AUTOMAÇÃO E QUALIFICAÇÃO DA FORÇA DE
TRABALHO
Michel Freyssenet**
Atualmente estamos pesquisando, sobretudo, grandes grupos industriais nacionalizados, como a fábrica Renault de automóveis, a siderurgia, e os setores de construção eletrônica, de química, de construção de
computadores e de projetos de software.
Esta estrutura de pesquisa permitiu que há três anos pudéssemos
abordar temas que eram difíceis para uma equipe clássica. Em particular,
pudemos analisar a concepção das instalações automatizadas, ou seja,
entrar em setores da empresa habitualmente considerados possíveis de um
exame muito apurado. Isso nos permitiu enfrentar a questão que nos
parece central em matéria de mudança técnica: compreender como a
relação salarial e sua lógica passam pelas opções técnicas. Como a
automatização da produção, na sua forma microeletrônica, foi uma
oportunidade de instalação de novas formas de organização do trabalho e
fez evoluir a qualificação operária em um sentido muito
* Texto extraído de conferência gravada, realizada pelo IPLAN em maio
de 1989, com a participação do CPCT/CNPq, sem revisão do autor.
** - Diretor de Pesquisa do CNRS (Centre National de la Recherche
Scientifique), França.
- Diretor do GIP (Groupement d'Intérêt Public "Mutations Industrielles")
Paris- França.
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diverso. Portanto, numa primeira análise, não há um prosseguimento da
divisão do trabalho na forma como é observada e analisada desde a origem
do sistema económico capitalista.
Tentaremos ver como se pode interpretar este fato e demonstrar como
é necessário ser prudente e realizar uma análise aprofundada, notadamente
sobre a concepção da automatização, cujos princípios parecem estar em
contradição com a visão oficial, que justifica certas formas novas de
organização do trabalho.
Mostraremos como esta contradição, que talvez não seja senão
aparente, está transformando a requalificação do trabalho operário, o que
se observa em certas formas de organização do trabalho em seu contrário,
isto é, transformando-a numa divisão acrescida do trabalho. A partir desta
análise, poderemos questionar se é possível pensar numa outra forma
social de automatização, alternativa, que permita uma inversão real e
durável da divisão do trabalho, e que condições sociais pressupõe.
Em países como a França, há dez anos observamos uma expansão
bastante rápida da automatização de base microeletrôníca em numerosos
setores industrais. Por automatização entendo as linhas de fabricação cuja
operação, supervisão, alimentação e regulagem são automáticas. A função
das equipes de operação limita-se a assegurar a regularidade de trabalho
dessas linhas.
Graças a várias enquetes foi possível observar que essas linhas
automatizadas de fabricação são associadas a formas de trabalho muito
diferentes. Em numerosos casos temos uma organização do trabalho
obedecendo a padrões antigos, ou seja, operadores provocam o começo do
ciclo de produção e supervisionam a instalação. Os reguladores — que são
chamados de preparadores — realizam a regulagem das ferramentas nas
linhas automatizadas de usinagem, por exemplo. Temos operários que
controlam a qualidade da produção, que fazem o "retrabalho" sobre os
produtos que não estão dentro das normas preestabelecidas e temos
operários de manutenção que intervêm na instalação automatizada,
garantindo o conserto e o início da produção, uma vez que a instalação
automatizada pára automaticamente.
Há uma segunda forma de organização do trabalho que é medianamente generalizada, na qual os operadores dessas linhas automatizadas,
além da condução e da vigilância da supervisão, asseguram a regulagem, o
controle de qualidade, o "retrabalho" e, às vezes, os pequenos consertos na
instalação. Existe uma única outra categoria de operários, que são os de
manutenção.
Há ainda uma terceira forma de organização, na qual temos operários
de manutenção encarregados da condução, da operação e do
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conserto da instalação, ou seja, são responsáveis pela totalidade de
operações necessárias para operação e manutenção da linha.
