PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Francisco Gomes de Almeida Garzon
Petição e repetição: a violência da vítima
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
SÃO PAULO
2012
PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO
PUC-SP
Francisco Gomes de Almeida Garzon
Petição e repetição: a violência da vítima
MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA
Dissertação apresentada à Banca Examinadora da
Pontifícia Universidade Católica de São Paulo,
como exigência parcial para obtenção do título de
MESTRE em Psicologia Clínica, sob a orientação
do Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck.
SÃO PAULO
2012
BANCA EXAMINADORA
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________________________________
________________________________
Para Fernanda,
pela eterna alegria de tê-la encontrado
AGRADECIMENTOS
Ao Prof. Dr. Manoel Tosta Berlick, que me acolheu no seio do Laboratório de
Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, ainda em meus tempos de graduação e com
quem aprendi o amor pela pesquisa.
À professora Ana Cecilia Magtaz e ao professor Paulo José Carvalho da Silva,
quando do Exame de Qualificação, pelos ricos comentários que tanto ajudaram no
desenvolvimento do texto.
Aos amigos, David Borges Florsheim, Adriana de Camargo Omati, Vivian
Anijar Fragoso Rei, Roberto Kirschbaum e Aline Garjaka, com quem pude discutir o
texto e que tantas boas idéias me deram em contribuição.
Aos meus pais, Sergio e Celeste Garzon, por toda sua generosidade e pelo
constante carinho.
A Ricardo Saliby, pela ajuda nos momentos mais difíceis deste percurso.
Aos membros do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, pelas
contribuições e comentários à pesquisa.
À EDEPE – Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que
financiou integralmente esta pesquisa.
A “Joaquim”, com quem muito pude aprender sobre a clínica.
GARZON, Francisco. Petição e repetição: a violência da vítima. 2012.
Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.
Resumo: A presente Dissertação de Mestrado diz respeito a uma possibilidade
de constituição do sujeito diante da violência, pathos excessivo. Segundo a posição da
Psicopatologia Fundamental, pathos constitui o sujeito, na medida em que o psiquismo
é uma resposta à incidência do pathos.
Pretendemos investigar, a partir do recorte de um caso clínico, a possibilidade da
violência constituir expressão sintomática de pathos, seja pela repetição da cena
patogênica ou pela via do sintoma. Diante do caráter inefável de pathos – excessivo - a
capacidade de simbolização complexa, a suturar a marca do trauma, poderia restar
comprometida. A presente pesquisa destina-se a investigar a possibilidade de se
considerar a repetição da violência sofrida pelo sujeito como sendo um sintoma deste
sujeito, assim como investigar sobre a natureza deste sintoma diante da obviedade de
pathos, excessivamente aterrador.
O caso clínico que motiva a presente pesquisa oferece subsídios para pensarmos
a questão. Cogitamos se o paciente, no caso observado, se oferece à violência como em
uma espécie de sacrifício, escrevendo repetidamente em seu corpo um manifesto,
pedido de reconhecimento, petição e repetição que informa e atesta sua impossibilidade
de lidar com a violência descomunal do pathos que o atingiu. Seus atos, que o vitimam
em repetidas situações de violência praticada pelo outro (Outro), configurariam o
impossível do sintoma diante do excesso do excesso (excesso de pathos), do
irrepresentável?
Palavras-chave: Psicopatologia Fundamental, violência, sintoma, passagem ao
ato.
GARZON, Francisco. Petição e repetição: a violência da vítima. 2012.
Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo.
Abstract: This master’s degree dissertation refers to a possibility of human
subjectivity constitution through violence, excessive pathos. According to the position
of Fundamental Psychopathology, pathos constitutes the human, in the measure that
psychism is a reply to the incidence of pathos. Research was conducted whereof the
clipping of a clinical case, considering the possibility of the violence to constitute
symptomatic expression of pathos, either for the repetition of the pathogenic scene or
through the way of the symptom.
Facing the unbearable character of pathos – excessive by definition - the
capacity of complex symbolic creation, to suture the mark of the trauma, could remain
disengaged.
The present research is destined to investigate the possibility of considering the
repetition of the violence suffered for the subject as being a symptom of this subject, as
well as investigating ahead on the nature of this symptom towards the given nature of
pathos, excessively terrifying.
The clinical case that motivates the present research offers subsidies to think the
question. We cogitate if the patient, in the observed case, offers himself to violence as in
a species of sacrifice, writing repeatedly in his body a pledge, order of recognition,
petition and repetition that informs and certifies the impossibility to deal with the
uncommon violence of pathos that reached him. His acts, that victimize himself in
repeated situations of violence practiced by the other (Other), would configure the
impossibility towards symptom?
Keywords: Fundamental Psychopathology, violence, symptom, passing-to-act.
Petição e repetição: a violência da vítima
Introdução........................................................................................................................09
1: Método.........................................................................................................................20
1.1 A Psicopatologia Fundamental......................................................................20
1.2 O método clínico
24
2: Caso clínico: Joaquim e a repetição da condição de vítima........................................27
2.1 O caso clínico.................................................................................................27
2.2 Considerações preliminares sobre o caso......................................................36
3: Compulsão à repetição: a pulsão de morte e o ato......................................................41
3.1 Pulsão de morte – conceito............................................................................41
3.2 Compulsão / coação à repetição.....................................................................44
4: Violência, agressividade e destrutividade: expressão pelo masoquismo e pelo
sacrifício..........................................................................................................................49
4.1 Violência, agressividade e destrutividade: distinções e aproximações..........50
4.2 Masoquismo e sacrifício................................................................................58
4.3 Violência e psique: a questão do trauma e da “metabolização”....................67
5: Sintoma, acting out e passagem ao ato........................................................................72
5.1 O sintoma: símbolo do afeto, metáfora do conflito.......................................77
5.2 Acting out e passagem ao ato: a cena e a queda.............................................85
6 – Algumas considerações metapsicológicas.................................................................96
6.1 A passagem ao ato e a quebra da cena...........................................................96
6.2 Salvação e separação.....................................................................................99
7 – Considerações finais................................................................................................103
Referências Bibliográficas.............................................................................................108
INTRODUÇÃO
“Sei agora, e posso provar com exemplos convincentes, que
muitos ferimentos aparentemente acidentais sofridos por esses
doentes são, na realidade, lesões auto-infligidas. Acontece que uma
tendência à autopunição, que está constantemente à espreita e
comumente se expressa na autocensura ou contribui para a formação
do sintoma, tira hábil partido de uma situação externa oferecida pelo
acaso, ou contribui para sua criação até que se dê o efeito lesivo
desejado. Tais ocorrências de modo algum são raras, inclusive nos
casos de gravidade moderada, e denunciam o papel desempenhado
pela intenção inconsciente através de uma série de traços
particulares - por exemplo, a notável serenidade com que os
pacientes encaram o suposto acidente.”
(FREUD, 1969 [1901], p. 35)
A presente pesquisa teve por origem a situação clínica de atendimento a um
jovem paciente, vitimado em situações de extrema violência, por diversas vezes e em
situações aparentemente muito distintas.
Na infância, sofreu grave atropelamento que o deixou com metade do corpo
paralisado. Na adolescência, sempre se via em meio a confusões e acabava machucado,
espancado, humilhado. Na idade adulta, envolve-se em uma cena dúbia, em que foi
considerado o agressor sexual de uma mulher em plena praça pública. Sofreu violência
policial, tortura, humilhações. Mesmo ameaçado por seus agressores, levou adiante suas
denúncias, ciente do risco que corria de mais uma vez poder ser atingido pela violência
do outro, devido às anunciadas represálias.
Relatava tais fatos com tamanha desconexão afetiva, que nos levava a questionar
com frequência: apesar de todas as marcas que carrega, do que padece esta pessoa? Que
sentido pode ter as marcas em seu corpo? Qual é seu sintoma?
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Em um primeiro momento, nos pareceu que seu sintoma era o de se colocar em
situações em que era vítima da violência praticada pelo outro. No entanto, não nos foi
possível reconhecer tal trajetória de repetição como um sintoma propriamente dito. A
repetição era desconhecida pelo paciente como tal e as situações em que se tornara
vítima eram vistas de maneira totalmente isolada, sem ponto de contato e sem qualquer
associação a ligá-las.
A repetição dessas situações parecia algo da ordem de um apelo ao outro
(Outro), um pedido de intervenção, quebra de uma cena talvez vivenciada por ele como
ainda mais violenta. Sua convicção fantasiosa da eficácia desta intervenção é pensada
em relação aos aspectos teóricos pesquisados e que nos ofereceram fundamentos.
Assim, pode-se dizer que presente pesquisa diz respeito a uma possibilidade de
constituição do sujeito diante da violência, uma forma encontrada para lidar com a
incidência de pathos, excessivo por essência. Segundo a posição da Psicopatologia
Fundamental, o sujeito se constitui psiquicamente a partir do contato com aquilo que o
afeta e que é reconhecido como estrangeiro. Nesta perspectiva, o psiquismo é visto
como uma resposta à incidência de pathos, um sistema imunológico-psíquico que
permite ao sujeito defender-se de sua permeabilidade psíquica ao mundo, reconhecido,
neste contexto, como fonte de ataques virulentos dirigidos contra a integridade/unidade
em que se reconhece o sujeito.
O aparelho psíquico, posto que sistema imunológico, constrói defesas complexas
a partir de seu contato com pathos, que o afeta. O próprio psiquismo seria, segundo
Berlinck (2000), uma resposta do humano à violência original imposta pelo ambiente,
que levou o homem a uma urgência adaptativa tamanha que novos recursos (psíquicos)
se fizeram necessários para tornar viável sua existência. Somos, assim, sujeitos
10
psicopatológicos, constituídos a partir de nossa vulnerabilidade que molda nosso
psiquismo.
Uma das expressões mais complexas do psiquismo é o sintoma. O clínico se
depara, constantemente, com enigmas encontrados na da relação transferencial com seus
pacientes. Descobre, frequentemente, que o sintoma guarda um sentido, símbolo de
pathos, que impõe o conflito que o origina. Esta construção, assim como o sonho,
depende de complexos arranjos psíquicos como a condensação e o deslocamento,
capazes de transfigurar a experiência pática e oferecer ao sujeito um símbolo, sob a
forma de sintoma, por meio do qual se mantém, paradoxalmente, unido e apartado da
história daquilo que o constitui.
Podemos dizer que o sintoma, portanto, de alguma forma simboliza o objeto
invasor, excessivo. No entanto, pensamos que, em situações extremas, nas quais os
efeitos psíquicos da perturbação introduzida sejam por demais contundentes, o
psiquismo pode não ser capaz de produzir o sintoma, dada a obviedade de um afeto
aterrador – excesso do excesso que não admite representação. Situações de violência
extrema deixam marcas páticas que dificilmente podem ser apagadas ou representadas
pelo sintoma. Poderia, sim, à guisa de exemplo, ocorrer a perda do contato com a
realidade, como sabemos ocorrer em casos de tortura. No entanto, uma possibilidade de
representação sem a perda da realidade compartilhada, ainda que menos eficiente que o
sintoma, pode ser a passagem ao ato enquanto atuação.
Pretendemos investigar, a partir de um recorte do caso clínico mencionado, a
possibilidade de que a repetição da violência sofrida venha a constituir expressão
sintomática pela repetição da cena patogênica ou pela via do sintoma. Diante do caráter
inefável de pathos, a capacidade de simbolização complexa suturando as marcas de sua
incidência poderia restar comprometida. Nossa pesquisa destina-se à investigação da
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possibilidade de se considerar a repetição da violência um sintoma, assim como a
natureza desse sintoma diante da obviedade daquilo que atingiu e constituiu o paciente.
A repetição da cena de violência sofrida pode ser considerada um sintoma do
sujeito ou a repetição dessa cena patogênica atesta a impossibilidade do sintoma diante
da impossibilidade de simbolização em relação aos efeitos da permeabilidade do sujeito
a pathos? Portanto, qual a natureza da violência repetidamente sofrida por alguém?
Como dissemos, o enigma se nos apresentou a partir de um caso clínico.
Joaquim, um jovem habitante de um mundo extremamente violento, aparentava, aos
olhos (transferenciais) de seu terapeuta, oferecer-se à violência praticada pelo outro
(Outro). Como veremos em detalhes, no capítulo 2, Joaquim carregava em seu corpo as
marcas de diversas situações de violência a que foi submetido. No entanto, ao longo de
seu tratamento foi possível perceber que de alguma maneira Joaquim figurava, ao lado
de seus algozes, no pólo ativo da agressão.
A construção da narrativa clínica (e da metapsicologia) constitui uma tentativa
de desvelar aquilo que está encoberto pelo enigma. Não pretendemos estabelecer uma
construção psicopatológica meramente classificatória. Do mesmo modo, não
tencionamos controlar a violência e o poder próprios de pathos, mas apenas dar um
passo em direção à compreensão de seus efeitos no humano e na sua constituição.
Dada a natureza e objetivos da presente pesquisa, abarcamos três temáticas por
considerá-las centrais para o seu desenvolvimento. Trataremos, portanto, da violência (e
suas distinções em relação à agressividade e destrutividade), da compulsão à repetição
como forma de expressão sintomática do conflito intrapsíquico, e das distinções e
aproximações entre sintomas, atuações, acting out e passagem ao ato.
12
Para tanto, retomamos a ideia descrita por Berlinck sobre a incidência de uma
violência primordial sobre o humano:
O aparelho psíquico é, desde os começos da psicanálise,
uma construção que responde à violência primordial que
ameaça a existência física do sujeito e da espécie e, ao mesmo
tempo, é insuficiente para proteger o sujeito de ataques
virulentos tanto internos quanto externos.
(...) Assim, é possível dizer, com Freud, que não só o ser
humano apresenta um desamparo originário, como este se deve
à insuficiência imunológica a ataques virulentos vindo do
exterior. (BERLINCK, 2000, p. 182)
Segundo Berlinck (2000), o aparelho psíquico é uma resposta à violência
primordial que atinge o homem. O psiquismo se presta a tornar viável a existência do
homem originalmente desamparado. No entanto, existem situações em que a resposta
imunológica oferecida pelo psiquismo é insuficiente.
A violência tem sobre o sujeito este duplo efeito. Se, por um lado, é fator de sua
constituição, por outro pode causar sua fragmentação. A relação do humano com a
violência obedece a um duplo estatuto. Estamos a todo o momento em contato com esta
duplicidade que determina tantos binômios. Atividade e passividade, sadismo e
masoquismo, dominação ou sujeição. A violência permeia mais aspectos de nossas
vidas do que costumamos admitir.
Apesar de reconhecermos a impossibilidade de se atribuir limites à produção de
sintomas - uma vez que o inconsciente não tem limites - na intenção de contrapor os
sintomas às atuações, ao acting out e, de certa forma, à passagem ao ato, consideramos
sintoma as produções do inconsciente de maior elaboração, como os sintomas
obsessivos, conversivos, os delírios etc. A estes, contrapomos as manifestações em que
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se pode reconhecer caráter sintomático, mas sem tamanha complexidade psíquica, como
atuações isoladas e passagens ao ato. Talvez o acting out, se considerado no âmbito da
transferência, também possa ser considerado manifestação complexa.
Segundo nos ensina Freud em “Inibições, sintoma e ansiedade”, de 1926:
“(...) O sintoma gradativamente vem a ser representante
de interesses importantes; verifica-se útil na afirmação da
posição do eu (self) e se funde cada vez mais estreitamente com
o ego, tornando-se cada vez mais indispensável a ele.(...)
Nas neuroses obsessivas e na paranoia, as formas que os
sintomas assumem tornam-se muito valiosas para o ego porque
obtêm para este, não certas vantagens, mas uma satisfação
narcísica sem a qual, de outra forma poderia passar. (FREUD,
1926, p. 102)
Continua, afirmando que proviria do próprio sintoma o mal que ele causa, pois
“sendo o verdadeiro substituto e derivativo do impulso reprimido, executa o papel do
segundo; ele continuamente renova as exigências de satisfação e assim obriga o ego, por
sua vez, a dar o sinal de desprazer e a colocar-se em uma posição de defesa” (FREUD,
1926, p. 102).
Buscando as diferenças contidas na formação do sintoma da neurose e na
psicose, como fator investigativo preliminar da condição colocada pelo caso em
questão, encontramos, em “A perda de realidade na neurose e na psicose”, de 1924,
elementos para pensar os atos do paciente do caso que motivou esta investigação.
O contato com esse texto de Freud deixa clara a questão da formação do sintoma
nestes casos: na neurose, perde-se a realidade em um primeiro momento (recalque), mas
o compromisso do sintoma permite seu retorno. Na psicose, a recusa, a negação da
realidade, separa o ego da realidade. No entanto, não há o compromisso do sintoma que
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permite a retomada do contato. O que ocorre é a criação de uma nova realidade através
de um delírio ou uma alucinação que preenche o lugar da realidade compartilhada,
negada.
O sintoma pode ser também compreendido em termos de meio de gozo do
neurótico (RUDGE, 2008). Nos atos que destacamos a partir do caso clínico, em que o
paciente se coloca em posição de ser vitimado, apenas em princípio fica mais difícil
encontrar os traços do gozo do sujeito. Partimos, então, às manifestações sintomáticas
traduzidas em ato de que trataremos aqui.
Entre os autores pesquisados existem diferentes maneiras de aproximar e
distinguir acting out e passagem ao ato, como veremos em momento oportuno.
Laplanche e Pontalis (2001) aproximam acting out e passagem ao ato como atos
estranhos à conduta usual do paciente, destacando sua natureza auto e/ou heteroagressiva. Consideram, no entanto, existir uma distinção em relação à qualidade
simbólica de representação em relação ao conflito psíquico. Consideram que na
passagem ao ato, o sujeito faria a passagem da tentativa de representação pelo ato ao ato
sem representação. Incluem, ainda, em seu Vocabulário da psicanálise o termo
“atuação”, por meio do qual designam aqueles atos em que o sujeito transmutaria uma
pulsão, fantasia ou desejo em ato, vivenciando-o como algo atual, sem que, no entanto,
seja capaz de reconhecer aí qualquer caráter repetitivo.
Outros autores, como Lacan (2005) e Ana Maria Rudge (2008) traçam
importantes distinções entre acting out e passagem ao ato. Rudge afirma ser o acting out
um ato sintomático eu-sintônico, em que não haveria, por parte do sujeito, o sentimento
de ter sido atropelado pelo ato, como aconteceria em relação à passagem ao ato.
Segundo sua concepção, passagem ao ato seria o reverso da encenação, em que o sujeito
dá as costas ao Outro, fugindo da angústia e da divisão.
15
Lacan (2005), no Seminário X: A angústia, diferencia acting out e passagem ao
ato em termos da criação de uma cena e saída de uma cena, respectivamente. Acting out
seria, assim, a sustentação de uma cena passível de interpretação dirigida ao Outro e na
qual estaria implícito um pedido de interpretação. Passagem ao ato, por sua vez, seria a
saída de uma cena que se torna insuportável ao sujeito por meio do recurso ao Real, sem
endereçamento ao Outro como pedido de interpretação, mas como ato puro a encerrar a
cena, sem símbolo ou atribuição de sentido.
No caso apresentado, os atos sintomáticos eram inadvertidamente repetidos sem
que fosse possível ao paciente traçar qualquer forma de associação entre os mesmos,
fato que nos levou a inscrevê-los no contexto da compulsão à repetição.
Em “O estranho” (1919), Freud menciona, aparentemente pela primeira vez, o
termo compulsão à repetição:
Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a
predominância de uma compulsão à repetição, precedente dos
impulsos instintuais e provavelmente inerente à própria
natureza dos instintos – uma compulsão poderosa o bastante
para prevalecer sobre o princípio de prazer, emprestando a
determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco, e
ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianças
pequenas; uma compulsão que é responsável, também, por uma
parte do rumo tomado pelas análises de pacientes neuróticos.
Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta de
que o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à
repetição’ é percebido como estranho. (FREUD, 1919, p. 256)
O estranho da compulsão à repetição a que se refere Freud, é mais claro do
ponto de vista do observador/analista, porém aquele que repete, a partir do momento
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que percebe o caráter repetitivo de algo aparentemente desligado de um sistema de
prazer também o reconhece como estranho.
Em “Além do princípio do prazer” (1920), Freud consolida a introdução do
termo compulsão à repetição para se referir a um determinado tipo de compulsão
pulsional à qual atribui caráter demoníaco e de cujos efeitos o sujeito seria incapaz de
escapar. Fica evidente que neste caso a pulsão não estaria a serviço do princípio do
prazer; Freud começa a tratar da existência de um conflito fundamental, situado para
além do princípio do prazer. Esse conflito estaria situado entre dois tipos de pulsão; a
pulsão de vida e a pulsão de morte, que representamos por Eros e Tânatos
respectivamente. A partir daí Freud estabelece uma diferença clínica: os pacientes
capazes de constituir a neurose de transferência obedeceriam à lógica do conflito entre
prazer e desprazer, enquanto aqueles capazes apenas da transferência hostil, acometidos
por uma neurose narcísica (como na perversão e na psicose) obedeceriam à lógica do
conflito fundamental entre pulsão de vida e pulsão de morte.
Diante da constatação da compulsão à repetição, Freud (1920) postula uma nova
natureza da pulsão: seu destino seria o de restabelecer um estado anterior, próprio do
não-vivo, expressando um caráter conservativo da pulsão que puxa o sujeito para o
ponto de partida. Neste sentido, não só a tendência, mas o objetivo final daquilo que
vive é a morte. Daí surge a oposição entre pulsão de vida de pulsão de morte, e com ela
o paradoxo que coloca o princípio de prazer a serviço da pulsão de morte:
O princípio do prazer, então, é uma tendência que opera
a serviço de uma função, cuja missão é libertar inteiramente o
aparelho mental de excitações, conservar a quantidade de
excitação constante nele, ou mantê-la tão baixa quanto possível.
Ainda não podemos decidir com certeza em favor de nenhum
desses enunciados, mas é claro que a função estaria assim
17
relacionada com o esforço mais fundamental de toda substância
viva: o retorno à quiescência do mundo orgânico.(FREUD,
1920, p. 73)
Freud afirma, ainda que o “princípio de prazer parece, na realidade, servir aos
instintos de morte” (FREUD, 1920, p. 74). Esta seria uma forte explicação para aquilo
que observamos na clínica: as repetições aparentemente desconectadas de um sistema
de prazer. Aprendemos, no entanto, que a pulsão de morte tem sua expressão
exatamente na compulsão à repetição.
