PEREGRINAÇÃO: A HISTÓRIA SEM DECASSÍLABOS
Gustavo Henrique Rückert (UFRGS)1
1 Acerca da História e da História da Literatura
A História enquanto disciplina de estudo e enquanto a própria escrita – o registro – de
nossa História, sempre se baseou nos marcos. Os grandes feitos realizados pelos grandes
personagens sempre foram o centro do discurso histórico. Assim, a narrativa das grandes
ações de um Júlio César, de um Alexandre, de um Carlos Magno, de um Luís XV, de um
Napoleão, sempre foi a própria História. O cotidiano daqueles que sofreram diretamente as
consequências dessas atitudes dos grandes nomes, que detiveram de maneira mais direta o
poder, não era matéria adequada para os registros. A História positivista desses grandes feitos,
ou seja, a narração da sucessão de marcos em um ingênuo encaixe de causa e consequência
criou a ilusão de uma grande narrativa linear que corresponderia à própria História, não mais
a disciplina, nem a escrita, mas o próprio referente desta.
De acordo com Foucault (2010), todo discurso se utiliza de uma série de aparatos
disciplinares para legitimar-se, ou seja, tornar-se verdadeiro. O poder é o pré-requisito
necessário para a construção de uma verdade. E a História legitimou seu discurso com os
tradicionais mecanismos disciplinares da ciência do século XIX. Havia a pretensão de
neutralidade do discurso. Ou seja, um período de tempo (o objeto de análise) era, com
distanciamento, estudado por um cientista que acreditava na ilusão de estar produzindo um
discurso neutro, o discurso científico acerca da História, ou seja, a descrição do que ela de
fato é.
Os estudos sobre o signo e a linguagem, felizmente, evoluíram ao ponto de inviabilizar
a ingênua crença de que um significante faz referência direta a um significado. Hoje se sabe
que o próprio referente é um construto do signo. A linguagem não representa ou mimetiza o
mundo, mas sim, revela um local de enunciação e seus preceitos e preconceitos, com o modo
de ver e entender o mundo daquele que fala. Assim, o clima de libertação do final dos anos 60
possibilitou que viesse à tona a revisão da ciência e da disciplina História – ou, ainda, a
História Tradicional. Tornou-se evidente o fato desta ser uma narrativa feita por um narrador
que seleciona alguns fatos e omite outros. Derrida (2001), revisitando Freud, em O mal de
arquivo, desconstrói a oposição binária memória/esquecimento, mostrando que o segundo
termo é fundamental ao primeiro. Surgem, assim, narrativas históricas que buscavam resgatar
1
Mestrando em Literaturas Portuguesa e Luso-Africanas no Programa de Pós-Graduação em Letras da UFRGS.
o que foi esquecido na História Oficial. Isto é, a narrativa dos homens simples tornou-se
fundamental. Mais do que isso, a narrativa do cotidiano desses homens e de sua produção
cultural e artística ganhou espaço. As narrativas históricas passaram a ser baseadas não só em
documentos considerados oficiais, mas também em fontes alternativas como a própria
vestimenta, alimentação, estilo de vida, produção cultural.
É necessário considerar que a História da Literatura, como qualquer história, funciona
sob os mesmos preceitos: memória/esquecimento, legitimação de verdade, disciplina, poder.
Ou seja, ela é uma narrativa que é, em sua própria natureza, excludente. E os conceitos de
valor, de literaridade e de estética, assim como o de universalismo, durante muito tempo,
sustentaram o poder desse discurso, que é próprio cânone. Isso porque quem emitiu esses
valores não era neutro como pressupunha a ilusão científica, mas falava de algum lugar. Esse
é o lugar central do qual irradiam os sentidos legitimadores. O conceito de universal foi
produzido pelos europeus, julgando que seus valores e a sua condição humana era comum a
todos os povos e culturas. Ou seja, os artefatos considerados artísticos são aqueles que são
dotados de estética de acordo com o conceito de estética do centro produtor de sentidos. E
assim se constrói a narrativa de um cânone, de uma história única, de um discurso legitimado
como verdade por meio de um aparato disciplinar que um grupo detém, porém outros não. Os
discursos dos outros, são, portanto, carentes de estética e são esquecidos para não corromper a
homogeneidade e a linearidade da narrativa histórica.
2 Acerca da Peregrinação (e d’Os Lusíadas)
Peregrinação é uma obra considerada por muitos uma espécie de anti-lusíadas. Tratase de uma narrativa contemporânea d’Os Lusíadas, mas que, diferente da obra de Camões,
ficou esquecida da História da Literatura e do cânone. Para que melhor entendamos, então, o
discurso a respeito das navegações, das “descobertas”, das guerras e do próprio colonialismo
contido n’Os Lusíadas, é interessante que pensemos essas mesmas questões na narrativa
contemporânea que foi silenciada, que foi esquecida no mecanismo narrativo.