Finalmente, existe uma quarta forma na organização do trabalho,
que se caracteriza por equipes mistas, nas quais temos, ao mesmo tempo,
operadores que são antigos operários não qualificados, que receberam
formação, e trabalham com os operários de manutenção para que, juntos,
realizem a condução e o conserto da instalação. E, voluntariamente, a
divisão das tarefas entre essas duas categorias de trabalhadores que
compõem a equipe é delicada. Espera-se, de certa forma, que o saber de
uns e outros se misturem e que, notadamente, os operários não
qualificados inicialmente adquiram certa competência para conduzir,
operar, supervisionar, e também realizar a manutenção da instalação.
A análise inicial, no primeiro caso em pauta, é a da organização do
trabalho sob moldes anteriores. Nos três outros casos, temos uma
melhoria na classificação requerida dos operadores e podemos pensar
que, graças à própria dinâmica da organização do trabalho, suas aptidões
poderiam ser sucessivamente aprimoradas.
Como interpretar essas novas formas de organização do trabalho?
Uma primeira conclusão parece impor-se e foi adotada por muitos
pesquisadores: é que, no fundo, a mudança técnica é neutra, mas autoriza
formas de organização do trabalho muito diferentes e variadas. Isso
parece não ter consequências sobre o desenvolvimento da qualificação
dos trabalhadores, que depende muito mais da vontade da direção da
empresa para fazer evoluir a organização do trabalho num sentido ou no
outro, como também poderia depender, por exemplo, em um certo
número de países, da elevação do nível escolar da população. A partir de
determinado nível educacional, não é mais aceitável entregar tarefas não
qualificadas a operários que já tem o nível secundário ou superior, o que
também poderia se explicar mediante pressões das organizações
sindicais, em defesa do crescimento da profissionalização operária.
Se levarmos a análise mais adiante, poderemos fazer três observações: a primeira é que as tarefas dessas equipes de condução e de
conserto mudaram de conteúdo, em relação à época anterior de mecanização, e alteraram o conteúdo intelectual. A segunda é que essas formas
de organização do trabalho, de fato, só visam um objetivo, apesar da sua
diversidade: todas são uma resposta às novas necessidades da produção
automatizada.
A terceira observação é que, quando se analisa o processo de
concepção das instalações automatizadas, é impossível não reparar e
questionar o fato de que os pressupostos das representações que os en101
genheiros projetistas têm em mente quando fazem as opções técnicas,
estão claramente em contradição com os princípios contidos na base das
novas formas de organização do trabalho.
Convém indagar esta falta de homogeneidade a nível dos princípios,
o que tentarei fazer, ressaltando três pontos:
1 - O conteúdo intelectual das tarefas mudou. Alguns exemplos
ilustram isso:
Nas instalações mecanizadas, o operador tem que supervisionar a
sua máquina, a sua instalação, e tem que registrar um certo número de
sinais estranhos relacionados ao funcionamento da máquina, capaz de
indicar que um incidente pode estar sendo gerado ou possa acontecer.
O operador deve, por conseguinte, acumular um mínimo de conhecimentos do funcionamento da máquina — adquirindo-os, geralmente, na formação do posto de trabalho, ao usar muitos anos a mesma máquina ou o mesmo tipo de máquina. Ele adquire esta capacidade de supervisão ativa e mais ou menos inteligente que lhe permite intervir
quando necessário.
No caso da instalação automatizada, a supervisão é feita de forma
automatizada. Assim, quando qualquer mecanismo — necessário e imprescindível para o funcionamento da instalação, para a qualidade da
produção e para segurança do pessoal — venha a falhar, a instalação pára
automaticamente. Nesse momento, o sinal automaticamente chama a
atenção do operador, para que possa intervir. Tal processo, de certa
forma, libera o operador da vigilância contínua da instalação, o que
permite ao projetista dos sistemas automatizados prever outras tarefas
auxiliares, anexas, para execução pelos operadores, já que estes não
precisam mais ficar permanentemente supervisionando a instalação.
Com este exemplo vemos que a tarefa de supervisão mudou de
conteúdo, ou seja, de relativamente ativa passou a ser passiva, imediatizada, já que, quando o sinal e a parada acontecem, o operador tem que
consultar um terminal de vídeo que vai indicar qual o sensor que
provocou essa parada automática, podendo muitas vezes — a partir da
indicação do sensor — identificar a causa.
