UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS MESTRADO EM EDUCAÇÃO AUTORIA OU REPRODUÇÃO? O COTIDIANO PEDAGÓGICO DE PROFESSORES COORDENADORES NO CONTEXTO DO “PROGRAMA LER E ESCREVER” – SEE/SP LUANA SERRA ELIAS TAVARES Santos/SP 2012 LUANA SERRA ELIAS TAVARES AUTORIA OU REPRODUÇÃO? O COTIDIANO PEDAGÓGICO DE PROFESSORES COORDENADORES NO CONTEXTO DO “PROGRAMA LER E ESCREVER” – SEE/SP Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação Universidade em Católica Educação de Santos da – UNISANTOS, como exigência parcial para obtenção do título de Mestre em Educação, sob a orientação da Profª Drª Maria de Fátima Barbosa Abdalla. Santos/SP 2012 Dados Internacionais de Catalogação Sistema de Bibliotecas da Universidade Católica de Santos SibiU _________________________________________________________________________ T233a TAVARES, Luana Serra Elias. Autoria ou reprodução? O cotidiano de professores coordenadores no contexto do programa “Ler e Escrever” - SEE/SP / Luana Serra Elias Tavares; Orientadora Profª Drª Maria de Fátima Barbosa Abdalla Santos: [s.n.], 2012. 230 f.; 30 cm. (Dissertação de Mestrado) - Universidade Católica de Santos, Programa de Mestrado em Educação. 1.Políticas Educacionais. 2.Formação Continuada. 3.Professor Coordenador. 4.Professores Alfabetizadores. 5.Programa Ler e Escrever. I. Abdalla, Maria de Fátima Barbosa (Orientadora). II. Universidade Católica de Santos. III. Título. CDU 37(043.3) _________________________________________________________________________ ! ! BANCA EXAMINADORA _______________________________________ Profª Drª Maria de Fátima Barbosa Abdalla _______________________________________ Profª Drª Vera Maria Nigro de Souza Placco _______________________________________ Profª Drª Maria Angélica Rodrigues Martins Não serei o poeta de um mundo caduco. Também não cantarei o mundo futuro. Estou preso à vida e olho meus companheiros... Estão taciturnos, mas nutrem grandes esperanças. Entre eles, considero a enorme realidade. O presente é tão grande, não nos afastemos... não nos afastemos, vamos de mãos dadas! Carlos Drummond de Andrade (1940) DEDICATÓRIA Dedico esse trabalho à minha mãe, por ter me ensinado o valor e a paixão aos livros; ao meu grande amor, Mario, por todas as horas de companheirismo, respeito, incentivo e parceria incondicional; e à minha mais nova e arrebatadora razão de viver, meu pequeno Guilherme, que cresce forte em meu ventre, tornando esse processo de pesquisa ainda mais especial. AGRADECIMENTOS A Deus, pela graça diária da existência. À minha família, pela segurança, pelo sentido da vida, pelo apoio constante e por todo o investimento ininterrupto em minha vida escolar e acadêmica, desde os quatro anos de idade. Ao meu amor, Mario Tavares Neto, pela compreensão e respeito por minhas escolhas, por aceitar minha ausência e cansaço, pelo incentivo nas horas mais difíceis da pesquisa e por estar sempre ao meu lado, inclusive participando das transcrições das entrevistas, das leituras vigilantes e das conversas inspiradoras sobre o tema do meu trabalho. À querida professora Drª Maria de Fátima Barbosa Abdalla, minha orientadora, que com tanto carinho, competência e respeito pela minha autoria intelectual, acolheu-me às vésperas do exame de Qualificação e tornou-se uma grande parceira, amiga e referência profissional. À querida professora Drª Sanny Silva da Rosa, minha primeira orientadora, verdadeira interlocutora no processo de construção dos caminhos da pesquisa e da pesquisadora, e a quem dedico meu profundo agradecimento e eterna admiração e inspiração. À professora Drª Maria Angélica Rodrigues Martins, que participou dos meus primeiros passos nos caminhos da Pedagogia, como professora da Graduação, e hoje, mais de dez anos depois, continua fazendo parte de minha história acadêmica. À professora Drª Vera Maria Nigro de Souza Placco, que me honrou com sua presença em minha banca de Qualificação e Defesa e contribuiu, decisivamente, para meus estudos sobre a coordenação pedagógica e para o meu avançar na pesquisa. A todos os professores do Programa de Mestrado em Educação, da Universidade Católica de Santos, por colaborarem verdadeiramente em minha constituição como pesquisadora. À professora Drª Telma Weisz, por todos os ensinamentos em alfabetização e pela supervisão profissional no Programa Ler e Escrever. À amiga Rosa Maria Monsanto Glória, companheira de formação no Programa Ler e Escrever, modelo de profissional em quem me espelho e busco inspiração. Às professoras coordenadoras, que prontamente atenderam ao meu pedido de entrevista e generosamente me ofertaram seus materiais de trabalho, fundamentais na construção dessa pesquisa. Aos alunos que já passaram em minha história profissional e que, ainda hoje, preenchem de significado minha busca pela pesquisa. Aos colegas de profissão, com os quais, cotidianamente, partilho o difícil ofício de educar, coordenar, formar. TAVARES, Luana Serra Elias. Autoria ou reprodução? O cotidiano pedagógico de professores coordenadores no contexto do “Programa Ler e Escrever” – SEE/SP. (dissertação) Mestrado em Educação. Universidade Católica de Santos, 2012. RESUMO A presente pesquisa destina-se a investigar se o professor coordenador exerce sua autoria profissional, quando atua como formador de professores alfabetizadores, a partir da perspectiva do “Programa Ler e Escrever” (SEE-SP). Objetiva pesquisar, pelo olhar do professor coordenador, o quanto essa ação de política pública, configurada como um programa obrigatório de alfabetização dos alunos, investe na construção da autonomia desse sujeito como formador de professores; bem como compreender as escolhas formativas priorizadas por ele na formação de professores alfabetizadores (didatização de conteúdos, estratégias usadas, processo de planejamento, socialização e mediação de conhecimentos, entre outros). Nesse sentido, a pesquisa adota uma abordagem metodológica de caráter qualitativo, a partir da análise de conteúdo (BARDIN, 2011) e usa instrumentos de coletas de dados como o questionário e as entrevistas semiestruturadas. Apoia-se, ainda, na análise documental do tipo oficial e do tipo técnico, como os registros de pautas formativas realizadas pelos sujeitos em questão. A princípio, realizou-se uma pesquisa exploratória com o objetivo de levantar um perfil da totalidade dos sujeitos (75 professores coordenadores). A partir disso, foram selecionados três sujeitos com os quais trabalhar seus documentos técnicos e, posteriormente, realizar as entrevistas. Os referenciais teóricos que sustentam essa pesquisa são: Nóvoa (1991, 1995, 2002, 2007, 2009), Foucault (1992, 1996, 2006, 2012), Ball (1994, 2001, 2004, 2005, 2006, 2008) e Contreras (2002), por trazerem reflexões que fundamentam e alicerçam tal discussão, e Bardin (2011), na análise do material que colhido a partir das entrevistas. Como resultados, a pesquisa constatou que o espaço requerido para uma atuação, de fato, autônoma, é restringido pelos limites impostos pela política que rege o Programa Ler e Escrever. Evidencia-se, ainda, a presença de uma relação de poder que tal política insere nos sistemas educacionais, promovendo sujeitos que se autorregulam e que competem mutuamente. Embora o discurso oficial e os próprios sujeitos pesquisados defendam a autonomia profissional, a investigação mostra que o contraponto que se buscava entre reprodução X autoria precisa ser relativizado, já que não é possível polarizar essa realidade, bem como evidencia-se a utopia de pensar em uma autonomia absoluta ou em uma reprodução total. Palavras-chave: Políticas Educacionais; Formação Continuada; Professor Coordenador; Professores alfabetizadores; Programa Ler e Escrever. TAVARES, Luana Serra Elias. Authorship or reproduction? Coordinating teachers´ pedagogical everyday in the context of the “Reading and Writing Program” – SEE/SP. (dissertation) Education Master´s Degree. Santos Catholic University, 2012. ABSTRACT The present study intend for investigating if the coordinating teacher practice their professional authorship when they act as a literacy teacher trainer, from a perspective of the “Reading and Writing Program” (SEE-SP). It aims to do research, in the coordinating teachers´ eyes, how much literacy this public policy action, configured as a student obligatory program, invests on the autonomy construction of this subject as a teachers trainer, as well as comprehend the training choices prioritized by himself in the foundation of literacy teachers (teaching contents, strategies, planning process, socialization, knowledge mediation, among others). In this sense the study adopts a methodological approach, relied on a quality content analysis technique (BARDIN, 2011) and uses collecting information instruments as a questionnaire and semi-structured interviews. It still makes the use of the official and technical type of documentation analysis, like the registration of formative guidelines performed by people mentioned before. From an exploratory study aiming to raise the profile of the subjects totality (75 coordinating teachers), were elected three professionals who work with their technical documents and then the interviews. The theoretical reference this study is based on are: Nóvoa (1991, 1995, 2002, 2007, 2009), Foucault (1992, 1996, 2006, 2012), Ball (1994, 2001, 2004, 2005, 2006, 2008) and Contreras (2002), for bringing reflections that found and lay the foundation on this discussion, and Bardin (2011), in the material analysis obtained from the interviews. As the results, the study certifies that the demanded space for an acting, in fact, autonomous, is restricted by the limits imposed by the policy that rules the Reading and Writing Program. It becomes evident, the presence of a power relationship that this policy inserts in the educational systems, promoting people that auto-regulate themselves and complete mutually. Although the official speech and the studied subjects defend the professional autonomy, the investigation shows up the opposing fact it has been researched between reproduction versus authorship needs to be relativized, once it is not possible to polarize this reality, as well as it becomes clear the utopia of thinking about an absolute autonomy or in a total reproduction. Keywords: Educational Policies; Progressive Formation; Coordinating Teachers; Literacy Teachers; Reading and Writing Program. Lista de Figuras Figura 1 – Quem forma quem?........................................................................... 61 67 Figura 2 – IDESP 2011 Escola I......................................................................... 88 95 Figura 3 – IDESP 2011 Escola II....................................................................... 89 96 Figura 4 – IDESP 2011 Escola III...................................................................... 91 97! Lista de Quadros Quadro 1 – Pesquisas sobre o PC como formador de professores.................... 19 26 Quadro 2 – Pesquisas sobre o Programa Ler e Escrever................................... 21 27 Quadro 3 – Resoluções sobre a figura do PC.................................................... 48 54 Quadro 4 – Atuação do PC................................................................................ 63 69 Quadro 5 – As competências do PC.................................................................. 66 72 Quadro 6 – Cargos do PC.................................................................................. 81 87 Quadro 7 – Situação Funcional do PC.............................................................. 81 87 Quadro 8 – Tempo de Atuação como PC......................................................... 81 88 Quadro 9 – Tempo de atuação do PC na escola................................................ 82 88 Quadro 10 – Ciclos atendidos pelo PC.............................................................. 82 89 Quadro 11 – Número de professores atendidos pelo PC................................... 83 89 Quadro 12 – Formação acadêmica do PC......................................................... 83 90 Quadro 13 – PCs com Pós Graduação.............................................................. 84 90 Quadro 14 – Perfil do Grupo de PCs................................................................. 85 92 Quadro 15 – Documentos oficiais pesquisados................................................. 92 99 Quadro 16 – Objetivos da formadora do grupo de PCs..................................... 95101 Quadro 17 – Objetivos da formação – PC 1...................................................... 96103 Quadro 18 – Objetivos da formação – PC 2...................................................... 98105 Quadro 19 – Objetivos da formação – PC 3...................................................... 105 Quadro 20 – Análise das pautas dos PCs........................................................... 106 Quadro 21 – Categorias de Análise................................................................... 108! Lista de Siglas AC – Análise de Conteúdo BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento BIRD – Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior CEE – Conselho Estadual de Educação CEI – Coordenadoria de Ensino do Interior CENP – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas COGSP – Coordenadoria da Grande São Paulo CPs – Coordenadores Pedagógicos DE – Diretoria de Ensino DES – Diretoria de Ensino de Santos DESV – Diretoria de Ensino de São Vicente DOE – Diário Oficial do Estado DOT – Diretoria de Orientação Técnica EF I – Ensino Fundamental I EJA – Educação de Jovens e Adultos EM – Ensino Médio ENCCEJA - Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação FMI – Fundo Monetário Internacional HTPC – Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo IDEB – Índice de Desenvolvimento da Educação Básica IDESP – Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo LDBEN – Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional MEC – Ministério da Educação OCDE – Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico PCNPEs – Professores Coordenadores de Núcleo Pedagógico PCOPs – Professores Coordenadores da Oficina Pedagógica PCs – Professores Coordenadores PCP – Professor Coordenador Pedagógico PDV – Programa de Demissão Voluntária PEB I – Professor de Educação Básica I (1º a 5º ano do Ensino Fundamental) PEB II – Professor de Educação Básica II (6º a 9º ano do Ensino Fundamental) PEC-FORPROF – Formação Universitária – Programa Especial de Formação de Professores de Primeira a Quarta Série do Ensino Fundamental PIC – Programa Intensivo de Ciclo PLE – Programa Ler e Escrever PROFA – Programa de Formação de Professores Alfabetizadores PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira PUC-SP – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo REDEFOR – Rede São Paulo de Formação Docente SAEB – Sistema de Avaliação da Educação Básica SARESP – Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo SE – Secretaria de Educação SEE/SP – Secretaria Estadual de Educação de São Paulo SME – Secretaria Municipal de Educação SP – São Paulo UNESCO – Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura UNESP – Universidade Estadual de São Paulo UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas UNICEF – Fundo das Nações Unidas para a Infância USP – Universidade de São Paulo SUMÁRIO Introdução............................................................................................................. 11 17 Capítulo I – A política educacional da SEE/SP (2007 a 2011).............................................. 26 32 1.1 Contextualizando o cenário político da reforma educacional paulista............ 26 32 1.2 O “Programa Ler e Escrever”.......................................................................... 37 44 1.3 O Professor Coordenador................................................................................. 47 Capítulo II – O professor coordenador como formador de professores: o sujeito que escolhe ou o sujeito que executa?........................................................................ 47 53 2.1 As tecnologias políticas de Stephen Ball......................................................... 56 2.1.1 A forma de mercado............................................................................... 53 59 2.1.2 Gerencialismo........................................................................................ 55 61 2.1.3 Performatividade.................................................................................... 57 63 2.2 O Professor Coordenador no “Programa Ler e Escrever”............................... 65 2.3 A formação continuada: uma nova forma de controle?................................... 73 2.3.1 A proposta de formação continuada do “Ler e Escrever”..................... 7278 Capítulo III – Os caminhos da pesquisa..................................................................................... 78 84 3.1 Dos instrumentos............................................................................................. 80 86 3.2 Dos sujeitos..................................................................................................... 84 91 3.2.1 Do campo de pesquisa........................................................................... 86 93 • Escola I......................................................................................... 87 93 • Escola II........................................................................................ 95 • Escola III...................................................................................... 96 3.3 Da análise documental.................................................................................... 98 3.3.1 Dos sujeitos eleitos e suas pautas formativas....................................... 101 94 3.3.2 Das entrevistas...................................................................................... 107 3.4 Da análise de conteúdo................................................................................... 109 Capítulo IV – As relações tecidas a partir das vozes colhidas: o profissional no centro de sua ação............................................................................................................. 112 4.1 A dimensão contextual: o Programa Ler e Escrever..................................... 113 4.1.1 Forma de mercado.............................................................................. 114 4.1.2 O gerencialismo................................................................................... 120 4.1.3 A performatividade............................................................................. 126 4.2 A dimensão profissional: o Professor Coordenador...................................... 131 4.2.1 Percursos formativos........................................................................... 132 4.2.2 Relações de poder disciplinar............................................................... 144 4.2.3 Autonomia no profissionalismo........................................................... 152 4.3 A dimensão contextual e a dimensão profissional: uma aproximação........... 163 Considerações Finais........................................................................................... 167 Referências Bibliográficas.................................................................................. 175 Anexos................................................................................................................. 186 Anexo 1 – Organograma...................................................................................... 187 Anexo 2 – Pautas da Formadora – Equipe Central.............................................. 189 Anexo 3 – Pautas formativas (Sujeito I).............................................................. 199 Anexo 4 – Pautas formativas (Sujeito II)............................................................. 213 Anexo 5 – Pautas formativas (Sujeito III)........................................................... 215 Apêndices............................................................................................................. 217 Apêndice 1 – Estado da Arte – Banco de Teses da CAPES................................ 218 Apêndice 2 – Questionário.................................................................................. 223 Apêndice 3 – Tabulação do questionário............................................................. 224 Apêndice 4 – Roteiro para entrevista semiestruturada......................................... 228 Apêndice 5 – Modelo do Termo de consentimento livre e esclarecido.............. 229 Apêndice 6 – Transcrição das entrevistas (CD-Rom).......................................... 230 ! INTRODUÇÃO O homem é, ao mesmo tempo, liberdade e necessidade. Sua liberdade consiste numa necessidade compreendida, dominada e vencida: superada. Lefebvre (1995) A presente pesquisa busca investigar a prática dos professores coordenadores como formadores de professores alfabetizadores, no contexto do Programa Ler e Escrever, que atuam em Diretorias de Ensino do Sistema Estadual de Educação de São Paulo. O interesse pela temática em questão foi concebido há muito tempo, mesmo que ainda não tivesse a consciência do fato. Isso se deve à minha história de vida e, principalmente, pela forma como se constituiu minha história profissional. Sou uma professora que se descobriu alfabetizadora no exercício do seu ofício. O interesse por lecionar nessas turmas foi se construindo à medida que tais classes me eram outorgadas pelos diretores das escolas públicas pelas quais passei. Formei-me em Pedagogia, na Universidade Católica de Santos, em dezembro de 1999. Em janeiro de 2000, prestei um concurso público para o cargo de Professor de Ensino Fundamental I, da Prefeitura de Santos, fui aprovada e, como tive uma excelente classificação, em fevereiro do mesmo ano, estava assumindo uma sala de 1ª série (atual 2º ano), a única disponível na escola para a qual fui encaminhada. No ano seguinte, em condições semelhantes, assumi outra sala de 1ª série, no período oposto, na Prefeitura de São Vicente, a partir de um outro concurso público. Dessa demanda real com a qual tive de lidar, nasceu não só a necessidade de me debruçar com mais cuidado sobre o referencial teórico que sustentaria minha prática alfabetizadora, como também de participar de cursos de formação continuada que me eram oferecidos. Em 2005, surgiu a oportunidade de participar de um processo seletivo, dentro da Secretaria Municipal de Educação de Santos, onde sou funcionária hoje com duplo registro (Professora de EF I e Coordenadora Pedagógica), para compor uma equipe que trabalharia com formação continuada em serviço dos professores da rede. Fui aprovada e designada a responder, por conta da experiência comprovada, pelas formações na área de Alfabetização e Linguagem. Em 2007, prestei um novo concurso para a Prefeitura de Santos, dessa vez para o cargo de Coordenador Pedagógico. Fui aprovada e assumi a função, após exoneração da rede de São Vicente. Entretanto, não fui encaminhada à escola, pois a chefe do Departamento Pedagógico solicitou que eu permanecesse com os dois registros na Secretaria, continuando o trabalho de formação em serviço, agora com os coordenadores pedagógicos. Nesse contexto, passei a responder por ações de formação continuada planejadas e elaboradas em âmbito municipal, estadual e federal, como os Programas “PROFA” (Programa de Formação de Professores Alfabetizadores – MEC), “Pró-Letramento” (MEC), “Letra e Vida” (Secretaria Estadual de Educação), “Além das Letras” (Instituto Avisa Lá), entre outros. Em virtude desse trabalho desenvolvido durante esses anos, recebi um convite da Secretaria Estadual de Educação de São Paulo, em nome da profª Dra. Telma Weisz, supervisora do Programa “Ler e Escrever”, para fazer parte da equipe central de formadores do programa. A título de uma apresentação inicial, segundo diretrizes oficiais, publicadas no site da FDE (Fundação para o Desenvolvimento da Educação), o Programa Ler e Escrever é: (...) um é um conjunto de linhas de ação articuladas que inclui formação, acompanhamento, elaboração e distribuição de materiais pedagógicos e outros subsídios, constituindo-se dessa forma como uma política pública para o Ciclo I, que busca promover a melhoria do ensino em toda a rede estadual. Sua meta é ver plenamente alfabetizadas, até 2010, todas as crianças com até oito anos de idade (2ª série/3º ano) matriculadas na rede estadual de ensino, bem como garantir recuperação da aprendizagem de leitura e escrita aos alunos das demais séries/anos do Ciclo I do Ensino Fundamental (SÃO PAULO, 2008a). Vale salientar que, em seu texto de apresentação, o Programa Ler e Escrever estabelece como meta o prazo de até 2010, último ano de mandato dessa administração. Com a entrada de Geraldo Alckmin no governo do Estado de São Paulo, em 2011, e a continuação do Programa, estende-se o período de concretização de tal meta. Assim, a partir de meados de 2009, compus essa equipe, juntamente com outras vinte e quatro formadoras, e respondo pela formação de PCs (Professores Coordenadores) das Diretorias Regionais Estaduais de Ensino de Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes e Suzano e de PCNPEs (Professores Coordenadores de Núcleo Pedagógico) e Supervisores dessas mesmas diretorias, incluindo nesse grupo também Guarulhos Norte e Guarulhos Sul. Nesse ínterim, o Governo do Estado estabeleceu um convênio para municípios interessados em participar do Programa, conforme publicado em Diário Oficial de 24/08/09, Resolução SE - 66, de 21-8-2009 (SÃO PAULO, 2009a). Como o município de Santos aderiu a tal convênio, tornando-se parceiro, o Programa “Ler e Escrever” foi introduzido nas escolas municipais de 1º a 5º ano da rede municipal. Essa parceria compreende o recebimento de materiais, que compõem o Programa (Guias de Orientação de Professores e Material do aluno – regular e PIC – Programa Intensivo de Ciclo) e o acompanhamento oferecido em formato de encontros de formação continuada de oito horas (ministrado por uma formadora da equipe central), com frequência mensal. Como contrapartida, o município precisa enviar um representante a esses encontros de acompanhamento e garantir a formação continuada de seus profissionais, preferencialmente o coordenador pedagógico. Fui escolhida pelo Departamento Pedagógico da Secretaria Municipal de Educação para ser essa representante nos encontros de acompanhamento, assim como para ser a responsável por planejar e executar os encontros de formação continuada com os Coordenadores Pedagógicos do Município. A partir disso, assumi dois papeis que parecem contraditórios, a princípio, mas que se completam, na prática. Como representante do município, recebo orientações nos encontros de formação continuada oferecidos pela SEE, na Diretoria de São Vicente (da qual o município de Santos faz parte). Ao mesmo tempo, atuo como formadora da equipe central da SEE/SP, ou seja, também ofereço acompanhamento e formação continuada a outros municípios parceiros das Diretorias que atuo, mais precisamente, Ferraz de Vasconcelos, Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes, Biritiba Mirim e Salesópolis. Dessa forma, acredito ocupar um lugar privilegiado, em relação ao Programa “Ler e Escrever”, se considerarmos que atuo como alguém presente em ambos os lados simultaneamente: de quem atende e de quem é atendido. Isso pode ser melhor compreendido, dentro da organização institucional de cada órgão, a partir dos organogramas (ANEXO 1, p. 187-188). Na SME de Santos, o Programa “Ler e Escrever” assume um contorno político diferente do que recebe no Estado, uma vez que, nesta primeira, por ser apenas um convênio assinado e não uma plataforma política, não garante ao Programa um caráter de execução obrigatória, por mais que haja um acordo e um interesse político e diplomático entre as partes. Isso é possível de ser percebido se partirmos do estabelecimento de regras e decisões que os municípios têm a liberdade de tomar. Em relação à carga horária da formação oferecida, por exemplo, em Santos, temos encontros quinzenais, com 4 horas de duração cada, em formato de convocação (dentro do horário de trabalho) aos Coordenadores Pedagógicos (CPs) da rede de ensino, nos quais são alternadas as áreas de discussão (Alfabetização/Práticas de Linguagem e Matemática), com 40 horas no total para cada. São atendidos trinta e oito coordenadores ─ um de cada escola de Ensino Fundamental I, de 1º a 5º anos. Entretanto, como o município enfrenta uma “crise” de falta de professores e funcionários em geral nas escolas, muitas vezes os CPs faltam aos encontros de formação para não deixar as escolas sem representantes da equipe gestora. Assim, dos 38 CPs que deveriam participar dessa ação formativa, na realidade apenas vinte profissionais, em média, frequentam. Já, na Secretaria Estadual de Educação de SP, minha atuação se dá na equipe central de formadoras, composta por vinte e cinco profissionais, muitas das quais autoras e participantes de outros Programas de Formação (estaduais e federais), que precederam o “Ler e Escrever”, como por exemplo: o “Isso se aprende com o Ciclo Básico”; o “Por uma alfabetização sem fracasso”; o “Alfabetização: Teoria e Prática”; o “PROFA”/“Letra e Vida” etc. Essa equipe atende a todas as noventa e uma Diretorias de Ensino (Interior e Grande SP), distribuídas entre o grupo, de acordo com a disponibilidade da formadora. No meu caso, atendo aos Professores Coordenadores (PCs), Professores Coordenadores do Núcleo Pedagógico (PCNPEs) e Supervisores das Diretorias (COGSP – Coordenadoria da Grande São Paulo) de Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes e Suzano, e aos PCNPEs e Supervisores também das diretorias de Guarulhos Norte e Sul, o que totaliza 75 PCs, 20 PCNPEs e 10 Supervisores de Ensino. Na SEE/SP, o “Ler e Escrever” é um programa político, conforme exposto no documento de apresentação disponível no seu site oficial deste Programa, que envolve não só a formação e a distribuição do material didático, como também ações de acompanhamento nas escolas, o Bolsa-Alfabetização (uma parceria com universidades), distribuição de acervo literário, de materiais de apoio etc. Além disso, há a garantia de uma carga-horária mínima de 80 horas para a formação em práticas de Linguagem (destinada aos PCs) e uma cobrança efetiva dos resultados obtidos no SARESP, relativos à aprendizagem dos alunos. Segundo prescrições da Secretaria da Educação (São Paulo, 2009b), Cabe ao professor coordenador a importante tarefa de orientar os professores no uso dos materiais do Ler e Escrever e na prática didática e pedagógica de sala de aula, sempre com o objetivo de preservar a concepção de aprendizagem do programa. O profissional de coordenação deve, também, ajudar o professor a priorizar conteúdos e exercícios disponíveis no material de apoio, de acordo com as necessidades e características de cada classe, além de servir como importante elo na relação da escola com os universitários que atuam como alunos pesquisadores nas classes de 1ª série do Ciclo I do Ensino Fundamental. A utilização das HTPCs é essencial para o sucesso na aplicação do Programa Ler e Escrever. Nestes horários, os professores terão tempo e espaço para receber a formação continuada prevista, além de ser este o momento aberto ao planejamento das ações e da atuação em sala de aula. Segundo orientações da Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas (CENP), divulgadas em 2008, por meio do Comunicado de 29/01/2008 (SÃO PAULO, 2008b), a HTPC (Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo) deve se caracterizar como espaço de formação, considerando: ! formação continuada dos educadores, propulsor de momentos privilegiados de estudos, discussão e reflexão das propostas curriculares e melhoria da prática docente; ! trabalho coletivo de caráter estritamente pedagógico, destinado à discussão, acompanhamento e avaliação da proposta pedagógica da escola e do desempenho escolar do aluno. O acompanhamento em escolas da rede estadual (nas Diretorias que atendo) aponta que, em geral, as HTPCs têm se constituído num espaço para que o Professor Coordenador (PC) socialize com os professores aquilo que foi trabalhado com ele nos encontros de formação, de modo a assegurar a aplicação do programa. Entretanto, esse é um espaço destinado não só a professores que trabalham no Ciclo I e, por conta disso, e de outras demandas comuns ao dia-a-dia de qualquer escola, a HTPC é também um espaço no qual se discutem variados temas, como questões de indisciplina, dificuldades de aprendizagem, projetos da escola, trocas de experiências, entre outros. Com isso, percebemos o quanto esse profissional, o PC, é a peça fundamental de todo o programa e, de certa maneira, o quanto são depositadas, em suas mãos, todas as expectativas de realização efetiva dos objetivos e metas traçadas a priori. A experiência e o diálogo com minhas companheiras de trabalho têm me sugerido que talvez a aposta esteja sendo maior do que a devida, uma vez que esse sujeito demonstra muitas fragilidades na sua constituição enquanto profissional. Cabe ressaltar que não é exigida formação pedagógica aos PCs. Em razão disso, não são chamados de Coordenadores Pedagógicos, mas de Professores Coordenadores. Para assumir o cargo, precisam submeter-se a uma prova, cujos conteúdos são a legislação educacional em vigor1 (resoluções, pareceres e portarias voltadas para a função de PC e para a organização da escola) e as orientações curriculares do Estado de São Paulo. Se aprovados, passam por um processo de seleção em que apresentam uma proposta de trabalho ao Diretor e ao Supervisor de Ensino que, por sua vez, decidem qual das propostas apresentadas atende às necessidades da escola. Nesse cenário, entendo que essa situação colabora para a existência de um grande desafio à atuação desse profissional, pois embora seja considerado como mediador da formação em serviço de professores alfabetizadores ─ no contexto do “Programa Ler e Escrever” ─, muitas vezes não apresenta nem experiência na área, nem uma formação inicial em Pedagogia. Muitos são professores de Ensino Fundamental I, mas outros tantos são especialistas em Matemática, Educação Física, História etc. Essa relação entre o profissional e sua experiência/formação é bastante dialética. Digo isso porque a experiência como formadora desses grupos tem me mostrado que ter uma formação inicial na área não é uma condição sine qua non para o desempenho desses sujeitos, uma vez que é possível identificar profissionais cuja habilitação se deu em uma área diversa à de Língua, mas que são professores coordenadores muito bem sucedidos, absolutamente dedicados, envolvidos e determinados a realizar da melhor maneira possível o seu ofício, embora tais predicados não garantam uma atuação competente. Por outro lado, não estou considerando esse fator como algo dispensável, uma vez que, embora pareça contraditório afirmar, também reconheço que a formação inicial ou a experiência !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 1 Tal exigência sobre conhecer a legislação muda muito, ficando impossível, aqui, citar todas as legislações exigidas em cada ano, desde que se instituiu a figura do PC. Contudo, as que, recorrentemente, aparecem são: São Paulo (1997b, 1998, 2003, 2004, 2005a, 2006a, 2007a, 2007c, 2008a, 2008b, 2009b, 2012a, 2012b, 2012c), constantes das referências desta pesquisa. em salas de alfabetização permitem que, quem as possui, inicie o trabalho na coordenação (à frente do referido Programa) com uma certa vantagem; talvez pelo fato de conhecer o universo de uma sala de aula de alfabetização. Além de tudo isso, a função de PC pressupõe outros tantos desafios se considerarmos toda a carga de responsabilidades que lhe é outorgada, tanto pelos órgãos oficiais, como pela própria rotina da escola. Nesse bojo de desafios, é possível elencar inicialmente questões como: coordenar professores de Ciclo I, Ciclo II e Médio (quando a escola não comporta um PC para cada ciclo, por conta do número de salas de aula); estar à frente de variados programas instituídos pela Secretaria; atender às demandas solicitadas pelo Diretor da escola; atender aos pais; atender aos alunos (casos como indisciplina, dificuldades de aprendizagem, grupos de estudo etc); atender aos funcionários da Diretoria e do órgão central que visitam periodicamente a escola; cuidar da distribuição de materiais; presidir as HTPCs; preparar materiais de estudo para formação de professores; entre tantas outras situações que emergem no cotidiano escolar e que se transformam em dilemas cotidianos. Se considerarmos que o ganho salarial desses profissionais não diverge muito em termos de valores se comparado ao ganho dos professores, é curioso pensar nos motivos pelo concurso ao cargo. Vale salientar que estamos entendendo como dilema “(...) os conflitos interiores, cognitivos e práticos, ocorridos em contextos profissionais e em relação aos quais o professor equaciona duas ou mais alternativas (de acção e/ou valoração)” (CAETANO, 1990, apud ESTRELA, 1997). Ou seja, assim como nos alerta a autora, os dilemas são, em geral, a dificuldade em tomar decisões frente a situações de conflito entre o que o sujeito pensa e o que ele deve/precisa executar. Contudo, tais dilemas parecem fazer sentido apenas no âmbito da prática, pois para o Sistema responsável por pensar e decidir pela estrutura de funcionamento e pela logística de toda essa engrenagem, tudo parece bastante plausível e tais dilemas inexistem. Isso porque, como está posto e organizado, o Programa funciona a partir de uma lógica técnicoracional que, segundo Abdalla (2006), é a perspectiva que “gera princípios organizativos, relações hierárquicas (...) e potencializa-se o campo do poder, com vista a controlar as estruturas administrativas e pedagógicas” (p. 53-54). Nessa lógica, o que prevalece são os conceitos de eficácia e eficiência, reforçando o princípio da produtividade e das metas a serem alcançadas. É ainda Abdalla que nos alerta que, em uma organização técnico-racional, o que sobra para o professor é “mais obediência do que análise crítica” (2006, p. 54). Se transferirmos essa obediência para outro sujeito da escola, o PC, podemos encontrar a mesma lógica presente, principalmente em âmbito escolar, uma vez que, sob a tutela da instituição, surgem necessidades que sobrepujam os anseios subjetivos e individuais, como, por exemplo, “(...) a autoridade necessária, para controlar a eficiência desejada; o formalismo na aceitação de normas; a impessoalidade e o conhecimento especializado, características essenciais de uma organização burocrática” (ABDALLA, 2006, p. 55). Entretanto, do ponto de vista pedagógico, o Programa defende que esse mesmo sujeito, o PC, é o responsável por receber a formação da equipe central de formadores do Programa (na qual me incluo) e repassá-la aos professores de forma autônoma e reflexiva. Ou seja, não é aceitável, nem esperado, que ele apenas reproduza os encontros vivenciados em sua íntegra, mas que os ressignifique de acordo com as necessidades de seu grupo de professores. Em nossas pautas de formação, dedicamos um bom tempo para discussão desses aspectos com ele: como elaborar pautas formativas; como eleger conteúdos a serem trabalhados a partir do diagnóstico de necessidades formativas do grupo; como escolher estratégias formativas adequadas ao conteúdo pretendido; enfim, há uma preocupação com a construção desse profissional desejado: um formador de professores autônomo. Nesse ponto, entendo haver uma contradição, se compararmos os pressupostos teóricos do Programa com suas orientações de funcionamento e operacionalização, definidas pela política de implantação do mesmo. Vale salientar que a base teórica do Programa é a concepção construtivista de educação que, segundo Coll (1996), considera a autonomia do aluno na reconstrução do conhecimento já existente, a partir de sua interação com o próprio objeto e também do professor, que deve desempenhar o papel de orientador do aluno, de forma a ajudá-lo a se aproximar daquilo que já existe em relação a determinado conhecimento. Assim, é compreensível que seja esperado do PC que ele também seja autônomo o suficiente para gerir suas ações de formação na escola, a partir da formação oferecida a ele pelo Programa, de forma a atender às demandas e necessidades formativas identificadas em seu grupo de professores. Entretanto, a política definidora do Programa não lhe garante condições de exercício dessa autonomia, na medida em que assume, na prática, um caráter prescritivo, determinando a ação desses profissionais em termos de conteúdos a serem garantidos e resultados a serem alcançados. Fica, então, uma questão na qual o grupo central de formadoras debruça-se desde o início do Programa e que, a cada tentativa de aproximação a esse objeto de conhecimento, ele se mostra mais e mais complexo: ajudar o PC a assumir o seu papel de formador de professores alfabetizadores de forma a alcançar seus resultados, tanto do ponto de vista das práticas de linguagem defendidas pelo Programa, quanto das questões didáticometodológicas inerentes ao ofício de formador. Hoje, munida das leituras realizadas e da construção de um olhar mais crítico em relação a esse cenário, fico com a impressão de que essa equipe não tem dimensão da contradição posta (ou “disfarçadamente” teria?), uma vez que, entendida a proporção dessa dualidade de caráter incontrolável, e eu diria até, do campo do impossível, assim como defenderia Freud (1980) para os atos de educar, governar e curar, fica claro que a questão precisa ser analisada a partir de múltiplos prismas. Do ponto de vista das contribuições acadêmicas já realizadas na tentativa de entender/refletir sobre tais polêmicas ou tensões sobre o papel do coordenador como formador de professores, temos à disposição uma ampla gama de pesquisas sobre o tema, como encontramos em Fusari (2003), Garrido (2003), Mate (2003), e Placco e Silva (2003), só para citar alguns, incluindo a mais recente pesquisa divulgada sobre o retrato do PC nos dias de hoje, feita em parceria entre a Fundação Carlos Chagas e a Fundação Victor Civita, liderada por Placco, Almeida e Souza (2011). Dentre esse universo imenso de pesquisas já realizadas sobre o professor coordenador, escolhemos um recorte a fim de fazermos um levantamento das investigações mais recentes na área, que apontassem para o foco do professor coordenador e da formação continuada de professores (fatia que nos interessa nessa investigação). Na base CAPES, encontramos um total de 602 pesquisas de Mestrado (2007-2011) e 144 de Doutorado (2007-2011). Desse total selecionamos aquelas que mais interessavam pela aderência ao tema dessa pesquisa. O levantamento completo encontra-se no Apêndice 01 (p. 218-222); aqui elencaremos apenas o que nos pareceu mais relevante, nesse segundo recorte. Quadro 1 – Pesquisas sobre o PC como formador de professores 2007 Cristina Nacif Alves. 2007 Luzia de Lourdes Caseiro. 2007 Marisa Salina Cassalate. 2007 Rita de Cássia Carvalheiro Micheletti. Iva Evangelista Barreto Bertumes. 2008 2008 Marilene Garcia 2010 Marley Eloisa Gonçalves Antunes. 2010 Reinaldo Ortiz de Sousa. 2010 Silvana Alves Freitas. O sentido dos argumentos para a formação de coordenadores pedagógicos: caminhos para a aproximação entre teoria e prática. A atuação do professor coordenador pedagógico no desenvolvimento profissional dos docentes. A atuação do professor coordenador pedagógico na formação continuada docente: concepções, práticas e dificuldades. O professor coordenador: suas atribuições legais e o trabalho junto à equipe docente. Mestrado A Coordenação Pedagógica e os delineamentos da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, desde sua criação. Formação continuada para coordenadores pedagógicos: e a escola, como fica? A coordenação pedagógica e as contribuições para a formação de professores alfabetizadores. O cotidiano escolar do professor coordenador: o diálogo entre teoria e prática. O professor coordenador emergente da Proposta Curricular do Estado de São Paulo (gestão 2007-2010). Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Doutorado Mestrado Mestrado Mestrado Fonte: Base de Dados CAPES. Disponível em:<http://www.capes.gov.br>. Acesso em: Junho de 2012. Dentre as pesquisas listadas, destacamos as de Caseiro (2007), Cassalate (2007) e Antunes (2010), uma vez que todas elas desenvolvem-se num sentido próximo a nossa, reforçando a importância do coordenador pedagógico como um formador de professores. Contudo, salientam que, nesse ofício, convivem tensões, intenções, contradições, limites e possibilidades, que exigem, do coordenador, estudo, disponibilidade para o enfrentamento, o vislumbre do espaço escolar como uma abertura para situações de formação, entre outros fatores tão importantes quanto os citados. Caseiro (2007) realizou uma pesquisa quanti-qualitativa, acompanhando as reuniões de formação de uma coordenadora pedagógica, nas reuniões semanais do Horário de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC), no desenvolvimento de um projeto de trabalho de leitura. Já Cassalate (2007) realizou um estudo de caso, também acompanhando uma coordenadora pedagógica de uma escola estadual do interior do Estado de SP, nos encontros de formação que realiza, na escola, refletindo sobre a importância desse papel, desempenhado pelo coordenador: de formador de professores. Finalmente, Antunes (2010) propõe analisar quais as ações elaboradas pelo coordenador pedagógico, que subsidiam o professor alfabetizador e o fazem refletir sobre sua concepção de ensino e aprendizagem e que embasam a sua prática ao iniciar as crianças no mundo da escrita. Já, em relação à atuação do PC nesse Programa institucional específico (Ler e Escrever – SP), não encontramos tantas pesquisas assim e, das encontradas, o foco é diverso, abordando o Programa do ponto de vista dos professores, do material didático, do plano de governo ou mesmo em relação à concepção teórica adotada pela SEE/SP nos últimos vinte anos. As únicas dez pesquisas, que constam no banco da CAPES envolvendo o Programa Ler e Escrever, são as seguintes: Quadro 2 – Pesquisas sobre o Programa Ler e Escrever 2008 2009 2010 2010 Conceição Aparecida Celegatto. Francine Silva Chaves. Priscila Vita Camacho. Rodnei Pereira. 2010 Sandra Regina Firmino da Silva. 2010 Simone Garbi Santana Molinari. Soraia Calderoni Statonato. Angela Maria da Silva Figueredo. Sirlei Ivo Leite Zoccal. 2010 2011 2011 2012 Claudia Zaniti Moreno Formação em serviço: significado do "Programa Ler e Escrever" numa escola municipal de ensino fundamental. Alfabetização e Letramento, Desenvolvimento e Aprendizagem: percepções e concepções de professores participantes do Programa Ler e Escrever da Secretaria Municipal de Educação. Um estudo sobre o "Programa Ler e Escrever" da rede pública do estado de São Paulo. A autoanálise de coordenadores pedagógicos sobre sua atuação como formadores de professores. Um estudo das estruturas multiplicativas no guia de orientação curricular do Programa Ler e Escrever. Escolhas didáticas de uma professora alfabetizadora. A formação dos formadores: uma análise do processo formativo Formação continuada de professores alfabetizadores: como aprende o professor. A relação dos professores alfabetizadores com o saber no contexto do Programa Ler e Escrever. O professor alfabetizador bem sucedido: uma análise da relação com os saberes da prática do "Programa Ler e Escrever"- SEE/SP. Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Mestrado Fonte: Base de Dados CAPES. Disponível em:<http://www.capes.gov.br>. Acesso em: Junho de 2012 . Vale salientar que, embora nem todas as pesquisas recebam, em seu título, a indicação do Programa Ler e Escrever, todas elas realmente trabalham nesse contexto. Isso pode ser verificado, quando retomamos seus resumos. Dentre essas, destacamos as pesquisas de Celegatto (2008), Pereira (2010) e Figueredo (2011), por se aproximarem mais de nossa temática e contribuírem com nossas reflexões. Celegatto (2008) investigou os significados que um programa institucional obrigatório pode promover nos diferentes sujeitos da escola, em especial, por meio do viés do professor coordenador, porque parte da premissa de que ele tem possibilidades de influência e mudança no trabalho realizado pelos professores. Já Pereira (2010) teve como objetivo analisar como os professores coordenadores pedagógicos da rede estadual de São Paulo compreendem e descrevem sua atuação como formadores de professores, em especial, porque a formação de professores, como atribuição do coordenador pedagógico, apresenta-se como uma tendência que, aos poucos, vem sendo incorporada pelas políticas públicas referentes aos profissionais desta área. Por fim, Figueredo (2011) analisa o processo de aprendizagem de alguns professores alfabetizadores, na perspectiva de que um professor bem-formado tem mais condição de intervir na aprendizagem de seus alunos. Nesse sentido, parte também da hipótese de que, compreendendo o processo de aprendizagem destes educadores, as ações de formação (pelo professor coordenador) podem ser mais eficazes. Com isso, acreditamos que a presente investigação contribui para o cenário das pesquisas na área, uma vez que se configura como a primeira pesquisa que foca o professor coordenador, no contexto desse Programa já abordado em pesquisas anteriores, mas tentando analisar as relações de poder, que permeiam e configuram seu ofício de formador de professores. Considerando, então, nossas inquietações profissionais, a relevância da pesquisa e as contribuições que acreditamos poder trazer, nosso raciocínio parece conduzir-nos ao objeto desta pesquisa: a prática do professor coordenador. Mas não exatamente toda a prática desenvolvida por esse sujeito no desempenho de seu ofício e, sim, um recorte desse fazer, no que consideramos um momento privilegiado do formador de professores: a elaboração das pautas formativas de HTPC. Interessa-nos saber de que maneira ele atua na preparação desse instrumento, que conduzirá a ação formativa mais visada pelo “Programa Ler e Escrever”, que é a Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo (HTPC). Há autoria, há reprodução de modelos, há escolhas conscientes de conteúdos e estratégias, há planejamento, há levantamento de necessidades formativas do grupo, há mapeamento dos saberes dos professores? Enfim, o quê, como e por que escolhe e o que escolhe? Dessa forma, a questão-problema que orientará essa pesquisa, traduz-se no desejo de investigar a autonomia do PC, configurando-se da seguinte forma: o PC exerce sua autoria profissional, quando atua como formador de professores em um Programa institucional? As questões norteadoras dessa investigação são: 1. Que motivações ou mobilizações levam o PC a escolher essa função? 2. O PC considera o conhecimento adquirido nas formações oferecidas pela SEE e as exigências do “Programa Ler e Escrever”, quando planeja a formação dos professores alfabetizadores de sua escola? De que forma? Em que medida? Atua de forma reprodutora ou reflexiva? 3. Como se dá o processo de construção de uma pauta formativa para a HTPC pelo PC? 4. Em que medida a formação oferecida pelo “Programa Ler e Escrever” ampara o PC para atuar de forma a garantir o que é preconizado e, ao mesmo tempo, escolher o que considera relevante na formação de seus professores? A pesquisa tem, então, como objetivo geral, conhecer a prática do professor coordenador como formador de professores alfabetizadores no contexto do Programa Ler e Escrever. Como objetivos específicos, pretendemos: investigar, pelo olhar do PC, o quanto o “Programa Ler e Escrever” investe na construção da autonomia desse sujeito como formador de professores; e compreender que escolhas formativas o PC prioriza na formação de professores alfabetizadores (didatização de conteúdos, estratégias usadas, processo de planejamento, socialização e mediação de conhecimentos etc). Para isso, a pesquisa adota uma abordagem metodológica de caráter qualitativo. Apoia-se, ainda, em instrumentos de coletas de dados, como questionário na pesquisa exploratória e as entrevistas semiestruturadas, bem como a análise dos registros de pautas formativas realizadas pelos sujeitos em questão, tendo como base a técnica da análise de conteúdo (BARDIN, 2011). Os referenciais teóricos que sustentam essa pesquisa são: Nóvoa (1991, 1995a, 1995b, 2002, 2007, 2009); Foucault (1992a, 1992b, 1996, 2006, 2012); Ball (1994, 2001, 2004, 2005, 2006, 2008, 2011) e Contreras (2002), por trazerem reflexões que fundamentam e alicerçam tal debate que discute, principalmente, as questões voltadas para a formação dos professores e suas tensões, contradições, limites e possibilidades. Contreras (2002) oferece-nos a contribuição para pensarmos na questão da autonomia dos sujeitos no exercício da sua profissão, em especial, os professores. Ball (1994, 2001, 2004, 2005, 2006, 2008, 2011), analisa a influência das políticas neoliberais na constituição da subjetividade2 dos profissionais e, finalmente, Foucault (1992a, 1992b, 1996, 2006, 2012) por ser a base para compreender as relações de poder capilarizadas por entre todo o sistema educacional no qual o PC atua. Além disso, vale ressaltar que este autor é uma das bases teóricas principais de Ball e, portanto, também apresenta aderência com a temática que discutimos aqui. A princípio, realizamos um levantamento inicial com os 75 PCs atendidos nas Diretorias de Suzano, Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes, com o objetivo de adquirir dados sobre a totalidade dos sujeitos, para posterior definição do recorte a ser introduzido nessa realidade. Essa pesquisa foi enviada por e-mail a todos os sujeitos e era composta de um questionário, que solicitava informações básicas sobre sua vida profissional e uma questão aberta sobre o que o levou a escolher o cargo de PC. Os dados colhidos com os 75 PCs foram tabulados e, a partir deles, foi possível traçar um perfil desse grupo. Tal perfil foi um critério usado na seleção de três outros PCs, de Diretorias de Ensino diferentes das primeiras, para serem analisados nessa pesquisa. Outro critério foi não trabalharmos com os PCs atendidos em formação pela pesquisadora, para garantir que não tivéssemos nenhuma influência na produção dos dados. A pesquisa foi organizada em quatro capítulos. No primeiro, abordamos o contexto político, no qual o “Programa Ler e Escrever” está circunscrito, apresentando a proposta política do governo do Estado de SP para a educação, no período de 2007 a 2011, que !