A hipótese a partir da qual iniciamos esta pesquisa sobre a violência enquanto
sintoma do sujeito, é a de que Joaquim se oferece como em sacrifício, escreve em seu
corpo um manifesto, um pedido de reconhecimento, petição que informa e atesta sua
impossibilidade de lidar com a violência descomunal de pathos.
Ao longo do tempo, repete esse pedido. Seus atos, que o vitimam em repetidas
situações de violência praticada pelo outro (Outro), configurariam o impossível do
sintoma diante do excesso do excesso, do irrepresentável? Qual seria a fantasia a mantê-lo nessa posição?
Diante das questões colocadas pelo referido caso clínico e pela bibliografia
consultada, investigamos como a violência excessiva pode determinar e interferir na
constituição do sujeito e de que forma essa determinação poderia ser expressada em
termos sintomatológicos.
Como a violência afeta a constituição do sujeito e quais são as possibilidades
psíquicas (imunológicas) que o sujeito possui para lidar com pathos? É possível o
sintoma diante da violência excessiva ou resta ao sujeito apenas a repetição dirigida a si
e/ou aos outros? Estas questões são abordadas ao longo da pesquisa, no contexto do
caso clínico, que oferece material de observação a partir do qual construímos algumas
18
hipóteses. Os elementos oferecidos pelo caso clínico servem como liames a partir dos
quais podemos tecer nossas considerações.
A compreensão dos atos e condutas de violência como sintomas do sujeito ou
como protorrepresentações diante da impossibilidade do sintoma oferece nova gama de
elementos para lidarmos com um dos maiores problemas da sociedade urbana
contemporânea: a violência.
Pretendemos, com isto, lançar novas possibilidades de olhar sobre o fenômeno
da violência, neste caso menos concentrados em seu aspecto social e mais interessados
nos aspectos subjetivos do fenômeno. Operando paralelamente à compreensão
sociológica do problema da violência oferecemos, aqui, a possibilidade de pensar
também os aspectos subjetivos que determinam a repetição da violência, assim como
ventilamos algumas construções metapsicológicas possíveis graças à narrativa clínica
aqui desenvolvida.
19
1
MÉTODO
1.1. A Psicopatologia Fundamental
A Psicopatologia Fundamental surgiu no âmbito da Université de Paris 7 –
Denis Diderot como resultado da adoção, pelo Professor Doutor Pierre Fédida e seus
associados, de uma posição diferente daquela preconizada pela Psicopatologia Geral de
Jaspers (1956) diante do pathos humano. Enquanto a psicopatologia geral busca uma
abordagem objetiva e universal das doenças mentais, a Psicopatologia Fundamental
procura abordar o sofrimento psíquico de uma forma subjetiva, levando em
consideração aspectos da vivência do sofrimento psíquico concernentes ao sujeito do
pathos (BERLINCK, 2000).
No Brasil, sua influência começou a ganhar forças com a constituição, em 1995,
do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Núcleo de Psicanálise do Programa
de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da Pontifícia universidade Católica de
São Paulo. Ampliou-se com a criação, em 1996, da Rede Universitária de Pesquisa em
Psicopatologia Fundamental, sucedida, em 2002, pela Associação Universitária de
Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, que consolidou a expressão desta posição em
nosso país.
Segundo Berlinck (2000), a Psicopatologia Fundamental sustenta uma posição
específica na pólis, uma posição clínica daquele que se inclina diante do discurso de
alguém sobre o próprio pathos psíquico, levando-o em consideração como veículo da
subjetividade e singularidade. O alicerce sobre o qual se apoia o pensamento daqueles
que praticam a psicopatologia fundamental é a prática clínica. É ela que permite ao
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psicopatólogo o contato com o caráter subjetivo de pathos, envolvido no sintoma e no
discurso que narra este mesmo padecimento.
Outras posições existem na pólis e não são desconsideradas pela Psicopatologia
Fundamental. O psicopatólogo fundamental deve ser capaz de frequentar e dialogar com
outras posições, outros discursos, uma vez que considera que nenhum conhecimento
especializado é capaz de esgotar a compreensão do sofrimento psíquico.
Talvez seu interlocutor menos receptivo seja, hoje, a psiquiatria biológica, que
ostenta premissas em grande medida antagônicas à ideia central da Psicopatologia
Fundamental – que supõe a existência de uma sabedoria e da subjetividade no discurso
sobre pathos. Ao contrário de outras correntes psicopatológicas, a Psicopatologia
Fundamental tem por ideal a comunicação em detrimento da classificação (MAGTAZ,
2008).
Psicopatologia, segundo a posição da Psicopatologia Fundamental, constitui um
discurso sobre pathos, a paixão que se manifesta no psiquismo, discurso sobre o
sofrimento psíquico. Deriva-se das palavras gregas: psychê (que originou psique,
psiquismo e psíquico), pathos (que originou paixão, excesso, passagem, passividade,
sofrimento e assujeitamento) e logos (lógica, discurso, narrativa).
Pathos contém os significados de sofrimento, paixão e passividade. O sujeito da
Psicopatologia Fundamental é um “sujeito trágico que é constituído e coincide com
pathos, o sofrimento, a paixão, a passividade” (BERLINCK, 2000, p. 18). A
subjetividade é, assim, constituída por pathos, o que nos diz que somos sujeitos
psicopatológicos. Pathos não é apenas o sofrimento que experimentamos em
determinadas situações, é o que nos constitui, o que dá a forma que temos ao corpo e à
alma indissociáveis.
21
O sujeito psicopatológico teria, segundo esta posição, a possibilidade de
constituir uma narrativa a respeito de sua própria experiência pática. Na presença do
“médico” – sob transferência - alguém em sofrimento, vivendo o excesso, poderia
compor uma narrativa que possibilitasse pensar o que não foi pensado, fazer de pathos,
experiência. Nas palavras de Manoel Berlinck:
Desde que a posição da Psicopatologia Fundamental é tal que
se dispõe sempre a escutar um sujeito, que porta uma única voz, que
fale do pathos, que é somático e vem de longe e de fora, ela é sempre
objeto da transferência, ou seja, de um discurso que narra o
sofrimento, as paixões, a passividade que possui um corpo onde
brota, para um interlocutor que, por suposição, seja capaz de
transformar, com o sujeito, essa narrativa numa experiência. Aqui,
palavra adquire o sentido preciso de enriquecimento, ou seja, a
experiência é a possibilidade de se pensar aquilo que ainda não foi
pensado. (BERLINCK, 2000, p. 23)
O que possibilita a transformação de pathos em experiência é o método clínico,
possibilidade de composição de um campo transferencial em que pathos se torna
experiência a enriquecer o sujeito, dotando-o de mais recursos para lidar com o excesso
inerente a ele.
O psiquismo, a partir da posição da Psicopatologia Fundamental, é uma resposta
de defesa do organismo frente à violência original. É, assim, extensão corporal, do
sistema imunológico a defender o organismo das agressões vindas de fora. Pathos é
somático, ocorre no corpo e determina, constitui a psique - neste sentido, reafirma a
impossibilidade de se traçar uma fronteira que delimite a relação psique-soma. O
aparelho psíquico é imunológico, uma construção com o intuito de proteger o humano
dos ataques que vêm de fora. A subjetividade seria, de certa forma, a resposta do
organismo a pathos, que afeta.
22
Como aponta Paulo Roberto Ceccarelli:
(...) Freud concebe o psiquismo (seelischer apparat) como
patológico em sua origem: uma organização que se desenvolveu a
fim de proteger o ser humano contra os ataques, internos e externos,
que punham sua vida em perigo. Uma defesa frente ao excesso – as
transformações do meio ambiente (excesso externo) e as demandas
pulsionais que não podiam ser satisfeitas (excesso interno) – ao qual
o ser humano se viu exposto quando das mudanças provocadas por
uma catástrofe ecológica de proporções inimagináveis: a perda do
Éden. Para enfrentar esse excesso (das paixões – do pathos) sem
adoecer, profundas reorganizações psíquicas foram necessárias.
(CECCARELLI, 2006, p. 115)
Desta afirmação depreendemos que pathos incide a partir de fora e a partir de
dentro, proveniente tanto do mundo interno, por meio de moções pulsionais, quanto do
mundo externo, por meio dos ataques próprios da relação do sujeito com o ambiente e
com seus pares. No entanto, qualquer que seja a origem do ataque, será percebido pelo
sujeito sempre como algo a ele estrangeiro.
Segundo Rechardt (1988), o domínio do pensamento seria aquele a aparecer por
último no “equipamento filogenético do homem”, constituindo uma “neoformação com
a qual não estamos acostumados a viver”. Rechatrdt sugere uma transposição em
relação à imagem dada por Freud da existência de uma luta entre os processos frágeis da
vida e a natureza, inorgânica e estática. Para esse autor, a questão deveria ser tratada em
termos de “uma batalha obstinada entre o mundo do espírito e o antigo mundo físico
que o envolve” (RECHARDT, 1988, p. 50).
23
1.2. O método clínico
Segundo Berlinck (2000), na posição da Psicopatologia Fundamental, é
produzido um discurso mito poiético epopeico, que possibilita a construção de uma
metapsicologia e que, como experiência, tem efeito terapêutico. A referida posição
pretende suscitar uma experiência que seja compartilhada pelo sujeito.
O escopo da clínica, segundo a posição que vimos discutindo, não seria a
supressão do sintoma, mas a construção de uma estrutura discursiva capaz de exprimir a
vivência de pathos, constituindo experiência acerca de pathos. O relato preciso seria,
assim, capaz de produzir profundas modificações na relação do sujeito com pathos,
possibilitando a intervenção sobre o psiquismo:
A Psicopatologia Fundamental é, então, um trabalho que visa
tanto à aquisição de uma experiência inerente ao pathos, como
produzir efeito terapêutico qualitativo modificando a posição do
sujeito em relação a seu próprio psiquismo e, conseqüentemente,
alterando sua posição e dinâmica no mundo (BERLINCK, 2008, p.
24)
O papel do psicopatólogo, no contexto da Psicopatologia Fundamental, seria o
de construir a metapsicologia do caso a partir do enigma com que se depara na clínica e,
a partir da relação transferencial, produzir um relato que contenha a verdade e a
sabedoria contidas em pathos, promovendo a transformação da vivência pática numa
patologia e, consequentemente, numa experiência.
A presente pesquisa é fruto do desejo de olhar para o enigma veiculado por
pathos a partir da posição da Psicopatologia Fundamental, desejo este incitado pelo
convívio com este pensamento, no seio do Laboratório de Psicopatologia Fundamental
24
da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É desta forma que pretendemos olhar
para o caso que nos faz enigma: o sujeito como sujeito de pathos.
A posição da Psicopatologia Fundamental sugere que aquilo que possibilita a
transformação em experiência é o método clínico, possibilidade de composição de um
campo transferencial em que pathos se torna experiência a enriquecer o sujeito,
dotando-o de mais recursos para lidar com as paixões. A narrativa do caso clínico,
articulada à teoria pesquisada, assim como à composição de considerações
metapsicológicas acerca do caso, nos permite alcançar maior compreensão do fenômeno
da violência como sintoma ou como marca do impossível do sintoma. Os aspectos
transferenciais e contratransferenciais e a exploração dos detalhes do caso poderão ser
pensados, por meio da realização da presente pesquisa, à luz da teoria psicanalítica e sob
outros aspectos teóricos que, ao longo do caminho, julgamos concernentes.
É a transferência, também para a Psicopatologia Fundamental, o meio pelo qual
o método clínico permite o alcance sobre o sujeito; “ A separação entre os movimentos
internos – afetivos – do sujeito e sua objetivação pelo discurso endereçado a um terceiro
tomba para o inconsciente” (Green, 2008, p. 127). Assim, chegamos à formulação de
que a presença do clínico torna necessária a comunicação, oferece um destinatário à
mensagem ainda não formulada, a não ser pelo setting e pela gradual metaeducação
(SZASZ, 1975) a respeito do inconsciente que se alcança ao longo do tratamento, sob
transferência.
A respeito da transferência na situação clínica, André Green, em publicação
original de 2002, explicita como a posição do clínico, daquele que se inclina sobre o
enigma colocado pelo “doente”, permite a constituição da experiência acerca de pathos,
no seio da transferência:
25
A esse nível, o destinatário daquilo que foi posto em palavras
a partir dos movimentos internos está separado por nada menos que
fio da tendência de nele ver o agente causal desses movimentos.
Existe uma expectativa em relação às conseqüências dessa causa e o
discurso se esforça por extrair uma resposta daquele a quem o
discurso foi endereçado. É sem dúvida implicitamente esperado, não
somente que a resposta satisfaça a resposta que lhe é dirigida –
demanda inerente ao próprio ato de empreender uma análise – mas
singularmente que ela revele àquele a quem é endereçada um desejo
correspondente a uma busca, da qual ele é o objeto. (Green, 2008,
127)
Assim, a partir da posição da Psicopatologia Fundamental, a narrativa do caso
clínico, articulada à teoria pesquisada, assim como à composição de considerações
metapsicológicas, nos permite alcançar maior compreensão do caso.
A análise dos resultados observa-se pela articulação entre a tradição teórica da
Psicanálise e da Psicopatologia Fundamental às peculiaridades do caso, oferecendo à
comunidade científica novos elementos para a compreensão do fenômeno do
atravessamento do sujeito pela violência.
26
2
CASO CLÍNICO: JOAQUIM E A REPETIÇÃO DA CONDIÇÃO DE VÍTIMA
O clínico sofre os efeitos da violência como elemento constitutivo do sujeito e a
ela responde, frequentemente, de forma também violenta. É uma resposta a pathos,
veiculado pelo relato do paciente.
A partir do recorte de um caso, teceremos considerações clínicas e
metapsicológicas a respeito da violência que afeta o sujeito, suas formas de expressão,
sua relação com o sintoma e alguns aspectos transferenciais surgidos neste contexto. O
caso oferece subsídios para pensarmos sobre os efeitos que a violência constitutiva do
psiquismo do paciente exerce na relação transferencial, despertando o ódio no clínico e
permitindo-lhe experimentar, ao menos em parte, a experiência do paciente.
2.1. – Joaquim e a condição de vítima poderosa
Joaquim, um jovem de 26 anos, portador de hemiparesia direita por trauma,
chegou até o instituto de direitos humanos, onde eu realizava atendimentos
semanalmente, após um incidente em que sofreu tortura policial.
Um corpo marcado e cindido. Foi assim que encontrei Joaquim, sentado na sala
de espera. Vestia um casaco pesado, apesar do verão paulistano. Tinha o olhar
desfocado, ria nervosamente. As marcas em seu corpo, especialmente a grande cicatriz
circular acima da orelha, impunham-me a questão: será retardado?
Chamado à sala de atendimento, levantou-se rapidamente, arqueou, balançou e
moveu com agilidade o corpo que parecia movimentar-se segundo um padrão próprio.
27
Embora tivesse o lado direito do corpo quase totalmente paralisado, dispensava o uso de
muletas. Os membros atrofiados eram quase arremessados em um movimento giratório,
levando a outra metade do corpo a empreender os esforços necessários para manter o
equilíbrio. Assim andava.
De uma das mangas de seu casaco saía um punho musculoso e uma mão forte.
Do outro lado, um pulso de criança e uma mão “seca”. O mesmo ocorria com os olhos:
um vivaz e o outro “vidrado”. As pernas não eram visíveis, mas observando a marcha
era possível imaginar padrão parecido. Pendurada em seu rosto uma boca flacidamente
loquaz. Era nítida a dificuldade em articular os fonemas. Também era nítida a facilidade
para falar.
A mãe, ao final da primeira sessão, pede uma conversa em particular. Antes
mesmo que se pudesse responder, Joaquim concorda e cede o lugar à mãe. Maria se diz
preocupada com Joaquim e que desde algumas semanas antes do episódio em que
sofreu tortura policial estava “estranho”: trancava-se no quarto por horas a fio e, apesar
de seus apelos, não abria a porta. A mãe afirma que podia ver, pelo buraco da fechadura,
que Joaquim ficava ali sentado, com o lençol cobrindo todo o corpo, inclusive a cabeça,
“como um fantasma”. Disse que essa nova “mania” do filho começou após uma grande
discussão com o pai, em torno de mais uma das brigas do casal.
Durante as primeiras sessões, seu discurso se referia quase exclusivamente à
situação de violência policial que o levou até a instituição onde ocorriam os
atendimentos. Mesmo diante de seu relato detalhado, com alguma elaboração e reflexão,
suas feições ainda impunham a questão: é ou não é retardado?
Suas reações a eventuais questionamentos ou comentários pareciam obedecer a
um tempo próprio. Não exatamente deixava de compreender, mas parecia precisar de
outro tempo de elaboração. Sua expressão, quando pensava, envolvia um repuxar da
28
boca, um apagar do olho estrábico, um balanço do corpo. Seu olhar se perdia e parecia
passar por uma pausa mental, ausência; parecia precisar se recompor, se realinhar para
que pudesse manter contato.
Seu relato sobre a absurda situação de violência pela qual passou tinha tom
trivial. Por vezes, ria daquilo que podia provocar náusea. Apesar de não ser estimulado
a fazê-lo, relatava com riqueza de detalhes as sevícias, rasgos, rompimentos, contusões,
escarificações e pressões impostas. Percorria o corpo em seu discurso, colecionando as
novas marcas. Corte no couro cabeludo, ligamento rompido no tornozelo, orelha
“descolada’, hematomas nas pernas e nas costas, corte no calcanhar. Dores nas costelas,
na barriga e braços.
A história que o trouxe até o atendimento começa na Praça do Correio, centro de
São Paulo. Joaquim caminhava apressado, balançando o corpo claudicante que sofre
para atingir o ritmo que lhe impõe a cabeça. Não sabe como aquilo aconteceu: uma
“trombada” em uma moça no meio do caminho e logo chegam os guardas
metropolitanos que o acusam de algo que desconhece. “Falaram que eu dei um tapa na
bunda dela. Era gorda, se eu a tivesse visto, passava longe, mas não vi de onde ela veio
e trombamos”.
Foi levado para uma delegacia no banco de trás da viatura, ladeado por dois
policiais, um homem e uma mulher; na frente mais dois guardas. A policial, indignada,
curvava-lhe o corpo e aplicava, incessantemente, socos e cotoveladas em seus rins
enquanto os demais se certificavam de que ninguém dava atenção ao que se passava
dentro daquele carro a serviço da ordem na metrópole.
Em uma delegacia do centro foi constrangido a entrar em uma cela e submeterse a “abraços por trás” de outros homens presos, “pra ir se acostumando a ser mocinha
de cadeia”. Porque alegou ser deficiente, defendendo-se das contínuas agressões, foi
29
obrigado a ficar por cinco horas ajoelhado diante da imagem de uma santa em uma sala
da delegacia. Como não conseguia se manter equilibrado, tombava em poucos minutos
e era gentilmente recolocado em posição aos pontapés.
Transferido para a delegacia da mulher, foi transportado no assoalho do banco
traseiro de uma viatura, sob os coturnos dos policiais. No caminho, foi espancado e
ameaçado. Os chutes e pisões atingiam-lhe a cabeça, as costas e as pernas. Sofreu cortes
na orelha e couro cabeludo, hematomas espalharam-se por todo o corpo. Ao ser
brutalmente retirado do chão do carro seu “pé bobo” ficou preso sob o banco da frente
da viatura e os ligamentos atrofiados do tornozelo foram rompidos. Apanhou mais
quando acharam que ele fingia não conseguir caminhar. “Agora você entra lá e fala que
passou a mão nela. A gente vai ficar sabendo o que você falou”, disse um de seus
algozes.
Já na delegacia, a primeira pergunta da delegada: Joaquim, você já teve
namorada? A indagação soou como terrível ofensa: “Ela acha que só porque eu nunca
namorei ia sair por aí passando a mão nas moças?”
Prestados os depoimentos dele, da moça e das testemunhas (os mesmos policiais
que o conduziram à delegacia), Joaquim foi indiciado por atentado violento ao pudor e
seria processado. Ao sair da delegacia foi novamente abordado pelos guardas
metropolitanos, que mais uma vez o ameaçaram. Se denunciasse as agressões sofreria as
consequências. “Eles sabem onde eu moro, falaram meu endereço. Está escrito nos
papéis da delegacia.”
Voltou para casa amedrontado e pelo resto do dia ficou trancado no quarto
escondendo da mãe as novas marcas de violência em seu corpo e a acusação da qual
tanto se envergonha – especialmente perante a mãe, apesar de saber que “ela não
acreditaria”. Somente no dia seguinte a mãe conseguiu tirá-lo do quarto, mas o medo
30
de sair de casa o impediu de fazer os exames de corpo de delito. Sequer tem provas
contra seus agressores.
Lendo o relato da cena que o levou aos atendimentos, poderíamos pensar se
tratar do episódio mais violento, traumatizante, da vida de Joaquim Mas, ao longo do
tempo, escutando-o semana a semana, o que se revelou foi que, subjetivamente, esta foi
apenas “mais uma” das situações em que esteve sujeito à violência e que,
provavelmente já estaria, como sempre sugeria, “pronto para a próxima”. Revelou-se
também um portador da violência.
Seu pai, nordestino, veio para São Paulo foragido da justiça. “Era matador,
pistoleiro, não dá pra confiar nele.” Encontrou a mãe de Joaquim, Maria, recémchegada do interior do Paraná com a família. Maria engravidou e, por exigência da
família, casaram-se.
Joaquim nasceu e cresceu vitimizado pela violência do pai. Apanhavam
diariamente, ele e sua mãe, com cintas, paus, sapatos. Em uma ocasião, depois de uma
sapatada na cabeça teve de ser levado ao hospital, que acionou o Conselho Tutelar. A
família ficou sob investigação durante algum tempo.
“Tinha muito medo dele matar minha mãe. Ele é nordestino, sabe como é...
ficava em casa afiando a faca pra matar ela.” A mãe sofreu diversas hospitalizações
por agressões severas. “Uma vez, ele bateu tanto que o olho dela saiu pra fora. Teve
que operar mas ficou cega desse olho.”