Outro exemplo: a troca de ferramenta da máquina. Na organização
do trabalho tradicional cabe ao preparador esta tarefa. Neste sentido, o
preparador deve saber avaliar qual o momento oportuno para trocar a
ferramenta, em função de um certo número de indícios que um bom
regulador de máquinas aprende a captar progressivamente.
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Nas instalações automatizadas, depois de um certo tempo e de
números de peças produzidas — ainda tomando a usinagem como exemplo, — a instalação automatizada pára automaticamente e somente neste
momento convém trocar a ferramenta. Se foi calculado um número de
peças produzidas além das programadas, a ferramenta deve ter se desgastado e convém trocá-la a partir desse momento. Por consequência,
deve-se abandonar a possibilidade de otimização do uso das ferramentas
em benefício de uma normalização do uso.
Ainda referindo-me a este terceiro exemplo, quanto à reparação das
panes e das causas dos incidentes, as equipes de conduta e de repartição
dispõem de sistemas para ajudá-las a fazer o seu diagnóstico, ou seja,
além dessa supervisão e reparação, há uma detecção que se faz na origem
d os incidentes. A partir desse momento a indicação quanto ao lugar onde
se produziu o incidente permite ao operador, numa fração de tempo
muito rápida, dirigir-se ao lugar do incidente e fazer o pequeno conserto
necessário. Consequentemente, os operadores, pouco capacitados ou de
capacitação limitada têm condição de fazer pequenos consertos que antes
só podiam ser executados por profissionais especialistas em manutenção
ou consertos.
Podemos, então, considerar o conjunto de tarefas a serem realizadas
por essas equipes e mostrar, do mesmo modo, como cada uma delas
mudou de conteúdo intelectual. Em decorrência, o reagrupamento de
certas tarefas — conduta, vigilância, regulagem, controle de qualidade,
retoques, consertos, reparação dos incidentes — não corresponde às somas das competências e das capacitações individuais que eram antes
imprescindíveis e necessárias, mas sim à soma de uma série de funções
que mudaram de conteúdo.
Se analisarmos os requisitos necessários para executar certas
funções cujo conteúdo se acha redefinido, é até mesmo provável — que a
nova competência exigida seja superior à anterior. Se não fizermos uma
análise da evolução do trabalho e do conteúdo intelectual das tarefas,
muitas vezes poderemos ser levados a conclusões erróneas.
A divisão do trabalho é um conceito, não é uma categoria descritiva
que se caracterizaria pela maior ou menor repartição das tarefas entre
diferentes categorias de trabalhadores. Corresponde a uma realidade que
leva em conta o conteúdo intelectual do trabalho, antes de sofrer qualquer
forma de divisão.
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2 — As novas formas de organização do trabalho — como nas análises e discussões com os seus promotores —, levam-nos à conclusão
de que a solução do problema da produção automatizada deve ser
vista num certo contexto social.
De fato, com a introdução da automação, a produção não depende mais
do ritmo do trabalho dos operadores que alimentam as máquinas e
deslancham o ciclo de produção. Na produção automatizada, é a própria
linha que realiza a produção.
Por outro lado, numa linha automatizada o volume e a qualidade da
produção vão depender dos tempos de paralisação da linha, quer dizer, do
número e da duração dos incidentes que causam a parada.
Em consequência, trata-se, no âmbito da produção automatizada, de
mudar as normas de trabalho dos operários de manutenção. Anteriormente, na produção mecanizada esses trabalhadores da manutenção
faziam o seu trabalho em função das exigências das profissões de
mecânicos, ajustadores, eletricistas, etc, características da sua especialidade, e não estavam submetidos a uma norma de trabalho patronal. O
seu trabalho não era cronometrado, predeterminado, devendo ser efetuado segundo os procedimentos elaborados pelo departamento de "õrganização e métodos. Na produção não automatizada é sempre possível
haver uma pane na máquina e a produção ser canalizada para outra máquina.
