1 ESTADO ATUAL DA QUALIDADE DO LEITE NO RIO GRANDE DO SUL João Walter Dürr1, Darlene Veturini Moro2, Vilson Rheinheimer3, Tiago Tomazi4 Serviço de Análise de Rebanhos Leiteiros/UPF - Passo Fundo, RS RESUMO O monitoramento da qualidade do leite cru previsto na Instrução Normativa no 51, de 2002, do MAPA, é realizado no Rio Grande do Sul pelo Serviço de Análise de Rebanhos Leiteiros, da UPF, laboratório que presta serviços de análise à cadeia produtiva desde 1997. Com o intuito de se avaliar a qualidade do leite produzido no Rio Grande do Sul no primeiro ano de vigência dos novos regulamentos (julho de 2005 a junho de 2006), os resultados analíticos de 488.359 amostras de tanque refrigerador foram reunidos no presente estudo, onde se apresenta as médias aritméticas e desvios padrão para os principais componentes do leite, as médias geométricas para contagem bacteriana total e para contagem de células somáticas, além da proporção de amostras fora dos limites estabelecidos como mínimos ou máximos pela legislação. Os principais problemas observados foram os baixos teores de sólidos não gordurosos e as altas contagens bacterianas, indicando a necessidade de se investir em alimentação animal, higiene, refrigeração e nas estratégias de coleta do leite cru. PALAVRAS-CHAVE Gordura, proteína, sólidos não gordurosos, contagem de células somáticas, contagem bacteriana total INTRODUÇÃO O Serviço de Análise de Rebanhos Leiteiros (SARLE) foi criado pela UPF em 1995, quando a entidade logrou êxito em captar recursos da Fundação Banco do Brasil, a fundo perdido, para a aquisição da primeira linha de equipamentos de análise para composição centesimal e para contagem de células somáticas (CCS). A iniciativa pioneira da APCBRH serviu de referência para a UPF, sendo o SARLE o segundo laboratório do gênero implantado no Brasil. O foco principal do projeto que fundamentou a busca de recursos financeiros foi a implantação de um programa abrangente de controle leiteiro nos rebanhos gaúchos. Em outubro de 1997, contudo, os serviços do SARLE passaram a ser prioritariamente utilizados pelas indústrias e cooperativas do estado para fins de controle de qualidade da matéria-prima adquirida por estas empresas. Já em 1998, a UPF adquiriu, com recursos próprios, a segunda linha de equipamentos de análise para composição e CCS, visto que o número de amostras recebido pelo SARLE já havia ultrapassado a casa das 40 mil unidades mensais, demanda que não podia ser atendida com apenas uma linha de equipamentos. Desde 1998 também, o 1 Eng.-Agr., Ph.D., Professor da UPF, [email protected] Quim., Gerente Técnica do SARLE/UPF, [email protected] 3 Acadêmico de Medicina Veterinária na UPF, [email protected] 4 Acadêmico de Medicina Veterinária na UPF, [email protected] 2 Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 2 SARLE vem participando do grupo de trabalho que assessorou o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) na criação e estruturação da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite (RBQL), responsável pelos serviços de monitoramento da qualidade do leite conforme previsto na Instrução Normativa no 51, de 2002. Devido à necessidade de se realizar também o controle da qualidade microbiológica do leite cru recebido pelas indústrias, o MAPA realizou um investimento nos laboratórios credenciados à RBQL, cabendo ao SARLE uma contadora eletrônica de bactérias que entrou em operação efetiva a partir de 2004. Após o início da vigência da IN51/2002, em julho de 2005, o SARLE não tem sido capaz de atender a demanda regional para contagem bacteriana total (CBT), levando a UPF a novamente investir recursos próprios na aquisição de mais um equipamento para tal finalidade, o qual deverá entrar em operação já em novembro de 2006. O mês de setembro de 2006 representou um recorde no número de amostras processadas do SARLE, ultrapassando as 100 mil unidades somando-se amostras de controle leiteiro e amostras para controle de qualidade (composição e CCS + CBT). No que se refere ao volume de amostras, o SARLE é o maior