PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Francisco Gomes de Almeida Garzon Petição e repetição: a violência da vítima MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA SÃO PAULO 2012 PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP Francisco Gomes de Almeida Garzon Petição e repetição: a violência da vítima MESTRADO EM PSICOLOGIA CLÍNICA Dissertação apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, como exigência parcial para obtenção do título de MESTRE em Psicologia Clínica, sob a orientação do Prof. Dr. Manoel Tosta Berlinck. SÃO PAULO 2012 BANCA EXAMINADORA ________________________________ ________________________________ ________________________________ Para Fernanda, pela eterna alegria de tê-la encontrado AGRADECIMENTOS Ao Prof. Dr. Manoel Tosta Berlick, que me acolheu no seio do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, ainda em meus tempos de graduação e com quem aprendi o amor pela pesquisa. À professora Ana Cecilia Magtaz e ao professor Paulo José Carvalho da Silva, quando do Exame de Qualificação, pelos ricos comentários que tanto ajudaram no desenvolvimento do texto. Aos amigos, David Borges Florsheim, Adriana de Camargo Omati, Vivian Anijar Fragoso Rei, Roberto Kirschbaum e Aline Garjaka, com quem pude discutir o texto e que tantas boas idéias me deram em contribuição. Aos meus pais, Sergio e Celeste Garzon, por toda sua generosidade e pelo constante carinho. A Ricardo Saliby, pela ajuda nos momentos mais difíceis deste percurso. Aos membros do Laboratório de Psicopatologia Fundamental da PUC-SP, pelas contribuições e comentários à pesquisa. À EDEPE – Escola da Defensoria Pública do Estado de São Paulo, que financiou integralmente esta pesquisa. A “Joaquim”, com quem muito pude aprender sobre a clínica. GARZON, Francisco. Petição e repetição: a violência da vítima. 2012. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Resumo: A presente Dissertação de Mestrado diz respeito a uma possibilidade de constituição do sujeito diante da violência, pathos excessivo. Segundo a posição da Psicopatologia Fundamental, pathos constitui o sujeito, na medida em que o psiquismo é uma resposta à incidência do pathos. Pretendemos investigar, a partir do recorte de um caso clínico, a possibilidade da violência constituir expressão sintomática de pathos, seja pela repetição da cena patogênica ou pela via do sintoma. Diante do caráter inefável de pathos – excessivo - a capacidade de simbolização complexa, a suturar a marca do trauma, poderia restar comprometida. A presente pesquisa destina-se a investigar a possibilidade de se considerar a repetição da violência sofrida pelo sujeito como sendo um sintoma deste sujeito, assim como investigar sobre a natureza deste sintoma diante da obviedade de pathos, excessivamente aterrador. O caso clínico que motiva a presente pesquisa oferece subsídios para pensarmos a questão. Cogitamos se o paciente, no caso observado, se oferece à violência como em uma espécie de sacrifício, escrevendo repetidamente em seu corpo um manifesto, pedido de reconhecimento, petição e repetição que informa e atesta sua impossibilidade de lidar com a violência descomunal do pathos que o atingiu. Seus atos, que o vitimam em repetidas situações de violência praticada pelo outro (Outro), configurariam o impossível do sintoma diante do excesso do excesso (excesso de pathos), do irrepresentável? Palavras-chave: Psicopatologia Fundamental, violência, sintoma, passagem ao ato. GARZON, Francisco. Petição e repetição: a violência da vítima. 2012. Dissertação (Mestrado em Psicologia Clínica). Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Abstract: This master’s degree dissertation refers to a possibility of human subjectivity constitution through violence, excessive pathos. According to the position of Fundamental Psychopathology, pathos constitutes the human, in the measure that psychism is a reply to the incidence of pathos. Research was conducted whereof the clipping of a clinical case, considering the possibility of the violence to constitute symptomatic expression of pathos, either for the repetition of the pathogenic scene or through the way of the symptom. Facing the unbearable character of pathos – excessive by definition - the capacity of complex symbolic creation, to suture the mark of the trauma, could remain disengaged. The present research is destined to investigate the possibility of considering the repetition of the violence suffered for the subject as being a symptom of this subject, as well as investigating ahead on the nature of this symptom towards the given nature of pathos, excessively terrifying. The clinical case that motivates the present research offers subsidies to think the question. We cogitate if the patient, in the observed case, offers himself to violence as in a species of sacrifice, writing repeatedly in his body a pledge, order of recognition, petition and repetition that informs and certifies the impossibility to deal with the uncommon violence of pathos that reached him. His acts, that victimize himself in repeated situations of violence practiced by the other (Other), would configure the impossibility towards symptom? Keywords: Fundamental Psychopathology, violence, symptom, passing-to-act. Petição e repetição: a violência da vítima Introdução........................................................................................................................09 1: Método.........................................................................................................................20 1.1 A Psicopatologia Fundamental......................................................................20 1.2 O método clínico 24 2: Caso clínico: Joaquim e a repetição da condição de vítima........................................27 2.1 O caso clínico.................................................................................................27 2.2 Considerações preliminares sobre o caso......................................................36 3: Compulsão à repetição: a pulsão de morte e o ato......................................................41 3.1 Pulsão de morte – conceito............................................................................41 3.2 Compulsão / coação à repetição.....................................................................44 4: Violência, agressividade e destrutividade: expressão pelo masoquismo e pelo sacrifício..........................................................................................................................49 4.1 Violência, agressividade e destrutividade: distinções e aproximações..........50 4.2 Masoquismo e sacrifício................................................................................58 4.3 Violência e psique: a questão do trauma e da “metabolização”....................67 5: Sintoma, acting out e passagem ao ato........................................................................72 5.1 O sintoma: símbolo do afeto, metáfora do conflito.......................................77 5.2 Acting out e passagem ao ato: a cena e a queda.............................................85 6 – Algumas considerações metapsicológicas.................................................................96 6.1 A passagem ao ato e a quebra da cena...........................................................96 6.2 Salvação e separação.....................................................................................99 7 – Considerações finais................................................................................................103 Referências Bibliográficas.............................................................................................108 INTRODUÇÃO “Sei agora, e posso provar com exemplos convincentes, que muitos ferimentos aparentemente acidentais sofridos por esses doentes são, na realidade, lesões auto-infligidas. Acontece que uma tendência à autopunição, que está constantemente à espreita e comumente se expressa na autocensura ou contribui para a formação do sintoma, tira hábil partido de uma situação externa oferecida pelo acaso, ou contribui para sua criação até que se dê o efeito lesivo desejado. Tais ocorrências de modo algum são raras, inclusive nos casos de gravidade moderada, e denunciam o papel desempenhado pela intenção inconsciente através de uma série de traços particulares - por exemplo, a notável serenidade com que os pacientes encaram o suposto acidente.” (FREUD, 1969 [1901], p. 35) A presente pesquisa teve por origem a situação clínica de atendimento a um jovem paciente, vitimado em situações de extrema violência, por diversas vezes e em situações aparentemente muito distintas. Na infância, sofreu grave atropelamento que o deixou com metade do corpo paralisado. Na adolescência, sempre se via em meio a confusões e acabava machucado, espancado, humilhado. Na idade adulta, envolve-se em uma cena dúbia, em que foi considerado o agressor sexual de uma mulher em plena praça pública. Sofreu violência policial, tortura, humilhações. Mesmo ameaçado por seus agressores, levou adiante suas denúncias, ciente do risco que corria de mais uma vez poder ser atingido pela violência do outro, devido às anunciadas represálias. Relatava tais fatos com tamanha desconexão afetiva, que nos levava a questionar com frequência: apesar de todas as marcas que carrega, do que padece esta pessoa? Que sentido pode ter as marcas em seu corpo? Qual é seu sintoma? 9 Em um primeiro momento, nos pareceu que seu sintoma era o de se colocar em situações em que era vítima da violência praticada pelo outro. No entanto, não nos foi possível reconhecer tal trajetória de repetição como um sintoma propriamente dito. A repetição era desconhecida pelo paciente como tal e as situações em que se tornara vítima eram vistas de maneira totalmente isolada, sem ponto de contato e sem qualquer associação a ligá-las. A repetição dessas situações parecia algo da ordem de um apelo ao outro (Outro), um pedido de intervenção, quebra de uma cena talvez vivenciada por ele como ainda mais violenta. Sua convicção fantasiosa da eficácia desta intervenção é pensada em relação aos aspectos teóricos pesquisados e que nos ofereceram fundamentos. Assim, pode-se dizer que presente pesquisa diz respeito a uma possibilidade de constituição do sujeito diante da violência, uma forma encontrada para lidar com a incidência de pathos, excessivo por essência. Segundo a posição da Psicopatologia Fundamental, o sujeito se constitui psiquicamente a partir do contato com aquilo que o afeta e que é reconhecido como estrangeiro. Nesta perspectiva, o psiquismo é visto como uma resposta à incidência de pathos, um sistema imunológico-psíquico que permite ao sujeito defender-se de sua permeabilidade psíquica ao mundo, reconhecido, neste contexto, como fonte de ataques virulentos dirigidos contra a integridade/unidade em que se reconhece o sujeito. O aparelho psíquico, posto que sistema imunológico, constrói defesas complexas a partir de seu contato com pathos, que o afeta. O próprio psiquismo seria, segundo Berlinck (2000), uma resposta do humano à violência original imposta pelo ambiente, que levou o homem a uma urgência adaptativa tamanha que novos recursos (psíquicos) se fizeram necessários para tornar viável sua existência. Somos, assim, sujeitos 10 psicopatológicos, constituídos a partir de nossa vulnerabilidade que molda nosso psiquismo. Uma das expressões mais complexas do psiquismo é o sintoma. O clínico se depara, constantemente, com enigmas encontrados na da relação transferencial com seus pacientes. Descobre, frequentemente, que o sintoma guarda um sentido, símbolo de pathos, que impõe o conflito que o origina. Esta construção, assim como o sonho, depende de complexos arranjos psíquicos como a condensação e o deslocamento, capazes de transfigurar a experiência pática e oferecer ao sujeito um símbolo, sob a forma de sintoma, por meio do qual se mantém, paradoxalmente, unido e apartado da história daquilo que o constitui. Podemos dizer que o sintoma, portanto, de alguma forma simboliza o objeto invasor, excessivo. No entanto, pensamos que, em situações extremas, nas quais os efeitos psíquicos da perturbação introduzida sejam por demais contundentes, o psiquismo pode não ser capaz de produzir o sintoma, dada a obviedade de um afeto aterrador – excesso do excesso que não admite representação. Situações de violência extrema deixam marcas páticas que dificilmente podem ser apagadas ou representadas pelo sintoma. Poderia, sim, à guisa de exemplo, ocorrer a perda do contato com a realidade, como sabemos ocorrer em casos de tortura. No entanto, uma possibilidade de representação sem a perda da realidade compartilhada, ainda que menos eficiente que o sintoma, pode ser a passagem ao ato enquanto atuação. Pretendemos investigar, a partir de um recorte do caso clínico mencionado, a possibilidade de que a repetição da violência sofrida venha a constituir expressão sintomática pela repetição da cena patogênica ou pela via do sintoma. Diante do caráter inefável de pathos, a capacidade de simbolização complexa suturando as marcas de sua incidência poderia restar comprometida. Nossa pesquisa destina-se à investigação da 11 possibilidade de se considerar a repetição da violência um sintoma, assim como a natureza desse sintoma diante da obviedade daquilo que atingiu e constituiu o paciente. A repetição da cena de violência sofrida pode ser considerada um sintoma do sujeito ou a repetição dessa cena patogênica atesta a impossibilidade do sintoma diante da impossibilidade de simbolização em relação aos efeitos da permeabilidade do sujeito a pathos? Portanto, qual a natureza da violência repetidamente sofrida por alguém? Como dissemos, o enigma se nos apresentou a partir de um caso clínico. Joaquim, um jovem habitante de um mundo extremamente violento, aparentava, aos olhos (transferenciais) de seu terapeuta, oferecer-se à violência praticada pelo outro (Outro). Como veremos em detalhes, no capítulo 2, Joaquim carregava em seu corpo as marcas de diversas situações de violência a que foi submetido. No entanto, ao longo de seu tratamento foi possível perceber que de alguma maneira Joaquim figurava, ao lado de seus algozes, no pólo ativo da agressão. A construção da narrativa clínica (e da metapsicologia) constitui uma tentativa de desvelar aquilo que está encoberto pelo enigma. Não pretendemos estabelecer uma construção psicopatológica meramente classificatória. Do mesmo modo, não tencionamos controlar a violência e o poder próprios de pathos, mas apenas dar um passo em direção à compreensão de seus efeitos no humano e na sua constituição. Dada a natureza e objetivos da presente pesquisa, abarcamos três temáticas por considerá-las centrais para o seu desenvolvimento. Trataremos, portanto, da violência (e suas distinções em relação à agressividade e destrutividade), da compulsão à repetição como forma de expressão sintomática do conflito intrapsíquico, e das distinções e aproximações entre sintomas, atuações, acting out e passagem ao ato. 12 Para tanto, retomamos a ideia descrita por Berlinck sobre a incidência de uma violência primordial sobre o humano: O aparelho psíquico é, desde os começos da psicanálise, uma construção que responde à violência primordial que ameaça a existência física do sujeito e da espécie e, ao mesmo tempo, é insuficiente para proteger o sujeito de ataques virulentos tanto internos quanto externos. (...) Assim, é possível dizer, com Freud, que não só o ser humano apresenta um desamparo originário, como este se deve à insuficiência imunológica a ataques virulentos vindo do exterior. (BERLINCK, 2000, p. 182) Segundo Berlinck (2000), o aparelho psíquico é uma resposta à violência primordial que atinge o homem. O psiquismo se presta a tornar viável a existência do homem originalmente desamparado. No entanto, existem situações em que a resposta imunológica oferecida pelo psiquismo é insuficiente. A violência tem sobre o sujeito este duplo efeito. Se, por um lado, é fator de sua constituição, por outro pode causar sua fragmentação. A relação do humano com a violência obedece a um duplo estatuto. Estamos a todo o momento em contato com esta duplicidade que determina tantos binômios. Atividade e passividade, sadismo e masoquismo, dominação ou sujeição. A violência permeia mais aspectos de nossas vidas do que costumamos admitir. Apesar de reconhecermos a impossibilidade de se atribuir limites à produção de sintomas - uma vez que o inconsciente não tem limites - na intenção de contrapor os sintomas às atuações, ao acting out e, de certa forma, à passagem ao ato, consideramos sintoma as produções do inconsciente de maior elaboração, como os sintomas obsessivos, conversivos, os delírios etc. A estes, contrapomos as manifestações em que 13 se pode reconhecer caráter sintomático, mas sem tamanha complexidade psíquica, como atuações isoladas e passagens ao ato. Talvez o acting out, se considerado no âmbito da transferência, também possa ser considerado manifestação complexa. Segundo nos ensina Freud em “Inibições, sintoma e ansiedade”, de 1926: “(...) O sintoma gradativamente vem a ser representante de interesses importantes; verifica-se útil na afirmação da posição do eu (self) e se funde cada vez mais estreitamente com o ego, tornando-se cada vez mais indispensável a ele.(...) Nas neuroses obsessivas e na paranoia, as formas que os sintomas assumem tornam-se muito valiosas para o ego porque obtêm para este, não certas vantagens, mas uma satisfação narcísica sem a qual, de outra forma poderia passar. (FREUD, 1926, p. 102) Continua, afirmando que proviria do próprio sintoma o mal que ele causa, pois “sendo o verdadeiro substituto e derivativo do impulso reprimido, executa o papel do segundo; ele continuamente renova as exigências de satisfação e assim obriga o ego, por sua vez, a dar o sinal de desprazer e a colocar-se em uma posição de defesa” (FREUD, 1926, p. 102). Buscando as diferenças contidas na formação do sintoma da neurose e na psicose, como fator investigativo preliminar da condição colocada pelo caso em questão, encontramos, em “A perda de realidade na neurose e na psicose”, de 1924, elementos para pensar os atos do paciente do caso que motivou esta investigação. O contato com esse texto de Freud deixa clara a questão da formação do sintoma nestes casos: na neurose, perde-se a realidade em um primeiro momento (recalque), mas o compromisso do sintoma permite seu retorno. Na psicose, a recusa, a negação da realidade, separa o ego da realidade. No entanto, não há o compromisso do sintoma que 14 permite a retomada do contato. O que ocorre é a criação de uma nova realidade através de um delírio ou uma alucinação que preenche o lugar da realidade compartilhada, negada. O sintoma pode ser também compreendido em termos de meio de gozo do neurótico (RUDGE, 2008). Nos atos que destacamos a partir do caso clínico, em que o paciente se coloca em posição de ser vitimado, apenas em princípio fica mais difícil encontrar os traços do gozo do sujeito. Partimos, então, às manifestações sintomáticas traduzidas em ato de que trataremos aqui. Entre os autores pesquisados existem diferentes maneiras de aproximar e distinguir acting out e passagem ao ato, como veremos em momento oportuno. Laplanche e Pontalis (2001) aproximam acting out e passagem ao ato como atos estranhos à conduta usual do paciente, destacando sua natureza auto e/ou heteroagressiva. Consideram, no entanto, existir uma distinção em relação à qualidade simbólica de representação em relação ao conflito psíquico. Consideram que na passagem ao ato, o sujeito faria a passagem da tentativa de representação pelo ato ao ato sem representação. Incluem, ainda, em seu Vocabulário da psicanálise o termo “atuação”, por meio do qual designam aqueles atos em que o sujeito transmutaria uma pulsão, fantasia ou desejo em ato, vivenciando-o como algo atual, sem que, no entanto, seja capaz de reconhecer aí qualquer caráter repetitivo. Outros autores, como Lacan (2005) e Ana Maria Rudge (2008) traçam importantes distinções entre acting out e passagem ao ato. Rudge afirma ser o acting out um ato sintomático eu-sintônico, em que não haveria, por parte do sujeito, o sentimento de ter sido atropelado pelo ato, como aconteceria em relação à passagem ao ato. Segundo sua concepção, passagem ao ato seria o reverso da encenação, em que o sujeito dá as costas ao Outro, fugindo da angústia e da divisão. 15 Lacan (2005), no Seminário X: A angústia, diferencia acting out e passagem ao ato em termos da criação de uma cena e saída de uma cena, respectivamente. Acting out seria, assim, a sustentação de uma cena passível de interpretação dirigida ao Outro e na qual estaria implícito um pedido de interpretação. Passagem ao ato, por sua vez, seria a saída de uma cena que se torna insuportável ao sujeito por meio do recurso ao Real, sem endereçamento ao Outro como pedido de interpretação, mas como ato puro a encerrar a cena, sem símbolo ou atribuição de sentido. No caso apresentado, os atos sintomáticos eram inadvertidamente repetidos sem que fosse possível ao paciente traçar qualquer forma de associação entre os mesmos, fato que nos levou a inscrevê-los no contexto da compulsão à repetição. Em “O estranho” (1919), Freud menciona, aparentemente pela primeira vez, o termo compulsão à repetição: Pois é possível reconhecer, na mente inconsciente, a predominância de uma compulsão à repetição, precedente dos impulsos instintuais e provavelmente inerente à própria natureza dos instintos – uma compulsão poderosa o bastante para prevalecer sobre o princípio de prazer, emprestando a determinados aspectos da mente o seu caráter demoníaco, e ainda muito claramente expressa nos impulsos das crianças pequenas; uma compulsão que é responsável, também, por uma parte do rumo tomado pelas análises de pacientes neuróticos. Todas essas considerações preparam-nos para a descoberta de que o que quer que nos lembre esta íntima ‘compulsão à repetição’ é percebido como estranho. (FREUD, 1919, p. 256) O estranho da compulsão à repetição a que se refere Freud, é mais claro do ponto de vista do observador/analista, porém aquele que repete, a partir do momento 16 que percebe o caráter repetitivo de algo aparentemente desligado de um sistema de prazer também o reconhece como estranho. Em “Além do princípio do prazer” (1920), Freud consolida a introdução do termo compulsão à repetição para se referir a um determinado tipo de compulsão pulsional à qual atribui caráter demoníaco e de cujos efeitos o sujeito seria incapaz de escapar. Fica evidente que neste caso a pulsão não estaria a serviço do princípio do prazer; Freud começa a tratar da existência de um conflito fundamental, situado para além do princípio do prazer. Esse conflito estaria situado entre dois tipos de pulsão; a pulsão de vida e a pulsão de morte, que representamos por Eros e Tânatos respectivamente. A partir daí Freud estabelece uma diferença clínica: os pacientes capazes de constituir a neurose de transferência obedeceriam à lógica do conflito entre prazer e desprazer, enquanto aqueles capazes apenas da transferência hostil, acometidos por uma neurose narcísica (como na perversão e na psicose) obedeceriam à lógica do conflito fundamental entre pulsão de vida e pulsão de morte. Diante da constatação da compulsão à repetição, Freud (1920) postula uma nova natureza da pulsão: seu destino seria o de restabelecer um estado anterior, próprio do não-vivo, expressando um caráter conservativo da pulsão que puxa o sujeito para o ponto de partida. Neste sentido, não só a tendência, mas o objetivo final daquilo que vive é a morte. Daí surge a oposição entre pulsão de vida de pulsão de morte, e com ela o paradoxo que coloca o princípio de prazer a serviço da pulsão de morte: O princípio do prazer, então, é uma tendência que opera a serviço de uma função, cuja missão é libertar inteiramente o aparelho mental de excitações, conservar a quantidade de excitação constante nele, ou mantê-la tão baixa quanto possível. Ainda não podemos decidir com certeza em favor de nenhum desses enunciados, mas é claro que a função estaria assim 17 relacionada com o esforço mais fundamental de toda substância viva: o retorno à quiescência do mundo orgânico.