Presidente da República Federativa do Brasil Luis Inácio Lula da Silva Ministro da Educação Tarso Genro Secretário Executivo Fernando Haddad Secretário de Educação Básica Francisco das Chagas Fernandes Diretora de Política da Educação Infantil e Ensino Fundamental Jeanete Beauchamp Coordenação Geral de Política de Formação de Professores (REDE) Lydia Bechara Coordenação Editorial Maria de Fatima Vilhena da Silva Universidade Federal do Pará Reitor Alex Bolonha Fiúza de Mello Editoração Eletrônica Odivaldo Teixeira Lopes Antônio Batista Belo de Carvalho Júnior Éder Ruffeil Cristino Vice-Reitora Marlene Rodrigues Medeiros de Freitas Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação João Guerreiro Arte final da Capa Luiz Augusto Seguin Dias e Silva Ruan Carlos Sasaki Brito Pró-Reitor de Extensão Regina Feio Coordenação do Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico Terezinha Valim Oliver Gonçalves Coordenação Geral do Programa EDUCIMAT Terezinha Valim Oliver Gonçalves Revisão Josiana Daniele Silva de Oliveira Contato: Endereço: Av. Augusto Correa, nº 01 – GuamáBelém- Pará. CEP: 66075-110 Fone: (91) 32017487/3201-7642/3201-8070 Site: www. ufpa.br/npadc E-mail: [email protected] Realização Universidade Federal do Pará Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico Rede Nacional de Formação Continuada de Professores de Educação Básica (MEC-SEB) Financiamento Parcerias Apoio O PROGRAMA EDUCIMAT: Formação, Tecnologias e Prestação de Serviços em Educação em Ciências e Matemáticas O Programa EDUCIMAT é coordenado e desenvolvido pelo NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLIMENTO CIENTÍFICO – NPADC –, da Universidade Federal do Pará, que integra a Rede Nacional de Formação Continuada de Professores de Educação Básica (MEC/SEB), na qualidade de Centro de Pesquisa e Desenvolvimento da Educação Matemática e Científica. O Programa visa à formação continuada de professores para a Educação Matemática e Científica, no âmbito da Educação Infantil e Ensino Fundamental. Como estratégia de trabalho, prevê a formação/fortalecimento de grupos de professores tutores dos Centros Pedagógicos de Apoio ao Desenvolvimento Científico – CPADCs – e municipais, por meio da constituição dos Grupos Pedagógicos de Apoio ao Desenvolvimento Científico – GPADCs – em nível de especialização lato sensu. Nessa perspectiva, colocam-se como princípios de formação, dentre outros: a reflexão sobre a própria prática, a formação da cidadania e a pesquisa no ensino, adotando-se como transversalidade a educação inclusiva, a educação ambiental e a educação indígena. O Programa está proposto para quatro anos, iniciando-se no Estado do Pará, com possibilidades de expansão para outros estados, especialmente das regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste. Parcerias poderão ser estabelecidas para otimizar o potencial da região no que diz respeito à institucionalização da formação continuada de professores no âmbito da Educação Infantil, Séries Iniciais, Ciências e Matemáticas. O Programa EDUCIMAT situa-se no Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico – NPADC/UFPA –, unidade acadêmica de integração na produção de conhecimentos e em ações de educação continuada de professores de Ciências e Matemáticas, desde o nível da educação infantil e séries iniciais até a pós-graduação lato e stricto sensu. Conta com a parceria da Secretaria Executiva de Estado de Educação, por meio do Convênio 024/98 e de Instituições de Ensino Superior integrantes do Protocolo e Universidades da Amazônia: Universidade da Amazônia – UNAMA; Centro de Estudos Superiores do Estado do Pará – CESUPA e a Universidade do Estado do Pará – UEPA. Objetivos do Programa EDUCIMAT Cursos de Especialização a Distância para Formação de Tutores e Cursos de Formação Continuada de • • • • • Contribuir para a melhoria do ensino e da aprendizagem de Ciências e de Matemática no Estado do Pará e em outras regiões do país; Formar professores especialistas na área de Ensino de Ciências e Matemáticas, para constituir Grupos Pedagógicos Municipais na área de Educação Matemática e Científica; Contribuir para a formação de professores de Ciências e Matemáticas da Educação Infantil e Fundamental nos Estados e Municípios, por meio da Educação a Distância; Fortalecer os municípios, instituindo os GPADCs como organismos municipais capazes de assegurar a tutoria da formação continuada de professores em cada município; Buscar a parceria dos governos municipais, estaduais e de outras instituições, garantindo a produção e reprodução de materiais didáticos específicos. Linhas de Ação do EDUCIMAT 1. 2. Desenvolvimento de programas e cursos de formação continuada, em rede, e de professores da Educação Infantil e Fundamental, de natureza semi-presencial e a distância nos municípios, incluindo elaboração de materiais didáticos, tais como módulos, livros, softwares e vídeos; Realização de programa de formação de tutores, em nível de pós-graduação lato sensu, para o desenvolvimento de programas e cursos de formação continuada de professores e lideranças acadêmicas locais; 3. Desenvolvimento de tecnologias educacionais (software, kits, cd-rom) para o ensino infantil e fundamental, no âmbito dos municípios e unidades educacionais públicas; 4. Associação a outras instituições de ensino superior e outras organizações para a oferta de programas de formação continuada, formação de grupos de estudos e pesquisas e implantação de redes e novas tecnologias educacionais. Estratégias para o desenvolvimento do Programa • Formação de Pólos para o desenvolvimento do Programa EDUCIMAT, por meio de momentos presenciais e a distância; • Realização de Seminários e Encontros com a participação da equipe coordenadora do programa, professores, prefeituras e associações para firmar compromissos e acordos com o Programa; • Participação de estudantes, tutores e professores na produção de materiais didáticos e/ou produção intelectual; • Tutorias presenciais e a distância para formação de professores nas áreas de educação infantil, séries iniciais, ciências e matemática. Professores • Educação Matemática e Científica – ênfase em Educação Infantil; • Educação Matemática e Científica – ênfase em Séries Iniciais; • Educação em Ciências – ênfase em Ensino Fundamental; • Educação Matemática Fundamental. – ênfase em Ensino Metas do Programa EDUCIMAT • Formar, em 4 anos, 1920 (um mil, novecentos e vinte) tutores; • Formar, com tutoria local, cerca de 20.500 (vinte mil e quinhentos) professores para educação infantil, séries iniciais, ciências e matemática; • Produzir kits de material instrucional para o ensino de Ciências e de Matemática; • Produzir 88 (oitenta e oito) produtos, nas quatro linhas de ação, em quatro anos; • Reproduzir, por meio de acordos com prefeituras e outras instituições, produtos de ensino e de formação, para uso da rede pública de ensino. Coordenação Geral do Programa EDUCIMAT Profª Dra. Terezinha Valim Oliver Gonçalves Vice-Coordenação Ariadne Peres do Espírito Santo – UFPA Secretária Lourdes Maria Trindade Gomes Coordenação de Áreas: Ciências Maria Lúcia Harada – UFPA Educação Indígena Jane Felipe Beltrão – UFPA Matemática Tadeu Oliver Gonçalves – UFPA Educação Infantil Tânia Regina Lobato dos Santos – UEPA Educação Inclusiva Maria Joaquina Nogueira da Silva – CESUPA Séries Iniciais Neivaldo Oliveira Silva – SEDUC Educação Ambiental Ariadne Peres do Espírito Santo – UFPA UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO CENTRO DE PESQUISA E DESENVOLVIMENTO DA EDUCAÇÃO MATEMÁTICA E CIENTÍFICA EDUCIMAT: Formação, Tecnologia e Prestação de Serviços em Educação em Ciências e Matemáticas Curso de Especialização a Distância em Educação em Ciências – ênfase na formação de tutores para a formação continuada de professores do Ensino Fundamental. Volume 13 Metodologia do Ensino de Ciências: concepções e práticas Elinete Oliveira Raposo Ribeiro Jesus de Nazaré Cardoso Brabo Educimat 9 Editora da UFPA Belém – Pará - 2005 Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Biblioteca Setorial do NPADC, UFPA Ribeiro, Elinete Oliveira Raposo R484m Metodologia do ensino de ciências: concepções e práticas / Elinete oliveira Raposo Ribeiro, Jesus de Nazaré Cardoso Brabo. – Belém: EdUFPA, 2005 (Obras completas EDUCIMAT; v.13) ISBN 85-247-0292-3 ISBN 85-247-0299-0 1. CIÊNCIAS- Estudo e ensino- Metodologia. I.Brabo, Jesus de Nazaré Cardoso. II. Universidade Federal do Pará. Núcleo Pedagógico de Apoio ao Desenvolvimento Científico. III. Título.IV.Série. CDD 19.ed.: 507 OS AUTORES Elinete Oliveira Raposo Ribeiro Licenciada em Física (UFPA/1998) Especialista em Educação e Problemas Regionais (UFPA/1999) Mestre em Educação em Ciências e Matemáticas (UFPA/2004) Professora da Secretaria Executiva de Educação (SEDUC/PA) Professora-orientadora de Pesquisa (NPADC/UFPA) Professora colaboradora do Curso de Ciências Naturais (UEPA) e-mail: [email protected] Jesus Cardoso Brabo Licenciado em Química (UFPA/1997) Doutorando do Programa Internacional de Enseñanza de las Ciencias - Universidad de Burgos (Espanha)/Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Brasil) Professor da Secretaria Executiva de Educação (SEDUC/PA) Professor-orientador de Pesquisa (NPADC/UFPA) e-mail: [email protected] SUMÁRIO OS AUTORES APRESENTAÇÃO CONCEPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS E PSICOLÓGICAS SOBRE A CIÊNCIA E ENSINO DE CIÊNCIA. .............................................................................................................................................................. 7 1. CIÊNCIA E ENSINO DE CIÊNCIAS ............................................................................................................ 7 2. TEORIAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM ............................................................................................ 27 REFERÊNCIA ...................................................................................................................................................... 52 ABORDAGENS E ESTRATÉGIAS ALTERNATIVAS PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DE CIÊNCIAS ........................................................................................................................................................... 53 1. MAPAS CONCEITUAIS COMO FERRAMENTAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE CIÊNCIAS ............................... 54 2. USANDO A HISTÓRIA DA CIÊNCIA PARA FACILITAR A COMPREENSÃO DE CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS ....... 61 3. EXPERIMENTAÇÃO NO ENSINO DE CIÊNCIAS .................................................................................................. 69 4. PESQUISA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA: PARA ALÉM DA REDESCOBERTA .......................................................... 75 5. ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DE CIÊNCIAS ............................................................................. 82 Práticas interdisciplinares na ciência e na escola ...................................................................................... 83 6. AVALIAÇÃO NO ENSINO DE CIÊNCIAS: ENTRE A CLASSIFICAÇÃO EXCLUDENTE E A FORMAÇÃO CIDADÃ........ 86 7. MÃOS À OBRA ............................................................................................................................................... 92 REFERÊNCIA ................................................................................................................................................. 93 REFERÊNCIAS.................................................................................................................................................. 95 Apresentação Caro Professor, É com muito prazer que iremos compartilhar com você o módulo sobre Metodologia do Ensino de Ciências, a qual é parte do curso de formação de tutores do Programa EDUCIMAT Formação, Tecnologias e Prestação de Serviços em Educação em Ciências e Matemáticas. Metodologia é o estudo dos métodos, em nosso caso específico, métodos de ensinoaprendizagem de ciências. Com esta finalidade, este módulo, dividido em duas unidades interdependentes, tem o intuito de explicitar os fundamentos dos principais métodos de ensinoaprendizagem, primeiramente apresentando os mais importantes pontos de vista histórico-filosóficos e psicológicos que influenciaram na formulação de métodos e técnicas de Ensino de Ciências. Nossa maneira de conceber a educação escolar (ensino), a Ciência e a sociedade estão diretamente relacionadas com pelo menos uma destas concepções. Após serem discutidos os aspectos de natureza teórica sobre a ciência e ensino-aprendizagem de ciência, são apresentadas algumas orientações sobre alternativas de ensino que podem ser utilizadas em sala de aula. Procuramos explorar abordagens e estratégias que consideramos inovadoras e essenciais para atividades educativas que realmente oportunizem a aprendizagem significativa de conhecimentos, habilidades e atitudes científicas: tratamento interdisciplinar do conhecimento, uso de elementos da história da ciência, experimentação, pesquisas de iniciação científica e mapas conceituais. Finalmente são discutidos aspectos sobre o processo de avaliação da aprendizagem e as implicações psicológicas, sociais e éticas de dois modelos de avaliação concorrentes. Ao longo do módulo são apresentadas questões: Para refletir e escrever, que devem ser respondidas de acordo com a sua compreensão do assunto, levando em consideração as recomendações apresentadas e servirão de referência para o prosseguimento da leitura. Atividades avaliativas, cujas respostas deverão ser remetidas (por e-mail ou correio) ao seu tutor do curso de especialização. Ao final de cada unidade apresentaremos uma bibliografia de apoio que poderá auxiliá-lo no desenvolvimento das atividades apresentadas no módulo para aprofundar seus conhecimentos sobre o assunto. A avaliação do desempenho será feita de forma qualitativa e processual, considerando o compromisso, pontualidade de envio e qualidade na execução das atividades propostas. Para o seu melhor desempenho no módulo, é recomendável que você estabeleça um plano de estudo, compreendendo pelo menos duas horas diárias, incluindo anotações, indagações e reflexões que poderão ser compartilhadas com os seus pares e o seu professor-tutor no decorrer do módulo. Nossa expectativa é que este material sirva de subsídio para reflexão sobre suas concepções e práticas, facilitando o caminho em busca de aperfeiçoamento de sua ação docente. Os autores METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS UNIDADE 1 CONCEPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS E PSICOLÓGICAS SOBRE A CIÊNCIA E ENSINO DE CIÊNCIA. 1. CIÊNCIA E ENSINO DE CIÊNCIAS Surgimento, evolução e problemáticas da Ciência Na sociedade, o termo Ciência é discutido pela maioria das pessoas, mas são várias as concepções que orientam a opinião das pessoas sobre o significado desta palavra. E é este assunto “Ciência” que vamos tratar a partir de agora! Afinal, o que é Ciência? É uma certeza. É uma mentira É coisa de doido! É uma verdade. É uma invenção! UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 7 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS ...para refletir e escrever E você!? Você já se perguntou o que é Ciência? Então pense um pouco e nos diga a sua opinião. Agora que você já deu sua opinião sobre o que é ciência, vamos conversar um pouco sobre o significado desta palavra. O termo Ciência é derivado do latim scire, significando conhecer, e é definido no dicionário de Língua Portuguesa como “conjunto de conhecimentos fundados sobre princípios determinados; como saber; ou ainda, como conhecimento de qualquer assunto” (Amora, 1998). Origens da Ciência Analisando a História, verificamos que a primeira fonte de estudo da Ciência foi a natureza. Através de análises de escritos do início da História da Ciência podemos considerar que o medo e o assombro foram a mola propulsora devido principalmente o homem primitivo estar em grande parte à mercê da natureza. Pretendia-se atingir através dessa investigação a paz de espírito, assim como por meio de uma explicação para os desastres da natureza. Assim, o homem buscava descobrir as causas dos terremotos, inundações, incêndios e doenças. 8 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Na China, os filósofos naturais taoístas, os filósofos budistas na Índia, na Europa antiga os estóicos, os epicuristas e os adeptos do atomista Demócrito e Tales, todos tiveram esse motivador para praticarem ciência. Epicuro escreveu: Se não fossemos perturbados por apreensões acerca de fenômenos no céu e a respeito da morte, se nada disso não nos afetasse de um modo ou de outro, e também se não fossemos perturbados por nosso fracasso em perceber os limites das dores e dos desejos, não teríamos necessidade alguma de estudar a natureza. (Epicuro, s/d, apud Kneller,1980, p.12). Durante alguns anos permaneceram essas questões para desafiar a curiosidade humana, contudo ao longo do tempo o medo é substituído pelo reconhecimento de que a natureza é “ordenada” e que o mundo é a casa do homem e o assombro transformou-se no fio condutor para que as grandes realizações científicas fossem concretizadas. Ao se afirmar que a natureza é “ordenada”, inicia-se a busca para se decifrar essa ordem. Para o cientista, essa ordem está relacionada a uma comunicação de fatos que ocorrem não de maneira isolada, mas mantendo uma dependência uns com os outros. Olhando através da História verificamos que a Ciência se constrói através de numerosas produções que se deram ao longo do tempo e civilizações diferentes e isso ocorreu devido principalmente à curiosidade sistemática de alguns homens acerca do mundo natural, buscando as causas das mudanças dos fenômenos não no sobrenatural, mas na própria natureza. Partindo do local em que habitavam, as civilizações se desenvolveram moldando-se as questões de relevo, clima e vegetação. Por isso é que, por exemplo, temos algumas civilizações que desenvolveram principalmente a agricultura, enquanto outras desenvolveram a pecuária. A escrita dos chineses surgiu no século XIV a.C. e nessa época já se encontram evidências de que este povo detinha alguns conhecimentos bem avançados, o que pode ser comprovado através dos registros da escrita e da manipulação de metais que mais tarde avançam para técnicas metalúrgicas, sendo a produção do arado de ferro um marco no desenvolvimento da agricultura. Temos nessa época, na China, o que poderíamos chamar de o surgimento do que mais tarde seria a “escola”, criada por sábios e eruditos. Os Chineses apresentavam uma matemática bastante avançada, possuíam instrumentos para realizar cálculos; a sociedade chinesa contava nessa época com astrônomos, relojoeiros e UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 9 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS inventores. A “ciência” dessa época já apresentava uma relação do modo de produção, que neste caso era agrícola, ao modo de vida da sociedade chinesa. Dos chineses podemos destacar também como bastante relevante sua explicação a partir do dualismo yang e ying, sendo o primeiro luminoso, quente, seco, masculino e par; e o segundo escuro, frio, úmido, feminino e ímpar. Deve-se ressaltar a colocação da mulher ao lado do escuro, o que reflete a posição da mulher também na produção de ciência como não produtora de conhecimento. Esse dualismo chinês se reflete também na ciência até os dias de hoje. Outra civilização importante na produção de conhecimento foi a hindu. Deste povo podemos destacar a formulação de uma teoria atômica baseada na descontinuidade da matéria que talvez tenha influenciado os gregos e o desenvolvimento de uma aritmética. Nessa época, contudo, não havia transmissão de conhecimento científico de uma civilização para outra. O que se verifica é que cada civilização fazia seu estudo da natureza de maneira isolada; como exemplo se tem o estudo dos filósofos gregos e dos filósofos chineses explicando o mundo físico de maneiras diferentes. Os gregos propuseram a teoria dos quatro elementos terra, ar, fogo e água e os chineses usaram a teoria das forças naturais opostas yang e yin e a teoria das cinco fases pelas quais todas as coisas passam em ciclos. Não podemos até agora, diante do que foi exposto, classificar as realizações dessas civilizações como Ciência porque não se tem até o momento subsídios para afirmar que se conseguiu descobrir a ordem da natureza, ou pelo menos alguns fatos que determinem esta. Verificamos que a civilização ocidental (européia) começa a desvendar com bastante propriedade o que a natureza representa, assim como a que mais controvérsias provoca na Ciência devido às produções que se desencadearam ao longo da apropriação do conhecimento científico pela mesma. Para se chegar à civilização ocidental, é necessário fazer referência aos gregos que influenciaram de forma ímpar esta civilização. Os gregos tiveram contribuição decisiva em todos os ramos de conhecimento da civilização ocidental, porém vamos nos deter somente no que diz respeito à ciência sem perder de vista que a mesma não acontece de forma isolada, mas sim, dentro do contexto social global de qualquer civilização. Novamente temos os fatores da natureza influenciando, pois os gregos, diferente dos outros povos, instalaram-se numa região montanhosa, árida, rochosa e fora das margens de 10 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS um rio. A Grécia possuía uma região continental, penisular e insular; devido a essa característica os gregos desenvolveram um sistema de navegação e um comércio marítimo. Sua marinha mercante ainda é uma das melhores do mundo até nossos dias. Os gregos apresentavam uma grande curiosidade intelectual, o que facilitou a absorção de técnicas e conhecimentos mais complexos de outras culturas; suas cidades apresentavam um pequeno tamanho, o que facilitava a participação de todos, a ausência de uma organização religiosaadministrativa que impusesse normas rígidas de comportamento e conduta e sua tendência à reflexão, à argumentação e à dialética. Todos esses fatores facilitaram o surgimento e simultaneamente o desenvolvimento da Ciência e cultura grega. Assim surgiram as bases para um pensamento racional, que se entende como filosofia que surgiu em decorrência dos diversos encontros e assimilação de cultura, economia, história e convívio social de várias civilizações. Para se tecer um panorama da construção da ciência pelos gregos, temos de analisar seis séculos antes da era cristã, porque é nesse período que vamos encontrar o que de mais significativo ocorreu para o desenvolvimento da ciência. Deve-se destacar que tal contribuição dos gregos também se estende no período romano. Não há como se falar somente na ciência, pois temos simultaneamente nesse período o desenvolvimento da Filosofia. Para se conhecer a ciência dos gregos, vamos organizar alguns passos que marcaram a filosofia que se produziu para explicar o mundo visível nesses seis séculos. No século VI a.C. destacamos o surgimento de grupos que os gregos chamaram de escolas, sendo que três delas que tiveram grande representação na época foram as escolas de Pitágoras, de Eléia e Jônia. Já no século V a.C. temos o surgimento dos atomistas com grande influência. Podemos caracterizar nessa época um período que antecede o período clássico, tendo destaque as contribuições de Anaxágoras e Empédocles, os sofistas Hipócrates de Quios e Hipócrates de Cós e como marco decisivo o surgimento daquele que seria o marco divisor do pensamento filosófico, que foi Sócrates e a escola socrática. Já no século IV a.C., dois filósofos se destacam: Platão e Aristóteles. Platão foi discípulo de Sócrates e procurou documentar e resgatar a obra de seu mestre. Sua contribuição para a Ciência é de caráter marcante, pois já naquela época ele cria UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 11 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS uma concepção de ciência e uma hierarquia, pois a coloca em primeiro plano dentre as atividades intelectuais e sua física e biologia tinha um caráter antropomórfico e ético. Com relação e experimentação Platão a concebe como uma coisa que não tinha sentido porque, sendo a ciência uma atividade intelectual a experimentação era concebida como uma coisa ruim ou como uma atividade mecânica. Falar de Aristóteles torna-se redundante, pois, sua contribuição para filosofia e para a ciência tornou-se conhecida e difundida em todo mundo. Aristóteles reuniu de maneira harmônica e sistemática os conhecimentos produzidos, sendo considerado o primeiro grande enciclopedista. Este panorama traçado até então do surgimento da filosofia e da ciência retrata de forma condensada no que diz respeito à Ciência não as realizações especificas dos nomes mencionados, mas procura retratar o marco inicial do pensamento da Ciência e também devese ter em consideração que os nomes não são algo isolado, mas, sim representam o pensamento de várias pessoas que partilhavam das mesmas idéias. Outra observação pertinente se faz em relação à classificação do conhecimento feito nessa época doxa “opinião”, episteme “ciência” e a techné “arte ou habilidade” que marca a classificação de senso comum, conhecimento cientifico e experimentação nas produções sobre ciências. Com o objetivo de situar o marco inicial da história da ciência achamos que até Aristóteles fica em nosso entendimento demarcado, pois, entendendo que os acontecimentos que se sucederam após, este inicio foram desdobramentos deste inicio até Descartes e Bacon que vão provocar uma nova direção para o pensamento cientifico, com o desenvolvimento da Ciência moderna, como veremos mais adiante. A Ciência pode ser compreendida como uma das construções humanas de grande impacto à humanidade, que no decorrer da história, vem sendo motivo de opiniões divergentes. Assim, a Ciência é defendida por alguns, chegando a ser idolatrada, por provocar soluções racionais de problemas e avanços dos conhecimentos sobre a natureza, e negada por outros, devido o seu ataque aos pensamentos tradicionais e místicos. Diante deste exposto não é difícil imaginar porque a ciência dá origem a pontos de vista tão conflitantes, pois como construção humana, a ciência apresenta intenções, opiniões, contradições que são inerentes aos seus construtores (cientistas). 