Numa linha de fabricação automatizada, em que as máquinas estão
integradas, postas em linha uma em seguida à outra, essa transferência de
produção não é mais possível. Qualquer parada em qualquer ponto da
linha significa a suspensão de toda a produção. Em consequência, é
preciso que os operários da manutenção aceitem efetuar consertos
rapidamente, e que façam eficazmente os diagnósticos, sem perda de
tempo. Consequentemente, todo o poder e todo o jogo social que estavam
nas mãos desses trabalhadores de manutenção, em função do seu próprio
caráter profissional — quando cabia a eles estabelecer o tempo necessário
para efetuar um conserto — tornam-se um obstáculo e entram em
contradição com a produção automatizada e com o novo contexto social e
as novas práticas de trabalho.
E preciso, então, encontrar uma solução. Como fazer para que esses
operários de manutenção aceitem as novas normas de trabalho, que são
muito mais de fabricação propriamente dita? Se nós nos reportarmos às
três novas formas de organização do trabalho, excluindo a primeira (que é
à reprodução da organização do trabalho clássica), veremos que, no
primeiro caso, fica por conta dos operadores o primeiro conserto, graças à
existência de um sistema automatizado que permite
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localizar os incidentes. Esta, então, é uma forma de retirar uma parte
da atividade dos trabalhadores da manutenção, que poderiam intervir
na solução desses incidentes segundo as normas de trabalho
tradicionais, quer dizer, demorando o tempo que julgassem necessário.
Na segunda forma de organização do trabalho, o pessoal da manutenção faz parte da condução e da repartição das instalações. Neste
caso, espera-se que intervenham rapidamente para retomar a produção,
numa tentativa para fazer adotar uma nova norma de trabalho. Essa nova forma de organização do trabalho não tem sido muito eficaz, devido
à resistência dos operários de manutenção, por isso, não se generalizou
muito.
Por fim, na última forma de organização do trabalho temos equipes mistas — operadores e agentes de manutenção —, tentativa que se
revelou mais eficaz e produtiva para chegar a reparações rápidas e alcançar índices de rendimento das instalações relativamente elevados.
3 — Concepção das instalações automatizadas.
Eu havia chamado a atenção, quando analisava as instalações automatizadas, sobre o fato de que as pessoas que promoviam as novas
formas de organização do trabalho eram também as mesmas que reclamavam dos automatismos instalados na linha de fabricação, o que, manifestamente, esvaziavam o conteúdo intelectual de certas tarefas. Nisso, havia algo de surpreendente. Quando se perguntava a essas pessoas
por que se queixavam dos automatismos suplementares que vão retirar
um pouco da profissionalização, a resposta era sempre: "Nunca estamos certos de que os operadores vão executar devidamente a operação
em questão, e esse automatismo é mais uma precaução, uma medida de
segurança".
Nessas respostas estava implícita uma certa desconfiança a respeito dos operadores. Quando, durante outras pesquisas, foi possível conversar com os projetistas dessas linhas automatizadas, a nossa surpresa
foi enorme porque, de maneira muito explícita, os princípios e as
representações que fundamentavam a concepção desse sistema
estavam em contradição com o que parecia ser os princípios de uma
nova organização do trabalho.
A concepção das linhas de produção automatizadas atuais fundamenta-se em três representações sociais.
Em primeiro lugar, temos uma representação do que é a produtividade e de como deve ser incrementada. A modalidade dominante,
hoje em dia, entre os projetistas, consiste sempre em conceber a insta105
lação que vai suprimir o número máximo de operações a serem efetuadas e, como consequência, o máximo de postos de trabalho. Os projetistas partem sempre de uma visão da produtividade aparente do trabalho, quer dizer, da relação entre o tempo e o volume da produção realizada. Na verdade, pode-se ter outra visão da produtividade porque,
com a produção automatizada, a mão-de-obra já não é mais o fator essencial da produção, mas o ritmo de funcionamento das instalações.