(FREUD, 1920, p. 73) Freud afirma, ainda que o “princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte” (FREUD, 1920, p. 74). Esta seria uma forte explicação para aquilo que observamos na clínica: as repetições aparentemente desconectadas de um sistema de prazer. Aprendemos, no entanto, que a pulsão de morte tem sua expressão exatamente na compulsão à repetição. A hipótese a partir da qual iniciamos esta pesquisa sobre a violência enquanto sintoma do sujeito, é a de que Joaquim se oferece como em sacrifício, escreve em seu corpo um manifesto, um pedido de reconhecimento, petição que informa e atesta sua impossibilidade de lidar com a violência descomunal de pathos. Ao longo do tempo, repete esse pedido. Seus atos, que o vitimam em repetidas situações de violência praticada pelo outro (Outro), configurariam o impossível do sintoma diante do excesso do excesso, do irrepresentável? Qual seria a fantasia a mantê-lo nessa posição? Diante das questões colocadas pelo referido caso clínico e pela bibliografia consultada, investigamos como a violência excessiva pode determinar e interferir na constituição do sujeito e de que forma essa determinação poderia ser expressada em termos sintomatológicos. Como a violência afeta a constituição do sujeito e quais são as possibilidades psíquicas (imunológicas) que o sujeito possui para lidar com pathos? É possível o sintoma diante da violência excessiva ou resta ao sujeito apenas a repetição dirigida a si e/ou aos outros? Estas questões são abordadas ao longo da pesquisa, no contexto do caso clínico, que oferece material de observação a partir do qual construímos algumas 18 hipóteses. Os elementos oferecidos pelo caso clínico servem como liames a partir dos quais podemos tecer nossas considerações. A compreensão dos atos e condutas de violência como sintomas do sujeito ou como protorrepresentações diante da impossibilidade do sintoma oferece nova gama de elementos para lidarmos com um dos maiores problemas da sociedade urbana contemporânea: a violência. Pretendemos, com isto, lançar novas possibilidades de olhar sobre o fenômeno da violência, neste caso menos concentrados em seu aspecto social e mais interessados nos aspectos subjetivos do fenômeno. Operando paralelamente à compreensão sociológica do problema da violência oferecemos, aqui, a possibilidade de pensar também os aspectos subjetivos que determinam a repetição da violência, assim como ventilamos algumas construções metapsicológicas possíveis graças à narrativa clínica aqui desenvolvida. 19 1 MÉTODO 1.1. A Psicopatologia Fundamental A Psicopatologia Fundamental surgiu no âmbito da Université de Paris 7 – Denis Diderot como resultado da adoção, pelo Professor Doutor Pierre Fédida e seus associados, de uma posição diferente daquela preconizada pela Psicopatologia Geral de Jaspers (1956) diante do pathos humano. Enquanto a psicopatologia geral busca uma abordagem objetiva e universal das doenças mentais, a Psicopatologia Fundamental procura abordar o sofrimento psíquico de uma forma subjetiva, levando em consideração aspectos da vivência do sofrimento psíquico concernentes ao sujeito do pathos (BERLINCK, 2000). No Brasil, sua influência começou a ganhar forças com a constituição, em 1995, do Laboratório de Psicopatologia Fundamental do Núcleo de Psicanálise do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da Pontifícia universidade Católica de São Paulo. Ampliou-se com a criação, em 1996, da Rede Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, sucedida, em 2002, pela Associação Universitária de Pesquisa em Psicopatologia Fundamental, que consolidou a expressão desta posição em nosso país. Segundo Berlinck (2000), a Psicopatologia Fundamental sustenta uma posição específica na pólis, uma posição clínica daquele que se inclina diante do discurso de alguém sobre o próprio pathos psíquico, levando-o em consideração como veículo da subjetividade e singularidade. O alicerce sobre o qual se apoia o pensamento daqueles que praticam a psicopatologia fundamental é a prática clínica. É ela que permite ao 20 psicopatólogo o contato com o caráter subjetivo de pathos, envolvido no sintoma e no discurso que narra este mesmo padecimento. Outras posições existem na pólis e não são desconsideradas pela Psicopatologia Fundamental. O psicopatólogo fundamental deve ser capaz de frequentar e dialogar com outras posições, outros discursos, uma vez que considera que nenhum conhecimento especializado é capaz de esgotar a compreensão do sofrimento psíquico. Talvez seu interlocutor menos receptivo seja, hoje, a psiquiatria biológica, que ostenta premissas em grande medida antagônicas à ideia central da Psicopatologia Fundamental – que supõe a existência de uma sabedoria e da subjetividade no discurso sobre pathos. Ao contrário de outras correntes psicopatológicas, a Psicopatologia Fundamental tem por ideal a comunicação em detrimento da classificação (MAGTAZ, 2008). Psicopatologia, segundo a posição da Psicopatologia Fundamental, constitui um discurso sobre pathos, a paixão que se manifesta no psiquismo, discurso sobre o sofrimento psíquico. Deriva-se das palavras gregas: psychê (que originou psique, psiquismo e psíquico), pathos (que originou paixão, excesso, passagem, passividade, sofrimento e assujeitamento) e logos (lógica, discurso, narrativa). Pathos contém os significados de sofrimento, paixão e passividade. O sujeito da Psicopatologia Fundamental é um “sujeito trágico que é constituído e coincide com pathos, o sofrimento, a paixão, a passividade” (BERLINCK, 2000, p. 18). A subjetividade é, assim, constituída por pathos, o que nos diz que somos sujeitos psicopatológicos. Pathos não é apenas o sofrimento que experimentamos em determinadas situações, é o que nos constitui, o que dá a forma que temos ao corpo e à alma indissociáveis. 21 O sujeito psicopatológico teria, segundo esta posição, a possibilidade de constituir uma narrativa a respeito de sua própria experiência pática. Na presença do “médico” – sob transferência - alguém em sofrimento, vivendo o excesso, poderia compor uma narrativa que possibilitasse pensar o que não foi pensado, fazer de pathos, experiência. Nas palavras de Manoel Berlinck: Desde que a posição da Psicopatologia Fundamental é tal que se dispõe sempre a escutar um sujeito, que porta uma única voz, que fale do pathos, que é somático e vem de longe e de fora, ela é sempre objeto da transferência, ou seja, de um discurso que narra o sofrimento, as paixões, a passividade que possui um corpo onde brota, para um interlocutor que, por suposição, seja capaz de transformar, com o sujeito, essa narrativa numa experiência. Aqui, palavra adquire o sentido preciso de enriquecimento, ou seja, a experiência é a possibilidade de se pensar aquilo que ainda não foi pensado. (BERLINCK, 2000, p. 23) O que possibilita a transformação de pathos em experiência é o método clínico, possibilidade de composição de um campo transferencial em que pathos se torna experiência a enriquecer o sujeito, dotando-o de mais recursos para lidar com o excesso inerente a ele. O psiquismo, a partir da posição da Psicopatologia Fundamental, é uma resposta de defesa do organismo frente à violência original. É, assim, extensão corporal, do sistema imunológico a defender o organismo das agressões vindas de fora. Pathos é somático, ocorre no corpo e determina, constitui a psique - neste sentido, reafirma a impossibilidade de se traçar uma fronteira que delimite a relação psique-soma. O aparelho psíquico é imunológico, uma construção com o intuito de proteger o humano dos ataques que vêm de fora. A subjetividade seria, de certa forma, a resposta do organismo a pathos, que afeta. 22 Como aponta Paulo Roberto Ceccarelli: (...) Freud concebe o psiquismo (seelischer apparat) como patológico em sua origem: uma organização que se desenvolveu a fim de proteger o ser humano contra os ataques, internos e externos, que punham sua vida em perigo. Uma defesa frente ao excesso – as transformações do meio ambiente (excesso externo) e as demandas pulsionais que não podiam ser satisfeitas (excesso interno) – ao qual o ser humano se viu exposto quando das mudanças provocadas por uma catástrofe ecológica de proporções inimagináveis: a perda do Éden. Para enfrentar esse excesso (das paixões – do pathos) sem adoecer, profundas reorganizações psíquicas foram necessárias. (CECCARELLI, 2006, p. 115) Desta afirmação depreendemos que pathos incide a partir de fora e a partir de dentro, proveniente tanto do mundo interno, por meio de moções pulsionais, quanto do mundo externo, por meio dos ataques próprios da relação do sujeito com o ambiente e com seus pares. No entanto, qualquer que seja a origem do ataque, será percebido pelo sujeito sempre como algo a ele estrangeiro. Segundo Rechardt (1988), o domínio do pensamento seria aquele a aparecer por último no “equipamento filogenético do homem”, constituindo uma “neoformação com a qual não estamos acostumados a viver”. Rechatrdt sugere uma transposição em relação à imagem dada por Freud da existência de uma luta entre os processos frágeis da vida e a natureza, inorgânica e estática. Para esse autor, a questão deveria ser tratada em termos de “uma batalha obstinada entre o mundo do espírito e o antigo mundo físico que o envolve” (RECHARDT, 1988, p. 50). 23 1.2. O método clínico Segundo Berlinck (2000), na posição da Psicopatologia Fundamental, é produzido um discurso mito poiético epopeico, que possibilita a construção de uma metapsicologia e que, como experiência, tem efeito terapêutico. A referida posição pretende suscitar uma experiência que seja compartilhada pelo sujeito. O escopo da clínica, segundo a posição que vimos discutindo, não seria a supressão do sintoma, mas a construção de uma estrutura discursiva capaz de exprimir a vivência de pathos, constituindo experiência acerca de pathos. O relato preciso seria, assim, capaz de produzir profundas modificações na relação do sujeito com pathos, possibilitando a intervenção sobre o psiquismo: A Psicopatologia Fundamental é, então, um trabalho que visa tanto à aquisição de uma experiência inerente ao pathos, como produzir efeito terapêutico qualitativo modificando a posição do sujeito em relação a seu próprio psiquismo e, conseqüentemente, alterando sua posição e dinâmica no mundo (BERLINCK, 2008, p. 24) O papel do psicopatólogo, no contexto da Psicopatologia Fundamental, seria o de construir a metapsicologia do caso a partir do enigma com que se depara na clínica e, a partir da relação transferencial, produzir um relato que contenha a verdade e a sabedoria contidas em pathos, promovendo a transformação da vivência pática numa patologia e, consequentemente, numa experiência. A presente pesquisa é fruto do desejo de olhar para o enigma veiculado por pathos a partir da posição da Psicopatologia Fundamental, desejo este incitado pelo convívio com este pensamento, no seio do Laboratório de Psicopatologia Fundamental 24 da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. É desta forma que pretendemos olhar para o caso que nos faz enigma: o sujeito como sujeito de pathos. A posição da Psicopatologia Fundamental sugere que aquilo que possibilita a transformação em experiência é o método clínico, possibilidade de composição de um campo transferencial em que pathos se torna experiência a enriquecer o sujeito, dotando-o de mais recursos para lidar com as paixões. A narrativa do caso clínico, articulada à teoria pesquisada, assim como à composição de considerações metapsicológicas acerca do caso, nos permite alcançar maior compreensão do fenômeno da violência como sintoma ou como marca do impossível do sintoma. Os aspectos transferenciais e contratransferenciais e a exploração dos detalhes do caso poderão ser pensados, por meio da realização da presente pesquisa, à luz da teoria psicanalítica e sob outros aspectos teóricos que, ao longo do caminho, julgamos concernentes. É a transferência, também para a Psicopatologia Fundamental, o meio pelo qual o método clínico permite o alcance sobre o sujeito; “ A separação entre os movimentos internos – afetivos – do sujeito e sua objetivação pelo discurso endereçado a um terceiro tomba para o inconsciente” (Green, 2008, p. 127). Assim, chegamos à formulação de que a presença do clínico torna necessária a comunicação, oferece um destinatário à mensagem ainda não formulada, a não ser pelo setting e pela gradual metaeducação (SZASZ, 1975) a respeito do inconsciente que se alcança ao longo do tratamento, sob transferência. A respeito da transferência na situação clínica, André Green, em publicação original de 2002, explicita como a posição do clínico, daquele que se inclina sobre o enigma colocado pelo “doente”, permite a constituição da experiência acerca de pathos, no seio da transferência: 25 A esse nível, o destinatário daquilo que foi posto em palavras a partir dos movimentos internos está separado por nada menos que fio da tendência de nele ver o agente causal desses movimentos. Existe uma expectativa em relação às conseqüências dessa causa e o discurso se esforça por extrair uma resposta daquele a quem o discurso foi endereçado. É sem dúvida implicitamente esperado, não somente que a resposta satisfaça a resposta que lhe é dirigida – demanda inerente ao próprio ato de empreender uma análise – mas singularmente que ela revele àquele a quem é endereçada um desejo correspondente a uma busca, da qual ele é o objeto. (Green, 2008, 127) Assim, a partir da posição da Psicopatologia Fundamental, a narrativa do caso clínico, articulada à teoria pesquisada, assim como à composição de considerações metapsicológicas, nos permite alcançar maior compreensão do caso. A análise dos resultados observa-se pela articulação entre a tradição teórica da Psicanálise e da Psicopatologia Fundamental às peculiaridades do caso, oferecendo à comunidade científica novos elementos para a compreensão do fenômeno do atravessamento do sujeito pela violência. 26 2 CASO CLÍNICO: JOAQUIM E A REPETIÇÃO DA CONDIÇÃO DE VÍTIMA O clínico sofre os efeitos da violência como elemento constitutivo do sujeito e a ela responde, frequentemente, de forma também violenta. É uma resposta a pathos, veiculado pelo relato do paciente. A partir do recorte de um caso, teceremos considerações clínicas e metapsicológicas a respeito da violência que afeta o sujeito, suas formas de expressão, sua relação com o sintoma e alguns aspectos transferenciais surgidos neste contexto. O caso oferece subsídios para pensarmos sobre os efeitos que a violência constitutiva do psiquismo do paciente exerce na relação transferencial, despertando o ódio no clínico e permitindo-lhe experimentar, ao menos em parte, a experiência do paciente. 2.1. – Joaquim e a condição de vítima poderosa Joaquim, um jovem de 26 anos, portador de hemiparesia direita por trauma, chegou até o instituto de direitos humanos, onde eu realizava atendimentos semanalmente, após um incidente em que sofreu tortura policial. Um corpo marcado e cindido. Foi assim que encontrei Joaquim, sentado na sala de espera. Vestia um casaco pesado, apesar do verão paulistano. Tinha o olhar desfocado, ria nervosamente. As marcas em seu corpo, especialmente a grande cicatriz circular acima da orelha, impunham-me a questão: será retardado? Chamado à sala de atendimento, levantou-se rapidamente, arqueou, balançou e moveu com agilidade o corpo que parecia movimentar-se segundo um padrão próprio. 27 Embora tivesse o lado direito do corpo quase totalmente paralisado, dispensava o uso de muletas. Os membros atrofiados eram quase arremessados em um movimento giratório, levando a outra metade do corpo a empreender os esforços necessários para manter o equilíbrio. Assim andava. De uma das mangas de seu casaco saía um punho musculoso e uma mão forte. Do outro lado, um pulso de criança e uma mão “seca”. O mesmo ocorria com os olhos: um vivaz e o outro “vidrado”. As pernas não eram visíveis, mas observando a marcha era possível imaginar padrão parecido. Pendurada em seu rosto uma boca flacidamente loquaz. Era nítida a dificuldade em articular os fonemas. Também era nítida a facilidade para falar. A mãe, ao final da primeira sessão, pede uma conversa em particular. Antes mesmo que se pudesse responder, Joaquim concorda e cede o lugar à mãe. Maria se diz preocupada com Joaquim e que desde algumas semanas antes do episódio em que sofreu tortura policial estava “estranho”: trancava-se no quarto por horas a fio e, apesar de seus apelos, não abria a porta. A mãe afirma que podia ver, pelo buraco da fechadura, que Joaquim ficava ali sentado, com o lençol cobrindo todo o corpo, inclusive a cabeça, “como um fantasma”. Disse que essa nova “mania” do filho começou após uma grande discussão com o pai, em torno de mais uma das brigas do casal. Durante as primeiras sessões, seu discurso se referia quase exclusivamente à situação de violência policial que o levou até a instituição onde ocorriam os atendimentos. Mesmo diante de seu relato detalhado, com alguma elaboração e reflexão, suas feições ainda impunham a questão: é ou não é retardado? Suas reações a eventuais questionamentos ou comentários pareciam obedecer a um tempo próprio. Não exatamente deixava de compreender, mas parecia precisar de outro tempo de elaboração. Sua expressão, quando pensava, envolvia um repuxar da 28 boca, um apagar do olho estrábico, um balanço do corpo. Seu olhar se perdia e parecia passar por uma pausa mental, ausência; parecia precisar se recompor, se realinhar para que pudesse manter contato. Seu relato sobre a absurda situação de violência pela qual passou tinha tom trivial. Por vezes, ria daquilo que podia provocar náusea. Apesar de não ser estimulado a fazê-lo, relatava com riqueza de detalhes as sevícias, rasgos, rompimentos, contusões, escarificações e pressões impostas. Percorria o corpo em seu discurso, colecionando as novas marcas. Corte no couro cabeludo, ligamento rompido no tornozelo, orelha “descolada’, hematomas nas pernas e nas costas, corte no calcanhar. Dores nas costelas, na barriga e braços. A história que o trouxe até o atendimento começa na Praça do Correio, centro de São Paulo. Joaquim caminhava apressado, balançando o corpo claudicante que sofre para atingir o ritmo que lhe impõe a cabeça. Não sabe como aquilo aconteceu: uma “trombada” em uma moça no meio do caminho e logo chegam os guardas metropolitanos que o acusam de algo que desconhece. “Falaram que eu dei um tapa na bunda dela. Era gorda, se eu a tivesse visto, passava longe, mas não vi de onde ela veio e trombamos”. Foi levado para uma delegacia no banco de trás da viatura, ladeado por dois policiais, um homem e uma mulher; na frente mais dois guardas. A policial, indignada, curvava-lhe o corpo e aplicava, incessantemente, socos e cotoveladas em seus rins enquanto os demais se certificavam de que ninguém dava atenção ao que se passava dentro daquele carro a serviço da ordem na metrópole. Em uma delegacia do centro foi constrangido a entrar em uma cela e submeterse a “abraços por trás” de outros homens presos, “pra ir se acostumando a ser mocinha de cadeia”. Porque alegou ser deficiente, defendendo-se das contínuas agressões, foi 29 obrigado a ficar por cinco horas ajoelhado diante da imagem de uma santa em uma sala da delegacia. Como não conseguia se manter equilibrado, tombava em poucos minutos e era gentilmente recolocado em posição aos pontapés. Transferido para a delegacia da mulher, foi transportado no assoalho do banco traseiro de uma viatura, sob os coturnos dos policiais. No caminho, foi espancado e ameaçado. Os chutes e pisões atingiam-lhe a cabeça, as costas e as pernas. Sofreu cortes na orelha e couro cabeludo, hematomas espalharam-se por todo o corpo. Ao ser brutalmente retirado do chão do carro seu “pé bobo” ficou preso sob o banco da frente da viatura e os ligamentos atrofiados do tornozelo foram rompidos. Apanhou mais quando acharam que ele fingia não conseguir caminhar. “Agora você entra lá e fala que passou a mão nela. A gente vai ficar sabendo o que você falou”, disse um de seus algozes. Já na delegacia, a primeira pergunta da delegada: Joaquim, você já teve namorada? A indagação soou como terrível ofensa: “Ela acha que só porque eu nunca namorei ia sair por aí passando a mão nas moças?” Prestados os depoimentos dele, da moça e das testemunhas (os mesmos policiais que o conduziram à delegacia), Joaquim foi indiciado por atentado violento ao pudor e seria processado. Ao sair da delegacia foi novamente abordado pelos guardas metropolitanos, que mais uma vez o ameaçaram. Se denunciasse as agressões sofreria as consequências. “Eles sabem onde eu moro, falaram meu endereço. Está escrito nos papéis da delegacia.” Voltou para casa amedrontado e pelo resto do dia ficou trancado no quarto escondendo da mãe as novas marcas de violência em seu corpo e a acusação da qual tanto se envergonha – especialmente perante a mãe, apesar de saber que “ela não