12 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS A maneira como a Ciência vem se desenvolvendo ao longo dos tempos é discutida, analisada, criticada, defendida, pelos chamados filósofos da ciência, que vêm ao longo dos anos dedicando escritos nessa direção. A Ciência por ser uma construção humana, influencia e é influenciada pela sociedade, por isso, a discussão sobre o tema se faz relevante em qualquer momento histórico de nossa caminhada na construção dos conhecimentos científicos. Com a ascensão da Ciência Moderna, guiada principalmente por cientistas e filósofos como Galileu e Newton, Bacon e Descartes, a partir da revolução industrial, ao conceito de ciência acrescentou-se o critério metodológico e maior capacidade preditiva, valorizando conhecimentos racionais que eram considerados isentos de influencias místicas ou religiosas. Uma forma interessante de definir Ciência é apresentada por Kneller como: Dito de maneira simples, Ciência é conhecimento da natureza e exploração desse conhecimento. Entretanto, essa exploração envolve muitas coisas. Envolve, por exemplo, uma história, um método de investigação e uma comunidade de investigadores. Hoje, em especial, a Ciência é uma força cultural de esmagadora importância e uma fonte de informação indispensável á tecnologia. (KNELLER, 1980, p.11) Contudo, Morin que é um filósofo da atualidade comenta que: A questão “o que é a ciência?” é a única que ainda não tem nenhuma resposta científica. É por isso que, mais do que nunca, se impõe a necessidade do auto-conhecimento do conhecimento cientifico, que deve fazer parte de toda política da ciência, como da disciplina mental de todo cientista. O pensamento de Adorno e de Habermas recorda-nos incessantemente que a enorme massa do saber quantificável e tecnicamente utilizável não passa de veneno se for privado da força libertadora da reflexão.(MORIN, 2001, p.21) Não é possível questionar o valor do conhecimento científico para a humanidade. Mas é salutar procurar não “endeusar” a ciência como a fonte de soluções para todos os problemas. Como manipuladores e disseminadores de conhecimentos científicos cabe a nós professores saber das vantagens e limitações desses conhecimentos. No próximo tópico serão apresentados pontos de vista epistemológicos, ou seja, sobre a natureza, objetivos e modos de produção e evolução de conhecimentos científicos, a fim de refletir sobre nossos próprios pontos de vista sobre ciência, uma vez que estudos recentes (ver autores) demonstram que UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 13 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS assunção, consciente ou não, de pontos de vista epistemológicos influencia fortemente no modo de ensinar e aprender ciências. Agora que você já teve a oportunidade de refletir sobre suas concepções sobre ciência e obteve algumas informações sobre o tema e a opinião de vários autores, é importante que você reflita sobre essas diversas opiniões, inclusive a sua, para ampliar seu conhecimento. Bases epistemológicas da ciência moderna ...para refletir e escrever Você já percebeu que a concepção que você tem sobre Ciência orienta as suas decisões do dia-a-dia e a sua prática como professor de Ciências? Então pense um pouco e responda. Quando um médico lhe receita um remédio você pergunta sobre os efeitos deste remédio ou qual o seu principio ativo? Por quê? 14 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Esta sua forma de agir pode estar relacionada com o significado que você atribui a Ciência. Da mesma forma, a ciência moderna influenciou e ainda tem grande influencia sobre o Ensino de Ciências. Na prática escolar existem diferentes concepções de homem e de sociedade, o que implica em diferentes pressupostos relacionados ao papel da escola: relacionamento professor-aluno, tendências pedagógicas, metodologias de ensino, processos de avaliação escolar... Enfim, existe uma diversidade de pressupostos teórico-metodológicos que o professor, consciente ou inconscientemente, utiliza em sua prática docente. Recentes pesquisas na área de ensino de ciências têm levantado críticas em relação ao paradoxo existente entre o que os professores ensinam e o que efetivamente os alunos aprendem. Critica-se também a ausência de discussões de caráter epistemológico, ou seja, da natureza, métodos e pontos de vistas filosóficos que e o predomínio de posturas pedagógicas tradicionais, onde o trabalho docente consiste em transmitir conhecimento e a tarefa dos discentes em assimilar esses conhecimentos (Oliveira, 2000:17). Procuramos fazer um resgate de algumas das principais correntes filosóficas que permitiram o surgimento da Ciência Moderna e influenciaram direta ou indiretamente no Ensino de Ciências. Destacamos então o racionalismo cartesiano, o empirismo baconiano e o positivismo comtiano. Posteriormente, faremos referência ao pensamento Thomas Khun, cujas obras muito têm servido de referência para o desenvolvimento de pesquisas na área de Ensino de Ciências. René Descartes (1596-1650) UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 15 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS E, notando que esta verdade: eu penso, logo existo, era tão firme e tão certa que todas as mais extravagantes suposições dos céticos não seriam capazes de a abalar, julguei que podia aceita-la, sem escrúpulo, como o primeiro princípio da Filosofia que procurava. Descartes Quando se fala em racionalismo é imprescindível que se fale de René Descartes, filósofo francês que nasceu no momento em que as estruturas ideológicas da Idade Média estavam abaladas por grandes incertezas políticas e religiosas, e a humanidade buscava gerar novos conhecimentos a cerca do mundo. Seu pensamento teve grande importância na ruptura em relação ao pensamento antigo e medieval do século XVII, dedicou-se aos estudos da Física e Matemática, onde desenvolveu pesquisas muito importantes em áreas como: geometria, óptica e anatomia. Ele vivia em busca das verdades e acreditava que só seria possível encontra-la através da superação da razão. Ele se baseava em uma razão de natureza matemática e propôs recursos metodológicos para a utilização da razão. O sistema cartesiano, para se chegar às primeiras verdades, é baseado na dúvida de tudo, até chegar a conclusão que é um ser pensante, que Deus existe e na existência de seu próprio corpo provido de sensações. Assim, para Descartes, a primeira verdade indubitável e da qual derivam outras, é a da existência do pensamento humano. Daí decorre um segundo princípio, o da existência de Deus, obtido a partir da análise de que o homem, ser imperfeito, consegue ter a idéia da perfeição. Em sua obra mais influente, Discurso do Método, Descartes anuncia os quatro preceitos metodológicos que afirma serem úteis para guiar seu próprio pensamento,sendo eles: 16 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS • O primeiro era o de jamais acolher alguma coisa como verdadeira que eu não conhecesse evidentemente como tal; isto é, de evitar cuidadosamente a precipitação e a prevenção, e de nada incluir em meus juízos que não se apresentasse tão clara e tão distintamente em meu espírito, que eu não tivesse nenhuma ocasião de pô-la em dúvida. • O segundo, o de dividir cada uma das dificuldades que eu examinasse em tantas parcelas quantas possíveis e quantas necessárias fossem para melhor resolvê-las. • O terceiro, o de conduzir por ordem meus pensamentos, começando pelos objetos mais simples e mais fáceis de conhecer, para subir pouco a pouco, como por degraus, até o conhecimento dos mais compostos, e supondo mesmo uma ordem entre os que não se precedem naturalmente uns aos outros. E o último, o de fazer em toda parte enumerações tão completas e revisões tão gerais, que eu tivesse a certeza de nada omitir. Talvez você ainda não tenha percebido, mais a filosofia Cartesiana influenciou e tem influenciado de maneira muito marcante o Ensino de Ciência. ...para refletir e escrever Você já percebeu alguma influência do pensamento de Descartes ao ensino de ciência? Caso você ainda não tenha percebido releia os preceitos descritos por Descartes que estão apresentados no módulo ou pesquise nos livros sugeridos na bibliografia de apoio. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 17 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS A filosofia cartesiana tendo como base a mecânica, busca interpretar o funcionamento do corpo humano a partir de comparações com o funcionamento de máquinas como relógios e moinhos. Tais analogias são encontradas em livros didáticos de Ciências. Os preceitos metodológicos descritos por Descartes foram tão bem estruturados que ainda hoje percebemos claramente sua utilização em nossos sistemas de ensino, em exemplos como o regime seriado, analogias mecanicistas do corpo humano e do universo, entre outros. Francis Bacon (1561-1626) Ciência e poder do homem coincidem, uma vez que, sendo a causa ignorada, frustra-se o efeito. Pois a natureza não se vence, se não quando lhe obedece. E o que à contemplação apresenta-se como causa é regra prática. Francis Bacon Francis Bacon, filósofo inglês, conhecido como pai do empirismo, viveu sobre a influência de um período em que a Inglaterra passava por grandes transformações econômica, política e religiosa, destacando-se a mudança do catolicismo para o protestantismo, o início do processo de industrialização e grandes invenções como a pólvora e a imprensa. Autor da famosa frase “Saber é Poder”, defendeu a aplicação da ciência na indústria para que seja alcançado o progresso. Ocupou cargos de confiança no reinado de Elisabeth I, defensor da monarquia absolutista, teve grande atividade política. 18 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Bacon julgava ser imprescindível o domínio do homem sobre a natureza, partindo do conhecimento de suas leis. Acreditava que a verdadeira finalidade da ciência era contribuir para a melhoria das condições de vida do homem. Em sua obra mais influente, Novum Organum, publicada em 1620, adverte para falsas noções de conhecimento, que segundo ele, impede o sábio de produzir conhecimento que sirva verdadeiramente ao homem, a esses erros ou ilusões cognitivas, Bacon da o nome de ídolos, a qual devemos nos libertar para que possamos produzir um correto conhecimento da natureza. Para Bacon, existem quatro tipos de ídolos sendo eles: • Ídolos da tribo – são falhas inerentes à natureza humana que têm raízes na coletividade dos Homens. Bacon diz que o espírito humano possui certos preconceitos ou convicções intimas as quais não são frutos da individualidade, mas heranças transmitidas a cada geração. As superstições e o misticismo são exemplos destes ídolos que segundo Bacon está presente nas atividades de alquimistas e magos. • Ídolos da caverna – são falhas próprias do indivíduo e se acham enraizadas na subjetividade de cada um, tratando-se de diferenças individuas de formação de cada um. Esses ídolos são formados pela educação recebida, pela convivência familiar e com outras pessoas. Assim, a inveja, o orgulho, a impaciência, a mesquinhez, a avareza e tantos outros erros dão origem a uma caverna que aprisiona a luz da ciência, impedindo a construção de conhecimento. • Ídolos do foro - são falhas provenientes da convivência social que se manifestam através da oratória e do discurso. Bacon considera que as palavras quando mal utilizadas bloqueiam o pensamento, corrompendo a clareza das definições e das explicações dos fenômenos. • Ídolos do teatro – Estes ídolos não são internos aos sujeitos, mas absorvido pelo intelecto humano por meio de distorções do pensamento proveniente da aceitação de falsas teorias ou de falsos sistemas filosóficos que se apóiam mais em especulações do que em coleta de dados de quantidade e qualidade desejáveis. Para se libertar destes ídolos seria necessário abandonar todos os tipos de experimentos que não apresentam sistematização adequada. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 19 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Bacon propôs o método indutivo para a investigação da natureza, este método consiste em observar a regularidade de um fenômeno e generalizá-lo, visando à determinação das causas e leis gerais que regem os fenômenos naturais, a partir da observação neutra e através da organização e sistematização do conhecimento.Portanto, o caminho certo para o avanço das ciências estaria na realização de grande número de experiências ordenadas, das quais seriam retirados os axiomas e, a partir destes, propor-se-iam novos experimentos. Ainda hoje podemos perceber os pressupostos baconianos na prática de muitos professores, principalmente aqueles que supervalorizam a experimentação, compreendendo que ela é necessária para comprovar a teoria. Além disso, o método indutivo dispensa a formulação de hipóteses prévias acerca do objeto estudado, acreditando que seja possível realizar uma observação neutra. Mais é possível realizar observações sem contar com alguma teorização prévia? Auguste Comte (1798-1856) Amor por princípio e a Ordem por base; o Progresso por fim. Comte Auguste Comte nasceu na França em momento pós-revolucionário quando a burguesia toma conta do poder, o desenvolvimento industrial estava em sua grande fase e havia um grande florescimento das ciências experimentais. Todo contexto histórico, vivido nesta época, influenciou diretamente na formação das idéias de Comte. Na primeira metade do século XIX, a luta pela tomada do poder por parte dos trabalhadores, e pela manutenção do poder por parte da burguesia, desencadeou um conjunto de ideologias e sistemas que tinham por objetivo dar sustentação aos diferentes segmentos sociais de luta pelo poder. Comte toma partido pela parcela mais conservadora da burguesia, 20 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS que defendia o regime ditatorial e não parlamentarista e que buscava criar condições para se fortalecer no poder. A proposta filosófica de Comte e de reforma das ciências tem por objetivo sustentar essa ideologia. Comte acreditava que a humanidade se encontrava em uma fase de profunda desorganização social, e que a nova ordem social só poderia ser estabelecida através de uma grande mudança na maneira de pensar. Esta nova forma de pensar ficou conhecida por Positivismo. Para Comte, a evolução do pensamento se dá na passagem do uso da imaginação para o uso do raciocínio, o qual, gradativamente, torna-se menos confuso e mais científico. A aplicação dos métodos de pesquisas típicos das ciências naturais aos estudos da evolução das sociedades humanas levou a Comte a induzir a lei dos três estados. Nesta lei, ele pressupõe para a humanidade uma revolução contínua e irreversível, segundo a qual a forma de pensar e explicar as coisas do mundo evolui ao longo de três estados, sendo o primeiro estado o menos importante e o terceiro o mais importante: • Estado Teológico – as explicações relativas a ocorrência de fenômenos naturais eram atribuídos à ação divina. Este estado é sucedido pelo Estado Metafísico • Estado Metafísico – Neste estado o Homem ainda está preocupado em explicar os fenômenos da natureza, porém sem mais recorrer ao divino, e sim as abstrações. Um exemplo deste pensamento está na lei dos lugares naturais de Aristóteles, que dizia que cada corpo procurava o seu respectivo lugar natural, assim, os corpos pesados caem porque o seu lugar natural é a terra, enquanto o fogo e a fumaça sobem porque seu lugar natural é o ar. • Estado Positivo – Este estado é atingido quando nosso espírito renuncia definitivamente a investigar as causas inacessíveis e se dedica à experimentação a fim de se estabelecer às leis gerais que regem os fenômenos. Trata-se de um rompimento total com a metafísica. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 21 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Para Comte, a fundamentação das ciências e a sua classificação se dão de forma hierárquica, na qual o ponto de partida corresponde aos fenômenos mais simples e gerais e o termo final, aos mais complexos e organizados, classificando-se em: 1. Matemática 2. Astronomia 3. Física 4. Química 5. Filosofia 6. Física Social O uso da metodologia proposta por Comte, trouxe grandes avanços ao conhecimento científico, porém, tornou-se uma espécie de receituário a ser seguido em toda a investigação científica, sendo tudo o que fugisse de suas determinações era taxado de pesquisa sem ordem. O positivismo de Comte também serviu como base para a consolidação de uma metodologia tradicional de ensino que ainda hoje está presente em nossas escolas. Comte também teve grade influência nas pesquisas em educação por impor o uso de metodologias de pesquisa próprias das ciências naturais, chamado método científico, com hipóteses bem definidas, controle das variáveis e neutralidade do pesquisador, no desenvolvimento de pesquisas em educação. Porém, a partir da década de 70, esta metodologia de pesquisa passou a ser questionada com mais ênfase . ...para refletir e escrever Mas, porque é questionado o uso dos pressupostos positivistas nas pesquisas em educação? Caso você tenha dificuldade de responder esta pergunta, releia o módulo de “Pesquisa do/no Ensino de Ciências” ou pesquise nos livros sugeridos na bibliografia de apoio. 22 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Thomas Kuhn (1922-1996) Na Ciência toda a observação é antecedida por teorias, portanto, não é neutra. Não há justificativa lógica para o uso exclusivo do “método indutivo” na produção do conhecimento científico Kuhn Em sua obra mais importante, A Estrutura das Revoluções Científicas, Thomas Kuhm descreve o desenvolvimento do conhecimento científico. Ele propõe que o progresso da ciência ocorre através de revoluções, em oposição ao progresso cumulativo característicos dos relatos indutivistas da ciência. Do ponto de vista indutivo o conhecimento científico cresce continuamente à medida que são feitas as mais variadas e numerosas observações de fenômenos, possibilitando à formação de novos conceitos, o refinamento de velhos conceitos e a descoberta de novas relações lícitas entre eles. Do ponto de vista de Kuhn isto é um UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 23 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS engano, por ignorar o papel desempenhado pelo paradigma na orientação da observação e da experiência. Embora na atualidade a concepção de paradigma seja muito mais abrangente, para Kunh paradigmas são realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, fornece problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência. A adoção de um único paradigma por parte de uma comunidade científica é o marco, segundo Kuhn, que separa uma atividade desorganizada e diversa de uma atividade científica. Deste modo, o empreendimento científico está condicionado, de acordo com sua teoria, ao conceito de paradigma, uma vez que é o paradigma que determina os padrões para o trabalho legítimo dentro da ciência que governa. Um paradigma pode, por exemplo, abrigar teorias em seu interior, sem, contudo, ser compreendido como um correlato desta. É importante destacar que um grupo de pesquisadores com uma considerável produção científica deve ser capaz de dar conta de situações-problemas inicialmente apontada, para as quais as soluções propostas atendem as expectativas desse mesmo grupo em função do paradigma. Existem vários conceitos que são importantes para a compreensão da proposta de Thomas Kuhn para o desenvolvimento científico, um deles é o conceito de ciência normal, que para ele, caracteriza a adesão estrita e dogmática a um paradigma, que proporciona os conhecimentos necessários à resolução de problemas de pesquisa, problemas estes tomados como quebra-cabeças - problema cuja solução deve ser obtida segundo um conjunto préestabelecido de regras que não podem ser violadas - a serem resolvidos dentro da estrutura fornecida pelo paradigma existente. A falta de soluções para os quebra-cabeças da ciência normal é interpretada como falta de capacidade dos cientistas em resolver problemas, e não como problemas teóricos e metodológicos inerentes ao próprio paradigma. A imagem de ciência normal concebida por Kuhn, é uma atividade extremamente conservadora, não tendo como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômenos. Na verdade, aqueles fenômenos que não se ajustam aos limites do paradigma freqüentemente são despresados. Essa imagem conservadora, segundo o autor, é condição necessária para o progresso de um campo de conhecimento, visto que, somente quando os membros de uma 24 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS comunidade científica estão livres da tarefa de analisar criticamente os fundamentos das teorias e métodos que utilizam, é que podem concentrar seus esforços nos problemas esotéricos e nas questões de detalhes, levando à articulação do paradigma. Como resultado, as teorias aceitas são testadas de forma mais extensiva e profunda, fazendo com que problemas novos e mais sofisticados aflorem e, eventualmente, alguns destes problemas se revelem resistentes mesmo ao ataque por parte dos membros mais capazes da comunidade. A astronomia durante a Idade Média (paradigma ptolomaico), a mecânica nos séculos XVIII e XIX (paradigma newtoniano), a ótica no século XIX (paradigma ondulatório) e a Teoria da Relatividade no século XX (paradigma relativístico) são exemplos, apontados por Kuhn, de paradigmas que, cada um a seu tempo, determinaram um período de ciência normal. Há períodos nos quais a ciência normal fracassa em produzir os resultados esperados. Os problemas ao invés de serem vistos como quebra-cabeças, passam a ser considerados como anomalias – reconhecimento de que, de alguma maneira, a natureza violou as expectativas paradigmáticas que governam a ciência normal - gerando um estado de crise na área de pesquisa. Todavia, a mera existência de anomalias dentro de um paradigma, não constitui uma crise. Uma anomalia será considerada particularmente séria se for vista atacando os próprios fundamentos de um paradigma e resistindo, entretanto, persistentemente, às tentativas dos membros de uma comunidade científica normal para removê-la. As anomalias serão também consideradas sérias se forem importantes para alguma necessidade social urgente. Quando as anomalias passam a apresentar problemas sérios para um paradigma, um período de "acentuada insegurança profissional" começa, levando, cada vez mais, um maior número de cientistas a expressar seu descontentamento com o paradigma reinante. Uma vez que um paradigma tenha sido enfraquecido a tal ponto, que seus proponentes percam a confiança nele, chega o tempo da revolução. O estado de crise se resolverá então, quando um novo paradigma surgir, atraindo a adesão de um número crescente de cientistas, até que o paradigma problemático será abandonado. Este novo paradigma, mesmo sendo incapaz de resolver, de imediato, todos os problemas apresentados pelo antigo, oferecerá, pelo menos aos olhos de alguns pesquisadores, uma promessa de solução para os problemas mais importantes. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 25 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Durante o período de transição os paradigmas rivais proporcionam diferentes concepções de mundo, uma vez que, novas teorias são chamadas para resolver as anomalias não resolvidas pelas teorias anteriores. Essa diferença não ocorreria se as duas teorias fossem compatíveis, o que caracteriza para Kuhn a incomensurabilidade de paradigmas, incomensurabilidade esta que se relaciona ao fato de que padrões científicos e definições são diferentes para cada paradigma. A revolução científica, conforme vista por Kuhn, corresponde ao abandono de um paradigma e adoção de um novo, não por um único cientista somente, mas pela comunidade científica relevante como um todo. Para que a revolução seja bem sucedida, o novo paradigma deve difundir-se de modo a incluir a maioria da comunidade científica relevante, deixando apenas uns poucos dissidentes. Muitas passagens na história da ciência, segundo Kuhn, ilustram a existência de um estado de crise e a adoção de um novo paradigma. Como exemplos podemos citar: • o fracasso do paradigma ptolomaico (modelo geocêntrico) e a emergência do paradigma copernicano (modelo heliocêntrico), no final do século XVI; • substituição do paradigma flogístico (teoria do Flogisto) pelo paradigma de Lavoisier (teoria sobre a Combustão do Oxigênio), no final do século XVIII; • fracasso do paradigma newtoniano (mecânica clássica) e surgimento do paradigma relativístico (teoria da relatividade). O resultado final de uma seqüência de "ciência extraordinária", separada por períodos de ciência normal, é o conjunto de instrumentos notavelmente ajustados, denominados por Kuhn, como conhecimento científico moderno. O pensamento de Kuhn ultrapassou as fronteiras da História e da Filosofia da Ciência enquanto áreas de conhecimento específico. Desta forma, no que diz respeito ao Ensino das Ciências, a obra de Kuhn evidenciou as limitações da visão cumulativa e contínua da natureza do conhecimento científico, que ainda predomina na ciência curricular. A influência kuhniana no ensino de ciência está presente, por exemplo, em uma estratégia de ensino baseada na chamada mudança conceitual (Posner,Strike, Hewson, 1982), que propõem a ensino de conhecimentos científicos a partir de conhecimentos prévios dos 26 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS estudantes (senso comum), colocando os estudantes em situações onde os conhecimentos prévios não servem para explicar o fenômenos observados, levando-os a aderir (mudar os conceitos pré-existentes) à uma explicação cientificamente mais razoável. ...para refletir e escrever Você acha importante estudar o pensamento desses filósofos? Por quê? Você se identifica com o pensamento de algum desses filósofos? Qual(is) ? Comente a sua resposta. 2. TEORIAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM Os métodos de ensino, avaliação e planejamento educativo são fundamentados por teorias científicas produzidas a partir de estudos de diferentes naturezas. Nossa prática docente é influenciada, consciente inconscientemente, por alguma teoria de ensino e aprendizagem. Por isso é importante tomar consciência de pelo menos algumas características básicas das principais teorias desse campo e suas implicações no processo educativo. Você já se perguntou o que é aprendizagem? UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 27 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS De maneira geral, nos parece razoável, fazer referência à aprendizagem como conseqüência ou o próprio ato de aprender, ou seja, memorizar e usar informações e/ou desenvolver habilidades e atitudes. Apesar de aparentemente simples, tal definição apresenta sérias limitações. Essas limitações você pode perceber através das seguintes reflexões: Existe só um tipo de aprendizagem? Que pode ser usado como evidência de aprendizagem? Que tipo de fatores influenciam na(s) aprendizagem(ns)? Tendo em vista estes e outros questionamentos, cientistas e filósofos vêm elaborando diferentes definições de aprendizagem, cada uma tentando respondê-los de acordo com um ponto de vista diferente. Por exemplo, os adeptos do chamado movimento behaviorista definiram aprendizagem (learning) como o processo pelo qual o comportamento se modifica em decorrência da experiência. Essa definição operacional sofreu severas críticas dos adeptos do cognitivismo e dos teóricos da Gestalt, sendo apontada como reducionista e limitada. Nesta unidade trataremos sobre algumas teorias, autores, conceitos chaves e pressupostos filosóficos que vem servindo de referencial teórico para pesquisas e projetos de reforma educacional. Para isso, é necessário fazermos algumas reflexões. Assim, vamos refletir na questão: Mas o que é uma teoria? De maneira geral, podemos dizer que teorias são construções intelectuais utilizadas para explicar fatos, fenômenos, situações, etc. Cada um de nós experimenta “inventar” uma teoria para explicar coisas de nosso interesse. Evidentemente, nossas teorias de senso comum podem estar muito distantes da explicação racionalmente mais razoável. Como conhecimento sistematizado, Kerlinger (1985:6 apud Bisquerra, 2000) definiu teoria como “um conjunto de 28 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS construções hipotéticas (conceitos), definições e proposições interrelacionadas entre si, que oferecem um ponto de vista sistemático dos fenômenos”. Essa definição abrange teorias científicas, filosóficas ou mesmo religiosas. As teorias científicas, por sua vez, são sistemas de representação de conhecimentos formados, na maioria das vezes, por postulados (princípio ou fato reconhecido como certo, mas não demonstrado), axiomas (proposição evidente que não requer demonstração), teoremas (proposição que, para se admitir ou se tornar evidente, precisa de demonstração) e corolários (conseqüência direta de uma proposição demonstrada) que podem servir para organizar e integrar conhecimentos, identificar, classificar e interpretar fenômenos, fazer previsões, fundamentar decisões, produzir tecnologias, entre tantas outras aplicações. Tais teorias devem ser submetidas a critérios de validação científica, em geral, testes de natureza empírica ou lógica. Uma teoria científica supõe um ponto de vista filosófico (visão de mundo), ou seja, um posicionamento, consciente ou não, do que seja realidade, verdade, ciência, método científico e outras questões relacionadas às escolhas/opções inevitáveis aos produtores de conhecimento científico. Tais pressupostos, em geral estão implícitos nas entrelinhas do discurso científico. Conhecê-los é um passo importante para avaliar o alcance, validade e limites de uma dada teoria científica. Pontos de vista filosóficos que subjazem as teorias científicas As teorias/autores que se propuseram a explicar o processo de aprendizagem e desenvolvimento humano, tal como em outras áreas do conhecimento, também possuem determinados pontos de vista filosóficos. Portanto, em uma tentativa de organizar os autores/teorias, achamos conveniente dividi-las em três categorias, inspiradas nas indicações de Triviños (1995) sobre os três principais pontos de vista filosóficos que permeiam as produções científicas: o positivismo, a fenomenologia e o materialismo histórico-dialético. Dessas serão apresentados alguns pressupostos básicos que possibilitarão um melhor entendimento das características das teorias de aprendizagem que iremos apresentar posteriormente UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 29 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS POSITIVISMO Devido a sua grande influência no pensamento ocidental e conseqüentemente na elaboração de teorias de aprendizagem vamos revisar e expor mais alguns detalhes do positivismo, importantes para entender melhor algumas teorias de aprendizagem. Este ponto de vista filosófico possui raízes no empiricismo (Bacon) e no materalismo mecaniscista (Newton, Hobbes, Hume). Como havíamos exposto anteriormente, Augusto Comte (1778-1857) estruturou as bases do positivismo clássico, inaugurando a sociologia (física social) como disciplina independente da filosofia e enunciando a lei dos três estados. O positivismo enquanto corrente de pensamento pode ser entendido como uma reação, aos que os filósofos positivistas denominaram de filosofias especulativas (Fichte, Kant, Hegel), que imperavam no pensamento europeu na época de Comte. Para os positivistas a ciência devia centrar esforços em descobrir, por meio de raciocínio e observação, as leis efetivas do universo, suas relações invariáveis de sucessão e similitude e deixar de lado especulações sobre as origens e o destino do universo, rejeitando todo o conhecimento metafísico (que a priori não pode ser comprovado empiricamente). O espírito humano deve investigar o que é possível conhecer (observar e medir). Para isso deve se valer de instrumentos e estratégias de medição e observação controlada, utilizando, sempre que possível, a lógica formal e a matemática como fundamento para estruturação de teorias. Finalmente para facilitar a apreensão da realidade convêm dividir o conhecimento (e os fenômenos) em diferentes áreas e sub-áreas especializadas. Segundo a perspectiva positivista as características essenciais de uma teoria científica podem ser avaliadas pela sua capacidade ser empiricamente testada, de fazer previsões acertadas e pelo uso de uma linguagem objetiva e neutra (e a-histórica). Os positivistas buscaram estruturar um método científico único que poderia ser aplicado a fenômenos naturais, psicológicos e sociais. Para isso a filosofia positivista supôs a existência de fatos sociais como realidade objetiva, independente das crenças do indivíduo. O positivismo clássico de Augusto Comte pode ser apontado como a origem de diversos outros pontos de vista de filosóficos, entre estes o positivismo lógico (Schlick, 30 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Carnap), o racionalismo crítico (Popper), o behaviorismo (Watson, Skinner), o pragmatismo (Dewey) e o estruturalismo (Levi-Strauss), entre outros. FENOMENOLOGIA As origens da fenomenologia podem ser encontradas nas idéias de Platão, Leibnitz e Descartes (Triviños, 1995:42). Enquanto escola de pensamento contemporâneo possui como precursor Franz Bretano (1838-1917), sendo, no entanto, o filósofo Edmund Hursserl (18591938) o responsável pelas principais formulações teóricas desse ponto de vista filosófico. Hursserl dirigiu fortes críticas a transposição direta do modelo de investigação e análise das ciências da natureza para as ciências humanas, sugerido pelos filósofos positivistas. Em oposição ao pretenso objetivismo positivista, os adeptos da abordagem fenomenológica colocam em evidência a questão da intencionalidade do sujeito no processo de construção/percepção do conhecimento (livre arbítrio). Segundo eles, conhecer depende do mundo cultural do sujeitos. Por isso é impossível haver um conhecimento absolutamente objetivo. Ao contrário dos positivistas, os adeptos da fenomenologia não visavam elaborar teorias generalizadas sobre possíveis relações de causa e efeito entre fenômenos. “A idéia fundamental, básica, da fenomenologia, é a noção de intencionalidade. Esta intencionalidade é da consciência que sempre está dirigida a um objeto. Isto tende a reconhecer o princípio que não existe objeto sem sujeito.” (Trivinos, 1995:43) Hursserl dizia que a que fenomenologia apresenta-se como modo e como método de ver o dado e, ao invés de buscar leis empíricas gerais, devia ter como objetivo o estudo das essências da percepção e da consciência, buscando isolar a essência (eidós) dos fenômenos em foco de outros elementos envolvidos no mesmo e caracterizá-lo o mais detalhadamente possível. Com essa perspectiva, os pesquisadores que adotam, conscientemente ou não, os princípios fenomenológicos exaltam a interpretação do mundo que surge intencionalmente à nossa consciência. Por esta razão, nos relatos de pesquisa, centram esforços em descrever detalhadamente o fenômeno, privilegiando aspectos subjetivos dos atores (percepções, processos de conscientização, de compreensão da realidade e do contexto cultural, significados, saberes práticos, etc.). UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 31 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS “... tudo que sei do mundo, mesmo devido à ciência o sei a partir de minha visão pessoal ou de minha experiência do mundo, sem a qual os símbolos da ciência nada significariam. Todo universo da ciência é construído sobre o mundo vivido e, se quisermos pensar na própria ciência com rigor, apreciar exatamente seu sentido e seu alcance, convêm despertarmos primeiramente esta experiência do mundo da qual ela (a ciência) é a expressão segunda” (Merleau-Ponty, 1971 apud Triviños, 1995:43) A fenomenologia não sugere métodos padronizados de investigação científica, tal qual o positivismo. Ao invés de falar em método fenomenológico seria mais conveniente falar de atitude fenomenológica, ou seja, a atitude de buscar a libertação de conceitos e definições apriorísticas e procurar a essência do fenômeno através de métodos e análises que permitam uma apreensão minuciosa da percepção dos fenômenos. “(...) as investigações fenomenológicas mostram a consciência do sujeito, através dos relatos de suas experiências internas, e trata de viver em sua consciência – por empatia – os fenômenos relatados pelo outro” (Asti-Vera, 1980:71) O critério de validação científica não é baseado em comprovação empírica, mas no processo lógico da interpretação e na capacidade de reflexão do pesquisador sobre o fenômeno ou objeto de seu estudo, em sua capacidade de explicitar a estrutura e o significado implícito da experiência humana. Ator é a terminologia comumente utilizada nos relatos pesquisas quando os pesquisadores fazem referências tanto aos sujeitos investigados como a si próprios, ambos envolvidos no processo de interpretação dos fenômenos e, portanto, influenciando-se mutuamente. Podemos dizer que existem muitas correntes de pensamento filiadas a fenomenologia, entre elas o chamado existencialismo, que defende o pensar existencial. Para os existencialistas o que importa é o homem como existência, como um ser intimamente pessoal. Kierkergaard, Heidegger, Sartre figuram como alguns dos importantes teóricos dessa corrente filosófica. O construtivismo, ou seja, a crença que o homem constrói significados ao longo de sua existência como resultado de sua interação social, também tem suas origens na fenomenologia, muito embora, venha sendo utilizado como ponto de apoio de algumas teorias essencialmente positivistas. 32 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS MATERIALISMO HISTÓRICO-DIALÉTICO As bases do materialismo histórico-dialético estão nos escritos de Hegel (1770-1831). Entretanto, Karl Marx (1818-1883), Friedrich Engels (1820-1895) e Wladimir Ilich Lênin (1870-1924) podem ser considerados os estruturadores desse ponto de vista filosófico. Hegel, partindo de um ponto de vista idealista (a realidade é um produto da consciência), estruturou um método dialético para análise e compreensão da realidade. A dialética, inicialmente definida por Platão como a arte da discussão, ressaltava os aspectos contraditórios existentes na natureza e nas idéias. Hegel além de ressaltar o aspecto contraditório das coisas, “concebe todo o mundo da natureza, da história e do espírito como um processo, isto é, em constante movimento, mudança, transformação e desenvolvimento, intentando, além disso, pôr em relevo conexão interna deste movimento de desenvolvimento” (Triviños, 1995:53) Em A Ideologia Alemã (1846) Marx e Engels criticaram as idéias idealistas de Hegel e seus seguidores, principalmente sobre o desenvolvimento histórico das civilizações, que para os Hegelianos era resultado das ideologias e do surgimento de “heróis”. Os dois jovens filósofos não concordavam com essa idéia. Diziam que a História podia se melhor explicada com base nas formações sócio-econômicas e nas relações de produção. Marx e Engels adaptaram as leis da dialética de Hegel, rejeitando o conteúdo idealistas das mesmas, ajustando-as a uma visão materialista de mundo (a realidade existe independentemente da consciência) e formulando assim o materialismo dialético, ou seja, a base filosófica do que mais tarde seria denominado de marxismo. A natureza, a história e as idéias podem ser concebidas como um processo de constante movimento, mudança, transformação dialética. A mola mestra do desenvolvimento de qualquer formação material é a existência de contradições entre aspectos opostos. A interação entre os opostos, que não podem existir um sem o outro (luta dos contrários), é a origem do movimento, do desenvolvimento e das transformações, tanto de fenômenos da natureza (átomos, organismos, ecossistemas) como de fenômenos sócio-históricos (ascensão e declínio de civilizações, sistemas econômicos, etc.). UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 33 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS As formações materiais evoluem mediante mudanças pontuais que não modificam a estrutura essencial da formação até a ocorrência de revoluções, ou seja, uma mudança radical da estrutura do objeto que dá origem a uma formação material qualitativamente diferente da anterior, um outro objeto. Diferente dos pontos de vista fenomenológico e positivista, para o materialismo histórico-dialético não basta interpretar é preciso transformar! A idéia seria oferecer uma concepção científica da realidade, enriquecida com a prática social da humanidade, ou seja, considerando as condições sócio-históricas como causas e conseqüências. Isso pode ser percebido em Marx e Engels quando diziam que “os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes, a questão é transforma-lo” (Marx e Engels apud Triviños, 1995:64) O método materialista-dialético tem como unidade de análise o processo, não os elementos isolados de uma dada formação material. Ressalta ainda a prática social como critério de validação do saber: “diferente dos pontos de vista empírico e positivista, a filosofia marxista não enfoca a prática como experiência sensorial subjetiva do indivíduo, como experimento científico, etc., mas como atividade e, antes de tudo, como processo objetivo de produção material, que constitui a base da vida humana, e também como atividade transformadora revolucionária das classes e como outras formas de atividade social prática que conduzem à mudança do mundo” (Marx e Engels apud Triviños, 1995:64) Teoria e prática (conhecimento e transformação da natureza e da sociedade) não podem ser produzidas isoladamente uma da outra, devem complementar-se em um contínuo processo de enriquecimento mútuo (práxis). Como já foi dita anteriormente o materialismo dialético é a base filosófica do chamado materialismo histórico que estuda as leis sociológicas que caracterizam a vida na sociedade, considerando as formações sócio-econômicas e relações de produção como fundamentos da sociedade. Entretanto esse ponto de vista tem sido muito utilizado em análises psicológicas e educacionais (Apple, 1983; Bakthin, 1978; Leontiev, 1981). Não há padrões metodológicos bem definidos. Em geral, boas pesquisas nessa abordagem valem-se tanto de dados qualitativos (documentos históricos, transcrições de 34 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS entrevistas, imagens, etc.) e quantitativos para clarificar propriedades e estrutura do processo investigado. A natureza dos métodos e das técnicas para o estudo dos fenômenos dependem principalmente, das características do conteúdo do mesmo (Triviños, op cit). Atividade 01 Agora que tivemos contato com alguns pressupostos e conceitos básicos das três principais correntes filosóficas, é conveniente que você selecione alguns conceitos que não foram compreendidos e pesquise em dicionários os seus respectivos significados. Faça um glossário deste capítulo contendo os termos que não foram compreendidos ou chamaram mais a sua atenção. Comentários sobre a organização proposta As idéias de cada teoria/autor apresentada/o neste tópico, forma organizadas de acordo com suas filiações filosóficas. Conceitos chaves, objetos de análise, métodos de coleta e análise de dados, explícita ou implicitamente, presentes em cada teoria/autor, serviram de base para a categorização. Naturalmente algumas teorias apresentadas podem ser identificadas como protótipos de teorias positivistas, fenomenológicas ou marxistas, no entanto, outras, que apresentam nuances de dois ou mais ponto de vista. Realmente algumas teorias apresentam aspectos característicos de pelo menos duas das três categorias propostas. Na medida do possível, faremos comentários sobre esses aspectos para que sejam evitadas injustiças. De qualquer forma, esta categorização não pode ser considerada como definitiva. Trata-se de um ponto de vista, passível de aperfeiçoamento, e que, acima de tudo, sugere um aprofundamento nas obras originais dos respectivos autores. Teorias de aprendizagem com influências positivistas UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 35 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS As teorias de aprendizagem cujos autores foram influenciados direta ou indiretamente pelo positivismo podem ser categorizados em dois grandes movimentos de produção científica: o behaviorismo e o cognitivismo. Behaviorismo O chamado behaviorismo, ou comportamentalismo foi um movimento dentro da psicologia, iniciado em meados da década de 1920, liderado por psicólogos norte-americanos. Aderindo fortemente os pressupostos positivistas, se configurou em uma tentativa de tornar esse campo de conhecimento tão empiricamente estruturado quanto as ciências da natureza. Caracterizava-se pela busca relações entre comportamento observáveis e quantitativamente mensuráveis (respostas) e estímulos externos, cuidadosamente planejados e aplicados em condições controladas, em geral em laboratório, sem conisiderar qualquer hipótese sobre a atividade mental que poderia existir entre os estímulos e as respostas. Seus adeptos consideravam a mente como uma “caixa preta” que não podia ser investigada objetivamente e, portanto, qualquer processo relacionado ao processamento mental deveria ficar de fora das teorias psicológicas ditas científicas. O behaviorismo norte americano serviu como fundamento de muitas estratégias de ensino e projetos curriculares, principalmente na década de 50 e 60: estímulos e reforços adequados deveriam modificar gradualmente o comportamento dos alunos. Cabia ao professor somente apresentar os estímulos e aplicar os instrumentos de avaliação adequadamente. Serviu também para justificar práticas de coerção estudantil, impulsionar o processo de fragmentação do conhecimento escolar e a divisão do trabalho docente. A enumeração de metas do ensino sob forma de objetivos comportamentais, divisão do saber escolar em disciplinas cada vez mais especializadas, testes de múltipla escolha, exercício repetitivos, são heranças do behaviorismo para a educação escolar. Vejamos alguns autores que se destacaram nesse movimento. O norte americano John B. Watson (1878-1958), influenciado pelas idéias sobre condicionamento clássico do psicólogo russo Ivan Pavlov (1849-1936), provavelmente tenha sido o primeiro a usar termo behaviorismo (behaviorism) como o estudo científico do comportamento. 