laboratório do gênero no país desde 1998. O Programa de Gerenciamento de Rebanhos é um programa não oficial de controle leiteiro, o qual depende fundamentalmente da existência de parcerias que o incorporem como parte de sua estratégia de assistência técnica aos produtores rurais. Neste sentido, o momento mais próspero vivido pelo programa ocorreu entre 1998 e 2002, quando um grupo significativo de cooperativas criaram grupos de assistência, no qual cada técnico extensionista ficava ligado a um grupo de aproximadamente 25 produtores, e adotava o controle leiteiro do SARLE como seu principal instrumento de diagnóstico e acompanhamento do gerenciamento dos rebanhos assistidos. Após algumas mudanças conjunturais que levaram ao afastamento das cooperativas da captação direta do leite de seus associados, as parcerias perderam força e muitos rebanhos deixaram de realizar o controle. Persistem ainda em torno de 450 rebanhos ativos, e tem-se convicção de que este número somente será mais representativo se novas parcerias forem estabelecidas, pois a universidade deve limitar-se à prestação de serviços laboratoriais e ao fornecimento de relatórios de manejo, enquanto a assistência técnica deve ficar a cargo de outros atores da cadeia. O Programa de Controle de Qualidade do Leite do SARLE, hoje a serviço do MAPA para o cumprimento da IN51/2002, possui características próprias em relação aos demais estados da federação. Ao passo que no resto do país a adesão ao controle de qualidade por parte das empresas somente ocorreu de forma significativa após a entrada em vigor da IN51/2002, no Rio Grande do Sul esse tipo de monitoramento vem sendo realizado em grande escala desde 1997. Com isso, a amostragem mensal dos tanques refrigeradores já foi incorporada na cultura do setor leiteiro gaúcho, tendo havido apenas uma adesão de novas empresas ao sistema com a vigência dos novos regulamentos. Tal hábito não significa que os programas de melhoria da qualidade do leite de todas as empresas tenham avançado conforme a expectativa neste período. Ainda há muito o que fazer para que a cultura da qualidade do leite seja incorporada tanto por indústrias quanto por produtores rurais. O Rio Grande do Sul é um estado onde a produção leiteira é realizada tipicamente por micro-produtores, com escala diária média em torno de 60 L. Sendo o terceiro maior produtor de leite da federação, estima- Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 3 se a existência de 70 mil produtores de leite formais no estado, o que dificulta sobremaneira a implantação de programas de melhoria da qualidade do leite. O anúncio recente de que três novos e grandes investimentos em plantas processadoras serão realizados no estado até 2008, indica que a tendência de redução no número de produtores verificada na maior parte dos estados grandes produtores não ocorrerá no Rio Grande do Sul no curto prazo. Dentre as dificuldades hoje enfrentadas para a melhoria da qualidade do leite no estado, destaca-se a falta de profissionalismo do serviço de transporte do leite das propriedades para a indústria. Enquanto as indústrias não quebrarem os laços diretos entre os transportadores e os produtores de leite através de uma logística de coleta que sirva aos interesses da indústria (roteirização), dificilmente as políticas de melhoria da qualidade do leite prosperarão de fato. Cabe ainda observar que o SARLE tem atendido uma demanda crescente de laticínios catarinenses, além de empresas de inspeção estadual e municipal, o que explica a diferença entre o número de amostras incluídas no presente estudo e o volume total de amostras processadas pelo laboratório. Este trabalho se propõe a apresentar os indicadores de qualidade da matéria prima recebida pela indústria de laticínios gaúcha no primeiro ano de vigência da IN51/2002, ou seja, de julho de 2005 a junho de 2006, servindo de subsídio para que se discuta as ações futuras a serem adotadas no Programa Nacional de Melhoria da Qualidade do Leite (PNQL). MATERIAL E MÉTODOS A Tabela 1 mostra que, a partir do investimento recente realizado pela UPF em um contador eletrônico de bactérias, a capacidade instalada do SARLE passou a ser compatível com a demanda estimada para atender o previsto na IN51/2002 em número de amostras mensais, desde que sejam implementados três turnos diários de operação para CBT. Os dados de CBT apresentados no presente estudo são ainda oriundos de apenas um equipamento de análise. Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 4 Tabela 1 – Capacidade instalada no SARLE e demanda gerada no Rio Grande do Sul pela IN51/2002 em outubro de 2006. REFERÊNCIA COMPOSIÇÃO CCS CBT Equipamentos 2 2 2 Marca/Modelo Bentley Bentley Bentley Bactocount IBC Modelo Bentley 2000 Somacount 300 150 Espectroscopia no Citometria de Citometria de Tecnologia infravermelho fluxo fluxo Amostras/hora/equipamento 300 300 150 Capacidade (amostras/hora) 600 600 300 Horas efetivas/dia 8 8 10 Dias efetivos/mês 22 22 22 Capacidade Mensal (amostras/mês) 105.600 105.600 66.000 Demanda Mensal Estimada para atender a IN51/2002 (amostra/mês)1 70.000 70.000 70.000 a Cabe ressaltar que o SARLE ainda atende alguns laticínios catarinenses e rebanhos em controle leiteiro. A equipe de funcionários do SARLE é constituída de um professor coordenador, uma química que acumula a responsabilidade técnica e a gerência da qualidade, uma química recém-contratada para dividir a responsabilidade técnica, oito auxiliares de laboratório (três recém-contratados), um auxiliar administrativo para operações de campo, dois auxiliares administrativos para digitação e confecção de laudos e dois estagiários (um no laboratório e outro na secretaria). Com exceção do professor, todos as despesas com recursos humanos devem ser necessariamente viabilizadas pelos serviços de análise, não havendo aporte de recursos do caixa da UPF para tal fim. A Figura 1 apresenta o número de amostras cujos resultados de ensaio analítico foram incluídos no presente estudo. Os dados incluídos foram aqueles relativos a tanques refrigeradores de propriedades leiteiras situadas no estado do Rio Grande do Sul, processadas no SARLE entre 1º de julho de 2005 e 30 de junho de 2006. Pelos critérios de edição adotados, manteve-se apenas os resultados analíticos de amostras com teor de gordura entre 2 e 5,5%, teor de proteína entre 2 e 5%, teor de lactose entre 3 e 6,5% e teor de sólidos não gordurosos acima de 6,5%. Amostras destinadas a análise microbiológica que chegaram ao laboratório a temperaturas acima de 10º C não foram analisadas. Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 5 RESULTADOS E DISCUSSÃO Composição centesimal A Figura 2 mostra as médias aritméticas mensais para os teores de gordura, proteína, lactose e SNG. Apesar de tratar-se de apenas um ano completo de análises, os resultados indicam uma variação sazonal dos resultados que é coerente com observações de anos passados no Rio Grande do Sul (Dürr, 2003; NORO et al., 2006). Dentre os componentes, a gordura é a que apresenta a maior variabilidade sazonal, o que é atestado pela Tabela 2. Em linhas gerais, observou-se uma depressão dos teores de gordura e proteína nos meses de primavera e verão e um aumento destes componentes no outono (abril e maio). As principais causas para essa variabilidade parecem estar nas condições ambientais a que estão submetidos os rebanhos, principalmente ao que se refere a temperatura, umidade e tipo de forrageiras disponíveis. Outro fator que está relacionado com o aumento dos percentuais de gordura e proteína no outono é a queda na produção de leite normalmente verificada nesta época devido ao chamado “vazio outonal” do Rio Grande do Sul (época do ano em que as pastagens de verão já encerraram seu ciclo e as pastagens de inverno ainda não apresentam condições adequadas de pastoreio). A queda na produção provoca um efeito de “concentração” do leite, oposto ao que ocorre em épocas de alta produção, onde os componentes do leite reduzem seus teores por “diluição” do leite. A lactose apresentou a menor variabilidade entre os componentes principais do leite e uma tendência oposta à da gordura