acreditaria”. Somente no dia seguinte a mãe conseguiu tirá-lo do quarto, mas o medo 30 de sair de casa o impediu de fazer os exames de corpo de delito. Sequer tem provas contra seus agressores. Lendo o relato da cena que o levou aos atendimentos, poderíamos pensar se tratar do episódio mais violento, traumatizante, da vida de Joaquim Mas, ao longo do tempo, escutando-o semana a semana, o que se revelou foi que, subjetivamente, esta foi apenas “mais uma” das situações em que esteve sujeito à violência e que, provavelmente já estaria, como sempre sugeria, “pronto para a próxima”. Revelou-se também um portador da violência. Seu pai, nordestino, veio para São Paulo foragido da justiça. “Era matador, pistoleiro, não dá pra confiar nele.” Encontrou a mãe de Joaquim, Maria, recémchegada do interior do Paraná com a família. Maria engravidou e, por exigência da família, casaram-se. Joaquim nasceu e cresceu vitimizado pela violência do pai. Apanhavam diariamente, ele e sua mãe, com cintas, paus, sapatos. Em uma ocasião, depois de uma sapatada na cabeça teve de ser levado ao hospital, que acionou o Conselho Tutelar. A família ficou sob investigação durante algum tempo. “Tinha muito medo dele matar minha mãe. Ele é nordestino, sabe como é... ficava em casa afiando a faca pra matar ela.” A mãe sofreu diversas hospitalizações por agressões severas. “Uma vez, ele bateu tanto que o olho dela saiu pra fora. Teve que operar mas ficou cega desse olho.” Aos 13 anos, quando, segundo Joaquim as agressões do pai contra a mãe eram mais frequentes, sofre um atropelamento por bicicleta. “Atravessei a rua sem olhar.” As sequelas foram graves: o lado direito de seu corpo ficou parcialmente paralisado, sua fala foi comprometida e tornou-se estrábico. Ficou sem frequentar a escola por seis 31 anos, período dedicado a sessões de fisioterapia, fono e vistas a médicos, tentando sua recuperação. Durante esse período ficava a maior parte do tempo em casa. “Nessa época a coisa ficou mais tranqüila. Minha mãe ficava cuidando mais de mim e meu pai teve que trabalhar e deixava a gente em paz.” De volta à escola sofreu discriminação por parte dos colegas. Sentia-se ridicularizado e desprezado pelas garotas. Apesar de ser o mais velho de sua sala de aula, era hostilizado pelos meninos menores. Mesmo diante de sua compleição frágil, vivia se metendo em brigas, das quais mostra as cicatrizes no rosto e na cabeça. Na hora da chamada, imitavam sua voz fanhosa e “até a professora dava risada”. As agressões à mãe voltaram a ser intensas após sua recuperação. “Vi minha mãe tentar se matar. Ela estava em pé na janela do quarto, ia se jogar. Na última hora meu pai a puxou, jogou na cama e ficou segurando-a até que ela se acalmasse. É o jeito deles, acho que eles gostam de viver assim. Já vi a morte da minha mãe muitas vezes. Eu tinha que me meter no meio da briga pra não deixar meu pai matar minha mãe.” O mais recente capítulo dessa história pessoal violenta ocorreu quase um mês após a interrupção do tratamento, por decisão de Joaquim. Segundo Maria, mãe de Joaquim, ao chegar em casa encontrou-o todo ensanguentado, andando pelo apartamento, rindo. Cortou o próprio couro cabeludo forçando contra a cabeça as lâminas da máquina que usava para cortar os cabelos. Normalmente, raspava os densos cabelos, ostentando as marcas que carrega, que poderiam ser facilmente escondidas se deixasse os cabelos mais compridos. A interrupção dos atendimentos se deu quando Joaquim começava a contestar a própria decisão de denunciar os policiais. A decisão deveria ser tomada até a data da primeira oitiva na corregedoria da GCM (Guarda Civil Metropolitana). Entre o medo (ou desejo?) de sofrer uma represália anunciada e o ímpeto de levar adiante as 32 acusações, Joaquim decide interromper o tratamento. Nessa época, começava a se tornar menos obscuro para ele que seu desejo de “fazer justiça” poderia estar permeado por fatores diversos daqueles que considerava em suas incansáveis ponderações. O episódio com o cortador de cabelos se dá às vésperas da oitiva, mas não o impede de comparecer, formalizando a denúncia e iniciando os procedimentos investigativos. Ainda durante a primeira fase de atendimento, em que as sessões giravam em torno da cena de tortura, a hipótese de déficit cognitivo foi afastada. Joaquim passou a ser irônico, rápido nas respostas, habilidoso ao lidar com as questões institucionais e sua relação com seu terapeuta. Ainda era aterrorizado por pesadelos e sobressaltos: pensava que os policiais poderiam chegar até sua casa a qualquer momento. Escondia-se ao ouvir qualquer barulho na porta. Posicionava-se como vítima, mas começava a demonstrar uma atitude diferente que marcaria sua relação com a instituição e comigo. Ficou orgulhoso quando soube, pela advogada da instituição, que seria um dos “casos ONU” da instituição, que receberia verba das Nações Unidas para seu acompanhamento. Seu caso iria compor os índices de violação de direitos fundamentais no país e, sobretudo, a sedutoramente prometida indenização estaria praticamente garantida. Com o passar do tempo, Joaquim gradualmente muda sua relação comigo e com a instituição. Passa a vir às sessões de camiseta, exibindo suas marcas e deformações. Raspa os cabelos e expondo, assim, as cicatrizes da cabeça. Torna-se um tanto sarcástico e passa a faltar às sessões mesmo após confirmá-las. Da mesma forma como fazia em outros espaços por onde transitava, Joaquim trouxe para o âmbito da clínica, por meio da relação transferencial, a violência. Suas palavras ventilavam os elementos de um mundo não apenas perigoso, mas essencialmente violento. Não se tratava de medir os riscos, mas de esperar a pancada. 33 Relatava atividades do tráfico de drogas na porta de seu prédio. Falava de um mundo povoado por gangues de traficantes, assaltantes e armas. “Onde eu moro não entra polícia”. Saía de casa o mínimo necessário, apenas para comprar pão ou ir até uma lan house onde jogava com adolescentes. Dizia que “por trás todo mundo tem alguma coisa escondida”, um segredo, um crime. Passei a fazer parte desse mundo e logo fui colocado na posição de um potencial agressor. O paciente fazia constantes provocações. Faltava às sessões sem avisar, mesmo ciente do deslocamento inútil de seu terapeuta até o local de atendimento (interferências institucionais eram frequentes, posto que se tratava de um “caso ONU”). Ressaltava, sempre, saber (por meio da secretária da instituição) ser eu apenas um estudante que “nem se formou ainda”. Dizia sempre algo como: “Se eu não te pago nada e você tem que vir até aqui pra me atender, pagar condução, então você paga pra me atender, né?” Ou então, “Nada que é de graça presta”. Caçoava de meu sapato, de minha roupa, de minha mochila – “coisa de estudante”. Mesmo com sua limitação física, esforçava-se ao máximo para sair da sala na minha frente ou me ultrapassar quando descíamos as escadas. Por vezes entrava na sala de atendimento e dizia, desafiante: “Fala! Pode começar a falar que eu já estou aqui esperando! Já falei demais! O que vai ser hoje?” As provocações e provações impunham, ao longo do tempo, reações violentas. Por muitas vezes fui com ele violento. No entanto, foi apenas assim que pude, experimentando na pele, construir minhas primeiras hipóteses sobre o caso (penso que era exatamente dessa maneira que ele constituía sua própria experiência, marcando suas vivências na própria pele). O episódio com o cortador de cabelos, que sugere uma atuação extrema, talvez até mesmo da ordem de um surto, ocorreu logo após um ultimato violentamente 34 imposto a Joaquim. Como faltava intermitentemente às sessões, sobretudo quando passou a tomar mais contato com as determinações de suas escolhas em relação às denúncias, Joaquim foi avisado que, caso voltasse a faltar, seria cortado do atendimento, segundo as regras da instituição. Ele não compareceu à sessão seguinte. Foi violentamente “cortado” por seu terapeuta e mais uma vez repetiu a cena patogênica, cortando a pele da própria cabeça com as grosseiras lâminas do cortador de cabelos. A história de Joaquim é marcada por uma constante violência. Para o futuro já há sinais de que mais episódios poderão ocorrer. Denunciou a tortura à corregedoria da GCM e ao Ministério Público e processos administrativos e criminais foram abertos contra os policiais. Embora se sinta constantemente ameaçado e tema uma provável represália, insiste em levar adiante as acusações. “Eu sei que eles podem me pegar, que sabem onde eu moro. Mas isso acontece todo dia e ninguém fala nada. As pessoas aí na rua, os pobres coitados, não têm ninguém pra olhar por elas. Eu sei o que é apanhar e não ter ninguém pra impedir.” Revela, ainda, o desejo de vingança contra aquele que o atropelou. “Eu sei quem ele é. Era meu vizinho. O que ele fez comigo não tem perdão... ainda pego ele”, diz Joaquim, mesmo sabendo que o ex-vizinho é traficante e anda sempre armado. Suas intenções reforçam a hipótese de repetição das situações de violência em busca de representação de algo ainda para si irrepresentável. Suas origens e seu mundo são brutos, áridos e violentos. Joaquim é portador dessa violência e a escancara por onde passa, seja exibindo suas cicatrizes, seja provocando sua repetição. 35 2.2. Considerações preliminares sobre o caso Quando pensamos no caso de Joaquim podemos reconhecer a violência do mundo em que vive. Embora resida em uma cidade de múltiplas realidades, talvez a sua seja uma das piores, do ponto de vida da necessidade de adoção de estratégias de sobrevivência (psíquicas e práticas). Seu pai, matador; sua mãe, tantas vezes quase morta; seu corpo, aviltado. Em seu entorno, os desmanches de carros, o tráfico, as disputas entre facções rivais. A lei opera, ali, em um plano paralelo. A polícia não adentra seu bairro sem prévio acordo com a chefia do local. É até possível se comunicar, há televisão a cabo e internet, tudo sem o conhecimento das concessionárias desses serviços, tudo é “gato” controlado pela associação polícia-bandido. Em seu discurso, fica marcado o desamparo em relação ao Estado. Na escola, sofreu abusos; nos hospitais, ficou desassistido; a polícia corrupta protege os ricos submetendo os pobres. Conforme dito no capítulo sobre o método, segundo a posição da Psicopatologia Fundamental, o psiquismo constitui resposta à incidência de pathos. Aquilo que afeta a partir do exterior enseja a urgência por defesas, atribuição de sentido e constituição de experiência. Esta operação fundamental do humano teria, segundo tal concepção, a possibilidade de suturar o tecido humano, penetrado pelas forças vindas do estrangeiro. No entanto, a partir do contexto transferencial que foi possível constituir com Joaquim, passamos a questionar a que ponto poderia chegar a insuficiência imunológica psíquica diante da incidência de pathos de forma tão óbvia quanto aquela que pensamos poder tê-lo atingido. Quando falamos em obviedade de pathos, tentamos expressar aquilo que imaginamos ser o excesso do excesso, já próprio de pathos. Tentativa de 36 quantificar o que imaginamos estar além das possibilidades de “metabolização psíquica” (ENDO, 2005). A respeito deste ponto, cabe-nos salientar que reconhecemos que a obviedade não guarda qualidade de sinônimo ao excesso. Pathos é excessivo por natureza e a obviedade, a crueza, é a forma como vimos tentando explicitar sua excessividade essencial. Neste sentido, reconhecemos que o excesso pode atingir o sujeito por vias muito sutis. A obviedade da qual tratamos circunscreve-se, portanto, ao caso aqui tratado, no qual parece haver a expressão de um afeto excessivo em relação às possibilidade imunológicas oferecidas pelo psiquismo do paciente. A maneira como a violência atingiu Joaquim, desde muito cedo, impõe-se de maneira óbvia em relação à sua existência, à sua participação em sua constituição subjetiva. Parece-nos que a principal estratégia de Joaquim para lidar com o terrível de pathos era comunicá-lo em sua crueza, atestá-lo em seu corpo em um pedido de reconhecimento dirigido ao Outro. Neste sentido, pensamos em uma repetição, no corpo, da cena patogênica como tentativa de resposta imunológica. Nossa hipótese: diante do caráter/natureza tão óbvia da incidência de pathos desde muito cedo imposta a Joaquim, seria para ele possível uma construção simbólica da ordem do sintoma para representar e constituir experiência egoica a respeito daquilo que o afetou? A obviedade do trauma, a cercear a fantasia a respeito do mesmo poderia ter comunicado a Joaquim que sua saída poderia ser (su-)portar, em seu corpo, sem representação semântica, as marcas de pathos, reconstruindo-as e reiterando-as quando fosse necessária sua representação, de forma análoga ao ritual do obsessivo ou o desmaio do histérico? 37 Nossa impressão é a ter havido um excesso de trauma no corpo, sem a mesma expressão em relação ao psiquismo, como se Joaquim fosse capaz de utilizar seu corpo como uma carapaça, fechando seus “buracos psíquicos”, impedindo a incidência do afeto e a constituição de defesas psíquicas mais elaboradas. O que pudemos ver e vivenciar junto a Joaquim foi o descompasso entre a dor física e a dor psíquica. Oferecer o corpo parece ter sido uma potente solução à permeabilidade psíquica em relação ao afeto. Um possível reconhecimento da existência de um afeto que o atinge, que causa dor psíquica, pode ter se transformado em uma ideia de que sempre há o Outro a agredi-lo. A violência veiculada passa a ser portada pelo Outro e passa a vir sempre de fora, livrando-o da constatação a respeito da própria violência e da própria destrutividade. Segundo esta hipótese, a solução encontrada por Joaquim para relacionar-se com seus afetos, suas fantasias, parece ser da ordem do delírio. Ainda que possamos encontrar seus agressores no mundo, o contexto em que se tornaram agressores deve ser levado em consideração. Ao que parece, foram aí colocados como peças em um tabuleiro, por Joaquim, exercendo no mundo sua convicção delirante. Segundo Berlinck (2000), o aparelho psíquico é uma resposta à violência primordial que atinge o homem. O psiquismo se presta a tornar viável a existência do homem originalmente desamparado. No entanto, existem situações em que a resposta imunológica oferecida pelo psiquismo é insuficiente. A violência tem sobre o sujeito este duplo efeito. Se por um lado é fator de sua constituição, por outro pode causar sua fragmentação. Qual seria então o limite de capacidade de representação da operação simbólica – sintoma – para alguém? Reconhecemos a ausência de limites lógicos quando se trata do inconsciente, mas no caso de Joaquim reconhecemos, concomitantemente, sua inscrição como sujeito na realidade compartilhada e sua 38 impossibilidade de representação sintomática daquilo que o afetou. Torna-se, então, um manifesto corpóreo, tão óbvio quanto enigmático. Aventamos, aqui, a possibilidade de um impossível do sintoma diante da violência. Existe, sim, violência representável - como se reconhece em relação à ameaça de castração, por exemplo. No entanto, a depender da virulência do ataque (tomando a imagem oferecida por Berlinck, 2000) e da vulnerabilidade do sujeito, a mensagem poderia restar sem destino, sem crítica e sem símbolo, ricocheteando até fazer sangrar a carne do corpo. Contava sua história como se fosse a história do mundo. Não havia o reconhecimento da própria subjetividade em sua ligação com o relato. A possibilidade de, pelo relato, constituir experiência a respeito dos transtornos impostos a partir de sua relação com o outro, encontrava-se cerceada. Seu discurso, mesmo quando provocado a falar de sua história era assustadoramente (para o clínico) convencional. Falava da desigualdade social, das injustiças, da polícia a serviço das classes mais favorecidas, do mau atendimento na rede pública de saúde etc. Sua história particular e o modo como a vivenciou só se podia reconhecer na topografia de sua pele. Da mesma forma como fazia em outros espaços por onde transitava, Joaquim trouxe para o âmbito da clínica, por meio da relação transferencial, a violência. Suas palavras ventilavam os elementos de um mundo não apenas perigoso, mas essencialmente violento. Não se tratava de medir os riscos, mas de esperar a pancada. O clínico passou a fazer parte desse mundo, e logo foi colocado na posição de um potencial agressor. O paciente fazia constantes provocações. Faltava às sessões sem avisar, mesmo ciente do deslocamento inútil de seu terapeuta até o local de atendimento. Ressaltava, sempre, que tinha a impressão de ser eu apenas um estudante, que “nem se formou ainda”. Dizia, sempre, algo como: “se eu não pago nada e você tem 39 que vir até aqui pra me atender, pagar condução, então você paga pra me atender, né?” Fazia comentários pejorativos em relação ao sapato, às roupas, e à mochila do clínico – “coisa de estudante”. Mesmo com sua limitação física, esforçava-se ao máximo para me ultrapassar quando descíamos as escadas. O amor inicial passou a concorrer com o ódio que as provocações e provações impunham. Por muitas vezes fui com ele violento. No entanto, foi apenas assim que pude, experimentando na pele, construir as primeiras hipóteses sobre o caso e a de que era exatamente assim como ele constituía sua própria experiência, marcando suas vivências na própria pele. Se Freud (1915 [1914]) fala de um amor de transferência, dirigido à figura do médico idealizada por suas histéricas, falamos de seu oposto quase necessário: o ódio na contratransferência, imposto quando a violência veiculada pelo relato de pathos atinge o terapeuta provocando sua ira contratransferencial. No entanto, no discurso que se torna experiência e afeta o par analítico, é justamente o amor convertido em ódio que permite cogitar sobre a relação deste paciente com seus pares, com o mundo. É odiando-o que seu terapeuta pode enxergá-lo como aquele que atrai para si a ira, em um primeiro momento, talvez a ira de seu pai, desviando-a de sua mãe. Depois de outros e dentre estes, daquele que se propunha a escutá-lo. Permeada pelo ódio contratransferencial, a relação pode constituir um relato acerca de pathos que afeta o sujeito. Uma ainda remota chance de interromper o ciclo de repetição do excesso do excesso de pathos – algo possivelmente irrepresentável pelo sujeito pela via do sintoma e que busca vã representação na repetição. 40 3 COMPULSÃO À REPETIÇÃO: A PULSÃO DE MORTE E O ATO Dizemos que é acidente, puro acaso, porque na coação à repetição o mal que se precipita sobre a subjetividade parece provir de uma causa externa. (Gerez-Ambertín, 2009, p. 132) 3.1. Pulsão de morte – conceito Se pretendemos, assim, tratar da repetição como expressão do irrepresentável pela via do sintoma, necessário será tratar da pulsão de morte, uma vez que sabemos ser a compulsão à repetição seu meio de expressão. Em, “Além do princípio do prazer” (1920), Freud afirma definitivamente a ideia de uma pulsão de morte. Em sua experiência clínica, depara-se com a “compulsão à repetição”, algo que entende não ser conciliável apenas com o sistema que havia postulado anteriormente, polarizado entre o princípio do prazer e o princípio da realidade. Sobre as origens da compulsão à repetição, escreve: (...) a compulsão à repetição deve ser atribuída ao reprimido inconsciente. Parece provável que a compulsão só possa expressar-se depois que o trabalho do tratamento avançou a seu encontro até a metade do caminho e que afrouxou a repressão. (...) É claro que a maior parte do que é reexperimentado sob a compulsão à repetição deve causar desprazer ao ego, pois traz à luz as atividades dos impulsos instintuais reprimidos. 41 (...) compulsão à repetição também rememora do passado experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo a longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que desde então foram reprimidos. (FREUD, 1920, p. 31) Como sugerem Quinodoz (2007) e Gay (1989), o texto de 1920 não teria sido muito bem recebido pelos pares de Freud em um primeiro momento, e até hoje se revela um dos pontos mais controversos de sua teoria; O aspecto altamente especulativo deste texto difícil, assim como as dúvidas que o próprio Freud manifesta sobre a validade de suas afirmações, fazem com que estas hipóteses sejam recebidas com extrema reserva. Por isso, aqueles que as contestaram, ficaram bastante tentados a considerá-las unicamente como a expressão de angústias pessoais de Freud diante da morte. (QUINODOZ, 2007, p. 206) Na biografia de Freud escrita por Peter Gay (1989), podemos observar que no período do pós-guerra, Freud estava às voltas com a morte que se repetia diante de seus olhos. Em 1919, o suicídio de Tausk, o câncer do amigo Anton Von Freund e, em 1929, a morte da filha Sophie, grávida de seu terceiro filho, pela gripe espanhola. Freud alimentava, ainda, a superstição de que morreria com a idade de 62 anos, fato que deveria ocorrer entre os anos de 1918 e 1919 (QUINODOZ, 2007, p. 206). Pode-se reconhecer no próprio texto o cuidado tomado por Freud na proposição deste novo elemento de sua teoria, aproximando-o da ideia de um mito psicanalítico. Parecia ele antever as discussões que surgiriam a partir de então: À parte isso, a ciência tem tão pouco a nos dizer sobre a origem da sexualidade, que podemos comparar o problema a uma escuridão em que nem mesmo o raio de luz de uma hipótese penetrou. Em outra 42 região, inteiramente diferente, é verdade, defrontamo-nos realmente com tal hipótese, mas é de tipo tão fantástico, mais mito do que explicação científica, que não me atreveria a apresentá-la aqui se ela não atendesse precisamente àquela condição cujo preenchimento desejamos, porque faz remontar a origem de um instinto a uma necessidade de restaurar um estado anterior de coisas. (FREUD, 1920, p. 67) No entanto, os estudiosos da obra de Freud admitem o valor de sua proposição de 1920, sobretudo por reconhecerem, também por meio da prática clínica, a compulsão à repetição, expressão da pulsão de morte. A concepção da pulsão de morte reordena a polarização pulsional (prazer-realidade) anteriormente concebida por Freud, introduzindo a “demoníaca” no jogo das cargas sexuais, como melhor elucida Jurandir Freire Costa (1984): Em 1920, como se sabe, Freud escreve “Além do princípio do prazer”, criando a noção de pulsão de morte. Esta noção vai subsumir noções anteriores (...). A pulsão de morte reordena a antiga divisão pulsional, colocando no primeiro plano da vida psíquica a tendência à destruição do sujeito e do objeto. Agora, ao lado da sexualidade, a destruição vai interferir decisivamente na explicação dos mecanismos mentais e passar a ser considerada um dos elementos primordiais no destino da vida psíquica e social do homem. (p. 23) A compulsão à repetição foi considerada por Freud expressão de uma pulsão “demoníaca” a partir de seu estudo acerca dos sonhos dos traumatizados e das brincadeiras das crianças. Reconheceu ali um padrão de repetição, dentro e fora da análise, com a atuação ocorrendo onde esperava que ocorresse a lembrança elaborada. Reconheceu portanto, naquele momento, que o fenômeno a partir da lógica do princípio do prazer restaria “inexplicado o bastante para justificar a hipótese de uma compulsão à 43 repetição, algo que parece mais primitivo, mais elementar e mais instintual do que o princípio de prazer que ela domina” (FREUD, 1920, p. 34). O retorno do reprimido pela repetição sugeria a Freud a imposição de desprazer ao ego. No entanto, este desprazer não constituiria, por si só, contradição ao princípio do prazer, pois traria “desprazer para um dos sistemas e, simultaneamente, satisfação para outro” (FREUD, 1920, p. 31). A impossibilidade de reconhecimento de relação com o princípio do prazer se dá a partir do que Freud reconhece como “experiências que não incluem possibilidade alguma de prazer e que nunca, mesmo há longo tempo, trouxeram satisfação, mesmo para impulsos instintuais que desde então foram reprimidos” (FREUD, 1920, p. 31). Aí sim, estaria o elemento introdutor da impossibilidade de manutenção do sistema polarizado de conservação de energias anteriormente postulado por Freud. 