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! "!Usamos, nesta pesquisa, o conceito de subjetividade tal qual Gimeno Sacristán (2000) o utiliza, ou seja, como um aspecto centrado na constituição da identidade, cujas interfaces são constituídas por categorias, regras, discursos, normas e linguagens de ajuda que estruturam as ações do sujeito. Tais ações são baseadas em juízos sociais e normativos, sendo, portanto, socialmente construídas e historicamente determinadas. elabora e implanta o Programa citado em todas as escolas estaduais; além de contextualizarmos a figura do professor coordenador, suas atribuições, funções e como o Programa entende a atuação desse sujeito. O Capítulo 2 pretende discutir o papel do professor coordenador como formador de professores. Para tanto, recorremos às tecnologias políticas de Ball (2005), por entendermos que elas nos ajudam a compreender os elementos que influenciam e determinam a ação do professor coordenador na escola. Abordamos, ainda, o seu lugar dentro do Programa Ler e Escrever, bem como o modelo de formação continuada em serviço defendido pelo Programa. Já o Capítulo 3 apresenta a descrição dos caminhos da pesquisa desenvolvida: como se deu o processo de coleta dos dados, os sujeitos envolvidos, os instrumentos utilizados, a fundamentação teórica que embasou a escolha do método para o desenrolar da pesquisa em questão. O Capítulo 4 traz as entrevistas realizadas com os sujeitos selecionados e a análise dos dados coletados, à luz do referencial teórico escolhido, principalmente, a partir da análise de conteúdo (BARDIN, 2011). Nele, retomamos nossos objetivos iniciais e estabelecemos uma relação entre o material bibliográfico pesquisado, os documentos analisados e a voz dada aos sujeitos entrevistados. Finalmente, nas considerações finais, recuperamos nossa questão-problema inicial e sistematizamos o que foi exposto ao longo da pesquisa, destacando, ainda, alguns pontos, em especial, a contradição existente entre os pressupostos pedagógicos do Programa Ler e Escrever e os pressupostos políticos que o regem; bem como a influência das relações de poder, decorrentes da política neoliberal adotada pelo sistema educacional paulista, na atuação do PC como formador de professores. Esperamos que, nesse momento privilegiado de estudo, possamos ter contribuído com algumas reflexões acerca do tema e, ainda, que estas promovam outras tantas que nos impulsionem a trilhar um novo caminho de pesquisa que ainda há de se descortinar logo adiante. CAPÍTULO I A POLÍTICA EDUCACIONAL DA SEE/SP (2007 A 2011) O que passou não conta?, indagarão as bocas desprovidas. Não deixa de valer nunca. O que passou ensina com sua garra e seu mel. Thiago de Mello (1970) O objetivo de nosso primeiro capítulo é contextualizar o cenário político sobre o qual iremos trabalhar, já que elegemos um programa institucional obrigatório como foco. Assim, traremos uma organização triangular, na qual dividiremos o texto em três subitens, a saber: 1.1) O cenário político da reforma educacional paulista; 1.2) O Programa Ler e Escrever; e 1.3) O Professor Coordenador. Todos esses itens compõem o que estamos considerando como política educacional da SEE/SP, de 2007 a 2011, evidenciando alguns aspectos. Essa divisão foi pensada de forma a colocar em foco os principais elementos que discutiremos ao longo dessa pesquisa. Esperamos, com isso, ajudar o leitor na construção de sentidos (múltiplos, diferentes, individuais) em nosso texto. 1.1. Contextualizando o cenário político da reforma educacional paulista A educação escolar no estado de São Paulo está relegada, desde 1995, às concepções político-ideológicas do PSDB (Partido da Social Democracia Brasileira), tendo como comandantes os governadores Mário Covas (1995-98, 1o mandato e 1999-2000, 2o mandato até sua morte), Geraldo Alckmin (2000-02, final do mandato de Covas e 20032006, no 2o mandato), Claudio Lembo (final de 2006, quando Alckmim se candidatou à presidência do país), José Serra (2007-2010), Alberto Goldman (que assumiu o final do mandato de Serra - 2010, que também se candidatou à presidência do país) e, novamente, Geraldo Alckmim, que se elegeu governador do estado de SP para um mandato de 20112014. Nesse período de 1995 a 2011, portanto já dezessete anos, foram nomeados, respectivamente, como secretários da educação: Tereza Roserlei Neubauer da Silva (Governo Covas), Gabriel Chalita (Governo Alckmim), Maria Lúcia Vasconcelos (Governo Lembo e início do Governo Serra), Maria Helena Guimarães de Castro (Governo Serra até início de 2009), Paulo Renato (Governo Serra, a partir de abril de 2009) e Herman Voorwald (Governo Alckmim, a partir de 2011). É um largo período de atuação num mesmo Estado e isso nos permite acompanhar, ao longo do tempo, a direção escolhida pelo PSDB, no seu quinto mandato consecutivo, no que diz respeito à política educacional defendida desde então. Contudo, para centramo-nos no período correspondente ao Governo Serra e início do Governo Alckmin (2011), é preciso que olhemos para o que foi realizado no período correspondente à implementação do projeto político do PSDB. Assim, podemos dizer que, no Governo Covas, iniciado em 1995, as políticas gerencialistas foram implantadas em São Paulo e, nos Governos de Serra e Alckmin, tais políticas foram consolidadas. No primeiro período, vivemos a convergência dos governos federal e estadual e a criação de projetos coerentes com as orientações de organismos internacionais. Já, no segundo período, além da continuidade da reforma garantida pelos projetos implantados, tivemos a consolidação de uma nova cultura: o ideário neoliberal. Falemos a respeito com maior aproximação. Fernando Henrique Cardoso foi Presidente da República no mesmo período em que Mário Covas foi Governador do Estado de SP – ambos do PSDB. Tal coincidência acarretou, para a educação, uma reforma em nível federal e outra em nível estadual. Ambas, utilizaram as mesmas estratégias de implantação, articulação e justificativa e contaram com apoio e incentivo de agências multilaterais de financiamento e formulação de políticas públicas como BIRD (Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento), BID (Banco Interamericano de Desenvolvimento), UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), justamente porque aproveitaram um cenário internacional favorável às reformas socioeconômicas e políticas, na medida em que instituíam um novo modelo de regulação, que preconizava atender às demandas da globalização e do modelo neoliberal do Estado (ROSA, 2012). ! Segundo Stephen J. Ball (2005, p. 544), “(...) o gerencialismo tem sido o mecanismo central da reforma política (...) e o principal meio pelo qual a estrutura e a cultura dos serviços públicos são reformadas...”. Junte-se a isso uma lógica de produtividade e performatividade, regulação instituída por meio de indicadores e publicação de informações que visam ao alcance de metas estipuladas a cada órgão do sistema envolvido nessa política. Tal performatividade, segundo Lyotard (apud BALL, 2005, p. 544), é o que se pode chamar de: (...) ‘controle de contexto’, intimamente interligada com possibilidades atraentes de um tipo específico de “autonomia” econômica (em vez de moral) para as instituições e, em alguns casos, para indivíduos, como os diretores de escolas. A subjetividade “autônoma” desses indivíduos produtivos tornou-se o principal recurso econômico do setor público reformado e empresarial. Nessa lógica do gerencialismo e da performatividade, os projetos que compuseram a referida reforma no Estado de SP incluem: a municipalização, a reorganização da rede estadual de educação, o SARESP (Sistema de Avaliação do Rendimento Escolar do Estado de São Paulo), a avaliação de desempenho dos professores e o enxugamento da máquina administrativa, o Programa de Demissão Voluntária, a alteração no quadro curricular e o plano de Carreira do Magistério. Para que seja possível que nos situemos a respeito dessa reforma, trataremos brevemente de cada um dos projetos citados anteriormente. Sobre a municipalização, João Cardoso Palma Filho, que assumiu como Secretário Adjunto da Educação do Estado de São Paulo em 2011, no Governo Alckmin, afirma que: (...) o processo de municipalização deslancha a partir do FUNDEF (Lei Federal no 9.424/96). (...) Todavia, a situação começa a se alterar a partir da criação pelo governador, do Programa de Ação de Parceria Educacional Estado-Município, para atendimento do ensino fundamental, instituído por meio do Decreto Estadual nº 40.673/96... (PALMA FILHO, 2010, p. 159-160). Em 1995, o Estado de SP era responsável por 87,5% do Ensino Fundamental da rede pública. Já em 1998, 978 escolas foram municipalizadas. Em 2008, 159 municípios tinham rede própria de EF. Em 2009, esse número passou para 586 municípios, conforme destaca Souza (2002, p. 87). Em relação ao projeto de Reorganização da Rede Estadual, foi prevista a divisão das escolas de 1ª a 4ª séries e de 5ª série ao último ano do EM; assim como criar condições à municipalização, facilitando para os municípios assumirem encargos com o ensino fundamental (SOUZA, 2002, p. 85). Sobre a avaliação e regulação da educação no estado de São Paulo, foi instituído, por meio da Resolução SE no 27, de 29 de março de 1996 (SÃO PAULO, 1996a), o SARESP - Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo - que, em seu texto legal, era apresentado como complementar ao SAEB. Tinha a finalidade de coletar dados específicos por meio da aplicação de provas e passou a ser aplicado a todos os alunos de determinadas séries, com objetivo censitário. Em 2007 e 2008, respectivamente, foram criados, então, dois novos instrumentos para avaliar a educação básica: o IDEB (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica), pelo governo federal, e o IDESP (Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo), pelo governo estadual; além da Provinha Brasil, criada para avaliar o nível de alfabetização de crianças com idade de 7 e 8 anos. Os dois índices combinam o desempenho dos alunos em Língua Portuguesa e Matemática com índices de produtividade das escolas, que tem a ver com os números relativos à reprovação e evasão. O SARESP é um tema que daria um capítulo à parte, por conta de toda a discussão que se tem em torno disso, suas intenções, possibilidades, impedimentos e contradições. Em relação ao quadro curricular, o projeto de reforma deu prioridade às disciplinas de Língua Portuguesa e Matemática e diminuiu-se o número de aulas ligadas à área de Ciências Humanas. Em se tratando do funcionalismo público, a reforma incluiu, pelo Decreto nº 40.999/96 (SÃO PAULO, 1996b), o Programa Permanente de Avaliação de Desempenho do servidor público civil, no âmbito da Administração Direta e das Autarquias do Estado, que acontece duas vezes ao ano, realizada pelos diretores, com possibilidade de demissões. Juntamente com isso, veio o Programa de Demissão Voluntária (PDV) e, segundo a Secretaria da Fazenda (2011), “no período de 1995 a 1998, o Estado implantou três Programas de Demissão Voluntária (PDV), resultando na redução de cerca de 15.000 servidores, correspondendo a uma economia de R$ 75 milhões por ano” (PALMA FILHO, 2010). Finalmente, pela Lei Complementar nº 836/97 (SÃO PAULO, 1997a), institui-se o Plano de Carreira, Vencimentos e Salários para os integrantes do Quadro do Magistério da Secretaria da Educação, prevendo alterações na jornada de trabalho e na evolução funcional e alterações na hora-aula (de 50 para 60 minutos). Em decorrência de todo esse processo e com vistas a otimizar recursos (eliminar a retenção e reduzir a evasão), atendendo aos interesses da reforma, estabeleceu-se pela Deliberação CEE Nº 9/97 (SÃO PAULO, 1997b), o Regime de Progressão Continuada no ensino fundamental. Tal Regime previa a avaliação do processo de aprendizagem por meio de recuperação contínua e paralela, correção do Fluxo Escolar (idade/série) e instituição de dois ciclos no Ensino Fundamental: 1ª a 4ª série e 5ª a 8ª série. Outra importante decisão foi a descentralização do financiamento e gestão escolar. O Parecer CEE nº 67/98 (SÃO PAULO, 1998) regulamentou as Normas Regimentais Básicas para as Escolas Públicas de 1º e 2º graus no Estado de São Paulo. No texto do Parecer, era defendida a fundamentação na proposta da Secretaria de Educação, direcionando a elaboração do Regimento Escolar e da Proposta Pedagógica de cada escola. Propunha a elaboração de um Plano de Gestão, incentivava parcerias com o setor privado e retirava do Conselho de Escola o caráter deliberativo sobre o Regimento e a Proposta das escolas, atribuindo sua aprovação às Delegacias de Ensino, segundo destaca Assis (1999, p. 43-45). Os desdobramentos dessa reforma e a implantação de todos esses projetos causaram um impacto importante nos professores e no sistema de educação da rede estadual. A preocupação com a eficiência no controle do dinheiro público e economia de despesas fizeram com que as salas de aula passassem a funcionar superlotadas, com média de 50 alunos em cada. Com isso, o quadro de professores e funcionários foi enxugado e sua insatisfação com as condições de trabalho foram maximizadas, conforme destaca Loureiro (2011, p. 30). A partir do Governo Serra (2007-2010), período de consolidação da reforma, os projetos educacionais implantados foram: PEC-FORPROF (Formação Universitária – Programa Especial de Formação de Professores de Primeira a Quarta Série do Ensino Fundamental), Rede do Saber, Programa de Formação Continuada – Teia do Saber, Curso de Formação Específico para professores ingressantes, Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado de São Paulo (que, hoje, constitui-se como um órgão da SEE/SP), REDEFOR - Rede São Paulo de Formação Docente e Projeto Bolsa Mestrado e Doutorado. O PEC-FORPROF – Formação Universitária – Programa Especial de Formação de Professores de Primeira a Quarta Série do Ensino Fundamental, foi criado para atender à LDBEN 9394/96 (BRASIL, 1996), que determina que os professores devem ser formados em nível superior, uma vez que havia uma demanda de inicial de 12.400 professores (1ª à 4ª série) com nível médio. Iniciado em março de 2001, contou com a colaboração da USP, UNESP e PUC-SP na elaboração do projeto. A coordenação e gestão do programa ficou a cargo da Fundação Vanzolini (contratada pelo Governo) e foram atendidos 7.000 professores em exercício. O investimento no programa foi de 50 milhões de reais, conforme apontam Mello e Dallan (2002). A partir do sucesso do PEC-FORPROF e na intenção de sua ampliação, foi criado o projeto “Rede do Saber”, em 2003, para atender a todos os profissionais da SEE-SP. Hoje ele integra a Escola de Formação. Ainda, em 2003, foi implantado o Programa de Formação Continuada Teia do Saber que, segundo Palma Filho (2010, p. 164), tinha a “finalidade de articular e consolidar as ações que já vinham sendo realizadas pela Secretaria de Educação...”. Ele abrangeu todos os programas e projetos da CENP e aliava fundamentação teórica e vivência dos professores. Os temas que deveriam compor as ações desenvolvidas pelo Teia do Saber eram: alfabetização e letramento, alfabetização científica e matemática, a arte como conhecimento humano sensível-cognitivo, inclusão escolar, entre outros (PALMA FILHO, 2010, p. 164-165). Pelo Decreto nº 48.298/03 (SÃO PAULO, 2003), institui-se o Projeto Bolsa Mestrado e Doutorado, para propiciar aos profissionais da educação a realização de cursos de pós-graduação stricto sensu. O curso deveria ser escolhido com a garantia de que fosse na disciplina do cargo e/ou na área de educação e o professor receberia ajuda financeira de 720 reais por até 30 meses ou designação sem prejuízo de vencimentos e vantagens do cargo por até 30 meses (liberação de até 16 horas semanais). Como condição, ele deveria permanecer no magistério público estadual pelo menos 2 anos após a conclusão do curso. Com o Decreto nº 53.277/08 (SÃO PAULO, 2008c), o projeto ganha nova regulamentação: cria diversas restrições para a concessão da bolsa e aos projetos de pesquisa, no que diz respeito, por exemplo, aos processos de inscrição, condições de admissão, obrigações do candidato, entre outros. Vale ressaltar, ainda, que duas outras medidas foram instauradas nessa tentativa de regulação e organização da rede de ensino. Em 2004, institui-se o Programa Escola da Família, pelo Decreto nº. 48.781/04 (SÃO PAULO, 2004), que, com a abertura das escolas públicas estaduais aos finais de semana, visava a atrair a comunidade e as famílias por meio de ações socioeducativas, desenvolvendo uma cultura de paz e de redução da vulnerabilidade, fortalecimento da autoestima e da identidade cultural das comunidades. Suas diretrizes eram estabelecidas pela Secretaria de Educação, em sintonia com o Projeto Pedagógico da escola. Previa, ainda, parcerias, convênios e concessão de bolsas a estudantes. Em 2005, pela Resolução SE nº 89/05 (SÃO PAULO, 2005a), implementou-se o Projeto Escola de Tempo Integral, cujo objetivo era de prolongar a permanência dos alunos de Ensino Fundamental na escola pública estadual. Visava a ampliar as possibilidades de aprendizagem, o enriquecimento do currículo básico, a exploração de temas transversais e a vivência de situações que favorecessem o aprimoramento pessoal, social e cultural. Em 2007, sob o comando da Secretária de Educação, Maria Helena Guimarães de Castro, o governo anuncia um conjunto de 10 metas (período de 2007-2008) para melhorar a qualidade da educação nas escolas estaduais. As metas são, conforme assinala Palma Filho (2010, p. 166): 1. Todos os alunos de 8 anos plenamente alfabetizados. 2. Redução de 50% das taxas de reprovação da 8ª série. 3. Redução de 50% das taxas de reprovação do Ensino Médio. 4. Programas de recuperação de aprendizagem no final dos ciclos. 5. Aumento de 10% no desempenho em avaliações. 6. Atendimento de 100% da demanda de jovens e adultos de EM. 7. Implantação do EF de 9 anos, em colaboração com os municípios. 8. Programas de formação continuada e capacitação da equipe. 9. Descentralização e/ou municipalização da alimentação escolar. 10. Programa de obras e melhorias de infraestrutura das escolas. Para alcançar tais metas até 2010, o governo, então, estabelece um conjunto de ações, dando maior ênfase, segundo informações do próprio site da Secretaria de Educação (SÃO PAULO, 2012a), às seguintes: 1. Implantação do Projeto Ler e Escrever. 2. Reorganização da Progressão Continuada. 3. Elaboração e divulgação das propostas curriculares da educação básica. 4. Recuperação da aprendizagem: ciclos iniciais, 8a série e Ensino Médio. 5. Diversificação curricular do Ensino Médio. 6. Educação de Jovens e Adultos (Ensino Fundamental e Médio). 7. Ensino Fundamental de 9 anos e articulação com os municípios. 8. Sistemas de Avaliação. 9. Gestão por resultados e política de incentivos. 10. Plano de obras e investimentos. Tais ações, a nosso ver, caracterizam-se como novas/velhas tentativas de solução para um recorrente problema da educação em nosso país: a defasada evolução da aprendizagem dos alunos. A cada administração, vemos outras (ainda que repaginadas) iniciativas para alcançar determinadas metas universais: alfabetizar crianças em idade adequada; ter um sistema de ensino inclusivo, que não desconsidere nenhum sujeito; utilizar um sistema de avaliação e de progressão coerentes com o currículo que se pretende para a sociedade em questão; valorizar os profissionais da área. Por isso, nos perguntamos: tais metas/ações seriam um novo ensaio sobre o mesmo tema ou há novidade na proposição apresentada? Conforme afirma Paula (2008, p. 24): (...) as ações propostas para alcançar essas metas são fundamentadas na busca pela eficiência visando corrigir desvios no processo de ensinoaprendizagem decorrentes da política educacional adotada no Estado de São Paulo nos anos 90, oriunda das reformas do aparelho do Estado. Num círculo vicioso interminável, as ações se sucedem e se sobrepõem umas às outras. Quando Paulo Renato Souza, então Ministro da Educação, assume o lugar de Maria Helena Guimarães de Castro, lança o programa “+ Qualidade na Escola”, na tentativa de, segundo Palma Filho, “... equacionar a complexa questão do magistério” (2010, p. 167). Nesse programa estão incluídos, ainda segundo Palma Filho (2010, p. 168): 1. Criação da Escola de Formação de Professores do Estado de São Paulo pela Lei Complementar nº 1.094/09, Decreto nº 5.497/09 e Decreto nº 55.717/10. O Decreto nº 57.088/11, altera a denominação para "Paulo Renato Costa Souza”, após a morte do então secretário da educação. A escola funciona para formação e aperfeiçoamento de professores e funcionários (na modalidade presencial e a distância) e incorpora o patrimônio e acervo da Rede do Saber. 2. Mudança no modelo de ingresso dos profissionais do magistério. A Lei Complementar nº 1.094/09 previa concursos em três etapas (provas, títulos e curso específico de 20h sem.) e a aprovação dependia da conclusão e aprovação no curso, sendo que o candidato recebia 75% da remuneração inicial durante o curso. 3. Criação de duas novas jornadas para os professores: 40 horas e 12 horas semanais. 4. Abertura de Concurso Público e criação de 50 mil novos cargos efetivos. 5. Exame para os professores temporários como parte dos requisitos na escolha de aulas. Para que entendamos as ações descritas aqui, abordaremos brevemente cada uma delas. Quanto à implantação do Programa Ler e Escrever, trataremos com mais cuidado adiante. Quanto à progressão continuada, sua reorganização foi determinada pela Resolução SE nº 79/06 (SÃO PAULO, 2006a) e pela Resolução SE nº 36/07 (SÃO PAULO, 2007a). Por conta do baixo rendimento em Matemática e Leitura (apontado pelo SARESP), optouse pela implantação de ciclos mais curtos, para que a avaliação também fosse realizada em tempo mais curto. Ficaram ciclos de dois anos no primeiro segmento do Ensino Fundamental (1a à 4a série), a partir de 2008 e ciclos de dois anos no segundo segmento do Ensino Fundamental (5a à 8a série), a partir de 2009. Vale lembrar, de acordo com Vasconcelos (2008, p. 83-84), que, em 2007, já estavam implantados dois ciclos no segmento de 1ª à 4ª série. Sob o preceito de garantir homogeneidade na rede, na atribuição de 2007, os professores de 2ª série ficaram com seus mesmos alunos de 1ª série e o mesmo deveria acontecer com 3ª e 4ª séries. Institui-se, também, o Boletim Eletrônico dos alunos, com acesso pelos pais na internet, em setembro de 2007. Em 2008, no planejamento de fevereiro, a Secretaria implanta suas diretrizes curriculares e expectativas de aprendizagem para cada série do Ciclo I do Ensino Fundamental (1a à 8a série) e Ensino Médio. As orientações já haviam sido divulgadas em final de 2007 (SÃO PAULO, 2007b). Quanto à recuperação da aprendizagem, institui-se uma intensidade quanto aos conteúdos curriculares fundamentais, em forma de etapas intensivas ao final do 1o ciclo (2a série), do 2o ciclo (4a série), na 8a série e no final do Ensino Médio (PALMA FILHO, 2010). A partir de 2008, também, o estudante do Ensino Médio poderia optar, a partir de uma base comum de conteúdos e competências, por habilitações técnicas profissionalizantes. Além disso, ofertou-se a modalidade “técnico em administração” em 20% dos cursos noturnos e, em parceria com o setor privado, certificações parciais em computação e língua estrangeira (PALMA FILHO, 2010). Em relação à Educação de Jovens e Adultos, o currículo foi organizado em três níveis, com duração de 200 horas cada, em regime presencial para os professores e semi-presencial para os alunos. Organizou-se, também, a oferta no Ensino Médio com apoio do TELECURSO 2000 + 10 e do TELETEC, em parceria com a Fundação Roberto Marinho e o Centro Paula Souza. Propôs-se oferta de exames centralizados por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos (ENCCEJA) e parcerias com as prefeituras para oferta do nível I, que corresponde ao primeiro segmento do Ensino Fundamental (1o a 5o ano). Quanto ao Ensino Fundamental de 9 anos, implantou-se uma política de municipalização de 1a a 4a séries com controle de qualidade e supervisão da Secretaria de Estado da Educação, com vistas à implantação, a partir de novembro de 2007, do Ensino Fundamental de nove anos, em regime de colaboração com os municípios (PALMA FILHO, 2010). Em relação ao sistema de avaliação, foi prevista uma atuação mais ampla do SARESP 2007, que avaliaria 1a, 2a, 4a, 6a e 8a séries do Ensino Fundamental e 3a série do Ensino Médio. Essa avaliação externa é obrigatória para as escolas estaduais e por adesão para as municipais. Seus resultados, comparados com as avaliações nacionais (SAEB e a Prova Brasil), serviriam como critério de acompanhamento das metas a serem atingidas pelas escolas. Previu-se, ainda, a participação de toda a rede na Prova Brasil (novembro de 2007) e a realização de programas de capacitação da rede para a participação no SARESP e na Prova Brasil, em setembro de 2007. Previu-se a capacitação dos professores para o uso dos resultados do SARESP no planejamento pedagógico das escolas, em fevereiro de 2008, e divulgação dos resultados para todas as escolas, professores, pais e alunos, em março de 2008. O resultado do SARESP 2005 e as taxas de aprovação, em 2006, foram a base das metas estabelecidas por escola para a implantação da política de incentivos e gestão dos resultados, na tentativa de valorizar as equipes. Outros indicadores usados seriam a assiduidade dos professores e a estabilidade das equipes nas escolas. As escolas com desempenho insuficiente teriam apoio pedagógico intensivo e receberiam incentivos especiais para melhorarem seu resultado. As equipes escolares que cumprissem as metas ganhariam incentivos na remuneração dos profissionais (PALMA FILHO, 2010). Finalmente, em relação ao plano de obras e investimentos, as ações determinavam 100% das escolas com laboratórios de informática; 100% das escolas com materiais de apoio ao ensino de ciências; 100% das salas dos professores com computadores, impressoras e ambiente de multimídia; atualização e informatização de todas as bibliotecas escolares; garantia de condições de acessibilidade em 50% das escolas para atender a alunos portadores de necessidades especiais; construção de 74 novas unidades, além de reforma e ampliação de 77 escolas (417 salas de aula); extinção das escolas com padrão Nakamura (escolas “de lata”, em contêineres); recuperação e cobertura de 2.315 quadras de esportes e implantação de circuito interno de TV para segurança nas escolas (PALMA FILHO, 2010). Em 2010, é criada a REDEFOR - Rede São Paulo de Formação Docente, pelo Decreto n. 55.650/10 (SÃO PAULO, 2010). Seu objetivo é oferecer cursos de especialização (pós-graduação) aos professores da rede (semipresencial), com duração entre 12 e 14 meses. Previa convênios da Secretaria de Educação com a USP, Unesp e Unicamp na tentativa de formar 30 mil profissionais entre 2010 e 2012. Segundo informações do site oficial, são dezesseis cursos (alguns nas disciplinas do Currículo e outros de Gestão). Em sua segunda edição, que abrange o período 2011/2012, 20 mil vagas serão oferecidas (PALMA FILHO, 2010). No dia 15 de outubro de 2011, o governador Geraldo Alckmin anuncia o Programa “Educação – Compromisso de São Paulo”, destacando, segundo site oficial da SEE, que: Além da valorização da carreira de professor, o programa tem como visão de futuro a Educação de São Paulo figurar entre as mais avançadas do mundo até 2030, com base nos dados mais recentes divulgados pelo Pisa, sigla em inglês para o Programa Internacional de Avaliação de Alunos. (...) O programa não teria sido possível sem os investimentos expressivos realizados em gestões anteriores. O Estado pode agora dar esse passo graças à conquista de importantes desafios, como a universalização do Ensino Fundamental, o combate à evasão, a grande ampliação da oferta do Ensino Médio (que passou de 545 mil matrículas em 1985 para 1,512 milhão em 2010), a implementação de um novo currículo (com os programas Ler e Escrever e São Paulo Faz Escola), o desenvolvimento de materiais de apoio a professores e alunos, o Sistema de Avaliação de Rendimento Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), a implantação da progressão por mérito e do bônus por desempenho e a criação da Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores (SÃO PAULO, 2012b). Como ações em desenvolvimento, para a gestão que segue, são apontados os seguintes itens: política salarial, plano de carreira, ampliação do quadro de servidores, reestruturação da Secretaria da Educação e Ensino Médio Técnico. Já as próximas iniciativas anunciadas incluem: intervenção e monitoramento em escolas consideradas prioritárias (vulneráveis, tanto no aspecto socioeconômico, como nos de infraestrutura e de aprendizagem, entre eles, o desempenho no SARESP 2010), Ensino Médio de tempo integral, avaliação da aprendizagem em processo (instrumentos de avaliação semestrais para os 6º e 7º anos do EF e 1º e 2º do EM) e ampliação do Programa Ler e Escrever. Essa última iniciativa prevê: Além de um aprofundamento na produção escrita nas aulas de língua portuguesa, o programa dará uma maior ênfase à matemática. Mais de 26 mil educadores passarão por formação específica e 3.375 kits de material de apoio, com 23 itens para uso em sala de aula, no valor de R$ 35 milhões, serão fornecidos a todas às 1.812 escolas que oferecem ciclo I. O programa passará a contemplar também as disciplinas de história, geografia, ciências, arte e educação física. Ainda nas unidades de ciclo I, professores-auxiliares atuarão em parceria com os titulares para identificar a necessidade de intervenção para melhorar o desempenho do aluno. Também será feita a aquisição, no valor de R$ 13 milhões, de obras específicas para a fundamentação teórica dos professores. O total de docentes será definido em janeiro, após ser estabelecida a carga horária dos profissionais envolvidos (SÃO PAULO, 2012b). Vale destacar que a SEE/SP, em sua página virtual oficial, destaca a importância da presença dos parceiros e colaboradores do programa “Educação – Compromisso de São Paulo”, firmando o apoio e envolvimento de diversas organizações e instituições, como Instituto Natura, Fundação Victor Civita, Fundação Lemann, Instituto Unibanco, Comunidade Educativa Cedac, Instituto Hedging-Griffo, Fundação Itaú Social, Tellus, Parceiros da Educação, Fundação Educar DPaschoal, Fundação Bradesco, Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação Comunitária (Cenpec), ICE (Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação), Instituto Península, Fundação Arymax e da consultoria internacional McKinsey & Company (SÃO PAULO, 2012b). Como podemos perceber, todo o conjunto de metas e ações compõem um quadro complexo de atuação, no qual a lógica mercadológica é a que prevalece ─ inclusive com a participação da iniciativa privada, como acabamos de citar, com vistas nos padrões de eficácia e controle de resultados. Conforme destaca Ball (2005, p. 546), “... a aprendizagem é reapresentada como o resultado de uma política de custo-benefício; o êxito é um conjunto de ‘metas de produtividade’”. É, nesse contexto, que partimos para analisar, a seguir, com mais cuidado, o Programa Ler e Escrever ─ a ação pensada para garantir uma das metas mais importantes para a educação de base: a alfabetização das crianças em idade escolar adequada (7-8 anos). 1.2.O “Programa Ler e Escrever” O “Programa Ler e Escrever” nasceu ─ em concepção, organização e execução, na Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, por meio da Diretoria de Orientação Técnica (DOT), e instituído, em 2006, a partir da Portaria SME 6.328, de 26/09/05 (SÃO PAULO, 2005b), revogada pela Portaria 5.403/07 – SME/SP (SÃO PAULO, 2007b). O referido Programa foi implantado nas escolas estaduais paulistas a partir de 2007, com a publicação, no DOE, da Resolução SE - 86, de 19-12-2007 (SÃO PAULO, 2007c), que instituía o Programa, a partir de 2008, no Ciclo I (1ª à 4ª série) das Escolas Estaduais de Ensino Fundamental das Diretorias de Ensino da Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo3. Segundo publicações oficiais do Programa, em seu texto de apresentação, o “Programa Ler e Escrever” se define como: (...) um conjunto de linhas de ação articuladas que inclui formação, acompanhamento, elaboração e distribuição de materiais pedagógicos e outros subsídios, constituindo-se dessa forma como uma política pública para o Ciclo I, que busca promover a melhoria do ensino em toda a rede estadual. Sua meta é ver plenamente alfabetizadas, até 2010, todas as crianças com até oito anos de idade (2ª série/3º.ano) matriculadas na rede estadual de ensino, bem como garantir recuperação da aprendizagem de leitura e escrita aos alunos das demais séries/anos do Ciclo I do Ensino Fundamental (SÃO PAULO, 2008a). !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! uma questão política de “propriedade intelectual”, o Programa Ler e Escrever passa a ser adotado também na rede estadual paulista, pois José Serra saiu da prefeitura de SP e assumiu o governo do Estado de SP, juntamente com Iara Prado, secretária de Ensino Fundamental nos oito anos da gestão FHC, depois secretária adjunta da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo e, finalmente, secretária adjunta da Secretaria Estadual de Educação de SP.! #!Por Seus principais objetivos, ainda segundo o documento, são: • apoiar o Professor Coordenador em seu papel de formador de professores dentro da escola; • apoiar os professores regentes na complexa ação pedagógica de garantir aprendizagem de leitura e escrita a todos os alunos, até o final da 2ª série do Ciclo I/EF; • criar condições institucionais adequadas para mudanças em sala de aula, recuperando a dimensão pedagógica da gestão; • comprometer as Universidades com o ensino público. • possibilitar a futuros profissionais da Educação (estudantes de cursos de Pedagogia e Letras), experiências e conhecimentos necessários sobre a natureza da função docente, no processo de alfabetização de alunos do Ciclo I / EF (SÃO PAULO, 2008a). Para colocar tais objetivos em prática, o Programa previa as seguintes ações: 1- Encontros de formação sistemáticos, ao longo de todo o ano letivo, para todos os profissionais envolvidos; 2- Recuperação da aprendizagem (Projeto Intensivo no Ciclo-PIC) nas 3a e 4a séries (4º. e 5º. anos); 3- Um “aluno pesquisador” nas salas de 1o ano e de PIC (Bolsa Alfabetização); 4- Elaboração e distribuição de materiais didáticos estruturados para professores e alunos do 1º ao 5º ano; 5- Distribuição de materiais complementares tais como acervo literário e paradidático para biblioteca de sala de aula, enciclopédias, globos, letras móveis, calculadoras etc. 6- Acompanhamento institucional sistemático às diretorias de ensino para apoiar o desenvolvimento do trabalho (SÃO PAULO, 2008a). A primeira fase do “Programa Ler e Escrever” teve início em 2007, com iniciativas nas escolas da capital paulista, adoção do Bolsa Alfabetização (no segundo semestre do ano) e a formação de professores para implantar o Programa em todas as salas de aula em 2008. Nesse ano, por iniciativa do governo estadual, o Programa foi ampliado para a Região Metropolitana de São Paulo e, em 2009, para o interior e litoral, a partir do Decreto nº 54.553 - D.O.E de 16/07/2009 (SÃO PAULO, 2009c). O Bolsa Alfabetização, como é conhecido, ou o “Projeto Escola Pública e Universidade na Alfabetização” é uma das ações do “Programa Ler e Escrever” e prevê a atuação de estudantes universitários nas classes de PIC e de 1ª série/2º ano do Ensino Fundamental da rede pública estadual, para auxiliar os professores na alfabetização dos alunos. Chamados de alunos pesquisadores, são universitários de cursos de graduação presencial em Pedagogia e Letras (com habilitação para Magistério de 1ª à 4ª série do Ensino Fundamental), indicados por instituições públicas e privadas de Ensino Superior conveniadas. Já o Projeto Intensivo no Ciclo I–PIC é uma outra ação do Programa que visa a impedir que as crianças prossigam em seus estudos sem ter desenvolvido adequadamente as competências de leitura e escrita. Além da formação de professores para atuarem nas turmas especiais, o projeto prevê organização administrativa e curricular diferenciada para essas classes, com a utilização de materiais específicos, entre outras medidas adequadas às necessidades de aprendizagem daqueles que não tiverem alcançado o nível necessário nos dois primeiros anos de escolarização (PIC de 3ª série/4º ano). Para a fase final do Ciclo I do Ensino Fundamental está previsto o PIC de 4ª série/5º ano, que substitui a Recuperação do Ciclo I e tem por objetivo garantir que nenhum aluno conclua o Ciclo I do Ensino Fundamental sem saber ler e escrever, portanto, sem estar em condições de continuar aprendendo no Ciclo II. Segundo documentos oficiais, trata-se de um projeto emergencial, cuja duração deveria ser temporária, uma vez que a meta das séries anteriores era justamente torná-lo desnecessário. Com a publicação da Resolução SE nº 02, de 12-1-2012 (SÃO PAULO, 2012c), que dispõe sobre mecanismos de apoio escolar aos alunos do ensino fundamental e médio da rede pública estadual, são criadas classes de recuperação intensiva (CRI). Essas classes assumem o papel das antigas salas de PIC e mostram que elas não se tornaram desnecessárias, como previsto anteriormente. O “Programa Ler e Escrever” envolve a estrutura da Secretaria Estadual de Educação (compreendendo os órgãos CENP, COGSP, CEI4 e as Diretorias de Ensino) e promove tanto a participação dos gestores (Supervisores, Professores Coordenadores das Oficinas Pedagógicas - PCOPs e Diretores de escolas), como estimula a discussão de conteúdos, que ampliem as possibilidades de compreensão, apoio, acompanhamento e avaliação para a tomada de decisões voltadas à aprendizagem dos alunos; e em relação à formação pedagógica (para PCOPs e Professores Coordenadores - PCs), visa a aperfeiçoar a didática de alfabetização e a formação de professores nas escolas. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 4 Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas, Coordenadoria de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo e Coordenadoria de Ensino do Interior de SP, respectivamente. Tais órgãos foram extintos com a reestruturação da SEE e seu novo modelo de gestão instituído pelo Decreto Nº 57.141, de 18 de julho de 2011 (SÃO PAULO, 2011). A capacitação dos educadores, em serviço, se faz conjugada a diretrizes e conceitos, em processos especificamente planejados para cada sujeito atuante no sistema: supervisores e professores coordenadores das oficinas pedagógicas (PCOPs); diretores e coordenadores pedagógicos das escolas (PCs); e professores regentes das classes de Ciclo I. O Acompanhamento Institucional Sistemático às Diretorias de Ensino, realizado mensalmente por uma equipe da CENP em reuniões nas Diretorias de Ensino e em encontros centralizados na capital, envolve os responsáveis pela gestão pedagógica das escolas de Ciclo I (Supervisores e PCOPs) de cada Diretoria. Nesses momentos, são analisados os dados das avaliações da aprendizagem dos alunos, com especial atenção para a alfabetização inicial (mapas de sondagem), discutidos os encaminhamentos realizados e as necessidades de subsídio às Diretorias, às Escolas e aos alunos. Além deste, a CEI e a COGSP também realizam acompanhamento às Diretorias, tendo como foco o trabalho a ser realizado para fazer avançar as escolas que alcançaram baixo IDESP. O “Programa Ler e Escrever” conta hoje, segundo site oficial, com 850 mil alunos atendidos, 234 mil professores envolvidos e mais de 12 mil livros entregues a alunos e professores. 1.3.O Professor Coordenador Consideramos necessário dedicarmos um espaço inicial nessa pesquisa para apresentarmos a figura do professor coordenador na rede estadual de ensino paulista. Isso porque é preciso que entendamos todo o seu percurso - desde a implantação do cargo/função, até os dias atuais, para que possamos, mais adiante, discutir sua atuação como formador de professores, foco principal dessa pesquisa. Assim, foi preciso recorrer à legislação que, ao longo dos anos, foi determinando papeis, funções, atribuições, perfis e condições de trabalho bastante diversas. Como nossa intenção é a de mapear historicamente esse percurso, a fim de situar o leitor a respeito da figura do Professor Coordenador (PC), não aprofundaremos nosso olhar e análise acerca da própria legislação, mas a usaremos como elemento de institucionalização de uma determinada plataforma política. Nosso recorte tem como marco inicial a Resolução SE no 28, de 4 de abril de 1996 (SÃO PAULO, 1996c), quando o PC ainda recebia a denominação de professor coordenador pedagógico (PCP). Tal resolução regulamenta a implantação da função em todas as escolas públicas da rede estadual paulista com mais de dez classes em funcionamento. A resolução trazia também critérios para escolha desses profissionais, a saber: prova escrita eliminatória elaborada pelas Diretorias de Ensino; apresentação de proposta individualizada para cada escola; além de eleição pelos pares e ratificação da escolha pelo Conselho de Escola. A implantação do cargo de PCP deu-se no contexto da reforma educacional, conhecida como “Escola de Cara Nova”, iniciada, em 1995, nas escolas estaduais paulistas, conforme já abordado anteriormente. Os documentos dessa reforma apresentavam um efeito de hibridismo, conforme destaca Barroso (2006), na medida em que, por meio de uma retórica discursiva apurada, foram capazes de defender, ao mesmo tempo, a autonomia das escolas e sua regulação por meio de avaliações externas: o tão conhecido binômio centralização/descentralização. Nessa contradição, o discurso reformista era capaz de convencer sobre a necessidade de mudanças (a partir de decisões tomadas pelo sistema e comunicadas aos professores nas escolas, numa lógica vertical), assim como incorporar a esse discurso antigas bandeiras progressistas surgidas na década de 80, porém agora como instrumentos da defesa neoliberal. Entre essas bandeiras, podemos citar: a democratização da gestão escolar; o entendimento da escola como lócus formativo; do professor como sujeito reflexivo e construtor do projeto político pedagógico da escola; e, evidentemente, a articulação coletiva do trabalho docente por meio da figura do PCP. O texto da Resolução (art. 2º) estipula: “Ao docente designado para exercer as funções de coordenação pedagógica caberá assessorar a direção da escola na articulação das ações pedagógicas e didáticas e subsidiar o professor no desenvolvimento de seu trabalho” (SÃO PAULO, 1996c). O discurso gerencialista vai aos poucos solidificando seus princípios, ainda que de maneira, muitas vezes, sutil, inofensiva ou … nem tanto assim. Em 07 de abril de 2000, a SEE lança a Resolução no 35 (SÃO PAULO, 2000), na qual consta uma alteração da denominação da função, mudando de professor coordenador pedagógico para professor coordenador (PC). Podemos perceber uma clara mudança no texto da resolução, conforme segue, indicando que cabe ao PC a articulação do seu trabalho com a direção da escola: figura atrelada às questões voltadas para o “sistema” e à lógica da performatividade, como aponta Ball (2005). Neste sentido, segue texto referente ao art. 2º da Resolução SE 35/2000: Ao docente designado para o exercício das funções de Professor Coordenador caberá: I - assessorar a direção da escola na articulação das ações pedagógicas desenvolvidas pela unidade, incluindo as de todas as telessalas e as classes vinculadas; II - auxiliar a direção da escola na coordenação dos diferentes projetos, inclusive os de reforço da aprendizagem; III - assessorar a direção da escola na relação escola/comunidade; (…) VI - executar, acompanhar e avaliar as ações previstas no projeto pedagógico da escola (SÃO PAULO, 2000). Além da mudança da nomenclatura, podemos verificar que se alteram, também, algumas condições legais para o exercício da função. Dentre elas, principalmente, a justificativa dada para existência da figura do PCP, agora PC – antes articulação do trabalho pedagógico realizado na escola, agora peça-chave da política de melhoria da qualidade do ensino, assegurando a elevação dos índices de desempenho escolar nas avaliações externas. Isso pode ser confirmado no texto introdutório da Resolução no 88, de 19 de dezembro de 2007, que aponta: A Secretária da Educação, considerando que a coordenação pedagógica se constitui em um dos pilares estruturais da atual política de melhoria da qualidade de ensino e que os Professores Coordenadores atuam como gestores implementadores dessa política com objetivos de: - ampliar o domínio dos conhecimentos e saberes dos alunos, elevando o nível de desempenho escolar evidenciado pelos instrumentos de avaliação externa e interna; - intervir na prática docente, incentivando os docentes a diversificarem as oportunidades de aprendizagem, visando à superação das dificuldades detectadas junto aos alunos; - promover o aperfeiçoamento e o desenvolvimento profissional dos professores designados, com vistas à eficácia e melhoria de seu trabalho (SÃO PAULO, 2007d). Além da mudança em relação ao papel do PC, a legislação também alterou outros elementos. Em relação aos pré-requisitos para a ocupação do cargo, antes era exigido um mínimo de três anos de experiência docente apenas, depois acrescentou-se a exigência de certificação em Licenciatura Plena e, finalmente, a obrigatoriedade do candidato ser funcionário efetivo na rede e com jornada superior a dez horas-aula na escola em que pretende atuar. Além disso, incluiu-se experiência no segmento em que o PC deseja atuar. Outro aspecto que vale ser ressaltado diz respeito ao processo de validação e escolha do candidato. Na Resolução SE 28/1996 (SÃO PAULO, 1996c), a escolha ficava a cargo dos professores, a partir da apresentação da proposta de trabalho de um dos professores do próprio grupo. Cabia ao Conselho de Escola ratificar a escolha feita pelo grupo docente. Na Resolução SE 35/2000 (SÃO PAULO, 2000), a escolha ficou a cargo do Conselho de Escola (representantes de professores, funcionários, pais e alunos). Já a Resolução SE 66/2006 (SÃO PAULO, 2006b) acrescenta a participação dos diretores no processo de escolha. Finalmente, a Resolução SE 88/2007 (SÃO PAULO, 2007d) torna explícita a retirada dos professores do processo decisório de escolha do PC, sendo de responsabilidade exclusiva do diretor e supervisor. Após a publicação da Resolução de 2007, a SEE/SP lança, a partir de 2008, uma série de documentos que apresentam a proposta curricular do governo do Estado de São Paulo. Dentre as publicações, vale ressaltar o Caderno do Gestor, uma publicação em três volumes, nos quais são apontadas as orientações aos gestores da escola, em especial, ao professor coordenador, no que diz respeito à implementação da proposta política e curricular para o Ciclo II do Ensino Fundamental (6º a 9º anos) e Ensino Médio, conhecida como “São Paulo Faz Escola”. O primeiro volume traz, explicitamente, a afirmação de que o caderno foi feito especialmente ao PC e ressalta que a Secretaria da Educação considera que “(...) a coordenação pedagógica constitui-se em um dos pilares estruturais da sua atual política de melhoria da qualidade de ensino e que os Professores Coordenadores devem atuar como gestores implementadores dessa política” (SÃO PAULO, 2009b, p. 04), retomando o que já havia sido indicado no texto introdutório da Resolução SE 88/2007 (SÃO PAULO, 2007d), conforme explicitado anteriormente. Dessa forma, é possível perceber o quanto o PC é colocado no lugar de funcionar como os “olhos visíveis” do sistema, tornando-o algoz e vítima ao mesmo tempo, já que usa de um poder disciplinar para controlar os resultados esperados por essa política. Esse poder disciplinar age sobre os sujeitos e no interior dos sujeitos, não só em relação ao corpo docente, como também em relação aos gestores, em especial o PC, por meio de instrumentos de “vigilância hierárquica, sanção normalizadora e exame”, conforme acentua Foucault (2006, p. 143). A vigilância hierárquica pode ser verificada na exigência de que o PC deve atuar como observador constante da aprendizagem dos alunos, da atuação dos professores e da prática de sala de aula, a fim de prestar contas ao sistema. No Caderno do Gestor, são apontadas as metas previstas para melhoria da aprendizagem dos alunos (conforme já citamos, quando apresentávamos o conjunto de 10 metas traçadas pelo governo para melhorar a qualidade da educação – p. 32) e afirma que quatro delas (as negritadas) estão diretamente relacionadas com a função do PC na escola. São elas: 1. Todos os alunos de 8 anos plenamente alfabetizados. 2. Redução de 50% das taxas de reprovação da 8ª série. 3. Redução de 50% das taxas de reprovação do Ensino Médio. 4. Implantação de programas de recuperação de aprendizagem nas séries finais de todos os ciclos de aprendizagem (2ª, 4ª e 8ª séries do Ensino Fundamental e 3ª série do Ensino Médio). 