e proteína, sendo reduzida nos meses de outono. Já os sólidos não gordurosos apresentaram uma forte queda no verão (janeiro), o que provavelmente está relacionado à qualidade da dieta disponível aos animais nessa época do ano. Tabela 2 – Desvios padrão observados para os componentes do leite nos meses analisados. Mês/Ano Gordura (%) Proteína (%) Lactose (%) SNG (%) julho/2005 0,5690 0,2577 0,2085 0,4029 agosto/2005 0,5627 0,2501 0,1991 0,3957 setembro/2005 0,5815 0,2695 0,2110 0,4034 outubro/2005 0,5617 0,2578 0,2087 0,3965 novembro/2005 0,5724 0,2540 0,2049 0,3949 dezembro/2005 0,5694 0,2426 0,2089 0,3922 janeiro/2006 0,5577 0,2145 0,2023 0,3652 fevereiro/2006 0,5783 0,2238 0,2090 0,3840 março/2006 0,5848 0,2428 0,2165 0,3973 abril/2006 0,5846 0,2489 0,2216 0,4144 maio/2006 0,5971 0,2557 0,2374 0,4236 junho/2006 0,5943 0,2426 0,2180 0,4109 Em termos absolutos, as médias dos componentes do leite revelaram que há muito a ser feito nos rebanhos gaúchos, principalmente no que concerne à lactose e aos sólidos não gordurosos (SNG). Os teores médios de lactose têm se apresentado extremamente reduzidos Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 6 (entre 4,28 e 4,43%) em relação às médias observadas em outros países que giram em torno de 4,7%. As razões para tal discrepância ainda são desconhecidas, mas a conseqüência imediata é a redução proporcional dos SNG, cujo teor médio chegou a 8,22% no mês de janeiro. Considerando que a exigência mínima na IN51/2002 é de 8,4%, os produtores gaúchos estão tendo grandes dificuldades para se adequarem a este item da legislação. A Figura 3 dá uma idéia do tamanho do problema através da proporção de amostras em não conformidade com a IN51/2002 para gordura, proteína e SNG. O problema foi mais grave no verão, quando o percentual de amostras não conformes chegou a 71,23% (janeiro) somente no item SNG. Mais do que a preocupação com a adequação aos padrões exigidos pela IN51/2002, o setor leiteiro gaúcho deve preocupar-se com as perdas econômicas que esses baixos teores de sólidos no leite representam em termos de rendimento industrial para produtos como leite em pó, leite condensado e queijos. Tal diagnóstico requer ações urgentes da extensão rural e das empresas captadoras para que seja revertido. As entidades que realizam assistência técnica e promovem formação de recursos humanos no meio rural devem estabelecer o aumento no teor de sólidos como prioridade em seus programas, e as empresas compradoras de leite devem estabelecer políticas de valorização dos sólidos no leite que realmente estimulem os produtores rurais a investirem nisso. Qualquer simulação sobre o impacto econômico do aumento nos teores de sólidos no leite a ser processado mostrará o quanto essas medidas valem a pena. Qualidade microbiológica e contagem de células somáticas A Figura 4 mostra as médias geométricas mensais de CCS e CBT nos rebanhos gaúchos. Considerando-se os limites máximos vigentes na IN51/2002 para esses dois critérios analíticos - 1 milhão de células/mL e 1 milhão de UFC/mL - logo salta aos olhos que a CCS não se constitui um entrave imediato, e que o maior problema na qualidade do leite produzido no Rio Grande do Sul hoje é a sua alta carga microbiana. Uma vez que a média geométrica da CBT no estado ficou acima do máximo estabelecido em sete dos doze meses analisados, torna-se urgente um trabalho de conscientização dos produtores rurais gaúchos de que o problema existe e deve ser resolvido. A Figura 5 mostra detalhadamente a proporção de amostras em não conformidade com a IN51/2002, discriminando-se não apenas o critério atual, mas os já previstos até a fase final de implantação dos novos regulamentos técnicos na Região Sul, em 2011. Variando entre 31,9% (junho) e 64,4% (janeiro), o total de amostras acima de 1 milhão de UFC/mL mostra que o desafio posto é a promoção de uma profunda mudança cultural na cadeia produtiva do leite. Sabe-se que altas CBT no leite cru são frutos da falta de higiene na ordenha, de deficiências no sistema de refrigeração do leite e da permanência