3.2 Compulsão / coação à repetição O caráter compulsivo atribuído à repetição se funda justamente na constatação de ausência de prazer, como sugere Quinodoz (2007): A compulsão à repetição decorre na verdade de um conflito entre o ego e sua coesão, e o reprimido, conflito que implica, igualmente, a intervenção do reprimido inconsciente, segundo ele. Qual a relação que existe neste caso entre a compulsão à repetição e o princípio do prazer? Observando este tipo de relação, constata-se que as experiências do passado trazidas de volta pela compulsão à repetição não comportam nenhuma possibilidade de prazer, nem na psicanálise nem na vida cotidiana. (p. 208) 44 Não se trata mais, a partir de então, de pensar em um sistema de prazerdesprazer. Adentra esta relação um novo elemento a fazer circular entre a vida e a morte o pêndulo pulsional humano e ao introduzir uma tendência da vida de retorno às suas origens inorgânicas, ainda que aí possa se reconhecer pela via do instinto um elemento da vida. Podemos tomar como exemplo o equilíbrio alcançado quando os salmões retornam ao seu local de nascimento e morrendo após a desova, fertilizam com seu corpo morto o ambiente em que nascerão seus descendentes. No entanto, cremos estar a hipótese freudiana também ligada à possibilidade humana de constituição de um mundo interno, igualmente fonte de prazer–desprazer: O princípio de prazer parece, na realidade, servir aos instintos de morte. É verdade que mantém guarda sobre os estímulos provindos de fora, que são encarados como perigos por ambos os tipos de instintos, mas se acha mais especialmente em guarda contra os aumentos de estimulação provindos de dentro, que tornariam mais difícil a tarefa de viver. Isso, por sua vez, levanta uma infinidade de outras questões, para as quais, no presente, não podemos encontrar resposta. (FREUD, 1920, p. 74) Segundo Roudinesco e Plon (1998), foi a partir da observação da compulsão à repetição, situação em que o sujeito se colocaria “em situações dolorosas, réplicas de experiências antigas” (p. 631) que Freud teria pensado em teorizar a pulsão que chamou de pulsão de morte. Sob este ponto de vista, podemos considerar que Joaquim estaria, de alguma forma, dominado por essa compulsão, impossibilitado de encontrar solução diversa a não ser a repetição como definida acima. Segundo a ideia que vimos desenvolvendo, tal impossibilidade dever-se-ia à insuficiência do aparelho psíquico diante de um afeto por demais violento. 45 Marta Gerez-Ambertín coloca interessante questão em relação à tradução do termo “compulsão à repetição”, sugerindo que o mais adequado, segundo seu entendimento sobre a intenção de Freud, seria a utilização do termo “coação à repetição: (...) para isso, parece-me imprescindível, em primeiro lugar, retornar à debatida questão da conceituação de coação à repetição (wieder-holung-zwang). (...) Freud introduz o termo coação e o vincula à “compulsão de destino”, dando ao termo coação o caráter de algo obrigatório que pressiona a partir de dentro; daí preferirmos o termo coação em lugar de compulsão, pois “coação” destaca esta força violenta e aparentemente intrusiva que toma de assalto a subjetividade. (GEREZ-AMBERTÍN, 2009, p. 127) Pensamos que a ideia de coação à repetição faça mais sentido se pensada em relação ao papel do superego na “máquina” da compulsão à repetição, no âmbito tópico. Em relação à pulsão de morte, o termo compulsão à repetição nos parece adequado para descrever a maneira como estamos sujeitos à dinâmica pulsional. Esta não nos parece ser uma questão de escolha do uso de um dos termos, mas da possibilidade do uso de ambos, a depender daquilo que desejamos expressar sobre a pulsão de morte e sob qual dos ângulos a miramos. Segundo Rechardt (1988), a pulsão de morte seria inerente ao homem e representaria uma luta obstinada em busca de paz e repouso, sem importar qual o meio para alcançá-la ou a forma que tome. Para esse autor, a pulsão de morte seria um dos paradigmas do funcionamento psíquico, que não visaria simplesmente transformar o inanimado em animado. O autor coloca, ainda, a questão do funcionamento da pulsão de morte em paralelo com relação a Eros: 46 Deste ponto de vista Eros e pulsão de morte são tendências psíquicas independentes uma da outra. Eros busca intensificar a vida: luta por uma totalização mais ampla e um incremento da tensão energética. A meta principal de sua intenção psíquica é o prazer (sem se afastar do desprazer, e, desta forma, sem levar em conta as perturbações). A pulsão de morte procura eliminar o que aumenta a tensão energética e reduzir esta tensão, decorrente da não-ligação, ao seu mínimo (princípio de Nirvana) ou pelo menos mantê-la ao abrigo de qualquer mudança (princípio de constância). (RECHARDT, 1988, p. 43) Ao afirmar que o trabalho de Eros e da pulsão de morte formariam um sistema binário no qual um não existe sem o outro, Rechardt reconhece, de maneira bela, que tal associação poderia criar “uma infinidade de formas de vida e de morte” (p. 51). No caso estudado, não se pode reconhecer qualquer possibilidade de prazer na repetição do traumático de forma tão contumaz. Devemos, assim, reconhecer que a repetição observada deve estar sendo regida pela lógica definitivamente proposta por Freud em 1920. Não pretendemos, no entanto, sugerir que a compulsão à repetição aconteceria somente naquelas situações em que estaria barrada a via do sintoma. Como bem reconhecemos em nossa atividade clínica, a pulsão de morte se expressa através da compulsão à repetição com grande frequência, fazendo desta a própria expressão sintomática. A oposição que pretendemos traçar, em momento oportuno, diz respeito à qualidade simbólica do sintoma neurótico e da repetição como atuação ou como uma “forma precária de captura” (ENDO 2005, p. 145). Segundo Gerez-Ambertín (2009), a compulsão à repetição teria o poder de precipitar o sujeito a atos “que parecem brotar-lhe pelas costas” (p. 128). Este seria o resultado de uma pressão interna, que “coage, domina, que resulta tão ingovernável que o sujeito a vivencia como estranha a seu ser (...) trata-se de um procedimento alheio ao sujeito já que ele tem a impressão de ser perseguido pelo destino (...)” (p. 128). Para a 47 autora, o movimento de coação à repetição estaria sempre acompanhado de culpa e sacrifício, como tentativas de encobrimento da falha em relação à força da lei. Em tais atos, que parecem brotar pelas costas do sujeito, temos especial interesse, uma vez que pensamos ser assim que Joaquim pode sentir a respeito de seus próprios atos. Dedicamos a esta questão, capítulo à parte. 48 4 VIOLÊNCIA, AGRESSIVIDADE E DESTRUTIVIDADE: EXPRESSÃO PELO MASOQUISMO E PELO SACRIFÍCIO Como sabemos pelas nossas próprias experiências de vida, a violência incide sobre o humano cotidianamente. Com Joaquim não foi diferente. Como percurso até a relação que pretendemos traçar entre a insuficiência imunológica psíquica e a compulsão à repetição como saída única de protorrepresentação do trauma possivelmente imposto pela incidência de pathos, introduzimos aqui o tema da violência como expressão legítima do humano, uma vez que a repetição da cena violenta/patogênica seria o objeto de repetição que reconhecemos no funcionamento psiquismo de Joaquim. Desde a concepção da pulsão de morte por Freud, veremos que a discussão a respeito da expressão humana pela violência tem ocupado os estudiosos da psicanálise. Faremos breve discussão conceitual a respeito das aproximações e distinções entre violência, agressividade e destrutividade. Tal discussão será conduzida, no entanto, a partir da posição de Freud em relação a tais conceitos e dos movimentos em relação aos mesmos observados em sua obra. Trataremos, ainda, de algumas formas de expressão da violência por meio do masoquismo e do sacrifício. Segundo Costa (1984), a concepção aristotélica da violência seria a da “qualidade do movimento que impede as coisas de seguirem seu movimento natural” (p. 16). Segundo tal ideia, a violência estaria sempre na condição daquilo que impede o movimento. Neste sentido, encontramos uma aproximação à ideia freudiana a respeito da violência, sobretudo como forma de expressão da pulsão de morte. Como vimos no capítulo anterior, a pulsão de morte estaria a serviço do retorno a um estado ideal de ausência de perturbação e de excitação. 49 Sugerimos, então, que tomemos a violência - antes mesmo de naturalizá-la ao humano ou reputá-la à expressão social/política - como uma força contrária ao seguimento do movimento, como a concebeu Aristóteles, e seguindo o apontamento de Costa. Esta concepção pode estender-se à ideia que vimos sustentando de pathos (em essência, excessivo) como introdutor de um tipo de trauma de natureza tão intensa a ponto de debelar algumas das possibilidades imunológicas oferecidas pelo psiquismo, sobretudo a capacidade de simbolização e acesso ao sintoma, que permitiria a formação de compromisso com a realidade, ao passo que sustentaria a relação do sujeito com o próprio traumatismo em um registro em que seja possível recorrer ao simbólico. Mesmo se levarmos em conta a violência constitutiva do sujeito encontramos aí, no movimento de constituição do psiquismo, um desvio do natural, se considerarmos o devir do psiquismo a própria desnaturalização/desanimalização do animal humano. 4.1. Violência, agressividade e destrutividade: distinções e aproximações no uso dos conceitos Costa aponta uma interessante distinção entre a violência necessária a constituição psíquica do sujeito (no início da vida) daquela à qual atribuímos, nesta pesquisa, a qualidade distintiva de óbvia/excessiva, ao afirmar que “identifica-se trauma infantil com violência, fazendo do primeiro termo – este sim condição sine qua non da existência psíquica – sinônimo do segundo, fenômeno gratuito em relação às necessidades do desenvolvimento psicológico da criança” (COSTA, 1984, p. 22). Segundo Souza (2005), é preciso reconhecer que “a disposição para a violência está em todos nós. Ela está na origem da cultura, no mito do assassinato do pai 50 primordial que a funda (...) e na aniquilação repetitiva dos dominados pelos dominadores” (Souza, 2005, p. 29). Ainda segundo a posição da autora, a violência teria maior possibilidade de irrupção “onde há uma lei simbólica degradada” no interjogo entre a cultura e a subjetividade. Aí se poderiam sentir os “efeitos mortíferos da ‘moção maligna’ (termo utilizado por Freud em “Totem e tabu”); os mandatos ferozes do supereu.” (p. 31). Tal posição é questionada por Jurandir Freire Costa, que enfatiza o que considera ser um equívoco praticado por outros teóricos ao fazerem da ideia de pulsão de morte prova de uma violência natural do homem: Com base na representação, bastante difundida em seu tempo, de que o homem é o lobo do homem, Freud sempre procurou mostrar o que havia de destrutivo e agressivo no comportamento e nos desejos mais recônditos do sujeito. Depois de seu estudo sobre a pulsão de morte, esta crença tendeu a firmar-se e, retomada a torto e a direito, por seus discípulos e continuadores, passou a funcionar como prova da violência existente na “natureza humana” e na “natureza das relações sociais.(COSTA, 1984, p. 22) Em sua conhecida comunicação a Albert Einstein, datada de setembro de 1932, Freud trata da inclinação natural do homem ao uso da violência, no contexto da guerra, fato que tentavam compreender em comunicação mútua: (...) Entre eles está certamente o desejo da agressão e destruição: as incontáveis crueldades que encontramos na história e em nossa vida de todos os dias atestam a sua existência e a sua força. A satisfação desses impulsos destrutivos naturalmente é facilitada por sua mistura com outros motivos de natureza erótica e idealista. Quando lemos sobre as atrocidades do passado, amiúde é como se os motivos idealistas servissem apenas de escusa para os desejos destrutivos; e, às vezes - por exemplo, no caso das crueldades da Inquisição - é como se os motivos 51 idealistas tivessem assomado a um primeiro plano na consciência, enquanto os destrutivos lhes emprestassem um reforço inconsciente. Ambos podem ser verdadeiros. (FREUD, 1932, p. 203 \ 204) Freud situa as razões políticas e idealistas para a violência no plano consciente, enquanto do inconsciente viriam suas causas “naturais”, a partir de impulsos destrutivos. Costa introduz o papel do desejo no contexto da expressão humana da violência, enquanto expressão aparentemente irracional, assim como estabelece a intencionalidade do uso violento da agressividade, considerando que: Violência é o emprego desejado da agressividade, com fins destrutivos. Este desejo pode ser voluntário, deliberado, racional e consciente, ou pode ser inconsciente, involuntário e irracional. A existência destes predicados não altera a qualidade especificamente humana da violência, pois o animal não deseja, o animal necessita. (...) Nada disso ocorre na violência do homem. O objeto de sua agressividade não só é arbitrário como pode ser deslocado. Este pressuposto é indissociável da noção de irracionalidade que acabamos de mencionar e corrobora a presença do desejo em qualquer atividade humana, inclusive na violência. (COSTA, 1984, p. 30) A relação do humano com a violência obedece a um duplo estatuto. Estamos, a todo momento, em contato com esta duplicidade que determina tantos binômios. Atividade e passividade, sadismo e masoquismo, dominação ou sujeição. A violência permeia mais aspectos de nossas vidas do que costumamos admitir. A negação da violência é assunto tratado por Isabel Khan Marin (2002) em “Violências”. Segundo a autora, embora contenhamos elementos da violência em nossa fundação, negamos a violência como resto de um crime; o crime nos insere na cultura. Preocupamo-nos muito com a violência, mas não admitimos qualquer relação com ela: 52 O homem da cultura é herdeiro e cúmplice de um crime, fato que tenderá a ser negado e perpetuado por toda a humanidade. As vicissitudes do complexo de Édipo retomam, na constituição da subjetividade de cada um, toda essa contradição. (...) nesse paradigma clássico da psicanálise já temos elementos que levam a pensar na questão da violência como elemento fundante da subjetividade. (MARIN, 2002 p.18) A autora coloca a violência na alçada do unheimlich, o estranho, parte de nós que não reconhecemos como familiar. Neste sentido a violência seria por nós experimentada como o recalcado ameaçador. Aponta, ainda, que mesmo a relação mãe-bebê é permeada por violências: “o infans é violentado pelo discurso da mãe, que lhe marcará a existência do mundo em confronto com sua psique” (MARIN, 2002 p. 19). A criança é violentada pela mãe ao ser privada, por exemplo. Jeammet e Corocos atestam o papel do ambiente na qualidade da relação entre o sujeito e a violência que o atinge. Atribuem à qualidade da representação interna do papel dos pais a capacidade do sujeito para tolerar as investidas da violência, no sentido do que Berlinck (2000) denominou sistema imunológico psíquico. Vejamos: Os arranjos da violência e suas modalidades de expressão vão depender por vezes da organização psíquica interna do sujeito e do ambiente. O lugar deste último será tão mais importante quanto a organização psíquica for mais frágil e não puder exercer seu papel de tampão, revezamento do papel dos pais da infância, na interface dos dois mundos; interno e externo. (...) Qualquer que seja o modo de expressão, a marca da violência é a do excesso. Excesso de urgência, excesso de coação, excesso de intensidade, os quais refletem, todos, o transbordamento do Ego e, por isso mesmo, a ameaça de desorganização que pesa sobre ele. (JEAMMET e COROCOS, 2005, p. 81) 53 Por outro lado, a violência e o excesso que necessariamente a acompanha é sempre vista por Jeammet e Corocos como possível desorganizador do ego. Para a Psicopatologia Fundamental, a violência, enquanto pathos, somente será desorganizadora do ego se ultrapassar as possibilidades imunológicas do sujeito. Se assim não for será elemento de organização da psique. Quanto ao conceito de agressividade, valer-nos-emos da definição oferecida por Laplanche e Pontalis (2001), que afirmam ser a agressividade uma “tendência ou conjunto de tendências que se atualizam em comportamentos reais ou fantasísticos que visam prejudicar o outro, destruí-lo, constrangê-lo, humilhá-lo etc” (p. 11). Tais autores esclarecem não existir qualquer tipo de comportamento que não possa funcionar como agressão, exemplificando a ideia com atos que podem parecer, em um primeiro momento, um tanto pacíficos como a ironia e a simples recusa de auxílio. No entanto, analisando a evolução do conceito na obra de Freud, Laplanche e Pontalis (2001) destacam que com o advento da ideia de uma pulsão de morte, Freud teria minado a noção clássica de agressividade como modo de relação com outrem, violência exercida sobre outrem, “localizando a origem da pulsão de morte na própria pessoa, fazendo da autoagressão o próprio princípio da agressividade” (p. 12). Afirmam, no entanto, que causar danos ao objeto ou aniquilá-lo seria indiferente à pulsão de morte, uma vez que seu escopo é o de manter o estado geral de não excitação. Agressividade, assim, não comporta necessariamente o sentido de destruição, podendo ser apenas a expressão da indissociável interação entre os dois registros pulsionais que coexistem, o de Eros e o da pulsão de morte. Agressivamente, reagimos à excitação causada pela não ligação pulsional. No entanto, não é sempre que engendramos a destruição da fonte de excitação. Podemos nos valer da agressividade apenas como forma de proteção contra o excesso 54 que nos atinge. Podemos encontrar agressividade em simples gestos, como o de atravessar uma rua movimentada, por exemplo. Quanto à destrutividade, por outro lado, pensamos conter o necessário sentido de busca pela destruição do Ego ou do objeto. A destrutividade, portanto, estaria mais próxima de uma expressão da pulsão de morte que conteria o sentido de aniquilação do objeto e/ou do Ego como solução à perturbação imposta ao sujeito. Agressividade, por sua vez, seria a resposta em forma de movimento, capaz de alterar a trajetória pulsional, de modo a proteger o Ego da excitação, do excesso. Endo (2005) faz interessante aproximação metapsicológica da destrutividade com o superego, que reproduzimos aqui, e que exploraremos em momento oportuno: (...) o superego é apresentado como versão interiorizada da destrutividade, do autoritarismo e da criueldade que, entretanto, retirou todos os seus ensinamentos de sua relação com os primeiros objetos de amor, prazer, horror e ódio. Esse é o momento em que, edipianamente, o sujeito lança-se nos braços de seu objeto de amor e é mortal e violentamente interpelado. (ENDO, 2005, p. 194) Tanto a ideia de destrutividade quanto a de agressividade estariam de acordo com a finalidade da violência, segundo a vimos definindo, enquanto qualidade de um tipo de movimento a impedir o movimento natural das coisas. A solução, pela via da destrutividade, seria a eliminação da ameaça justamente pela eliminação do obstáculo, enquanto a solução, pela via da agressividade, estaria mais ligada ao desvio da trajetória da libido, abrandando sua circulação e favorecendo, até certa medida, o trabalho de Eros. 55 Endo (2005) chama nossa atenção para aquilo que considera um “intrincamento pulsional” presente na metapsicologia freudiana, de modo que a “pulsão de vida (Eros) orienta o sentido da pulsão de morte e indica seu destino” (p. 207). De forma análoga, a pulsão de morte teria também a prerrogativa de determinação dos destinos do trabalho de Eros. Outra faceta de tal intrincamento entre as pulsões sexuais e as pulsões de morte apontada pelo autor é a frequente associação pulsional entre expressões não sexuais (dominação, destruição e vontade de poder) e outras sádico-masoquistas. A partir da ideia da existência de um intrincamento pulsional, uma forma de complementaridade funcional entre os registros pulsionais, reconhecemos existir, em nossa perspectiva, a partir do caso que vimos analisando, também uma forma de intrincamento entre os registros pulsionais a partir dos quais emergiriam diferentes variantes da violência. Assim, agressividade e destrutividade como expressões da pulsão de morte, podem ser entendidos, no caso, como diferentes componentes de uma mesma expressão pela violência, sobretudo por meio do ato - capaz de concentrar e então difundir os diferentes componentes, de forma indiferenciada - em que o sujeito estaria alheio ao reconhecimento das peculiaridades de sua própria violência. A tentativa de distinção entre agressividade e destrutividade , segundo podemos depreender a partir da leitura de Endo (2005) a respeito da obra de Freud, também acaba por encontrar-se “intrincada” na forma da pulsão de morte, que conteria ambos os sentidos de expressão modulados a partir de uma mesma origem – pulsão de morte. No caso de Joaquim, podemos encontrar formas da violência – qualidade de movimento a impedir o movimento – que poderíamos aproximar da ideia de agressividade, assim como aquelas que poderíamos aproximar da destrutividade. Não temos a intenção, no entanto, de submeter a este crivo distintivo a expressão de sua 56 violência. Pensamos ser mais interessante fazer como Freud fez, inscrevendo tais registros na lógica da pulsão de morte, pensando o caso a partir da relação da pulsão de morte com a expressão e repetição da violência. Novamente recorremos a Paulo Endo para elucidar o movimento observável na obra de Freud a respeito da nomeação de diversas moções pulsionais relacionadas à violência, posteriormente reunidos sob a égide da pulsão de morte: As diferenças que Freud esclarece entre agressividade, sadismo, destruição, dominação, morte, masoquismo, sofrimento trauma, dor, falam de uma obra que reconheceu nas violências um dos núcleos de sua estruturação teórica; que as percebeu em sua pluralidade e não abdicou delas em nome de uma universalização explicativa que as ordenasse cabalmente. Prova disso foi a insistência freudiana em manter a problemática da violência inscrita na metapsicologia das pulsões, desde o aparecimento em seus textos até o final, aproveitando o caráter plural e múltiplo inscrito no próprio conceito de pulsão e no uso e abuso de Freud na nomeação de tantas pulsões parciais quantas fossem suas intuições sobre o tema (pulsão de agressividade, pulsão de crueldade, pulsão de dominação, pulsão de destruição, pulsão sadomasoquista). Freud sabia da impossibilidade de universalizar ou capturar o fenômeno da violência numa hipótese ou conceito geral, e quando poderia fazê-lo, na segunda teoria das pulsões optou por nomeá-lo em sua forma paradoxal e extensa – pulsão de morte – na qual a violência é carregada de inerência e imprecisão, inscrita num movimento vital paradoxal, visível sob formas infinitamente variáveis. (ENDO, 2005, p. 217) Assim, embora Freud nomeie diversas variantes da pulsão de morte ao longo de sua obra, especialmente em suas primeiras formulações a respeito do tema, em nossa pesquisa trataremos do fenômeno em sua relação com a pulsão de morte, que pensamos muito bem agrupar tais fenômenos, sem, no entanto, pretender inscrever a violência dentro de um conceito geral, como sugere Paulo Endo (2005). Também é esta a posição defendida por Marta Gerez-Ambertín (2009): Insistirei, neste artigo, particularmente sobre o fato de que a teoria psicanalítica da agressividade não deveria se limitar ao relato do comportamento agressivo e destrutivo, e aos conteúdos psíquicos 57 correspondentes, mas que deveria retornar às suas origens afim de voltar a ser uma teoria da pulsão de morte. Assim, dever-se-á entender por pulsão de morte ativa, permanente e obstinada, para reencontrar um estado de paz conhecido anteriormente: esforço por se livrar do que é vivido como perturbador e/ou mantenedor da inquietude. A morte é apenas uma forma particular deste estado de paz e a destruição é somente um dos meios de lutar para alcançá-lo. O propósito central e principal da pulsão de morte é o nome de um paradigma relativo ao funcionamento psíquico. (p. 58) Mais importante pensamos ser a análise da forma – e não a tão longínqua origem – de sua expressão. Para tanto, trataremos da expressão da violência, em termos de masoquismo e sacrifício, estabelecendo relações entre outros fatores que pudemos observar no caso e a razão presente no masoquismo e no sacrifício. 