5. Aumento de 10% nos índices de desempenho do Ensino Fundamental e Médio nas avaliações nacionais e estaduais* (SÃO PAULO, 2009b, p.28, grifos do autor). As metas indicadas (2 a 5) aparecem em negrito e com um asterisco ao final, para que fique evidente de quais se tratam, conforme aparecem no próprio documento. Entretanto, incluímos aqui a primeira meta do texto, visto que, embora não esteja negritada em virtude de não se relacionar ao segmento ciclo II do EF e Ensino Médio – foco do Programa São Paulo Faz Escola, interessa-nos na medida em que está diretamente ligada ao Programa Ler e Escrever, cenário dessa pesquisa, assim como também à atuação do PC na escola. A sanção normalizadora, citada por Foucault (2006), aparece em forma de uma pressão constante exercida pelo sistema sobre o PC e, por consequência, deste sobre o corpo docente, assim como as pequenas punições aplicadas (prazos, comportamentos, empenho, obediência...) cotidianamente. Num trecho bastante interessante do Caderno Gestor, podemos perceber o hibridismo do discurso reformista, na medida em que, ao mesmo tempo em que cobra, alerta para que o PC cuide do seu corpo docente, evitando exagerar na pressão e promovendo acolhimento e harmonia nas relações, tal como a seguir: “ (...) o Professor Coordenador deve lembrar-se de sua função cooperativa e colaboradora na relação com os professores. (...) Um conselho: evite as burocracias. Os professores vivem em clima de ‘panela de pressão’” (SÃO PAULO, 2009b, p.29). Finalmente, o exame sob o qual são submetidos ao final de cada período determinado pelo sistema (sondagens bimestrais, avaliações externas, recebimento de bônus...) e que determinam a manutenção ou correção de condutas adotadas. Segundo o Caderno Gestor, “(...) é de responsabilidade do Professor Coordenador articular os modos de verificação e o registro das aprendizagens e os encaminhamentos para a recuperação (SÃO PAULO, 2009b, p.33). Nos ditos de Foucault (2006, p. 156): É o fato de ser visto sem cessar, de sempre poder ser visto, que mantém sujeito o indivíduo disciplinar. E o exame é a técnica pela qual o poder, em vez de emitir os sinais de seu poderio, em vez de impor sua marca a seus súditos, capta-os num mecanismo de objetivação. Pelo que os excertos anteriormente expostos sinalizam, percebemos que os ideais de melhoria, eficácia, controle e resultados compõem uma lógica que deve ser incorporada pelas escolas, professores e gestores, em especial, pelo professor coordenador, visto como um pilar crucial para a implantação da proposta política para a educação do Estado de São Paulo a partir de 2007. Nesse sentido, há uma tentativa de reforma não só no sistema educacional, bem como na subjetividade dos atores envolvidos nesse processo, à medida que, conforme aponta Ball (2005, p. 546), “ (...) os professores são transformados em produtores/fornecedores, empresários da educação e administradores, e ficam sujeitos à avaliação e análise periódicas e à comparação de desempenho”. Mais adiante, analisaremos a atuação do PC como formadores de professores alfabetizadores, no contexto do Programa Ler e Escrever, e tentaremos entender essa teia de relações entre performatividade, gerencialismo, disciplina, punição, reflexividade, autonomia e prescrição, refletindo sobre o quanto interferem, conformam, determinam, influem ou ainda colaboram no profissionalismo desse sujeito: o Professor Coordenador. CAPÍTULO II O PROFESSOR COORDENADOR COMO FORMADOR DE PROFESSORES: O SUJEITO QUE ESCOLHE OU O SUJEITO QUE EXECUTA? As coisas por sabidas não são ditas e, por não serem ditas, são esquecidas. Pablo Neruda (1952) O Professor Coordenador já foi objeto de inúmeros trabalhos e investigações, seja no que diz respeito a sua identidade, ou a seus dilemas cotidianos, seu papel na escola; enfim, foi objeto de análises com foco em questões históricas, pedagógicas e até em relação às diferentes implicações políticas que envolvem essa figura. Nesse trabalho, interessa-nos, da prática do professor coordenador, um recorte em especial: aquele momento no qual ele se prepara para atuar como formador de professores alfabetizadores, ou seja, quando ele elabora suas pautas e planeja suas reuniões de trabalho pedagógico coletivo com o grupo docente e “escolhe” como orientar as discussões com esse grupo que, no sistema de ensino estadual paulista, acontece duas vezes na semana, em encontros de quase uma hora. O que exige uma preparação cuidadosa do professor coordenador. Nesse momento privilegiado de atuação, no qual é interessante que o PC invista em seus saberes e na sua reflexividade, de forma a atuar como um mediador dos saberes do grupo docente, o que deveria estar em jogo seria o que Nóvoa (1995a, p. 25) defende como necessário para um processo formativo, pois, segundo o autor: A formação não se constrói por acumulação (de cursos, de conhecimentos ou de técnicas), mas sim através de um trabalho de reflexividade crítica sobre as práticas e de (re)construção permanente de uma identidade pessoal. Por isso é tão importante investir na pessoa e dar um estatuto ao saber da experiência. Nessa perspectiva, Garrido (2003) defende que esse é, fundamentalmente, o trabalho do professor coordenador: promover condições para o desenvolvimento profissional dos professores, por meio da constante retomada da atividade reflexiva, “(...) tornando-os autores de sua própria prática” (GARRIDO, 2003, p. 09). Nesse trabalho complexo, em que não há caminhos pré-definidos, no qual o PC precisa confrontar as demandas formativas de seu grupo docente com as possibilidades de trabalho necessárias àquela realidade escolar, é preciso colocar em jogo diferentes saberes profissionais, que, basicamente, são “(...) saberes mobilizados e empregados na prática cotidiana, saberes esses que dela provêm, de uma maneira ou de outra, e servem para resolver problemas dos professores em exercício, dando sentido às situações de trabalho que lhe são próprias” (TARDIF, 2011, p. 58). Acontece que, para analisarmos esse recorte da prática do PC, não podemos desconsiderar, conforme descrito no capítulo anterior, que o professor coordenador, que atuou na SEE/SP, durante o governo de José Serra (2007-2010) e ainda no governo atual (Geraldo Alckmim – 2011 a 2014), conta com um cenário político pós-reforma que exige dele uma atuação não mais como mediador do trabalho pedagógico da escola, mas como gestor/gerente/líder, responsável por, dentre outras atribuições, “(...) decidir e traçar um caminho para os outros agentes envolvidos no processo escolar” (SÃO PAULO, 2009b, p. 05). Isso se torna bastante observável quando comparamos os textos das resoluções publicadas sobre a figura do PC e organizadas por Lima (2009) no quadro abaixo: Quadro 3 – Resoluções sobre a figura do PC Resolução SE nº. 35/2000 Considera o PC como ator relevante no processo de implementação da proposta pedagógica, ao desenvolvimento do projeto pedagógico da escola, à integração curricular e à articulação entre Escola, Supervisão de Ensino e Oficina Pedagógica. Resolução SE nº. 66/2006 Considera importante a atuação do PC junto à equipe escolar, nos processos pedagógicos, na formação continuada dos docentes, na articulação das ações de parceria com a comunidade e na otimização dos recursos e integração dos trabalhos da escola, com as equipes de Supervisão de Ensino e Oficina Pedagógica. (LIMA, 2009, p. 29, grifos nossos) Resolução SE nº. 88/2007 Considera que o PC se constitui em um dos pilares estruturais da atual política de melhoria da qualidade de ensino e que devem atuar como gestores implementadores dessa política com objetivos de ampliar o domínio dos conhecimentos e saberes dos alunos; intervir na prática docente; promover o aperfeiçoamento e o desenvolvimento profissional dos professores. Esse contexto traz algumas contingências que, a princípio, definem, conformam, reduzem, delimitam uma atuação desse sujeito, assim como agem sobre sua subjetividade e sobre a constituição do seu profissionalismo. Isso provém, de acordo com Stephen J. Ball (2005), dos efeitos combinados de algumas “tecnologias políticas” apontadas pelo autor como: forma de mercado, performatividade e gerencialismo. O autor inglês, professor do Instituto de Educação da Universidade de Londres, um dos diretores associados do Centre for Critical Education Policy Studies, órgão pertencente à mesma universidade e proeminente estudioso das políticas educacionais no Reino Unido, defende que é preciso compreender como as políticas são produzidas, o que elas pretendem e quais os seus efeitos na escola e nos sujeitos que nela atuam. Dentre seus principais temas pesquisados, destacamos as investigações sobre reformas educacionais, privatização da educação, performatividade, mudanças discursivas no contexto educacional e escolar, impacto das reformas sobre o trabalho e a identidade dos professores e demais profissionais da educação. Tais pesquisas nos ajudam a pensar o quanto essas questões influem na atuação do PC, em especial, para essa investigação, na sua atuação como formador de professores alfabetizadores, no contexto de um programa institucional prescritivo que se configura como uma política para educação do Estado de São Paulo. Apesar de sua concepção e fundamentação teórica pluralista, Ball (2005) busca em Michel Foucault, dentre outras fontes, o referencial que lhe permite pensar e apontar tais tecnologias políticas, uma vez que pretende evidenciar o emaranhado de discursos envolvidos e as relações de poder que se estabelecem nesse emaranhado. Assim, partiremos do referencial teórico de Stephen Ball (1994, 2001, 2004, 2005, 2006, 2008) para que, entendendo como as tecnologias políticas armam o cenário, no qual os sujeitos atuam e determinam a constituição do profissionalismo dos mesmos, ainda que não necessariamente tenham consciência disso, em especial o PC, possamos analisar, mais adiante, suas escolhas formativas quando atua como formador de professores alfabetizadores. 2.1. As tecnologias políticas de Stephen Ball Onde encontrei vida, encontrei vontade de poder. Nietzsche (1998) Para que entendamos as tecnologias políticas defendidas por Stephen J. Ball (2005), é preciso que discutamos o conceito de profissionalismo trazido também por ele. Profissionalismo é um termo que tem sido revestido de um universalismo grandioso que o distancia do sentido de uma forma de prática contextualizada. Embora muitos autores (STRONACH, 2002; GOLD et al, 2003; MOORE et al, 2002 e DILLABOUGH, 1999 apud BALL, 2005) defendam que há espaço ainda para a ideia de profissionalismo como prática ético-cultural, Ball (2005) aponta a necessidade de olharmos para esse conceito atrelado ao cenário atual e o quanto ele está mergulhado numa “aflição do real” (2005, p. 541). Se tomarmos o termo enquanto uma categoria préreforma, ou seja, vista fora desse contexto promovido pelas políticas educacionais neoliberais ou pós-neoliberais, profissionalismo pode ser entendido como uma relação entre o profissional e seu trabalho, baseada na: (...) reflexão moral – na tentativa de organizar a prática mediante a tomada de decisão “correta” em um panorama moral que dá espaço para a incerteza moral e para a utilização de “conhecimento moral” (...) tanto “prático” quanto “indefinido”. O profissionalismo nesses termos baseiase em ambiguidade e pluralismo (BALL, 2005, p. 541). Assim, quando o termo profissionalismo passa a ser pensado numa lógica da reforma, na qual os sujeitos são “fabricados” e tidos como “objetos e instrumentos de seu exercício” (FOUCAULT, 2006, p. 143), ele perde seu sentido primordial na medida em que o profissional deixa de ter como base a reflexão e a “constante possibilidade de indecisão” (BALL, 2005, p. 541). Sem a possibilidade de reflexão moral e de diálogo, o profissional corre o risco da “erradicação” - no sentido de tornar-se mero reprodutor mecânico de um ofício - principalmente pelos efeitos impostos por tais tecnologias políticas (lógica de mercado, performatividade e gerencialismo). Essa é a maneira encontrada por tais tecnologias para colocar em prática uma lógica de controle tida como “perfeita” sob o olhar do sistema educacional, uma vez que considera que, por ter o controle de todos os mecanismos, de todas as instâncias e de tudo o que acontece em cada uma delas, nada fugirá ao planejado. Ball e outros teóricos colaboradores (BALL, 2008; BRAUN, BALL & MAGUIRE, 2010) vão refutar essa ideia, trazendo à baila o conceito de policy enactements, que embora não tenha uma tradução para o português, fora tomado como “encenação das políticas” (ROSA, 2012, p. 04). Os autores trazem a ideia de que as políticas não são implementadas, mas encenadas ou traduzidas em ato pelos atores/sujeitos, que agem como objeto/instrumentos das políticas, a partir da complexa interpretação dos discursos encontrados no conjunto de textos e documentos que definem as políticas. As políticas geralmente não dizem o que fazer, elas criam circunstâncias nas quais a extensão das opções disponíveis em decidir o que fazer são estreitas ou mudadas, ou ainda, geram certos objetivos ou resultados. (Ball, 1994: 19). Colocar políticas em prática é um processo criativo, sofisticado e complexo, mas também restringido. (…) A política é complexamente codificada em conjuntos de textos e vários documentos, como também é codificada em complexas e diferentes maneiras. A ação da política envolve processos criativos de interpretação e tradução, ou seja, de recontextualização – através da leitura, escrita e fala – de abstrações de ideias da política em práticas contextualizadas5 (BALL, MAGUIRE & BRAUN, 2012, p.12). Justamente pelo fato dessas políticas não serem implementadas, mas encenadas ou traduzidas em atos (já que é preciso considerar os diferentes contextos, as diferentes relações, condições materiais, intelectuais e toda a subjetividade desses atores), a ideia de uma “lógica perfeita” de controle, por parte dos sistemas educacionais, passa a ser uma fantasia, uma ilusão. Isso não quer dizer, em contrapartida, que não haja controle; muito pelo contrário. O que essas tecnologias políticas promovem, com todo o seu poder regulador, na verdade, acaba se tornando uma auto-regulação exercida pelos sujeitos sobre eles mesmos e sobre seus pares. Assim, é preciso que levemos em consideração esse pressuposto trazido por Ball (2005) de que, para uma política educacional chegar ao chão da escola, à sala de aula e, particularmente, às reuniões de formação continuada, ela lidará não apenas com a leitura de seus textos legais e a “decisão” pela implantação imediata. Mas, principalmente, para que, de fato, aconteça na prática escolar, contará, inevitavelmente, com todas as interpretações, as relações hierárquicas e de poder, os procedimentos de motivação, os !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 5 Tradução livre. mecanismos de reformação e até as formas arquitetônicas que definem espaços e dinâmicas no contexto escolar (BALL, 2005). Além disso, as políticas também são feitas e pensadas pelos sistemas educacionais, em contextos ideais, em lógicas infalíveis que não contam com as subjetividades e condições que definem os contextos reais das escolas; como se toda essa lógica fosse facilmente aplicada/implementada a partir das prescrições dos textos legais dessa política. É uma ideia universal de controle de pessoas, de práticas, de contextos, entre outros, que desconsidera qualquer “ato/fala fora do script”. Nas palavras de Ball, Maguire e Braun (2012), tanto quem elabora as políticas, quanto quem as executa, tende a buscar a melhor condição possível para sua implementação: isso inclui arquiteturas ideais, alunos e professores ideais e, até mesmo, os melhores recursos. Nesse sentido, o que resta aos atores do processo é agir como bonecos de ventríloquo, cujo discurso agora é proveniente de um léxico produzido pela lógica dessa política que transforma papeis e subjetividades em nome de “metas de produtividade” (BALL, 2005). Trataremos, a seguir, de cada uma das tais tecnologias políticas apontadas por Ball, no intuito de, entendendo-as, podermos analisá-las à luz do recorte que nos interessa nessa investigação. Para adentrarmos um pouco mais nas ideias de Ball, recorremos a uma de suas principais fontes de pesquisa: Foucault. Pela aderência ao nosso tema, bem como as possíveis relações a serem estabelecidas entre tais pensamentos, recorremos à obra “Vigiar e Punir” (FOUCAULT, 2006), na qual o autor investigou as relações de poder no contexto prisional, apontando três técnicas/instrumentos de que esse poder disciplinar faz uso para agir sobre os sujeitos, sendo elas: a vigilância hierárquica, a sanção normalizadora e o exame. Ousamos, aqui, sugerir uma relação entre tais instrumentos e as tecnologias políticas, propostas por Ball (2005), uma vez que estas funcionam como instrumentos usados pelos sistemas para que o Estado continue exercendo seu poder regulador, ainda que à distância; como a “mão invisível” do sistema. Como tecnologias políticas, temos: 1. Forma de mercado; 2. Gerencialismo; 3. Performatividade. Traçando um paralelo com Foucault (2006), entendemos que as relações de poder (disciplinar) estão presentes na forma de pensar o sistema educacional como mercadoria (1), uma vez que a política prega e busca a competitividade e os melhores resultados; a vigilância hierárquica e a sanção normalizadora estão presentes no gerencialismo (2), já que os atores são vistos como peças-chave do sistema para garantir metas (atores pedagógicos são vistos como gestores); e, finalmente, o exame é a técnica usada para medir a performatividade (3), ou seja, o quanto os sujeitos desempenham bem seus papeis esperados. A seguir, identificaremos cada um das tecnologias políticas da reforma apresentadas por Ball (2005), bem como teceremos as relações com as técnicas destacadas por Foucault (2006). 2.1.1 A forma de mercado Podemos definir essas “tecnologias políticas”, defendidas por Ball (2004, 2005, 2006 e 2008) como um mecanismo usado pelo Estado para legitimar e impulsionar certas ações e compromissos – como espírito empresarial, competição e excelência –, a partir de um acordo político global. Como nos alerta Mortatti (2010), autora que estuda a alfabetização e sua implementação em nosso país, a partir de diferentes iniciativas políticas ao longo dos tempos, devemos entender o contexto atual de escolhas que interferem nas instituições públicas de ensino, como um “(...) processo de redefinição do papel do Estado, decorrente de uma nova racionalidade político-econômica, influenciada pela teoria neoliberal e pela teoria da Terceira Via” (MORTATTI, 2010, p. 33). Nestas teorias, o processo de responsabilização do Estado passa para as mãos do setor privado, no primeiro caso, e para a chamada sociedade civil sem fins lucrativos, no segundo caso. Com isso, regulam-se novas formas de controle entre público e privado, assim como novas lógicas que complexificam o cenário das políticas educacionais, por meio de um novo tipo de parceria entre Estado e subsetores públicos, como, no caso, das Universidades Públicas. Em ambos os casos, a forma de mercado está presente, na medida em que, como afirma Mortatti (2010, p.336): [o Estado] é agente institucional com função definidora, indutora, articuladora e reguladora de demandas da sociedade; esta [Universidade] é agente institucional da produção de conhecimentos disponibilizados ao Estado, que, como agente institucional, contrata os serviços de assessoria ou consultoria de docentes pesquisadores vinculados à universidade. E ambos estão a serviço não apenas da sociedade brasileira, mas também da comunidade internacional, a quem prestam contas por meio de avaliações externas de estudantes e sistemas de ensino, conforme demandas de inserção do Brasil no ranking de países com altos índices de desenvolvimento social e educacional, a serviço de interesses nacionais e internacionais também. Dessa maneira, ensino e aprendizagem são reduzidos a formas de exteriorização de conhecimentos e sua transformação em mercadoria, visando a formas de produção padronizadas, calculadas, qualificadas e comparadas. Presente está a ideia de poder igualar os “soft services”, como o ensino, por exemplo, aos “hard services” (Ball, 2004), como fornecimento de livros, transportes, refeições etc. Ball (2004, p. 1117) afirma que, nesse caso, “as especificidades das interações humanas envolvidas no ensino e na aprendizagem são apagadas. A prática do ensino é reelaborada e reduzida a seguir regras geradas de modo exógeno e a atingir metas”. Nessa nova forma de controle empresarial, em que impera a lógica da economia do conhecimento (knowledge economy), instauram-se efeitos “mercantilizadores” da performatividade e da responsabilidade (BALL, 2008). Conforme defende Rosa (2012, p. 06)., “(...) a responsabilização (accountability) dos professores pela qualidade do ensino constitui-se em outro ingrediente (ideológico) desse modelo de gestão movido pelas noções de competitividade, eficiência e produtividade”. No nosso caso específico, a responsabilização – ou irresponsabilização, como defende Gimeno Sacristán (1999b) – é depositada na conta do professor coordenador, pois o sistema educacional paulista o vê como um “pilar estrutural” responsável pela qualidade da aprendizagem dos alunos, bem como pela atualização dos saberes docentes, ou seja, é o responsável pelos bons resultados da escola. E, se é o responsável pelos bons resultados, podemos inversamente entender que também será o responsável pelo fracasso. Essa responsabilização é explicitamente expressa num documento legal publicado pela SEE/SP, que defende: Até hoje, o Professor Coordenador exerceu a liderança num contexto que não privilegiava suas atividades nas questões pedagógicas de fato, por falta de uma política clara sobre sua função na escola. A função do Professor Coordenador deve estar centrada na gestão da qualidade do ensino oferecido pela escola e na construção de um espaço produtivo para uma convivência social e coletiva mais humana e construtiva da comunidade escolar. Como Professor Coordenador Gestor esse profissional deve ser capaz de definir e articular múltiplas ações voltadas para a qualidade do ensino e de seus resultados na aprendizagem dos alunos no contexto real onde essas ações acontecem. A posição ocupada pelo Professor Coordenador e sua representatividade na escola permitemlhe o poder de decidir e traçar um caminho para os outros agentes envolvidos no processo escolar (SÃO PAULO, 2009b, p. 07, grifos nossos). Assim, entendemos que as relações de poder, descritas por Foucault (2006), estão capilarizadas na organização mercadológica estabelecida nos sistemas educacionais por essas políticas. Nos ditos de Foucault (1996, p. 184), “(...) o poder não é uma substância nem um misterioso atributo. Mas um operador que funciona dividindo, envolvido numa prática divisória que fraciona cada um de nós, tanto internamente em si mesmo quanto em relação aos demais”. Tal divisão, descrita por Foucault (1996), nos é trazida pela lógica mercadológica, que contempla a primazia da concorrência, da competitividade e da visibilidade de resultados, por meio da publicização dos índices extraídos de avaliações de larga escala e que passaram a fazer parte do nosso cenário educacional brasileiro. Isso tudo, como uma forma de “prestar contas” à sociedade e aos órgãos internacionais do quanto temos feito nossa “lição de casa” e do quanto somos mais confiáveis por estarmos investindo nesse “precioso bem”: a educação. A seguir, adentraremos no segundo elemento que compõe as tecnologias políticas de Ball (2005) e lançaremos mão, mais uma vez, de Foucault (2006), para estreitarmos as relações anteriormente anunciadas. 2.1.2 Gerencialismo Uma outra tecnologia política, apontada por Ball (2005), diz respeito a uma nova forma de poder que pretende transformar as relações a partir de uma lógica competitiva empresarial. Não só no Reino Unido, como aponta Ball (2005), mas também em nosso país, em especial no sistema educacional público paulista, o gerencialismo tem sido, no setor público, o principal meio de entrada dessa lógica de reforma que pretende deixar, na mão do “gerente”, a tarefa de incutir em seus pares a responsabilidade pelo funcionamento e bem-estar das organizações. Dessa forma, cabe ao gestor a responsabilidade por gerir os recursos humanos e materiais de sua instituição, para que se torne possível colocar em prática essa tal política de metas que visa a resultados. Essa é uma tecnologia que remete ou que está intimamente ligada a outra, a da performatividade, pois os mecanismos que utiliza para a regulação de tais resultados envolvem avaliações, rankiamentos e premiações por meio de gratificações salariais. Isso gera nos sujeitos uma relação de competitividade, uma vez que os índices são tornados públicos e o sistema espera por eles. Na verdade, os próprios sujeitos, enredados por essa lógica, também esperam por tais resultados e tendem a achar culpados (ora os professores, ora os alunos e, no nosso caso, em geral, os professores coordenadores) pelos possíveis fracassos, desconsiderando a trama de tensões, dificuldades, condições e relações que interferem em tal conquista. Foucault (2006, p. 118) apresenta um sujeito provido de um “corpo dócil” que, na lógica do gerencialismo, “pode ser submetido, que pode ser utilizado, que pode ser transformado e aperfeiçoado”. Fabricando esse sujeito, fabricam-se ou adestram-se, também, as instituições que devem responder ao poder disciplinar instaurado pela forma de mercado. À escola, como uma dessas instituições da qual nos falaria Foucault (2006), assim como aos seus gestores, cabe a regulação sobre todos que nela se encontram, impondo “limitações, proibições ou obrigações” (p. 118). No mesmo documento curricular oficial da SEE/SP, o papel de um dos gerentes da escola, o Professor Coordenador, fica didaticamente explícito no trecho que segue: Esta é, portanto, a ação inaugural do seu papel de Professor Coordenador: divulgar a Proposta Curricular. Em tópico anterior, já foram destacados os cuidados que você deve ter ao comunicá-la. Esteja preparado, pois esta é sua primeira cena (SÃO PAULO, 2009b, p. 29, grifos nossos). Vemos, com isso, que não só é esperado que ele cumpra ou realize um determinado papel, bem como lhe é dada toda a prescrição do que deve ser feito e do como deve ser feito. Assim, há uma atuação de gestor que deve ser exercida por alguém e, ao mesmo tempo, é também exercida sobre esse alguém, no caso, o Professor Coordenador. Nesse sentido, Foucault (2006) nos fala de uma espécie de “maquinaria de controle”, na qual toda a vigilância exercida pelos gestores também recai sobre eles, na medida em que também são chamados a prestar contas do quanto tiveram sucesso em seu fazer. Neste caso, o poder não está presente só na relação entre gestor e seus pares, mas distribuído em todas as camadas do processo. Como aponta Foucault (2006, p.148), “(…) se é verdade que sua organização piramidal lhe dá um chefe, é o aparelho inteiro que produz poder e distribui os indivíduos nesse campo permanente e contínuo”. Aqui, temos, então, a relação entre o gerencialismo, de Ball (2005), e a vigilância hierárquica e a sanção normalizadora, de Foucault (2006). Nessa pressão constante e contínua, o gestor vai corrigindo pequenas falhas, aplicando sanções, determinando prazos, classificando os profissionais entre bons e maus, obedientes e desobedientes, aplicados e desleixados, criativos e descuidados, resistentes ou amigáveis e, assim, vai tecendo todo um discurso que passa a ser aceito como natural e esperado/desejado por todos. A seguir, traremos a terceira tecnologia desse tripé: a performatividade. Nesse mecanismo, encontraremos os elementos necessários à compreensão dessa complexa rede de instrumentos, usados pela política, para a determinação das formas de “ser e estar na profissão docente” (ABDALLA, 2006). 2.1.3 Performatividade Finalmente, há ainda uma tecnologia política, apontada por Ball (2005), que pode ser entendida com foco na performance dos sujeitos envolvidos no sistema. Segundo o autor: É uma tecnologia, uma cultura e um método de regulamentação que emprega julgamentos, comparações e demonstrações como meios de controle, atrito e mudança. Os desempenhos de sujeitos individuais ou de organizações servem de parâmetros de produtividade ou de resultado, ou servem ainda como demonstrações de “qualidade” ou “momentos” de promoção ou inspeção (BALL, 2005, p. 543, grifos do autor). Assim, as palavras de ordem, aqui, são desempenho, eficácia e mensuração. Há uma eterna busca, na verdade uma tentativa implacável de se alcançar o melhor resultado, ou o resultado perfeito, como se ele fosse alcançável/possível apenas por meio do bom desempenho do sujeito, seja ele o professor ou o Professor Coordenador. Com isso, os sujeitos são submetidos frequentemente a exames e avaliações que medem, classificam, comparam resultados, estabelecendo metas a serem cumpridas ou ultrapassadas, como é o caso do IDESP (Índice de Desempenho Escolar do Estado de São Paulo), na SEE/SP, que estabelece um score a ser alcançado por todo o sistema e um outro score relativo à realidade de cada instituição escolar. O que, muitas vezes, exige que ela concorra com ela mesma, quando precisa superar uma meta já ultrapassada na medição anterior. Esse índice acaba funcionando como a alavanca que não só move todo o sistema, como também justifica todo o empenho dos sujeitos envolvidos; mesmo porque seu resultado, quando enquadrado dentro do esperado, traduz-se em gratificação salarial (bônus ou o 14o salário) proporcional à meta alcançada ou superada por todos os profissionais envolvidos no processo e responsáveis pela unidade de ensino. Como bem nos aponta Ball (2005, p. 548): Em essência, performatividade é uma luta pela visibilidade. A base de dados, a reunião de avaliação, a análise anual, a elaboração de relatório, a publicação periódica dos resultados e das candidaturas à promoção, as inspeções e a análise dos pares são os mecanismos da performatividade. Isso tudo acaba gerando nos sujeitos toda uma gama de efeitos físicos e emocionais como stress, fadiga, ansiedade etc, bem como consequências visíveis na esfera do trabalho, como o absenteísmo, a desmotivação, a síndrome de burnout, a fadiga, a exaustão, o stress, o desejo de abandono e tantos outros sintomas provenientes desse mal-estar docente (ALVES,1997, apud ESTRELA, 1997). Assim, a performatividade, aliada ao gerencialismo, permite um alcance e uma alternativa “(...) politicamente atraente e eficaz ao tradicional provimento de educação para o bem-estar público, centralizado no Estado” (BALL, 2005, p. 545). Pelo exposto, parece-nos bastante explícita a relação entre essa última tecnologia de Ball (2005) e a técnica de controle do exame, trazida por Foucault (2006). Pensar sobre a influência dessas tecnologias em relação às políticas educacionais que temos/vemos/vivemos permite-nos situar a discussão num outro lugar: o lugar que permite entender que a escolha feita pelos sistemas de ensino por um determinado programa de formação não pode ser justificada apenas sob o viés das afinidades ou contribuições teóricas de determinada abordagem à aprendizagem das crianças, mas sim do quanto tais escolhas podem pesar ou contribuir para alcançarmos os resultados esperados e desejados, não do ponto de vista pedagógico, mas, principalmente, político. É justamente desse lugar que tentaremos, adiante, apontar e analisar a influência de tais opções institucionais na prática dos Professores Coordenadores da SEE/SP. 2.2 O Professor Coordenador no “Programa Ler e Escrever” Conforme já mencionado, o Professor Coordenador que atua nas escolas de ciclo I da SEE/SP, deve, obrigatoriamente, trabalhar com a formação dos professores, segundo os pressupostos que fundamentam o Programa Ler e Escrever. Entendamos o que isso significa, na prática, no ofício desses profissionais. Ter o Programa implantado na rede impõe, ao PC, a condição de quem deve dominar a fundo tudo o que é inerente ao seu funcionamento. Isso significa, na lógica da SEE/SP, dizer que tais profissionais, independente de sua formação inicial ou de sua experiência prévia como professor ou mesmo como coordenador (de outros ciclos, de outras redes...), devem responder a, pelo menos, três aspectos cruciais à concretização do plano de ação deste Programa. O primeiro diz respeito às exigências impostas pela fundamentação teórica do Programa, que foca Língua Portuguesa e Matemática como objeto de ensino (especialmente em relação à didática da Alfabetização/Língua Portuguesa e Matemática, numa perspectiva teórico-construtivista). O segundo tem relação com o conhecimento das estratégias formativas a serem aplicadas com seu grupo docente, de forma a conseguir a mediação da reflexividade dos professores no tocante às práticas de sala de aula que precisam ser repensadas (àquelas que não se enquadram na perspectiva teórica oficial do Programa). E, finalmente, o terceiro aspecto, inerente a sua função, tem relação com o controle que deve realizar dos resultados obtidos na aprendizagem dos alunos de todo o ciclo I (1º a 5º ano do Ensino Fundamental). Conforme publicado, em DOE de 21/12/2007, o Comunicado SE, que traz as orientações para implantação do PC em toda a rede estadual, em decorrência da publicação da Resolução SE - 86, de 19-12-2007 (SÃO PAULO, 2007c), que o institui, baseia-se nas seguintes incumbências (reforçadas na Resolução no 88/07, já citada anteriormente): [...] b. Formação do Professor Coordenador, responsável pelo Ciclo I - A formação contínua deste grupo de profissionais será promovida pela CENP/FDE e pelas Diretorias de Ensino. Os Professores Coordenadores serão preparados para atuar na formação dos professores de 1ª a 4ª séries para a complexa tarefa de fazer com que os alunos se tornem capazes de ler e escrever com competência e autonomia. Este trabalho envolve momentos de formação, planejamento, acompanhamento e avaliação, durante todo o ano letivo [...]. d. Formação do Professor Regente - Nenhum projeto ou material que possa ser elaborado será eficaz sem uma formação continuada articulada à prática dos professores. E, para efetivá-la, a escola precisa ser tomada como o lócus dessa formação. É aí, no próprio contexto de trabalho, na relação direta com seus colegas que os professores podem, da melhor forma, colocar suas questões, refletir sobre as práticas que desenvolvem, detectar problemas, estudar e buscar soluções e avanços. Por isso, o Programa estabelece que a formação dos Professores será feita pelo PC, no acompanhamento das salas de aula e na HTPC, possibilitando o atendimento às especificidades das séries. Para tanto, os professores envolvidos nos projetos terão sua carga horária ampliada em 4 horas semanais (SÃO PAULO, 2007c, p. 23). Para alcançar tais prescrições, a SEE/SP prevê um plano de apoio ao Professor Coordenador que inclui encontros de formação continuada, conforme previsto no documento de apresentação do Programa Ler e Escrever: Encontros de formação com profissionais envolvidos: Mensais com Supervisores, PCOPs e Diretores; Quinzenais com Professores Coordenadores e PCOPs; Semanais com as equipes de formadores e pedagógica da Coordenadoria de Ensino e Normas Pedagógicas da SE, para supervisão do trabalho desenvolvido (SÃO PAULO, 2008a, p. 05, grifos nossos). Esses encontros são pensados a fim de atender ao primeiro objetivo elencado nesse mesmo documento, “(...) apoiar o Professor Coordenador em seu papel de formador de professores dentro da escola...” (SÃO PAULO, 2008a, p. 01), e gerenciados por uma equipe de formação, chamada de central, composta por 25 (em média) profissionais contratados, que assumem um número determinado de Diretorias de Ensino para acompanhar e “formar”. Essa equipe cuida apenas do trabalho dedicado à Língua Portuguesa e tem seu trabalho supervisionado, semanalmente, pela responsável pedagógica do Programa, a profa Dra Telma Weisz6, com a assessoria da profa Drª Katia Lomba !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ! "Doutora em Psicologia Escolar e do Desenvolvimento Humano pela Universidade de São Paulo (1997). Atualmente, é Coordenadora da Pós-graduação Lato Sensu do Instituto Superior de Educação Vera Cruz, Professora-investigadora de la Maestria da Universidad Nacional de La Plata, Consultora da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo e Membro de corpo editorial da Lectura y Vida. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Ensino-Aprendizagem (Lattes atualizado em 03/05/10). Bräkling7. Cada formadora da equipe central atende de duas a oito Diretorias, de acordo com a disponibilidade de cada uma delas. Nessas reuniões de formadores da equipe central, compartilha-se como o trabalho de formação está acontecendo em cada Diretoria de Ensino. Discutem-se encaminhamentos possíveis frente aos problemas encontrados (desde questões mais pontuais, como trocas constantes de PCs, até questões mais de fundo, como a demanda de trabalho excessiva destinada ao PC); bem como discute-se o plano de ação desse grupo, traduzido no conteúdo das pautas de formação a serem desenvolvidas com PCs. Vale ressaltar que os PCs têm formação toda semana, seja com o formador da equipe central ou não. Para isso, além da formação que essa equipe realiza junto aos professores coordenadores (quinzenalmente, em encontros de 4 horas ou mensalmente, em encontros de 8 horas), há também uma formação mensal de 8 horas destinada aos PCOPs (professores coordenadores das oficinas pedagógicas), pois são esses que, na ausência do formador da equipe central, mantêm a formação semanal destinada ao PC. Assim, a lógica de formação continuada, proposta pelo sistema para atender à meta estabelecida, é a que acontece num “fluxo de cascata”, ou seja, pressupõe uma linearidade no princípio de multiplicação dessa formação, conforme indica a figura a seguir: Figura 1 – Quem forma quem? Formador da PCOP equipe central PC PC PROFESSOR ALUNO Os conteúdos desses encontros de formação realizados pela equipe central abrangem duas grandes frentes de trabalho, pensadas para atender às incumbências destinadas aos PCs e já citadas anteriormente: uma diz respeito à didática da língua materna, em especial, às questões voltadas para a reflexão sobre o sistema de escrita alfabética, a leitura e a produção de textos; e outra aos saberes necessários a um formador !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! em Linguística Aplicada pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2000). Atualmente, é Consultora do Ministério da Educação, Colaboradora da REDEENSINAR, Consultoria e Assessoria na Rede do Saber do Fundação Carlos Alberto Vanzolini (USP) e Colaboradora do portal Educarede do Fundação Carlos Alberto Vanzolini (USP). Assessora pedagógica do Programa Ler e Escrever – SEE/SP (Lattes atualizado em 20/04/10).! $!Doutora de professores, em especial, às questões voltadas às estratégias formativas como tematização da prática, dupla conceitualização, observação de sala, registros profissionais e organização de situações problema. A ideia é que essas frentes de trabalho deem condições ao PC de cumprir seu papel como formador de professores e, com isso, tenha elementos para acompanhar o rendimento da aprendizagem dos alunos. Todos esses conteúdos citados têm como referencial teórico a abordagem construtivista de aprendizagem e a abordagem interacionista de trabalho com a língua materna. Aliás, todo o escopo teórico do Programa Ler e Escrever é o mesmo já adotado pelo sistema estadual paulista desde a década de 80, com a implantação de um programa de formação chamado “Isso se aprende com o ciclo Básico”, na época em que foram implementados, nesse sistema, a promoção automática dos alunos da 1a para a 2a série do Ensino Fundamental (ver DUARTE, 2000, 2010). Assim, concluímos que seja esperado, basicamente, do Professor Coordenador que: 1. Domine o referencial teórico usado pelo Programa Ler e Escrever, do ponto de vista dos fundamentos e das práticas decorrentes; 2. Organize as reuniões de trabalho com os professores de forma a promover a formação continuada do grupo docente e assegurar a aplicação do Programa Ler e Escrever (no caso específico do ciclo I, pois há PCs que atendem a mais de um ciclo); 3. Acompanhe o rendimento da aprendizagem dos alunos por meio da conferência dos mapas de sondagem organizados pelos professores e pelo monitoramento das atividades elaboradas e aplicadas pelos professores. Para adentrarmos um pouco mais naquilo que é esperado do PC pela SEE/SP, vale a pena recuperarmos uma publicação de 2009, chamada de Caderno Gestor, destinada à orientação do PC quanto à implantação da proposta curricular do Estado, não só para o ciclo I (com o Programa Ler e Escrever), como também para o ciclo II (com o Programa São Paulo Faz Escola). Embora haja uma ênfase à proposta do ciclo II nesse documento, vale lembrar que muitos PCs acabam assumindo a coordenação de mais de um ciclo na escola, seja pelo fato da unidade não ter o número suficiente de salas para ter um professor coordenador exclusivo para o ciclo (10 salas no caso do ciclo I), ou mesmo porque não há profissionais suficientes para atender a tal demanda. Enfim, há publicado então, explicitamente, uma determinação do que se espera da atuação do PC na escola. Segundo o documento: Quadro 4 – Atuação do PC Fonte: Caderno do Gestor: gestão do currículo na escola (São Paulo, 2009b, p. 08). Se recorrermos à Foucault (1996, p. 304) quando “(...) assume a linguagem como constitutiva do nosso pensamento e, em consequência, do sentido que damos às coisas, à nossa experiência, ao mundo...”, importa olharmos para esse quadro com mais cuidado, a fim de questionarmos o que está estabelecido no discurso “imposto” ao Professor Coordenador. Nessa lista do que evitar e do que assumir como postura, chama nossa atenção não só o antagonismo dos conceitos expostos, como o quanto tais conceitos defendidos como aceitáveis chocam com o discurso oficial imposto pelo programa de formação. Ou, nas palavras do próprio Foucault (1996, p. 306), entender como isso funciona, pois “se a linguagem exprime, não o faz na medida em que imite e reduplique as coisas, mas na medida em que manifesta e traduz o querer fundamental daqueles que falam”. Assim, como é possível ao PC evitar uma postura prescritiva se o documento oficial que orienta sua conduta é extremamente prescritivo? Que modelo é dado a esse profissional e, principalmente, que condições ele tem de subverter essa lógica prescritiva se todas as prescrições previstas serão cobradas dele durante e ao final do processo? Ainda que, realmente hoje, ninguém ousaria dizer que o profissional da educação não precise ser reflexivo, crítico e criativo, isso nos parece muito mais um discurso “politicamente correto” do que algo que realmente se espera desse profissional. Pois, se assim o fosse, ele teria abertura para, por exemplo, questionar a concepção teórica adotada oficialmente pelo sistema e optar, junto aos seus pares, por outra abordagem teórico-metodológica, valendose de toda sua reflexividade e criticidade. O que é bom dizer, não lhe é permitido. Gimeno Sacristán (2000, p. 107), a esse respeito, faz-nos compreender que: A política sobre o currículo é um condicionamento da realidade prática da educação que deve ser incorporado ao discurso sobre o currículo; é um campo ordenador decisivo, com repercussões muito diretas sobre essa prática e sobre o papel e margem de atuação que os professores e os alunos têm na mesma. Não é só um dado da realidade curricular, como marca os aspectos e margens de atuação dos agentes que intervêm nessa realidade. O tipo de racionalidade dominante na prática escolar está condicionada pela política e mecanismos administrativos que intervêm na modelação do currículo dentro do sistema escolar. Interessa, assim, pensar quais posições são possíveis de serem assumidas por esses sujeitos engendrados nesse discurso, na tentativa de contrapor o que ele realmente pensa sobre a postura a tomar e aquilo que será exigido dele por meio das relações de poder e hierarquia estabelecidas na/por/com a escola? Outro ponto a ser destacado diz respeito ao que significaria para o PC evitar uma postura unilateral classificatória nessa lógica da reforma educacional imposta pelo Estado, na qual ele é visto como o gerente que deve garantir o alcance de metas estipuladas, traduzidas em bonificações salariais para ele e todos os profissionais da escola. Perguntamo-nos se realmente é possível que o PC transgrida essa lógica mercadológica e seja a personificação desse profissional de conduta consensual, conceitual, investigativa e construtiva? Como atender a esse chamado, talvez, seja a dificuldade diária enfrentada por esses profissionais na busca da tal melhoria ou do tal “resultado perfeito”. É novamente Foucault (2006) que nos ajuda a pensar na impossibilidade dos sujeitos se posicionarem fora desse discurso para, sobre ele, falar. Se considerarmos que esses sujeitos não só pertencem a esse discurso, pelo fato de viverem num mundo em que os discursos já estão há muito tempo circulando, mas porque estão envolvidos profissionalmente, inclusive até como uma condição de sobrevivência (“ganhar o pão diário”), parece inerente ao sujeito adotar/acatar/aceitar o discurso imposto. E, neste sentido, destacamos as palavras de Díaz (1998, p. 15): Não existe sujeito pedagógico fora do discurso pedagógico, nem fora dos processos que definem suas posições nos significados. A existência de um sujeito pedagógico não está ligada a vontades ou individualidades autônomas e livremente fundadoras de suas práticas. O sujeito pedagógico está constituído, é formado e regulado no discurso pedagógico, pela ordem, pelas posições e diferenças que esse discurso estabelece. O sujeito pedagógico é uma função do discurso no interior da escola e, contemporaneamente, no interior das agências de controle. Finalmente, vale questionar como seria possível ao PC, no dia-a-dia da escola e na dinâmica caótica de gerenciamento de uma escola, compartilhar com a comunidade escolar suas dúvidas e questionamentos e apresentar os resultados (do processo ou de suas dúvidas?) em diferentes linguagens? Isso parece-nos mais uma falácia ajustada ao discurso dessa pedagogia das competências8, nosso atual modismo educacional, do que algo real no cotidiano do PC. Até porque, como já questionado, que opções de escolhas ele tem perante seus questionamentos se não for o de seguir a ordem vigente? Contudo, é urgente questionar o sentido de tais exigências, uma vez que, assim como anuncia Gimeno Sacristán (1999a, p. 64): Não podemos acreditar na ordem ilusória e paralisante dos modelos das burocracias deterministas que pretendem regular normativamente as práticas, e nem na aparência sedutora e enganosa de que a ação possa tornar-se científica quando acomodada postulados de um determinado saber indiscutível, proporcionado pelas disciplinas autodenominadas científicas. Na visão do sistema cabe, ao PC, como um dos gestores da escola, promover a eficiência dos tempos, espaços e produtos escolares, conforme já exposto aqui. Nesse caso, de que vale toda essa consideração das diferentes linguagens adequadas aos diferentes !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! %!Tal pedagogia defende que é preciso investir nas competências dos alunos, ou seja, na capacidade de “mobilizar um conjunto de recursos cognitivos (saberes, capacidades, informações etc.) para solucionar com pertinência e eficácia uma série de situações. Um dos autores que defende tal pedagogia é Philippe Perrenoud (1999). ! públicos se, no final das contas, ele terá de, irreversivelmente, prestar contas do avanço das aprendizagens escolares (a dele, a dos professores e a dos alunos)? A ideia de trabalho por competências realmente não aparece implicitamente no discurso, mas explicitamente nas orientações, como podemos checar, quando seguimos adiante no Caderno Gestor e encontramos um resumo das “competências” esperadas do PC, no gerenciamento da escola e na implantação da proposta curricular definida pelo Estado. Vejamos: Quadro 5 – As competências do PC Fonte: Caderno do Gestor: gestão do currículo na escola (São Paulo, 2009b, p. 11). O que vemos, novamente, é um emaranhado de discursos da ordem de uma política de controle e de uma pedagogia pseudoprogressista. O item dois, por exemplo, coloca o PC num lugar onipotente de compreensão dos conceitos das variadas áreas do conhecimento, para que, no domínio de todos os saberes relativos aos professores especialistas, ele possa gerenciar a performatividade do grupo. Essa exigência não nos parece apenas um ajuste ao princípio do “aprender a conhecer” (DELORS, 2001), constituinte dos quatro pilares para a educação no século XXI ─ bandeira defendida nos discursos pedagógicos brasileiros desde então, mas fruto de uma “promiscuidade linguística” (ROSA, 2012), que hibridiza os discursos oficiais e camufla suas intenções de controle e alcance de metas de produtividade e eficácia (bastante explícito no item 4), na medida em que “(...) os discursos formam sistematicamente os objetos de que falam” (FOUCAULT, 1996. p. 56). O item 5 parece confirmar o hibridismo citado, na medida em que finge abandonar o que está posto no anterior e retoma a ideia de uma pedagogia progressista que foca intervenções solidárias na escola, respeitando os direitos humanos e considerando a diversidade sociocultural. Não que estejamos a negar o valor desses princípios e criticar sua entrada na escola, mas preocupa-nos o quanto, como diria Foucault (1992a, p. 305), “(...) os nomes [as palavras] não recortam tanto o quadro complexo de uma representação; [mas] recortam, detêm e imobilizam o processo de uma ação”. Vemos, com todo o exposto, que há uma contradição posta nos discursos oficiais na medida em que tentam harmonizar uma política mercadológica de educação com vistas ao alcance de metas e prestação de contas pelo avanço esperado, com uma bandeira progressista colocada no discurso pedagógico desde o início da década de 90, que visa a transformar o espaço escolar em relações democráticas de construção de saberes, relações e subjetividades. Mais do que isso, para o profissional em especial sob o qual temos nos debruçado, lhe é conferido um fardo bastante pesado, idealizado, e, diríamos até utópico, se considerarmos as fragilidades, tensões e contradições com as quais tem de lidar no cotidiano escolar. Nossa tentativa, nessa investigação, não é procurar pelo não-dito, ou pelas intenções ocultadas do que é dito nos discursos oficiais e que configuram a atuação do PC na escola como formador de professores, mas inverter ou alterar a ênfase do que é dito para compreender como essas prescrições oficiais abrem espaço para que o PC realmente atue em consonância com elas ou não. 2.3 A formação continuada: uma nova forma de controle? Quando da implantação da proposta curricular para o ciclo II, o Programa São Paulo Faz Escola, em 2009, em decorrência de todo o investimento já feito no ano anterior no ciclo I, com o Programa Ler e Escrever, professores coordenadores e supervisores escolares receberam orientação e capacitação pedagógica em encontro presencial na cidade de Serra Negra, entre os dias 5 e 7 de agosto. Dentre as palestras conferidas, a profª Dra. Maria Inês Fini, então Coordenadora Geral da Proposta Curricular para o Ensino Fundamental (Ciclo II) e Ensino Médio do Estado de São Paulo, realizou uma palestra intitulada “O Professor Coordenador como Gestor Pedagógico: Funções e Atribuições”; gravada e disponível na internet para download (FINI, 2009). Logo no início de sua fala, ela coloca que o PC assume uma posição estratégica para a melhoria da qualidade na educação, na política educacional vigente. Afirma que, do ponto de vista pedagógico, a função mediadora do PC é que faz a articulação entre currículo, avaliação e formação de professores, cabendo a ele o papel de atrelar as práticas de sala de aula com os resultados obtidos na aprendizagem dos alunos. Ressalta que: (...) é claro que ele [o PC] não vai fiscalizar as aulas, embora seja super recomendado que ele assista algumas e ele poderá monitorar o trabalho do professor para saber o que é que está acontecendo, o que está sendo ensinado, como se dão as relações sociais dentro da sala de aula, a relação entre os alunos, quais são os cuidados em relação às atitudes e valores que estão sendo veiculados, qual é a relação do professor com a sua classe, como estão sendo tratados os diferentes... Não estou dizendo que o professor coordenador deve cuidar diretamente, mas ele tem que cuidar que os professores estejam cuidando. É este monitoramento, esta é a essência da função estratégica de mediação... (FINI, 2009, grifos nossos). Se é esperado do PC o papel de mediador do processo educativo na escola, de maneira a aliar o currículo, com a avaliação e a formação dos professores, parece-nos que o que está em jogo aqui é o quanto ele precisa, de fato, promover espaços de reflexão, questionamento, confronto, negociações e estudo sobre como transformar práticas escolares com vistas à mudança desejada. Contudo, nesse pequeno excerto, ficam evidentes as orientações que visam ao controle da ação do professor pelo PC, sugerindo que ele seja quase como aquele olho invisível disposto a testemunhar qualquer ineficácia da ação do professor e conferir a ele uma possível culpa pelo fracasso dos alunos. Mas a serviço de quê ou de quem estão os encontros de formação continuada na escola? Entendendo que o papel da formação continuada está em constituir-se como um elemento de “constante retomada da atividade reflexiva” (GARRIDO, 2003, p. 09), tanto para o próprio PC, quanto a que ele proporciona ao seu grupo docente, confrontamos a lógica do pensamento descrito anteriormente. Retomando o conceito de profissional reflexivo, discutido por Alarcão (1996, 2001), com base nos estudos de Schön (2000) – autores usados nas referências teóricas dos documentos oficiais da SEE/SP, em especial, o Caderno Gestor –, encontramos que essa noção: (...) baseia-se na consciência da capacidade de pensamento e reflexão que caracteriza o ser humano como criativo e não como mero reprodutor de ideias e práticas que lhe são exteriores. É central, nesta conceptualização, a noção do profissional como uma pessoa que, nas situações profissionais, tantas vezes incertas e imprevistas, atua de forma inteligente e flexível, situada e reativa (ALARCÃO, 2001, p. 44). Embora o conceito de profissional reflexivo fundado por Schön (2000) tenha sofrido muitas críticas (ver ALARCÃO, 1996; GARRIDO, 2003; LIBÂNEO, 2002; PIMENTA; GHEDIN, 2002) ─ em especial por: descolar dessa ideia o contexto social e institucional; desconsiderar a identificação entre ação e pensamento; não valorizar o conhecimento teórico; haver falta de compreensão crítica do contexto social e pouca ênfase no trabalho coletivo ─. Pimenta e Ghedin (2002) consideram que tal contribuição (o conceito de profissional reflexivo) tenha sido fundamental para se pensar a reflexão nos centros de formação, por aliar teoria e prática e por não permitir que a alienação proveniente dessa dissociação ocorra. Ora, se é condição que o PC não seja um reprodutor de ideias e, sim, atue de maneira criativa, questionadora, reflexiva, temos uma contradição posta entre o discurso político e o discurso pedagógico, ambos oficiais. Se entendemos que o trabalho do PC é fundamentalmente um trabalho de formação em serviço de seus pares, é preciso levarmos em conta a complexidade dessa tarefa que, no mínimo, pretende-se formadora, articuladora e transformadora, conforme aponta Garrido (2003). Na tentativa de promover espaços e tempos que promovam o desenvolvimento profissional de seu grupo docente, o PC vê-se incumbido de encontrar maneiras de mudar ou questionar práticas pedagógicas arraigadas e pouco discutidas na escola, de forma a compreender, como revela Garrido (2003, p.09): (...) a realidade escolar e seus desafios, construir alternativas que se mostrem adequadas e satisfatórias para os participantes, propor um mínimo de consistência entre as ações pedagógicas, tornando-as solidárias e não isoladas ou em conflito umas com as outras. Na esteira do pensamento de Garrido (2003), concordamos que mudar ou questionar práticas não é uma tarefa que se concretiza com a aplicação de um conjunto de técnicas, nem mesmo com a implementação de novos modelos de programas que substituam velhas práticas, métodos ou metodologias. Pressupõe, por outro lado, um intenso investimento “(...) em lançar olhares questionadores e de estranhamento para práticas que nos são tão familiares que parecem verdadeiras, evidentes ou impossíveis de serem modificadas” (GARRIDO, 2003, p. 10). Nóvoa (2007), em uma palestra proferida em São Paulo, no Sindicato dos Professores (SINPRO), quando discursava sobre os dilemas dos professores no mundo contemporâneo e recolocando o papel da formação continuada, cita uma passagem que dialoga com o que é postulado por Garrido, dizendo: Dewey tinha aquela velha história que no final de uma palestra – ele que nos anos 1930 inventa o conceito de professor reflexivo – um professor virou-se para ele e disse “o senhor abordou várias teorias, mas eu sou professor há dez anos, eu sei muito mais sobre isso, tenho muito mais experiência nessas matérias. Então, Dewey perguntou: tem mesmo dez anos de experiência profissional ou apenas um ano de experiência repetida dez vezes?”