do leite na propriedade por períodos demasiadamente longos. Ou seja, para resolver o problema da baixa qualidade microbiológica do leite, precisa-se mudar a maneira de se produzir o leite, revisar as tecnologias de refrigeração utilizadas e aumentar a freqüência de recolhimento do leite. Todas estas mudanças requerem decisões estratégicas não apenas dos proutores rurais, mas também das indústrias de laticínios. Novamente cabe o comentário de que o cumprimento dos critérios Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 7 legais estabelecidos na IN51/2002 não é o principal motivo de preocupação para a cadeia, mas sim os prejuízos associados à baixa qualidade microbiológica do leite, a qual aumenta os riscos para a saúde dos consumidores de produtos lácteos, além comprometer a vida de prateleira e as características organolépticas do leite pasteurizado e de outros produtos frescos. Investimentos na melhoria da qualidade do leite certamente geram retornos financeiros à cadeia produtiva. A Figura 6 apresenta a proporção de amostras não conformes aos valores máximos de referência estabelecidos para cada etapa da implantação da IN51/2002. Enquanto entre 10,6 e 18,0% das amostras apresentaram-se acima de 1 milhão de células/mL (limite atualmente vigente), apenas entre 38,9 e 52,3% das amostras estariam de acordo com o padrão a ser exigido a partir de 2011 (400.000 células/mL). Como CCS reflete a saúde das glândulas mamárias nos rebanhos amostrados, qualquer esforço para sua redução envolve o controle e a prevenção da mastite, doença presente em todos os rebanhos e de difícil manejo. O grande prejuízo causado pela mastite aos produtores é a redução significativa na produção de leite, enquanto para a indústria a doença significa alteração na composição do leite, perdas em rendimento industrial e comprometimento da qualidade dos produtos derivados. Prevê-se, portanto, que apesar da prioridade do momento ser a redução da CBT, produtores já devem iniciar o esforço na prevenção da mastite para não se colocarem fora dos limites legais nas próximas fases da IN51/2002. CONCLUSÕES Os dois maiores problemas na qualidade do leite cru dos rebanhos gaúchos são os baixos teores de SNG e as altas CBT. Os esforços da cadeia produtiva devem se concentrar em estratégias de alimentação das vacas leiteiras, na adoção de práticas de ordenha mais higiênicas, no estabelecimento adequado da cadeia do frio e na revisão das estratégias de coleta do leite nas propriedades. O primeiro ano de monitoramento oficial da qualidade do leite mostra as deficiências claramente, o que serve de subsídio para o estabelecimento de políticas públicas e de estratégias empresariais que garantam alimentos mais seguros e saborosos aos consumidores brasileiros, bem como viabilizem a conquista de novos mercados. REFERÊNCIAS DÜRR, J. W. Panorama da qualidade do leite na Região Sul (RS) In: Diagnóstico da qualidade do leite, impacto para a indústria e a questão dos resíduos de antibióticos..1 ed.Juiz de Fora : Embrapa Gado de Leite; Epamig/CT/ILCT, 2003, p. 9-17. NORO, Giovani, GONZÁLEZ, Félix H D, CAMPOS, Romulo, DÜRR, J. W. Fatores ambientais que afetam a produção e a composição do leite em rebanhos assistidos por Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 8 cooperativas no Rio Grande do Sul. Revista Brasileira de Zootecnia-Brazilian Journal of Animal Science. , v.35, p.1129 - 1135, 2006. Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 9 35000 30324 29302 30000 28837 27248 26763 25470 25181 Amostras 25000 24103 23777 20000 23775 23136 23358 18364 16895 17166 16731 15213 14974 13512 15000 12206 11339 14324 14324 abr/06 mai/06 12037 10000 5000 0 jul/05 ago/05 set/05 out/05 nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 Composição e CCS CBT mar/06 jun/06 5,0 8,6 4,8 8,4 4,6 8,2 4,4 8,0 4,2 7,8 4,0 7,6 3,8 7,4 3,6 7,2 3,4 7,0 3,2 6,8 3,0 6,6 % % Figura 1 – Número de amostras cujos resultados analíticos foram incluídos no estudo, discriminadas por mês e por tipo de amostra. jul/05 ago/05 set/05 out/05 nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 