4.2. Masoquismo e sacrifício Estas são as formas pelas quais a violência pode se expressar, e que pensamos ter estreita relação com o caso que confere a esta pesquisa a qualidade clínica que pretendemos alcançar. Assim, é mister abordar, aqui, os desdobramentos da violência no masoquismo e no sacrifício. De acordo com nossa hipótese inicial, são pontos nodais para a abordagem da violência em nossa pesquisa. No que diz respeito ao masoquismo, também pensamos ser de grande interesse para nossa pesquisa, uma vez que acreditamos ser esta a forma principal de expressão sintomática de Joaquim. 58 Algumas das primeiras formulações freudianas específicas a respeito do masoquismo podem ser encontradas no texto de 1915, “A pulsão e seus destinos”, texto em que Freud trata, entre outros aspectos relativos à dinâmica pulsional, da questão da reversão do instinto sádico em masoquismo. A reversão do instinto em seu oposto obedeceria a dois processos distintos, a mudança da atividade para passividade e a reversão de conteúdo, propriamente dita, sendo que a “reversão afeta apenas as finalidades dos instintos. A finalidade ativa (torturar, olhar), é substituída pela finalidade passiva (ser torturado, ser olhado). A reversão do conteúdo encontra-se no exemplo isolado da transformação do amor em ódio” (FREUD, 1915, p. 132). Não haveria, portanto, nessa lógica, alteração na finalidade do instinto, mesmo com a inversão do afeto, conforme sugere Freud (1915) ao afirmar que: O retorno de um instinto em direção ao próprio eu (self) do indivíduo se torna plausível pela reflexão de que o masoquismo é, na realidade, o sadismo que retorna em direção ao próprio ego do indivíduo (...). A observação analítica, realmente, não nos deixa duvidar de que o masoquista partilha da fruição do assalto a que é submetido (...). A essência do processo é, assim, a mudança do objeto, ao passo que a finalidade permanece inalterada. Não podemos deixar de observar, contudo, que, nesses exemplos, o retorno em direção ao eu do indivíduo e a transformação da atividade em passividade convergem ou coincidem. (p. 132) Em outro interessante trecho desse texto de 1915, Freud afirma ser a reversão de atividade em passividade tentativa de defesa que em fases mais elevadas do desenvolvimento do ego seriam efetuadas por outros meios, postulando que tal solução pela reversão e retorno do instinto em direção ao próprio ego, se encontraria na dependência da organização narcisista do ego. Quando comparamos os atos praticados por Joaquim - que nos parecem ser de 59 natureza masoquista - com aquilo que vimos chamando de sintomas de maior complexidade, cremos estar na esteira do que Freud postula em relação à solução masoquista do conflito intrapsíquico, classificando-a como recurso utilizado por um ego ainda pouco desenvolvido, uma vez que o instinto ativamente violento retorna sobre ele. No texto de 1919, intitulado “Bate-se em uma criança”, Freud, mais uma vez a partir de sua observação clínica, coloca a questão a respeito da recorrência daquilo que considera ser uma fantasia comum, resíduo do complexo de Édipo e que deixaria cicatrizes, “tal como o notório ‘sentimento de inferioridade’ corresponde a uma cicatriz narcísica do mesmo tipo” (FREUD, 1919, p. 208). Nesta fantasia - diferentes etapas, algumas ocorridas na esfera da consciência e outras operadas no inconsciente - culminariam na ideia de que o pai, ou aquele a representar sua função – professor ou outra figura de autoridade – estaria espancando uma criança. Segundo Freud, o resultado final seria: “o meu pai está batendo na criança, ele só ama a mim”. O grande valor que esse texto tem para nossa pesquisa é o desenvolvimento metapsicológico proposto por Freud a respeito da transformação dos impulsos sádicos em expressão masoquista. O recalque e o sentimento de culpa operariam de modo a deslocar a ênfase da fantasia “ele só ama a mim” para “o meu pai está batendo em uma criança”. Muito embora a ênfase no espancamento de outra criança seria apenas aparentemente uma expressão sádica, conforme a afirmação de Freud de que “apenas a forma dessa fantasia é sádica (...). Todas as crianças não especificadas, que estão sendo espancadas pelo professor, afinal de contas, nada mais são do que substitutos da própria criança” (1919, p. 206). Presente também no referido texto, está a ideia de que a passividade não seria a totalidade do masoquismo. Estaria também presente um “desconcertante 60 acompanhamento para a satisfação de um instinto” (1919, p. 209), o desprazer proveniente do avassalador sentimento de culpa: A transformação do sadismo em masoquismo parece deverser à influência do sentimento de culpa que participa do ato de repressão. Assim, a repressão opera, aqui, de três modos: torna inconscientes as consequências da organização genital, obriga essa organização a regredir ao anterior estádio sádico-anal e transforma o sadismo desse estádio em masoquismo, que é passivo e novamente, num certo sentido, narcísico. O segundo desses três efeitos torna-se possível pela fraqueza da organização genital, que deve ser pressuposta em tais casos. O terceiro torna-se necessário porque o sentimento de culpa faz tantas objeções ao sadismo, como à escolha objetal incestuosa, genitalmente concebida. (FREUD, 1919, p. 209) O sentimento de culpa aparece, portanto, como força a impor a transformação do sadismo em masoquismo, sustentando a fantasia de amor exclusivo, mas alterando a forma textual da fantasia de modo a torná-la suportável ao Ego. O valoroso texto de 1919 traz, ainda, a ideia de Freud a respeito da realização da fantasia de espancamento, por meio daquilo que entendemos ser uma forma de atuação, assim como aquelas que pensamos terem sido engendradas por Joaquim nas diversas situações em que se viu vitimado pela violência do outro. Segundo Freud (1919): Pessoas que abrigam fantasias dessa espécie, desenvolvem uma sensibilidade e uma irritabilidade especial contra quem quer que possam incluir na categoria de ‘pai’. São facilmente ofendidas por uma pessoa assim e, desse modo (para sua própria tristeza), efetuam a realização da situação imaginada de serem espancadas pelo pai. Não me surpreenderia se algum dia fosse possível provar que a mesma fantasia é a base do delirante espírito litigioso da paranóia. (p. 210) Pensamos que, no caso analisado, podemos identificar esta “realização da situação imaginada de serem espancadas”, entretanto, de forma mais crua do que a 61 vivência da fantasia, em si, recorrendo ao ato e ao real a marcar-lhe o corpo. A atuação de fantasia de espancamento e o contexto edípico envolvido em tal atuação será objeto, em momento oportuno, de reflexão e destaque. Mesmo com toda a construção metapsicológica alcançada no texto de 1919, Freud irá afirmar, ao final, que sua exposição da fantasia de espancamento pouco teria esclarecido a respeito da gênese do masoquismo, reconhecendo que haveria confirmação apenas de que “o masoquismo não é a manifestação de um instinto primário, mas se origina do sadismo que foi voltado contra o eu (self) - ou seja, por meio de regressão de um objeto para o ego” (FREUD, 1919, p. 209). Em “O problema econômico do masoquismo”, de 1924, Freud avança em sua concepção do masoquismo e faz longa exposição sobre a constituição de diferentes formas de masoquismo. As principais novidades, em relação às formulações anteriores, das quais vimos tratando até aqui, são a introdução do conflito fundamental entre pulsão de vida e pulsão de morte, assim como os componentes da segunda tópica – ego, id e superego. Com a introdução desses novos e tão relevantes elementos da teoria psicanalítica, o texto traz importante evolução na compreensão do masoquismo. Freud postula que no masoquismo haveria uma regressão a uma fase libidinal anterior, a fase sádico-anal, ao passo que haveria, ainda, a ressexualização do complexo de Édipo, determinada por um reinvestimento de objetos incestuosos edipianos. Tal condição imporia a necessidade masoquista do ego de ser punido pelo superego (QUINODOZ, 2007). O trecho que reproduzimos a seguir parece guardar estreita relação com o caso que vimos estudando: 62 O próprio sofrimento é o que importa; ser ele decretado por alguém que é amado ou por alguém que é indiferente não tem importância. Pode mesmo ser causado por poderes impessoais ou pelas circunstâncias; o verdadeiro masoquista sempre oferece a face onde quer que tenha oportunidade de receber um golpe. (FREUD, 1924, p. 183) O masoquismo a que se refere Freud no trecho citado aparentemente não guarda relação com o princípio do prazer. O que, segundo ele, torna tentador excluir a libido da descrição de seu funcionamento, atribuindo à pulsão de morte sua ação contra o self. No entanto, como veremos adiante, a libido também faz parte do sistema antagônico em que Freud situa a pulsão de morte, fator que denominou “intrincamento pulsional”, como destaca Endo (2005). Ainda no texto de 1924, Freud introduz a noção de um “masoquismo primário”, conceito que ultrapassa a vinculação necessária a uma “perversão masoquista”: ele abre uma nova perspectiva considerando que o conflito pulsão de vida/pulsão de morte constitui o próprio fundamento dos processos vitais, desde o início da vida, o que significa que o prazer de viver deve impor-se permanentemente sobre a tendência à autodestruição (QUINODOZ, 2007, p. 233). A respeito da desvinculação do masoquismo primário com a ideia de perversão, esclarece Quinodoz (2007): De fato, ao introduzir a noção de masoquismo primário ou erógeno, Freud procura sobretudo entender a noção de masoquismo para além da perversão propriamente dita, com o objetivo de assinalar que toda ligação do prazer sexual com a dor tem como fundamento primordial uma união entre a pulsão de vida e a pulsão de morte. (...) O masoquismo primário seria, portanto, um testemunho e um vestígio dessa fase de formação na qual se realizou 63 esta aliança, tão importante para a vida entre a pulsão de vida e Eros. Desde então, para ele, essa forma originária de masoquismo constitui-se como uma estrutura fundamental que desempenha o papel de guardião da vida, segundo suas próprias palavras. (p.235) Por fim, fica claro como Freud concebeu a questão da reversão do instinto, agora levando em conta a atuação do superego, quando afirma “o sadismo do superego e o masoquismo do ego suplementam-se mutuamente e se unem para produzir os mesmos efeitos” (FREUD, 1924, p. 187). Para Jeammet e Corocos (2005) o masoquismo representa uma maneira privilegiada de vinculação da violência em que pode se dar um funcionamento repetitivo mortífero: O masoquismo representa de maneira privilegiada uma dessas modalidades de vinculação da violência em uma agressividade, voltada contra si mesmo, cujo componente libidinal (e objetal) é susceptível de se degradar em uma ascendência e uma repetição mortíferas. (JEAMMET e COROCOS, 2005, p. 83-84) Afirmam ainda Jeammet e Corocos (2005), que a solução masoquista se impõe ao ego como um compromisso sempre possível quando o ego é ameaçado de transbordamento. Existiria, quando se põe em ação uma conduta masoquista, uma dimensão de resposta traumática nos dois extremos possíveis: os traumatismos cumulativos de experiências dolorosas da infância ou o traumatismo da confrontação brutal de um ego vulnerável a uma decepção insustentável, ou, ainda, na emergência de desejos experimentados como incontroláveis. Para esses autores, o dano e o sofrimento autoinfligidos são garantidos e podem sempre escapar do poder do outro. Eles permitem lidar com esse outro, tornando-o 64 impotente, e mesmo dependente da boa vontade daqueles que se faz mal. Encontra-se sempre possível esse movimento de transformação da decepção sofrida em poder de decepcionar, assim como do retorno contra si da violência dirigida ao outro. A respeito da ideia de masoquismo primário, escreve Endo (2005): Deslocado da parceria sadomasoquista perversa, portanto o masoquismo primário teria como meta pulsional uma satisfação anterior a todo desejo, anterior ao submetimento às forças de Eros, e tão dominante para o psiquismo quanto as pulsões de vida. Todavia, ao falar de masoquismo primário, Freud deixa entrever o caráter impuro da pulsão de morte, seu elo com as pulsões sexuais e de vida que a noção de intrincação pulsional destacará, deixando, na verdade, pouco espaço para as manifestações “puras” das pulsões de vida e de morte. (p. 210) Podemos afirmar, assim, que a solução sintomática do conflito intrapsíquico pelo masoquismo precisa ser compreendida, levando-se em conta múltiplos elementos da metapsicologia freudiana, no sentido daquilo que Freud descreveu como as três grandes polaridades presentes na vida mental: atividade – passividade (polaridade biológica), ego – mundo externo (polaridade real) e prazer-desprazer (polaridade econômica). Embora reconheçamos o masoquismo como principal hipótese em relação à oferta que Joaquim faz de si mesmo à violência praticada pelo outro, pensamos que também a questão do sacrifício deva ser levada em consideração nesta pesquisa. Sabemos que na razão sacrificial o algoz oferece a vítima a um terceiro dotado de poderes, como forma de expiar seus pecados ou como forma de aplacar a ira divina. Neste sentido, podemos pensar o sacrifício de maneira análoga ao masoquismo, como um recurso diante do sentimento de culpa e das exigências do superego. 65 No caso de Joaquim, se por um lado nos é clara a lógica masoquista por meio da qual se oferece à violência do Outro, por outro, nos espantou a aparente desconexão em relação à dor que teria sofrido. Se o masoquismo tem, então, o sentido de autopunição, onde se poderia encontrar este sentido punitivo quando seus efeitos não parecem causar a dor que deveriam causar? Pensamos que Joaquim parece ter recorrido, concomitantemente, ao masoquismo e ao sacrifício no contexto dos atos que o colocaram em situação de vítima. Se aparentava oferecer-se diretamente ao outro, parecia também não sentir a dor. Neste sentido, pensamos em uma qualidade tal de cisão egoica a causar a separação entre dor física e dor psíquica, a ponto de existir a possibilidade de oferecer o próprio corpo em sacrifício. Este recurso ao corpo alienado poderia ter a função de proteger da dor psíquica. Como dito anteriormente, o corpo serviria de anteparo na relação com o outro, mas como se fosse o corpo puro do cordeiro. Sobre o sacrifício, escreveu Marta Gerez-Ambertín (2006): Em relação ao desejo do Outro, há o pacto, há o dom: aspecto amável do sacrifício a partir do qual o sujeito espera obter uma resposta apaziguadora à pergunta: O que quer o Outro de mim?, enquanto que, por outro lado, há a fascinação do sacrifício como fracasso inevitável da estrutura que não pode apaziguar a exigência de gozo do Outro. (p. 88) Neste sentido, o sacrifício constituiria, por um lado, uma tentativa de encontro com o desejo do Outro e, por outro, um índice da falha da estrutura diante do gozo do Outro. Como nos sacrifícios aos deuses que controlam as chuvas, a fertilidade, as colheitas, a quem oferecem crianças, há a oferta ao desejo do Outro e o fascínio sobre o gozo do Outro. Este duplo sentido do sacrifício constitui ponto interessante de 66 investigação sobre o caso que motivou a presente pesquisa e será de grande valor no desenvolvimento metapsicólogico que faremos. 4.3. Violência e psique: a questão do trauma e da “metabolização” Talvez menos importante seja o vetor que impõe a violência, a partir de dentro ou vinda do exterior; sabemos que sua incidência sobre o sujeito deixa marcas, traumas, como sugeriu Freud desde os primórdios de seu pensamento psicanalítico. Ainda que o valor do trauma tenha sido relativizado com o advento da teoria da sedução no que diz respeito à origem de determinados componentes da história subjetiva, sua existência é inegável, sobretudo quando reconhecemos sua materialidade, como no caso clínico que vem norteando o presente trabalho. Dunker (2006), define o trauma em termos de “um evento hiperintenso, que excede à capacidade representacional e que colhe o sujeito antes que este possa tramitálo psiquicamente. O caráter disruptivo, desorganizativo ou imprevisível do trauma é uma tônica em Freud. (p. 39). As consequências do trauma para a capacidade de simbolização e, consequentemente, para as possibilidades de estabelecimento das condições clínicas (transferenciais e em relação à regra fundamental), foram cuidadosamente estudadas, no contexto das torturas praticadas pelos agentes de regimes militares na América do Sul, por Maren e Marcelo Viñar, que sugerem a respeito do discurso daquele que sofreu uma imposição violenta praticada por outro/Outro: Testemunhos, conhecemos vários, e o analista pode obter um outro, que se mostra necessário à economia libidinal do sujeito. Mas trata-se, com maior frequência, de relatos de fatos que deixam entender o impossível de dizer, e o que me parece um dos aspectos do inominável é o de não poder se situar enquanto 67 sujeito disto que ainda resta do traumático, e que ainda está ativo e se acumula. Aproximaria este inominável do fato de que o sujeito foi colocado, pela violência, no interior da experiência limite; colocado como um fantoche louco/transtornado. Ele não é mais sujeito, mas se confunde com a máquina ou com o maquinista. Como pode ele, então, dizer? (VIÑAR, 1992 p. 79) Afirmam, ainda, que o “arrombamento provocado pelo trauma parece promover um processo de recolhimento ao interior destinado a restaurar os limites e negar o fora aterrorizante, incontrolável.” Conforme pudemos experimentar no atendimento a Joaquim, neste contexto o clínico “escuta a narrativa de acontecimentos, de fatos repetitivos, vazios de afeto. Escuta também o deslizamento de um lugar a outro” (VIÑAR, 1992 p. 81). Diante da violência, consideramos ter sido precária ao sistema imunológico psíquico de Joaquim a possibilidade de conversão do “afeto de horror” (ENDO, 2005, p. 128), que aturdiu seu corpo e seu psiquismo. O afeto de horror impediria o processo simbólico de instaurar-se e, assim, compor a representação sintomática, ou, como descreve Paulo Endo (2005), em termos da metabolização: É este contato, esta presença maciça de algo frente a que o psiquismo repetidamente fracassa, como a presença do pai violador no quarto da filha ou como, mais tarde, a exposição à morte e ao terror permanentes nas guerras, por exemplo, que conduziram Freud a reconhecer a possibilidade do estancamento do sofrimento psíquico do sujeito traumatizado, também poupando-o da realidade extra-psíquica, excessiva, que o atinge como exterioridade absoluta, ultrapassando suas possibilidades de metabolizá-la. (ENDO, 2005, p. 128) Ainda segundo esse autor, sugere-se que o processo de metabolização/assimilação do choque entre os dois registros da realidade (psíquica e extra-pasíquica) resultariam, portanto, de “uma assimilação impossível para o sujeito, já que a intensidade do choque ultrapassa, muitas vezes, toda possibilidade de o aparelho 68 psíquico metabolizar, fazendo relação com aquilo que o interpela de fora” (ENDO, 2005, p. 135). Neste sentido, Donald Winnicott (1975) traz importante contribuição ao conceber a existência de um espaço simbólico em que se dá a mediação dos diferentes registros da realidade, a