Nesta representação da produtividade, quando o projetista tenta
suprimir o maior número possível de operações, ou o máximo de
aspectos de cada uma delas, o que resta a fazer pelo trabalho humano
— reduzido a pedaços de funções anteriores —, é o reagrupamento
dos novos ofícios. Mas o resultado desse reagrupamento de elementos
anteriores não constitui um conjunto coerente de atividades que possa
realmente fundamentar uma verdadeira competência.
A segunda representação social que orienta os engenheiros projetistas (que concebem o equipamento) é da ciência e da técnica, que leva em conta o papel do engenheiro em nossa sociedade. Isto se manifesta, em primeiro lugar, pela profunda convicção de que a solução
técnica é sempre a mais definitiva e a mais eficaz para todos os problemas produtivos, organizacionais e sociais.
Tivemos uma ótima ilustração disso na Europa, com o advento da
automatização da produção, quando os projetista europeus e norteamericanos ficaram muito impressionados com o notável desempenho
da indústria japonesa e, num primeiro tempo, só souberam ver naquela
experiência apenas uma automatização mais desenvolvida. Mas, o que
existe de mais fundamental no caso japonês, pelo contrário, é uma
transformação organizacional e uma alteração nas condições sociais
da produção, as quais prepararam o terreno para a evolução das
mudanças técnicas, constituindo, em muitos casos, a precondição da
eficácia dessas mudanças técnicas.
A técnica, para os engenheiros projetistas, é vista, em seguida,
como a aplicação, num domínio utilitário, de lei cientifica. E, em consequência desta visão — que se poderia chamar de técnico-científica
—, só pode haver uma boa solução ao nível técnico, aquela que aplica
corretamente a lei científica, e que se impõe, portanto, como força de
verdade. A ideia de que possa haver várias técnicas possíveis e válidas
em função de objetivos e princípios diferentes é inadmissível para
esses engenheiros projetistas. Por fim, a técnica fica legitimada
perante os engenheiros devido às suas proezas, aos grandes saltos que
tem dado em relação à produção, envidenciando a unicidade do
progresso técnico e do seu valor social e económico.
Daí, a atração permanente desses engenheiros pelas proezas téc106
nicas, com riscos económicos e sociais muito grandes, inclusive o de
desprezar qualificações e antigas competências, julgadas duvidosas, e
a tentação de fazer melhor que o homem e sem o homem.
De fato, há uma terceira representação social sobre a concepção
da automatização atualmente dominante, mais diretamente vinculada à
relação salarial, uma representação do que são os trabalhadores de fabricação, do que são os operários de manutenção e do que é a vida na
fábrica. Temos muitos planos de cargos que são elaborados pelos engenheiros projetistas para fornecimento aos fabricantes das máquinas,
com a recomendação explicita de que as instalações automatizadas que
estão encomendando possam ser conduzidas por operários sem qualificação. O caso que estou citando aqui é tomado de uma companhia
francesa, considerada de ponta quanto à política de recursos humanos,
no sentido de praticar democratização interna e desenvolvimento de
competências. Será que se trata de um erro? Será que a política impulsionada pelos dirigentes desse grupo industrial não chegou até aos serviços técnicos de engenharia, ao departamento de estudos e projetos,
ou existe uma espécie de atraso, ou um fenómeno de inércia? A minha
hipótese é de que se trata de algo muito mais profundo. Para os que
estão pensando no sistema técnico produtivo, a oficina é sempre vista
como um lugar de práticas duvidosas, de tolerância, de compromissos
inconfessáveis dos contramestres.
Vemos que a norma de trabalho que deriva diretamente da concepção das máquinas põe em dúvida a racionalidade do sistema técnico, o que, para os projetistas, está na origem de sua eficiência. Donde
um fenómeno curioso: esses engenheiros são extremamente reticentes
ao analisar, antes de conceber as instalações, o trabalho real executado
pelos operadores, porque, para eles, o trabalho real é simplesmente o
ato de aproximação, de práticas intuitivas, de compromissos
duvidosos. Por isso, não tem nenhuma utilidade para a concepção do
novo sistema, que deve ser fundamentalmente racional. Essa postura é
muito curiosa porque, ao contrário do que se pensa, isso significa um
esquecimento completo da recomendação de Taylor de que os
operários profissionais deviam compreender bem o seu trabalho, para
que este pudesse ser racionalizado e normatizado.