Aos 13 anos, quando, segundo Joaquim as agressões do pai contra a mãe eram
mais frequentes, sofre um atropelamento por bicicleta. “Atravessei a rua sem olhar.” As
sequelas foram graves: o lado direito de seu corpo ficou parcialmente paralisado, sua
fala foi comprometida e tornou-se estrábico. Ficou sem frequentar a escola por seis
31
anos, período dedicado a sessões de fisioterapia, fono e vistas a médicos, tentando sua
recuperação. Durante esse período ficava a maior parte do tempo em casa. “Nessa época
a coisa ficou mais tranqüila. Minha mãe ficava cuidando mais de mim e meu pai teve
que trabalhar e deixava a gente em paz.”
De volta à escola sofreu discriminação por parte dos colegas. Sentia-se
ridicularizado e desprezado pelas garotas. Apesar de ser o mais velho de sua sala de
aula, era hostilizado pelos meninos menores. Mesmo diante de sua compleição frágil,
vivia se metendo em brigas, das quais mostra as cicatrizes no rosto e na cabeça. Na hora
da chamada, imitavam sua voz fanhosa e “até a professora dava risada”.
As agressões à mãe voltaram a ser intensas após sua recuperação. “Vi minha mãe
tentar se matar. Ela estava em pé na janela do quarto, ia se jogar. Na última hora meu
pai a puxou, jogou na cama e ficou segurando-a até que ela se acalmasse. É o jeito
deles, acho que eles gostam de viver assim. Já vi a morte da minha mãe muitas vezes.
Eu tinha que me meter no meio da briga pra não deixar meu pai matar minha mãe.”
O mais recente capítulo dessa história pessoal violenta ocorreu quase um mês
após a interrupção do tratamento, por decisão de Joaquim. Segundo Maria, mãe de
Joaquim, ao chegar em casa encontrou-o todo ensanguentado, andando pelo
apartamento, rindo. Cortou o próprio couro cabeludo forçando contra a cabeça as
lâminas da máquina que usava para cortar os cabelos. Normalmente, raspava os densos
cabelos, ostentando as marcas que carrega, que poderiam ser facilmente escondidas se
deixasse os cabelos mais compridos.
A interrupção dos atendimentos se deu quando Joaquim começava a contestar a
própria decisão de denunciar os policiais. A decisão deveria ser tomada até a data da
primeira oitiva na corregedoria da GCM (Guarda Civil Metropolitana). Entre o medo
(ou desejo?) de sofrer uma represália anunciada e o ímpeto de levar adiante as
32
acusações, Joaquim decide interromper o tratamento. Nessa época, começava a se tornar
menos obscuro para ele que seu desejo de “fazer justiça” poderia estar permeado por
fatores diversos daqueles que considerava em suas incansáveis ponderações. O episódio
com o cortador de cabelos se dá às vésperas da oitiva, mas não o impede de comparecer,
formalizando a denúncia e iniciando os procedimentos investigativos.
Ainda durante a primeira fase de atendimento, em que as sessões giravam em
torno da cena de tortura, a hipótese de déficit cognitivo foi afastada. Joaquim passou a
ser irônico, rápido nas respostas, habilidoso ao lidar com as questões institucionais e sua
relação com seu terapeuta. Ainda era aterrorizado por pesadelos e sobressaltos: pensava
que os policiais poderiam chegar até sua casa a qualquer momento. Escondia-se ao
ouvir qualquer barulho na porta. Posicionava-se como vítima, mas começava a
demonstrar uma atitude diferente que marcaria sua relação com a instituição e comigo.
Ficou orgulhoso quando soube, pela advogada da instituição, que seria um dos
“casos ONU” da instituição, que receberia verba das Nações Unidas para seu
acompanhamento. Seu caso iria compor os índices de violação de direitos fundamentais
no país e, sobretudo, a sedutoramente prometida indenização estaria praticamente
garantida.
Com o passar do tempo, Joaquim gradualmente muda sua relação comigo e com
a instituição. Passa a vir às sessões de camiseta, exibindo suas marcas e deformações.
Raspa os cabelos e expondo, assim, as cicatrizes da cabeça. Torna-se um tanto
sarcástico e passa a faltar às sessões mesmo após confirmá-las.
Da mesma forma como fazia em outros espaços por onde transitava, Joaquim
trouxe para o âmbito da clínica, por meio da relação transferencial, a violência. Suas
palavras ventilavam os elementos de um mundo não apenas perigoso, mas
essencialmente violento. Não se tratava de medir os riscos, mas de esperar a pancada.
33
Relatava atividades do tráfico de drogas na porta de seu prédio. Falava de um
mundo povoado por gangues de traficantes, assaltantes e armas. “Onde eu moro não
entra polícia”. Saía de casa o mínimo necessário, apenas para comprar pão ou ir até
uma lan house onde jogava com adolescentes. Dizia que “por trás todo mundo tem
alguma coisa escondida”, um segredo, um crime.
Passei a fazer parte desse mundo e logo fui colocado na posição de um potencial
agressor. O paciente fazia constantes provocações. Faltava às sessões sem avisar,
mesmo ciente do deslocamento inútil de seu terapeuta até o local de atendimento
(interferências institucionais eram frequentes, posto que se tratava de um “caso ONU”).
Ressaltava, sempre, saber (por meio da secretária da instituição) ser eu apenas um
estudante que “nem se formou ainda”. Dizia sempre algo como: “Se eu não te pago nada
e você tem que vir até aqui pra me atender, pagar condução, então você paga pra me
atender, né?” Ou então, “Nada que é de graça presta”.
Caçoava de meu sapato, de minha roupa, de minha mochila – “coisa de
estudante”. Mesmo com sua limitação física, esforçava-se ao máximo para sair da sala
na minha frente ou me ultrapassar quando descíamos as escadas. Por vezes entrava na
sala de atendimento e dizia, desafiante: “Fala! Pode começar a falar que eu já estou
aqui esperando! Já falei demais! O que vai ser hoje?”
As provocações e provações impunham, ao longo do tempo, reações violentas.
Por muitas vezes fui com ele violento. No entanto, foi apenas assim que pude,
experimentando na pele, construir minhas primeiras hipóteses sobre o caso (penso que
era exatamente dessa maneira que ele constituía sua própria experiência, marcando suas
vivências na própria pele).
O episódio com o cortador de cabelos, que sugere uma atuação extrema, talvez
até mesmo da ordem de um surto, ocorreu logo após um ultimato violentamente
34
imposto a Joaquim. Como faltava intermitentemente às sessões, sobretudo quando
passou a tomar mais contato com as determinações de suas escolhas em relação às
denúncias, Joaquim foi avisado que, caso voltasse a faltar, seria cortado do atendimento,
segundo as regras da instituição. Ele não compareceu à sessão seguinte.
Foi violentamente “cortado” por seu terapeuta e mais uma vez repetiu a cena
patogênica, cortando a pele da própria cabeça com as grosseiras lâminas do cortador de
cabelos.
A história de Joaquim é marcada por uma constante violência. Para o futuro já
há sinais de que mais episódios poderão ocorrer. Denunciou a tortura à corregedoria da
GCM e ao Ministério Público e processos administrativos e criminais foram abertos
contra os policiais. Embora se sinta constantemente ameaçado e tema uma provável
represália, insiste em levar adiante as acusações. “Eu sei que eles podem me pegar, que
sabem onde eu moro. Mas isso acontece todo dia e ninguém fala nada. As pessoas aí na
rua, os pobres coitados, não têm ninguém pra olhar por elas. Eu sei o que é apanhar e
não ter ninguém pra impedir.”
Revela, ainda, o desejo de vingança contra aquele que o atropelou. “Eu sei quem
ele é. Era meu vizinho. O que ele fez comigo não tem perdão... ainda pego ele”, diz
Joaquim, mesmo sabendo que o ex-vizinho é traficante e anda sempre armado.
Suas intenções reforçam a hipótese de repetição das situações de violência em
busca de representação de algo ainda para si irrepresentável. Suas origens e seu mundo
são brutos, áridos e violentos. Joaquim é portador dessa violência e a escancara por
onde passa, seja exibindo suas cicatrizes, seja provocando sua repetição.
35
2.2. Considerações preliminares sobre o caso
Quando pensamos no caso de Joaquim podemos reconhecer a violência do
mundo em que vive. Embora resida em uma cidade de múltiplas realidades, talvez a sua
seja uma das piores, do ponto de vida da necessidade de adoção de estratégias de
sobrevivência (psíquicas e práticas).
Seu pai, matador; sua mãe, tantas vezes quase morta; seu corpo, aviltado. Em
seu entorno, os desmanches de carros, o tráfico, as disputas entre facções rivais. A lei
opera, ali, em um plano paralelo. A polícia não adentra seu bairro sem prévio acordo
com a chefia do local. É até possível se comunicar, há televisão a cabo e internet, tudo
sem o conhecimento das concessionárias desses serviços, tudo é “gato” controlado pela
associação polícia-bandido.
Em seu discurso, fica marcado o desamparo em relação ao Estado. Na escola,
sofreu abusos; nos hospitais, ficou desassistido; a polícia corrupta protege os ricos
submetendo os pobres.
Conforme dito no capítulo sobre o método, segundo a posição da Psicopatologia
Fundamental, o psiquismo constitui resposta à incidência de pathos. Aquilo que afeta a
partir do exterior enseja a urgência por defesas, atribuição de sentido e constituição de
experiência. Esta operação fundamental do humano teria, segundo tal concepção, a
possibilidade de suturar o tecido humano, penetrado pelas forças vindas do estrangeiro.
No entanto, a partir do contexto transferencial que foi possível constituir com
Joaquim, passamos a questionar a que ponto poderia chegar a insuficiência imunológica
psíquica diante da incidência de pathos de forma tão óbvia quanto aquela que pensamos
poder tê-lo atingido. Quando falamos em obviedade de pathos, tentamos expressar
aquilo que imaginamos ser o excesso do excesso, já próprio de pathos. Tentativa de
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quantificar o que imaginamos estar além das possibilidades de “metabolização psíquica”
(ENDO, 2005).
A respeito deste ponto, cabe-nos salientar que reconhecemos que a obviedade
não guarda qualidade de sinônimo ao excesso. Pathos é excessivo por natureza e a
obviedade, a crueza, é a forma como vimos tentando explicitar sua excessividade
essencial. Neste sentido, reconhecemos que o excesso pode atingir o sujeito por vias
muito sutis. A obviedade da qual tratamos circunscreve-se, portanto, ao caso aqui
tratado, no qual parece haver a expressão de um afeto excessivo em relação às
possibilidade imunológicas oferecidas pelo psiquismo do paciente. A maneira como a
violência atingiu Joaquim, desde muito cedo, impõe-se de maneira óbvia em relação à
sua existência, à sua participação em sua constituição subjetiva.
Parece-nos que a principal estratégia de Joaquim para lidar com o terrível de
pathos era comunicá-lo em sua crueza, atestá-lo em seu corpo em um pedido de
reconhecimento dirigido ao Outro.
Neste sentido, pensamos em uma repetição, no corpo, da cena patogênica como
tentativa de resposta imunológica. Nossa hipótese: diante do caráter/natureza tão óbvia
da incidência de pathos desde muito cedo imposta a Joaquim, seria para ele possível
uma construção simbólica da ordem do sintoma para representar e constituir experiência
egoica a respeito daquilo que o afetou?
A obviedade do trauma, a cercear a fantasia a respeito do mesmo poderia ter
comunicado a Joaquim que sua saída poderia ser (su-)portar, em seu corpo, sem
representação semântica, as marcas de pathos, reconstruindo-as e reiterando-as quando
fosse necessária sua representação, de forma análoga ao ritual do obsessivo ou o
desmaio do histérico?
37
Nossa impressão é a ter havido um excesso de trauma no corpo, sem a mesma
expressão em relação ao psiquismo, como se Joaquim fosse capaz de utilizar seu corpo
como uma carapaça, fechando seus “buracos psíquicos”, impedindo a incidência do
afeto e a constituição de defesas psíquicas mais elaboradas.
O que pudemos ver e vivenciar junto a Joaquim foi o descompasso entre a dor
física e a dor psíquica. Oferecer o corpo parece ter sido uma potente solução à
permeabilidade psíquica em relação ao afeto. Um possível reconhecimento da existência
de um afeto que o atinge, que causa dor psíquica, pode ter se transformado em uma
ideia de que sempre há o Outro a agredi-lo. A violência veiculada passa a ser portada
pelo Outro e passa a vir sempre de fora, livrando-o da constatação a respeito da própria
violência e da própria destrutividade.
Segundo esta hipótese, a solução encontrada por Joaquim para relacionar-se com
seus afetos, suas fantasias, parece ser da ordem do delírio. Ainda que possamos
encontrar seus agressores no mundo, o contexto em que se tornaram agressores deve ser
levado em consideração. Ao que parece, foram aí colocados como peças em um
tabuleiro, por Joaquim, exercendo no mundo sua convicção delirante.
Segundo Berlinck (2000), o aparelho psíquico é uma resposta à violência
primordial que atinge o homem. O psiquismo se presta a tornar viável a existência do
homem originalmente desamparado. No entanto, existem situações em que a resposta
imunológica oferecida pelo psiquismo é insuficiente. A violência tem sobre o sujeito
este duplo efeito. Se por um lado é fator de sua constituição, por outro pode causar sua
fragmentação. Qual seria então o limite de capacidade de representação da operação
simbólica – sintoma – para alguém? Reconhecemos a ausência de limites lógicos
quando se trata do inconsciente, mas no caso de Joaquim reconhecemos,
concomitantemente, sua inscrição como sujeito na realidade compartilhada e sua
38
impossibilidade de representação sintomática daquilo que o afetou. Torna-se, então, um
manifesto corpóreo, tão óbvio quanto enigmático.
Aventamos, aqui, a possibilidade de um impossível do sintoma diante da
violência. Existe, sim, violência representável - como se reconhece em relação à ameaça
de castração, por exemplo. No entanto, a depender da virulência do ataque (tomando a
imagem oferecida por Berlinck, 2000) e da vulnerabilidade do sujeito, a mensagem
poderia restar sem destino, sem crítica e sem símbolo, ricocheteando até fazer sangrar a
carne do corpo.
Contava sua história como se fosse a história do mundo. Não havia o
reconhecimento da própria subjetividade em sua ligação com o relato. A possibilidade
de, pelo relato, constituir experiência a respeito dos transtornos impostos a partir de sua
relação com o outro, encontrava-se cerceada. Seu discurso, mesmo quando provocado a
falar de sua história era assustadoramente (para o clínico) convencional. Falava da
desigualdade social, das injustiças, da polícia a serviço das classes mais favorecidas, do
mau atendimento na rede pública de saúde etc. Sua história particular e o modo como a
vivenciou só se podia reconhecer na topografia de sua pele.
Da mesma forma como fazia em outros espaços por onde transitava, Joaquim
trouxe para o âmbito da clínica, por meio da relação transferencial, a violência. Suas
palavras ventilavam os elementos de um mundo não apenas perigoso, mas
essencialmente violento. Não se tratava de medir os riscos, mas de esperar a pancada.
O clínico passou a fazer parte desse mundo, e logo foi colocado na posição de
um potencial agressor. O paciente fazia constantes provocações. Faltava às sessões sem
avisar, mesmo ciente do deslocamento inútil de seu terapeuta até o local de
atendimento. Ressaltava, sempre, que tinha a impressão de ser eu apenas um estudante,
que “nem se formou ainda”. Dizia, sempre, algo como: “se eu não pago nada e você tem
39
que vir até aqui pra me atender, pagar condução, então você paga pra me atender, né?”
Fazia comentários pejorativos em relação ao sapato, às roupas, e à mochila do clínico –
“coisa de estudante”. Mesmo com sua limitação física, esforçava-se ao máximo para me
ultrapassar quando descíamos as escadas.
O amor inicial passou a concorrer com o ódio que as provocações e provações
impunham. Por muitas vezes fui com ele violento. No entanto, foi apenas assim que
pude, experimentando na pele, construir as primeiras hipóteses sobre o caso e a de que
era exatamente assim como ele constituía sua própria experiência, marcando suas
vivências na própria pele.
Se Freud (1915 [1914]) fala de um amor de transferência, dirigido à figura do
médico idealizada por suas histéricas, falamos de seu oposto quase necessário: o ódio na
contratransferência, imposto quando a violência veiculada pelo relato de pathos atinge o
terapeuta provocando sua ira contratransferencial. No entanto, no discurso que se torna
experiência e afeta o par analítico, é justamente o amor convertido em ódio que permite
cogitar sobre a relação deste paciente com seus pares, com o mundo.
É odiando-o que seu terapeuta pode enxergá-lo como aquele que atrai para si a
ira, em um primeiro momento, talvez a ira de seu pai, desviando-a de sua mãe. Depois
de outros e dentre estes, daquele que se propunha a escutá-lo.
Permeada pelo ódio contratransferencial, a relação pode constituir um relato
acerca de pathos que afeta o sujeito. Uma ainda remota chance de interromper o ciclo de
repetição do excesso do excesso de pathos – algo possivelmente irrepresentável pelo
sujeito pela via do sintoma e que busca vã representação na repetição.
40
3
COMPULSÃO À REPETIÇÃO:
A PULSÃO DE MORTE E O ATO
Dizemos que é acidente, puro acaso, porque na coação à
repetição o mal que se precipita sobre a subjetividade parece
provir de uma causa externa.
(Gerez-Ambertín, 2009, p. 132)
3.1. Pulsão de morte – conceito
Se pretendemos, assim, tratar da repetição como expressão do irrepresentável
pela via do sintoma, necessário será tratar da pulsão de morte, uma vez que sabemos ser
a compulsão à repetição seu meio de expressão.
Em, “Além do princípio do prazer” (1920), Freud afirma definitivamente a ideia
de uma pulsão de morte. Em sua experiência clínica, depara-se com a “compulsão à
repetição”, algo que entende não ser conciliável apenas com o sistema que havia
postulado anteriormente, polarizado entre o princípio do prazer e o princípio da
realidade.
Sobre as origens da compulsão à repetição, escreve:
(...) a compulsão à repetição deve ser atribuída ao reprimido
inconsciente. Parece provável que a compulsão só possa expressar-se
depois que o trabalho do tratamento avançou a seu encontro até a
metade do caminho e que afrouxou a repressão.
(...)
É claro que a maior parte do que é reexperimentado sob a
compulsão à repetição deve causar desprazer ao ego, pois traz à luz
as atividades dos impulsos instintuais reprimidos.
41
(...) compulsão à repetição também rememora do passado
experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que
nunca, mesmo a longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para
impulsos instintuais que desde então foram reprimidos. (FREUD,
1920, p. 31)
Como sugerem Quinodoz (2007) e Gay (1989), o texto de 1920 não teria sido
muito bem recebido pelos pares de Freud em um primeiro momento, e até hoje se revela
um dos pontos mais controversos de sua teoria;
O aspecto altamente especulativo deste texto difícil, assim
como as dúvidas que o próprio Freud manifesta sobre a validade de
suas afirmações, fazem com que estas hipóteses sejam recebidas com
extrema reserva. Por isso, aqueles que as contestaram, ficaram bastante
tentados a considerá-las unicamente como a expressão de angústias
pessoais de Freud diante da morte. (QUINODOZ, 2007, p. 206)
Na biografia de Freud escrita por Peter Gay (1989), podemos observar que no
período do pós-guerra, Freud estava às voltas com a morte que se repetia diante de seus
olhos. Em 1919, o suicídio de Tausk, o câncer do amigo Anton Von Freund e, em 1929,
a morte da filha Sophie, grávida de seu terceiro filho, pela gripe espanhola. Freud
alimentava, ainda, a superstição de que morreria com a idade de 62 anos, fato que
deveria ocorrer entre os anos de 1918 e 1919 (QUINODOZ, 2007, p. 206).
Pode-se reconhecer no próprio texto o cuidado tomado por Freud na proposição
deste novo elemento de sua teoria, aproximando-o da ideia de um mito psicanalítico.
Parecia ele antever as discussões que surgiriam a partir de então:
À parte isso, a ciência tem tão pouco a nos dizer sobre a origem
da sexualidade, que podemos comparar o problema a uma escuridão em
que nem mesmo o raio de luz de uma hipótese penetrou. Em outra
42
região, inteiramente diferente, é verdade, defrontamo-nos realmente
com tal hipótese, mas é de tipo tão fantástico, mais mito do que
explicação científica, que não me atreveria a apresentá-la aqui se ela
não atendesse precisamente àquela condição cujo preenchimento
desejamos, porque faz remontar a origem de um instinto a uma
necessidade de restaurar um estado anterior de coisas. (FREUD, 1920,
p. 67)
No entanto, os estudiosos da obra de Freud admitem o valor de sua proposição
de 1920, sobretudo por reconhecerem, também por meio da prática clínica, a compulsão
à repetição, expressão da pulsão de morte. A concepção da pulsão de morte reordena a
polarização
pulsional
(prazer-realidade)
anteriormente
concebida
por
Freud,
introduzindo a “demoníaca” no jogo das cargas sexuais, como melhor elucida Jurandir
Freire Costa (1984):
Em 1920, como se sabe, Freud escreve “Além do princípio do
prazer”, criando a noção de pulsão de morte. Esta noção vai subsumir
noções anteriores (...). A pulsão de morte reordena a antiga divisão
pulsional, colocando no primeiro plano da vida psíquica a tendência à
destruição do sujeito e do objeto. Agora, ao lado da sexualidade, a
destruição vai interferir decisivamente na explicação dos mecanismos
mentais e passar a ser considerada um dos elementos primordiais no
destino da vida psíquica e social do homem. (p. 23)
A compulsão à repetição foi considerada por Freud expressão de uma pulsão
“demoníaca” a partir de seu estudo acerca dos sonhos dos traumatizados e das
brincadeiras das crianças. Reconheceu ali um padrão de repetição, dentro e fora da
análise, com a atuação ocorrendo onde esperava que ocorresse a lembrança elaborada.
Reconheceu portanto, naquele momento, que o fenômeno a partir da lógica do princípio
do prazer restaria “inexplicado o bastante para justificar a hipótese de uma compulsão à
43
repetição, algo que parece mais primitivo, mais elementar e mais instintual do que o
princípio de prazer que ela domina” (FREUD, 1920, p. 34).