que denomina espaço potencial. O espaço potencial seria o lugar em que experimentamos a vida, em que se pode observar as manifestações daquilo que chamamos cultura. Estamos inseridos em um conjunto de símbolos, leis, fatos e valores (entre muitos outros elementos), um sistema construído a partir da interação entre as subjetividades de um conjunto humano e as necessidades adaptativas impostas pelo meio em que vivemos e pela necessidade da vida em comum. Para ele, o espaço potencial é o lugar em que se dão as negociações que constituem o campo cultural. A sustentação deste espaço estaria condicionada à possibilidade dialética entre os registros da realidade, de modo que seja possível ao sujeito, por meio de seu aparelho psíquico, mediar (ou metabolizar, como sugere Endo, 2005) esta relação entre a subjetividade e a realidade compartilhada – objetiva. Diante da incidência do pathos excessivo e inesperado, este processo dialético poderia ser interrompido, desfazendo a possibilidade de mediação, conforme também sugere, em termos de defesas egoicas, Paulo Endo (2005): O choque traumático representa o horror que advém do fracasso das defesas egoicas, capazes de tomar posse das atribuições psíquicas e se impor para além de qualquer mediação, submetendo o aparelho psíquico à repetição estanque e empobrecedora. Isso faz do ego, após seu fracasso, um vassalo da situação traumatogênica (p. 138). Não se trata, no entanto, de propormos um retorno à teoria do trauma, mas de discutir a impossibilidade de operação do simbólico, do figurativo, diante da obviedade 69 do choque. A fantasia depende da existência de um repertório simbólico (mnêmico, onírico, estético, poético e semântico-polissêmico) que só pode existir quando é possível relativizar o que há de inegavelmente real na realidade que se apresenta. A substituição, ainda que a operação seja parcial, do fato pela fantasia narrada somente ocorre na medida em que, psiquicamente, seja possível transformar a experiência segundo a própria subjetividade. Neste sentido, hipoteticamente, dependendo do aparelho psíquico-imunológico do sujeito, a representação simbólica, deslocando o sentido do fato para um lócus mais afeito à realidade psíquica, seria possível se tal aparelho fosse capaz de mascarar a faceta inegavelmente objetiva do fato. Ou seja, é possível transformar psiquicamente a realidade quando existe, a partir da natureza da experiência e do psiquismo do sujeito, a possibilidade de subversão simbólica do óbvio objetivamente compartilhado. No caso de Joaquim, consideramos que aquilo que o afetou foi de tamanha violência que a ele pode não ter sido possível a metabolização do trauma, segundo sugere Paulo Endo no trecho citado acima. Ele teria sido atingido por um desamparo de natureza tal que, “como uma paixão, expõe o sujeito ao extermínio” (BERLINCK, 2000, p. 182), configurando a situação em que se dá a insuficiência imunológica psíquica, lançando mão dos parcos recursos oferecidos pela compulsão á repetição, conforme elucidado por Endo (2005): Aqui, a repetição está em favor da sobrevivência desse egocorpo, fracasso das defesas diante e após o trauma força a retomada de posição mais originária e cujas defesas egoicas resultantes da diferenciação psique/corpo não vigem, já que o que está sob risco é o corpo vivo e não o corpo sexual. Os sonhos traumáticos, a compulsão à repetição, a mutilação do corpo físico, a pulsão de dominação e de destruição terminam por ocupar o lugar de defesas egóicas diante de perturbações que passam a agir de dentro e de perto, tendo se originado fora e longe. (p. 146) 70 O resultado da incidência de um contexto de violência extrema poderia levar ao “fracasso do psiquismo em situações em que os estímulos alcançam um volume tão colossal que não há outro caminho senão a perturbação psíquica e uma alteração radical em sua economia” (ENDO, 2005, p. 142). No caso de Joaquim reconhecemos, no contexto da clínica, sua insuficiência imunológica psíquica diante do caráter aterrador de pathos que o atingiu, lançando-o à repetição como tentativa do psiquismo de atribuir um sentido humano ao que o aturdiu. A forma como o faz, nos parece ser, em essência, de natureza masoquista. Como bem salientou Freud, na base do masoquismo está a “ressexualização” do complexo de Édipo, como em um retorno a um estado de menor desenvolvimento e maior expressão narcísica. Assim, será de grande relevância explorarmos, aqui, a relação da expressão masoquística - que reputamos existir na expressão sintomática observada no caso clínico analisado – com o contexto edípico e as fantasias que poderiam, neste mesmo arcabouço, sustentar Joaquim na posição de vítima de que por muitas vezes se valeu. 71 5 SINTOMA, PASSAGEM AO ATO E ACTING OUT: A QUESTÃO DA QUALIDADE SIMBÓLICA Se os lapsos na fala - que é claramente sua função motora - podem ser entendidos dessa maneira, basta um pequeno passo para estender essa mesma expectativa aos erros em nossas outras atividades motoras. Formei aqui dois grupos de casos. Uso o termo “equívocos na ação” [“Vergreifen”] para descrever todos os casos em que o efeito falho - ou seja, um desvio do que fora intencionado - parece ser o elemento essencial; aos outros, em que é antes a ação inteira que parece inoportuna, chamo-os de “atos sintomáticos e acidentais” [“Symptom- und Zufallshandlungen”]. Mas não se pode traçar uma demarcação nítida entre eles e, na verdade, somos forçados a concluir que todas as divisões feitas neste estudo têm apenas uma importância descritiva e contradizem a unidade interna desse campo de fenômenos. (FREUD, 1901, p. 167) O caso clínico que ilustra esta pesquisa impõe a reflexão a respeito da qualidade representativa presente nas diversas formas de expressão sintomática que podemos observar no contexto clínico. Os sintomas demonstrados (e muito bem escondidos) nas neuroses obsessivas, nas fobias e histerias, apenas à guisa de exemplo, constituem metáforas representativas do conflito psíquico, a respeito das quais e em alguns casos, ao longo do trabalho clínico se pode reconhecer, em si, a ligação original ao conflito intrapsíquico. Na psicose, ainda que consideremos inexistir conflito intrapsíquico, podemos reconhecer no delírio dito estruturado, elementos representativos da negação da castração. Se retomarmos o clássico caso freudiano do “Homem dos ratos” (1909) e o pavor do paciente diante dos roedores, temos o exemplo de uma sintomatologia na qual se pode perceber a relação entre o conflito psíquico (e o afeto que o impõe ao 72 psiquismo) e a representação. Se tomarmos as paralisias e afasias observadas por Freud e Bleuler em “Estudos sobre a histeria” (1895), novamente nos é possível, sobretudo sob persuasão do texto de Freud, reconhecer as estreitas relações simbólicas/representacionais entre a expressão do sintoma e o afeto determinante da formação psíquica. Até mesmo no delírio de Schreber (1911), podemos reconhecer relação simbólica entre sua expressão sintomática e elementos próprios de sua relação com a castração. Nos exemplos oferecidos, os pacientes apresentavam sintomatologia observável ao longo do tempo, sobre a qual o paciente e sua família, possivelmente, poderiam apresentar uma história e um histórico. É possível ao neurótico obsessivo descrever a natureza e o aspecto de seus estranhos e obsessivos pensamentos, assim como a este é possível dizer sobre a dor e aprisionamento impostos pelas compulsões que acompanham tais pensamentos. De modo análogo, é possível ao fóbico descrever o objeto que lhe traz horror, ainda que a simples evocação de uma figura possa paralisá-lo. Situações próximas poderíamos reconhecer na histeria, na melancolia, entre outras, ainda que nossa preocupação não esteja voltada à classificação diagnóstica. No caso de Joaquim, no entanto, a questão da representabilidade do afeto (daquilo que o afetou) ou de eventual conflito intrapsíquico nos parece restar prejudicada. Não nos foi possível, ao longo dos atendimentos com ele realizados, reconhecer um conjunto simbólico que pudesse conter ou comunicar qualquer aspecto de experiência constituída em relação a seu próprio psiquismo e a sua história. Sua fala era absolutamente convencional a respeito de fatos nada convencionais. Relatava os abusos sofridos como se relatasse o mais trivial dos acontecimentos. Em 73 alguns momentos podia-se considerar haver, naquele “descompromisso assintomático”, algo da ordem do gozo, mas a desconexão afetiva era, de fato, predominante. Em sua história, marcada por violência, abusos e violações, seu protagonismo se mostrava naqueles atos que o colocavam no olho do furacão. A respeito do ato, sim, existe história. A observação no contexto clínico sugere que sua história pessoal seja fundada a partir e em relação a estes atos. Não há história do sujeito, mas há história no ato. É nesses atos que estamos interessados e sobre eles trataremos neste texto. Para tanto, retomaremos três situações distintas, três cenas por ele relatadas que conduziram nossa pesquisa até este ponto. Aos seis anos de idade, época em que as brigas entre os pais eram mais frequentes, Joaquim sofre um violento atropelamento. Atravessou a rua “sem olhar” e foi atingido por uma motocicleta. Relembrando a história-no-ato Joaquim revela ter saído de casa em meio a uma violenta briga, em que seu pai ameaçava matar sua mãe. Logo a vizinhança se agregava sobre o franzino corpo ensanguentado no chão. Lembrase da chegada da mãe até junto a si e nada mais. A respeito da cirurgia e do longo período de recuperação, nada tem a dizer, senão que foram tempos mais tranquilos, em que sua mãe passou a dedicar-se exclusivamente aos cuidados com ele e seu pai voltou a trabalhar, mesmo correndo o risco de ser descoberto pela polícia (era fugitivo, acusado de pistolagem no Nordeste). A segunda cena refere-se ao fato que o colocou sob o poder da polícia e que o submeteu a uma série de abusos, tortura física e psicológica. Joaquim, a pedido de sua mãe, foi até o hospital em que realizou reabilitação visual para buscar os óculos que, finalmente, lhe teriam sido cedidos. Antes mesmo de fazê-lo envolveu-se em uma “trombada” com uma jovem mulher no centro de uma praça. A cena foi observada por uma policial feminina. Tanto a jovem abalroada quanto 74 a policial e outros transeuntes interpretaram o acontecido como um ataque de Joaquim à moça. Aos gritos, ambas protestavam que ele teria passado a mão nas partes íntimas da jovem. Joaquim não reconheceu o encontro como algo além de uma trombada ocorrida por distração. Ainda assim, foi preso em flagrante e levado para uma peregrinação por delegacias policiais, locais onde sofreu ameaças, sérias agressões e ouviu comentários vexatórios. Esses últimos pareciam ter deixado marcas tão profundas quanto os ferimentos, sobretudo o comentário de uma delegada de polícia que sugeriu que ele teria passado a mão na moça por ser incapaz de arrumar uma namorada, questionando-o e expondo o fato de ele nunca ter se relacionado sexualmente com uma mulher, como justificativa para seu ato. O momento em que a alegada agressão sexual contra a jovem moça teria ocorrido não existe em seu relato do momento, apenas a trombada. A história desse ato decorrente é viva em sua memória. A terceira cena, lembramos, não nos foi relatada por Joaquim, mas por sua mãe. Os atendimentos a Joaquim foram realizados em contexto institucional e tinham regras um tanto rígidas a serem seguidas pelos pacientes e pelos clínicos. Uma dessas regras determinava que o paciente deveria ser “cortado” do atendimento caso faltasse sem justificativa, por três vezes seguidas às sessões. Configurada essa situação, Joaquim foi informado de que seria “cortado” pela secretaria da instituição. Duas semanas após a interrupção do tratamento a mãe de Joaquim, com ar muito preocupado, entrou em contato com o clínico. Informou que, ao chegar em casa, encontrou Joaquim enrolado em uma toalha de banho, com o rosto, pescoço e colo cobertos de sangue. Fizera múltiplas incisões no couro cabeludo, utilizando uma 75 máquina de cortar cabelos. Segundo a mãe, parecia alheio aos ferimentos e ao sangue que vertia, rindo vigorosamente do “acidente” com o cortador de cabelos. Segundo a hipótese que vimos sustentando nesta pesquisa, algo existe do afeto que se situa para além das capacidades imunológicas do psiquismo. Postulamos que diante da abrupta revelação de um afeto de natureza tão óbvia quanto aquele que pensamos poder ter atingido Joaquim, não existiria a possibilidade de trabalho psíquico capaz de inscrever tal fato no registro do simbólico. Quando falamos em obviedade do afeto, tentamos expressar aquilo que imaginamos ser o excesso do excesso, já inerente a pathos. Tentativa de quantificar o que imaginamos estar além das possibilidades de “metabolização psíquica” (ENDO, 2005). Muito embora não tenhamos por escopo propor um sistema classificatório das diferentes formas de expressão sintomática, na intenção de contrapor os sintomas às atuações - ao acting out e à passagem ao ato - consideraremos como sintomas aquelas produções do inconsciente de maior elaboração simbólica, como os sintomas obsessivos, conversivos, os delírios etc. A estes, contraporemos as manifestações em que se pode reconhecer caráter sintomático, mas sem tamanha complexidade simbólica, como as atuações isoladas e passagens ao ato. Propomos, portanto, que a medida da qualidade simbólica da expressão sintomática em relação ao encadeamento pathos – sintoma (podendo, ou não, constituir conflito intrapsíquico) ofereça relevante parâmetro de observação clínica, tanto para a compreensão do caso quanto para o manejo da transferência. Neste sentido, faremos breve distinção conceitual, posicionando de um lado o sintoma e, de outro, as chamadas “atuações”, discriminadas em acting out e passagem ao ato. 76 5.1. O sintoma: símbolo do afeto, metáfora do conflito Em nosso trabalho, a partir do enigma colocado pelo caso clínico, vimo-nos compelidos a pesquisar sobre a etiologia do sintoma, seu sentido e, sobretudo, sua função no psiquismo. Lembramos que caminhamos pelos meandros da teoria do sintoma tomando como norte a concepção de psiquismo sugerida por Berlinck (2000), em que o psiquismo configura uma organização imunológica psíquica diante da catástrofe imposta pela incidência de pathos. O sintoma, por este viés, representaria uma das formas por meio das quais o aparelho psíquico se organiza e se constitui (ou se desorganiza e se fragmenta) para lidar com as imposições do estrangeiro. Sabemos, no entanto, que a incidência de pathos impõe necessidade de organização e constituição psíquica e que, a partir de então, o psiquismo funciona carregando dentro de suas fronteiras os subprodutos, metabólitos dos múltiplos sentidos que pathos toma como representação psíquica, já enquanto parte do mundo interno. Veremos, em Freud, que o sintoma é concebido a partir de uma ideia de sistema aberto, constantemente permeável ao mundo externo, mas determinado pela interação das forças e instâncias do aparelho psíquico. O psiquismo, neste sentido, guardaria relação de causa com a sintomatologia. Com a Psicopatologia Fundamental e a ideia que veicula de psiquismo como consequência da incidência de pathos sobre o humano, adiciona-se um degrau à base do encadeamento que nos permite pensar a etiologia do sintoma. Muito embora reconhecesse a constituição do psiquismo como produto da interação do sujeito e sua história com o mundo estrangeiro, Freud, como veremos, dedicou-se a pensar a etiologia do sintoma a partir do aparelho psíquico, levando em 77 conta, por óbvio, a evolução conceitual que concebeu a respeito do mesmo e seus desdobramentos na primeira e segunda tópicas. A partir das proposições do campo da Psicopatologia Fundamental, é possível pensar a etiologia dos sintomas desde antes, entendendo o psiquismo não apenas como causa de uma expressão sintomática/modo de funcionamento, mas também como consequência, em um sistema de retroalimentação entre realidade externa compartilhada e mundo interno. Afinal, quando pensamos a etiologia do sintoma desde a perspectiva da incidência de pathos sobre o psiquismo, como fator constituinte deste, recuamos um importante estágio na cadeia lógica de determinações do fenômeno psíquico. Tal feito representa um grande avanço na busca por compreender a formação dinâmica e o contexto semântico em que o sintoma se instala. Freud fez fundamentais considerações sobre o trauma e a fantasia como fatores sintomatogênicos. No entanto, dedicou-se a pensar sua existência já enquanto fatores psíquicos, fontes de moções pulsionais a vetorizar o campo do conflito psíquico, lançando forças carregadas de sentido e constantemente sujeitas ao recalque transformador e deslocador de tais sentidos. Freud sugere, já em “Estudos sobre a histeria”, ser possível identificar clara relação entre os sintomas apresentados pelas histéricas que estudavam e algum evento traumático, uma vez que a posição clínica que ocupavam proporcionava a observação de que “os mais variados sintomas, que são ostensivamente espontâneos e, como se poderia dizer, produtos idiopáticos da histeria, estão tão estritamente relacionados com o trauma desencadeador (...)” (FREUD, 1893-95, p. 18). Em “Psicopatologia da vida cotidiana”, texto de 1901, Freud trata das manifestações sintomáticas observáveis em lapsos e atos aparentemente dados ao acaso, 78 mas que, por meio da observação clínica, poderia se verificar guardarem relação a eventos traumáticos. Descreve, com riqueza de detalhes e sensibilidade próprias de sua clínica, o caso de uma de suas pacientes. Uma jovem senhora que se envolvera em um acidente de carruagem, fraturando gravemente o fêmur. Freud relaciona o fato a uma demonstração familiar, pouco antes do acidente, das habilidades da paciente ao dançar o cancã. Em razão de sua apresentação, possivelmente vigorosa, teria sido acusada pelo marido de portar-se como uma meretriz (FREUD, 1901, p. 117). Para Freud o contexto como se deu o acidente demonstra a “intenção inconsciente” da paciente em impor a si mesma “um castigo tão adequado ao crime: por muito tempo ela ficou impossibilitada de dançar o cancã” (FREUD, 1901, p. 117). Segundo o relato de Freud, embora sua paciente tenha se ferido gravemente, todos os demais ocupantes da carruagem saíram ilesos. Ela teria se atirado do veículo ao perceber o nervosismo de um dos animais, fato que Freud conecta diretamente à reação do marido diante de sua exibição de dança. Neste caso, não haveria a formação de um sintoma propriamente dito, mas a irrupção de um ato sintomático, desprovido de valor simbólico metafórico, aparecendo como forma de punição imediata e excessivamente violenta do ponto-de-vista econômico. Este tipo de manifestação sintomática nos é de grande interesse para a condução da presente pesquisa. O texto freudiano de 1909, “Notas sobre um caso de neurose obsessiva”, conhecido também como o caso do “Homem dos ratos”, trata do sintoma manifestado na neurose obsessiva. Freud surpreende-se ao observar a diferença fundamental do sintoma obsessivo, como símbolo, em relação ao sintoma histérico. Freud identificava, no sintoma histérico, uma coincidência entre as tendências de satisfação e de 79 substituição que não podia observar na neurose obsessiva. O sofrimento na atribuição de sentido ao próprio sintoma e a angústia presentes nos sintomas obsessivos levaram-no a conjeturar sobre as diferenças de qualidade simbólica própria dos sintomas nas duas diferentes patologias: Atos compulsivos dessa natureza têm, sob o ponto de vista teórico, um interesse peculiar, de vez que nos mostram uma nova modalidade de método de construção de sintomas. Na histeria o que ocorre normalmente é chegar-se a uma conciliação, que capacita ambas as tendências opostas a se expressarem simultaneamente - o que é como matar dois coelhos de uma só cajadada; ao passo que aqui cada uma das duas tendências opostas é satisfeita, isoladamente, primeiro uma e depois a outra, embora naturalmente se faça uma tentativa de estabelecer determinado tipo de conexão lógica (muitas vezes desafiando toda lógica) entre os antagonistas. (FREUD, 1909, p. 112) Em comparação com o sintoma histérico, o sintoma obsessivo aparentava constituir maior fonte de sofrimento. Seu caráter substitutivo-metafórico poderia ser considerado, sob este viés, algo menos eficaz que as fabulosas cenas engendradas pela histeria. Talvez esteja nas “Conferências introdutórias sobre psicanálise”, desenvolvidas e apresentadas por Freud ao longo dos anos de 1916 e 1917 a maior e mais completa sistematização freudiana das concepções de sintoma como elementos-símbolo do conflito imposto pela dinâmica intrapsíquica. Atribui crescente importância do sintoma como fundamento de análise pelo médico e ressalta a necessidade de reconhecimento de seus aspectos essenciais para além da simples observação fenomenológica, afirmando que a “ação sintomática parece ser uma questão irrelevante; mas o sintoma se impõe à nossa atenção como questão importante. (...) O psiquiatra começará por procurar caracterizar o sintoma por meio de algum aspecto essencial” (FREUD, 1917, p. 257). 