Tem-se então a visão de uma técnica produtiva que impõe a maneira correta de produzir.
Enfim, há a convicção profunda de que os assalariados não são
confiáveis para a produção, primeiro, porque são seres humanos e, por
isso, sujeitos a pressões, a falhas, a incertezas e, segundo, porque são
assalariados. Desta forma, são indivíduos com os quais é difícil compartilhar os objetivos da empresa. Daí, há uma tendência a conceber
uma técnica que seja para o assalariado ao mesmo tempo normatiza107
dora, ou então substitutiva, ou de controle, ou de "assistência" e, nesse
universo social que ocupa a mente dos engenheiros projetistas, é lógico
que a automatização deve ser levada às últimas consequências tecnicamente possíveis e que a atividade do operador e do operário de manutenção só pode ser encarada a posteriori e prescindindo de escolhas
técnicas.
A este respeito é possível citar um exemplo recente, que é o aparecimento do sistema expert de diagnóstico de panes. Por enquanto, a
"profissionalidade" dos operários de manutenção e o seu poder sobre a
produção estão quase intactos, já que para as panes complexas eles são os
únicos capazes de realizar o diagnóstico, que está no âmago da
"profissionalidade" do operário de manutenção.
Estão sendo concebidos sistemas experts que, neste caso, funcionam
a partir da explicitação e, de certo modo, da expropriação do saber dos
operários de manutenção, sistemas esses que consistem na detecção de
sintomas de uma pane, fornecendo ao operador o diagnóstico a partir de
respostas dadas a perguntas feitas pelo novo sistema.
Por enquanto, esses sistemas estão restritos a panes ainda relativamente simples e em áreas bem delimitadas, como a elétrica (os circuitos elétricos são fenómenos bem determinados, bem lógicos, onde xis
fatores são facilmente identificáveis). A área mecânica já é bem mais
complexa, mas estão sendo feitas tentativas para abordagens de áreas
mais abrangentes e situações mais problemáticas em matéria de
diagnóstico.
Esses sistemas estão sendo usados também, muitas vezes, como
sistemas de formação, até como substitutos ao papel do operário experimentado, que transmite o seu saber, sua habilidade, ao operário mais
jovem. Entretanto, esses sistemas têm uma particularidade muito interessante, que é a de estender ao máximo de casos possível os diagnósticos
julgados ótimos. Isto quer dizer que este sistema (e os operários de
manutenção entenderam perfeitamente isso) é um sistema potencialmente
substitutivo, porque, uma vez que possa vir a cobrir o grosso dos casos de
panes, será então totalmente possível operá-lo usando a mão-de-obra de
operários menos qualificados que não têm a competência dos operários
de manutenção.
Para panes extremamente complexas, ou para panes novas, pode-se
manter um pequeno pool de técnicos de manutenção, que serão capazes
de tratar essas panes raras atualizando e aprimorando o sistema expert de
diagnóstico. Entretanto, é possível conceber sistemas baseados em outras
formas que não sejam potencialmente substitutivas e desqualificantes.
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Entende-se que, se esses sistemas forem instalados — parece-me que
nas empresas mais automatizadas isto é uma questão de cinco anos mais
ou menos —, influenciarão na redução do trabalho, já que as equipes de
condução e de manutenção, das quais falamos, vão trabalhar com esses
sistemas experts. Os operários menos qualificados dessas equipes deverão
ser capazes de fazer o diagnóstico e o conserto, enquanto os operários de
manutenção sofrerão uma verdadeira desqualificação. Poderão surgir,
num primeiro tempo, formas de trabalho menos qualificantes e uma nova
fase de divisão do trabalho, como meio de dominar, de padronizar o
trabalho de manutenção e de reduzir o efetivo da população operária
profissional que, por enquanto, é ainda a memória técnica das empresas.