. Não é a prática que é formadora, mas sim a reflexão sobre a prática... (NÓVOA, 2007, p. 16). Nóvoa (2009) defende que, mais do que falarmos em formar professores reflexivos, é preciso que pensemos em formas de trazer a formação de professores, de fato, para dentro da profissão, de maneira a conseguirmos um sistema que permita: (i) estudo aprofundado de cada caso, sobretudo dos casos de insucesso escolar; (ii) análise colectiva das práticas pedagógicas; (iii) obstinação e persistência profissional para responder às necessidades e anseios dos alunos; (iv) compromisso social e vontade de mudança. (...) (...) as nossas propostas teóricas só fazem sentido se forem construídas dentro da profissão, se forem apropriadas a partir de uma reflexão dos professores sobre o seu próprio trabalho. Enquanto forem apenas injunções do exterior, serão bem pobres as mudanças que terão lugar no interior do campo profissional docente (NÓVOA, 2009, p. 06-07). Se recuperarmos a trajetória das discussões sobre formação continuada ao longo do tempo, veremos que ela se configurou em diferentes formatos, desde as mais estruturantes e tradicionais, até as mais construtivas e reflexivas (NÓVOA, 1991); assim como assumiu diferentes nomenclaturas a serviço de diferentes concepções de formação de professores, conforme acentua Prada (1997). Entretanto, não é nossa intenção, nessa investigação, resgatarmos essa história para analisarmos as mudanças sofridas e suas concepções subjacentes. Interessa-nos, contudo, situadas em nosso foco de pesquisa, entendermos de que maneira, com quais condições e com quais limites/potenciais esse modelo de formação continuada, posta e exigida ao PC da SEE/SP, configura o seu papel como formador de professores, no contexto de um programa institucional. No bojo dessa discussão, devemos lembrar, então, que as reformas educacionais exigem, por consequência, sujeitos igualmente reformados. Com isso, as inovações trazidas com novos programas ou propostas estabelecem novos padrões de se fazer/pensar educação, assim como configuram novos comportamentos e criam novas linguagens coletivas, segundo destaca Mate (2003a). Nesse sentido, vale indagar como o PC pode articular, na formação de professores, dois polos aparentemente tão distintos: a reprodução de modelos prescritos e a mobilização do questionamento e da reflexividade? Retomamos Nóvoa (2009, p.08), que recorda “(...) Bertrand Schwartz (1967): a Educação Permanente começou por ser um direito pelo qual se bateram gerações de educadores, transformou-se depois numa necessidade e agora é vista como uma obrigação”, para dizer que nos parece crucial encontrar os pontos que nos permitem compreender como os PCs atuam como formadores de professores numa lógica de formação continuada instituída como prática obrigatória e como medida de controle. Ousamos sugerir que, embora no discurso pedagógico oficial, a formação continuada seja defendida e incentivada como um espaço de mediação de saberes e reflexividade crítica sobre, dentre outros aspectos, as práticas pedagógicas; no discurso político, também oficial, a mesma formação continuada funciona como uma das formas de controle que se enquadrariam naquilo que Ball (2005) chamou de gerencialismo; uma vez que coloca na mão dos gestores, nesse caso o PC, a responsabilidade pelo enquadramento do pensamento do grupo docente no “pacote didático” imposto pelo sistema e na prestação de contas quanto à melhoria dos resultados escolares. Nesse sentido, voltamos a Nóvoa (2009, p. 08) para, junto a ele, questionarmos: Será que, hoje, muitos professores não são bem menos reflexivos (por falta de tempo, por falta de condições, por excesso de material didáctico pré-preparado, por deslegitimação face aos universitários e aos peritos) do que muitos dos seus colegas que exerceram a docência num tempo em que ainda não se falava do “professor reflexivo”? (grifos nossos). A seguir, nos deteremos com mais cuidado na formação continuada que acontece dentro do Programa Ler e Escrever – a realizada num fluxo de cascata e já anunciada anteriormente – para aprofundarmos um pouco mais a hipótese levantada. 2.3.1 A proposta de formação continuada do “Ler e Escrever” Conforme já mencionado, o Programa Ler e Escrever é um “filhote” de outros programas institucionais, em especial, o que ficou conhecido no estado de São Paulo por “Letra e Vida” (o original, em âmbito federal, chamava-se Programa de Formação de Professores Alfabetizadores – PROFA). Foi criado pelo mesmo grupo intelectual que está presente no governo de SP desde a década de 80, quando da implantação da promoção automática e do chamado Ciclo Básico na rede estadual paulista, bem como da chegada das ideias construtivistas ao Brasil. Teve como grande representante de difusão de tais pressupostos, a profª Dra Telma Weisz, orientanda no doutoramento da profª Dra Emília Ferreiro, por sua vez, discípula de Jean Piaget, o pai do construtivismo. Assim, é importante que entendamos que, no Brasil, em especial no estado de SP, tais pressupostos teóricos têm sido hegemônicos no pensamento e produção intelectual de programas e materiais para a alfabetização desde então, numa ruptura de paradigmas com a concepção vigente no país (ver MORTATTI, 2000, 2004, 2007, 2010). Para entendê-lo, minimamente, é necessário que recorramos aos discursos da Filosofia, da Psicologia e da Pedagogia. Ancorados na Filosofia, Rosa (2002, p. 40-41) nos aponta que as raízes do construtivismo estão cravadas no século XVIII, pois “(...) é filho do movimento iluminista, fiel defensor da capacidade humana de guiar-se pela razão e, através dela, criar e recriar o mundo”. Na linguagem psicológica, importa ao construtivismo demonstrar o papel central do indivíduo (universal) na produção do saber, o que na epistemologia genética de Jean Piaget, definida como “(...) uma teoria geral dos processos de aquisição de conhecimento...” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999, p.31). O que significa dizer que: Um sujeito ativo é aquele que compara, exclui, ordena, categoriza, reformula, comprova, formula hipóteses, reorganiza, etc., em ação interiorizada (pensamento) ou em ação efetiva (segundo seu nível de desenvolvimento). Um sujeito que está realizando materialmente algo, porém, segundo as instruções ou o modelo para ser copiado, dado por outro, não é, habitualmente, um sujeito intelectualmente ativo (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999, p. 32). Já no discurso pedagógico, entretanto, é intenso o esforço de tradução dessa teoria para o cotidiano da sala de aula, na medida em que realiza a transposição de uma concepção de aprendizagem para uma concepção de ensino. Com a chegada da “Psicogênese da Língua Escrita” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999) ao Brasil, intensificou-se essa tentativa, bem como as assimilações deformantes sobre ela, para usarmos um termo piagetiano (PIAGET, 1970). Como tais teorias (PIAGET, 1970; FERREIRO e TEBEROSKY, 1999) configuram-se como concepções, e não métodos, exigem dos professores um complexo aprofundamento teórico para que se viabilizem as possibilidades, de levar para a sala de aula, os pressupostos construtivistas sobre aprendizagem, de maneira a planejar o processo de ensino. O movimento visto, desde então, busca colocar a escola como o espaço propulsor e privilegiado ao acesso a aspectos da cultura fundamentais ao desenvolvimento pessoal, não só em âmbito cognitivo, como em relação ao afetivo, social e motor. Pelo menos, esse é o pressuposto construtivista que, conforme afirmam Coll e Solé (2001, p.18): [...] no tocante à escola, negar seu caráter social e socializador parece bastante absurdo; na realidade, essa é uma das razões da sua existência. [...] A educação escolar promove o desenvolvimento na medida em que promove a atividade mental construtiva do aluno, responsável por transformá-lo em uma pessoa única, irrepetível, no contexto de um grupo social determinado. Para entendermos um pouco mais sobre essa dificuldade que apontamos, é preciso voltar ao pensamento construtivista na alfabetização, especificamente. Nessa área, encontramos, como marco principal, a teoria defendida por Ferreiro e Teberosky (1999) que, nos moldes do mestre Piaget, lançaram mão do seu método clínico para pensar a aquisição da lectoescrita. Tal teoria causou uma “revolução conceitual”, no início dos anos de 1980, pois propunha uma mudança de paradigmas, na medida em que defendia a necessidade de se compreender como se processava a evolução do pensamento infantil no domínio do sistema de escrita. Com isso, mudou-se o foco da antiga disputa entre métodos de alfabetização para o processo de aprendizagem do aluno (MORTATTI, 2000). O que acontece é que, conforme nos alerta Mortatti (2007, apud SCHOLZE e RÖSING, 2007, p. 158), “(...) o construtivismo não pode e não pretende ser nem um novo método de ensino da leitura e escrita, nem, portanto, comporta uma nova didática da leitura e escrita”. Talvez isso tenha ocasionado o “caldeirão teórico”, que encontramos na prática, com a mistura das teorias psicogenéticas de Piaget (1970), Wallon (1989) e Vygotsky (2007); autores que, apesar de algumas aproximações em seus estudos, apresentam raízes epistemológicas distintas. É novamente Mortatti (2007), que nos diz que o que vemos nas salas de aula, é uma verdadeira mistura entre os pressupostos do construtivismo de Piaget (1970), com o interacionismo de Vygotsky (2007) e as ideias sobre letramento trazidas por Kato (1986), como se fossem uma nova opção didático-metodológica. Assim, o que encontramos na prática dos professores, que se dizem construtivistas hoje, e, inclusive, nos programas de formação que se auto-intitulam da mesma forma, pode ser traduzido da seguinte forma: “(...) no processo de alfabetização escolar, devem-se respeitar as ‘fases’ de construção, pela criança, do conhecimento sobre a língua escrita, mediante ‘trabalho com textos’, para se atingir o objetivo de ‘letrar’” (MORTATTI, 2007, apud SCHOLZE; RÖSING, 2007, p. 162). Essa é a lógica presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Alfabetização (BRASIL, 1997), no PROFA (BRASIL, 2001) e, claro, no Ler e Escrever (SÃO PAULO, 2008a), tanto do ponto de vista das concepções teóricas, que fundamentam tais programas, como nas sugestões de atividades presentes nos guias dos professores. No caso pontual do Ler e Escrever, o conjunto de materiais é formado por guias de planejamento do professor (de 1º a 5º ano, regular e PIC), guias de avaliação e um livro de textos (2º ano – introdução das sondagens de escrita – antiga 1ª série), livro do aluno (de 1º a 5º ano) e um livreto de orientação aos pais sobre o programa (2º ano, antiga 1ª série). Hoje, o Programa também conta com um material videográfico, que vem sendo produzido ao longo dos anos, paulatinamente, filmados em sala de aulas reais da rede estadual, com o objetivo de discutir a prática do professor em determinado conteúdo integrante do programa de Língua. Nos encontros de formação continuada dos PCs, que acontecem no formato já comentado, os guias de planejamento do professor e o material videográfico são recursos utilizados com frequência, a fim de garantir que os professores não só usem de fato o material na escola, como moldem suas práticas ao que é defendido nele. Os objetivos desses encontros de formação, conforme exposto em documentos oficiais, é subsidiar o PC a assumir na escola o papel de formadores de professores alfabetizadores, dentro da concepção teórica da política educacional vigente. Conforme podemos visualizar (ANEXO 2, p. 189-198), as pautas de formação elaboradas pela equipe central promovem encontros com complexa densidade teórica e partem do pressuposto de que essas servem de bons modelos aos PCs, quando tiverem de elaborar as suas próprias pautas de formação para as reuniões com os professores em suas escolas. Como as pautas das formadoras da equipe central são desenvolvidas em encontros de quatro ou oito horas e estruturam-se numa lógica de sequência didática (atividades encadeadas com grau de complexidade crescente), elas não são pensadas de forma a serem replicadas tal e qual, pelos PCs, nas escolas, porque isso seria impossível. Principalmente, se considerarmos que, caso o PC tentasse fazer dessa forma, levaria praticamente um mês para desenvolver o que fora trabalhado em um único dia com ele, já que os HTPC’s tem duração de 1h40min. Entretanto, visam a uma espécie de modelização de procedimentos, a partir de estratégias formativas, como a tematização e a dupla conceitualização (CARDOSO, 2007). Além disso, não é possível que o PC dedique tanto tempo dessas reuniões, seguidamente – já que ficaria estranho quebrar a lógica da sequência didática –, ao mesmo conteúdo, não só pelo fator tempo já exposto, mas porque há outros conteúdos de áreas disciplinares diversas que também precisam ser tratados nas reuniões de formação. Além disso, também porque o cotidiano escolar impõe outras demandas (de organização, de decisões coletivas, de informes, exigências burocráticas...), que, muitas vezes, pelo caráter emergencial, não podem esperar o término de uma sequência formativa. Portanto, atuar como PC pressupõe saber gerenciar muito bem todas essas demandas (fora as que oficialmente não compõem o quadro de afazeres de um PC, mas que acabam sendo destinadas a ele, seja por imposição de seus superiores ou pela ausência de outros profissionais que o façam, como atendimento de alunos, de vendedores na escola, de pais, de preenchimento dos tantos formulários burocráticos exigidos etc), que ultrapassam em muito o seu papel primordial: ser o responsável pela mediação da formação continuada do grupo docente. Este nos parece ser o ponto nevrálgico da lógica imposta pelo Programa Ler e Escrever, no que diz respeito a sua lógica de formação continuada, na medida em que é esperado do PC que ele, na assunção do seu papel de formador de professores e tendo de gerenciar todas as complicações, já expostas, inerentes ao cotidiano da escola, atue de forma autônoma e criativa na condução desse ofício. Ou seja, dele é esperado que saiba encontrar o recorte, a partir da formação recebida, que mais atenda às necessidades de seu grupo docente e planeje seus encontros formativos de maneira a conseguir sucesso na “adequação” das práticas docentes de sua escola, com vistas à melhora dos índices de aprendizagem, desde que, é claro, não transgrida o que é preconizado pelo Programa. Tudo isso regado de muita autoria profissional e exercício de seu papel de intelectual. Então, questionamos: de que autoria/autonomia é essa de que estamos falando? Uma autonomia vigiada, controlada, que determina quais fronteiras e limites são permitidos de serem alcançados ou de uma autonomia/autoria condizente à reflexão que cada um for capaz de tecer, com o seu grupo, incluindo suas experiências de vida e de profissão, seus estudos, suas oportunidades de trocas coletivas? Nóvoa (2007, p. 09) vem nos alertar que: Quanto mais se fala da autonomia dos professores mais a sua acção surge controlada, por instâncias diversas, conduzindo a uma diminuição das suas margens de liberdade e de independência. O aumento exponencial de dispositivos burocráticos no exercício da profissão não deve ser vista como uma mera questão técnica ou administrativa, mas antes como a emergência de novas formas de governo e de controlo da profissão. Além disso, vale ressaltar uma outra contradição que observamos entre, novamente, o discurso pedagógico do Programa Ler e Escrever e o discurso político que o oficializa. Uma proposta construtivista de educação (na modalidade inicial ou continuada) pretende ser aquela que garante a ação do sujeito de maneira autônoma que, segundo os princípios piagetianos, significa permitir a ação do sujeito sobre o objeto de aprendizagem, sem moldes, métodos ou amarras previamente definidos. Segundo a principal fonte teórica do Programa, “(...) os métodos não oferecem mais do que sugestões, incitações, quando não práticas rituais ou conjunto de proibições. O método não pode criar conhecimento” (FERREIRO; TEBEROSKY, 1999, p. 44). Nesse sentido, como ficam os guias de planejamento usados como referências a serem seguidas no Programa Ler e Escrever? Se eles são apenas sugestões, como defende Ferreiro, que formato de formação continuada é esse organizado nesse contexto? Nessa tentativa de padronização e desvalorização do trabalho crítico e intelectual dos professores, usamos Giroux (1997, p. 158) para nos ajudar a pensar que: (...) uma das maiores ameaças aos professores existentes e futuros nas escolas públicas é o desenvolvimento crescente de ideologias instrumentais que enfatizam uma abordagem tecnocrática para a preparação dos professores e também para a pedagogia de sala de aula. Assim, percebemos o quanto tais “pacotes curriculares à prova de professor” cerceiam e reduzem a autonomia dos profissionais, numa espécie de “pedagogia do gerenciamento”, na qual subjaz a ideia de que o comportamento, a conduta e a postura do profissional precisam ser controladas e comparadas entre seus pares, conforme ainda nos ensina Giroux (1997). Resta-nos, assim, investigarmos qual é o campo dos possíveis para o PC engendrado nessa lógica anteriormente descrita e quais caminhos e possibilidades ele tem buscado nesse contraponto entre reprodução de modelos e prática autônoma na formação de professores do Programa Ler e Escrever. Para tanto, lançaremos mão dos materiais usados por ele e do planejamento que realiza para pensar suas reuniões de formação, especialmente, dos professores alfabetizadores, para investigar como ele se coloca em meio a essas relações de poder e em relação às práticas discursivas decorrentes delas. CAPÍTULO III OS CAMINHOS DA PESQUISA O real não está nem na chegada nem na saída. Ele se dispõe para a gente é no meio da travessia. Guimarães Rosa (1988) A área da Educação só se configurou como ciência, numa concepção positivista, no começo do século 20, em especial, a partir de 1930, quando, como nos ensina Gatti (2002, p. 46), “(...) mais fortemente se dá a apropriação de certos modelos das ciências físicas e naturais pelas ciências humanas e sociais”. Por conta desse ideário, no qual se incorporou a ideia de quantificação e a metodologia experimental, buscavam-se, nas pesquisas, relações lineares de causa e efeito ou, ainda, relações funcionais determinísticas (GATTI, 2002). Esse contexto, apesar de não totalmente dispensável, trouxe vários problemas para tais ciências, uma vez que os fenômenos humanos e sociais nem sempre podem ser explicados por meio de descrições, medições, experimentações, pela busca de objetividade e a partir da crença na ciência e em seu método. A partir dos anos 70 e 80, conforme destaca Gatti (2002), esse modelo de investigação científica passou a sofrer críticas e iniciou-se a adesão, também de maneira pouco fundamentada, a um modelo chamado de qualitativo, como se qualquer situação investigativa não envolvesse processos de qualificação. Conforme nos ensinam Lüdke e André (1986, p. 01), toda pesquisa, envolve, necessariamente, “(...) o confronto entre os dados, as evidências, as informações coletadas sobre determinado assunto e o conhecimento teórico acumulado a respeito dele”. E isso tudo pressupõe envolver a subjetividade do pesquisador que seleciona, infere, analisa e sintetiza. A abordagem qualitativa, por sua vez, “(...) não dispensa o rigor e a consistência, nem é sinônimo de literatura ou poesia” (GATTI, 2002, p. 51), no sentido da ficção que traz a abertura para a subjetividade extrema, mas, em contrapartida, permite lançar mão do conhecimento acumulado e de determinados instrumentos, para que, munido deles, o pesquisador possa servir de instrumento para estabelecer relações entre as evidências colhidas da realidade. Nesse sentido, então, tal abordagem qualitativa pode nos ser bastante útil, na medida em que permite que, no confronto com a realidade investigada e com os dados dela colhidos, possamos desenvolver o estranhamento inerente a qualquer processo investigativo que se pretenda desvelador de possíveis interpretações do contexto observado. Assim, esta pesquisa usa, como procedimento metodológico, a abordagem qualitativa. Como procedimentos de coleta de dados, utilizamo-nos da análise documental, do questionário e da entrevista semiestruturada. Na análise documental, incluímos, ainda, um elemento que consideramos essencial para respondermos à questão-problema dessa pesquisa que, a título de retomada, indaga: o PC exerce sua autoria profissional quando atua como formador de professores em um programa institucional? O instrumento, em questão, é o que chamamos, no Programa Ler e Escrever, de pautas formativas, ou seja, é a organização realizada previamente pelo PC para a reunião com os professores (HTPC). Para a análise dos dados colhidos, utilizaremos a técnica da análise de conteúdo, de Laurence Bardin (2011, p.35), por entendermos que ela nos permite: (...) a descoberta de conteúdos e de estruturas que confirmam (ou infirmam) o que se procura demonstrar a propósito das mensagens, ou pelo esclarecimento de elementos de significações suscetíveis de conduzir a uma descrição de mecanismos de que a priori não possuímos a compreensão. A pesquisa desenvolveu-se em três etapas. Na primeira, fizemos um levantamento de toda a documentação oficial relativa ao Programa e ao PC, para que pudéssemos focar naquilo que nos interessava. Na segunda fase, aplicamos um questionário com 75 PCs das Diretorias de Ensino de Suzano, Itaquaquecetuba e Mogi das Cruzes (atendidas, por mim, no Programa), a fim de traçarmos um perfil desse grupo a ser estudado. Na terceira fase, elegemos três PCs que atendessem ao perfil mapeado, a partir dos questionários, porém de uma outra Diretoria de Ensino (no caso, a de Santos/SP e de São Vicente/SP), para que a figura do pesquisador não interferisse na produção de dados para a pesquisa. Desses PCs, colhemos as pautas formativas e, também, realizamos as entrevistas. A seguir, descreveremos cada uma das etapas da pesquisa, bem como traremos todo o seu contexto: desde os instrumentos de coleta, passando pelos sujeitos, pelo campo de pesquisa, até chegarmos à opção da análise documental das pautas formativas, que antecederão as entrevistas e a análise de conteúdo das mesmas. 3.1 Dos instrumentos Essa pesquisa utilizou-se de dois instrumentos de coletas de dados: o questionário, do qual trataremos a seguir, e a entrevista semiestruturada, que será nosso foco somente no Capítulo 4. A princípio, realizamos um levantamento inicial com os 75 PCs atendidos nas Diretorias de Ensino (DE) de Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes e Suzano, locais onde atuo como formadora do Programa Ler e Escrever. Suzano e Itaquaquecetuba contam com 20 PCs em cada DE, e Mogi das Cruzes, conta com 35 PCs em sua DE. Nosso objetivo era conseguir dados sobre a totalidade dos sujeitos, para posterior definição do recorte a ser introduzido nessa realidade. Esse instrumento de pesquisa foi enviado por e-mail a todos os sujeitos e era composta de um questionário (APÊNDICE 2, p. 223), que solicitava informações básicas sobre a vida profissional dos sujeitos e uma questão aberta sobre o que o levou a escolher o cargo de PC. Fizemos a tabulação dos dados e organizamos e descrevemos a seguir. Também realizamos a tabulação em forma de tabelas e gráficos (APÊNDICE 03, p. 224227). A questão 01 solicitava o nome completo do PC, da escola onde atuava e a indicação de qual Diretoria pertencia. Na questão 02, em que questionávamos o cargo de origem, obtivemos 42 sujeitos ocupantes do cargo de PEB I (Professor de Educação Básica 1º a 5º ano - 54,8%), 29 sujeitos ocupantes do cargo de PEB II (Professor de Educação Básica 6º a 9º ano -39,7%) e 04 sujeitos ocupantes de ambos os cargos concomitantemente (5,4%), conforme o Quadro 6, a seguir. Quadro 6 – Cargos do PC Cargo de origem Número de sujeitos % Professor de Educação Básica 1º a 5º ano 42 54,8 Professor de Educação Básica Especialista 29 39,7 4 5,4 Ambos os cargos concomitantemente Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 03 perguntava sobre a situação funcional e obtivemos, 40 sujeitos são efetivos (54,8%), 20 são OFA (Ocupante de Função Atividade - 24,6%) e 15 são OFA estável (20,5%), de acordo com o Quadro 7. Vale ressaltar que, se considerarmos os profissionais não-efetivos, mas estáveis (condição alcançada pelo tempo de serviço), somados aos profissionais realmente efetivos, chegamos a um percentual de profissionais com estabilidade de quase 80%. Quadro 7 – Situação Funcional do PC Situação funcional Efetivos Número de sujeitos 40 % 54,8 20 24,6 15 20,5 Ocupante de Função Atividade Ocupante de Função Atividade estável Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 04 solicitava saber sobre o tempo de atuação como PC (Quadro 8). Aqui, tivemos a seguinte situação: 15 sujeitos têm menos de um ano de atuação, 47 sujeitos têm de 01 a 5 anos de atuação; 09 sujeitos têm de 05 a 10 anos de atuação; 03 sujeitos têm de 11 a 15 anos de atuação; e apenas 01 sujeito tem mais de 15 anos de atuação. Podemos perceber que, somando os profissionais com até 05 anos de atuação, chegamos a um percentual de mais de 82%, o que implica considerarmos o grupo com pouca experiência na função de PC. Quadro 8 – Tempo de atuação como PC Tempo Menos de um ano de atuação De 01 a 5 anos de atuação De 05 a 10 anos de atuação De 11 a 15 anos de atuação Mais de 15 anos de atuação Número de sujeitos 15 47 9 3 1 % 20 62,6 12 04 1,3 Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 05 perguntava sobre o tempo de atuação na atual escola em que se encontram. Obtivemos: 18 sujeitos estão há menos de um ano; 36 sujeitos estão entre 01 e 05 anos; 08 sujeitos estão entre 05 e 10 anos; 05 sujeitos estão entre 11 e 15 anos; e 06 sujeitos estão há mais de 15 anos na escola atual, conforme Quadro 9. Da mesma forma que na questão anterior, percebemos que o maior índice encontra-se nos profissionais que trabalham na escola atual por 05 anos ou menos. Quadro 9 – Tempo de atuação do PC na escola Tempo de atuação na atual escola em que se encontram Menos de um ano Entre 01 e 05 anos Entre 05 e 10 anos Entre 11 e 15 anos Mais de 15 anos Número de sujeitos % 18 36 8 5 6 24 48 10,6 6,66 08 Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 06 era sobre os ciclos que atendem na escola, de acordo com o Quadro 10. Tivemos: 54 sujeitos atendem apenas ao ciclo I; 16 sujeitos atendem aos ciclos I e II; 01 sujeito atende ao ciclo I e Médio; 03 sujeitos atendem aos ciclos I, II e Médio Regular; e 01 sujeito atende aos ciclos I, II, Médio Regular e EJA. A tabulação desse item nos permite a constatação de que a maioria dos profissionais atende apenas a um único ciclo na escola, o que confere maior qualidade ao seu trabalho, em virtude de não ter de dividir-se entre ciclos com realidades, muitas vezes, bem diferentes. Quadro 10 – Ciclos atendidos pelo PC Número de sujeitos % Ciclo I Ciclos I e II Ciclo I e Médio Ciclos I, II e Médio Regular 54 16 1 3 72 21,3 1,3 04 I, II, Médio Regular e EJA 1 1,3 Ciclos que atendem na escola Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 07 indagava sobre o número total de professores que atende na escola. Obtivemos: 18 sujeitos atendem de 05 a 10 professores; 19 sujeitos atendem de 11 a 15 professores; 05 sujeitos atendem de 16 a 20 professores; 16 sujeitos atendem de 21 a 25 professores; 07 sujeitos atendem de 26 a 30 professores; e 10 sujeitos atendem mais de 30 professores, conforme o Quadro 11 a seguir. Aqui, vale ressaltar que, embora a maior parte esteja no intervalo de 11 a 15 professores atendidos, se considerarmos aqueles profissionais que atendem a mais de 20 professores – número que consideramos absurdo se pensarmos na qualidade de um trabalho de formação que envolva tantos professores – chegamos a um percentual de mais de 40%! Quadro 11 – Número de professores atendidos pelo PC Número total de professores que atende na escola de 05 a 10 professores de 11 a 15 professores de 16 a 20 professores de 21 a 25 professores de 26 a 30 professores Mais de 30 professores Número de sujeitos % 18 19 5 16 7 10 24 25,3 6,66 21,3 9,3 13,3 Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 08 levantava dados sobre a formação acadêmica inicial dos PCs. Obtivemos: 29 sujeitos possuem Magistério; 06 sujeitos possuem formação PEC (Normal Superior); 34 sujeitos possuem Licenciatura Plena em Pedagogia; 18 sujeitos possuem Licenciatura em Letras; e 32 sujeitos possuem outras licenciaturas, conforme apontado no Quadro 12. Embora a maior parte dos profissionais (45,3%) demonstre ter a formação acadêmica inicial em Pedagogia, não podemos desconsiderar que outra boa parcela deles (42,6%) possui formação em outras licenciaturas, nas quais encontramos uma grande variedade de possibilidades, como, por exemplo, Educação Física, Geografia, História, Matemática, entre outras. Por isso, vale ressaltar que não é exigido que tais profissionais sejam pedagogos para realizar a função de professores coordenadores que, mesmo sem a nomenclatura “pedagógica” agregada à denominação, lidam diariamente e, principalmente, com esse aspecto da rotina escolar. Quadro 12 – Formação acadêmica do PC Formação acadêmica inicial dos PCs Número de sujeitos % 29 6 34 18 32 38,6 08 45,3 24 42,6 Magistério PEC (Normal Superior) Licenciatura Plena em Pedagogia Licenciatura em Letras Outras licenciaturas Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. A questão 09 perguntava sobre o PC possuir ou não pós graduação Lato Sensu. Aqui, tivemos: 34 sujeitos não possuem curso de pós graduação; 06 sujeitos possuem em Pedagogia; 12 sujeitos possuem em Gestão Escolar; 09 sujeitos possuem em Psicopedagogia; e 18 sujeitos possuem outros cursos de pós graduação, como indica o Quadro 13, a seguir. Embora tenhamos quase 50% dos profissionais que não tenham dado continuidade aos seus estudos acadêmicos, o que nos chama a atenção, temos 36% deles com cursos de especialização em áreas voltadas para a Educação e 24% com cursos de especialização em outras áreas. Quadro 13 – PCs com Pós Graduação Possuir ou não pós graduação Número de sujeitos % 34 6 12 9 18 45,3 08 16 12 24 Não possuem Possuem em Pedagogia Possuem em Gestão Escolar Possuem em Psicopedagogia Possuem em outros cursos Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. Com a tabulação dos dados obtidos por meio da aplicação desse questionário, pudemos mapear o perfil desse grupo de PC e chegar a um recorte interessante a essa pesquisa. Isso é o que mostraremos a seguir. 3.2 Dos Sujeitos A tabulação dos dados iniciais nos permite traçar um perfil desse grupo de professores coordenadores, que atuam nas Diretorias de Ensino de Itaquaquecetuba, Mogi das Cruzes e Suzano. Assim, temos um grupo prioritariamente formado por PCs, cujo cargo de origem é de PEB I (54,8%) e sua situação funcional é referente a funcionários concursados efetivos (54,8%). Além disso, é um grupo com pouco tempo de experiência no cargo (62,6% de 01 a 05 anos), além de estarem também o mesmo tempo na escola em que atuam hoje (48%). Um outro aspecto interessante é que a maior parte desse grupo (72%) atua atendendo apenas ao ciclo I (1º a 5º ano), tendo de 11 a 15 professores em seu grupo (25,3%). Nesse item, vale ressaltar que obtivemos uma porcentagem próxima (24%) de PCs que atendem a um número reduzido de professores (05 a 10), mas ao mesmo tempo, uma outra parte (21,3%) que atende a muitos professores em seu grupo (21 a 25). No que diz respeito à formação inicial, obtivemos a maior parte (45,3%) com licenciatura em Pedagogia, mas uma boa parte (42,6%) com outras Licenciaturas (História, Geografia, Matemática, Educação Física etc.). Isso nos traz um ponto relevante para compreender a atuação dos PCs como formadores de professores; uma vez que, não como via de regra, a Pedagogia fornece instrumentos para que o profissional tenha um olhar mais “preparado” ou, ainda, mais “sensível” às questões que envolvem a rotina pedagógica de uma escola (pelo menos, espera-se), bem como em relação à formação dos profissionais do corpo docente. Um outro aspecto que nos chama atenção, no perfil desse grupo, é que a maior parte deles não possui cursos de pós-graduação (45,3%), o que deve servir como elemento de alerta e preocupação, pois como podemos pensar num formador de professores que não investe em sua própria formação continuada? Assim, podemos sintetizar o perfil dos sujeitos pesquisados da seguinte forma: Quadro 14 – Perfil do Grupo de PCs Aspectos avaliados Respostas Majoritárias Percentual Cargo de origem (antes de ser PC) PEB I 54,8% Situação Funcional Concursados efetivos 54,8% Tempo de experiência como PC 01 a 05 anos 62,6% Tempo de atuação na escola 01 a 05 anos 48% Ciclos que atendem na escola Apenas Ciclo I 72% Número de professores atendidos 11 a 15 professores 25,3% Formação acadêmica inicial Pedagogia 45,3% Curso de Pós Graduação Não 45,3% Obs.: O percentual foi calculado tendo como base o número total de sujeitos = 75. Fonte: Tabulação do questionário aplicado para essa pesquisa. Tal mapeamento nos foi muito útil para definirmos o recorte na escolha dos PCs com quem trabalharíamos nessa pesquisa. A condição que colocamos foi a de que tais sujeitos não poderiam ser escolhidos dentre esses grupos que atendo como formadora, pois, em nome de nossa relação (eu represento o sistema para eles), os dados poderiam sofrer de falta de fidedignidade. Assim, decidimos que os sujeitos deveriam ser escolhidos em outra DE, porém desde que atendessem ao perfil já encontrado nos meus grupos, pois assim teríamos um recorte fiel à realidade já conhecida pela formadora/pesquisadora. Optamos, então, por escolher sujeitos que pertencessem à DEs, que fossem próximas da moradia da pesquisadora, o que facilitaria a colheita dos dados. Decidimos, portanto, escolher PCs das DEs de Santos e São Vicente, a partir de uma conversa com a formadora desses grupos. Foi solicitado a ela que selecionasse os PCs, de seu grupo, que atendessem ao perfil já mapeado. Como retorno, obtivemos a eleição de 3 sujeitos (todos do sexo feminino): dois da DE São Vicente (com escolas em São Vicente mesmo; aliás, as duas únicas escolas estaduais que atendem a Ciclo I) e um da DE Santos (com escola no município de Guarujá). A seguir, traremos a descrição de nosso campo de pesquisa, para que possamos contextualizar mais os dados colhidos. 3.2.1 Do campo de pesquisa A investigação aconteceu em duas Diretorias de Ensino: a de São Vicente (DESV) e a de Santos (DES). Os critérios que usamos para essa escolha foram: os PCs não conhecerem a pesquisadora, o que garantiria maior distanciamento na produção e análise dos dados, e o fato das Diretorias serem próximas do Município onde reside a pesquisadora, o que facilitaria a coleta das entrevistas. Além disso, nossa exigência principal era de que os sujeitos escolhidos se enquadrassem no perfil que já havíamos mapeado, quando da aplicação do questionário com os 75 PCs das DEs, que atendo como formadora. A DESV atende às escolas estaduais pertencentes aos municípios de São Vicente, Mongaguá, Praia Grande, Itanhaém e Peruíbe. Em São Vicente, há 26 escolas sob sua jurisdição; em Mongaguá, há 09 escolas; em Praia Grande, há 30 escolas; em Itanhaém, há 13 escolas; em Peruíbe, há 14 escolas. O que totaliza 92 escolas (SÃO PAULO, 2012e). A DES atende às escolas estaduais pertencentes aos municípios de Santos, Cubatão, Guarujá e Bertioga. Em Santos, há 26 escolas sob sua jurisdição; em Cubatão, há 08 escolas; em Guarujá, há 33 escolas; em Bertioga, há 09 escolas. O que totaliza 76 escolas (SÃO PAULO, 2012f). Selecionamos dois PCs de escolas de São Vicente e um PC de uma escola no Guarujá, pois, segundo a formadora do grupo, eram as que se encaixavam por completo no perfil solicitado anteriormente. Em nossa descrição, numeraremos as escolas a fim de evitarmos o uso de sua identificação real e preservarmos a confidencialidade das informações trazidas. • Escola I Essa escola está localizada no bairro Japuí, em São Vicente, num local de periferia (próximo à Rodovia dos Imigrantes/SP-160) e com poucos recursos de lazer, como uma quadra de futebol nos arredores e uma associação beneficente. Todos os alunos são moradores do próprio bairro, devido à localização mais afastada. De acordo com informações que nos foram fornecidas pela secretaria da escola, a mesma funciona das 7h às 12h15, com 16 classes; das 13h às 18h15, com 12 classes; das 19h às 22h, com 05 classes. Nos finais de semana também abriga o Projeto Escola da Família. Em 2012, a escola atende a 1087 alunos, divididos em Ciclo I (232 alunos de 4º e 5º ano do Ensino Fundamental), Ciclo II (543 alunos de 6º a 9º anos do Ensino Fundamental), e Ensino Médio (200 alunos de 1º a 3º ano), nos períodos da manhã, tarde e noite. No período matutino, atende a um total de 480 alunos, matriculados em 04 classes de 4º e 08 classes de 5º ano, formando classes de 29 alunos, em média. Atende, ainda, a 04 classes de 6º ano, com média de 40 alunos por turma. No período vespertino, a escola atende a um total de 333 alunos, matriculados em 03 classes de 7º ano; 03 classes de 8º ano e 02 classes de 9º ano, formando turmas de, mais ou menos, 40 alunos por turma. No período noturno, a escola atende a um total de 200 alunos, matriculados em 2 classes de 1º ano; 2 classes de 2º ano; e 01 classe de 3º ano, formando turmas de, em média, 40 alunos. O corpo docente da escola é composto por 65 professores, e o corpo administrativo é formado por 20 funcionários, sendo: 1 Diretor; 1 Vice-diretor; 2 Professores Coordenadores; 1 Secretário de Escola; 8 Agentes de Organização Escolar; 5 Agentes de Serviços Escolares; e 02 Auxiliares de Serviços Gerais. Um PC atende apenas ao Ciclo I, tendo 12 professores. O outro PC atende ao Ciclo II e Ensino Médio, tendo quase 50 professores em seu grupo. A escola, conforme mostra figura, a seguir, apresenta um IDESP9 acima dos índices de toda a DE e de todo o município; o que mostra o atingimento de suas metas para o ano. Porém, só o Ensino Médio conseguiu superar os índices de toda a Coordenadoria10. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 9 Índice de Desenvolvimento da Educação do Estado de São Paulo é o indicador que avalia a qualidade das escolas estaduais paulistas em cada ciclo escolar e permite fixar metas anuais para o aprimoramento da qualidade da educação no Estado. Figura 2 – IDESP 2011 Escola I Fonte: http://www.educacao.sp.gov.br • Escola II Essa escola está localizada no bairro Parque das Bandeiras, em São Vicente, também num local de periferia (na área continental), com ruas ainda não pavimentadas e com poucos recursos de lazer, contando com algumas praças e campinhos de futebol improvisados pela própria população. A procura por vagas na escola é grande e, nem sempre, ela consegue atender à demanda. De acordo com informações obtidas na secretaria da escola, a mesma funciona das 7h às 12h15, com 14 classes; das 13h às 18h15, com 14 classes; das 19h às 22h, com 08 classes. Nos finais de semana, também, abriga o Projeto Escola da Família. Em 2012, a escola atende a 1360 alunos, divididos em: Ciclo I (320 alunos de 4º e 5º ano do Ensino Fundamental); Ciclo II (800 alunos de 6º a 9º anos do Ensino Fundamental); Ensino Médio (240 alunos de 1º a 3º ano); e EJA (100 alunos de 1ª a 4ª série do Ensino Fundamental I), nos períodos da manhã, tarde e noite. No período matutino, atende a um total de 560 alunos, matriculados em 04 classes de 4º e 04 classes de 5º ano, formando classes de 40 alunos, em média. Atende, ainda, a 04 classes de 6º ano e 02 classes de 7º ano, com média de 40 alunos por turma. No período vespertino, a escola atende a um total de 800 alunos, matriculados em 04 classes de 7º e 8º ano cada; 06 classes de 9º ano, formando turmas de, mais ou menos, 40 alunos por turma. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 10 Dados extraídos do site http://www.educacao.sp.gov.br. Acesso em 30/06/2012 (SÃO PAULO, 2012d). No período noturno, a escola atende a um total de 340 alunos, matriculados em 2 classes de 1º, 2º e 3º ano cada, formando turmas de, em média, 40 alunos. Há, também, 05 classes de EJA, com média de 20 alunos em cada. O corpo docente da escola é composto por 75 professores, e o corpo administrativo é formado por 22 funcionários, sendo: 1 Diretor, 1 Vice-diretor, 3 Professores Coordenadores; 1 Secretário de Escola; 8 Agentes de Organização Escolar; 5 Agentes de Serviços Escolares e 03 Auxiliares de Serviços Gerais. Um PC atende apenas ao Ciclo I e EJA, tendo 15 professores. O outro PC atende ao Ciclo II, com 30 professores, e o terceiro PC atende ao Ensino Médio, tendo, também, 30 professores em seu grupo. A escola, conforme mostra a figura abaixo, apresenta um IDESP, do 5º ano do EF, superior ao índice do Estado, porém inferior ao da Coordenadoria, DE e município. Já o do 9º ano do EF foi superior a todos os outros índices. O do 3º ano do EM foi superior aos índices de toda a DE, município e Estado, porém inferior ao índice da Coordenadoria. Figura 3 – IDESP 2011 Escola II Fonte: http://www.educacao.sp.gov.br • Escola III Essa escola está localizada no bairro Jardim Primavera, em Guarujá, num local de periferia (próximo à rodovia Cônego Domênico Rangoni/SP-055) e com uma população bastante desfavorecida, economicamente, segundo dados obtidos na escola. De acordo com as informações obtidas na secretaria da escola, a mesma funciona das 7h às 12h, com 12 classes; das 13h às 18h, com 12 classes também; todas de Ciclo I e com Ensino Fundamental de 8 anos e de 9 anos, concomitantemente. Em 2012, a escola atende a 360 alunos, divididos em dois períodos: matutino e vespertino. No período matutino, atende a 180 alunos, matriculados em 02 classes de 3ª e 4ª série cada, do Ensino Fundamental de 8 anos e 02 classes de 4º ano, do Ensino Fundamental de nove anos, formando classes de 30 alunos, em média. No período vespertino, a escola atende, também, a um total de 180 alunos, matriculados em 02 classes de 1º a 3º ano cada, do Ensino Fundamental de nove anos. Vale ressaltar que essa realidade ainda existe em muitas escolas estaduais paulistas: ter os dois modelos de Ensino Fundamental (8 e 9 anos), acontecendo concomitantemente nas escolas, pois, ainda, encontram-se no período de transição da implantação do Ensino Fundamental de nove anos para todos. O corpo docente da escola é composto por 15 professores (12 PEB I e 03 especialistas – PEB II), e o corpo administrativo é formado por 13 funcionários, sendo: 1 Diretor; 1 Vice-diretor; 1 Professor Coordenador; 1 Secretário de Escola; 4 Agentes de Organização Escolar; 4 Agentes de Serviços Escolares; e 01 Auxiliar de Serviços Gerais. A escola, conforme mostra a figura abaixo, apresenta um IDESP superior ao índice da DE e do município, porém inferior ao da Coordenadoria e ao do Estado. Considerando que sua meta para 2011 era de 3,45, a escola atingiu 120% dela. Sua meta para 2012 é de 4,01. Figura 4 – IDESP 2011 Escola III Fonte: http://www.educacao.sp.gov.br Adiante, descreveremos a análise documental que realizamos para que tivéssemos condições de começar a responder à questão-problema dessa pesquisa. 3.3 Da análise documental Pelo fato dessa pesquisa circunscrever-se no contexto de um programa institucional, que se configura como uma plataforma política do governo do Estado de São Paulo, não tivemos como não tomar a decisão pelo uso dos documentos legais que regem tal Programa. Assim, buscamos todas as resoluções, comunicados, portarias, determinações legais, publicações orientadoras e diretrizes publicadas pela Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, no período de 2008 a 2011, no caso específico do Programa e, também, a partir dos anos 90, para que pudéssemos analisar a figura do PC, nessa rede de ensino. Como nos lembram Lüdke e André (1986, p. 39), os documentos “(...) surgem num determinado contexto e fornecem informações sobre esse mesmo contexto”; o que, em nosso caso, é de extrema importância, já que estamos tratando de um programa institucional específico. Mas, o que podemos considerar como documento? Segundo Lüdke e André (1986), documentos são todos os materiais que permitem seu uso como fonte de informação do comportamento humano. Assim, incluímos, dentre outros, “(...) leis, regulamentos, normas, pareceres, cartas, memorandos (...) e arquivos escolares” (LÜDKE e ANDRÉ 1986, p. 38). Nosso intuito foi o de buscar informações factuais que nos ajudassem a compreender a lógica do Programa, bem como vislumbrar como tais dispositivos determinam, circunscrevem, ou ainda, possibilitam a atuação dos sujeitos, tal como se expressam nos documentos. Segundo Holsti (1969, apud LÜDKE e ANDRÉ, 1986, p. 39), há, pelo menos, três situações, nas quais a análise documental é apropriada. Citaremos, de acordo com o nosso interesse aqui, apenas duas delas, a saber11: !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! ressaltar que a terceira situação descrita pelas autoras diz respeito ao fato de quando o acesso aos dados é problemático, seja pelas limitações de tempo ou deslocamento do pesquisador, seja porque o sujeito da investigação não está mais vivo, ou seja porque é conveniente utilizar uma técnica não-obstrusiva.! &&!Vale 2. Quando se pretende ratificar e validar informações obtidas por outras técnicas de coleta, como, por exemplo, a entrevista, o questionário ou a observação. (...) 3. Quando o interesse do pesquisador é estudar o problema a partir da própria expressão dos indivíduos, ou seja, quando a linguagem dos sujeitos é crucial para a investigação. Considerando, então, estas duas situações, optamos por trabalhar com documentos do tipo oficial ─ portarias, resoluções, comunicados ─ e com documentos do tipo técnico: as pautas formativas dos PCs. Isso porque os documentos do tipo oficial atendem, em especial, à situação 2, citada anteriormente. Enquanto que os documentos técnicos permitem que exploremos o exposto na situação 3. Trazemos, então, com uma finalidade organizacional, uma listagem dos documentos utilizados, conforme Quadro12 a seguir. Quadro 15 – Documentos oficiais pesquisados DOCUMENTO TEMA ANO Lei Complementar Plano de Carreira Decreto Programa Permanente de Avaliação de Desempenho do 1996 Servidor Público Decreto Bolsa Mestrado e Doutorado 2003 Decreto Programa Escola da Família 2004 Decreto Ampliação do P.L.E. para regiões metropolitanas de SP 2009 Decreto Criação da REDEFOR 2010 Decreto Programa Educação: compromisso de SP 2011 Decreto Reestruturação da SEE/SP 2011 Resolução Implantação do SARESP 1996 Resolução Implantação da função de PC 1996 Resolução Alteração da nomenclatura do PCP 2000 Resolução Projeto Escola de Tempo Integral 2005 Resolução Progressão Continuada 2006 Resolução Processo de seleção do PC 2006 !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 12 Os documentos foram organizados no quadro por ordem de importância jurídica. 1997 Resolução Programa Ler e Escrever nas escolas estaduais de SP 2007 Resolução Regulamentação da Função de PC 2007 Resolução Convênio FDE/Municípios para implementação do P.L.E. 2009 Resolução Criação de Classes de Recuperação Intensiva 2012 Portaria Programa Ler e Escrever no Município de SP 2007 Deliberação Regime de Progressão Continuada 1997 Parecer Normas Regimentais para as escolas públicas 1998 Diretriz Apresentação do Programa Ler e Escrever 2008 Diretriz Caderno do Gestor, volumes I, II e III 2008 Comunicado Orientações para implantação do P.L.E. 2007 Comunicado Orientações para a HTPC 2008 Fonte: Organização realizada pela presente pesquisa. Tal escolha, como defendido na literatura, não foi aleatória, mas fruto de uma decisão que tomou por base a questão-problema dessa investigação e seu objetivo geral: conhecer a prática do professor coordenador como formador de professores alfabetizadores, no contexto do Programa Ler e Escrever. O tratamento que demos aos documentos do tipo oficial foi, na verdade, o de usálo, muito mais, como uma fonte de pesquisa segura sobre o Programa e sobre a figura do PC, conforme já exposto no Capítulo I. Aos documentos técnicos, daremos um outro tratamento, pois tentaremos, mais adiante, analisar seu conteúdo para confirmar ou refutar nossas hipóteses iniciais de que, da maneira como o Programa se configura e considerando as demandas depositadas no profissional sujeito de nossa investigação, o PC, o que lhe resta é uma autoria muito limitada, muito cerceada ou, talvez, até, sua inexistência. Para aproximarmo-nos um pouco mais de nossas hipóteses, decidimos trabalhar com um documento, do tipo técnico, muito usado pelos PCs no planejamento das HTPCs: as pautas formativas. Delas, trataremos a seguir. 3.3.1 Dos sujeitos eleitos e suas pautas formativas Para que pudéssemos analisar as pautas formativas dos sujeitos eleitos, precisávamos ter, em mãos, as pautas da formadora desse grupo de PCs. Isso porque nossa principal intenção era saber, conforme já salientado anteriormente, de que maneira ele atua na preparação desse instrumento, que conduzirá a ação formativa mais visada pelo “Programa Ler e Escrever”, que é a HTPC. Interessa-nos investigar se há autoria ou reprodução de modelos, se há escolhas conscientes de conteúdos e estratégias, planejamento, levantamento de necessidades formativas do grupo e mapeamento dos saberes dos professores. Enfim, o quê, como e por quê o PC escolhe o que escolhe. Assim, recolhemos as cinco pautas (ANEXO 2, p. 189-198) usadas no 1º semestre de 2012, pela formadora do grupo de PCs das DEs de Santos e São Vicente, para partir delas como referência na análise das pautas dos PCs. Em seguida, solicitamos à formadora que recolhesse as pautas formativas dos 3 PCs eleitos para a pesquisa, que foram realizadas no mesmo período citado. Vale salientar que, do sujeito 1 (ANEXO 3, p. 199-212), obtivemos um total de 15 pautas; sendo 04 relativas ao mês de março/12; 04 do me de abril; 05 do mês de maio; 02 do mês de junho. Do sujeito 2 (ANEXO 4, p. 213-214) e do sujeito 3 (ANEXO 5, p. 215216), recebemos 04 pautas de cada (uma de cada mês; de março a junho), com a justificativa de que, apenas estas, tratavam dos conteúdos de Língua, voltados ao Programa. Comecemos, então, a olhar com mais cuidado para tais instrumentos, partindo das pautas da formadora do grupo. Como objetivos de formação, encontramos os seguintes: Quadro 16 – Objetivos da Formadora do Grupo de PCs MÊS OBJETIVOS FEVEREIRO • Refletir sobre a importância da avaliação formativa como uma das etapas do processo de formação; • Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentidos a um texto; • Auxiliar o PC a identificar os saberes do professor e suas necessidades de aprendizagem sobre o trabalho com textos MARÇO • • ABRIL • • MAIO • • • • JUNHO • • • jornalísticos. Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentido a um texto; Refletir sobre os comportamentos leitores envolvidos nas práticas de leitura compartilhada. Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentido a um texto; Refletir sobre os comportamentos leitores envolvidos nas práticas de leitura compartilhada. Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentidos a um texto; Analisar uma atividade de leitura compartilhada, refletindo sobre os saberes que o professor precisa acionar para realizar uma boa atividade de leitura compartilhada; Identificar, no material do Ler e Escrever, atividades que favoreçam o desenvolvimento da fluência leitora; Refletir sobre o que os professores costumam fazer / e o que o professor pode e precisa fazer para desenvolver nos alunos a fluência leitora. Analisar situações de leitura compartilhada, refletindo sobre os saberes que o professor precisa acionar para realizar uma boa situação de leitura compartilhada; Analisar textos que favoreçam o trabalho com fluência leitora; Planejar atividades que favoreçam o desenvolvimento da fluência leitora. Fonte: Quadro organizado por nós, a partir de recortes do Anexo 2 (p. 189-198). Com a sistematização desse Quadro, podemos perceber alguns aspectos que nos chamam a atenção. O primeiro deles diz respeito ao conteúdo enfocado no semestre, sendo: Leitura compartilhada; Comportamentos leitores; Fluência leitora. Podemos verificar o quanto tais conteúdos são recorrentes em todas as pautas e como as atividades, descritas nas mesmas, buscam o desenvolvimento de reflexões, por parte dos PCs, não só do ponto de vista do conhecimento conceitual sobre estes conteúdos, bem como reflexões acerca de como levar tais conteúdos para a discussão com os professores, de modo a fazêlos desenvolver estes em sala de aula, com seus alunos. Em fevereiro, encontramos uma discussão sobre a avaliação realizada, com os PCs, ao final do ano anterior, e uma retomada do trabalho com textos jornalísticos. Aqui, vale salientar que, em 2011, o SARESP trocou o gênero textual usado, há algum tempo, na avaliação do 5º ano: antes era relato de experiência vivida e passou a ser carta de leitor. Em março e abril, percebemos um investimento no tema leitura compartilhada e desenvolvimento de comportamentos leitores, o que nos faz inferir a intenção de discussão sobre a competência leitora dos alunos. Novamente, devemos destacar que a análise dos resultados do SARESP13, de 2011 e 2010, tem demonstrado que os alunos apresentam uma capacidade leitora inferior à esperada para os alunos de 5º ano do Ensino Fundamental. Nossa reflexão é confirmada, quando checamos os objetivos de formação dos meses de maio e junho, quando, então, aparece, como conteúdo, a questão da fluência leitora. Além disso, percebemos que há a repetição de alguns objetivos em meses diferentes, o que nos faz pensar na intencionalidade de tal repetição: seria por conta da continuação do mesmo trabalho ou do não-alcance de tais objetivos na pauta do mês? Vale salientar, ainda, que em todos os meses, há um movimento da pauta, de colocar o PC em dois lugares distintos: o primeiro é pensar/construir conhecimento sobre os conteúdos em discussão; o segundo é fazer com que o PC reflita sobre como levar a discussão sobre tal conteúdo para a sua escola, de forma a conseguir que ele seja trabalhado pelo professor, em sala de aula. Passemos, agora, para a observação das pautas dos PCs. Nossa intenção, nesse capítulo, não é analisar, ainda, as escolhas formativas dos sujeitos ─ já que isso será material para o próximo capítulo ─, mas, apenas, descrevê-las. Quanto ao Sujeito 1 (S1), podemos organizar seus encontros de formação, tendo como objetivos: Quadro 17 – Objetivos da formação – PC 1 MÊS MARÇO OBJETIVO • Refletir sobre o uso de diferentes materiais que auxiliem no desenvolvimento das habilidades e competências do aluno; • Discutir a importância do trabalho com projetos para o desenvolvimento do educando, assim como a relevância das datas comemorativas da escola; • Analisar o material da Jornada da Matemática; !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 13 Dados extraídos do site http://www.educacao.sp.gov.br. Acesso em 30/06/2012. ABRIL • Refletir sobre a importância do trabalho com projetos. • Refletir sobre a prática da leitura compartilhada e o quanto essa prática contribui para a mobilização dos procedimentos de leitura; Refletir sobre os comportamentos leitores envolvidos nas práticas de leitura compartilhada; Analisar as expectativas de aprendizagem de Matemática observando o que cada ano contempla; Estudar a trajetória hipotética de aprendizagem com o intuito de pautar o trabalho que será desenvolvido do Projeto EMAI. Conhecer as características principais do Projeto EMAI, analisando as expectativas de aprendizagem de Matemática proposta par os anos iniciais; Analisar as THA 1, observando as atividades apresentadas e as expectativas de aprendizagem; Analisar o mapa de sondagem numérica e como encaminhar a atividade; Analisar os livros didáticos, verificando qual é o mais adequado para auxiliar no desenvolvimento do processo de ensinoaprendizagem dos educandos. Analisar os livros didáticos de LP, selecionados anteriormente, verificando qual é o mais adequado para auxiliar no desenvolvimento do processo de ensino-aprendizagem dos educandos; Analisar as atividades da THA 1 observando a importância de cada uma delas. • • • MAIO • • • • JUNHO • • Fonte: Quadro organizado por nós, a partir de recortes do Anexo 3 (p. 199-212). Observando o Quadro, podemos verificar que, em apenas dois encontros, dos quinze realizados, a PC discutiu os conteúdos trabalhados pela formadora durante o semestre. No restante dos encontros, foram discutidos: o Projeto EMAI14, escolha de livros para o PNLD15 e aspectos voltados à organização escolar (projetos a serem desenvolvidos, datas comemorativas etc). Quanto ao Sujeito 2 (S2), encontramos os seguintes objetivos para os encontros de formação. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 14 Ensino da Matemática nos Anos Iniciais: projeto iniciado em 2012, pela SEE/SP, de caráter obrigatório para as escolas. 15 Programa Nacional do Livro Didático. Quadro 18 – Objetivos da formação – PC 2 MÊS OBJETIVOS MARÇO ABRIL • • MAIO • JUNHO • Refletir sobre as funções da leitura compartilhada. Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a compreensão do texto. Reflexão sobre a prática, em uma situação de leitura compartilhada. Tematizar práticas de atividades para a resignificação do sistema de escrita. Fonte: Quadro organizado por nós, a partir de recortes do Anexo 4 (p. 213-214). Considerando que só recebemos as pautas, nas quais, segundo o próprio PC, foram trabalhados os conteúdos de Língua, do Programa Ler e Escrever, observamos que, nos meses de março a maio, o conteúdo eleito é condizente com aquele discutido pela formadora do grupo de PCs. Já, no mês de junho, o conteúdo era também pertinente ao Programa, porém não enfatizado, nesse semestre, pela formadora. Finalmente, trazemos os objetivos da formação realizada pelo Sujeito 3 (S3), a saber: Quadro 19 - Objetivos da formação – PC 3 MÊS MARÇO ABRIL MAIO JUNHO OBJETIVOS Refletir sobre as avaliações realizadas e sondagens; Fazer levantamento dos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem para montar grupo de estudos. • Sanar dúvidas dos professores sobre o material do Ler Escrever; • Estudos das Expectativas de aprendizagem para cada ano. • Resgatando as brincadeiras infantis, utilizando das brincadeiras para socializar, aprender de forma diferenciada; • Projeto resgatando memória do Guarujá. • Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informação. • • Fonte: Quadro organizado por nós, a partir de recortes do Anexo 5 (p. 215-216). Observamos que, nos meses de março, abril e junho, os conteúdos selecionados para o trabalho com os professores são pertinentes ao Programa Ler e Escrever. Entretanto, apenas, no mês de junho, o PC deu ênfase ao conteúdo trabalhado pela formadora, durante o semestre. Já, no mês de maio, o conteúdo dizia respeito a outro projeto desenvolvido na escola. Considerando que, nos meses de março a junho, estavam previstas, minimamente, dezesseis encontros de formação (HTPCs), podemos concluir que, em relação aos conteúdos de Língua Portuguesa, defendidos pelo Programa Ler e Escrever, obtivemos, como presença destes, nas reuniões: 12,5% nas pautas do S1; 25% nas pautas do S2; e 18,7% nas pautas do S3. Se fizermos a mesma organização dos dados para verificarmos a presença dos conteúdos, discutidos pela formadora, durante o semestre, nas pautas de formação dos PCs, encontramos a seguinte porcentagem (considerando o número total de pautas que apresentavam conteúdo de Língua Portuguesa): 100% nas pautas do S1; 75% nas pautas do S2; e 33,3% nas pautas do S3. Se atrelarmos esse dado à caracterização das escolas de cada sujeito, salientamos que, na menor escola (S3); a única que atende apenas ao Ciclo I, é que encontramos o menor índice de trabalho com os conteúdos relativos àqueles que a formadora definiu para o semestre. Entretanto, vale ressaltar que as escolas do S2 e do S3 foram as que mais dedicaram seus encontros de formação aos conteúdos do Programa. Tudo isso pode ser melhor visualizado no quadro abaixo: Quadro 20 – Análise das pautas dos PCs S1 S2 S3 Total S1 S2 S3 S1 S2 S3 Pautas analisadas (16 pautas previstas no semestre) 15 04 04 23 Conteúdos de LP priorizados pelo “Programa Ler e Escrever” 02 pautas = 12,5% (do total previsto) 04 pautas = 25% (do total previsto) 03 pautas = 18,7% (do total previsto) Conteúdos defendidos pela formadora dos PCs 02 pautas = 100% (em relação às pautas com conteúdo de LP) 03 pautas = 75% (em relação às pautas com conteúdo de LP) 01 pauta = 33,3% (em relação às pautas com conteúdo de LP) Fonte: Organização feita a partir da tabulação dos dados realizados com a análise das pautas. Tais dados abrem-nos a possibilidade de inúmeros questionamentos aos sujeitos dessa pesquisa, como, por exemplo: saber se há critério na hora de dividir os conteúdos a serem trabalhados nos encontros de formação; como eles são priorizados; quais as maiores dificuldades do PC, quando realiza tal planejamento; como veem a formação recebida da SEE/SP, na figura da formadora do grupo; em que medida tal formação o auxilia no planejamento dos seus encontros; entre outras possibilidades que deixaremos para explorar com as entrevistas. 3.3.2 Das entrevistas A análise das pautas dos sujeitos que participaram desta pesquisa, além das reflexões que nos foram possibilitadas a partir do estudo do referencial teórico aqui selecionado, permitiram-nos a elaboração de um roteiro de questões a ser usado nas entrevistas semiestruturadas (APÊNDICE 4, p. 228). O objeto desse roteiro foi a prática do PC como formador de professores, no contexto do “Programa Ler e Escrever”. Assim, as questões elaboradas versavam, principalmente, sobre suas escolhas, contribuições, dificuldades, limites e possibilidades dessa atuação, considerando os pressupostos pedagógicos – teórico e práticos – e também políticos desse Programa institucional, de cunho obrigatório, que se configura como a Proposta Curricular do Estado de São Paulo para o Ciclo I (1º a 5º na do Ensino Fundamental). Nossas intenções, com as entrevistas, eram investigar uma possível ausência/presença de autoria desse profissional, na atuação do seu ofício de formador de professores, uma vez que toda nossa construção argumentativa, a partir do referencial teórico utilizado, pareceu-nos conduzir a esse caminho. Buscávamos, ainda, levantar o grau de consciência dos PCs sobre a responsabilização (ou irresponsabilização) que lhe é conferida pelo sistema educacional, quando colocado na “armadilha” de responder pelo sucesso da aprendizagem dos alunos e por boas práticas realizadas pelos professores. Com a análise das pautas dos PCs, perguntávamos, em especial, de que autonomia estávamos falando e, principalmente, se uma autonomia “plena” seria possível em qualquer contexto pedagógico, independente do Programa institucional sobre o qual investigamos. Seria, a escola, um espaço aberto a essa autonomia do PC, independentemente das barreiras impostas pela política educacional vigente? Ou seja, seria possível pensar em uma autonomia a partir do que a escola é como instituição, sem que levemos tão em conta os limites impostos pelo sistema educacional? Partindo de tais questionamentos, buscamos organizar nossas questões em um quadro de categorias que explicitasse as dimensões que atribuímos ao material que será, posteriormente, analisado. Assim, nossas categorias foram definidas a priori, como nos ensina Franco (2008, p. 60), “(...) em função da busca a uma resposta específica do investigador”. Com isso, ficamos com o seguinte quadro de categorias: Quadro 21 – Categorias de Análise DIMENSÃO CATEGORIA Contextual: Das Programa Ler e Escrever políticas tecnologias UNIDADES DE SENTIDO 1. Forma de mercado 2. Gerencialismo 3. Performatividade Profissional: Professor Coordenador Do ofício de formador 1. Percursos formativos 2. Relações de poder disciplinar 3. Autonomia no profissionalismo Fonte: Roteiro de entrevistas semiestruturadas (APÊNDICE 4, p. 228). Para esse quadro de categorias, pensamos em duas principais dimensões: a contextual, que traz o Programa como pano de fundo para entendermos o engendramento das condições oferecidas aos sujeitos; e o profissional, que considera as questões dos sujeitos pesquisados na assunção dos desafios de atuar como professor coordenador, formador de professores. Na primeira dimensão, a contextual, utilizamos como categoria, as tecnologias políticas de Ball (2005), na medida em que esse referencial foi o nosso principal elemento argumentativo para pensarmos no sistema educacional que serviu de cenário à implantação do “Programa Ler e Escrever”. Com isso, usaremos a forma de mercado, o gerencialismo e a performatividade como unidades de sentido para analisarmos o conteúdo das entrevistas (BARDIN, 2011). Para essa dimensão, esperamos que as questões de número 03, 05, 09 e 10 (APÊNDICE 4, p. 228) possam nos fornecer os subsídios necessários para articularmos tal categoria com as unidades de sentido estabelecidas. Na segunda dimensão, a profissional, utilizamos como categoria o Professor Coordenador, já que seu ofício de formador de professores foi o objeto de nossa pesquisa. Como unidades de sentido, buscamos articular outros três referenciais teóricos, que nos ajudaram a construir nossa argumentação: percursos formativos, de Nóvoa (1995); relações de poder disciplinar, de Foucault (2006); e autonomia no profissionalismo, de Contreras (2002). Para a segunda dimensão, as questões de número 02, 04, 06, 07 e 08 (APÊNDICE 4, p. 228) poderão trazer-nos os elementos que buscamos com as unidades de sentido elencadas. Não esperamos encontrar respostas para nossos pressupostos ou categorias a priori, mas boas possibilidades de reflexão a esses questionamentos, a partir da análise de conteúdo que faremos, a seguir, das entrevistas realizadas com os PCs. Como nos ensina Guimarães Rosa, “o real” não está nos dados colhidos, nem tampouco nas observações que fizemos após sua organização, mas estará “no meio da travessia”, quando consideramos o encontro com os sujeitos de nossa pesquisa e lhes damos a voz necessária que trará sentido ao que temos elaborado até aqui. 3.4 Da análise de conteúdo Eis um grande desafio a todo pesquisador: partir do discurso de sujeitos envolvidos em suas práticas profissionais e conferir, a essas vozes, uma análise daquilo que está envolvido na constituição de sua subjetividade. Como fazer isso de forma científica, garantindo objetividade à subjetividade posta? Como partir de vestígios de discursos colhidos em situações criadas para tal, de forma a compreender, por meio da palavra, “(...) as opiniões, estereótipos, representações, mecanismos de influência, evoluções individuais e sociais?” (BARDIN, 2011, p. 11). Optamos, então, pela análise de conteúdo, como uma forma de estar à escuta, “(...) com rigor e cientificidade...” (BARDIN, 2001, p. 11), dessas palavras, desses textos proferidos, desses discursos pronunciados: pronúncias de denúncias, de anúncios, de consciências veladas, de inconsciências explícitas. Tendo em mãos um material abundante, constituído de muitos significados e sentidos16, obtido num total de mais de quatro horas de entrevistas com os três sujeitos pesquisados e que resultou em mais de cinquenta páginas de transcrições, optamos por usar a análise de conteúdo como a ferramenta que nos ofereceria uma opção para lidar com todo esse escopo de discursos construídos. Conforme aponta Bardin (2001, p. 15): Enquanto esforço de interpretação, a análise de conteúdo oscila entre os dois polos do rigor da objetividade e da fecundidade da subjetividade. Absolve e cauciona o investigador por esta atração pelo escondido, o latente, o não aparente, o potencial de inédito (do não dito), retido por qualquer mensagem. Tarefa paciente de “desocultação”, responde a esta atitude de voyeur de que o analista não ousa confessar-se e justifica a sua preocupação, honesta, de rigor científico. Analisar mensagens por esta dupla leitura onde uma segunda leitura se substitui à leitura “normal” do leigo, é ser agente duplo, detetive, espião... Para que possamos compreender as vozes dos sujeitos entrevistados e fazer aparecer os sentidos nos discursos colhidos, optamos pelas entrevistas semiestruturadas, conforme já exposto, partindo de um roteiro de questões que nos serviu de “bússola”. Para registrar as falas, usamos a gravação do áudio, consentida pelos sujeitos entrevistados (APÊNDICE 5, p. 229), e posterior transcrição integral das mesmas (APÊNDICE 6, em CD-Rom), incluindo não só a fala dos sujeitos, bem como as hesitações, risos, silêncios e estímulos do entrevistador, como defende Bardin (2011). !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa (2008), o termo significado, como aqui pretendemos, é noção semântica que está contida nos morfemas gramaticais de uma língua e que é estabelecida dentro de um determinado sistema linguístico e dele dependente. Já o termo sentido,!refere-se, como aqui!pretendemos, ao limitado, reduzido, particular (em relação a outro, mais geral, mais amplo), que se cinge tão somente ao caso de que se fala.! &'!Segundo As entrevistas são um material rico de possibilidades de leitura e, por isso mesmo, tornam-se bastante paradoxais. Como bem nos lembra Bardin (2011, p. 93), “(...) lidamos com uma fala relativamente espontânea, com um discurso falado, que uma pessoa – o entrevistado – orquestra mais ou menos à sua vontade. Encenação livre daquilo que esta pessoa viveu, sentiu e pensou...”. E nisso está a riqueza das entrevistas, pois, por meio da sua própria linguagem, a pessoa expressa, de um jeito muito particular, o que pensa sobre fatos, lugares, processos, pessoas, relações. Porém, sabemos o quanto a linguagem oral apoia-se na presença do outro e em um conjunto de expressões faciais, corporais, modalizações da voz, interrupções ou sobreposições do pensamento, gestuais e outros elementos naturalmente aceitos e compreendidos pelo interlocutor que, na análise desse texto transformado em linguagem escrita, ganha uma “(...) aparência por vezes tortuosa, contraditória, ‘com buracos’, com digressões incompreensíveis, negações incômodas, recuos, atalhos, saídas fugazes ou clarezas enganadoras”, conforme destaca Bardin (2011, p. 94). Considerando o exposto, não optamos por uma análise de conteúdo clássica, privilegiando a repetição de frequência dos temas, com todas as entrevistas juntas. Faremos, por outro lado, uma análise centrada em cada entrevista, nas suas unidades de contexto, agrupando trechos de cada uma delas, em torno das unidades de sentido que estabelecemos. Acreditamos, assim, alcançar a tessitura entre os discursos proferidos e o aporte teórico usado como base, dando maior sentido à análise realizada. A seguir, começaremos nosso primeiro processo de escovação das palavras, como nos inspira Manoel de Barros, no início do próximo capítulo, apresentando a análise feita a partir das dimensões propostas no quadro de categorias. CAPÍTULO IV AS RELAÇÕES TECIDAS A PARTIR DAS VOZES ACOLHIDAS: O PROFISSIONAL NO CENTRO DE SUA AÇÃO Eu tinha vontade de fazer como os dois homens que vi sentados na terra escovando osso. No começo achei que aqueles homens não batiam bem, porque ficavam sentados na terra o dia inteiro escovando osso. Depois aprendi que aqueles homens eram arqueólogos e que eles faziam o serviço de escovar osso por amor, e que eles queriam encontrar nos ossos vestígios de antigas civilizações que estariam enterrados por séculos naquele chão. Logo pensei de escovar palavras, porque eu havia lido em algum lugar que as palavras eram conchas de clamores antigos. Eu queria ir atrás dos clamores antigos que estariam guardados dentro das palavras. Eu já sabia também que as palavras possuem no corpo muitas oralidades remontadas e muitas significâncias remontadas. Eu queria então escovar as palavras para escutar o primeiro esgar de cada uma, para escutar os primeiros sons, mesmo que ainda bígrafos. Comecei a fazer isso sentado em minha escrivaninha. Passava horas inteiras, dias inteiros fechado no quarto, trancado a escovar palavras. Logo a turma perguntou: o que eu fazia o dia inteiro trancado naquele quarto? Eu respondi a eles, meio entresonhado, que eu estava escovando palavras. Eles acharam que eu não batia bem, então eu joguei a escova fora. Manoel de Barros (2003) Neste capítulo, temos como objetivo analisar as vozes dos sujeitos pesquisados, a partir das entrevistas realizadas, relacionando-as com as dimensões, categorias e unidades de sentido estabelecidas como orientadoras a essa análise, bem como relacioná-las ao referencial teórico que usamos como norte na construção de nossa argumentação. Para tanto, usaremos a técnica da análise de conteúdo, de Laurence Bardin (2011), de maneira que possamos tornar observável ao leitor, os trechos mais significativos das falas desses sujeitos e sua relação com nosso foco principal: investigar a presença de autoria na atuação de professores coordenadores que atuam em um programa institucional obrigatório e, mais do que isso, compreendermos a que autoria estamos nos referindo. Assim, o presente capítulo está organizado em três partes, de forma a conferir-lhe uma triangulação que dê sustentação ao discurso aqui analisado, bem como garanta que possamos percorrer os caminhos inerentes a tal análise. Na parte 1, então, focaremos nossa atenção na primeira dimensão do quadro de análise: a dimensão contextual. Aqui, abordaremos trechos das falas dos sujeitos em relação ao Programa Ler e Escrever e estabeleceremos as relações com as tecnologias políticas de Ball (2005): a forma de mercado, o gerencialismo e a performatividade. Na segunda parte, analisaremos a outra dimensão proposta: a profissional. Nossa intenção será trazer a visão do próprio PC, como profissional responsável pela formação de seus professores e relacionarmos sua fala com o que nos postulam Nóvoa (1995), em relação à constituição de seu percurso como formador de professores; Foucault (2006), quanto às formas de poder disciplinar envolvidas em suas ações; e, principalmente, Contreras (2002), no desenredar da ideia de autonomia que possa estar presente como escolha (ou não) profissional desses sujeitos. Finalmente, na terceira parte, estabeleceremos uma relação entre as duas dimensões analisadas (a contextual e a profissional), bem como com os pressupostos teóricos dessa pesquisa, já desenvolvidos no Cap. II. 4.1 A dimensão contextual: o “Programa Ler e Escrever” Para essa primeira dimensão, parece-nos mais do que necessário retomarmos a discussão proposta por Ball (2005), em relação às políticas educacionais, na qual o autor defende a ideia de que as mudanças que vêm sendo implantadas pelo Estado a esse respeito envolvem desde as formas de emprego, sistemas de financiamentos, administração, até as relações sociais dos sujeitos envolvidos em tais processos. Ball (2005, 2011) nos fala de mudanças que passam a incorporar, gradativamente, a lógica e a cultura do gerencialismo, identificadas nos princípios mercadológicos de excelência, efetividade, qualidade, produtividade, competitividade, entre outros. Para Ball e Mainardes (2011, p. 31): O gerencialismo se caracteriza ainda pela busca de um modelo de gestão e organização centrado nas pessoas, pois acredita que o sistema de controle burocrático possui uma morosidade inerente aos seus processos, o que os tornam demasiadamente onerosos e pouco eficientes. Para superar tais dilemas o novo gerencialismo aposta na diminuição dos sistemas de controle e num processo de motivação das pessoas para que elas sejam cada vez mais capazes de produzir com qualidade e excelência por si próprias, autonomamente. Ou seja, nessa abordagem as pessoas são conduzidas de forma a incorporar os princípios mercadológicos e gerenciais tornando-as lideranças nos processos, gerando um compromisso coletivo para o sucesso da corporação. Nesse contexto, privilegiamos, como unidades de sentido, as tecnologias políticas propostas por Ball, uma vez que elas foram nosso norte, no Capítulo II, ao analisarmos a política educacional do Estado de São Paulo, na qual o “Programa Ler e Escrever” está inserido como currículo obrigatório para todo o ciclo I (1º a 5º ano) do sistema de Ensino Fundamental paulista. A seguir, então, abordaremos cada uma dessas tecnologias, mas, agora, como unidades de sentido para a análise de trechos das falas dos sujeitos entrevistados. 4.1.1 Forma de mercado Elegendo a forma de mercado como uma unidade de sentido para a análise das falas dos entrevistados, buscamos investigar o quanto os sujeitos têm a dimensão da redução do ensino e da aprendizagem à formas de exteriorização de conhecimentos e sua transformação em mercadoria, numa produção padronizada, calculada, quantificada e comparada. Pretendíamos, ainda, verificar o grau de consciência desses sujeitos sobre a responsabilização (accountability) que lhes é depositada pela qualidade do ensino. Assim, quando buscamos a visão dos sujeitos sobre o “Programa Ler e Escrever” e o que entendem como pontos positivos e negativos, encontramos os seguintes trechos: (...) Acho o material excelente (...). (...) é um material muito direcionado e muito claro para o professor, tem tudo lá o que se quer que o professor atinja em termos de objetivos (...). (...) os cursos que nós temos (oferecidos pelo Programa), os PCs e os PCNPs, são muito importantes para a gente conseguir trabalhar essa concepção com as professoras e isso vai trazer uma transformação na prática delas. [Como ponto negativo] Tinha que ter meninas do “Bolsa” no terceiro ano também, porque se a criança tem, segundo a legislação do estado, até o terceiro ano para se alfabetizar, as meninas do ‘Bolsa’ também tinham que estar presentes no segundo e terceiro ano que é a fase que encerra esse ciclo, digamos assim, da aquisição do sistema de escrita. (Trechos da entrevista feita com S1) Eu acho que realmente, se todos trabalhassem o material e conseguissem desenvolver todas aquelas sequências, seria muito bom!. (...) eu também continuo em sala de aula no outro período, e acho que muito do que eu vivo nas formações, do que eu vejo nos materiais [do Programa], eu acabo utilizando sim, por mais que seja Ensino Médio, eu utilizo com eles sim. Acho que é mais a concepção como ponto positivo. É muito bacana essa parte de levar a criança ao conhecimento, fazer com que ela trace o caminho dela para a aprendizagem. O professor ali está mediando o conhecimento para criança, desenvolvendo aquelas habilidades da criança até ela chegar à aprendizagem ou ao objetivo de uma determinada expectativa. Acho que isso é muito interessante. [Para o Programa] (...) não é uma aula que o professor vai ficar sentado e os alunos também vão ficar sentados e cada um faz a sua parte. Não! O professor tem que se movimentar, fazer interações o tempo todo, tem as produções coletivas, então é uma aula trabalhosa, tem trabalho para o professor, só que tem resultados bem significativos. [Como ponto negativo] (...) se nós tivéssemos o mesmo grupo de professores, o trabalho seria muito mais efetivo na sala de aula, porque você daria uma sequência de formação, uma sequência no estudo do material, você conseguiria acompanhar melhor o grupo de professores. Com essa mudança toda, fica muito mais difícil (...). (Trechos da entrevista feita com S2) Eu vejo que, tanto do Programa como do material, não só o que vem do Ensino Fundamental, mas do Ensino Médio também, já tem tudo ali. Para que eu vou pegar outros livros e tirar xerox? Eu acho um material completo (...). O material tem todo um segmento do que a criança precisa aprender e o que ela precisa saber para resolver as atividades que estão ali (...). [Em relação aos pontos negativos do Programa] (...) sabe aquele ditado de que santo de casa não faz milagre? (risos) Às vezes seria bom uma outra pessoa fazer essa ponte, essa formação na escola além de mim (...). (Trechos da entrevista feita com S3) Com essas falas, podemos perceber que a aceitação e legitimação das ações do Programa são unânimes em todos os sujeitos. Para eles, a eficiência do Programa é indiscutível, pois direciona e facilita o trabalho do professor (S1 e S3), transformando sua prática (S1) e colocando o aluno no centro do processo educativo (S2). Os pontos negativos que elegeram dizem respeito àquilo que consideram como uma ausência de uma boa estrutura oferecida pelo Estado, como a presença das alunas pesquisadoras participantes do projeto “Bolsa Alfabetização” (S1), já citado anteriormente nesse trabalho, a diminuição da rotatividade do grupo de professores (S2) e uma ajuda, para além da figura do PC, na formação que acontece na escola (S3). O que nos chama muito a atenção, nessa questão, é o fato dos sujeitos entrevistados, quando questionados sobre o Programa, referirem-se, de imediato e, quase que exclusivamente, ao material usado por alunos e professores, deixando de lado todo um conjunto de ações que compõem o mesmo, já que ele configura-se como o currículo oficial do Estado, não se restringindo apenas à distribuição de livros didáticos. Por mais que, durante as entrevistas, tentássemos insistir nessa questão de olhar para o Programa como um mecanismo que ultrapassa o material usado em sala de aula, observamos que os sujeitos não o percebem como uma prescrição advinda de uma política curricular que, como nos lembra Gimeno Sacristán (2000, p. 108), “(...) cria uma dinâmica de consequências diversas”. Dentre elas, a definição de grandes opções pedagógicas, a regulamentação do campo de ação dos profissionais, bem como a criação de mecanismos de controle que pouco orientam a prática concreta e cotidiana dos professores. Entendemos ser preciso não perder de vista o que o mesmo autor adverte (2000, p. 107-108), quando nos diz que: Essa política que prescreve certos mínimos e orientações curriculares tem uma importância decisiva, não para compreender o estabelecimento de formas de exercer a hegemonia cultural de um Estado organizado política e administrativamente num momento determinado, mas sim como meio de conhecer, desde uma perspectiva pedagógica, o que ocorre na realidade escolar, à medida que, neste nível de determinações, se tomam decisões e se operam mecanismos que têm consequências em outros níveis de desenvolvimento do currículo. Com isso, parece-nos que o estabelecimento da relação entre essa organização política e administrativa do Estado e as suas consequências no trabalho de sala de aula fica relegado a um plano pouco acessado por tais sujeitos. Essa observação evidenciou-se durante as entrevistas, quando solicitados a avaliar as contribuições do Programa, remetiam-se a elementos bastante superficiais e pequenos, se comparados a amplitude de uma política curricular. Há uma ideia subjacente à fala dos sujeitos de uma certa crença na capacidade do Programa em relação a uma transformação na prática pedagógica do professor; como se essa transformação fosse possível apenas por uma adesão dos profissionais (vencendo os de postura mais resistente) à concepção defendida pelo Programa. Vemos, nos trechos apontados (S2), por exemplo, “(...) se todos trabalhassem o material... seria muito bom”; ou ainda, “...não é uma aula que o professor vai ficar sentado...”, o quanto é depositado, nas mãos do professor, a responsabilidade pelo sucesso almejado, já que se ele “obedecer”, tudo dará certo! Tais afirmações parecem deixar transparecer um certo pressuposto de “debilidade profissional”, como aponta Gimeno Sacristán (apud NÓVOA, 1999b), na medida em que confere, ao professor, um papel de apatia ou de estar alheio às decisões tomadas no âmbito do cotidiano pedagógico. Contudo, vale ressaltar que, como aponta Gimeno Sacristán (apud NÓVOA, 1999b, p. 65), “(...) os indivíduos não são passivos e também participam na mudança dos contextos...” e, ao mesmo tempo: [...] não detém a responsabilidade exclusiva sobre a atividade educativa, devido à influências mais gerais (políticas, económicas, culturais) e à situação de desprofissionalização do professorado, bem patente na imagem social, na formação de professores e na regulação externa do trabalho docente (p. 68). Embora essa política curricular paulista seja bastante explícita, não só no discurso oficial veiculado pela SEE/SP, como nas ações técnicas difundidas a esse respeito, parece que, como aponta Gimeno Sacristán (2000, p. 109), ela “(...) se oculta sob regulamentações administrativas e ‘orientações pedagógicas’ com boa intenção, que têm a pretensão de ‘melhorar’ a prática”. E essa “boa intenção” é que parece cair no entendimento dos sujeitos entrevistados como toda a ideologia que circunda e constitui o Programa. Não defendemos, contrariamente, que o mesmo (principalmente nas ações de formação e no uso dos materiais), realmente não possa contribuir para tal transformação. Entretanto, acreditamos que essa ideia de enxergá-lo como o redentor ou o “salvador da pátria”, é um tanto ingênua e bastante empobrecida. Talvez o que, de fato, possa promover tal mudança seja a capacidade de acionar a criticidade reflexiva de cada profissional – processo que não se realiza pelo outro, em nenhuma ação de formação, mas sim individualmente. Como destaca Moita (1995, p. 113): Os formadores encontram-se confrontados com a complexidade dos processos de formação que se entrecruzam em cada pessoa, em cada formando. A compreensão desta complexidade, mesmo que feita por aproximações, é uma tarefa que se impõe, de forma algo paradoxal, na medida em que a formação é uma realidade que ‘escapa’ de certa maneira aos formadores, porque é fundamentalmente introdeterminada. Para aproximarmo-nos ainda um pouco mais dessa ideia de mercantilização da educação por meio das políticas educacionais e curriculares, passemos a analisar um outro trecho de entrevista realizada com um dos sujeitos da pesquisa. E: Você acha que as professoras estão satisfeitas com esse trabalho? Se elas pudessem escolher, ou se você pudesse escolher, seguiriam nessa mesma linha do Programa? S2: Eu acho que o problema delas também parte do tempo, por exemplo: as que estão há mais tempo também comentam de quando nós tínhamos aquele horário ampliado de estudo, aqueles seis HTPCs em que estudávamos o material... elas também comentam isso... Porque elas não vão pegar o guia e levar pra casa, mas se tivessem mais tempo para estudar na escola, elas fariam isso. Então, acredito que elas sentem isso e gostam do material quando entendem a proposta, o Programa... E: Então você acha que o seu maior esforço se concentra nessa questão: promover situações de estudo do material para alcançar o sucesso na prática? S2: Eu acho... por conta das condições que são dadas não serem tão favoráveis a isso... E a gente vê a mudança do professor na forma de trabalhar depois que ele se apropria, depois que ele entende o pressuposto teórico do programa, do material... E eles se sentem também felizes e veem resultado nas crianças. (Trechos da entrevista feita com S2, grifos nossos) Parece muito presente nesse sujeito, a defesa da ideia de que os professores e, consequentemente, os alunos, tornam-se consumidores desse “pacote pedagógico”, quando lhe são dadas condições, tidas como favoráveis, para tal “digestão”. Cabe aos administradores, inclusive ao PC, o papel de árbitros de um jogo que tem, nas palavras de Gimeno Sacristán (1999a, p. 240), “(...) uma regra, uma ordem, uma lógica, alguns interesses e uma linguagem: busca da excelência, inovação, competitividade, controle de resultados, eficácia, melhoria das qualificações, venda de serviços, habilidades, círculos de qualidade, escolas eficazes”. Preconiza-se, na fala do sujeito, uma ideia de que a satisfação se dá junto ao alcance dos resultados na aprendizagem das crianças, reforçando a criação de individualismo competitivo, cujos princípios, conforme apontam Ball e Mainardes (2011, p. 26): [...] contribuem para o surgimento de uma nova economia moral, onde o foco dos efeitos do mercado está no desenvolvimento de sujeitos autointeressados e autorregulados (...). [...] A criação deste novo ambiente moral voltado para a satisfação de si, construído a partir da assimilação de certos traços mercadológicos, é denominada de “interesses do self”. Interessante constatarmos o quanto esse traço mercadológico do “interesse do self” é absolutamente incorporado pelos sujeitos como algo natural, ou ainda, como uma escolha consciente do professor que “aceita aderir” ao Programa e, compreendendo seus pressupostos teórico-metodológicos, fica satisfeito com os resultados alcançados. As tecnologias políticas propostas por Ball (2005) são dispositivos tão bem articulados que, muitas vezes, quando elegemos trechos das falas dos sujeitos pesquisados, percebemos o quão difícil é desarticular os sentidos tão imbricados entre a mercantilização e o gerencialismo, pois são interdependentes e complementares. Assim, quando optamos por usar tais tecnologias como unidades de sentido na análise de conteúdo das entrevistas, quisemos reforçar o quanto tais dispositivos estão presentes nas vozes dos profissionais, mesmo que eles não explicitem a consciência disso. Quando tomamos como referência, por exemplo, o trecho das entrevistas que questiona em que medida os sujeitos consideram seguir aquilo que é preconizado pelo Programa, encontramos uma preocupação em mostrar essa autorregulação, denunciada por Ball (2011), ao mesmo tempo em que, demonstram existir um “duelo” entre estes PCs e os professores que eles consideram mais resistentes em aceitar tais orientações. Vejamos: S1: Eu prego 100%, porque eu acredito. Aí que está, por isso que algumas professoras ainda têm dificuldade. Você só consegue desenvolver certas coisas quando você acredita naquilo, se não acredita não tem como se debruçar sobre aquilo e trabalhar da maneira que tem que ser, porque você acaba dando a sua impressão no conteúdo que está sendo desenvolvido. Eu acredito 100%, por isso minha formação nas ATPCs e a minha fala com as professoras vêm sempre embasada na concepção do Ler e Escrever. E: E a escola como um todo, quanto segue? S1: 70% dos professores seguem 100% e tem uns que não, que são aqueles resistentes. (Trechos da entrevista feita com S1, grifos nossos) S2: O que eu acho que eu sigo? Hum.... Não vou falar que é 100%, mas creio que uns 90%, com certeza, a gente vai seguindo. Por exemplo: a direção da escola tem um outro olhar que não é o mesmo que o meu, então... E: Que olhar? S2: Às vezes a concepção, a maneira de conduzir a discussão... E: A direção da escola acredita no Programa? S2: Ela acredita, mas ainda tem um pezinho atrás... (Trechos da entrevista feita com S2, grifos nossos) S3: Cerca de 60% da escola aplica o Programa. Quando cheguei, não tinha nem 40%. (...) Me sinto começando ainda. Eu devo estar como elas, aproveitamento de 60%, mas estou tentando melhorar, pois vejo que tem algumas que estão crescendo nessa parte e isso me motiva, para ver que a coisa funciona, que a coisa dá certo. (Trechos da entrevista feita com S3, grifos nossos) A quantificação mencionada pelos sujeitos, apesar de absolutamente subjetiva e sem nenhum rigor científico na mensuração, denota valores bastante ousados (100% e 90%) da parte do gestor e, mesmo aquele que se colocou numa posição mais modesta, enfatiza o quanto já progrediu em relação ao seguimento das orientações oficiais. Os obstáculos que encontram, nesse sentido, são depositados na conta dos professores tidos como mais resistentes, que não aplicam o Programa porque não o estudam, porque não experimentam, porque têm uma concepção ultrapassada de ensino, porque estão acomodados com um estilo de aula já desenvolvido há muito tempo etc. Percebemos uma verdadeira “luta” pessoal desses profissionais (com eles mesmos e com seus parceiros, seja o grupo de professores ou mesmo a Direção da escola), em demostrar que existe uma regulação e uma busca em atender completamente aquilo que é preconizado pelo Programa. Pois, na visão delas, não há outra alternativa melhor a ser aplicada, pois tudo o que é proposto oficialmente é de grande valia e contribui para alcançarem melhores resultados. Com isso, acreditamos que, embora a força da mercantilização dos processos educacionais não apareça explicitamente na consciência dos sujeitos entrevistados, ela não pode ser negada como um dispositivo que tem não só regulado tais processos, como determinado o campo de atuação dos profissionais neles envolvidos. A seguir, veremos o quanto tais crenças, princípios e “manobras” articulam-se com outra unidade de sentido que priorizamos na análise dessas entrevistas: o gerencialismo. 4.1.2 O gerencialismo Ball (2011) tem reforçado o fato do quanto as pesquisas em educação, hoje em dia, têm negligenciado e marginalizado a influência das políticas educacionais e dos contextos econômicos, políticos e sociais sobre a escola, sobre o espaço da sala de aula e sobre a atividade docente; como se estes setores não fossem “afetados ou mediados pela nova economia moral do setor público” (BALL, 2011, p. 36). No Capítulo II, trouxemos o conceito de policy enactements de Ball, Maguire e Braun (2012), utilizado por Rosa (2012) como “encenação das políticas”, cujo sentido é a ideia de que as políticas não se originam descoladas das pessoas e que, simplesmente, se apresentam com um certo caráter utilitário que lhes permitem aplicá-las de acordo com as suas realidades. Essa perspectiva defendida pelos autores, e da qual compartilhamos, designa aos sujeitos um papel secundário e simplificado de implementação. O que se vê, na verdade, é a ocupação de um papel ativo nesse processo central de tradução e recriação das políticas, em seus espaços de atuação profissional. Partimos, então, da prerrogativa de que o papel do gerencialismo é, nesse sentido, facilitar e acelerar o processo decisório dos profissionais, determinando a tradução, em atos, que se faz das políticas tidas como hegemônicas em determinado momento sóciohistórico. Colocamos o PC, então, nesse lugar do gerente-gestor que “facilita” o trabalho dos professores da escola, ao aplicarem a política educacional vigente. Tal reflexão pode ser constatada na afirmação do S2, quando defende: “Você faz algumas formações, modeliza, mas se ela [a professora] não seguir aquelas orientações, não vai chegar no objetivo daquela sequência (do material). Elas podem até saber sobre os procedimentos, mas aplicam de uma forma errônea, aí...” (grifos nossos). A formação que é oferecida ao professor parece cumprir a função de acelerar a compreensão da professora sobre quais caminhos levam mais rapidamente ao sucesso, cabendo a ela, apenas, a execução. Se a orientação não é seguida à risca (“aplicando de uma forma errônea”), não alcançará o objetivo pretendido. Posição semelhante encontramos no S1, quando na defesa pelo Programa e na definição do seu papel como PC, aponta que é: “De formar, de orientar, de pedir para que elas sigam as sequências didáticas que estão ali, para ver se realmente vai funcionar, porque eu só posso falar de algo depois que eu experimentei, né? (...) É aquela frase: água mole, em pedra dura... (risos)”. Aqui, aparece uma expressão inicial – formar – cujo sentido deveria ser o de mediar um processo de construção reflexiva de conhecimento, entendendo o papel da formação continuada como um processo no qual: Quem forma se forma e re-forma ao formar e quem é formado forma-se e se forma ao ser formado. É nesse sentido que ensinar não é transferir conhecimentos, conteúdos, nem formar é ação pela qual um sujeito criador dá forma, estilo ou alma a um corpo indeciso e acomodado (FREIRE, 1996, p. 25). Contudo, considerando a maneira como a PC dá continuidade a sua frase, podemos inferir que o sentido que confere à expressão “formar”, parece ser o que Paulo Freire chama de “dar forma” a um corpo, pois percebemos a utilização das expressões “orientar” e “pedir que sigam”, trazendo subjacente a ideia de insistência nessa condução, em especial, com a conclusão do pensamento com um ditado popular – “água mole em pedra dura...” – que, tradicionalmente, é aplicado a situações de persistências em determinada ação. Não diferente disto é a posição do S3, quando afirma que insiste com as professoras que “teimam” em resistir às orientações oficiais, propondo uma espécie de negociação que coloca à prova a eficiência de outra ação que não a prevista pelo Programa. Diante de tal resistência, ela defende que sua atuação é norteada, da seguinte maneira: “Aquilo que te falei de provar que dá certo é o que utilizo. Se a professora não me provar que sua concepção dá certo, que metade da sala não está conseguindo, aí...” (grifos nossos). Tal negociação é também subentendida na fala do S2, quando diz que solicita que os professores “experimentem” uma nova atuação, sugerindo uma postura mais democrática, que, contudo, não se confirma quando, assim como o S3, o professor não consegue provar a elas que obtém sucesso com uma outra prática que não a preconizada pelo Programa. O que precisa ser salientado e discutido são os efeitos de tal controle sobre a prática dos professores. Entendemos que se tal introdução de novas práticas, a partir de um currículo prescrito oficialmente, está a serviço de contribuir para a formação continuada do professor, na medida em que ele “experimenta” novas abordagens e/ou intervenções didático-pedagógicas. Então, é preciso um posicionamento crítico desses profissionais acerca das reais possibilidades de efetivação desse currículo. Como nos lembra Gimeno Sacristán (2000, p. 150): A necessidade de elaborações intermediárias do currículo para os professores, sendo uma necessidade conjuntural, não pode nem deveria se converter numa prática de controle e desprofissionalização dos mesmos, mas ser um meio entre outros possíveis e necessários. Daí que a política curricular deveria se perguntar que tipos de meios podem ser mais úteis para instrumentar um determinado currículo, que sejam ao mesmo tempo eficazes no auxílio aos professores e no desenvolvimento de sua profissionalização. Além disso, deveria abordar as consequências de manter um sistema indireto de controle sobre o currículo que, de fato, torna determinados meios, como os livros-texto, elementos quase obrigatórios para guiar e controlar a própria prática. Do ponto de vista do gerencialismo, proposto por Ball (2005) e usado aqui como unidade de sentido na análise do conteúdo das falas dos sujeitos entrevistados, o PC exerce esse papel indireto de controle, já que é esperado dele, pela política curricular estabelecida, que gerencie tais práticas na escola, com vistas à obtenção dos melhores resultados. Tal sistema indireto de controle, exercido pelo PC, pode ser confirmado na fala do S1, quando afirma: (...) o professor não é aquele camarada que busca, não é? Eles [os técnicos da SEE/SP] fazem algumas visitas na escola, o pessoal da diretoria visita a escola toda semana e as professoras têm uma rotina semanal onde elas têm que colocar o que vão trabalhar durante a semana e aquilo é também um indicador do que está sendo trabalhado e o que não está sendo trabalhado. (Trecho da entrevista de S1) Contudo, esse papel nem sempre é confortável para tais sujeitos, pois lhes coloca no lugar de quem tem que “vencer qualquer obstáculo”, pois isso será exigido deles, ao final do processo: a publicação dos índices alcançados. Esse desconforto pode ser visto na fala do S3, quando aponta: “Às vezes seria bom uma outra pessoa fazer essa ponte nas escolas além de mim. Essa parte que eu vejo um pouco falho. É aquela história: nós, coordenadores, pela legislação, somos os formadores desses professores e temos que correr atrás”. Percebe-se, assim, a existência de um controle que não é esquecido pelo PC, materializado na forma de uma legislação que determina os papeis a serem exercidos por tais sujeitos. Ao mesmo tempo, há um reconhecimento, por parte do PC, de sua fragilidade, enquanto único profissional responsável por garantir a formação dos professores que, na visão do Programa, é a garantia pelos melhores resultados. Tal controle, ainda que não tão explicitado conscientemente pelos PCs, pode ser constatado na fala do S3. Vejamos: S: Eu vejo o material em si como muito centrado no que eles permitiram que pudesse ser feito. E: Eles quem? S: A turma da Secretaria de Educação. (Trecho da entrevista de S3, grifos nossos) Ainda sobre o controle externo exercido sobre os PCs, percebemos que a formação feita pelos órgãos externos (DE e SEE) não é vista como um dispositivo de controle, como sugerimos no Capítulo 3, mas como um elemento que contribui efetivamente para a ação dos PCs. Contudo, vale salientar que existe latente uma ideia de “repasse”, por parte destes sujeitos, ou mesmo de condicionante para a ação, que podemos visualizar nas seguintes falas: S3: Este ano está melhorando [a formação oferecida pela DE] e possibilitando elaborar pautas dentro do que é passado para gente, para repassar para o professor. (Trecho da entrevista de S3, grifos nossos) S2: Na parte do Programa, elas são totalmente o norte pra elaborar as pautas, são fundamentais. E: Então, você acha que se não fossem esses encontros de formação, você teria mais dificuldade em elaborar suas pautas? S2: Total! Com certeza! Muito mais dificuldade, muito mais! E: Por quê? S2: Porque para você estudar sozinho é muito mais difícil. (Trecho da entrevista de S2, grifos nossos) E: Se eles [técnicos da DE] encontrarem uma rotina (do professor) na qual não consta o que estava previsto? S1: Se estiver dentro de uma concepção, tiver uma sequência didática, atividades permanentes, tudo bem... E: Isso eles olham? S1: Isso. E: E se não tiver? S1: Aí o professor está precisando de uma formação neste sentido. E: E essa orientação é dada para quem? S1: Para o PC e este vai orientar o professor. Porque hoje a gente percebe, pelos estudos e tudo mais, que tem coisas que favorecem a aprendizagem da criança e uma sequência didática favorece muito mais que você chegar e falar, por exemplo, sobre divisão, somente em um dia e não transformar em uma sequência didática. Quando falamos sobre isso, elas têm muito insegurança porque acham que os alunos vão achar que ela está dando somente isso, mas não é, pois está dentro de uma sequência e serve para o aluno ir aprofundando seus conhecimentos no assunto. Elas têm muita insegurança neste sentido. (Trecho da entrevista de S1, grifos nossos) Pelas falas destacadas, podemos inferir, como nos afirmam Ball e Mainardes (2011, p. 179), o quanto os mecanismos do gerencialismo apoiam-se “(...) na imposição de procedimentos gerenciais que pretendem simplificar e acelerar o processo decisório. A participação é minimizada, e sistemas são desenvolvidos para disciplinar e dirigir o trabalho do professor”. Da mesma forma, o trabalho do PC é direcionado de forma a “economizar” tempo em seu processo decisório (como se isso fosse possível no exercício pleno de seu profissionalismo), bem como qualificar sua ação de forma a atingir os objetivos propostos pelo sistema. Assim, aquilo que parece, aos olhos do PC, apenas um benefício, ou uma boa ação, pois lhe ajuda a planejar o seu ofício cotidiano, assume também um caráter disciplinador, controlador e que confere confiabilidade a suas ações, uma vez que, assim como os professores, eles também serão “(...) culpabilizados pelas falhas do sistema e têm de ser disciplinados. Não são confiáveis...” (BALL; MAINARDES, 2011, p. 187). Tal afirmação soa de uma maneira bastante forte e, talvez até, agressiva, pois parece indicar que toda ação do sistema é intencionalmente perversa e pré-calculada. Nossa intenção, aqui, não é tecermos uma valoração dessa ação, nem mesmo afirmar tais intenções, contudo salientarmos a eficiência de tais mecanismos políticos e de seus efeitos na prática dos sujeitos em questão. Como Ball, recorrendo a Foucault, acreditamos que: (...) o discurso é sempre parcial, um ponto de vista entre vários. No entanto, algumas bases para interpretação ou definição se tornam mais dominantes do que outras; poder e conhecimento são redistribuídos. Algumas vozes, alguns modos de articulação e formas de associação são silenciadas. Certas possibilidades são oferecidas, outras são concluídas, algumas formas de pensar são empoderadas e encorajadas, outras são inibidas. Atores são posicionados e construídos diferentemente dentro de discursos distintos. Diferentes valores, fins e propósitos operam dentro desses diferentes discursos (BALL; MAINARDES, 2011, p. 185). Com esta reflexão em mãos, partiremos, a seguir, para a terceira unidade de sentido usada para analisar as falas dos sujeitos categorizadas pelas tecnologias políticas e pertencentes à dimensão contextual, ou seja, aquela referente ao Programa Ler e Escrever. 