Fernão Mendes Pinto (autor da obra) foi um explorador e aventureiro português que
fez parte de inúmeras expedições marítimas ao oriente. Alguns dizem que fez parte da
primeira expedição portuguesa a chegar ao Japão. Ele teria escrito entre 1570 e 1578 uma
espécie de diário ou de crônica contanto as aventuras vividas/ficcionalizadas. Sob o título de
Peregrinação, essas narrativas teriam sido publicadas pela primeira vez somente em 1614, ao
passar sob o crivo da Inquisição. Não se sabe, portanto, se esses relatos foram em algumas
partes alterados ou suprimidos. Por que essa narrativa nunca fora bem vista? Por que tamanho
contraste em relação ao sucesso da narrativa camoniana, que teria sido escrita nos fins da
década de 1560 e já publicada em 1572, com recompensa de uma pensão do rei português, D.
Sebastião, por serviços prestados à Coroa?
Para tentarmos entender um pouco melhor o silenciamento da obra de Mendes Pinto,
em contraste com o êxito da obra camoniana, voltemo-nos para os dois textos em busca de
uma análise que mostre indícios que viabilizem alguma hipótese de explicação das causas do
mecanismo lembrança e esquecimento em questão. Primeiramente, voltemo-nos para um
excerto d’Os Lusíadas: a vigésima sétima e a vigésima oitava estrofes do Canto V:
Achamos ter de todo já passado
Do semicapro Peixe a grande meta,
Estando entre ele e o círculo gelado
Austral, parte do mundo mais secreta.
Eis, de meus companheiros rodeado,
Vejo um estranho vir, de pele preta,
Que tomaram por força, enquanto apanha
De mel os doces favos na montanha.
Torvado vem na vista, como aquele
Que não se vira nunca em tal extremo;
Nem ele entende a nós, nem nós a ele,
Selvagem mais que o bruto Polifemo.
Começo-lhe a mostrar da rica pele
De Colcos o gentil metal supremo,
A prata fina, a quente especiaria:
A nada disto o bruto se movia. (CAMÕES, 2008, p.151-152)
Nessa passagem, os portugueses, com suas embarcações avançando pela ilha de Santa
Helena, na costa da África, deparam-se com um africano. Cabe lembrar que, de acordo com
Patrick Chabal (1998), as identidades nacionais portuguesas consolidaram-se, principalmente,
a partir do século XV. Não à toa, esse é um século de navegações (que se intensificam no
século XVI) e, conseqüentemente, da descoberta do outro. É a partir da alteridade que o
europeu constituiu sua identidade, por meio da oposição binária. Assim, durante a história das
descobertas e da colonização, os africanos, os americanos e os asiáticos foram a nãoidentidade, ou seja, a negação dos valores que a Europa quis para si. Daí os adjetivos com que
Camões descreve aquele africano: estranho, selvagem e bruto. Esse discurso não é, senão, a
auto-afirmação de um vasto império civilizado (com fé, com lei e com rei) de fazer inveja
mesmo aos romanos.
Em contraponto ao caso desse contato com a alteridade por parte das naus portuguesas
em Os Lusíadas, vejamos um recorte de relato de semelhante encontro no Capítulo XL, Como
daquy nos partimos para a ilha de Ainão, onde avia novas que estava o cossairo Coja Acém,
e do que nos acôteceo no caminho, de Peregrinação:
(...)& por não vermos [nós da nau portuguesa] ahy cousa de que lançar mão, nos
tornamos a sayr(...)(p. 109)(...) & bradando por Santiago, [António de Faria] deu
nelles [supostos piratas] cõ tãto impeto e esforço, q~em muyto pequeno esforço
foraõ quase todos mortos. (p. 110) E depois de fazer dar a morte ao Similau & aos
outros seus cõpanheyros, q~ foy cõ lhes mandar lanças os miolos fora cõ hûa tranca
(...) (p.111) para q~ a mãos de Portugueses pagasse o que lhes tinha feito. (PINTO,
1988. p. 111)
Nota-se que a intenção dos portugueses em território asiático era de saquear alguma
nau ou semelhante. Após aproximarem-se da embarcação lusa possíveis piratas, são
praticamente todos mortos cruelmente sob comando de António de Faria. Aqueles que iriam,
supostamente, praticar a mesma atitude que era intenção dos portugueses foram “castigados”
por isso, para que com a mão dos portugueses pagassem. E é exatamente da mesma forma
que na obra é relatado o cotidiano de viagem português, repleto de crimes como roubos,
assassinatos, estupros, parricídios e etc.
3 À guisa de conclusão
Sem quaisquer pretensões de definir as respostas para a pergunta aqui lançada, a
respeito da análise da preservação de uma obra e de certo esquecimento de outra, à guisa de
conclusão, apresentamos uma hipótese.