Vê-se, pois, que o fato de os princípios aparentes da nova forma de
organização do trabalho estarem em contradição com os princípios e
concepções das instalações automatizadas provoca o fenómeno da inversão da requalificação, que terá sido somente temporária e limitada,
uma transformação em sentido inverso.
Não irei desenvolver este ponto, mas quero chamar a atenção sobre o
fato de que esse fenómeno não é novo na história da divisão do trabalho.
Isto é algo que já foi observado, quando se passou — para ficarmos no
exemplo da mecânica — das máquinas-ferramentas universais, que eram
conduzidas por operários profissionais de fabricação, que sabiam operar e
manter as máquinas universais, para as máquinas-ferramentas
especializadas, conduzidas por operários não qualificados.
Historicamente, neste caso, temos um fenómeno de requalificação, já
que, na época, recorreu-se a operários braçais, aqueles que transportam as
peças, uma mão-de-obra totalmente não qualificada, para operar
máquinas-ferramentas especializadas. Com essa mão-de-obra ocorreu
uma autêntica requalificação, tanto mais que as primeiras máquinasferramentas especializadas eram ainda pouco precisas, requerendo certa
habilidade. Essa requalificação de operários não qualificados, na época,
foi também uma forma de eliminar progressivamente os operários
profissionais de fabricação.
Minha indagação é a seguinte: será que hoje não estamos observando
um fenómeno do mesmo tipo?
Vale destacar que estamos analisando fenómenos sociais que estão
ocorrendo neste momento, não havendo um determinismo absoluto.
Existem forças sociais que estão entendendo mais ou menos o que está
acontecendo. É possível imaginar que certas forças sociais aproveitem as
novas formas de organização do trabalho para desenvolver estratégias
alternativas, e levantem a questão da contradição entre essas
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novas formas de organização do trabalho e a manutenção dos princípios que fundamentam a concepção das instalações automatizadas.
É possível, também, imaginar uma estratégia na qual, de certa
forma, apareça uma palavra forte de um novo management, cobrando
coerência no conjunto das ações da empresa. Tanto mais que, no fundo, temos exemplos de outra concepção social da automatização.
Parece que em algumas oficinas automatizadas de certas
empresas japonesas está ocorrendo uma situação na qual,
incontestavelmente, as equipes de condução e manutenção de
instalações automatizadas estão se tornando as verdadeiras detentoras
do funcionamento dessas instalações e têm, por isso, se transformado
em interlocutores obrigatórios dos projetistas das novas gerações de
instalações.
No caso da chaparia de uma indústria de automóveis, por exemplo, constatou-se que a equipe de condução e conserto está permanentemente analisando e estudando o funcionamento de sua instalação, e,
através de instrumentos de registro, que estão à sua disposição,
instaladas em diversos pontos da linha automatizada, ela procura
identificar as cansas de certos acidentes e, a partir dai, imagina
soluções técnicas e modificações para eliminá-las.
Da mesma forma, a regra seguinte é a instalação de equipamento
para prevenir paradas automáticas. Se a parada ocorre, isto é a prova
da falta de domínio técnico da equipe sobre sua instalação. Assim, trata-se aí de uma desaprovação, uma espécie de dúvida sobre à competência da equipe. O objetivo da equipe é imediatamente refletir
sobre a causa não identificada dessa parada e, sem demora, identificála e eliminá-la.
Esta forma de organizar o trabalho e de pensar a técnica, obviamente, tem dois efeitos: o primeiro, é exigir e permitir o desenvolvimento considerável da competência das equipes de operação e manutenção; e o segundo, permitir uma confiabilidade extremamente rápida
das instalações e uma eficiência produtiva muito notável. Verifica-se
que, neste caso, é preciso contar com certas condições, pelo menos
duas relevantes.
A primeira, é que a confiabilidade das instalações automatizadas
não implique, para as equipes de operação e manutenção, na sua
eliminação, já que, se as máquinas não estão sujeitas a pane, pode-se
reduzir sensivelmente o número de pessoas necessárias para estudar e
analisar a linha de fabricação.