80 A Conferência XVII – “O sentido dos sintomas” – apresenta afirmação assertiva de Freud quanto ao caráter simbólico, representativo, do sintoma em relação ao conflito entre as instâncias da psique, reiterando sua crítica quanto à maneira como a psiquiatria vinha (e até hoje vem?) tratando os sintomas: Na última conferência, expliquei-lhes que a psiquiatria clínica atenta pouco para a forma externa do conteúdo dos sintomas individualmente considerados, que a psicanálise, entretanto, valoriza precisamente este ponto e estabeleceu, em primeiro lugar, que os sintomas têm um sentido e se relacionam com as experiências do paciente. (...) os sintomas neuróticos, como as parapraxias e os sonhos, possuem um sentido e têm íntima conexão com as experiências do paciente. (FREUD, 1917, p. 265-266) Freud assegura, um pouco adiante no texto, o caráter subjetivo presente na simbologia do sintoma, afirmando que “o sentido de um sintoma, conforme verificamos, possui determinada conexão com a experiência do paciente. Quanto mais individual for a forma dos sintomas, mais motivos teremos para esperar que seremos capazes de estabelecer esta conexão” (FREUD, 1917, p. 277). Situar o sintoma no arcabouço do inconsciente sustenta a dupla vinculação presente no sintoma entre um sistema de prazer/desprazer e a ideia de satisfação substitutiva, levando Freud a afirmar, a respeito do processo mental censurável situado na base da formação do sintoma: “por constituir algo inconsciente, teve o poder de construir um sintoma.” (FREUD, 1917, p. 292). Afirma, ainda, que caso o processo inconsciente que sustenta a formação do sintoma se torne consciente, o caráter de símbolo se esvai e o sintoma desaparece. A existência do sintoma-símbolo só se justifica como símbolo de algo que não aconteceu do ponto de vista da consciência: 81 Não apenas o sentido dos sintomas é, com regularidade, inconsciente, mas também existe uma relação inseparável entre este fato de os sintomas serem inconscientes e a possibilidade de eles existirem. Logo os senhores me compreenderão. Estou de acordo com Breuer ao afirmar que sempre ao encontrarmos um sintoma, poderemos concluir existirem determinados processos mentais definidos, no paciente, os quais contêm o sentido do sintoma. Mas, também é necessário que este sentido seja inconsciente, para que o sintoma possa surgir. Jamais se constroem sintomas a partir de processos conscientes; tão logo os processos inconscientes pertinentes se tenham tornado conscientes, o sintoma deve desaparecer. (FREUD, 1917, p. 287) O sintoma seria provido de um “de onde” e de um “para que”, de modo que: (...) o “de onde” de um sintoma se reduz a impressões que vieram do exterior, que uma vez foram necessariamente conscientes e podem, a partir daí, ter-se tornado inconscientes através do esquecimento. O “para quê” de um sintoma, seu propósito, no entanto, é invariavelmente um processo endopsíquico, que possivelmente teria sido consciente, no início, mas pode igualmente não ter sido jamais consciente e ter permanecido no inconsciente desde o início. (FREUD, 1917, p. P.291) Os fatores externos e internos se combinariam para compor o sintoma-metáfora, de modo que os fatores internos constituiriam o motor do conflito que conclama a presença do substituto do recalcado, ao passo que os fatores externos comporiam a matéria-prima de que se faz a própria expressão sintomática. Daí se poderia considerar sobre fatores de determinação cultural do conteúdo do sintoma Segundo Henckel (2002), uma importante distinção entre os conceitos, apresentada por Freud, diria respeito às diferenças qualitativas no processo de 82 elaboração psíquica determinante de cada um. Afirma que “nota-se um determinado trabalho psíquico no sintoma – de deslocamento, formação de compromisso – o qual, na inibição, está impedido ou congelado, quando justamente sua ação leva a uma renúncia desse trabalho” (p. 111), de forma análoga, como veremos, nos parece ocorrer nas atuações. Para a autora, o sintoma enquanto símbolo seria um resultado dessa elaboração psíquica, resultado de um processo no sentido da “ligação, trabalho de Eros, significação psíquica”. O sintoma seria o resultado de um complexo trabalho de elaboração psíquica, enquanto a inibição teria menor valor de símbolo, operando-se por meio de uma retirada do Eu da cena do conflito psíquico, conforme sugere Henckel, (2002, p. 113). Na conferência XXXI – “A dissecção da personalidade psíquica”, Freud oferece, provavelmente, uma de suas últimas formulações sobre a Teoria do Sintoma em sua obra, quando trata de suas incipientes teorizações a respeito da psicologia do ego: Os sintomas são derivados do reprimido, são, por assim dizer, seus representantes perante o ego; mas o reprimido é território estrangeiro para o ego - território estrangeiro interno - assim como a realidade (que me perdoem a expressão inusitada) é território estrangeiro externo. A trajetória conduziu dos sintomas ao inconsciente, à vida dos instintos, à sexualidade; e foi então que a psicanálise deparou com a brilhante objeção de que os seres humanos não são simplesmente criaturas sexuais, mas têm, também, impulsos mais nobres e mais elevados. Poder-se-ia acrescentar que, exaltados por sua consciência desses impulsos mais elevados, eles muitas vezes assumem o direito de pensar de modo absurdo e desprezar os fatos. (FREUD, 1932, p. 63) De modo geral, pode-se afirmar que a construção do conceito de sintoma na obra de Freud encontrou sua formulação de símbolo ainda cedo. Essa formulação, como 83 vimos, manteve-se até o final, embora tenha sido incluída em seu campo a transferência, alterações ao conceito de aparelho psíquico e desenvolvimentos metapsicológicos a respeito de sua formação em diferentes classes psicopatológicas. A última formulação analisada, em que Freud coloca o sintoma como representação metafórica do “território estrangeiro interno” em relação ao “território estrangeiro externo” é o ponto do qual partiremos tentando de estabelecer a ligação da tradição de pensamento freudiana à Psicopatologia Fundamental, introduzindo os desenvolvimentos oferecidos por esse campo de investigação acerca de pathos. Se, como afirmou Berlinck (2000), a psicanálise pode servir de “casa” para a Psicopatologia Fundamental, esta primeira fase de investigação se justifica pela possibilidade de inserção deste campo na tradição de pensamento (casa) de Freud. O próximo passo será estabelecer relação entre a concepção freudiana de sintoma como símbolo e a ideia de “sistema imunológico psíquico” sugerida por Berlinck (2000), no contexto da situação problemática colocada nesta pesquisa a partir da observação clínica daquilo que vimos entendendo como impossível do sintoma. Quinet (2009) oferece bela definição do sintoma, situando-o como objeto de gozo do neurótico: Sintoma é a implicação inconsciente do sujeito e, portanto, é signo da operação de recalque pela qual o sujeito se constitui em sua unicidade. O sintoma é mensagem cifrada de gozo. Portanto, além de metáfora do conflito psíquico do sujeito, e por isso mesmo, o sintoma é modalidade singular pela qual o neurótico goza. (p.203) Entender o sintoma como meio de gozo do neurótico constitui, como veremos, um ponto de partida na discriminação entre os atos repetitivos e aquilo que vimos chamando sintoma. 84 5.2. Acting-out e passagem ao ato: a cena e a queda Em oposição à clara qualidade de símbolo encontrada no sintoma, amplamente pesquisada por Freud, encontramos na observação clínica formas de expressão sintomática, muitas vezes repetidas ao longo da história de um sujeito, a respeito das quais não se pode reconhecer tamanha qualidade simbólica. Sua expressão é frequentemente alcançada por meio de atos, estes sim, providos de sentido se considerados no contexto de uma cena. Dentre as muitas formas deste tipo de expressão sintomática que podemos reconhecer a partir de nossa vivência clínica, como atos-falhos, lapsos, inibições, trataremos nesta pesquisa apenas do acting-out e da passagem ao ato, os quais pensamos constituir formas de expressão afeitas ao caso clínico que vimos estudando. A respeito do acting out, encontramos valiosas definições na literatura psicanalítica. Segundo Laplanche e Pontalis (2001), genericamente, o termo acting out vem sendo utilizado em psicanálise para ações que apresentam caráter impulsivo, isolável em relação à conduta usual, que toma, muitas vezes uma forma auto ou heteroagressiva. Passagem ao ato (passage à l’acte), expressão mais utilizada em francês como equivalente ao acting out, sugere a ideia de que o sujeito faz uma passagem - da representação, de uma tendência, ao ato nu e cru. O termo atuação, situado em verbete diverso de acting out, é definido como um ato em que o sujeito “atua” uma pulsão, fantasia ou desejo, vivendo-os no presente com sentimento de atualidade e desconhecendo sua natureza repetitiva. 85 Roudinesco e Plon (1998), por sua vez, em seu Dicionário de psicanálise, oferecem definição de acting out que congrega, em um mesmo verbete, as “atuações” de modo geral: Noção criada pelos psicanalistas de língua inglesa e depois retomada tal e qual em francês, para traduzir o que Sigmund Freud denomina de colocação em prática ou em ato, segundo o verbo alemão agieren. O termo remete à técnica psicanalítica e designa a maneira como um sujeito passa inconscientemente ao ato, fora ou dentro do tratamento psicanalítico, ao mesmo tempo para evitar a verbalização da lembrança recalcada e para se furtar à transferência. No Brasil, também se usa “atuação”. (p. 06) Como se pode observar na definição, acting out e passagem ao ato são agrupados segundo a concepção freudiana de “colocação em prática”. No entanto, ao longo da discussão sobre o termo, os autores introduzem os avanços propostos por Lacan sobre as peculiaridades desses atos, sobretudo no que tange às distinções psicodinâmicas e na relação com o objeto, observadas por ele. Em seu seminário sobre a angústia, Lacan (1962-63) abordou a questão dos atos sintomáticos de forma bastante esclarecedora. A distinção que propõe baseia-se na posição do sujeito em relação à cena em torno do conflito. A passagem ao ato seria, segundo sugere Lacan, a queda do sujeito para fora da cena, interrompendo seu curso. O acting out, segundo propõe, seria a criação e sustentação da própria cena, em um nível de demonstração bastante intencional (mesmo sendo inconsciente). Lacan (1962-63) afirma que “o momento da passagem ao ato é o do embaraço maior do sujeito, com o acréscimo comportamental da emoção como distúrbio do movimento” (p. 129). Seria justamente a emoção, o afeto, a impulsionar o sujeito para fora da cena que vinha sustentando. 86 A ideia do afeto como distúrbio do movimento faz sentido quando a reconhecemos inserida em um sistema em que não se pode ter recurso ao uso do símbolo. Ali onde não haveria palavra e não haveria sequer a possibilidade de sustentação da cena, adviria o movimento que livra o sujeito do embaraço em que se encontra, a passagem ao ato. Segundo Maria Cristina Bechelany Dutra, a passagem ao ato representaria “uma tentativa de cura realizada pelo sujeito que, diante de um encontro dessa ordem e não estando em condições de mobilizar um significante para temperar a perplexidade angustiante que o assalta, lança mão do ato como uma saída possível” (DUTRA, 2000, p. 55). Segundo sugere a autora, da impossibilidade de simbolização diante do afeto, o ato representaria o avesso do pensamento e da dúvida, fundando para o sujeito uma certeza; a certeza de sair da cena em que pode ser vista pelo Outro, afirmando que “a passagem ao ato é o movimento que consiste em separar a vida de sua tradução, de sua transposição no Outro. Ela representa este momento em que nenhum interlocutor e nenhuma mediação é possível (DUTRA, 2000, p. 52). Iniciando a distinção entre passagem ao ato e acting out, Lacan (1962-63) sugere que “tudo que é acting out é o oposto da passagem ao ato” (p. 136). Tal oposição seria principalmente situada em relação ao endereçamento do ato. O acting out seria, assim, algo que se mostra na conduta do sujeito, dotado de ênfase demonstrativa e orientado para o Outro (LACAN, 1962-63). Ainda segundo ele, a escandalosa publicidade do acting out demonstra seu direcionamento em direção ao Outro, clamando por um espectador capaz de interpretálo. Postula que, assim como o sintoma, o acting out demonstra um desejo desconhecido pelo sujeito, afirmando até mesmo que “o acting out é um sintoma. O sintoma também 87 se mostra como outro. Prova disso é que deve ser interpretado” (LACAN, 1962-63, p. 137). Em resumo, Lacan (1962-63) aproxima o acting out do sintoma por considerá-lo passível de interpretação. No entanto, traça clara distinção entre ambos ao ponderar que “o que a análise descobre no sintoma é que ele não é um apelo ao Outro (....) o sintoma, por natureza, é gozo” (p. 140). Assim sendo, o sintoma, posto que gozo encoberto, não requer o reconhecimento do Outro para cumprir sua função, não é “mostração”, se basta em si. Por outro lado, nesta distinção, Lacan distancia a passagem ao ato do sintoma, considerando-a desprovida de destinatário e de interpretação. Por esse critério da interpretabilidade, podemos sugerir que o acting out guarda, ainda que de forma precária, valor simbólico, uma vez que é dirigido ao Outro para que seja interpretado. Na passagem ao ato, a intenção seria a do desmonte da cena, saída do sujeito do campo de visão do Outro, recurso ao real que paralisa a interpretação do espectador, que passa a lançar o olhar sobre o corpo, inanimado, do sujeito. Segundo Dutra (2000), contrariamente ao acting out que viria sob a forma de um dizer, a passagem ao ato seria um “eu não quero dizer” capaz de separar o sujeito do Outro, veiculando a mensagem de “um ‘não’ profundo do sujeito, dirigido ao Outro” (p. 52). Lacan ilustra as distinções que traçou valendo-se, para tanto, dos casos apresentados por Freud em “Psicogênese de um caso de homossexualidade numa mulher” (1920) e em “Fragmento da análise de um caso de histeria” (1905), especificamente em relação à nota acrescentada por ele em 1923, na qual introduz a identificação homossexual de Dora em relação a sua mãe, observada na relação de Dora com a Sra. K. Afirma Lacan (1962-63), quanto à situação que: 88 No caso de homossexualidade feminina, se a tentativa de suicídio é uma tentativa de passagem ao ato, toda a aventura com a dama de reputação duvidosa, que é elevada à função de objeto supremo, é um acting-out. Se a bofetada de Dora é uma passagem ao ato, todo seu comportamento paradoxal na casa dos K., que Freud prontamente descobre com tanta perspicácia, é um acting out. (p. 137) A respeito dessa afirmação, podemos considerar que, nos casos que nos servem de exemplo, a passagem ao ato encerra a cena que vinha sendo atuada, dirigida ao Outro. Isto reitera a ideia da passagem ao ato como ato que não é dirigido a alguém para que seja decifrado, mas uma retirada do sujeito da cena, ou, conforme sugere Pinho (2000),“do mundo do reconhecimento, onde pode se manter somente como sujeito a partir do tecido simbólico de sua história. (...), é um ato não simbolizável, que leva o sujeito a uma situação de ruptura integral” (p. 78). Em “Que atos são esses?: Luto e acting out”, novamente Ana Maria Rudge (2008) nos oferece um desenvolvimento muito clareador na distinção dos termos passagem ao ato, e acting out, que reproduzimos integralmente: Com a inclusão da passagem ao ato no campo da psicanálise, Lacan refinou o instrumental psicanalítico no sentido sugerido por Anna Freud, mas levou ainda mais longe sua proposta, na medida em que busca estabelecer uma discriminação metapsicológica, e não apenas descritiva, entre atos impulsivos que chamou de passagens ao ato, e o acting out (...) Ele tem certo parentesco com o que, em Psicopatologia da vida cotidiana, Freud (1901) batizara de ato sintomático, considerando-o na época como um gênero de ato falho. O acting out é – tal como seu antecessor, o ato sintomático – eu-sintônico; ou seja, não há o sentimento por parte do analisando de que seu eu tenha sido atropelado pelo isso, como na impulsividade. (...) Ao desempenho, à encenação como mensagem que é sempre dirigida ao Outro no acting out, Lacan opõe a passagem ao ato, como 89 queda da cena, o reverso da encenação e atualização na transferência. O móvel das passagens ao ato é dar as costas ao Outro, fugindo da angústia e da divisão do sujeito, o que só se pode efetivamente alcançar no suicídio. (p. s/n) Outro ponto importante da discussão em torno de acting out e passagem ao ato em relação à angústia, segundo propôs Lacan, diz respeito ao posicionamento do sujeito em relação ao objeto “a” (pequeno a). Para o presente texto, limitaremos sua definição a: objeto causa do desejo, desejado pelo sujeito e que se furta a ele a ponto de não ser representável, ou de se tornar um resto não simbolizável (ROUDINESCO e PLON, 1998, p. 551). A posição em relação ao objeto “a”, objeto inassimilável pelo significante, é sempre de proximidade, seja na passagem ao ato, seja no acting out. Na passagem ao ato, a proximidade com o “resto” da operação que resulta no sujeito da castração, impõe a angústia que precipita o sujeito ao “largar de mão”, “laisser tomber” (LACAN, 196263, p. 129), seus correlatos necessários. O mesmo poderia ocorrer ao sujeito da negação da castração, também angustiado pela proximidade com “a”, ainda que desde outro ângulo. A respeito do acting out, Lacan sugere que sua proximidade com o objeto “a” se revela no fato de que o acting out, em sua exuberância performática, sempre se mostra como “algo diferente do que é”. A cena veiculada no acting out se dirige ao Outro como pedido de interpretação de um enigma. Para Lacan, o cerne desse enigma estará sempre atrelado à emergência do objeto “a”. Tanto no primeiro caso quanto no segundo, o ato se impõe, segundo Lacan (1962-63), pelo caráter irrepresentável do objeto. O resultado em ato da angústia imposta pela aproximação do sujeito ao resto que lhe falta como sujeito castrado ou 90 como sujeito que negou a castração, impõe questionarmos sobre a possibilidade da existência de passagem ao ato e acting out nas diferentes estruturas clínicas. As concepções de passagem ao ato e acting out desenvolvidas por Lacan desvinculam-se do condicionamento à estrutura clínica, uma vez que se relacionam, concomitantemente, às dimensões do significante (ou do Outro) e do objeto. Ainda que o faça de forma diferente, o sujeito, em algum nível, estará às voltas com o Outro e ameaçado pela aproximação com o objeto “a”, seja na neurose, na psicose ou na perversão (DUTRA, 2000). Especificamente em relação à psicose, a passagem ao ato ocorreria quando o sujeito não consegue operar eficazmente uma mobilização delirante do significante. Com a falência do recurso simbólico, não restaria ao psicótico outra possibilidade que não fosse lançar mão desse outro meio: o sacrifício de um objeto real (DUTRA, 2000, p. 54). Entre os anos 1975 e 1976, em seu seminário intitulado “O sinthoma” Lacan alcançou importante avanço na cenceituação do sintoma em sua função de símbolo. Em sua complexa e algo obsessiva explanação acerca das propriedades do nó borromeano, ele nos oferece a esclarecedora imagem do sintoma como liame a costurar, compromissar, os registros do real, imaginário e simbólico. Na estrutura do nó, o sintoma seria a peça responsável por impedir a desarticulação entre os demais elementos. Segundo Lacan (1962-63), “estabelecer o laço enigmático do imaginário, do simbólico e do real implica ou supõe a ex-sistência do sintoma” (p. 21). Sob este prisma, poderíamos sugerir que nos atos sintomáticos esta função de articulação não se completa. Em oposição ao sintoma, o ato seria incapaz de sustentar o atrelamento do simbólico aos registros do real e do imaginário, ainda que guarde a possibilidade de síntese da cena, como sugere Roussillon (2006), ao afirmar que a 91 “passagem ao ato seria então nela mesma algo que contém um movimento, no interior do qual já teria se operado uma função de síntese elementar, mas que não possuiria representação metafórica ou simbólica desse vínculo, dessa ligação” (p. 202). Outro aspecto relevante diz respeito ao endereçamento do ato, a que ou a quem se destina. Estes atos sintomáticos dos quais vimos tratando, podem destinar-se ao desmonte ou à composição de uma cena. Neste sentido, pensamos que o sintoma também ocupa determinada posição em relação à cena; mais uma vez haveria, quanto a isto, uma distinção qualitativa a apontar. Enquanto nas atuações existiria o trânsito entre o dentro e o fora da cena, entre o desmonte e a montagem, o sintoma neurótico seria capaz de prover a composição simbólica do microcosmo da cena do conflito, moldado sob forças muito potentes, de modo a ser a forma irreconhecível da cena do todo do conflito. Tal composição enigmática requer um vasto trabalho do aparelho psíquico. O sintoma esconde a cena do conflito. Quando o sintoma opera, ele permite que o conflito opere em outro registro, o registro do simbólico. Nesse registro até pode aparecer o desejo, mas o motor do sintoma é o gozo, traduzido na (im)possibilidade de acesso ao resto do conflito. De forma análoga, na psicose, o trabalho psíquico requerido para a composição do sintoma delirante seria tão elaborado quanto aquele que apontamos em relação à neurose. O delírio, capaz de transformar a realidade compartilhada, moldando-a à negação da castração pode ser reconhecido como rico trabalho imunológico oferecido pelo psiquismo, evitando a total fragmentação do sujeito. Sabemos, sobretudo quando nos submetemos à análise pessoal, o peso que têm determinações impostas pelos fatos comuns de nossa história, pequenos traumas aos quais atribuímos sentidos os mais diversos. Construção de cicatrizes simbólicas para 92 sequelas lançadas ao des-conhecido do recalque. Imaginemos, então, a extensão e a complexidade das cicatrizes que o psiquismo de Joaquim teria de oferecer para tornar simbolicamente sensível sua experiência diante da violência desde tenra idade. O reconhecimento disto nos permite inferir que a obviedade daquilo que o afetou desde muito cedo desafia as possibilidades de formação de compromisso com a realidade que a construção do sintoma oferece ao neurótico que opera o recalque. Como simbolizar e representar no psiquismo algo que impõe ao corpo o horror e a dor de forma tão imediata? A perda do contato com a realidade seria, sim, uma saída possível. O isolamento em relação com o mundo ou mesmo a criação de um mundo fantástico afastariam, de maneira refratária ou alucinatória, o peso de tais imposições. No entanto, em nosso contato com Joaquim, não pudemos reconhecer tais soluções. Sua humanidade e suas ligações ao mundo estavam a todo tempo presentes, seu pacto com uma realidade compartilhada se renovava a cada dia. O que não nos foi possível reconhecer diz respeito à sutura das feridas impostas pelo real. Estavam todas abertas e eram renováveis, reeditáveis, prontas a expor ao outro a contundência dos instrumentos que as perpetraram. O enigma do caso apresentado - que se evidencia quando relembramos as situações ilustradas pelas três vinhetas clínicas retomadas: o caso do atropelamento, a cena com a moça e a cena com o cortador de cabelos – é que, ao contrário do que Lacan (1962-63) sugeriu em relação ao casos de Freud (de Dora e da jovem homossexual), no caso de Joaquim, a passagem ao ato antecede o acting out. Ele desmonta sua cena original para, então, convocar o Outro a compor a cena que o protege da fragmentação subjetiva total, ainda que, para tanto, seja necessário oferecer-se aos pedaços. No atropelamento, a “passagem à rua” interrompe a cena de violência entre os pais e cria uma nova cena que se sustenta por quase seis anos, cena em que sua mãe, 93 dedicada aos cuidados prestados a ele, encontra-se resguardada. Seu pai é retirado de casa pela necessidade de trabalhar imposta pela situação. A “passada de mão” o retira novamente da cena familiar e cria a cena que