mai/06 jun/06 Gordura 3,7554 3,6707 3,7115 3,5497 3,5322 3,4883 3,4878 3,5928 3,7479 3,8687 3,9267 3,8136 Proteína 3,1847 3,1328 3,1391 3,0628 3,0280 3,0135 3,0235 3,0970 3,1472 3,2008 3,2333 3,1718 Lactose 4,3913 4,4294 4,4242 4,4098 4,3518 4,3592 4,3372 4,3368 4,3008 4,2795 4,2833 4,3336 8,5558 8,5461 8,5589 8,4314 8,3317 8,3134 8,2172 8,3165 8,3564 8,3950 8,4399 8,4210 SNG Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 10 Figura 2 – Médias aritméticas mensais para componentes do leite em amostras de tanque refrigerador de propriedades leiteiras localizadas no Rio Grande do Sul analisada pelo SARLE entre julho de 2005 e junho de 2006. 100,0% 90,0% 80,0% 70,0% 60,0% 50,0% 40,0% 30,0% 20,0% 10,0% 0,0% Gordura jul/05 ago/05 set/05 out/05 nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 7,33% 8,95% 8,63% 12,93% 13,49% 16,03% 16,44% 11,85% 8,06% 5,63% mai/06 jun/06 5,42% 7,26% Proteína 10,76% 15,03% 16,38% 24,61% 29,83% 31,29% 28,64% 16,36% 12,91% 8,90% 7,53% 10,88% 31,95% 33,02% 31,42% 44,77% 57,41% 59,28% 71,63% 59,33% 54,05% 49,18% 44,23% 45,42% SNG Figura 3 – Proporção de amostras de tanque refrigerador de propriedades leiteiras localizadas no Rio Grande do Sul analisadas pelo SARLE entre julho de 2005 e junho de 2006, que apresentaram percentuais de gordura, proteína ou sólidos não gordurosos abaixo dos teores mínimos estabelecidos pela Instrução Normativa no 51, 2002, do MAPA (3,0% de gordura, 2,9% de proteína e 8,4% de SNG). Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 11 900 1600 1433,59 1400 800 1257,94 1214,42 1155,42 1149,47 1157,32 1200 1051,69 987,78 1000 600 800 692,53 577,64 572,55 600 500 454,58 464,75 459,71 394,01 426,04 438,19 436,97 422,67 1000 UFC/mL 1000 células/mL 700 400 397,72 400 367,90 345,36 353,77 200 319,59 0 300 jul/05 ago/05 set/05 out/05 nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 mai/06 jun/06 CCS CBT Figura 4 - Médias geométicas mensais para contagem de células somáticas e para contagem bacteriana total no leite em amostras de tanque refrigerador de propriedades leiteiras localizadas no Rio Grande do Sul analisadas pelo SARLE entre julho de 2005 e junho de 2006. Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 12 60,5% 54,9% 56,6% 59,0% 59,8% 64,4% 58,4% 6,0% 6,0% 6,2% 6,5% 7,6% 7,4% 26,1% 7,2% 4,4% 30,2% 6,7% 6,9% 30,2% 6,9% 27,9% 6,5% 27,8% 6,2% 6,4% 25,0% 6,5% 10,7% 28,3% 13,8% ago/05 set/05 out/05 nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 mai/06 jun/06 0% jul/05 6,1% 12,6% 10% 20,5% 20% 26,4% 7,8% 7,6% 35,3% 30% 39,3% 40% 40,4% 50% 36,6% 7,7% 60% 7,2% 70% 61,2% 46,4% 41,8% 80% 40,4% 90% 31,9% 100% 0-100 101-750 751-1000 >1000 Figura 5 – Proporção de amostras de tanque refrigerador de propriedades leiteiras localizadas no Rio Grande do Sul analisadas pelo SARLE entre julho de 2005 e junho de 2006, que apresentaram CBT acima das contagens máximas estabelecidas para as diversas fases da Instrução Normativa no 51, 2002, do MAPA. Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94. 10,2% 14,5% 31,7% 9,7% 13,1% 31,4% 15,1% 10,7% 31,4% 15,3% 10,6% 31,9% 17,2% 11,1% 31,6% 18,0% 11,1% 10,5% 31,3% 50% 32,0% 16,8% 14,7% 9,8% 8,5% 12,2% 8,0% 10,6% 8,1% 11,7% 31,3% 60% 29,2% 70% 28,9% 80% 29,1% 90% 29,3% 100% 8,7% 12,5% 13 42,2% 42,8% 45,8% 43,6% out/05 40,0% set/05 38,9% ago/05 41,0% 51,0% jul/05 44,2% 50,3% 20% 52,3% 30% 49,5% 40% nov/05 dez/05 jan/06 fev/06 mar/06 abr/06 mai/06 jun/06 10% 0% 0 a 400 401 a 750 751 a 1000 > 1000 Figura 6 – Proporção de amostras de tanque refrigerador de propriedades leiteiras localizadas no Rio Grande do Sul analisadas pelo SARLE entre julho de 2005 e junho de 2006, que apresentaram CCS acima das contagens máximas estabelecidas para as diversas fases da Instrução Normativa no 51, 2002, do MAPA. Como citar este capítulo: DURR, J.W., MORO, D.V., RHEINHEIMER, V., TOMAZI, T. Estado atual da qualidade do leite no Rio Grande do Sul. In: MESQUITA, A.J., DURR, J.W., COELHO, K.O. Perspectivas e avanços da qualidade do leite no Brasil. Goiânia: Talento, 2006, v.1, p. 83-94.