É necessário, então, que haja um sistema de trabalho que garanta
o emprego dessas pessoas que aceitam participar dessa equipe que tra110
balha com esses sistemas confiáveis, garantindo que a competência adquirida nesta atividade não seja desqualificada, mas sim aproveitada
em outras atividades. Aparece aí o problema da orientação da
atividade produtiva da empresa e, é difícil saber neste momento como
as empresas japonesas estão resolvendo este segundo problema.
A segunda condição é que é necessário que esses operários, —
seja por aceitação, seja por imposição, — compartilhem os objetivos
produtivos da empresa e que as contrapartidas recebidas pela
mobilização da sua inteligência sejam julgadas por eles como normais
e aceitáveis. Este é um pequeno exemplo cujo alcance eu conheço,
mas que nos ajuda a pensar no que poderia ser ima estratégia
alternativa em matéria de automatização.
Na lógica de raciocínio que estou desenvolvendo, tento esboçar
quais poderiam ser as características técnicas de uma outra automatização. Para tanto, participei da concepção de uma linha automatizada,
que exponho, rapidamente, a seguir.
Se partirmos do princípio segundo o qual as linhas automatizadas
devem ser conduzidas pelos operários profissionais, é preciso que
essas linhas tenham características que permitam o desenvolvimento e
o emprego dessas competências profissionais. Daí, é necessário que as
instalações automatizadas não sejam concebidas como uma espécie de
caixa preta — na qual os operadores e o pessoal de manutenção só poderiam intervir com o auxílio de certos indícios e comandos cuidadosamente predeterminados para orientar e canalizar as suas
intervenções. É preciso, ao contrário das instalações automatizadas,
que os princípios de funcionamento, em suas diferentes funções, sejam
ao máximo visíveis, legíveis e acessíveis aos operários profissionais,
cuja função essencial é entender permanentemente todos os fenómenos
que estão ocorrendo nessas instalações para poder garantir o seu
funcionamento regular e o bom desempenho.
Isso implica conceber a arquitetura dessas instalações automatizadas de uma forma totalmente diferente. Para voltarmos ao exemplo dos
sistemas experts, em vez de concebê-los para dar resposta correta a todos os casos possíveis de incidentes, deve-se criar sistemas capazes de
memorizar os princípios de inteligibilidade da equipe de condução,
permitindo que nesta, ao se deparar com situações novas, relembre esses princípios e encontre as soluções nos casos de incidentes que possam já ter sido identificados.
As linguagens derivadas da inteligência artificial oferecem essa
possibilidade de explicitação e de memorização de certas habilidades,
ainda amplamente incorporadas nas competências dos operários
profissionais.
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Vê-se como esta estratégia alternativa de automatização leva, logicamente, a um reforço das habilidades, das competências, mas
também a um poder das equipes de base sobre a produção e sobre a
evolução do sistema produtivo, já que elas se tornam interlocutores
obrigatórios dos projetistas.
Pode-se admitir a hipótese razoável de que dentro da relação
salarial há uma certa contradição de objetivos entre os dois
protagonistas padrão desta relação salarial. Pode-se pensar que se uma
tal estratégia fosse desenvolvida generalizadamente, as equipes de
base estariam em condições de disputar, de reivindicar o direito de
vigilância sobre os investimentos e a evolução da estratégia de
produção da empresa.
Por isso, não é certo que seja possível, social e economicamente,
num regime de relação salarial, compartilhar este poder. Mesmo que
eu me esforce muito na tentativa de pensar uma outra forma de divisão
do trabalho, duvido que ela pudesse se desenvolver e, sobretudo,
generalizar-se num regime de relação salarial. Esses esforços, pelo
menos, nos têm permitido, ao nível da pesquisa, detalhar e, espero,
confirmar a tese segundo a qual as relações sociais e, notadamente, a
relação salarial, se materializa na evolução técnica, uma vez que a
técnica não é aquela esfera isenta de qualquer determinação social,
mas, como tudo que acontece na sociedade, é um produto social e,
portanto, participa da análise, da lógica das relações sociais e do que
essas relações sociais produzem.
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