: UPF, 2000. 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