O retorno do reprimido pela repetição sugeria a Freud a imposição de desprazer
ao ego. No entanto, este desprazer não constituiria, por si só, contradição ao princípio
do prazer, pois traria “desprazer para um dos sistemas e, simultaneamente, satisfação
para outro” (FREUD, 1920, p. 31). A impossibilidade de reconhecimento de relação
com o princípio do prazer se dá a partir do que Freud reconhece como “experiências que
não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo,
trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que desde então foram
reprimidos” (FREUD, 1920, p. 31). Aí sim, estaria o elemento introdutor da
impossibilidade de manutenção do sistema polarizado de conservação de energias
anteriormente postulado por Freud.
3.2 Compulsão / coação à repetição
O caráter compulsivo atribuído à repetição se funda justamente na constatação
de ausência de prazer, como sugere Quinodoz (2007):
A compulsão à repetição decorre na verdade de um conflito
entre o ego e sua coesão, e o reprimido, conflito que implica,
igualmente, a intervenção do reprimido inconsciente, segundo ele. Qual
a relação que existe neste caso entre a compulsão à repetição e o
princípio do prazer? Observando este tipo de relação, constata-se que as
experiências do passado trazidas de volta pela compulsão à repetição
não comportam nenhuma possibilidade de prazer, nem na psicanálise
nem na vida cotidiana. (p. 208)
44
Não se trata mais, a partir de então, de pensar em um sistema de prazerdesprazer. Adentra esta relação um novo elemento a fazer circular entre a vida e a morte
o pêndulo pulsional humano e ao introduzir uma tendência da vida de retorno às suas
origens inorgânicas, ainda que aí possa se reconhecer pela via do instinto um elemento
da vida. Podemos tomar como exemplo o equilíbrio alcançado quando os salmões
retornam ao seu local de nascimento e morrendo após a desova, fertilizam com seu
corpo morto o ambiente em que nascerão seus descendentes. No entanto, cremos estar a
hipótese freudiana também ligada à possibilidade humana de constituição de um mundo
interno, igualmente fonte de prazer–desprazer:
O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos
de morte. É verdade que mantém guarda sobre os estímulos provindos
de fora, que são encarados como perigos por ambos os tipos de
instintos, mas se acha mais especialmente em guarda contra os
aumentos de estimulação provindos de dentro, que tornariam mais
difícil a tarefa de viver. Isso, por sua vez, levanta uma infinidade de
outras questões, para as quais, no presente, não podemos encontrar
resposta. (FREUD, 1920, p. 74)
Segundo Roudinesco e Plon (1998), foi a partir da observação da compulsão à
repetição, situação em que o sujeito se colocaria “em situações dolorosas, réplicas de
experiências antigas” (p. 631) que Freud teria pensado em teorizar a pulsão que chamou
de pulsão de morte. Sob este ponto de vista, podemos considerar que Joaquim estaria,
de alguma forma, dominado por essa compulsão, impossibilitado de encontrar solução
diversa a não ser a repetição como definida acima. Segundo a ideia que vimos
desenvolvendo, tal impossibilidade dever-se-ia à insuficiência do aparelho psíquico
diante de um afeto por demais violento.
45
Marta Gerez-Ambertín coloca interessante questão em relação à tradução do
termo “compulsão à repetição”, sugerindo que o mais adequado, segundo seu
entendimento sobre a intenção de Freud, seria a utilização do termo “coação à repetição:
(...) para isso, parece-me imprescindível, em primeiro lugar,
retornar à debatida questão da conceituação de coação à repetição
(wieder-holung-zwang). (...) Freud introduz o termo coação e o vincula
à “compulsão de destino”, dando ao termo coação o caráter de algo
obrigatório que pressiona a partir de dentro; daí preferirmos o termo
coação em lugar de compulsão, pois “coação” destaca esta força
violenta e aparentemente intrusiva que toma de assalto a subjetividade.
(GEREZ-AMBERTÍN, 2009, p. 127)
Pensamos que a ideia de coação à repetição faça mais sentido se pensada em
relação ao papel do superego na “máquina” da compulsão à repetição, no âmbito tópico.
Em relação à pulsão de morte, o termo compulsão à repetição nos parece adequado para
descrever a maneira como estamos sujeitos à dinâmica pulsional. Esta não nos parece
ser uma questão de escolha do uso de um dos termos, mas da possibilidade do uso de
ambos, a depender daquilo que desejamos expressar sobre a pulsão de morte e sob qual
dos ângulos a miramos.
Segundo Rechardt (1988), a pulsão de morte seria inerente ao homem e
representaria uma luta obstinada em busca de paz e repouso, sem importar qual o meio
para alcançá-la ou a forma que tome. Para esse autor, a pulsão de morte seria um dos
paradigmas do funcionamento psíquico, que não visaria simplesmente transformar o
inanimado em animado.
O autor coloca, ainda, a questão do funcionamento da pulsão de morte em
paralelo com relação a Eros:
46
Deste ponto de vista Eros e pulsão de morte são tendências
psíquicas independentes uma da outra. Eros busca intensificar a vida:
luta por uma totalização mais ampla e um incremento da tensão
energética. A meta principal de sua intenção psíquica é o prazer (sem se
afastar do desprazer, e, desta forma, sem levar em conta as
perturbações). A pulsão de morte procura eliminar o que aumenta a
tensão energética e reduzir esta tensão, decorrente da não-ligação, ao
seu mínimo (princípio de Nirvana) ou pelo menos mantê-la ao abrigo
de qualquer mudança (princípio de constância). (RECHARDT, 1988, p.
43)
Ao afirmar que o trabalho de Eros e da pulsão de morte formariam um sistema
binário no qual um não existe sem o outro, Rechardt reconhece, de maneira bela, que tal
associação poderia criar “uma infinidade de formas de vida e de morte” (p. 51).
No caso estudado, não se pode reconhecer qualquer possibilidade de prazer na
repetição do traumático de forma tão contumaz. Devemos, assim, reconhecer que a
repetição observada deve estar sendo regida pela lógica definitivamente proposta por
Freud em 1920. Não pretendemos, no entanto, sugerir que a compulsão à repetição
aconteceria somente naquelas situações em que estaria barrada a via do sintoma. Como
bem reconhecemos em nossa atividade clínica, a pulsão de morte se expressa através da
compulsão à repetição com grande frequência, fazendo desta a própria expressão
sintomática. A oposição que pretendemos traçar, em momento oportuno, diz respeito à
qualidade simbólica do sintoma neurótico e da repetição como atuação ou como uma
“forma precária de captura” (ENDO 2005, p. 145).
Segundo Gerez-Ambertín (2009), a compulsão à repetição teria o poder de
precipitar o sujeito a atos “que parecem brotar-lhe pelas costas” (p. 128). Este seria o
resultado de uma pressão interna, que “coage, domina, que resulta tão ingovernável que
o sujeito a vivencia como estranha a seu ser (...) trata-se de um procedimento alheio ao
sujeito já que ele tem a impressão de ser perseguido pelo destino (...)” (p. 128). Para a
47
autora, o movimento de coação à repetição estaria sempre acompanhado de culpa e
sacrifício, como tentativas de encobrimento da falha em relação à força da lei.
Em tais atos, que parecem brotar pelas costas do sujeito, temos especial
interesse, uma vez que pensamos ser assim que Joaquim pode sentir a respeito de seus
próprios atos. Dedicamos a esta questão, capítulo à parte.
48
4
VIOLÊNCIA, AGRESSIVIDADE E DESTRUTIVIDADE:
EXPRESSÃO PELO MASOQUISMO E PELO SACRIFÍCIO
Como sabemos pelas nossas próprias experiências de vida, a violência incide
sobre o humano cotidianamente. Com Joaquim não foi diferente. Como percurso até a
relação que pretendemos traçar entre a insuficiência imunológica psíquica e a
compulsão à repetição como saída única de protorrepresentação do trauma
possivelmente imposto pela incidência de pathos, introduzimos aqui o tema da violência
como expressão legítima do humano, uma vez que a repetição da cena
violenta/patogênica seria o objeto de repetição que reconhecemos no funcionamento
psiquismo de Joaquim.
Desde a concepção da pulsão de morte por Freud, veremos que a discussão a
respeito da expressão humana pela violência tem ocupado os estudiosos da psicanálise.
Faremos breve discussão conceitual a respeito das aproximações e distinções
entre violência, agressividade e destrutividade. Tal discussão será conduzida, no
entanto, a partir da posição de Freud em relação a tais conceitos e dos movimentos em
relação aos mesmos observados em sua obra. Trataremos, ainda, de algumas formas de
expressão da violência por meio do masoquismo e do sacrifício.
Segundo Costa (1984), a concepção aristotélica da violência seria a da
“qualidade do movimento que impede as coisas de seguirem seu movimento natural” (p.
16). Segundo tal ideia, a violência estaria sempre na condição daquilo que impede o
movimento. Neste sentido, encontramos uma aproximação à ideia freudiana a respeito
da violência, sobretudo como forma de expressão da pulsão de morte.
Como vimos no capítulo anterior, a pulsão de morte estaria a serviço do retorno
a um estado ideal de ausência de perturbação e de excitação.
49
Sugerimos, então, que tomemos a violência - antes mesmo de naturalizá-la ao
humano ou reputá-la à expressão social/política - como uma força contrária ao
seguimento do movimento, como a concebeu Aristóteles, e seguindo o apontamento de
Costa.
Esta concepção pode estender-se à ideia que vimos sustentando de pathos (em
essência, excessivo) como introdutor de um tipo de trauma de natureza tão intensa a
ponto de debelar algumas das possibilidades imunológicas oferecidas pelo psiquismo,
sobretudo a capacidade de simbolização e acesso ao sintoma, que permitiria a formação
de compromisso com a realidade, ao passo que sustentaria a relação do sujeito com o
próprio traumatismo em um registro em que seja possível recorrer ao simbólico.
Mesmo se levarmos em conta a violência constitutiva do sujeito encontramos aí,
no movimento de constituição do psiquismo, um desvio do natural, se considerarmos o
devir do psiquismo a própria desnaturalização/desanimalização do animal humano.
4.1. Violência, agressividade e destrutividade: distinções e aproximações no uso dos
conceitos
Costa aponta uma interessante distinção entre a violência necessária a
constituição psíquica do sujeito (no início da vida) daquela à qual atribuímos, nesta
pesquisa, a qualidade distintiva de óbvia/excessiva, ao afirmar que “identifica-se trauma
infantil com violência, fazendo do primeiro termo – este sim condição sine qua non da
existência psíquica – sinônimo do segundo, fenômeno gratuito em relação às
necessidades do desenvolvimento psicológico da criança” (COSTA, 1984, p. 22).
Segundo Souza (2005), é preciso reconhecer que “a disposição para a violência
está em todos nós. Ela está na origem da cultura, no mito do assassinato do pai
50
primordial que a funda (...) e na aniquilação repetitiva dos dominados pelos
dominadores” (Souza, 2005, p. 29). Ainda segundo a posição da autora, a violência teria
maior possibilidade de irrupção “onde há uma lei simbólica degradada” no interjogo
entre a cultura e a subjetividade. Aí se poderiam sentir os “efeitos mortíferos da ‘moção
maligna’ (termo utilizado por Freud em “Totem e tabu”); os mandatos ferozes do
supereu.” (p. 31).
Tal posição é questionada por Jurandir Freire Costa, que enfatiza o que
considera ser um equívoco praticado por outros teóricos ao fazerem da ideia de pulsão
de morte prova de uma violência natural do homem:
Com base na representação, bastante difundida em seu tempo, de
que o homem é o lobo do homem, Freud sempre procurou mostrar o que
havia de destrutivo e agressivo no comportamento e nos desejos mais
recônditos do sujeito. Depois de seu estudo sobre a pulsão de morte, esta
crença tendeu a firmar-se e, retomada a torto e a direito, por seus
discípulos e continuadores, passou a funcionar como prova da violência
existente na “natureza humana” e na “natureza das relações
sociais.(COSTA, 1984, p. 22)
Em sua conhecida comunicação a Albert Einstein, datada de setembro de 1932,
Freud trata da inclinação natural do homem ao uso da violência, no contexto da guerra,
fato que tentavam compreender em comunicação mútua:
(...) Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição:
as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de
todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses
impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros
motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as
atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas
servissem apenas de escusa para os desejos destrutivos; e, às vezes - por
exemplo, no caso das crueldades da Inquisição - é como se os motivos
51
idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência,
enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente.
Ambos podem ser verdadeiros. (FREUD, 1932, p. 203 \ 204)
Freud situa as razões políticas e idealistas para a violência no plano consciente,
enquanto do inconsciente viriam suas causas “naturais”, a partir de impulsos
destrutivos. Costa introduz o papel do desejo no contexto da expressão humana da
violência, enquanto expressão aparentemente irracional, assim como estabelece a
intencionalidade do uso violento da agressividade, considerando que:
Violência é o emprego desejado da agressividade, com fins
destrutivos. Este desejo pode ser voluntário, deliberado, racional e
consciente, ou pode ser inconsciente, involuntário e irracional. A
existência destes predicados não altera a qualidade especificamente
humana da violência, pois o animal não deseja, o animal necessita.
(...)
Nada disso ocorre na violência do homem. O objeto de sua
agressividade não só é arbitrário como pode ser deslocado. Este
pressuposto é indissociável da noção de irracionalidade que acabamos de
mencionar e corrobora a presença do desejo em qualquer atividade
humana, inclusive na violência. (COSTA, 1984, p. 30)
A relação do humano com a violência obedece a um duplo estatuto. Estamos, a
todo momento, em contato com esta duplicidade que determina tantos binômios.
Atividade e passividade, sadismo e masoquismo, dominação ou sujeição. A violência
permeia mais aspectos de nossas vidas do que costumamos admitir.
A negação da violência é assunto tratado por Isabel Khan Marin (2002) em
“Violências”. Segundo a autora, embora contenhamos elementos da violência em nossa
fundação, negamos a violência como resto de um crime; o crime nos insere na cultura.
Preocupamo-nos muito com a violência, mas não admitimos qualquer relação com ela:
52
O homem da cultura é herdeiro e cúmplice de um crime, fato
que tenderá a ser negado e perpetuado por toda a humanidade. As
vicissitudes do complexo de Édipo retomam, na constituição da
subjetividade de cada um, toda essa contradição. (...) nesse paradigma
clássico da psicanálise já temos elementos que levam a pensar na
questão da violência como elemento fundante da subjetividade.
(MARIN, 2002 p.18)
A autora coloca a violência na alçada do unheimlich, o estranho, parte de nós
que não reconhecemos como familiar. Neste sentido a violência seria por nós
experimentada como o recalcado ameaçador.
Aponta, ainda, que mesmo a relação mãe-bebê é permeada por violências: “o
infans é violentado pelo discurso da mãe, que lhe marcará a existência do mundo em
confronto com sua psique” (MARIN, 2002 p. 19). A criança é violentada pela mãe ao ser
privada, por exemplo.
Jeammet e Corocos atestam o papel do ambiente na qualidade da relação entre o
sujeito e a violência que o atinge. Atribuem à qualidade da representação interna do
papel dos pais a capacidade do sujeito para tolerar as investidas da violência, no sentido
do que Berlinck (2000) denominou sistema imunológico psíquico. Vejamos:
Os arranjos da violência e suas modalidades de expressão vão
depender por vezes da organização psíquica interna do sujeito e do
ambiente. O lugar deste último será tão mais importante quanto a
organização psíquica for mais frágil e não puder exercer seu papel de
tampão, revezamento do papel dos pais da infância, na interface dos
dois mundos; interno e externo.
(...)
Qualquer que seja o modo de expressão, a marca da violência
é a do excesso. Excesso de urgência, excesso de coação, excesso de
intensidade, os quais refletem, todos, o transbordamento do Ego e,
por isso mesmo, a ameaça de desorganização que pesa sobre ele.
(JEAMMET e COROCOS, 2005, p. 81)
53
Por outro lado, a violência e o excesso que necessariamente a acompanha é sempre vista
por Jeammet e Corocos como possível desorganizador do ego. Para a Psicopatologia
Fundamental, a violência, enquanto pathos, somente será desorganizadora do ego se
ultrapassar as possibilidades imunológicas do sujeito. Se assim não for será elemento de
organização da psique.
Quanto ao conceito de agressividade, valer-nos-emos da definição oferecida por
Laplanche e Pontalis (2001), que afirmam ser a agressividade uma “tendência ou
conjunto de tendências que se atualizam em comportamentos reais ou fantasísticos que
visam prejudicar o outro, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo etc” (p. 11). Tais autores
esclarecem não existir qualquer tipo de comportamento que não possa funcionar como
agressão, exemplificando a ideia com atos que podem parecer, em um primeiro
momento, um tanto pacíficos como a ironia e a simples recusa de auxílio.
No entanto, analisando a evolução do conceito na obra de Freud, Laplanche e
Pontalis (2001) destacam que com o advento da ideia de uma pulsão de morte, Freud
teria minado a noção clássica de agressividade como modo de relação com outrem,
violência exercida sobre outrem, “localizando a origem da pulsão de morte na própria
pessoa, fazendo da autoagressão o próprio princípio da agressividade” (p. 12). Afirmam,
no entanto, que causar danos ao objeto ou aniquilá-lo seria indiferente à pulsão de
morte, uma vez que seu escopo é o de manter o estado geral de não excitação.
Agressividade, assim, não comporta necessariamente o sentido de destruição,
podendo ser apenas a expressão da indissociável interação entre os dois registros
pulsionais que coexistem, o de Eros e o da pulsão de morte. Agressivamente, reagimos à
excitação causada pela não ligação pulsional.
No entanto, não é sempre que engendramos a destruição da fonte de excitação.
Podemos nos valer da agressividade apenas como forma de proteção contra o excesso
54
que nos atinge. Podemos encontrar agressividade em simples gestos, como o de
atravessar uma rua movimentada, por exemplo. Quanto à destrutividade, por outro lado,
pensamos conter o necessário sentido de busca pela destruição do Ego ou do objeto.
A destrutividade, portanto, estaria mais próxima de uma expressão da pulsão de
morte que conteria o sentido de aniquilação do objeto e/ou do Ego como solução à
perturbação imposta ao sujeito. Agressividade, por sua vez, seria a resposta em forma de
movimento, capaz de alterar a trajetória pulsional, de modo a proteger o Ego da
excitação, do excesso.
Endo (2005) faz interessante aproximação metapsicológica da destrutividade
com o superego, que reproduzimos aqui, e que exploraremos em momento oportuno:
(...) o superego é apresentado como versão interiorizada
da destrutividade, do autoritarismo e da criueldade que,
entretanto, retirou todos os seus ensinamentos de sua relação
com os primeiros objetos de amor, prazer, horror e ódio. Esse é
o momento em que, edipianamente, o sujeito lança-se nos
braços de seu objeto de amor e é mortal e violentamente
interpelado. (ENDO, 2005, p. 194)
Tanto a ideia de destrutividade quanto a de agressividade estariam de acordo
com a finalidade da violência, segundo a vimos definindo, enquanto qualidade de um
tipo de movimento a impedir o movimento natural das coisas. A solução, pela via da
destrutividade, seria a eliminação da ameaça justamente pela eliminação do obstáculo,
enquanto a solução, pela via da agressividade, estaria mais ligada ao desvio da trajetória
da libido, abrandando sua circulação e favorecendo, até certa medida, o trabalho de
Eros.
55
Endo (2005) chama nossa atenção para aquilo que considera um “intrincamento
pulsional” presente na metapsicologia freudiana, de modo que a “pulsão de vida (Eros)
orienta o sentido da pulsão de morte e indica seu destino” (p. 207). De forma análoga, a
pulsão de morte teria também a prerrogativa de determinação dos destinos do trabalho
de Eros. Outra faceta de tal intrincamento entre as pulsões sexuais e as pulsões de morte
apontada pelo autor é a frequente associação pulsional entre expressões não sexuais
(dominação, destruição e vontade de poder) e outras sádico-masoquistas.
A partir da ideia da existência de um intrincamento pulsional, uma forma de
complementaridade funcional entre os registros pulsionais, reconhecemos existir, em
nossa perspectiva, a partir do caso que vimos analisando, também uma forma de
intrincamento entre os registros pulsionais a partir dos quais emergiriam diferentes
variantes da violência.
Assim, agressividade e destrutividade como expressões da pulsão de morte,
podem ser entendidos, no caso, como diferentes componentes de uma mesma expressão
pela violência, sobretudo por meio do ato - capaz de concentrar e então difundir os
diferentes componentes, de forma indiferenciada - em que o sujeito estaria alheio ao
reconhecimento das peculiaridades de sua própria violência.
A tentativa de distinção entre agressividade e destrutividade , segundo podemos
depreender a partir da leitura de Endo (2005) a respeito da obra de Freud, também acaba
por encontrar-se “intrincada” na forma da pulsão de morte, que conteria ambos os
sentidos de expressão modulados a partir de uma mesma origem – pulsão de morte.
No caso de Joaquim, podemos encontrar formas da violência – qualidade de
movimento a impedir o movimento – que poderíamos aproximar da ideia de
agressividade, assim como aquelas que poderíamos aproximar da destrutividade. Não
temos a intenção, no entanto, de submeter a este crivo distintivo a expressão de sua
56
violência. Pensamos ser mais interessante fazer como Freud fez, inscrevendo tais
registros na lógica da pulsão de morte, pensando o caso a partir da relação da pulsão de
morte com a expressão e repetição da violência.
Novamente recorremos a Paulo Endo para elucidar o movimento observável na
obra de Freud a respeito da nomeação de diversas moções pulsionais relacionadas à
violência, posteriormente reunidos sob a égide da pulsão de morte:
As diferenças que Freud esclarece entre agressividade,
sadismo, destruição, dominação, morte, masoquismo, sofrimento
trauma, dor, falam de uma obra que reconheceu nas violências um
dos núcleos de sua estruturação teórica; que as percebeu em sua
pluralidade e não abdicou delas em nome de uma universalização
explicativa que as ordenasse cabalmente.
Prova disso foi a insistência freudiana em manter a
problemática da violência inscrita na metapsicologia das pulsões,
desde o aparecimento em seus textos até o final, aproveitando o
caráter plural e múltiplo inscrito no próprio conceito de pulsão e no
uso e abuso de Freud na nomeação de tantas pulsões parciais quantas
fossem suas intuições sobre o tema (pulsão de agressividade, pulsão
de crueldade, pulsão de dominação, pulsão de destruição, pulsão
sadomasoquista).