De um lado, pensando em nível de linguagem, temos uma narrativa em pomposos e
clássicos versos decassílabos; de outro, uma escrita baseada na linguagem coloquial utilizada
pelos próprios nautas.
Já em relação à estrutura narrativa, em Camões há a estrutura
tipicamente épica, ao passo que, em Mendes Pinto, há uma estrutura que permeia a crônica de
viagem, mas que também se assemelha em muito com a estrutura narrativa das novelas
medievais. Já acerca da temática das duas obras, a primeira apresenta grandes feitos, marcos
na heróica história do império; a segunda, o cotidiano dos navegantes, com os acontecimentos
menores que nunca seriam dignos de epopéias. Por fim, em relação ao discurso, em Os
Lusíadas, o discurso é claramente louvatório. Se as epopéias clássicas (homéricas) trataram
sobre a penúria da guerra, a traição, o orgulho, essa epopéia lusa trata de louvar sua
nacionalidade. Já em Peregrinação, na narrativa pretensamente realista, não que tenhamos
necessariamente um discurso de denúncia, mas há um discurso despreocupado com os
pudores de narrar os horrores cometidos em nome de Portugal e da fé católica.
Se os versos camonianos constituem um instrumento de louvação a Portugal,
necessariamente eles ressaltam uma identidade nacional portuguesa. Esta, por vez, está
estreitamente relacionada com a missão civilizatória. O país que teria se originado por
vontade de Deus e teria a missão de constituir um vasto império de domínio católico depende
da anulação do outro (colonizado) para sustentar essa sua identidade. Nesse sentido, torna-se
mais fácil de entender a posição central de uma obra e periférica de outra. Nos momentos de
crise portuguesa, não raro se recorreu à grande épica para sustentar uma identidade. Já uma
obra como Peregrinação, por conseqüência, torna-se uma ameaça para esse constructo
identitário ao mostrar o quão brutos, selvagens e estranhos os grandes heróis da história
colonial portuguesa foram. E a estética tão logo se revela ideológica e percebemos que a
narrativa da história literária costumeiramente atribui ao texto camoniano o caráter estético,
lírico, ou mesmo literário, e ao texto de Mendes Pinto a ausência desses valores –
instrumentos de exclusão do par memória e esquecimento.
De acordo com Sartre, no prefácio de Condenados da terra, de Fanon (2004), “há não
muito tempo, a terra tinha 2 bilhões de habitantes: 500 milhões de homens e 1 bilhão e 500
milhões de nativos. Os primeiros tinham a palavra, os outros apenas utilizavam ela” (p.xliii).
Os portugueses (1/4) tinham a palavra e o poder de contar a história. O outro (3/4) era o bruto
que necessitava ser salvo pelas luzes da razão, da civilização e do cristianismo. No entanto, os
textos que foram uma ameaça a esse discurso, fossem dos “nativos”, fossem mesmo de
portugueses como o caso aqui proposto, foram silenciados e esquecidos ao não reproduzir os
sentidos por que esperavam seus leitores. É fundamental, portanto, que se abra a possibilidade
de outras histórias, a possibilidade de que narrativas que não estão no centro de poder (e,
conseqüentemente, de discurso), como Peregrinação, e talvez tantas outras que nunca
ouvimos a respeito, dêem o seu testemunho sobre a colonização.
Referências
BURKE, Peter (org). New perspectives on historical writing. Pennsylvania: The Pennsylvania
State University Press, 1995.
CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Porto Alegre: L&PM, 2008.
CHABAL, Patrick. What is Africa? Interpretations of post-colonialism and identity. In:
ROSA, Victor Pereira da e CASTILLO, Susan (org) Pós-colonialismo e Identidade. Porto:
Edições da Universidade Fernando Pessoa, 1998.
COUTINHO, Eduardo. Mutações do comparatismo no universo latino-americano: a questão
da historiografia literária. In: SCHMIDT, Rita T. (org.). Sob o signo do presente: intervenções
comparatistas. Porto Alegre: UFRGS, 2010. p. 31-42.
DERRIDÁ, Jacques. Mal de arquivo: uma impressão freudiana. Trad. Cláudia de Moraes
Rego. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 2001.
FANON, Frantz. The wretched of the earth. Trad. Richard Philcox. New York: Grove Press,
2004.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Trad. Laura Sampaio. São Paulo: Loyola, 2010.
LE GOFF, Jacques et al(orgs). A nova história. Trad. Ana M. Bessa. São Paulo: Martins
Fontes, 1986.
LOPES, Oscar e SARAIVA, António José. História da Literatura Portuguesa. Porto: Porto
Editora, 2005.
PINTO, Fernão Mendes. Peregrinação. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1988.
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