se segue e que se sustenta por muito tempo, estando Joaquim no centro do drama, acolhido e amparado no laço social, ainda que de forma artificial - determinado por sua inserção institucional no “mundo dos Direitos Humanos”, em que passa a ser, talvez pela primeira vez, sujeito de direitos. Segundo Dunker (2006), “no acting out não é o real que invade a imagem, mas a imagem que invade o real. Ele é, neste sentido, a realização pacificadora da fantasia” (p. 47). Também neste sentido, podemos entender os períodos de “trégua” como acting outs, sustentados por Joaquim como imagens justapostas sobre o real. Estas cenas são introduzidas pela ruptura, pela brecha aberta pela passagem ao ato. A constatação desse enigma introduz outras duas questões a respeito das quais ainda pretendemos tratar nesta pesquisa. A primeira delas diz respeito à introdução do contexto edípico como fator de compreensão da repetição da cena de agressão no caso clínico apresentado. A segunda, diz respeito ao aparente fato de que, no caso de Joaquim, o recurso demonstrativo ao Outro (seu espectador) o retira do domínio do “Outro gozador” (DUTRA, 2000), interrompendo sua sujeição a este que ocupa a cena imaginária sem trégua, a não ser pela criação de outra cena, na qual Joaquim faz parte do mundo do Outro. Segundo sugerem Jeammet e Corocos (2005): O ato está ali para impedir e conjurar o surgimento de fantasmas, perigosos demais para serem representados claramente e investidos demais para dar lugar a deslocamentos puramente representacionais. O conflito deve, portanto, ser em parte figurado sobre a cena do mundo externo para poder ser controlado. (p. 98) 94 Por outro lado, existiria, segundo Dunker (2006), outro efeito da passagem ao ato, de certa maneira oposto à ideia de conjurar um fantasma, mas que dela se aproxima no que diz respeito à sua função: “Aqui poderíamos localizar os efeitos da passagem ao ato. Ela exprime a realização positiva do objeto em um ato paradoxal, tal qual o suicídio. Não se trata de purificar o excesso, mas de uma identificação com o elemento perturbador” (p. 48). Em relação ao caso apresentado, a ideia de identificação com o elemento perturbador, com o algoz, nos parece muito pertinente, como veremos adiante. A contribuição desses autores endossa nossa ideia de que o recurso ao acting out, atrelado à passagem ao ato teria a função de criação de uma cena em que o Outro é convocado a implicar-se na tentativa de controle dos elementos de sujeição e afetação. Sua tentativa de passagem é para a cena do Outro, “onde o homem como sujeito tem de se constituir, tem de assumir um lugar como portador da fala, mas só pode portá-la numa estrutura que, por mais verídica que se afirme, é uma estrutura de ficção” (LACAN, 1962-63, p. 130). No entanto, na concepção de Lacan parece haver relação de causalidade entre acting out e passagem ao ato. Nos casos clínicos por ele utilizados como exemplos, o acting out antecede a passagem ao ato. A cena, anteriormente criada e sustentada é encerrada pela passagem ao ato. No caso analisado nesta pesquisa, não nos foi possível reconhecer tal causalidade. Se os atos de Joaquim, por um lado, encerram a cena entre seus pais, por outro, introduzem uma nova cena, sustentada por longo período. Estas cenas são providas de história, introduzida a partir do ato. 95 6 ALGUMAS CONSIDERAÇÕES METAPSICOLÓGICAS: A PASSAGEM AO ATO E A QUEBRA DA CENA - SALVAÇÃO E SEPARAÇÃO Finalmente (o caso clínico), não é o relato de um tratamento bem-sucedido, como ocorre com frequência na psicologia clínica. Um tratamento bem-sucedido não contém o surpreendente enigmático que conduz à formulação de um problema e à pesquisa psicopatológica, a não ser que se tome o sucesso como surpreendente enigmático. Aliás, Freud esteve ciente dos impedimentos do sucesso de uma análise, mostrando-se sempre pronto a investigá-los. É inegável que sua produção deveu-se ao fracasso de seus atendimentos. (MAGTAZ e BERLINCK, 2012, p. 80) 6.1. A passagem ao ato e a quebra da cena Como dito anteriormente, Joaquim não nos pereceu capaz de narrar sua trajetória. Não pudemos reconhecer um liame de historicidade, mas histórias introduzidas por passagens ao ato. Nossa hipótese não configura uma tentativa de encadeamento lógico e causal entre seus atos e as cenas que sustentava, mas tem por escopo a compreensão de sua organização psíquica. Joaquim nos pareceu incapaz de escapar à cena sem o recurso ao real, incapaz de construir uma rememoração a respeito da própria trajetória, capaz de dar significado ao atual. A potência que o lança ao ato, consideramos ser da mesma natureza da potência que cria o sintoma. No entanto, sua organização psíquica nos parece requerer a encenação do ato. Assim, não pensamos, neste caso, ser possível aplicar o “modelo” de Lacan. O que nos foi possível observar, no entanto, é que seus atos foram prelúdios para cenas 96 providas de história. A partir da passagem ao ato passa a fazer parte do mundo do Outro e aí sim é possível a Joaquim abrir uma brecha ao olhar do outro e, neste caso, do clínico. Os atos de Joaquim parecem quebras, marcos históricos de saída e entrada na cena do mundo. Ao atravessar a rua sem olhar, interrompe a cena de agressão do pai à mãe, justamente em uma época em que relata ter fantasiado a morte da mãe pelas mãos do pai. Impossibilitado de intervir diretamente, causa uma quebra na cena, torna-se uma vítima do acaso, requerendo cuidados e dedicação exclusiva. Muito embora possamos presumir que haveria algum tipo de aprisionamento de sua mãe em uma relação violenta, baseada em medo e dependência, é também possível inferirmos que naquele modo de convivência poderia haver também gozo. Joaquim mesmo afirmava, com alguma frequência, “é o jeito deles, parece que gostam de viver assim.” Assim sendo, não podemos deixar de lado a ideia de que seus atos encerravam, não simplesmente a cena de violência, mas representavam igualmente uma intromissão na cena vivida pelo casal parental, no sentido de separá-los. A cena interrompida é uma tórrida e intensa cena entre o casal, ainda que o sentido mais aparente de tal interrupção seja o de proteção à mãe. Cumpre-nos pensar tal interrupção de cena no contexto edípico, para além do sentido socialmente compartilhado de proteção, aparente em primeiro plano. Retomemos a cena em que Édipo Rei passa ao ato, furando os próprios olhos após o suicídio de Jocasta. A passagem ao ato de Édipo deve ser compreendida levandose em consideração não apenas a morte (também uma passagem ao ato) de Jocasta, mas a constatação que fizeram anteriormente sobre o assassínio de Laio pelas mãos de Édipo e sobre a relação incestuosa que viviam. 97 A Édipo foi revelada, pelo pastor que primeiro o acolheu, sua origem – filho de Laio e de Jocasta. Ao tomar consciência de ter assassinado o próprio pai e desposado a própria mãe, Édipo se desespera: Édipo: Transtornado Ai de mim, ai de mim! As dúvidas desfazem-se! Ah! Luz do sol. Queiram os deuses que esta seja a derradeira vez que te contemplo. Hoje tornou-se claro a todos que eu não poderia nascer de quem nasci, nem viver com quem vivo e, mais ainda, assassinei quem não devia! (SÓFOCLES, 2008, p. 82) Jocasta, também ciente da revelação, recolhe-se ao quarto e comete suicídio, enforcando-se. Ao encontrá-la, já sem vida, Édipo tira a própria visão, ferindo os olhos. O relato do Criado do rei a seu amigo, Corifeu, oferece uma visão da cena: Criado: Ao contemplar o quadro, entre urros horrorosos o desditoso rei desfez depressa o laço que a suspendia; a infeliz caiu por terra. Vimos, então, coisas terríveis. De repente o rei tirou da roupa dela uns broches de ouro que as adornavam, segurou-os firmemente e sem vacilação furou os próprios olhos, gritando que eles não seriam testemunhas nem de seus infortúnios nem de seus pecados: “nas sombras em que viverei de agora em diante”, dizia ele, “já não reconhecereis aqueles que já não quero reconhecer!” Vociferando alucinado ainda erguia as próprias pálpebras e desferia novos golpes. (...) (SÓFOCLES, 2008, p. 86) O ato desesperado de Édipo pode ser pensado como um recurso ao Real, daquele que já não pode ver diante de si a própria história. Ciente da catástrofe, restou a Édipo cegar a si mesmo. Não teria sido possível encontrar outro meio de lidar com o afeto, que ultrapassou suas possibilidades de elaboração e defesa. Segundo Roussillon (2006), “o ato de Édipo é uma descarga. (...) O ato é então o preço a pagar para salvaguardar a interioridade e a organização psíquica, ele se oferece como anteparo, como limite” (p. 206). 98 A saída de cena, neste caso, supõe um apagamento de si em relação a si mesmo. Todos, de escravos a deuses, teriam se tornado conhecedores dos infortúnios do rei. No entanto, o impossível para Édipo foi olhar para o fim da cena. Furando os próprios olhos, encerra-se em si mesmo e encerra a cena insuportável. Seu pedido foi, por fim, o próprio exílio. No caso de Joaquim, o pedido era, por um lado, o inverso: o do reconhecimento da existência da cena insuportável. A violência apaixonada entre seus pais, eterna cena primária da violência, pode ter sido a ele tão intransponível que a solução foi encerrá-la, assim como o fez Édipo. No entanto, o apagamento desta cena só se dá ao tornar público seu sofrimento, atropelado, destroçado em paço público. 6.2 Salvação e separação Nas fantasias de Joaquim ao relatar a cena, percebe-se clara associação entre seu acidente (e o tempo de recuperação) e a ideia de salvação de sua mãe. Para ele, desde seu atropelamento, as brigas teriam ficado menos frequentes e, os pais, mais distantes. Sua mãe deixou de trabalhar e passou a se dedicar a ele integralmente, segundo sua percepção. O pai, antes confinado por ser fugitivo, foi retirado de casa pela necessidade imposta e passou a trabalhar. Joaquim relatou conhecimento a respeito do risco de que seu pai fosse encontrado e preso, uma vez fora de casa. O relato do risco continha algo de esperança. O desmonte da cena nos pareceu conter também o sentido de uma separação. 99 Quando Joaquim se vê às voltas com a violência policial, a história se repete. Sua mãe deixa de trabalhar para cuidar dele. Havia, ainda, uma ideia de reparação: em sua fala era frequente dizer: “não é justo eu passar pelo que passei e não receber nada em troca. É sempre assim, as pessoas apanham, sofrem e ninguém faz nada. Por isso estou processando. As pessoas têm que pagar pelo que fazem com os outros”. Sua mãe desesperava-se com a insistência em levar o caso até as últimas consequências na justiça. Segundo relatava o próprio paciente, para sua mãe, a denúncia significava, na verdade, o prenúncio de sua morte. Maria nutria a ideia (bastante possível) de que, se denunciados, os policiais iriam, de fato, matá-lo. Joaquim, no entanto, não se abalava com os apelos da mãe e levava tudo adiante, os processos administrativos na Corregedoria de Polícia competente e o processo contra o Estado. Fato interessante era que Joaquim aparentava, de algum modo, ameaçar a própria mãe com a promessa de levar o processo a cabo. Efetivar a denúncia, no entanto, era algo que ele parecia protelar. Esquecia-se dos documentos, deixava de mencionar determinados fatos nas declarações, até mesmo deixou de comparecer a uma audiência. Em razão disso, pensamos que a promessa de concretizar a denúncia contra seus agressores funcionava como um mecanismo que deixava sua mãe presa a ele. Era quase como se dissesse: se você deixar (me deixar?), se não ficar ao meu lado e me impedir, cumprirei minha promessa de escrever o prenúncio de minha própria morte. Pensamos que essa cena por ele sustentada guarde analogia com o período em que ficou sob os cuidados da mãe durante a longa recuperação após o atropelamento, que se estendeu dos seis aos treze anos de idade. Neste sentido, de modo diverso do que sugeriu Lacan, pensamos haver a possibilidade de uma encenação (acting out) que seja introduzida pelo (passagem ao) 100 ato. Assim, o ato interromperia a cena existente entre os pais e introduziria a cena em que a mãe estaria sob sua proteção, ainda que, ao contrário, esta estivesse a protegendoo. A matriz desta fantasia pode realmente ser impossível de se encontrar (fato próprio do inconsciente), mas podemos mencionar, a partir da observação clínica, a menção mais antiga feita por Joaquim a respeito desse “sistema protetivo”. Segundo ele, desde que era muito novo, as agressões do pai contra ele e a mãe eram muito intensas. Certa vez, seu pai o teria atingido com um sapato na cabeça que causou um profundo corte. A escola acionou o conselho tutelar do bairro e a família ficou sob investigação. Depois disso, além da diminuição imediata das agressões a Maria, Joaquim nunca mais sofreu qualquer agressão do pai. Para o pai, agredir Joaquim passou a poder resultar em investigação pela justiça, o que poderia revelar sua fuga e ensejar uma condenação pelo crime de assassinato cometido no Nordeste. Deste modo, sendo reconhecido socialmente como vítima de violência, Joaquim deixou de sê-lo e passou a ser protegido contra a violência do pai. Sua mãe, no entanto, logo passou a apanhar novamente. Neste sentido, a fantasia de salvação-separação da mãe em relação ao pai requereu o apelo ao Outro e seu oferecimento em sacrifício. Aventamos, aqui, a possibilidade de que Joaquim tenha criado a fantasia de que poderia oferecer seu corpo em sacrifico, como anteparo da violência do pai. O sacrifício do corpo teria também o sentido de separação do casal, ainda que o sentido mais próximo fosse o de proteção. Repete a cena em outros momentos da vida oferecendo-se a outros algozes. Sempre que vitimado, impor-se-ia a separação e a interrupção da relação parental, como que em uma satisfação violenta da violência. 101 Seus atos seriam, assim, capazes de veicular ao Outro seu pedido de reconhecimento a respeito do padecimento e do desamparo. Qual seria, então, a fantasia que sustentou Joaquim neste recurso aditivo ao ato? Embora existam claras evidências de que a relação entre os pais de Joaquim fosse realmente violenta, levando em conta o contexto em que ocorreram seus atos, não podemos deixar de traçar uma aproximação com a conhecida fantasia de agressão na cena primária1. Cremos que, embora a passagem ao ato de Joaquim possa ter, de fato, poupado sua mãe das agressões paternas por algum tempo, não podemos deixar de ampliar nossa visada sobre a cena, de modo a explorarmos também o contexto edípico em que se deram. 1 Segundo Laplanche e Pontalis (2000), a cena primária seria: “Cena de relação sexual entre os pais, observada pela criança ou suposta segundo determinados índices e fantasiada pela criança, que é geralmente interpretada pela criança como um ato de violência por parte do pai” (p. 62) 102 CONSIDERAÇÕES FINAIS A aproximação com a fantasia de agressão à mãe na cena primária se justifica pela constatação clínica de que Joaquim, embora pudesse reconhecer o “parece que gostam de viver assim”, não podia reconhecer a violência como um elemento de ligação (ainda que perversa) entre seus pais. Tal como na fantasia sobre a cena primária, aparecem, apenas, agressor e vítima, sem que seja possível reconhecer possíveis inversões do destino da pulsão (Freud, 1919), do sadismo ao masoquismo, por exemplo. Salvar a mãe do pai pode significar mais do que apenas salvar a mãe da morte. Pode conter o sentido de salvar a si mesmo da morte da mãe, ainda que, para tanto, tenha que estar à beira de uma morte real. Pensamos que Joaquim pode ter sustentado a fantasia de que, ao incorporar os dois polos da violência, sendo ao mesmo tempo autor e vítima, poderia neutralizar a cena entre os pais, intervir sem sequer tangenciar o incesto ou a castração. O resultado final, no entanto, é a quebra da cena. O uso da destrutividade contra o próprio corpo, ainda assim, teria o sentido de atingir o casal parental, a alçada do pai sobre a mãe, além de expor o pai à possibilidade de ser descoberto como matador. Embora o corpo seja oferecido em sacrifício, o ato violento tem destinatário certo. O paradoxo aí presente é entendido por Roussillon (2006) como: O paradoxo da destrutividade, que consideramos até aqui unicamente na relação primária com o objeto, seria, portanto, ao mesmo tempo, originário e terminal. Por um lado, inauguraria a 103 entrada na problemática edipiana, por outro, marcaria sua dissolução. “O verdadeiro pai é o pai morto”. (p. 155) Tal constatação ganha vulto se considerarmos que, de acordo com nossa hipótese, a solução por ele adotada repete-se ao longo do tempo. O recurso ao ato, praticado por um menino de seis anos diante do que considerou ser a iminência da morte da mãe, em muito poderia diferir do ato de Joaquim adulto. No entanto, a possibilidade de recurso nos parece ser a mesma. A quebra da cena parental por meio da concentração dos polos agressor/vítima. Esta fusão nos parece muito bem representada no episódio em que Joaquim corta a pele da própria cabeça com o cortador de cabelos. Vejamos como. O principal fator capaz de favorecer a constituição de tais hipóteses ocorre no contexto clínico pela via transferencial. No contexto dos atendimentos clínicos, Joaquim frequentemente convidou seu terapeuta à passagem ao ato. Como dito anteriormente, as provocações do paciente ao clínico eram cáusticas e frequentes. Na sessão seguinte a uma ausência de Joaquim à instituição, disse ele em tom sarcástico: “Se eu não pago nada pra vir aqui, se eu ganho o dinheiro da condução adiantado e você tem que pagar condução pra vir, então quando eu não venho, não tem sessão, eles não te pagam nada! Você vem aqui à toa e ainda leva prejuízo! Eu só fico com a grana da condução.” Em relação ao caso do cortador de cabelos, a respeito do qual temos a hipótese de ter ocorrido no contexto transferencial, relacionado ao “corte nos atendimentos” nos parece ter havido uma maior concentração de funções. Se em outras situações, como no atropelamento e na violência policial a agressão foi, de algum modo, perpetrada pelo Outro (convidado a fazê-lo), desta feita Joaquim de fato figurou, ele mesmo, em ambos os polos, de agressor e vítima. 104 Diante da impossibilidade de coagir o clínico a passar ao ato exercendo a violência, Joaquim atua só, encerrado em seu quarto. Com a recusa do outro em participar da cena, encena-a sozinho. É odiando-o que seu terapeuta pode enxergá-lo como aquele que atrai para si a ira, em um remoto momento, talvez a ira de seu pai, desviando-a de sua mãe. Depois, reeditando sua oferta, atrai a ira de outros e dentre estes, daquele que se propunha a escutá-lo. Permeada pelo ódio contratransferencial, a relação pode constituir um relato acerca daquilo que afeta o sujeito. Uma ainda remota chance de interromper o ciclo de repetição do excesso do excesso de pathos – algo irrepresentável pelo sujeito pela via do sintoma e que busca vã representação na repetição. Embora não tenhamos tido a oportunidade de continuar acompanhando o paciente, entendemos a situação em que Joaquim se inflige um ferimento com o cortador de cabelos como uma situação nova, de crise do modelo repetitivo do que vinha se valendo. A “crise”, embora nos pareça ser da ordem de um surto, representa também uma possibilidade de reorganização para o sujeito. Não sabemos qual destino teve tal reorganização; pudemos constatar apenas uma mudança na direção do ato. Ainda que configure um recurso pobre para conter o afeto, o ato autodirecionado de Joaquim o distancia da posição de objeto de gozo do Outro. Não podemos presumir como se deu sua história a partir daí, mas podemos apontar a existência da possibilidade de uma nova organização em torno do afeto e da fantasia dele decorrente. Conforme sugere Dunker (2006), “podemos distinguir, nesta medida, a passagem ao ato como atualização do trauma, do acting out como atualização da fantasia” (p. 43). 105 Por esta via de compreensão, poderíamos sugerir que Joaquim, de fato, quebra a cena entre os pais (imaginada por ele como uma cena apenas de violência) por meio da passagem ao ato, atualizando o trauma com recurso ao corpo, marcando na própria carne e na história sobre o ato o índice da contundência do trauma. Por outro lado, ainda no sentido do que sugere Dunker (2006), esta quebra propiciada pelo ato favorece o surgimento da cena em que pode atualizar a fantasia de salvação da mãe, apartando-a do pai violento, neutralizando-o. Talvez Joaquim tenha sido vítima não apenas da violência praticada pelo outro, mas também de sua própria violência. A violência que o constitui, a partir de sua resposta ao mundo violento em que se constituiu como sujeito. O trauma ao qual esteve sujeito e que comprometeu suas capacidades imunológicas (psíquicas) tem suas origens no mundo e em si mesmo. Segundo Endo (2005): Desse modo, a violência psíquica prosseguiria, como uma espécie de continuum em busca de representação e figurabilidade, tal como, na experiência traumática, quando acompanhada de um traumatismo físico, o dano psíquico poderia ser minorado, ou mesmo evitado, quando acompanhado de um traumatismo físico evidente ao ego. É como se em ambos os casos de violência extrema e traumatizante, cometida pelo superego e aquela que golpeia de fora pudessem ser colocadas num lugar acessível ao ego, onde ele poderia ter restituída alguma potência e orientar alguma ação, seja no corpo ferido e cuidável, seja na ação delinquente concretamente praticada: formas de ligação de que o ego lança mão como defesas contra o sofrimento psíquico. (p. 197) Seu mundo o moldou violento e com violência, responde. Trata-se, neste caso de uma “vítima poderosa” e o fato de sua violência expressar-se pelo masoquismo a que se submete, não muda a natureza daquilo que exprime. Desta forma, não importando se a origem de tal violência é o mundo ou seu próprio psiquismo, está sujeito ao trauma e daí ao impossível da simbolização em 106 relação a suas vivências. O trauma que o atinge é tão intenso que resta a ele repetir e mostrar ao mundo a que foi submetido. A ele foi impossível a via do sintoma a representar pathos. O ato e a história a respeito do ato são seus meios de representação daquilo que o atingiu. Pensamos que, em relação às possibilidades oferecidas pelo recurso ao simbólico no sintoma, suas soluções seriam precárias, expondo-o constantemente ao risco de, novamente, vitimarse. 107 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BERLINCK, Manoel Tosta. O que é Psicopatologia Fundamental? Revista Latinoamericana de Psicopatologia Fundamental, São Paulo, v. I, n. 1, p. 4659, mar. 1998. BERLINCK, Manoel Tosta. 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