Freud sabia da impossibilidade de universalizar ou capturar o
fenômeno da violência numa hipótese ou conceito geral, e quando
poderia fazê-lo, na segunda teoria das pulsões optou por nomeá-lo em
sua forma paradoxal e extensa – pulsão de morte – na qual a violência
é carregada de inerência e imprecisão, inscrita num movimento vital
paradoxal, visível sob formas infinitamente variáveis. (ENDO, 2005,
p. 217)
Assim, embora Freud nomeie diversas variantes da pulsão de morte ao longo de
sua obra, especialmente em suas primeiras formulações a respeito do tema, em nossa
pesquisa trataremos do fenômeno em sua relação com a pulsão de morte, que pensamos
muito bem agrupar tais fenômenos, sem, no entanto, pretender inscrever a violência
dentro de um conceito geral, como sugere Paulo Endo (2005).
Também é esta a posição defendida por Marta Gerez-Ambertín (2009):
Insistirei, neste artigo, particularmente sobre o fato de que a
teoria psicanalítica da agressividade não deveria se limitar ao relato
do comportamento agressivo e destrutivo, e aos conteúdos psíquicos
57
correspondentes, mas que deveria retornar às suas origens afim de
voltar a ser uma teoria da pulsão de morte. Assim, dever-se-á
entender por pulsão de morte ativa, permanente e obstinada, para
reencontrar um estado de paz conhecido anteriormente: esforço por se
livrar do que é vivido como perturbador e/ou mantenedor da
inquietude. A morte é apenas uma forma particular deste estado de
paz e a destruição é somente um dos meios de lutar para alcançá-lo.
O propósito central e principal da pulsão de morte é o nome de um
paradigma relativo ao funcionamento psíquico. (p. 58)
Mais importante pensamos ser a análise da forma – e não a tão longínqua origem
– de sua expressão. Para tanto, trataremos da expressão da violência, em termos de
masoquismo e sacrifício, estabelecendo relações entre outros fatores que pudemos
observar no caso e a razão presente no masoquismo e no sacrifício.
4.2. Masoquismo e sacrifício
Estas são as formas pelas quais a violência pode se expressar, e que pensamos
ter estreita relação com o caso que confere a esta pesquisa a qualidade clínica que
pretendemos alcançar. Assim, é mister abordar, aqui, os desdobramentos da violência
no masoquismo e no sacrifício. De acordo com nossa hipótese inicial, são pontos nodais
para a abordagem da violência em nossa pesquisa.
No que diz respeito ao masoquismo, também pensamos ser de grande interesse
para nossa pesquisa, uma vez que acreditamos ser esta a forma principal de expressão
sintomática de Joaquim.
58
Algumas das primeiras formulações freudianas específicas a respeito do
masoquismo podem ser encontradas no texto de 1915, “A pulsão e seus destinos”, texto
em que Freud trata, entre outros aspectos relativos à dinâmica pulsional, da questão da
reversão do instinto sádico em masoquismo.
A reversão do instinto em seu oposto obedeceria a dois processos distintos, a
mudança da atividade para passividade e a reversão de conteúdo, propriamente dita,
sendo que a “reversão afeta apenas as finalidades dos instintos. A finalidade ativa
(torturar, olhar), é substituída pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado). A
reversão do conteúdo encontra-se no exemplo isolado da transformação do amor em
ódio” (FREUD, 1915, p. 132).
Não haveria, portanto, nessa lógica, alteração na finalidade do instinto, mesmo
com a inversão do afeto, conforme sugere Freud (1915) ao afirmar que:
O retorno de um instinto em direção ao próprio eu (self) do
indivíduo se torna plausível pela reflexão de que o masoquismo é, na
realidade, o sadismo que retorna em direção ao próprio ego do
indivíduo (...). A observação analítica, realmente, não nos deixa
duvidar de que o masoquista partilha da fruição do assalto a que é
submetido (...). A essência do processo é, assim, a mudança do
objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada. Não podemos
deixar de observar, contudo, que, nesses exemplos, o retorno em
direção ao eu do indivíduo e a transformação da atividade em
passividade convergem ou coincidem. (p. 132)
Em outro interessante trecho desse texto de 1915, Freud afirma ser a reversão de
atividade em passividade tentativa de defesa que em fases mais elevadas do
desenvolvimento do ego seriam efetuadas por outros meios, postulando que tal solução
pela reversão e retorno do instinto em direção ao próprio ego, se encontraria na
dependência da organização narcisista do ego.
Quando comparamos os atos praticados por Joaquim - que nos parecem ser de
59
natureza masoquista - com aquilo que vimos chamando de sintomas de maior
complexidade, cremos estar na esteira do que Freud postula em relação à solução
masoquista do conflito intrapsíquico, classificando-a como recurso utilizado por um ego
ainda pouco desenvolvido, uma vez que o instinto ativamente violento retorna sobre ele.
No texto de 1919, intitulado “Bate-se em uma criança”, Freud, mais uma vez a
partir de sua observação clínica, coloca a questão a respeito da recorrência daquilo que
considera ser uma fantasia comum, resíduo do complexo de Édipo e que deixaria
cicatrizes, “tal como o notório ‘sentimento de inferioridade’ corresponde a uma cicatriz
narcísica do mesmo tipo” (FREUD, 1919, p. 208).
Nesta fantasia - diferentes etapas, algumas ocorridas na esfera da consciência e
outras operadas no inconsciente - culminariam na ideia de que o pai, ou aquele a
representar sua função – professor ou outra figura de autoridade – estaria espancando
uma criança. Segundo Freud, o resultado final seria: “o meu pai está batendo na criança,
ele só ama a mim”.
O grande valor que esse texto tem para nossa pesquisa é o desenvolvimento
metapsicológico proposto por Freud a respeito da transformação dos impulsos sádicos
em expressão masoquista. O recalque e o sentimento de culpa operariam de modo a
deslocar a ênfase da fantasia “ele só ama a mim” para “o meu pai está batendo em uma
criança”. Muito embora a ênfase no espancamento de outra criança seria apenas
aparentemente uma expressão sádica, conforme a afirmação de Freud de que “apenas a
forma dessa fantasia é sádica (...). Todas as crianças não especificadas, que estão sendo
espancadas pelo professor, afinal de contas, nada mais são do que substitutos da própria
criança” (1919, p. 206).
Presente também no referido texto, está a ideia de que a passividade não seria a
totalidade
do
masoquismo.
Estaria
também
presente
um
“desconcertante
60
acompanhamento para a satisfação de um instinto” (1919, p. 209), o desprazer
proveniente do avassalador sentimento de culpa:
A transformação do sadismo em masoquismo parece deverser à influência do sentimento de culpa que participa do ato de
repressão. Assim, a repressão opera, aqui, de três modos: torna
inconscientes as consequências da organização genital, obriga essa
organização a regredir ao anterior estádio sádico-anal e transforma o
sadismo desse estádio em masoquismo, que é passivo e novamente,
num certo sentido, narcísico. O segundo desses três efeitos torna-se
possível pela fraqueza da organização genital, que deve ser
pressuposta em tais casos. O terceiro torna-se necessário porque o
sentimento de culpa faz tantas objeções ao sadismo, como à escolha
objetal incestuosa, genitalmente concebida. (FREUD, 1919, p. 209)
O sentimento de culpa aparece, portanto, como força a impor a transformação do
sadismo em masoquismo, sustentando a fantasia de amor exclusivo, mas alterando a
forma textual da fantasia de modo a torná-la suportável ao Ego.
O valoroso texto de 1919 traz, ainda, a ideia de Freud a respeito da realização da
fantasia de espancamento, por meio daquilo que entendemos ser uma forma de atuação,
assim como aquelas que pensamos terem sido engendradas por Joaquim nas diversas
situações em que se viu vitimado pela violência do outro. Segundo Freud (1919):
Pessoas que abrigam fantasias dessa espécie, desenvolvem
uma sensibilidade e uma irritabilidade especial contra quem quer que
possam incluir na categoria de ‘pai’. São facilmente ofendidas por
uma pessoa assim e, desse modo (para sua própria tristeza), efetuam a
realização da situação imaginada de serem espancadas pelo pai. Não
me surpreenderia se algum dia fosse possível provar que a mesma
fantasia é a base do delirante espírito litigioso da paranóia. (p. 210)
Pensamos que, no caso analisado, podemos identificar esta “realização da
situação imaginada de serem espancadas”, entretanto, de forma mais crua do que a
61
vivência da fantasia, em si, recorrendo ao ato e ao real a marcar-lhe o corpo. A atuação
de fantasia de espancamento e o contexto edípico envolvido em tal atuação será objeto,
em momento oportuno, de reflexão e destaque.
Mesmo com toda a construção metapsicológica alcançada no texto de 1919,
Freud irá afirmar, ao final, que sua exposição da fantasia de espancamento pouco teria
esclarecido a respeito da gênese do masoquismo, reconhecendo que haveria
confirmação apenas de que “o masoquismo não é a manifestação de um instinto
primário, mas se origina do sadismo que foi voltado contra o eu (self) - ou seja, por
meio de regressão de um objeto para o ego” (FREUD, 1919, p. 209).
Em “O problema econômico do masoquismo”, de 1924, Freud avança em sua
concepção do masoquismo e faz longa exposição sobre a constituição de diferentes
formas de masoquismo. As principais novidades, em relação às formulações anteriores,
das quais vimos tratando até aqui, são a introdução do conflito fundamental entre pulsão
de vida e pulsão de morte, assim como os componentes da segunda tópica – ego, id e
superego.
Com a introdução desses novos e tão relevantes elementos da teoria
psicanalítica, o texto traz importante evolução na compreensão do masoquismo. Freud
postula que no masoquismo haveria uma regressão a uma fase libidinal anterior, a fase
sádico-anal, ao passo que haveria, ainda, a ressexualização do complexo de Édipo,
determinada por um reinvestimento de objetos incestuosos edipianos. Tal condição
imporia a necessidade masoquista do ego de ser punido pelo superego (QUINODOZ,
2007).
O trecho que reproduzimos a seguir parece guardar estreita relação com o caso
que vimos estudando:
62
O próprio sofrimento é o que importa; ser ele decretado por
alguém que é amado ou por alguém que é indiferente não tem
importância. Pode mesmo ser causado por poderes impessoais ou
pelas circunstâncias; o verdadeiro masoquista sempre oferece a face
onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe. (FREUD,
1924, p. 183)
O masoquismo a que se refere Freud no trecho citado aparentemente não guarda
relação com o princípio do prazer. O que, segundo ele, torna tentador excluir a libido da
descrição de seu funcionamento, atribuindo à pulsão de morte sua ação contra o self. No
entanto, como veremos adiante, a libido também faz parte do sistema antagônico em
que Freud situa a pulsão de morte, fator que denominou “intrincamento pulsional”,
como destaca Endo (2005).
Ainda no texto de 1924, Freud introduz a noção de um “masoquismo primário”,
conceito que ultrapassa a vinculação necessária a uma “perversão masoquista”: ele abre
uma nova perspectiva considerando que o conflito pulsão de vida/pulsão de morte
constitui o próprio fundamento dos processos vitais, desde o início da vida, o que
significa que o prazer de viver deve impor-se permanentemente sobre a tendência à
autodestruição (QUINODOZ, 2007, p. 233).
A respeito da desvinculação do masoquismo primário com a ideia de perversão,
esclarece Quinodoz (2007):
De fato, ao introduzir a noção de masoquismo primário ou
erógeno, Freud procura sobretudo entender a noção de masoquismo
para além da perversão propriamente dita, com o objetivo de
assinalar que toda ligação do prazer sexual com a dor tem como
fundamento primordial uma união entre a pulsão de vida e a pulsão
de morte. (...) O masoquismo primário seria, portanto, um
testemunho e um vestígio dessa fase de formação na qual se realizou
63
esta aliança, tão importante para a vida entre a pulsão de vida e Eros.
Desde então, para ele, essa forma originária de masoquismo
constitui-se como uma estrutura fundamental que desempenha o
papel de guardião da vida, segundo suas próprias palavras. (p.235)
Por fim, fica claro como Freud concebeu a questão da reversão do instinto, agora
levando em conta a atuação do superego, quando afirma “o sadismo do superego e o
masoquismo do ego suplementam-se mutuamente e se unem para produzir os mesmos
efeitos” (FREUD, 1924, p. 187).
Para Jeammet e Corocos (2005) o masoquismo representa uma maneira
privilegiada de vinculação da violência em que pode se dar um funcionamento
repetitivo mortífero:
O masoquismo representa de maneira privilegiada uma
dessas
modalidades
de
vinculação
da
violência
em
uma
agressividade, voltada contra si mesmo, cujo componente libidinal (e
objetal) é susceptível de se degradar em uma ascendência e uma
repetição mortíferas. (JEAMMET e COROCOS, 2005, p. 83-84)
Afirmam ainda Jeammet e Corocos (2005), que a solução masoquista se impõe
ao ego como um compromisso sempre possível quando o ego é ameaçado de
transbordamento. Existiria, quando se põe em ação uma conduta masoquista, uma
dimensão de resposta traumática nos dois extremos possíveis: os traumatismos
cumulativos de experiências dolorosas da infância ou o traumatismo da confrontação
brutal de um ego vulnerável a uma decepção insustentável, ou, ainda, na emergência de
desejos experimentados como incontroláveis.
Para esses autores, o dano e o sofrimento autoinfligidos são garantidos e podem
sempre escapar do poder do outro. Eles permitem lidar com esse outro, tornando-o
64
impotente, e mesmo dependente da boa vontade daqueles que se faz mal. Encontra-se
sempre possível esse movimento de transformação da decepção sofrida em poder de
decepcionar, assim como do retorno contra si da violência dirigida ao outro.
A respeito da ideia de masoquismo primário, escreve Endo (2005):
Deslocado da parceria sadomasoquista perversa, portanto o
masoquismo primário teria como meta pulsional uma satisfação
anterior a todo desejo, anterior ao submetimento às forças de Eros, e
tão dominante para o psiquismo quanto as pulsões de vida. Todavia,
ao falar de masoquismo primário, Freud deixa entrever o caráter
impuro da pulsão de morte, seu elo com as pulsões sexuais e de vida
que a noção de intrincação pulsional destacará, deixando, na verdade,
pouco espaço para as manifestações “puras” das pulsões de vida e de
morte. (p. 210)
Podemos afirmar, assim, que a solução sintomática do conflito intrapsíquico
pelo masoquismo precisa ser compreendida, levando-se em conta múltiplos elementos
da metapsicologia freudiana, no sentido daquilo que Freud descreveu como as três
grandes polaridades presentes na vida mental: atividade – passividade (polaridade
biológica), ego – mundo externo (polaridade real) e prazer-desprazer (polaridade
econômica).
Embora reconheçamos o masoquismo como principal hipótese em relação à
oferta que Joaquim faz de si mesmo à violência praticada pelo outro, pensamos que
também a questão do sacrifício deva ser levada em consideração nesta pesquisa.
Sabemos que na razão sacrificial o algoz oferece a vítima a um terceiro dotado
de poderes, como forma de expiar seus pecados ou como forma de aplacar a ira divina.
Neste sentido, podemos pensar o sacrifício de maneira análoga ao masoquismo, como
um recurso diante do sentimento de culpa e das exigências do superego.
65
No caso de Joaquim, se por um lado nos é clara a lógica masoquista por meio da
qual se oferece à violência do Outro, por outro, nos espantou a aparente desconexão em
relação à dor que teria sofrido.
Se o masoquismo tem, então, o sentido de autopunição, onde se poderia
encontrar este sentido punitivo quando seus efeitos não parecem causar a dor que
deveriam causar? Pensamos que Joaquim parece ter recorrido, concomitantemente, ao
masoquismo e ao sacrifício no contexto dos atos que o colocaram em situação de
vítima.
Se aparentava oferecer-se diretamente ao outro, parecia também não sentir a dor.
Neste sentido, pensamos em uma qualidade tal de cisão egoica a causar a separação
entre dor física e dor psíquica, a ponto de existir a possibilidade de oferecer o próprio
corpo em sacrifício. Este recurso ao corpo alienado poderia ter a função de proteger da
dor psíquica. Como dito anteriormente, o corpo serviria de anteparo na relação com o
outro, mas como se fosse o corpo puro do cordeiro.
Sobre o sacrifício, escreveu Marta Gerez-Ambertín (2006):
Em relação ao desejo do Outro, há o pacto, há o dom: aspecto
amável do sacrifício a partir do qual o sujeito espera obter uma
resposta apaziguadora à pergunta: O que quer o Outro de mim?,
enquanto que, por outro lado, há a fascinação do sacrifício como
fracasso inevitável da estrutura que não pode apaziguar a exigência
de gozo do Outro. (p. 88)
Neste sentido, o sacrifício constituiria, por um lado, uma tentativa de encontro
com o desejo do Outro e, por outro, um índice da falha da estrutura diante do gozo do
Outro. Como nos sacrifícios aos deuses que controlam as chuvas, a fertilidade, as
colheitas, a quem oferecem crianças, há a oferta ao desejo do Outro e o fascínio sobre o
gozo do Outro. Este duplo sentido do sacrifício constitui ponto interessante de
66
investigação sobre o caso que motivou a presente pesquisa e será de grande valor no
desenvolvimento metapsicólogico que faremos.
4.3. Violência e psique: a questão do trauma e da “metabolização”
Talvez menos importante seja o vetor que impõe a violência, a partir de dentro
ou vinda do exterior; sabemos que sua incidência sobre o sujeito deixa marcas, traumas,
como sugeriu Freud desde os primórdios de seu pensamento psicanalítico.
Ainda que o valor do trauma tenha sido relativizado com o advento da teoria da
sedução no que diz respeito à origem de determinados componentes da história
subjetiva, sua existência é inegável, sobretudo quando reconhecemos sua materialidade,
como no caso clínico que vem norteando o presente trabalho.
Dunker (2006), define o trauma em termos de “um evento hiperintenso, que
excede à capacidade representacional e que colhe o sujeito antes que este possa tramitálo psiquicamente. O caráter disruptivo, desorganizativo ou imprevisível do trauma é
uma tônica em Freud. (p. 39).
As consequências do trauma para a capacidade de simbolização e,
consequentemente, para as possibilidades de estabelecimento das condições clínicas
(transferenciais e em relação à regra fundamental), foram cuidadosamente estudadas, no
contexto das torturas praticadas pelos agentes de regimes militares na América do Sul,
por Maren e Marcelo Viñar, que sugerem a respeito do discurso daquele que sofreu uma
imposição violenta praticada por outro/Outro:
Testemunhos, conhecemos vários, e o analista pode obter
um outro, que se mostra necessário à economia libidinal do
sujeito. Mas trata-se, com maior frequência, de relatos de fatos
que deixam entender o impossível de dizer, e o que me parece um
dos aspectos do inominável é o de não poder se situar enquanto
67
sujeito disto que ainda resta do traumático, e que ainda está
ativo e se acumula. Aproximaria este inominável do fato de que o
sujeito foi colocado, pela violência, no interior da experiência
limite; colocado como um fantoche louco/transtornado. Ele não é
mais sujeito, mas se confunde com a máquina ou com o
maquinista. Como pode ele, então, dizer? (VIÑAR, 1992 p. 79)
Afirmam, ainda, que o “arrombamento provocado pelo trauma parece promover
um processo de recolhimento ao interior destinado a restaurar os limites e negar o fora
aterrorizante, incontrolável.” Conforme pudemos experimentar no atendimento a
Joaquim, neste contexto o clínico “escuta a narrativa de acontecimentos, de fatos
repetitivos, vazios de afeto. Escuta também o deslizamento de um lugar a outro”
(VIÑAR, 1992 p. 81).
Diante da violência, consideramos ter sido precária ao sistema imunológico
psíquico de Joaquim a possibilidade de conversão do “afeto de horror” (ENDO, 2005, p.
128), que aturdiu seu corpo e seu psiquismo. O afeto de horror impediria o processo
simbólico de instaurar-se e, assim, compor a representação sintomática, ou, como
descreve Paulo Endo (2005), em termos da metabolização:
É este contato, esta presença maciça de algo frente a que o
psiquismo repetidamente fracassa, como a presença do pai violador no
quarto da filha ou como, mais tarde, a exposição à morte e ao terror
permanentes nas guerras, por exemplo, que conduziram Freud a
reconhecer a possibilidade do estancamento do sofrimento psíquico do
sujeito traumatizado, também poupando-o da realidade extra-psíquica,
excessiva, que o atinge como exterioridade absoluta, ultrapassando suas
possibilidades de metabolizá-la. (ENDO, 2005, p. 128)
Ainda
segundo
esse
autor,
sugere-se
que
o
processo
de
metabolização/assimilação do choque entre os dois registros da realidade (psíquica e
extra-pasíquica) resultariam, portanto, de “uma assimilação impossível para o sujeito, já
que a intensidade do choque ultrapassa, muitas vezes, toda possibilidade de o aparelho
68
psíquico metabolizar, fazendo relação com aquilo que o interpela de fora” (ENDO,
2005, p. 135).
Neste sentido, Donald Winnicott (1975) traz importante contribuição ao
conceber a existência de um espaço simbólico em que se dá a mediação dos diferentes
registros da realidade, a que denomina espaço potencial. O espaço potencial seria o
lugar em que experimentamos a vida, em que se pode observar as manifestações daquilo
que chamamos cultura. Estamos inseridos em um conjunto de símbolos, leis, fatos e
valores (entre muitos outros elementos), um sistema construído a partir da interação
entre as subjetividades de um conjunto humano e as necessidades adaptativas impostas
pelo meio em que vivemos e pela necessidade da vida em comum. Para ele, o espaço
potencial é o lugar em que se dão as negociações que constituem o campo cultural.
A sustentação deste espaço estaria condicionada à possibilidade dialética entre
os registros da realidade, de modo que seja possível ao sujeito, por meio de seu aparelho
psíquico, mediar (ou metabolizar, como sugere Endo, 2005) esta relação entre a
subjetividade e a realidade compartilhada – objetiva. Diante da incidência do pathos
excessivo e inesperado, este processo dialético poderia ser interrompido, desfazendo a
possibilidade de mediação, conforme também sugere, em termos de defesas egoicas,
Paulo Endo (2005):
O choque traumático representa o horror que advém do
fracasso das defesas egoicas, capazes de tomar posse das
atribuições psíquicas e se impor para além de qualquer mediação,
submetendo o aparelho psíquico à repetição estanque e
empobrecedora. Isso faz do ego, após seu fracasso, um vassalo da
situação traumatogênica (p. 138).