4.1.3 A performatividade Esta tecnologia política, conforme discussão apresentada no Capítulo II, parte de um discurso que privilegia a excelência, a efetividade e a qualidade, introduzindo incentivos relacionados com a performance dos sujeitos. Tais incentivos buscam estimular respostas autointeressadas e geram a competição entre as pessoas. Ball (2011) afirma que, para gerar tal performance e alcançar os propósitos impostos pelas políticas educacionais, os gerentes/gestores, no nosso caso, os PCs, aliam “práticas microdisciplinares” com um “controle a distância”. Tal processo gera uma espécie de autovigilância, ou ainda, uma vigilância mútua, nas quais “(...) profissionalismo é substituído por responsabilização e coleguismo por competição e comparação interpessoal de performances” (BALL, 2011, p. 28). Em um trecho da fala do S1, podemos vislumbrar o quanto a performatividade é um aspecto focado na ação do PC e como o material do Programa é visto como uma direção a ser seguida, quando aponta: (...) é um material muito direcionado e muito claro para o professor, tem tudo lá o que se quer que o professor atinja em termos de objetivos (...). Tem tudo ali: encaminhamentos, procedimentos... mas se você não tem um olhar dentro dessa concepção mais construtivista, você acaba distorcendo os encaminhamentos e, principalmente, as intervenções. Por exemplo, professores com uma visão mais tradicional, mais empirista, não sabem fazer intervenção, fazem de forma distorcida e não da forma que foi pensado, idealizado. (Trecho da entrevista de S1, grifos nossos) Curiosa essa ideia de acreditar que, fora da concepção preconizada pelo Programa, o professor apresenta uma prática tida como distorcida, equivocada, que precisa ser corrigida. Contudo, tomando como ponto de partida, a perspectiva da performatividade, tal ideia está perfeitamente inserida no pressuposto de aliar as práticas disciplinadoras e o controle remoto, citado por Ball (2011). Tal mecanismo parece regular a visão dos sujeitos em relação àquilo que precisam cuidar. No caso dos PCs, tal esforço é dedicado à vigilância contínua da prática do professor e determina, muitas vezes, a atuação destes PCs com seus professores. Como nos conta o S1, sua ação está sempre voltada a isso, ou como ele prefere dizer “(...) sempre com olhar no professor... Quando estou nas reuniões fico pensando o que dá para colocar na minha pauta, se aquilo cabe para os meus professores naquele momento”. Gimeno Sacristán (1999b) ajuda-nos a entender que, sob o olhar do PC, a prática do professor reduz-se ao conhecimento técnico que ele demonstra em uma situação educativa. Segundo o autor, “(...) aquilo que vulgarmente chamamos educativo não esgota as práticas relacionadas com a educação, porque remete para outros âmbitos de acção, que incidem sobre a realidade escolar imediata” (p. 68). Assim, é preciso que alarguemos o conceito de prática e tenhamos uma dimensão mais macro da atuação do professor. Um exemplo dessa visão dos PCs pode ser encontrado em um trecho da fala do S3: (...) a questão de se trabalhar a produção de textos e sequência didática é uma coisa que o professor não tem essa prática. Exemplo de minhas professoras tradicionais: se por acaso ficar alguma coisa na lousa da professora do outro período, a outra professora que usa a classe acha que sua lição já está pronta. Só que a sala do período contrário era de outro ano! Como que a lição pode estar pronta? O que vai ser útil uma lição do 4o ano para o 2o ano? Coisas deste tipo. Para elas pegarem o material do “Ler” demorou (...) (Trecho da entrevista de S3) Parece-nos que, para os PCs entrevistados, há uma visão bastante empobrecida e reduzida dessa atuação, restringindo-a à prática de sala de aula, traduzida nas intervenções didáticas que realiza. É ainda Gimeno Sacristán (1999b, p. 68), que nos alerta que a prática não pode ser limitada “(...) ao domínio metodológico e ao espaço escolar. A prática não se reduz às acções dos professores”. Para o autor, existe todo um emaranhado de práticas aninhadas, de diferentes tipos, sendo basicamente: a) Uma de caráter antropológico, definida social, culturalmente e anterior e paralela à escolaridade; b) Uma de caráter institucional, que compreende: a. As voltadas para o funcionamento e estrutura do sistema escolar; b. As de índole organizativa; c. As didáticas e interiores à sala de aula. c) Uma exterior ao sistema educativo e concorrentes das atividades escolares. Esta sistematização nos permite entender algo que não nos parece explícito ao olhar do PC: em qual parcela desse “latifúndio” assenta-se a atuação do professor, mesmo que inserido em uma política curricular prescritiva, como a que colocamos em questão. A articulação entre os diferentes contextos que definem a prática do professor é condição para que o PC possa rever o seu próprio papel de formador desse profissional. Como enfatiza Gimeno Sacristán (1999b, p. 74), é imperioso conceber que: A competência docente não é tanto uma técnica composta por uma série de destrezas baseadas em conhecimentos concretos ou na experiência, nem uma simples descoberta pessoal. O professor não é um técnico nem um improvisador, mas sim um profissional que pode utilizar o seu conhecimento e a sua experiência para se desenvolver em contextos pedagógicos práticos preexistentes. Contudo, para o sistema que determina tal política curricular, não interessa que o PC elabore toda essa reflexão acerca do que está em jogo numa política educativa. O que, de fato, interessa, é que a condução de sua ação esteja em consonância com os pressupostos de tal política. Nesse caso, estamos falando, basicamente, de resultados definidos por metas e incentivados por mecanismos de controle que envolvem a autoregulação e a competição entre os sujeitos. A publicização de tais resultados é um mecanismo fortíssimo de regulação, na medida em que define todo um conjunto de ações e preocupações dos profissionais que, por sua vez, acabam por enquadrar, cada vez mais, o contexto de suas práticas à política educacional que delimita as fronteiras dessa ação. Em todos os sujeitos entrevistados, fica visível a presença de uma preocupação em atingir as metas definidas, pelo sistema, para cada unidade escolar, como uma resposta ao trabalho desenvolvido na unidade escolar. Essa preocupação é incorporada ao fazer do PC, como um parâmetro definidor de suas ações de formação, como vemos na fala do S3: (...) Tem o Saresp também, que avalia em que níveis de aprendizagem estão nossos alunos. Elaboro avaliações para os professores aplicarem aos alunos, dentro do nível do Saresp, fazemos um levantamento desses dados todos e, com base nisso, fazemos todo um trabalho no começo do ano. Aí, chega agora [setembro] e temos que falar a mesma coisa que falamos no começo do ano. E: Por que você acha que tem de falar tudo de novo? S: Porque eles saem de férias e adormecem. Às vezes, as pessoas esquecem alguns detalhes e você tem que ir lá e acordá-la. (Trecho da entrevista de S3) Chama-nos a atenção essa ideia de “esquecimento” do professor; semelhante a que muitos atribuem aos alunos, quando se referem a sua aprendizagem. Há uma concepção de que se aprende por repetição; concepção esta, aliás, tão empirista quanto a que os próprios PCs dizem combater nos professores de postura mais resistente aos pressupostos teóricos do Programa Ler e Escrever. Essa concepção pode ser melhor explicitada no trecho a seguir, retirado da entrevista com o mesmo sujeito, evidenciada nas expressões que destacamos: “(...) Então, quando vêm esses professores novos, que não conhecem o Programa, você tem que começar do zero, não é? Passar toda aquela formação... tem que embasar o professor...”. Outro “esquecimento” conferido ao professor diz respeito também ao fato de se ter que trabalhar em busca dessas metas, conforme destaca o S1: [Referindo-se ao IDESP] É uma preocupação minha. Mais minha que dos professores, porque o professor não tem noção de que o governo trabalha com metas. Ele tem essa noção, mas no dia a dia ele meio que esquece e só vai lembrar de índice quando da divulgação dos resultados e acho que meu olhar tem que estar voltado para isso também. (Trecho da entrevista de S1) Questionamo-nos se isso seria mesmo um “esquecimento” ou uma opção consciente frente às sanções burocratizantes e limitadoras impostas por tal sistema. Como postula Gimeno Sacristán (1999b, p. 72): Uma prática burocraticamente controlada dá origem a um sistema de dependência dos profissionais relativamente às diretrizes exteriores (...). Esta dependência dos profissionais relativamente ao meio socialmente organizado em que desenvolvem seu trabalho apresenta conflitos manifestos e latentes nos professores, porque nem sempre as exigências coincidem com as interpretações pessoais. E é nesse terreno que se detecta o vazio mais preocupante para o desenvolvimento profissional dos docentes, quando se esquece a necessidade de transformar as situações de trabalho como condição para mudar a prática de ensino. O S2, quando questionado sobre essa preocupação com os índices, mostra-nos o quanto eles são determinantes em suas escolhas formativas, mesmo que não tenha consciência do quanto essa sua aparente escolha é “atravessada” pelo discurso dominante. Vejamos: E: Como está o IDESP da sua escola? Isso é uma preocupação? S: Sim... Nós atingimos! Fomos pra 4 e alguma coisa, não lembro direito, mas estamos bem sim, relativamente bem... E: Então esse conteúdo (citado anteriormente) é uma demanda de formação por conta do SARESP? S: Sim. E: E se não caísse no SARESP, você ainda optaria por trabalhar esse conteúdo com os professores ou abriria mão dele? S: Eu trabalharia sim... acho que vale a pena. (Trecho da entrevista de S2) Parece-nos que os efeitos da performatividade buscada pelos gestores, acabam recaindo sobre eles próprios, na medida em que, como afirma Ball (2011b, p. 28), “(...) a tarefa e o dever do gerenciamento são não mais restritos a autorizar e impor regras e procedimentos, mas a determinar como os empregados deveriam pensar e sentir sobre o que produzem” (grifos do autor). Nesse sentido, percebemos o quanto o papel do PC torna-se contraditório: ao mesmo tempo em que ele deve constituir-se como um pilar que sustenta o discurso da reforma, ele também questiona esse discurso, na medida em que ele questiona comportamentos e linguagens coletivas produzidas pelas políticas educacionais e curriculares. Nosso S3 brinda-nos com uma fala que retrata o que defendemos aqui: Eu ainda falei para Diretora: “Sinto muito, mas esse ano você não vai ter bônus”. Ela falou: “Ave, não fala assim!!!” (risos...). E: Então, isso é uma preocupação? S: Sim, é uma preocupação. Mas eu, pessoalmente, não me preocupo, porque com o bônus, no fim do ano, vou receber “uma bolada” e o Leão vai comer metade. Eu prefiro receber um aumento salarial. É um respeito que a gente tem. E: Você acha que essa medida gera uma disputa dentro do grupo e entre escolas? S: Acho que deveria existir um outra forma de premiar os profissionais. Se eles conseguem manter, está bom, ou fazer uma escala, se tem um índice de 1,25, ou 3, ou 4, cada um deveria ganhar proporcionalmente dentro de seu espaço. Acho que essa bonificação muitas vezes não retrata a realidade, ela é maquiada. Os meus, na minha escola, eu sei que fazem isso mesmo! Nosso índice é fiel ao trabalho desenvolvido. (Trecho da entrevista de S3) Como aponta Mate (apud BRUNO; ALMEIDA; CHRISTOV; 2003, p. 75), nesse contexto sobra ao PC um espaço controverso de atuação, na medida em que o compreende “(...) como uma responsabilidade que não é unicamente da função mas de todo um funcionamento em que se interpenetram formas de poder de professores, administradores escolares, funcionários cujas práticas muitas vezes reproduzem relações autoritárias...”. Essa é a iniciativa de regulação social imposta pelas reformas e políticas educacionais/curriculares: a inserção de “(... ) dispositivos auto-reguladores que levam os indivíduos a se regular a si próprios, enfim, se automonitorar” (MATE, apud ALMEIDA; PLACCO, 2003, p. 124). Com a exposição de tais reflexões, buscamos aqui compreender e considerar os “efeitos” de uma política educacional e curricular, sob a visão dos profissionais nela inseridos, bem como tentar capturar a interação complexa de identidades, interesses, coalizões e conflitos nos processos e atos desta política. A seguir, continuaremos tal análise, porém, agora a partir de uma outra dimensão: a profissional. Nela, buscaremos colocar o PC, mais ainda, no centro destas relações, utilizando três unidades de sentido: as formas disciplinares de poder, os percursos formativos do sujeito e a autonomia na sua profissionalidade. 4.2 A dimensão profissional: o Professor Coordenador Como o elemento principal de nossa pesquisa é o professor coordenador, acreditamos ser extremamente crucial colocá-lo no centro da dimensão eleita (a profissional) como critério de análise das entrevistas que realizamos. A partir desse sujeito, pois, esperamos articular as relações entre a formação continuada, o seu papel de formador de professores em serviço, as formas de poder disciplinar que se entrecruzam em seu fazer, a autonomia que lhe é conferida a esse ofício (por ele mesmo, pelos pares, pela instituição, pelo sistema e pela política educacional) e compreender que espaço de atuação lhe sobra nesse emaranhado de relações tecidas. Ser coordenador pedagógico é assumir, historicamente, um cargo ou uma posição de conflitos: internos, sociais, administrativos, institucionais, políticos..., que permeiam uma ampla gama de possibilidades de ação (legitimadas, desconsideradas, atribuídas, adotadas, impostas, aceitas...). O que torna tal ofício um verdadeiro mosaico de “práticas”. Para o Professor Coordenador do sistema estadual paulista de educação, que exerce uma função e não um cargo, os desafios não são diferentes! Na esteira dessa raciocínio, compartilhamos da posição de Batista (apud ALMEIDA; PLACCO, 2003, p. 112), quando defende a necessidade de se discutir os “(...) sentidos da coordenação para que tenhamos instrumentos teóricos para problematizar o lugar do coordenador na trama pedagógica”. Assim sendo, iniciaremos nossa discussão sobre a análise que faremos a partir da primeira unidade de sentido selecionada: os percursos formativos do PC, entendendo-o como sujeito em formação e, ao mesmo tempo, como sujeito responsável pela formação do outro. Nosso principal referencial teórico será Nóvoa (1991, 1995, 2001, 2007 e 2009), mas traremos também de outros autores para nos ajudarem a tecer os fios dessa trama. Em seguida, partiremos para a segunda unidade de análise: as relações de poder disciplinar, presentes na ação do PC envolvido com a política educacional definidora dos princípios do Programa Ler e Escrever. Nosso principal referencial de análise, neste sentido, serão os contributos de Foucault (1992, 1996, 2006, 2012). Finalmente, partiremos para nossa terceira unidade de sentido, traduzida na discussão sobre a autonomia no profissionalismo, cujas bases ancoram, principalmente, nas contribuições de Contreras (2002). 4.2.1 Percursos formativos Conforme apontam pesquisas recentes, em especial as desenvolvidas pela Fundação Carlos Chagas, em parceria com a Fundação Vitor Civita, coordenadas por Davis (2010) e Placco (2011), sobre a questão da formação continuada de professores, o coordenador pedagógico tem sido colocado no centro dessa responsabilidade, na maioria das secretarias de educação de nosso país. Isso demonstra um cenário que confirma o que já apontava Ferreiro (1993, p. 49), quando defendia, a esse respeito, que: Os processos de capacitação mais rápidos, profundos e bem-sucedidos parecem ser aqueles em que alguém acompanha o professor em serviço. Esse alguém pode ser qualquer pessoa que consiga transformar-se em interlocutor. Ver o que aconteceu em uma hora de aula sob outro ponto de vista, discutir sobre o que se disse ou o que não se disse, sobre o que se fez ou o que não se fez, pôr em discussão o que se pretende e os meios utilizados, refletir sobre os pressupostos implícitos, compartilhar dúvidas e certezas, tudo isso ajuda mais o professor a pensar do que várias horas de aula convencional. Como uma das representantes mais conhecidas, na área da alfabetização, dos pressupostos epistemológicos construtivistas – base teórica do Programa Ler e Escrever – Ferreiro (1999) já nos aponta algo que converge para essa tendência de depositar, nas mãos do PC, a responsabilidade de atuar como o interlocutor do professor em sua formação continuada, já que ele é o sujeito mais próximo das questões pedagógicas da escola. Coerente com esse princípio, o PC, na visão da política educacional paulista, assume a função de articulação do processo educativo. Contudo, parece-nos que, nem sempre a escolha pela função origina-se dessa aspiração. Talvez, ainda, a clareza de seu papel, embora pareça presente de alguma forma no discurso dos PCs, muitas vezes, encontra-se difusa, confusa, hesitante. Vejamos o que dizem nossos sujeitos sobre as razões que os levaram a optar pela função: Na verdade, a questão de crescer na profissão. É uma escada que você vai subindo, passando pelos cargos até chegar naquilo que você espera. Eu acho que é válido, a experiência, o aprendizado... Para minha formação, foi muito melhor eu ter entrado na coordenação do ciclo I, porque ele te dá uma outra visão de formação de professores, até de preparar as pautas de ATPC. (Trecho da entrevista de S1) Ai, difícil... também para contribuir com a... com o desenvolvimento das atividades da escola. (...) no começo eu fiquei bem assustada... eu caí de paraquedas...(risos). (...) mas por eu ter feito a Pedagogia, a complementação pedagógica, eu tinha um pouco desse olhar para a gestão. Então, era uma coisa que me interessava... Mas, especificamente do ciclo I, nunca tinha pensado. (Trecho da entrevista de S2) Fui por acaso... surgiu uma vaga para coordenadora.!Gostei de trabalhar como esse profissional.((!Passei a pensar o que gostaria de receber como professora. Isso me motivou! Teve um período que acabei voltando pra sala aula, mas por questões financeiras, fui para escola que estou agora como PC novamente. (Trecho da entrevista de S3) Como podemos perceber, existem três ideias subjacentes a essa “escolha”, diferentes entre si e que não necessariamente reforçam a questão da mediação e articulação do trabalho docente. Para o S1 parece premente uma visão de hierarquia e progressão na carreira que, na verdade, são ingênuas, uma vez que ser PC no sistema educacional estadual paulista é uma função e não um cargo. Contudo, há também uma defesa, em sua fala, da possibilidade de aprendizado, experiência e crescimento profissional, do ponto de vista intelectual, o que é bastante coerente com aquilo que se espera desse sujeito. Para o S2, percebe-se um interesse mais tímido, não muito amadurecido enquanto escolha e uma visão de alguém ainda com os pés na função de professor. Talvez haja aqui uma sugestão de poder, na assunção desse papel, contribuir para as questões mais organizativas do cotidiano escolar; o que de fato, acaba acontecendo. Já, para o S3, percebemos o quanto sua condição é fruto muito mais do acaso e das circunstâncias contextuais, do que uma opção profissional que privilegie ou almeje algumas contribuições mais assertivas em relação ao papel que pode desempenhar na escola. Entendemos que tais “escolhas” constituem um dos elementos que conjugam a identidade desse sujeito, na medida em que influenciam, fortemente, os caminhos a serem trilhados no seu percurso profissional. Como aponta Nóvoa (1995b, p. 16), “(...) a identidade não é um dado adquirido, não é uma propriedade, não é um produto. A identidade é um lugar de lutas e conflitos, é um espaço de construção de maneiras de ser e de estar na profissão”. Como tais construções pertencem a uma tomada de decisão que acontecem no plano individual, embora tecida coletivamente, a constituição da identidade exige um processo de amadurecimento, estudo, reflexão, confronto com a prática cotidiana, troca com os pares; enfim, toda uma gama de possibilidades que, muitas vezes, são bastante conflituosas e difíceis. Esses elementos valem não só para as decisões que o sujeito toma em relação a ele mesmo como profissional, assim como valem, também, para a maneira como ele age com os outros profissionais com os quais partilha seu ofício. No caso dos PCs, referimo-nos, prioritariamente, às decisões que eles tomam enquanto formadores de professores. Nesse sentido, é ainda Nóvoa (1995b, p. 17) que alerta: O processo identitário passa também pela capacidade de exercermos com autonomia nossa actividade, pelo sentimento de que controlamos o nosso trabalho. A maneira como cada um de nós ensina está directamente dependente daquilo que somos como pessoa quando exercemos o ensino (...) eis-nos de novo face à pessoa e ao profissional, ao ser e ao ensinar. (...) É impossível separar o eu profissional do eu pessoal (grifos do autor). Nessa indissociação entre a pessoa e o profissional, situa-se o lugar dos conflitos e das tensões, confirmado também por Placco, Almeida e Souza (2011, p. 15) que, apoiadas nas ideias do francês Claude Dubar, afirmam que: O processo de constituição da identidade (...) se constitui em um movimento de tensão permanente entre os atos de atribuição, que correspondem ao que os outros dizem ao sujeito que ele é (...) e os atos de pertença, em que o sujeito se identifica com as atribuições recebidas e adere às identidades atribuídas. Enquanto a atribuição corresponde à identidade para o outro, a pertença indica a identidade para si, e o movimento de tensão se caracteriza, justamente, pela oposição entre o que esperam que o sujeito assuma e seja, e o desejo do próprio sujeito em ser e assumir determinadas formas identitárias. Logo, o que está no cerne do processo de constituição identitária (...) é a identificação ou não identificação com as atribuições que são sempre do outro, visto que esse processo só é possível no âmbito da socialização... Assim, podemos pensar que os sentimentos envolvidos nos atos de atribuição e de pertença estão diretamente presentes na ação do PC enquanto formador de professores, função legitimada por Almeida e Placco (2009, p. 23), quando defendem que o PC deve ser, por excelência, o mediador entre currículo e professores, assumindo, na escola, “(…) uma função articuladora, formadora e transformadora (…), no sentido de revelar/desvelar os significados das propostas curriculares, para que os professores elaborem seus próprios sentidos”. Contudo, em nosso contato com os PCs, pareceu-nos que, embora essa função apareça no discurso, na prática, muitas vezes, ela toma diferentes sentidos e configurações. Quando questionados acerca do que imaginam poder contribuir, enquanto PCs, ao trabalho dos professores e da escola como um todo, encontramos três posições que, embora não antagônicas, demonstram diferentes faces de uma mesma situação. Vejamos: Ah, para a formação mesmo dos professores, porque o professor ele ainda tem muito, é... como que eu posso dizer? Hum... Falta um pouco de conhecimento teórico. O professor devia ser aquele que mais estuda, mas não é, infelizmente. (Trecho da entrevista de S1, grifos nossos) Eu acho que é a questão da organização do grupo, de trocar experiências... Eu acho que as professoras, apesar de terem até mais experiência do que eu, elas também precisam de orientações. (Trecho da entrevista de S2, grifos nossos) (...) auxiliar o professor em sua própria evolução e filtrar o olhar dele para o aluno.! Não posso chegar e apontar os erros. Tenho que ter um trabalho de formiguinha.! Não tem como chegar e impor ao professor, porque é ele quem está com a mão na massa e que vai dar o resultado da escola. Então ele tem que estar feliz, porque se não tiver feliz ele não faz nada, faz até o contrário. (...) Onde passei, trabalhei dessa forma. Porque não dá para depender. O PC está ali como um elo para o professor, para auxiliá-lo, se não para que haveria um PC? (Trecho da entrevista de S3, grifos nossos)! ! Encontramos, aqui, falas voltadas para a questão da legitimação dos saberes dos professores. A esse respeito, fomos buscar, em Tardif (2011), o conceito que nos ajudaria a compreender a posição das PCs entrevistadas. Para o autor, esse conceito deve ser tomado de uma perspectiva ampla, pois “(...) engloba os conhecimentos, as habilidades (ou aptidões) e as atitudes dos docentes, ou seja, tudo o que foi muitas vezes chamado de saber, de saber-fazer e de saber-ser” (TARDIF, 2011, p. 212). Na esteira do seu pensamento, há diferentes fios condutores que perspectivam o que entendemos como saberes docentes. Para Tardif (2011), há que se considerar: os saberes relacionados com a pessoa do professor como trabalhador e com o seu trabalho; a diversidade de origens sociais dos saberes utilizados pelos professores; a temporalidade do saber; a experiência enquanto base do saber; o caráter interativo dos saberes envolvidos no trabalho docente; e, finalmente, o papel dos saberes para se repensar a formação profissional. Considerando tais princípios, podemos perceber o quanto essas diferentes perspectivas relacionadas ao saber docente são negligenciadas, na ação do PC, quando conduz a formação continuada de seu grupo docente. Na visão de S1, o que vale é o conhecimento teórico que, para ele, é insuficiente, em virtude do professor não ser um sujeito que “goste de estudar”. Para S2, parece-nos prioritário a tentativa de garantir uma organização no grupo que favoreça a troca de experiências entre os professores. Contudo, ainda demonstra não abrir mão do que ele entende como “orientação”, que, no contexto de toda a entrevista, indica-nos a questão da discussão teórica, assim como S1. Finalmente, S3 parece situar seu papel na relação que ele precisa estabelecer, com cuidado e conquista, entre o que ele entende que o professor precise fazer para garantir o aprendizado do aluno. Percebemos, com isso, que a multiplicidade de saberes que constitui a ação docente é desconsiderada, o que empobrece a ação formativa do PC, uma vez que unilateraliza a condução de sua atuação. Nesse sentido, questionamos os princípios que regem essa ação, pois, afinal, a serviço do quê estão os processos de formação continuada na escola? Para André e Vieira (apud ALMEIDA e PLACCO, 2007, p. 22): (...) o trabalho ativo e intencional do coordenador, sempre articulado com o projeto político pedagógico da escola, favorece ao professor a tomada de consciência sobre a sua ação e sobre o contexto em que trabalha, bem como, pode-se afirmar, favorece o próprio repensar do coordenador sobre a sua atuação. Nossas dúvidas parecem assentar-se no que encontramos, nas entrevistas, em relação às dificuldades que os próprios PCs dizem enfrentar quando atuam como formador de professores. Os obstáculos são identificados na esfera das questões organizacionais ou institucionais, muito mais do que os voltados para o cerne da ação do formador. Não que tais dificuldades não sejam legítimas, mas entendemos não pertencer àquilo que, hierarquicamente, deveria ser foco da ação do formador. Para os PC, as dificuldades eleitas foram: A dificuldade é a falta de tempo... (risos). Na escola, a gente acaba fazendo tantas outras coisas que acaba ficando de lado nosso trabalho como PC. Então, eu sinto dificuldade de parar na escola, sentar e montar as minhas pautas de ATPC. Por exemplo, você não pode preparar na hora, ou de um dia para o outro, pois você precisa pensar no que vai falar, os textos que você trazer, que teórico vai embasar aquela sua discussão e aí, muitas vezes, eu faço em casa, pois na escola você é interrompido a todo momento... (risos). (Trecho da entrevista de S1) O ponto que eu vejo como dificuldade é mesmo a troca de professores. (...) Também em acompanhar as atividades em sala de aula. Isso eu deveria ter mais tempo, ou organizar melhor o meu tempo para acompanhar melhor o desenvolvimento do Programa em sala de aula. Eu acho que esses outros atributos do coordenador, acabam tirando um pouco do tempo. (Trecho da entrevista de S2) Seria possível [ser formador] se o tempo fosse focado somente no pedagógico, o que não é possível, porque acaba se desviando. Segundafeira, normalmente, preparo as pautas das reuniões, separo material e etc. Todos sabem dessa rotina, mas hoje não deu. Para você ter ideia, hoje fui almoçar às 15h. No começo, falei que não ia exercer essas funções, mas as coisas foram tumultuando e, normalmente, vêm buscar meu auxílio. Mas tem dia que eu imponho uma negativa, porque tenho de terminar minhas coisas. (...) Você tem algumas pedras para tirar do caminho, mas se você tiver o jeito, domínio, postura... Eu acho que vai muito da postura, do conhecimento do PC. (Trecho da entrevista de S3) De uma maneira mais direta ou indireta, os três sujeitos atribuíram sua maior dificuldade à questão da falta de tempo: seja por imposição de terceiros, ou mesmo, pela necessidade de organização do próprio PC. Na literatura e no senso comum, habitualmente, compara-se o coordenador pedagógico, ou o PC, em nosso caso, a um bombeiro dentro da escola: está sempre “apagando incêndios” que acontecem cotidianamente. Tais incêndios nascem de diferentes faíscas (por parte da direção da escola, da secretaria de educação, dos professores, dos pais, dos alunos, de outros funcionários da escola, de visitas de todo tipo que aparecem diariamente etc.) e, a todos eles, é o PC quem precisa socorrer e dar um jeito de “apagá-lo”. Por conta desse aparente (e, muitas vezes, real) caos que caracteriza ao cotidiano escolar, o PC “(...) é marcado por experiências e eventos que o levam, com frequência, a uma atuação desordenada, ansiosa, imediatista e reacional, às vezes até frenética...” (PLACCO, 2003, p. 47). Uma atuação frenética que prejudica a própria organização escolar, seu crescimento profissional e o dos professores também. Muitas vezes, esse cotidiano não é problematizado, refletido, nem se busca maneiras de equacioná-lo. O que provoca reações das mais diversas: cansaço, imobilidade, afastamentos, desistências presentes, apatias e toda uma gama de elementos, que em nada colabora para o avanço dos profissionais e da instituição como um todo. Como Placco (2003), defendemos que o PC precisa saber direcionar seu olhar sobre suas ações na escola, de forma a conjugar a constatação pela mudança desse cotidiano tumultuado, com a necessidade da investigação, análise, reflexão e ação. Munido desses elementos, talvez tenha maiores possibilidades de superação dessa rotina caótica, míope e, de certa forma, imobilizante. Pensando na ação, especificamente, do PC como formador de professores, pareceunos necessário entender como se dava o processo no qual ele planeja tal ação. Interessavanos entender como, diante de tantas dificuldades, ele se propunha a desempenhar o papel de mediador, de interlocutor, de orientador, de investigador e de instigador dos processos de mudança na instituição. Aqui, buscávamos aproximarmo-nos, um pouco mais, de nossa questão-problema, na medida em que pretendíamos problematizar a ideia de reprodução e/ou autoria em tal ação do PC. Para o S1, dois elementos são determinantes no processo de planejamento de suas reuniões de formação: elaborar pautas que caibam no tempo (em geral, realizam dois encontros semanais de 50 minutos cada) e eleger conteúdos, cuja discussão já tenha sido disparada nas reuniões em que ele, PC, participa (com a DE ou com a formadora da SEE). Segundo ele: Eu procuro fazer pautas que caibam no tempo disponível e o que leva a não concluir a pauta, às vezes, são discussões impertinentes para o momento, que não estão dentro do assunto em discussão. Aí, você tem que chamar o pessoal para discussão, para não fugir do foco e para dar conta da pauta. (...) Primeiro, penso no assunto que vou tratar com elas. Depois, dentro do que já estudei, de alguns textos fornecidos pela formadora, que o pessoal da diretoria fornece também, vou buscando dentro daquilo. (Trecho da entrevista de S1) Já o S2 parece partir de um outro lugar nesse processo de construir suas pautas formativas, ou na elaboração de seus encontros de formação com os professores. Quando afirma que parte daquilo que percebe como necessidade de seus professores, considera o que Benachio e Placco (2012, p. 65) defendem como a melhor forma de convencimento do professor: “(...) pela organização das reuniões e pelo lugar que suas necessidades ocupam em suas pautas”. Interessante que o próprio PC revela que esse diagnóstico dos saberes dos professores restringe-se àquilo que ele próprio entende como necessidade. A primeira coisa que eu penso é: como estão os professores? Disso aqui que foi a formação, o que eles já sabem? Ou, o que eu penso que eles já sabem, porque não dá para saber tudo o que eles sabem, não é?! Daí, eu parto, bem: tem que ter um embasamento teórico, tem que ter uma vivência, no caso, quando ela cede algum vídeo, tem que colocar alguma situação pra elas verificarem ou modelizar pra elas, elas acabarem realizando esse tipo de atividade na ATPC. Então, acho que tem que ter esses pontos que são passados na formação e que tem que ser passados, vivenciados por elas. Então, isso já está na minha rotina de trabalho, pensar na pauta de formação delas. Como a ATPC é na segunda, então, na semana anterior, na quinta e na sexta-feira, eu separo algum tempo para pensar na pauta, para separar material, isso eu faço. (Trecho da entrevista de S2, grifos nossos) Debruçando-nos com mais cuidado na fala de S2, percebemos, entretanto, que tal preocupação em diagnosticar os saberes de seus professores não é uma iniciativa genuína, fruto da investigação, da reflexão e da ação desse PC, mas nascida de uma orientação de como deve ser o processo. Entendemos, com isso, que o problema não está na orientação recebida, mesmo porque concordamos com ela; o problema está no fato dessa iniciativa do PC configurar-se apenas como um atendimento “cego” à determinação oficial. Voltamos à ação relacionada ao que já citamos aqui, defendida por Placco, Almeida e Souza (2011): o PC age muito menos com um sentimento de pertença e, muito mais, com o de atribuição instituída pelo outro. O mesmo movimento encontramos na fala de S3, porém, aqui, talvez com uma consciência um pouco mais aparente. Ainda, há um cuidado em seguir às determinações oficiais, mas elas entram numa condicional variável. Ou seja, caso não haja uma orientação sobre o que fazer, o PC vai buscar, na sala de aula, aquilo que ele entende ser uma demanda formativa de seu grupo de professores. Ainda, não chegamos a uma posição reflexiva, ou a uma atuação como intelectual crítico, mas esse novo elemento nos sugere um avanço teórico-prático em relação aos outros. Em suas palavras: Com as visitas que faço na sala, verifico o que está acontecendo e se a gente não tem alguma coisa da diretoria para passar, e se dá para casar ali. (...) Aí eu procuro um texto para incluir na pauta que esteja falando sobre isso e, assim, monto minha pauta. Agora, quando vem a pauta com material pronto para desenvolver na sala, dentro disso monto a pauta, o que muitas vezes não dá para ser no mesmo dia, porque não dá tempo. (Trecho da entrevista de S3, grifos nossos) O que afirmamos, até aqui, sobre o grau de consciência desses sujeitos sobre a construção de espaços formativos na escola, seu planejamento e a consideração das demandas formativas do grupo de professores, retorna quando levantamos a possibilidade de outras ações voltadas para a formação do grupo docente e que extrapolem os horários de reunião coletiva. Coerente com o que Benachio e Placco (2012, p. 64, grifos dos autores) afirmam, a formação continuada em serviço dos professores deve atender a três princípios básicos: a) Assegurar a formação coletiva e contínua no âmbito da escola em que o professor trabalha; b) Criar um ambiente propício a participação efetiva dos envolvidos no processo de formação; c) Ter um projeto educativo como referencial de ação para todos os que trabalham na unidade educacional. Nesse sentido, vale a pena olharmos para o que os sujeitos entrevistados consideram a respeito de suas ações formativas na escola. Vejamos: Sim, não uso só o momento da reunião. Quando elas têm aula de especialista, eu procuro uma hora ou outra conversar com elas; observo as salas de aula também. E: Esse atendimento individual você considera tão formativo quanto ATPC? S: Sim E: E quanto às visitas às salas de aula? S: É para observar o que elas estão dando. E: E te serve para quê? S: Para saber [hesitação]... Para eu preparar ATPC, ver o que elas estão fazendo de bacana e socializar com o grupo. (Trecho da entrevista de S1, grifos nossos) [Além das ATPCs] Então, dou devolutivas depois de olhar determinada aula, observo, faço algumas colocações... Tem a rotina que eu dou uma olhada, mas sempre essas devolutivas acontecem em ATPC; não tenho outros momentos. (Trecho da entrevista de S2) [Sobre ações formativas que realiza] Reunião e visita. Faço atendimento individual com aluno, junto com o professor, refaço as sondagens de escrita, para conferir. (Trecho da entrevista de S3) Com esses excertos, percebemos que, dos três princípios trazidos por Benachio e Placco (2012), o primeiro é garantido, na medida em que dele não se pode “abrir mão”, pela própria condição estabelecida por lei e já comentada no Cap. I. Contudo, em relação aos outros dois princípios, entendemos que eles não são garantidos, o que, de certa forma, compromete a formação continuada em serviço realizada por esses sujeitos. Das ações formativas consideradas pelos PCs, além das reuniões, obtivemos: observação em sala/visita, devolutivas ao professor e conferência de instrumentos técnicos, como as rotinas de trabalho. Em todas elas, a justificativa de realização recai em elementos voltados para o controle da ação do professor (conferência, ver o que tem de bom, observar o conteúdo que está sendo trabalhado...), a partir dos pressupostos do Programa institucional oficial, regulador do currículo e das ações dos atores envolvidos no processo educativo. Nesse sentido, imaginamos que o PC acaba por colocar-se muito mais numa posição de bedel do professor, do que de parceiro disposto a compartilhar a reflexão, as conquistas, as dificuldades e as necessidades do professor. Tudo isso impede a construção de um ambiente propício à participação do professor em seu próprio processo formativo, conforme aponta o segundo princípio trazido por Benachio e Placco (2012). Ainda no âmbito dessa discussão, percebemos que, em nenhum momento das entrevistas, foi feita qualquer menção, pelos PCs, ao projeto educativo de cada escola, ou mesmo, à articulação de suas ações com o projeto político-pedagógico da instituição. Questionamo-nos, em relação a isso, se isso seria uma fragilidade profissional do sujeito que precisa “formar” ao mesmo tempo em que também se forma, ou se seria uma forma de usurpação não consentida (e, talvez, nem percebida) da palavra do PC, repelido a uma política curricular instituída de forma prescritiva. A certeza que nos fica, contudo, é de que o terceiro princípio que constitui a formação continuada em serviço, defendido por Benachio e Placco (2012), também não é contemplado. Assim, compartilhamos com as autoras a defesa pela ideia de que a formação continuada não pode estar a serviço de suprir fragilidades teóricas dos professores, nem tampouco, de resolver os problemas cotidianos da escola, conforme já comentamos, mas deve objetivar ser: (...) um espaço de tematização dos problemas concretos à luz da realidade socialmente vivida, aproximando a escola da problematização e da crítica das relações sociais, políticas e culturais que a cercam e atravessam; espaço não de mera aplicação de estratégias prévias, mas de questionamento e reflexão sobre as estratégias pedagógicas, recriando o sentido coletivo da ação, da corresponsabilização e da autoformação crítica, e possibilitando o repensar da própria condição subjetiva, profissional e política em que os docentes se inscrevem (GARCIA, 2003, apud BENACHIO e PLACCO, 2012, p. 63-64). Com essa reflexão posta, buscamos não uma crítica à atuação do PC, nem tampouco a deslegitimação do seu esforço de sobrevivência, quando “atirado à jaula dos leões” que se torna o cotidiano caótico da escola. Entretanto, refletimos sobre os elementos que uma política educacional precisa garantir aos seus profissionais no desenvolvimento de uma ação tão complexa quanto a de formar professores continuadamente, no âmbito da própria escola. O que defendemos, juntamente com os autores que nos servem de alicerce teórico, é que não são compatíveis a responsabilização depositada nas mãos do PC e as condições para que ele exerça, de fato, seu papel de formador de professores. Essa tarefa não é nada simples e exige muito esforço, dedicação e amadurecimento intelectual e profissional do sujeito, num constante diálogo com a teoria, com a prática, com a experiência e com a pesquisa. No embate diário dessa complexa tarefa, não só os professores sentem-se julgados e acuados, como também o próprio PC, “(...) embora hierarquicamente superior ao professor, tem receio de ser desafiado em seu status e se acomoda...” (CLEMENTI, apud ALMEIDA; PLACCO, 2003, p. 60). Isso reflete em sua ação, pois na lida com essa testagem que os professores fazem do PC, ele acaba pendendo em dois extremos: o autoritarismo ou o comodismo. Para o autoritarismo porque pode, para resolver essa situação, determinar o que deve ser feito, sem levar em consideração o que pensa o grupo no processo de tomada de decisões. Para o comodismo, porque pode, para não entrar em um embate de posições e tentar apaziguar diferentes opiniões, abortar as necessárias tomadas de decisões, muitas vezes, polêmicas, se considerar o posicionamento do grupo. Em relação a esse tema, aproximamo-nos para saber se nossos sujeitos entrevistados sentiam-se valorizados no papel de formador de professores. Encontramos as seguintes falas: Depende, tem hora que sim, tem hora que não. Porque tem horas que parece que você nada, nada, nada e morre na praia, principalmente, com estes professores resistentes. Esses, na verdade, não chegam a ser resistentes, mas creio que por falta de conhecimento eles têm muita insegurança. E: E quando você se sente valorizada? S1: Quando eu dou uma sugestão e a pessoa trabalha aquilo que eu sugeri e vê que deu resultado. E: Isso pelos professores? S1: Isso. E: E pela Direção da Escola? S1: Acho que eles veem meu trabalho de uma maneira bacana e me sinto valorizada. E: E pela Diretoria? S1: Também. E: E pelo Sistema? S1: Acho que não. A começar pelo salário do PC que é um absurdo diante da demanda de trabalho que ele tem. O sistema não faz com que a carreira do magistério seja uma coisa atrativa, justamente por haver uma discrepância em relação à salário e plano de carreira. (Trecho da entrevista de S1) (...) quando as professoras veem que eu me preparei, que eu sei sobre o assunto, e aí eu trago a experiência delas, da sala de aula naquele contexto que está sendo colocado. (Trecho da entrevista de S2) Financeiramente não. Mas valorização do seu conhecimento sim. Você vê o resultado. Às vezes uma fala de um professor, às vezes uma prova de concurso que ele vem comentar que lembra de você... E: E pela Direção da Escola? S3: Sim, essa Direção atual é maravilhosa. E: E pela Diretoria? S3: Para eles, eu sou mais uma pessoa. E: E pelo Sistema? S3: Não. Primeiro, porque exerço uma função e não um cargo. Deveria ser um cargo, afinal, a qualquer momento, se eu sair eu retorno a meu cargo de PEBI. Acho que eles deveriam verificar o que o Coordenador realmente faz. Porque existem coordenadores e coordenadores. (Trecho da entrevista de S3) Interessante perceber que, mesmo diante de relatos anteriores sobre ter professores, no grupo, mais resistentes à mudança, os PCs sentem seu trabalho valorizado por esse grupo. O mesmo acontece em relação à direção da escola e, até mesmo, à diretoria de ensino. Já, em relação ao sistema (e aqui, parece-nos evidente que se referem à secretaria de educação e à gestão administrativa), a situação é outra. Com os trechos selecionados, compreendemos um pouco mais o quanto os PCs demonstram relativa consciência do que está em jogo no exercício de sua função, o que, de alguma forma, conduz-nos à nossa próxima unidade de sentido, eleita para analisarmos as entrevistas realizadas: as relações de poder disciplinar. 4.2.2 Relações de poder disciplinar Esta unidade de sentido entra em nossa pesquisa numa tentativa de articular a voz dos sujeitos entrevistados com o referencial teórico usado no Cap. II. Ao relacionarmos Stephen Ball (2005) e Michel Foucault (2006), propúnhamos uma possibilidade de compreendermos o quanto estariam imbricados dois elementos extremamente presentes em uma política educacional, como a que tratamos aqui: a governamentalidade e as relações de poder. Para Foucault (1992b), em seus estudos sobre o poder, todo discurso é passível de leitura e análise, principalmente quando temos a intenção de mantê-los em constante tensão com as práticas de poder. A força imanente do poder não está nas mãos de alguns sujeitos, de alguns grupos que a exercem sobre outros, nem tampouco de um único centro (como o Estado, por exemplo), mas encontra-se distribuída difusamente por todo o tecido social. Nesse sentido, o poder é entendido, para Foucault, como “(...) uma ação sobre ações. (...) O poder entra em pauta como um operador capaz de explicar como nos subjetivamos imersos em suas redes”, conforme afirma Veiga Neto (2011, p. 62). Assim, resgatamos aqui, os tipos de poder em ação, trazidos por Foucault (2006), para entendermos as relações estabelecidas no campo da Educação: o poder disciplinar, que atua no plano individual; e o biopoder, que atua no plano coletivo. Da análise que o autor faz, interessa-nos, particularmente, a ideia da fabricação de corpos dóceis, pela via das tecnologias que naturalizam o processo disciplinar. Pela sofisticação dessa tecnologia, os sujeitos vão se enxergando dentro de uma rede disciplinar que se torna invisível para eles, a ponto de configurar-se como natural e necessária. Esse, talvez, tenha sido o ponto que mais nos chamou atenção na realização das entrevistas: o quanto os sujeitos encaram o controle, a regulação e a disciplina como elementos naturais e inerentes ao processo educacional. Quando questionamos S1, por exemplo, sobre por que considerava ser mais interessante atuar como coordenador do ciclo I, sua resposta foi: Porque eu acho que tem mais respaldo da diretoria de ensino, da própria secretaria da educação, você tem todo um acompanhamento e todo um estudo que te prepara pra você passar aquilo que é necessário para os professores, coisa que eu não vejo no ciclo II e no Ensino Médio. (Trecho da entrevista de S1, grifos nossos) Por mais que tentássemos “insistir” em uma reflexão do sujeito, no sentido de fazêlo ponderar a possibilidade desse “respaldo” ser, talvez, um controle sobre sua ação, ele continuava a afirmar que não via dessa forma e que esse “acompanhamento” era benéfico e colaborava com sua ação. Não questionamos, aqui, o quanto isso pode, de fato, ajudar o PC a desenvolver seu trabalho na escola, mas o que nos parece inevitável enxergarmos é o quanto esse mecanismo de fornecer a formação continuada ao PC, para que ele “repasse” ao professor, também funciona, aos olhos do sistema, como uma estratégia de disciplinamento e controle sobre as ações desenvolvidas na escola, para que elas estejam em consonância com a política definida no momento. Se olharmos, especificamente, para o quê os sujeitos pensam sobre a formação oferecida a eles pela DE e SEE, encontramos as seguintes afirmações: E: Quando você planeja sua formação, pode fazer escolhas? S1: Exatamente. Posso. E: Você não tem que seguir exatamente o que é falado na formação que recebe? S: Não. E: Mas não tem uma parte que você tem que seguir? S: Na verdade, não. A primeira supervisora da minha escola sempre dizia que nós, PCs, não devemos ser um reprodutor de pauta, temos que pensar no nosso grupo, o quanto aquilo vale para eles, o quanto os professores precisam daquela formação, porque, por exemplo, às vezes você pensa que o professor não sabe nada daquilo e de repente ele sabe muita coisa e você não vai precisar abordar o assunto da maneira que foi abordada na formação e pode condensar um pouco e seguir para um ponto que seja mais necessário naquele momento. Eles não impõem nada... Mas o EMAI17 é imposto... (risos). (Trecho da entrevista de S1, grifos nossos) [Quanto à formação recebida] Ah, é o embasamento principal que nós temos. )...) elas são totalmente o norte pra elaborar as pautas, são fundamentais! (Trecho da entrevista de S2, grifos nossos)! Ajuda muito a pensar sobre as hipóteses de escrita e níveis de aprendizagem que a Secretaria da Educação quer que as crianças estejam. São os mapas de sondagem que temos que mandar para Secretaria e para FDE. (Trecho da entrevista de S3, grifos nossos) Nesses excertos, percebemos muita contradição na fala de S1, na medida em que parece entender que “seguir a formação dada” pressupõe não alterar nenhuma vírgula do que foi trabalhado. Para o sujeito, existe liberdade em sua ação, pois pode “condensar” ou “eleger o que mais interessa” daquilo que lhe foi “passado”. Já, para S2 e S3, a formação é vista como condicionante para a realização do trabalho do PC. O que não levam em conta é o simples fato de que a formação é sentida como condição para o trabalho, porque o trabalho é também definido pelo sistema: o que fazer, como fazer, quando fazer e a quem direcioná-lo. !