36 Seus estudos centraram atenção exclusivamente PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 em eventos METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS comportamentais observáveis, procurando determinar as leis sobre possíveis regularidades existentes entre estímulos, respostas e conseqüências. Para Watson os seres humanos e animais aprendem a reagir ao mundo externo formando conexões estímulo-resposta (E-R) que aprendemos simplesmente por ocorrerem juntos, em contigüidade. Em outros termos, a contigüidade existente entre estímulos e respostas, na opinião de Watson, era suficiente para produzir aprendizagem (Moreira, 2003a:05). As conexões E-R seriam como unidades que se associam entre si, formando cadeias maiores, que compõem a base de comportamentos complexos (caminhar, andar de bicicleta, resolver problemas, etc.). Outro behaviorista influente foi Erwin Guthrie (1886-1956). Sugeriu um aperfeiçoamento da teoria de Watson introduzindo a noção de interferência: a aprendizagem de novos comportamentos pode extinguir comportamentos indesejáveis. Também enunciou o seguinte principio “se uma combinação de estímulos que acompanhou o movimento ocorre outra vez, tenderá a ser seguida por este movimento” (op. cit:06), dito de outra forma, se uma resposta acompanha um estímulo, tenderá a acompanha-lo novamente. Eward L. Thorndike (1874-1949), outro ícone do behaviorismo, elaborou leis (do efeito, do exercício e do alerta) para explicar como as conexões E-R; que, em última instancia, assumiam forma de conexões neurais no cérebro de caráter puramente fisiológico; eram fortalecidas ou enfraquecidas pelo uso, desuso ou conseqüências inconfortáveis. Suas considerações teóricas já continham algumas menções implícitas sobre reforço positivo ou negativo, mais tarde aperfeiçoadas por Skinner. Podemos também citar Clark L. Hull (1884-1952) como um importante cientista do behaviorismo. Hull utilizou um aparato lógico matemático sofisticado, compostos por postulados e corolários de onde podiam ser deduzidas as relações entre as supostas variáveis psicológicas. Ao contrário de outros behavioristas, considerava importante e possível investigar de forma objetiva, mesmo que indiretamente, a variáveis intervenientes, ou seja, processos mentais. Algumas dessas variáveis, tais como: força do hábito (EHR), impulso (I), dinamismo de intensidade de estímulo (V) e motivação de incentivo (K). ajudaram Hull a expressar, em forma de relações matemáticas, algumas idéias sobre o funcionamento psicológico. Por exemplo, o potencial de reação (EER), que expressava o potencial que um individuo, em uma determinada situação, poderia dar uma determinada resposta, era expresso por meio da função: EER = EHR x D x V x K. Como se trata de uma função multiplicativa, se UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 37 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS qualquer uma das variáveis intervenientes contidas nessa expressão for nula, o potencial de reação é nulo também, em outras palavras, o indivíduo não é capaz de fornecer a resposta adequada ao estímulo. Burrhus Frederic Skinner (1904-1990), professor de Havard por mais de 40 anos, talvez possa ser apontado com o autor do behaviorismo mais influente até hoje. Tendo elaborado e executado muitos experimentos com animais, julgava possível modelar o comportamento humano mediante reforços adequados, inclusive fazendo previsões comportamentais para indivíduos submetidos a determinados protocolos de condicionamento. Costumava dizer que suas considerações não eram uma teoria mais uma análise funcional das relações existentes entre o que chamou de variáveis de entrada (input) – estímulo, reforço e contingência de reforço – e variáveis de saída (output) – comportamentos (respostas) – que por sua vez, segundo ele, poderiam ser respondentes (reflexos ou movimentos involuntários) ou operantes (tudo que fazemos de modo voluntário que tem efeito no mundo exterior). Cada tipo de comportamento estaria associado a um tipo de condicionamento, entendido por ele “como o aumento da freqüência de uma resposta que foi, recentemente, associada com um reforçador positivo sob condições explícitas” (Moreira, 2003c:05). O comportamento respondente estaria associado um condicionamento respondente, controlado por um estímulo precedente (que deve ocorrer antes da resposta), enquanto o comportamento operante estaria associado um condicionamento operante, controlado por suas conseqüências, ou seja, estímulos posteriores à resposta, reforço (positivo ou negativo). Reforço talvez seja o conceito mais importante na teoria de Skinner. Reforços adequadamente administrados poderiam modelar desde os mais simples até os mais complexos comportamentos. Para Skinner “o reforço e as contingências de reforço têm um papel preponderante na aprendizagem” (Oliveira, 1973:50 apud Moreira, 2003c:11). As teorias behavioristas, particularmente a teoria de Skinner, tiveram uma grande influência na educação escolar, chegando a sugerir que “o papel do professor no processo instrucional é de harmonizar as contingências de reforço de modo que possibilitem ou aumentem a probabilidade do estudante dê a resposta desejada” (Moreira, 2003c:12). Estratégias e projetos de ensino tais como a instrução programada, máquinas de ensinar, etc. derivam diretamente dos pressupostos de Skinner. 38 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Outras heranças educativas do behaviorismo presentes em diversos materiais didáticos e manuais para professores são: definição de objetivos comportamentais, enfoques sistêmicos, divisão de conteúdos em pequenas etapas com grau de complexidade crescente (planejado de acordo com uma seqüência lógica predefinida) e repetição exaustiva de exercícios (aprendizagem, fixação, etc.). Cognitivismo O movimento cognitivista surgiu na mesma época que o behaviorista (Moreira, 2003b), inicio do século XX. Seus autores, ao contrário dos behavioristas, se preocuparam em elaborar explicações que levassem em considerações os processos mentais (formas de organização e processamento, tipologia, evolução de estruturas, etc.). Não acreditavam que as teorias E-R, obtidas a partir de experimentos com animais, poderiam ser de muita utilidade na investigação da psicologia humana. Para estudos nessa área, além de considerar comportamentos observáveis, interessava saber quais os significados que os sujeitos possuíam sobre determinados conhecimentos e como esses significados eram incorporados ao que os cognitivistas convencionaram chamar de estrutura cognitiva. Dentro do movimento cognitivistas, como não poderia deixar de ser, podem ser observadas várias tendências teóricas. Algumas consideram sistemas de E-R como reflexos formações neurológicas, outras enfatizaram questões relacionadas a identificação e hierarquização de tipos de aprendizagem, outras centraram atenção nas chamadas funções psicológicas superiores, outras o processo de desenvolvimento intelectual, mas todas estritamente relacionadas a cognição, ou seja, o ato ou processo de conhecer (que inclui a atenção, a percepção, a memória, o raciocínio, o juízo, a imaginação, o pensamento e o discurso), entretanto, dando pouca ou nenhuma ênfase no conteúdo afetivo da aprendizagem. Dentre os cognitivistas podemos citar Donald Olding Hebb (1904-1985) como um dos precursores desta abordagem. Hebb formulou o modelo de aprendizagem considerando que o pensamento é produto da atividade de grupos de neurônios organizados em “circuitos reverberantes” que formam aglomerados de células ou uma série de estruturas desse tipo que dão origem a um processo mental hipotético responsável pelas respostas aos estímulos externos, a chamada “seqüência de fase”. Para Hebb os processos mentais superiores seriam UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 39 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS produto da atividade neuronal e atuariam com processos mediadores entre estímulos e resposta. A seqüência de fase e estruturas mais complexas seriam formadas por uma rede de aglomerados de células, cada aglomerado corresponderia a entrada sensoriais (estímulos) relativamente simples. Dessa forma era possível que um estímulo que ativasse um determinado aglomerado de células ativasse “por tabela” o restante dos aglomerados de determinada seqüência de fase. Essa hipótese serviu para explicar a percepção de um triângulo inteiro quando olhamos para um triângulo incompleto e outros fenômenos similares. Robert Gagné (1916-2002), outro precursor do cognitivismo, considerava a aprendizagem “uma mudança de estado interior que se manifesta através da mudança de comportamento de forma persistente” (Moreira, 2004d:03). Para ele aprendizagem diferenciava-se de maturação, esta última era um processo de mudança ocasionada pelo desenvolvimento de estruturas internas, enquanto aprendizagem, como já foi dito, tratava-se de mudanças ativadas a medida que o indivíduo interagia com o meio ambiente. Apesar de teoria de Gagné apresentar nuances behavioristas, centra atenção no processamento da informação que ocorre na mente dos indivíduos. Um evento de aprendizagem, segundo Gagné, ocorria de acordo com um processo que poderia ser analisado em oito fases distintas: motivação, apreensão, aquisição, retenção, recordação, generalização e retroalimentação (feed-back). O produto desse processo, ou seja, os estados persistentes, poderiam ser classificados em cinco categorias (informação verbal, habilidades intelectuais, estratégias cognitivas, atitudes e habilidades motoras) que se configuram nos cinco diferentes tipos de capacidades intelectuais apresentadas pelos seres humanos. Cabe destacar um pouco mais detalhadamente a capacidade denominada por Gagné como habilidades intelectuais que, segundo ele, estavam relacionadas ao “saber como”, ou seja habilidades práticas para realizar operações razoavelmente complexas. Segundo ele seria útil subdividir as habilidades intelectuais em subcategorias organizadas de acordo com o grau de complexidade da operação mental, na seguinte ordem (Moreira, 2003d:09): Discriminações: distinção entre uma característica de estímulo e outra, ou entre um símbolo e outro – percepção de sinais, cadeia simples e associações verbais); 40 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Conceitos: identificação de uma classe de objetos, de qualidades de objetos ou relações e indicação de exemplos. Regras: capacidades apreendidas que tornam possível que o indivíduo faça alguma coisa usando símbolos. Regras de ordem superior: regras mais complexas “reunidas” por combinações de outras mais simples, geralmente utilizadas em solução de problemas. As habilidades intelectuais evoluem, ao longo do tempo, a partir de tipos mais simples para tipos mais complexos. Tais habilidades, apesar de poderem ser classificadas de acordo com seu grau de complexidade, seriam interdependentes e serviriam como pré-requisitos uma das outras. Por exemplo, para aprender regras de ordem superior é necessário ter apreendido regras mais simples, que por sua vez necessitariam de aprendizado de conceitos, que exigiria o domínio prévio de discriminações. A partir dessa categorização Gagné sugere que as habilidades intelectuais complexas podem ser decompostas continuamente em habilidades mais simples (pré-requisitos), seguindo uma certa hierarquia que podia ser representada em formas de esquemas muito semelhantes a digramas de fluxo. Para Gagné o professor deve planejar eventos externos para ativar, manter e avaliar a aprendizagem (instrução), levando em consideração as fases e as hierarquias de aprendizagem. Jerome Bruner (1915-), que ficou muito conhecido por sua idéia sobre o chamado currículo em espiral, é outro cognitivista influente. Sugere ser mais conveniente que o aprendiz tenha oportunidade de ver o mesmo assunto mais de uma vez, cada uma, em diferentes níveis de profundidade e modos de orientação. Acreditava ser “possível ensinar qualquer assunto, de maneira honesta, a qualquer criança, em qualquer estado de seu desenvolvimento” (Moreira, 2003e:02). Na década de 60, chefiou as equipes de cientistas que trabalharam na reforma da educação científica nos E.U.A., tendo defendido, além do currículo em espiral, a aprendizagem por descoberta como estratégias de melhoria do processo de ensino-aprendizagem de conhecimentos escolares. Na época, chegou a declarar que “a descoberta de um principio ou uma relação por uma criança é essencialmente idêntica – UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 41 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS enquanto processo – a descoberta que um cientista faz em laboratórios” (Oliveira, 1973 apud Moreira, 2003e:03). Bruner foi bastante influente no meio educacional tendo publicado vários livros sobre o tema. Para ele a aprendizagem deve favorecer o desenvolvimento intelectual, que por sua vez corresponde ao aumento da capacidade de compreender e armazenar informações e aplica-las na solução de problemas. É essencial que o indivíduo adquira meios cada vez mais eficazes e precisos de representar o que ocorre em seu ambiente. Sua idéia de que ao longo do desenvolvimento intelectual, o indivíduo passa por três fases distintas de processamento e representação de informações/estímulos, que convencionou chamar de estágios de representação (ativa, icônica e simbólica), demonstra uma certa semelhança com os estágios de desenvolvimento de Piaget. Bruner centrou atenção na discussão de aspectos essenciais de uma boa teoria de ensino, que, segundo ele, deveria dar suporte aos professores, currículos, estratégias, etc. Defendia que o processo instrucional deveria proporcionar condições para que o aluno descobrisse por si mesmo, e por isso deve ser fundamentado em uma teoria de ensino que enfoque quatro aspectos essenciais: predisposição, estrutura do conhecimento, seqüência e reforço. Nos seus trabalhos iniciais Bruner deu bastante ênfase no ensino da estrutura do conhecimento, mas, algum tempo depois, declarou que era mais adequado ensinar o conhecimento levando em consideração o contexto dos problemas enfrentados pelos estudantes que centralizar no aprendizado da estrutura formal do conhecimento. Em seus trabalhos recentes, provavelmente influenciado pelos trabalhos de Vigotsky, critica a visão de desenvolvimento humano como resultado do aprimoramento do processamento mental individual e passa a considera-lo como resultado de um processo de internalização de significados e intenções social e culturalmente compartilhados, extremamente dependente do contexto onde o indivíduo vive. David Ausubel (1918-), psicólogo norte americano, nitidamente preocupado com as conseqüências danosas das aplicações das teorias behavioristas na escola (aprendizagem mecânica, desestimulo em aprender, etc.) propôs uma teoria sobre o funcionamento de um sistema hipotético de processamento mental (estrutura cognitiva) passível de armazenar informações de diferentes maneiras. A chamada aprendizagem significativa é o conceito 42 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS chave da teoria de Ausubel. Um tipo de aprendizagem, não arbitrária e não literal, produto de um processo de interação de elementos presentes na estrutura cognitiva (subsunçores) com novos conhecimentos. A aprendizagem significativa implica a posse de significados claros, precisos, diferenciados e transferíveis (Moreira, 2003j:6). Ausubel formulou uma interessante teoria de assimilação e retenção de conhecimentos, onde descreve pormenores processuais da aquisição e formação de conceitos a partir de aprendizagens significativas. A teoria de Ausubel centra atenção na aprendizagem de conhecimentos costumeiramente abordados em sala de aula. Para ele os educadores deveriam centrar esforços em promover a aprendizagem significativa em seus alunos. Para isso, em seus escritos, apresenta sugestões para o planejamento e execução de estratégias educativas e também caminhos para pesquisas educacionais. O psicólogo suíço, Jean Piaget (1896-1980) com uma vasta produção intelectual sobre o comportamento infantil têm tido uma enorme influencia no meio educacional, nos últimos tempos, apesar de seus primeiros trabalhos terem sido realizados ainda na década de 20. Utilizou e aperfeiçoou o chamado método clínico para obter dados para suas análises e uma teoria sobre o processo do desenvolvimento intelectual humano. A partir dos anos 60, com o desgaste do programa behaviorista, que apresentava sérias limitações em explicar comportamentos complexos (resolução de problemas, tomada de decisões, etc.), as considerações de Piaget passaram a figurar como centro do chamado movimento construtivista. Piaget, aparentemente influenciado pelas idéias evolucionistas de Darwin e Spencer, propôs que o desenvolvimento humano ocorre de forma gradual como produto de uma interação entre o sujeito e o ambiente. Durante esta evolução o sujeito passa por estágios de desenvolvimento (sensório-motor, pré-operacional, operacional-concreto e operacional formal), cada um com modos de representação e procedimentos mentais bem definidos. O cerne da teoria de Piaget sugere que a mente é um conjunto de esquemas que o ser humano utiliza para lidar com a realidade (esquemas de assimilação), que formam uma estrutura hipotética denominada estrutura cognitiva. Os esquemas de assimilação são produzidos ou remodelados a medida que o indivíduo, interagindo com o meio, se vê diante de situações novas que tem que assimilar. Segundo Piaget situações, fenômenos e informações ainda não assimiladas causam um desequilíbrio no sistema que tende se UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 43 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS reorganizar através do processo denominado por Piaget de equilibração. Quando os esquemas de assimilação são enriquecidos, implicando um aumento de conhecimento (aprendizagem), diz-se que ocorreu o processo de equilibração marjorante. É por seguidas equilibrações marjorantes que o individuo gradativamente se desenvolve e torna-se cada vez mais capaz de lidar com a realidade que o cerca. As teorias de Piaget têm sido utilizadas para justificar a implantação de um processo educativo que leve em consideração os conhecimentos que o aluno já possui e remodela-los a partir de equilibrações marjorantes. Um típico exemplo de estratégia educativa formulada com base na teoria de Piaget foi o chamado modelo de aprendizagem baseado na mudança conceitual (Posner et al, 1982), que propunha o conflito cognitivo como principal estratégia para provocar a substituição de conhecimentos prévios por conhecimentos cientificamente mais adequados. Após uma certa euforia, pesquisas demonstraram que a mudança conceitual não ocorre de maneira tão simplificada e em certos casos os conhecimentos prévios e conhecimentos científicos passam a coexistir. Para a maioria dos estudiosos das teorias de Piaget e Ausubel, pode parecer equivocado considera-las filiadas a corrente positivista. Fizemos isso porque, apesar delas apresentarem nuances características do ponto de vista fenomenológico (levar em consideração os significados que sujeitos têm de determinadas situações e uso de métodos e dados qualitativos) a busca pelo estabelecimento de relações e padrões de desenvolvimento psicológico, bem como a pouca ênfase dada a elementos afetivos envolvidos no processo, foram as razões que nos levaram a categorizar as teorias de Ausubel e Piaget no grupo de teorias de positivistas. Naturalmente essas teorias não se configuram como teorias prototípicas dessa corrente, mas, sem dúvida, não poderiam figurar como teorias essencialmente filiadas as correntes fenomenológica ou marxista, como veremos a seguir. Talvez o mais justo fosse coloca-las em categorias separadas, uma vez que os trabalhos desses autores servem de parâmetros para grande parte dos pesquisadores da área de ensino-aprendizagem. No final da década de 50 a partir dos trabalhos sobre inteligência artificial de Allen Newell (1927-1992) e Herbert Simon (1916-), surgiu uma nova orientação cognitiva nos trabalhos e nas pesquisas sobre os processos de aprendizagem: o modelo de processamento da informação. Tal abordagem vem produzindo resultados interessantes no âmbito da memória 44 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS conseguindo estabelecer o diálogo entre neo-behavioristas, neopiagetianos e demais correntes cognitivas. O modelo de processamento de informação considera a mente humana como um processador de informação (metáfora do computador), cuja atividade fundamental é receber informação, elaborá-la e agir de acordo com ela. Isso significa que todo ser humano pode ser considerado um ativo processador de sua experiência, mediante um complexo sistema no qual a informação é recebida, transformada, acumulada, recuperada e utilizada. Isso supõe que o organismo não responde diretamente ao mundo real mas opera sobre ele com base em suas representações mentais. Basicamente essas representações estariam disponíveis em dois tipos de memória, a de curto e a de longo prazo. O esforço para oferecer uma visão transdisciplinar da mente humana, que assumisse a metáfora do computador como pressuposto básico, deram origem a chamada ciência cognitiva, onde psicólogos, neurocientistas, filósofos, antropólogos, entre outros profissionais centram atenção no estudo do formato, estrutura e função da representações mentais e na possibilidade de reproduzir os processos mentais em máquinas (inteligência artificial). Podemos citar a teoria dos modelos mentais de Johnson Laird, como um exemplo de abordagem computacional da mente. Para este autor, existem basicamente três formas de representação mental: proposicional (algum tipo de código), imagens e modelos mentais. Os últimos seriam algum tipo de análogos estruturais do mundo (Moreira, 2003m:05) que servem para representar entidades específicas do mundo exterior e responder aos estímulos. As pessoas nem sempre têm plena consciência de seus modelos mentais, apenas os utilizam para resolver problemas práticos. Para Johnson Laird os modelos mentais e imagens estariam para a mente como linguagens de programação de auto nível (Basic, Pascal, etc.) estariam para os computadores, enquanto as representações mentais proposicionais poderiam ser comparadas a linguagem de programação de baixo nível, ou seja, a base do funcionamento computacional: o sistema combinações binárias 0 e 1. A teoria de modelos mentais de Johnson Laird descreve as características, tipologia e as possíveis relações que eles mantém com outros tipos de representação mental. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 45 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS A ciência cognitiva têm conseguido avanços significativos na compreensão dos mecanismos mentais, suas limitações residem na debilidade do paralelismo entre a máquina e o homem, na polêmica da relação entre a consciência e o sistema computacional de assimilação e reação, na lacuna afetiva e na restrição do modelo à análise de um tipo de comportamento aparentemente racional, quando, na realidade, processar corretamente a informação não é o requisito imprescindível e suficiente para regular racionalmente a conduta. Os autores/abordagens citadas configuram-se nas contribuições que julgamos mais influentes na área e que tínhamos informações disponíveis. Naturalmente deixamos de fora muitas outras contribuições relativamente pertinentes. Teorias de aprendizagem com influências fenomenológicas O movimento da Gestalt e as produções de Carl Rogers, George Kelly e Joseph Novak foram categorizadas neste grupo. Gestalt, que traduzido do alemão ao pé da letra significa forma, estrutura, foi um movimento nascido na Alemanha, também no início do século XX, tendo como principais representantes os psicólogos Wertheimer, Köhler, Koffka e Lewin. Pode ser pensada como uma tentativa de aplicar a teoria de campo da física a problemas de psicologia (Moreira, 2003b:03), considerando campo um sistema dinâmico interrelacionado, onde as partes influenciam todas as demais. Isso foi aplicado inicialmente por Wertheimer e Koffka para explicar fenômenos de percepção de imagens, posteriormente, Lewin expandiu o conceito de campo, incluindo crenças, sentimentos, metas e alternativas do indivíduo para abranger outras percepções não visuais. Os teóricos desse movimento acreditavam que as capacidades intelectuais eram geneticamente determinadas, portanto, alguns indivíduos nasciam intelectualmente mais capazes do que outros, para os primeiros então era preciso somente “despertar” o potencial geneticamente herdado. Talvez insight seja o mais conhecido termo da Gestalt, significa súbita percepção de relações entre elementos de uma situação problemática (Le François, 1982 apud Moreira, 2003b:11). Os insights produzem aprendizagens qualitativamente melhores, retidas por mais tempo, facilmente aplicadas a outros problemas. 46 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS George Kelly (1905-1967), norte americano, fundou o chamado alternativismo construtivo. Com uma visão materialista (a realidade existe objetivamente fora da consciência), Kelly sugeriu que todas as nossas interpretações do universo estão sujeitas a revisão ou substituição. Para ele, cada indivíduo constrói suas representações do ambiente que vive ou imagina, efetuando aproximações sucessivas em um contínuo aperfeiçoamento, a medida que este se faz necessário: os constructos pessoias. Os construtos mais simples formam sistemas de construtos que vão gradativamente se modificando, a medida que o indivíduo se vê diante de situações que o obrigam a ajustar seus construtos. Apesar de cada indivíduo construir, de maneira idiossincrática, seus próprios construtos, também pode se apropriar de construtos socialmente compartilhados, tais como mitos, teorias científicas, etc. No entanto essa apropriação não ocorre de maneira simples, comumente sofre interferência de outros construtos já consolidados no sistema. Carl Rogers (1902-1987), psicólogo e terapeuta, é outro autor cujas produções na área educacional apresentam vários nuances fenomenológicos. Rogers aplicou as diretivas da chamada terapia centrada no cliente para uma sistema de estratégias educativas. Acreditava que o ser humano possui uma tendência natural para crescer em uma direção que engrandeça sua existência (auto-realização). Para ele não é possível transmitir conhecimentos. O máximo que podemos fazer é procurar facilitar a aprendizagem e por isso objetivo maior da educação deveria ser a facilitação da aprendizagem, de acordo com os seguintes princípios (Moreira, 2003) “1. os seres humanos têm uma potencialidade natural para aprender; 2. A aprendizagem significante ocorre quando a matéria é percebida pelo aluno como relevante para seus próprios objetivos; 3. A aprendizagem que inclui mudanças na própria organização do ‘eu’ – na percepção de si mesmo – é ameaçadora e tende a provocar resistência. 4. As aprendizagem que ameaçam o ‘eu’, são mais facilmente percebidos e assimilados, quando as ameaças externas se reduzem ao mínimo. 5. Quando a ameaça ao ‘eu’ é pequena, se pode perceber a experiência de maneira diferenciada e a aprendizagem pode prosseguir. 6. Grande parte da aprendizagem significante é adquirida através de atos. 7. A aprendizagem se facilita quando o aluno participa responsavelmente desse processo. 8. A aprendizagem autoiniciada, que envolve a pessoa do aprendiz como um todo – sentimentos e intelecto – é mais duradoura e abarcativa. 9. A independência, a criatividade e a auto confiança, se vêem facilitadas quando a autocrítica e a auto-avaliação são fundamentais e a avaliação feita por outros é de importância secundária. 10. A aprendizagem socialmente mais útil no mundo moderno, é o próprio processo de aprender, uma contínua abertura à experiência e à incorporação, dentro de si mesmo, do processo de mudança.” UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 47 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Para Rogers aprendizagem significante é aquela que provoca mudança, seja no comportamento do indivíduo, na orientação da ação futura que elege, em suas atitudes ou em sua personalidade. Trata-se de uma aprendizagem penetrante que não se limita a uma aumento de conhecimento (Rogers, 1978 apud Moreira, op. cit). Os princípios de Rogers foram muito utilizados nas chamadas escolas abertas, implantadas nos EUA durante a década de 60. Hoje poucas dessas escolas se mantém em funcionamento. Joseph D. Novak, outro norte americano, escreveu a segunda edição revisada do livro Educational psychology: a cognitive view e ajudou a difundir a teoria da aprendizagem significativa de Ausubel. Novak coordenou diversas pesquisas educacionais relacionadas ao ensino de ciências e propôs diretivas mais amplas que as considerações estritamente cognitivas de Ausubel. Podemos falar que Novak estava interessado em propor uma teoria sobre educação, onde o conceito de aprendizagem significativa figurava como um elemento essencial: “a aprendizagem significativa subjaz a integração construtiva entre pensamento, sentimento e ação que conduz ao engrandecimento (empowerment) humano.” (Moreira, 2003l:05) Aprendiz, professor, conhecimento, contexto e avaliação são os cinco elementos que devem ser levados em consideração ao analisarmos qualquer evento educativo que, por sua vez, deve implicar em uma ação para intercambiar significados e sentimentos. Nesse processo o professor deve apresentar de forma clara significados que deseja que sejam aprendidos e orientar os alunos a externalizar os que eles assimilaram, até que se alcance a aprendizagem significativa do conhecimento em foco. Novak alerta que aprender de maneira significativa não é sinônimo de aprender corretamente (conhecimentos cientificamente aceitos). Pode haver aprendizagem significativa de conhecimentos ditos do senso comum. Este tipo de evento é responsável pela relativa estabilidade de conhecimentos cientificamente errôneos, geralmente apresentados pelos estudantes. Novak e seus colaboradores formularam diretrizes instrucionais e pesquisaram os efeitos de diversas estratégias de ensino-aprendizagem que facilitassem a aprendizagem 48 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS significativa. Entre as mais disseminadas figuram os mapas conceituais e o digrama em V de Gowin. As considerações de Novak também não podem ser considerada como um exemplo prototípico de uma teoria fenomenológica. Mais a preocupação com elementos afetivos (sentimentos), bem como a utilização de métodos de pesquisa qualitativa para coleta e análise de dados, aproxima mais a teoria de Novak do ponto de vista fenomenológico que do positivismo clássico. Teorias de aprendizagem com influências do materialismo histórico dialético No campo de ensino-aprendizagem, talvez o melhor representante dessa abordagem seja o psicólogo russo Lev S. Vigotsky (1896-1934), que apesar de ter vivido apenas 38 anos, deixou uma obra, escrita nas décadas de 20 e 30, que vêm influenciando diversos pesquisadores da área nos últimos tempos. Apesar de não ter como preocupação principal a elaboração de uma teoria do desenvolvimento infantil, Vigotsky estudou o comportamento infantil para tentar entender o surgimento do uso de instrumentos e da fala (Rego, 1998). Vigotsky focou seus estudos no que ele convencionou chamar de processos mentais superiores (raciocínio, linguagem, comportamento voluntário, etc.). Para ele os processos mentais superiores originam-se da internalização de práticas sociais existentes no contexto onde o indivíduo está localizado. Em outras palavras o desenvolvimento cognitivo é a conversão de relações sociais em funções mentais. Para que isso ocorra é necessário haver uma interação entre o indivíduo e o social. Não há desenvolvimento intelectual fora de um contexto social humano, é através da socialização que ele ocorre. Em seus escritos é possível notar que ele estudou as obras de Piaget. Mas contrário de Piaget, que afirmava que desenvolvimento ocorria independente da aprendizagem, Vigotsky dizia que o desenvolvimento e aprendizagem estão intimamente relacionados, sem um não ocorre o outro. A conversão de relações sociais em processos mentais ocorre de forma indireta, através do processo de mediação, típico da cognição humana. Ou seja a internalização UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 49 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS (apropriação) de instrumentos e signos culturalmente compartilhados. Um instrumento é algo que serve para fazer alguma coisa (lápis, sistemas de escrita, aparelhos, etc.) e signo algo que significa alguma coisa em determinados contexto (expressões faciais, gestos, desenhos, imagens, sons, etc.). O uso de instrumentos e a existência do processo de mediação homemambiente, distingue, de maneira essencial, a raça humana de outros animais. Quanto mais o indivíduo se apropria e utiliza signos mais vão se modificando as operações psicológicas que ele é capaz de realizar. O papel da linguagem é central na teoria de Vigotsky. Para ele a linguagem é o sistema de símbolos mais importante para o desenvolvimento das funções mentais superiores. O gradativo domínio da linguagem permite a gradativa descontextualização e abstração de objetos, fatos e eventos, permitindo que a criança deixe de utilizar objetos concretos como referência. Para Vigotsky existem pelo menos dois tipos de inteligência: a prática e a abstrata. A primeira se refere ao uso de instrumentos e a segunda ao uso de sistemas de signos. Nas primeiras fases da vida da criança essas duas inteligências se desenvolvem separadamente, mas em determinado momento, convergem e interagem dialeticamente, constituindo a essência do comportamento humano complexo. Outro conceito importante na obra de Vigotsky é o de “zona de desenvolvimento proximal”, definido como “a distância entre o nível de desenvolvimento cognitivo real do indivíduo e seu nível de desenvolvimento potencial” (Rivière, 1987 apud Moreira, 2003g:08), que, de forma prática, poderia ser estudada a partir da diferença entre o que o sujeito é capaz de fazer sozinho e o que ele pode fazer com ajuda de outros indivíduos mais experientes. É nesta zona que ocorre o desenvolvimento cognitivo. Segundo Vigotsky, qualquer procedimento utilizado para promover aprendizagem deve possuir um grau de dificuldade um pouco acima do real desenvolvimento cognitivo do indivíduo e não exatamente nesse nível como defendia Piaget. O processo de formação de conceito ocupa um lugar importante nos estudos de Vigotsky, pois, segundo ele, tal processo é fundamental no desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. Trata-se de “um processo longo e complexo, que envolve operações intelectuais dirigidas pelo uso das palavras (tais como: atenção deliberada, memória lógica, abstração, capacidade para comparar e diferenciar).” (Rego, 1998:78). Como base nos estudos 50 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS de mais de 300 indivíduos Vigotsky teorizou sobre a existência de uma espécie de evolução conceitual; que vai desde a formação de “amontoados sincréticos”, adquiridos pela criança mediante o contato com seu meio físico e social e com adultos, de conteúdo concreto e instável, até o chamados “conceitos científicos”, como categorias com alto grau de generalização e conteúdo altamente abstrato. O status de complexidade dessas entidades metaconceituais varia de acordo com o grau de generalidade e hierarquização que elas possuem. As influências do materialismo histórico dialético podem ser identificadas “nas concepções sobre sociedade, trabalho humano, o uso de instrumento, e a interação dialética entre o homem e a natureza que serviram como fundamento principal às suas teses sobre o desenvolvimento humano profundamente enraizado na sociedade e na cultura” (Rego, op cit:32) Outros cientistas deram continuidade aos estudos de Vigotsky, entre eles Alexander R. Luria (1902-1977), Alexei N. Leontiev (1904-1979). A partir da década de 80 idéias de Vigotsky vem influenciando muitos educadores e pesquisadores da área de ensinoaprendizagem entre eles, o já citado, Jerome Bruner, tendo sido responsável pela tradução de algumas obras de Vigotsky para o inglês. Atividade 02 Procure artigos de revistas de pesquisa educacionais disponíveis em bibliotecas de seu município ou em sites, faça uma análise e descreva de forma resumida os seguintes aspectos do artigo: Título Autor(es) Problema investigado Doutrina filosófica subjacente (indicar e comentar) Teoria(s) de aprendizagem de referência Conclusões UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 51 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS REFERÊNCIA Carraher, Terezinha N. (org.) (1991) Aprender pensando: contribuições da psicologia cognitiva para a educação. 6.ed. Petrópolis: Vozes. Carvalho, Anna Maria Pessoa de. (1992) Construção do Conhecimento e Ensino de Ciências. Em Aberto. Brasília:INEP, Ano 11 (55), jul./set.1992. Chalmers, A. F. (1993) O que é ciência afinal? São Paulo: Brasiliense, 1993. p.123-135. Japiassu, Hilton (1992) As paixões da ciência. São Paulo: Letras & Letras. Kneller, G. F. (1978) A ciência como atividade humana. Rio de Janeiro: Zahar Editores. p.54-71. Kuhn, Thomas S. (2000) A estrutura das revoluções cientificas. 5ª ed. Trad. de Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. São Paulo: Perspectiva. Oliveira, M. K. (2000) O pensamento de Vygotsky como fonte de reflexão sobre a educação. Cadernos Cedes. Campinas. n.35. p.11-18. jul/2000. Ostermann, Fernanda (1996) A epistemologia de Kuhn. Cadernos Catarinenses de Ensino de Física. Florianópolis, v.03 (03), p.184 -196, dez/1996. 52 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS UNIDADE 2 ABORDAGENS E ESTRATÉGIAS ALTERNATIVAS PARA O ENSINO-APRENDIZAGEM DE CIÊNCIAS Existem várias formas de ensinar ciências, cada uma dessas maneiras está relacionada com uma abordagem de ensino de ciências. Atividade 03 Antes de darmos continuidade ao nosso estudo, pare um pouco para refletir sobre a sua prática como professor de ciências. Você pode fazer isto refletindo sobre as seguintes questões: Que método(s) de ensino você costuma utilizar em suas aulas? Você está satisfeito com o aprendizado de seus alunos? O que você acha mais importante que o aluno aprenda em sua disciplina? Como você acha que seria a melhor maneira de ministrar aulas de Ciências? Agora que você já refletiu, escreva um memorial contendo as principais lembranças sobre a sua atividade docente e ressaltando as suas reflexões. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 53 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS 1. MAPAS CONCEITUAIS COMO FERRAMENTAS DE ENSINO E APRENDIZAGEM DE CIÊNCIAS A origem da idéia A idéia de interligar conceitos em forma de rede, provavelmente surgiu do pressuposto de que o significado de um conceito está determinado por suas relações com outros conceitos. Esta idéia está na base da chamadas redes semânticas propostas por Quillian (1968 apud Greca, 1999) utilizadas como forma computacional para simular representações mentais. Em meados de 1970, Joseph Novak e seus colaboradores, envolvidos em estudos sobre aprendizagem significativa (Ausubel, Novak e Hanesian, 1980) na Universidade de Cornell, nos Estados Unidos, desenvolveram uma técnica de produção de diagramas formados por termos (conceitos) interligados, que deveriam representar, de forma gráfica, as múltiplas relações existentes entre conceitos envolvidos em determinado assunto. Esses diagramas poderiam servir para explicitar significados atribuídos a determinado corpo de conhecimentos. Tais diagramas foram denominados de mapas conceituais. Para se fazer um mapa conceitual a partir de um corpo de conhecimentos (uma teoria, um artigo, um texto, um tema, etc.) é preciso, basicamente, selecionar os principais conceitos envolvidos e traçar as conexões, que, em geral, são feitas por meio de linhas interpostas com conectivos que devem sugerir a formação de proposições contendo dois ou mais conceitos. É possível utilizar figuras geométricas ou cores para diferenciar as classes de conceitos. Por exemplo, usar retângulos para escrever conceitos mais inclusivos, elipses para conceitos menos inclusivos, triângulos para exemplos, etc. No entanto, tais artifícios, a princípio, são irrelevantes. Assim como as caixas de conceitos, também é possível usar linhas com tracejados diferenciados ou com setas nas pontas para evidenciar alguma variação entre os tipos de relações entre conceitos, mas isso também não deve constituir uma regra. Mapas conceituais, apesar de refletir significados compreendidos, não são autoexplicativos, em geral, devem ser acompanhados de descrições explicativas ou apresentados pelos seus elaboradores, a fim de explicitar as relações entre os termos de maneira mais clara possível. 54 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Diferenças entre mapas conceituais, quadro sinópticos, organogramas e fluxogramas. Muitos professores têm confundido mapas conceituais com quadro sinópticos, organogramas ou diagramas de fluxo. Em uma tentativa de sanar este problema vamos mostrar algumas características de cada uma dessas representações e as suas diferenças entre mapas conceituais. Um quadro sinóptico (Figura 1) exprime o resumo de idéias sobre um determinado tema. Em geral possuem frases, orações ou fórmulas dentro de caixas interligadas por linhas sem conectivos entre si. É muito comum usar quadros sinópticos para facilitar a compreensão de um tema. Por isso talvez muitos professores, não raro, autores de livros didáticos, confundem esse tipo de diagramas com mapas conceituais. Mapas conceituais devem representar relações entre conceitos e não entre frases ou orações. Transformações Estado inicial diferente do estado final As transformações são acompanhadas de efeitos energéticos: absorção ou liberação de energia. Transformação química: altera a natureza do sistema; surgem materiais novos; as propriedades observáveis se modificam. Conservação de energia Existe um equilíbrio entre a energia recebida e liberada. Transformação física: não altera a natureza do sistema; este conserva suas propriedades. Conservação de massa A massa se conserva nas transformações que ocorrem em sistemas fechados. O fluxo de energia e de matéria entre a atmosfera, a litosfera, a hidrosfera e a biosfera, é o responsável pelas transformações que ocorrem na natureza. Muitas transformações que observamos à nossa decorrem também de atividades humanas (antropogênicas). FIGURA 1: Um quadro sinóptico confundido com um mapa conceitual, retirado do manual do professor de um livro didático de química (Silva et al., 2001), Um organograma (Figura 2), como o próprio nome sugere, deve representar a organização de situações, instituições ou processos. Em geral apresentam uma hierarquia fixa, ou seja, os termos possuem necessariamente uma ordenação hierárquica. Os termos, hierarquicamente mais relevantes são colocados na parte superior dos organogramas e o UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 55 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS restante é distribuído na parte inferior, de acordo com sua importância na escala de hierarquia. É comum existir apenas uma conexão entre os termos. Os organogramas não servem para representar a estrutura de organização de conceitos, pois esse tipo de estrutura possui múltiplas conexões entre termos e nem sempre é possível estabelecer uma ordem hierárquica de conceitos. Diretoria Assessoria jurídica Vestuário Departamento de recursos humanos Departamento financeiro Departamento de Marketing Departamento de vendas Eletrodomésticos Setor de recrutamento Compras e negociações Cama mesa e banho Setor de treinamento Controle contábil Calçados FIGURA 2: Um organograma de uma empresa fictícia. Um diagrama de fluxo, ou fluxograma (Figura 3), é utilizado para representar a seqüência de passos de um processo. Em geral, esquematiza etapas e suas respectivas subetapas. Também apresenta poucas conexões entre termos e definitivamente não serve para exprimir significados de um corpo de conhecimentos, tal qual os mapas conceituais. 56 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS FIGURA 3: Um fluxograma de manutenção de equipamentos elétricos. Possibilidades de uso de mapas conceituais FIGURA 4: Mapa conceitual para o núcleo interdisciplinar do 1° ano, elaborado pelos professores Hugo Fernandez, Marta Ramirez e Ana Schnersch em uma oficina pedagógica sobre mapas conceituais realizada em Bariloche, Argentina, 1994. (Moreira, 1999) UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 57 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS O valor educativo do uso de mapas conceituais (Figuras 4 e 5) é muito relevante. Podemos utilizá-lo em praticamente todos os níveis de ensino para tratar conhecimentos de uma aula, um tópico, um tema, uma teoria, um problema, etc. Seu valor enquanto instrumento de aprendizagem reside no fato de que seu uso ajuda na reflexão crítica sobre o conteúdo de um corpo de conhecimentos; na identificação, seleção e classificação de conceitos; na explicitação das múltiplas relações entre conceitos; na organização e apresentação de idéias, entre outras vantagens. Podemos dizer que elaboração de mapas conceituais envolve as mesmas habilidades que a elaboração de uma redação: concentração, reflexão, comparação, síntese, etc. Porém sua natureza esquemática facilita sua produção e possíveis reelaborações. “Na medida em que os alunos utilizarem mapas conceituais para integrar, reconciliar e diferenciar conceitos, na medida que usarem essa técnica para analisar artigos, textos, capítulos de livros, romances, experimentos de laboratório, e outros materiais educativos do currículo, eles estarão usando o mapeamento conceitual como um recurso de aprendizagem” (Moreira, 1999:241) Não existe apenas um mapa conceitual “correto” sobre determinado assunto. Dois mapas conceituais aparentemente diferentes podem evidenciar bom entendimento do assunto. Evidentemente, isso não quer dizer que “tudo vale”, é comum encontrar mapas que nada dizem. Apenas um amontoado de conceitos interligados aleatoriamente. Naturalmente, mapas desse tipo sugerem falta de compreensão. Por isso os mapas conceituais além de recurso de aprendizagem em si, podem também servir como instrumento de avaliação de aprendizagem. Se adequadamente usados podem ajudar a determinar o grau de entendimento dos alunos e a dificuldades de aprendizagem que eles apresentam sobre determinado tema. Além disso, podem ser usados como instrumentos de análise de currículos (Moreira e Buchweitz, 1993) ou ainda para capturar, armazenar, compartilhar ou usar conhecimentos (Novak, 1997) Para ajudar na elaboração de mapas conceituais, vamos apresentar as orientações sugeridas por Moreira (1999:247): 1. Identifique os conceitos-chave do conteúdo que vai mapear e ponha-os em uma lista. Limite entre 6 e 10 o número de conceitos. 2. Ordene os conceitos, colocando o(s) mais geral(is), mais inclusivo(s), no topo do mapa e, gradualmente, vá agregando os demais até completar o diagrama de acordo com o princípio da diferenciação progressiva. Algumas vezes é difícil identificar os 58 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS conceitos mais gerais, mais inclusivos; nesse caso, é útil analisar o contexto no qual os conceitos estão sendo considerados ou ter uma idéia da situação em que tais conceitos devem ser ordenados. 3. Se o mapa se refere, por exemplo, a um parágrafo de um texto, o número de conceitos fica limitado pelo próprio parágrafo. Se o mapa incorpora também o seu conhecimento sobre o assunto, além do contido no texto, conceitos mais específicos podem ser incluídos no mapa. 4. Conecte os conceitos com linhas e rotule essas linhas com uma ou mais palavraschave que explicitem a relação entre os conceitos. Os conceitos e as palavras-chave devem sugerir uma proposição que expresse o significado da relação. 