Não se trata, no entanto, de propormos um retorno à teoria do trauma, mas de
discutir a impossibilidade de operação do simbólico, do figurativo, diante da obviedade
69
do choque. A fantasia depende da existência de um repertório simbólico (mnêmico,
onírico, estético, poético e semântico-polissêmico) que só pode existir quando é
possível relativizar o que há de inegavelmente real na realidade que se apresenta.
A substituição, ainda que a operação seja parcial, do fato pela fantasia narrada
somente ocorre na medida em que, psiquicamente, seja possível transformar a
experiência segundo a própria subjetividade. Neste sentido, hipoteticamente,
dependendo do aparelho psíquico-imunológico do sujeito, a representação simbólica,
deslocando o sentido do fato para um lócus mais afeito à realidade psíquica, seria
possível se tal aparelho fosse capaz de mascarar a faceta inegavelmente objetiva do fato.
Ou seja, é possível transformar psiquicamente a realidade quando existe, a partir
da natureza da experiência e do psiquismo do sujeito, a possibilidade de subversão
simbólica do óbvio objetivamente compartilhado. No caso de Joaquim, consideramos
que aquilo que o afetou foi de tamanha violência que a ele pode não ter sido possível a
metabolização do trauma, segundo sugere Paulo Endo no trecho citado acima.
Ele teria sido atingido por um desamparo de natureza tal que, “como uma
paixão, expõe o sujeito ao extermínio” (BERLINCK, 2000, p. 182), configurando a
situação em que se dá a insuficiência imunológica psíquica, lançando mão dos parcos
recursos oferecidos pela compulsão á repetição, conforme elucidado por Endo (2005):
Aqui, a repetição está em favor da sobrevivência desse egocorpo, fracasso das defesas diante e após o trauma força a retomada de
posição mais originária e cujas defesas egoicas resultantes da
diferenciação psique/corpo não vigem, já que o que está sob risco é o
corpo vivo e não o corpo sexual.
Os sonhos traumáticos, a compulsão à repetição, a mutilação do
corpo físico, a pulsão de dominação e de destruição terminam por ocupar
o lugar de defesas egóicas diante de perturbações que passam a agir de
dentro e de perto, tendo se originado fora e longe. (p. 146)
70
O resultado da incidência de um contexto de violência extrema poderia levar ao
“fracasso do psiquismo em situações em que os estímulos alcançam um volume tão
colossal que não há outro caminho senão a perturbação psíquica e uma alteração radical
em sua economia” (ENDO, 2005, p. 142).
No caso de Joaquim reconhecemos, no contexto da clínica, sua insuficiência
imunológica psíquica diante do caráter aterrador de pathos que o atingiu, lançando-o à
repetição como tentativa do psiquismo de atribuir um sentido humano ao que o aturdiu.
A forma como o faz, nos parece ser, em essência, de natureza masoquista. Como
bem salientou Freud, na base do masoquismo está a “ressexualização” do complexo de
Édipo, como em um retorno a um estado de menor desenvolvimento e maior expressão
narcísica.
Assim, será de grande relevância explorarmos, aqui, a relação da expressão
masoquística - que reputamos existir na expressão sintomática observada no caso
clínico analisado – com o contexto edípico e as fantasias que poderiam, neste mesmo
arcabouço, sustentar Joaquim na posição de vítima de que por muitas vezes se valeu.
71
5
SINTOMA, PASSAGEM AO ATO E ACTING OUT:
A QUESTÃO DA QUALIDADE SIMBÓLICA
Se os lapsos na fala - que é claramente sua
função motora - podem ser entendidos dessa maneira,
basta um pequeno passo para estender essa mesma
expectativa aos erros em nossas outras atividades
motoras. Formei aqui dois grupos de casos. Uso o
termo “equívocos na ação” [“Vergreifen”] para
descrever todos os casos em que o efeito falho - ou seja,
um desvio do que fora intencionado - parece ser o
elemento essencial; aos outros, em que é antes a ação
inteira que parece inoportuna, chamo-os de “atos
sintomáticos e acidentais” [“Symptom- und
Zufallshandlungen”]. Mas não se pode traçar uma
demarcação nítida entre eles e, na verdade, somos
forçados a concluir que todas as divisões feitas neste
estudo têm apenas uma importância descritiva e
contradizem a unidade interna desse campo de
fenômenos.
(FREUD, 1901, p. 167)
O caso clínico que ilustra esta pesquisa impõe a reflexão a respeito da qualidade
representativa presente nas diversas formas de expressão sintomática que podemos
observar no contexto clínico.
Os sintomas demonstrados (e muito bem escondidos) nas neuroses obsessivas,
nas fobias e histerias, apenas à guisa de exemplo, constituem metáforas representativas
do conflito psíquico, a respeito das quais e em alguns casos, ao longo do trabalho
clínico se pode reconhecer, em si, a ligação original ao conflito intrapsíquico. Na
psicose, ainda que consideremos inexistir conflito intrapsíquico, podemos reconhecer no
delírio dito estruturado, elementos representativos da negação da castração.
Se retomarmos o clássico caso freudiano do “Homem dos ratos” (1909) e o
pavor do paciente diante dos roedores, temos o exemplo de uma sintomatologia na qual
se pode perceber a relação entre o conflito psíquico (e o afeto que o impõe ao
72
psiquismo) e a representação. Se tomarmos as paralisias e afasias observadas por Freud
e Bleuler em “Estudos sobre a histeria” (1895), novamente nos é possível, sobretudo
sob
persuasão
do
texto
de
Freud,
reconhecer
as
estreitas
relações
simbólicas/representacionais entre a expressão do sintoma e o afeto determinante da
formação psíquica. Até mesmo no delírio de Schreber (1911), podemos reconhecer
relação simbólica entre sua expressão sintomática e elementos próprios de sua relação
com a castração.
Nos exemplos oferecidos, os pacientes apresentavam sintomatologia observável
ao longo do tempo, sobre a qual o paciente e sua família, possivelmente, poderiam
apresentar uma história e um histórico. É possível ao neurótico obsessivo descrever a
natureza e o aspecto de seus estranhos e obsessivos pensamentos, assim como a este é
possível dizer sobre a dor e aprisionamento impostos pelas compulsões que
acompanham tais pensamentos.
De modo análogo, é possível ao fóbico descrever o objeto que lhe traz horror,
ainda que a simples evocação de uma figura possa paralisá-lo. Situações próximas
poderíamos reconhecer na histeria, na melancolia, entre outras, ainda que nossa
preocupação não esteja voltada à classificação diagnóstica.
No caso de Joaquim, no entanto, a questão da representabilidade do afeto
(daquilo que o afetou) ou de eventual conflito intrapsíquico nos parece restar
prejudicada. Não nos foi possível, ao longo dos atendimentos com ele realizados,
reconhecer um conjunto simbólico que pudesse conter ou comunicar qualquer aspecto
de experiência constituída em relação a seu próprio psiquismo e a sua história.
Sua fala era absolutamente convencional a respeito de fatos nada convencionais.
Relatava os abusos sofridos como se relatasse o mais trivial dos acontecimentos. Em
73
alguns momentos podia-se considerar haver, naquele “descompromisso assintomático”,
algo da ordem do gozo, mas a desconexão afetiva era, de fato, predominante.
Em sua história, marcada por violência, abusos e violações, seu protagonismo se
mostrava naqueles atos que o colocavam no olho do furacão. A respeito do ato, sim,
existe história. A observação no contexto clínico sugere que sua história pessoal seja
fundada a partir e em relação a estes atos. Não há história do sujeito, mas há história no
ato. É nesses atos que estamos interessados e sobre eles trataremos neste texto.
Para tanto, retomaremos três situações distintas, três cenas por ele relatadas que
conduziram nossa pesquisa até este ponto.
Aos seis anos de idade, época em que as brigas entre os pais eram mais
frequentes, Joaquim sofre um violento atropelamento. Atravessou a rua “sem olhar” e
foi atingido por uma motocicleta. Relembrando a história-no-ato Joaquim revela ter
saído de casa em meio a uma violenta briga, em que seu pai ameaçava matar sua mãe.
Logo a vizinhança se agregava sobre o franzino corpo ensanguentado no chão. Lembrase da chegada da mãe até junto a si e nada mais.
A respeito da cirurgia e do longo período de recuperação, nada tem a dizer,
senão que foram tempos mais tranquilos, em que sua mãe passou a dedicar-se
exclusivamente aos cuidados com ele e seu pai voltou a trabalhar, mesmo correndo o
risco de ser descoberto pela polícia (era fugitivo, acusado de pistolagem no Nordeste).
A segunda cena refere-se ao fato que o colocou sob o poder da polícia e que o
submeteu a uma série de abusos, tortura física e psicológica.
Joaquim, a pedido de sua mãe, foi até o hospital em que realizou reabilitação
visual para buscar os óculos que, finalmente, lhe teriam sido cedidos. Antes mesmo de
fazê-lo envolveu-se em uma “trombada” com uma jovem mulher no centro de uma
praça. A cena foi observada por uma policial feminina. Tanto a jovem abalroada quanto
74
a policial e outros transeuntes interpretaram o acontecido como um ataque de Joaquim à
moça. Aos gritos, ambas protestavam que ele teria passado a mão nas partes íntimas da
jovem.
Joaquim não reconheceu o encontro como algo além de uma trombada ocorrida
por distração. Ainda assim, foi preso em flagrante e levado para uma peregrinação por
delegacias policiais, locais onde sofreu ameaças, sérias agressões e ouviu comentários
vexatórios. Esses últimos pareciam ter deixado marcas tão profundas quanto os
ferimentos, sobretudo o comentário de uma delegada de polícia que sugeriu que ele teria
passado a mão na moça por ser incapaz de arrumar uma namorada, questionando-o e
expondo o fato de ele nunca ter se relacionado sexualmente com uma mulher, como
justificativa para seu ato.
O momento em que a alegada agressão sexual contra a jovem moça teria
ocorrido não existe em seu relato do momento, apenas a trombada. A história desse ato
decorrente é viva em sua memória.
A terceira cena, lembramos, não nos foi relatada por Joaquim, mas por sua mãe.
Os atendimentos a Joaquim foram realizados em contexto institucional e tinham regras
um tanto rígidas a serem seguidas pelos pacientes e pelos clínicos. Uma dessas regras
determinava que o paciente deveria ser “cortado” do atendimento caso faltasse sem
justificativa, por três vezes seguidas às sessões. Configurada essa situação, Joaquim foi
informado de que seria “cortado” pela secretaria da instituição.
Duas semanas após a interrupção do tratamento a mãe de Joaquim, com ar muito
preocupado, entrou em contato com o clínico. Informou que, ao chegar em casa,
encontrou Joaquim enrolado em uma toalha de banho, com o rosto, pescoço e colo
cobertos de sangue. Fizera múltiplas incisões no couro cabeludo, utilizando uma
75
máquina de cortar cabelos. Segundo a mãe, parecia alheio aos ferimentos e ao sangue
que vertia, rindo vigorosamente do “acidente” com o cortador de cabelos.
Segundo a hipótese que vimos sustentando nesta pesquisa, algo existe do afeto
que se situa para além das capacidades imunológicas do psiquismo. Postulamos que
diante da abrupta revelação de um afeto de natureza tão óbvia quanto aquele que
pensamos poder ter atingido Joaquim, não existiria a possibilidade de trabalho psíquico
capaz de inscrever tal fato no registro do simbólico. Quando falamos em obviedade do
afeto, tentamos expressar aquilo que imaginamos ser o excesso do excesso, já inerente a
pathos. Tentativa de quantificar o que imaginamos estar além das possibilidades de
“metabolização psíquica” (ENDO, 2005).
Muito embora não tenhamos por escopo propor um sistema classificatório das
diferentes formas de expressão sintomática, na intenção de contrapor os sintomas às
atuações - ao acting out e à passagem ao ato - consideraremos como sintomas aquelas
produções do inconsciente de maior elaboração simbólica, como os sintomas
obsessivos, conversivos, os delírios etc. A estes, contraporemos as manifestações em
que se pode reconhecer caráter sintomático, mas sem tamanha complexidade simbólica,
como as atuações isoladas e passagens ao ato.
Propomos, portanto, que a medida da qualidade simbólica da expressão
sintomática em relação ao encadeamento pathos – sintoma (podendo, ou não, constituir
conflito intrapsíquico) ofereça relevante parâmetro de observação clínica, tanto para a
compreensão do caso quanto para o manejo da transferência. Neste sentido, faremos
breve distinção conceitual, posicionando de um lado o sintoma e, de outro, as chamadas
“atuações”, discriminadas em acting out e passagem ao ato.
76
5.1. O sintoma: símbolo do afeto, metáfora do conflito
Em nosso trabalho, a partir do enigma colocado pelo caso clínico, vimo-nos
compelidos a pesquisar sobre a etiologia do sintoma, seu sentido e, sobretudo, sua
função no psiquismo. Lembramos que caminhamos pelos meandros da teoria do
sintoma tomando como norte a concepção de psiquismo sugerida por Berlinck (2000),
em que o psiquismo configura uma organização imunológica psíquica diante da
catástrofe imposta pela incidência de pathos.
O sintoma, por este viés, representaria uma das formas por meio das quais o
aparelho psíquico se organiza e se constitui (ou se desorganiza e se fragmenta) para
lidar com as imposições do estrangeiro. Sabemos, no entanto, que a incidência de
pathos impõe necessidade de organização e constituição psíquica e que, a partir de
então, o psiquismo funciona carregando dentro de suas fronteiras os subprodutos,
metabólitos dos múltiplos sentidos que pathos toma como representação psíquica, já
enquanto parte do mundo interno.
Veremos, em Freud, que o sintoma é concebido a partir de uma ideia de sistema
aberto, constantemente permeável ao mundo externo, mas determinado pela interação
das forças e instâncias do aparelho psíquico. O psiquismo, neste sentido, guardaria
relação de causa com a sintomatologia.
Com a Psicopatologia Fundamental e a ideia que veicula de psiquismo como
consequência da incidência de pathos sobre o humano, adiciona-se um degrau à base do
encadeamento que nos permite pensar a etiologia do sintoma.
Muito embora reconhecesse a constituição do psiquismo como produto da
interação do sujeito e sua história com o mundo estrangeiro, Freud, como veremos,
dedicou-se a pensar a etiologia do sintoma a partir do aparelho psíquico, levando em
77
conta, por óbvio, a evolução conceitual que concebeu a respeito do mesmo e seus
desdobramentos na primeira e segunda tópicas.
A partir das proposições do campo da Psicopatologia Fundamental, é possível
pensar a etiologia dos sintomas desde antes, entendendo o psiquismo não apenas como
causa de uma expressão sintomática/modo de funcionamento, mas também como
consequência, em um sistema de retroalimentação entre realidade externa compartilhada
e mundo interno. Afinal, quando pensamos a etiologia do sintoma desde a perspectiva
da incidência de pathos sobre o psiquismo, como fator constituinte deste, recuamos um
importante estágio na cadeia lógica de determinações do fenômeno psíquico. Tal feito
representa um grande avanço na busca por compreender a formação dinâmica e o
contexto semântico em que o sintoma se instala.
Freud fez fundamentais considerações sobre o trauma e a fantasia como fatores
sintomatogênicos. No entanto, dedicou-se a pensar sua existência já enquanto fatores
psíquicos, fontes de moções pulsionais a vetorizar o campo do conflito psíquico,
lançando forças carregadas de sentido e constantemente sujeitas ao recalque
transformador e deslocador de tais sentidos.
Freud sugere, já em “Estudos sobre a histeria”, ser possível identificar clara
relação entre os sintomas apresentados pelas histéricas que estudavam e algum evento
traumático, uma vez que a posição clínica que ocupavam proporcionava a observação
de que “os mais variados sintomas, que são ostensivamente espontâneos e, como se
poderia dizer, produtos idiopáticos da histeria, estão tão estritamente relacionados com
o trauma desencadeador (...)” (FREUD, 1893-95, p. 18).
Em “Psicopatologia da vida cotidiana”, texto de 1901, Freud trata das
manifestações sintomáticas observáveis em lapsos e atos aparentemente dados ao acaso,
78
mas que, por meio da observação clínica, poderia se verificar guardarem relação a
eventos traumáticos.
Descreve, com riqueza de detalhes e sensibilidade próprias de sua clínica, o caso
de uma de suas pacientes. Uma jovem senhora que se envolvera em um acidente de
carruagem, fraturando gravemente o fêmur. Freud relaciona o fato a uma demonstração
familiar, pouco antes do acidente, das habilidades da paciente ao dançar o cancã. Em
razão de sua apresentação, possivelmente vigorosa, teria sido acusada pelo marido de
portar-se como uma meretriz (FREUD, 1901, p. 117).
Para Freud o contexto como se deu o acidente demonstra a “intenção
inconsciente” da paciente em impor a si mesma “um castigo tão adequado ao crime: por
muito tempo ela ficou impossibilitada de dançar o cancã” (FREUD, 1901, p. 117).
Segundo o relato de Freud, embora sua paciente tenha se ferido gravemente, todos os
demais ocupantes da carruagem saíram ilesos. Ela teria se atirado do veículo ao
perceber o nervosismo de um dos animais, fato que Freud conecta diretamente à reação
do marido diante de sua exibição de dança.
Neste caso, não haveria a formação de um sintoma propriamente dito, mas a
irrupção de um ato sintomático, desprovido de valor simbólico metafórico, aparecendo
como forma de punição imediata e excessivamente violenta do ponto-de-vista
econômico. Este tipo de manifestação sintomática nos é de grande interesse para a
condução da presente pesquisa.
O texto freudiano de 1909, “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”,
conhecido também como o caso do “Homem dos ratos”, trata do sintoma manifestado
na neurose obsessiva. Freud surpreende-se ao observar a diferença fundamental do
sintoma obsessivo, como símbolo, em relação ao sintoma histérico. Freud identificava,
no sintoma histérico, uma coincidência entre as tendências de satisfação e de
79
substituição que não podia observar na neurose obsessiva. O sofrimento na atribuição de
sentido ao próprio sintoma e a angústia presentes nos sintomas obsessivos levaram-no a
conjeturar sobre as diferenças de qualidade simbólica própria dos sintomas nas duas
diferentes patologias:
Atos compulsivos dessa natureza têm, sob o ponto de vista
teórico, um interesse peculiar, de vez que nos mostram uma nova
modalidade de método de construção de sintomas. Na histeria o que
ocorre normalmente é chegar-se a uma conciliação, que capacita
ambas as tendências opostas a se expressarem simultaneamente - o
que é como matar dois coelhos de uma só cajadada; ao passo que
aqui cada uma das duas tendências opostas é satisfeita,
isoladamente, primeiro uma e depois a outra, embora naturalmente
se faça uma tentativa de estabelecer determinado tipo de conexão
lógica (muitas vezes desafiando toda lógica) entre os antagonistas.
(FREUD, 1909, p. 112)
Em comparação com o sintoma histérico, o sintoma obsessivo aparentava
constituir maior fonte de sofrimento. Seu caráter substitutivo-metafórico poderia ser
considerado, sob este viés, algo menos eficaz que as fabulosas cenas engendradas pela
histeria.
Talvez esteja nas “Conferências introdutórias sobre psicanálise”, desenvolvidas
e apresentadas por Freud ao longo dos anos de 1916 e 1917 a maior e mais completa
sistematização freudiana das concepções de sintoma como elementos-símbolo do
conflito imposto pela dinâmica intrapsíquica. Atribui crescente importância do sintoma
como fundamento de análise pelo médico e ressalta a necessidade de reconhecimento de
seus aspectos essenciais para além da simples observação fenomenológica, afirmando
que a “ação sintomática parece ser uma questão irrelevante; mas o sintoma se impõe à
nossa atenção como questão importante. (...) O psiquiatra começará por procurar
caracterizar o sintoma por meio de algum aspecto essencial” (FREUD, 1917, p. 257).
80
A Conferência XVII – “O sentido dos sintomas” – apresenta afirmação assertiva
de Freud quanto ao caráter simbólico, representativo, do sintoma em relação ao conflito
entre as instâncias da psique, reiterando sua crítica quanto à maneira como a psiquiatria
vinha (e até hoje vem?) tratando os sintomas:
Na última conferência, expliquei-lhes que a psiquiatria
clínica atenta pouco para a forma externa do conteúdo dos sintomas
individualmente considerados, que a psicanálise, entretanto,
valoriza precisamente este ponto e estabeleceu, em primeiro lugar,
que os sintomas têm um sentido e se relacionam com as
experiências do paciente.
(...) os sintomas neuróticos, como as parapraxias e os
sonhos, possuem um sentido e têm íntima conexão com as
experiências do paciente. (FREUD, 1917, p. 265-266)
Freud assegura, um pouco adiante no texto, o caráter subjetivo presente na
simbologia do sintoma, afirmando que “o sentido de um sintoma, conforme
verificamos, possui determinada conexão com a experiência do paciente. Quanto mais
individual for a forma dos sintomas, mais motivos teremos para esperar que seremos
capazes de estabelecer esta conexão” (FREUD, 1917, p. 277).
Situar o sintoma no arcabouço do inconsciente sustenta a dupla vinculação
presente no sintoma entre um sistema de prazer/desprazer e a ideia de satisfação
substitutiva, levando Freud a afirmar, a respeito do processo mental censurável situado
na base da formação do sintoma: “por constituir algo inconsciente, teve o poder de
construir um sintoma.” (FREUD, 1917, p. 292). Afirma, ainda, que caso o processo
inconsciente que sustenta a formação do sintoma se torne consciente, o caráter de
símbolo se esvai e o sintoma desaparece. A existência do sintoma-símbolo só se
justifica como símbolo de algo que não aconteceu do ponto de vista da consciência:
81
Não apenas o sentido dos sintomas é, com regularidade,
inconsciente, mas também existe uma relação inseparável entre este
fato de os sintomas serem inconscientes e a possibilidade de eles
existirem. Logo os senhores me compreenderão. Estou de acordo
com Breuer ao afirmar que sempre ao encontrarmos um sintoma,
poderemos concluir existirem determinados processos mentais
definidos, no paciente, os quais contêm o sentido do sintoma. Mas,
também é necessário que este sentido seja inconsciente, para que o
sintoma possa surgir. Jamais se constroem sintomas a partir de
processos conscientes; tão logo os processos inconscientes
pertinentes se tenham tornado conscientes, o sintoma deve
desaparecer. (FREUD, 1917, p. 287)
O sintoma seria provido de um “de onde” e de um “para que”, de modo que:
(...) o “de onde” de um sintoma se reduz a impressões que
vieram do exterior, que uma vez foram necessariamente
conscientes e podem, a partir daí, ter-se tornado inconscientes
através do esquecimento. O “para quê” de um sintoma, seu
propósito,
no
entanto,
é
invariavelmente
um
processo
endopsíquico, que possivelmente teria sido consciente, no início,
mas pode igualmente não ter sido jamais consciente e ter
permanecido no inconsciente desde o início. (FREUD, 1917, p.