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 17 O EMAI (Educação Matemática nos Anos Iniciais) é um novo projeto da SEE/SP, introduzido em 2012, nos mesmos moldes do Programa Ler e Escrever, porém gerido intelectualmente por outro grupo de especialistas. Visa à obrigatoriedade do trabalho com Matemática, a partir de um guia de atividades do professor. Faz parte do que o atual governo tem chamado de ampliação do Programa Ler e Escrever (para outras áreas do conhecimento). Biopoder é como Foucault (1992b, p. 292) denominou a tecnologia exercida sobre a população, sobre a massa, sobre esse “(...) novo corpo: corpo múltiplo, corpo com inúmeras cabeças, se não infinito, pelo menos, necessariamente numerável”. A massa de professores coordenadores do Estado é esse corpo múltiplo, de variadas cabeças que pensam e agem em uma direção bastante semelhante entre si. Foucault (1992b) diz que, mesmo agindo sobre a população, a disciplina continua presente em forma de normas e regulamentações. Na política educacional, que aqui analisamos, da qual pertence o Programa Ler e Escrever, o que não faltam são as normas e as regulamentações, extremamente prescritivas, sobre como devem funcionar, agir, pensar e querer, todos os sujeitos envolvidos no processo educativo, em especial, os PCs, foco de nossa pesquisa. Um dos pontos mais emblemáticos desse controle, presente em tal política, diz respeito aos índices e metas a serem alcançados sobre a aprendizagem dos alunos. Conhecido como IDESP (já abordado nessa pesquisa, anteriormente), essa regulamentação define como cada aluno, cada professor, cada escola e cada diretoria devem funcionar para que a meta do “todo” (o Estado) seja alcançada. Para garantir sujeitos automotivados para trabalhar nesse sentido, a política prevê bonificação salarial àqueles que alcançarem ou superarem o índice proposto. A esse respeito, vejamos como nossos sujeitos enxergam o controle subjacente a essa prática: E: Isso não é um controle? S: Eu acho que não, porque a meta está dentro de uma expectativa de aprendizagem e, então, eu não tenho que me preocupar com a meta em si, mas com o trabalho que está sendo realizado, pois se estivermos fazendo um bom trabalho, automaticamente a gente vai atingir qualquer índice aí. E: E você acha que essa é a visão do sistema? S: (Risos...) Eu acho que não, né?! Acho que a intenção do Estado é mostrar para a população que a educação está melhorando, só que a educação estadual está muito aquém do que deveria ser, muito distante do que deveria ser. Então, se atingimos os índices que estão aí, é como resultado mais de um trabalho suado, muitas vezes, decorrente de equilíbrio e tudo mais dentro da escola, do que uma coisa que o Estado priorize, porque se ele priorizasse tanto e pensasse que o índice é simplesmente um resultado de todo um trabalho que foi feito, a gente não teria salas lotadas, por exemplo, porque se eu tenho uma educação de qualidade eu não preciso me preocupar com o índice, né? E: Então, o índice é uma prestação de contas e não uma preocupação com a qualidade da educação? S: Exatamente. Eu penso assim. E: Então o índice não é uma boa ação? S: Eu acho que até é uma boa ação, mas o olhar do Estado deveria ser outro, pois a realidade de cada escola deveria ser focada, pois, às vezes, por exemplo, uma escola tem 5,6 ou 6,2 de índice, mas é localizada em uma comunidade pequena, em uma cidade pequena, que tem um número reduzido de alunos por sala, de, no máximo, 25 alunos, o que deveria ser para todo Estado, não só para aquela determinada cidade, que de repente não tem a demanda necessária para lotar as salas de aula. Aí, fica mais fácil atingir os índices, pois as condições da escola são outras. (Trecho da entrevista de S1) Muito interessante a visão que S1 nos traz. Para ele, o índice não pode ser visto como um controle porque obedece à expectativa de aprendizagem prevista aos alunos de cada ano letivo; como se tal expectativa também não tivesse sido definida por esse mesmo sistema que fixou o alcance das metas e índices. O que leva o sujeito a toda essa miopia cotidiana é o que mais nos intriga e nos faz crer na sofisticação de tais tecnologias políticas e disciplinares, já defendidas por Ball (2005) e Foucault (2006), respectivamente. Já S3 parece enxergar mais como uma medida de regulação social e controle, embora também o entenda como algo natural do processo e para o qual não é passível de preocupação, desde que você esteja realizando o trabalho que esperam que você realize. Vejamos: Eu falo pra eles: “Gente, tudo vai cair na prova, eles vão cobrar! Eles não vão cobrar o professor, eles vão cobrar o que você está trabalhando com o material que eles estão lhe oferecendo”. Se a gente for analisar as avaliações, cai tudo o que está aí dentro do material. Se o professor trabalhou, não tem com o que se preocupar, mas se ele não trabalhou, dançou, minha filha... [risos]. E: Então você acha que é mais uma medida de controle de resultados do que valorização dos profissionais? S: Sim. Por exemplo, minha escola tem o índice de 3,78 e nossa meta agora é 4,5. Vejo escolas que a meta é apenas 1,25. Então, eu vejo que isso é uma desigualdade e, por isso, acho que não tenho que me preocupar. Se a escola está com índice bom é porque a escola está bem e tenho que me preocupar em manter a escola bem. Estamos com mais de 50% de índice alcançado, já que a meta geral é 6. Só que para manter o índice, é claro que as pessoas pensam no financeiro. Ficam disputando e isso desequilibra o grupo. E: Você acha que o Sistema está preocupado com o aumento do índice? S: Sim, mas não quanto à qualidade. Acho que deveria focar na qualidade. (Trecho da entrevista de S3, grifos nossos) Com essa fala, percebemos o quanto o biopoder, anunciado por Foucault (1992b), age de maneira eficaz na disciplinarização dos corpos coletivos. Como defende Veiga Neto (2011, p. 75): A norma é o elemento que, ao mesmo tempo em que individualiza, remete ao conjunto dos indivíduos, por isso, ela permite a comparação entre os indivíduos. Nesse processo de individualizar e, ao mesmo tempo, remeter ao conjunto, dão-se as comparações horizontais – entre os elementos individuais – e verticais – entre cada elemento e o conjunto. Se entendermos a norma, citada pelo autor, como a busca pelos índices e metas estabelecidos pela SEE/SP, também conseguimos perceber o quanto a disciplinarização ocorre em âmbito individual, e também, no coletivo. No individual, realiza-se a comparação horizontal, ou seja, entre os professores de uma mesma escola e de uma mesma série, por exemplo. Já, no coletivo, se estabelecem as comparações entre as diferentes escolas e as diferentes diretorias de ensino que compõem toda a rede de ensino. Contudo, atuar sobre a coletividade não pressupõe abandonar cada indivíduo e, para isso, a tecnologia deixa de ser o biopoder e passa a ser as formas disciplinares. Foucault (2006) fala-nos em vigilância hierárquica, sanção normalizadora, exame (já abordados no Cap. II) e panoptismo (1992b). Para essas formas disciplinares, alguns princípios são tidos como caracterizadores, dentre eles, segundo Foucault (2006): ! o princípio da vigilância (garantia da posição central e da invisibilidade de quem vigia); ! o princípio da totalidade (ninguém pode escapar a sua ação); ! o princípio da minúcia (observação dos mínimos detalhes); ! o princípio da saturação (não descansa e não deixa ninguém descansar); ! o princípio da individualização (segmenta a massa humana, tornando-a alcançável, descritível e controlável); ! princípio da economia (com pouco investimento, consegue-se muito resultado). Tais princípios podem ser observados nas falas dos sujeitos entrevistados, quando questionados em relação a sentirem-se controlados sobre o trabalho que realizam ou atuarem como controladores do trabalho realizado pelos professores. Vejamos: Minha diretora diz que eu já conquistei muitos professores. Eu falo que não, que ainda tem muita coisa para gente vencer. Então, eles topam algumas coisas, outras não. Umas eles não querem. Outras têm de fazer por imposição do governo. Mas, de todo o mal, eles acabam chegando a um consenso. E: Você presta contas? S: Não. Presto contas para mim mesmo. Não me sinto controlada. Eu passo as pautas e lista de presença que ficam à disposição para saberem o que estou fazendo. As diretoras acompanham o HTPC. Elas participam e estão sabendo o que está acontecendo. Tem um dia da semana, pelo menos 1 a 2 horas, para conversarmos sobre isso. Me sinto ouvida e atendida. E: E quando é obrigatório para você? S: Aí, imponho a todos também para participarem. Tento levar da melhor forma possível. E: Como você lida com as coisas que vêm determinadas? Você se sente tolhida? Te incomoda? S: Acho que faz parte do sistema e o que temos de fazer é cuidar da forma de chegar na base, para que os professores desenvolvam. Como fazer isso é comigo, para a coisa acontecer sem polêmicas. E: Isso não é um fardo muito pesado ao PC? S: Sim, mas fazer o quê? Não há com quem dividir. Às vezes, divido com o grupo de gestores. A gente troca muita informação... (Trecho da entrevista de S3) Nesta fala, percebemos tais princípios caracterizadores das formas disciplinares, na medida em que o PC atua como o vigilante que representa o poder central, invisível. O princípio da totalidade é posto em prática abarcando todos os sujeitos do processo: o PC agindo sobre todo o grupo de professores; a direção da escola agindo sobre o PC; a diretoria de ensino agindo sobre a escola e a secretaria de educação agindo sobre a diretoria. A individualização e a economia também são dois princípios presentes, uma vez que fatiar o sistema em diretorias, escolas, ciclos, classes e turmas ajuda a controlar uma massa imensa de sujeitos envolvidos e de uma forma que não exige grandes investimentos do poder central: cada PC cuida da parte que lhe cabe “nesse latifúndio”. Uma fala bastante elucidativa dos princípios da individualização e da economia, encontramos em S1, quando descrevendo a maneira como lida com suas múltiplas funções no cotidiano escolar, aponta que não vê isso como um prejuízo, mas, muito mais, como uma negociação que se torna interessante para ambos os lados: PC e professor. Vejamos: E: Quem solicita essas outras coisas? Você faz porque quer ou alguém solicita e você não tem escapatória? S: Porque assim, na verdade, você vê a “coisa pegando” ali e você não vai deixar. Você está ali e o inspetor chega com dois alunos que se desentenderam no recreio, você não vai dizer “olha, agora não”. Você tem que resolver isso, até para que isso não vire uma briga fora da escola. E também, como o PC está muito próximo do professor, tudo o que ele precisa, ele solicita para o PC: o equipamento, o datashow... Tem uns que não agendam o equipamento, então eu não vou falar para ele “eu não vou montar, porque você não agendou”. Eu tento atendê-los da melhor forma, porque quando eu pedir algo, como uma atividade que eles tenham que dar ou uma sequência didática que eles tenham que trabalhar, eles estejam prontos para me atender, entendeu? E: Uma mão lava a outra? S: Exatamente! E: E isso prejudica seu trabalho? Tem momentos que você diz “sinto muito, mas tenho outras coisas mais importantes para fazer agora”? S: Não. (Trecho da entrevista de S1) Aqui, temos um exemplo emblemático de como a disciplina age tornando os “corpos dóceis”. Diferente do que podemos suspeitar, essa forma de disciplinarização não age soberanamente, mas atua de um jeito muito particular, numa espécie de negociação, conforme aponta S1. Como destaca Veiga Neto (2011, p. 71): (...) dizer que a disciplina fabrica corpos dóceis não significa dizer que ela fabrica corpos obedientes. Falar em corpos dóceis é falar em corpos maleáveis e moldáveis; mas não se trata, aí, de uma modelagem imposta, feita à força. Ao contrário, o que é notável no poder disciplinar é que ele “atua” ao nível do corpo e dos saberes, do que resultam formas particulares tanto de estar no mundo – no eixo corporal –, quanto de cada um conhecer o mundo e nele se situar – no eixo dos saberes. Interessante observarmos que não se trata de um disciplinamento estabelecido a força, ou soberanamente, até porque, ele não seria assim tão eficaz. Ao contrário, estamos diante de um sofisticado e inteligente sistema que impõe, por meio da negociação e do convencimento, uma disciplina e uma espécie de obediência aos princípios defendidos como verdade absoluta e não questionável. Tudo isso se dá no âmbito dos saberes que se constituem em cada sujeito envolvido nessas relações e que definem seus discursos e suas ações. O que é preciso considerar, de qualquer forma, é que o espaço escolar, como nos lembra Mate (apud ALMEIDA; PLACCO, 2003b, p. 145), também precisa ser visto “(...) sob o ângulo das relações de poder que o constituem...”. Partir desse ponto, de alguma forma, conduz-nos a nossa terceira unidade de sentido: como agir autonomamente nesse emaranhado de relações de força e poder que se colocam de todos os lados e agem sobre todos, indiscriminadamente? Seguiremos com essa reflexão no item subsequente. 4.2.3 Autonomia no profissionalismo Para iniciarmos nossa análise, a partir dessa unidade de sentido, entendemos necessário apontarmos o que estamos considerando como autonomia no profissionalismo. Para tanto, recorremos a Contreras (2002, p. 197), a fim de anunciarmos que, assim como ele, consideramos que: (...) autonomia não é exatamente uma condição que se possui como requisito prévio à ação. Entendida como qualidade na forma pela qual nos conduzimos, entendida circunstancialmente, a autonomia profissional é uma construção que fala tanto da forma pela qual se atua profissionalmente como dos modos desejáveis de relação social. É que a autonomia não é uma definição das características dos indivíduos, mas a maneira com que estes se constituem pela forma de se relacionarem. Assim, partimos do pressuposto da não valoração dos sujeitos como autônomos ou reprodutores, mas da condição circunstancial que denota a maneira como os sujeitos atuam frente a determinadas situações profissionais. É ainda Contreras (2002, p. 198), que nos alerta para o fato de que a autonomia “(...) se constrói na dialética entre as convicções pedagógicas ou as possibilidades de realizá-las, de transformá-las nos eixos reais do transcurso e da relação de ensino”. Contudo, quando olhamos para a questão educativa, na qual a relação de ensino está aninhada, constatamos que a liberdade destinada ao professor está circunscrita em um espaço bastante restrito, a partir de regras bem definidas e por meio de uma acomodação às condições da realidade que se impõem. Queremos dizer que, reforçando o que é defendido por Gimeno Sacristán (1999b, p. 72), “(...) o discurso sobre os professores esquecem que as margens da autonomia estão balizadas por questões políticas e históricas, que condicionam o diálogo entre a teoria e a prática”. Evidentemente, não só há espaço para expressões individuais autônomas, como elas são desejáveis. Contudo, “(...) a imagem do professor completamente autônomo é tão irreal como crer que as respostas são ações meramente adaptáveis a situações herdadas” (GIMENO SACRISTÁN, 1999b, p. 72). Optamos, assim, por fazer a análise das falas dos PCs entrevistados, dividindo esse item em três partes, cada uma destinada a um dos sujeitos. A cada uma dessas partes, organizaremos as falas a partir de uma temática que nos pareceu mais em evidência no discurso de cada um deles, numa espécie de “cenas da autonomia”. Para o S1, decidimos organizar a fala sob o título “A autonomia tem limites”. Para S2, nossa organização se dará em torno da ideia de “A autonomia exige conhecimento”. Finalmente, para S3, apresentaremos “A autonomia como esforço pessoal”. Sigamos então... Cena 1: A autonomia tem limites E: E como você prioriza conteúdos [para a formação dos professores]? S1: Por isso que eu falo da autonomia. Eles não impõem... e você acaba tendo que selecionar algumas coisas. Verifico o que eles têm mais dificuldades, o que eles estão mais errando, tanto eles como eu, do que eles estão precisando de mais discussão, de conhecimento teórico para poder ter uma atuação na sala de aula. E: Mas nos encontros de formação são determinados alguns conteúdos. Eu também analisei a pauta da formadora, antes de analisar a sua e percebi, por exemplo, que, no primeiro semestre, a formadora trabalhou com leitura compartilhada e fluência leitora. Vi que isso apareceu em sua pauta também. Então, esse conteúdo vem determinado pela formadora? S1: Sim. E: E isso tem que aparecer na escola ou você poderia optar por não trabalhar com isso? Onde fica a questão da imposição, então? S: Tem que aparecer na escola, a partir do momento que você percebe que isso não é trabalhado na escola e, nessas formações, eles estão trabalhando, justamente, com coisas que eles observam que não é trabalhado na escola. E: Então, a formadora já vem com algo selecionado que imagina que vai servir e, em geral, isso é coerente com a realidade da escola? S: Isso. Exatamente. E: E de onde eles tiram a informação do que precisa na escola? Por que eles geralmente acertam? Já pensou nisso? S: Eu imagino que seja por conhecer a concepção do professor, que o professor não é aquele camarada que busca, não é? Eles fazem algumas visitas na escola, o pessoal da diretoria visita a escola toda semana e as professoras têm uma rotina semanal onde elas têm que colocar o que vão trabalhar durante a semana e aquilo é também um indicador do que está sendo trabalhado e o que não está sendo trabalhado. (Trechos da entrevista de S1, grifos nossos) Como pudemos perceber, existe, no discurso do sujeito em questão, uma defesa, a priori, pela ideia de que a autonomia existe e que as imposições não são feitas pelo sistema, seja pela formadora da equipe central ou pela DE. Contudo, quando levada a refletir sobre o que foi analisado em suas pautas, percebemos uma contradição, nesse mesmo discurso, que não é considerada pelo sujeito. Segundo S1, a condição para um conteúdo ser eleito para a formação dos professores é que seja detectada sua necessidade, por parte do PC, quanto àquilo que ele considera que seus professores precisam “aprender”. Todavia, ela nos coloca que tudo o que é trazido pela formadora é necessidade da escola, pois “eles” sabem (por experiência e por controle – as visitas realizadas nas escolas e os instrumentos técnicos do professor) o que, de fato, os professores estão precisando. Interessante o uso do pronome “eles” quando S1 refere-se ao sistema, de maneira geral. Parece trazer uma ideia subjacente de algo indefinido, oculto, ou até mesmo, indeterminado. Esse “eles” não é personificado, não é personalizado, nem individualizado; como se tais decisões não fossem pensadas por pessoas que, a partir de determinado lugar hierárquico, decidem por aqueles que não têm condições, ou não estão aptos a fazê-lo. Isso significa dizer que, ao mesmo tempo que o PC tem uma suposta autonomia para fazer suas escolhas formativas, o que vem a ele como uma demanda de trabalho, já pensada por terceiros, precisa ser acatada, pois sempre será pertinente às reais necessidades de sua escola. Porém, vale lembrar o que Contreras (2002, p. 181) postula, quando diz que “(...) tal autonomia é enganosa. O ensino entendido como aplicação técnica, como prática dirigida à obtenção de resultados ou produtos previamente definidos, não é uma prática criativa, e sim apenas reprodutiva...”. Quando o professor é reduzido a um mero profissional técnico e lhe é ceifada a capacidade de manifestar-se politicamente, o que vemos ser produzido é uma autonomia ilusória, como afirma Contreras (2002). Nesse sentido, é preciso reforçar que: (...) a política estabelece, a partir de sua definição das ‘necessidades sociais’, as finalidades e objetivos que deverão ser alcançados pelo sistema educacional; os especialistas e acadêmicos dedicam-se à difusão das novas iniciativas curriculares, a desenvolver discursos e processos de racionalização prática (novas técnicas de programação e avaliação) e materiais curriculares ad hoc, e os professores aplicam os novos processos e materiais para alcançar os objetivos oficiais. De qualquer modo, o que parece ficar fora do trabalho acadêmico e técnico é a própria política educacional, que acaba “imune a qualquer referência fora de si mesma. Simplesmente dirige a prática educativa e suas diretrizes não podem ser colocadas em questão”. (HALLIDAY, 1990, apud CONTRERAS, 2002, p. 103) Como podemos pensar em um profissional reflexivo, se lhe fazemos exigências que não podem ser descumpridas em nome de algo que já se sabe como importante? O que é preciso pensar é – em relação ao já sabido –, quem sabe, como chegou ao sabido, quais caminhos percorreu para considerar que aquilo fosse, de fato, tão importante a ponto de ser necessário a todos? Questões como essas são negadas por uma política que, nos ditos de Contreras (2002), fica imune e alheia ao processo decisório que deve ocorrer em âmbito escolar. Quando relegados a um plano em que se excluem os sujeitos do processo decisório sobre as ações educativas a serem realizadas na escola, de maneira geral, dificilmente conseguimos a adesão e o sentimento de pertença da qual nos falam Placco, Almeida e Souza (2011). De alguma forma, o papel de convencimento, que deve ser exercido pelo PC, torna-se uma tarefa quase hercúlea, pois, nesse processo unilateral, é bastante comum que os professores, ou coloquem-se contra às propostas, recusando-se a executá-las, ou silenciem reacionariamente, simulando uma falsa aceitação. Defendendo que a educação não pode ser determinada de fora, Contreras (2002, p. 129), citando MacDonald (1991), afirma que: É muito difícil para aqueles que estão fora das escolas melhorar a qualidade do que estas proporcionam (...). É a qualidade dos próprios professores e a natureza do seu compromisso para mudar o que determina a qualidade do ensino e da melhoria da escola. Os professores são, em geral, pobres realizadores das ideias dos outros. O desenvolvimento dos professores é, por conseguinte, (...) uma precondição para o desenvolvimento do currículo. Sua compreensão, seu sentido de responsabilidade, seu compromisso para proporcionar de maneira efetiva experiência educativa para seus alunos, aumentam significativamente quando eles são os proprietários das ideias e os autores dos meios pelos quais essas ideias se traduzem em prática na sala de aula. Não estamos aqui defendendo qualquer espécie de motim ou oposição às políticas curriculares, até porque entendemos que, enquanto definição dos mínimos esperados e unificação de oportunidades de um ensino mais igualitário a todos, ela se faz necessária. Contudo, concordamos com Gimeno Sacristán (2000, p. 147), em pensar que o professor, e também o PC, têm “(...) importantes margens de autonomia na modelação do que será o currículo na realidade”. Conforme já apontava Apple (1984, apud GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 150), “(...) o currículo da maioria das escolas (...) não é determinado pelos cursos de estudos dos programas sugeridos, mas por um artefato: em particular, o livro-texto concreto, padronizado...”. Nesse sentido, é compreensível que os materiais, inclusive o do Programa Ler e Escrever, tenham um peso importante na estruturação real do currículo na sala de aula. Por isso mesmo, é preciso que, no processo de mediação entre a política curricular e o cotidiano da sala de aula, sejam garantidos espaços de autonomia, nos quais os profissionais possam atuar em busca de uma espécie de emancipação intelectual que lhes garanta autoria em suas ações. O que percebemos, na fala de S1, é que esse espaço não é concebido como uma possibilidade: talvez mesmo por falta de emancipação crítico-cultural do próprio PC. Enquanto esse sujeito não se der conta de que as propostas funcionarão, mais e melhor, quando for garantido, ao professor, a possibilidade de reflexão sobre as tomadas de decisões, ele viverá num eterno embate intelectual com seus pares. Entendemos, assim, que, ao PC, falta o vislumbre de que: (...) a dependência do professor quanto a estes meios [os livro-textos], autênticos planejadores da prática, reflete a autonomia profissional real que tem o professor num aspecto que, à primeira vista, é verdadeira competência profissional dos docentes. (GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 151) Com isso, percebemos, a partir do recorte da fala de S1, de que autonomia estamos falando e de lugar o sujeito considera a abertura para isso. Mas essa não é a única ideia presente... Partamos para a próxima cena! Cena 2: A autonomia exige conhecimento E: E você acha que as professoras estão satisfeitas com esse trabalho? Se elas pudessem escolher, ou se você pudesse escolher, seguiriam nessa mesma linha do Programa? S: Eu acho que o problema delas também parte do tempo, por exemplo: as que estão há mais tempo também comentam de quando nós tínhamos aquele horário ampliado de estudo, aqueles seis HTPCs em que estudávamos o material... elas também comentam isso... Porque elas não vão pegar o guia e levar pra casa, mas se tivessem mais tempo para estudar na escola, elas fariam isso. Então, acredito que elas sentem isso e gostam do material, quando entendem a proposta, o Programa... E: E como formadora de professores, você sente que tem liberdade em fazer as escolhas que acredita necessárias ou sente-se controlada, cerceada por alguém, pela Diretoria, pela formadora ou pelos índices? Enfim, quanto você acha que tem de espaço para você atuar de maneira autônoma? S: Quanto a isso, eu acho que tem liberdade sim. A Diretoria de ensino, no caso as PCOPs, sempre estão na escola, leem as pautas, veem o nosso trabalho... E: E você não sente isso como uma cobrança? S: Tem o olhar da cobrança também, mas por mais que o olhar da escola tenha essa diferenciação de ideias, a diretora dá muita autonomia. Eles vêm olhar seu trabalho, mas você também tem autonomia naquilo que tá fazendo. Eu vejo isso! Por exemplo, as vezes nós temos as reuniões, as orientações e assim: “ah, você vai fazer a pauta, ok, mas nós temos isso para você, essa sugestão...”, ou às vezes, sou eu mesmo que sugiro outra forma de trabalhar aquele mesmo assunto. Então, eu vejo que tem autonomia, sim. Agora, eu uso muito da formação porque eu estou aprendendo e não tenho o domínio de todo esse assunto. Então, por isso, a formação me dá um suporte muito grande! E: Então, você acha que mesmo trabalhando em um programa que é institucional, obrigatório e mesmo que lá na sala de aula, alguns professores encontrem válvulas de escape, como você disse, você acha que ainda que esteja nessa condição de ter toda uma prescrição e um controle por resultados, dentro dessa política de metas e bonificações salariais [risos do sujeito], mesmo assim você tem espaço para uma atuação como formadora autônoma? S: Sim, eu acredito que sim. Veja, se eu tivesse toda a propriedade e o conhecimento sobre o programa e sua concepção, eu teria mais liberdade para fazer minhas escolhas e você não veria, por exemplo, as minhas pautas tão próximas as da Maria18, não é? Mas eu preciso dessa formação, então por isso que elas são bem parecidas. E: Então, você está me dizendo que quanto mais conhecimento, mais liberdade? S: Com certeza, com certeza! E: Mas você considera que é porque eles [os conteúdos] são importantes ou porque é uma determinação? Você teria a possibilidade de escolher não trabalhar esses conteúdos defendidos pela formadora ou pela DE ou você acaba fazendo por ser uma diretriz? S: Os dois pontos. Porque é uma diretriz, mas também por eu achar que são conteúdos muito importantes. Eu parto desse princípio: elas precisam saber esse conteúdo. Porque durante as formações, o que eu percebo, é que muitas vezes elas fazem aquilo, por exemplo, o trabalho com leitura, elas até fazem, mas não com propriedade ou com o conhecimento que elas poderiam ter. (Trechos da entrevista de S2, grifos nossos) No excerto da entrevista de S2, podemos perceber uma outra ideia presente: a de que autonomia é alcançada com mais conhecimento. Essa nos pareceria uma ideia aceitável, caso estivéssemos falando de conhecimento em linhas gerais, aquele que !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! &%!O nome da formadora foi alterado para garantir anonimato às informações. contrapõe à ignorância, pois é ele quem nos dá a ferramenta essencial ao discernimento necessário para fazer nossas próprias escolhas. Contudo, o que nos parece premente, na fala de S2, é um ponto de partida que considera o conhecimento técnico, específico, sobre um determinado objeto. Parte de um pressuposto de que autonomia é algo indissociável de domínio especializado sobre o assunto. Não compartilhamos dessa posição, por entendermos que isso seria reduzir demais o que se pretende como autonomia no profissionalismo. Conforme postula Gimeno Sacristán (2000, p. 165), “(...) se currículo é uma prática, isso significa que todos os que participam nela são sujeitos, não objetos, isto é, elementos ativos” (grifos do autor). Assim, autonomia é uma prática que também se constrói no exercício diário de quem busca soluções para os conflitos cotidianos, encontrando-as colaborativamente entre seus pares. Esperar pelo momento em que teremos todas as respostas necessárias, ou saberemos encontrar todas as chaves que abrem as mais complicadas passagens, é ter uma visão muito idealizada sobre o cotidiano escolar. Além disso, é acreditar-se com ousados poderes para chegar ao conhecimento pleno de determinado objeto. Citando Stenhouse, é Contreras (2002, p. 130) quem nos provoca dizendo: Como podemos nós, professores, conhecer o que se deve fazer? Uma resposta possível é que teremos de receber instruções em forma de currículo e de especificações sobre os métodos pedagógicos. Pessoalmente rejeito essa ideia. A educação é um aprendizado no contexto de uma busca da verdade. A verdade não pode estar definida pelo Estado, nem sequer por meio de processos democráticos: um controle estrito do currículo e dos métodos pedagógicos nas escolas é equivalente ao controle totalitário da arte. Alcançar a verdade por meio da educação é um assunto de juízo profissional em cada situação concreta, e os professores de educação ou os administradores não podem nos indicar o que devemos fazer. As recomendações variarão em cada caso. Não necessitaremos de um médico se o que este nos indicar for um tratamento prescrito pelo Estado ou sugerido por seu professor, sem sequer nos ter examinado e diagnosticado previamente. Em contrapartida, também não acreditamos que tudo deva estar somente nas mãos do professor, uma vez que toda prática, que se pretenda reflexiva e emancipatória, acontecerá sempre considerando o contexto social na qual está inserida. Entendemos autonomia não como um bem pessoal, mas como uma conquista coletiva, em prol de toda a ação que se pratica. Mas como fazê-la quando os limites de atuação são tão definidos? Gimeno Sacristán (2000, p. 168) nos faz pensar que “(...) a autonomia sempre existe, mas suas fronteiras também”. Essa consciência da parcialidade da autonomia é importante para que se vislumbrem os horizontes onde se pretende chegar. Entendemos, então, que um dos elementos que impõem uma certa parcialidade à autonomia é a ação política. Quando os professores são excluídos do processo decisório sobre suas ações pedagógicas e seus únicos interlocutores são a política e os aparelhos da administração, não sobra muito para essa relação a não ser desobediência, engodo, acriticidade e pouca autonomia (CONTRERAS, 2002). Pensar da forma como apresentada por S2 é, de certa maneira, retrato de um produto do discurso implementado por essa política educacional que determina os modos de ser e de atuar como profissional. Contreras (2002, p. 228) nos lembra que: As reformas não são apenas mudanças que se introduzem na organização e no conteúdo da prática educativa, mas também formas de pensá-la. Ao fixarem algumas preocupações e uma linguagem, estabelecem não só um programa político, mas um programa ideológico em que todos nos vemos envolvidos. Nesse envolvimento ideológico, instala-se uma espécie de miopia que faz com que o sujeito entenda que há liberdade e autonomia, mesmo quando tudo já está previamente definido. Na fala de S2, temos a afirmação de que existe autonomia no seu fazer ou, ainda, de que é o outro (a diretora, “eles” – novamente), que concede essa autonomia. Assim, parece-nos que o que é entendido como uma prática autônoma reduz-se ao como proceder diante de uma ação que já foi pensada. É como se o limite ou a fronteira da autonomia fosse restrita ao “toque pessoal” de cada PC e, garantindo tal personalidade à ação, a autoria já estaria, por consequência, também garantida. Curioso é, portanto, o fato dos PCs entrevistados entenderem essa margem de ação como suficiente para uma prática autônoma. Surpreendemo-nos com a sofisticação de um discurso progressista na superficialidade, mas extremamente conservador e frágil, quando mais “cutucado” ou provocado. Quando, no Cap. II, fazíamos a análise documental da legislação e dos documentos publicados pela SEE/SP, em especial sobre o PC, encontramos um discurso oficial que defendia a autonomia, a reflexividade e a criticidade como elementos fundantes da identidade desse profissional. Indicava-se, ainda, a importância de se evitar uma postura prescritiva e pouco democrática para com o grupo docente. Na ocasião, apontamos o quanto tal discurso nos parecia contraditório, na medida em que impulsionava uma dissociação entre a teoria discurso e a prática imposta: o programa curricular definido como oficial para toda a rede estadual de ensino paulista. Apontávamos, ainda, a incoerência teórica usada como base nos pressupostos epistemológicos do Programa Ler e Escrever, uma vez que a teoria construtivista pressupõe uma autoria do sujeito sobre o objeto a ser dominado. Aqui, essa reflexão nos volta na medida em que nos deparamos com o discurso de um sujeito, que faz parte desse processo, e que parece ter incorporado ideologicamente, embora não conscientemente, os princípios dessa política que toma para si o processo decisório, mas que faz com que os sujeitos creiam que a decisão está nas mãos deles. Assim, é inevitável recorrer a Contreras (2002, p. 235-236), quando nos brinda com uma indagação que parece ter sido elaborada para essa situação, quando defende que: (...) podemos estar diante de uma noção ambígua de autonomia, já que ao mesmo tempo que se propõe a implicação e a criatividade dos professores na inovação da educação, a autêntica iniciativa dessa maneira de entender a melhoria educativa volta a estar nas mãos de especialistas e políticos, que agora esboçam outro tipo de influência sobre as escolas e professores. Se antes se tratava de introduzir produtos acabados (materiais didáticos, uma técnica docente, um projeto curricular), agora se tende a introduzir as estratégias e processos (formação nas escolas, desenvolvimento participativo, reflexão sobre a prática etc.) que se espera que conduzam os docentes a elaborarem seus próprios produtos. Isto significa mais autonomia profissional ou uma mudança de lugar do controle: do controle dos produtos para o controle dos processos? As atuais inovações ou reformas são processos de experimentação a partir de baixo, controlados por especialistas que requerem maior autonomia dos professores para melhor dirigi-los a determinados fins? Suporia um aumento da autonomia dos professores tão somente uma ampliação das margens de manobra para melhor conseguir sua colaboração em vez de sua resistência? Nesse sentido, a introdução do processo de formação na escola talvez esteja reforçando a ideia presente, na fala de S2, de que a autonomia só será possível quando alcançado o lugar de quem já conhece tudo sobre o Programa: da concepção teórica às estratégias docentes. Para quem ainda não chegou lá (alguém teria chegado ou um dia chegará?), resta seguir o que “seu mestre mandar”. Isso nos parece bastante claro, no trecho em que o sujeito diz: “(...) se eu tivesse toda a propriedade e o conhecimento sobre o programa e sua concepção, eu teria mais liberdade para fazer minhas escolhas”. Sem a pretensão de esgotar a discussão sobre autonomia, partamos, então, para o trecho referente ao S3, no qual decidimos usar o tema “a autonomia como esforço pessoal”. Não aleatoriamente, optamos por essa ordem de apresentação das ideias. O que nos moveu para essa organização não foi a numeração dada aos sujeitos, mas o fato de que tais ideias parecem-nos hierarquicamente complementares. Cena 3: A autonomia como esforço pessoal Deixamos para essa última parte, um trecho de entrevista que, ao referir-se à questão da autonomia, de alguma maneira, retoma as ideias anteriores, ao mesmo tempo em que acrescenta um elemento novo: o esforço pessoal como condicionante de uma prática menos limitada e mais autônoma. Vejamos: E: Qual você considera ser o espaço da sua autonomia? S: Vem uma demanda de trabalho e tenho liberdade para fazer adaptações dele com os dados da minha escola, justamente para as professoras terem a visão de como estão nossos alunos. **** E: E de onde surgiu esse conteúdo, por exemplo? S: Essa escolha não foi minha. Temos reunião com a formadora da equipe central e temos de apresentar essas situações a ela. **** S: Não acho que sou controlada, nem limitada. Eu consigo seguir, mas já fui melhor. O tempo foi passando... às vezes falo para mim mesmo que eu tenho que mudar, tipo assim: “alguém está te vencendo”. (Trechos da entrevista de S3, grifos nossos) No primeiro trecho selecionado dessa entrevista, vemos uma defesa muito próxima à realizada pelo S2, no sentido de entender a autonomia como o espaço “permitido” para as adaptações em cima do que é proposto. Já, no segundo trecho, vemos uma aproximação com S1, quando contraditoriamente, após afirmar que existe autonomia em seus atos, aponta que nem todas as escolhas são feitas por ela, mas a partir de uma demanda imposta de fora. Finalmente, no terceiro trecho, aparece-nos uma nova ideia: a de que autonomia pressupõe a não desistência, o não “deixar-se vencer”. Agora, façamos uma análise mais detalhada. Neste terceiro trecho, a PC inicia dizendo que não se sente controlada, mas que já conseguiu “seguir mais”, que já foi melhor. Entendemos, aqui, que ela defende que sempre realizou uma prática na qual seguia o princípio de não ser controlada, de lutar contra aquilo que não lhe parecia adequado. Mas, em seguida, aponta o tempo – essa PC já tem mais de 25 anos de trabalho na educação – como um fator que, de alguma maneira, fez com que ela perdesse aquela primeira identidade de resistência, lembrada, inclusive, com saudosismo. Nessa lembrança, parece que retoma a importância de não se deixar abater, não se deixar vencer. Aqui, nos questionamos: quem ou o quê a estaria vencendo? Considerando o contexto de sua entrevista, fica-nos presente a observação de que é preciso, para atuar como PC, ser persistente e enfrentar, diariamente, conflitos e tensões que acabam enfraquecendo a ação desse sujeito na escola. Tais conflitos aparecem de todos os lados: do sistema, dos órgãos administrativos, da repressão dos índices, da direção da escola, dos professores, de pais de alunos e, também, do próprio sujeito. Nessa permanente pressão, ele acaba entrando em uma crise de desmotivação que, muitas vezes, só é percebida ao longo dos anos, quando, assim como nosso S3, olha para trás e percebe que alguma coisa mudou nele mesmo. Segundo Contreras (2002, p. 253-254), o que se observa é que: A estabilidade trabalhista e a falta de estímulo para a realização de seu trabalho conduzem à apatia e ao desinteresse, já que nada está “em jogo”. A impossibilidade de tomar iniciativas, de adquirir responsabilidades e, portanto, de assumir riscos e de poder obter benefícios os leva à desmotivação. Sua recuperação depende da introdução de elementos de variação e de risco, que são os que caracterizam a competitividade da empresa privada. Mas, como falar em falta de responsabilidades, quando o que mais é conferido ao PC são muitas e novas incumbências e demandas de trabalho? Nesse sentido, é Gimeno Sacristán que nos fala de uma espécie de irresponsabilização que é depositada ao professor – no nosso caso, ao PC – em relação a sua prática docente, em nome de “(...) uma compreensão da dialética entre as expectativas externas e os projetos internos que permite- nos evitar a afirmação ingénua da autonomia e da criatividade profissional dos professores” (GIMENO SACRISTÁN, 1999b, p. 71). Com esse contexto, no qual o sujeito vê-se impossibilitado de compatibilizar suas ideias com a realidade com que lida, diariamente, em seu cenário profissional, assenta-se essa relativa irrresponsabilização dos docentes, por não poderem responder pelas decisões que foram tomadas a priori e a despeito do seu posicionamento profissional. Para uma mudança de cenário, Gimeno Sacristán (1999b, p. 77) coloca-nos como condição, dentre outros elementos, que o professor participe “(...) ativamente no desenvolvimento curricular, deixando de ser um mero consumidor”, alcançando aquilo que Giroux (1997) defende como o resgate da imagem do professor como intelectual. Com essas reflexões postas, pensamos que pudemos abarcar uma visão daquilo que os sujeitos entrevistados acreditam como autonomia que, no nosso entender, configura-se muito mais como uma autonomia aparente, do que como uma autoria genuína. Nenhuma mudança educativa é neutra, nenhuma ação nesse sentido é despida de princípios políticos e ideológicos. Ter em mente o que está subjacente a tais mudanças, é condição para a reivindicação de participação em tal processo. Como aponta Popkewitz (1991, apud CONTRERAS, 2002, p. 268): (...) devemos encarar as mudanças políticas como transformações que geram novas formas de controle e novas redistribuições das formas de exercer o poder, de modo que o que aparentemente é uma entrega de capacidades de decisão, logo resulta ser uma nova forma de situar a relação entre aqueles que exercem o controle e aqueles que creem tê-lo conquistado. E a lucidez é especialmente necessária porque, nestas mudanças, os antigos problemas sempre desaparecem, mas disfarçam sua presença ou se transformam em outros novos. De uma maneira ou outra, essa transformação dos problemas ou o seu disfarce, é sentido por nossos PCs, ainda que eles mesmos não tenham se dado conta disso. 4.3. A dimensão contextual e a dimensão profissional: uma aproximação Conforme nos propusemos no início do capítulo, ousamos fazer como sugere Manoel de Barros em sua linda imagem de “escovar as palavras”. Para esse difícil ofício, usamos, como “escova”, as ideias de alguns autores que nos permitiram, a partir de suas contribuições, tecer reflexões sobre a realidade pesquisada, de forma a deixar o idealismo de lado e partir para o duro enfrentamento dos conflitos educacionais. Historicamente – e todo o referencial teórico aqui utilizado demonstra isso – a coordenação pedagógica da escola é um território minado: repleto de possibilidades e avanços, assim como de obstáculos e retrocessos. Com isso, considerar esse sujeito como foco de uma pesquisa que se assenta numa discussão em torno de políticas educacionais e curriculares, é uma empreitada bastante desafiadora. Lançar mão do conceito de tecnologias políticas de Ball (2005), permitiu-nos olhar para esse cenário de forma realista, considerando os meandros inerentes à ação política e ideológica que não podem ser desprezados. Com isso, percebemos que, no pressuposto neoliberal, a educação é impregnada de uma lógica de mercadologização que fere seus princípios universais: de um direito de todos, transforma-se em produto. Como instituição complexa, a escola não pode ser reduzida a uma simples negociação de mercado, regida pelas leis da concorrência, da performance e da regulação das “qualidades”. Tal racionalidade educativa transforma programas de formação de professores em pacotes formatados de unificação da intelectualidade profissional, ao mesmo tempo em que confunde os sujeitos e os faz acreditar que o discurso imposto é o deles também, pois são os responsáveis pelo sucesso desse processo educativo. Percebemos, na análise das entrevistas realizadas, que estes mecanismos de controle são tão sofisticados, a ponto de envolverem os sujeitos e fazê-los a atuar com tamanha naturalidade, em relação a essa regulação, que ela passa a se tornar invisível. Entendemos que as tecnologias políticas propostas por Ball (2005) – forma de mercado, gerencialismo e performatividade – aproximam-se e relacionam-se com as formas disciplinares anunciadas por Foucault (2006): as que pretendem controlar os indivíduos (vigilância hierárquica, sanção normalizadora, exame e panoptismo) e as que pretendem controlar as massas (biopoder). Do ponto de vista da ação política, interessa que os professores sejam meros executores da proposta oficial, sem que isso passe por interpretações individuais. Daí, a ideia de controle feita a partir de dentro: alguém deve atuar como gerente/gestor/líder para corrigir os desvios de rota. Esse papel cabe ao PC, que o fará de forma a aplicar os princípios das relações de poder que, de tão institucionalizadas, tornam-se naturais e até imperceptíveis. Contudo, esse controle não é somente exercido pelo PC, mas também sobre ele, na medida em que é levado a prestar contas de seu trabalho em diferentes instâncias: em uma mais individualizada, nos encontros de formação com a SEE/SP, na entrega de documentação à DE e aos órgãos oficiais, e em outra mais coletivizada, quando da publicação dos índices de desempenho de sua escola. O que não é levado em conta pelo sistema é que nenhuma política é implementada sem que sofra uma tradução daqueles que a aplicam nos contextos da prática. O conceito de policy enactments, de Ball (2006), explica-nos o quanto as políticas são colocadas “em cena” (ROSA, 2012) pelos sujeitos, numa tradução, em atos, absolutamente de forma subjetiva. Como defende Gimeno Sacristán (2000, p. 172): Ver os professores como meros executantes da política imposta desde cima é incorreto. Os professores distorcem essa política antes de serem fiéis aplicadores... para adaptá-la às necessidades que percebem em seus alunos, de modo que o conteúdo ensinado a estes é provavelmente um compromisso entre o conteúdo oficialmente adotado e as necessidades dos alunos tal como o professor as percebe. Parece-nos que essa tradução não é percebida pelos sujeitos entrevistados, saltando aos seus olhos apenas aquilo que consideram como um não-saber do professor. Cabe a ele, então, tentar corrigi-lo; mas não à força, nem tampouco soberanamente, porém pelo convencimento insistente e pela parceria que se estabelece entre sujeitos que, de alguma forma, tentam colaborar entre si. Nesse espaço parece entrar a autonomia tão perseguida nessa pesquisa. Percebemos que falar de uma autonomia total é ingenuidade, uma vez que as liberdades são reguladas por sistemas políticos, institucionais e curriculares inevitáveis. Toda autonomia é relativizada em virtude dos limites de atuação que se colocam aos profissionais, por isso é imperioso vê-la a partir do quadro de determinantes da prática. O que vimos acontecer, a partir das falas dos sujeitos entrevistados, é que esses parâmetros, que determinam as práticas, “(...) são aceitos como algo natural, fora de toda discussão e sem entrever, portanto, outras alternativas, à medida que são valores e práticas aceitos acriticamente”(GIMENO SACRISTÁN, 2000, p. 168). Assim, nosso pressuposto de que havia uma ação de reprodução de práticas, em maior escala, do que de práticas verdadeiramente autoras, é desconstruído pelos sujeitos que enxergam, no seu fazer, uma liberdade concedida pelo outro (pelo sistema, pela DE, pela diretora da escola...) e uma autonomia legitimada pelo fato de poderem “fazer adaptações” naquilo que é proposto oficialmente. Isso para eles é autonomia! Supúnhamos que, quando questionados sobre todo o controle explícito que é realizado pelo sistema, os sujeitos apontariam o quanto sentem a usurpação do seu direito de participar, como profissionais, do processo decisório sobre a prática educativa. O que encontramos, em contrapartida, são sujeitos que circunscrevem sua autonomia numa margem de atuação muito limitada; que embora não deixe de se configurar como autonomia, entendemos não ser suficiente para garantir a intelectualidade profissional. Contrariando o que é defendido por nossos sujeitos entrevistados, entendemos que o conhecimento que se tem sobre os preceitos do Programa, que caracterizam um currículo, engessam mais que libertam. Nesse sentido, concluímos com Gimeno Sacristán (2000, p. 173-174), quando nos provoca a pensar que: A relação entre conhecimento e prática condiciona os limites da autonomia de quem governa e planeja. Um médico que atua dentro da medicina chamada científica tem maior grau de dependência do conhecimento do que um professor, por exemplo, e, portanto, menor autonomia pessoal na hora de “inventar” a atuação profissional. Ambos realizam práticas mais “criativas” do que um mecânico neste mesmo sentido, já que o “bom funcionamento” de um motor está mais definido e governado de forma mais precisa pelo conhecimento técnico correspondente do que pode estar o conceito de “boa saúde” ou de “bom ensino”. Consequentemente, o profissional do ensino pode recorrer ao exercício de atividades muito diversas que caem dentro do que podem ser versões ou modalidades variadas da profissionalização docente. O ensino é uma atividade difusa, na qual cabem uma infinidade de tipologias de atividades ou tarefas, o que proporciona potencialmente um alto grau de autonomia aos profissionais que a exercem. Nesse sentido, então, entendemos a aproximação entre as dimensões contextual e profissional, pois parece impensável uma atuação criativa e autônoma, assim como defende Gimeno Sacristán (2000), sem se considerar que o ofício educacional compreende a articulação entre o domínio técnico do fazer, com a avaliação realizada por ele das necessidades formativas dos sujeitos atendidos, bem como com todo o mosaico de elementos que normatizam sua ação, nos âmbitos político, institucional e curricular. Considerações Finais Todo conhecimento humano é incerto, inexato e parcial. Bertrand Russell (1930) O que quer que eu tenha dito ou escrito não deve ser visto como dotado de qualquer pretensão à totalidade. Eu não pretendo universalizar o que eu digo. Por outro lado, tudo o que eu não tenha dito não pode ser desqualificado como sem importância. Meu trabalho localiza-se entre as fundações de uma edificação e seus pontos de suspensão. Michel Foucault (1992b) Conforme dito na introdução desse trabalho, o tema da pesquisa tem estreita relação com o percurso pessoal e, principalmente, profissional da pesquisadora. Saliento, ainda, que foi tomando corpo e força ao longo da minha trajetória como aluna do Programa de Mestrado, em especial, nas discussões dos dois grupos de pesquisa de que fiz parte e que muito contribuíram para ampliar minhas reflexões, ora refutando-as, ora negociandoas, ora trazendo muitas dúvidas, ora algumas certezas, mas, principalmente, o desejo pela continuação da pesquisa. A alfabetização sempre foi um tema de grande interesse enquanto professora, e, agora, enquanto pesquisadora tornou-se um objeto que desperta grande fascínio em mim. Não os processos pelos quais os sujeitos passam durante sua alfabetização ─ embora esse aspecto seja pano de fundo em todos os meus estudos ─ mas, em especial, como se dá a tomada de consciência ou de reflexividade dos profissionais que trabalham com alfabetização. Contudo, com os rumos tomados pelas oportunidades profissionais que tive, esse desafio por entender os processos de aprendizagem dos professores foi potencializado, na medida em que, agora, não me era necessário pensar só nesse profissional, mas, também, naquele que forma o professor. Minha entrada no Programa Ler e Escrever, embora não tenha sido a primeira experiência com formação de educadores em programas institucionais, trouxe-me a necessidade de entender alguns mecanismos que fazem o Programa funcionar e que sempre me pareceram um tanto contraditórios, para não dizer, mesmo antagônicos. Em especial interessava-me entender porque, muitas vezes, os pressupostos teóricos que embasam as propostas de formação continuada iam de encontro aos princípios políticos que fazem funcionar estas mesmas propostas. A rede estadual paulista foi o lócus que me possibilitou uma aproximação a esse antagonismo, principalmente, por adotar um concepção teórica na qual sempre acreditei e defendi como profissional especializado em alfabetização: o construtivismo. No âmago dessa reflexão, essa pesquisa foi sendo gestada com a elaboração de algumas questões norteadoras, que ajudaram a fazer tomar corpo uma inquietação profissional: como ajudar o professor coordenador a atuar, de fato, como formador de professores, de maneira que, sem transgredir os pressupostos do Programa, no qual tal formação está inserida, ele possa agir de forma a colocar em prática sua autoria profissional? Reconheço que essa é uma inquietação ousada e, por isso, não tive a pretensão de buscar resolvê-la nessa pesquisa, mas encontrei muitos pontos importantes de reflexão que me ajudaram a dar início ao processo de “desatação dos nós” encontrados. Como objetivo geral, essa pesquisa buscou, então, conhecer a prática do PC como formador de professores alfabetizadores, no contexto do Programa Ler e Escrever. Como objetivos específicos, elegemos dois principais: 1) investigar, pelo olhar do PC, o quanto o Programa Ler e Escrever investe na construção da autonomia desse sujeito como formador de professores; e 2) compreender que escolhas formativas o PC prioriza na formação de professores alfabetizadores (didatização de conteúdos, estratégias usadas, processo de planejamento, socialização e mediação de conhecimentos, entre outros). Tais objetivos foram formulados na tentativa de responder à nossa questãoproblema: o PC exerce sua autoria profissional quando atua como formador de professores em um programa institucional? De posse de tais elementos norteadores, partimos para nossa pesquisa, a fim de buscarmos fundamentações que nos permitissem algumas aproximações com o tema, a fim de ousarmos possibilidades de pensar em limites, tensões, provocações, confrontos de posições (institucionais, teóricas, profissionais) e uma abertura para que a denúncia funcionasse como o vislumbrar de um novo (ou nem tanto assim) anúncio. Considerando os alcances/limites circunscritos no contexto de uma pesquisa de Mestrado (temporais, intelectuais, institucionais, profissionais, entre outros), nos permitimos pontuar que a investigação nos fez perceber que o espaço para uma atuação, de fato, autônoma, é restringido pelos limites impostos pela política que rege o Programa Ler e Escrever. Dizemos isso porque, à luz do referencial teórico utilizado, em especial, nesse caso, as contribuições de Ball (1994, 2001, 2004, 2005, 2006, 2008, 2011) e Foucault (1992, 1996, 2006, 2012), percebemos a força que as tecnologias políticas, transformadas na lógica dos movimentos reformistas educacionais neoliberais (como o que aconteceu no Estado de São Paulo, a partir da década de 90), exercem sobre as instituições e os sujeitos, ou ainda, nas escolas e em seus profissionais. Isso significa dizer que constatamos uma contradição entre os pressupostos pedagógicos do Programa Ler e Escrever (de base construtivista) e os seus pressupostos políticos (lógica neoliberal, ou ainda, da Terceira Via), na qual o Estado deixa de ser o grande regulamentador para dar espaço para organismos supranacionais, encarregados da integração econômica mundial, ajuda e cooperação internacional (como FMI, OCDE, UNESCO, Banco Mundial19), conforme refletimos ao longo do Capítulo I. Como nos aponta Mortatti (2010, p. 447), “(...) são discursos que nem sempre convergem, mas que têm em comum a promessa da inclusão, progresso e desenvolvimento, riqueza, democracia, igualdade e qualidade de vida para todos que se inserirem no mercado e na cultura globais”. Com o aprofundamento que nos propusemos no Capítulo II, é preciso salientar o quanto a pesquisa nos mostrou a interessante relação de poder que tal política insere nos sistemas educacionais, de maneira capilarizada, não só entre secretarias de educação e suas instituições escolares, bem como dentro das próprias escolas; uma vez que a lógica mercadológica da educação promove sujeitos que se autorregulam e que competem mutuamente o tempo inteiro. E se isso não bastasse, não lhes sobra outra alternativa a não ser adequar-se a esse pressuposto, pois a publicização dos índices de competência e eficácia das instituições pune ou beneficia, inclusive financeiramente, os sujeitos envolvidos e responsabilizados por tais resultados. Ao pensar nessa responsabilização (accountability, conforme BALL, 2005) dos professores, é imperativo que pensemos no que nos traz Gimeno Sacristán (1999b, p. 75) sobre o princípio da irrresponsabilização relativa dos docentes; uma vez que, se partimos do pressuposto de uma possível incompatibilidade entre suas ideias e a realidade que se !!