5. Evite palavras que apenas indiquem relações triviais entre os conceitos. Busque relações horizontais e cruzadas. 6. Exemplos podem ser agregados ao mapa, embaixo dos conceitos correspondentes. Em geral, os exemplos ficam na parte inferior do mapa. 7. Geralmente, o primeiro intento de mapa tem simetria pobre e alguns conceitos ou grupos de conceitos acabam mal situados em relação a outros que estão mais estreitamente relacionados. Reconstruir o mapa é útil neste caso. 8. Talvez neste ponto você já comece a imaginar outras maneiras de fazer o mapa, outros modos de hierarquizar os conceitos. Lembre-se que não há um único modo de traçar um mapa conceitual. À medida que muda sua compreensão sobre as relações entre os conceitos, ou à medida que você aprende, seu mapa também muda. Um mapa conceitual é um instrumento dinâmico, refletindo a compreensão de quem o faz no momento em que o faz. 9. Compartilhe seu mapa com colegas e examine os mapas deles. Pergunte o que significam as relações, questione a localização de certos conceitos, a inclusão de alguns que não lhe parecem importantes, a omissão de outros que você julga fundamentais. O mapa conceitual é um bom instrumento para compartilhar, trocar e “negociar” significados. Os mapas conceituais são mais uma entre as várias técnicas de ensino-aprendizagem. Podem ser utilizados para fins diversificados. Naturalmente, no começo, podem surgir UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 59 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS resistências da parte de alguns alunos (dificuldade inicial, preguiça, etc.). Não se preocupe, isso é comum em qualquer mudança de rotina. Para que seus alunos aprendam a fazer mapas conceituais convém fazer sessões de elaboração coletiva de mapas, para que eles aprendam a técnicas básicas de elaboração. Para isso, você pode selecionar, junto com os alunos, um tema que supostamente eles dominem (religião, sexo, drogas, futebol, etc.). Em seguida, peça aos alunos para indicarem 10 conceitos que considerem importantes sobre o tema. Com ajuda dos alunos, trace na lousa o mapa conceitual sobre o tema escolhido. Um jeito de evitar possíveis “brancos” na frente dos alunos é traçar antecipadamente alguns mapas conceituais sobre temas que possivelmente possam ser escolhidos por eles. Não mostre o seu mapa pronto de primeira. Procure traçar na lousa junto com os alunos, depois você pode mostrar os exemplos feitos por você sobre outros temas. Depois disso incentive-os a traçar mapas sobre temas de interesse deles, para que exercitem a técnica. Depois de perceber que já possuem um certo domínio da técnica será possível solicitar que eles tracem mapas sobre temas da matéria estudada. No site: http://cmap.ihmc.us é possível baixar gratuitamente o software Concept Maps Tools desenvolvido para a produção de mapas conceituais em microcomputadores. Este software facilita bastante a construção de mapas para quem tem acesso a microcomputadores. Naturalmente não substitui a criatividades das pessoas envolvidas na elaboração de mapas conceituais. FIGURA 5: Exemplo de mapa conceitual sobre o tema sexo, feito com auxílio do software Concept Maps Tools. 60 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Atividade 04 Trace mapas conceituais: De um assunto/conteúdo que você domina. De um dos tópicos da Unidade I deste módulo. Que contenha os conceitos: interdisciplinaridade, contextualização e conhecimentos científicos, mais alguns que você considerar importantes para dar coerência ao mapa. 2. USANDO A HISTÓRIA DA CIÊNCIA PARA FACILITAR A COMPREENSÃO DE CONHECIMENTOS CIENTÍFICOS A desvalorização da história Não é recente a preocupação de usar elementos da história da ciência na educação escolar. Muito provavelmente os manuais escolares publicados antes do inicio da febre tecnicista tenham explorado alguns aspectos da história da ciência para esclarecer conceitos e processos científicos. O tecnicismo, em nome de uma suposta eficiência educacional (mais conteúdo em menos tempo), entre outras atrocidades, aboliu o uso da história da ciência nas salas de aula do ensino básico em favor da exploração da estrutura lógica do conhecimento. Isso é bastante visível nos livros didáticos publicados de 1950 até meados de 1990, que passaram a apresentar os assuntos da maneira mais fragmentada possível, obedecendo a uma seqüência lógica, supostamente relacionada com a estrutura do conhecimento, deixando totalmente de fora qualquer aspecto histórico. A preocupação excessiva em abordar uma gama enorme de informações prescritas nos currículos oficiais, geralmente solicitadas em exames de seleção; a falta de contato com textos sobre história da ciência; o uso exclusivo de livros didáticos existentes no mercado e a falta de contato com metodologias de ensino alternativas, dentre outros fatores, acabou forçando os professores a optar pela abordagem curricular lógica-estrutural (não histórica). UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 61 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Esta abordagem parte do estudo de conceitos (definições) supostamente mais elementares, geralmente de caráter microscópico e abstrato, para posteriormente abordar teorias mais complexas. Por exemplo, em grande parte dos livros didáticos de química os primeiros capítulos tratam sobre as propriedades dos átomos antes de: tabela periódica, estequiometria química e estudo dos gases, sem nem ao menos citar que só foi possível chegar à teoria atômica moderna depois de descoberta das propriedades dos gases, elementos químicos e algumas de suas propriedades periódicas. Esta herança tecnicista, acaba por se configurar em mais uma dificuldade de aprendizagem para o estudante, pois a compreensão dos ditos conceitos elementares envolve um alto grau de abstração e conhecimentos prévios bem fundamentados sobre cálculos matemáticos. No caso da atomística, no máximo o que se obtêm é a aprendizagem mecânica do método de distribuição eletrônica pelo diagrama de Linus Pauling. Mesmo durante o durante o apogeu tecnicista, existiram autores que defendiam o uso da histórica da ciência como estratégia de melhoria de ensino. Em 1964 James Conant já recomendava o uso história da ciência para ensinar conceitos básicos para estudantes universitários de ciências humanas e sociais. Mais recentemente vários autores, entre eles Gagliard (1988); Matthews (1994); Matthews (1995); Solomon, Duveem e Scott (1994); Stinner (1994); Castro e Carvalho (1992); defendem o uso da história da ciência para a melhoria aprendizagem de conceitos, habilidades e atitudes nos diversos níveis de ensino. Tais estudos alertam sobre o equívoco de grande parte dos autores de livros textos e meios de comunicação em massa, que apresentam aspectos históricos de forma puramente ornamental, onde, em geral, é dado ênfase a uma imagem empirista, ateórica, descobridora e individualista dos cientistas e a ciência como um produto pronto e acabado, fruto de um processo de desenvolvimento cronologicamente linear, política e economicamente neutro. Poucas vezes são explorados aspectos relacionados ao contexto histórico (político, econômico, etc.) da época das formulações, muito menos as contribuições de outros cientistas e os embates travados entre defensores de teorias concorrentes. Isso, de certa forma, ajuda na consolidação de uma visão deformada do trabalho científico. 62 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Vantagens do uso da história da ciência É pedagogicamente desejável que o aluno compreenda e se aproprie do processo de elaboração e defesa de argumentos cientificamente discutíveis do que simplesmente domine mecanicamente informações e técnicas de resolução de problemas estritamente livrescos, do tipo aplicação de fórmulas e regras. O uso da história da ciência pode ajudar os alunos (e professores) a compreender melhor não só as teorias em si, mais também seu processo de elaboração. Dando ênfase a este último aspecto o professor poderá ajudar a desmistificar a imagem dos cientistas e inspirar seus alunos a assumir posicionamentos mais críticos perante teorias científicas, reconhecer seu caráter transitório e passível de refutação futura. Isso talvez tire de circulação jargões do tipo “a química é um conjunto de regras cheias de exceções”, pois o estabelecimento de um diálogo entre a construção do conhecimento pelo aluno e a construção do conhecimento na ciência ameniza a ansiedade de buscar o produto final, a fórmula mágica que tudo resolve ou a definição para ser realçada no caderno e memorizada. Nenhuma informação terá significado se não constituir real elaboração do sujeito que a utiliza (Castro e Carvalho, 1992). A história da ciência também é fonte de contextualização do conhecimento. Neste caso contextualizar teorias científicas passaria necessariamente por um processo de identificação dos problemas práticos que os cientistas centraram suas atenções e o panorama sócio-econômico e político da época do desenvolvimento das teorias científicas em questão. A abordagem histórica, ao tornar explícito este e outros aspectos aproxima os estudantes dos motivos e mecanismos que possibilitaram a elaboração das teorias científicas. Com a expansão das pesquisas de identificação de concepções espontâneas dos estudantes sobre fenômenos naturais e conceitos científicos, alguns estudos (Stinner, 1994; Peduzzi, 1996), concluíram que existem certas semelhanças entre concepções espontâneas e certos modelos pré-científicos desenvolvidos historicamente. Isso serviu como mais um argumento em prol do uso da história da ciência, agora também como parâmetro de planejamento de atividades. Pois, sendo assim, o estudo da evolução histórica do conhecimento, poderá fornecer subsídios para os professores entenderem melhor as dificuldades dos estudantes em compreender significativamente as teorias que substituíram as teorias pré-científicas. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 63 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Como utilizar a HC em sala de aula Se quisermos utilizar a história da ciência para auxiliar o ensino de conceitos, habilidades e atitudes, em hipótese nenhuma devemos centrar na aprendizagem de informações factuais (nomes, datas, etc.) mas procurar explicitar as contradições, embates, argumentos, insights havidos durante o processo de construção das teorias. Também não podemos nos iludir com a idéia de fazer com que os estudantes repitam as experiências clássicas e levá-los a “redescobrir” as teorias científicas. Ao nosso ver, os experimentos clássicos servem mais efetivamente para que os estudantes compreendam melhor os parâmetros usados para elaborar os teorias e inspirá-los a realizar experimentos de refutação. James Conant, já nos anos 60, defendia a seleção de exemplos históricos de desenvolvimento da ciência para ilustrar e discutir como tais conhecimentos nasceram e progrediram, fazendo com que o estudante atinja uma compreensão de ciência pelo contato com os princípios de sua tática e estratégia (Conant, 1960 apud Andrade, 1992). Para ele era importante explicitar: – As dificuldades inerentes aos novos impulsos de progresso; a importância da inauguração de novos processos de pesquisa e seu efeito revolucionário (por exemplo, o uso do telescópio, microscópio, balança, etc.); – Como a experiência, ou a observação, pode produzir novos conceitos e generalizações; – O papel do conhecimento acidental; – O caráter dinâmico da ciência (permanente reformulações); – As relações entre ciência, tecnologia e sociedade. Além de explorar aspectos relacionados estritamente a conteúdos das disciplinas específicas, os professores também podem explorar o desenvolvimento de habilidades relacionadas a interpretação e produção de textos, procedimentos de cálculo matemáticos e representação gráfica de resultados. Aspectos históricos também podem ser úteis para o planejamento e elaboração de trabalhos de iniciação científica. 64 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Sugestões temáticas O ideal ao trabalhar com HC talvez seja usá-la como parâmetro de planejamento e exposição de idéias. A exposição de idéias de acordo com sua evolução histórica pode surtir melhores resultados que a exposição em seqüência lógico-estrutural. Esse pressuposto sugere que a sequenciação temática dos currículos escolares poderiam ser planejadas a partir do estudo da evolução histórica de conhecimentos científicos. Isso exigiria uma reformulação profunda dos currículos e a produção de materiais didáticos adequados a esta nova abordagem didática. Mas se o professor não optar por esta mudança radical, mesmo assim, é possível fazer uso de elementos da história da ciência em sala de aula. O primeiro passo poderia se dar com a exploração, durante um bimestre ou mais, de algum tópico específico de evolução histórica fazendo uso de aulas expositivas ou leitura de textos seguidas de discussão sobre os tema abordado. A partir daí poderiam surgir propostas de aprofundamento, onde, por exemplo, os estudantes poderiam: – Buscar ilustrar os procedimentos (experimentos, demonstrações matemáticas, etc.) pelos quais obtiveram os dados para sustentar os argumentos em pró ou contra determinadas teorias. – Elaborar discussões do tipo “tribunal do júri”, simulando os debates ocorridos entre defensores duas teorias concorrentes. – Repetir, sob outras condições, os procedimentos realizados pelos cientistas e analisar os resultados obtidos. – Buscar explicitar a origem e o significado dos termos utilizados nas teorias. A seguir apresentarem alguns tópicos sugeridos por Hernández González e Prieto Pérez (2000), cujo teor, ao nosso ver, constitui a base para a compreensão da ciência moderna e que podem ser explorados em atividades para os alunos da educação básica. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 65 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS >> EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO CIENTÍFICO – A evolução das idéias sobre natureza da matéria desde os filósofos gregos. – Idéias filosóficas iluministas sobre a natureza e as características do conhecimento científico; Bacon, Descartes, Comte, Marx, Popper, Kuhn, etc. >> QUÍMICA – A Alquimia: breve historia desde a antiguidade a Paracelso. Conceitos e símbolos alquímicos. O papel da Alquimia nas diferentes culturas. Biografias de alquimistas. – O problema da transmutacão dos elementos: a pedra filosofal e a idéia de retirar os metais enfermos. A Alquimia e o hermetismo. A relação da Alquimia com as obras de Platão e Aristóteles. – A transição à química: a obra de Paracelso: a iatroquímica. A figura de Lavoisier: suas experiências - o emprego sistemático da balança: a quantificação de sistemas fechados. O “canto do cisne” da Alquimia: a teoría do flogístico. O nascimento da química. A noção de reação química e a lei de proporções múltiplas de Proust. – As tentativas de elaboração de um sistema de organização de elementos químicos: a formulação da tabela periódica de Mendeleev; >> BIOLOGIA – A geração espontânea – sua história e evolução: dos seres superiores aos microorganismos.Experiências de Redi. Polêmica entre Needham y Spallanzani e sua relação com a biologia do século XIX. – O conflito entre criacionismo e evolucionismo: Darwin y a geração espontânea.repercussão social, implicações políticas e religiosas. A geração espontânea e o vitalismo. – A figura de Pasteur. Suas experiências: a geração espontânea na obra de Pasteur. Influência da experimentação microbiológica no enfraquecimento da idéia de geração espontânea. A polêmica com Felix Pouchet. Conseqüências da obra de Pasteur na biologia, na medicina e na indústria. 66 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS >> FÍSICA – O movimento: as explicações em termos de uma física de lugares naturais. Movimentos naturais e violentos. O motor. Uma física teleológica. – Separando movimentos e forças: Galileu – a inércia. a força não é a causa do movimento mais sim de sua modificação. – Os estudos sobre o calor de Kelvin, Farenheit, Rumfort e as máquinas à vapor. – Forças por contato e ação à distância. Uma física mecanicista: Descartes. Newton e a gravitação. Uma reintrodução das qualidades ocultas? Faraday e Maxwell: a noção de campo de forças. A visão clássica do mundo. >> MATEMÁTICA – A matemática empírica: uma perspectiva antropológica (contar e medir). A invenção da escrita e numeração. A matemática nas culturas antigas: Egito, Babilônia, China e Índia. O método da antiphairesis. – A aritmética na Grécia: a harmonia musical pitagórica. Razão, analogia y proporção. Os números figurados. A divisibilidade. Teoria de pares e ímpares. Teoria dos números primos y compostos. A doutrina pitagórica: as coisas são números. – A geometria na Grécia: os teoremas de Tales e o conceito de simetría.- A determinação de áreas.- As médias proporcionais. A secção áurea. As magnitudes irracionais. – A matemática como ciência teórica: prova, demonstração e aplicação. O método de demonstração indireta. Axiomas, postulados, noções comuns e definições nos Elementos de Euclides. Arquimedes e o método. – Algumas ilustrações da aplicação da matemática aos problemas físicos: a lei óptica da reflexão, a medição de Eratóstenes do raio da Terra, a distância relativa entre a Terra e o Sol e entre a Terra e a Lua segundo Aristarco de Samos. Como qualquer outra inovação no ensino o uso da história da ciência pode causar estranheza e certa resistência por parte de alguns alunos, nada que seja capaz de desanimá-los. Certamente lhe será bem mais interessante ficar sabendo do “porquês” históricos da ciência. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 67 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Atividade 05 Planeje uma ou mais aulas expositivas para tratar de um assunto específico de sua disciplina, fazendo uso da abordagem histórica. Não se esqueça de citar as fontes dos textos que poderão ser utilizados com os alunos Sites e bibliografia sobre história da ciência Chassot, A. A ciência através dos tempos. 2ª edição. São Paulo: Moderna. 2003 Ronan, Colin A. História ilustrada da Ciência, vols. I, II, III e IV. Rio de Janeiro: Zahar. 1987. Ciência para todos - http://lectura.ilce.edu.mx:3000/biblioteca/sites/ciencia/ Ciência Hoje na Escola - http://www2.uol.com.br/cienciahoje/che/perfis.htm Biblioteca do Futuro USP - http://www.bibvirt.futuro.usp.br/ 68 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS 3. EXPERIMENTAÇÃO NO ENSINO DE CIÊNCIAS Você já se perguntou qual a finalidade da utilização de experimento nas aulas de ciências? E quais as vantagens e desvantagens da utilização de experimentos em aulas de Ciências? Refletindo juntos podemos encontrar algumas respostas para esses nossos questionamentos. Sendo assim, vamos pensar um pouco... ...para refletir e escrever Qual a sua opinião sobre o uso da experimentação nas aulas de Ciências? Percebemos então, que o uso da experimentação nas aulas de ciências teve e tem um papel muito importante para o Ensino de Ciências. Porém, muitos professores têm uma concepção um pouco limitada sobre esta forma de ensinar Ciência. Assim, alguns acreditam que a experimentação é muito importante por comprovar a teoria, outros acham que ela é fundamental para aumentar o interesse e motivação do aluno, e existem ainda aqueles que esperam que os alunos construam a teoria a partir da experimentação. Mas, será que estes argumentos são realmente convincentes e suficientes? UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 69 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Vamos então abordar como ocorreu a introdução da experimentação nas aulas de ciências, para que possamos entender o que motivou esta tentativa de mudança na maneira de ensinar Ciência. Como começou? A utilização das atividades práticas em aulas de ciências não é recente. Segundo registros históricos teve início na Inglaterra, no ano de 1882, momento em que se declarava que a formação em ciências deveria ser ministrada, principalmente, por meio de experimentos. No entanto, ao longo dessa trajetória histórica há momentos em que a ênfase experimental é grandemente promovida e, em outros ficando quase que abandonada. A experimentação merece destaque dentro da sua inserção no ensino de ciências nos últimos quarenta anos, onde seu espaço na prática docente e no imaginário do professor ganha caráter de grande relevância para o ensino. Ela alcançou seu ápice quando enfrentou o “ensino tradicional” caracterizado por ser expositivo e memorístico. Isso foi refletido sobre os currículos propostas nos anos 50 e 60, que por sua vez, foram influenciados pelas grandes mudanças como a expansão do conhecimento científico, a industrialização e do desenvolvimento tecnológico, que passava os paises após a Segunda Guerra Mundial. Após a Segunda Guerra a União Soviética desponta no progresso cientifico com o lançamento do Sputnik. Apesar desse avanço técnico-científico, a educação daquela época não havia incorporado a expansão do conhecimento científico desenvolvido durante a Segunda Guerra. Nesse período as Ciências haviam realizado grandes descobertas e, tais descobertas ainda não tinham sido incorporadas no currículo escolar. Ficando, deste modo, a escola com a transmissão aos alunos de informações consideradas ultrapassadas. Fazia-se, então, necessário, mudanças nos currículos escolares visando incorporar os novos conhecimentos produzidos na educação básica e, deste modo, contribuir para o desenvolvimento cientifico, industrial e tecnológico dos países. Isso acarretou mudanças dos métodos de ensino considerados expositivos para os métodos de ensino considerados ativos. Foi aí que a experimentação encontrou grande espaço, na medida em que proporcionava o “aprender fazendo”. No entanto foi incorporado também no ensino a racionalidade da atividade cientifica, como o intuito de formar o jovem cientista. 70 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS No período de 60 á 70 o mundo alcança uma prosperidade no desenvolvimento industrial, porém, no campo político e social se dividem de forma intensa: de um lado o capitalismo e do outro lado o socialismo, originários da guerra fria. Esse fato acarretou uma nova meta ao ensino de ciências, como aponta Krasilchik (1987, p.3) mais um objetivo - permitir a vivência do método cientifico como necessário á formação do cidadão, não restringindo mais apenas á preparação do futuro cientista. Nesse período o ensino e a experimentação no ensino passaram por transformações para “se adequar a mais esse objetivo”. Assim, da observação para a interpretação dos fatos (das teorias), com a manipulação de instrumentos, passa-se para elaboração de hipóteses, identificação de problemas e elaboração de experimentos buscando a aplicação dos resultados. Na década de 70 a 80, o mundo descobre uma herança nefasta do processo de industrialização pelo qual passou nos anos anteriores. Olhando para os resultados desse processo no meio ambiente, a educação ambiental torna-se prioridade, nas discussões das implicações sociais do desenvolvimento cientifico. Entretanto no campo experimental apesar das diferentes propostas desenvolvidas para o ensino de ciências, por vários países, a experimentação permaneceu dentro de uma visão de formar “um jovem cientista” e o método cientifico deveria ser imitado pelos alunos e professores do ensino fundamental e médio. O que se observa a partir dos anos 80 aos dias atuais é um embate no campo educacional entre as idéias propostas pelo empirismo – positivismo (o experimento é usado para comprovar uma teoria) e o construtivismo que transporta para a experimentação atitudes peculiares (a experimentação como meio para se construir um conhecimento). Só a experimentação resolve? Contudo, a utilização de atividades práticas nas aulas de ciências foi criticada por vários autores. Encontramos, por exemplo, nas idéias de Hodson a dúvida do valor pedagógico da experimentação quando afirma que em oposição às expectativas do professor, muitos alunos não demonstram motivação diante de atividades experimentais. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 71 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS O professor precisa perceber a experimentação como elemento essencial nas aulas de ciências, mas que ela por si só, não garante um bom aprendizado. Além disso, devemos ter o cuidado de não criar uma expectativa de que as aulas serão realizadas em laboratórios iguais oas utilizados pelos cientistas, pois as aulas de ciências não necessitam de equipamentos tão sofisticação como os destes laboratórios. O trabalho com experimentos nas aulas de ciências pode contribuir para a melhoria do processo ensino-aprendizagem, proporcionando um resultado melhor do que o feito tradicionalmente. No entanto, em oposição as expectativas do professor, a utilização de experimentos não garante o aumento de interesse por parte dos alunos, pois para que isso aconteça é necessário que a atividade desenvolvida seja interessante e motivadora. Muitos deixam de utilizar a experimentação nas aulas de ciências por falta de laboratório em suas escolas, porém acreditamos que muitas atividades experimentais podem ser realizadas com materiais que estão presentes em nosso dia-a-dia, por exemplo: copos, garrafas térmicas, vidros de maionese, garrafas descartáveis, entre outros. Hodson também destaca que o ensino experimental deve envolver menos prática e mais reflexão. Deste modo a utilização de experimentos requer a emergência da interação e do diálogo em aulas de Ciências. Por um lado, a busca por reflexão em aulas e que envolvem experimentos, abre espaço propício para a superação da visão empirista-positivista da ciência. Por outro lado, o que se ensina e o que passa a fazer parte do processo de aprendizagem é o significado compartilhado no diálogo, na situação concreta de interação. Nesse sentido, vale destacar algumas idéias do psicólogo Lev S Vygotsky, que tem sido frutíferas na compreensão do desenvolvimento e aprendizagem de indivíduos. Segundo Rego (2000) a apropriação das idéias de Vygotsky possibilita um novo modo de olhar a escola, o conhecimento, o professor, o aluno e a sociedade. Não devemos esperar que só pela realização da atividade experimental o aluno expresse as idéias relacionadas aos fenômenos aparentemente apresentadas na situação concreta de realização, ou que aprenda todo o conhecimento que desejamos que ele aprenda, pois a intervenção do professor e o diálogo com os colegas mais experientes são fundamentais para o desenvolvimento do aluno. Além disso, é importante considerar que os alunos trazem para a sala de aula conhecimentos que vão sendo incorporados pelas experiências que vivenciam da cultura da qual fazem parte, pois segundo Hodson (2002, p.4) 72 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS engajar-se em qualquer tipo de atividade de investigação e para descobrir qualquer coisa é necessário trabalhar a partir de esquemas conceituais já existentes. Assim, é necessário considerar os conhecimentos que cada aluno adquiriu, a partir da sua convivência social, sobre o tema em estudo, o que permite, então, discuti-los para que se possa apresentar alguns conhecimentos teóricos que possibilitem a compreensão dos conhecimentos envolvidos no experimento. Ao considerar os conhecimentos prévios dos alunos estamos tentando tornar mais significativo para o aluno o conteúdo que estamos ensinando. Nesse sentido é necessário considerar também a reciprocidade da relação teoria-prática. Essa relação não deve ser vista e tratada nas salas de aula como via de mão única, em que a prática comprova a teoria ou viceversa. “Ao invés da via de mão única, a ciência deve ser vista como uma via de mão dupla. Vão-se dos experimentos as teorias; vem-se das teorias aos experimentos. O importante é que a teoria e o experimento dialoguem [...]” (AMARAL & SILVA, aput SILVA & ZANON, 2000, p. 139). Assim, experimentos podem favorecer aprendizagens de conceitos no ensino das ciências, na medida em que, o papel do professor seja redirecionado no sentido de incentivar os alunos a falarem sobre suas idéias e, assumindo neste contexto a postura de ouvir com paciência, sustentar o raciocínio dos alunos por meio de perguntas, introduzir discretamente, em suas perguntas a palavra que fala ao aluno, criando um ambiente propício ao desenvolvimento cognitivo e afetivo em sala de aula. (CARVALHO, 2001, p.183). Vale ressaltar que os experimentos não despensa o planejamento do professor, que precisa ter definido, entre outras coisas, os objetivo que pretende alcançar com o desenvolvimento do/s experimento/s e, como vai desenvolver o experimento. É importante registrar e compartilhar o desenvolvimento das atividades com os outros professores. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 73 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Durante todo o processo de organização e a concretização da atividade, o professor poderá recorrer a meios para registrar cada momento no desenvolvimento da atividade. Esse registro servirá para que mais tarde o professor possa relatar a atividade desenvolvida como seus alunos para outros colegas e até mesmo para os professores da escola onde trabalha. É necessária que o professor tenha claro e até mesmo redigida a seguinte questão para a sua orientação: o que estou me propondo a fazer? Por que? Para que? Como vou fazer? Para compor o registro da concretização da atividade é importante que o professor organize informações sobre o processo de desenvolvimento, que pode ser feito por escrito e em forma de redação. Essa redação pode conter, por exemplo, o dia e o local em que foi realizada a atividade, o que foi feito, o que se alcançou, as principais dificuldades encontradas na organização e na realização do trabalho, as soluções tomadas, como foi a participação dos alunos, o que os alunos demonstraram compreender. O professor também poderá pedir para os alunos relatarem por escrito e/ou com auxílio de desenhos o experimento que foi realizado, destacando o que compreenderam e a sua opinião sobre o experimento realizado. Este relato poderá servir como registro e avaliação da atividade. O professor também poderá registrar o desenvolvimento da atividade por meio de fotografias, utilizando o gravador para registrar o diálogo do professor com um ou mais grupos de alunos, ou por outros meios que achar conveniente. Orientações inspiradoras Quanto ao desenvolvimento do/s experimento/s, estes podem ocorrer de modo demonstrativo, ou seja, o professor fazendo, apresentando e discutindo com a turma, ou, desenvolvido em grupos de alunos. Se a intenção do professor é desenvolver em grupo, é necessário definir o número de grupos que deverão ser formados. Nesse sentido, a quantidade dos materiais utilizados no/s experimento/s vai variar de acordo com o número de grupos que se deseja formar. É necessário que deste o inicio das atividades os alunos sejam informados sobre o que vai ser feito e como vai ser feito. Inclusive, os próprios alunos podem participar do planejamento, ajudando o professor a adquirir os materiais necessários para o trabalho. 74 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Determinados experimentos podem ser realizados dentro da própria sala de aula e, outros, o professor poderá solicitar que os alunos realizem em sua própria casa, trazendo para a aula observações e anotações feitas, sendo que, se isso ocorrer, o professor poderá auxiliar os alunos em como organizar as anotações (por exemplo, em tabelas). Se o professor for trabalhar com experimentos que exijam a utilização de lamparina ou vela é bom ter acomodado num canto da sala (um local acessível a todos) um caixa de sapado como areia. Caso algum acidente envolvendo fogo aconteça, o professor pode dispor de areia para apagar o fogo. Quando a atividade exigir energia elétrica e o trabalho for desenvolvido em grupo e em sala de aula, é necessário dispor de extensão elétrica. Atividade 06 Você já utilizou a experimentação em suas aulas de ciências? Se a resposta for sim, faça um relato de sua experiência durante estas aulas, descrevendo algumas atividades que foram realizadas e contando a sua opinião em relação a utilização de experimentação nas aulas de ciências. Caso a resposta seja não, diga por que nunca ministrou aulas utilizando experimentos e se tem interesse de utilizar a experimentação em sala de aula. 4. PESQUISA DE INICIAÇÃO CIENTÍFICA: PARA ALÉM DA REDESCOBERTA A necessidade de inovação no ensino de ciências Vivemos cercados por produtos e processos tecnológicos de comunicação, transporte, produção de alimentos, medicina, etc. que dependem profundamente da ciência e da tecnologia. No entanto não é difícil constatar a falta de compreensão de grande parte da população a respeito desses produtos e processos. Essa desinformação, ao longo do tempo, tem contribuído para concentrar cada vez mais poder nas mãos de uma pequena parcela de UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 75 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS indivíduos e aumentar a pobreza e a desigualdade social, servindo de barreira para o desenvolvimento pleno do país. Essa situação vem se agravando a medida que o ensino formal, por uma série de fatores, tem deixado de cumprir seu papel de formar cidadãos críticos bem preparados política e intelectualmente. Os reflexos das deficiências desse sistema são explicitados nos baixos índices de aproveitamento de estudantes brasileiros, divulgados pelo Sistema de Avaliação da Educação Básica – SAEB (2002) e pelo Programa de Avaliação estudantil - PISA- OECD/2003 (Programme for International Student Assessment), principalmente em se tratando de conhecimentos relacionados à área de ciências e matemática e suas tecnologias (PCN, 1998). Processo de ensino baseado predominantemente em aulas expositivas de extensos conteúdos descontextualizados e fragmentados; falta de material didático; excessivo número de alunos por turma; infra-estrutura escolar precária; desvalorização salarial de professores; entre outros, são fatores que historicamente vem sendo apontados como principais causas da má formação de nossos estudantes. Quando nos referimos a região Norte, particularmente ao Estado do Pará, além dos fatores citados devemos adicionar alguns agravantes, tais como a maior extensão territorial em relação a outros Estados e a existência de localidades com difícil acesso, que acentuam ainda mais os problemas de acesso à educação de qualidade para grande parcela da população. Apesar de recentemente o Governo do Estado ter divulgado a viabilização de vagas para mais de 90% da população em idade escolar, ainda enfrentamos sérios problemas nesta área, com altas taxas de analfabetismo, repetência e evasão escolar, carência de professores e má qualidade de ensino. Por isso, muito mais que disponibilizar vagas para todos os indivíduos em idade escolar, a democratização da educação, ao nosso ver, supõe um sistema de ensino formal que efetivamente dê oportunidade aos alunos de se apropriarem de saberes (habilidades, hábitos, atitudes, conteúdos, etc.) que lhe permitam compreender o mundo, reinterpretar sua realidade e nela intervir, de modo autônomo, competente e ético. Para isso, muito além de tentar fazer com que os alunos memorizem conceitos e fórmulas, os professores devem atuar no sentido de estimular o pensamento, desenvolvendo 76 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS no aluno uma postura reflexiva, questionadora e investigadora, não de passiva aceitação do que é estabelecido como verdade. A escola deve propiciar espaços e atividades onde os estudantes tenham oportunidade para pensar, discutir, argumentar e formular suas próprias opiniões sobre conhecimentos científicos, literatura, arte, filosofia e tantos outros conhecimentos relevantes para o desenvolvimento intelectual. Um dos grandes desafios dos professores em geral, e dos de ciências em particular, é elaborar, e por em prática, estratégias de ensino-aprendizagem que sejam capazes de motivar os alunos a estudar. Um aluno motivado consegue superar muitas adversidades e, gradativamente, desenvolver habilidades intelectuais que lhes permitem se apropriar, cada vez mais, de conhecimentos científicos. E é nesse sentido que a realização de pesquisas de iniciação científica (PICs) infanto-juvenis se configura em uma poderosa estratégia de ensinoaprendizagem. Características de pesquisas de iniciação científica infanto-juvenis Quando se ouve falar em iniciação científica é comum se pensar em atividades em laboratórios sofisticados, cientistas experientes, etc. Pensar iniciação científica dessa forma é como pensar a iniciação teatral em grandes teatros com atores consagrados, e ou mesmo a iniciação musical em orquestras famosas. Por outro lado, não podemos confundir a iniciação científica com as maçantes aulas de laboratório do tipo “receita de bolo”, muito menos com a apresentação de experiências copiadas de livros ou da internet, prática comum em muitas instituições de ensino. Esse tipo de abordagem, pode levar o aluno a pensar que as descobertas científicas seguiram passos fixos, pré-determinados, ou ainda que experimentos servem apenas para demonstrar teorias, quando na verdade também servem para refutá-las. A iniciação científica, assim como a iniciação musical, a teatral e tantas outras pode ser perfeitamente realizada na escola, em casa, na praça, etc. Aprender a lógica da ciência pode ser comparado a aprender a tocar um violão ou a representar uma personagem, exige disciplina e dedicação, qualidades apresentadas por aprendizes motivados. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 77 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS A iniciação científica, da forma como defendemos, envolve a busca de solução de problemas concretos de maneira sistemática. O planejamento/execução/apresentação de PIC’s é apontada, por muitos educadores (Frota-pessoa, 1976; Mancuso, 1996; Novak et. al, 2000), como uma eficiente estratégia de ensino-aprendizagem para o desenvolvimento gradativo de habilidades inerentes ao processo de identificação e formulação de problemas; seleção, interpretação e utilização de informações; coleta, tratamento e análise de dados; sistematização escrita de conhecimentos; apresentação e defesa de idéias e execução de trabalhos em equipe. Cabe ressaltar que as PIC’s de que falamos não devem se tratar de trabalhos que consistam simplesmente na apresentação de experiências copiadas de livros didáticos, que predominaram nas feiras de ciências dos anos 70-80, ocasião onde se disseminou a idéia de que a simples repetição dos passos experimentais, supostamente realizados por cientistas, poderia levar o aluno a (re)descobrir as teorias. Esta concepção empirista/positivista de ciência geralmente está associada a crença de que para se fazer pesquisa científica, além de certa titulação acadêmica, o pesquisador precisa ter domínio de sofisticações técnicas, sobretudo de manejo estatístico e informático (Demo, 1992). Além disso para se fazer pesquisa científica é preciso dispor de aparatos técnicos caros sofisticados. Este equívoco atua como mais um fator que acaba afastando os professores de utilizar os caminhos de ensinar (e aprender) pela pesquisa. Contrariando essa visão, concordamos com Pedro Demo, quando este autor defende que “pesquisa é o processo que deve aparecer em todo trajeto educativo, como principio educativo que é, na base de qualquer proposta emancipadora. Uma vez que educar é sobretudo motivar a criatividade do próprio educando” (Demo, 16:1992). Portanto, muito mais que apresentar experimentos curiosos ou fazer os alunos repetirem determinados roteiros de experiências, é necessário esclarecer que a ciência se configura como sistema de interpretação da realidade (ainda que tenha critérios de legitimação na própria realidade), que passa continuamente por aperfeiçoamentos, que não existe método único de produção, e que, acima de tudo, é uma construção humana, portanto, sua produção está diretamente ao contexto histórico e a criatividade de seus autores, não exclusivamente de sofisticações técnicas e métodos previamente padronizados. 78 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Um bom projeto de iniciação científica pode ser iniciado a partir de uma pergunta sobre algum fato, fenômeno ou teoria pelo qual os estudantes demonstrem interesse (problema). A formulação deve ser aperfeiçoada, a medida que se busca informações sobre o mesmo, sempre levando em consideração as possibilidades materiais e o tempo disponível para a realização de uma possível investigação. Uma boa estratégia para a execução da etapa de busca e seleção de informações relacionadas ao problema é a de pedir aos alunos para enumerar em forma de tópicos as informações consideradas importantes para o trabalho (aspectos históricos, classificações préexistentes, teorias relacionadas, aspectos sociais envolvidos, etc.) ao invés de copiar integralmente trechos de livros ou simplesmente fotocopiá-los. Isso ajudará na hora de elaborar o relatório do trabalho. Paralelamente a pesquisa bibliográfica, podem ser formuladas hipóteses a serem testadas e os instrumentos e métodos de coleta de dados, tendo o cuidado de levar em consideração o tamanho da amostra, grau de precisão desejado/possível e a disponibilidade de equipamentos, materiais e tempo. Chega então o momento de organizar e categorizar os dados coletados, isso pode ser feito em forma de tabelas, gráficos ou outras formas de representação que facilitem a compreensão dos prováveis leitores. Nesta fase ocorre a confirmação ou descarte de hipóteses geradas durante a investigação. Tudo, é claro, deve ser detalhadamente anotado. Finalmente após reunir tudo isso chega a hora de organizar tudo em forma de um relatório. Não vamos nos deter nesse aspecto. Um bom roteiro de elaboração de relatório científico de PICs infanto-juvenis pode ser obtido no site do Museu Paraense Emilio Goeldi, no link sobre o Prêmio Marcio Ayres para Jovens Naturalistas (2004). É bom lembrar que as etapas de investigação que foram, de certa forma, descritas separadamente, em geral, não possuem uma sequência fixa. Por exemplo, é possível que durante um estudo (busca de informações) se formule um problema passível de investigação, ou que a partir da leitura de dados já coletados em outros estudos se formule um novo problema e assim por diante. Exposições escolares de Ciência e Cultura como incentivo à realização de PICs e outros trabalhos educativos UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 79 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Uma vez reconhecido o valor das PIC’s na escola básica cabe a nós incentivar sua produção e divulgar os resultados dessas pesquisas para todos os interessados. Daí a importância da realização de eventos onde os professores e estudantes possam apresentar os produtos de seus trabalhos, interagir com outros grupos, trocar idéias e se atualizar pedagogicamente. No entanto, as feiras de ciências ou feiras culturais realizadas em algumas escolas, pouco contribuem para o desenvolvimento intelectual dos alunos. O que predomina nesses eventos é a apresentação de trabalhos, copiados integralmente de livros ou da internet. Em geral os estudantes centram mais atenção na confecção de maquetes, camisas e ornamentações, deixando em segundo plano os conhecimentos científicos relacionados ao trabalho. No fim, o objetivo da feira se reduz exclusivamente a obtenção de parte da nota de um bimestre. Um desperdício de tempo e dinheiro. Entretanto, não podemos simplesmente parar de realizar tais eventos, pois além de seu valor formativo para os alunos, ainda se constituem em ocasiões onde a comunidade pode participar e ver o que acontece na escola. Devemos sim repensar a forma de organizá-los. Talvez uma alternativa seja transformá-los em exposições escolares de ciência & cultura, afinal de contas não se vende nada durante uma feira escolar, se expõem o que foi produzido na escola. Nestas exposições poderiam ser apresentados o resultados dos trabalhos desenvolvidos voluntariamente pelos alunos. Tornar obrigatório a participação como expositores e vincular a apresentação ao acréscimo de pontos, definitivamente tem se mostrado uma estratégia educativa pouco produtiva. É preciso, desde o inicio do ano, motivar os alunos a desenvolverem trabalhos científicos (PICs) e artísticos (peças teatrais, corais, pintura, etc.) e oferecer um espaço para exposição e discussão dos mesmos. Os alunos que, por motivos diversos não se envolvessem no desenvolvimento de algum tipo de produção científica ou cultural, poderiam se orientados a fazerem relatórios sobre os trabalhos que mais gostaram ou críticas àqueles nos quais tenham detectado equívocos ou inconsistências. Dessa forma os professores teriam elementos para avaliar todos os alunos da escola, sem forçá-los a fazer uma coisa pela qual não estão motivados. 80 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Mais algumas considerações Perseverança talvez seja a principal virtude de um(a) professor(a) que deseja ver melhorias na educação. Cabe ressaltar que não podemos esperar que acontecimentos milagrosos ponham fim em todos os problemas educacionais existentes na atualidade. A melhoria da qualidade do ensino só poderá ser alcançada mediante esforço coletivo, não somente de professores, mas da sociedade como um todo. Receitas prontas, entregues em pacotes, em geral, surtem pouco efeito. O que efetivamente pode ocasionar uma melhoria, deve ser construído coletivamente a partir das necessidades, aspirações e realidade social de cada comunidade. Por está razão defendemos uma escola que, além de instancia de instrumentação formal, gradativamente assuma um papel de espaço cultural comunitário, no qual seja possível discutir e efetivar projetos de interesse comunitários, consolidando a escola como referencia de mobilização social, na luta a favor de equidade de direitos e oportunidades para todos. Se conscientizar e combater crenças pedagógicas equivocadas do tipo: os alunos não gostam de estudar porque são preguiçosos; sem laboratório não é possível nem demonstrar experimentos muitos menos se fazer iniciação científica; na prática, a pedagogia mais atrapalha do que ajuda os professores; uma andorinha só não faz verão, e tantos outros jargões ouvidos nas conversas entre professores, talvez seja o primeiro passo a ser dado a caminho de um movimento em prol da melhoria do ensino. Infelizmente não dispomos de receitas prontas, infalíveis e aplicáveis de forma eficaz a todos e quaisquer contextos escolar. Projetos desse tipo já foram aplicados no passado e não tiveram o êxito esperado (pelo menos para professores e alunos). Se você está lendo este tipo de texto provavelmente deve estar inquieto com a situação. E isso já é um bom sinal. Transforme essa inquietude em uma atitude de busca de idéias. Estude. Elabore estratégias. Testa-as e, principalmente, divulgue-as!! Neste movimento, busque parceiros: alunos, professores, diretores, pais... Não se deixe abalar por declarações negativas. Acredite o mundo não é, o mundo está sendo (Freire, 1990). Dar continuidade a mera tentativa de transmissão de conhecimentos fragmentados, descontextualizados e inertes (Frota-Pessoa, 1978) é ceder aos interesses de uma minoria de UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 81 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS indivíduos inescrupulosos que precisam manter a ordem social estabelecida para tirar proveito econômico e político da miséria e da desinformação de uma significativa parcela da população. Pense nisso! E contagie seus alunos com aprender e ensinar pela pesquisa! Atividade 07 Elabore um projeto de iniciação científica infanto-juvenil para ser desenvolvido com seus alunos. De acordo com os seguintes tópicos: Título; Tema; Importância do tema e da idéia de pesquisa; Problema investigado; Hipóteses; Materiais e métodos a serem utilizados; Resultados esperados; Cronograma de execução e Referencias. 