P.291)
Os fatores externos e internos se combinariam para compor o sintoma-metáfora,
de modo que os fatores internos constituiriam o motor do conflito que conclama a
presença do substituto do recalcado, ao passo que os fatores externos comporiam a
matéria-prima de que se faz a própria expressão sintomática. Daí se poderia considerar
sobre fatores de determinação cultural do conteúdo do sintoma
Segundo Henckel (2002), uma importante distinção entre os conceitos,
apresentada por Freud, diria respeito às diferenças qualitativas no processo de
82
elaboração psíquica determinante de cada um. Afirma que “nota-se um determinado
trabalho psíquico no sintoma – de deslocamento, formação de compromisso – o qual,
na inibição, está impedido ou congelado, quando justamente sua ação leva a uma
renúncia desse trabalho” (p. 111), de forma análoga, como veremos, nos parece ocorrer
nas atuações.
Para a autora, o sintoma enquanto símbolo seria um resultado dessa elaboração
psíquica, resultado de um processo no sentido da “ligação, trabalho de Eros,
significação psíquica”. O sintoma seria o resultado de um complexo trabalho de
elaboração psíquica, enquanto a inibição teria menor valor de símbolo, operando-se por
meio de uma retirada do Eu da cena do conflito psíquico, conforme sugere Henckel,
(2002, p. 113).
Na conferência XXXI – “A dissecção da personalidade psíquica”, Freud oferece,
provavelmente, uma de suas últimas formulações sobre a Teoria do Sintoma em sua
obra, quando trata de suas incipientes teorizações a respeito da psicologia do ego:
Os sintomas são derivados do reprimido, são, por assim dizer,
seus representantes perante o ego; mas o reprimido é território
estrangeiro para o ego - território estrangeiro interno - assim como
a realidade (que me perdoem a expressão inusitada) é território
estrangeiro externo. A trajetória conduziu dos sintomas ao
inconsciente, à vida dos instintos, à sexualidade; e foi então que a
psicanálise deparou com a brilhante objeção de que os seres
humanos não são simplesmente criaturas sexuais, mas têm,
também, impulsos mais nobres e mais elevados. Poder-se-ia
acrescentar que, exaltados por sua consciência desses impulsos
mais elevados, eles muitas vezes assumem o direito de pensar de
modo absurdo e desprezar os fatos. (FREUD, 1932, p. 63)
De modo geral, pode-se afirmar que a construção do conceito de sintoma na obra
de Freud encontrou sua formulação de símbolo ainda cedo. Essa formulação, como
83
vimos, manteve-se até o final, embora tenha sido incluída em seu campo a transferência,
alterações ao conceito de aparelho psíquico e desenvolvimentos metapsicológicos a
respeito de sua formação em diferentes classes psicopatológicas.
A última formulação analisada, em que Freud coloca o sintoma como
representação metafórica do “território estrangeiro interno” em relação ao “território
estrangeiro externo” é o ponto do qual partiremos tentando de estabelecer a ligação da
tradição de pensamento freudiana à Psicopatologia Fundamental, introduzindo os
desenvolvimentos oferecidos por esse campo de investigação acerca de pathos. Se,
como afirmou Berlinck (2000), a psicanálise pode servir de “casa” para a Psicopatologia
Fundamental, esta primeira fase de investigação se justifica pela possibilidade de
inserção deste campo na tradição de pensamento (casa) de Freud. O próximo passo será
estabelecer relação entre a concepção freudiana de sintoma como símbolo e a ideia de
“sistema imunológico psíquico” sugerida por Berlinck (2000), no contexto da situação
problemática colocada nesta pesquisa a partir da observação clínica daquilo que vimos
entendendo como impossível do sintoma.
Quinet (2009) oferece bela definição do sintoma, situando-o como objeto de
gozo do neurótico:
Sintoma é a implicação inconsciente do sujeito e, portanto, é
signo da operação de recalque pela qual o sujeito se constitui em sua
unicidade. O sintoma é mensagem cifrada de gozo. Portanto, além de
metáfora do conflito psíquico do sujeito, e por isso mesmo, o sintoma
é modalidade singular pela qual o neurótico goza. (p.203)
Entender o sintoma como meio de gozo do neurótico constitui, como veremos,
um ponto de partida na discriminação entre os atos repetitivos e aquilo que vimos
chamando sintoma.
84
5.2. Acting-out e passagem ao ato: a cena e a queda
Em oposição à clara qualidade de símbolo encontrada no sintoma, amplamente
pesquisada por Freud, encontramos na observação clínica formas de expressão
sintomática, muitas vezes repetidas ao longo da história de um sujeito, a respeito das
quais não se pode reconhecer tamanha qualidade simbólica. Sua expressão é
frequentemente alcançada por meio de atos, estes sim, providos de sentido se
considerados no contexto de uma cena.
Dentre as muitas formas deste tipo de expressão sintomática que podemos
reconhecer a partir de nossa vivência clínica, como atos-falhos, lapsos, inibições,
trataremos nesta pesquisa apenas do acting-out e da passagem ao ato, os quais
pensamos constituir formas de expressão afeitas ao caso clínico que vimos estudando.
A respeito do acting out, encontramos valiosas definições na literatura
psicanalítica. Segundo Laplanche e Pontalis (2001), genericamente, o termo acting out
vem sendo utilizado em psicanálise para ações que apresentam caráter impulsivo,
isolável em relação à conduta usual, que toma, muitas vezes uma forma auto ou heteroagressiva.
Passagem ao ato (passage à l’acte), expressão mais utilizada em francês como
equivalente ao acting out, sugere a ideia de que o sujeito faz uma passagem - da
representação, de uma tendência, ao ato nu e cru. O termo atuação, situado em verbete
diverso de acting out, é definido como um ato em que o sujeito “atua” uma pulsão,
fantasia ou desejo, vivendo-os no presente com sentimento de atualidade e
desconhecendo sua natureza repetitiva.
85
Roudinesco e Plon (1998), por sua vez, em seu Dicionário de psicanálise,
oferecem definição de acting out que congrega, em um mesmo verbete, as “atuações”
de modo geral:
Noção criada pelos psicanalistas de língua inglesa e depois
retomada tal e qual em francês, para traduzir o que Sigmund Freud
denomina de colocação em prática ou em ato, segundo o verbo alemão
agieren. O termo remete à técnica psicanalítica e designa a maneira
como um sujeito passa inconscientemente ao ato, fora ou dentro do
tratamento psicanalítico, ao mesmo tempo para evitar a verbalização da
lembrança recalcada e para se furtar à transferência. No Brasil, também
se usa “atuação”. (p. 06)
Como se pode observar na definição, acting out e passagem ao ato são
agrupados segundo a concepção freudiana de “colocação em prática”. No entanto, ao
longo da discussão sobre o termo, os autores introduzem os avanços propostos por
Lacan sobre as peculiaridades desses atos, sobretudo no que tange às distinções
psicodinâmicas e na relação com o objeto, observadas por ele.
Em seu seminário sobre a angústia, Lacan (1962-63) abordou a questão dos atos
sintomáticos de forma bastante esclarecedora. A distinção que propõe baseia-se na
posição do sujeito em relação à cena em torno do conflito. A passagem ao ato seria,
segundo sugere Lacan, a queda do sujeito para fora da cena, interrompendo seu curso. O
acting out, segundo propõe, seria a criação e sustentação da própria cena, em um nível
de demonstração bastante intencional (mesmo sendo inconsciente).
Lacan (1962-63) afirma que “o momento da passagem ao ato é o do embaraço
maior do sujeito, com o acréscimo comportamental da emoção como distúrbio do
movimento” (p. 129). Seria justamente a emoção, o afeto, a impulsionar o sujeito para
fora da cena que vinha sustentando.
86
A ideia do afeto como distúrbio do movimento faz sentido quando a
reconhecemos inserida em um sistema em que não se pode ter recurso ao uso do
símbolo. Ali onde não haveria palavra e não haveria sequer a possibilidade de
sustentação da cena, adviria o movimento que livra o sujeito do embaraço em que se
encontra, a passagem ao ato.
Segundo Maria Cristina Bechelany Dutra, a passagem ao ato representaria “uma
tentativa de cura realizada pelo sujeito que, diante de um encontro dessa ordem e não
estando em condições de mobilizar um significante para temperar a perplexidade
angustiante que o assalta, lança mão do ato como uma saída possível” (DUTRA, 2000,
p. 55).
Segundo sugere a autora, da impossibilidade de simbolização diante do afeto, o
ato representaria o avesso do pensamento e da dúvida, fundando para o sujeito uma
certeza; a certeza de sair da cena em que pode ser vista pelo Outro, afirmando que “a
passagem ao ato é o movimento que consiste em separar a vida de sua tradução, de sua
transposição no Outro. Ela representa este momento em que nenhum interlocutor e
nenhuma mediação é possível (DUTRA, 2000, p. 52).
Iniciando a distinção entre passagem ao ato e acting out, Lacan (1962-63) sugere
que “tudo que é acting out é o oposto da passagem ao ato” (p. 136). Tal oposição seria
principalmente situada em relação ao endereçamento do ato. O acting out seria, assim,
algo que se mostra na conduta do sujeito, dotado de ênfase demonstrativa e orientado
para o Outro (LACAN, 1962-63).
Ainda segundo ele, a escandalosa publicidade do acting out demonstra seu
direcionamento em direção ao Outro, clamando por um espectador capaz de interpretálo. Postula que, assim como o sintoma, o acting out demonstra um desejo desconhecido
pelo sujeito, afirmando até mesmo que “o acting out é um sintoma. O sintoma também
87
se mostra como outro. Prova disso é que deve ser interpretado” (LACAN, 1962-63, p.
137).
Em resumo, Lacan (1962-63) aproxima o acting out do sintoma por considerá-lo
passível de interpretação. No entanto, traça clara distinção entre ambos ao ponderar que
“o que a análise descobre no sintoma é que ele não é um apelo ao Outro (....) o sintoma,
por natureza, é gozo” (p. 140). Assim sendo, o sintoma, posto que gozo encoberto, não
requer o reconhecimento do Outro para cumprir sua função, não é “mostração”, se basta
em si.
Por outro lado, nesta distinção, Lacan distancia a passagem ao ato do sintoma,
considerando-a desprovida de destinatário e de interpretação. Por esse critério da
interpretabilidade, podemos sugerir que o acting out guarda, ainda que de forma
precária, valor simbólico, uma vez que é dirigido ao Outro para que seja interpretado.
Na passagem ao ato, a intenção seria a do desmonte da cena, saída do sujeito do
campo de visão do Outro, recurso ao real que paralisa a interpretação do espectador, que
passa a lançar o olhar sobre o corpo, inanimado, do sujeito. Segundo Dutra (2000),
contrariamente ao acting out que viria sob a forma de um dizer, a passagem ao ato seria
um “eu não quero dizer” capaz de separar o sujeito do Outro, veiculando a mensagem
de “um ‘não’ profundo do sujeito, dirigido ao Outro” (p. 52).
Lacan ilustra as distinções que traçou valendo-se, para tanto, dos casos
apresentados por Freud em “Psicogênese de um caso de homossexualidade numa
mulher” (1920) e em “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905),
especificamente em relação à nota acrescentada por ele em 1923, na qual introduz a
identificação homossexual de Dora em relação a sua mãe, observada na relação de Dora
com a Sra. K. Afirma Lacan (1962-63), quanto à situação que:
88
No caso de homossexualidade feminina, se a tentativa de
suicídio é uma tentativa de passagem ao ato, toda a aventura com a
dama de reputação duvidosa, que é elevada à função de objeto
supremo, é um acting-out. Se a bofetada de Dora é uma passagem ao
ato, todo seu comportamento paradoxal na casa dos K., que Freud
prontamente descobre com tanta perspicácia, é um acting out. (p. 137)
A respeito dessa afirmação, podemos considerar que, nos casos que nos servem
de exemplo, a passagem ao ato encerra a cena que vinha sendo atuada, dirigida ao
Outro. Isto reitera a ideia da passagem ao ato como ato que não é dirigido a alguém para
que seja decifrado, mas uma retirada do sujeito da cena, ou, conforme sugere Pinho
(2000),“do mundo do reconhecimento, onde pode se manter somente como sujeito a
partir do tecido simbólico de sua história. (...), é um ato não simbolizável, que leva o
sujeito a uma situação de ruptura integral” (p. 78).
Em “Que atos são esses?: Luto e acting out”, novamente Ana Maria Rudge
(2008) nos oferece um desenvolvimento muito clareador na distinção dos termos
passagem ao ato, e acting out, que reproduzimos integralmente:
Com a inclusão da passagem ao ato no campo da psicanálise,
Lacan refinou o instrumental psicanalítico no sentido sugerido por
Anna Freud, mas levou ainda mais longe sua proposta, na medida em
que busca estabelecer uma discriminação metapsicológica, e não
apenas descritiva, entre atos impulsivos que chamou de passagens ao
ato, e o acting out (...)
Ele tem certo parentesco com o que, em Psicopatologia da vida
cotidiana, Freud (1901) batizara de ato sintomático, considerando-o na
época como um gênero de ato falho. O acting out é – tal como seu
antecessor, o ato sintomático – eu-sintônico; ou seja, não há o
sentimento por parte do analisando de que seu eu tenha sido atropelado
pelo isso, como na impulsividade. (...)
Ao desempenho, à encenação como mensagem que é sempre
dirigida ao Outro no acting out, Lacan opõe a passagem ao ato, como
89
queda da cena, o reverso da encenação e atualização na transferência. O
móvel das passagens ao ato é dar as costas ao Outro, fugindo da
angústia e da divisão do sujeito, o que só se pode efetivamente alcançar
no suicídio. (p. s/n)
Outro ponto importante da discussão em torno de acting out e passagem ao ato
em relação à angústia, segundo propôs Lacan, diz respeito ao posicionamento do sujeito
em relação ao objeto “a” (pequeno a). Para o presente texto, limitaremos sua definição
a: objeto causa do desejo, desejado pelo sujeito e que se furta a ele a ponto de não ser
representável, ou de se tornar um resto não simbolizável (ROUDINESCO e PLON,
1998, p. 551).
A posição em relação ao objeto “a”, objeto inassimilável pelo significante, é
sempre de proximidade, seja na passagem ao ato, seja no acting out. Na passagem ao
ato, a proximidade com o “resto” da operação que resulta no sujeito da castração, impõe
a angústia que precipita o sujeito ao “largar de mão”, “laisser tomber” (LACAN, 196263, p. 129), seus correlatos necessários. O mesmo poderia ocorrer ao sujeito da negação
da castração, também angustiado pela proximidade com “a”, ainda que desde outro
ângulo.
A respeito do acting out, Lacan sugere que sua proximidade com o objeto “a” se
revela no fato de que o acting out, em sua exuberância performática, sempre se mostra
como “algo diferente do que é”. A cena veiculada no acting out se dirige ao Outro como
pedido de interpretação de um enigma. Para Lacan, o cerne desse enigma estará sempre
atrelado à emergência do objeto “a”.
Tanto no primeiro caso quanto no segundo, o ato se impõe, segundo Lacan
(1962-63), pelo caráter irrepresentável do objeto. O resultado em ato da angústia
imposta pela aproximação do sujeito ao resto que lhe falta como sujeito castrado ou
90
como sujeito que negou a castração, impõe questionarmos sobre a possibilidade da
existência de passagem ao ato e acting out nas diferentes estruturas clínicas.
As concepções de passagem ao ato e acting out desenvolvidas por Lacan
desvinculam-se do condicionamento à estrutura clínica, uma vez que se relacionam,
concomitantemente, às dimensões do significante (ou do Outro) e do objeto. Ainda que
o faça de forma diferente, o sujeito, em algum nível, estará às voltas com o Outro e
ameaçado pela aproximação com o objeto “a”, seja na neurose, na psicose ou na
perversão (DUTRA, 2000).
Especificamente em relação à psicose, a passagem ao ato ocorreria quando o
sujeito não consegue operar eficazmente uma mobilização delirante do significante.
Com a falência do recurso simbólico, não restaria ao psicótico outra possibilidade que
não fosse lançar mão desse outro meio: o sacrifício de um objeto real (DUTRA, 2000,
p. 54).
Entre os anos 1975 e 1976, em seu seminário intitulado “O sinthoma” Lacan
alcançou importante avanço na cenceituação do sintoma em sua função de símbolo. Em
sua complexa e algo obsessiva explanação acerca das propriedades do nó borromeano,
ele nos oferece a esclarecedora imagem do sintoma como liame a costurar,
compromissar, os registros do real, imaginário e simbólico. Na estrutura do nó, o
sintoma seria a peça responsável por impedir a desarticulação entre os demais
elementos. Segundo Lacan (1962-63), “estabelecer o laço enigmático do imaginário, do
simbólico e do real implica ou supõe a ex-sistência do sintoma” (p. 21).
Sob este prisma, poderíamos sugerir que nos atos sintomáticos esta função de
articulação não se completa. Em oposição ao sintoma, o ato seria incapaz de sustentar o
atrelamento do simbólico aos registros do real e do imaginário, ainda que guarde a
possibilidade de síntese da cena, como sugere Roussillon (2006), ao afirmar que a
91
“passagem ao ato seria então nela mesma algo que contém um movimento, no interior
do qual já teria se operado uma função de síntese elementar, mas que não possuiria
representação metafórica ou simbólica desse vínculo, dessa ligação” (p. 202).
Outro aspecto relevante diz respeito ao endereçamento do ato, a que ou a quem
se destina. Estes atos sintomáticos dos quais vimos tratando, podem destinar-se ao
desmonte ou à composição de uma cena.
Neste sentido, pensamos que o sintoma também ocupa determinada posição em
relação à cena; mais uma vez haveria, quanto a isto, uma distinção qualitativa a apontar.
Enquanto nas atuações existiria o trânsito entre o dentro e o fora da cena, entre o
desmonte e a montagem, o sintoma neurótico seria capaz de prover a composição
simbólica do microcosmo da cena do conflito, moldado sob forças muito potentes, de
modo a ser a forma irreconhecível da cena do todo do conflito. Tal composição
enigmática requer um vasto trabalho do aparelho psíquico.
O sintoma esconde a cena do conflito. Quando o sintoma opera, ele permite que
o conflito opere em outro registro, o registro do simbólico. Nesse registro até pode
aparecer o desejo, mas o motor do sintoma é o gozo, traduzido na (im)possibilidade de
acesso ao resto do conflito.
De forma análoga, na psicose, o trabalho psíquico requerido para a composição
do sintoma delirante seria tão elaborado quanto aquele que apontamos em relação à
neurose. O delírio, capaz de transformar a realidade compartilhada, moldando-a à
negação da castração pode ser reconhecido como rico trabalho imunológico oferecido
pelo psiquismo, evitando a total fragmentação do sujeito.
Sabemos, sobretudo quando nos submetemos à análise pessoal, o peso que têm
determinações impostas pelos fatos comuns de nossa história, pequenos traumas aos
quais atribuímos sentidos os mais diversos. Construção de cicatrizes simbólicas para
92
sequelas lançadas ao des-conhecido do recalque. Imaginemos, então, a extensão e a
complexidade das cicatrizes que o psiquismo de Joaquim teria de oferecer para tornar
simbolicamente sensível sua experiência diante da violência desde tenra idade.
O reconhecimento disto nos permite inferir que a obviedade daquilo que o afetou
desde muito cedo desafia as possibilidades de formação de compromisso com a
realidade que a construção do sintoma oferece ao neurótico que opera o recalque. Como
simbolizar e representar no psiquismo algo que impõe ao corpo o horror e a dor de
forma tão imediata? A perda do contato com a realidade seria, sim, uma saída possível.
O isolamento em relação com o mundo ou mesmo a criação de um mundo fantástico
afastariam, de maneira refratária ou alucinatória, o peso de tais imposições. No entanto,
em nosso contato com Joaquim, não pudemos reconhecer tais soluções. Sua
humanidade e suas ligações ao mundo estavam a todo tempo presentes, seu pacto com
uma realidade compartilhada se renovava a cada dia. O que não nos foi possível
reconhecer diz respeito à sutura das feridas impostas pelo real. Estavam todas abertas e
eram renováveis, reeditáveis, prontas a expor ao outro a contundência dos instrumentos
que as perpetraram.
O enigma do caso apresentado - que se evidencia quando relembramos as
situações ilustradas pelas três vinhetas clínicas retomadas: o caso do atropelamento, a
cena com a moça e a cena com o cortador de cabelos – é que, ao contrário do que Lacan
(1962-63) sugeriu em relação ao casos de Freud (de Dora e da jovem homossexual), no
caso de Joaquim, a passagem ao ato antecede o acting out. Ele desmonta sua cena
original para, então, convocar o Outro a compor a cena que o protege da fragmentação
subjetiva total, ainda que, para tanto, seja necessário oferecer-se aos pedaços.
No atropelamento, a “passagem à rua” interrompe a cena de violência entre os
pais e cria uma nova cena que se sustenta por quase seis anos, cena em que sua mãe,
93
dedicada aos cuidados prestados a ele, encontra-se resguardada. Seu pai é retirado de
casa pela necessidade de trabalhar imposta pela situação.
A “passada de mão” o retira novamente da cena familiar e cria a cena que se
segue e que se sustenta por muito tempo, estando Joaquim no centro do drama, acolhido
e amparado no laço social, ainda que de forma artificial - determinado por sua inserção
institucional no “mundo dos Direitos Humanos”, em que passa a ser, talvez pela
primeira vez, sujeito de direitos.
Segundo Dunker (2006), “no acting out não é o real que invade a imagem, mas a
imagem que invade o real. Ele é, neste sentido, a realização pacificadora da fantasia” (p.