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! 19 Fundo Monetário Internacional, Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, respectivamente. impõe, os professores, por mediarem “(...) quase todos os processos pedagógicos, não deixam de ser reprodutores e veículos de outras determinações da prática”. No âmago de toda essa engrenagem, temos o Professor Coordenador, sujeito de nossa pesquisa, que recebe toda uma gama de demanda de trabalho e responsabilidades, pois, perante o sistema, ele é o eleito para, institucionalmente, fazer o Programa acontecer. Somado a isso, temos um profissional cheio de fragilidades (formação profissional, dilemas do cotidiano, enfrentamento com seus pares etc) e com a tarefa hercúlea de atuar como formador de professores: especialista em didática da Língua (no caso do Programa Ler e Escrever) e em didática de formação. Munidos de tais reflexões, partimos para a parte mais operacional, digamos, da investigação, imbuídas de uma dúvida latente que nos obrigava a caminhar com o questionamento constante: seriam os profissionais beneficiários e sujeitos das reformas educacionais, ou seriam vítimas dos discursos reformistas e objetos de tal reforma? Nesta fase da pesquisa, quando, então, realizávamos as entrevistas com os sujeitos selecionados, retomamos uma obra que já havíamos utilizado, organizada por Tomás Tadeu da Silva (1998) que, de maneira contundente, provocou-nos com o título “Liberdades Reguladas: a pedagogia construtivista e outras formas de governo do eu”. À medida que íamos partilhando do conteúdo da obra, escrita por diferentes autores, íamos, igualmente, “descortinando os véus”, que pareciam encobrir a tomada de consciência percebida nos PCs entrevistados. Foi um processo revelador e, proporcionalmente, angustiante. Concordamos com Silva (1998, p. 09-10) quando, inspirado nos escritos de Popkewitz, entende que o processo de análise das reformas educacionais, que têm como núcleo ideológico as psicologias e pedagogias chamadas construtivistas (como o caso da que instituiu o Programa Ler e Escrever), constitui-se como uma tendência dos movimentos neoliberais, na qual se percebem evidenciadas as tentativas de ampliação da autonomia dos sujeitos. Ficou-nos evidente a defesa por tal autonomização dos profissionais nos discursos oficiais, na medida em que a adoção de tais pedagogias “(...) partilham do pressuposto de uma oposição entre as estruturas de poder e dominação, de um lado, e a ação autônoma e livre do indivíduo ou grupo, de outro”. Como se isso fosse uma opção profissional, o sistema parece relegar aos sujeitos a escolha entre tomar a frente ou não dos processos decisórios nos quais suas ações estão envolvidas. Na esteira do pensamento de Gimeno Sacristán (1999, p. 65), significa considerarmos que, ao colocar-se nessa posição “democrática” de dar, aos seus profissionais, a opção de escolha pela autonomia, ficamos “(...) condenados a ver os docentes como ‘deformadores’ da bondade estabelecida nas propostas ao explicar os inevitáveis fracassos”. Mas, a esse respeito, nossa pesquisa nos permite considerar a possibilidade de reforçarmos a afirmação de Silva (1998, p.09-10) que, oportunamente, aponta que: (...) uma subjetividade original, essencial, nuclear, não pode constituir o outro do poder, na medida em que a subjetividade (isto é, aquilo que caracteriza o sujeito) não existe nunca fora dos processos sociais, sobretudo de ordem discursiva, que a produzem como tal. O sujeito não “existe”: ele é aquilo que fazemos dele. Subjetividade e relações de poder não se opõem: a subjetividade é um artefato, é uma criatura, das relações de poder; ela não pode, pois, fundar uma ação contra o poder. Como pudemos constatar na análise de conteúdo das entrevistas, Silva (1998) nos ajuda a compreender porque nos deparamos com sujeitos cuja consciência parece bloqueada pela ação exercida por meio das relações de poder que se constituem no âmago do sistema. Como vítimas dos discursos reformistas e objetos da reforma, estes sujeitos parecem acreditar numa autonomia que lhes é concedida pelo próprio sistema, como se uma prática autônoma pudesse ser permitida ou outorgada pelo outro. Não podem, nem lhes parece necessário, lutar contra as amarras impostas pelas relações de poder que se constituem no sistema: ou porque não podem fazer frente a essa opressão e/ou porque, de tão natural, ela nem é mais percebida por tais sujeitos. Em suas falas, encontramos afirmações categóricas de crença em realizarem um trabalho de verdadeira autoria, entendendo que o espaço das “adequações” das práticas pedagógicas, permitidas pelo Programa, seja o suficiente para a garantia de tal ação. Não admitem a existência de qualquer espécie de controle, mesmo afirmando, simultaneamente, que precisam prestar contas (em várias instâncias e sobre diferentes aspectos) do trabalho realizado. Sob o olhar dos PCs, o Programa investe em sua autonomia profissional e lhes garante condições de executar um trabalho de autoria nas escolas. Embora todas as respostas que obtivemos, nesse sentido, indicassem justamente o oposto, percebemos que a contribuição à formação do próprio PC como professor (que pensa sobre alfabetização, em especial, porque todos os nossos entrevistados são PEB I, em seu cargo de origem) é um fator que pesa muito positivamente na visão que esse profissional tem sobre o Programa. De alguma maneira, concordamos que mais conhecimento seja sinônimo de libertação, mas convém lembrar o que Silva (1998, p. 10) nos alerta quando diz que o “sujeito é aquilo que fazemos dele”. Considerar o sujeito como elemento determinante na implementação das políticas é, segundo Gimeno Sacristán (1999, p. 64-65): (...) decisivo para compreender o papel das políticas de inovação, o êxito inseguro das propostas de novos currículos ou os resultados dos programas de formação de professores (difusores de ideias, de conhecimentos e de projetos), quando pretendem incidir na experiência real dos docentes. A estes não se lhes pode pedir obediência e adaptação total aos modelos, porque suas ações não podem ser predeterminadas, a não ser que pretendamos anulá-los como pessoas. O professor, como agente, é sempre intérprete das ideias e das propostas; traduz seus conteúdos. O projeto ou a ideia é como uma partitura para ser lida (...). Estas são notas de esperança que desesperam e exasperam as políticas educativas autoritárias, aos modelos de inovação guiados burocraticamente à margem dos agentes e àqueles que entendem que os modelos de atuação devem ser acomodados aos ditados de modelos teóricos. Nessa perspectiva, faz sentido pensarmos o quanto essa visão de que os discursos dominantes constituem as práticas, é ignorada pelos PCs, quando estes refletem sobre sua ação na escola. Fica-nos evidente como, independente das contribuições teóricas que o Programa possa fornecer aos sujeitos (e acreditamos que realmente forneça), lhes falta um posicionamento crítico que permita questionar, contrapor ou, ainda, reforçar tal discurso como resultado de uma escolha profissional e não, meramente, como uma única alternativa restante. Se entendermos que os discursos pedagógicos representam interesses políticos, não há como desvincularmos deles as relações de poder subjacentes. A força do discurso, contudo, é mesmo inquestionável. Se, como nos coloca Diaz (apud SILVA, 1998), o sujeito pedagógico se constitui dentro do discurso pedagógico, pudemos constatar a eficiência desse discurso oficial, introduzido pelo Programa, tão presente na fala dos PCs entrevistados, em uma demonstração de posse e de domínio que faz crer, aos mais desavisados, que ele é genuíno e original, e não uma reprodução do discurso institucional. Outro ponto que nos chamou a atenção foi justamente o processo que diz respeito à atuação profissional dos PCs como formadores de professores, pois as entrevistas nos indicaram que todas as escolhas formativas por eles priorizadas nas ações de formação dentro da escola são, igualmente, determinadas pelas orientações técnicas dadas pelo Programa. Percebemos que todo o processo de didatização dos conhecimentos, escolha de estratégias, planejamento dos encontros, a construção das pautas, a mediação dos conhecimentos, ente outros elementos, orienta-se em função daquilo que é preconizado pela formadora da equipe central ou pela diretoria de ensino. De posse de tais considerações, então, compreendemos que o contraponto que buscávamos entre reprodução X autoria precisa ser relativizado. Passamos a nos questionar sobre de que autoria estávamos falando ou, ainda, sobre que tipo de autonomia esperávamos encontrar. Percebemos que não é possível polarizar essa realidade, uma vez ser utópico pensar em autonomia absoluta ou em reprodução total. Se entendemos que a subjetividade não faz frente às relações de poder e opressão, mas, ao mesmo tempo, sempre há margens para uma autoria na conjugação entre práticas institucionais, organizativas e didáticas (GIMENO SACRISTÁN, 1999b), é ingênuo e ilusório pensar num profissional absolutamente autônomo ou absolutamente reprodutor. Nesse duelo entre reprodução e autoria, vale lembrar o que postula Gimeno Sacristán (1999b, p. 72-73), quando aponta: As escolas e o posto de trabalho são espaços profissionalmente organizados, antes da existência de seus atores, mas o trabalho dos professores só se pode compreender se se considerarem os aspectos não burocráticos das escolas; é real a existência de múltiplas restrições, condicionalismos e forças socializantes, mas é também evidente que há margens para a expressão da individualidade profissional. Os processos individuais facultam a resistência e a “negociação” com as condições impostas. Parece-nos que tais processos individuais é que se encontram, contudo, em estado de sonolência ou hibernação, embora tenhamos a clareza de que as entrevistas não nos permitem capturar toda a realidade desses profissionais que vivem a escola, o Programa e todas as relações que se estabelecem no cenário educativo. Acreditamos, assim, que tivemos a oportunidade de nos depararmos com um complexo sistema de relações que fazem um programa institucional funcionar como política curricular de uma rede de ensino, do porte da estadual paulista, e constatarmos aspectos importantes que definem, conformam, limitam a atuação dos profissionais da educação dentro da escola e do cotidiano escolar. Dimensionamos, ainda, o potencial denunciativo que nossa pesquisa traz, mas esperamos que ela também possa servir como fonte de reflexão que permita o anunciar de novas possibilidades profissionais a um sujeito pedagógico tão pesquisado ao longo do tempo: o Professor Coordenador. É preciso ainda registrar que nossas intenções não foram, em nenhum momento, de avaliar, julgar ou mesmo condenar a política educacional proposta, mas evidenciar o quanto, muitas vezes, ela vai de encontro às opções teóricas eleitas para nortear o trabalho pedagógico das escolas. Apostamos em tal pressuposto teórico como uma possibilidade de pensar a alfabetização de uma maneira mais coerente e significativa a todos os sujeitos envolvidos nos processos educativos, mas questionamos a exigência que se faz de tais sujeitos ou as condições que lhe são dadas para uma atuação de fato reflexiva e emancipatória. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABDALLA, M.F.B. O senso prático de ser e estar na profissão. SP: Editora Cortez, 2006. ALARCÃO, I. Reflexão crítica sobre o pensamento de D. Schön e os programas de formação de professores. In: ALARCÃO, I. (Org.). Formação reflexiva de professores. Porto: Porto Editora, 1996, p. 09-41. ALARCÃO, I. Professores reflexivos em uma escola reflexiva. 8ª ed. 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Institui no âmbito da Escola de Formação e Aperfeiçoamento dos Professores do Estado de São Paulo, da Secretaria da Educação, o Programa Rede São Paulo de Formação Docente - REDEFOR e dá providências correlatas. Secretaria Estadual de Educação. 2010. SÃO PAULO. Decreto 57.141, de 18/07/2011. Reorganiza a Secretaria da Educação e dá providências correlatas. Secretaria Estadual de Educação. 2011. SÃO PAULO. Plano de Metas e Ações da SEE - 2009. Secretaria Estadual da Educação. Disponível em <http://www.educacao.sp.gov.br>. Acesso em: 25/01/2012a. SÃO PAULO. Programa Educação – compromisso de São Paulo - 2001. Secretaria Estadual da Educação. Disponível em <http://www.educacao.sp.gov.br>. Acesso em: 25/01/2012b. SÃO PAULO. Resolução SE nº 02, de 12/01/2012. Dispõe sobre mecanismos de apoio escolar aos alunos do ensino fundamental e médio da rede pública estadual. Secretaria Estadual de Educação, 2012c. SÃO PAULO. IDESP. Secretaria Estadual da Educação. 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Secretaria Estadual de Educação de São Paulo *++! ,-./01!2345-671! 89:;! <+=! <?T*B! 8=9+>?9=@*! <+AB! 8=9+>?9=@*! +J@B! 93D47L31!13G64671! *DE3-Q71/0!B-0M!8-6! >3IG6!R371S! TD6-DIH01!A0-53! +CD7E3!F3! @20GE64H6G3450! TD6-DIH01!*DI! =56CD6CD3235DU6! V0.7!F61!<-DS31! *DS640! 8*+! +CD7E3!2345-6I!F3! J0-G6K/0! <041DI50-76!B-0M!8-6! N6576!O-6PI74.! <9+!V@9=?!<?W@*! ANEXO 2: Pautas da formadora – Equipe Central PAUTA 01: 28/02/2012 Duração: 8 horas Objetivos do Encontro: • Refletir sobre a importância da avaliação formativa como uma das etapas do processo de formação; • Compreender que a leitura colaborativa/compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentidos a um texto; • Auxiliar o PC a identificar os saberes do professor e suas necessidades de aprendizagem sobre o trabalho com textos jornalísticos. Encaminhamentos: 1ª Atividade: Leitura em voz alta pela formadora - ”As esganadas” – Jô Soares – Ed. Companhia das Letras 2ª Atividade: Apresentação dos participantes e definição dos combinados do grupo. ! O que espero destes encontros de formação? ! O que espero da formadora? ! O que espero do grupo de trabalho? 3ª Atividade: Roda de Indicação Literária • Como foi a leitura de textos literários nas férias? • Quem gostaria de comentar sobre o livro que leu? 4ª Atividade: Análise do relato registro de observação feito pelo PC de uma situação de sala de aula utilizado na avaliação de 2011. Encaminhamento: • Reler o registro de observação coletivamente.(anexo 1) • Propor que durante a leitura os PCs façam individualmente uma análise da transcrição a partir das questões: a) Quais procedimentos/intervenções utilizados pela professora revelam compreensão dos objetivos desta situação de leitura compartilhada de notícias? b) Qual a natureza das perguntas formuladas pela professora na atividade? c) Como a professora lida com as respostas dadas pelos alunos? • Compartilhe as anotações em duplas. a • Socialização das reflexões. 5ª Atividade: Exibição e tematização do vídeo de uma atividade de leitura de texto jornalístico – E.E.Professora Sinésia Martini - DE Americana Contextualização: Esse vídeo foi realizado numa turma de 5º ano de uma escola estadual pertencente a diretoria de Americana. A atividade foi organizada em três momentos. - 1º momento: apresentação das partes que compõe um jornal, - 2º momento: seleção em duplas de uma noticia para ser lida e comentada na roda. A professora entregou diferentes jornais para cada dupla. - 3º momento: Organizados numa grande roda cada dupla apresentou a noticia lida a partir de algumas questões da professora. A formadora, PC e PCOP acompanharam a realização da filmagem Nesse encontro nosso foco será o segundo momento da filmagem. Encaminhamento, em pequenos grupos: a) Listem as perguntas feitas pela professora nas duplas. b) Compare as intervenções realizadas no relato transcrito e no vídeo assistido. Analise o propósito de tais intervenções e o que os alunos podem aprender sobre a leitura de textos em cada caso. c) Em que é preciso avançar para orientar melhor o trabalho do professor na compreensão dessa atividade de leitura? PAUTA 02: 20/03/2012 Objetivos do Encontro: • Compreender que a leitura colaborativa/compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentido a um texto; • Refletir sobre os comportamentos leitores envolvidos nas práticas de leitura compartilhada/colaborativa Conteúdos • Leitura colaborativa • Comportamentos leitores 1ª Atividade: Leitura em voz alta pela formadora – “Marina” – Carlos Ruiz Zafón – Ed. SUMA 2ª Atividade: Retomada do encontro anterior: 3ª Atividade: Roda de Indicação Literária 4ª Atividade: Socialização da tarefa Encaminhamento: • Em pequenos grupos socializar as respostas trazidas para a pergunta: “Em que é preciso avançar para orientar melhor o trabalho do professor na compreensão dessa atividade de leitura?” • Socializar no grande grupo 5ª Atividade: Discussão sobre leitura compartilhada/colaborativa: Encaminhamento: • Participação de uma situação de leitura compartilhada/colaborativa o Listar todos os procedimentos realizados e discutir: • Discutir: O que é possível o professor ensinar através dessa modalidade de leitura? ! Quais condições precisam ser garantidas para que os alunos possam aprender? ! O que precisa saber para realizar este tipo de atividade? • Estudo do texto: “Explicitar conteúdos envolvidos nas práticas”, de Délia Lerner, • Simulação: o Em grupos planejar e realizar uma leitura compartilhada de noticia o No momento do planejamento considerar: a) Qual o objetivo da atividade b) Quais saberes do grupo em relação a atividade c) Antecipar quais questões poderão ser feitas d) Como conduzir a atividade • Analise da situação de simulação realizada: a) Qual a natureza das questões realizadas pelo grupo e quais capacidades de leitura e comportamento de leitores foram acionados? b) Em que é preciso avançar para orientar melhor o trabalho do professor na compreensão dessa atividade de leitura? 6ª Atividade: Tarefa • Planejar e realizar uma situação de leitura compartilhada de noticia • Realizar a atividade • Trazer o registro com a análise para o próximo encontro PAUTA 03: 03/04/2012 Objetivos do Encontro: Conteúdos • Leitura colaborativa • Comportamentos leitores 1ª Atividade: Leitura em voz alta pela formadora 2ª Atividade: Retomada do encontro anterior: 3ª Atividade: Roda de Indicação Literária 4ª Atividade: Socialização da tarefa O combinado era... • Planejar uma situação de leitura compartilhada de noticia • Realizar a atividade • Trazer o registro com a análise, observando a própria performance. o Socialização dos registros nos pequenos grupos " Quais os avanços percebidos e quais dificuldades encontradas na realização da atividade? " Como PC quais suas dificuldades em relação a condução da atividade com crianças? o Olhando para o próprio percurso: " O que faria diferente e porque? 5ª Atividade: Leitura compartilhada A. Leitura compartilhada de textos literários: ! Realizar coletivamente uma leitura compartilhada do texto “Vasto Mundo” ! Levantar os procedimentos didáticos utilizados ! Discutir coletivamente quais comportamentos de leitor, procedimentos de leitura e capacidades de leituras foram acionadas. B. Leitura do texto: Nova Parlenda Estudo do texto: a) Como o texto está organizado? b) Que aspectos dessa organização são fundamentais para que seja possível compreender o texto da melhor forma? c) Há algum recurso utilizado que é fundamental identificar para compreender melhor o texto? C. Planejamento da leitura colaborativa/compartilhada: a. Que efeitos o texto provoca? b. Quais aspectos acima estudados devem ser tematizados junto aos alunos? c. Como transformá-los em boas questões que possibilitem uma boa compreensão do texto? d. Quais questões – e em qual ordem – podem ser elaboradas? e. Qual a melhor sequência de tarefas a ser proposta para os alunos? 6ª Atividade: TAREFA: Análise das situações de leitura compartilhada propostas no material do Ler e Escrever: a) Analise coletiva do material do Programa 4º ano – Fábulas # Ler e analisar as orientações dadas para a condução das leituras compartilhadas ! Qual o movimento metodológico da atividade? ! Qual a finalidade da atividade dentro do projeto? ! O que o professor precisa compreender sobre leitura para realizar a atividade? ! O que seria preciso acrescentar na orientação para os professores PAUTA 04: 15/05/2012 Objetivos do Encontro: • Compreender que a leitura colaborativa/compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informações sobre as estratégias utilizadas pelos diferentes leitores para atribuir sentidos a um texto; • Analisar uma atividade de leitura colaborativa/compartilhada, refletindo sobre os saberes que o professor precisa acionar para realizar uma boa atividade de leitura compartilhada; • Identificar, no material do Ler e Escrever, atividades que favoreçam o desenvolvimento da fluência leitora; • Refletir sobre o que os professores costumam fazer / e o que o professor pode e precisa fazer para desenvolver nos alunos a fluência leitora. Conteúdos • Leitura compartilhada/colaborativa • Comportamentos leitores • Fluência leitora 1ª Atividade: Leitura em voz alta pela formadora 2ª Atividade: Retomada do encontro anterior: 3ª Atividade: Roda de Indicação Literária 4ª Atividade: Socialização da tarefa O combinado era... Analisar a situação de leitura compartilhada proposta no material do Ler e Escrever - 4º ano – Fábulas Ler e analisar as orientações dadas para a condução da leitura compartilhada b) Qual o movimento metodológico da atividade? c) Qual a finalidade da atividade dentro do projeto? d) O que o professor precisa compreender sobre leitura para realizar a atividade? e) O que seria preciso acrescentar na orientação para os professores # Em pequenos grupos, socializar a análise realizada f) O que o professor precisa compreender sobre leitura para realizar a atividade? g) O que seria preciso acrescentar na orientação para os professores? # Análise de uma atividade de leitura compartilhada do Guia de Planejamento de Orientações didáticas do livro do 3º ano Projeto Sistema Solar – Atividade 2A, Vol. 2 (p.167/168): • Em grupos, leiam as orientações da atividade e discutam a seguinte questão: Identifiquem quais capacidades precisam mobilizar para responder as questões e quais procedimentos são utilizados nesta atividade de leitura # O que o professor precisa saber e saber fazer para realizar uma boa leitura compartilhada/colaborativa? 6ª Atividade: Reflexão sobre situações de leitura com o propósito de melhorar a fluência leitora dos alunos e estudo de texto. A. Discussão coletiva: # O que sabemos sobre leitura fluente? Em pequenos grupos: o Apontem o que observam que os professores têm feito, na escola, para melhorar a leitura dos alunos que lêem com pouca fluência. o Listem as atividades que tem observado; a frequência em que geralmente são realizadas e, avaliem se consideram que elas têm dado conta de ajudar a melhorar a leitura dos alunos. Socialização dos registros e discussão das propostas de atividades B. Leitura e estudo do Fragmento do texto “Alfabetização, leitura e ensino de Português: desafios e perspectivas curriculares” - Antônio Augusto Gomes Batista # Sobre a leitura, com fluência o que o autor coloca como condição? # O autor do texto defende que os leitores proficientes já internalizaram as estratégias de compreensão leitora que se converteram em habilidades que emprega em situações de leitura familiares. Quais os procedimentos que o professor deve utilizar para ajudar os alunos a desenvolver a proficiência leitora? # O que é, então, leitura fluente? Em pequenos grupos: o Apontem o que observam que os professores têm feito, na escola, para melhorar a leitura dos alunos que leem com pouca fluência. o Listem as atividades que tem observado; a frequência em que geralmente são realizadas e, avaliem se consideram que elas têm dado conta de ajudar a melhorar a leitura dos alunos. Socialização dos registros e discussão das propostas de atividades C. Leitura dramática # Em grupos realizar a atividade de leitura dramática do texto sugerido o Assistir cena de leitura na internet o Discutir os procedimentos observados o Fazer a leitura branca o Estudar o texto o Apresentar para o grupo # Analisar os procedimentos, comportamentos do leitor e capacidades que foram acionadas. # Com base em sua experiência nessa atividade, responda: * Quais as condições necessárias ao trabalho com a leitura dramática buscando o desenvolvimento da fluência leitora? * Esse mesmo objetivo poderia ser trabalhado a partir da leitura de outros gêneros? Quais? Justifique sua resposta. # Retomar o texto lido a partir da seguinte afirmação: “O processo de compreensão de textos é resultado de um trabalho ativo do leitor; nesse trabalho o leitor lança mão de três conjuntos de saberes...”. Considerando esta afirmação que avaliação você faz da leitura? 7ª Atividade Tarefa: Análise das orientações gerais de leitura do 3º ano/2ª série Ler e analisar as orientações didáticas propostas p. 46 – Guia 3º ano, vol 1, a partir das seguintes questões: a) As atividades analisadas dão conta de trabalhar com o desenvolvimento/ampliação da fluência leitora? Se sim, por quê? Se não, quais ajustes seriam necessários? Considerando as capacidades de leitura dos alunos de sua escola, para que anos você considera ser necessário introduzir uma sequência para desenvolver a fluência leitora? PAUTA 05: 05/06/2012 Objetivos do Encontro: • Analisar situações de leitura compartilhada/colaborativa, refletindo sobre os saberes que o professor precisa acionar para realizar uma boa situação de leitura compartilhada/colaborativa; • Analisar textos que favoreçam o trabalho com fluência leitora; • Planejar atividades que favoreçam o desenvolvimento da fluência leitora; Conteúdos • Leitura compartilhada/colaborativa • Fluência leitora • Comportamentos leitores 1ª Atividade: Leitura em voz alta pela formadora: “Orgias” – Luís Fernando Veríssimo – Ed Objetiva. 2ª Atividade: Retomada do encontro anterior: 3ª Atividade: Roda de Indicação Literária 4ª Atividade: Análise de situações de leitura compartilhada em sala de aula Após a discussão sobre leitura compartilhada/colaborativa com os professores foi feito um combinado que planejariam e realizariam essa situação de leitura com sua turma e que esta atividade seria observada pelo coordenador. Considerando que estas professoras poderiam ser de sua escola, analise as atividades considerando o que já aprenderam sobre esta modalidade de leitura e o que seria necessário retomar na formação num próximo ATPC. # Analise as situações de leitura compartilhada/colaborativa das salas de aula da Professora Meg (Guarujá) e da professora Adriana (Ribeirão Preto) o Quais os procedimentos da Professora Adriana? O que eles revelam sobre seus saberes quanto a esta modalidade de leitura? o Quais os procedimentos da Professora Meg? O que eles revelam sobre seus saberes quanto a esta modalidade de leitura? " O que precisaria ser retomado com a professora? # Discussão das analises em pequenos grupos o O que as duas professoras têm em comum? o O que seria necessário retomar na formação, em ATPC, onde as duas estejam presentes? # Socialização das análises 5ª Atividade: Estudo de texto e preparo de sequencias didáticas: a) Leitura do texto : “Como fazer para que os alunos sejam bons leitores?” para apoiar a discussão no grupo. o O que o texto nos traz de informações sobre o trabalho com leitura para que os alunos desenvolvam a fluência? b) Divididos em grupos analisar os livros de teatro e planejar sequencias didáticas para se trabalhar nas escolas com a leitura de texto dramático que favoreçam a fluência leitora c) Socialização das sequências d) Avançar a discussão propondo que utilizem os mesmos procedimentos para organizar outras sequências . 6ª Atividade: Socialização da tarefa O combinado era... Ler e analisar as orientações didáticas propostas p. 46 – Guia 3º ano, vol 1, a partir das seguintes questões: - As atividades analisadas dão conta de trabalhar com o desenvolvimento/ampliação da fluência leitora? Se sim, por quê? Se não, quais ajustes seriam necessários? - Considerando as capacidades de leitura dos alunos de sua escola, para que anos você considera ser necessário introduzir uma sequência para desenvolver a fluência leitora? E com qual frequência? • Em pequenos grupos socializar os registros da tarefa • Com base nas discussões realizadas até o momento o que acrescentariam nesta análise? O que é preciso cuidar para o trabalho com fluência leitora? • Socialização das discussões 7ª Atividade: Avaliação dos encontros Discussão coletiva: Em que nossas discussões têm contribuído na formação dos professores? ANEXO 3: Pautas formativas (Sujeito I) ANEXO 4: Pautas Formativas (Sujeito II) PAUTA ATPC – 26/03/2012 Objetivo: Refletir sobre as funções da leitura colaborativa/compartilhada 1ª atividade – Leitura inicial feita pela PC. Trechos dos capítulos 1 e 2, do livro “Para Sempre”, de Ana Maria Machado. 2ª atividade – Participação de uma situação leitura compartilhada, a partir da leitura da matéria “A mão ativa o cérebro”, de Luis Guilherme Barrucho, revista Veja, 27/07/2011. a) Listar os procedimentos da PC durante a roda de leitura. b) Socializar os registros, com foco no(s) objetivos(s) de cada procedimento. 3ª atividade – Reflexão (em duplas) a) O que é possível ensinar com situações de leitura compartilhada? b) O que o professor precisa garantir, nesse tipo de atividade, para que o aluno aprenda? c) Socialização das respostas. PAUTA ATPC – 02/04/2012 Objetivo: Compreender que a leitura compartilhada é uma atividade que favorece a compreensão do texto 1ª atividade – Leitura inicial feita pela PC. Conto: “Os sete sapatos da Princesa”, Contos Tradicionais do Brasil, Luiz Câmara Cascudo. 2ª atividade – • Leitura individual do texto: “Explicitar conteúdos envolvidos nas práticas”, de Délia Lerner, trecho retirado do livro “Ler e escrever na escola. O real, o possível e o necessário.” • Discussão sobre o estudo do texto. 3ª atividade – Em grupos (por série/ano), planejar uma situação de leitura compartilhada para ser aplicada, considerando: a) Seleção do material (texto). b) Objetivo da atividade. c) Encaminhamentos da atividade e intervenções. • Socialização dos grupos, para adequação das atividades. PAUTA ATPC – 09/04/2012 Objetivo: Reflexão sobre a prática, em uma situação de leitura compartilhada. 1ª atividade – Leitura inicial feita pela PC. Crônica “Velhas Cartas”, do livro 200 crônicas escolhidas, Rubem Braga. 2ª atividade – Socialização dos resultados da aplicação da atividade de leitura compartilhada. 3ª atividade – Avaliação (individual) a) Quais os pontos positivos durante a aplicação da atividade? b) Partindo do planejamento realizado, o que não saiu como esperado? c) Que modificações você faria nos encaminhamentos desta atividade? • Socialização das respostas. PAUTA ATPC – 28/05/2012 Objetivo: Tematizar práticas de atividades para a resignificação do sistema de escrita. 1ª atividade – Leitura inicial feita pela PC. “O pássaro da Índia”, conto do livro “Os grandes contos populares do mundo”, organizado por Flávio Moreira da Costa. 2ª atividade – Exibição do vídeo, da escola Profº José Nascimento, trecho do Projeto “Salão de Beleza”. • Assistir o vídeo analisando: a) Procedimentos da professora. b) Intervenções realizadas pela professora. c) Saberes mobilizados pelas crianças durante a atividade. 3ª atividade – Discussão da análise do vídeo. Trabalho Pessoal: Planejar uma atividade de ressignificação do sistema de escrita, abordando o tema do Projeto Lugares de Aprender – Trilhas do Brincar. Para ser discutida posteriormente. ANEXO 5: Pautas Formativas (Sujeito III) PAUTA MARÇO Objetivo: • Refletir sobre as avaliações realizadas e sondagens. • Fazer levantamento dos alunos que apresentam dificuldades de aprendizagem para montar grupo de estudos. Encaminhamento: • Leitura • Apresentação das atividades dos alunos a serem sanada as duvidas sobre as hipóteses que se encontram. • Conclusão desse encontro, saímos com o grupo de estudo a ser formado para sanar as dificuldades dos alunos. PAUTA ABRIL Objetivo: Estudo do material do Ler Escrever, • Sanar dúvidas dos professores sobre o material • Estudos da Expectativas de aprendizagem para cada ano Encaminhamentos: • Estudo em grupo com os pares • Socialização com todos para apropriação de cada ano, pois dessa forma percebe-se que cada ano é sequência do outro. PAUTA MAIO Objetivo: • Resgatando as brincadeiras infantis, utilizando das brincadeira para socializar, aprender de forma diferenciada • Projeto resgatando memória do Guarujá Encaminhamento: • Como as brincadeiras podem auxiliar na aprendizagem do aluno? • Que tipo de atividades pode se desenvolver para que isso ocorra? Conclusão: As brincadeiras infantis podem melhorar a percepção dos alunos; Garantem a atenção; Faz com que eles elaborem as próprias regras no brincar; Socialização entre eles; Raciocínio ao desenvolver tais atividades Utilização do Projeto Memória do Guarujá fazer com que os alunos tenham conhecimento do local onde vivem e conhecendo melhor seu município. PAUTA JUNHO Objetivo: • Compreender que a leitura colaborativa/compartilhada é uma atividade que favorece a circulação de informação. Encaminhamento • Leitura compartilhada/colaborativa • Analisar textos teatrais para trabalhar com alunos. • Utilizando texto teatral colocar em pratica com os professores a fim de perceberem com acontece o desenvolvimento das atividades e de que forma podem estar aplicando em sua sala. Obs.: para o próximo encontro relato do ocorrido em sala de aula Conclusão: Professores perceberam que desta forma podem verificar como esta ocorrendo a leitura e entendimento do texto e a circulação de informação, percebem que pode mudar sua pratica. APÊNDICES APÊNDICE 1: Estado Da Arte - Banco de Teses CAPES 1. Busca: Professor coordenador formação de professores – Mestrado – 2007/11 Total de pesquisas: 602 pesquisas (2007 a 2011) a) 2007: 97 pesquisas (14 selecionadas) AUTOR UNIVERSIDADE Federal RJ ANO 2007 Edlúcia Passos Carvalho Pereira. Supervisão colaborativa: as U. do Vale do Rio relações/ações supervisoras no dos Sinos contexto de uma política de educação continuada 2007 Hugo De Los Santos Rojas. A avaliação em sala de aula: quais as dificuldades para a formação do professor do ensino básico Programa Mineiro de Desenvolvimento Profissional de Educadores - PDP: um estudo da formação continuada de professores A Ação da professora coordenadora pedagógica na construção do projeto Hora da Leitura. Interação assíncrona entre professores e coordenação: espaço on-line para formação em serviço A atuação do professor coordenador pedagógico no desenvolvimento profissional dos docentes Formação contínua em serviço: um estudo com os profissionais dos centros de educação infantil PUC/SP 2007 PUCAMP 2007 U. de Taubaté 2007 PUC SP 2007 U. do Oeste Paulista 2007 UNESP Araraquara 2007 Cristina Nacif Alves. Jacqueline De Sousa Batista Figueiredo. Lucia Helena Calderaro. Luciana Breda. Luzia De Lourdes Caseiro Alves. Marcia Cristina Souza Bueno. TÍTULO O sentido dos argumentos para a formação de coordenadores pedagógicos: caminhos para a aproximação entre teoria e prática. Marisa Salina Cassalate. A atuação do professor U. do Oeste coordenador pedagógico na Paulista formação continuada docente: concepções, práticas e dificuldades. 2007 Martinha Clarete Dutra. Políticas Públicas: formação continuada de professores na área da deficiência visual no Estado do Paraná 2007 Paula Raquel Gonçalves Sousa. Htpc: horário de trabalho Metodista SP pedagógico coletivo ou horário de trabalho perdido? 2007 Rita De Cássia Carvalheiro Micheletti. Valdenice De O professor coordenador: suas atribuições legais e o trabalho junto à equipe docente Formação continuada de Unicid 2007 Federal do 2007 Unicid Araujo Prazeres. Wanda Pereira De Lima E Silva. professores(as) no Programa São Luís te quero lendo e escrevendo: limites e possibilidades da reflexão sobre a prática Formação centrada na escola: em face ao plano de desenvolvimento da escola Maranhão Federal de Mato Grosso 2007 b) 2008: 107 pesquisas (09 selecionadas) Cleide Aparecida Ferreira Da Silva. Conceição Aparecida Celegatto. Hercilia Maria De Moura Vituriano. Isabela Costa Vargas. Iva Evangelista Barreto Bertumes. Leni Aparecida Souto Miziara. Maria Do Socorro Monteiro Cabral. A formação docente desenvolvida Federal de Mato na escola: limites, avanços, Grosso desafios e perspectivas. Formação em serviço: significado USP do "Programa Ler e Escrever" numa escola municipal de ensino fundamental. Formação continuada em uma Federal do Ceará 2008 2008 2008 concepção crítico- reflexiva: desafio aos coordenadores formadores de professores nas escolas da rede municipal de SãoLuís-MA. Formação Continuada de PUC RJ Professores Alfabetizadores nas propostas do PROFA e do CEALE. A Coordenação Pedagógica e os Nove de Julho delineamentos da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, desde sua criação. A Coordenação Pedagógica e a Católica Dom Bosco práxis docente. Programa de formação U. do Estado do continuada de professores dos Pará 2008 2008 2008 2008 ciclos iniciais da rede municipal de Belém a experiência formativa da pesquisa e elaboração própria. Rosemary Santana De Oliveira. Sandra Susete Santiago. Estar Coordenador nas Escolas Públicas: da formação às práticas pedagógicas Programa ensino médio em rede: O papel do professor coordenador Unisantos 2008 Unicid 2008 PUC SP 2009 UFSCAR 2009 c) 2009: 124 pesquisas (07 selecionadas) Regiane Mantovanini. Regina Helena da S. Formação continuada de professores do ensino fundamental I: subsídios para uma proposta em análise Formação continuada de Cerminaro. Maria Angélica dos Reis Cordeiro. Lucy Conceição Simões. Isabel Aparecida Prandina Baptista. Jane Cordeiro de Oliveira. Andrea Silva Do Nascimento. d) professores em serviço: em busca de um currículo em ação intermulticultural. Formação Continuada de Professores alfabetizadores: um repensar sobre os saberes pedagógicos. Formação de professores alfabetizadores em contexto de HTPC. A atuação da coordenação pedagógica como um dos possibilitadores do reencantamento docente no ensino fundamental de uma escola pública no município de São Paulo Um estudo sobre o coordenador pedagógico: sua identidade, seu trabalho e formação continuada no cotidiano escolar Federal do Maranhão 2009 PUC SP 2009 PUC SP 2009 PUC RJ 2009 A ação do coordenador Federal do Rio pedagógico e as suas Grande do Norte contribuições à vivência compreensiva sobre a perspectiva conscienciológica. 2009 2010: 140 pesquisas (10 selecionadas) Elaine Cristina Marena Andrade. Elaine Cristina Martins Goncalves. Os instrumentos do coordenador Unicid pedagógico para coordenar a formação continuada dos professores da unidade escolar: "O projeto especial de ação" e " O projeto a rede em rede: A formação continuada na educação infantil no município de São Paulo". Um estudo sobre a autonomia Centro Univ. Moura docente na escola pública: Lacerda 2010 2010 contribuições para o trabalho de coordenação pedagógica. Lilian Correia Pessoa. Marimar da Silva Barros Vieira. Marley Eloisa Gonçalves Antunes. Neli Regina Palliares. O papel do outro na atuação do professor coordenador. O coordenador pedagógico, o trabalho de formador na escola pública e as concepções que subjazem as suas práticas. A coordenação pedagógica e as contribuições para a formação de professores alfabetizadores. Sou CP na educação infantil, e agora?: um estudo sobre o papel do coordenador pedagógico como PUC SP 2010 Federal do Mato Grosso 2010 U. do Oeste Paulista 2010 Metodista Sp 2010 formador de professores. Reinaldo Ortiz De Sousa. O cotidiano escolar do professor U. do Oeste Paulista coordenador: o diálogo entre teoria e prática. 2010 Rodnei Pereira. A autoanálise de coordenadores PUC SP pedagógicos sobre sua atuação como formadores de professores. A formação dos formadores: uma Unicid análise do processo formativo. . O coordenador pedagógico e o seu PUC SP papel na formação continuada em serviço do professor de educação infantil (creche). 2010 Soraia Calderoni Statonato. Viviani Aparecida Amabile Zumpano 2010 2010 e) 2011: 134 pesquisas (05 selecionadas) Lenarde Nascimento dos Santos Mendes. Silvana Alves Freitas. Silvana Aparecida Santana Tamassia. Simone Leal Souza Coité. Sirlei Ivo Leite Zoccal. Hora de Trabalho Pedagógico (HTP): Espaço/Tempo de Formar e Ser Formado? O professor coordenador emergente da Proposta Curricular do Estado de São Paulo (gestão 2007-2010). Ação da coordenação pedagógica e a formação continuada dos professores do ensino fundamental I: desafios e possibilidades. A formação continuada do professor e a contribuição do coordenador pedagógico: uma reflexão sobre a prática. A relação dos professores alfabetizadores com o saber no contexto do Programa Ler e Escrever. Unisantos 2011 PUC SP 2011 PUC SP 2011 Católica de Brasília 2011 Unisantos 2011 2. Professor coordenador formação de professores – Doutorado – 2007 – 24 pesquisas Total de pesquisas: 144 a) 2007: zero selecionadas b) 2008 – 36 pesquisas (01 selecionada) Marilene Garcia. c) Formação continuada para PUC SP coordenadores pedagógicos: e a escola, como fica?. 2008 2009 – 30 pesquisas (01 selecionada) Edneide Da Conceição Bezerra. A tecitura da ação do coordenador Federal do Rio pedagogico da EJA: saberes Grande do Norte necessário à medição do trabalho docente em alfabetização 2009 d) 2010 – 25 pesquisas (01 selecionada) Elisabete Ferreira Esteves Campos. A coordenação pedagógica em questão: diálogos nos círculos de debates. USP 2010 e) 2011 – 29 pesquisas: nenhuma selecionada 3. a) b) c) Busca: PROGRAMA LER E ESCREVER (10 pesquisas de Mestrado – 2008 a 2012) Doutorado de 2007 a 2011: NADA Mestrado de 2007: NADA Mestrado 2008 a 2012: Conceição Aparecida Celegatto. Francine Silva Chaves. Priscila Vita Camacho. Formação em serviço: significado do USP "Programa Ler e Escrever" numa escola municipal de ensino fundamental. Alfabetização e Letramento, U. São Marcos Desenvolvimento e Aprendizagem: percepções e concepções de professores participantes do Programa Ler e Escrever da Secretaria Municipal de Educação. Um estudo sobre o "programa ler e Metodista 2008 2009 2010 escrever" da rede pública do estado de São Paulo. Rodnei Pereira. Sandra Regina Firmino da Silva. Simone Garbi Santana Molinari. Soraia Calderoni Statonato. Angela Maria da Silva Figueredo. Sirlei Ivo Leite Zoccal. Claudia Moreno Zaniti A autoanálise de coordenadores pedagógicos sobre sua atuação como formadores de professores. Um estudo das estruturas multiplicativas no guia de orientação curricular do Programa Ler e Escrever. Escolhas didáticas de uma professora alfabetizadora. A formação dos formadores: uma análise do processo formativo. PUC SP 2010 Bandeirante de SP 2010 PUC Sp 2010 Unicid 2010 Formação continuada de Metodista professores alfabetizadores: como aprende o professor. 2011 A relação dos professores Unisantos alfabetizadores com o saber no contexto do Programa Ler e Escrever. O professor alfabetizador bem Unisantos sucedido: uma análise da relação com os saberes da prática do "Programa Ler e Escrever"- SEE/SP. 2011 2012 APÊNDICE 2: Questionário DIRETORIA__________________________________________________________ PC__________________________________________________________________ DADOS ! ESCOLA:______________________________________________________ ! CARGO:_______________________________________________________ ! FUNÇÃO:______________________________________________________ ! SITUAÇÃO FUNCIONAL:________________________________________ ! TEMPO DE ATUAÇÃO COMO PC:________________________________ ! TEMPO DE ATUAÇÃO, NESTA ESCOLA, COMO PC:________________ ! CICLOS QUE COORDENA:_______________________________________ ! Nº DE PROFESSORES QUE ATENDE:______________________________ ! FORMAÇÃO INICIAL (CURSO):__________________________________ ! PÓS GRADUAÇÃO? QUAL?______________________________________ O QUE O LEVOU A OPTAR POR ATUAR COMO PROFESSOR COORDENADOR? APÊNDICE 3: Tabulação do questionário Questão 2 Cargo de origem Quantidade real % Professor de Educação Básica 1º a 5º ano 42 54,8 Professor de Educação Básica Especialista 29 39,7 4 5,4 Ambos os cargos concomitantemente XD6457F6F3! ^Y!B-0M3110-! XD6457F6F3! ^Y!B-0M3110-! -36IY! F3!+FD26K/0! F3!+FD26K/0! -36IY! B-0M3110-!F3! OZ1726!&[!6! B-0M3110-!F3! OZ1726! +FD26K/0! \[!640Y!\]Y%! +FD26K/0! +1E3276I7156Y! OZ1726!&[!6! OZ1726! #_Y$! \[!640Y!]"! +1E3276I7156Y! XD6457F6F3!-36I! XD6457F6F3! ^Y!@GU01! -36IY!@GU01! 01!26-.01! 01!26-.01! 20420G75645 20420G75645 3G3453Y!\Y]! 3G3453Y!]! ^! Questão 3 Situação funcional Efetivos Ocupante de Função Atividade Ocupante de Função Atividade estável ^Y!+M357Q01Y! XD6457F6F3!\]Y%! -36IY! +M357Q01Y!]`! Quantidade real 40 20 % 54,8 24,6 15 20,5 XD6457F6F3! -36IY! ^Y!?2DE6453! XD6457F6F3! ^Y!?2DE6453! -36IY! ?2DE6453!F3! F3!JD4K/0! F3!JD4K/0! JD4K/0! @57Q7F6F3Y! ?2DE6453!F3! @57Q7F6F3! JD4K/0! @57Q7F6F3Y!"]Y'! 315ZQ3IY!"`Y\! @57Q7F6F3! "`! 315ZQ3IY!&\! XD6457F6F3!-36I! ^! Questão 4 Tempo de atuação como PC Quantidade real menos de um ano de atuação 15 de 01 a 5 anos de atuação 47 de 05 a 10 anos de atuação 9 de 11 a 15 anos de atuação 3 Mais de 15 anos de atuação 1 XD6457F6F 3!-36IY!F3! `&!6!\!6401! XD6457F6F F3!65D6K/0Y! 3!-36IY! XD6457F6F G3401!F3!DG!640!F3!65D6K/0! ]$! G3401!F3! 3!-36IY!F3! XD6457F6F DG!640!F3! F3!`&!6!\!6401!F3!65D6K/0! `\!6!&`! 3!-36IY!F3! XD6457F6F 3!-36IY!V671! 65D6K/0Y!&\! 6401!F3! &&!6!&\! F3!&\!6401! F3!`\!6!&`!6401!F3!65D6K/0! 65D6K/0Y!_! 6401!F3! F3!65D6K/0Y! F3!&&!6!&\!6401!F3!65D6K/0!! 65D6K/0!Y!#! &! Questão 5 Tempo de atuação na atual escola em que se encontram Menos de um ano Entre 01 e 05 anos Entre 05 e 10 anos Entre 11 e 15 anos Mais de 15 anos Quantidade real 18 36 8 5 6 XD6457F6F3! -36IY!+45-3! XD6457F6F3! `&!3!`\! -36IY!V3401! 6401Y!#'! F3!DG!640Y! XD6457F6F3! &%! XD6457F6F3! -36IY!+45-3! XD6457F6F3! -36IY!V671! `\!3!&`! -36IY!+45-3! F3!&\!6401Y! V3401!F3!DG!640! +45-3!`&!3!`\!6401! &&!3!&\! 6401Y!%! '! 6401Y!\! +45-3!`\!3!&`!6401! +45-3!&&!3!&\!6401! V671!F3!&\!6401! Questão 6 Ciclos que atendem na escola Ciclo I Ciclos I e II Ciclo I e Médio Quantidade real 54 16 1 Ciclos I, II e Médio Regular 3 I, II, Médio Regular e EJA 1 XD6457F6F 3!-36IY!<72I0! =Y!\]! <72I0!=! XD6457F6F 3!-36IY! XD6457F6F XD6457F6F <72I01!=!3!==! <72I01!=!3!==Y! 3!-36IY! 3!-36IY!=Y!==Y! &'! <72I0!=!3!VaF70! <72I01!=Y!==!3! XD6457F6F VaF70! VaF70! 93.DI6-!3! 3!-36IY!<72I0! <72I01!=Y!==!3!VaF70!93.DI6-! =!3!VaF70Y!&! 93.DI6-Y!#! +b@Y!&! Questão 7 Número total de professores que atende na escola de 05 a 10 professores de 11 a 15 professores de 16 a 20 professores de 21 a 25 professores de 26 a 30 professores Mais de 30 professores XD6457F6F3!-36IY! XD6457F6F3!-36IY! F3!`\!6!&`! F3!&&!6!&\! E-0M3110-31Y!&%! E-0M3110-31Y!&_! Quantidade real 18 19 5 16 7 10 XD6457F6F3!-36IY! F3!"&!6!"\! E-0M3110-31Y!&'! XD6457F6F3!-36IY! F3!&'!6!"`! E-0M3110-31Y!\! XD6457F6F3!-36IY! V671!F3!#`! XD6457F6F3!-36IY! E-0M3110-31Y!&`! F3!"'!6!#`! E-0M3110-31Y!$! F3!`\!6!&`!E-0M3110-31! F3!&&!6!&\!E-0M3110-31! F3!&'!6!"`!E-0M3110-31! F3!"&!6!"\!E-0M3110-31! F3!"'!6!#`!E-0M3110-31! V671!F3!#`!E-0M3110-31! Questão 8 Formação acadêmica inicial dos PCs Quantidade real Magistério PEC (Normal Superior) Licenciatura Plena em Pedagogia Licenciatura em Letras Outras licenciaturas XD6457F6F3! -36IY! V6.715a-70Y!"_! 29 6 34 18 32 XD6457F6F3! -36IY! d72342765D-6! BI346!3G! B3F6.0.76Y!#]! XD6457F6F3! -36IY! d72342765D-6! 3G!d35-61Y!&%! XD6457F6F3! -36IY!?D5-61! I72342765D-61Y! #"! XD6457F6F3! -36IY!B+<! V6.715a-70! )A0-G6I! B+<!)A0-G6I!*DE3-70-c! *DE3-70-cY!'! d72342765D-6!BI346!3G!B3F6.0.76! d72342765D-6!3G!d35-61! ?D5-61!I72342765D-61! Questão 9 Possuir ou não pós graduação Quantidade real Não possuem Possuem em Pedagogia 34 6 Possuem em Gestão Escolar 12 Possuem em Psicopedagogia 9 Possuem em outros cursos 18 XD6457F6F3! -36IY!A/0! E011D3GY!#]! XD6457F6F3! -36IY!B011D3G! XD6457F6F3! XD6457F6F3! 3G!0D5-01! -36IY!B011D3G!-36IY!B011D3G! 2D-101Y!&%! XD6457F6F3! 3G!T315/0! 3G! -36IY!B011D3G! +120I6-Y!&"! B1720E3F6.0. 76Y!_! A/0!E011D3G! 3G! B011D3G!3G!B3F6.0.76! B3F6.0.76Y!'! B011D3G!3G!T315/0!+120I6-! B011D3G!3G!B1720E3F6.0.76! B011D3G!3G!0D5-01!2D-101! APÊNDICE 4: Roteiro para entrevista semiestruturada 1. Dados iniciais (para aderência ao perfil traçado): a. Nome b. Escola c. Tempo de atuação como PC d. Tempo de atuação na escola e. Já trabalhava nessa escola antes de atuar como PC f. Cargo de origem g. Número de professores e ciclos que atende h. Formação Acadêmica 2. O que o levou a fazer opção pelo cargo de PC e que contribuições acredita poder trazer ao trabalho realizado na escola? 3. O que você acha do Programa Ler e Escrever? Quais os pontos positivos e negativos? Por quê? 4. Quais dificuldades encontra, quando atua como formador dos professores que participam do Programa Ler e Escrever? 5. Em que medida a formação, que você recebe, lhe ajuda a pensar em suas pautas de ATPC? 6. É possível trabalhar com seus professores tudo o que é desenvolvido na formação que você recebe? Como prioriza e seleciona conteúdos para planejar sua pauta de formação? 7. Como se dá o processo de construção de sua pauta formativa? 8. Além da ATPC, você consegue garantir outras ações formativas em sua escola? Quais? Com que frequência? 9. Em que medida você sente que está seguindo aquilo que é preconizado pelo Programa? 10. Como você avalia sua atuação como formador de professores? Você sente que age como gostaria, fazendo todas as escolhas, que considera necessárias, ou se sente limitada/controlada pelo que é defendido pelo Programa? APÊNDICE 5: Modelo do Termo de consentimento livre e esclarecido UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SANTOS TERMO DE CONSENTIMENTO LIVRE E ESCLARECIDO TÍTULO: AUTORIA OU REPRODUÇÃO? O COTIDIANO PEDAGÓGICO DE PROFESSORES COORDENADORES NO CONTEXTO DO “PROGRAMA LER E ESCREVER” – SEE/SP Orientador: Profª Drª Maria de Fátima Barbosa Abdalla Pesquisador: Luana Serra Elias Tavares, RG 24.957.053-1, CPF 260.231.128-62, tel: 1397881020. Sou aluno(a) matriculado(a) no Programa de Pós-Graduação stricto sensu em Educação – Mestrado em Educação – na Universidade Católica de Santos, onde desenvolvo pesquisa sobre a prática de professores coordenadores como formadores de professores, que tem por objetivos: investigar, pelo olhar do PC, o quanto o “Programa Ler e Escrever” investe na construção da autonomia desse sujeito como formador de professores; compreender que escolhas formativas o PC prioriza na formação de tais profissionais. Sua participação no estudo não acarretará em nenhum tipo de risco ou gasto financeiro. O anonimato de todas as pessoas que participarão da pesquisa será preservado, assim como as menções a pessoas ou Instituições durante as entrevistas/questionários. A participação nesta pesquisa é voluntária, e o afastamento da pesquisa não acarretará qualquer risco ou penalidade. Uma via deste documento de consentimento ficará em seu poder. Desde já agradeço por sua colaboração na realização deste estudo. Atenciosamente, _____________________________________ Pesquisador _________________________________________________________________________ CONCORDÂNCIA EM PARTICIPAR Eu, _____________________________________________________________________, concordo em participar do estudo descrito. Assinatura do(a) participante:_________________________________________________ Data:___________________________________ APÊNDICE 6: Transcrição das entrevistas (CD-Rom) !