5. ABORDAGEM INTERDISCIPLINAR NO ENSINO DE CIÊNCIAS Mono/multi/inter/transdisciplinaridade??? A idéia, um tanto quanto equivocada, de que a fragmentação facilita a compreensão da realidade influenciou profundamente na forma produção e organização dos conhecimentos científicos. Tal simplificação complicou a compreensão de fenômenos mais complexos, gerou preconceitos e até mesmo certa rivalidade entre professores e pesquisadores que atuam nas então denominadas diferentes áreas do conhecimento. Desde a Antiguidade, alguns filósofos alertaram sobre as limitações que esse tipo de visão acabava impondo ao desenvolvimento científico, mas só recentemente começaram a se popularizar os conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Diferentes graus de tratamento de fenômenos e conhecimentos que ultrapassam as barreiras das especialidades disciplinares, para gerar um conhecimento mais completo e abrangente da realidade. Para nos ajudar a compreender esses termos usaremos a definições formuladas por Piaget (1970). 82 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Na multidisciplinaridade, recorremos a informações de várias matérias para estudar um determinado elemento, sem a preocupação de interligar as disciplinas entre si. Assim, ao analisar uma pintura renascentista, podemos usar dados vindos da História, da Química e da Educação Artística. A História conta, por exemplo, quando foi o período chamado Renascimento. A Química descreve a composição do material usado na pintura. A Educação Artística lida com seus aspectos estéticos — as cores usadas, a disposição dos elementos na tela e daí por diante. Neste caso, cada matéria contribuiu com informações pertinentes ao seu campo de conhecimento, sem que haja uma real integração entre elas. Na interdisciplinaridade, estabelecemos uma interação entre duas ou mais disciplinas. No exemplo anterior, haveria interdisciplinaridade se, ao estudar a pintura, relacionássemos o contexto histórico do Renascimento com os temas usados pelos artistas de então e sobre as técnicas empregadas por eles. A análise do material utilizado na pintura poderia ser ampliada para um estudo do desenvolvimento tecnológico ao longo do tempo. Piaget (op. cit.) sugere que o ensino baseado na interdisciplinaridade proporciona uma aprendizagem muito mais estruturada e rica, pois os conceitos estão organizados em torno de unidades mais globais, de estruturas conceituais e metodológicas compartilhadas por várias disciplinas. Já na transdisciplinaridade, a cooperação entre as várias matérias é tanta, que não dá mais para separá-las: acaba surgindo uma nova "macrodisciplina". Um exemplo de transdisciplinaridade são as grandes teorias explicativas do funcionamento das sociedades. Piaget sugere que esse é o estágio de cooperação entre as disciplinas mais difícil de ser aplicado na escola, pois há sempre a possibilidade de uma disciplina "imperialista" sobreporse às outras. Práticas interdisciplinares na ciência e na escola Vamos nos deter um pouco mais sobre a interdisciplinaridade. Ainda que possa parecer algo moderno ou pós-moderno, parece que a idéia é antiga, o termo é relativamente novo, mas essa tentativa de superar uma visão fragmentada dos objetos e dos acontecimentos, de construir conhecimento da totalidade das coisas e de permitir um intercâmbio entre os diversos conhecimentos, é uma atitude bastante antiga. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 83 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS Em Aristóteles por exemplo, encontramos preocupações “interdisciplinares” , quando este, sendo o pai da idéia de dividir as ciências de acordo com os tipos de objetos – para objetos distintos, ciências distintas, que teriam metodologia e linguagem diferentes – percebeu o perigo que isso representava, criando visões parciais da totalidade do mundo. Assim, para superar esses conhecimentos fragmentados, propõe unificá-los numa totalidade explicativa que seria realizada pela filosofia. A discussão aberta por Aristóteles perpassou gerações de pensadores e já no século XVIII assistimos ao surgimento do enciclopedismo, que pode ser considerado uma tentativa interdisciplinar de reter todas as informações sobre o mundo e sobre o homem num único livro, mesmo que com vários volumes. O objetivo era que qualquer indivíduo pudesse ter acesso ao conhecimento até então acumulado. De fato, as tentativas e ações interdisciplinares não são recentes, porém sua prática efetiva tem sido um desafio constante, principalmente no ambiente escolar, onde predomina um tratamento excessivamente disciplinar do conhecimento que dificulta a aprendizagem dos nossos alunos. Tem-se falado muito na necessidade de implementar práticas educativas interdisciplinares na escola básica. No entanto, a falta de infra-estrutura, experiência, a existência de certas rivalidades entre professores, comodismo com a situação atual e até mesmo certa resistência de alguns alunos e professores, têm dificultado a disseminação do uso de práticas educativas interdisciplinares na maioria dos estabelecimentos de ensino básico. Se queremos agir de forma inovadora, devemos nos libertar do individualismo; tomar consciência de que os conteúdos das disciplinas devem vistos como instrumentos culturais, necessários para que os alunos avancem na formação global, e não como fim em si mesmos; centrar esforços para dar as melhores oportunidades para que os alunos se apropriem de conhecimentos o mais espontaneamente possível e não pura e simplesmente tentar força-los a memorizar conteúdos. Se, enquanto educadores comprometidos com a melhoria do processo educacional e conseqüente status social da escola, queremos implementar este tipo de prática em nossa escola, devemos estar cientes que ponto de partida e de chegada de uma prática interdisciplinar está na ação. Desta forma, através do diálogo que se estabelece entre as 84 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS disciplinas e entre os sujeitos das ações, a interdisciplinaridade "devolve a identidade às disciplinas, fortalecendo-as" (Fazenda, 2003) e evidenciando uma mudança de postura na prática pedagógica. Tal atitude embasa-se no reconhecimento da 'provisoriedade do conhecimento', no questionamento constante das próprias posições assumidas e dos procedimentos adotados, no respeito à individualidade e na abertura à investigação em busca da totalidade do conhecimento. Não se trata de propor a eliminação de disciplinas, mas sim da criação de movimentos que propiciem o estabelecimento de relações entre as mesmas, tendo como ponto de convergência a ação que se desenvolve num trabalho cooperativo e reflexivo. Assim, alunos e professores - sujeitos de sua própria ação - se engajam num processo de investigação, (re)descoberta e construção coletiva de conhecimento, que ignora a divisão do conhecimento em disciplinas. Ao compartilhar idéias, ações e reflexões, cada participante é ao mesmo tempo "ator" e "autor" do processo. Mas como e por onde começar... Mesmo estando deliberadamente fazendo uma apologia a interdisciplinaridade não podemos deixar de citar que a mutidisciplinaridade não pode ser deixada de lado, apesar das limitações apontadas por Piaget. Concretizar atividades e práticas educativas neste nível pode ser o primeiro passo no ainda dificultoso caminho em direção a abordagem interdisciplinar e, com esforço, colaboração mútua e união de mentes, à transdiciplinaridade. A partir do momento que assumirmos o compromisso com a mudança, tendo razoável conhecimento em nossas respectivas disciplinas, o primeiro passo em busca da integração disciplinar e conseqüente melhoria do processo de ensino-aprendizagem se dará quando nos comprometermos em assumir de maneira convicta o pressuposto que nós educadores, “somos e temos que ser parceiros, parceiros de outros educadores que entendem a educação como um mecanismo de melhoria da condição social dos educandos, parceiros dos teóricos que lemos, parceiros de nossos alunos, pois em nossa profissão e na vida, de uma forma ou de outra, precisamos atuar em parceria” (Fazenda, op. cit.). Creio que o sentido de um trabalho interdisciplinar está exatamente na compreensão e na intencionalidade da efetivação de novas, melhores e mais consistentes parcerias. Nessa perspectivas é coerente afirmar que a interdisciplinaridade é fruto, muito mais, do encontro UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 85 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS de indivíduos, parceiros com idéias e disposição para o trabalho, do que de disciplinas. E é nessa união que está a semente da mudança. Atividade 08 Você já fez uma atividade educativa interdisciplinar ou multidisciplinar? Caso a resposta seja sim, faça uma descrição de como ela foi executada, quais as dificuldades enfrentadas e quais foram os resultados obtidos. Mas se resposta for não, escreva um planejamento de uma atividade com abordagem inter ou multidisciplinar. 6. AVALIAÇÃO NO ENSINO DE CIÊNCIAS: ENTRE A CLASSIFICAÇÃO EXCLUDENTE E A FORMAÇÃO CIDADÃ. O predomínio da avaliação do tipo classificatória Apesar de muito ouvir falar em avaliações contínuas, qualitativas e emancipadoras não é difícil perceber a nítida predominância do uso de técnicas e pressuposto de avaliação tipicamente tecnicista na maioria de nossas escolas. Onde o foco da avaliação está centrado predominantemente no produto da aprendizagem que, em geral, se trata de informações descontextualizadas que, no máximo, foram memorizadas pelos alunos. Este tópico discute a avaliação escolar como um componente do processo educativo que tem como finalidades orientar o ensino e facilitar a aprendizagem de conhecimentos científicos. A avaliação escolar tem assumido predominantemente a função de verificar o desempenho dos alunos frente a situações padronizadas. Esse desempenho é traduzido em notas de acordo com a maior ou menor proximidade das respostas em relação às normas, classificando os alunos de acordo com seu grau adaptação ao sistema escolar vigente. Isso, além de não contribuir significativamente para a formação da criticidade dos alunos, tem resultado em altas taxas de reprovação e evasão, principalmente das classes populares, que 86 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS dispõem de menos condições materiais para estudar e mais se afastam dos padrões classificatórios estabelecidos (Silva e Moradillo, 2002). Os exames acabam sendo usados mais como instrumento de controle e discriminação social, estigmatizando alunos como inteligentes ou burros, capazes ou incapazes, entre outros rótulos, do que como parâmetros de aperfeiçoamento do processo educativo em determinado contexto. Os professores, diante das dificuldades enfrentadas em sua profissão (salários baixos, precárias condições de trabalho, etc.), fazem apenas o “sempre foi feito na escola” acabam sendo agentes do jogo de discriminações e dominação social (Vasconcelos, 1993 apud Silva e Moradillo, op. cit.). Esta perpetuação do que poderia ser chamado de mentalidade colegial é ressaltada pela exigência, no meio acadêmico, da freqüência do aluno à sala de aula, utilizada, inclusive, como critério de retenção, em algumas ocasiões (Oliveira, 2002). Por outro lado, muitos alunos, diante da dificuldade de se adaptar ao sistema, resistem mediante maneiras alternativas de cumprir as exigências acadêmicas: "Os alunos têm sua atenção centrada na promoção. (...) procuram saber as normas e os modos pelos quais as notas serão obtidas e manipuladas em função da promoção de uma série para outra. (...) O que predomina é a nota: não importa como elas foram obtidas nem por quais caminhos. São operadas e manipuladas como se nada tivessem a ver com o percurso ativo do processo de aprendizagem". Luckesi (1997) O sistema de avaliação classificatória além de contribuir pouco para o desenvolvimento intelectual do aluno não reflete nem mesmo o domínio real de determinadas informações, uma vez que os alunos acabam descobrindo e elaborando outros artifícios para obter as notas que precisam para passar de ano. Apesar das críticas sistemáticas a avaliação classificatória continua predominando no cenário escolar. Para piorar a situação, sistemas de nacionais avaliação tais com o SAEB (Sistema de Avaliação da Educação Básica), impostos aos governos de países em desenvolvimento por organismos internacionais tais como FMI (Fundo Monetário Internacional) e o BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), e todo o sistema de ascensão social por mérito acadêmico, tais como concursos públicos e seleção em grandes empresas, é ainda fundamentalmente baseado neste tipo de avaliação. Porém, não é difícil constatar que, além de debilidades técnicas relativas aos instrumentos de medida e das UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 87 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS dificuldades de avaliar adequadamente aprendizagens mais complexas, os sistemas nacionais de avaliação vêm demonstrando insuficiente aproveitamento das informações produzidas (Ravela, 2000). Contrapontos Abordagens educacionais críticas (Freire, 1985; Demo, 1995; Apple, 1995: Abramowicz, 1995; Hoffman, 2003) apontam para a necessidade de se implementar sistema de avaliação menos seletivo e mais formativo que, além de avaliar o desempenho acadêmico de forma global (conteúdos, habilidades e atitudes), oportunize os sujeitos a construir sua emancipação política e econômica, tomar consciência de seus direitos e deveres para exercer plenamente sua cidadania. Esta perspectiva sociológica é corroborada por estudos psicopedagógicos (Piaget, 1970; Vigotsky, 1973; Ausubel, Novak e Hanesian, 1980; Gardner, 1995) que também conferem especial ênfase à avaliação formativa, com insistência num olhar mais descritivo acerca de como operam os mecanismos de aprendizagem e a construção de conhecimentos pelo aluno. O eixo desloca-se do produto para o processo da aprendizagem, dando elementos para entender e trabalhar o papel do erro na escola; acentua-se o caráter diagnóstico da avaliação; a auto-reflexão do aluno sobre como aprende e o que aprende; a consideração de outras dimensões da avaliação que não a exclusivamente cognitiva; a interatividade no processo avaliativo. Desse ponto de vista a avaliação escolar serve à formação dos alunos e professores para o exercício de seus direitos e a busca da realização de seus desejos. É preciso considerar que cada um chega à sala de aula munido de uma experiência de vida e de uma expectativa em relação à escola distinta dos demais e que vão influenciar sua futura aprendizagem. Não se deve esperar que todos lidem com o conhecimento do mesmo modo, nem que aprendam igualmente. Por isso, não existem padrões pré-definidos para servir de critérios de avaliação. Por isso deve-se valorizar o processo de aprendizagem, concentrar esforços avaliação feita no interior da própria escola pelos atores educacionais, com critérios definidos democraticamente. As principais características e diferenças dos dois tipos de abordagem sobre avaliação são ilustradas no quadro comparativo, proposto por Silva e Moradillo (2002): 88 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS AVALIAÇÃO CLASSIFICATÓRIA AVALIAÇÃO FORMATIVA Realidade: estática e fragmentada Realidade: totalidade que muda Reprodução das relações sociais Transformação das relações sociais Exclusão, controle, estigma Inclusão, compreensão, valorização Critérios padronizados, não explicitados Critérios discutidos coletivamente Ausência de crítica: submissão ativa Crítica: participação criativa Competição entre alunos e professores Cooperação entre alunos e professores Conhecimento e ciência positivista Conhecimento dialético Professor detentor do saber verdadeiro Professor orientador mais experiente Processo: transmissão/recepção passiva Processo: discussão, recepção ativa Avaliação pontual, simples verificação Avaliação processual, cotidiana Resultados: responsabilidade dos alunos Resultados: retroalimentação do processo Instrumento: prova Instrumentos vários E agora? O professor se vê diante de uma situação paradoxal: dar ênfase a uma avaliação do tipo classificatória, própria da sociedade capitalista, ou praticar um ensino que seja capaz oferecer maiores e melhores oportunidades para a conscientização dos sujeitos quanto ao seu papel de cidadão na comunidade em que vive? As dificuldades iniciais em se adotar a segunda opção, sem dúvida, são bastante desafiadoras: os referenciais educativos herdados da nossa própria educação, a falta de experiência e a insegurança, a falta de apoio de muitos colegas e até da direção da escola, a infra-estrutura escolar precária e a baixa remuneração salarial. No entanto, este tipo de prática educativa certamente pode oferecer mais satisfação profissional, uma vez que surta os efeitos desejados e, com o tempo, depois de um certo acúmulo de experiência, passará a ser tão natural quanto os métodos tradicionais. Assumir tal posicionamento não significa abandonar parâmetros de medida, certamente, toda avaliação de aprendizagem requer a verificação de conhecimentos dos alunos. Entretanto, não deve parar por aí. É necessário proceder a análise das informações de modo a elaborar a crítica da aprendizagem e do ensino praticado, pois, se o ensino não UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 89 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS assegura a aprendizagem, tem como função facilitá-la. Mesmo que provisórios, os resultados da ciência devem ser passíveis de entendimento por todas as pessoas, ao menos no nível da alfabetização científica (Chassot, 2000). Porém, o que a ciência nos pode ensinar de mais fecundo é seu próprio processo de produção de conhecimento, que também precisa ser discutido nas escolas em nível introdutório. Ao estudar como os conceitos são construídos e o que explicam, os alunos estão aprendendo como outros aprenderam e podem perceber suas potencialidades, aprender eles mesmos a aprender (Silva e Moradillo, op. cit.). Para isso é preciso definir critérios avaliativos mais abrangentes e democráticos. Qualquer avaliação pressupõe critérios a partir dos quais se valoram os resultados. Muitos crêem que os critérios que utilizam são neutros, imparciais, pois empregam instrumentos supostamente objetivos, como as provas tradicionais. Não é verdade. Os critérios de avaliação estão vinculados à concepção de conhecimento do professor e, portanto, não podem ser neutros nem únicos. A esse respeito André (1996 apud Silva e Moradillo, idem) nos recorda que as “normas e critérios são fruto de uma construção social, mas são difundidos como se fossem a única forma possível de conceber a realidade. E a partir deles são tomadas decisões e definidas ações que afetam destino social dos indivíduos". Para que os critérios de avaliação sejam eficazes devem ser construídos coletivamente por professores e alunos em relação aos objetos de estudo. Inclusão é uma palavra-chave dessa construção (Silva e Moradillo, ibidem) Parece razoável elaborar instrumentos/oportunidades de avaliação, que além de determinar o grau de assimilação de informações, sejam capazes de determinar capacidade dos alunos de expor e defender idéias de forma oral e escrita; capacidade interpretação e aplicação de conceitos em situações concretas; capacidade de trabalho em grupo; responsabilidade, pontualidade e colaboração na execução de tarefas. Para isso devem ser utilizadas diversas estratégias de ensino para diversificar, ao máximo, as possibilidades de aprendizagem dos alunos. As aulas expositivas podem predominar, mas de uma forma mais dialogada, tendo por finalidade introduzir assuntos novos, propor sínteses dos assuntos estudados e manter o rumo dos objetivos planejados. Nas discussões coletivas que seguem às exposições, podem ser trabalhadas situações-problema próprias da disciplina. Nessas ocasiões, pode se fazer uso de elementos da história da ciência para explicitar as dificuldades históricas e as idéias pré-científicas e/ou mapas conceituais 90 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS podem ser utilizados tanto como facilitadores da troca de significados e como instrumentos de avaliação. Além das provas bem elaboradas, exposições orais, textos, mapas conceituais e outras produções, podem servir de objeto/instrumento de avaliação. Um critério de avaliação muito importante é o compromisso com o trabalho na disciplina: é preciso que cada um cumpra suas tarefas dentro dos prazos acordados, que traga as dúvidas resultantes do estudo para discussão em sala, que procure evidenciar as dificuldades de aprendizagem e as falhas do ensino. Dessa forma o professor terá subsídios para detectar as dificuldades que cada aluno precisa para compreender significativamente conceitos, internalizar procedimentos e atitudes e romper com a prática habitual de avaliar simplesmente a capacidade de repetir ou aplicar mecanicamente os conceitos teóricos. Ao final, a avaliação pode e deve convertesse em um instrumento de melhoria do ensino e também um mecanismo efetivo de retroalimentação para o próprio desenvolvimento curricular (Moreira, Gil e Garret, 1992). Atividade 5 Elabore uma atividade de ensino e seu respectivo método de avaliação, com uma abordagem de avaliação do tipo formativa. Proponha uma ficha de avaliação de aprendizagem dos alunos, que compreenda as várias capacidades sugeridas no texto e possa ser utilizada com seus alunos. UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 91 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS 7. MÃOS À OBRA Lembre-se, o conteúdo que abordamos neste módulo teve o objetivo de lhe possibilitar uma reflexão acerca de suas concepções e práticas como professor(a) de Ciências. Ciente de algumas possibilidades de inovação chega a hora de colocá-las em prática. Para isso, selecione uma ou mais atividade educativa utilizando uma ou mais estratégias de ensino abordadas neste módulo, faça as adaptações as quais julgar necessárias, de acordo a realidade local e infra-estrutura disponível. Depois de aplicá-la faça um registro detalhado desta experiência de ensino. Os conhecimentos apresentados neste módulo podem e devem servir como referência para a fundamentação teórica e/ou justificativa de projetos políticos pedagógicos, monografias de especialização, tcc’s, projetos de feiras de ciências e outros projetos e práticas educativas que visem a melhoria do ensino de ciências. Agora, mãos à obra e sucesso neste desafio! 92 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS REFERÊNCIA Abramowicz, M. (1995) Avaliação da aprendizagem de trabalhadores-estudantes: buscando novos caminhos. Estudos em Avaliação Educacional. n.11. junho/1995. p.113123. Asti-Vera, A. (1980) Metodologia da Pesquisa Científica. Porto Alegre: Globo. Axt, R. (1991) O papel da experimentação no ensino de ciências. In: Moreira, M. A.; Axt, R. (orgs.). Tópicos em ensino de ciências. Porto Alegre: Sagra. p.79-90. Castro, R. S. e Carvalho, A. M. P. 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UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ NÚCLEO PEDAGÓGICO DE APOIO AO DESENVOLVIMENTO CIENTÍFICO – NPADC 93 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS 94 PROGRAMA EDUCIMAT: FORMAÇÃO, TECNOLOGIAS E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS EM EDUCAÇÃO EM CIÊNCIAS E MATEMÁTICAS ANO 2005 METODOLOGIA DO ENSINO DE CIÊNCIAS: CONCEPÇÕES E PRÁTICAS REFERÊNCIAS Abramowicz, M. (1995) Avaliação da aprendizagem de trabalhadores-estudantes: buscando novos caminhos. Estudos em Avaliação Educacional. n.11. junho/1995. p.113123. Apple, Michael W. (1982) Education and Power. New York: The Macmillan Co. Apple, Michael W. (1999) Escolas democráticas: currículo, políticas e práticas. Lisboa: Porto Editora. Asti-Vera, A. (1980) Metodologia da Pesquisa Científica. Porto Alegre: Globo. Ausubel, D.; Novak, J.; Hanesian, H. (1980). Psicologia Educacional. Rio de Janeiro: Interamericana. Axt, R. (1991) O papel da experimentação no ensino de ciências. In: Moreira, M. A.; Axt, R. (orgs.). Tópicos em ensino de ciências. 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