47). Também neste sentido, podemos entender os períodos de “trégua” como acting
outs, sustentados por Joaquim como imagens justapostas sobre o real. Estas cenas são
introduzidas pela ruptura, pela brecha aberta pela passagem ao ato.
A constatação desse enigma introduz outras duas questões a respeito das quais
ainda pretendemos tratar nesta pesquisa. A primeira delas diz respeito à introdução do
contexto edípico como fator de compreensão da repetição da cena de agressão no caso
clínico apresentado. A segunda, diz respeito ao aparente fato de que, no caso de
Joaquim, o recurso demonstrativo ao Outro (seu espectador) o retira do domínio do
“Outro gozador” (DUTRA, 2000), interrompendo sua sujeição a este que ocupa a cena
imaginária sem trégua, a não ser pela criação de outra cena, na qual Joaquim faz parte
do mundo do Outro. Segundo sugerem Jeammet e Corocos (2005):
O ato está ali para impedir e conjurar o surgimento de
fantasmas, perigosos demais para serem representados claramente e
investidos demais para dar lugar a deslocamentos puramente
representacionais. O conflito deve, portanto, ser em parte figurado
sobre a cena do mundo externo para poder ser controlado. (p. 98)
94
Por outro lado, existiria, segundo Dunker (2006), outro efeito da passagem ao
ato, de certa maneira oposto à ideia de conjurar um fantasma, mas que dela se aproxima
no que diz respeito à sua função: “Aqui poderíamos localizar os efeitos da passagem ao
ato. Ela exprime a realização positiva do objeto em um ato paradoxal, tal qual o
suicídio. Não se trata de purificar o excesso, mas de uma identificação com o elemento
perturbador” (p. 48).
Em relação ao caso apresentado, a ideia de identificação com o elemento
perturbador, com o algoz, nos parece muito pertinente, como veremos adiante.
A contribuição desses autores endossa nossa ideia de que o recurso ao acting
out, atrelado à passagem ao ato teria a função de criação de uma cena em que o Outro é
convocado a implicar-se na tentativa de controle dos elementos de sujeição e afetação.
Sua tentativa de passagem é para a cena do Outro, “onde o homem como sujeito tem de
se constituir, tem de assumir um lugar como portador da fala, mas só pode portá-la
numa estrutura que, por mais verídica que se afirme, é uma estrutura de ficção”
(LACAN, 1962-63, p. 130).
No entanto, na concepção de Lacan parece haver relação de causalidade entre
acting out e passagem ao ato. Nos casos clínicos por ele utilizados como exemplos, o
acting out antecede a passagem ao ato. A cena, anteriormente criada e sustentada é
encerrada pela passagem ao ato.
No caso analisado nesta pesquisa, não nos foi possível reconhecer tal
causalidade. Se os atos de Joaquim, por um lado, encerram a cena entre seus pais, por
outro, introduzem uma nova cena, sustentada por longo período. Estas cenas são
providas de história, introduzida a partir do ato.
95
6
ALGUMAS CONSIDERAÇÕES METAPSICOLÓGICAS:
A PASSAGEM AO ATO E A QUEBRA DA CENA - SALVAÇÃO E
SEPARAÇÃO
Finalmente (o caso clínico), não é o relato de um
tratamento bem-sucedido, como ocorre com frequência na
psicologia clínica. Um tratamento bem-sucedido não contém o
surpreendente enigmático que conduz à formulação de um
problema e à pesquisa psicopatológica, a não ser que se tome o
sucesso como surpreendente enigmático. Aliás, Freud esteve ciente
dos impedimentos do sucesso de uma análise, mostrando-se sempre
pronto a investigá-los. É inegável que sua produção deveu-se ao
fracasso de seus atendimentos.
(MAGTAZ e BERLINCK, 2012, p. 80)
6.1. A passagem ao ato e a quebra da cena
Como dito anteriormente, Joaquim não nos pereceu capaz de narrar sua
trajetória. Não pudemos reconhecer um liame de historicidade, mas histórias
introduzidas por passagens ao ato. Nossa hipótese não configura uma tentativa de
encadeamento lógico e causal entre seus atos e as cenas que sustentava, mas tem por
escopo a compreensão de sua organização psíquica.
Joaquim nos pareceu incapaz de escapar à cena sem o recurso ao real, incapaz de
construir uma rememoração a respeito da própria trajetória, capaz de dar significado ao
atual. A potência que o lança ao ato, consideramos ser da mesma natureza da potência
que cria o sintoma. No entanto, sua organização psíquica nos parece requerer a
encenação do ato.
Assim, não pensamos, neste caso, ser possível aplicar o “modelo” de Lacan. O
que nos foi possível observar, no entanto, é que seus atos foram prelúdios para cenas
96
providas de história. A partir da passagem ao ato passa a fazer parte do mundo do Outro
e aí sim é possível a Joaquim abrir uma brecha ao olhar do outro e, neste caso, do
clínico.
Os atos de Joaquim parecem quebras, marcos históricos de saída e entrada na
cena do mundo. Ao atravessar a rua sem olhar, interrompe a cena de agressão do pai à
mãe, justamente em uma época em que relata ter fantasiado a morte da mãe pelas mãos
do pai. Impossibilitado de intervir diretamente, causa uma quebra na cena, torna-se uma
vítima do acaso, requerendo cuidados e dedicação exclusiva.
Muito embora possamos presumir que haveria algum tipo de aprisionamento de
sua mãe em uma relação violenta, baseada em medo e dependência, é também possível
inferirmos que naquele modo de convivência poderia haver também gozo. Joaquim
mesmo afirmava, com alguma frequência, “é o jeito deles, parece que gostam de viver
assim.”
Assim sendo, não podemos deixar de lado a ideia de que seus atos encerravam,
não simplesmente a cena de violência, mas representavam igualmente uma intromissão
na cena vivida pelo casal parental, no sentido de separá-los. A cena interrompida é uma
tórrida e intensa cena entre o casal, ainda que o sentido mais aparente de tal interrupção
seja o de proteção à mãe. Cumpre-nos pensar tal interrupção de cena no contexto
edípico, para além do sentido socialmente compartilhado de proteção, aparente em
primeiro plano.
Retomemos a cena em que Édipo Rei passa ao ato, furando os próprios olhos
após o suicídio de Jocasta. A passagem ao ato de Édipo deve ser compreendida levandose em consideração não apenas a morte (também uma passagem ao ato) de Jocasta, mas
a constatação que fizeram anteriormente sobre o assassínio de Laio pelas mãos de Édipo
e sobre a relação incestuosa que viviam.
97
A Édipo foi revelada, pelo pastor que primeiro o acolheu, sua origem – filho de
Laio e de Jocasta. Ao tomar consciência de ter assassinado o próprio pai e desposado a
própria mãe, Édipo se desespera:
Édipo:
Transtornado
Ai de mim, ai de mim! As dúvidas desfazem-se!
Ah! Luz do sol. Queiram os deuses que esta seja
a derradeira vez que te contemplo. Hoje
tornou-se claro a todos que eu não poderia
nascer de quem nasci, nem viver com quem vivo
e, mais ainda, assassinei quem não devia! (SÓFOCLES, 2008, p. 82)
Jocasta, também ciente da revelação, recolhe-se ao quarto e comete suicídio,
enforcando-se. Ao encontrá-la, já sem vida, Édipo tira a própria visão, ferindo os olhos.
O relato do Criado do rei a seu amigo, Corifeu, oferece uma visão da cena:
Criado:
Ao contemplar o quadro, entre urros horrorosos
o desditoso rei desfez depressa o laço
que a suspendia; a infeliz caiu por terra.
Vimos, então, coisas terríveis. De repente
o rei tirou da roupa dela uns broches de ouro
que as adornavam, segurou-os firmemente
e sem vacilação furou os próprios olhos,
gritando que eles não seriam testemunhas
nem de seus infortúnios nem de seus pecados:
“nas sombras em que viverei de agora em diante”,
dizia ele, “já não reconhecereis
aqueles que já não quero reconhecer!”
Vociferando alucinado ainda erguia
as próprias pálpebras e desferia novos golpes. (...) (SÓFOCLES,
2008, p. 86)
O ato desesperado de Édipo pode ser pensado como um recurso ao Real, daquele
que já não pode ver diante de si a própria história. Ciente da catástrofe, restou a Édipo
cegar a si mesmo. Não teria sido possível encontrar outro meio de lidar com o afeto, que
ultrapassou suas possibilidades de elaboração e defesa.
Segundo Roussillon (2006), “o ato de Édipo é uma descarga. (...) O ato é então o
preço a pagar para salvaguardar a interioridade e a organização psíquica, ele se oferece
como anteparo, como limite” (p. 206).
98
A saída de cena, neste caso, supõe um apagamento de si em relação a si mesmo.
Todos, de escravos a deuses, teriam se tornado conhecedores dos infortúnios do rei. No
entanto, o impossível para Édipo foi olhar para o fim da cena. Furando os próprios
olhos, encerra-se em si mesmo e encerra a cena insuportável. Seu pedido foi, por fim, o
próprio exílio.
No caso de Joaquim, o pedido era, por um lado, o inverso: o do reconhecimento
da existência da cena insuportável. A violência apaixonada entre seus pais, eterna cena
primária da violência, pode ter sido a ele tão intransponível que a solução foi encerrá-la,
assim como o fez Édipo. No entanto, o apagamento desta cena só se dá ao tornar
público seu sofrimento, atropelado, destroçado em paço público.
6.2 Salvação e separação
Nas fantasias de Joaquim ao relatar a cena, percebe-se clara associação entre seu
acidente (e o tempo de recuperação) e a ideia de salvação de sua mãe. Para ele, desde
seu atropelamento, as brigas teriam ficado menos frequentes e, os pais, mais distantes.
Sua mãe deixou de trabalhar e passou a se dedicar a ele integralmente, segundo sua
percepção.
O pai, antes confinado por ser fugitivo, foi retirado de casa pela necessidade
imposta e passou a trabalhar. Joaquim relatou conhecimento a respeito do risco de que
seu pai fosse encontrado e preso, uma vez fora de casa. O relato do risco continha algo
de esperança. O desmonte da cena nos pareceu conter também o sentido de uma
separação.
99
Quando Joaquim se vê às voltas com a violência policial, a história se repete.
Sua mãe deixa de trabalhar para cuidar dele. Havia, ainda, uma ideia de reparação: em
sua fala era frequente dizer: “não é justo eu passar pelo que passei e não receber nada
em troca. É sempre assim, as pessoas apanham, sofrem e ninguém faz nada. Por isso
estou processando. As pessoas têm que pagar pelo que fazem com os outros”.
Sua mãe desesperava-se com a insistência em levar o caso até as últimas
consequências na justiça. Segundo relatava o próprio paciente, para sua mãe, a denúncia
significava, na verdade, o prenúncio de sua morte. Maria nutria a ideia (bastante
possível) de que, se denunciados, os policiais iriam, de fato, matá-lo. Joaquim, no
entanto, não se abalava com os apelos da mãe e levava tudo adiante, os processos
administrativos na Corregedoria de Polícia competente e o processo contra o Estado.
Fato interessante era que Joaquim aparentava, de algum modo, ameaçar a
própria mãe com a promessa de levar o processo a cabo. Efetivar a denúncia, no
entanto, era algo que ele parecia protelar. Esquecia-se dos documentos, deixava de
mencionar determinados fatos nas declarações, até mesmo deixou de comparecer a uma
audiência.
Em razão disso, pensamos que a promessa de concretizar a denúncia contra seus
agressores funcionava como um mecanismo que deixava sua mãe presa a ele. Era quase
como se dissesse: se você deixar (me deixar?), se não ficar ao meu lado e me impedir,
cumprirei minha promessa de escrever o prenúncio de minha própria morte. Pensamos
que essa cena por ele sustentada guarde analogia com o período em que ficou sob os
cuidados da mãe durante a longa recuperação após o atropelamento, que se estendeu dos
seis aos treze anos de idade.
Neste sentido, de modo diverso do que sugeriu Lacan, pensamos haver a
possibilidade de uma encenação (acting out) que seja introduzida pelo (passagem ao)
100
ato. Assim, o ato interromperia a cena existente entre os pais e introduziria a cena em
que a mãe estaria sob sua proteção, ainda que, ao contrário, esta estivesse a protegendoo.
A matriz desta fantasia pode realmente ser impossível de se encontrar (fato
próprio do inconsciente), mas podemos mencionar, a partir da observação clínica, a
menção mais antiga feita por Joaquim a respeito desse “sistema protetivo”. Segundo ele,
desde que era muito novo, as agressões do pai contra ele e a mãe eram muito intensas.
Certa vez, seu pai o teria atingido com um sapato na cabeça que causou um profundo
corte. A escola acionou o conselho tutelar do bairro e a família ficou sob investigação.
Depois disso, além da diminuição imediata das agressões a Maria, Joaquim nunca mais
sofreu qualquer agressão do pai.
Para o pai, agredir Joaquim passou a poder resultar em investigação pela justiça,
o que poderia revelar sua fuga e ensejar uma condenação pelo crime de assassinato
cometido no Nordeste. Deste modo, sendo reconhecido socialmente como vítima de
violência, Joaquim deixou de sê-lo e passou a ser protegido contra a violência do pai.
Sua mãe, no entanto, logo passou a apanhar novamente.
Neste sentido, a fantasia de salvação-separação da mãe em relação ao pai
requereu o apelo ao Outro e seu oferecimento em sacrifício. Aventamos, aqui, a
possibilidade de que Joaquim tenha criado a fantasia de que poderia oferecer seu corpo
em sacrifico, como anteparo da violência do pai. O sacrifício do corpo teria também o
sentido de separação do casal, ainda que o sentido mais próximo fosse o de proteção.
Repete a cena em outros momentos da vida oferecendo-se a outros algozes.
Sempre que vitimado, impor-se-ia a separação e a interrupção da relação parental, como
que em uma satisfação violenta da violência.
101
Seus atos seriam, assim, capazes de veicular ao Outro seu pedido de
reconhecimento a respeito do padecimento e do desamparo.
Qual seria, então, a fantasia que sustentou Joaquim neste recurso aditivo ao ato?
Embora existam claras evidências de que a relação entre os pais de Joaquim fosse
realmente violenta, levando em conta o contexto em que ocorreram seus atos, não
podemos deixar de traçar uma aproximação com a conhecida fantasia de agressão na
cena primária1. Cremos que, embora a passagem ao ato de Joaquim possa ter, de fato,
poupado sua mãe das agressões paternas por algum tempo, não podemos deixar de
ampliar nossa visada sobre a cena, de modo a explorarmos também o contexto edípico
em que se deram.
1
Segundo Laplanche e Pontalis (2000), a cena primária seria: “Cena de relação sexual entre os pais,
observada pela criança ou suposta segundo determinados índices e fantasiada pela criança, que é
geralmente interpretada pela criança como um ato de violência por parte do pai” (p. 62)
102
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A aproximação com a fantasia de agressão à mãe na cena primária se justifica
pela constatação clínica de que Joaquim, embora pudesse reconhecer o “parece que
gostam de viver assim”, não podia reconhecer a violência como um elemento de ligação
(ainda que perversa) entre seus pais. Tal como na fantasia sobre a cena primária,
aparecem, apenas, agressor e vítima, sem que seja possível reconhecer possíveis
inversões do destino da pulsão (Freud, 1919), do sadismo ao masoquismo, por exemplo.
Salvar a mãe do pai pode significar mais do que apenas salvar a mãe da morte.
Pode conter o sentido de salvar a si mesmo da morte da mãe, ainda que, para tanto,
tenha que estar à beira de uma morte real.
Pensamos que Joaquim pode ter sustentado a fantasia de que, ao incorporar os
dois polos da violência, sendo ao mesmo tempo autor e vítima, poderia neutralizar a
cena entre os pais, intervir sem sequer tangenciar o incesto ou a castração. O resultado
final, no entanto, é a quebra da cena.
O uso da destrutividade contra o próprio corpo, ainda assim, teria o sentido de
atingir o casal parental, a alçada do pai sobre a mãe, além de expor o pai à possibilidade
de ser descoberto como matador. Embora o corpo seja oferecido em sacrifício, o ato
violento tem destinatário certo. O paradoxo aí presente é entendido por Roussillon
(2006) como:
O paradoxo da destrutividade, que consideramos até aqui
unicamente na relação primária com o objeto, seria, portanto, ao
mesmo tempo, originário e terminal. Por um lado, inauguraria a
103
entrada na problemática edipiana, por outro, marcaria sua
dissolução. “O verdadeiro pai é o pai morto”. (p. 155)
Tal constatação ganha vulto se considerarmos que, de acordo com nossa
hipótese, a solução por ele adotada repete-se ao longo do tempo. O recurso ao ato,
praticado por um menino de seis anos diante do que considerou ser a iminência da
morte da mãe, em muito poderia diferir do ato de Joaquim adulto. No entanto, a
possibilidade de recurso nos parece ser a mesma. A quebra da cena parental por meio da
concentração dos polos agressor/vítima.
Esta fusão nos parece muito bem representada no episódio em que Joaquim corta
a pele da própria cabeça com o cortador de cabelos. Vejamos como.
O principal fator capaz de favorecer a constituição de tais hipóteses ocorre no
contexto clínico pela via transferencial. No contexto dos atendimentos clínicos, Joaquim
frequentemente convidou seu terapeuta à passagem ao ato. Como dito anteriormente, as
provocações do paciente ao clínico eram cáusticas e frequentes. Na sessão seguinte a
uma ausência de Joaquim à instituição, disse ele em tom sarcástico: “Se eu não pago
nada pra vir aqui, se eu ganho o dinheiro da condução adiantado e você tem que pagar
condução pra vir, então quando eu não venho, não tem sessão, eles não te pagam nada!
Você vem aqui à toa e ainda leva prejuízo! Eu só fico com a grana da condução.”
Em relação ao caso do cortador de cabelos, a respeito do qual temos a hipótese
de ter ocorrido no contexto transferencial, relacionado ao “corte nos atendimentos” nos
parece ter havido uma maior concentração de funções. Se em outras situações, como no
atropelamento e na violência policial a agressão foi, de algum modo, perpetrada pelo
Outro (convidado a fazê-lo), desta feita Joaquim de fato figurou, ele mesmo, em ambos
os polos, de agressor e vítima.
104
Diante da impossibilidade de coagir o clínico a passar ao ato exercendo a
violência, Joaquim atua só, encerrado em seu quarto. Com a recusa do outro em
participar da cena, encena-a sozinho.
É odiando-o que seu terapeuta pode enxergá-lo como aquele que atrai para si a
ira, em um remoto momento, talvez a ira de seu pai, desviando-a de sua mãe. Depois,
reeditando sua oferta, atrai a ira de outros e dentre estes, daquele que se propunha a
escutá-lo.
Permeada pelo ódio contratransferencial, a relação pode constituir um relato
acerca daquilo que afeta o sujeito. Uma ainda remota chance de interromper o ciclo de
repetição do excesso do excesso de pathos – algo irrepresentável pelo sujeito pela via do
sintoma e que busca vã representação na repetição.
Embora não tenhamos tido a oportunidade de continuar acompanhando o
paciente, entendemos a situação em que Joaquim se inflige um ferimento com o
cortador de cabelos como uma situação nova, de crise do modelo repetitivo do que
vinha se valendo. A “crise”, embora nos pareça ser da ordem de um surto, representa
também uma possibilidade de reorganização para o sujeito. Não sabemos qual destino
teve tal reorganização; pudemos constatar apenas uma mudança na direção do ato.
Ainda que configure um recurso pobre para conter o afeto, o ato autodirecionado de
Joaquim o distancia da posição de objeto de gozo do Outro. Não podemos presumir
como se deu sua história a partir daí, mas podemos apontar a existência da possibilidade
de uma nova organização em torno do afeto e da fantasia dele decorrente.
Conforme sugere Dunker (2006), “podemos distinguir, nesta medida, a
passagem ao ato como atualização do trauma, do acting out como atualização da
fantasia” (p. 43).
105
Por esta via de compreensão, poderíamos sugerir que Joaquim, de fato, quebra a
cena entre os pais (imaginada por ele como uma cena apenas de violência) por meio da
passagem ao ato, atualizando o trauma com recurso ao corpo, marcando na própria
carne e na história sobre o ato o índice da contundência do trauma. Por outro lado, ainda
no sentido do que sugere Dunker (2006), esta quebra propiciada pelo ato favorece o
surgimento da cena em que pode atualizar a fantasia de salvação da mãe, apartando-a do
pai violento, neutralizando-o.
Talvez Joaquim tenha sido vítima não apenas da violência praticada pelo outro,
mas também de sua própria violência. A violência que o constitui, a partir de sua
resposta ao mundo violento em que se constituiu como sujeito. O trauma ao qual esteve
sujeito e que comprometeu suas capacidades imunológicas (psíquicas) tem suas origens
no mundo e em si mesmo.
Segundo Endo (2005):
Desse modo, a violência psíquica prosseguiria, como uma
espécie de continuum em busca de representação e figurabilidade, tal
como, na experiência traumática, quando acompanhada de um
traumatismo físico, o dano psíquico poderia ser minorado, ou mesmo
evitado, quando acompanhado de um traumatismo físico evidente ao
ego. É como se em ambos os casos de violência extrema e
traumatizante, cometida pelo superego e aquela que golpeia de
fora pudessem ser colocadas num lugar acessível ao ego, onde
ele poderia ter restituída alguma potência e orientar alguma
ação, seja no corpo ferido e cuidável, seja na ação delinquente
concretamente praticada: formas de ligação de que o ego lança
mão como defesas contra o sofrimento psíquico. (p. 197)
Seu mundo o moldou violento e com violência, responde. Trata-se, neste caso de
uma “vítima poderosa” e o fato de sua violência expressar-se pelo masoquismo a que se
submete, não muda a natureza daquilo que exprime.
Desta forma, não importando se a origem de tal violência é o mundo ou seu
próprio psiquismo, está sujeito ao trauma e daí ao impossível da simbolização em
106
relação a suas vivências. O trauma que o atinge é tão intenso que resta a ele repetir e
mostrar ao mundo a que foi submetido.
A ele foi impossível a via do sintoma a representar pathos. O ato e a história a
respeito do ato são seus meios de representação daquilo que o atingiu. Pensamos que,
em relação às possibilidades oferecidas pelo recurso ao simbólico no sintoma, suas
soluções seriam precárias, expondo-o constantemente ao risco de, novamente, vitimarse.
107
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